sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Córsega – História Política, Memória & Coletividade Territorial Única.

          A guerra, que desenvolve a força do corpo, simultaneamente tempera a alma”. Pasquale Paoli                                    

        

        Sambucucciu d`Àlandu é uma das figuras importantes na história da Córsega na Idade Média. Entretanto, não se sabe nem a data nem o local de seu nascimento. Ele não é mais mencionado nas fontes depois de 1370; possivelmente morreu de peste ou de causas naturais naquele ano. Acredita-se que ele tenha vindo da vila de Alando, na paróquia de Bozio. Graças aos cronistas corsos da Idade Média, Giovanni della Grossa e Petrus Cyrnæus, sabemos que d`Alandu liderou a revolta antifeudal de 1357 ao lado de outras figuras notáveis. Durante esses levantes populares, todos os senhores foram caçados e seus castelos destruídos, pelo menos temporariamente. Os Corporales (capurali em corso) substituíram os nobres da ilha como a nova aristocracia. Contudo, os senhorios foram restabelecidos no Sul da Córsega, na Terra dos Senhores (A Terra di i Signori) e em Cap Corse. É uma península com aproximadamente 400 km² de área, localizada no Nordeste da ilha da Córsega. Estendendo-se para o Norte em direção à Ligúria, fica a 33 km de Capraia, 83 km de Piombino, 96 km de Livorno, 160 km de Gênova e a menos de 175 km da costa francesa. A ponta Norte do Cabo situa-se ao Sul de uma linha Leste-Oeste que passa por Toulon e um pouco mais ao Sul do que a ilha de Porquerolles, colocando o Norte da Córsega na mesma latitude da parte mais meridional da França continental (Pyrénées-Orientales, ao Sul de Perpignan). Na Antiguidade, o país era chamado de Sacrum Promontorium

         Na Idade Média, tornou-se território de senhorios (San Colombano, Avogari,  etc.). Foi dividido em cantões durante a Revolução. O centro da ilha era chamado de Terra di Comune, ou Terra del Comune, em referência à comuna de Gênova, cujos apoiadores politicamente na revolta se colocaram sob sua proteção. É apropriado traduzir essa expressão como “Terra da Comuna (de Gênova)” e não “Terra do Povo Comum”, como era o caso na historiografia próxima passada da Córsega. Sambucucciu d`Alando tinha um sobrinho com o mesmo nome, que foi nomeado tenente do povo em 1466 pelos habitantes de “En-Deçà-des-Monts”. Colonna de Cesari Rocca, em sua História da Córsega publicada em 1916, relata uma infeliz interpretação dos cadernos de Cirno por Limperani que deu origem ideológica ao mais grosseiro anacronismo que a historiografia registrou e que muitos escritores contemporâneos hic et nunc ainda persistem em reproduzir. “Assim, Limperani datou a existência de Sambucucciu d`Alandu e do movimento popular do qual essa figura era líder (1359) no século XI. Então, incapaz de conter sua imaginação, ele inventou do zero um Sambocuccio, senhor de Alando, que expulsou os Cinarchesi da Córsega (numa época em que sua presença lá é incerta), destruiu as fortalezas dos barões e então, como Licurgo e Sólon, dotou a Terra da Comuna de uma constituição adequada às suas necessidades, provando ser um legislador tão judicioso quanto havia sido um capitão corajoso”.

 Embora Giovanni della Grossa e Cyrnæus concordassem que o movimento de Sambocuccio culminou na ocupação genovesa e no governo de Giovanni Boccanegra, Limperani, cujo texto é repleto de referências, baseou sua nova teoria na autoridade desses dois cronistas. No entanto, seria em vão procurar em suas obras uma palavra sequer sobre Sambocuccio no ano 1000, bem como sobre Sambocuccio o legislador. Limperani tinha “uma mania de corrigir a história, e nota-se, em seus dois volumes, vários exemplos da obliteração de sua previsão”. Cego por uma teoria que atribuía uma constituição comunal à Córsega no século XI, ele encontrou um pretexto para aplicá-la na desordem dos Cadernos de Cirno. A pega de Sambocuccio precedia a de Giudice ali, e isso foi um golpe de gênio de Limperani: ele não considerou que Sambocuccio estava solicitando a intervenção do governador Boccanegra (1359) e que ele próprio iria a Gênova para solicitar o envio de Tridano della Torre (1362). Ele se recusou a notar que o Cirno estava atribuindo a biografia do primeiro (século XIII) ao segundo Giudice (século XV) e que essas transposições poderiam simplesmente ter se originado da transposição das páginas do manuscrito original! “Foi por isso que, sob a influência de Limperani, os historiadores corsos acreditavam com sabedoria adotar de “boa fé” o que consideravam ser a cronologia de Cirneu: Entre Giovanni e Pietro, declara o Abade Galletti, não hesitamos em favorecer este último’. Durante o século XIX, apenas Renucci e Robiquet se conformaram ao texto de Giovanni, que, sendo quase contemporâneo histórico de Sambocuccio, não merecia ser questionado nesse ponto. Todos os outros seguiram o sistema de Limperani.

                                    

Gregori, em sua nova edição de Filippini, inseriu uma cronologia da Córsega que consagrou o mito de Sambocuccio como legislador do ano 1000; encontramos essa cronologia reproduzida em Jacobi, Friess, Gregorovius, Galletti, Mattei, Monti, Girolami-Cortona, todos autores de histórias gerais da Córsega; também no Grand Dictionnaire Larousse e na Grande Enciclopédia, para não mencionar obras de menor importância. O Inventário dos Arquivos Departamentais da Córsega (1906) ainda mantém essa cronologia errônea. Além disso, o mais importante e consciencioso historiador da Córsega, o Abade Rossi, confiando em Limperani, aceitou sem questionar a história de Sambocuccio assim modificada. Em seus Anais da Córsega (1873), o doutor Mattei coletou e classificou cronologicamente um número significativo de registros; em sua obra, Sambocuccio, duplicado, aparece no século XI e no século XIV. Colonna de Cesari Rocca afirma que o papel de Sambucucciu foi ampliado por historiadores modernos que o consideram o libertador do povo e o legislador da Córsega, e conclui: “Não há tradição nem documento que sustente essa opinião, que surgiu no século XVIII, nas condições que descrevemos no início desta obra. O povo o escolheu para liderá-lo contra os senhores feudais; em duas ocasiões, Sambucucciu negociou com a República o envio de um governador e, muito provavelmente, representou o partido popular em Gênova, onde atos notariais atestam sua presença. Na Córsega, ele parece ter servido apenas como conselheiro do governador, cargo que dividiu com outros seis habitantes da ilha”. Sua estátua, criada por Noël Bonardi (1934-20212), fica na saída da vila de Alando, perto do antigo Convento de Alando. Esta obra monumental em granito rosa, pesando 18 toneladas e com 6 metros de altura, foi inaugurada recentemente em 1994.

A Córsega é a quarta maior ilha do mar Mediterrâneo por extensão depois da Sicília, Sardenha e Chipre e a maior ilha da França. Localiza-se a Oeste da Itália, na zona geográfica italiana, constituindo uma coletividade territorial única. É dividida em dois departamentos: Alta Córsega e Córsega do Sul. Separada da Sardenha por um curto trecho do Estreito de Bonifácio, emerge como uma enorme cadeia de montanhas rica em florestas do Mar Mediterrâneo, marcando a fronteira entre a parte ocidental do mar Tirreno e o mar Lígure. É universalmente reconhecida como o berço de Napoleão Bonaparte (1769-1821), que nasceu em Ajaccio, um ano após a ilha ser ocupada pelo Reino da França. Também é o berço de Pascal Paoli (1725-1807), lutador e revolucionário corso. Pasquale Paoli: “Nós nascemos italianos pelo sentimento, mas, em primeiro lugar, nos sentimos italianos pelo idioma, pelas raízes, pelas tradições. Todos os italianos são irmãos para a História e para Deus... Como corsos, nós não queremos ser escravos, nem rebeldes e, como italianos, nós temos o direito de ser tratados como todos os outros irmãos italianos... Nós ganharemos ou nós morreremos (contra os franceses) com nossas armas em nossas mãos... A guerra contra a França há pouco é santa porque o nome de Deus é santo e justo. Aqui em nossas montanhas aparecerá para toda a Itália o sol da liberdade”.

A sua capital e maior cidade é Ajaccio, que também é a capital da Córsega do Sul, enquanto a Bastia geograficamente, a segunda mais populosa cidade da ilha, é a capital da Alta Córsega. Outras localidades importantes são Porto-Vecchio, Borgo, Corte e Calvi. Seu ponto mais alto é o Monte Cinto, com 2.706 metros de altitude. Com cerca de um terço do território protegido como parque nacional, e muito do belo litoral continuando imune do cimento que mudou grande parte da costa mediterrânica, a Córsega, quase despovoada (31 hab./km²), com base da sua economia em boa parte no turismo, pode praticamente duplicar a sua população no verão. A relação não resolvida entre a Córsega e a França, que a governa há 258 anos, manifesta-se não só a partir do apego de seu povo às suas tradições e sua língua (u Corsu, “linguagem poderosa, e o mais italiano entre os dialetos da Itália”, segundo Niccolò Tommaseo), mas por indicadores estatísticos que revelam a crise econômica e social (perene último colocado do país francês por nascimento e emprego) e por seus fortes sociais impulsos de autonomia e Independência, representados pelo nacionalismo corso, que colidem com a constituição francesa.

Na história de Córsega, a geografia e orografia tiveram consequências maiores que em outros lugares. A grande ilha mediterrânea é uma “montanha no meio do mar”, atravessada de noroeste a sudeste por um formidável relevo cujas montanhas superam por vezes os 2,5 km de altitude. O ponto mais alto da ilha alcança os 2706 m no Monte Cinto, cujo pico fica somente a 28 km do mar, mostrando o grande declive da ilha. Esse relevo sempre dividiu Córsega em duas partes à nordeste e sudoeste da ilha: a Alta Córsega, chamada historicamente de “Banda de dentro” pois se encontra antes das montanhas pegando como referência a Itália ou Cismonte, e a Corse-du-Sud, chamada historicamente de “Banda de fora”, além das montanhas ou Pumonte. Os vilarejos que se dispersam pelas montanhas, muitos acima dos 1000 metros de altitude, ficavam no inverno sem ligações com o resto da ilha por conta de nevascas que podem durar até semanas. Isto causava uma barreira que dividia as duas regiões. Além disto, os íngremes vales eram por vezes sem estradas de ligação com outros vales dentro da própria Banda, o que deixava o interior corso com pouca influência com o restante do mundo. 

Se por um lado estas características do terreno deixaram mais difícil o trabalho dos invasores, deixaram bastante lenta a penetração e acostumando os corsos a fazer pequenas guerrilhas para resistir por séculos, contribuíram a deixar baixa a densidade de população e a separar os corsos entre eles. A Alta Córsega, virada para a Península Itálica, sofreu maior influência italiana, que no plano político-social e linguístico, enquanto a parte sudoeste manteve uma originalidade maior, mas tendo um menor progresso político, pelo menos até a invasão francesa. Enquanto as áreas de montanhas tinham uma maior tendência a conservar as tradições locais, as cidades costeiras foram fundadas por invasores. Ocasionando a criação do anarquismo nas aldeias e empurrando a população do interior a fazer “justiça com as próprias mãos”, e a difundir o fenômeno do banditismo (cf. Hobsbawm, 1971). A grande divisão orográfica acabou por criar na ilha fronteiras sociais, linguísticas e de ideais políticos. Tais fronteiras ao longo da história social e política, mesmo com poucas variações, acabaram criando as subdivisões administrativas que permanecem. A grandes dimensões da ilha (quase 8800 km²) mesmo não garantindo autonomia, foi suficiente para criar um desejo de independência nos corsos. Localizada em uma posição estratégica no Mediterrâneo acabou atraindo o interesse em outros povos que chegariam à ilha como comerciantes ou conquistadores. Os fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, pisanos, aragoneses, genoveses e, last but not least, os franceses com o Tratado de Versalhes de 1768 sorrateiramente obrigaram os genoveses a ceder a ilha, e foram os dominadores da ilha, deixando ao povo local poucos períodos de Independência.

Escólio: Devido às glaciações, o nível médio do Mediterrâneo se abaixou e se criaram diversas pontes naturais permitiram a passagem da fauna (e talvez do homem) da península Itálica ao arquipélago sardo-corso, passando pelas ilhas toscanas e atravessando um pequeno trecho de mar. Entre 12 e 14 mil anos atrás, o clima começou a sua evolução e levou o Mediterrâneo à sua forma atual, e a Córsega assumiu o aspecto atual insular. Remontam aproximadamente de 9000 anos as primeiras localidades paleolíticas de pedras e esboços de escultura achadas na Córsega, na região de Porto-Vecchio. Um esqueleto feminino chamado a dame de Bonifácio datado do VII milênio foi achado perto da cidade homônima. O neolítico se concluiu por volta de 1800 na Córsega. Neste período se desenvolveu uma civilização megalítica da que ficam menires. A localidade de Filitosa é reconhecida como patrimônio mundial, se encontra perto de Sollacaro, próximo da foz do rio Taravo. Sempre no Sul, se desenvolveu com a chegada da Idade do Bronze, a civilização Torreana, ligada com a Nurágica na ilha vizinha, a Sardenha. Desta cultura restam numerosas torres com estrutura parecida com as dos nuragues sardos, ainda que menos imponentes. Pela natureza dos achados, da época e da localização destas, acredita-se que tal civilização seria da extensão da desenvolvida na Sardenha.

