domingo, 5 de julho de 2026

Uma Batalha Após a Outra – Cinema, Ensemble Cast & Ex-revolucionário.

             Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer”. Mahatma Gandhi                                    

          Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another) tem como representação social um filme norte-americano de 2025 do gênero comédia e action-thriller produzido, escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson. É inspirado no romance de 1990 Vineland, de Thomas Pynchon. O ensemble cast do filme é liderado por Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benicio del Toro, Regina Hall, Teyana Taylor e Chase Infiniti em sua estreia cinematográfica. Do ponto de vista estético e narrativo, o filme articula elementos de drama, comédia, suspense, alegoria, sátira e tragédia sociopolítica. A obra combina sequências de ação intensas com elementos de sátira e crítica social, produzindo um resultado que ultrapassa o rótulo do cinema de ação convencional e se insere em um circuito mais autoral e reflexivo. Note bem: Ensemble cast é um termo em inglês que designa um elenco formado por vários atores principais e artistas cênicos aos quais são atribuídos, aproximadamente, a mesma importância e tempo de tela em uma produção dramática. A história acompanha um ex-revolucionário forçado a retomar seu antigo estilo de vida combativo quando ele e sua filha passam a ser perseguidos por um oficial militar corrupto. Thomas Anderson desejava adaptar Vineland desde o início dos anos 2000 e, por fim, incorporou suas próprias histórias à narrativa durante a escrita do roteiro. Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), apelidado de Guetto Pat, um ex-revolucionário que vive em um Estados Unidos transformado em um Estado policial de caráter fascista.

No início do filme, um grupo radical denominado French 75 conduz uma operação na fronteira entre México e Estados Unidos, libertando imigrantes detidos e prendendo agentes estatais, o que desencadeia uma resposta violenta das forças policiais, comandadas pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), figura masculina branca. A líder do movimento revolucionário, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), mulher negra, mantém um relacionamento com Bob e engravida, mas decide abandonar a filha recém-nascida, Willa (Chase Infiniti), para permanecer no movimento, até ser posteriormente presa. As filmagens principais ocorreram na Califórnia entre janeiro e junho de 2024 usando Vista Vision, tornando-se um dos primeiros filmes a utilizar o formato desde a década de 1960. Após sua estreia no TCL Chinese Theatre em Los Angeles em 8 de setembro de 2025, foi lançado nos Estados Unidos pela Warner Bros. Pictures em 26 de setembro. Com um orçamento de US$ 130–175 milhões, é o mais caro da carreira de Anderson. Arrecadou US$ 208,3 milhões mundialmente, ipso facto, imediatamente se tornando o maior sucesso comercial de Anderson. One Battle After Another recebeu aclamação generalizada e diversos prêmios. Entre eles, três vitórias no Critics` Choice Awards de 2026, quatro vitórias no Prêmios Globo de Ouro de 2026, recorde de sete indicações no Prêmios Actor 2026, 14 indicações no BAFTA 2026 (incluindo Melhor Filme), e seis vitórias no Oscar 2026 (incluindo Melhor Filme). Conquistou recorde de cinco prêmios do National Board of Review (incluindo Melhor Filme) e pelo American Film Institute um dos dez melhores filmes de 2025.

A palavra batalha, atestada pela primeira vez no idioma português em 1258, na forma batalia, vem do latim medieval batt(u)alia, “combate”, “luta” ou “peleja”, que por sua vez vem do latim battuere. O termo bateria, que tem origem semelhante através do francês batterie, designava as batalhas encenadas no Coliseu, em Roma, e que podiam envolver até 10 mil pessoas. Uma batalha, de modo geral, é um componente conceitual na hierarquia de combate durante uma guerra entre duas ou mais forças armadas ou combatentes. Numa batalha cada uma das partes tentará derrotar as outras, e a derrota é determinada pelas condições tecnológicas de uma campanha militar. Geralmente as batalhas são definidas por duração, área e forças bélicas envolvidas. Guerras e campanhas militares são guiadas praticamente por estratégias militares, enquanto batalhas ocorrem num nível de planeamento e execução conhecido como Mobilidade operacional. O extraordinário estrategista alemão Carl von Clausewitz afirmou que a utilização de batalhas (...) para alcançar o objetivo da guerra é a essência da estratégia. O registo arqueológico mais antigo de uma batalha é a Batalha de Megido, travada no século XV a.C. no coração da região do Levante. Coliseu, também conhecido como Anfiteatro Flaviano, é um anfiteatro oval localizado no centro da cidade de Roma, capital da Itália. Construído com tijolos revestidos de argamassa e areia, e originalmente cobertos com travertino é o maior anfiteatro já construído e está situado a Leste do Fórum Romano. A construção começou sob o governo do imperador Vespasiano em 72 d.C. e foi concluída em 80 d.C., sob o regime do seu sucessor e herdeiro, Tito.                                     

Outras modificações foram feitas durante o reinado de Domiciano (81-96). Estes três imperadores são conhecidos como a dinastia flaviana e o anfiteatro foi nomeado em latim desta maneira por sua associação com o nome da família (Flavius). O Coliseu poderia abrigar, estima-se, entre 50 mil e 80 mil espectadores, com uma audiência média de cerca de 65 mil pessoas. O edifício era usado para combates de gladiadores e espetáculos públicos, tais como simulações de batalhas marítimas (em um curto período de tempo como o hipogeu era inundado através de mecanismos de apoio), caças de animais selvagens, execuções, encenações de batalhas famosas e dramas baseados na mitologia clássica. O prédio deixou de ser usado para entretenimento na era medieval. Mais tarde foi reutilizado para vários fins, tais como habitação, oficinas, sede de uma ordem religiosa, uma fortaleza, uma pedreira e um santuário cristão. Em 2007, o monumento foi eleito informalmente como uma das sete maravilhas do mundo moderno. Embora parcialmente arruinado por causa de danos causados ​​por terremotos e saques, o Coliseu é ainda um símbolo da Roma Imperial. É uma das atrações turísticas mais populares da capital italiana e tem também historicamente conexões com a Igreja Católica Romana, pois, a cada Sexta-feira Santa, o Papa guia a Via Crúcis que começa em torno do Coliseu. O Coliseu também é retratado na versão italiana da moeda de 5 cêntimos de euro.

O nome original do Coliseu de Roma era Anfiteatro Flávio ou Flaviano, tendo sido construído no reinado dos imperadores da Dinastia Flaviana, após o governo do imperador Nero. Curiosamente, este nome não foi exclusivo do Coliseu, visto que Vespasiano e Tito haviam construído um anfiteatro que portou o mesmo nome na cidade de Pozzuoli, na província de Nápoles. O nome Anfiteatro Flavio é empregado ainda hoje, embora seja mais popularmente conhecido como Coliseu de Roma. A sua designação de “Coliseu” começou a difundir-se a partir do século VIII, o qual se crê que tenha sido devido a uma grande estátua de Nero, que se encontrava perto do edifício, na Casa Dourada, conhecida popularmente como o Colosso de Nero. Este fato pode ter sido a razão pela qual o anfiteatro de Roma tenha adoptado o nome de Coliseu. Essa dita estátua foi destruída provavelmente para reciclagem do seu bronze. Apenas a sua base chegou aos nossos dias, e pode ser vista entre o anfiteatro e o Templo de Venus e Roma. O Coliseu de Roma foi construído entre 72 d.C. e 80 d.C. Iniciado por Vespasiano (69 a 79 d.C.), mais tarde foi inaugurado por Tito (79 a 81 d.C.), embora apenas tivesse sido finalizado poucos anos depois. Empresa colossal, este edifício, inicialmente, poderia sustentar no seu interior cerca de 50 000 espectadores, em três andares.  Durante o reinado de Alexandre Severo e Gordiano III, foi ampliado com um quarto andar, podendo abrigar então cerca de 90 000 espectadores. Finalmente foi concluído por Domiciano (81 a 96 d.C.), filho de Vespasiano e irmão mais novo de Tito.    

A construção começou sob ordem de Vespasiano numa área que se encontrava no fundo de um vale entre as colinas de Célio, Esquilino e Palatino. O lugar fora devastado pelo Grande incêndio de Roma do ano 64, durante a época de governo do imperador Nero, e mais tarde havia sido reurbanizado para o prazer pessoal do imperador com a construção de um enorme lago artificial, da Casa Dourada (Domus Aurea), situada num complexo de uma vila, e de uma colossal estátua de si mesmo. Vespasiano, fundador da dinastia Flaviana, decidiu aumentar o moral e autoestima dos cidadãos romanos e também cativá-los com uma “política de pão e circo”, demolindo o palácio de Nero e construindo uma “arena permanente para espetáculos de gladiadores, execuções e outros entretenimentos de massas”. Vespasiano começou a sua própria remodelação do lugar entre os anos 70 e 72, possivelmente financiada com os tesouros conseguidos depois da vitória romana na Grande Revolta Judaica, no ano 70. O cerco de Jerusalém em 70 d.C. foi o evento decisivo da Primeira Guerra Judaico-Romana (66–73 d.C.), uma importante rebelião contra o domínio romano na província da Judeia. Lideradas por Tito, as forças romanas sitiaram a cidade, que havia se tornado o reduto da resistência judaica.

