quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Jacques Cousteau - Pesquisa, Comunicação & Técnica de Mergulho.

                “Se não morressemos, não apreciaríamos a vida”. Jacques-Yves Cousteau (1910-1997)    

          As explorações curiosamente tendo como fundamento as conquistas do Novo Mundo até o início do século XVI os tubarões eram reconhecidos por marinheiros como “cães marinhos”. A palavra portuguesa tubarão e o termo espanhol Tiburón aparecem neste século, em decorrência das navegações por águas tropicais, quando muitos relatos etnográficos revelam a diversidade e quantidade desses peixes popularizando os dois termos na Península Ibérica. Posteriormente, o termo Tiburón também foi usado, sem tradução, em pesquisas em francês, alemão e inglês. A origem etimológica do nome inglês Shark também é incerta. Uma teoria é que ela deriva da palavra “xoc” da língua Iucateque, de indígenas da América, ao norte e do tronco Maia, falada na Península do Iucatã no México, no Norte do Belize e em partes da Guatemala, cuja pronuncia “shok” chega bem próximo da palavra Shark. Evidência para esta etimologia vem do Oxford English Dictionary, utilizado pela primeira vez após o marinheiro e comerciante Sir John Hawkins (1532-1595) exibir um espécime em Londres, em 1569, tendo usado a palavra original Shark para se referir especificamente  “aos grandes tubarões do Mar do Caribe”. Outro sentido original da palavra é “predador”, oriundo da palavra alemã Schorck, uma variante Schurke que tarde “foi aplicado aos peixes devido ao seu comportamento predatório”. No mundo globalizado estatisticamente são reconhecidas cerca de 380 espécies destes grandes animais, e particularmente 80 espécies no Brasil, cujos tamanhos podem variar, em geral de 15 cm a 18 metros de comprimento, sendo que em torno de 30 espécies já provocaram, grave estatística de acidentes com o homem. 

Destas, os registros etnográficos de pesquisadores demonstram que somente 12, no imenso litoral brasileiro, possuindo cerca de 7.367 km em linha reta e mais de 10.959 km considerando reentrâncias e ilhas, banhado inteiramente pelo Oceano Atlântico. Ele se estende desde o Oiapoque (Amapá) até Santa Vitória do Palmar (Rio Grande do Sul), passando por 17 estados e mais de 2.000 praias catalogadas. São perigosas e realmente podem atacar banhistas, surfistas, pescadores e mergulhadores. Basicamente marinhos e pelágicos, habitam as águas costeiras e também oceânicas da superfície ao fundo, em praticamente quase todos os oceanos e mares. Possuem hábitos alimentares carnívoros, tendo uma dieta regular de peixes, crustáceos, lulas, polvos, tartarugas, raias e outros cações. Como seus parentes, as raias e as quimeras, a mandíbula do tubarão não é anexada ao crânio. A superfície da mandíbula, comparativamente, assim como as vértebras do tubarão e as guelras, necessita de suporte extra, devido à sua forte exposição ao stress físico natural e “à necessidade compulsória do uso de força física”. Eles têm uma camada de minúsculas placas hexagonais chamadas de tésseras, que são blocos cristalinos de sais de cálcio dispostos como um mosaico. Há analogamente referência sobre a pequena placa de metal, de marfim ou de outro material que, na antiga Roma, servia de senha, bilhete de voto ou de entrada nos teatros; ou ainda, de tábua quadrangular que, também na antiga Roma, era usada pelos chefes militares para transmitir ordens aos soldados em seu comando.

Etnograficamente os tubarões têm apenas uma camada de tésseras, mas as mandíbulas de espécies de grande porte, como o tubarão-cabeça-chata, o tubarão-tigre e o tubarão-branco, têm de duas a três camadas ou mais, dependendo do tamanho do corpo. As mandíbulas de um tubarão branco podem ter até cinco camadas. No focinho, a cartilagem é esponjosa e flexível para absorver a energia dos impactos físicos. A maioria dos tubarões tem oito barbatanas. Mas só podem desviar-se de objetos à sua frente ficando à deriva, porque “suas barbatanas não permitem que nadem para trás”. Ao contrário dos peixes ósseos, os tubarões têm um espartilho dérmico complexo feito de fibras flexíveis de colágeno e disposto como uma rede helicoidal em torno de seu corpo. Isso funciona como um esqueleto externo, proporcionando fixação para os músculos de nado, e assim economizando energia. Suas escamas placoides dão-lhes vantagens hidrodinâmicas como reduzir a turbulência enquanto nadam. A pele dos tubarões pode ser tão áspera como uma lixa pela ação dessas escamas, a ponto de se ter observado que a utilização das escamas pode ferir suas presas. Algumas indústrias têm usado até mesmo a pele de tubarão para a produção de ferramentas: os oroshiganes japonês ou “lixas”. No Japão, os tradicionais fabricantes de katana usam a pele do tubarão “para cobrir o punho da espada e torná-la menos escorregadia”. A força ou potência da mordida do tubarão não é influenciada pelo quanto sua mandíbula é aberta. Mas a mandíbula superior por ser móvel se torna evidentemente mais ágil e letal.

Como outros peixes, os tubarões extraem oxigênio da água do mar ao passá-la  sobre suas guelras. Alguns tubarões têm uma fenda modificada chamado de espiráculo, localizada logo atrás dos olhos, que é usada na respiração. Devido ao seu tamanho e à natureza do seu metabolismo, os tubarões têm uma maior demanda de oxigênio do que a maioria dos peixes e eles não podem contar com as correntes de água do ambiente para fornecerem um suprimento adequado de água oxigenada. Se um tubarão parar de nadar, a circulação da água cai abaixo do nível necessário para a respiração e o animal pode morrer sufocado. O processo de garantir um fluxo adequado das guelras para mover-se para frente é reconhecido na linguagem científica como “ventilação Ram”. O processo de respiração per se através da circulação começa quando o sangue desoxigenado circula comunicativamente ao coração de duas câmaras do tubarão. A reoxigenação ocorre nas brânquias e o sangue flui para as artérias eferentes braquiais, que se unem para formar a aorta dorsal. O sangue flui da aorta dorsal para todo o corpo. O sangue desoxigenado do corpo flui através das veias cardinais. Entra na cavidade posterior cardeal do ventrículo do coração e o ciclo se repete num processo de comunicação.                        

Jacques-Yves Cousteau, filho de Daniel e Élisabeth Cousteau, nasceu em Saint-Andre-de-Cubzac, uma comuna francesa na região administrativa da Nova Aquitânia, no departamento da Gironda, França, em 11 de junho de 1910. Élisabeth Duranthon, sua mãe, era filha de um rico proprietário de terras e o pai, Daniel Cousteau, advogado. Jacques-Yves era o mais novo de dois filhos, o mais velho chamava-se Pierre-Antoine. Durante a infância, sofreu de anemia e enterite, uma doença estomacal. Aprendeu a nadar com 4 anos de idade.  Em 1918, seu pai foi nomeado assessor jurídico de Eugene Higgins, um rico expatriado de Nova York, mas ele e a família Cousteau viajaram por toda a Europa. Neste período, os Cousteau viveram em Nova York, onde Jacques estudou na Holy Name School, em Manhattan. Ele aprendeu mergulho subaquático em um acampamento de verão no Lago Harvey, Vermont. Aos 13 anos de idade, foi enviado para um Internato na Alsácia, região histórica situada no nordeste da França, na planície do rio Reno. Fazendo fronteira com a Alemanha e a Suíça, a área esteve sob o controle alternado da Alemanha e da França ao longo dos séculos e reflete uma interpretação de povos e culturas. Aos 20 anos, em 1930, entra na Ecole Navale, em Brest. Sua intenção era se tornar aviador naval, mas optou por ser oficial de artilharia.

Nos anos 1933-1935 participou de numerosas campanhas no Extremo Oriente a bordo do cruzador Primauguet. Este navio foi lançado como um transatlântico, em 30 de junho de 1931, nos estaleiros da Forge et Chantiers et Ateliers de la Mediterranée, em La Seine Sur Mer, perto de Toulon, sob encomenda da Société des Services Contractuels des Messageries (Messargeries Maritimes), foi completado finalmente em outubro do ano seguinte. Era o terceiro navio de uma série de transatlânticos quase idênticos, ao lado do Felix Roussel e o Georges Philippar, tendo sido designado para as rotas marítimas entre a França e o Sudeste Asiático e Extremo Oriente, para transporte de passageiros, imigrantes, bem como também prestação de serviço postal. Possuía acomodações para 196 passageiros na primeira classe, 110 na segunda, 90 na terceira e, embora sua capacidade fosse 1.045 passageiros, para transportar até 1.898 pessoas, das quais, entre 1.183 a 1.502 no chamado steerage, uma espécie de convés inferior, sem divisórias, destinado aos imigrantes e geralmente à classe técnica de passageiros de poucas posses. Possuía 165,6 metros de comprimento por 20,3 metros de largura, com calado de 10,2 metros e arqueação bruta de 17.537 GRT e deslocamento de 21.550 toneladas. Seus dois motores Sulzer a diesel de dois tempos, tecnicamente com 10 cilindros, alcançavam, inicialmente, a potência de 2.490 nhp (11.000 CV). Em 1935, teve seu comprimento alongado para 172 metros, e um incremento nos seus motores, com um aumento de potência para 15.600 CV, e de sua velocidade média para 19 nós. Sua característica peculiar eram as duas grandes chaminés quadradas e achatadas.      

Jacques Cousteau foi designado como segundo tenente na base naval em Xangai, na costa central da China, a maior cidade do país e um núcleo financeiro global. Em 1930 Cousteau ingressou na Escola Naval de Brest onde graduou-se como Oficial de Artilharia. Tinha como propósito a aviação naval, porém um acidente de carro o afastou da aviação e fez com que o seu interesse social se voltasse para o mar. Durante a sua permanência disciplinar na Marinha Francesa Cousteau se tornou Capitão de Fragata. Foi nela que começou as explorações submarinas, utilizando a comunicação social para filmar naufrágios e outros ambientes do mar Mediterrâneo através de um aquário de vidro. Em 1936 declarou amor à Simone Melchior (1919-1990) cujo pai, e avós maternos e paternos, eram almirantes da Marinha Francesa. Casaram-se em 1937. Simone Melchior nunca esteve nas sombras da vida de Jacques. Em 1936, aos 26 anos de idade um banal acidente muda sua vida. Havia um casamento marcado que Jacques queria assistir. O jovem emprestou o carro esportivo Salmson do pai, todavia, no trajeto teve um terrível acidente. Ficou gravemente ferido. Não pode retomar o treinamento para a aviação. Cousteau precisava uma maneira de se reabilitar e fortalecer seus braços quebrados, assim, resolveu nadar. Entre os anos de 1935 e 1939 Cousteau foi enviado para missões da Marinha Francesa em Shangai, no Japão e na União Soviética. Em 1936 Cousteau numa parceria com Philippe Tailliez (1905-2002) testou o uso de óculos de proteção subaquáticos Fernez, predecessores das atuais máscaras de mergulho. Em 1937 Cousteau casa com Simone Melchior (1919-1990), a “primeira mulher mergulhadora do mundo”, com quem teve dois filhos, Jean Michel Cousteau (1938) e Philippe-Pierre Cousteau (1940).

