domingo, 28 de junho de 2015

Patativa, Cordel & Poesia Popular - O Legado do Ceará.

Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

Eu digo com toda fé: De prata se faz arreio, faz faca, garfo e cuié”. Inácio da Catingueira


           Talvez tenham sido os desafios característicos de uma época da história social e política que transformaram a cultura da América Latina em um vasto arsenal de fatos surpreendentes, insólitos, brutais, incríveis, encantados; isto é, uma profusão de fantasias, maravilhas e barroquismos. Os impasses e as façanhas de uma época permitem reler o passado e o presente. É como se um novo horizonte iluminasse de repente todo o mural da história social, revelando fatos e feitos que adquire outro movimento, som, cor. O romancista pode ser um cronista “fora do tempo”, narrando o imaginado e o acontecido segundo a luz que o ilumina. E o repentista é o poeta popular, par excellence, do Nordeste. Esta é a tese que defendemos nestas notas. Assim, ele pode representar “um estilo de olhar”, na medida em que está inserido no realismo mágico e parece uma superação do realismo social, crítico. Tem sido visto como um estilo diferente, novo.
            Mas ele aparece na literatura latino-americana em dada época, mais do que em outras. É no século XX, com as primeiras recepções de Jorge Luís Borges estreando em livro em 1923, com os poemas reunidos em Fervor de Buenos Aires, em 1925 mostrando sua perspectiva como ensaísta maduro, e logo depois, sendo renegado em seu livro, Borges, demonstrando sua contraface de ensaísta, como no depois renegado Inquisiciones, entre outros, como Gómez de la Serna, Valéry Larbaud, P. H. Ureña, premiado em 1929, na maioria dos casos Borges antes provocou “a irritação de críticos e resenhadores”. Mas logo a reflexão por ele iniciada assumirá outra direção. Em 1933, Anderson Imbert acusava Borges de não ser “ni remotamente, un crítico ou un pensador nacional” e que pelos dois motivos, figuras como ele “están ausentes del país”. No mesmo ano, R. Doll ia além e informava que “sua prosa era anti-argentina!”.
            A arte do “trovadorismo”, proveniente da Península Ibérica, chegou ao chamado  “Novo Mundo”, e floresceu tanto na Américas Espanhola, quanto na Portuguesa. Houve um tipo de literatura popular em verso no México, Chile, Nicarágua e Argentina muito parecida com o folheto nordestino. Até a gravura popular usada para ilustrar os “corridos mexicanos”, e as “folhas soltas” da lira popular chilena, apresentam características parecidas com a brasileira, em particular nordestina, sem falar que muitos dos temas aproveitados pelos autores da literatura de cordel nordestina também foram explorados naqueles países. O que torna o romanceiro bastante singular, porém, é o formato padrão adotado desde os primórdios por Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Francisco das Chagas Batista e outros importantes poetas-editores. Não domino o tema, mas admiro-o, apenas isso, não pretendo mais que um olhar, como para uma mulher que meu desejo, se me permitem dizer que é escolhida como ponto de vista .                              
Leandro Gomes de Barros (1865-1918) foi um poeta de literatura de cordel do nordeste brasileiro. É considerado por alguns analistas como o primeiro escritor brasileiro de literatura de cordel, tendo escrito mais de 230 obras. No seu tempo, era cognominado “O Primeiro sem Segundo”, e ainda é considerado o maior poeta popular do Brasil em todos os tempos, autor de vários clássicos e campeão absoluto de vendas, com muitos folhetos que ultrapassam a casa dos milhões de exemplares vendidos. Compôs obras-primas que eram utilizadas em obras de outros grandes autores: Ariano Suassuna, por exemplo, utilizou a história do cavalo que estercava dinheiro no seu Auto da Compadecida. Depois de fundar uma pequena gráfica, em 1906, seus folhetos se espalham pelo Nordeste, sendo considerado por Câmara Cascudo “o mais lido dos escritores populares”.