Após meses de conflito, os romanos romperam as defesas da cidade, culminando na destruição do Segundo Templo, no arrasamento da cidade e na matança em massa, escravização e deslocamento de seus habitantes. O cerco marcou o fim efetivo da revolta judaica e teve profundas implicações políticas, religiosas e culturais para o povo judeu, bem como consequências históricas mais amplas. No inverno de 69/70 d.C., Tito liderou uma força de aproximadamente 50 000 soldados, incluindo quatro legiões e tropas auxiliares, na Judeia. Na primavera, esse exército circundou Jerusalém, cuja população havia aumentado com peregrinos da Páscoa (Pessach) e refugiados de toda a província. A cidade, já enfraquecida por lutas internas entre facções rivais lideradas por João de Giscala, Simão bar Giora e Eleazar ben Simão — que haviam assumido o controle após o colapso do governo rebelde moderado — foi isolada do suprimento de mantimentos, deixando seus habitantes à mercê da fome e de doenças. Apesar da forte resistência dos defensores, os romanos romperam as muralhas, forçando a concentração dos defensores no complexo do templo. No mês de Av durante o verão, as forças romanas romperam o Monte do Templo e destruíram o Segundo Templo — um evento lembrado anualmente na tradição judaica no dia de jejum de Tisha B`Av. Os romanos acabaram por capturar toda a cidade, sufocando a resistência remanescente e infligindo um pesado tributo à população, com dezenas de milhares mortos, escravizados ou executados.

A cidade foi destruída sistematicamente, restando apenas as três torres da cidadela herodiana como símbolo de sua antiga grandiosidade. Um ano depois, a vitória romana foi celebrada com um grande triunfo em Roma, durante o qual centenas de cativos foram exibidos ao lado dos despojos do templo, incluindo a menorá. Estruturas monumentais, como o Arco de Tito — que ainda permanece de pé na cidade — foram erguidas para comemorar a conquista. A destruição de Jerusalém e do templo representou um grande marco na história judaica, trazendo consequências profundas que remodelaram a cultura, a religião e a identidade judaicas. Com a destruição do templo, o culto judaico se adaptou, dando origem ao Judaísmo rabínico, que enfatizou a oração, o estudo da Torá e os encontros em sinagoga em substituição aos rituais de sacrifício antes realizados no templo. A queda de Jerusalém desempenhou um papel importante no desenvolvimento do Cristianismo primitivo, à medida que o movimento se distanciava cada vez mais de suas raízes judaicas. Após a guerra, a Legio X Fretensis estabeleceu um acampamento militar sobre as ruínas de Jerusalém. Algumas décadas depois, os romanos refundaram a cidade como a colônia de Aelia Capitolina, dedicando-a a Júpiter e extinguindo as esperanças judaicas de restauração do templo. Esse evento preparou o cenário para outra grande revolta judaica — a Revolta de Bar Kokhba. Drenou-se o lago e o lugar foi designado para o Coliseu. Reclamando a terra da qual Nero se apropriou para o seu anfiteatro, Vespasiano conseguiu dois objetivos: por um lado realizava um gesto muito popular e por outro colocava um símbolo (cf. Durand, 1997) do seu poder no coração da cidade.  Mais oram construídos uma escola de gladiadores e outros edifícios de apoio das antigas terras da Casa Dourada, a maior parte da qual havia sido derrubada. 

 Embora em ruínas, o Anfiteatro Flávio, conhecido popularmente como Coliseu, ergue-se como símbolo de Roma. Vespasiano morreu mesmo antes do Coliseu ser concluído. O edifício tinha alcançado o terceiro piso e Tito foi capaz de terminar a construção tanto do Coliseu como dos banhos públicos adjacentes que são conhecidos como as Termas de Tito um ano da morte de Vespasiano. A grandeza deste monumento testemunha verdadeiramente o poder e esplendor de Roma na época dos Flávios. Os jogos inaugurais do Coliseu tiveram lugar no ano 80, sob o mandato de Tito, para celebrar a finalização da construção. Depois do curto reinado de Tito começar com vários meses de desastres, incluindo a erupção do Vesúvio de 79, um incêndio em Roma em 64 e um surto de peste, o mesmo imperador inaugurou o edifício com jogos pródigos que duraram mais de cem dias, talvez para tentar apaziguar o público romano e os deuses. Nesses jogos de cem dias teriam ocorrido combates de gladiadores, “venationes”, lutas de animais, execuções, batalhas navais, caçadas e outros divertimentos numa escala sem precedentes. Durante os primeiros dias do Coliseu, escritores antigos registraram que o edifício era usado para naumachiae, mais propriamente conhecido como navalia proelia ou simulações de batalhas navais. Relatos dos jogos inaugurais realizados por Tito no ano 80 descrevem-no sendo enchido de água para uma exibição de cavalos e touros especialmente treinados para nadar.

Há também um relato de uma reencenação de uma famosa batalha naval entre os gregos corcireus (de Corfu) e os coríntios e objeto de debate entre os historiadores; embora o fornecimento de água não fosse problema, não está claro como a arena poderia ter sido impermeabilizada, nem haveria espaço suficiente na arena para os navios de guerra se movimentarem. Tem sido sugerido que os relatórios têm a localização errada ou que o Coliseu apresentava um amplo canal inundável em seu eixo central que mais tarde seria substituído pelo hipogeu. O Coliseu, comparativamente, não estava inserido numa zona de encosta, enterrado, tal como normalmente sucede com a maioria dos teatros e anfiteatros romanos. Em vez disso, possuía um “anel” artificial de rocha à sua volta, para garantir sustentação e, ao mesmo tempo, esta substrutura serve como ornamento ao edifício e como condicionador da entrada dos espectadores. Tal como foi referido anteriormente, possuía três pisos, sendo mais tarde adicionado um outro. O edifício é construído em mármore, pedra travertina, ladrilho e tufo (pedra calcária com grandes poros). A sua planta elíptica mede dois eixos que se estendem aproximadamente de 190 metros por 155 metros. A fachada compõe-se de arcadas decoradas com colunas dóricas, jónicas e coríntias, de acordo com o pavimento em que se encontravam. Esta subdivisão deve-se ao fato de ser uma construção essencialmente vertical, criando assim uma diversificação do espaço. A arena (87,5 metros por 55 metros) possuía um piso de madeira, normalmente coberto de areia para absorver o sangue dos combates (certa vez foi colocada água na representação de uma batalha naval), sob o qual existia um nível subterrâneo com celas e jaulas que tinham acessos diretos para a arena.

Alguns detalhes dessa construção, como a cobertura removível que poupava os espectadores do sol, são bastante interessantes, e mostram o refinamento atingido pelos construtores romanos. Formado por cinco anéis concêntricos de arcos abóbadas, o Coliseu representa bem o avanço introduzido pelos romanos à engenharia de estruturas. Esses arcos são de concreto (de cimento natural) revestidos por alvenaria. Na verdade, a alvenaria era construída simultaneamente e já servia de forma para a concretagem. Os assentos eram em mármore e a cavea, escadaria ou arquibancada, dividia-se em três partes, correspondentes às diferentes classes sociais: o pódio, para as classes altas; as maeniana, setor destinado à classe média; e os portici, ou pórticos, construídos em madeira, para a plebe e as mulheres. O pulvinar, a tribuna imperial, encontrava-se situada no pódio e era balizada pelos assentos reservados aos senadores e magistrados. Rampas no interior do edifício facilitavam o acesso às várias zonas de onde era possível visualizar o espetáculo, sendo protegidos por uma barreira e por uma série de arqueiros posicionados numa passagem de madeira, para o caso de algum acidente. Por cima dos muros ainda são visíveis as mísulas, que sustentavam o velarium, enorme cobertura de lona destinada a proteger do Sol os espectadores e, nos subterrâneos, ficavam as jaulas dos animais, bem como todas as celas e galerias necessárias aos serviços do anfiteatro.  Vineland é um romance pós-moderno de 1990 de Thomas Pynchon, ambientado na Califórnia em 1984, ano da reeleição do presidente Ronald Reagan (1911-2004) um ator e político norte-americano, o 40º presidente dos Estados Unidos e o 33º governador da Califórnia.           

             Nascido e criado em pequenas cidades de Illinois, formou-se em economia e sociologia no Eureka College e em seguida trabalhou como radialista esportivo. Mudou-se para Hollywood em 1937, onde trabalhou como ator por quase três décadas, tornou-se presidente da Screen Actors Guild e porta-voz da General Electric (GE). Sua carreira política tem suas origens durante seu trabalho para a GE. Originalmente membro do Partido Democrata, mudou para o Partido Republicano em 1962, creditando tal atitude a mudanças ideológicas do Partido Democrata durante a década de 1950. Após realizar o seu famoso discurso em apoio à candidatura de Barry Goldwater à presidência dos Estados Unidos em 1964, tornou-se um fenômeno no Partido Republicano, ganhando forte apoio entre os eleitores do partido e sendo persuadido a candidatar-se ao cargo de governador da Califórnia. Foi eleito para este cargo em 1966. Como governador, transformou um déficit orçamentário em um excedente, ordenou que tropas da Guarda Nacional atuassem nos protestos do período, e foi reeleito em 1970.