No início da 2ª guerra mundial (1939-1945), Cousteau ainda servia como oficial de artilharia quando navios franceses bombardearam a base naval italiana em Gênova. Depois que a França se rendeu (1940), a parte Sul do país viveu sob o regime de Vichy,  nome comum do Estado Francês, liderado pelo Marechal Philippe Pétain (1856-1951) durante a guerra. Representa a Zona Livre, desocupada na parte Sul da França metropolitana e o império colonial francês que cooperou com os capatazes nazistas, causando mais desespero para Cousteau. Foi recrutado para o serviço de inteligência. Em 1943 Cousteau produz com a ajuda dos amigos Philippe Tailliez e Frédéric Dumas o seu primeiro documentário Pour Dix-huit Mètres de Fondi, filmado com uma câmera de profundidade pressurizada desenvolvida pelo engenheiro Léon Vèche na Île des Emblez no mar Mediterrâneo. É a maior ilha do arquipélago. Está localizado na costa do porto de Le Brusc, na comuna de Six-Fours-les-Plages, no departamento Var, na região de Provence-Alpes-Côte d`Azur, no Sudeste da França. Trabalhou em operações da Resistência militar contra os serviços de inteligência da Itália. Cousteau foi premiado com a Cruz Militar. Os dois vizinhos ganharam o primeiro prêmio ex-aequo do Congress of Documentary Film (1943), pelo primeiro filme subaquático francês: Par dix-huit mètres de fond, realizado tecnicamente sem o uso de aparelho respiratório anterior nas ilhas Emblez (Var) com Philippe Tailliez e Frédéric Dumas, usando um estojo para câmera à prova de pressão desenvolvido pelo engenheiro mecânico Léon Vèche, engenheiro de Arts e Métiers e o Naval College.

Simone Melchior Cousteau (1919-1990) foi uma exploradora francesa. Ela foi a primeira mulher mergulhadora e aquanauta, esposa e sócia de negócios do explorador submarino Jacques-Yves Cousteau. Embora nunca visível na série cinematográfica Undersea World of Jacques Cousteau, Simone desempenhou um papel tecnológico fundamental na operação no mar. Atuando como mãe, curandeira, enfermeira e psiquiatra para a tripulação masculina por 40 anos, seu apelido era La Bergère, a Pastora. Ela levou Jacques “aos homens e dinheiro que construiriam sua invenção de mergulho, ajudou a comprar seu amado navio Calypso, salvou literalmente o navio durante tempestade e garantiu que cada exploração atingisse seu objetivo”. Simone nasceu em 19 de janeiro de 1919 em Toulon, França. Seu pai Henri Melchior e ambos os avôs Jules Melchior (paterno) e Jean Baehme (materno) foram almirantes da Marinha francesa. A mãe de Simone era Marguerite Melchior, carinhosamente chamada de Guitte. Ela tinha dois irmãos: Maurice e o gêmeo de Simone, Michel. Em 1924, Henri Melchior, como diretor da Air Liquide principal produtora francesa de gases industriais, mudou-se com a família para Kobe, Japão. Simone aprendeu japonês com a idade de cinco anos. Conheceu seu futuro marido, Jacques, em um coquetel em 1937. Ele era um oficial da Marinha de 26 anos e ela 17 anos. Eles se casaram em Saint-Louis-des-Invalides, em Paris, em 12 de julho de 1937.       

            Nas primeiras décadas do século, ainda não existia o interesse (cf. Hirschman, 1979) em pesquisar os “ambientes submarinos”. Alguns visionários já sonhavam com a possibilidade de desbravar o universo de água salgada. O tenente e ex-piloto de avião da Marinha francesa Jacques Cousteau, que morreu 25 de junho de 1997, aos 87 anos, era um visionário. Como filmou praticamente tudo o que viu, numa centena de expedições, ao longo de cinquenta anos, o desbravador francês tornou-se o maior divulgador dos oceanos que já existiu. Mas ele foi o inventor do fundo do mar por outro motivo: teve que inventar os seus próprios meios de trabalho de passear pelo lado líquido do planeta. Em meados da década de 1930, os equipamentos disponíveis eram caros, coisa para profissionais e de uso militar, fora do alcance dos amadores. Sua primeira grande ideia, em 1936, nasceu com os óculos de mergulho feitos de resina de conchas pelos nativos do Taiti, na Polinésia Francesa. Depois de reconhecer pela primeira vez o fundo do mar com esse artefato, decidiu aprimorá-lo, criando a máscara de mergulho. Num passo mais ousado, a câmera de vídeo submarina, considerada o seu primeiro invento foi de fato pioneiro. Mas sua fabulosa obra-prima emergiria em 1943: o Aqualung, um “tanque de ar comprido, redondo, eficiente e simples”. Com ele, o escafandro foi aposentado e entrou em cena o “homem-rã”, o mergulhador com total liberdade de movimentos.

Depois da reconhecida Lua de Mel, o período de celebração privada que sucede ao casamento, na Suíça e na Itália, os Cousteau se estabeleceram em Le Mourillon, um distrito de Toulon, perto da entrada do Rade ou enseada. Uma das primeiras referências factuais cristã à Lua de Mel é descrita no Deuteronômio 24:5: - “Se um homem tiver se casado recentemente, não será enviado à guerra, nem assumirá nenhum compromisso público. Durante um ano, estará livre para ficar em casa e fazer feliz à mulher com quem casou”. Antropologicamente a Lua de Mel simplesmente descreve o período logo após o casamento quando as relações se encontram na sua fase mais encantadora. Presume-se de forma geral que ela dure em torno de um mês de enamoramento. O primeiro prazo para isto em inglês foi Honeymoon, que foi registrado já em 1546. Na cultura ocidental, o costume de recém-casados saírem de férias juntos originou-se no início do século XIX na Grã-Bretanha, um conceito emprestado da elite indiana, no subcontinente indiano. Casais da alta classe teriam um tour de noiva, por vezes acompanhados por amigos ou familiares, para visitarem parentes que não puderam comparecer à cerimônia de casamento. A prática logo se espalhou ao continente europeu e era reconhecida como: “voyage à la façon anglaise” na França a partir da década de 1820. Lua de mel no sentido moderno representa “viagem de férias” empreendida pelo casal, generalizou-se na Belle Époque, como um dos “primeiros exemplos de turismo de massa moderno”.        

Eles tiveram dois filhos, Jean-Michel nascido em 6 de maio de 1938 e Philippe Pierre 30 de dezembro de 1940. Os dois filhos curiosamente nasceram na mesa da cozinha da família. Em 1942, o pai de Simone forneceu financiamento e a experiência de fabricação de Emile Gagnan (19---1984) na Air Liquide para construir o aqua-pulmão de Jacques Cousteau. Simone Melchior Cousteau era indiretamente a chave para este passo significativo na história social e da técnica do mergulho em alto mar. Ela esteve presente experimentalmente em 1943 no teste do protótipo do aqua-pulmão, no rio Marne, nos arredores de Paris. A nova invenção foi empregada tecnologicamente para localizar e remover minas inimigas após a brutal 2ª guerra mundial. Não por acaso a investigação científica e exploração subaquática da família Cousteau levaram à compra do navio caça-minas Calypso em 19 de julho de 1950. Thomas Loel Guinness (1906-1988) comprou o navio e alugou-o para Jacques Cousteau simbolicamente por um dólar ano. O capitão do grupo empresarial, foi um político ultraconservador britânico, membro do Parlamento por Bath (1931-1945), magnata dos negócios e filantropo. Originalmente, o Calypso era caça-minas britânico da guerra mundial, convertido por Cousteau em notável navio oceanográfico. Nele o explorador atravessou oceanos durante mais de 40 anos de serviço marítimo para realizar filmes emocionantes sobre o fundo do mar. Mas em janeiro de 1996, um ano antes de sua morte, o Calypso naufragou em Singapura.   

Simone Melchior vendeu as joias de sua família pelo combustível do Calypso e sua pele para comprar uma bússola e um giroscópio. O Calypso é um navio francês de pesquisas hidrográficas. O navio em 1952 realizou sua viagem inaugural para o Mar Vermelho que recebe esse nome devido a espécie de alga avermelhada (Trichodesmium erythraeum) que está presente no mar. Alguns ainda acreditam que o nome foi atribuído pelas montanhas de cor rubra ricas em ferro que surge em alguns trechos na Península do Sinai. O mar Vermelho é um golfo do oceano Índico entre a África e a Ásia. Ao Sul, se comunica com o oceano Índico pelo estreito de Babelmândebe e o golfo de Áden. É famoso pela exuberância de sua vida marinha, com uma população de mais de 1000 espécies de invertebrados, incluindo 200 espécies de corais e, pelo menos cerca de 30 espécies de tubarões, como já nos referimos noutro local, um tipo de peixe de esqueleto cartilaginoso, composto de um corpo hidrodinâmico com exceção dos Squatiniformes, Hexanchiformes e Orectolobiformes pertencente à super ordem Selachimorpha. Os primeiros tubarões reconhecidos viveram há aproximadamente 400 milhões de anos. Há cerca de 400 milhões de anos, no período Devoniano, a Terra era dominada pelos Prototaxites — colunas de até 9 metros de altura que não eram plantas nem fungos. Recentes descobertas científicas e fósseis no Brasil demonstram um planeta muito diferente das imagens da “Terra é azul” dos primeiros astronautas, com mares cobrindo várias regiões atuais.

A configuração do mar Vermelho ocorre devido à separação histórica das placas tectónicas da África e da península Arábica. O movimento começou há cerca de 55 milhões de anos e continua atualmente, o que explica a existência de uma atividade vulcânica nas partes mais profundas e nas margens. Ao norte se encontram a península do Sinai, o golfo de Ácaba (ou golfo de Aqaba ou golfo de Eilat) é um grande golfo na ponta norte do mar Vermelho, a leste da Península do Sinai e oeste do território árabe. O seu litoral é dividido entre quatro países: Egito, Israel, Jordânia e Arábia Saudita e o canal de Suez que permite a comunicação com o mar Mediterrâneo. Pioneira, Simone Melchior era a única mulher a bordo. Em 1963 se tornou a primeira aquanauta fêmea do mundo ao viver na Starfish House, um habitat subaquático, durante os quatro dias finais do projeto Conshelf II, também conhecido como Pré-continent II, foi uma das mais audaciosas e icônicas expedições de exploração subaquática da história, realizada em 1963 no Mar Vermelho (Sudão). Liderada pelo lendário oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau, a missão tinha como principal objetivo provar que seres humanos podiam viver e trabalhar no fundo do mar por longos períodos utilizando a técnica de mergulho saturado. Descrevendo sua esposa, Jacques Cousteau disse: - “Ela era a mais feliz fora do alcance das câmeras, no Ninho de Corvo de Calypso, por exemplo, procurando baleias no mar. Nada passaria por ela. Ele continuou: “Ela vive para passar hora após hora ao vento e ao sol, observando, pensando, tentando desvendar o mistério do mar”. Morreu infelizmente em 1990 de câncer, doença que abrange mais 100 diferentes tipos-ideais, sociologicamente falando, malignos em comum o crescimento desordenado de células, que “podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos a distância”. Não por acaso, masm do ponto de vista da honra, ela recebeu um funeral militar completo, durante o qual suas cinzas foram espalhadas no Mar de Mônaco.