            Neste sentido, para lembrarmo-nos da magnanimidade, segundo o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, homenageado com estátua na cidade do Rio de Janeiro, foi, “no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Do ponto de vista da oralidade, segundo Permínio Ásfora, teria sido preso em 1918, porque o chefe de polícia considerou afronta às autoridades alguns dos versos da obra: O Punhal e a Palmatória, trama que tratava de “um senhor de engenho assassinado por um homem em quem teria dado uma surra”. Sebastião Nunes Batista, no entanto, em Antologia da Literatura de Cordel (@), da Fundação José Augusto, na cidade de Natal, 1977, dá como: causa-mortis: “Influenza”, conhecida gripe espanhola, que não trataremos agora.
João Martins de Athayde (1880-1959) poeta e Editor foi um dos autores que mais contribuiu para a divulgação da literatura de cordel produzida no Brasil no século XX. Participou da primeira geração de proprietários de Editoras especializadas em cordel no Brasil, juntamente com Francisco das Chagas Batista e Leandro Gomes de Barros. Nasceu na Paraíba, mas foi muito jovem para Recife, onde se iniciou no comércio de cordéis. Gostava muito de cinema e passou a usar fotografias de artistas de Hollywood “como ilustração das capas dos folhetos”. Também encomendava a jovens gravadores cartazes de filmes ilustrações para seus livros de versos. Possuía tipografia própria. Com a morte de Leandro Gomes de Barros, comprou à esposa do poeta os direitos autorais do antecessor, numa das primeiras transações do gênero no Brasil. Isto é importante do ponto de vista da origem.
De posse legal sobre as obras, passou a usar o nome João Martins de Athayde como autor de centenas de folhetos que haviam sido escritos por Leandro Gomes de Barros. Esta confusão somente foi desfeita na década de oitenta quando a Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ) publicou os originais escritos por Leandro e, assim, a autoria de muitos folhetos foi restituída. No entanto, este fato não diminui a importância da obra de João Martins de Athayde, nem tampouco sua contribuição para a poesia popular no Brasil. Suas obras até hoje são reimpressas, quando seu estilo irônico e jornalístico se revela nos versos que faziam a crítica aos costumes modernos.
Francisco das Chagas Batista (1882-1930). Em 1900, vendia água e lenha e estudava, em Campina Grande; seu primeiro folheto, Saudades do sertão, é de 1902; em 1905 vendeu folhetos no Recife, e em Olinda passou pouco tempo no seminário; depois, trabalhou na ferrovia de Alagoa Grande. Em 1907, pioneiramente, versejou o romance Quo vadis, de Henryk Sienkiewicz. Em 1909, residiu em Guarabira, onde trabalhou com o irmão, o editor Pedro Batista e casou com a prima Hugolina Nunes - tiveram 11 filhos, dentre eles os poetas populares: Paulo, Pedro, Maria das Neves e o folclorista Sebastião Nunes Batista, que produziu obras referenciais do cordel. Em 1911, vivia na capital da Paraíba e negociava com livros; em 1913 fundou a Livraria Popular Editora, editando paródias, modinhas, novelas, contos, poesia, e se firmou como um dos intelectuais da época. Em 1929 publica o livro: Cantadores e poetas populares, imprescindível para a pesquisa em literatura popular em verso “por conter as mais antigas e confiáveis informações sobre esta forma poética”.
Ele decerto, fora dos primeiros Editores de cordel e imprimiu produções de muitos poetas populares da época, exceto de João Martins de Ataíde. Conquanto se o tenha como dos maiores autores do cordel, o estágio atual da pesquisa antropológica e historiográfica, objeto de nossa pesquisa, não permite precisar quantos folhetos produziu-se. Ruth Terra identificou-os em Coleções 45, inquestionavelmente escritos por ele, dentre os quais 19 sobre a nascente gesta do cangaço e clássicos que criou ao dar forma poética à História da Imperatriz Porcina, de Balthazar Dias, Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães e História de Esmeraldina, baseada no Decameron, de Boccaccio.