Participou das primárias republicanas para a escolha do candidato do partido à presidência em 1968 e 1976, sendo derrotado em ambas as vezes. No entanto, em 1980, foi escolhido como candidato republicano e elegeu-se presidente dos Estados Unidos após derrotar o candidato à reeleição Jimmy Carter. Na presidência, implementou algumas iniciativas econômicas e novas políticas. Sua política de recuperação econômica através do estímulo a oferta, popularmente reconhecida como “Reaganomics”, incluiu medidas de desregulamentação, redução dos gastos governamentais e cortes de impostos. Até ao final do governo, a inflação reduziu significativamente, dezesseis milhões de empregos foram criados e o país cresceu a uma taxa média anual de 7,93%, mas a dívida pública quase triplicou. Em seu primeiro mandato, sobreviveu a uma tentativa de assassinato, defendeu a oração nas escolas, enfrentou sindicatos e iniciou uma guerra contra as drogas. Em 1984, foi reeleito com uma vitória esmagadora. Seu segundo mandato foi marcado principalmente por assuntos internacionais, tais como o término da Guerra Fria, o bombardeio da Líbia, a invasão de Granada e a revelação do Caso Irã-Contras. Embora a relação com a União Soviética tenha mudado em seu segundo mandato, descreveu publicamente o país em seu primeiro mandato como um “império do mal” e apoiou movimentos anticomunistas em todo o mundo. Negociou com o líder soviético Mikhail Gorbachev, culminando no Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e na diminuição dos arsenais nucleares de ambos os países. Durante seu famoso discurso no Portão de Brandemburgo, desafiou Gorbachev a “derrubar este muro!”.

Logo após o fim do seu mandato, o Muro de Berlim foi derrubado e a União Soviética entrou em colapso político pouco depois. Reagan deixou a presidência no início de 1989, sendo sucedido por George H. W. Bush, seu vice-presidente. Em 1994, revelou que estava sofrendo da doença de Alzheimer e apareceu em público pela última vez no funeral de Richard Nixon, em abril daquele ano. Morreu dez anos depois, aos 93 anos de idade. Considerado um ícone entre os republicanos, ocupa um lugar de destaque nas classificações históricas dos presidentes dos Estados Unidos, e seu mandato contribuiu para o renascimento ideológico da direita norte-americana. Através de flashbacks, seus personagens, que viveram a década de 1960, relatam o espírito livre e rebelde daquela década e descrevem as características da “repressão fascista nixoniana” e contra as drogas que se opôs. O livro retrata as transformações na sociedade norte-americana das décadas de 1960 a 1980. O romance serviu de inspiração para o roteiro, livremente adaptado, do filme “One Battle After Another”, de 2025, dirigido por Paul Thomas Anderson. A história se passa na Califórnia em 1984, ano da reeleição de Ronald Reagan. Após uma cena em que o ex-hippie Zoyd Wheeler se atira por uma janela, algo que ele é obrigado a fazer anualmente para continuar recebendo seus benefícios por invalidez mental, o romance começa com o reaparecimento do agente federal Brock Vond, que, por meio de um pelotão de agentes, força Zoyd e sua filha de 14 anos, Prairie, a saírem de casa.

Eles se escondem de Brock e de Hector Zuñiga, um agente federal antidrogas do passado de Zoyd, que Zoyd suspeita estar em conluio com Brock, com antigos amigos de Zoyd. Logo, Prairie acompanha seu namorado Isaiah Two Four a um casamento da máfia, onde encontra DL Chastain, uma ninjette e ex-amiga da família que, ao reconhecer Prairie, explica a motivação de Brock para perseguir a família Wheeler.  A trama gira em torno de Frenesi Gates, a mãe de Prairie, a quem ela não vê desde que era bebê. Na década de 1960, no auge da era hippie, a fictícia Faculdade do Surf, no também fictício Condado de Trasero, que supostamente fica entre os condados de Orange e San Diego, no Sul da Califórnia se separou dos EUA e se tornou a República Popular do Rock and Roll (RP³), uma nação de hippies e usuários de maconha. Brock pretende derrubar a RP³ e encontra uma cúmplice disposta em Gates. Ela é membro do 24fps, um coletivo de cinema militante (outra integrante, Ditzah, está contando a história para Prairie no presente), que busca documentar as transgressões dos “fascistas” contra a liberdade e os ideais hippies. Gates sente-se irremediavelmente atraído por Brock e acaba trabalhando como agente duplo para assassinar o líder de fato da PR³, Weed Atman (um professor de matemática que acidentalmente se tornou alvo de um culto de personalidade. Após a traição, Gates foge e vive sob proteção de testemunhas com a ajuda de Brock até os dias atuais.

Agora, ela desapareceu. Os membros da 24fps, Brock e Hector estão todos à sua procura, cada um com seus próprios motivos. O tema central do livro, a onipresença da televisão (ou da TV), atinge seu ápice quando Hector, um viciado em TV que na verdade não trabalha com Brock, consegue financiamento para seu projeto pessoal: um filme que conta a história da depravação dos anos 1960, com Gates na direção. A pompa e as circunstâncias que envolvem esse acordo milionário criam uma rede de segurança que permite que Gates saia do esconderijo. A 24fps a encontra e alcança seu objetivo de permitir que Prairie a conheça, em uma grande reunião da família de Gates, os Traverse e os Becker incluindo uma anciã, Jess Traverse, que é criança no romance de Pynchon de 2006 Contra o Dia. Enquanto isso, DL Chastain e Takeshi Fumimota, seu parceiro em “ajustes cármicos”, estão passando um tempo com Weed Atman e outros Thanatoides - pessoas que estão em um estado “parecido com a morte, mas diferente” - quando ouvem a notícia sobre Brock. Brock, praticamente onipotente com os fundos da DEA, encontra Prairie com um helicóptero de vigilância e tenta sequestrá-la, alegando ser seu pai, e não Zoyd. Enquanto paira sobre ela preso a um cabo, o governo corta abruptamente todo o seu financiamento devido à perda de interesse em financiar a guerra contra as drogas, já que as pessoas começaram a aderir voluntariamente ao ideal antidrogas. Seu parceiro, Roscoe, então, pilota o helicóptero para longe. Brock tenta imediatamente levar o helicóptero de volta para Vineland à força, mas é aparentemente morto durante a tentativa. Pynchon descreve metaforicamente sua jornada “através do rio” com os motoristas de guincho Blood e Vato, a quem chama para ajudar a desatolar seu “carro”.

Enquanto isso, a reunião de família e o bar Thanatoid comemoram a notícia do desaparecimento de Brock, e o livro termina com Prairie retornando ao local onde Brock tentou sequestrá-la, na esperança de que ele volte para buscá-la. Vineland polarizou a crítica na época de seu lançamento. O autor Tobias Meinel afirmou em um ensaio de 2013 que o romance “levou muitos críticos a se concentrarem em sua mudança de estilo e conteúdo e a lê-lo como Pynchon Lite ou como um comentário crítico sobre a cultura americana contemporânea”. Salman Rushdie escreveu uma resenha favorável no The New York Times após o lançamento do livro, chamando-o de “fluido, leve e engraçado, e talvez a obra mais acessível que o velho Homem Invisível já escreveu”. Ele o chamou de “aquela raridade” que, “no final da Década da Ganância”, é “um grande romance político sobre o que a América vem fazendo consigo mesma, com seus filhos, durante todos esses anos”. Embora tenha elogiado o toque leve, porém mortal, de Pynchon ao abordar os pesadelos do presente em vez do passado, Rushdie reconheceu que o livro “ou te prende ou não”. Do ponto de vista analítico o crítico literário britânico Frank Kermode ficou desapontado com o livro, sentindo que lhe faltava o “belo suspense ontológico” de O Leilão do Lote 49 ou o “virtuosismo ficcional ampliado” de O Arco-Íris da Gravidade.                  

Ele reconheceu que era “indiscutivelmente da mesma oficina” que os trabalhos anteriores de Pynchon, mas o considerou literariamente menos compreensível. Brad Leithauser concordou, escrevendo no The New York Review of Books que Vineland era “um livro desorganizado e sem muita organização” que lembrava o que havia de mais fraco na obra do autor e não conseguia expandi-la ou aprimorá-la. No Chicago Tribune, James McManus afirmou que, embora os leitores inveterados de Pynchon comparassem o livro desfavoravelmente a O Arco-Íris da Gravidade, que era um livro administrável, com prosa forte, que “se destacava como um ataque mordaz e sombriamente divertido à América republicana”. O crítico Terrence Rafferty admirou o romance e, na revista The New Yorker, chamou-o de “a história mais antiga do mundo — o pecado original e o exílio do Paraíso”, mas o autor Sean Carswell argumentou mais tarde que, além de Rafferty e Rushdie, as críticas de Vineland “variam de ligeiramente irritadas a francamente hostis”. A crítica de Edward Mendelson na The New Republic foi em sua maioria favorável; ele achou o enredo confuso e tedioso, mas elogiou a “energia intelectual e imaginativa” de Pynchon e chamou o livro de “um conto visionário” cujo mundo era “mais rico e mais variado do que o mundo de quase qualquer romance americano recente”. Ele também elogiou sua “extravagância cômica”, escrevendo: “nenhum outro escritor americano transita com tanta suavidade e rapidez entre os extremos do estilo erudito e do popular”. 

