quinta-feira, 5 de março de 2026

Saia Escocesa – Tradição, Invenção & Terras Altas, Arquetipologia.

                                                Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. Sigmund Freud                           

         Escócia representa um dos mais importantes países do Reino Unido e cobre o terço Norte da ilha da Grã-Bretanha. Ele compartilha uma fronteira com a Inglaterra ao Sul e outra, formada pelo oceano Atlântico, com o mar do Norte a Leste e com o canal do Norte e o mar da Irlanda a Sudeste. Scotland vem de Scoti, o nome latino para os gaels. A palavra latina Scotia` (“terra dos gaels”) era utilizada para se referir à Irlanda (cf. Dorneles, 2015). Até o século XI, o termo Scotia foi usado para se referir a Escócia ao Norte do rio Forth, juntamente com os termos Albania ou Albany, ambas derivadas do gaélico Alba. O uso das palavras Escócia para se referir a tudo o que é agora o território escocês tornou-se comum durante a Idade Média. Além do continente, o país é composto por mais de 790 ilhas, incluindo as Ilhas do Norte e as Hébridas. Edimburgo, a capital e segunda maior cidade do país, foi o centro do Iluminismo Escocês do século XVIII, que transformou a Escócia em uma das potências comerciais, intelectuais e industriais da Europa. Glasgow, maior cidade, já foi um dos polos industriais mais importantes do mundo. As águas territoriais escocesas consistem em um grande setor do Atlântico Norte e do mar do Norte, região que contém as maiores reservas de petróleo da União Europeia. Isso tem dado a Aberdeen, a terceira maior cidade do país, o título de capital do petróleo da Europa. O Reino da Escócia emergiu como um Estado na Alta Idade Média a existir até 1707. Por herança, em 1603, o rei James VI da Escócia (1566-1625) se tornou rei da Inglaterra e da Irlanda, com a delicada união pessoal entre os três reinos.  O Iluminismo Escocês (Scottish Enlightenment) refere-se à transição, no século XVIII, na Escócia, caracterizado por um extraordinário florescimento de intelectuais e obras científicas, rivalizando com qualquer outra nação, em qualquer momento sendo uma base fundante deste pensamento.      

       O que tornou ainda mais notável foi que ela teve lugar num país que estava entre os mais pobres e era considerado um dos mais atrasados da Europa Ocidental, antes dessa data historicamente. Na Weltanschauung de Hugo Cerqueira (2004), o cenário escocês no período histórico de transição entre a pré-modernidade e o mundo moderno carregou suas particularidades. Na Escócia, segundo as análises kantianas, isto é, o método de análise e síntese, o Iluminismo trouxe características como a autonomia do sujeito, a preocupação com o Esclarecimento e a educação. O autor compreende que não há ruptura do Iluminismo Inglês, não sendo prudente “desconsiderar a presença de particularidades significativas, seja no que diz respeito às origens do movimento, seja no que tange a seu significado, sua motivação e suas características”. Diferente da esfera continental, contradictio sine qua non a versão escocesa, não se opunha aos valores do cristianismo e à religiosidade como um todo. A Igreja Católica na Escócia é parte da Igreja Católica universal, sob a liderança política do Papa e da Santa Sé. Apesar de existirem outras denominações cristãs na Escócia, comparativamente, como a Igreja da Escócia (presbiteriana), a Igreja Católica na Escócia mantém sua identidade como parte da Igreja Católica Romana. A história da igreja na Escócia tem suas particularidades, incluindo períodos de influência e conflitos com outras tradições religiosas, mas a ligação com a Igreja Católica universal quase sempre foi mantida, com exceção de períodos em que houve rompimento com Roma.

Estabelecida na Escócia por quase um milênio, a Igreja Católica foi banida após a Reforma Escocesa em 1560. Em 1° de janeiro de 1801, os reinos da Grã-Bretanha e da Irlanda uniram-se para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Em 1922, o Estado Livre retirou-se, por meio de secessão, do Reino Unido, forçando a renomeação deste para Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em 1927. A Emancipação Católica em 1793 ajudou católicos a recuperar os direitos civis, que eram negados a eles pelo governo protestante. Em 1878, ocorreu a restauração da hierarquia católica escocesa. Ao longo dessas mudanças, vários bolsões na Escócia mantiveram uma população católica anterior à Reforma, incluindo partes de Banffshire, Hébridas e partes ao Norte das Terras Altas da Escócia. Em 1716, o Seminário de Scalan foi estabelecido nas Terras Altas e reconstruído na década de 1760 pelo bispo John Geddes (1735-1799), uma figura popular em Edimburgo no período do iluminismo. Quando Robert Burns (1759-1796) escreveu a um correspondente que “o primeiro [isto é, o melhor] personagem clérigo que eu já vi era um católico romano”, ele estava se referindo a Geddes. O Gàidhealtachd tem sido católico e protestante nos tempos modernos. Geralmente se refere às Terras Altas e Ilhas da Escócia e especialmente à gaélica escocesa da área. A palavra em irlandês Gaeltacht, no entanto, refere-se exclusivamente às áreas de língua irlandesa.                                        

O termo também é usado para se referir a áreas da Nova Escócia e do Condado de Glengarry, em Ontário, onde os dialetos canadenses distintos do gaélico escocês eram ou ainda são falados. Entretanto, “Gàidhealtachd” não é sinônimo de “Terras Altas da Escócia”, pois se refere ao idioma e não à geografia.  Além disso, muitas partes das Terras Altas já não possuem populações significativas de falantes de gaélico, e algumas áreas do que é considerado como Terras Altas são, há muito tempo, regiões de língua escocesa ou inglesa, como Cromarty, Grantown-on-Spey, etc. Por outro lado, diversas comunidades de falantes de gaélico estão localizadas fora das áreas administrativas das Terras Altas, Argyll and Bute e Hébridas Exteriores, por exemplo, na Ilha de Arran e em partes de Perth e Kinross sem mencionar Nova Escócia, Carolina do Norte e outras áreas para as quais houve migração significativa. O termo “Gàidhealtachd” também se refere, cada vez mais, a qualquer região onde o gaélico escocês é falado como primeira língua por grande parte da população. No entanto, Gàidhealtachd é usado para se referir às Terras Altas da Escócia, por organizações como Highlands and Islands Enterprise (Iomairt na Gàidhealtachd`s nan Eilean) e o Highland Council (Comhairle na Gàidhealtachd). Um número de áreas gaélico-escocesas é principalmente católico, incluindo Barra, South Uist e Moidart. O poeta e romancista Angus Peter Campbell, um premiado poeta, romancista, jornalista, radialista e ator escocês escreve frequentemente sobre a Igreja Católica em seus trabalhos. 

Para alguns pensadores sociais, como Hugh Trevor-Hoper (1914-2003) e John Robertson (1768-1843), as reflexões do Esclarecimento Escocês, centradas nas atividades de intelectuais, estariam ligadas às temáticas pertinentes pari passu à filosofia moral, à história, à economia política, afastando-se das discussões temática em torno das ciências sociais com as ciências naturais, per se direcionando o pensamento para a defesa do progresso social. Por outro lado, como nas concepções de Nicholas Phillipson (1836-1916), Roger Emerson (1934-2025) e Paul Wood, a física, a química e a medicina também teriam feito parte das discussões centrais de formação ilustrada da Escócia. Mais do que isso, alertam para a importância das características, do método e dos conceitos das ciências naturais para refletir sobre o comportamento social humano. O caráter de florescimento intelectual escocês, em áreas como a economia, a história, a filosofia moral, a geologia, a astronomia, a química, a arquitetura e as artes acontecem como uma reação à crise econômica e ao novo quadro de dependência política com a Inglaterra. Surge para os escoceses como parte de uma forma de superação do novo caráter sujeito do Estado. Além das reformulações curriculares feitas nas universidades escocesas a partir da Revolução Gloriosa, uma série de eventos transcorridos entre 1688 e 1689, na Inglaterra, e que levaram à deposição do rei Jaime II, o qual foi substituído por sua filha Maria II e seu marido, Guilherme III de Orange — o governante de fato da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, sem grande derramamento de sangue. Jaime II & VII foi o Rei da Inglaterra e Irlanda como Jaime II e Rei da Escócia como Jaime VII de 6 de fevereiro de 1685 até ser deposto na Revolução Gloriosa em dezembro de 1688 por sua filha Maria II e seu sobrinho Guilherme III & II.

Este acontecimento marcou o fim do absolutismo na Inglaterra e o início de uma monarquia constitucional, onde o poder do monarca era limitado pelo Parlamento, o que é importante na medida em que no final do setecentos, quando passa a ser adotada uma postura educacional voltada a constituição de valores sociais julgados como mais benéficos à formação humana. E nesse sentido, “a rejeição dos padrões e modelos adotados pelo aristotelismo e pela escolástica abriu espaço para uma nova compreensão do papel e do sentido da busca do conhecimento”. Importantes intelectuais associados ao Iluminismo Escocês foram, entre outros: Francis Hutcheson (1694-1746), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), Thomas Reid (1710-1796), Robert Burns (1759-1796), Adam Ferguson (1723-1816), e James Hutton (1726-1797). Os Atos de União de 1707 com a Inglaterra significou o fim do Parlamento da Escócia e o autogoverno autônomo. Os parlamentares, políticos e aristocratas se mudaram para Londres. A lei escocesa, no entanto, foi totalmente separada da lei inglesa, de modo que as cortes de direito civil, advogados e juristas ficaram para trás, em Edimburgo. A sede e a liderança da Igreja Presbiteriana se mantiveram, assim como as universidades e os estabelecimentos médicos. Os advogados e os teólogos, em conjunto articulados com os professores, intelectuais, os médicos, cientistas e arquitetos formaram uma nova elite de classe média que dominou Escócia urbana e facilitou o Iluminismo Escocês. Além disso o domínio da Escócia entrou numa união política com a Inglaterra em 1° de maio de 1707 para criar o novo Reino Unido da Grã-Bretanha.                                   

A união também criou o novo Parlamento da Grã-Bretanha, que sucedeu ao Parlamento da Escócia e o Parlamento de Inglaterra. O Tratado de União foi acordado em 1706, promulgado pelo Tratado de União de 1707, aprovados pelos parlamentos de ambos os países, apesar de algumas revoltas populares e da oposição Antiunionista em Edimburgo, Glasgow e em outros lugares. A Grã-Bretanha posteriormente entrou em uma união política com a Irlanda em 1° de janeiro de 1801, para criar o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. O sistema jurídico escocês manteve-se separado da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte, sendo que “a Escócia constitui uma jurisdição distinta no direito público e privado dentro do reino”. A existência de instituições jurídicas, educacionais e religiosas distintas, analogamente, daqueles do resto do Reino Unido têm contribuído para a sobrevivência da cultura e da identidade nacional escocesa desde a união em 1707. Dois séculos depois, após um referendo em 1997, um Parlamento Escocês foi restabelecido, desta vez como uma legislatura devolvida com autoridade sobre muitos temas internos. O Partido Nacional Escocês, que apoia a Independência política do país, ganhou uma maioria absoluta em seu passado recente nas eleições gerais de 2011. Um referendo realizado em 18 de setembro de 2014 rejeitou a separação do país do Reino Unido por uma maioria de 55% dos votos, com um comparecimento às urnas de 85%.

Isto posto, o kilt tem como representação social uma peça típica saia sem bifurcação na altura do joelho, com pregas nas costas, originada no traje tradicional de homens e meninos gaélicos nas Terras Altas escocesas. É registrado pela primeira vez no século XVI como o belted plaid, uma peça de roupa longa cuja metade superior pode ser usada como capa. O kilt pequeno ou kilt moderno surgiu no século XVIII e é essencialmente a metade inferior do belted plaid. A manta com cinto é um grande pedaço de tecido semelhante a um cobertor que é enrolado ao redor do corpo com o material plissado ou, mais precisamente, frouxamente franzido e preso na cintura por meio de um cinto. Desde o século XIX, tornou-se associado à cultura mais ampla da Escócia e, mais  amplamente, à herança gaélica ou celta. Na maioria das vezes é feito de pano de lã em um padrão de tartã. Embora o kilt seja mais usado em ocasiões formais e em jogos e eventos esportivos nas chamadas Terras Altas, ele também foi adaptado como “um item de roupas masculinas informais nos últimos anos, retornando às suas raízes como uma peça cotidiana”. Particularmente na América do Norte, os kilts agora são feitos para uso casual em uma variedade de materiais. Fixações alternativas podem ser usadas e bolsos inseridos na indumentária para evitar a necessidade de um sporran. A palavra gaélica escocesa que significa bolsa, é um elemento do traje masculino tradicional das Terras Altas da Escócia. O sporran compensa a falta de bolsos no kilt. Sua origem remonta às bolsas comumente usadas em torno da cintura em toda a Europa medieval. Kilts também foram adotados como vestuário feminino para alguns esportes.       