O livro trata de Isaura, escrava que nasceu quase branca e é tratada como filha por sua sinhá, alvo da luxúria e paixão de Henrique (fugazmente), Leôncio (maléfica, controladora e luxuriante), Belchior (ridícula, servil e confusa) e Álvaro (pura e amorosamente). Outros sentimentos dirigidos a Isaura incluem a inveja de Rosa (outra escrava, preterida por Leôncio como amante) e o carinho de seu pai Miguel. No começo trata-se do passado de sua mãe, maltratada por seu dono, o pai de Leôncio, que a tem com um ex-feitor de bom coração. Quando estava para ser forra morre este dono e Leôncio a herda, sem intenções de alforriá-la. A esposa deste o deixa e ele manda Isaura para um cativeiro. De lá ela e o pai fogem para Recife onde conhece Álvaro e se apaixona por ele. Vai a um baile da alta sociedade e é muito admirada por seus dotes físicos e culturais, mas é denunciada como escrava pelo ganancioso Martinho. De volta no Rio de Janeiro “é presa por dois meses no tronco e seu pai vai para a cadeia”. Prestes a ser liberta para se casar obrigada com o deformado Belchior pela liberdade, achando que Álvaro está casado, é impedida por este que liquida os bens de do falido Leôncio, que se mata para fugir da humilhação. A história foi adaptada vezes para outras mídias, a mais célebre sendo a novela com Lucélia Santos no papel-título. Não é de hoje que escritores se encarregam da edição de livros.

 O filósofo Hegel editou seu próprio livro. Temperar a solidão criativa da página em branco com o burburinho dos trabalhos de produção gráfica, divulgação, distribuição, seleção de originais, tradução, talvez esteja aí um dos motivos para esse acúmulo de funções. No âmbito nacional, é inevitável lembrar-se de Monteiro Lobato, pioneiro no estabelecimento da indústria editorial brasileira. Mais especificamente no campo da poesia, podem-se mencionar nomes como os de João Cabral de Melo Neto - fazendo às vezes de artista gráfico, tipógrafo, editando livros de amigos durante o tempo em que serviu como diplomata na Espanha -, ou, mais perto de nós, no de José Paulo Paes, funcionário e esteio intelectual da editora Cultrix por mais de três décadas. Fora do Brasil os nomes se multiplicam: Phillipe Soupault, Octavio Paz, Juan Ramon Jimene, entre outros. É claro que a expressão poeta-editor pode designar atuações muito diversas no âmbito da cultura. Sob tal chancela podemos encontrar desde um trabalho bissexto e mais restrito às artes plásticas (João Cabral) até a atividade empresarial propriamente dita, exercida regularmente (Monteiro Lobato), passando pela prestação de serviços (José Paulo Paes) em graus variáveis de implicação no projeto editorial em curso. Por isso, vale a pena perguntar que tipo de interação social ocorre, em cada caso concreto, entre os papéis de poeta e de Editor.
