sábado, 5 de dezembro de 2020

The Boswell Sisters – Jazz Vocal, Afinidade & Vocação Profissional.

 Uma dependência voluntária é o mais belo estado; e como seria isso possível sem amor?”. Johann von Goethe                 

         O Esclarecimento exprime o movimento real da sociedade burguesa como um todo sob o aspecto da encarnação de sua Ideia em pessoas e instituições, assim também a verdade não significa meramente a consciência relacional, mas, do mesmo modo, a figura que esta assume na realidade efetiva. O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos que, no entanto, já estão pré-moldados como clichês na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem se conformar. Ao tachar de compilação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da mais profunda cegueira. É característico de uma situação sem saída que até mesmo o mais honesto dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde por trás dele, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper. A “falsa clareza”, a ilusão em relação à realidade em si é apenas uma outra expressão do mito. Este na história da humanidade sempre foi obscuro e iluminante ao mesmo tempo. Suas credenciais tem sido desde sempre a familiaridade e o fato social de dispensar o trabalho característico do conceito. 

         A aporia com que defrontamos em nosso trabalho cotidiano revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma, afirmavam Adorno e Horkheimer (1985) – e nisso reside nossa petitio principi - de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonado a seus inimigos e reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também a sua relação social com a verdade. A disposição enigmática das massas educadas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo, sua afinidade autodestrutiva com a paranoia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta socialmente fraqueza e a dúvida sobre o poder de compreensão do pensamento teórico no âmbito científico. A causa da recaída do esclarecimento não deve ser buscada tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas especificamente idealizadas em vista dessa recaída, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade. A naturalização dos homens não é dissociável do progresso social. O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. 

        O indivíduo se vê per se anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o poder a sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela per se destinados. A elevação do padrão de vida das classes subalternas, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se da difusão hipócrita do espírito. Sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizando em um bem cultural e distribuído paras fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo. O que está em questão não é simplesmente a cultura como valor. A questão é que o esclarecimento deve tomar consciência de si mesmo, se os homens não forem traídos. Não se trata da ideia de “conservação/superação” hegeliana (2001) do passado, mas de resgate-esperança. O passado se prolonga como sua própria destruição. No trajeto social para a concepção de ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa representou apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as ideias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador.                                    


Com as Ideias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico. O esclarecimento, porém, reconheceu as antigas potências no legado platônico e aristotélico da metafísica e instaurou um processo contra a pretensão de verdade dos universais, acusando-a de superstição. Na autoridade dos conceitos universais ele crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza. Doravante, a matéria era dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de qualidades ocultas. O que não submete ao critério da calculabilidade e da utilidade de uso torna-se suspeito para o esclarecimento. Mas cada resistência cultural que ele encontra serve apenas para aumentar a sua força social. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos. Quaisquer que sejam os mitos de que possam se valer a resistência, o simples fato social de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade decerto corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é totalitário. Para ele, o elemento social e humano básico do mito foi sempre o antropomorfismo, a projeção do subjetivo na natureza.

          A cultura respeitável constituiu até o século dezenove um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século vinte o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho gigantesco. Talvez não fosse um preço tão alto, como acreditam alguns defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário. Nas condições atuais, os próprios bens da fortuna convertem-se em elementos de infortúnio. Enquanto no período passado a massa desse bens, na falta de um sujeito social, resultava na chamada superprodução, em meio às crises da economia interna, ela produz com a entronização dos grupos que  detém o poder no lugar desse sujeito social, a ameaça internacional do monopólio ligado aos grupos econômicos, com a entronização do grupos que detêm o poder no lugar desse sujeito que procura tornar inteligível o entrelaçamento da racionalidade e da realidade social, bem como o entrelaçamento, inseparável do primeiro, da natureza e da dominação da natureza. No centro estão os conceitos de sacrifício e renúncia, nos quais revelam tanto a diferença quanto a unidade da natureza mítica e do domínio esclarecido da natureza. Ele mostra como a submissão de tudo aquilo que é natural ao sujeito autocrático culmina exato no domínio de uma natureza e uma objetividade cegas.