            Escólio: O kilt é aplicado a um conjunto de roupas.  A vestimenta tradicional, seja em sua forma histórica, ou na adaptação moderna, agora comum na Escócia, geralmente em um padrão de tartã. Os kilts usados por pipe bands irlandesas são baseados na tradicional peça escocesa, mas em uma única cor (sólida). Variantes do kilt escocês adotadas em outras nações celtas, como a cilt galesa e a cilt da Cornualha. De acordo com o Dictionary of the Scots e Oxford English Dictionary, o substantivo deriva de um verbo para kilt, originalmente significando “cingir-se; enrolar (as saias) ao redor do corpo”, que é aparentemente de origem escandinava. Organizações que sancionam e classificam as competições em danças e gaitas das Terras Altas têm regras que regem os trajes aceitáveis para os competidores. Estas regras especificam que kilts devem ser usados, exceto que nas danças nacionais, as competidoras usarão o vestido Aboyne. O kilt escocês exibe singularidade de design, construção e convenção que o diferencia de outras peças que se encaixam na descrição geral. É uma peça sob medida que envolve o corpo na cintura natural, entre a costela inferior e o quadril, começando de um lado, geralmente o esquerdo do usuário, pela frente e pelas costas e pela frente novamente para o lado oposto.                      

As fixações consistem em correias e fivelas nas duas extremidades, a cinta na extremidade interna geralmente passando por uma fenda na cintura para ser afivelada do lado de fora; alternativamente, pode permanecer dentro do cós e ser afivelado por dentro. Um kilt cobre o corpo da cintura até o centro dos joelhos. As camadas sobrepostas na frente são chamadas de “aventais”, para proteção dianteira e são planas; a única camada de tecido ao redor dos lados e de trás é pregueada. Um broche de kilt é preso ao avental dianteiro no canto livre (mas não é passado pela camada abaixo, pois sua função é adicionar peso). Roupas íntimas podem ou não ser usadas, como o usuário prefere, embora a tradição diga que um verdadeiro escocês “não deveria usar nada sob o seu kilt”. A Scottish Tartans Authority, no entanto, adverte que em algumas circunstâncias a prática poderia ser “infantil e anti-higiênica” e voar “na face da decência”. O kilt típico visto nos eventos modernos dos jogos das Terras Altas é feito de sarja tecida de lã penteada. O tecido de sarja usado para kilts é do tipo “2 a 2”, o que significa que cada fio de trama passa por cima e por baixo de dois fios de urdidura de cada vez. O resultado é um padrão de tecido diagonal no tecido que é chamado de linha de sarja. Este tipo de sarja, quando tecido de acordo com um dado padrão ou padrão de cores escritas é chamado tartã.

Em contraste, os kilts usados ​​pelos gaiteiros irlandeses são feitos de tecido de cor sólida, sendo o açafrão ou o verde as cores mais utilizadas. Os pesos dos tecidos de Kilting são dados em onças por jarda e correm do muito pesado, regimental de lã de aproximadamente 18–22 onças (510-620 g) até uma penugem leve de cerca de 10–11 onças (280-310 g). Os pesos mais comuns para os kilts são 13 onças (370 g) e 16 onças (450 g). Os pesos mais pesados ​​são mais apropriados para climas mais frios, enquanto os pesos mais leves tendem a ser selecionados para clima mais quente ou para uso ativo, como as danças das Terras Altas. Alguns padrões estão disponíveis em apenas alguns pesos. Um kilt moderno para um adulto típico usa cerca de 6 a 8 jardas de tecido de tartã de largura simples (cerca de 66 a 76 centímetros) ou cerca de 3 a 4 jardas de tecido de tartã de largura dupla (cerca de 137 a 152 centímetros). O tecido de largura dupla é tecido de modo que o padrão corresponda exatamente ao selvagem. Kilts geralmente são feitos sem uma bainha porque uma bainha tornaria a peça muito volumosa e causaria uma queda incorreta. A quantidade exata de tecido depende de vários fatores, incluindo o tamanho do tecido, o número de pregas colocadas na peça e o tamanho da pessoa. Para um kilt completo, 8 jardas de tecido seriam usadas independente do tamanho e o número de pregas e a profundidade do plissado seriam ajustados com seu tamanho. Soldados escoceses a serviço de Gustavus Adolphus (1631). Para uma cintura muito grande, pode ser necessário usar 8 metros de tecido. 

Uma das características mais distintivas do autêntico kilt escocês é o padrão tartã, o sett, é exibido. A associação de padrões particulares com clãs e famílias individuais pode ser rastreada talvez um ou dois séculos. Foi apenas na Era Vitoriana do século XIX que o sistema de tartãs conhecidos começou a ser sistematicamente registrado e formalizado, principalmente por tecer empresas para fins mercantis. um longo período histórico de prosperidade e paz (Pax Britannica) para o povo britânico, com os lucros adquiridos a partir da expansão do Império Britânico no exterior, bem como o auge e consolidação da Revolução Industrial e o surgimento de novas invenções. Isso permitiu que uma grande e educada classe média se desenvolvesse. Três grandes fontes do pensamento moderno foram forjadas durante a Era Vitoriana: Charles Darwin, que descobriu que “o homem se encontra na origem da espécie”, Sigmund Freud que descobriu que “o homem não detém o centro de sua individualidade” e Karl Marx, que descreveu do ponto de vista materialista e histórico, que “os homens fazem a história, mas sob condições determinadas”. Apesar dos seus impulsos de modernização teórica e histórica na ciência, na Psicologia e na História no mergulho no indivíduo e na dinâmica econômica, das sociedades globalizadas, esta Era foi demarcada igualmente por rígidos costumes, um moralismo social e sexual atroz, exegese de fundamentalismo religioso e exploração de sobre-trabalho burguês capitalista.  Alguns estudiosos poderiam estender o início do período, na análise comparada à época da aprovação do Ato de Reforma de 1832, como a marca de uma nova historia cultural. Melhor dizendo, se a relacionarmos por eventos cíclicos, a era vitoriana foi precedida pela era da regência ou período georgiano e antecedeu o período dito Eduardiano.

  A segunda metade da Era vitoriana coincidiu com a primeira parte da Belle Époque, ocorrido principalmente na Europa continental. Ao final do século, as políticas do novo imperialismo levaram ao aumento de conflitos coloniais e posteriormente, à Guerra Anglo-Zanzibari e Guerra dos Bôeres na África. Internamente, a política se tornou cada vez mais liberal, com uma série de mudanças graduais na direção de reformas políticas e ao alargamento dos direitos do voto. A sociedade civil da era vitoriana era pródiga em moralismos e disciplina, com preconceitos rígidos e proibições severas. Os valores vitorianos podiam classificar-se como puritanos, e na época a poupança, a dedicação ao trabalho, a defesa da moral, os deveres da fé e o descanso dominical eram considerados valores de grande importância. Os homens dominavam, tanto em espaços públicos, como em privado e as mulheres deviam ser submissas e dedicar-se em exclusivo à manutenção familiar do lar e à educação dos filhos. Existem exemplos como a sociedade vitoriana levava a moralidade ao extremo, e dentre casos mais infames foi a condenação e criminalização de Oscar Wilde (1854-1900) e de Lord Alfred Douglas (187-1945), a dois anos de trabalhos forçados por sodomia, por terem mantido um caso amoroso.

Douglas era um poeta e tradutor inglês, famoso por ter sido amigo íntimo e amante. Após o julgamento, foi condenado a dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por prática denominada de “indecência grave”. Até esse ponto, os tartãs das Terras Altas mantinham associações regionais em vez de serem identificados com qualquer clã em particular. Hoje também existem tartãs para distritos, condados, sociedades e corporações. Há também setts para estados e províncias; escolas e universidades; Atividades esportivas; indivíduos; e padrões genéricos comemorativos e simples que qualquer um pode usar. Os arranjos são sempre organizados horizontalmente e verticalmente, nunca na diagonal (exceto quando adaptados para as saias das mulheres). Eles são especificados por suas contagens de linhas, a sequência de cores e suas unidades de largura. Como exemplo, o tartã Wallace tem uma contagem de linhas dada como “K / 4 R32 K32 Y / 4” (K é preto, R é vermelho e Y é amarelo). Isso significa que 4 unidades de fio preto serão substituídas por 32 unidades de vermelho, etc., tanto na urdidura quanto na trama. Normalmente, as unidades são o número real de encadeamentos, mas, desde que as proporções sejam mantidas, o padrão resultante será o mesmo. Esta contagem de encadeamentos também inclui um ponto de giro indicado pela barra entre a cor e o número do encadeamento. O tecelão deve inverter a sequência de tecelagem no ponto de giro para criar uma imagem espelhada do padrão. Isso é chamado de tartã simétrico. Alguns tartãs, como Buchanan, são assimétricos, o que significa que eles não têm um ponto de pivô.

O tecelão tece toda a sequência e começa no começo do próximo sett. Setts são ainda caracterizados pelo seu tamanho, o número de polegadas (ou centímetros) em uma repetição completa. O tamanho de uma determinada configuração depende não apenas do número de linhas na repetição, mas também do peso da malha. Isso ocorre porque quanto mais pesado o tecido, mais espessos serão os fios e, assim, o mesmo número de fios de um tecido mais pesado ocupará mais espaço. As cores fornecidas na contagem de threads são especificadas como na heráldica, embora os padrões de tartan não sejam heráldicos. O tom exato que é usado é uma questão de liberdade artística e vai variar de um moinho de tecido para outro, bem como em um lote de corante para outro dentro do mesmo moinho. Os tartãs são comercialmente tecidos em quatro variações de cores padrão que descrevem o tom geral. Cores “antigas” ou “velhas” podem ser caracterizadas por uma aparência ligeiramente desbotada destinada a assemelhar-se aos corantes vegetais que foram usados ​​uma vez, embora em alguns casos “Velha” simplesmente identifique um tartã que estava em uso antes do atual. Verdes e azuis antigos são mais claros, enquanto os vermelhos parecem laranjas. As cores “modernas” são brilhantes e exibem métodos modernos de tingimento de anilina. As cores são vermelho brilhante, verde-escuro e geralmente azul-marinho.

As cores “Weathered” ou “Reproduction” simulam a aparência de um pano mais antigo, intemperizado pelos elementos. Os verdes se tornam castanho-claros, os azuis tornam-se cinzentos e os vermelhos são uma cor de vinho mais profunda. A última variação de cor é “Muted”, que tende para tons terra. Os verdes são de oliva, azuis são de ardósia azul e vermelho é uma cor de vinho ainda mais profunda. Isto significa que dos cerca de 3500 tartãs registados disponíveis na base de dados da Scottish Tartans Authority a partir de 2004 existem quatro possíveis variações de cores para cada uma, resultando em cerca de 14.000 opções reconhecidas de tartã. Setts podem ser registrados com o International Tartan Index (ITI) da organização de caridade Scottish Tartans Authority (STA), que mantém uma coleção de amostras de tecidos caracterizadas por nome e número de linhas, gratuitamente e/ou registradas no Scottish Register of Tartans (SRT) do órgão estatutário National Archives of Scotland (NAS), se o tartã satisfizer os critérios SRT, para o Reino Unido £70 a partir de 2010. Embora muitos tartãs sejam adicionados todos os anos, a maioria dos padrões registrados disponíveis hoje foi criada no Século XIX em diante por tecelões comerciais que trabalhavam com uma grande variedade de cores. A ascensão do romantismo das terras altas e a crescente anglicização da cultura escocesa pelos vitorianos da época levaram ao registro de tartãs com nomes de clãs.

Antes disso, a maioria desses padrões estava mais conectada a regiões geográficas do que a qualquer clã. Não há, portanto, nada simbólico sobre as cores, e nada sobre os padrões é um reflexo do status do usuário. Embora os kilts prontos para o uso possam ser obtidos em tamanhos padrão, um kilt personalizado é adaptado às proporções individuais do usuário. Pelo menos três medidas, a cintura, quadris e comprimento do kilt, são geralmente necessários. Às vezes a elevação (distância acima da cintura) ou a queda (distância da cintura até a parte mais larga dos quadris) também é necessária. Um kilt feito corretamente, quando afivelado nos furos mais apertados das correias, não é tão solto que o usuário pode facilmente torcer o kilt ao redor de seu corpo, nem tão apertado que cause "fiação" do tecido onde ele está afivelado. Além disso, o comprimento do kilt quando afivelado na cintura atinge um ponto não inferior ao meio da rótula e não superior a cerca de uma polegada acima. Um kilt pode ser plissado com pregas de box ou knife. Uma dobra de knife é uma dobra simples, enquanto a dobra da box é mais volumosa, consistindo de duas pregas de knife de volta para trás. As pregas de knife são as mais comuns nos modernos kilts civis. Tradições regimentais variam. Os Highlanders de Argyll e Sutherland usam pregas de box, enquanto o Black Watch faz seus kilts do mesmo tartã com pregas de knife. Essas tradições também foram passadas para regimentos afiliados na Commonwealth, e foram retidas em batalhões sucessores para esses regimentos no regimento real amalgamado da Escócia.