Investigar de que maneira as convicções do poeta afetam as escolhas e procedimentos do editor e vice-versa: sondar o impacto das exigências editoriais sobre a concepção de poesia sustentada pelo escritor e assim por diante. O estilo poético nordestino é maravilhoso, rico em folclore, lendas e valores regionais. Encontra-se principalmente associado à música, com destaque para os violeiros. A partir da viola se desenvolvem os desafios, emboladas, repentes, cantorias, um sem-fim de ritmos e estilos próprios dos cantadores da região. A cantoria, por exemplo, conceptualmente, “consiste em um improviso, em tom de desafio, entre repentistas”. Seu primeiro representante é Romano do Teixeira, da Serra do Teixeira, no estado da Paraíba, ainda no século XIX. As poesias regionais do Nordeste geralmente são encontradas no formato de libretos de cordel. A poesia de cordel recebe este nome por causa de uma velha tradição em Portugal. No século XVII, eram comuns que “os folhetos fossem colocados à venda pendurados em um barbante, presos por pregadores de roupa”. Barbante, corda, cordel - os cantadores e repentistas nordestinos adotaram este costume, pendurando seus versos e popularizando o que é hoje um dos principais símbolos da cultura popular brasileira. Na Peleja entre Inácio da Catingueira e Romano do Teixeira, começa com Inácio, seguido por Romano e segue alternando ad infinitum:    
(Inácio)/Senhores que aqui estão/Me tirem de um engano: Me apontem com o dedo/Quem é Francisco Romano,/Pois eu ando no seu piso/Já não sei há quantos anos./ (Romano)Negro me diga o seu nome/Que eu quero ser sabedor,/Se é solteiro ou casado,/Aonde é morador,/Se acaso for cativo,/Diga quem é seu senhor./Eu sou muito conhecido,/Aqui nesta ribeira,/Este é o seu criado/Inácio da Catingueira./Dentro da Vila de Patos,/Compro, vendo e faço feira./Vieste a Patos/Procurando quem te forre/Volta pra trás, meu negrinho/Que aqui ninguém te socorre;/E quem cai nas minhas unhas/Apanha, deserta ou morre.”
Daí vem à questão da “interação social” (cf. Coulon, 1995), pouco entendida pela sociologia vulgar, praticada nestes rincões.
Eu vim a Patos/Pela fama do senhor,/Que me disseram que era/Mestre e rei de cantador;/E que dentro de um salão/Tem discurso de um doutor./Que andas fazendo/Aqui nesta freguesia,/Cadê o teu passaporte,/A tua carta de guia/Aonde tá teu sinhô/Cadê a tua famia./Eu sou cativo,/Trabalho para meu sinhô.../Quando vou para uma festa/Foi ele quem me mandou,/E quando saio escondido/Ele sabe pronde eu vou./Deixa-te disto,/Não te possa acredita/Pois eu também tenho nego/E só mando trabaiá.../Como é que teu sinhô/Vai te mandá vadiá?/Inaço da Catinguera/Escravo de Mané Luiz/Tanto corta com risca,/Como sustenta o que diz!/Sou vigaro capelão/E sacristão da matriz./Este aqui é seu Romano/Dentaria de elefante,/Barbatana de baleia,/Força de trinta gigante,/É ouro que não mareia,/Pedra fina e diamante./É nego desengonçado: Abre cacimba no seco/Dá em baixo do muiado...”.


A cidade de Patos, na memória dos repentistas, representa um município brasileiro do estado da Paraíba, localizado na microrregião de Patos, na mesorregião do Sertão Paraibano. Distante 307 km de João Pessoa, sua sede localiza-se no centro do estado com vetores viários interligando-o com toda a Paraíba e viabilizando o acesso aos Estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará. De acordo com o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -, no ano de 2009 sua população era estimada em 100.732 habitantes. Patos, é a 3ª cidade-pólo do estado da Paraíba, considerando sua importância socioeconômica e cultural.