Essa tendência, segundo Adorno e Horkheimer, aplaina as antinomias do pensamento liberal, em especial a do rigor moral e absoluta amoralidade. No sentido do progresso do pensamento, o conceito de esclarecimento tem perseguido o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento representava o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber. A credulidade, a aversão à dúvida, a temeridade no responder, o vangloriar-se com o saber, a timidez no contradizer, o agir por interesse, a preguiça nas investigações pessoais, o fetichismo verbal, o deter-se em conhecimentos parciais: isto e coisas semelhantes impediram um casamento feliz do entendimento humano com a natureza das coisas e o acasalaram, em vez disso, a conceitos vãos e experimentos erráticos: o fruto da prosperidade de tão gloriosa união pode-se imaginar. A imprensa não passou de inovação grosseira; a bússola era, até certo ponto reconhecida. Mas que mudanças essas três invenções produziram – uma na ciência, a outra na guerra, a terceira nas finanças, no comércio e na navegação. Apenas presumimos dominar a natureza, estamos submetidos à sua necessidade; se nos deixássemos guiar por ela na invenção, nós a comandaríamos na prática.  Desencantar o mundo é destruir o animismo. O sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural. 

       Todas as figuras míticas podem se reduzir, segundo o Esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, ao sujeito. A resposta de Édipo ao enigma da esfinge: - “É o homem!” é a informação estereotipada invariavelmente repetida pelo esclarecimento, não importa se este se confronta com uma parte de um sentido objetivo, o esboço de uma ordem, o medo de potências maléficas ou a esperança da redenção. E antemão, o esclarecimento só reconhece como ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade.  Sei ideal é o sistema do qual se pode deduzir toda e cada coisa. Não é nisso que sua versão racionalista se distingue da versão empirista. Embora as diferentes escolas interpretassem de maneira diferente os axiomas, a estrutura da ciência unitária era sempre a mesma. O postulado baconiano de una scientia universalis é, apesar de todo o pluralismo das áreas de pesquisa, tão hostil ao que não pode ser vinculado, quanto ao mathesis universalis de Leibniz à descontinuidade. A multiplicidade das figuras se reduz à posição e à ordem, a história ao fato, as coisas à matéria. Com Bacon, entre os primeiros princípios e os enunciados observacionais deve subsistir uma ligação lógica unívoca, medida por graus de universalidade. De Maistre zomba de Bacon por cultivar “une idole d`échelle”.  A lógica formal era a grande escola da unificação. Ela oferecia aos esclarecedores o esquema da calculabilidade do mundo.              

The Boswell Sisters tem como representação social um grupo de cantoras de harmonia fechada, formado pelas irmãs Martha Boswell Lloyd (1905-1958), Connee Boswell, originalmente Connie (1907-1976), e Helvetia Vet Boswell (1911-1988), reconhecido por harmonias de afinidade eletiva e experimentação rítmica. Alcançaram destaque nacional nos Estados Unidos da América na década de 1930. As irmãs passaram a ser bem conhecidas em Nova Orleães enquanto ainda no início de suas adolescências, fazendo participações em teatros locais e na mídia emergente do rádio. O conceito ocupa um lugar importante no ensaio A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904) por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais “afinidades eletivas”, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material. 

No início da década de 1920, elas estavam se apresentando nos teatros locais de vaudeville, com um ato que combinavam esteticamente clássicos, semi-clássicos e estilos de jazz, embora, à medida em que a popularidade delas aumentava, os clássicos tenham ficado para trás. As irmãs se apresentavam como fariam por praticamente toda a sua carreira: Marta e Connee sentadas ao piano, com Vet de pé atrás. Esse arranjo servia para disfarçar a incapacidade para andar de Connie, condição cuja origem nunca foi totalmente confirmada. Um ataque de poliomielite e um acidente de kart são as duas principais hipóteses, e Connie fez uso de ambas em várias fontes de mídia. Uma teoria sustenta que Meldania tenha forjou a estória do acidente de kart, a fim de poupar a filha do estigma que acompanha a doença. Enquanto processo de convergência por afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores (comunitários), a certas opções ético-políticas (a solidariedade com os pobres), a utopias do futuro (uma sociedade sem exploração nem opressão). E na medida em que a Teologia da Libertação é a expressão de uma práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Charles Wright Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas especializadas como a New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead (1901-1978). A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. 