Plissados ​​podem ser organizados em relação ao padrão de duas maneiras. Ao plissar a faixa, uma das listras verticais no tartã é selecionada e o tecido é então dobrado de modo que esta faixa percorra o centro de cada prega. O resultado é que, ao longo da seção pregueada do kilt (costas e laterais), o padrão parece diferente da frente não plissada, muitas vezes enfatizando as faixas horizontais em vez de criar equilíbrio entre horizontal e vertical. Costuma ser chamado de plissado militar porque é o estilo adotado por muitos regimentos militares. Também é amplamente utilizado por bandas de tubos. Ao plissar o tecido, o tecido é dobrado de modo que o padrão do tecido seja mantido e seja repetido ao redor do kilt. Isso é feito tomando-se um plinto inteiro em cada plissado, ou dois plenos completos, se forem pequenos. Isso faz com que as seções plissadas tenham o mesmo padrão da frente não plissada. Qualquer prega é caracterizada por profundidade e largura. A porção da dobra que se projeta sob a prega sobrejacente é o tamanho ou a largura. A largura do plissado é selecionada com base no tamanho do tecido e na quantidade de tecido a ser usada na construção do kilt, e geralmente varia de cerca de ½” a cerca de ¾”. A profundidade é a parte da dobra que é dobrada sob a dobra sobreposta. Depende unicamente do tamanho do tartan, mesmo quando se prega à faixa, já que a marca determina o espaçamento das listras. O número de pregas usadas na fabricação de kilts depende da quantidade de material a ser usada na construção da peça de vestuário e do tamanho da peça. As dobras ao longo da queda são levemente afuniladas, uma vez que a cintura do usuário é geralmente mais estreita que os quadris e as dobras geralmente são costurados à máquina ou à mão. Na dança das Terras Altas, é fácil ver o efeito da costura na ação de um kilt. Abraça o corpo do dançarino desde a cintura até a linha do corpo e, em resposta aos movimentos do dançarino, ele se rompe abruptamente.           

A maneira como o kilt se move em resposta aos passos de dança é uma parte importante da dança. Se as pregas não fossem costuradas nessa parte do kilt, a ação ou o movimento seriam bem diferentes. O kilt escocês é geralmente utilizado com meias de lã, com golas e flashes, e um sporran (gaélico para bolsa), que fica pendurado ao redor da cintura por uma corrente. ou pulseira de couro. Isso pode ser couro liso ou gravado, ou decorado com pele de foca, pele ou chapeamento de metal polido. Outros acessórios comuns, dependendo da formalidade do contexto, incluem: um cinto (geralmente com fivela em relevo); um casaco (de vários desenhos tradicionais); um alfinete de kilt; um dubh sgiano (gaélico: “faca preta”: uma pequena faca embainhada usada no topo da malha). Ghillie brogues. Ocasionalmente usado com uma camisa Ghillie, embora isso seja mais utilizado casualmente e, sendo uma invenção relativamente moderna, no tempo e espaço, não deve ser confundido com roupas históricas reais. A maioria das pessoas escocesas considera os kilts como roupas formais ou roupas nacionais. Embora ainda existam algumas pessoas que usam um kilt diariamente, ele geralmente é de propriedade ou escolhido para ser usado em casamentos ou outras ocasiões formais e pode ser usado por qualquer pessoa, independentemente da nacionalidade ou descendência.

Para o uso semiformal, os kilts costumam ser usados ​​com um Prince Charlie ou uma jaqueta Argyll. Os fornecedores comerciais já produziram jaquetas equivalentes com estilo temático irlandês e galês. Formalmente é gravata branca e requer um Doublet de regulamento ou superior. Kilts também são usados ​​para desfiles por grupos como a Boys` Brigade e Escoteiros, e em muitos lugares os kilts são vistos em vigor nos campeonatos de pipe band e no Highland games, além de serem usados ​​em danças escocesas e ceilidhs. Certos regimentos/unidades do Exército Britânico e exércitos de outras nações da Commonwealth, incluindo Austrália, Canadá, Nova Zelândia e África do Sul, com uma linhagem escocesa ou herança ainda continuam a usar kilts como parte do uniforme vestido ou dever, embora não tenham sido usados em combate desde 1940. Uniformes em que são usados ​​kilts incluem vestido cerimonial, vestido de serviço e vestido de quartel. Kilts são considerados apropriados para desfiles cerimoniais, deveres de escritório, desfiles menos formais, sair de casa, jantares informais e aulas ou aulas práticas. Kilts cerimoniais também foram desenvolvidos para o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, e para as bandas de tambores e flautas da Academia Militar, da Academia Naval e da Universidade de Norwich - o Colégio Militar de Vermont.

Não é incomum ver kilts usados ​​nos pubs irlandeses nos Estados Unidos, e está se tornando um pouco menos raro vê-los no local de trabalho. O uso ocasional de kilts vestidos com botas de renda ou mocassins, e com camisetas ou camisas de golfe, está se tornando cada vez mais familiar em Highland Games. O kilt é associado a um senso de orgulho nacional escocês e, muitas vezes, é visto sendo usado, juntamente com uma camiseta de futebol, quando os membros do Tartan Army (torcedores do time da Escócia) estão assistindo a uma partida de futebol ou Rugby. A pequena faca Sgian Dubh às vezes é substituída por uma alternativa de madeira ou plástico ou omitida por questões de segurança: por exemplo, eles normalmente não podem ser usados ou transportados para uma aeronave comercial. Embora as origens do kilt irlandês continuem a ser objeto de debate, as evidências atuais sugerem que os kilts se originaram nas Terras Altas e Ilhas da Escócia e foram adotados pelos nacionalistas irlandeses na virada do século XX como um símbolo da identidade gaélica. Uma peça de vestuário que muitas vezes foi confundida com kilts nas primeiras representações é a irlandesa lein-croich, uma longa túnica tradicionalmente feita de tecido de cor sólida, com preto, açafrão e verde.               

Kilts de cor sólida foram adotados pela primeira vez para uso por nacionalistas irlandeses e depois por regimentos irlandeses servindo no exército britânico, mas eles podem ser vistos em fotos do final do século XIX e início do século XX na Irlanda, especialmente em reuniões políticas e musicais, como o kilt foi readotado como um símbolo do nacionalismo gaélico na Irlanda durante este período. No mundo da dança irlandesa, os kilts dos meninos foram largamente abandonados, especialmente desde que a popularidade mundial de Riverdance e o renascimento e interesse pela dança irlandesa em geral. Embora não seja um componente tradicional analogamente do vestuário nacional fora da Escócia, os kilts tornaram-se recentemente populares nas outras nações celtas como um sinal da identidade celta. Kilts e tartãs podem, portanto, ser vistos também na Irlanda, no País de Gales, na Cornualha, na Ilha de Man, na Bretanha e na Galícia. Há atualmente dezesseis tartãs bretões registrados oficialmente nos registros de tartãs escoceses. Os tartãs bretões são respectivamente: Brittany National (nacional bretão), Brittany Walking, Lead it Of, e nove tartãs do condado (Kerne, Leon, Tregor, Gwened, Dol, St. Malo, Rennes, Nantes, St. Brieuc). Outros foram recentemente criados para áreas menores na Bretanha (Ushent, Bro Vigoudenn and Menez Du “Black Mountain”). 

Existem dois tartãs galegos registados nos registos escoceses: Galicia e “Gallaecia- Galician National”. Há evidências do uso de tartã e kilt na Galícia até o século XVIII. Kilts contemporâneos (também conhecidos como kilts modernos e, especialmente nos Estados Unidos da América, kilts de utilidade) apareceram no mercado de vestuário na Escócia, os EUA e o Canadá em uma variedade de tecidos, incluindo couro, jeans, veludo cotelê e algodão. Eles podem ser projetados para roupas formais ou casuais, para uso em esportes ou recreação ao ar livre, ou como roupas de trabalho de colarinho branco ou azul. Alguns são modelados de perto nos tradicionais ternos escoceses, mas outros são similares apenas em roupas masculinas que parecem saias na altura do joelho. Eles podem ter pregas de box, pregas de knife simétricas e ser fixados por pregos ou velcro em vez de fivelas. Muitos são projetados para serem usados sem um sporran e podem ter bolsos ou cintos de ferramentas conectados. No Canadá, os kilts são muito comuns como parte do vestuário feminino em escolas com uma política uniforme. Além disso, devido à rica herança escocesa do país, eles podem ser frequentemente vistos em casamentos e eventos formais. Na Nova Escócia, eles podem até ser usados como traje diário comum. Em 2008, um porta-voz do USPS, Dean Peterson, fez uma proposta formal de que o kilt fosse aprovado como um uniforme postal aceitável - por razões de conforto. A proposta foi derrotada na convenção da National Association of Letter Carriers (NALC) de 220.000 membros em 2008 por uma grande margem. Tactical produziu um Kilt Tactical Duty como resultado da piada corporativa de 1º de abril.  Os kilts híbridos contemporâneos são feitos de tecido tartã.  Atletas do sexo feminino, especialmente jogadoras de lacrosse, costumam usar kilts durante os jogos. 

            Elas normalmente usam shorts de compressão ou spandex por baixo. Kilts são populares entre muitos níveis de lacrosse, de ligas jovens a ligas universitárias, embora algumas equipes estejam substituindo kilts pela saia atlética mais aerodinâmica. Os kilts masculinos costumam ser vistos na mídia contemporânea popular. Por exemplo, na série Syfy Tin Man, personagens coadjuvantes são demonstrados vestindo kilts como roupas de trabalho camponesas. As tendências da moda cotidiana, especialmente na subcultura gótica, levaram à popularização do kilt como uma alternativa ao vestuário masculino mais convencional. Alguns destes são feitos de PVC ou misturas de algodão-poliéster.Metodologicamente a invenção da tradição é um conceito popularizado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger que propõe que muitas tradições que parecem ou supostamente são antigas foram, na verdade, criadas recentemente, muitas vezes em resposta a uma nova situação ou a um momento de crise. Elas têm uma definição simbólica e tentam obter alguma veracidade de que vêm historicamente do passado. Podem ser usadas para compreender os usos ideológicos do passado e as utilizações políticas da memória e da comemoração. Para Hobsbawm, a identidade tanto cultural ou nacional – é historicamente construída e, logo, contingente. Este fenômeno, sociologicamente falando, embora válido a vários campos sociais, é evidente e comum às nações e aos nacionalismos. 

        Nação é um tipo de organização em que uma identidade coletiva, denominada identidade nacional, emerge a partir da combinação de características compartilhadas por uma determinada população, como língua, história, etnia, cultura, território ou religião. Algumas nações são construídas em torno da etnia enquanto outras são fundamentadas em constituições políticas. Uma nação é, em geral, mais abertamente política do que um grupo étnico. Benedict Anderson define uma nação como “uma comunidade política imaginada (…) imaginada porque mesmo os membros da menor das nações nunca conhecerão a maioria de seus companheiros, nunca os encontrarão ou sequer ouvirão falar deles, mas, na mente de cada um, vive a imagem da comunhão entre eles”. Anthony D. Smith define as nações como comunidades cultural-políticas que se tornaram conscientes de sua autonomia, unidade e interesses particulares. Assim, nação pode ser sinônimo de Estado ou país. De fato, segundo Thomas Hylland Eriksen, o que distingue as nações de outras formas de identidade coletiva, como a etnicidade, é justamente essa relação com o Estado. O consenso entre os estudiosos é que as nações são construções sociais, historicamente determinadas e organizacionalmente flexíveis, um fenômeno típico da modernidade. Ao longo do tempo, as pessoas sempre tiveram apego a seus grupos de parentesco e tradições, às autoridades territoriais e à sua terra natal, mas o nacionalismo – a crença de que Estado e nação devem constituir uma só unidade (Estado-nação), não foi uma ideologia proeminente até o final do século XVIII. A diferença entre uma tradição nova e uma tradição inventada é que esta última diz ter origens antigas. Nem sempre é feito de forma óbvia, podem ser invenções de pequena escala, adaptações de antigas tradições para novos propósitos ou sequências de antigas tradições. Para alguns autores, este fenômeno é particularmente claro no caso das nações e dos nacionalismos.    

 Ipso facto, a nação é uma invenção moderna e a maioria dos símbolos, ritos e tradições que hoje tendem a ser considerados muito antigos, foram na verdade criados entre 1870 e 1914, ao mesmo tempo em que as nações foram criadas. Alguns exemplos são as artes marciais japonesas, o escotismo ou as tradições da maioria das principais religiões. Outro tipo de exemplo é o tradicional vestido de noiva branco, que virou moda desde que a rainha Vitória se casou com essa cor. Todas as línguas nacionais padrão, ensinadas nas escolas como modelo de língua escrita e falada, são em grande parte produto de invenção, deixando de lado uma pequena elite que as falava. Hobsbawm dá como exemplo a língua flamenga ensinada nas escolas, o que não é o que as avós e mães de Flandres ensinam aos seus filhos. A tradicional saia escocesa ou kilt foi criada no século XVIII por um empresário siderúrgico inglês, com seus padrões tradicionais típicos de cada clã, tradição ainda mais recente. A gaita escocesa também é um instrumento de incorporação moderna e surge após a união da Escócia com a Inglaterra. Os trajes regionais, populares ou nacionais que conhecemos na Europa e que parecem muito antigos são um produto da invenção moderna. 