Melhor organizados e armados, os Torreanos que alguns acreditam ser o antigo povo do mar dos Shardana, ganham dos megalíticos e mandam estes para o Centro e o Norte da ilha. Na mesma localidade de Filitosa restam os traços da destruição cruel do assentamento precedente e um assentamento Torreano no lugar deste. Na Idade do Ferro parece que aconteceu uma progressiva fusão entre os herdeiros das duas civilizações: começa a nascer o povo que os gregos chamarão de Κὁρυιοι, corsos. Também são achadas algumas inscrições fenícias do século IX a.C. que citam o povo do mar chamado krsym, que habitavam a Córsega e parte da Sardenha assentado em Kition (Chipre). Neste período, cada novo invasor expulsa o precedente. Chegam à ilha iberos, lígures, fenícios e gregos, enquanto os indígenas negligenciados na literatura se refugiam nos montes.

Durante as convulsões que acompanharam o fim do Império Romano do Ocidente, a Córsega foi disputada entre vândalos e godos, aliados dos últimos imperadores romanos, até que Genserico assegurou o controle em 469. Durante os 65 anos de dominação, os vândalos desfrutaram do patrimônio florestal da ilha para os estaleiros, e tiveram uma frota que aterrorizou o Mediterrâneo ocidental. A potência vândala na África foi destruída por Belisário, enquanto seu general Cirilo conquista a Córsega em 534, que foi unida ao Império Romano do Oriente. Segundo Procópio, na Córsega restavam menos de 30 000 habitantes. No período sucessivo, godos e longobardos saqueiam a ilha, deixada indefesa pelos Bizantinos, os quais após empobrecerem a ilha devido a um excessivo peso fiscal, não a tinham protegido devidamente. Por outro lado, os próprios Bizantinos tiveram problemas na África com a invasão árabe e, em 713, os árabes realizam as primeiras incursões contra a Córsega. Nesta conjuntura ocorre notável processo de despovoamento da ilha e a formação, perto de Roma, de uma colônia corsa em Porto (Óstia). A Córsega continua ligada nominalmente ao Império romano do oriente até que, em 774, Carlos Magno vence os Longobardos na Itália e conquista a ilha, que passa assim sob a jurisdição dos Francos. Porém, em 806 há novas incursões de mouros, desta vez provenientes da Península Ibérica; mesmo vencidos várias vezes por tropas de Carlos Magno (748-814), estes conseguem estrategicamente tomar o controle por breve tempo em 810.

Foram enfim expulsos por uma Expedição guiada pelo filho de Carlos Magno, porém os mouros não se dão por vencidos e continuam a fazer incursões na ilha. Para tentar acabar com esta situação, em 828 a defesa da ilha foi entregue ao Marquês Bonifácio II da Toscânia (791-838), que conduziu expedições punitivas contra os portos norte-africanos de onde saíram incursões árabes contra o litoral do mar Tirreno; na via de volta Bonifácio construiu uma fortaleza perto da ponta sul da Córsega, fundando o núcleo fortificado da cidade de Bonifácio. A guerra contra os sarracenos, que voltaram bem cedo a fazer ataques, foi continuada pelo filho de Bonifácio, Adalberto, que herdou o compromisso em 846. Os sarracenos permaneceram donos de algumas bases na ilha pelo menos até 930. A Córsega, que nesta altura era unida ao reino de Berengário II, rei da Itália, virou refúgio de seu filho Adalberto em 962, depois que Berengário perdeu o reino para Otão I, o Grande, coroado Rei de Itália em Pavia, em 951. Adalberto conseguiu manter o controle da Córsega e passou-a para o seu filho homônimo, que foi vencido pelas forças de Otão II. Determinou-se então a entrega da ilha à marca da Toscana, ficando o último Adalberto responsável pela Córsega. Nesta época surgiu uma anarquia feudal que viu explodir uma luta entre pequenos senhores locais ansiosos de expandir seus pequenos domínios. Entre estes aparecem os Condes de Cinarca, que se pretendem descendentes diretos de Adalberto e procuram expandir o domínio à ilha inteira. Tal vontade deu origem a batalhas que duraram por séculos: para pôr contraste às ambições dos feudatários, ainda no século XIV Sambuccio d`Alando se colocou à frente de uma Dieta que se opôs às pretensões deles, confinando os senhores na porção Sudoeste da ilha.

Esta receberá o nome de “Terra dos Senhores” (Pomonte) enquanto no restante da ilha se afirma definitivamente um regime que liga entre eles comuns autônomos (ao exemplo do modelo análogo que se aconteceu na Itália desde o século XI). Tal território receberá o nome de “Terra de Comuns” (Cismonte). A divisão durará até ao século XVIII e marcará significativas diferenças no desenvolvimento social, econômico e até linguístico entre as duas partes da ilha, com o Norte mais ligado à Itália e com uma língua mais parecida com a da Toscana. Do ponto de vista de organização, na Terra de Comuns, cada qual dos comuns mais importantes chefiando uma Piave (a paróquia principal) nomeavam através de sufrágio universal, incluindo as mulheres, os representantes chamados “Pais dos comuns”, responsáveis pela administração da justiça e da eleição dos presidentes deles, chamado podestà, que coordenava a operação. Os podestàs das várias Piaves, por sua vez, escolhiam os membros de um conselho superior, chamado “Conselho dos Doze”, responsável das leis e regulamentos estabelecidos na Terra de Comuns. Os “Pais dos comuns”, além disso, elegiam para cada Piave um Chefe, um magistrado responsável pela proteção e pela segurança da população, encarregado de garantir que os mais desfavorecidos não fossem explorados e que fosse mantida justiça para eles. Grande parte das terras dessa região eram consideradas de propriedade da coletividade comunal.

 A total abolição das propriedades comuns, promovida na segunda metade do século XIX pela França, trouxe consequências graves para a economia da Córsega. Em Cinarca (Terra dos Senhores), os barões feudais mantinham as suas prerrogativas, assim como aqueles que controlavam o Capo Corso, e juntos constituíam uma ameaça para o sistema em vigor na “Terra de Comuns. Para fazer frente, em 1020 os magistrados desta última pediram ajuda de Guglielmo Marquês de Massa (1160-1214) da família Malaspina, o qual, descendo na ilha, reduziu a ordem dos barões do Conde de Cinarca e estabeleceu na Córsega um próprio protetorado, para transmitir depois ao próprio filho. Em torno da metade do século XI, todavia, o Papado levantou, na base de documentos falsificados, uma doação por obra de Carlos Magno, o qual havia estabelecido ama reversibilidade do próprio domínio a favor da Santa Sede, a questão da própria soberania na Córsega.

Tal reivindicação achou grande consentimento na ilha, a começar pelo seu clero, e em 1077 os corsos se declararam súbditos de Roma. O papa Gregório VII (1073-1085), em auge da questão das investiduras com o Imperador Henrique IV, não tomou diretamente o controle da ilha, mas passou ao bispo de Pisa, Landolfo, que o encarregou de legado pontifício pela Córsega. Em seguida, o titular da cátedra arcebispal pisana passou a ser também Primado da Córsega (e da Sardenha). Catorze anos depois, o Papa Urbano II (1088-1099) confirmou as concessões do seu predecessor através da bula Nos Igitur. O título de legado pontifício passou então a Daiberto, instalado na cátedra de Landolfo. A assinação como sufragânea dos bispados corsos fez com que o bispo de Pisa assumisse o título de arcebispo. Pisa, com o seu porto, mantinha por séculos (desde a época romana) estreitos ligações com a ilha, expandindo - ao mesmo tempo que a própria potência marítima crescia - a própria influência política, cultural e econômica. Durante a administração episcopal seguiu inevitavelmente a autoridade política dos Juízes da República toscana, destinada em breve tempo a fazer reflorescer a Córsega e marcar profundamente também depois de substancial perda de controle da ilha em seguida a desastrosa derrota sofrida pelos pisanos nas mãos dos genoveses, na Batalha da Meloria em (1284). Apesar de que na atualidade em geral se julgue positivamente o governo da República de Pisa, não faltaram na Córsega motivos de descontentamento.

Parte do clero e dos bispos da ilha não suportava a submissão ao arcebispo de Pisa, ao mesmo tempo que o poder crescente da República de Génova, rival tradicional de Pisa, sabendo do valor estratégico da Córsega, apoiou às reclamações dos corsos no tribunal papal de Roma para obter a ilha em próprio favor. Deste modo, depois de um período durante o qual o papado não adotou uma posição clara, em 1138 Papa Inocêncio II estabeleceu uma solução de compromisso e dividiu a jurisdição eclesiástica da ilha entre os arcebispos de Pisa e de Gênova, assinando o começo da influência lígure na Córsega, sendo ainda mais forte depois de 1195 com a ocupação genovesa de Bonifácio. Os pisanos tentaram por vinte anos, sem sucesso, de recapturar a cidade, até que em 1217 o Papa Honório III tomou o controle da ilha. Porém, a mediação papal não serviu para cessar a briga entre Pisa e Gênova, e com a influência deles, fez repercutir durante todo o século XIII também na ilha a briga entre guelfos e gibelinos que estava acontecendo em toda a Itália. No ambiente desta briga e que já tinha acontecido e que se repetiria muitas vezes mais tarde favorecendo os domínios, os maiorais da Terra de Comuns invocaram a intervenção do marquês Isnardo Malaspina. Os pisanos reagiram estabelecendo um novo conte de Cinarca, e a guerra invadiu a ilha sem que nem o partido genovês nem o pisano puderam ser impostos definitivamente até a batalha de Meloria 1284, inclinado a balança a favor de Gênova que, a partir daquele momento, estendeu a sua influência na Córsega.

A memória da influência pisana permaneceu na toponímia e na onomástica ainda são muito difundidos na Córsega sobrenomes de origem toscana, no idioma local bem toscano principalmente na região de Bastia e de Capo corso e em alguns dos exemplos mais notáveis de arquitetura românica que permaneceu na ilha, igrejas e edifícios públicos: em todas as catedrais de Nebbio, Mariana, San Michele di Murato, San Giovanni di Carbini, Santa Maria Maggiore di Bonifacio, San Nicola di Pieve e de infraestruturas de rodovias, pontes, fortificações e torres. Contudo, até mesmo depois do começo do domínio genovês, Pisa manteve intensas relações com a Córsega, como é demonstrado empiricamente no corpus documental abundante relativo à Córsega que está na Cúria de Pisa, a qual anexara uma escola para seminaristas corsos durante muito tempo. Pouco conhecido, embora significante, é o fato de o Nielluccio, um dos vinhedos mais difundido na ilha semelhante ao Sangiovese da Toscana, a base do vinho corso Patrimônio, ter sido importado pelos pisanos no século XII. Durante aquele tempo ganha também prestígio na Córsega o toscano vulgar, que passa a ser a língua oficial. Pisa também será a primeira da sede universitária seguida por Roma e Nápoles frequentada por corsos. 

Estudaram em Pisa Carlo e Giuseppe Bonaparte, Antonmarchi, médico em Santa Helena de Napoleão, o poeta Salvatore Viale, o higienista Pietrasanta, o doutor de Napoleão III vindo a ser, nos casos de Angeli, Farinola, Pozzo di Borgo e outros a formar parte do corpo educacional e reitoral da extraordinária Universidade de Pisa. Em 12 de junho de 1295, para complicar ainda mais a situação na Córsega, depois da derrota dos pisanos na batalha de Meloria que fez estes perderem o controle da ilha, interveio o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), investindo em favor do rei Jaime II de Aragão (insinuado na briga pela Reconquista) e soberano do novo Reino de Sardenha e Córsega (Tratado de Anagni). Porém, os aragoneses não decidiram atacar a Sardenha até 1324, acabando assim com qualquer desejo dos pisanos de controlar o norte de Sardenha e da Córsega. Durante aquele tempo a Córsega continuou em uma situação de anarquia até 1347, tempo em qual foi convocada uma grande assembleia de Líderes e Barões que, guiada por Sambucuccio de Alando, decidiu-se ficar sob a proteção de Génova e oferecer à república lígure a soberania total na ilha que seria exercitada por meio de um governador. De acordo com esta oferta, a Córsega pagaria tributos regulares a Génova, que em troca ficaria com o custo de proteger a ilha dos ataques repetidos de piratas que continuarão de um modo descontínuo até o século XVIII e garantiria a manutenção das leis corsas e de suas estruturas e alfândegas de governo autônomo local que foi regulado pelo Conselho dos Doze em Cismonte, e para o Conselho dos Seis em Pumonte. Os interesses insulares seriam representados por Génova através de um Oratore.