A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto, o sociólogo Max Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator sociológico unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo.  No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa, que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. 

Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de “webero-marxismo” (cf. Löwy, 2014). No entanto, comparativamente diferente da interpretação marxista, que privilegia a análise abstrata sobre os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com a análise dialética de Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas.  Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade Eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”.         

Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Existe o ensaio de Richard Howe (1978) com utilidade sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de kantiano não é muito pertinente. Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual “afinidade eletiva”, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”. A contribuição social é a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992).

O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado historicamente para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo “attractio electiva” aparece pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De Attractionjibus Electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o título de Traité des Affinités Chimiques ou Attractions électives (1788). Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, isto é, a afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens.

O termo se torna uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas. Essa transposição de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês.  Foi na Alemanha que ele passou por sua terceira metamorfose literária científica: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber (1864-1920), em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer. 

Do ponto de vista disciplinar de formação Martha, Connie e Vet estudaram piano clássico, violoncelo e violino, respectivamente, sob a tutela do professor Otto Finck da Universidade de Tulane. Eles apresentavam seu repertório clássico em recitais locais, frequentemente como um trio, mas a cena do jazz da cidade rapidamente os conquistou, pessoal e profissionalmente. “Estudamos música clássica... e estávamos sendo preparados para o palco e uma turnê de concertos pelos Estados Unidos, mas o saxofone nos pegou”, disse Martha em uma entrevista de 1925 ao Shreveport Times. Além de proporcionar aos jovens Boswells uma educação musical clássica formal, Meldania Boswell levava seus filhos regularmente para assistir aos principais artistas afro-americanos no renomado Lyric Theatre. Embora artistas e público negros e brancos da época normalmente fossem segregados, o Lyric Theatre oferecia um programa chamado “Midnight Frolics” para um público exclusivamente branco. Lá, a jovem Connie ouviu Mamie Smith, cujo “Crazy Blues” (1920), o primeiro disco de vinil de blues gravado por uma afro-americana, foi um sucesso. Mais tarde, Connie imitou o estilo de Smith no primeiro disco dos Boswells, “I`m Gonna Cry (Cryin` Blues)”, e depois estabeleceu seu próprio estilo vocal.

 Como muitas famílias de classe média do Sul dos Estados Unidos, a família Boswell empregava estrategicamente empregadas domésticas negras que, nesse ambiente musical familiar, eram bem-vindas para cantar enquanto trabalhavam, e as meninas costumavam se solidarizar ao coro. Helvetia, em particular, lembrava-se de que sua governanta, chamada Tia Rhea, cantava “canções de ninar afro-americanas tradicionais para ela na hora de dormir”. Em entrevistas, as irmãs recordaram-se de dirigir por Nova Orleans ouvindo sons novos e interessantes, que frequentemente encontravam quando estavam do lado de fora de igrejas e bares afro-americanos do Bairro Francês ou quando ouviam músicos de rua no Mercado Francês. A outra principal influência vocal de Connie foi o lendário tenor de ópera italiano Enrico Caruso (1873-1921), a quem ela viu se apresentar no Athenaeum em Nova Orleans: “Eu costumava sentar e ouvir e ficar maravilhada com sua respiração. Então eu tentava fazer o que ele estava fazendo. Eu respirava fundo e atingia muitas notas”. À medida que seu irmão mais velho, Clydie, começava a se afastar da música clássica para estudar jazz, ele apresentou suas irmãs ao estilo sincopado e a muitos dos extraordinários jovens músicos de jazz de Nova Orleans.