Mendelson observou ainda que Vineland estava mais integrado com suas emoções e sentimentos do que os romances anteriores de Pynchon, e Jonathan Rosenbaum escreveu no Chicago Reader que era a obra mais esperançosa do autor até então. Essa esperança também foi mencionada por Rushdie, que acreditava que o livro sugeria comunidade, individualidade e família como contrapesos à repressiva Era Nixon-Reagan, mas Dan Geddes opinou em 2005 no The Satirist que o “final feliz” do livro era surpreendente, dado seu alerta abrangente sobre um crescente estado policial. Em contrapartida, Rushdie considerou que a chocante cena final se prestava a um final moralmente ambíguo e sentiu que o romance mantinha um equilíbrio habilmente entre luz e escuridão do início ao fim. O romance de Pynchon foi considerado pelo cineasta Paul Thomas Anderson como a inspiração livre para seu filme de 2025, One Battle After Another. Anderson falou muitas vezes sobre seu amor por Vineland e seu desejo de adaptá-lo. No início de 2024, ele começou a filmar um novo projeto, posteriormente confirmado como sendo baseado no romance. One Battle After Another foi lançado em setembro de 2025 e foi indicado a 14 Oscars, vencendo seis: Melhor Elenco, Melhor Ator Coadjuvante (Sean Penn), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem, Melhor Diretor e Melhor Filme. Numa sessão de perguntas e respostas após uma exibição, Anderson mencionou que teve dificuldades em conceber uma adaptação adequada do livro, afirmando: “quando você vai adaptá-lo, você tem que ser muito mais duro com o livro para adaptá-lo. Você tem que não ser gentil”. O crítico da revista Variety, Andrew McGowan, referiu-se às diferenças comparativamente entre o livro e a sua adaptação cinematográfica. Embora o filme mantenha as mesmas personagens e dinâmicas entre elas, escreveu ele, os seus nomes foram alterados e o filme é mais direto do que a realidade alternativa “vanguardista”, “pós-moderna” e “bizarra” de Pynchon.

Bibliografia Geral Consultada.

LEFORT, Claude, Éléments d`une Critique de la Burocratie. Paris: Éditions Gallimard, 1979; ROUSSEAU, Jean-Jacques, O Contrato Social. 3ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1996; CASTORIADIS, Cornelius, L`Enigma del Soggetto: L`Immaginario e Le Istituzioni. Itália: Edizionne Dédalo, 1998; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; ECO, Umberto, Il Fascismo Eterno. Milão: Editora La Nave di Tesco, 1997; PATTEL, Cyrus RK, Liberdades Negativas: Morrison, Pynchon e o Problema da Ideologia Liberal. Carolina do Norte: Duke University Press, 2001; MAFFESOLI, Michel, El Instante Eterno. El Retorno de Lo Trágico en las Sociedades Posmodernas. Buenos Aires: Ediciones Paidós, 2001; MÉSZÀROS, István, O Poder da Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004; GEDDES, Dan, “Vineland de Pynchon: A Guerra às Drogas e o Estado Policial que se Aproxima”. Disponível em: https://www.thesatirist.com/books/03/01/2005; GENNEP, Arnold van, Les Rites de Passage. Paris: Editor Picard, 2011; NASCIMENTO, Gabriel Leão Augusto da Costa, O Animal Político Midiático: Imagens e Representações na Política Contemporânea. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Líbero, 2012; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; SILVA, Wilton Carlos Lima da, “A Vida, a Obra, o que Falta, o que Sobra: Memorial Acadêmico, Direitos e Obrigações da Escrita”. In: Revista Tempo e Argumento. Florianópolis. Volume 7, nº 15, pp. 103-136, maio/agosto, 2015; COSTA, Grasielle Aires da, Ritual em Richard Schechner e Victor Turner: Aspectos de um Diálogo Interdisciplinar. Programa de Pós-graduação em Performance Cultural. Escola de Música e Artes Cênicas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2015; VIEIRA, Carlos, Depressão-Doença: O Grande Mal do Século XXI. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; SOUZA, Bruno Garcia, Considere o Fracasso: Ensaio, Ensaismo em Robert Musil. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Departamento de História. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2017; Artigo: “Dossiê Uma Batalha Após a Outra”. Disponível em : https://abraccine.org/2026/02/12/; entre outros.

sábado, 4 de julho de 2026

Dirija Meu Carro – Cinema, Lazer & Olhar Sensível Sobre o Luto.

                        Irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito”. Adriana Falcão       

           

          Adriana Franco de Abreu Falcão nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1960. É uma roteirista e escritora brasileira. Atualmente, roteirista da TV Globo, escreveu para séries como A Comédia da Vida Privada e A Grande Família, além de roteiros para cinema e a série Mulher. Nasceu no Rio, e mudou-se para Recife aos 11 anos de idade. Teve uma história de vida trágica: o pai, Caio Franco de Abreu, cometeu suicídio e a mãe, Maria Augusta Teresa Izabel de Souza, um tempo depois, tomou uma dose fatal de comprimidos para dormir. É neta do escritor Augusto Gonçalves de Sousa Júnior. Em Pernambuco, foi casada com o professor Tácio de Almeida Maciel e formou-se em Arquitetura. Sua primeira filha, Tatiana Maciel, é fruto do primeiro casamento. Também foi casada com João Falcão, com quem teve mais duas filhas (Clarice e Maria Isabel). Em 1995 voltou a morar no Rio de Janeiro, começou a escrever para TV e cinema, e os atores começaram a gostar de seus diálogos e a usá-los nas peças. Nunca exerceu a profissão de arquiteta, pois logo descobriu sua vocação para a literatura. Seu primeiro romance foi A Máquina, e a novidade expressa a maneira nova do procedimento da narratividade criada pela autora. Atualmente publica crônicas no fabuloso jornal O Estado de S. Paulo. Acredita-se que a palavra carro se origine em latim carrus ou carrum (“veículo com rodas”). Por sua vez, estes se originaram da palavra gaulesa karros, que representa sociologicamente uma carruagem gaulesa. 

          Referia-se originalmente a qualquer veículo puxado por cavalos com rodas, como uma carruagem ou carroça. A palavra “automóvel” é um composto clássico derivado da palavra grega antiga autós (αὐτός), que significa “eu”, e a palavra latina mobilis, que significa “móvel”. Automóvel, ou carro, é um veículo motorizado com rodas. A maioria das definições diz que eles correm basicamente em estradas, acomodam de uma a oito pessoas, têm quatro rodas e, principalmente, transportam pessoas em vez de mercadorias. Os carros entraram em uso global durante a démarche do século XX e as economias desenvolvidas dependem deles. O ano de 1886 é considerado como o ano de nascimento do carro quando o inventor Karl Friedrich Michael Benz (1844-1929) patenteou seu Benz Patent-Motorwagen. Os carros tornaram-se amplamente disponíveis no início do século XX. Um dos primeiros carros acessíveis às massas foi o 1908 Model T, um carro norte-americano fabricado pela Ford Motor Company. Os carros foram per se adotados nos EUA, onde substituíram carruagens e carros puxados por animais, mas demoraram para serem aceitos na Europa Ocidental e em outras partes do mundo globalizado. Os carros têm controles de direção, estacionamento, conforto para os passageiros e uma variedade de luzes. Ao longo das décadas, recursos e controles adicionais foram adicionados aos veículos, tornando-os mais complexos e competitivos. 

       Estes incluem câmeras de marcha à ré, ar condicionado, sistema de navegação por satélite e entretenimento no carro. Em 1991, Roger Billings desenvolveu o primeiro carro elétrico movido pela energia de uma célula de combustível a hidrogênio. A maioria dos carros em uso na década de 2010 é impulsionada por um motor de combustão interna, alimentado pela combustão de combustíveis fósseis. Os carros elétricos, que foram inventados no início da história do carro, começaram a se tornar comercialmente disponíveis em 2008. Existem custos e benefícios para o uso do carro. Os custos para o indivíduo incluem a aquisição do veículo, pagamentos de juros (se o carro for financiado), reparos e manutenção, combustível, depreciação, tempo de direção, taxas de estacionamento, impostos e seguro. Os custos para a sociedade incluem a manutenção de estradas, o uso da terra, congestionamentos, a poluição do ar, a saúde pública e a eliminação do veículo no final da sua vida útil. Os acidentes de trânsito são a maior causa de mortes relacionadas a ferimentos em todo o mundo. Os benefícios pessoais incluem transporte sob demanda, mobilidade, independência e conveniência. Os benefícios sociais incluem benefícios econômicos, como criação de emprego e riqueza da indústria automotiva, fornecimento de transporte, bem-estar social por oportunidades de lazer e viagens e geração de receita dos impostos. A capacidade das pessoas de se mover de forma flexível de um lugar para outro tem implicações de longo alcance para a natureza das sociedades. Existem cerca de 1 bilhão de carros em uso em todo o mundo. Os números estão aumentando na China, na Índia e em outros países industrializados.                                    


Escólio: O registro etnográfico mais antigo do tendão sendo chamado de “tendão de Aquiles” é de 1693, pelo cirurgião e anatomista holandês Philip Verheyen (1648-1710). Em seu texto amplamente utilizado, Corporis Humani Anatomia, descreveu a localização do tendão e afirmou que ele era comumente chamado “o cordão de Aquiles”. De Humani Corporis Fabrica Libri Septem ou simplesmente De Humani Corporis Fabrica é um livro de anatomia humana, escrito em 1543 por Andreas Vesalius (1514-1564). É resultado dos trabalhos de Vesalius como professor da Universidade de Pádua, onde realizou inúmeras dissecações de cadáveres. Nesses estudos, ele refutou grande parte das teorias do médico greco-romano Galeno acerca do corpo humano, expostas por ele nesse trabalho. Para a impressão da obra, ele não poupou gastos: contratou os melhores artistas, sendo que entre eles o desenhista Jan Stephan van Calcar (1499-1546), discípulo de Tiziano, que realizou as gravuras nas duas primeiras partes e xilógrafos que tem como primícias para preparar as gravuras a serem impressas. Para a realização desse último serviço, foi escolhido o impressor Johannes Oporinus (1507-1568), de Basileia, a ir até esta cidade para supervisionar pessoalmente os trabalhos. Graças a isso, esta obra é um magnífico exemplo do que havia de melhor na produção de livros na Renascença, com 17 desenhos de página inteira, além de diversas ilustrações acompanhadas de texto. Com significado de “área de fraqueza, ponto vulnerável”, o uso geral de “calcanhar de Aquiles” é recente datando de 1840, observada a utilidade de uso especificamente clínica implícita na citação de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834): “Ireland, that vulnerable heel of the British Achilles!”, de 1810 no Oxford English Dictionary.