Naquele tempo toda a Europa estava sendo afetada pela Peste negra que também chegou na Córsega e causou numerosas vítimas no mesmo momento no qual a supremacia genovesa foi afirmada. O acordo entre os Líderes e Barões foi violado e tanto uns como os outros mantiveram conflitos que afetaram a colocação efetiva do domínio genovês na Córsega. Nesta situação o rei Pedro IV de Aragão reivindicou os direitos de soberania da ilha. Então, o Barão Arrigo della Rocca, Conde de Cinarca, aparece em cena, e com o apoio das tropas aragonesas em 1372 assume o controle quase total da ilha, deixando apenas o extremo norte e algumas fortificações marinhas sob controle genovês. Esta vitória levou os Barões do Capo corso a pedir ajuda novamente a Génova, que pensou resolver o problema investindo na ilha uma companhia comercial chamada Maona, formada por cinco pessoas com tentativa de subornar Arrigo, ainda que sem resultados. A Maona especialmente era um consórcio de comerciantes por vezes de caráter familiar que Gênova usou entre os séculos XIII e o século XV, com as funções de governo também nas colônias orientais. Entre as primeiras Maonas esteve a da ilha de Quios, no Egeu, instituída em 1347 e entre os sócios originou a família nobre famosa genovesa dos Giustiniani. Ao continuar as tensões, em 1380, quatro dos cinco sócios da Maona resignaram a Gênova os cargos, deixando Leonello Lomellino a exercitar a função de governador. Com tal cargo, Lomellino fundou, em 1383, a cidade de Bastia, dedicado a transformar o núcleo mais importante do domínio genovês e capital da ilha até a mudança para Ajaccio, depois da invasão francesa no século XVIII.

  

Foi somente em 1401, depois da morte de Arrigo, que a autoridade genovesa foi formalmente restabelecida na ilha, embora Génova naquela época tenha caído nas mãos dos franceses: entre 1396 e 1409, Carlos VI da França foi senhor da República de Génova, que administrou por meio do governador Jean II Le Meingre (1366-1421) chamado Boucicault. Sob o governo destes, em 1407, foi fundado o Banco di San Giorgio, um consórcio potente de credores privados os quais foi dada a administração das rendas do Estado e o governo de numerosas terras e colônias, entre elas a Córsega. Então, Lomellino foi reenviado a Córsega em 1407 como governador por conta de Carlos VI da França e teve que enfrentar Vincentello d`Istria que, depois que obter privilégios da Coroa de Aragão, tinha sido declarado Senhor de Cinarca e tinha contido ao redor sim a Terra de Comuns Bastia incluída, se proclamou Conde da Córsega em 1405. Os esforços de Lomellino não tinham êxito e em 1410 Gênova que tinha recuperado a Independência só controlava Bonifácio e Calvi. Uma revolta interna acabou com a Independência virtual da Córsega: a revolta de um feudatário e do bispo de Mariana fez Vincentello perder o controle da Terra de Comuns e, enquanto ele foi para Aragão para pedir ajuda, os genoveses poderiam completar a reconquista da ilha inteira. 

Porém, o jogo complexo de alianças e inimizades locais não permitiu que esta reconquista fosse durável. A colocar a situação novamente em movimento foi o Cisma do Ocidente e a briga para a investidura papal que acontece em torno ao último papa de Avinhão, Bento XIII, apoiado pelos bispos corsos favoráveis a Génova por um lado, e pelo antipapa João XXIII, apoiado por aqueles favoráveis a Pisa. Vincentello que conseguiu desembarcar na ilha com uma força militar aragonesa, não acha grandes obstáculos e tira proveito das rivalidades cruzadas para assumir o controle facilmente de Cinarca e de Ajaccio. Depois de se aliar com os bispos a favor dos pisanos, aumentou sua influência na Terra de Comuns e construiu o castelo de Corte: em 1419 a influência genovesa na ilha tinha sido novamente reduzida aos núcleos de Calvi e Bonifácio, enquanto Vincentello, com o título de Vice-rei da Córsega, estabelecia a partir de 1420 a sede de seu governo em Biguglia. Nestas circunstâncias, Afonso V de Aragão apresentou-se com uma grande frota no mar da Córsega, com o objetivo de tomar posse pessoalmente da ilha para que passasse a fazer parte do Reino de Sardenha e Córsega. Depois da queda de Calvi, Bonifácio, cidade que sempre teve grande influência genovesa seguiu resistindo animada pelas intrigas dos partidários de Gênova. Durante esse período de tempo, a resistência de Bonifácio fez com que os sitiadores acabassem com o bloqueio da cidade, que, uma vez obteve a confirmação de seus privilégios, se tornou de facto numa espécie de microrrepública independente sob proteção dos genoveses. Pouco depois, o descontentamento devido aos elevados impostos fez estourar uma revolta geral contra Vincentello, que, numa tentativa de se dirigir à Sicília, acabou restando prisioneiro e, conduzido a Gênova como rebelde e traidor, foi decapitado em 27 de abril de 1434.

A luta entre as facções pró-genovesas e pró-aragonesas prosseguiu na ilha, e o Doge genovês Giano di Campofregoso recuperou o controle da Córsega, apoiando-se na maior capacidade artilheira (1441). Com motivo de dita reconquista funda-se e fortifica a cidade de San Fiorenzo (1440). A reação aragonesa levou a luta ao seu ponto culminante. Em 1444 desembarcou na ilha um exército pontifício de 14 000 homens, enviada pelo papa Eugênio IV. Este exército, no entanto, foi derrotado pelas milícias corsas controladas por Rinuccio da Leca, encabeçando uma união que reunia quase todos os Chefes e Barões locais. No entanto, uma segunda expedição saiu vitoriosa, e o próprio Rinuccio morreu em batalha na frente de Biguglia. O ano de 1447 pode considerar-se crucial para o controle genovês da Córsega. Neste ano acede à cadeira papal Nicolau V, natural de Sarzana, na região lígure, e por isso ligado à República de Gênova. De modo imediato fez valer os direitos papais sobre a ilha (cujas principais praças estavam sob controle das tropas pontifícias) e cedeu-os a Gênova. Assim passou-se a um período em que a ilha passa a estar controlada amplamente pela República genovesa excetuando Cinarca, sob controle nominal dos aragoneses mediante o domínio mais concreto dos Senhores locais, e da Terra de Comunas, que mediante uma assembleia de seus chefes, em 1453 decidiu oferecer o governo de toda a ilha ao Banco de San Giorgio, a potente companhia comercial e financeira estabelecida em Gênova em 1407, que o aceita.

Uma vez expulsos os aragoneses de cujo passo pela Córsega ficará o emblema da Cabeça Moura, o Banco de San Giorgio começou uma autêntica guerra de extermínio contra os Barões insulares, cuja resistência organizada termina em 1460, quando os líderes são detentos e mandados ao exílio na Toscana. Ainda teriam de decorrer dois anos de lutas para conseguir submeter por completo a ilha, até 1462, em que o capitão genovês Tommasino da Campofregoso, de mãe corsa, fez valer com sucesso seus direitos familiares para reafirmar o controle total da República também no interior da ilha. Apenas dois anos depois, em 1464, Gênova, e com a Córsega, cai em mãos de Francisco I Sforza, duque de Milão. A sua morte, em 1466, a autoridade milanesa na ilha desvaneceu-se pelas habituais turbulências internas e, uma vez apenas as cidades costeiras permaneceram de modo efetivo sob a tutela das potências continentais. Em 1484 Tommasino da Campofregoso convenceu aos duques Sforza para que lhe confiassem o governo da ilha, conseguindo o controle das fortificações. 

Nesse tempo consegue consolidar o poder interno, aliando-se com Gian Paolo da Leca, o mais poderoso dos Barões insulares. Três anos depois a situação voltava-se a mover. Um descendente dos Malaspina, que já tinham tido relação com Córsega no século XI, Jacopo IV de Appiano, príncipe de Piombino, foi chamado para que interviesse em favor daqueles que se opunham a Tommasino, e assim o irmão do príncipe, Gerardo conde de Montagnano, se proclamou conde da Córsega e, depois de desembarcar na ilha, se apoderou de Biguglia e de San Fiorenzo. Mais que se opor a Gerardo, Tommasino restituiu discretamente as prerrogativas em favor do Banco de San Giorgio, que durante esse tempo refundou e fortificou Ajaccio (1492) perto do lugar da antiga Aiacium romana. A decisão de Tommasino foi criticada por outros membros de sua família e por Gian Paolo da Leca, com razão, já que em quanto o banco terminou com Gerardo, apontou suas armas contra os belicosos barões corsos, aos que não conseguiu submeter até 1511, e isto depois de longa e sangrenta luta. Durante seu governo, o Banco de San Giorgio demonstrou escassa visão política, optando por uma busca do benefício mais imediato em lugar de uma estratégia de integração, e instaurando desse modo um regime colonial.

Aumentou-se o desenvolvimento dos bosques, mas os principais benefícios eram para o Banco, que impunha à ilha umas taxas de tal magnitude que de fato impedia qualquer possibilidade de desenvolvimento local. Ao longo de toda a costa da ilha se reconstruíram e em grande parte se construíram ex novo torres de vigilância e defesa (muitas delas ainda existem hoje em dia) para dispor de um sistema de alerta contra as incursões dos piratas berberiscos, unido às patrulhas marítimas. Apesar de que não se eliminará do todo (permanecerá até o século XVIII), esta praga se controlou, ainda que mais para proteger os interesses econômicos coloniais que para brindar proteção à população corsa, que seguirá sofrendo as sangrentas incursões dos piratas, virtualmente impunes quando atuavam nas zonas de costa, que o banco considerava sem interesse estratégico e econômico. Em grande parte, as instituições locais (entre as que se distinguia por seu realmente avançado conceito político a organização da Terra de Comunas) foram abolidas ou esvaziadas de conteúdo e concorrências concretas. Os notáveis corsos nem sequer puderam gozar por completo dos direitos de cidadania, sem falar de aceder à oligarquia republicana genovesa, que por definição lhes estava fechada. As tentativas de rebelião foram geralmente reprimidas com grande dureza, utilizando com frequência o recurso à pena de morte; ou alternativamente aplicando o princípio de “divide et impera”, manejou habilmente, incitando-as quando era necessário batalhas ou inícios de guerra civil, utilizando esses desencontros para debilitar as forças e o moral dos senhores da ilha e, portanto, prevenir contra alianças que pudessem ocasionar um levantamento geral.

Desenvolveu-se a cultura da vendetta e do banditismo, que cresceram ao invés de acabarem. Tudo isto enquanto em Europa, e especialmente na vizinha Itália peninsular, florescia o Renascimento. Às desgraças políticas uniram-se epidemias de peste e o encarecimento do custo da vida que serviram para que o processo de empobrecimento e “embarbaramento” da ilha, além de exacerbar o ódio dos corsos para o domínio genovês. Durante a primeira metade do século XVI França, que se estava desenvolvendo como estado e potência europeia, começa a colocar os seus peões no Mediterrâneo pelo que manifesta interesse pela Córsega e por Itália. Neste quadro, Henrique II da França concebe um projeto para apoderar-se da ilha, aproveitando a torpeza da política dos genoveses e o ressentimento dos corsos enrolados nos exércitos franceses como mercenários. Depois de assinar em 1553 um tratado de cooperação com o sultão otomano Solimão, o Magnífico, o rei da França garantiu-se não só a neutralidade, senão também a colaboração da frota turca no Mediterrâneo. Só 18 anos depois, em 1571, o avanço turco para Europa deter-se-á na batalha de Lepanto com uma frota multinacional, ainda que dirigida principalmente por Espanha e Veneza, e na que França não participa.

Pouco depois da assinatura do tratado entre Francisco I da França e Solimão, a frota franco-turca apresentou-se ante a costa da ilha e atacou-a, sitiando ao mesmo tempo todas as fortalezas costeiras. Bastia caiu quase sem lutar, enquanto Bonifacio resistiu muito tempo e só cedeu ante a promessa à guarnição de respeitar a vida dos sitiados, promessa que os turcos incumpriram, já que uma vez a cidadela se rendeu toda a guarnição foi massacrada e a cidade saqueada. Cedo caiu toda a ilha, salvo Calvi que seguiu resistindo. Preocupado pela ação francesa, que abria decididamente as portas aos otomanos em pleno coração do Mediterrâneo ocidental, interveio o rei de Espanha e imperador de Alemanha, Carlos V, que a sua vez invadiu a ilha à cabeça de suas tropas e as de Gênova. Nos anos seguintes (os Turcos tinham desembarcado brevemente só em Bonifacio), alemães, espanhóis, genoveses, franceses e corsos lutaram ferozmente pelas fortalezas da ilha. Em 1556, data em que ocorre uma trégua, que deixava momentaneamente a França o controle de toda a ilha, salvo Bastia que, anteriormente tinha voltado a ser conquistada por genoveses e espanhóis. O governo francês conseguiu simpatias entre a população, também graças à ação dos corsos ao serviço da França, entre os que estava, com o grau de coronel, o mercenário Sampiero di Bastelica (1498-1567).