Leon Roppolo (clarinete, guitarra), Monk Hazel (bateria, corneta), Pinky Vidacovich (clarinete, saxofone), Nappy Lamare (guitarra, banjo), Ray Bauduc (tuba, vocal), Dan LeBlanc (tuba), Leon Prima (trompete), Louis Prima (trompete, vocal), Wingy Manone (trompete, vocal), Al Gallodoro (clarinete, saxofone), Chink Martin (baixo, tuba, guitarra), Santo Pecora ( trombone ), Raymond Burke (clarinete, saxofone) e Tony Parenti (clarinete, saxofone) eram convidados frequentes na casa dos Boswell. Norman Brownlee (1896-1967) e sua banda também participavam regularmente das noites musicais na casa dos Boswell. Norman Edward Brownlee nasceu em Argel, Paróquia de Orleans, Louisiana. Ele foi um músico de jazz pioneiro e liderou uma orquestra muito popular em Nova Orleans na década de 1920, a Brownlee`s Orchestra of New Orleans. Ele também se apresentou com muitas orquestras e músicos conhecidos. Segundo consta, o pai, AC Boswell, tentou, sem sucesso, limitar essas visitas a apenas uma noite por semana. As irmãs foram particularmente influenciadas pelo cornetista de Brownlee, Emmett Louis Hardy, outro amigo de Clydie, cujo talento e habilidade, amplamente reconhecidos, ajudaram a moldar o conhecimento das irmãs sobre harmonia, síncope e improvisação no jazz. Hardy e Clydie morreram jovens e sem deixar vestígios, Hardy de tuberculose aos 22 anos e Clydie de complicações relacionadas à gripe espanhola aos 18 anos. Após se interessar por jazz, Vet começou a tocar banjo e guitarra, e Connie, saxofone e trombone. Martha continuou tocando piano, mas se concentrou nos ritmos e expressões do ragtime e do hot jazz. 

Em 1925, elas fizeram sua primeira gravação para a Victor Records. Depois de sair em turnê com uma companhia de vaudeville, pelo Arkansas, pelo Texas e por Oklahoma, as irmãs chegaram a Los Angeles em 1929. Elas apareceram em programas de rádio e gravaram músicas para “serem dubladas em filmes”. No entanto, a banda Boswell Sisters não obteve a atenção da nação até elas se mudarem para a cidade de Nova York em 1930 e começarem a fazer transmissões de rádio a nível nacional. Elas tiveram um programa na Columbia Broadcasting System de 1931 a 1933. Ela teve origem na United Independent Broadcasts, Inc., uma rede de rádio fundada em Chicago pelo agente de talentos de Nova Iorque Arthur Judson um executivo estadunidense em 27 de janeiro de 1927. Ele era o segundo maior acionista individual da CBS, do qual foi fundador. A Columbia Phonograph Company, controladora da gravadora Columbia Records, investiu na rede, que passou a se chamar Columbia Phonographic Broadcasting System. No início de 1928, Arthur Judson e a Columbia venderam a rede aos irmãos Isaac e Leon Levy, proprietários da afiliada WCAU, de televisão localizada na Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos junto de seu parceiro Jerome Louchheim. Eles nomearam William S. Paley, parente dos Levy, como presidente da rede. Com a saída da Columbia, Paley rebatizou a empresa como Columbia Broadcasting System (CBS). Depois de algumas gravações para a OKeh, em Los Angeles, em 1930, as Boswell Sisters fizeram registros para Brunswick Records de 1931 a 1935.

Estes registros são amplamente considerados como “um marco de gravações de jazz vocal”. As regravações de melodias e ritmos de canções populares de Connee, junto com arranjos de Glenn Miller e músicos de jazz nova-iorquinos, incluindo os Irmãos Dorsey, Benny Goodman, Bunny Berigan, Fulton McGrath, Joe Venuti, Arthur Schutt, Eddie Lang, Joe Tarto, Manny Klein, Pau McDonough, e Carl Kress, tornaram essas gravações realidade únicas. As melodias foram rearranjadas e desaceleradas, tons maiores foram alterados para tons menores, às vezes no meio da música, e inesperadas alterações rítmicas. Elas em suas afinidades eletivas estavam entre os poucos artistas que   foram autorizados a fazer alterações às músicas populares de seu tempo; durante esta época, editoras musicais e gravadoras pressionavam artistas para não alterarem os arranjos conhecidos de músicas populares. Connee também gravou uma série de solos mais convencionais para Brunswick durante o mesmo período. As Boswell Sisters apareceram em filmes durante este tempo. Elas cantaram sua canção de 1934, Rock and Roll, no filme Transatlantic Merry-Go-Round, com o uso inicial da expressão rock ´n` roll, referindo-se na canção ao “ritmo balançante e suave do mar”. Elas cantaram a animada “Shout, Sister, Shout” (1931), composta por Clarence Williams, no filme The Big Broadcast (1932) com Bing Crosby e Cab Calloway. A música também foi destaque no programa Boardwalk Empire. A canção, uma das marcas musicais das irmãs, last but not least, foi descrita numa edição da revista de música Mojo como “de forma nenhuma tão arcaica quanto sua idade”.