Aquiles, filho de Peleu rei dos mirmidões e de Tétis (ninfa), é um dos heróis mais reconhecidos da mitologia grega. Ele é extraordinário por sua força, bravura e beleza. Um calcanhar de Aquiles representa um substantivo composto que significa “fraqueza a despeito de uma força geral, que pode levar a derrota ou queda”. Enquanto a origem mitológica se refere a “vulnerabilidade física”, referências idiomáticas a outros atributos ou qualidades que podem levar a queda são comuns. Na mitologia grega, quando Aquiles era um recém-nascido, foi predito que ele morreria jovem. Para preveni-lo de sua morte, sua mãe Tétis o levou ao rio Estige, que deveria dar o “poder da invulnerabilidade”, e mergulhou seu corpo na água. Porém, já que Tétis segurava Aquiles pelos calcanhares, eles não foram lavados pela água. Aquiles cresceu e tornou-se “homem de guerra” que sobreviveu a muitas batalhas. Embora a morte de Aquiles seja prevista pela Ilíada de Homero, ela não ocorre de fato na Ilíada, mas é descrita em poemas e dramas gregos e romanos posteriores que tratam dos eventos após a Ilíada, na guerra de troia. Nos mitos em torno da guerra, é dito que Aquiles morreu devido a “uma ferida em seu calcanhar”, tornozelo ou torso, que foi causada por uma flecha, talvez envenenada, atirada por Paris. Aquiles era simplesmente invencível em batalha, e só a intervenção divina de Apolo finalmente pôs fim ao seu longo reinado como “o maior guerreiro grego de todos eles”.

            Aquiles tem ainda a característica de ser “loiro e o mais belo dos heróis reunidos contra Troia, assim como o melhor entre eles”. A figura de Aquiles foi sendo moldada por diversos autores num espaço de mil anos, o que explica suas diversas contradições. A mais reconhecida é a que fala que Aquiles era invulnerável em todo o seu corpo por se banhar no rio Estige, exceto em seu calcanhar, conforme um poema de Estácio, no século I. Nestas versões de seu mito, sua morte teria sido causada por uma flecha envenenada que o teria atingido nesta parte de seu corpo, desprotegida da armadura. As obras literárias e artísticas em geral em que Aquiles aparece como herói são abundantes. Para além da Ilíada e da Odisseia - onde é demonstrada o destino de Aquiles após a sua morte - pode-se destacar, a tragédia Ifigénia em Áulide, de Eurípides (cf. Santos, 2016), “imitada” pelo dramaturgo Jean Racine (1674) e transformada em ópera pelo compositor Christoph Willibald Gluck (1774), além das artes plásticas, onde podem ser encontradas, além das diversas pinturas de vasos e esculturas do próprio período da Antiguidade Clássica, telas de Peter Paul Rubens (1577-1640), David Teniers, o Jovem (1610-1690), Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), Eugène Delacroix (1798-1863) entre outros, que retratam as suas múltiplas façanhas sociais.      

            O papel de Aquiles como “herói do luto” forma, assim, um contraste irônico com a visão convencional, que o apresenta como um herói de kleos, “glória”, especialmente na guerra. Laos foi interpretado como “um corpo de soldados”; neste sentido, o nome teria um sentido duplo, no poema; quando o herói atua da maneira correta, seus homens trazem luto ao inimigo; da maneira errada, são “os seus homens que sentem o luto e a dor da guerra”. O poema fala, em parte, sobre a má direção da ira por parte dos líderes. O nome Achilleus passou a ser um nome comum e presente entre os gregos desde o início do século VII a.C. Foi transformado para a forma feminina Ἀχιλλεία (Achilleía), atestada pela primeira vez na Ática, no século IV a.C., e Achillia, encontrada num relevo de Halicarnasso como nome de uma gladiadora lutando contra Amazonia (“amazonas”). Os jogos gladiatórios romanos frequentemente reverenciavam a mitologia clássica, e esta parece ser uma referência à luta de Aquiles contra a rainha amazona Pentesileia, com um toque “curioso de demonstrar o herói na forma de uma mulher”. Aquiles era o filho da nereida Tétis e de Peleu, rei dos mirmidões. Tétis era uma das várias filhas de Nereu e Doris e Peleu era filho de Éaco e Endeis. Zeus e Posídon haviam sido rivais pela mão de Tétis até que Prometeu, o responsável por trazer “o fogo aos humanos”, alertou Zeus a respeito da profecia que dizia Tétis daria luz a um filho ainda maior que seu pai.

Drive My Car tem como representação social um filme de drama japonês de 2021 dirigido por Ryusuke Hamaguchi, que coescreveu o roteiro com Takamasa Oe. Ex-aluno da Universidade de Tóquio e da Universidade Nacional de Belas Artes e Música de Tóquio, ele ganhou reconhecimento internacional com Happy Hour (2015), Asako I & II (2018) e Wheel of Fortune and Fantasy (2021), que estrearam nas principais competições de Locarno, Cannes e Berlim, respectivamente. Baseado no conto homônimo de Haruki Murakami, de 2014, é estrelado por Hidetoshi Nishijima como um diretor de teatro que dirige uma produção multilíngue de Tio Vânia enquanto lida com a morte de sua esposa.  Reika Kirishima, Tōko Miura, Park Yu-rim, Jin Dae-yeon, Sonia Yuan, Ahn Hwitae, Perry Dizon, Satoko Abe e Masaki Okada também estrelam o filme. Drive My Car teve sua estreia mundial no Festival de Cannes de 2021, onde concorreu à Palma de Ouro e ganhou três prêmios, incluindo o de Melhor Roteiro. Foi indicado a quatro prêmios no 94º Oscar, apresentada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em 27 de março de 2022, no Dolby Theatre, em Hollywood, vencendo o de Melhor Filme Internacional, e recebeu inúmeros outros prêmios. Drive My Car foi o primeiro filme japonês a receber uma indicação a Melhor Filme. Tem sido considerado um dos melhores filmes da década de 2020 e do século XXI. Drive My Car é um filme japonês que chegou ao Brasil em março de 2022. Acompanha a vida de Yusuke Kafuku, um ator e diretor que enfrenta o luto pela morte de sua esposa. Depois de dois anos da perda, ele parte para Hiroshima para dirigir uma peça de teatro. É lá que conhece a jovem motorista Misaki Watari.

            Após se formar na Universidade de Tóquio, Hamaguchi trabalhou na indústria de filmes comerciais por alguns anos antes de ingressar no programa de pós-graduação em cinema na Universidade de Artes de Tóquio, onde estudou e foi influenciado por Kiyoshi Kurosawa. Seu filme de formatura, Passion, foi selecionado para a competição do Tokyo Filmex de 2008. Com Kō Sakai, ele realizou um documentário em três partes sobre sobreviventes do terremoto e tsunami de Tōhoku de 2011, com Voices from the Waves sendo selecionado para a competição no Festival Internacional de Cinema Documentário de Yamagata de 2013, e Storytellers ganhando o Prêmio Sky Perfect IDEHA. Seu próximo filme, Happy Hour, foi desenvolvido in statu nascendi enquanto Hamaguchi era artista residente no KIITO Design and Creative Center Kobe em 2013. Vale lembrar que surgiu de uma oficina com trabalho de improvisação de atuação que ele ministrou para não profissionais, com muitos dos atores do filme tendo participado da oficina. As quatro atrizes principais dividiram o prêmio de melhor atriz e o filme recebeu uma menção especial por seu roteiro no Festival de Cinema de Locarno de 2015. Hamaguchi também recebeu um prêmio especial do júri no Japan Movie Critic Awards de 2016, bem como um prêmio de melhor estreante na categoria de cinema do Geijutsu Sensho Awards da Agência de Assuntos Culturais. Seu filme Asako I & II foi selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2018. Em 2021, Hamaguchi ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim com seu filme Wheel of Fortune and Fantasy.

No mesmo ano, Drive My Car conquistou os prêmios de Melhor Filme do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York, da Sociedade de Críticos de Cinema de Boston e da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles, Estados Unidos da América, além do Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Hamaguchi foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor por Drive My Car, tornando-se o terceiro diretor japonês a alcançar tal feito cinematográfico. Em 2023, seu filme Evil Does Not Exist recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo ano, ele lançou o filme Gift, que usa as mesmas filmagens de Evil Does Not Exist (com uma história diferente) e é acompanhado por uma trilha sonora ao vivo. Em dezembro de 2023, juntamente com outros 50 cineastas, Hamaguchi assinou uma carta aberta publicada no Libération exigindo um cessar-fogo e o fim da matança de civis em meio à invasão israelense da Faixa de Gaza, e que um corredor humanitário em Gaza seja estabelecido para ajuda humanitária e a libertação dos reféns. Em maio de 2025, foi anunciado que Hamaguchi dirigiria All of a Sudden, a ser filmado em Paris e estrelado por Virginie Efira e Tao Okamoto. Hamaguchi se referiu a si mesmo como “puramente um cinéfilo” e “convencionalmente apaixonado por filmes de Hollywood”. Ele foi influenciado pelas obras de John Cassavetes. Em abril de 2024, ele listou seus 50 filmes favoritos para LaCinetek.