No entanto, em 1559, as conclusões da Paz de Cateau-Cambrésis dispuseram a restituição da Córsega ao Banco de San Giorgio. Os responsáveis do banco procederam imediatamente a impor duros impostos para tratar de ressarcir-se dos gastos de guerra, impostos que grande parte dos corsos se negaram ou estiveram em medida de pagar e, violando o tratado, que previa uma anistia general, procederam a confiscar todos os bens de Sampiero, de sua esposa Vannina d`Ornano (1527-1563), e de outros corsos que tinham servido ao lado da França. Sampiero, estabelecido em Provença, não se deu por vencido e começou a trabalhar para agrupar meio a ele uma parte significativa dos notáveis da ilha enfrentados a Gênova, enquanto paralelamente buscava apoios para seu projeto de separar a ilha da República de Gênova. Dirigiu-se com esse objetivo a Catarina de Médicis, então rainha regente da França depois da morte de seu marido durante os festejos de celebração da Paz de Cateau-Cambrésis (1559). Catarina negou-se a apoiar Sampiero, não querendo se implicar numa operação que reabrisse a longa guerra que acabara de terminar. Não teve mais sorte uma tentativa com Cosme I de Médicis, que queria apropriar-se da Córsega, mas pretendia fazer com ela só mediante tratados com as potências europeias, já que sabia que Toscana não estava em condições de desafiar abertamente aos genoveses.

Fracassada uma posterior tentativa de conseguir o apoio dos Farnésio de Parma, Sampiero, que tinha conseguido credenciais diplomáticas francesas, conseguiu ir pessoalmente ao Norte da África e Constantinopla para suplicar ao Sultão que interviesse para converter a Córsega em província otomana, o que demonstra bem até que ponto Gênova era odiada entre os corsos agrupados ao redor do antigo coronel dos franceses. A missão de Sampiero em Oriente terminou frustrada porque enquanto Cosme I, conhecedor dos projetos do corso para instalar à potência otomana justo em frente à costa toscanas, tinha advertido da iniciativa aos genoveses, cujos embaixadores se tinham adiantado a Sampiero e convencido aos ministros turcos para que recusassem a proposta. Enquanto Sampiero estava em Oriente, sua mulher, Vannina d`Ornano (1527-1563), dona de feudos confiscados por Gênova, tinha de recuperá-los buscando pessoalmente um acordo com a Serenísima República de Gênova. Ao ficar a saber Sampiero destas gestões ao regressar à França, não hesitou em reagir ante o que considerava uma sangrenta traição, matando a um amigo corso que tinha permanecido para cuidar a sua esposa e estrangulando pessoalmente a esposa e às duas damas de companhia que a cuidavam em sua ausência.

Sampiero reivindicou os homicídios como delito de honra debochando deste modo à justiça francesa. Levado por um grande entusiasmo e uma dose de desespero unida às suas vivências pessoais, desembarcou em julho de 1563 com um punhado de seguidores em Propriano, no golfo de Valinco, com o desejo de expulsar aos genoveses da ilha. Enquanto os genoveses uma vez conscientes do nefasto papel político desempenhado pelo Banco de San Giorgio na administração da Córsega, tinham decidido assumir o controle direto a partir de 1562, instalando um governador na ilha. Em muito pouco tempo Sampiero consolidou as alianças antes preparada consolidando um exército de 8000 homens, com o que levou a cabo uma sangrenta série de golpes de mão aos que o governo genovês se opôs tanto pelas armas como animando as rivalidades entre os notáveis ilhéus. Depois de anos de uma guerra caracterizada por uma extrema ferocidade por ambas partes, por matanças, saques, incêndios de colheitas e de populações, os genoveses explodindo o ódio dos familiares de Vannina conseguiram recrutar entre eles sicários que, em 1567 mataram Sampiero pelas costas e levaram sua cabeça ao governador de Gênova. O suposto nome do assassino de Sampiero, Vittolo passou assim a se converter em paradigma do traidor na fantasia corsa popular e ainda hoje guarda esse significado.

A luta prosseguiu durante algum tempo encabeçada por um juveníssimo filho de Sampiero, Afonso, mas os rebeldes corsos, sem a experiente liderança de Sampiero e sem recursos militares, se desanimaram e buscaram a paz, à que se chegou em 1569 com o pacto entre Afonso e o genovês Giorgio Doria. Se chegou também ao final da guerra graças a que, já nos últimos momentos da luta, Gênova parecia ter compreendido que a excessiva dureza mostrada na administração e na exploração da Córsega incitava seus habitantes a se rebelar ante as misérias infligidas, e tinha preparado uma política mais moderada e equilibrada para recuperar o apoio da população. O dispositivo de paz previa uma anistia e a libertação de reféns e prisioneiros, a concessão aos corsos de liberdade de movimento de e para Itália e liberdade para dispor diretamente seus bens, remissão e prorrogação fiscal de cinco anos. Ofereceu-se a Alfonso a restituição dos feudos de Ornano que, confiscados, estavam na origem da tragédia familiar, sempre que ele, junto a seus mais próximos colaboradores, se exilasse, como fez trasladando-se a França. Com intenção de pacificar a ilha de modo duradouro e reconhecer, além dos direitos mais básicos, elementos de autogoverno local significativos, em 1571 Gênova que se tinha voltado a ocupar diretamente da Córsega desde o final da administração do Banco de San Giorgio em 1562, instituiu os Estatutos Civis e Militares que, desde esse momento em adiante, regulariam, ao menos sobre o papel, o direito e a administração na ilha.

Sucessivamente emendados e ampliados, os Estatutos resultaram ser um bom instrumento institucional e, nas partes trasladadas à Constituição Paolina de 1755, seguirão parcialmente em vigor até a conquista francesa (1769). Desde o ponto de vista administrativo Córsega passou a depender a partir desse momento, de uma espécie de ministério especial com sede em Gênova, o Magistrado da Córsega, que rendia contas de suas atuações ante os máximos órgãos da República, a saber: o Maggior Consiglio e o Minor Consiglio. Na ilha residia um governador genovês, ajudado por um Vicário e pelo Conselho dos Doze Nobres, inspirado na instituição similar da Terra de Comunas. O território subdividiu-se em províncias, cada uma das quais chefiada por um comissário com sede em Bonifacio, Ajaccio e Calvi, ou um lugar tenente com sede em Corte ou Aleria, Rogliano, Algaiola, Sartena e Vico. As fortalezas nuns casos consertaram-se e em outros se consolidaram e ampliaram, além de dispor nelas guarnições mais sólidas que no passado. 

Se reorganizaram as Cortes de Justiça e foram dotadas de um complexo aparelho burocrático. A vida pública se reorganização sobre uma cuidada redefinição das comunidades rurais que passaram a ser o núcleo básico do território desde o ponto de vista institucional, fiscal e religioso, integrando a antiga rede das Pievi. Os povos, reunidos em parlamentos, elegiam periodicamente seus Podestás ou Pais do município, responsáveis das funções administrativas e de polícia local, mediante o cargo, também eletivo, de capitão da milícia. As comunidades governavam-se, pois, de modo bastante autônomo, sem intervenção da República, salvo casos excepcionais. Nos povos do interior da ilha esta liberdade de desenvolvimento foi tal que se criou uma classe de notáveis aos que se chamou Principais. Os atos, tanto privados como públicos, isto é, as eleições locais e Grida do governador, se transcreviam nos registros notariais, que eram remetidos de forma regular ao Cancelliere da sede provincial competente e durante um verdadeiro período as autoridades locais puderam enviar representantes próprios ao Governador ou, inclusive, às autoridades centrais em Gênova, para expressar exigências particulares, denúncias por abusos graves ou petições de ajuda em caso de calamidades como a seca. Subdividiu-se o território, desde o ponto de vista fiscal e produtivo, em círculos destinados a frutais e vinhas, tomadas, destinadas a semeia-as, e terras comuns, patrimônio coletivo das comunidades, destinadas a pastos, a cultivos de temporada e hortos, enfim, à coleta de frutos do bosque e da madeira.

Guardas florestais e juízes especializados preocupavam-se de velar por que se respeitassem os Estatutos no tratamento das terras. Definiram-se as leis civis e criminosas, bem como os impostos, que foram bem mais eficientes, apesar de seguir se baseando na talha (imposição direta) e na gabela como o escudo por bota para o vinho, as mermas para outros produtos, o boatico, venda forçada a preço reduzido de cevada e grão às guarnições estabelecidas na ilha e diversos monopólios (o mais importante o da saia) no que diz respeito à imposição indireta. As cidades costeiras, algumas das quais estavam povoadas em sua grande maioria por gente originaria de Liguria em especial Calvi, Bastia e Bonifacio, tinham diversos privilégios com respeito às localidades do interior como isenções fiscais, imunidades especiais), pelo que constituíam um mundo à parte. Sede dos governos provinciais, estas pequenas capitais desenvolveram um patriciado similar ao que se estava desenvolvendo nesse momento em Itália, se enriquecendo tanto com o comércio marítimo e com os benefícios derivados do exercício de funções administrativas unidas ao governo, como mediante os labores de exploração agrícola desenvolvidas nas zonas do interior mais próximas. A classe do patriciado, chamados os Nobres, ainda que em realidade tratava-se de uma burguesia urbana, controlava o mercado do cereal é, o da pesca, o dos empréstimos e o dos artesãos e manufaturas locais.  

Serão precisamente os membros desta classe estamental os que, sempre desejosos de ter maior prestígio e riquezas, encabeçarão no século XVIII a rebelião popular e constituirão a fonte da Córsega independente de Pasquale Paoli (1725-1807), e a seguir o primeiro elemento de legitimação local dos governos franceses. A República, tanto durante o século XVII como no XVIII, recuperou as melhores ideias do Banco de San Giorgio para melhorar o cultivo de cereais nas regiões litorais, o cultivo da oliveira, especialmente em Balagna e o aproveitamento florestal em especial os castanheiros de Castagniccia. A rede de estradas da ilha ampliou-se e melhorou alguns das pontes genoveses ainda seguem em uso, ao mesmo tempo que especialmente no Cismonte e em todas as cidades da costa teve lugar uma intensa atividade de urbanização e reestruturação de edifícios que caracterizou muitos centros históricos cujo aspecto hoje segue marcado pela forte influência do estilo lígure e barroco deste período. Na costa reforçou-se o dispositivo das torres de vigilância e defesa, devido ao recrudescimento das incursões berberiscas, que foram especialmente frequentes e destrutivas nas duas décadas que seguiram à derrota dos turcos em Lepanto em 1571. Isto é normal, já que a pirataria vinha a encher o vazio deixado pela impossibilidade de aceder de outro modo às riquezas que antes dispunham através do comércio e não era acessível devido à derrota de sua frota.

As consequências destas duas décadas de ataques, muito bem documentados e distribuídos ao longo da costa da ilha, foram desastrosas e ocasionaram o despovoamento de muitas zonas nas planícies, num êxodo que não se conhecia desde séculos antes. Como exemplo pode-se citar o caso de Sartena. Em 1540 esta região tinha onze centros maiores que no final de século ficaram abandonados em sua totalidade, se exceptuamos a própria Sartena, que teve que se fortificar e constituiu assim refúgio para toda a população circundante até o século XVIII em que, uma vez passado o perigo, puderam ressurgir os centros menores. Nesse mesmo período a ilha padeceu duas epidemias de peste que constituíram mais adiante um grave obstáculo para poder levar a cabo os planos de desenvolvimento preparados pela República, que apesar de estar bem concebidos sobre o papel não tiveram o sucesso realmente esperado. As dificuldades econômicas mantiveram a emigração dos corsos, que buscaram politicamente falando fortuna no continente, quando muitos servindo como militares ao serviço das potências estrangeiras, desafiando a proibição que nessa linha emitia Gênova, preocupada por esta sangria que dificultava seus planos de desenvolvimento e despovoava os campos. Ademais, dita preocupação estava justificada pela diminuição de erário dos rendimentos fiscais devido à falta de desenvolvimento. Esta míngua nos rendimentos era muito preocupante devido aos problemas financeiros da República, que se tinha arriscado a financiar à coroa da Espanha que, durante o século XVII, deixou de pagar os importantes empréstimos concedidos pelos genoveses nos prazos estipulados, chegando inclusive a se declarar insolventes.

Estas dificuldades minguaram a capacidade econômica de uma República genovesa, já diminuída pela progressiva perda de todas suas colônias orientais a mãos dos turcos e da diminuição do volume de seu comércio com o Levante, devido à concorrência dos franceses, que se uniu a partir do século XVI, à já tradicional concorrência exercida pela República de Veneza. Além de restabelecer a proibição formal de emigrar, imposta de novo aos corsos apesar do que se estabelecia nos Estatutos, Gênova tratou de todos os modos possíveis de impulsionar a revalorização das terras da ilha, instituindo também com esse objetivo a figuração do Magistrado do cultivo e elaborando planos de desenvolvimento que no entanto resultaram ineficazes em sua maior parte, mas de cuja qualidade geral dá depoimento o fato de que bem mais tarde serão copiados pelos franceses em planos similares por outra parte, também ineficazes durante muito tempo. Um dos pontos débeis desses planos se devia ao fato de que se baseavam, mais que sobre a questão da atuação na esfera do Estado que, em contrapartida, tinha dificuldades por seus problemas econômicos, sobre a iniciativa privada mediante um complexo sistema de feudos e enfiteuse que longe de iniciar uma dinâmica positiva acabou erodindo as terras comuns impedindo a disponibilidade plena às comunidades locais e favorecendo o lucro de alguns Principais e Nobres sem que a coletividade tivesse vantagem alguma.