As Boswell Sisters lançaram até 20 sucessos durante a década de 1930, incluindo a campeã “The Object of My Affection” (1935). De nota especial é a sua participação em várias gravações de concertos em doze polegadas de Red Nichols, de Victor Young e de Don Redman e sua gravação de 1934 de “Darktown Strutters` Ball”, que foi lançada apenas na Austrália. Elas também realizaram duas turnês bem-sucedidas na Europa, que apareceram na transmissão inaugural de televisão da CBS, e se apresentaram no Hello, Europe, o primeiro programa de rádio transmitido internacionalmente. Elas estavam entre as primeiras estrelas do rádio, e num primeiro ato de sucesso da “indústria cultural” de massas. Em 1934, as irmãs apareceram treze vezes no programa Bing Crosby Diverte na CBS. Eles foram apresentados no ventilador revistas, e suas imagens foram usadas em propagandas de produtos de beleza de uso doméstico. Durante o início da década de 1930 as Boswell Sisters, as Three X Sisters, e Pickens Sisters foram a influência dos primeiros grupos vocais femininos no rádio. As Andrews Sisters começaram como imitadoras das Boswell Sisters. 

A jovem Ella Fitzgerald amava as Boswell Sisters e, em particular, idolatrava Connee, a cujo estilo de “cantar ela moldou o seu próprio”. A necessidade que talvez pudesse escapar ao controle central já é recalcada pelo controle da consciência individual. A dependência em que se encontra a mais poderosa sociedade radiofônica em face da indústria elétrica, ou a do cinema relativamente aos bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos setores individuais por sua vez interpenetram numa confusa trama de nível econômica. A unidade implacável da indústria cultural atesta a unidade em formação da política. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massa é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem a dúvida quanto à necessidade social de seus produtos. Os próprios meios técnicos e sociais tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa a síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtores da indústria cultura pode vir a triunfar abertamente na realização escarninha do “sonho wagneriano” da obra de arte total.

A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito que no caso Tristão, porque os elementos sensíveis – que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social, são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desce a concepção do romance que tinha de certo modo um olho voltado para o cinema até o efeito sonoro da sonoplastia. Ele é o trinfo do capital investido. Em seu lazer, as pessoas devem se orientar por essa unidade de trabalho que caracteriza a produção. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente. Na alma devia atuar um mecanismo secreto destinado a preparar os dados imediatos de modo a se ajustarem ao sistema de razão pura. Mas o segredo está decifrado. Muito embora o planejamento pela indústria cultural seja imposto a esta pelo peso da sociedade que permanece irracional apesar de toda racionalização, essa tendência fatal é transformada em sua passagem pelas agências do capital do modo a aparecer com seu sábio desígnio. A suprema ideia de Hegel é inexorável. O homem é essencialmente razão. O homem, como representação da existência, como o culto e o inculto, é absolutamente razão. A possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada na vida a cada um.  

A razão, segundo Hegel, não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja eternamente livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade. A consciência, quando pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é conceito determinado e justamente essa determinidade é o alheio que o conceito possui nele.

  Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento. E a isto Hegel chama “o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto de pensamento, é ele mesmo como relação de descobrimento. Ele é um desembocar em seu outro. O desenvolvimento do espírito é desprendimento, desdobrar-se, e por isso, ao mesmo tempo, um desafogo.