Sua seleção explora vários gêneros e períodos do cinema, incluindo obras de diretores como Robert Bresson, Clint Eastwood, Howard Hawks, Edward Yang, Kenji Mizoguchi e Robert Zemeckis. Foi anunciado que o filme teria sua estreia mundial na competição principal do Festival de Cannes de 2026, onde foi indicado à Palma de Ouro. Escólio: O ator e diretor de teatro Yūsuke Kafuku vive em Tóquio com sua esposa Oto, uma roteirista que concebe suas histórias após o sexo e as narra para ele. Ele aprende suas falas ouvindo fitas gravadas por Oto enquanto dirige seu Saab 900 Turbo vermelho. Depois de Yūsuke atuar em Esperando Godot, Oto o apresenta ao jovem astro da televisão Kōji Takatsuki. Quando um festival de teatro no qual Yūsuke seria jurado é adiado, ele volta para casa, onde encontra sua esposa fazendo sexo com Kōji, mas não os interrompe. Após um acidente de carro, Yūsuke descobre que tem glaucoma em um dos olhos e precisa usar colírio para evitar a cegueira. Um dia, Oto pede para ter uma conversa séria com Yūsuke. Depois de passar o dia dirigindo sozinho, Yūsuke volta para casa e encontra Oto morta devido a uma hemorragia cerebral. Após o funeral, Yūsuke entra em colapso enquanto interpreta o papel principal em Tio Vânia. Dois anos depois, Yūsuke aceita uma residência em Hiroshima para dirigir uma produção multilíngue de Tio Vânia. O festival de teatro exige que ele seja levado em seu próprio carro por questões de seguro e, apesar da relutância inicial, ele acaba criando um laço com sua jovem e reservada motorista, Misaki Watari. Com a ajuda do dramaturgo Gong Yoon-su, Yūsuke escala diversificados de atores para atuarem em seus idiomas nativos.

Ele fica impressionado com Lee Yoo-na, uma atriz muda que se comunica em Língua de Sinais Coreana, e também escala Kōji inesperadamente para o papel de Tio Vânia. Após um ensaio, Kōji convida Yūsuke para tomar um drinque, onde o jovem ator se opõe às duras críticas ao seu personagem, mas admite seu amor não correspondido por Oto. Ele repreende alguém por tirar uma foto dele. Yoon-su convida Yūsuke e Misaki para jantar com sua esposa, que se revela ser Yoo-na. Dirigindo para casa, Misaki conta a Yūsuke sobre as longas horas que passava dirigindo para sua mãe abusiva quando era jovem. Mais tarde, eles visitam uma central de coleta de lixo, onde Misaki explica que dirigia caminhões de lixo depois de deixar sua cidade natal quando um deslizamento de terra destruiu sua casa e matou sua mãe. Bebendo com Kōji novamente, Yūsuke revela que acha que não consegue mais interpretar Vanya e sugere que a falta de autocontrole de Kōji é uma fraqueza pessoal, mas uma força como ator. Depois que Kōji se afasta para confrontar um homem que estava tirando fotos dele, Misaki os leva para casa. Yūsuke revela que ele e Oto perderam a filha pequena, que agora teria a idade de Misaki; o dom de Oto para contar histórias depois do sexo era um laço que os ajudava a lidar com a situação. 

Embora soubesse dos casos extraconjugais da esposa.  Yūsuke acredita que ela ainda o amava, e Kōji compartilha uma das histórias de Oto que Yūsuke nunca tinha ouvido por completo. A polícia interrompe um ensaio e prende Kōji, pois o homem que ele atacou morreu devido aos ferimentos. Com dois dias para decidir se assume o papel de Vanya ou cancela a produção, Yūsuke pede a Misaki que o leve à sua casa de infância em Hokkaido. Yūsuke compartilha sua culpa por não ter voltado para casa para ter a conversa que Oto queria ter, o que poderia ter permitido que ele salvasse a vida dela. Misaki revela que escapou do deslizamento de terra, mas optou por não resgatar sua mãe dos escombros, ficando com uma cicatriz na bochecha que preferiu não tratar. Eles visitam as ruínas nevadas da casa de infância de Misaki e se abraçam enquanto ambos confrontam sua dor compartilhada. Yūsuke assume o papel de Vanya e oferece uma atuação apaixonada diante de uma plateia ao vivo, incluindo Misaki. Yoo-na interpreta com emoção as falas finais de Sonya: “Ouviremos os anjos, veremos o céu inteiro em diamantes, veremos como todo o mal terreno, todo o nosso sofrimento, se afogará na misericórdia que preencherá o mundo inteiro. E nossa vida se tornará pacífica, terna, doce como uma carícia... Você não teve alegria em sua vida; mas espere, Tio Vanya, espere... Nós descansaremos”. Atores e público se emocionam com a apresentação. Algum tempo depois, Misaki está morando na Coreia do Sul. Fazendo compras, ela volta para o Saab vermelho de Yūsuke, onde um cachorro descansa. Ela tira a máscara cirúrgica, revelando que sua cicatriz agora está quase invisível, e vai embora dirigindo. O filme foi originalmente ambientado em Busan, a segunda cidade mais populosa da Coreia do Sul, depois de Seul.

Possui uma população de mais de 3,3 milhões de habitantes em 2024. Também romanizada como Pusan, é o centro econômico, cultural e educacional do Sudeste da Coreia do Sul, com seu porto sendo o mais movimentado da Coreia do Sul e o sexto mais movimentado do mundo. A Região Industrial Marítima do Sudeste circundante, incluindo Ulsan, Gyeongsang do Sul, Daegu e parte de Gyeongsang do Norte e Jeolla do Sul é a maior área industrial da Coreia do Sul. O grande volume de tráfego portuário é extraordinário e a população nacional urbana superior a 1 milhão, fazem de Busan uma metrópole portuária de grande porte, de acordo com o Sistema de Classificação de Cidades Portuárias de Southampton. Em 2025, o Porto de Busan era o principal porto da Coreia e o sexto maior porto de contêineres do mundo.

O cinegrafista Hidetoshi Shinomiya foi designado para fazer as filmagens do projeto. A história original apresenta um Saab 900 conversível amarelo, um automóvel produzido pela montadora sueca Saab Automobile de 1978 a 1998, divido em duas gerações, mas no filme foi alterado para um Saab 900 Turbo vermelho é o clássico casrro da Suécia e um ícone presente entre os fãs, para complementar visualmente a paisagem de Hiroshima. A trilha sonora original de Drive My Car foi composta pela musicista Eiko Ishibashi. Em uma entrevista à Variety, o diretor Hamaguchi disse: “Normalmente, não uso muita música em meus filmes, mas ouvir a música que Ishibashi fez foi a primeira vez que pensei que isso poderia funcionar para o filme”. A trilha sonora tem 12 faixas. Hamaguchi desejava incorporar a música dos Beatles “Drive My Car”, que dá nome ao filme e à história. Foi difícil a permissão para seu uso. Em vez disso, ele incluiu uma peça para quarteto de cordas de Beethoven, que é referenciada diretamente na história original de Murakami. Escrevendo para a Pitchfork, Quinn Moreland disse que a trilha sonora “possui um distanciamento frio, espelhando a profundidade glacial do filme com nuances orgânicas e improvisação contemplativa”. Vanessa Ague, do The Quietus, escreveu: “Ishibashi cria uma narrativa dentro do tema e variações, traçando um caminho musical que se sustenta por si só”.

          The Beatles representou socialmente uma banda de rock britânica formada na cidade de Liverpool em 1960. A formação mais reconhecida da banda contava com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Amplamente reconhecida como a maior e mais influente banda da história da música popular de todos os tempos, foi essencial para o desenvolvimento da contracultura da década de 1960 e para o reconhecimento da música popular como forma de arte. Enraizados no skiffle, beat e o rock and roll dos anos 1950, os Beatles mais tarde experimentaram com diversos gêneros, desde baladas pop e a música indiana até a música psicodélica e o hard rock, e incorporaram elementos clássicos de maneiras inovadoras. Em meados da década de 1960, a imensa popularidade da banda tornou-se reconhecida como Beatlemania, mas conforme a música do grupo crescia em sofisticação, liderada pelos principais compositores John Lennon e Paul McCartney, seus membros começaram a ser percebidos nos ideais compartilhados pelas revoluções socioculturais da Era. Os Beatles construíram sua reputação apresentando-se em boates de Liverpool e Hamburgo durante três anos na década de 1960. O empresário da banda Brian Epstein (1934-1967) que se tornou famoso ao empresariar os Beatles transformou seus integrantes em artistas profissionais, e o produtor George Martin melhorou seus potenciais musicais. Eles ganharam popularidade no Reino Unido com seu primeiro sucesso “Love Me Do” no final de 1962. Eles adquiriram o apelido “The Fab Four”, conforme a Beatlemania crescia em território britânico no ano seguinte, e ao final de 1964 tornaram-se astros internacionais, liderando a “Invasão Britânica” no mercado musical estadunidense. 