Este fenômeno de expropriação e empobrecimento das comunidades corsas em benefício dos terratenentes ricos se acelerará quando este esquema seja proposto de novo pelos franceses, e acabará ocasionando danos sociais enormes e que desencadearão das rebeliões que, durante meio século, se deram na Córsega depois da ocupação francesa, e que ocasionarão o fenômeno que passará à história social como Banditismo. Neste quadro se implanta a chegada de algumas centenas de gregos originários da Lacônia a região meridional do Peloponeso fugindo do domínio otomano. Depois de dar, com problemas, o consentimento do primado pontifício estes prófugos instalaram-se em 1676 nas terras costeiras a uns 50 km ao Norte de Ajaccio. Na região, telefonema Paomia, os gregos fundaram uma colônia em Cargese que, depois da ocupação francesa, manteve quase até nossos dias seu idioma e algumas tradições originarias, incluindo o rito religioso oriental. O sucesso frustrado dos planos genoveses de desenvolvimento, que acabou por propor a questão agrícola cujas consequências se fazem sentir até nossos dias, no contexto de uma economia ainda marcada por uma exploração substancialmente colonial e de restrição progressiva na prática das escassas liberdades de que gozavam os corsos, considerados de fato súbditos e não cidadãos da República, acabou ocasionando uma crise que se parecia levar a Córsega à ruptura definitiva com Gênova, primeiro de modo gradual e imperceptível, e finalmente com a explosão da revolta a partir de 1729. A longa história dos conflitos e violências que caracterizou a Córsega a partir ao menos da queda do Império Romano, tinha acostumado a seus habitantes a considerar a guerra algo habitual e tinha fato do oficio das armas uma das principais atividades exercidas pelos corsos expatriados para os estados italianos e em muita menor medida para França desde a Idade Média até a Idade Moderna. Percorrendo atenciosamente a lista de nomes dos capitães mercenários italianos, pode-se observar que muitos deles eram originários da Córsega e que, em alguns casos, contavam com batalhões inteiros de corsos.

Entre os destacamentos militares integrados em sua totalidade por corsos que operaram fora da ilha destaca a Guarda Corsa papal, que exerceu suas funções durante vários séculos. Apesar da pouca fiabilidade dos documentos, normalmente data-se em 1378, coincidindo com o final do cativeiro de Avinhão, a fundação em Roma de um corpo militar composto exclusivamente por corsos com funções de Guarda Pontifícia e de milícia urbana. Não parece que tenha documentos que certifiquem a criação deste corpo militar antes, apesar da presença de uma significativa colônia corsa em Porto (Fiumicino) e depois no Trastevere quando a igreja de San Crisogono foi basílica sepulcral dos corsos, certificada ao menos desde o século IX e de fato socialmente não se pode excluir uma presença organizada de milícias corsas no seio os exércitos papais inclusive muito antes do século XIV, considerando o importante vínculo extraordinário entre Córsega e Roma, cidade da que dependeu a ilha formalmente a partir do século VIII e até sua definitiva entrada na órbita genovesa. A Guarda Corsa que estará ao serviço do Papa durante quase três séculos e precederá em quase 130 anos à instituição em 1506 da Guarda Suíça. Seu final chega depois de um incidente ocorrido em Roma em 20 de agosto de 1662 e é um dos indícios de que os franceses têm a cada vez mais influência na Itália. Em meados do século XVII a presença em Roma de numerosas delegações diplomáticas dos Estados tinha acabado por criar uma situação paradoxal, com respeito às potências maiores, que abusando do conceito de extraterritorialidade, tinham dotado suas embaixadas de autênticas guarnições militares que se moviam armadas por toda a cidade, e levado à transformação de zonas inteiras do centro da cidade em zonas francas, nas que os delinquentes e assassinos de todo tipo encontravam refúgio e impunidade.

O Papa Alexandre VII tratou de remediar estes excessos. O rei da Espanha e os representantes do Império aceitaram reduzir suas milícias, mas o rei da França Luís XIV, em mudança, mandou a Roma o seu primo Carlos III, duque de Créqui, como embaixador extraordinário com uma escolta militar reforçada, que pouco tempo depois teve um grave confronto perto da Ponte Sixto com alguns membros da Guarda Corsa, que patrulhavam as ruas de Roma, especialmente grave porque, inclusive, os militares sem serviço no quartel tentaram assaltar o vizinho Palácio Farnese, sede da embaixada da França, exigindo a detenção dos militares franceses responsáveis do incidente. Produziram-se disparos, no momento em que regressava ao Palácio Farnesio, a esposa do embaixador com numerosa escolta militar. Um pajem da senhora de Créqui foi ferido de morte e Luís XIV aproveitou-se para explorar ao máximo o conflito com a Santa Sé que se tinha iniciado com o governo do Cardeal Mazarino (1602-1661). O Rei Sol retirou de Roma o seu embaixador, expulsou da França o embaixador do Papa, anexou os territórios pontifícios de Avinhão e ameaçou seriamente com a invasão de Roma se o Papa não lhe apresentasse desculpas e não se submetesse a suas petições, que compreendiam a imediata dissolução da Guarda Corsa, a emissão de um anátema contra seu país, o encarceramento como represália de verdadeiro número de militares e a condenação como galeotes para outros muitos, o cesse do Governador de Roma e a construção cerca do quartel da Guarda de uma coluna de infâmia e maldição para os corsos que se tinham atrevido a desafiar a autoridade francesa. Num primeiro momento, o Papa opôs-se e tratou de ganhar tempo, mas a real possibilidade de uma intervenção do exército francês em Roma fez que cedesse. Dissolveu-se a Guarda Corsa para sempre e se encarcerou a alguns de seus membros, foi erguido o monumento infamante, e se desterrou de Roma ao governador. Em fevereiro de 1664 os franceses restituíram os territórios de Avinhão e em julho, em Fontainebleau, o sobrinho do papa, Flavio Chigi, foi obrigado a humilhar-se e a apresentar desculpas de Roma ao rei da França, que quatro anos depois deu permissão para destruir a coluna infamante. Nas negociações Luis XIV tinha visto como ampliar sua influência em Itália, convertendo-se em protetor de alguns príncipes italianos ao obrigar ao Papa, sempre no contexto dos desagravos pelo assunto da Guarda, a devolver Castro e Ronciglione ao Duque de Parma e a indenizar ao Duque de Modena por seus direitos sobre Comacchio.

Bibliografia Geral consultada.

HOBSBAWM, Eric, I Banditi. Il Banditismo Sociale nell`Età Moderna. Roma: Einaudi Editore, 1971; EMANUELLI, René, Gênes et l`Espagne dans la Guerre de Corse (1559-1569). Paris: Editeur Auguste Picard,1964; CARRINGTON, Dorothy, “The Corsican Constitution of Pasquale Paoli (1755–1769)”. In: The English Historical Review, 1973; ARRIGHI, Paul; POMPONI, Francis, Histoire de la Corse (coll. Que Sais-je? 262). Paris: Presses Universitaires de France,1967; Idem, “Le Gouvernement de Louis XVI offre à la République de Gênes la Rétrocession de la Corse (1790)”. In: Annales Historiques de la Révolution Française, vol. XLVII, 1974; ACQUAVIVA, Sabino, La Corsica: Storia di un Genocidio. Milano: Franco Angeli, 1987; MELLO, José Roberto, O Império de Carlos Magno. São Paulo: Editora Ática, 1990; WEIKART, Richard, Friedrich Engels: Evolution and the Dialectics of Nature. Socialist Darwinism: Evolution in German Socialist Thought from Marx to Bernstein. San Francisco; London: International Scholars Publications, 1999; ROCARD, Michel, “Corse: Jacobins, ne tuez pas la paix!”. In: Le Monde. Paris, 2000; MAZARINO, Giulio, Breviario dei Politici. Torino: Editore Marco Valerio, 2005; SERPENTINI, Antoine-Laurent (dir.), Dictionnaire Historique de la Corse. Paris: Éditeur‎ Albiana, 2006; BASCHET, Jérôme, A Civilização Feudal: do ano 1000 à colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006; HANN, Bertrand, L`Amitié entre Princes: Une Alliance Franco-Españoles au Temps des Guerres de Religion (1560-1570). Paris: Presses Universitaires de France, coll. Le Nœud Gordien, 2010, VI-324; LE CLECH, Sylvie, Femmes de la Renaissance: Elles Ont Lutté Pour Leur Liberté. Paris: Éditeur Tallandier, 2021; COLOMBIANI, Philippe, “La Corse Médiévale - Relations entre les Corses et la Couronne d`Aragon - Intervista”. Disponível em: https://podcast.ausha.co/dinastia-podcast/13/10/2024; CASTILJHO, Fernando Moreno; MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira, “Darwin, a Ascendência do Homem e Suas Relações com os Macacos Antropomórficos”. In: Khronos. Revista de História da Ciência, nº 20, janeiro de 2026; entres outros.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Última Parada de Yuma – Anti-heróis & Suspense Policial Neo-western.

        O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente”. Fiódor Dostoiévski             

               

       Fiódor Dostoiévski nascido em Moscou, em 11 de novembro de 1821 e falecido em São Petersburgo, em 9 de fevereiro de 1881 foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos especialistas um dos maiores romancistas e pensadores da história social, bem como um dos maiores “psicólogos” que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique. Ao terminar a sua formação acadêmica, como engenheiro, Dostoiévski trabalhou a full-time como escritor, escrevendo romances, novelas, contos, memórias, notas, escritos jornalísticos e escritos críticos. Além disso, atuou como editor em revistas próprias, como preceptor e participou em algumas atividades políticas. Suas obras mais importantes foram as literárias, nas quais abordou, entre outros temas, o significado do sofrimento e da culpa, o livre-arbítrio, o cristianismo, o racionalismo, o niilismo, a pobreza, a violência, o assassinato, o altruísmo, além de analisar transtornos mentais, muitas vezes ligados à humilhação, ao isolamento, ao sadismo, ao masoquismo e ao suicídio. Pela retratação filosófica e psicológica profunda e atemporal dessas questões, sociais seus escritos são comumente chamados de romances filosóficos e romances psicológicos. Dostoiévski logrou atingir certo sucesso já com seu primeiro romance, Gente Pobre, o qual foi elogiado e protegido pelo mais importante crítico literário russo da primeira metade do século XIX, Vissarion Belinski (1811-1848).

Seu segundo romance, O Duplo (1846), obra muita famosa, tendo sido reinterpretada literária e cinematograficamente, recebeu críticas muito negativas, inclusive do seu antigo protetor, críticas que acabaram por destruir o reconhecimento que Dostoiévski começava a adquirir como escritor. Apenas após seu retorno da prisão na Sibéria, Dostoiévski foi preso por tramar contra o Czar, repetiria o escritor seu sucesso inicial com a semibiográfica obra Recordações da Casa dos Mortos, a qual trata dos anos que passou na prisão. Mais tarde sua fama aumentaria drasticamente graças a obras como Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios. Foi, entretanto, já próximo da morte que Dostoiévski consolidou-se um dos maiores escritores de todos os tempos com sua obra-prima Os Irmãos Karamazov.  A influência de Dostoiévski é ímpar: ele influenciou diretamente a Literatura, a Filosofia, a Psicologia e a Teologia. Sob sua influência direta foram produzidas várias obras literárias e cinematográficas. Foi também reconhecido como precursor dos seguintes movimentos sociais: nietzscheanismo, psicanálise, expressionismo, surrealismo, teologia da crise e existencialismo. O reconhecimento populista também é imenso, tendo em vista que é mundialmente reconhecido, possui diversas estátuas, selos e moedas em sua homenagem e contemporaneamente celebra-se em São Petesburgo o Dia Dostoiévski. São Petersburgo é a segunda maior cidade da Rússia, politicamente incorporada como uma cidade autônoma ou cidade federal. Ela está localizada no rio Neva, na entrada do Golfo da Finlândia, no Mar Báltico.

Em 1914, o nome da cidade foi mudado para Petrogrado e, em 1924, para Leningrado. Em 1991, após o “colapso” da União Soviética, a cidade voltou ao seu nome original. É frequentemente chamada apenas de Petersburgo e informalmente conhecida como Peter. São Petersburgo foi fundada pelo czar Pedro, o Grande em 27 de maio de 1703. Entre 1713–1728 e 1732–1918, foi a capital do Império Russo. Em 1918, as instituições da administração central mudaram-se de São Petersburgo então denominada Petrogrado para Moscou. Com 5 milhões de habitantes (2012) é a quarta subdivisão federal mais populosa do país. A cidade é um grande centro cultural europeu e também um importante porto russo no Báltico. É frequentemente descrita como a metrópole mais ocidentalizada da Rússia, bem como a capital cultural do país. É a cidade mais setentrional do mundo com população acima de 1 milhão de habitantes. Seu centro histórico e monumentos constituem um Patrimônio Mundial. São Petersburgo também é o lar do Hermitage, um dos maiores museus de arte do mundo. Um grande número de consulados estrangeiros, corporações internacionais, bancos e outras empresas estão sediados na cidade. Em 1611, exploradores suecos construíram Nyenskans, um forte às margens do rio Neva, na terra da Íngria, habitada por um grupo de fínicos. Uma pequena cidade chamada Nyen cresceria naquele local. O czar Pedro I, o Grande era interessado pela marinha, e aspirava pela construção de novo porto para o Império, já que a principal cidade portuária do país, Archangelsk, localizava-se no mar Branco, que era bloqueado para navegação durante os meses de inverno rigoroso.