No que toca mais precisamente a um dos lados da educação, melhor dizendo, à disciplina, não se há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele deve obedecer para aprender a comandar. A obediência é o começo de toda a sabedoria; pois, por ela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o objetivo, e não faz deles o seu fim, pelo que ainda não é verdadeiramente autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz que em si vigore a vontade racionalmente que lhe vem de fora, e que pouco a pouco esta vida prática se torne a sua vontade. O capricho deve ser quebrado pela disciplina; por ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No começo, a passagem de sua vida ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem como uma dolorosa passagem à vida de filisteu. Até então preocupado apenas com objetos universais, e trabalhando só para si mesmo, o jovem que se torna homem deve, ao entrar na vida prática, ser ativo para os outros e ocupar-se com singularidades, pois concretamente se se deve agir, tem-se de avançar em direção ao singular. Nessa conservadora produção e desenvolvimento do mundo consiste no trabalho do homem. Podemos, pois, de um lado dizer que o homem só produz o que já existe. É necessário que um progresso individual seja efetuado.                 

Mas o progredir no mundo contemporâneo em que só pode ocorrer nas massas, e só se faz notar desta forma em uma grande soma de coisas produzidas. Ipso facto, a consciência moral não pode renunciar à felicidade da vida. A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que para que as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva.

Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais corre a princípio só e sem rival. Para o consumidor, entretanto, não há quase nada mais a classificar que não tenha sido antecipado ao esquematismo da produção. A arte sem sonho destinada ao povo, diziam os magnânimos Adorno & Horkheimer (1985: 103), realiza aquele idealismo sonhador que ia longe demais para o idealismo crítico. Tudo vem da consciência, em Malebranche e Berkeley da consciência de Deus; na arte para as massas, da consciência terrena das equipes de produção. Não somente os tipos das canções de sucesso, os astros, as novelas ressurgem ciclicamente como invariantes fixos, mas o conteúdo específico do espetáculo é ele próprio derivado deles e só varia na aparência. A breve sequência de intervalos, fácil de memorizar, como demonstrou a canção de sucesso; o fracasso temporário do herói, que ele sabe suportar como “good sport” que é; a boa palmada que a namorada recebe da mão forte do astro; sua rude reserva em face da herdeira mimada são, como todos os detalhes, são clichês exatamente prontos para serem empregados arbitrariamente e completamente definidos pela finalidade esquematicamente. Confirmá-lo, compondo-o, eis aí sua razão de ser. No começo do filme já se sabe como ele termina, quem é recompensado. 

Ao escutar a música ligeira, o ouvido treinado é perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos, de adivinhar o tema e sente-se feliz como está previsto. O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural. A experiência do espectador de cinema, como um prolongamento do filme porque este pretende ele próprio reproduzir o mundo da percepção cotidiana tornou-se a norma da produção. Quanto maior a perfeição com que suas técnicas duplicam os objetos empíricos, mais fácil se torna a ilusão de que o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se descobre no filme. Desde a súbita introdução do filme sonoro, a reprodução mecânica põe-se ao inteiro serviço desse projeto. Ultrapassando de longe o teatro das ilusões, o filme não deixa mais à fantasia e ao pensamento dos espectadores nenhuma dimensão na qual estes possam, sem perder o fio, passear e divagar no quadro da obra fílmica permanecendo, no entanto, livres do controle de seus dados exatos, e é assim precisamente que o filme adestra o espectador entregue a ele para se identificar imediatamente com a realidade. A atrofia da imaginação social e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser sempre reduzida a mecanismos psicológicos, embora úteis. São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos. Quem está tão absorvido pela tensão estabelecida mediante o lugar de abertura no filme, que não precisa lhe acrescentar aquilo que faz um universo, não precisa estar dominado pelos efeitos per se dessa maquinaria social.

Em 1936, o grupo assinou com a Decca, mas depois de apenas três discos elas se separaram. A última gravação foi em 12 de fevereiro de 1936. Connie Boswell continuou a ter uma bem sucedida carreira solo como cantora para a Decca. Ela mudou a grafia de seu nome de Connie para Connee na década de 1940, supostamente porque ficava mais fácil para assinar autógrafos. Quando ela tentou se envolver com as turnês além-mar da L`United Service Organizations (USO) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ela não foi teve permissão para participar devido a causa de ser portadora de deficiência. Grupos posteriores, the Pfister Sisters, the Stolen Sweets, Boswellmania, the Puppini Sisters, YazooZazz, o espanhol O Sister! O trio italiano Sorelle Marinetti, e a banda israelense The Hazelnuts, imitaram as gravações das irmãs. A Company B Jazz Band do Canadá inclui muitos arranjos das Bowell Sisters em seu repertório e até criou um set saudando a apresentação delas em Transatlantic Merry-Go-Round para a capa de seu segundo álbum, Rock & Roll. The Ditty Bops fazem cover das canções das Boswells em concertos. O Caffeine Trio do Brasil também afirma ter sido influenciado por elas. Também há um grupo australiano, o Boswell Project, baseado em Adelaide, Austrália Meridional. O trio harmônico londrino, The Haywood Sisters também regravaram alguns hits das Boswell Sisters e são bastante influenciadas pelo estilo delas.