Assim, por exemplo, o traje dos flamengos não foi inventado até finais do século XIX e não se tornaria popular até 1929, quando foi comemorada a Exposição Universal de Barcelona e a Ibero-Americana de Sevilha. O hino nacional mais antigo do mundo não é muito antigo, é La Marseillaise, escrito em 1792. Outro dos hinos mais antigos do mundo é o argentino, que data de 1812-1813. Algumas composições que temos hoje como hinos nacionais eram originalmente canções populares, militares ou outras mais antigas, mas só receberiam o status de hino nacional em tempos mais recentes. As bandeiras nacionais foram todas criadas nos últimos tempos, como adaptações de estandartes militares ou de insígnias marítimas de um reino ou de outro ou diretamente a partir de abordagens originais. No passado, as bandeiras tinham, em última análise, a única função de distinguir um lado do outro no campo de batalha, pelo que não tinham de forma alguma um carácter nacional, nem eram bandeiras no sentido atualmente da palavra. É com a invenção da nação na Idade Contemporânea, quando diferentes Estados começam a reinterpretar e usar diferentes bandeiras de um reino ou de outro como bandeiras nacionais. As primeiras utilizações de bandeiras fora dos campos de batalha ocorreram em navios europeus, é o caso da bandeira espanhola ou do Reino Unido, originais insígnias marítimas.

Também foram nacionalizados símbolos dinásticos, como a bandeira da Catalunha, que originalmente representava o rei de Aragão e conde de Barcelona e em nenhum caso um território, significado que seria dado posteriormente. Outra forma de criar bandeiras é a partir de criações originais, como é o caso da Ikurriña basca, criada no final do século XIX e inspirada na bandeira do Reino Unido, na francesa, inspirada numa insígnia militar holandesa, que por sua vez constituiria também sua bandeira ou a da maioria das autonomias espanholas, que têm origem nos séculos XIX e XX ou originaram-se de modificações de modelos anteriores. Todos os feriados nacionais e regionais, e muitas vezes a história que os acompanha, são uma invenção moderna. Por exemplo, todo dia 11 de setembro é comemorado o Dia da Catalunha. Um dos seus atos consiste na ida de uma delegação ao monumento a Rafael Casanova (1660-1743) em Barcelona, onde são colocadas flores desde 1894. Como uma espécie de iniciador da luta pela Independência da Catalunha e líder da resistência de Barcelona em 1714 contra as tropas espanholas, que acabariam por suprimir os seus direitos tradicionais e liberdades. No entanto, o que é considerado na história social como uma guerra entre a Catalunha e a Espanha, foi na realidade uma guerra entre a casa dos Habsburgos da Áustria e da França, cada um deles procurando colocar um candidato ao trono na corte espanhola. Além disso, Rafael Casanova acreditava estar lutando “pela liberdade de toda a Espanha”.  

Diferentes estilos arquitetônicos como o neogótico, que se popularizou na Europa no século XIX, mas também outros como o neoromânico ou o neomudéjar, são tradições inventadas, popularizadas como resultado do nascimento das jovens nações em sua progênie e do nacionalismo político. As invenções das tradições respondem a alguma função social, principalmente a de estabelecer ou simbolizar a coesão social ou a propriedade a um grupo real ou fictício. Pode também querer dar legitimidade e fundamento às hierarquias sociais e às relações de autoridade, como o patriarcalismo ou o preconceito social, e em particular também a certas instituições, da nação ou do Estado. Finalmente, outro grupo de invenções são aquelas destinadas a incutir, socializar e naturalizar crenças, sistemas de valores e códigos de conduta convencionais. Há três perspectivas notáveis sobre como as nações se desenvolveram. O primordialismo (ou perenialismo), que reflete concepções populares de nacionalismo, mas perdeu força entre os acadêmicos, propõe que sempre existiram nações e que o nacionalismo é um fenômeno natural. O etnossimbolismo explica o nacionalismo como um fenômeno dinâmico e em constante evolução, destacando a importância social de símbolos, mitos, ritos e tradições no desenvolvimento das nações e do nacionalismo. 

A teoria da modernização, que substituiu o primordialismo como principal explicação do nacionalismo, adota uma abordagem construtivista e propõe que o nacionalismo surgiu devido a processos de modernização, como a industrialização, a urbanização e a educação em massa, que tornaram possível a consciência nacional. Os defensores da teoria da modernização descrevem as nações como “comunidades imaginadas”, um termo cunhado por Benedict Anderson. Uma nação é uma comunidade imaginada no sentido de que existem condições materiais para imaginar conexões amplas e compartilhadas, e que ela é objetivamente impessoal, mesmo que cada indivíduo na nação se sinta subjetivamente parte de uma unidade encarnada com os outros. Na maioria das vezes, os membros de uma nação permanecem estranhos entre si e provavelmente nunca se encontrarão. O nacionalismo é, portanto, visto como uma “tradição inventada”, na qual um sentimento compartilhado fornece uma forma de identidade coletiva e une os indivíduos em solidariedade política. A história fundacional de uma nação pode ser construída em torno de uma combinação de atributos étnicos, valores e princípios, e pode estar intimamente ligada a narrativas de pertencimento. Acadêmicos dos séculos XIX e início do XX apresentaram críticas construtivistas às teorias primordialistas sobre nações. Uma palestra influente de Ernest Renan (1823-1892), intitulada: “O que é uma nação?”, argumenta que uma nação é “um plebiscito diário”, e que as nações se baseiam no que os povos esquecem e quanto no que lembram. 

Carl Darling Buck (1866-1955) argumentou, em um estudo de 1916, que “a nacionalidade é essencialmente subjetiva, um sentimento ativo de unidade, dentro de um grupo relativamente extenso, um sentimento baseado em fatores reais, porém diversos tais como políticos, geográficos, físicos e sociais, dentre os quais qualquer um ou todos podem estar presentes neste ou naquele caso, mas nenhum dos quais precisa estar presente em todos os casos”. No final do século XX, muitos cientistas sociais argumentaram que havia dois tipos de nação: a nação cívica, da qual a sociedade republicana francesa era o principal exemplo, e a nação étnica, exemplificada pelos povos germânicos. A tradição alemã foi concebida como tendo origem nos filósofos do início do século XIX, como Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), contemporâneo de Friedrich Hegel (1770-1831) e referia-se a um povo que compartilha uma língua, religião, cultura, história e origens étnicas comuns, que os diferenciam de outros povos. Por outro lado, a nação cívica foi associada à Revolução Francesa e às ideias oriundas dos filósofos franceses do século XVIII. Era entendida como centrada na vontade de “viver juntos”, produzindo uma nação que resulta de um ato de afirmação, tal qual postulava Ernest Renan (1823-1892). Muitas vezes, o nacionalismo, como sentimento comum de uma comunidade entra em conflito com os Estados formados institucionalmente, o que leva a lutas políticas, guerrilhas, e  terrorismo de Estado consoante o ponto de vista de vários países, não obstante a dura repressão do governo indonésio que consideravam a guerrilha timorense como terrorismo, o que em Portugal e agora que Timor-Leste se definiu como Estado - não era de forma alguma aceito, tendo em conta o apoio institucional dado a este movimento social de libertação nacional, em ersatz várias comunidades, sendo algumas delas os curdos e os bascos.

Uma manifestação diferente do nacionalismo é o irredentismo, que é a aspiração de um povo a completar a própria unidade territorial nacional, anexando terras sujeitas ao domínio estrangeiro (“terras irredentas”). Existe um debate contínuo ad infinitum sobre o futuro das nações, isto é, se esse modelo de divisão étnico-político continuará existindo tal como é hoje e se há alternativas viáveis ou em desenvolvimento. A teoria do choque de civilizações contrasta diretamente com teorias cosmopolitas, que defendem um mundo cada vez mais conectado e que já não necessitaria mais dos Estados-nação. Segundo o cientista político Samuel P. Huntington, as identidades culturais e religiosas das pessoas seriam a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. Assim, sucede-se a pulverização dos conflitos armados: não há mais guerras mundiais, mas guerras civis e de motivação político-religiosa em diversos países do mundo. A teoria foi formulada em uma palestra de 1992 no American Enterprise Institute, e depois desenvolvida em um artigo publicado na revista Foreign Affairs (1993), intitulado “O Choque de Civilizações?”, como resposta ao livro de Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, de 1992. Huntington mais tarde expandiu sua tese no livro O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, publicado em 1996. De acordo com Fukuyama, a democracia liberal seria o “ponto final da evolução ideológica da humanidade”, sendo assim, essa “forma final de governo humano” constituiria “o fim da história”. Esse último conceito, elaborado sobre termos hegelianos, não se refere ao fim dos grandes acontecimentos como a queda do Muro de Berlim e o Massacre da Praça da Paz Celestial, mas sim com o entendimento de história como esse processo único e evolutivo considerando todos os povos e todos os tempos. 

O autor, comemora o enfraquecimento das ditaduras ao redor do mundo, mas confere esse êxito e tantos outros da humanidade ao legado de uma revolução liberal no pensamento econômico. A crítica à teoria do filósofo nipo-estadunidense reside justamente no fato de atribuir o maior grau de evolução humana à democracia liberal. O autor indica que esse modelo econômico conectaria os mercados globais, algo que não se concretizou tendo em vista a competição entre as grandes potências capitalistas e os conflitos bélicos ainda presentes na atualidade. Huntington acreditava que, embora a era das ideologias tivesse chegado ao fim, o mundo havia apenas retornado a um estado “normal” de coisas, caracterizado por conflitos culturais. Em sua tese, ele argumentava que o eixo principal dos conflitos futuros estaria nas linhas culturais e religiosas. O pós-nacionalismo é o processo ou tendência pela qual os Estados-nação e as identidades nacionais perdem importância diante de entidades supranacionais e globais. Vários fatores contribuem para essa tendência identificada por Huntington, incluindo: a globalização econômica, o aumento da importância de corporações multinacionais, a internacionalização dos mercados financeiros, a transferência de poder sociopolítico de autoridades nacionais para entidades supranacionais como as corporações multinacionais, a Organização das Nações Unidas e a União Europeia, e o surgimento de novas tecnologias da informação e da cultura, como a Internet. No entanto, o apego à cidadania e às identidades nacionais frequentemente continua sendo significativo. Jan Zielonka, da Universidade de Oxford, afirma que “a futura estrutura e exercício do poder político se parecerão mais com o modelo medieval do que com o modelo westfaliano”, sendo este último caracterizado pela “concentração de poder, soberania e identidade bem definida”, enquanto o neomedievalismo implicaria “autoridades sobrepostas, soberania dividida, múltiplas identidades e instituições de governança, e fronteiras difusas”.

Bibliografia Geral Consultada.

GELLNER, Ernest, Nações e Nacionalismo. Lisboa: Editor Gradiva, 1993; ANDERSON, Benedict, Comunidades Imaginadas. Reflexiones sobre el Origen y la Difusión del Nacionalismo. México: Editor Fundo de Cultura Económico, 1993; ELIAS, Norbert, Os Alemães: A Luta pelo Poder e a Evolução do Habitus nos Séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997; ELLER, Jack David, “Ethnicity, Culture, and The Past”. In: Michigan Quarterly Review (4) 1997; McKINNEY, Rebecca, Old Tunes for New Times: Contemporary Scottish Nationalism and the Folk Music Revival. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Universidade de Edimburgo, 1999; BALAKRISHNAM, Gopal (Org.), Um Mapa da Questão Nacional. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2000; HOBSBAWM, Eric, Nações e Nacionalismos desde 1870. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2002; FUKUYAMA, Francis, O Fim da História e o Último Homem. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1992; Idem, Construção de Estados: Governo e Organização no Século XX. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005; HACKENBERG, Robert; ALVAREZ, Robert, “Close-Ups of Postnationalism: Reports from the U.S.-Mexico Borderlands”. In: Human Organization (2): 97–104, 2005; JAMES, Paul Warren, “Globalism, Nationalism, Tribalism: Bringing Theory Nack” In: Towards a Theory of Abstract Community. London: Editor Sage, 2006; ANDERSON, Benedict, Comunidades Imaginadas. Reflexões Sobre a Origem e a Difusão do Nacionalismo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2008; ERIKSEN, Thomas Hylland, Ethnicity and Nationalism: Anthropological Perspectives. 3rd ed. New York: Pluto Press, 2010; WERNER, Kelly Cristini Granzotto, “A Gramática de Andrés Bello: Uma Gramática para uma Comunidade Imaginada”. In: Uniletras. Ponta Grossa, vol. 39, n° 1, pp.119-129, Jan./jun. 2017; PELEGATI, Douglas Antônio, Reconhecimento: Uma Análise Conceitual na Obra de Francis Fukuyama. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Mari PELEGATI, Douglas Antônio, Reconhecimento: Uma Análise Conceitual na Obra de Francis Fukuyama. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2018; COAKLEY, John, “Primordialism in Nationalism Studies: Theory or Ideology?”. In: Nations and Nationalism (2): 327–347, 2018; MYLONAS, Harris; TUDOR, Maya, Varieties of Nationalism: Communities, Narratives, Identities. Cambridge: University of Cambridge, 2023; Artigo: “Kilt: a tradição secular que simboliza a identidade da Escócia”. In: https://www.opovo.com.br/agencia/flipar/2026/01/23/; entre outros.

terça-feira, 3 de março de 2026

Reais Jardins Botânicos de Kew – Invenção, Conceito e Sexualidade.