Em 1956, Cousteau lançou seu primeiro documentário em cores, chamado como seu livro anterior, The Silent World. Este filme mudou para sempre a ideia das pessoas sobre os oceanos e a magia da vida que contêm. O documentário fundamenta um método de trabalho e processo de comunicação tornando-se no primeiro documentário submarino produzido na França. Anteriormente, em 1943, Cousteau produziu outro documentário, o Épaves (Naufrágios), onde utilizou os dois primeiros protótipos do Scaphandre Autonomo CG45, ou simplesmente Aqualung, tecnicamente o primeiro protótipo do que se tornaria o equipamento de mergulho autônomo que reconhecemos pelo nome de SCUBA criado pelo engenheiro Émile Gagnan. Em 1947 o suboficial Maurice Farques pode ser considerado na nomenclatura específica em acidente de trabalho, o primeiro mergulhador a morrer utilizando o Aqualung. Em 1948 Cousteau transforma o documentário no seu primeiro livro que levou o mesmo nome do documentário. Em 1948 Cousteau a bordo da corveta Élie Monnier com Philipper Tailliez, Frédéric Dumas, Jean Alinart e Michel Ichac empreendeu a primeira campanha e técnica de exploração submarina envolvendo testes físicos e científicos. Nesta campanha realizaram-se a primeira exploração arqueológica com mergulho autônomo quando descobriram o naufrágio do barco romano em Mahdía na Tunísia. O antigo barco naufragado foi encontrado próximo à praia de S`Arenal, na ilha de Maiorca, na Espanha. Em meio aos destroços, foram descobertas 93 ânforas de estilo greco-romano. A técnica de interpretação sobre a embarcação remonta ao Império Romano e cerca de 1,8 mil anos. 

Esta operação é reconhecida socialmente como “o primeiro mergulho científico da história”. Em 1949 Cousteau deixa a Marinha e funda a Campanha Oceanográfica Francesa. Em 1950 o filantropo inglês Thomas Loel Evelyn Bulkeley Guinnes arrendou para Cousteau, pela quantia simbólica de 1 franco ano, o caça minas inglês HMS J-026 então convertido em um navio oceanográfico e rebatizado com o nome de Calypso. 2Historicamente os primeiros relatos de mergulho vêm na antiguidade, quando usavam a técnica para o resgate de armamentos e alimentos. No Japão e na Coréia, há mais de 4 mil anos a. C, já existiam mergulhadores especializados em caçar pérolas no fundo do mar. A tecnologia foi se desenvolvendo e a principal responsável pelo desenvolvimento das técnicas de mergulho foram as guerras, já que para resgatar armamentos e atacar o inimigo foram criados novos métodos de trabalho para mergulhar. No século XX houve um desenvolvimento espetacular na parte dos equipamentos. Tecidos pesados foram trocados por roupas de borracha. Não se pode deixar de mencionar o francês Jacques- Yves Cousteau, que no ano de 1943, em plena ocupação nazista alemã, mergulhou pela primeira vez na Costa Provençal, tendo até 20 metros com auxílio de um aparelho que ele mesmo inventou: o chamado Aqualung, um composto híbrido que se traduz por pulmão aquático, que abriu caminho para novos e modernos equipamentos de mergulho.            

O mergulho nasceu da questão da vontade humana desde Aristóteles, Cícero, Santo Tomás de Aquino, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, a sociedade seria fruto de um impulso associativo natural do homem aliado à vontade e desejo de explorar tecnicamente o mundo submarino. Apesar de estar tão presente em nossa vida, o mar ainda é o maior, mais intrigante e desconhecido habitat terrestre. Milhares de descobertas realizadas através dos séculos por mergulhadores, além de ajudarem a narrar a história do homem, criaram um tipo de esporte que é muito praticado no mundo todo. Das técnicas milenares, utilizadas para a busca comercial de alimentos e armamentos, até as modernas tecnologias empregadas em mergulhos cada vez mais ousados e profundos, vidas ficaram pelo caminho. Mas, certamente o sonho desses mergulhadores não foi certamente em vão. A modernidade vagueia livre para quem quiser se arriscar no mergulho, sob certas condições normais de temperatura e pressão, dispõe das condições sociais e técnicas de explorar a vida marinha com grande margem de erro e segurança. Para a atleta de mergulho livre com 4 recordes mundiais e 8 latino-americanos, Karol Mariechen Meyer, praticante de mergulho em apneia. É a recordista em número de recordes mundiais para o Brasil, em toda a história social do esporte, o mergulho é um esporte possível de atualização como qualquer outro. - “Para mergulhar não precisamos ser um Pelizari, uma Tanya Streeter, basta termos vontade de estarmos na água, alguns minutos a mais sem respirar para podermos descer nas profundezas, ficar mais tempo na piscina, ou então, percorrer uma grande distância submersa”. 

Os primeiros relatos etnográficos da história do mergulho são do Japão e da Coréia cerca de 4 mil anos antes dos relatos bíblicos de Cristo. O antigo presente não é representado no atual se é que o atual seja representado nesta representação. É essencial à representação representar não só alguma coisa, mas sua própria representatividade. Observa Deleuze (2018: 119 e ss.), metodologicamente no caso da memória, que o antigo e o atual presentes não são, pois, como dois instantes sucessivos na linha do tempo. Mas o atual comporta necessariamente uma dimensão a mais pela qual ele representa o antigo e na qual ele também representa a si próprio. O atual presente não é tratado como objeto futuro passível de uma lembrança, mas como o que se reflete ao mesmo tempo que torna a lembrança do antigo presente. Portanto, a síntese ativa tem dois aspectos que são correlativos, conquanto não simétricos: reprodução e reflexão, rememoração e recognição, memória e entendimento. Foi frequentemente observado que a reflexão filosófica implicava algo a mais que a reprodução, mas esse algo a mais, segundo o filósofo, é só a dimensão suplementar em que todo presente se reflete como atual ao mesmo tempo que representa o antigo. Todo estado de consciência exige uma dimensão a mais do que aquele implicado pela lembrança. Conceitualmente, pode-se chamar de síntese ativa da memória o princípio e expressão da representação sob duplo aspecto: reprodução do antigo presente e reflexão do atual. A síntese ativa da memória funda-se na síntese passiva do hábito, pois esta última constitui todo presente possível em geral.     

Ela difere profundamente desta: a assimetria reside no aumento constante das dimensões, em sua proliferação infinita. A síntese passiva do hábito constituía o tempo como contração dos instantes sob a condição do presente; a síntese ativa da memória o constitui como encaixe dos próprios presentes. Ipso facto, se compararmos a síntese passiva do hábito com a síntese passiva da memória, veremos quanto, na passagem de uma a outra, como mudou a repartição da repetição e da contração. De qualquer maneira, sem dúvida o presente aparece como fruto de uma contração, mas referida a dimensões totalmente diferentes. Num caso, o presente é o estado mais contraído de instantes ou de elementos sucessivos, independentes uns dos outros em si. No outro caso, o presente designa o grau mais contraído de um passado inteiro, que é em si como uma totalidade coexistente. Suponhamos, com efeito em sua conformidade com as necessidades do segundo paradoxo, que o passado não se conserve no presente da relação ao qual ele é passado, mas se conserve em si, sendo o atual presente apenas a contração máxima de todo este passado que coexiste com ele. Será necessário, primeiramente, que esse passado inteiro coexista hegelianamente consigo mesmo, em graus de descontração e de contração. O presente só é o grau mais contraído do passado que com ele coexiste se o passado coexistir primeiramente consigo mesmo numa infinidade de graus diversos de descontração e de contração, numa infinidade de níveis pertinentes de análise. É este o sentido da célebre metáfora bergsoniana do cone, ou quarto paradoxo do passado. Consideremos o que se chama repetição numa vida, mais precisamente, numa vida espiritual. Presentes se sucedem, recobrindo-se parcialmente.  

Todavia temos a impressão de que, por mais fortes que sejam a incoerência e a oposição possíveis dos presentes sucessivos, cada um deles põe em jogo “a mesma vida” num nível diferente. É possível admitir o que se chama destino. O destino não consiste em relações de determinismo, que se estabelecem pouco a pouco, entre presentes que se sucedem conforme a ordem de um tempo representado. Entre os presentes sucessivos, ele implica ligações não localizáveis, ações à distância, sistemas de retomada, de ressonância e de cos, de acasos objetivos, de sinais e signos, de papéis que transcendem as situações espaciais e as sucessões temporais. Dos persentes que se sucedem e expressam um destino, dir-se-ia que eles põem em jogo sempre a mesma coisa, a mesma história, apenas com uma diferença de nível: aqui, mais ou menos descontraído, ali, mais ou menos contraído. Eis porque o destino em tese se concilia tão mal com o determinismo, mas tão bem com a liberdade: isto é, a liberdade de escolher o nível. Para o que nos interessa, a sucessão dos presentes (atuais) é apenas manifestação de alguma coisa mais profunda: a maneira pela qual cada um retoma toda a vida, mas num nível ou grau diferente do precedente, todo os níveis ou graus coexistindo e se oferecendo à nossa escolha, do fundo de um passado que jamais foi presente.

Chamamos de caráter empírico, afirma Deleuze (2018), as relações recorrentes de sucessão e de simultaneidade entre presentes que nos compõem, suas associações segundo a causalidade, a contiguidade, a semelhança e mesmo a sua oposição. Mas chamamos de caráter numênico as relações de coexistência virtual entre níveis de um passado puro, cada presente só atualizando ou representando a forma possível de um desses níveis. Em suma, o que vivemos empiricamente como uma sucessão de presentes diferentes, do ponto de vista da síntese ativa, é também a coexistência sempre crescente dos níveis de do passado na síntese passiva. Cada presente contrai um nível do todo, mas esse nível já é de descontração ou de contração. Isto é: o signo do presente é uma passagem ao limite, uma contração máxima que vem sancionar a escolha de um nível qualquer, ele próprio, em si, contraído ou descontraído, entre uma infinidade de outros níveis possíveis. A importante questão abstrata que se coloca do ponto de vista teórico- metodológico ocorre da seguinte forma: a comunicação é estabelecida entre séries heterogêneas e todo tipo de consequências ocorre no sistema. Alguma coisa passa entre as bordas; pipocam acontecimentos, fulguram fenômenos do tipo relâmpago ou raio. Dinamismos espaço-temporais preenchem o sistema, expressando ao mesmo tempo a ressonância das séries acopladas e amplitude do movimento forçado que as transborda. Sujeitos povoam o sistema, ao mesmo tempo sujeitos larvares e os eus passivos.

São eus passivos, porquês e fundem com a contemplação dos acoplamentos e das ressonâncias; sujeitos larvares, porque são o suporte ou o paciente do dinamismo. Com efeito, em sua participação necessária no movimento forçado, um puro dinamismo espaço-temporal só pode ter sentido no limiar do visível, em condições fora das quais ele acarretaria a morte de todo sujeito bem-constituído, dotado de independência e de atividade. A verdade da embriologia é que há movimentos vitais sistemáticos, deslizamentos, torções que só o embrião pode suportar: o adulto seria disso dilacerado. Há movimentos dos quais só se pode ser paciente, mas o paciente, por sua vez, só pode ser uma larva. A evolução já não se faz ao ar livre, e só o involuído evolui. O pesadelo talvez seja um dinamismo psíquico que nem o homem acordado nem mesmo o sonhador poderiam suportar, mas só o adormecido em sono profundo, em sono sem sonho. O sistema só comporta tais sujeitos, pois apenas eles podem fazer o movimento forçado ao se colocar como pacientes dos dinamismos que os expressam; mas também pelos sujeitos que o povoam, pelos dinamismos que o preenchem e, enfim, pelas qualidades e extensos que se desenvolvem a partir desses dinamismos próprios. Mas a dificuldade maior subsiste: será a diferença que relaciona o diferente ao diferente nesses sistemas intensivos? A diferença de diferença relacionará a diferença ela mesma, sem outro intermediário? É aqui devemos prestar a maior atenção ao papel respectivo da diferença, da semelhança e da identidade. Todo tipo de consequências ocorre no sistema.    