                                        


Em 12 de maio de 1703, durante a Grande Guerra do Norte, Pedro capturou a cidade de Nyenskans das mãos dos suecos. Em 27 de maio de 1703, próximo do estuário da ilha de Hare, o czar estabeleceu o Forte de Pedro e Paulo, que daria início à construção da cidade. A cidade seria então construída por camponeses de toda a Rússia, junto de alguns prisioneiros de guerra suecos, que também se envolveram na construção, todos sob a supervisão de Alexandre Menchikov. Dezenas de milhares de servos morreram durante a construção da cidade, que mais tarde se tornaria o centro de uma nova província. Pedro então transferiu a capital de Moscou para uma São Petersburgo ainda não concluída no ano de 1712, nove anos antes do Tratado de Nystad que daria um fim à guerra. Ele referia-se a São Petersburgo como a capital desde 1704. Em seus primeiros anos, a cidade desenvolveu-se em torno da Praça da Trindade na margem oeste do Neva, próximo ao forte. No entanto, São Petersburgo logo começou a ser construída de acordo com o plano. Em 1716, Domenico Trezzini elaborou um projeto no qual o centro da cidade localizar-se-ia na Ilha de Vassiliev e seria moldada por uma cadeia retangular de canais. O projeto não foi completado, e o fracasso da ideia ainda é visível nos formatos das vias. Em 1716, Pedro apontaria Jean-Baptiste Alexandre Le Blond como o arquiteto-chefe da cidade.

O estilo Barroco, desenvolvido por Trezzini e outros arquitetos são explícitos em construções como o Palácio de Menchikov, o Kunstkamera e a Catedral de Pedro e Paulo, que se tornaram prédios proeminentes no início do século XVIII. Em 1724, a Academia de Ciências, a Universidade nacional e um Ginásio Acadêmico foram inaugurados na cidade pelo czar que a fundara. Em 1725, Pedro morreria, sete anos após o filho, deixando o trono ao seu neto Pedro II, que transferiu a capital novamente para Moscou, pressionado pela nobreza que se opunha aos ideais de modernizações característicos de Pedro I. Com a ascensão da czarina Ana, em 1732, São Petersburgo mais uma vez viria a se tornar a capital russa. Por mais 186 anos, a cidade permaneceria como o trono da família Romanov e a sede da corte do Império Russo, até a Revolução de 1917.  Em 1736, a cidade sofreu de incêndios catastróficos. Para reestruturar os distritos mais danificados, um novo plano foi estabelecido em 1737, por um comitê sob o comando de Burkhard Christoph von Münnich. A cidade foi dividida em cinco distritos, enquanto o centro foi transferido para o bairro do Almirantado, situado na margem leste entre o Neva e o Fontanka. O centro então passou a prosperar por três vias radiais, que se encontravam no Almirantado e que dariam origem à célebre Avenida Névski. O estilo Barroco dominou a cidade pelos primeiros sessenta anos, sendo sucedido pelo estilo Naryshkin, representado pelo arquiteto Bartolomeo Rastrelli com o majestoso Palácio de Inverno.

Na década de 1760, a arquitetura barroca foi substituída pelo neoclássico. O departamento de construção civil da cidade definiu que em 1762 que nenhuma estrutura deveria ser mais alta que o Palácio de Inverno, proibindo espaços entre construções. Durante o reinado de Catarina, a Grande, as margens do rio Neva foram definidas com granito. Todavia, apenas em 1850 foi aberta a primeira ponte permanente sobre o Neva, a Blagoveshchenski. Os principais nomes do neoclássico de São Petersburgo da época foram Jean-Baptiste Vallin de la Mothe, que construiu a Academia Imperial de Artes, o Gostiny Dvor, o Arco de Nova Holanda e a Igreja Católica de Santa Catarina; Antonio Rinaldi, arquiteto do Palácio de Mármore; Iuri Felten, representado pelo Hermitage e pela Igreja de Chesme, Giacomo Quarenghi, que arquitetou a Academia de Ciências, o teatro do Hermitage e o Palácio de Iussupov; Andrei Voronikhin, cujas obras incluem o Instituto de Mineração e a Catedral de Nossa Senhora de Kazan; Andrei Zakharov, arquiteto do prédio do Almirantado; Jean-François Thomas de Thomon, que projetou a Bolsa da Ilha de Vassiliev; Carlo Rossi, autor do Palácio de Ielagin, de Mikhailovski, do Teatro Alexandrino, dos prédios do Senado e do Sínodo e de várias ruas, praças e avenidas; Vassili Stasov, que construiu o Portão Triunfal de Moscou e a Catedral da Trindade e Auguste de Montferrand, arquiteto da Catedral de Santo Isaac e da Coluna de Alexandre.            

Em 1810, a primeira instituição de ensino superior de engenharia foi aberta em São Petersburgo pelo czar Alexandre I. A vitória sobre a Império Francês de Napoleão Bonaparte na Guerra Patriótica de 1812 foi celebrada com vários monumentos, incluindo a Coluna, de 1834 e o Portão Triunfal de Narva. Em 1825, a revolta contra Nicolau I ocorreria na Praça do Senado da cidade, um dia após ele ter assumido o trono. Em torno dos anos 1840, a arquitetura neoclássica deu lugar a vários estilos românticos, que permaneceriam na moda até a década de 1890, representados por arquitetos como o reconhecido Andrei Stackenschneider, que projetou os palácios de Mariinski, Beloselski-Belozérski e Nikolaiévski. Com a emancipação dos camponeses sancionada por Alexandre II em 1861 e uma revolução industrial, o influxo de camponeses para a capital cresceu imensamente. Os distritos mais pobres emergiriam nas periferias da cidade. São Petersburgo ultrapassava Moscou com relação à população e crescimento industrial, desenvolvendo-se até tornar-se uma das maiores cidades industriais da Europa, com uma importante base naval em Kronstadt. 

Os nomes dos santos Pedro e Paulo, que batizaram as primeiras construções da cidade, por ironia, eram os mesmos dos primeiros dois czares russos assassinados - Pedro III, em 1762, como resultado de um complô elaborado pela própria czarina Catarina, e Paulo I, em 1801, morto por conspiradores que pretendiam levar o seu filho, Alexandre I, ao trono. O terceiro czar assassinado seria Alexandre II, em 1881 e, posteriormente, Nicolau II seria o último, em 1918. The Last Stop in Yuma County tem como representação social um filme norte-americano de suspense policial neo-western de 2023, produzido, escrito e dirigido por Francis Galluppi em sua estreia na direção de longas-metragens. É estrelado por Jim Cummings, Jocelin Donahue, Richard Brake, Faizon Love e Michael Abbott Jr. O filme estreou no Fantastic Fest em 23 de setembro de 2023 e teve um lançamento limitado nos cinemas dos Estados Unidos antes de ser lançado em plataformas digitais em 10 de maio de 2024 pela Well Go USA Entertainment. O faroeste contemporâneo é um subgênero do gênero faroeste que inclui cenários contemporâneos e utiliza temas, arquétipos e motivos do Velho Oeste, como um “anti-herói rebelde, planícies abertas e paisagens desérticas, ou tiroteios”. Este subgênero inclui os gêneros pós-faroeste, neo-faroeste e faroeste urbano, que incluem o “culto do cowboy” em um cenário moderno que envolve os sentimentos e a compreensão do público sobre os filmes de faroeste. Pode-se dizer que um neo-faroeste utiliza temas do faroeste ambientados. De acordo com Stephen Teo em Eastern Westerns: Film and Genre Outside and Inside Hollywood, há pouca diferença entre o neo-faroeste e o pós-faroeste, e os termos podem ser frequentemente usados de forma intercambiável.  

            O filme representou um projeto de paixão para Francis Galluppi, que passou anos tentando realizá-lo. Antes de trabalhar na indústria da Sétima Arte, o realizador teve uma carreira musical que envolvia muitas viagens, tendo descrito experienciar uma sensação recorrente de ser um “peixe fora d`água” ao entrar em estabelecimentos de áreas pouco povoadas. Após um acordo com uma produtora que não se concretizou, o produtor executivo James Claeys ofereceu-se para vender a sua própria casa e financiar o filme, acabando Galluppi por aceitar a oferta de Claeys. Numa entrevista, o realizador confessou que o projeto só se concretizou quando finalmente encontrou um cenário de lanchonete no Four Aces Movie Ranch em Palmdale, Califórnia, para começar as filmagens. O longa-metragem foi rodada ao longo de 20 dias com um orçamento de US$ 1 milhão. O filme The Last Stop in Yuma County estreou no Fantastic Fest em 23 de setembro de 2023. Teve um lançamento limitado nos cinemas e foi lançado em plataformas digitais a 10 de maio de 2024 e em formato físico Blu-ray nos Estados Unidos a 16 de julho de 2024, ambos pelo Well Go USAM Entertainment. A versão em Blu-ray contem versões com comentários em audio, um making-of e o trailer original de cinema do filme. A Arrow Vídeo lançou o filme também em Blu-ray a 17 de fevereiro de 2025 no Reino Unido. O lançamento contém todos os extras do lançamento anterior, para além de uma entrevista adicional com Galluppi, um ensaio visual e um texto sobre o filme. 

Na América do Norte (Canadá, Estados Unidos e Porto Rico), The Last Stop in Yuma County arrecadou cerca de US$ 41.520 em 45 cinemas durante o seu fim de semana de estreia, terminando em 29º lugar no ranking. No total, o filme arrecadou US$ 94.344 na América do Norte. O filme teve um ótimo desempenho e críticas em França, estreando com US$ 211.801 e arrecadando US$ 590.840 durante o seu tempo de exibição nos cinemas. Mundialmente, o filme arrecadou US$ 685.184. Historicamente em 1929, já se falava da necessidade de mudanças nos filmes de faroeste para que se mantivessem relevantes na América moderna da época, pois “Tom Mix, Hoot Gibson e Ken Maynard precisam trocar os cavalos pelos aviões ou voltar para o asilo de atores veteranos”. No entanto, o surgimento do faroeste contemporâneo é atribuído a dois motivos específicos: 1) a ambientação contemporânea permitiu o uso de um número maior de ideias sociais para enredos, que incluíam de tudo, desde bandidos modernos e malvados até carros de alta tecnologia e metralhadoras; 2) Gene Autry, um astro famoso dos filmes de faroeste, também era um cantor e artista renomado. Para aproveitar ao máximo sua reputação, a Republic Pictures decidiu que o melhor seria Autry interpretar a si mesmo, transferindo assim os filmes do Velho Oeste para um cenário contemporâneo.


Alguns atores anteriores, como Ken Maynard (1895-1973) e Hoot Gibson (1892-1962), ocasionalmente estrelaram filmes com ambientação moderna, mas Autry foi o primeiro ator a estrelar esse tipo de filme regularmente. Os filmes de Autry também foram descritos como “dramas policiais em um cenário ocidental contemporâneo”. Outros exemplos iniciais do gênero foram filmes estrelados por Roy Rogers, que incluíam cenários contemporâneos com forte dependência de personagens e imagens tradicionais do faroeste, como Silver Spurs (1943). Seus filmes realizados após 1947 são descritos como “quase sem exceção, filmes de aventura modernos ambientados no oeste americano”. A empresa Republic Pictures, que distribuiu um número significativo de filmes de Gene Autry e Roy Rogers foram as duas maiores lendas dos faroestes musicais dos anos 1930 e 1940. Embora tenham sido os maiores rivais da época de ouro do estúdio Republic Pictures, eles trabalharam juntos num único longa-metragem e dividiram espaço  em outro. Autry e Rogers se especializou no subgênero faroeste contemporâneo, um exemplo do qual é também Texas Rangers Ride Again (1940) da Paramount.

Um dos primeiros anti-heróis é Tersites, de Homero, pois ele serve para expressar críticas, demonstrando uma postura anti-establishment. O conceito também foi identificado no drama grego clássico, na sátira romana e na literatura renascentista como Dom Quixote e o malandro picaresco. Um anti-herói que se encaixa na noção mais contemporânea do termo é o guerreiro de casta inferior Karna, no Mahabharata. Karna é o sexto irmão dos Pândavas (simbolizando o bem), nascido fora do casamento e criado por um cocheiro de casta inferior. Ele é ridicularizado pelos Pândavas, mas aceito como um excelente guerreiro pelo antagonista Duryodhana, tornando-se assim um amigo leal, eventualmente lutando no lado errado da guerra justa final. Karna serve como uma crítica à sociedade da época, aos protagonistas, bem como à ideia de a guerra ser válida em si, mesmo que Krishna a justifique posteriormente de forma adequada. O termo anti-herói foi usado pela primeira vez já em 1714, surgindo em obras como O Sobrinho de Rameau no século XVIII, e também é usado mais amplamente para cobrir os heróis byronianos, criados pelo poeta inglês Lord Byron. O Romantismo literário do século XIX ajudou a popularizar novas formas de anti-herói, como o duplo gótico. O anti-herói acabou por se tornar uma forma estabelecida de crítica social, um fenômeno frequentemente associado ao protagonista sem nome em Notas do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski. O anti-herói emergiu como um contraponto ao arquétipo tradicional do herói, um processo que Northrop Frye chamou de “centro de gravidade” ficcional. Este movimento indicou uma mudança literária no ethos heroico, do aristocrata feudal (cf. Anderson, 1984) para o democrata urbano, tal como a mudança das narrativas épicas para as narrativas irônicas.