Aperta sem sê troquês,/Corta pau sem sê machado./O meu martelo,/Por bom ferreiro é forjado;/Tanto ele é bom de aço,/Como está bem temperado;/A forja onde ele foi eito/É toda de aço blindado./Eu lhe garanto/Que resisto ao seu martelo;/Ao talho do seu facão,/Ao corte do seu cutelo;/Se eu morrer na peleja,/Lhe vencerei no duelo./Negro criado vadio/Tem por fim acabar má;/Uns casam com mulher forra/Outros dão pra roubá./Outros fogem do serviço/Com medo de trabalhá./Eu felizmente não sou/Escravo de senhor cru,/Que trabalha todo o dia/De noite faz quinguingu/Aparpando no escuro/Fossando que nem tatu/Estou ouvindo as tuas loas,/Não te possa acrediar./Que eu também tenho escravo/Mas não mando vadiar,/Que eu saio pra divertir/Os negros vão tabalhar./Sou cativo,/Mas trabalho no comum./Dar descanso a seus escravos/É gosto de cada um/Meu sinhô tem muito negro,/eu Romano só tem um./Pra negro eu tenho chicote/E palmatória e trabuco./Boto-o na mesa do carro/Passo por cima e machuco/Vadeio de lá pra cá:  Traco-traco! Truco-truco/Meu facão/Também trabalha em seu quengo!/Desmastreio-te a carreira/Como um cavalo de rengo/E vou de uma banda pra outra/Traco-traco! Tengo-tengo/Nego, se eu te pegar/Numa volta de caminho/Eu te faço um agrado,/Com meu chicote um carinho/Se a camisa for nova/Só te deixo o colarinho/Sou abelha de ferrão/Sou besouro de caboco,/Se eu pegar seu Romano,/Dou um arrocho, deixo-o rouco/De quebrar-lhe as canelas/Só deixar-lhe dois catoco/Negro você não me venha/Que se vier eu lhe abeco/Sacudo-o em cima da forja,/Com os fole eu te sapeco,/Boto-te em cima da safra,/Com dois malhos, teco-teco/Não se alegre/Que a hora não acabou-se./Eu derrubo de machado,/Acabo, pico de foice”.
            Irineu Joffily, cognominado o “historiador do sertão” tendo em vista os estudos e pesquisas que realizou sobre a zona criatória, presenciou a escravidão. Mas não reconheceu sua importância para a economia da região. Ponderou que para a atividade criatória a raça americana, ou seja, o nativo se prestou melhor do que o africano. Entretanto, tendo em mãos os dados estatísticos populacionais da Paraíba, do século passado, ficou surpreso com a quantidade de escravos existentes em municípios sertanejos, particularmente, em Piancó e São João do Cariri. À semelhança do historiador cearense afirmou que a presença significativa dos cativos constituía uma ostentação do fazendeiro. O cangaço na interpretação de Daniel Lins (1997) revela um aparente fenômeno social ocorrido no nordeste brasileiro de meados do século XIX ao início do século XX. O cangaço tem suas origens em questões sociais e fundiárias do Nordeste brasileiro, caracterizando-se por ações violentas de grupos ou indivíduos isolados: tomavam de assalto fazendas, sequestravam coronéis (grandes fazendeiros) e saqueavam comboios e armazéns. Não tinham moradia fixa: viviam perambulando pelo sertão brasileiro, praticando tais crimes, fugindo e se escondendo. Cangaço é palavra derivada de “canga”, “peça de madeira simples ou dupla que se coloca na parte posterior do pescoço de bois nos carros de boi”. Cangaceiro foi o nome herdado a todos os ditos “criminosos”, uma vez que os prisioneiros eram obrigados a carregar seus pertences pendurados no pescoço.
O senhor nunca me viu/Frangi o couro da venta,/Meu cabelo se arpoá/E a testa ficar cinzenta.../Cantadô, quando eu me agasto,/Esfria com água benta/Quando pego um cantador,/Adoece de repente,/Dá-lhe uma dor de cabeça/E uma conceira ardente/É um vexame tão grande/Que não há diabo que aguente./Meu martelo tem azougue/Cantador dele não sai,/Dá-lhe um frio com tontura,/eca a carne a língua cai,/Fica o corpo sem governo/E a alma vai-e-não-vai./Inaço, tu tem cabeça/Porém juízo não tem!/Um gigante nos meus braços/Aperto não é ninguém!/Aperto um dobrão nos dedo/Faço virar um vintém./Tem coisa que dá vontade/Me meter na vida alheia: Quem mata assim tanta gente/ainda não foi pra cadeia!/Pegá um gigante à mão/E não ficá ca mão cheia!/Rebentar dobrão nos dedo/E não quebrá uma veia: Esse dobrão é de cera,/Esse gigante é de areia.../Inaço, fica sabendo/que sou rei nesta ribera!/Tá me dando uma veneta/Fazê uma brincadera: Eu quero mudá-te o nome/De Inaço da Catinguera.../Desse pau tão duro e forte/Eu faço burra leitera/E se me dé na cabeça/Faço virá bananera.../O branco mais muita gente,/O negrinho mermo só,/O branco vem de cacete,/E eu recebo a cipó.../No pau que fizé entalha/Eu lavro sem deixá nó: O branco corta a machado,/Eu lavro mermo de enxó.../Se mete a cantar repente,/Negro me trata melhor,/Que estamos em meio de gente/Queira Deus você não saia/Da sala de couro quente./Meu branco dou-lhe um conselho,/Espero o sinhô tomar,/Se tire desse sentido,/Se arrede desse pensar,/Juro com todos os dedo/Que um homem só não me dá./Fala como uma folhinha.../Não quero escutá bobage,/Guarda a tua ladainha,/Não és pra me dá conselho: Quando tu ia eu já vinha”.                      