No caso do notável explorador Jacques Cousteau, mutatis mutandis, a técnica era utilizada para resgatar alimentos e armamentos. Gradativamente o mergulho foi se aperfeiçoando, até que surgiram pessoas especializadas na arte do mergulho em caçar pérolas no fundo do mar. A liberdade é requisito para o reino da necessidade porque apenas o ser humano é capaz de produzir e através do pensamento abstrair o modo e a forma de relacionar-se com a natureza, erigindo a partir do processo abstrato de conhecimento um processo social composto de etapas e procedimentos específicos, discernindo em seu fazimento e  utilizando-o em outros experimentos de mesmo cariz. A passagem da teoria abstrata para a necessidade prática do homem em explorar o mundo aquático/submarino acarretou no desenvolvimento do processo e método de trabalho e de crescimento da atividade. Um fato político estratégico é que as guerras intercontinentais se tornaram peças-chave no desenvolvimento do mergulho e também no resgate para atacar os inimigos. Porém, se historicamente as pessoas mergulhavam de roupa de pano, que só foram trocadas pelas roupas borracha no século XX. O mergulho aos poucos foi recebendo ares de esporte e hoje em dia conta com disputas ao redor de todo o mundo.  A história do equipamento de mergulho autônomo, reconhecido como a invenção do equipamento Aqualung, remonta à 2ª guerra mundial. Em junho de 1943, numa pequena praia da Riviera, Jacques Cousteau usava nadadeiras de borracha e testava pela primeira vez seu novo e preciso equipamento de mergulho autônomo.

O equipamento foi inspirado pelas descobertas que a precederam, em particular, a referida ao capitão Yves Le Prieur, pioneiro do mergulho autônomo, que em 1925, havia aperfeiçoado um dispositivo para permitir o uso do ar comprimido. Pela primeira vez, um homem podia respirar debaixo d'água sem nenhuma conexão com a superfície - Le Prieur inventou o aparelho respiratório subaquático autônomo de circuito aberto–mergulho. O problema é que esse dispositivo mantinha um fluxo contínuo de ar, o que limitava o tempo social de uso pelo mergulhador, pois o ar comprimido acaba muito rápido. Uma solução nasceu em Paris, durante a guerra. O engenheiro Emile Gagnan, foi um engenheiro francês e inventor, juntamente com a Marinha francesa e o Scubadive Jacques-Yves Cousteau, do “regulador de mergulho”, que havia sido criado para alimentar com gás os veículos usados pelos alemães. Melhor dizendo, a válvula de demanda usada para formar o primeiro equipamento Scubadive, o Aqualung em 1943. Esse dispositivo liberava o gás sob demanda, isto é, quando para a utilização fosse necessário. Jacques Cousteau modificou esse regulador para que ele fornecesse o ar comprimido sob demanda ao mergulhador, e a partir daí, na sequência, quando o mergulhador inspirava, o regulador permitia a passagem do ar comprimido para os pulmões do mergulhador sob baixa pressão. Não havendo mais o fluxo contínuo, o mergulhador teria mais tempo social de uso para trabalho de fundo do mar, desde então, pois o gás que saía dos cilindros de mergulho, e somente sairiam quando o mergulhador inspirava, e não mais de forma contínua. 

Assim nasceu o “equipamento de mergulho autônomo”, em inglês descrito como: Self Contained Underwater Breathing Apparatus (SCUBA). Em 1953, em coautoria com Frédéric Dumas (1913-1991) publica a sua mais famosa obra Le Monde du Silence, que em 1956 em parceira com Louis Malle (1932-1995) foi transformada em documentário. Filmado no mar Vermelho e no Mediterrâneo conquistou dois prêmios: Oscar de Melhor Documentário e Palma de Ouro do Festival Cinematográfico de Cannes. Desta experiência Cousteau discutiu a probabilidade de os golfinhos utilizarem, de forma auxiliar, uma espécie de sonar para se localizar na água. Com o sucesso do filme Cousteau decide morar a bordo do Calypso. Ampliou sua equipe incorporando geólogos, arqueólogos, biólogos a fim aprofundar os estudos e pesquisas sobre mares e oceanos do mundo. Em 1960 um depósito de lixo radioativo seria instalado no Mar Mediterrâneo, Cousteau lançou uma campanha contra, inclusive se deitando ele mesmo sobre os trilhos dos trens que transportavam o lixo radioativo conseguindo por fim impedir o projeto. Em 1962 apresentou para uma plateia de cientistas e oceanógrafos no Congresso Mundial de Atividades Subaquáticas, onde a teoria do Homo Aquaticus, o explorador e cineasta Jacques Cousteau, que criou aparentemente sozinho, ocorre que, quanto mais fundo o homem desce na água, mais perigoso se torna respirar oxigênio puro. Com apenas 9 metros de profundidade, por exemplo, o gás se torna tóxico. É preciso saber manejar um jeito de encher as brânquias artificiais com nitrogênio, o principal componente do ar terrestre e não apenas oxigênio. Mas proporcionalmente quanto maior a profundidade, maior a tendência do nitrogênio de se manter dissolvido na água.           

O pesquisador teve como objetivo o emprego da técnica de implante cirúrgico de brânquias artificiais permitindo aos mergulhadores retirar da água as próprias moléculas de oxigênio necessárias para a manutenção da respiração. Conceitualmente os habitats subaquáticos são estruturas subaquáticas em que as pessoas podem viver por longos períodos e realizar a maioria das funções humanas básicas de um dia de 24 horas, como trabalhar, descansar, comer, cuidar da higiene pessoal e dormir. Neste contexto, habitat é geralmente usados em sentido estrito para significar o interior e o exterior imediato da estrutura e seus acessórios, mas não o conjunto de seu ambiente marinho circundante. A maioria dos primeiros habitats subaquáticos carecia de sistemas regenerativos para os estoques de ar, água, alimentos, eletricidade e outros recursos. No entanto, alguns novos habitats subaquáticos permitem que estes recursos sejam entregues por mediações usando tubos ou gerados dentro do habitat, em vez de serem manualmente entregues.  

Um habitat subaquático deve satisfazer as necessidades fisiológicas humanas e proporcionar condições ambientais adequadas, e o que é mais crítico é respirar ar de qualidade adequada. Outras questões dizem respeito à preocupação com o ambiente físico: pressão, temperatura, luz, umidade, o ambiente químico: água potável, alimentos, resíduos humanos, toxinas e o ambiente biológico: criaturas marinhas perigosas, micro-organismos, fungos. Grande parte da ciência que cobre os habitats subaquáticos e sua tecnologia projetada para atender às necessidades humanas é compartilhada com mergulho, sinos de mergulho, veículos submersíveis, submarinos e naves espaciais. Numerosos habitats subaquáticos foram projetados, construídos e utilizados em todo o mundo desde o início dos anos 1960, seja pela iniciativa privada ou por agências governamentais. Eles têm sido usados quase que exclusivamente para a pesquisa e exploração, mas nos últimos anos, pelo menos, um habitat subaquático foi fornecido para o lazer e turismo. Pesquisas têm sido dedicadas especialmente aos processos fisiológicos e aos limites da respiração de gases sob pressão, para a formação de aquanautas e astronautas, bem como para a investigação dos ecossistemas marinhos.           

Em 1964 Cousteau patrocinou o filme Le Monde sans Soleil. Além dos habitats submarinos dos projetos Conshelf Cousteau e sua equipe também desenvolveram uma infinidade de veículos anfíbios e submersíveis, dentre eles o veículo submarino sob a forma operacional de disco de mergulho Souscoupe Plongeante (SP-350) desenvolvido por Jean Mollard (1795-1864) e que alcançava até 350 m de profundidade e no plano global de trabalho os minissubmarinos Sea Fleas SP-500 que conseguiam submergir a 500 m de profundidade, e diversos caminhões anfíbios. Além disso, pragmático, acreditava que o corpo humano evoluiria para desempenhar funções sobre a água sem a necessidade destas próteses. Cousteau previu que em dez anos haveriam casas, oficinas e escritórios permanentes no fundo do mar para prospecção de óleo, gás e minérios, além do cultivo de frutos do mar. Essas teorias vinham se desenvolvendo com a realidade técnica e laboratorial, sobre as habitações submarinas dos projetos Conshelf I, II e III, e projetos que ficaram reconhecidos por Precontinent I, II e III situados próximo à Marselha, na França, e em Sha´ab Rumi no Sudão a 10m, 30m e 102,4m de profundidade no mar.

No final da década de 1960 Philippe-Pierre Cousteau principal cinegrafista da equipe, passa a desenvolver um sentimento ambientalista e durante a filmagem do episódio The Unexpected Voyage of Pepito e Cristobal. É um fato social decorrente dos maus tratos exploratórios com os animais, comparativamente em especial aos dois lobos-marinhos-do-Cabo (Arctocephalus pusillus). Estas espécies que protagonizam o episódio, foram capturados da sua colônia numa pequena ilha dentre aquelas de povoamento na cidade do Cabo e mantidos em cativeiro para que aparecessem nos filmes pagos da série de TV que faziam amizade com a tripulação do Calypso, e per se viviam em harmonia. Contudo, Philippe-Pierre decide sair da tripulação e montar a sua própria equipe. No episódio Shark para a TV (1968) Jacques Cousteau fala sobre os tubarões, pela primeira com vez imagens fantásticas destes animais em seu habitat cria uma espécie de ranking dos mais perigosos tubarões declarando ser o Tubarão-galha-branca-oceânico (Carcharhinus longimanus) a espécie social mais perigosa. Estima-se que somente entre os anos de 1930 e 1931 cerca de 31 mil baleias-azuis (Balaenoptera musculus), biologicamente descrito como o maior mamífero do planeta com cerca de 30 metros e pesando mais de 120 toneladas cada foram capturadas e mortas na região. A população destas baleias jamais se recuperara deste desastroso massacre humano.        

O lobo-marinho nada em águas até uma profundidade de 100m, por isso a sua alimentação é constituída por peixes que habitam até essa profundidade. Na fase adulta consome por dia a 4 a 6% do seu peso por dia, pode chegar a comer 12 kg por dia em alimento se pesar em média 250 kg. Estes animais comem geralmente peixes diversos que varia de acordo com a disponibilidade do meio, polvo (cefalópodes), mexilhões (crustáceos), espécies agarradas nas rochas. O lobo-marinho procura alimento em locais rochosos e baixos próximos da costa e das suas colônias, mas devido muitas vezes a falta de alimento natural é obrigado a ir para alto mar onde encontra alimento com mais facilidade, mas em contrapartida corre o risco de ser atacado pelos predadores. Estes animais têm uma baixa natalidade, mas em contrapartida vivem de 30 a 40 anos. A sua baixa natalidade deve-se ao fato biológico das fêmeas atingirem a maturidade sexual entre os 4 e 6 anos de vida. O período dos seus nascimentos dá-se entre os meses de maio e novembro, sendo que nos meses de setembro e outubro nascem mais. Cada fêmea tem normalmente uma única criação de 2 em 2 anos, quando muito raramente nascem gémeos. Os fatores de ameaça são a perturbação dos animais no seu habitat natural, provocada por pescadores e turistas, captura acidental em artes de pesca, atos de vandalismo e abate de animais. Estes animais foram alvo de armas de fogo e explosivos, utilizados pelos pescadores, que os culpavam pela redução das pescarias, mas a culpa é dos pescadores porque eles é que aperfeiçoaram os engenhos da pesca costeira e se expandiram no sector. Além dos pescadores, o turismo também se desenvolveu e foram ocupando os habitats utilizados por estes animais, onde faziam a sua reprodução.                                 