Em 2001, The Boswell Sisters, um grande musical baseado em suas vidas, foi produzido no Old Globe Theatre, em San Diego, Califórnia. A peça estrelava Michelle Duffy, Elizabeth Ward Land, e Amy Pietz e foi produzida pela mesma equipe que produziu Forever Plaid é uma revista musical Off-Broadway escrita por Stuart Ross, que estreou em Nova York em 1989 e agora é apresentada internacionalmente. O espetáculo é uma revista musical que homenageia os grupos vocais masculinos de harmonia fechada como The Four Aces e The Four Freshmen que atingiram o auge de sua popularidade na década de 1950. Personificando esse gênero de aparência impecável, estão os Plaids. O sonho desse quarteto de amigos do ensino médio de gravar um álbum terminou em tragédia em uma colisão com um ônibus lotado de alunas de uma escola católica a caminho da estreia americana dos Beatles no The Ed Sullivan Show. A revista começa com os Plaids retornando do além para uma última chance de alcançar a glória musical. O show foi um sucesso de público e de crítica, mas não conseguiu ser escolhido para uma ansiada temporada na Broadway. As Boswell Sisters foram indicadas para o Hall da Fama dos Grupos Vocais em 1998. Em cerimônia celebrada pelas Pfister Sisters, as Boswells foram indicadas para a Music Hall da Fama da Louisiana, em 2008. Em 2014, a filha e a neta de Vet publicaram The Boswell Legacy, o primeiro livro abrangente sobre a vida deste grupo tão brilhante e influente.

Bibliografia Geral Consultada.

CLAGHORN, Charles Eugene, Biographical Dictionary of American Music. EUA: Parker Publishing Company, 1973; TOURAINE, Alain, La Voix et le Regard. Paris: Éditions du Seuil, 1978; HORKHEIMER, Max, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; NICHOLSON, Stuart, Ella Fitzgerald: A Biography of the First Lady of Jazz. New York: C. Scribner`s Sons, Maxwell Macmillan International, 1994; THOMPSON, Edward Palmer, Costumes em Comum. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998; LAQUEUR, Thomas, Inventando o Sexo: Corpo e Gênero dos Gregos a Freud. Rio de Janeiro: Editora Relume-Dumará, 2001; HEGEL, Friedrich, A Razão na História: Uma Introdução Geral à Filosofia da História. 3ª edição. São Paulo: Editora Centauro, 2001; KEMPER, Theodore, “Power and Status and the Power-status Theory of Emotions”. In: Handbook of the Sociology of Emotions, 87-113. Boston, MA: Springer Publishing Company, 2006; HALBWACHS, Maurice, “A Memória nos Idosos e a Nostalgia do Passado”. In: Revista Brasileira de Sociologia da Emoção. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba. Volume 7, nº 21, pp. 633-658, dezembro de 2008; SAWAIA, Bader (Org.), As Artimanhas da Exclusão. Análise Psicossocial e Ética da Desigualdade Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2010; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; TITUS, Kyla, Boswell Legacy: The Story of the Boswell Sisters of New Orleans and the New Music They Gave to the World. MA:  Editor James Von Schilling, 2014; LIMA, Cecília Almeida Rodrigues, Telenovela Transmitida na Rede Globo. O Papel das Controvérsias. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2018; NOBOA, Ígor Carastan, O Futuro e o Passado estão Além da Imaginação: A Viagem no Tempo e os EUA no Contexto do Segundo Pós-Guerra. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Ética e Prosperidade”. In: https://mais.opovo.com.br/2020/02/09/; entre outros.

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