                               Um jardim faz-se de luz e sons - as plantas são coadjuvantes”. Roberto Burle Marx

            

           A divisão do trabalho social não é específica do nível de análise econômico: podemos observar sua influência admirável nas regiões mais distintas da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas no âmbito das universidades. As especulações filosóficas da biologia nos demonstraram, na divisão do trabalho, um fato social de uma tal generalidade que os economistas, que foram os primeiros a mencioná-lo, não haviam podido suspeitar. Não é mais uma instituição social que tem sua fonte na inteligência e na vontade dos homens. Mas um fenômeno de biologia geral, cujas condições, ao que parece, precisam ser buscadas nas propriedades essenciais da disciplina organizada. A divisão do trabalho social passa a aparecer apenas como uma forma particular desse processo geral, e as sociedades, conformando-se a essa lei, parecem ceder a uma corrente de pensamento que nasceu bem antes delas e que arrasta no mesmo sentido todo o mundo vivo. Semelhante fato não pode, evidentemente, produzir-se sem afetar profundamente nossa constituição moral, pois o desenvolvimento do homem se fará em dois sentidos de todo diferentes. Não é necessário demonstrar a gravidade desse problema prático; qualquer que seja o juízo sobre a divisão do trabalho, todo o mundo sabe que ela é e se torna cada vez mais as bases fundamentais da ordem social tanto quanto política.

            Vale lembrar, neste aspecto que a biomatemática é um ramo da biologia que emprega análises teóricas, modelos matemáticos e abstrações dos organismos vivos para investigar os princípios que governam a estrutura, desenvolvimento e comportamento dos sistemas, em oposição à biologia experimental que lida com a realização de experimentos para comprovar e validar as teorias científicas. O campo multidisciplinar é algumas vezes chamado de biologia matemática ou biomatemática para enfatizar o lado técnico-científico matemático, ou biologia teórica para enfatizar abstratamente o lado biológico. Ipso facto, biologia teórica se concentra mais do que nunca no desenvolvimento programático de princípios teóricos para a biologia. Enquanto a biologia matemática se concentra no uso de técnicas matemáticas para estudar sistemas biológicos embora ambos sejam muitas vezes trocados. A biologia matemática visa a representação matemática e modelagem de processos biológicos, utilizando técnicas e procedimentos metodológicos da matemática aplicada. Pode ser útil tanto em pesquisas teóricas e práticas. Descrever sistemas de maneira quantitativa significa que seu comportamento pode ser melhor simulado e, podem ser previstas propriedades que podem não ser evidentes para o experimentador. Uma matéria tem a tendência de manter o seu estado, seja de repouso,  ou de movimento, a não ser que uma força externa influencie.

A massa é uma grandeza que indica a medida da inércia ou da resistência de um corpo de ter seu movimento acelerado. De uma forma geral, podemos associar a massa à quantidade de partículas existentes em uma matéria.  Isso requer modelos matemáticos precisos. Devido à complexidade dos sistemas vivos, a biologia teórica emprega vários campos de domínio de métodos da matemática, e tem contribuído para o desenvolvimento de novas técnicas. A matemática foi usada na biologia já no século XIII, quando Leonardo Fibonacci (1170-1250) usou a famosa série de Fibonacci para descrever uma população crescente de coelhos. No século XVIII, Daniel Bernoulli (1700-1782) aplicou a matemática para descrever o efeito da varíola na população humana. O ensaio de Malthus de 1789 sobre o crescimento da população humana foi baseado no conceito de crescimento exponencial. Há aqui um debate memorável: Pierre François Verhulst (1804-1849) formulou o modelo de crescimento logístico em 1836. Fritz Müller (1822-1897) descreveu os benefícios evolucionários do que é chamado mimetismo Müllerian em 1879, em uma conta notável sendo o primeiro uso de argumento matemático em ecologia evolutiva para mostrar o quão poderoso o efeito da seleção natural seria, a menos que se inclui Malthus s` discussão dos efeitos do crescimento populacional que influenciaram Charles Robert Darwin (1809-1882) e Thomas Malthus (1766-1834) argumentam que tal crescimento seria exponencial, pois os recursos só poderiam crescer aritmeticamente.

                                


O termo biologia teórica ​​foi usado pela primeira vez por Johannes Reinke em 1901. Um texto fundador é On Growth and Form (1917) por D`Arcy Thompson, e outros especialistas incluem Ronald Fisher, Hans Leo Przibram, Nicolas Rashevsky e Vito Volterra. A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos. É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os seres humanos, a Terra é o único corpo celeste onde é reconhecida a existência de vida. O planeta formou-se há 4,56 bilhões de anos, e a vida surgiu na sua superfície depois de um bilhão de anos. Desde então, a biosfera terrestre alterou de forma significativa a atmosfera e fatores abióticos do planeta, permitindo a proliferação de organismos aeróbicos, como a formação da camada de ozônio, que em conjunto com seu campo magnético, bloqueia radiação solar prejudicial, permitindo a vida no planeta. A sua superfície exterior é dividida em segmentos rígidos, chamados placas tectônicas, que migram sobre a superfície terrestre ao longo de milhões de anos. Aproximadamente 71% da superfície é coberta por oceanos de água salgada, com o restante consistindo de continentes e ilhas, contendo lagos e corpos de água que contribuem para a hidrosfera. Os polos do planeta Terra encontram-se majoritariamente cobertos por mantos de gelo ou por banquisas. O interior abstrato permanece ativo e relativamente sólido: um núcleo externo líquido que gera um campo magnético, e um núcleo interno sólido, composto, sobretudo por ferro. 

A Terra interage com objetos em movimento no espaço, em particular com o Sol e a Lua. Orbita o Sol uma vez por cada 366,26 rotações sobre o próprio eixo, o que equivale a 365,26 dias solares ou representa um (01) ano sideral. O eixo de rotação da Terra possui uma inclinação de 23,4° em relação à perpendicular ao seu plano orbital, reproduzindo variações sazonais na superfície do planeta, com período igual a um ano tropical, ou, 365,24 dias solares. Um fato social é questão sociológica ainda mais necessária porque se utiliza essa qualificação sem muita precisão. Ela e empregada correntemente para designar socialmente as relações que se dão no interior de uma sociedade determinada, por menos que apresentem, com uma certa generalidade, algum interesse social. Todo indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente. O sistema de signos de que me sirvo para exprimir meu pensamento, o sistema de moedas que emprego para pagar minhas dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo em minhas relações comerciais, as práticas observadas em minha profissão, etc., funcionam independentemente do uso que faço deles. Que se tomem um a um todos os membros de que é composta a sociedade; o que procede poderá ser repetido a propósito de cada um deles, ou seja, maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam essa notável propriedade de existirem fora das consciências individuais, seja em Friedrich Hegel ou Émile Durkheim. Mas não são apenas exteriores ao indivíduo, como são dotados de uma “força imperativa” e coercitiva em virtude da qual se impõe a ele, quer ele queira, quer não.      

Em se tratando de máximas puramente morais, a consciência pública reprime todo ato que as ofenda através da vigilância que exerce sobre a conduta dos cidadãos. A coerção social, mesmo sendo de forma indireta, continua sendo uma técnica ou estratégia de submissão eficaz. Trata-se de uma ordem de fatos que apresentam características muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele. Por conseguinte, eles não poderiam se confundir com os fenômenos orgânicos, já que consistem em representações e em ações, nem com os fenômenos psíquicos, os quais só tem existência na consciência individual e através dela. Estes fatos constituem, portanto, uma espécie nova, e é a eles que deve ser dada e reservada a qualificação de sociais. Essa qualificação lhes convém; pois é claro que, não tendo o indivíduo por substrato, eles não podem ter outro senão a sociedade, seja a sociedade política em seu conjunto, seja um dos grupos parciais que ela encerra: confissões religiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais, etc. 

É a eles só que ela convém; pois a palavra social só tem sentido definido com a condição de designar unicamente fenômenos que não se incluem em nenhuma das categorias de fatos já constituídos e denominados. Eles representam o domínio próprio da sociologia que não confunde as práticas dos rituais com o sentido. Mas só há fato social onde há organização delineada, normalizada e estritamente definida. O hábito coletivo não existe apenas em estado de imanência nos atos sucessivos que ele determina, mas se exprime de uma vez por todas, por um privilégio cujo exemplo não encontramos no reino biológico, numa fórmula que se repete de boca em boca, que se transmite pela educação, que se fixa através da escrita. Tais são as origens e a natureza das regras jurídicas, morais, dos aforismos e dos ditos populares, dos artigos de fé em que as seitas religiosas ou políticas condensam em crenças, dos códigos de gosto que as escolas literárias estabelecem, etc. Nenhuma dessas maneiras de agir ou de pensar se acha por inteiro nas aplicações que os particulares fazem delas, já que eles podem inclusive existir sem serem atualmente aplicadas. Há certas correntes de opinião que nos impelem, com desigual intensidade, conforme os tempos e os lugares, uma ao casamento, por exemplo, outra, ao suicídio, ou a uma natalidade mais ou menos acentuada. As circunstâncias individuais (o sonho) e coletivas (os mitos, os ritos, os símbolos) que podem ter alguma participação social na produção do fenômeno, neutralizam-se mutuamente e não contribuem para em princípio poder determina-lo. O que esse fato exprime é um certo estado de alma coletiva.

            Um fato social se reconhece, segundo Durkheim (1999), pelo poder de coerção que exerce ou é capaz de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse poder se reconhece, por sua vez, seja pela resistência que o fato opõe a toda tentativa individual de faze-lhe violência. De fato, a coerção é fácil de constatar quando se traduz exteriormente por alguma reação direta da sociedade, como é o caso em relação ao direito, à moral, às crenças, aos costumes, inclusive às modas. Mas, quando, é apenas indireta, como a que exerce uma organização econômica, ela nem sempre se deixa perceber tão bem. A generalidade combinada com a objetividade pode então, ser mais fáceis de esclarecer. Essa segunda definição não é senão outra forma da primeira; pois, se uma maneira de se conduzir, que existe exteriormente às consciências individuais, se generaliza, ela só pode fazê-lo impondo-se. A sociologia não pode desinteressar-se do que diz respeito ao substrato da vida social coletiva. Mas o número e a natureza das partes elementares de que se compõe a sociedade, a maneira como elas estão dispostas, o grau de coalescência a que chegaram, a distribuição estatística da população pela superfície do território, o número e a natureza das vias de comunicação, a forma das habitações, etc.  não parecem capazes, num primeiro exame, de se reduzir sociologicamente aos modos de agir, de sentir ou de pensar.  No plano abstrato da teoria, a sociologia não confunde a prática dos rituais com seu sentido. A palavra função é empregada de duas maneiras bastante diferentes.               

Designa um sistema de movimentos vitais, fazendo-se abstração das suas consequências, ora exprime a relação de correspondência que existe entre esses movimentos e algumas necessidades sociais. Perguntar-se qual é a função da divisão do trabalho é, portanto, a que necessidade ela corresponde; quando tivermos “resolvido” essa questão, poderemos ver se essa necessidade é da mesma natureza que aquelas a que correspondem outras regras de conduta cujo caráter moral não é discutido. De todos os elementos da civilização, a ciência é o único que, em certas condições, apresenta um caráter moral. De fato, as sociedades tendem mais a considerar um dever para o indivíduo desenvolver sua inteligência, assimilando as verdades científicas que são estabelecidas. Não é impossível entrever de onde vem esse privilégio especial da ciência. Ela nada mais é do que a consciência, desde Hegel, Marx, Lukács, elevada a seu mais alto ponto de clareza. Quanto mais obscura uma consciência, para Durkheim, mais refratária à mudança, porque não vê o que é necessário mudar, nem em que sentido é preciso mudar. 

Uma consciência esclarecida sente, compreende e sabe de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança. Eis por que é necessário que a inteligência guiada pela ciência, com consciência, adquira importância maior no curso da vida social e coletiva. Mas a ciência, do ponto de vista da divisão do trabalho social, de acordo com Durkheim (2015), que todo mundo é assim chamado a possuir não merece ser designada por esse nome. Não é a ciência, é no máximo sua parte comum e mais geral. Ela se reduz a um pequeno número de conhecimentos indispensáveis, que só são exigidos de todos, aparentemente por estarem ao alcance de todos. A ciência propriamente dita supera infinitamente esse nível vulgar. Ela não compreende apenas o que é vergonhoso ignorar, mas tudo o que é possível saber. Ela não supõe apenas, nos círculos que a cultivam, essas faculdades médias que quase todos os homens possuem, mas disposições especiais. Por conseguinte, não sendo acessível senão a uma elite social, não é obrigatória; é uma coisa útil e bela, mas não é necessária a ponto de a sociedade reclamá-la imperativamente. É vantajoso estar munido dela; nada há de imoral em adquiri-la. É um campo de ação aberto à iniciativa das massas, mas em que ninguém é obrigado a entrar. Costuma-se qualificar de moral tudo o que tem alguma nobreza e algum preço, tudo o que é objeto de aspirações um tanto elevadas, e é graças a essa excessiva abrangência da palavra que se fez a civilização entrar na moralidade. O domínio do ético está longe de ser indeterminado. E todas as regras de ação que se impõem imperativamente à conduta e a que está vinculada uma sanção, mas não vai além disso em qualquer instância.