Em 1971 Cousteau quase faliu financeiramente devido aos altos custos dos seus projetos. Havia produzido 8 dos 12 episódios que contavam com o financiamento da ABC e não tinha mais condições de dar continuidade, chegando a ser cogitada inclusive a venda do Calypso, um navio francês de pesquisas hidrográficas. Foi assim denominado por seu último proprietário, Jacques-Yves Cousteau. Foi construído durante a 2ª guerra mundial como um navio caça-minas. O explorador teve uma ideia de filmar a “última fronteira”, a Antártica, para isto ele primeiro convenceu o seu filho Philippe-Pierre Cousteau a se juntar à equipe novamente, prometendo mudar um pouco o viés dos seus episódios e convenceu a abc a participar com mais dinheiro no financiamento alegando que lá eles iriam filmar muitas baleias e animais poucos reconhecidos, além de, pela primeira vez “fazer imagens submarinas sob o gelo”. Em 1972 Cousteau então vai à Antártica com o Calypso que supostamente devido à aparente fragilidade de seu casco de madeira não conseguiria passar pelo gelo. Chegando no continente gelado nenhuma baleia foi avistada até que na ilha Rei George, a maior das Ilhas Shetland do Sul, situado na coordenada 62° 23' S 58° 27' O a 120 km da Península Antártica e 849 quilômetros do sul do Cabo Horn, no Sul da América do Sul. A ilha recebeu este nome em homenagem ao Rei George III, onde depois o Brasil manteria a Estação Científica Comandante Ferraz eles encontraram uma infinidade de ossos de baleia, de várias espécies, espalhados pela praia e instalações lá armazenadas que haviam sido utilizadas por caçadores de baleia provavelmente do início do Século XIX, em uma época em que de forma predatória elas eram caçadas quase até o total extermínio. 

O barco pertencia a classe Auxiliary Motor Minesweepers (YMS) e saiu do estaleiro Ballard Mariane Railway Yard em Seatle, Washington D. C. onde recebeu a designação BYMS 2026. Transferido para a Marinha Real Britânica em fevereiro de 1943 foi renomeado como HMS J-026. Durante a 2ª guerra mundial, teve a ilha de Malta como sua base e participou da Invasão Aliada da Sicília. Ao final da guerra foi devolvido aos norte-americanos e colocado a venda em 1947. O navio passou a fazer navegação entre as Ilhas de Malta e Gozo, como Calypso G. A lendária embarcação era equipada como um laboratório móvel, tornando-se mundialmente reconhecida pelos documentários de Cousteau. Em 1996 foi abalroado por outro navio, vindo a naufragar no porto de Singapura, sendo posteriormente recuperado. Desde então esteve parado no porto de La Rochelle e no porto de Concarneau, em França, as várias tentativas para recuperar o navio falharam “devido ao alto custo do reparo de manutenção”. Em 2010 a embarcação começou a ser reparada. No entanto, a sua restauração foi interrompida por conta de uma desavença entre o estaleiro naval Piriou, encarregado da obra, e a equipe de trabalho de Jacques Cousteau. Em dezembro de 2014, a justiça francesa tinha proferido uma decisão exigindo que a associação levasse o Calypso antes de 12 de março de 2015 e pagasse a conta das obras ao estaleiro em torno de 300.000 euros. 

           Para os que choraram inconsoláveis a morte do “homem do boné vermelho”, é bom saber que o seu trabalho continua vivo através de Jean Michel e que os próprios netos também seguiram o apelo do mar. Seu currículo é extenso: produziu mais de 75 documentários, ganhou Emmies, Peabodies e outros galardões de televisão. Participou em filmes de animação de nome À Procura de Nemo (2003). Teve o reconhecimento de Al Gore, das mãos de quem recebeu o prémio de Herói Ambiental. Convenceu George W. Bush a classificar um “santuário de baleias” de bossa no Havaí como Monumento Marinho. É o primogênito de Jacques Cousteau, oceanógrafo, ambientalista, ecologista, continua a travar a cruzada do pai, a favor da preservação dos oceanos, ele faz documentários para a National Geographic, e Celine Cousteau trabalha na Ocean Futures Society, a Organização Não-Governamental (ONG) fundada por Jacques Costeau, participam nas suas expedições. Em seu livro, Jean Michel exprime também a sua mágoa e desilusão. Nem sempre as relações familiares foram fáceis. E não se pode dizer que não tenha havido motivos para isso. Casado com Simone, Jacques Cousteau manteve por mais de uma década, secretamente, uma relação extraconjugal com Francine Triplet, de quem teve dois filhos, Diane e Pierre Yves. A vida dupla durou até ao fim da sua vida e só em seu funeral em 1997, as duas famílias tiveram conhecimento da existência uma da outra.

Bibliografia geral consultada.

COUSTEAU, Jacques-Yves; DUMAS, Frédéric, Le Monde du Silence. Documentaire Paris: 1953; DURAS, Marguerite, L`Amant. Paris: Éditions de Minuit, 1984; HEMINGWAY, Ernest, El Verano Peligroso. Barcelona: Editorial Sudamericana-Planeta, 1986; BRAGA, Ubiracy de Souza, Das Caravelas aos Ônibus Espaciais. A Trajetória da Informação no Capitalismo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Escola de Comunicação e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995; GUATTARI, Félix, Les Trois Écologies. Paris: Éditions Galilée, 1989; DEAN, Warren, A Ferro e Fogo: A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1996; PACCALET, Yves, Jacques-Yves Cousteau: Dans l`Océan de la Vie: Biographie. Paris: Les Éditions Jean-Claude Lattès, 1997; COUSTEAU, Alexandra, Celine Cousteau, l`Âme de la Calypso. Quebec: Les Éditions des Intouchables, 2002; TEIXEIRA, Paulo Marcelo Marini, Pesquisa em Ensino de Biologia no Brasil (1972-2004). Um Estudo Baseado em Dissertações e Teses. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2008; GOFFMAN, Erving, Estigma: La Identidad Deteriorada. Madrid: Amorrotu Editores, 2009; DAVENPORT, Tara, “Submarine Communication Cables and Law of the Sea: Problems in Law and Practice”. In: Ocean Development & International Law, Vol. 43, nº 3, pp. 201-242, 2012; PANTALENA, Ana Flávia, Mergulho Recreativo na Região Metropolitana de Fortaleza (NE, Brasil): Subsídios para o Desenvolvimento Sustentável. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais. Instituto de Ciências do Mar. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2017; DELEUZE, Gilles, Diferença e Repetição. 1ª edição. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Paz e Terra, 2018; LAUREANO, Graziela Daniel, Subjetividade Diluída: A Força do Tempo em Marguerite Duras. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2018; ZVIR, Eliane, Jacques-Yves Cousteau na Amazônia Brasileira. Programa de Pós-Graduação em História. Santa Cruz: Universidade Estadual do Centro-Oeste, 2019; BAPTISTELA, Eveline dos Santos Teixeira, Animais não Humanos e Humanos no Turismo do Pantanal Mato-Grossense: Da Representação Midiática ao Encontro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea. Faculdade de Comunicação. Cuiabá: Universidade Federal de Mato Grosso, 2020; entre outros.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Friedrich Hegel – Dialética, Consciência & Sensibilidade Humana.

“O mal não é outra coisa  que a não-conformidade do ser ao dever-ser”. Friedrich Hegel


         Friedrich Wilhelm Karl Ritter von Hegel (1813-1901) foi um historiador alemão e filho do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Durante sua vida, foi um historiador renomado e respeitado, tendo recebido inúmeros prêmios e honrarias. Ele foi um dos principais historiadores urbanos da segunda metade do século XIX. Karl Hegel nasceu em Nuremberg. Era filho do filósofo Friedrich Hegel, que faleceu em 1831, quando Karl Hegel tinha 18 anos. A própria carreira de Hegel foi prejudicada pela fama do pai. Sua mãe, Marie Helena Susanna von Tucher (1791–1855), pertencia a uma tradicional família da nobreza de Nuremberg. Hegel viveu seus três primeiros anos em Nuremberg. A família mudou-se para Heidelberg em 1816, onde seu pai se tornou professor de filosofia. Em 1818, mudaram-se novamente, desta vez para Berlim. Karl Hegel estudou em Berlim e em Heidelberg. Um de seus professores foi Leopold von Ranke. Em 1837, obteve o título de doutor em Berlim com sua tese de doutorado sobre Alexandre, o Grande. De 1838 a 1839, viajou para a Itália e realizou diversas pesquisas históricas. De volta a Berlim, trabalhou por um breve período como professor do Ensino Médio. 

        De 1841 a 1856, foi professor de História e Política na Universidade de Rostock. Em 1847, publicou dois volumes da História da Constituição Urbana da Itália desde a época do Império Romano até o final do século XII.  A partir de então, tornou-se um historiador renomado do século XIX. As universidades de Leipzig, Kiel, Munique, Greifswald e Erlangen ofereceram-lhe uma cátedra. Em 1850, foi eleito representante do Parlamento de Erfurt. No mesmo ano, casou-se com sua prima Susanna Tucher. Em 1856, a Universidade de Erlangen o nomeou para a recém-criada cátedra de História. Em 1870, foi vice-reitor da FAU. De 1862 a 1899, 27 volumes da edição “Die Chroniken der deutschen Städte” foram publicados por Karl Hegel para a Comissão Histórica da Academia Bávara de Ciências e Humanidades em Munique. Hegel editou seis volumes de crônicas (Nuremberg, Estrasburgo e Mainz) em muitas partes sozinho. Com Hegel como gerente de departamento, a edição das crônicas foi um dos projetos de maior sucesso da Comissão Histórica de Munique na Academia Real, que ainda era jovem durante a vida de Hegel. Historiadores designados, especialistas em estudos alemães e juristas como Karl Lamprecht, Georg von Below, Matthias Lexer ou Ferdinand Frensdorff foram seus funcionários. 