A partir de 1965, os Beatles produziam o que muitos consideram como seus melhores materiais, incluindo os inovadores e influentes álbuns Rubber Soul (1965), Revolver (1966), Sgt. Pepper`s Lonely Hearts Club Band (1967), The Beatles (comumente referido como White Album, 1968) e Abbey Road (1969). Após a separação de seus membros em 1970, todos conquistaram carreiras musicais bem-sucedidas. McCartney e Starr, os membros ainda vivos, estão musicalmente ativos. Lennon foi assassinado em dezembro de 1980, enquanto Harrison morreu de câncer de pulmão em novembro de 2001. De acordo com a Recording Industry Association of America (RIAA), os Beatles são os artistas com o maior número de vendas nos Estados Unidos, com 178 milhões de unidades certificadas. Eles possuem o maior número de álbuns que chegaram ao cume da UK Albums Chart e venderam mais singles no Reino Unido do que qualquer outro artista. Em 2008, o grupo foi listado pela Billboard como o ato mais bem sucedido de todos os tempos nas tabelas publicadas pela revista; até 2015, o conjunto ainda detém o recorde de mais números um na Billboard Hot 100, com 20 canções. Eles receberam dez Grammy Awards, um Oscar para Melhor Banda Sonora e 15 Ivor Novello Awards. Com seus membros incluídos na compilação da Time que listou as 100 pessoas mais influentes do século XX, é banda mais bem sucedida na história da música, vendendo mais de 600 milhões de cópias. 

O grupo musical foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame em 1988, com todos os participantes individualmente entre 1994 e 2015, e possui cinco álbuns na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame, juntamente ao Led Zeppelin. Escrevendo para a PopMatters, Jay Honeycomb descreveu: “A música de Ishibashi te envolve quando chega, permitindo que as sementes plantadas por Hamaguchi germinem e cresçam sem te afogar em sentimentalismo”. O extraordinário filme Drive My Car teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes de 2021 na competição pela Palma de Ouro. Foi lançado no Reino Unido em 19 de novembro de 2021 e em 24 de novembro de 2021 nos Estados Unidos. Em 2025, o filme foi apresentado na seção Momentos Decisivos do Cinema Asiático no 30º Festival Internacional de Cinema de Busan, como parte do especial Asian Cinema 100, sendo a obra de assinatura do diretor Ryusuke Hamaguchi. As versões em DVD e Blu-ray do filme foram lançadas nos Estados Unidos em 19 de julho de 2022, como parte da Criterion Collection que representa uma empresa estadunidense de distribuição de home vídeos que tem como escopo o licenciamento, restauração e distribuição de “importantes filmes clássicos e contemporâneos”. A Criterion atende estudantes de cinema e mídia, cinéfilos e bibliotecas públicas e acadêmicas. Em 8 de abril de 2022, Drive My Car arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 12,3 milhões em outros territórios, totalizando US$ 14,7 milhões em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou US$ 944.000 na época de suas indicações ao Oscar em 8 de fevereiro de 2022. Entre então e 20 de março, arrecadou US$ 1,15 milhão (um aumento de 122%), totalizando US$ 2,1 milhões.

Bibliografia Geral Consultada.

BROHM, Jean-Marie, Sociologie Politique du Sport. Paris: Jean-Pierre Delarge Éditeur, 1976; BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega. Volume 1. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1980; BERGSON, Henri, O Pensamento e o Movente. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Editor Abril Cultural, 1984; PROUST, Marcel, Os Prazeres e os Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio Gráfica, 1986; BRAGA, Ubiracy de Souza, A Racionalização Fordista no Brasil: Efeitos Econômicos e Políticos na Reprodução do Trabalho. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1988; 320 páginas; BARTHES, Roland, Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editor, 1991; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; BIANCHI, Henri, O Eu e o Tempo: Psicanálise do Tempo e do Envelhecimento. São Paulo: Editor Casa do Psicólogo, 1993; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; SIMMEL, Georg, El Individuo y la Libertad: Ensayos de Crítica de la Cultura. Barcelona: Ediciones Península, 2001; CUADRA, César, Modernidad en el Realismo Mágico de García Márquez. Madrid: Editor Centro Virtual Cervantes, 2002; FREUD, Sigmund, “Luto e Melancolia”. In S. Freud, Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2006; SANTOS, Alexandra Coelho, “Em Nome da Hélade: O Sacrifício Voluntário em Ifigénia em Áulide de Eurípides”. In: Phaine: Revista de Estudos Sobre a Antiguidade, n° 1, volume 1, janeiro – julho de 2016; THORPE, Christopher et al., (eds.), O Livro da Sociologia. 2ª edição. São Paulo: Globo Livros, 2016; MORIN, Edgar, Cultura de Massas no Século XX - O Espírito do Tempo - Neurose e Necrose. 11ª edição. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2018; DARGIS, Manohla, “Crítica de Drive My Car: Um Diretor Leva Seu Coração Para Dar Uma Volta”. In: The New York Times, 24 de novembro de 2021; LIMA, Felipe Benicio de, O Neodistópico: Metamorfoses da Distopia no Século XXI. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura. Faculdade de Letras. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2022; SILVA, Ariane Stefanie da, Gênero, Cinema e Super-heroi(na): Um Olhar sobre o Feminino no MCU a partir da Representação de Viúva Negra. Dissertação de Mestrado em Comunicação. Instituto de Ciências Sociais Aplicadas.  Mariana: Universidade Federal de Ouro Preto, 2026; entre outros.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

De Olhos Bem Fechados – Fluxo de Consciência & Esclarecimento Social.

                      No inconsciente, nada pode ser encerrado, nada é passado ou está esquecido”. Sigmund Freud                              

 O termo grego psychein é uma palavra ambígua que significava originalmente “alento” e, posteriormente, “sopro”. Dado que o alento representa uma das características da vida, a expressão “psique” era utilizada como um sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o princípio da vida. A psique seria então a “alma das sombras” por oposição à “alma do corpo”. O termo adquiriu outros significados no âmbito da história clínica e social, a exemplo do apresentado na peça Psyché, de Molière. Pode-se destacar ainda a versão de Jean de La Fontaine (1621-1695), no romance Os Amores de Psique e Cupido, além das versões clássicas como de Apuleio (125-180), Eros e Psique (Metamorfose: livros IV, V e VI), entre outras. Relevante para a psicanálise é a versão mítica, utilizada por Freud, ao propor a utilização dos termos Eros e Tânato, em seu livro Além do princípio do prazer (1922). Segundo o autor, o ser humano possui duas pulsões inatas, a de vida (Eros) e a de morte (Tânato), que dinamizam a psique e são origens de desejos e fantasias.  Psyché representou uma bela mortal por quem Eros, deus do amor e filho de Afrodite, deusa da beleza, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal. A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo monstruoso ser. Ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça – acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas.

Com o próprio deus do Amor apaixonado por Psyché, suas setas não foram  lançadas para ninguém. Após muito pranto, mas sem ousar contrariar a vontade de Apolo, a jovem  Psyché foi levada ao alto de um rochedo e deixada à própria sorte, até adormecer e ser conduzida pelo vento Zéfiro a um palácio magnifico, que daquele dia em diante seria seu. Lá chegando a linda princesa não encontrou ninguém, mas tudo era suntuoso e, quando sentiu fome, um lauto banquete estava servido. À noite, uma voz suave a chamava e, levada por ela, conheceu as delícias do Amor, nas mãos do próprio deus do amor (Eros). Os dias se passavam, e ela não se entediava, tantos prazeres tinha: acreditava estar casada com um monstro, pois Eros não lhe aparecia e, quando estavam juntos, usava sempre um capuz. Ele não podia revelar sua identidade pois, assim, sua mãe (Afrodite) descobriria que não cumprira suas ordens – e apesar disto Psyché amava o esposo, que a fizera prometer-lhe jamais retirar seu capuz. Psyché, julgando que os conselhos das irmãs (invejosas, diziam-lhe que Eros era na verdade um monstro e por isso não mostrava o rosto) eram ditados por amizade, pôs em execução o plano que elas lhe sugeriram: após perceber que seu marido se entregara ao sono, levantou-se tomando uma lâmpada e uma faca, e dirigiu a luz ao rosto de seu esposo, com intenção de matá-lo. Porém, espantada e admirada com a beleza de seu marido, a jovem desastradamente deixa pingar uma gota de azeite quente sobre o ombro dele. Eros acorda e, percebendo que fora traído, enlouquece e foge. 

Psiqué fica sozinha, desesperada com seu erro, no imenso palácio. Traumnovelle, tem como representação social uma novela de 1926 do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931). O livro trata historicamente dos pensamentos e das transformações psicológicas do Doutor Fridolin durante o período exatamente de dois dias após “sua esposa confessar ter tido fantasias sexuais envolvendo outro homem”. Nesse curto espaço de tempo, ele reconhece muitas pessoas que dão pistas sobre o mundo que Schnitzler cria. Isso culmina no famoso baile de máscaras, um evento de identidade mascarada, sexo, e perigo para o Doutor Fridolin, o estranho. Foi publicado pela primeira vez em fascículos na revista Die Dame entre dezembro de 1925 e março de 1926. A primeira edição do livro apareceu em 1926 na S. Fischer Verlag. A mais reconhecida das adaptações cinematográficas é o filme Eyes Wide Shut, de 1999, do diretor-roteirista Stanley Kubrick e do corroteirista Frederic Raphael, embora faça alterações significativas no cenário. Antes deste filme, foi adaptado para a televisão austríaca em 1969, como um filme italiano intitulado Il Cavaliere, la Morte e il Diavolo em 1983, e como um filme italiano de maldito ou interdito de “baixo orçamento”, para o jargão de status cinematográfico, intitulado Nightmare in Venice em 1989. O livro pertence ao período decadente em Viena após a virada do século XX (cf. Schorske, 1990). Entretanto, Traumnovelle se passa na Viena do início do século XX durante o carnaval. O protagonista da história é Fridolin, médico bem-sucedido de 35 anos que mora com esposa Albertina (também traduzida como Albertine) e sua filha.                        