Contudo, o conceito de “civilização” refere-se a uma grande variedade de ocorrência de fatos: ao nível de tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao de tipo de habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário, ou educacional de vigilância e punição, explicado por Michel Foucault, e satisfatoriamente ao modo como são preparados os diversos tipos de alimentação como compreendemos com Claude Lévi-Strauss. Daí ser sempre difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode descrever como civilização. Ela se resume culturalmente em tudo que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos julga “superior”, para descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou cosmovisão. Sociologicamente representa um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. É a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, coletividade ou da sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe: sua gênese, sua natureza, suas propriedades.

Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética. A cosmovisão ou visão do mundo continua a ser um conceito complexo e confuso em qualquer cultura, sendo usado de forma muito diferente por cientistas sociais.  No entanto, as crenças centrais da visão mundial são muitas vezes profundamente enraizadas e raramente são refletidas pelos indivíduos e coletividades, e são trazidas à superfície apenas em momentos e formas de crise de fé, de algum modo ocorrentes. Por exemplo, visão de mundo da causalidade como unidirecional, cíclica ou espiral gera um quadro abstrato do mundo que reflete esses sistemas de causalidade. Uma visão unilateral da causalidade está presente em algumas visões de mundo monoteísticas com um começo e um fim e uma única grande força com um único fim, no cristianismo e no islamismo, enquanto que uma visão de mundo cíclica da causalidade está presente na tradição religiosa que é cíclica e sazonal e na qual os eventos e experiências repetem-se em padrões sistemáticos: zoroastrismo, mitraísmo e hinduísmo. Essas visões não apenas subjazem as tradições religiosas, mas outros aspectos do pensamento como a história, teorias políticas e econômicas, e sistemas como a democracia, autoritarismo, anarquismo, capitalismo, socialismo e comunismo.             

         Nada há na civilização que apresente esse critério de moralidade, ela é moralmente indiferente. Se a divisão do trabalho não tivesse outro papel além de tornar a civilização possível, ela participaria da mesma neutralidade moral. Foi por não se ter geralmente atribuído à divisão do trabalho outra função, segundo Émile Durkheim, que as teorias propostas são a tal ponto inconsistentes. Isto é, supondo-se que exista uma “zona neutra” na moral, é impossível que a divisão social do trabalho dela faça parte. Se ela não é boa, é ruim; se não é moral, é uma decadência moral. Se ela não serve para outra coisa, cai-se em insolúveis antinomias, porque as vantagens econômicas que ela apresenta são compensadas por inconvenientes morais, e como é impossível subtrair uma dentre duas quantidades heterogêneas e incomparáveis, não se poderia dizer qual das duas leva a melhor sobre a outra, nem, por conseguinte, tomar partido. Invocar-se-á o primado da moral para condenar radicalmente a divisão do trabalho. Mas não apenas essa última ratio é sempre um “golpe de Estado científico”, como a evidente necessidade de especialização torna tal posição impossível de ser sustentada. 

        Se a divisão do trabalho não cumpre outro papel, ela não só não tem caráter moral, como não se percebe que razão possa ter.  A civilização não tem valor intrínseco e absoluto; o que lhe dá seu preço é o fato de corresponder a certas formas de divisão do trabalho.  Ipso facto, o mais relevante, do ponto de vista sociológico, é o fato de que a experimentação tecnológica normalmente anda lado a lado, desde muito cedo, com experiências relacionadas à organização social. O mais notável efeito da divisão do trabalho não é aumentar o rendimento das funções divididas, como insistem os “burocratas da cultura” a que se referia José Arthur Giannotti, em seus aparelhos de Estado, mas torna-las solidárias. Seu papel social, em todos esses casos, não é simplesmente embelezar ou melhorar sociedades existentes, mas tonar possíveis sociedades que, sem elas, não existiriam. Façam a divisão do trabalho sexual regredir além de certo ponto, socialmente e a questão conjugal desaparece, deixando subsistir relações sexuais eminentemente efêmeras; mesmo se os sexos não fossem separados, toda uma forma da vida social sequer teria nascido. É possível que a utilidade de uso econômica da divisão do trabalho tenha algo a ver com esse resultado, mas, em todo caso, ele supera infinitamente a esfera dos interesses puramente econômicos, pois consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui generis.

Se, com frequência, fez-se as relações sociais a que dá nascimento a divisão do trabalho consistirem apenas na troca, foi por se ter desconhecido o que a troca implica e o que dela resulta. Ela supõe que dois seres dependem mutuamente um do outro, por serem ambos incompletos, e apenas traduz exteriormente essa dependência mútua. Nada mais é que a expressão superficial de um estado interno e mais profundo. Precisamente por ser constante, esse estado suscita todo um mecanismo comunicativo de imagens que funciona como uma continuidade que a troca não possui. É por isso que apreciamos a companhia daquele que ela representa, porque a presença do objeto que ela exprime, fazendo-a passar ao estado de percepção atual, lhe dá maior relevo. Ao contrário, sofremos com todas as circunstâncias que, como a distância ou a morte, podem ter por efeito impedir seu retorno ou diminuir sua vivacidade. Por mais curta que seja a análise, basta para demonstrar que esse mecanismo não é idêntico comparativamente ao que serve dos sentimentos de simpatia, cuja fonte é a semelhança. Sem dúvida, só pode haver solidariedade entre outrem e nós se a imagem desse outrem se une à nossa. 

       Mas quando a união resulta da semelhança das duas imagens, ela consiste numa aglutinação. As duas representações tornam-se solidárias porque, sendo indistintas, no todo ou em parte, se confundem e se tornam uma só coisa, e só são solidárias na medida em que se confundem. Ao contrário, no caso da divisão do trabalho, estão fora uma da outra e só são ligadas por serem distintas. Portanto, os sentimentos não poderiam ser os mesmos nos dois casos, nem as relações sociais que deles derivam. Não temos apenas que procurar se, nessas espécies de sociedades, existe uma solidariedade social proveniente da divisão do trabalho. É uma verdade evidente, pois a divisão do trabalho é muito desenvolvida nelas e produz a solidariedade. Mas é preciso determinar, sobretudo, em que medida a solidariedade que ela produz contribui para a integração geral da sociedade, pois somente então saberemos até que ponto essa solidariedade é necessária, se é um fator essencial da coesão social, ou então, ao contrário, se nada é mais é do que uma condição acessória e secundária. Para responder a essa questão de forma primacial é preciso comparar esse vínculo social aos outros, seja com o grupo tomado coletivamente, a fim de medir a parte que lhe cabe no efeito total, sendo para isso indispensável começar por classificar as diferentes espécies de solidariedade social. A seleção sexual é a seleção natural que surge pela preferência de um sexo por certas características em indivíduos do sexo oposto. 

Trata-se de um conceito comum na evolução dos animais, mas, no caso das plantas, frequentemente é negligenciado, pois muitas são hermafroditas. As angiospermas (plantas com flores) possuem diversas características influenciadas pela seleção sexual. Por exemplo, a simetria das flores, a produção de néctar, a estrutura floral e as inflorescências estão entre as características sexuais secundárias afetadas por esse processo. Diferenças sexuais e órgãos reprodutivos também podem ser moldados pela seleção sexual. Existem dois principais mecanismos de seleção sexual em angiospermas: a competição intra-sexual e a escolha de parceiros pelas fêmeas. A seleção intra-sexual é responsável por grande parte do processo de evolução e diversificação floral. Com o auxílio de polinizadores, esse tipo de seleção também resultou em exemplos notáveis de características exageradas em plantas hermafroditas. Da mesma forma, o dimorfismo sexual provavelmente desempenhou um papel na evolução de diferenças sexuais nas características florais de plantas dioicas e, possivelmente, na evolução de dimorfismos sexuais secundários devido a correlações genéticas com traços florais. A seleção sexual por meio da escolha da fêmea é um conceito talvez mais desafiador de aplicar às plantas. 

Há evidências de que as fêmeas (ou a função feminina em hermafroditas) exercem escolhas, especialmente durante a fertilização. Esses dois mecanismos são as forças principais que impulsionam a seleção sexual em plantas com flores. A simetria floral é frequentemente influenciada pela seleção sexual. As características das flores estão sujeitas a uma forte seleção direcional por parte dos polinizadores, o que pode perturbar a homeostase do desenvolvimento e levar a altos graus de assimetria flutuante. Essa assimetria em traços florais pode resultar em seleção sexual nas plantas se os polinizadores visitarem flores simétricas de maneira preferencial. Diversos estudos demonstraram que polinizadores tendem a visitar padrões florais mais simétricos, e há várias razões possíveis para essa preferência. Primeiro, ela pode surgir de um reforço positivo: os polinizadores podem aprender, por experiência, que flores assimétricas oferecem recompensas comparativamente menores que as simétricas. Em segundo, polinizadores com vieses sensoriais podem estar predispostos a escolher flores simétricas. Essa preferência pode levar a flores simétricas sendo fertilizadas com maior frequência, o que aumenta a produção de sementes e resulta em mais descendentes com flores simétricas e atraentes. Há inúmeros dimorfismos sexuais em plantas com flores. Essas diferenças incluem o aborto de botões, o tamanho das flores, o número de flores por planta, a longevidade floral, o conteúdo nutricional das flores, a produção de néctar, a fenologia e periodicidade da floração, os aromas florais, a defesa contra herbivoria e várias características das inflorescências, como o número total de flores.

 O tamanho da exibição diária e a arquitetura da inflorescência. Em espécies polinizadas por animais, essas diferenças afetam a visitação dos polinizadores, a competição por parceiros e a evolução dos dimorfismos sexuais. No entanto, há limitações em espécies polinizadas por animais, pois uma divergência excessiva pode interferir no sucesso do acasalamento se os polinizadores forem mais atraídos por um sexo do que pelo outro ou se os sexos atraírem polinizadores diferentes. Essas restrições não se aplicam a plantas polinizadas pelo vento, onde os requisitos biofísicos contrastantes para a dispersão e captura de pólen resultaram em casos marcantes de dimorfismo sexual na arquitetura e produção de flores em algumas espécies. A seguir, estão alguns exemplos específicos de dimorfismos sexuais em plantas com flores. As inflorescências podem ser influenciadas pela seleção sexual de várias maneiras, geralmente envolvendo arranjo, número e tamanho. Por exemplo, as inflorescências masculinas em plantas frequentemente produzem mais flores do que as femininas. Além disso, a exportação de pólen e, consequentemente, a paternidade, muitas vezes aumentam com o número de flores, mesmo em plantas com flores hermafroditas. A retenção de flores mais velhas sem recompensas para polinizadores pode aumentar a taxa de visitação e a remoção de pólen. Estudos sugerem que houve seleção para um maior transporte de pólen, alcançado por inflorescências maiores, e parece provável que a competição entre machos seja comumente parte dessa pressão seletiva. As corolas, ou pétalas das flores, também são alvo da seleção sexual. Características como cor, forma, tamanho e simetria frequentemente enfrentam pressões seletivas. 

Um exemplo é que flores masculinas são, em algumas espécies, maiores que as femininas. Embora isso provavelmente seja resultado de mecanismos de alocação de recursos, é improvável que a alocação de recursos baseada no menor custo do androceu em comparação ao gineceu, levando a maior investimento na corola nos machos, explique completamente as diferenças de tamanho. Algum aumento na corola pode surgir por seleção em caracteres correlacionados, como a produção de pólen. No entanto, é provável que a competição entre machos contribua diretamente para a evolução de corolas masculinas grandes, especialmente onde a disponibilidade de pólen não é um fator limitante. A maioria das flores de angiospermas produz néctar. A produção de néctar, isto é, a concentração de açúcar, quantidade, sincrinia em relação às fases de gênero floral varia em cada planta com flores que o produz, sendo influenciada por diversas forças seletivas. Não há uma única força evolutiva que determine a produção de néctar, mas acredita-se que a seleção sexual desempenhe um papel significativo. Estudos sustentam a ideia de que a seleção sexual é uma explicação provável para pelo menos algumas espécies com produção de néctar influenciada pelo gênero. Por exemplo, a expressão de néctar enviesada por gênero frequentemente acompanha uma expressão semelhante de outras características florais. 