O anti-herói tornou-se proeminente em obras existencialistas do início do século  XX, como A Metamorfose de Franz Kafka (1915), A Náusea de Jean-Paul Sartre (1938), e O Estrangeiro de Albert Camus (1942). O protagonista nessas obras é um personagem central indeciso que vagueia pela vida e é marcado pelo tédio, angústia e alienação. O anti-herói entrou na literatura americana nas décadas de 1950 e 1960 como uma figura alienada, incapaz de se comunicar. O anti-herói americano das décadas de 1950 e 1960 era tipicamente mais proativo do que seu equivalente francês. A versão britânica do anti-herói emergiu nas obras dos “jovens raivosos” da década de 1950. Os protestos coletivos da contracultura dos anos 1960 fizeram com que o anti-herói solitário fosse gradualmente eclipsado da proeminência ficcional, embora não sem subsequentes ressurgimentos em formas literárias e cinematográficas. Durante a Era de Ouro da Televisão, dos anos 2000 até o início dos anos 2020, anti-heróis como Tony Soprano, Jack Bauer, Gregory House, Dexter Morgan, Walter White, Frank Underwood, Don Draper, Neal Caffrey, Nucky Thompson, Jax Teller, Alicia Florrick, Annalise Keating, Selina Meyer e Kendall Roy tornaram-se proeminentes nos programas de TV mais populares e aclamados pela crítica. Na década de 2020, os estudos sobre televisão expandiram-se para incluir a “anti-heroína”, examinando protagonistas femininas complexas que subvertem as expectativas tradicionais de gênero de cuidado e submissão. Em seu ensaio publicado em 2020, intitulado: Heróis Pós-heroicos – Uma Imagem Contemporânea, o sociólogo alemão Ulrich Bröckling examina a simultaneidade de modelos de papéis heroicos e pós-heroicos como uma oportunidade para explorar o lugar do heroísmo na sociedade contemporânea.

Na arte contemporânea, o artista multimídia francês Thomas Liu Le Lann aborda essa questão é clara em sua série espetacular Soft Heroes (2006), na qual anti-heróis sobrecarregados, modernos e cansados parecem ter desistido do mundo da vida cotidiana ao seu redor.  Bröckling é um sociólogo alemão e professor de sociologia cultural na Universidade Albert-Ludwigs de Freiburg. É coeditor das revistas Leviathan – Berliner Zeitschrift für Sozialwissenschaft e Behemoth – A Journal on Civilization. Após concluir a formação profissional como professor de educação especial, Bröckling estudou sociologia, história moderna e filosofia na Universidade de Freiburg. Até 1991, trabalhou para o publicitário Walter Dirks e foi coeditor da coletânea de escritos de Dirks (1987–1991), além de contribuir para a revista trimestral anarquista Schwarzer Faden. De 1991 a 1999, Bröckling trabalhou como editor em uma editora. De 1999 a 2002, foi pesquisador associado no Centro de Pesquisa Colaborativa 511 da DFG “Literatura e Antropologia” na Universidade de Konstanz e, posteriormente, até 2007, foi o coordenador acadêmico do Grupo de Treinamento em Pesquisa 838 da DFG “A Figura do Terceiro”, também na Universidade de Konstanz. Bröckling recebeu seu doutorado em 1996 e sua habilitação em sociologia pela Universidade de Freiburg em 2006. De 2007 a 2009, foi professor de Ética, Política, Retórica, no Instituto de Ciência Política da Universidade de Leipzig. De 2009 a 2011, foi professor de sociologia geral centrado em teoria sociológica na Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg. Desde 1º de abril de 2011, Bröckling é professor de Sociologia Cultural no Instituto de Sociologia da Universidade de Freiburg.      

De outubro de 2016 a setembro de 2017, foi pesquisador associado no Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da Universidade de Konstanz. A pesquisa de Ulrich Bröckling concentra-se na sociologia das tecnologias sociais e do Eu, estudos de governamentalidade, sociologia cultural, antropologia e sociologia da guerra e das forças armadas. Bröckling publica regularmente artigos e livros sobre formas contemporâneas de governo e subjetivação. Além de inúmeros ensaios sobre esses temas, suas publicações incluem a monografia The Entrepreneurial Self (Suhrkamp, 2007), que adota uma postura crítica em relação à governamentalidade, e a coletânea de ensaios Good Shepherds Lead Gently: On the Arts of Governing People (Suhrkamp, 2017). Essas publicações receberam ampla atenção, inclusive no Die Zeit e no Frankfurter Rundschau. O livro de Bröckling, Heróis Pós-Heroicos, foi escrito como parte do Centro de Pesquisa Colaborativa interdisciplinar Heróis - Heroização - Heroísmos. Da meta-perspectiva sociocultural, examina a relevância dos heróis, o desejo de heroização e também as tendências à deseherização. Bröckling explica que o culto aos heróis permanece uma “tecnologia de dominação” mesmo em sociedades pós-heroicas, como as democracias liberais. 

O crítico Michael Opitz (1962-2026) escrevendo na Deutschlandfunk Kultur, afirma: A tese muito convincente de Bröckling é que o “heroico” deve ser “pensado até o esquecimento”. Ulrich Bröckling demonstra teórica e metodologicamente de forma impressionante, neste ensaio estimulante e esclarecedor, como o status de herói pode ser “pensado até o esquecimento” e como se pode refutar de forma inteligente e elegante o heroísmo duvidoso. O xadrez, empiricamente, é classificado como jogo de mesa, classificação dada por aspectos visíveis, posto que é jogado em uma superfície plana. A formação do conceito teórico é decorrente do processo de investigação da gênese e desenvolvimento do objeto, que possibilitará a expressão da relação essencial. Para investigarmos o conteúdo teórico do conceito de xadrez, segundo Meneghel (2019), necessitamos acessar elementos teóricos referentes à essência e manifestação do objeto estudado, neste caso, o xadrez. A essência de um objeto se dá por formações a partir de conjuntos de relações sociais e históricas. Se o alvo está relacionado ao objetivo, podemos concluir que uma peça do xadrez, por exemplo, não pode ser o alvo dessa relação essencial. Dessa forma, a peça age como instrumento intermediário, pois o verdadeiro alvo é a conquista de território ou espaço. A estrutura do jogo é formada por quatro elementos: as regras, a dinâmica de ataque e defesa, a percepção e análise nas situações de jogo e os conhecimentos estratégicos e táticos. O controle da ação corporal do outro é a estrutura do xadrez desde seu surgimento como atividade lúdica, em jogos que o precederam ainda que não totalmente desenvolvidos. O jogo como manifestação do xadrez é o ponto de partida para a investigação da especificidade de nosso objeto de pesquisa. 

Partindo das relações sociais derivadas dessa compreensão, temos como finalidade, nesta produção de âmbito acadêmico, responder ao seguinte questionamento: quais elementos específicos compõem o conteúdo teórico do conceito de xadrez? Para responder compreensivamente ao nosso questionamento sobre quais são os elementos que os jogadores necessitam operar em suas ações durante o jogo de xadrez, de forma geral, reportamo-nos a sua gênese e desenvolvimento, buscando no jogo contemporâneo tal resposta. Embora diversas civilizações antigas tenham sido descritas ou caracterizadas como havendo sido o berço do xadrez, tais como o Antigo Egito e a China dinástica, na contemporaneidade a maioria dos pesquisadores concorda que o jogo tenha se originado na Índia por volta do século VI d. C., na forma de uma concepção antiga xadrez com regras diferentes das atuais e denominados Chaturanga em sânscrito. Posteriormente o Chaturanga difundiu-se na Pérsia durante o século VII, recebendo o nome persa de Shatranj, provavelmente com regras diferenciadas comparativamente em relação ao jogo indiano. O Shatranj, por sua vez, foi assimilado pelo Mundo Islâmico após a conquista da Pérsia pelos muçulmanos, porém as peças se mantiveram durante muito tempo com os seus nomes persas originais. Dentre os praticantes de Shatranj, aqueles que mais se notabilizaram foram al-Razi, al-Adli e o historiador al-Suli e seu discípulo e sucessor al-Lajlaj. Diversos estudos foram realizados por al-Suli com o objetivo de compreender os princípios das aberturas e os finais de cada partida, além de “classificar os praticantes de Shatranj em cinco categorias em razão de sua força de jogo”. Na passagem do primeiro milênio da nossa Era civilizacional, o jogo já havia se difundido por grande toda a Europa e atingido a Península Ibérica no século X, sendo citado no manuscrito do século XIII, o Libro de los Juegos, que discorria sobre o Shatranj, dentre outros jogos.    

            Os jogos de tabuleiro são reconhecidos desde a Antiguidade, mas foi durante a Idade Média que a maioria deles recebeu as regras e a imagem com que são reconhecidos. Xadrez, Dama, Gamão e Moinho possuem praticamente as mesmas regras e tabuleiros que tinham na Era Medieval. Quando surgiram, os jogos de tabuleiro estavam restritos aos membros da nobreza e do clero. As pessoas comuns que formavam os gentios não tinham acesso a este tipo de entretenimento. A explicação para isso pode ser encontrada na complexidade técnica de interpretação da regra de alguns destes jogos. Outro fator estava no elevado preço que estes produtos tinham, como mercadoria, o que afastava a maior parte dos consumidores. Entre todos os jogos de tabuleiro surgidos, destacou-se o Xadrez. Mas ao contrário do que se possa imaginar, o Xadrez não foi criado na Europa. Apesar das peças do jogo estarem relacionadas a sociedade medieval europeia: rei, rainha, bispo, cavalo, torre e peões, o jogo surgiu no oriente. Mais precisamente na Índia, onde o jogo é reconhecido como Chaturanga. Com isso as peças do jogo estão associadas a cultura e religião deste povo: Raja (espécie de rei), Mantri (conselheiro do rei), Ratha (carruagem), elefante, cavalo e infantaria.     

            Um dos ancestrais dos jogos de tabuleiro contemporâneos é o Jogo real de Ur. Estima-se que era jogada em torno de 2.500 a. C. na cidade Suméria de Ur, atualmente Iraque. O jogo foi descoberto entre 1922 e 1934, durante as escavações lideradas pelo arqueólogo inglês Sir Leonard Woolley (1880-1960). Em meio a tumbas, Leonard encontrou joias, armas, e também vários tabuleiros, trabalhados em madeira e adornados com madrepérola e lápis-lazúli. O curador do Museu Britânico e especialista em escrita cuneiforme Irving Finkel, trabalhou na decifração das regras do jogo, sendo um trabalho complexo, realizado durante longa duração de sua vida. Finkel e outros especialistas do Museu Britânico encontraram uma tabuinha que se permitiu concluir que os jogos eram utilizados por essas atividades divinatórias. A arte divinatória era muito importante para os sumérios, utilizada como uma forma de se comunicar com os deuses, e para isso poderia ser usada além dos jogos, como a interpretação de sonhos e a observação de vísceras de animais. Os egípcios se interessavam por jogos de tabuleiro, um deles era o Senat, ou Senet, também conhecido como “Jogo de passagem da alma para outro mundo”.

             Fragmentos e hieróglifos encontrados em escavações indicam que o jogo de Senat teria por volta de 5.500 anos. Na tumba do faraó Tutancâmon foi encontrado quatro tabuleiros, um deles constituído de ébano e marfim, com peças em ouro. O faraó detinha o poder religioso, administrativo, judicial e militar. Podia ter diversas esposas e grande número de amantes. A endogamia era comum não somente entre os faraós, mas também nas outras frações de classes sociais. A sociedade do antigo Egito era dividida em diversos estratos sociais. A primeira era constituída pelos membros da família real. Depois, os sacerdotes, os nobres, os escribas, os guerreiros, os mercadores e os artesões. Os lavradores, operários e servos faziam parte da classe baixa da população. As classes privilegiadas eram as classes dos nobres e dos sacerdotes. Os nobres eram funcionários que administravam, em nome do faraó, os nomos, antigas divisões territoriais. Os sacerdotes faziam parte da elite intelectual de grande poder social, em virtude de serem considerados intermediários entre os homens e os deuses. Os escribas eram fiscais e contabilistas da produção das terras do faraó e constituíam uma classe prestigiada, pois era a única que dominava a complicada escrita hieroglífica.    

O jogo de Senat tinha profunda ligação com a mitologia egípcia, sendo citado no Livro dos Mortos e textos religiosos. Quando havia apenas um jogador, entendia-se que ele enfrentava o seu próprio destino, representado pela imagem do deus dos mortos, Osíris. Se vitorioso, o jogador receberia a benção da vida eterna. Vencer o jogo de Senat significa triunfar sobre o mal e renascer com sucesso na vida após a morte. O Senet era utilizado como entretenimento pelos antigos egípcios, assim como podemos perceber em várias cenas apresentadas em papiros. Apesar de ter um fim de entretenimento, apresentava um profundo significado religioso por representar a alma em sua árdua trajetória no mundo dos mortos. Segundo o arqueólogo norte-americano Peter Piccione (1980: 58) o jogo indica que os antigos egípcios acreditavam que eles poderiam influenciar a sua pós-vida. Até o final da décima oitava dinastia em 1293 a. C., o Senet foi transformado em uma simulação das viagens ao submundo. Isso porque os jogos foram encontrados em tumbas e inscrições mostram que o jogo poderia em alguns momentos ser jogado por apenas uma pessoa. Então o autor acredita em duas formas simultâneas de uso do jogo Senet. Quando se faz uso por duas pessoas, em forma de entretenimento, e por uma pessoa, em um ritual divinatório da vida após a morte.  