             Diversas comunidades de escravos libertos no Brasil (afro-brasileiros) retornaram à África entre os séculos XVIII e XIX. Entre eles destacam-se os Tabom, retornados ao Gana em 1835-36, e os Agudás ou Amarôs, no Benim, no Togo e na Nigéria. Numerosos, esses brasileiros estabeleceram-se na região da antiga costa dos Escravos - que abrangia todo o golfo de Benim, indo da atual cidade de Lagos, na Nigéria, até Acra, em Gana. Milton Guran em seu livro: Agudás - os brasileiros do Benin, resume: Os negros brasileiros do Benim, Togo e Nigéria, também conhecidos como agudás, nas línguas locais, são descendentes dos antigos escravos do Brasil que retornaram à África durante o século XIX e dos comerciantes baianos lá estabelecidos nos séculos XVIII e XIX. Possuem nomes de família como Souza, Silva, Almeida, entre outros, festejam Nosso Senhor do Bonfim, dançam a burrinha, forma arcaica do bumba-meu-boi, fazem desfiles de Carnaval e se reúnem frequentemente em torno de uma “feijoada” ou de um “kousidou”. Ainda hoje são comuns os agudás mais velhos se cumprimentarem com um sonoro: “Bom dia, como passou?” ou,- “Bem, ‘brigado”, é a resposta”.
O Patativa do Assaré, por exemplo, é emblema da poesia popular nordestina. O apelido se refere a uma ave do sertão, a patativa, e à cidade perto da qual o poeta nasceu. Patativa faleceu em 2002, mas ficaram seus versos, falando sobre o sofrimento do povo. Seu estilo possui um acento social e muitas vezes satírico. Assim como a maioria dos poetas regionais, Patativa do Assaré nunca chegou a frequentar escola e sempre compôs de memória. Desprezava a gramática - para ele, “uma grande besteira”, preferindo o registro das coisas “como são ditas e ouvidas”. Assim falava Patativa, criticando o aparelho de televisão, intitulado: “Presente Disagradável”: Toda vez que eu ligo ele/No chafurdo das novela/Vejo logo os papo é feio/Vejo o maior tumaré/Com a briga das mulhé/Querendo os marido alheio/Do que adianta ter fama?/Ter curso de Faculdade?/Mode apresentar programa/Com tanta imoralidade!”. Enfim, Patativa do Assaré é o nome artístico (pseudônimo) de Antônio Gonçalves da Silva. Nasceu em 5 de março de 1909, na cidade de Assaré, estado do Ceará.

            Foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Dedicou sua vida a produção de cultura popular, voltada para o povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como “compositor, improvisador e poeta”. Produziu também literatura de cordel, porém nunca se considerou um cordelista. Sua vida na infância foi marcada por momentos difíceis. Nasceu numa família de agricultores pobres e perdeu a visão de um olho. O pai morreu quando tinha oito anos de idade. A partir deste momento histórico começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade.