Um caso específico vem das flores de Impatiens capensis, que demonstram maior longevidade na fase masculina, mais recompensadora. Em outras espécies, as pétalas podem murchar visivelmente durante a fase feminina menos recompensadora ou mudar de cor ao passar para essa fase. Mais evidências da seleção sexual na produção de néctar dependem de comportamentos genéticos específicos dos polinizadores. Se a seleção sexual mantém a produção de néctar enviesada por gênero, os polinizadores devem distinguir entre flores das fases masculina e feminina, preferencialmente as da fase mais recompensadora. Em espécies com polinizadores discriminatórios, maiores recompensas podem aumentar o sucesso no acasalamento, permitindo que o néctar seja um traço sexualmente selecionado. Os estames, coletivamente conhecidos como androceu, frequentemente enfrentam pressões da seleção sexual. Isso é particularmente evidente na produção de pólen, onde podem existir várias fontes de seleção sexual na forma como o pólen é apresentado aos vetores de polinização. Como o pólen é embalado em unidades que garantem que vários grãos viajem juntos como em polínias, poliedros, fios de viscin, etc., os doadores de pólen podem monopolizar estigmas e os óvulos associados, bloqueando o acesso de outros machos, a menos que a seleção também favoreça o aumento compensatório do estigma. 

A germinação do pólen depende de um número mínimo de grãos para superar a inibição estigmática, um mecanismo que intensifica a competição masculina, pode haver seleção para unidades maiores de dispersão de pólen ou outros mecanismos de liberação. Se as visitas dos polinizadores forem raras, há seleção para embalar o pólen de modo que todo ele seja removido em uma única visita. Quando visitas repetidas são comuns, pode haver seleção para diferentes padrões temporais de apresentação do pólen e métodos de liberação. A variação no comprimento dos estames, tanto dentro quanto entre flores, influencia a dispersão do pólen e o potencial sucesso reprodutivo masculino. Aumentar a oportunidade de paternidade distribuindo pólen entre polinizadores pode seguir caminhos diferentes em sistemas distintos, e qualquer dessas possibilidades pode ser vista no contexto da seleção sexual. O gineceu também é afetado pela seleção sexual. Todas as partes, desde os ovários, estilos, estigma e carpelos, podem enfrentar essas pressões. Na embalagem dos óvulos, a intensidade da competição por pólen depende, em parte, da relação entre o número de grãos de pólen e o número de óvulos. Embora muitos fatores possam determinar o número de óvulos, uma maneira de as fêmeas aumentarem a competição por pólen é reduzir o número de óvulos enquanto mantêm o tamanho do estigma. A evolução da sincarpia funcional, sem outras mudanças associadas, presumivelmente aumenta simultaneamente o número de óvulos acessíveis a partir de um estigma, diminuindo a intensidade da competição por pólen, e concentra a deposição de pólen em um único estigma, aumentando essa competição. 

Aumentos adicionais na competição por pólen poderiam ocorrer por maior entrega de pólen, via mudança de polinizador, maior atratividade do display floral ou recompensas, redução no número de óvulos ou tamanho do estigma, alterações nos padrões temporais de receptividade do estigma ou mudanças no ambiente competitivo do carpelo. Kew é um distrito do borough de Richmond upon Thames, localizado a Sudoeste de Londres. É famoso por ser a sede dos Jardins Botânicos Reais de Kew, do Kew Palace e dos Arquivos Nacionais do Reino Unido. O distrito apresenta diversas lojas junto à estação dos jardins reais, diversos restaurantes e cafés, e uma mistura de vendedores ambulantes. A maior parte de Kew se desenvolveu no final do século XIX com a chegada da linha District do metrô de Londres, e sua característica são as grandes casas separadas ou semi-separadas demograficamente. É uma zona residencial de padrão elevado devido, em parte, ao acesso fácil às linhas de transporte e a proximidade com os jardins reais. Kew é reconhecido também por alguns de seus habitantes famosos, como o ator Ray Brooks (1939-2025) e a jornalista de televisão da BBC Sophie Jane Raworth. Ela é uma apresentadora de notícias sênior e uma das principais apresentadoras do BBC News (BBC News at Six e BBC News at Ten). Ela já apresentou programas de televisão em ocasiões de Estado e também apresentou a cobertura da BBC na noite das eleições, ao lado de outros apresentadores.  Em 2015, ela se tornou a nova apresentadora do programa de defesa do consumidor Watchdog e, em 2016, começou a apresentar o Crimewatch, ambos na BBC One. 

O nome Kew é a combinação de duas palavras: “quay” derivada de “kai”, que no francês antigo significa “lugar de ancoragem ou ancoradouro”, e do antigo inglês “hoh” que significa “dente de terra”. O dente de terra é a curvatura do Rio Tamisa. O nome foi registrado em 1327 como “Cayho”. A igreja de Kew, devotada a Santa Ana, em inglês: Saint Anne`s Church foi consagrada em 1714 em memória da Reina Ana da Grã-Bretanha. Em seu cemitério, tem as sepulturas dos artistas de Thomas Gainsborough (1727-1788) e Johann Zoffany (1733-1810), e dos botânicos e diretores dos Jardins Reais de Kew de William Jackson Hooker (1785-1865) e seu filho Joseph Dalton Hooker (1817-1911). O duque Adolfo de Cambridge e a sua mulher Augusta de Hesse-Cassel (1797-1889) eram sepultados em um mausoléu a Leste da igreja até de ser trasladados na Capela de São Jorge de Windsor no ano 1930. A origem do conceito de um jardim semelhante ao atual Jardim Botânico é discutida por diversos autores, mas, em geral, pode ser rastreada até a Antiguidade, historicamente, desde o Jardim Botânico de Karnak, do faraó egípcio Tutmés III, até a coleção de plantas medicinais durante o período ateniense, que decorreu entre 450 a 400 a.C. constituiu o período áureo da grande Atenas. Foi um período de mudanças políticas e sociais profundas com uma divisão do trabalho distinguindo hic et nunc uma atividade intelectual e artística intensa. No séc. V a.C., Atenas foi, na realidade, a maior das cidades-estados gregas. por exemplo, Teofrasto, no século IV a. C., ou o período romano de jardim fechado, designado como hortus conclusus. Nos dias do Novo Reino Egípcio, a Rainha Hatshepsut decidiu enviar expedições à misteriosa terra de Punt na atual Somália.

No Antigo Egito os anos eram contados a partir da ascensão de um novo soberano ao poder. Hatshepsut não seguiu esta tradição, tendo preferido inserir-se nos anos de Tutemés III. No ano 7, Hatshepsut deixa de ser rainha, assumido os cinco nomes que estavam reservados aos faraós. Para legitimar a sua posição, Hatshepsut, junto com os membros do clero de Amom, recorreu a um relato que fazia de si filha do deus Amom-Rá (teogamia). Nas paredes do templo funerário de Hatshepsut, em Deir Elbari, está representado o episódio que relata a concepção e nascimento da rainha-faraó. A mãe de Hatshepsut, Amósis, encontra-se no palácio real. O deus Amom-Ra observa-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decide que chegou à altura de gerar um novo faraó. O deus toma a aparência do rei Tutemés I, encontrando-a no quarto adormecida. A rainha acorda ao sentir o perfume que emana do corpo do esposo e o Deus Amom-Rá se mostra em toda sua plenitude, Ahmose, cai aos prantos em emoção pela grandiosidade do Deus. O casal une-se sexualmente e depois Amom-Rá informa que a filha que nascerá da união dos dois, governará o Egito em todas as esferas de poder do palácio. Apesar de não concordarem, os sacerdotes foram obrigados a legitimar a história, pois viviam bem e com mordomias, principais por causa das doações que a rainha fazia a eles. Acreditaram que se o Deus Amom não ficasse satisfeito com as decisões da rainha-faraó, o Egito sofreria com pragas e colheitas, e então eles poderiam agir.

 Mas parece que Amom-Rá estava de acordo com as idéias de Hatshepsut, pois ela governou em um período de muita prosperidade e tranquilidade. Mais tarde, em seu reinado, a rainha foi descrita como um homem. Após sua morte, aos 37 anos e com 22 anos de reinado, Tutemés III subiu ao trono do Egito. Hatshepsut foi enterrada na tumba KV20. O governo de Hatshepsut é habitualmente apresentado como correspondendo a uma era de paz, mas esta imagem tem sido relativizada por alguns investigadores. Pelo menos duas campanhas militares foram conduzidas durante o seu reinado, uma das quais à Núbia, a qual talvez tenha sido liderada pela própria Hatshepsut. Hatshepsut conservou alguns servidores do tempo do seu pai Tutemés I. Dois homens ficaram conhecidos como os ministros mais importantes da rainha: Hapuseneb e Senemut. O primeiro era o sumo sacerdote de Amom, tendo dirigido os vários trabalhos de construção ordenados por Hatshepsut, em particular os que tiveram lugar na cidade de Tebas. Senemut, um oficial do exército de origem modesta, é por vezes visto como companheiro de Hatshepsut, que não casou enquanto foi faraó. Foi chefe do conselho da rainha e preceptor da filha de Hatshepsut, a princesa Neferuré, com a qual surge representado em várias “estátuas-cubo”, estátuas nas quais apenas a cabeça emerge de um bloco de pedra. Nos baixos-relevos do templo de Deir e-Bahari ficou representada a expedição à região do Punt. Esta terra, que se julga corresponder à algures na costa da Somália, era conhecida pelas suas riquezas, como a mirra, o incenso, o ébano, o marfim e os animais exóticos. A expedição parece ter sido pacífica, tendo os egípcios trocado os bens que desejavam por armas e joias.  Nas paredes do templo é possível ver as cenas que mostram cinco barcos a partir para o Punt seguindo a rota do Mar Vermelho. 

São calorosamente recebidos pelo rei local, Pa-Rahu, e a sua esposa, Ity, representada como uma senhora obesa. Depois de um banquete, os barcos foram carregados com os produtos. As representações mostram árvores de incenso, que teriam sido plantadas no recinto do templo de Deir Elbari. As expedições trouxeram de volta preciosos aromáticos, olíbano e mirra, mas também as árvores que produzem essas resinas, Boswellias e árvores de bálsamo, que foram plantadas nos jardins de seu templo em Deir el-Bahari. O jardim mais antigo de que se conhece uma representação é o Jardim Real de Tutmés III, que foi projetado por Nekht, jardineiro-chefe dos jardins anexos ao templo de Karnak. Apesar da beleza desses jardins, acredita-se que sua importância se deva a razões econômicas. A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios sociais organizadores: o de separação existente entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e o princípio hierárquico, segundo o qual, um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher. Esses princípios são válidos no plano teórico como empírico para todas as sociedades no tempo e no espaço. Pode ser aplicada mediante um processo específico de legitimação, a chamada ideologia naturalista. 

Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie. Se os dois princípios de separação e hierárquico encontram-se em todas as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não significa que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável. No entanto, os chineses podem ser considerados os verdadeiros inventores do conceito de jardim botânico, uma vez que documentos antigos comprovam que os coletores de plantas eram enviados a partes distantes, de onde traziam plantas que eram cultivadas pelo seu valor económico ou medicinal. Acredita-se que o lendário imperador Shen Nung testou as qualidades medicinais das plantas para o tratamento de doenças. Se isso for de fato correto, é uma repetição da história que levou à fundação de jardins monásticos no século IX. A Idade Média não poder considerada, por ignorância simbólica de pensadores a “Idade das Trevas”, e o mesmo se aplica ao avanço do conhecimento científico. No entanto, nas ciências biológicas, houve alguns pequenos progressos. Muitos leitores e estudantes de medicina também começaram a concentrar seus estudos em botânica. Durante o século XIII, Alberto Magno (1200-1280) escreveu o tratado De Vegetabilis et Plantis. Este autor deu particular importância à reprodução e sexualidade das plantas. Tal como o seu contemporâneo Roger Bacon (1214-1294), Alberto Magno estudou intensamente a natureza, fazendo uso extensivo do método experimental. Em termos de estudo da botânica, as suas obras são comparáveis ​​em importância às de Teofrasto. 

A primeira descrição de um jardim ornamental medieval encontra-se num capítulo da obra de Alberto Magno, De Vegetabilis et Plantis, escrita por volta de 1260. O Orto Botanico di Pisa, também reconhecido como Orto Botanico dell`Università di Pisa, é um jardim botânico administrado pela Universidade de Pisa e localizado na via Luca Ghini 5, Pisa, Itália. O jardim foi fundado em 1544 sob o reinado de Cosimo I de' Medici (1519-1574), o segundo e último duque de Florença, de 1537 até 1569, quando se tornou o primeiro grão-duque da Toscana, título que manteve até sua morte. Cosimo I sucedeu seu primo no ducado. Construiu a Galeria Uffizi (escritório) para organizar sua administração e conquistou Siena para consolidar o domínio de Florença na Toscana. Expandiu o Palácio Pitti e a maior parte dos Jardins de Boboli também foi projetada durante seu reinado, como o primeiro jardim botânico universitário da Europa, e confiado ao famoso botânico Luca Ghini de Imola. 