Durante a década de 1870, ele participou da controvérsia sobre a autenticidade da crônica florentina de Dino Compagni. Paul Scheffer-Boichorst foi seu antagonista. Hegel argumentou a favor da autenticidade desta crônica e estava certo.  Hegel só publicou em idade avançada. Em 1891, publicou Cidades e Guildas dos Povos Germânicos na Idade Média. Esta obra tornou-se um clássico, com boas críticas e reputação internacional (por exemplo: Friedrich Keutgen: 'Städte und Gilden der Germanischen Völker im Mittelalter'. In: The English Historical Review 8 (1893), pp. 120–127). Em 1898, publicou sua última monografia, A Origem da Vida Urbana Alemã. Hegel recebeu inúmeros prêmios por suas pesquisas.  Em 1875, tornou-se membro da Direção Central de Monumenta Germaniae Historica. Foi também membro das Academias de Munique, Göttingen, Berlim e Viena. A Universidade de Halle-Wittenberg concedeu-lhe um doutoramento honoris causa. Em 1872, recebeu a Ordem do Mérito de São Miguel e, em 1876, a Ordem Maximiliano da Baviera para a Ciência e a Arte. Em 1889, recebeu a Cruz de Cavaleiro da Ordem do Mérito da Coroa da Baviera.

                                

 Em 1891, foi admitido na Matricula do Reino da Baviera e, em 1893, foi nomeado Conselheiro Privado Real. Em 1884, o Conversations-Lexicon descrevia-o como um “conhecido professor de história”. Em 1900, ele publicou suas memórias. Ele morreu em 5 de dezembro de 1901, em Erlangen. Em 1901, o decano da faculdade de filosofia da Universidade de Erlangen, Richard Fester, o homenageou em seu elogio fúnebre sobre Karl Hegel como “Städtehegel”. Seu acervo científico está localizado em grande parte no Departamento de Manuscritos da Biblioteca Universitária de Erlangen-Nuremberg. Karl Hegel permaneceu menos conhecido que seu pai. Seu trabalho científico pode ser descrito pela fórmula “fama sem fama póstuma”. No centenário de sua morte, a Cátedra de História Moderna de Erlangen, em conjunto com a Biblioteca da Universidade de Erlangen, organizou a exposição “Karl Hegel - historiador no século XIX”, de 20 de novembro a 16 de dezembro de 2001. Palestras em memória de Karl Hegel são realizadas desde 2007. O departamento mantém viva a memória do fundador do Instituto Histórico da Universidade Friedrich-Alexander. O Departamento de História da Universidade de Erlangen-Nuremberg pesquisa a vida de Karl Hegel em diversos estudos, incluindo o de Helmut Neuhaus. Em 2012, Marion Kreis publicou seu livro sobre a importância historiográfica de Karl Hegel e conclui com este “estudo meritório” este objetivo.         

            Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) nasceu em Stuttgart, Alemanha, no  dia 27 de agosto de 1770. Recebeu esmerada educação cristã. Em 1788 ingressou no seminário de Tübingen, que cursou durante cinco anos a fim de se preparar para receber ordens. Foi colega de classe do poeta Friedrich Hölderlin (1779-1843) e do filósofo Joseph Schelling (1775-1854), que partilhavam sua admiração pela tragédia grega e pelos ideais da clássica Revolução Francesa. Os primeiros escritos de Hegel versaram sobre assuntos teológicos, mas ao concluir o curso, Hegel não seguiu a carreira eclesiástica, preferiu se dedicar ao estudo da literatura e da filosofia grega. Em 1796 mudou-se para Frankfurt, onde Hölderlin lhe conseguiu um lugar de preceptor. Em 1801 habilitou-se Livre-Docente na Universidade Friedrich Schiller de Jena (Friedrich-Schiller-Universität Jena) situada na cidade de Jena (cf. Crissiuma, 2017), na Turíngia no centro do país. É uma das dez universidades mais antigas da Alemanha, estabelecida no ano de 1558 segundo os planos do príncipe João Frederico I da Saxônia. O auge da sua reputação ocorreu sob os auspícios do duque Carlos Augusto, patrono do escritor Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), autor do clássico Fausto, poema trágico, obra prima da literatura, quando Fichte, Hegel, Schelling, Friedrich von Schlegel (1772-1829) e Friedrich Schiller do corpo docente. No seminário de Tübingen, escreveu com dois renomados colegas, os filósofos Friedrich Schelling e Friedrich Hölderlin, o que chamaram de “o mais antigo programa de sistema do idealismo alemão”. 

       Desenvolveu um sistema filosófico que denominou “Idealismo Absoluto”, uma filosofia capaz de compreender discursivamente o Absoluto. Entre 1807 e 1808 dirigiu um jornal em Bamberg. Entre 1808 e 1816 foi diretor do ginásio de Nuremberg. Em 1816 tornou-se professor da Universidade de Heidelberg. A Universidade de Heidelberg, ou, nas suas formas portuguesas, de Heidelberga ou de Edelberga, oficialmente denominada Universidade de Heidelberg Ruprecht Karl (Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg, em alemão), é uma universidade pública alemã, das mais prestigiadas universidades do país. Está estabelecida na cidade de Heidelberg, no estado de Baden-Württemberg. Foi fundada em 1386, tendo sido a terceira universidade estabelecida no Sacro Império. Seu nome latino é Ruperto Carola Heidelbergensis. Estudantes do sexo feminino passaram a ser admitidas em 1899. A Universidade é constituída de doze faculdades e oferece programas de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em cerca de 100 disciplinas, integrando o Grupo Coimbra A universidade, criada por Ruperto I, Eleitor do Palatinato, quando Heidelberg era a capital do Palatinado, e tornou-se um centro de teólogos e especialistas em leis no Sacro Império. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) a universidade entrou em decadência financeira e intelectual, e só viria a se recuperar no início do século XIX, aderindo ao pensamento democrático e de intelectuais humanistas independentes, tendo sido adotada como modelo para universidades norte-americanas.

         Não queremos perder de vista que O Mais Antigo Sistema do Idealismo Alemão é um ensaio de 1796/1797, de autoria desconhecida, possivelmente escrito por Friedrich Schelling, Georg Wilhelm Friedrich Hegel ou Friedrich Hölderlin. O documento foi publicado pela primeira vez (em alemão) por Franz Rosenzweig, que o designou como Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus. Embora o documento tenha a caligrafia de Hegel, especula-se se terá sido escrito por Hegel, Schelling, Hölderlin ou uma quarta pessoa desconhecida. Yves Bonnefoy considera que foi “certamente inspirado por Hölderlin”. Segundo Glenn Magee, a maioria dos peritos em Hegel considera-o o autor. No entanto, várias das ideias defendidas no ensaio (como o desaparecimento do Estado ou a supremacia da poesia no universo intelectual) parecem contraditórias com a filosofia hegeliana. Schelling, Hegel, e Hölderlin eram colegas de turma e de dormitório em Tübinger Stift, o seminário da Universidade de Tubinga, e eram reconhecidos magistralmente como os “Três de Tubinga”. Hegel e Hölderlin tinham 27 anos, e Schelling 22 anos.

Em 1818 em Berlim, quando ocupou a cátedra de filosofia, período em que encontra a expressão definitiva de suas concepções estéticas e religiosas. Tinha grande talento pedagógico, mas considerado mau orador, pois usava terminologias pouco usadas que dificultavam sua interpretação. Exerceu enorme influência em seus discípulos que dominaram as universidades da Alemanha. Logo passou a ser o filósofo oficial do rei da Prússia (cf. Wickert, 2013). Friedrich Hegel descreve sua concepção filosófica, no prefácio a uma de suas mais célebres obras, a Fenomenologia do Espírito (1807).  O prólogo é posterior à redação da obra. Foi escrito, passado já o tempo, quando o próprio Hegel pode tomar consciência de seu avanço e sua descoberta (cf. Silva, 2017). Tinha como objetivo assegurar o ligamento entre a Fenomenologia, a qual só aparece como a primeira parte da ciência, e a Lógica que, situando-se em uma perspectiva distinta da adotada pela Fenomenologia, deve constituir o primeiro momento abstrato da Enciclopédia. Explica-se que neste prólogo que é assim, comparativamente, como um gonzo entre a subjetividade da Fenomenologia e a objetividade Lógica, Hegel se sentira fundamentalmente preocupado em representar uma ideia geral de todo o seu sistema filosófico.

Isto é, segundo sua concepção que só deve ser justificada pela apresentação do próprio sistema, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas precisamente como sujeito. A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade reinstaurando-se, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto sua antítese, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim. Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza não seria adequada para conceituar o próprio objeto. Introduziu um sistema de pensamento para compreender a história da filosofia e do mundo (cf. Hyppolite, 1974; Labarriére, 1975) chamado geralmente dialética: uma progressão no âmbito da história e sociedade na qual cada movimento sucessivo surge, pois, como solução das contradições inerentes ao movimento anterior.

Desta forma, a Introdução (Eileintung) à Fenomenologia foi concebida ao mesmo tempo em que a obra é redatada em primeiro termo; parece, pois, que encerra o substancial pensamento do que é efetivo em  toda a obra. Verdadeiramente constitui uma Introdução em sentido literal aos três primeiros momentos de toda a obra, isto é: a consciência, a autoconsciência e a razão -, enquanto a última parte da Fenomenologia, que contêm os particularmente importantes desenvolvimentos sobre o Espírito e a Religião, ultrapassa por seu conteúdo a Fenomenologia tal como é definida stricto sensu na muito citada Introdução. Ao que parece é como se Hegel entrasse no marco de desenvolvimento fenomenológico com algo que na teoria, em princípio não deveria haver ocupado um posto nele. Não obstante, seu estudo, em maior medida que o do prólogo, nos permitirá elucidar o sentido da obra que Hegel quis escrever, assim como a técnica que para ele representa o desenvolvimento fenomenológico. Precisamente porque a Introdução não é como um Prólogo anexo posterior que contêm consideráveis informações gerais sobre o objetivo que se propunha o autor e as relações que sua obra tem com outros tratados filosóficos do mesmo tema. 

Ao contrário, de acordo com Hyppolite (1974), “a introdução é parte integrante da obra, constitui o delineamento mesmo do problema e determina os meios postos em prática para resolvê-lo”. Em primeiro lugar, Hegel define na Introdução como se coloca para ele o problema do conhecimento. Vemos como em certo aspecto retorna ao ponto de vista de Kant e de Fichte. A Fenomenologia não é uma noumenologia nem uma ontologia, mas segue sendo todavia um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia conhecer se só o Absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é Absoluto? Não obstante, em vez de apresentar o saber do Absoluto “em si para si”, Hegel considera o saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber fenomênico, mediante sua autocrítica, é como ele se eleva ao saber absoluto. Em segundo lugar, Hegel define a Fenomenologia como desenvolvimento e cultura, no sentido de seu progressivo afinamento da consciência natural acerca da ciência, isto é o saber filosófico, o saber do Absoluto; por sua vez indica a necessidade de uma evolução. Em último lugar, Hegel precisa a técnica teórica do desenvolvimento fenomenológico e em que sentido este método é precisamente obra própria da consciência que faz sua aparição na experiência, em que sentido é suscetível de ser repensado em sua necessidade pela filosofia. A lei cujo desenvolvimento necessário engendra todo o universo é a da dialética, segundo a qual toda ideia abstrata, a começar pela de ser, considerada no seu estado de abstração, afirma necessariamente a sua negação, a sua antítese, de modo que esta contradição exige para se resolver a afirmação da síntese mais compreensiva que constitui uma nova ideia, rica em desenvolvimento, ao mesmo tempo, do conteúdo das duas outras.

Na Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não fosse mais que teoria do conhecimento. E não obstante, a Fenomenologia, como têm assinalado quase todos os seus expressivos comentaristas, marca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Kant e de Fichte (cf. Salvadori, 2014). Em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber, fora da relação dialética,  poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha o saber fenomênico e o saber absoluto, mas não demonstrava os laços entre um e outro. Uma vez colocado o saber absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico por sua parte fica igualmente separado do saber Absoluto. Hegel retorna ao saber fenomênico, ao saber típico da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber absoluto que todavia não se sabe como tal.