O Condado de Yuma é um dos 64 condados do Estado americano do Colorado. A sede do condado é Wray, e a sua maior cidade é Yuma. Os primeiros nativos norte-americanos que viviam no Colorado foram os anasazis, cerca de um milênio antes da chegada dos primeiros exploradores europeus na região. À época da chegada dos primeiros exploradores europeus na região, viviam no atual Colorado os Arapahos, os Cheyennes, os Comanches, os Kiowas e os Pawnees, na região Leste, e os Utes, no Oeste. Milhares de nativos, de tribos diferentes do Leste norte-americano, passariam pela região durante o século XIX, quando foram forçados a sair do Leste e migrar em direção ao Oeste. Os primeiros exploradores europeus na região foram espanhóis, durante o século XVI. Tais exploradores chegaram à região vindos do Sul, do México, e estavam em busca de metais preciosos, tais como ouro. Os espanhóis, não tendo encontrado ouro no atual Colorado, não se interessaram em povoar a região, tendo reivindicado posse da região somente em 1706, 24 anos depois de o francês René-Robert Cavelier ter reivindicado a posse da região Leste do atual Colorado para a coroa francesa e, assim, ter feito parte da colônia francesa de Louisiana. Nascido em Sieur de La Salle (1643-1687) foi um nobre, comerciante e explorador francês do século XVII, atuante principalmente na América do Norte. Um dos mais notórios exploradores franceses do chamado Novo Mundo, La Salle explorou a região dos Grandes Lagos dos países posteriormente fundado e nomeados Estados Unidos da América e Canadá, o rio Mississippi e o Golfo do México. No período de 1770 a 1830 a grande maioria das colônias europeias no continente americano passam por profundas transformações que marcam a descolonização e o período das independências políticas.

             Enquanto isso boa parte da África encontra-se na fase “pré-colonial”. Fase em que a presença dos europeus - sobretudo portugueses, holandeses, franceses e ingleses em contínua disputa e concorrência - se expressa em entrepostos, localizados nas costas atlânticas, onde era praticado o comércio de mercadorias bem como de homens, mulheres e crianças escravizados. Levados à força como mão-de-obra para as Américas, foi por meio desse tráfico humano que se estruturou um forte eixo de conexão transcultural entre o espaço africano ocidental, oeste e leste central e americano. Nessa parte da África, a colonização pelas nações europeias se cristaliza a partir da década de 1860, e se acirra na de 1880 com a corrida imperialista. Do lado americano do Atlântico, após a fase das independências políticas, observa-se o processo de construção e formação dos estados modernos e das nações americanas. Se as Américas e a África vivenciam trajetórias políticas marcadas por diferenças e especificidades, pode-se especular com a hipótese que impacto da Ilustração apresenta semelhanças. A Ilustração - um movimento cultural, científico, social e político que se espraia pelo continente europeu - teve a sua materialização, na França, por exemplo, no projeto da Encyclopédie, na fundação de sociedades científicas e na profissionalização das academias de ciências, que contribuíram para a organização das grandes viagens de exploração. Como as de Louis Antoine de Bougainville (1729-1811) e Jean François de La Pérouse (1741-1788), que semelhante ao britânico James Cook (1728-1779), viajam pelo “mundo afora” com uma enorme equipe de cientistas, em navios, que funcionavam também como laboratórios e gabinetes itinerantes de pesquisa nas várias áreas do saber.    

Essas viagens de circum-navegação foram essenciais no sentido civilizatório de mapear os continentes e descobrir rincões ainda desconhecidos pelos colonizadores europeus. Mas essas expedições priorizavam os litorais e somente em raros casos, como por exemplo a expedição do matemático Charles Marie de La Condamine (1701-1774) pela bacia do Amazonas, atravessavam os continentes. Afora as regiões costeiras onde os europeus já mantinham desde o século XV os seus entrepostos e por onde passam também as viagens de circum-navegação, o interior da África era terra ignota aos europeus. Com a fundação da African Association em 1788, na Grã-Bretanha, “a abertura da África” dá os seus primeiros passos. O escocês Mungo Park (1771-1806) será uma das figuras pioneiras desse movimento social in statu nascendi, ancorado na ciência da Ilustração, tornando-se referência para ulteriores exploradores, dentre eles os franceses, com o intento de penetrar no continente africano. Na América, as independências políticas e o fim dos monopólios coloniais implicaram na abertura das fronteiras franqueando a entrada de muitos estrangeiros, dentre eles numerosos viajantes exploradores motivados por razões científicas e comerciais. No caso do Brasil joanino (1808-1821), os franceses somente puderam usufruir dessa abertura após a queda de Napoleão e o restabelecimento da paz no continente europeu. É a partir dessa conjuntura política que ocorre um novo “descobrimento francês” no Brasil e um renovado interesse comercial pelo país.

La Salle é mais reconhecido por sua expedição no início de 1682 em que canoou o Baixo Mississippi da foz do rio Illinois até o Golfo do México. Em 9 de abril de 1682, La Salle reivindicou toda a Bacia do Mississippi para a França de Luís XIV, “batizando” a região de La Louisiane em homenagem a São Luís e ao próprio monarca francês. Alguns historiadores salientam que a expedição de La Salle “adquiriu para a França a metade mais fértil do continente norte-americano”. La Salle é frequentemente considerado o primeiro europeu a atravessar o rio Ohio e, eventualmente, o Mississippi como um todo. Entretanto, estudos mais recentes confirmam que Louis Jolliet (1645-1700) e Jacques Marquette (1637-1675) o precederam no Mississippi em sua jornada de 1673-1674, e evidências existentes não indicam que La Salle sequer alcançou o vale dos rios Ohio e Allegheny. Esta região passaria ao controle dos espanhóis em 1762 e, sob os termos do Tratado de Santo Ildefonso, passaria novamente ao controle dos franceses em 1800, para ser finalmente anexada, como parte da Compra da Luisiana, pelos Estados Unidos. Em 1806, um oficial do Exército dos Estados Unidos, Zebulon Montgomery Pike (1779-1813), realizou a Expedição Pike na parte norte-americana do Colorado.  

O Monte Pike seria nomeado em sua homenagem. Outra exploração, também liderada por oficiais do exército norte-americano, seria realizada em 1820. Em 1833, os norte-americanos fundariam seu primeiro forte na região, onde atualmente está localizada La Junta. Em 1848, os norte-americanos obteriam posse do restante do Colorado, então sob domínio do México, após o fim da guerra mexicano-americana. A região do atual Colorado era escassamente povoada até a década de 1850. Em 1858, porém, minas de ouro foram encontradas na região. Em apenas um ano cerca de 50 000 pessoas, entre imigrantes e habitantes do Leste norte-americano, haviam migrado para a região. O súbito crescimento populacional da região causou problemas entre os mineiros e os nativos que viviam na região, que reivindicavam a posse da região. Os mineiros instituíram um território, que foi chamado de Território de Jefferson. O governo norte-americano não reconheceu o território, e, no lugar, criou o Território de Colorado, em 1861. Diversos conflitos entre brancos e nativos ocorreram no Colorado, nas décadas de 1860 e 1870. Em 1864, por exemplo, uma milícia branca mataria, no que ficou reconhecido como o Massacre de Sand Creek, 150 cheyennes e arapahos, a maioria mulheres, crianças e idosos. Em 1868, 50 soldados do exército foram emboscados por nativos. Estes soldados lutaram por diversos dias, até serem salvos por tropas norte-americanas. A última batalha entre brancos e nativos no Colorado ocorreria em 1879, no Massacre de Meeker. Grandes minas de prata seriam encontradas no Colorado depois do término da Corrida do Ouro, o que manteve em alta o crescimento populacional do estado.

 Grandes reservas de petróleo foram encontradas no Colorado, embora estas não tenham sido exploradas em grande escala até o início da década de 1900. Em 1870, a primeira ferrovia conectando o Colorado com outras regiões foi inaugurada, comunicando Denver com Cheyenne, em Wyoming. Em 1° de agosto de 1876, o Colorado tornou-se o 38º estado norte-americano. Escólio: Em um local remoto e desértico no Condado de Yuma, Arizona, na década de 1970, um vendedor ambulante de facas para em um posto de gasolina. Vernon, o frentista do posto e do motel, informa-o de que “as bombas estão secas e que não há outros postos de gasolina num raio de 160 km, mas que um caminhão-tanque deve chegar em breve”. No rádio, o vendedor ouve sobre um assalto a banco ocorrido naquela manhã em Buckeye, onde os ladrões fugiram com aproximadamente US$ 700.000 em um Ford Pinto verde com a traseira danificada. Charlotte, garçonete de uma lanchonete próxima, é deixada ali por seu marido Charlie, que é o xerife local; ela abre a lanchonete e recebe o vendedor. Em conversa com Charlotte, ele menciona que está a caminho de Carlsbad, Califórnia, para o aniversário de sua filha Sarah. Pouco depois, os dois assaltantes de banco, Travis e Beau, passam pelos destroços de um caminhão-tanque e chegam em um Pinto verde, que o vendedor reconhece sendo o carro usado na fuga do assalto. Ele conta suas suspeitas para Charlotte, que tenta ligar para o marido na delegacia, mas Beau a impede e corta o fio do telefone antes que ela consiga falar com o xerife. Os assaltantes a obrigam, sob a mira de armas de fogo, a continuar agindo normalmente em suas atividades de garçonete até que o caminhão-tanque chegue ou que alguém com combustível suficiente no carro pare. 

Sem que ninguém no restaurante saiba, o caminhão nunca chegará, pois saiu da estrada e está tombado a vários quilômetros de distância e é derradeiro para o desfecho da trama. Charlie pede ao seu assistente, Gavin, que passe na lanchonete para pegar café para a delegacia, e Charlotte tenta lhe entregar um pedido de ajuda na tampa de um dos copos, mas o café acaba derramando sem que Gavin veja a tampa quando esbarra em Travis. Enquanto isso, juntando-se ao vendedor e a Charlotte na lanchonete estão um casal de idosos do Texas, dois jovens aspirantes a criminosos chamados Miles e Sybil, e o fazendeiro local Pete que como praxe visita-o matinalmente. Com o tanque de combustível do carro de Pete quase cheio, Beau e Travis tentam obrigá-lo a entregar as chaves, mas como várias pessoas na lanchonete estão armadas, um impasse se instala. Pete tenta negociar uma saída para o impasse. No entanto, Charlotte esfaqueia Beau, o que desencadeia um tiroteio no qual todos morrem, exceto o vendedor e Sybil. Mas Sybil atira no vendedor, e ele consegue esfaqueá-la e matá-la em legítima defesa. Comparativamente é o que ocorre, na prática, com o truque espetacular no jogo de Damas que as peças parecem cair todas simultaneamente é reconhecido no meio enxadrístico como Golpe do Ladrão, Tema Turco ou simplesmente “a tática de sacrifício em cadeia”. A mágica acontece porque a captura é obrigatória, e uma dama sua colocada estrategicamente é forçada a comer várias peças do adversário em um único turno. Como funciona o truque na prática. 

Nessa manobra, você entrega uma ou mais peças de bandeja, obrigando o adversário a capturá-las. Em seguida, ao chegar na casa correta, a sua peça, geralmente uma dama, inicia uma longa sequência de capturas ziguezagueando pelo tabuleiro. O termo “Tema Turco” refere-se à dinâmica onde uma única peça limpa uma grande área de capturas em uma velocidade visual impressionante. Regras fundamentais para o golpe dar certo. Captura em Cadeia: A sua dama deve pousar em uma casa onde ela seja obrigada a pular sobre outra peça do adversário, e assim sucessivamente, até que não restem mais pulos válidos. A Lei da Maioria: Lembre-se de que, pelas regras oficiais, a captura é obrigatória e, se houver mais de um caminho possível, o jogador é obrigado a escolher o caminho que captura o maior número de peças. Casas de Pouso: A peça só é retirada do tabuleiro após a dama completar a volta inteira da captura, o que dá a ilusão de que todas as pedras caem ao mesmo tempo quando a sequência se encerra. O vendedor decide pegar o dinheiro roubado do porta-malas do Pinto e furta um pouco de combustível da caminhonete do Pete. Antes de partir em seu próprio Toyota, ele é interrompido por um jovem casal com um bebê que chega ao local. Em uma briga que se segue, o vendedor acaba matando os dois e, sem saber, atirando no próprio tanque de gasolina. O vendedor deixa o bebê chorando no carro do casal e foge, deixando um rastro de gasolina derramada. O xerife e o delegado chegam e descobrem a carnificina. Buscando vingança pelo assassinato de sua esposa, o xerife persegue o vendedor em fuga, cujo carro ficou sem gasolina perto dos destroços do caminhão-tanque. O xerife duvida, pela sua experiência, da inocência do vendedor e atira nele enquanto foge. Pouco antes de ser atingido no abdômen, o vendedor incendeia um rastro de gasolina que destrói o caminhão-tanque, resultando em uma explosão imediatamente que mata o xerife. O vendedor se deixa cair sobre sua sacola de dinheiro enquanto as notas voam com o vento.

Bibliografia Geral Consultada.

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