Em 1563, o jardim foi transferido de sua localização original às margens do rio (atual Arsenal Medici) para uma área próxima ao convento de Santa Marta, e em 1591, sob a direção de Joseph Goedenhuyze (1530-1595) mudou-se novamente para sua terceira e atual localização. Desde os primórdios, o jardim abriga galeria de objetos naturais (atual Museu de História Natural de Pisa), uma biblioteca (atual biblioteca da universidade) e retratos de seus diretores ao longo dos séculos. Inclui também uma das primeiras estufas com estrutura de ferro construídas na Itália. O jardim está dividido em seções que incluem a escola de botânica, jardins, lagos, estufas e vários edifícios. As principais coleções incluem jardins de ervas e arboretos, bem como o antigo instituto de botânica, construído entre 1591 e 1595, com uma fachada ornamentada com conchas marinhas. Na Idade Média e, posteriormente, durante o Renascimento, o cultivo de plantas medicinais difundiu-se nos Horti sanitatis (jardins medicinais) localizados em mosteiros e nas escolas de medicina e farmácia da Universidade. O primeiro jardim botânico do mundo ocidental foi provavelmente estabelecido em Salerno, sob a orientação de Matias Selvático (1285-1342), um proeminente médico da Escola de Medicina de Salerno, no século XIV. Ele se destacou como um conhecedor de plantas medicinais. Em seu Jardim de Simples, o “Jardim de Minerva”, um grande número de plantas e ervas foram cultivadas e classificadas pela primeira vez para o estudo científico de suas propriedades terapêuticas e medicinais. A flora local, antes pouco conhecida, tornou-se objeto de estudo para a descoberta de novas espécies vegetais. 

O interesse na representação precisa de plantas medicinais introduziu um novo conceito de literatura, acompanhado por uma coleção iconográfica de plantas (hortus pictus). O tratado De Materia Medica de Dioscórides (40-90 d.C.) foi a principal fonte de informação do século I ao XVII e inspirou fundamentalmente o Renascimento. Otto Brunfels (1489-1534) escreveu o primeiro Herbarum vivae eicones, que descrevia plantas e incluía suas representações. Leonhart Fuchs (1501-1566), contemporâneo de Otto Brunfels, escreveu: De História Stirpium, descrevendo e ilustrando cerca de quinhentas plantas pertencentes à flora alemã. Fuchs também é considerado o fundador do primeiro jardim botânico alemão. Na Europa, o estudo da obra de Dioscórides despertou o mesmo interesse que o de Otto Brunfels e Leonhart Fuchs. Na Inglaterra, William Turner (1508-1568) e John Gerard (1545-1612) também escreveram obras sobre botânica. Os franceses Jacques Daléchamps (1513-1588) e Mathieu de l`Obel (1538-1616) também contribuíram para o desenvolvimento da literatura botânica. Graças ao impulso desses estudiosos, os elementos necessários para o crescimento significativo da botânica estavam presentes. O desenvolvimento de jardins botânicos e de disciplinas universitárias dedicadas ao seu ensino foi uma consequência natural desse movimento urbano. A Itália, que já havia desempenhado um papel central na história do paisagismo durante o Renascimento com o surgimento e a disseminação do jardim italiano, foi, no século XVI, o berço de um renovado interesse pela observação naturalista e pela classificação de plantas. O Senado da República de Veneza criou o primeiro jardim dedicado exclusivamente à botânica em 1525. 

Em 1533, na cidade de Pádua, surgiu o primeiro professor de botânica, Francesco Bonafede (1474-1558), juntamente com a primeira cátedra de botânica dedicada ao ensino de plantas medicinais – a Lectura Simplicium. Com a criação de cátedras de botânica nas universidades italianas, surgiu, em meados do século XVI, uma necessidade acadêmica para o ensino de estudantes, o que levou à criação e ao desenvolvimento dos primeiros jardins botânicos universitários.  O primeiro jardim botânico universitário parece ter sido o Jardim Botânico de Pisa, fundado em 1544 por Luca Ghini (1490-1560) na Universidade de Pisa com o apoio de Cosimo I de Medici, Grão-Duque da Toscana. Jardins semelhantes se seguiram: o Jardim Botânico de Pádua, o mais antigo ainda existente, em junho de 1545, o de Florença em dezembro de 1545 e o de Bolonha, criado por Aldrovandi (1522-1605), em 1568. No resto da Europa, floresceram inúmeros jardins botânicos, sendo os mais famosos os de Leiden, Leipzig, Basileia, Montpellier e Paris.  As principais cidades comerciais do Norte da Europa também estão instalando os seus próprios. Foram estabelecidos em Hamburgo em 1540, Zurique em 1560, Kassel em 1567, Viena em 1573, Berlim em 1573, Göttingen em 1576, Leipzig em 1580, Königsberg em 1581, Jena em 1586, Breslau em 1587, Basileia em 1589, Fronecker em 1589, Leiden em 1590, Heidelberg em 1593, Copenhague em 1600, Giessen em 1609, Estrasburgo em 1619, Freiburg em 1620, Oxford em 1621, Amsterdã em 1638, Uppsala em 1655, Hanover em 1666, Kiel em 1669, Edimburgo em 1670, Berlim em 1679. 

A aristocracia de modo geral também participou desse movimento de conhecimento botânico. Soberanos e príncipes apoiaram iniciativas de estudiosos para a criação de jardins botânicos. Alguns monarcas possuíam seus próprios jardins, que confiavam a médicos especializados no estudo de plantas medicinais ou a botânicos. No Reino da França, o primeiro jardim botânico foi o de Montpellier, fundado por Pierre Richer de Belleval (c. 1564-1632) em 1593, a pedido de Henrique IV. Em seguida, veio o Jardim Botânico de Paris, o “Jardin du Roy”, criado entre 1626 e 1635 a pedido de Luís XIII por Guy de la Brosse (1586-1641), médico do rei. Foi inaugurado oficialmente em 1640. Seu propósito, como indica o nome, Jardin Royal des Plantes Médicinales, era cultivar exclusivamente plantas medicinais. Esses jardins botânicos, chamados de hortus medicus, hortus academicus ou jardins de plantas medicinais, surgiram para auxiliar o ensino da medicina e abastecer os boticários. Durante sua expansão geográfica na Europa, foram utilizados para o estudo botânico de novas espécies de plantas exóticas. Diferentemente dos jardins de ervas, já difundidos na Idade Média e destinados ao cultivo de plantas medicinais, os novos jardins botânicos ampliaram suas coleções para todos os tipos de plantas, tanto espécies nativas quanto aquelas provenientes de terras distantes. Sua importância foi significativa para possibilitar o estudo e o fornecimento de espécies locais devidamente controladas aos herboristas e, posteriormente, para o estudo e aclimatação de espécies exóticas do chamado Novo Mundo. No entanto, devido a razões sazonais, climáticas ou geográficas, era impossível ter um fornecimento constante de plantas vivas para estudo. 

Para resolver esse problema, a prática de coletar plantas tornou-se comum, uma técnica conhecida desde o século XIV, mas difundida a partir da década de 1530, após a criação do Jardin des Simples em Pisa. O herbário, composto por plantas secas, era chamado de hortus siccus, ou jardim seco. A evolução dos jardins botânicos foi simultânea e inseparável da evolução dos herbários. A necessidade de estudar a flora natural acompanhou a evolução das técnicas de herbário e a coleta de espécies para o herbário, primeiro numa fase inicial sob a forma de um livro com indicações terapêuticas, depois numa fase mais recente sob a forma organizada de espécies vegetais devidamente descritas e preservadas, o que, por sua vez, levou a uma necessidade constante de obter espécies vegetais vivas que pudessem ser observadas ao longo do ano e, assim, mantidas e cultivadas no jardim. Do ponto de vista de sua origem e significado histórico e social, cinco missões principais, a saber, científica, educacional, recreativa, cívica e econômica foram atribuídas aos jardins botânicos. Os jardins botânicos se tornaram não apenas locais programáticos de estudo, pesquisa, treinamento, experimentação e ensino, mas objetivamente de pesquisa e disseminação de conhecimento, bem como importantes centros de referência para atividades econômicas e comerciais. Existem diversas aspirações que sempre impulsionaram a humanidade a viajar por lugares distantes: a busca por ouro e materiais preciosos, especiarias e drogas ou medicamentos. É a duas dessas necessidades humanas universais que se pode atribuir a origem, significado e a fundação dos jardins botânicos.  O valor das especiarias levou ao estabelecimento de jardins botânicos em regiões tropicais, enquanto o estabelecimento dos jardins botânicos mais antigos da Europa deve-se à necessidade de medicamentos derivados de substâncias terapêuticas extraídas de plantas medicinais.       

 O mais antigo de que se conhece representação é o Jardim Real de Tutemés III, que foi idealizado por Nekht, chefe-jardineiro dos jardins ligados ao Templo de Carnaque. Apesar da beleza destes Jardins, pensa-se que a sua importância se deve a motivos econômicos. Sociologicamente falando, ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. O Jardim Botânico de Nova York, no Bronx, abriga a maior exposição já realizada em seu espaço em 128 anos de existência, inspirada na genialidade do arquiteto e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx. No entanto, pode-se considerar que os chineses foram os verdadeiros inventores do conceito de jardim botânico, uma vez que se comprova que os coletores de plantas eram enviados para partes longínquas e as plantas que traziam consigo eram cultivadas pelo seu valor econômico e medicinal. Historicamente durante o século XIII, Alberto Magno escreveu De Vegetabilis et Plantis e De Animalibus. Este autor deu especial relevância à reprodução e sexualidade das plantas e animais. 

Tal como Roger Bacon (1214-1294), seu contemporâneo, Alberto Magno (1193-1280) estudou intensivamente a natureza, utilizando de modo intensivo o método experimental. Em termos do estudo da botânica, os seus trabalhos são comparáveis, em importância aos de Teofrasto. O surgimento de jardins botânicos e disciplinas universitárias dedicadas ao seu ensino foi uma consequência natural deste movimento. Em 1533, na cidade de Pádua, surge o primeiro professor de botânica e ipso facto, a primeira disciplina de botânica: Lectura Simplicium. Segue-se um florescimento de jardins botânicos. Os mais famosos foram os de Pisa, Pádua, Bolonha, Leida, Leipzig, Basileia, Montpellier e Paris. Estes jardins botânicos, denominados hortus medicus, hortus academicus ou jardins de plantas medicinais, surgiram com o objetivo de auxiliarem o ensino da matéria médica e de fornecerem as boticas. Com a expansão geográfica europeia eles foram utilizados para o estudo botânico das novas espécies vegetais exóticas. A sua importância foi notória por permitirem o estudo e fornecimento das farmácias em espécies locais devidamente controladas, e posteriormente o estudo e aclimatação de espécies exóticas provenientes do novo mundo. No entanto, por razões sazonais ou geográficas, era impossível ter as plantas vivas para serem estudadas. Para fazer face a este problema, tornou-se corrente o recurso à herborização, uma técnica conhecida desde o século XIV, mas difundida a partir do Orto dei Simplici de Pisa desde a década de 1530, como o nome de hortus siccus

A evolução dos jardins botânicos e a dos herbários foi simultânea e inseparável. A necessidade de estudar a flora natural acompanhou a evolução das técnicas de herborização e a colecção das espécies em herbário, numa primeira fase sob a forma de livro com indicações terapêuticas e numa fase mais recente sob a forma organizada de espécies de plantas devidamente descritas e conservadas, que por sua vez levou a uma constante preocupação em obter espécies de plantas vivas que pudessem ser observadas durante todo o ano e por isso mantidas e cultivadas em jardim. O jardim botânico tem como representação social um lugar dedicado as plantas que faz à coleção, cultivo e, exposição de uma ampla diversidade de plantas, identificadas de acordo com o nome botânico. Pode ter coleções especializadas em determinadas plantas, como cactos e suculentas, ervas aromáticas, plantas de determinadas regiões do mundo, ou ter ainda estufas com coleções de plantas tropicais, alpinas ou outro tipo de plantas exóticas. Entre os serviços geralmente disponibilizados para o público estão visitas guiadas, exposições educativas, exposições artísticas, salas de leitura e atuações artísticas e musicais ao ar livre. Os jardins botânicos são na sua maioria geridos por universidades ou organizações científicas, per se associados a programas de investigação em taxonomia ou aspectos botânicos, para os quais contam com um herbário.

 Por princípio, o seu papel é a manutenção de coleções documentadas de plantas vivas com a finalidade de investigação científica, conservação, exposição e educação, embora isto dependa dos recursos disponíveis e do interesse particular de cada jardim botânico. Os jardins botânicos modernos têm origem nos jardins medicinais medievais europeus, denominados jardins dos simples, o primeiro dos quais fundado durante o Renascimento italiano no século XVI. Com a importação de novas plantas e exploração de territórios fora da Europa, a partir do século XVII, a botânica foi-se gradualmente afirmando como uma ciência independente da medicina. No século XVIII, os botânicos implementaram sistemas de nomenclatura, os quais eram muitas vezes mostrados nos canteiros de jardins com propósitos educativos. A partir do século XVIII, com o desenvolvimento do comércio de espécies botânicas, começaram a ser implementados jardins botânicos nos trópicos. Enquanto instituições culturais e científicas os jardins botânicos deram resposta às necessidades da botânica e horticultura. Contemporaneamente além da vertente científica os jardins botânicos aproveitam a forte ligação com o público em geral para fornecer aos visitantes informação relativa às questões ambientais do século XXI, em particular as que estão ligadas à conservação e inventores sociais do conceito biológico de jardim botânico.  

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