Não apenas Fichte, mas o próprio Schelling, adverte Hösle (2007), tampouco satisfaz a exigência de uma estrutura de sistema que retorna a si mesma, pois o dualismo fichteano do eu e Não-Eu perdura, em última análise, no primeiro projeto resumido de sistema, no Sistema do idealismo transcendental. Segundo ele,  a filosofia tem, com efeito, duas partes – filosofia natural e filosofia transcendental, a qual, por sua vez, contém, entre outras coisas, filosofia prática e filosofia teórica. Schelling argumenta do seguinte modo: já que o saber seria unidade de subjetividade e objetividade, o ponto de partida da filosofia teria de ser ou o objetivo (a natureza) ou o subjetivo (a inteligência). Naquele caso, surgiria a filosofia da natureza; neste, a filosofia transcendental. No entanto, o objetivo de cada uma dessas duas ciências seria avançar na direção da outra – portanto, de um lado, “partindo da natureza chegar ao inteligente”, e, de outro, partindo do subjetivo, “fazer surgir dele o objetivo”. Esta afirmação apenas poderia fazer sentido se para Hösle, com ela se tivesse em mente que a inteligência tem de objetivar e naturalizar em atos práticos e estéticos, como Schelling tenta demonstrar no Sistema.  A segunda falha resulta da primeira. Schelling conhece, em última instância, apenas duas esferas da filosofia, as quais, na terminologia de Hegel, pertencem ambas à filosofia da realidade. Aquela estrutura que precede à ambas e que Hegel tematiza na Ciência da Lógica não tem lugar neste projeto de sistema de Schelling. É fácil ver que não se pode um renunciar a ela, e por três motivos.   

Em segundo lugar, somente desse modo se pode compreender porque ambas as partes são momentos de uma unidade. Não basta afirmar sua relação mútua, é preciso explicitar estruturas ontológicas gerais que subjazem de igual modo à natureza e à inteligência. Em segundo lugar, somente desse modo se pode tornar plausível a dependência da natureza em relação a uma esfera ideal. E, em terceiro lugar, uma filosofia natural e uma filosofia transcendental apriorísticas são inconcebíveis sem essa esfera abrangente, pois a partir de que deveriam  ser fundamentadas as primeiras suposições de ambas as filosofias da realidade? Depois de se desfazer do “resto de fichteanismo”, ainda reconhecível sobretudo na execução do Sistema do idealismo transcendental, Schelling introduziu na Apresentação, como base destas duas ciências, o Absoluto, e o definiu como identidade de subjetividade e objetividade. No entanto, não se pode deixar de ver um limite na doutrina schellinguiana do absoluto que representa um retrocesso, ficando, no mínimo, aquém de Fichte e, em certo sentido, até mesmo aquém de Kant: as categorias analíticas que Schelling utiliza para a caracterização do Absoluto são catadas e, de modo algum deduzidas do próprio Absoluto. Unidade, identidade, infinitude são determinações que Schelling toma da tradição e que, em primeiro lugar, ele não legitima em si e por si – ele apenas mostra que em sua utilização de mera identidade, antes elas que seu contrário conviriam ao absoluto, o qual é entendido como unidade de subjetividade e objetividade, e que em segundo lugar, ele nem sequer põe em um nexo causal ordenado.

Simplificadamente, segundo Vittorio Hösle (2007), o sistema pensamento de Hegel pode ser representado da seguinte forma: 1) o princípio supremo da filosofia transcendental tem de ser, com Fichte, uma estrutura iniludível e que fundamente a si mesma reflexivamente. 2) no entanto, esse princípio não pode ter nada perante si, se quer ser absoluto; sendo determinado como subjetividade, ele não pode, portanto, ser subjetividade finita, mas tem de ser com Schelling, unidade de subjetividade e objetividade ou, em terminologia hegeliana, ideia. 3) com o reconhecimento, porém, de que o Absoluto é unidade de subjetividade e objetividade, a filosofia ainda não está concluída. Antes, trata-se decisivamente de explodir o caráter pontual desse conhecimento, por quatro motivos: a) a estrutura absoluta não pode ser posta imediatamente, pois então ela mesma seria, na verdade,  uma mera abstração, da qual nada decorreria; b) apenas assim pode-se alcançar uma prova da absolutidade dessa estrutura. Mas então é necessária uma prova, mas de um modo necessariamente diferente de como elas mesmas são pressupostas pela ideia absoluta, se é que o círculo deve ser evitado; c) a determinação da exata relação entre “lógica” e “metafísica”, isto e´, entre a doutrina das categorias finitas e a ciência do princípio absoluto, é o problema  para o qual em Jena, pelo fim de sua temporada Friedrich Hegel, conseguiu encontrar uma solução que o satisfizesse até o final de sua vida, enquanto, para a maior parte das demais estruturas fundamentais de sua filosofia , ele chegou bem mais cedo a respostas que sustentou até a Enciclopédia. A ideia Absoluta origina, não apenas as categorias lógicas anteriores a ela, por meio das quais ela mesma é constituída, sem abdicar da centralidade de seu sistema, ela mesma é constituída em termos de origem assimétrica. Para resolver esse problema, oferece-se propriamente apenas um caminho. O espírito assim, reconhece Hegel já cedo contra Schelling - tem de estar acima da natureza, a qual tem de corresponder às categorias deficientes da Ciência da Lógica.      

Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético,  para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Idéia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada.

O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade.

O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

Para Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É  em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste e, segundo Hegel, enquanto momentos do seu desenvolvimento. 

Por serem elas diferenças, à uma, físicas e espirituais, seria preciso, para determinação ou descrição mais concreta, antecipar a noção do espírito cultivado. As diferenças são: 1) curso natural das idades da vida, desde a criança, desde a criança, o espírito envolvido em si mesmo – passando pela oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade ela mesma ainda subjetiva em contraste com a singularidade imediata, isto é, como o mundo presente, não conforme a tais ideais, e a situação que se encontra, em seu ser-aí para esse mundo, o indivíduo que, de outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo não está pronto (o jovem) – para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento da necessidade e racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua obra, que leva a cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade, uma confirmação e uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença efetiva e um valor objetivo (homem); até a plena realização da unidade com essa objetividade do conhecer: unidade que, enquanto real, vem dar na inatividade da rotina que tira o interesse, enquanto ideal se liberta dos interesses mesquinhos é das complicações do presente exterior (o ancião).                 

O espírito manifesta aqui sua independência da própria corporalidade, em poder desenvolver-se antes que nela torne. Com frequência, crianças têm demonstrado um desenvolvimento espiritual que vai muito mais rápido que sua formação corporal. Esse foi o caso histórico, sobretudo em talentos artísticos indiscutíveis, em particular no gênios da música. Também em relação ao fácil apreender de variados conhecimentos, especialmente na disciplina matemática; e tal precocidade tem-se mostrado não raramente também em relação a um raciocínio de entendimento, e mesmo sobre objetos éticos e religiosos. O processo de desenvolvimento do indivíduo humano natural decompõe-se então em uma série de processos, cuja diversidade se baseia sobre a relação do indivíduo para com  o gênero, e funda a diferença da criança, do homem e do ancião. Essas diferenças são as apresentações das diferenças do conceito. A idade da infância é o tempo da harmonia natural, da paz do sujeito consigo mesmo e com o mundo. Um começo tão sem-oposição quanto a velhice é um fim sem-oposição. As oposições que surgem ficam sem interesse mais profundo. A criança vive na inocência, sem sofrimento durável; no amor aos seus pais, e no sentimento de ser amado por eles.

Na Roma antiga, o gênio representava o espírito ou guia de uma pessoa, ou mesmo de uma gens inteira. Um termo relacionado é genius loci, o espírito de um local específico. Por contraste a força interior que move todas as criaturas viventes é o animus. Um espírito específico ou daimon pode habitar uma imagem ou ícone, dando-lhe poderes sobrenaturais. Gênios são dotados de excepcional brilhantismo, mas frequentemente também são insensíveis às limitações da mediocridade bem como são emocionalmente muito sensíveis, algumas vezes ambas as coisas. O termo prodígio indica simplesmente a presença de talento ou “gênio excepcional” na primeira infância. Os termos prodígio e criança prodígio são sinônimos, sendo o último um pleonasmo. Deve-se ter em consideração que é perigoso tomar como referência as pontuações em testes aplicados de QI quando se deseja fazer um diagnóstico razoavelmente correto de genialidade. Há que se levar em consideração que em todos as pontuações, e em todas as medidas, existe uma incerteza inerente, bem como os resultados obtidos nos testes representam a performance alcançada por uma pessoa em determinadas condições, não refletindo necessariamente toda a capacidade da pessoa em condições ideais. A contribuição histórica e cultura dos filósofos pré-socráticos à matemática, enquanto ciência, não são discutíveis e em grande parte fruto de tradição bem documentada.

As mais antigas evidências concretas sobre as atividades de um matemático propriamente dito referem-se a Hipócrates de Quios. Nossos conhecimentos sobre Hipócrates de Quios e outros matemáticos baseiam-se em fragmentos de suas obras e em tradições conservadas nos séculos posteriores. O mais antigo tratado matemático que chegou até nós é o Da Esfera Móvel, um estudo a respeito do valor piramidal da esfera. Dos matemáticos posteriores restam-nos diversas obras de valor desigual, dentre as quais se destaca Os Elementos, de Euclides, cuja influência persiste analiticamente. O interesse pela história da Matemática iniciou, também, na Grécia Antiga. Eudemo de Rodes um dos discípulos de Aristóteles escreveu consecutivas histórias da aritmética, da geometria e da astronomia, mas que infelizmente não foram conservadas. Durante o período greco-romano o matemático Papo de Alexandria representa um relato etnográfico sistemático da obra de seus predecessores, desde Euclides até Esporo de Niceia. Há também extensas notas explicativas sobre vários temas matemáticos e valiosas introduções aos diversos livros, nas quais Papo de Alexandria resume o tema geral e os assuntos técnico-metodológicos a serem tratados. Notabilizou-se por ser pai da filosofa Hipátia e por produzir em 390 uma versão mais elaborada da obra Os Elementos de Euclides que sobreviveu aos dias atuais. Dentre suas obras está uma que faz considerações sobre um eclipse solar em Alexandria. A mobilidade social trouxe a Atenas Hipócrates de Quios, no século V a. C., o primeiro autor de uma compilação de Elementos, em que parecem já figurar investigações ligadas à resolução do problema de Delos sobre a duplicação do cubo e à quadratura do círculo. Com a morte de Platão, seu discípulo, Têudio de Magnésia, escreveu nova compilação dos manuscritos Elementos.