Muito feliz, passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade. Ganhou o apelido de Patativa, “uma alusão ao pássaro de lindo canto, quando tinha vinte anos de idade”. Nesta época, começou a viajar por algumas cidades nordestinas para se apresentar como violeiro. Cantou também diversas vezes na rádio Araripe. No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias, intitulado: “Inspiração Nordestina”. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar aonde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. “Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão”, declamava. Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos de idade, “trocou uma ovelha do pai por uma viola”. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado: era Patativa do Assaré. Nessa época os poetas populares vicejavam e muitos eram chamados de “patativas” porque viviam cantando versos. Ele era apenas um deles. Para ser mais bem identificado, adotou o nome de sua cidade.
Com muita criatividade e inteligência criadora, retratou aspectos culturais importantes do “homem simples” do Nordeste. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras. Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser: Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Desde os 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, “já disse tudo que tinha de dizer”. Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe empresta o nome. Vale lembrar que a importância da atividade do poeta independe da notoriedade alcançada, podemos citar como exemplo o Contador Moacir Ribeiro da Silva que, como tantos outros poetas, presta ativa homenagem ao seu povo e história através da literatura de cordel. É o caso dos versos intitulados “Cem anos de Dona Amélia nas plagas do Aracati”, publicado em abril de 2014, onde Moacir narra as manifestações de vida, no sentido Simmeliano, de uma mulher que:
“Dedicou-se com afinco/Na paróquia da cidade/ No trabalho pastoral/ Com oração e caridade/ A defesa da mulher/ Sempre fora o seu mister/ Dentro de uma sociedade./Trilhou o caminho mais longo/ Numa igreja inda fechada/ Ao levantar o problema:/ Mulher marginalizada/ De uma maneira altruísta/ Numa cidade machista/ De intolerância velada”.
Finalizando, lembramos ainda da homenagem prestada pelo cinema no filme: “O Homem que Virou Suco”. É um filme brasileiro de 1981 dirigido por João Batista de Andrade. Nele, Deraldo, poeta popular recém-chegado do Nordeste a São Paulo, sobrevivendo de suas poesias e folhetos, é confundido com o operário de uma multinacional que mata o patrão na festa que recebe o título de operário símbolo. O filme aborda a obstinação do poeta diante de uma sociedade opressora, esmagando o homem no dia-a-dia e eliminando suas raízes. Daí o título
Bibliografia geral consultada.
MENEZES, Eduardo Diatahy Bezerra de, “Das Classificações Temáticas da Literatura de Cordel: Uma querela Inútil?”. In: Opinião Acadêmica - Revista Eletrônica Rio Total, 2001; COBRA, Cristiane Moreira, Patativa do Assaré, uma Hermenêutica Criativa: Reinvenção da Religiosidade na Nação Semiárida. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2006; SANTANA, Ady Sá Teles, Rotas do Sertão: Patativa do Assaré e Euclides da Cunha entre Identidade e Representação. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2008; NASCIMENTO, Maria Eliza Freitas do, Sentido, Memória e Identidade no Discurso Poético de Patativa do Assaré. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Centro de Artes e Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2008; BARBOSA, Clarissa Loureiro Marinho, As Representações Identitárias Femininas no  Cordel: do Século XX ao XXI. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2010; AMANCIO, Geraldo, De Repente Cantoria. 2ª edição. Fortaleza: Editor Premius, 2013; CONTE, Daniel; AGUIAR, Rafael Hofmeister de, “Tradição Representada: Voz, Oralidade e Performance na Cantoria sobre Patativa do Assaré”. In: CONTE, Daniel; AGUIAR, Rafael Hofmeister de, Vozes da Cultura Popular: Tradição, Movência e Ressignificação. São Leopoldo: Trajetos Editorial, 2015; RODRIGUES, Manoella de Queiroz, Plantas Medicinais utilizadas pelos Moradores dos Assentamentos de Nova Conquista e Patativa do Assaré – Paraíba e Fitoterápicos Comercializados no Município de Patos-PB. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais. Centro de Saúde e Tecnologia Rural. Campus Patos: Universidade Federal de Campina Grande, 2015; entre outros.

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