Para que o gênio se manifeste num indivíduo, este indivíduo deve ter recebido como herança a soma de poder cognitivo que excede em muito o que é necessário para o serviço de uma vontade individual, segundo Schopenhauer (2001), é este excedente que, tornado livre, serve para constituir um objeto liberto de vontade, um claro espelho do ser do mundo. A través disto se explica a vivacidade que os homens de gênio desenvolvem por vezes até a turbulência: o presente raramente lhes chega, visto que ele não enche, de modo nenhum, a sua consciência; daí a sua inquietude sem tréguas; daí a sua tendência para perseguir sem cessar objetos novos e dignos de estudo, para desejar enfim, quase sempre sem sucesso, seres que se lhes assemelham, que estejam à sua medida e que os possam compreender. O homem comum, plenamente farto e satisfeito com a rotina atual, aí se absorve; em todo lado encontra seus iguais; daí essa satisfação particular que experimenta no curso da vida e que o gênio não conhece. - Quis-se ver na imaginação filosófica um elemento essencial do gênio, o que é bastante legítimo; quis-se mesmo identificar os dois, mas isso é um erro. O fato social e dinâmico é que, seja em que medida for, o certo é o incerto e o incerto a estrada reta.

O objeto ser/compreender do gênio, considerado como tal, são as ideias eternas, as formas persistentes e essenciais do mundo e de todos os seus fenômenos. Onde reina só a imaginação, ela empenha-se em construir castelos no ar a lisonjear o egoísmo e o capricho pessoal, a enganá-los momentaneamente e a diverti-los; mas neste caso, conhecemos sempre, para falar com propriedade, apenas as relações das quimeras assim combinadas. Talvez ponha por escrito os sonhos da sua imaginação: é daí que nos vêm esses romances ordinários, de todos os gêneros, que fazem a alegria do grande público e das pessoas semelhantes aos seus atores, visto que o leitor sonha que está no lugar do herói, e acha tal representação bastante agradável.  A história da matemática é uma área de estudo dedicada à investigação sobre a origem das descobertas da matemática e, em uma menor extensão, à investigação dos métodos matemáticos e aos registros etnográficos ou notações matemáticas do passado. A matemática islâmica, por sua vez, desenvolveu e expandiu a matemática conhecida destas civilizações. Muitos textos gregos e árabes sobre matemática foram então traduzidos ao Latim, o que contribuiu com o desenvolvimento da matemática na Europa medieval. Dos tempos antigos à Idade Média, a eclosão da criatividade matemática foi frequentemente por séculos de estagnação. Começando no Renascimento e a partir daí a revelação de novos talentos e progressos técnicos da matemática, interagindo com as descobertas científicas, realizados de forma crescente, continuando decerto sem paixão.

Deve ser suprassumida como essa unidade imediata do indivíduo com seu gênero e com o mundo em geral; é preciso que o indivíduo progrida a ponto de se contrapor ao universal, como a Coisa assente-para-si, pronto e subsistente; e de apreender-se em sua autonomia. Essa autonomia, essa oposição, primeiro se apresenta em uma figura tão unilateral quanto, na criança, a unidade do subjetivo e do objetivo. O jovem desagrega a ideia efetivada no mundo, de modo a atribuir-se a si mesmo a determinação do substancial: o verdadeiro e o bem; e atribui ao mundo, pelo contrário, a determinação do contingente, do acidental. Não se pode ficar nessa oposição não-verdadeira: o jovem deve, antes, elevar-se acima da dela à inteligência de que, ao contrário, deve-se considerar o mundo como o substancial, e o indivíduo, inversamente, só como um acidente; e que portanto o homem só pode encontrar sua ativação e contentamento essenciais no mundo que se lhe contrapõe firmemente, que segue seu curso com autonomia; e que, por esse motivo, deve conseguir a aptidão necessária para a Coisa. Chagado a esse ponto de vista, o jovem tornou-se homem. Pronto em si mesmo, o homem considera também a ordem ética do mundo não como a ser produzida só por ele, mas como uma ordem pronta, no essencial. Assim ele é ativo pela Coisa, não contra ela; assim se mantém elevado, acima da subjetividade unilateral do jovem, no ponto de vista da espiritualidade objetiva. A velhice, ao contrário,  é o retorno ao desinteresse pela Coisa; o ancião habituou-se a viver dentro da Coisa, e por causa dessa unidade (que faz perder a oposição em relação à Coisa) renuncia à atividade de interesse.

É bem verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma coo tal, que afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um sistema de pensamento; então teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro. Com isso não haveria, absolutamente nenhum outro ingrediente,  naquilo que é para a consciência, a não ser o conceito que é a essência. Porém, aqui o conceito enquanto abstração, separando-se da multiplicidade variada das coisas, não tem conteúdo nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é conceito determinado e justamente essa determinidade é o alheio que o conceito possui nele.  

Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e no entanto uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento. E a isto Hegel chama “o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto de pensamento, é ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. O desenvolvimento do espírito é um desprendimento, um desdobrar-se, e por isso, ao mesmo tempo, um desafogo.

No que toca mais precisamente a um dos lados da educação, melhor dizendo, à disciplina, não se há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele deve obedecer para aprender a mandar. A obediência é o começo de toda a sabedoria; pois, por ela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o objetivo, e não faz deles  o seu fim, pelo que ainda não é verdadeiramente autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz que em si vigore a vontade racional que lhe vem de fora, e que pouco a pouco esta se torne a sua vontade. O capricho deve ser quebrado pela disciplina; por ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No começo, a passagem de sua vida ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem como uma dolorosa  passagem à vida de filisteu. Até então preocupado apenas com objetos universais, e trabalhando só para si mesmo, o jovem que se torna homem deve, ao entrar na vida prática, ser ativo para os outros e ocupar-se com singularidades, pois concretamente se se deve agir, tem-se de avançar em direção ao singular. Nessa conservadora produção e desenvolvimento do mundo consiste o trabalho do homem. Podemos, pois, de um lado dizer que o homem só produz o que já existe. É necessário que um progresso individual seja efetuado. Mas o progredir no mundo só ocorrer nas massas, e só se faz notar em uma grande somas de coisas produzidas. Ipso facto, a consciência moral não pode renunciar à felicidade.

E nem descartar de seu fim absoluto esse momento. O fim, como representação de um resultado, enunciado como puro dever, implica essencialmente nele que contém essa consciência singular. A convicção individual, e o saber a seu respeito, constituem um momento absoluto dessa moralidade. Esse momento no fim que se tornou objetivo, no dever cumprido, é a consciência singular que se intui como efetivada; ou seja, é o gozo. O gozo, por isso, reside no conceito da moralidade; de certo, não imediatamente, da moralidade considerada como disposição, mas só no conceito de sua efetivação. O fim como o todo, expresso com a consciência de seus momentos, consiste, pois, em que o dever cumprido seja tanto pura ação moral, quanto individualidade realizada; e que a natureza, como lado da singularidade , em contato com o fim abstrato, seja um com o fim. Aquele fim total, que a harmonia constitui, contém em si a efetividade mesma. Ao mesmo tempo, é o pensamento da efetividade. A harmonia da moralidade e da natureza, ou harmonia da moralidade e da felicidade – pois a natureza só é tomada em consideração enquanto a consciência experimenta a unidade com ela, é pensada como algo necessariamente essente, ou seja, é postulada. Com efeito, no trabalho, nessa condição humana, exigir significa que se pensa algo essente que ainda não é efetivo: uma necessidade não do conceito como conceito, mas do ser. A necessidade ao mesmo tempo, essencial, a relação através do conceito.

O ser exigido não pertence assim ao representar  da consciência contingente, senão que reside no conceito da moralidade mesma, cujo verdadeiro conteúdo é a unidade da consciência pura e consciência singular. À essa última compete que essa unidade  seja para ela como uma efetividade; o que no conteúdo do fim é felicidade, mas, na sua forma, é ser-aí em geral. Este ser-aí exigido, ou a unidade articulada dos dois, não é por isso um desejo, ou – considerado como fim – não é um fim cuja obtenção seria ainda incerta, mas é uma exigência da razão; ou seja, é imediata certeza e pressuposição da razão mesma. Nesse conflito entre a razão e a sensibilidade, a essência para a razão, é que o conflito sociologicamente se resolva; e que emerja, como resultado, a unidade dos dois – que não é a unidade originária em que ambos estão em um indivíduo só, mas uma unidade que procede da conhecida oposição dos dois. Tal unidade somente é a moralidade efetiva porque nela está contida a oposição pela qual o Si é consciência – ou só agora é efetivo; e de fato, é Si e ao mesmo tempo, universal. Ou seja, está aí expressa aquela mediação que, como vimos, é essencial à moralidade.

Como, comparativamente entre os dois momentos da oposição, a sensibilidade é simplesmente o ser-outro ou o negativo – e ao contrário, o puro pensar do dever é a essência da qual nada se pode abandonar – parece que a unidade resultante só pode efetuar-se mediante o suprassumir da sensibilidade. Como ela mesma é um momento desse vir-a-ser – o momento da efetividade – assim há que contentar-se por enquanto, no que respeita à unidade, com a expressão de que “a sensibilidade é conforme à moralidade”. A consciência mesma tem de efetuar essa harmonia, e de fazer sempre progressos na moralidade. Mas a perfeição dessa harmonia tem de ser remetida ao infinito, pois se ela efetivamente ocorresse, a consciência moral se suprimiria. A perfeição, portanto, não há que atingi-la efetivamente, mas só há que pensa-la como uma tarefa absoluta, isto é, como uma tal que permanece tarefa, pura e simplesmente. No entanto há que pensar, ao mesmo tempo simular, o conteúdo dessa tarefa como um conteúdo que simplesmente deva ser, e que não permaneça apenas tarefa; quer se represente, ou não, a consciência totalmente abolida. Pela consideração de que a moralidade consumada encerra uma contradição, se lesaria a santidade da essencialidade moral antropológica e o dever absoluto pareceria como algo inefetivo.    

Bibliografia geral consultada.

HYPPOLITE, Jean, Genesis y Estructura de la Fenomenología del Espíritu de Hegel. Barcelona: Ediciones 62, 1974; LABARRIÉRE, Pierre-Jean, Structures et Mouvement Dialectique dans la Phénoménologie de L’Esprit de Hegel. Paris: Éditions Aubier, 1975; MENESES, Paulo, Para Ler a Fenomenologia do Espírito-Roteiro. São Paulo: Edições Loyola, 1985; GALÁN, Ilia, “Análisis Critico de la Bibliografía Española de Fi W. J. Schelling”. In: Revista General de Información y Documentación, Vol. 8, n° 2, 1998: 273-283; GADAMER, Hans-Georg, La Dialéctica de Hegel. Cinco Ensayos Hermenéuticos. 5ª edición. Madrid: Ediciones cátedra, 2000; HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich, Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio (1830).Volume III – A Filosofia do Espírito. São Paulo: Editora Loyola, 1995; Idem, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007;  HÖSLE, Vittorio, O Sistema de Hegel. O Idealismo da Subjetividade e o Problema da Intersubjetividade. São Paulo: Editora Loyola, 2007; NICOLAU, Marcos Fabiano Alexandre, O Conceito de Formação Cultural (Bildung) em Hegel. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira. Faculdade de Educação. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2013; CRISSIUMA, Ricardo, A Formação do Jovem Hegel (1770-1800): Do Esclarecimento do Homem Comum ao Carecimento da Filosofia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2017; SILVA, Paulo Roberto Pinheiro da, O Paradoxo do Conhecimento Imediato ou o Desespero da Consciência Natural. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; SOUTO, Caio Augusto Teixeira, Georges Canguilhem. O Devir de um Pensamento. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2019; ARAÚJO, Vitor Vasconcelos de, A Constituição da Subjetividade: Hegel e a Ordem das Sucessões Cumulativas. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2020; entre outros.