Uma noite, Albertina confessa que no verão anterior, enquanto estavam de férias na Dinamarca, um país escandinavo que abrange a península Jutlândia e várias ilhas, ela teve uma fantasia sexual com um jovem oficial militar. Fridolin então admite que durante as mesmas férias se sentiu atraído por uma jovem garota na praia. Mais tarde naquela noite, Fridolin é chamado ao leito de morte de um paciente importante. Ao encontrar o homem morto, ele fica chocado quando a filha do homem, Marianne, professa seu amor por ele. Inquieto, Fridolin sai e começa a andar pelas ruas. Embora tentado, ele recusa a oferta de uma jovem prostituta chamada Mizzi. Ele encontra seu velho amigo Nachtigall, que diz a Fridolin que tocará piano em uma orgia secreta da alta sociedade naquela noite. Intrigado, Fridolin consegue máscara e fantasia e segue Nachtigall até a festa em uma residência particular.  Fridolin fica chocado ao encontrar vários homens com máscaras e fantasias e mulheres nuas apenas com máscaras envolvidas em diversas atividades sexuais. Quando uma jovem o avisa para ir embora, Fridolin ignora seu apelo e logo é exposto como um intruso. A mulher então anuncia à multidão que se sacrificará por Fridolin, e ele poderá partir. Ao voltar para casa, Albertina acorda e descreve um sonho que teve: enquanto fazia amor com o oficial dinamarquês a partir de suas fantasias sexuais, ela assistiu sem simpatia Fridolin ser torturado e crucificado diante de seus olhos. 

Fridolin fica indignado porque acredita que isso prova que sua esposa quer traí-lo. Ele resolve perseguir suas próprias tentações sexuais. No dia seguinte, Fridolin descobre que Nachtigall foi levado por dois homens misteriosos. Ele então vai até a loja de fantasias para devolver sua fantasia e descobre que o dono da loja está prostituindo sua filha adolescente com vários homens. Ele encontra o caminho de volta para onde a orgia aconteceu na noite anterior; antes de poder entrar, ele recebe um bilhete endereçado a ele pelo nome, avisando-o para não prosseguir com o assunto. Mais tarde, ele visita Marianne, mas ela não demonstra mais interesse por ele. Fridolin procura Mizzi, a prostituta, mas não consegue encontrá-la. Ele lê que uma jovem foi envenenada. Suspeitando que ela seja a mulher que se sacrificou por ele, ele vê o cadáver da mulher no necrotério, mas não consegue identificá-la. Fridolin volta para casa naquela noite e encontra Albertina dormindo, com a máscara da noite anterior colocada no travesseiro ao seu lado da cama. Ao acordar, Fridolin confessa todas as suas atividades. Depois de ouvir em silêncio, Albertina o conforta. Fridolin diz que isso nunca acontecerá, mas Albertina diz para não olhar para o futuro e que o importante é que eles tenham sobrevivido às aventuras. A história termina com eles cumprimentando o novo dia com a filha.

Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados) tem como representação social um filme britano-estadunidense de 1999 dos gêneros drama e suspense, dirigido por Stanley Kubrick, e estrelado por Nicole Kidman e Tom Cruise. É baseado no romance Traumnovelle, de Arthur Schnitzler (1862-1931) foi um escritor e médico austríaco. O pai, Johann Schnitzler, de uma família judaica simples, mudou-se de Budapeste para Viena, onde se casou com a filha de uma famosa família. Tornou-se um respeitado médico e diretor do hospital “Allgemeine Poliklinik”. O seu filho Arthur frequentou entre 1871 e 1879 o Liceu, tendo mais tarde completado o curso de medicina. Arthur Schnitzler viria a completar o mestrado em 1885. Participa no trabalho da revista clínica “Allgemeine Klinische Rundschau” e começou cedo por se interessar pela psicologia. Trabalhando como médico de 2ª classe com o psiquiatra Dr. Theodor Meynert fazia experiências com a hipnose e a sugestão como técnicas terapêuticas. Foi assistente e médico de 2ª classe no Hospital Wiener Allgemeines Krankenhaus e, mais tarde, assistente do seu pai no hospital “Poliklinik”. Em 1893, abriu uma clínica privada, a qual começou a se dedicar cada vez menos devido à atividade literária. Entretanto, Schnitzler é frequentemente comparado com Sigmund Freud. Nos seus dramas e novelas usa a técnica do “fluxo de consciência”, onde mostra drasticamente a atividade subconsciente dos seus protagonistas.

Em consequência da sua representação intransigente do pensamento, foi inúmeras vezes criticado. O seu ciclo “Der Reigen” provocou um grande escândalo público e foi censurado como tendo realizado uma apresentação de pornografia. Segundo o Dicionário Oxford o enquanto o monólogo interior é uma fala interiorizada, o fluxo de consciência procura a mistura desta fala com impressões, percepções, não respeitando muitas vezes as regras gramaticais. O fluxo de consciência frequentemente não utiliza pontos e vírgulas por largos períodos, inclusive obras inteiras tentando representar na escrita, o fluxo de pensamentos inconscientes e desorganizados de nossa mente. As semelhanças entre Sigmund Freud (1856-1939) e Arthur Schnitzler (1862-1931) são indiscutíveis, cada um ao seu modo, intensamente a psicanálise. Em uma carta destinada a Schnitzler, datada de 14 de maio de 1922, Sigmund Freud (1856-1939) faz algumas observações sociais sobre a obra do escritor e confessa ter evitado, durante muito tempo, ser apresentado a ele, pois, ao ler seus textos, acreditava que se tratava de seu “duplo”. Alguém que, como ele, era “explorador das profundezas” e que mostrava “as verdades do inconsciente”. Afirmou Freud: “Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho” (Freud, 1922).

Quando o presidente da Warner Bros., Terry Semel, aprovou a produção em 1995, ele pediu a Kubrick que escalasse uma estrela de cinema, pois “você não fazia isso desde Jack Nicholson [em O Iluminado]”. Kubrick pretendia escalar um casal de verdade para o filme como Bill e Alice Harford. Alec Baldwin e Kim Basinger foram considerados, assim como Bruce Willis e Demi Moore. Kubrick acabou escalando Tom Cruise para o papel de Bill, tendo ficado impressionado com sua atuação em Nascido em 4 de Julho (1989), e Nicole Kidman como Alice. Kidman estava na Inglaterra filmando Retrato de uma Senhora (1996), e ela e Cruise decidiram visitar Kubrick em sua propriedade em Childwickbury para discutir o projeto. Após essa reunião, Kubrick concedeu-lhes os papéis. A escalação do casal foi oficialmente anunciada pela Variety em 17 de dezembro de 1995. Kubrick também conseguiu fazer com que ambos não se comprometessem com outros projetos até que Eyes Wide Shut fosse concluído. Em uma entrevista de 2025, John Turturro afirmou que Kubrick escreveu o papel de Nick Nightingale para ele, mas que Turturro o recusou acidentalmente devido a um mal-entendido. No final, Kubrick ofereceu o papel a Todd Field. Entretanto, no “frigir dos ovos” Jennifer Jason Leigh e Harvey Keitel foram escalados para papéis coadjuvantes e filmados por Kubrick, como Marion Nathanson e Victor Ziegler, respectivamente. Ambos acabaram abandonando a produção, supostamente devido ao jargão comumente utilizado “conflitos de agenda”.

Keitel foi o primeiro a deixar o projeto para aparecer em Finding Graceland, seguido por Leigh, que estava filmando eXistenZ com David Cronenberg. Leigh foi substituída por Marie Richardson e Keitel por Sydney Pollack. Décadas depois, Keitel disse que havia desistido por sentir que Kubrick o havia “desrespeitado”; Gary Oldman acrescentou que o ponto de ruptura foi depois que Kubrick pediu a Keitel que fizesse dezenas de tomadas para uma cena de seu personagem passando por uma porta. Entre os outros atores coadjuvantes, Alan Cumming disse mais tarde que fez seis testes para seu pequeno papel no filme como recepcionista de hotel. Vinessa Shaw enviou uma fita de teste para o papel do Domino, uma prostituta encontrada por Bill, e foi escalada por Kubrick. Shaw lembrou: “duas vezes fui chamada e contratada com base na fita, porque Stanley Kubrick não viajava de avião... fui contratada com base nessa fita e foi isso”. Julienne Davis foi escalada para o papel de Mandy, uma prostituta salva de uma overdose por Bill na festa de Natal dos Ziegler, a quem ele mais tarde descobre morta e visita no necrotério. Kubrick ofereceu este papel a Eva Herzigová, mas ela recusou. Subentende-se que a personagem Mandy e a misteriosa mulher mascarada que Bill encontra na orgia são presumivelmente a mesma pessoa. No entanto, embora Davis apareça ao fundo como uma participante mascarada durante a sequência da extraordinária orgia, ela foi substituída por Abigail Good nas cenas de diálogo com Cruise.

Etnograficamente as filmagens principais de Eyes Wide Shut começaram em 4 de novembro de 1996. Originalmente, Kubrick planejou que as filmagens durassem apenas três meses, com um cronograma previsto de 28 de outubro de 1996 a 7 de fevereiro de 1997. No entanto, o perfeccionismo de Kubrick levou à reescrita de páginas do roteiro no set, e ele intencionalmente filmou muitas cenas várias vezes para tentar desestabilizar os atores envolvidos e assim poder obter uma atuação mais autêntica. Inúmeras cenas, independentemente de sua duração, foram filmadas mais de 70 vezes. Uma cena de Cruise atravessando uma porta foi filmada 95 vezes. Como resultado, as filmagens duraram muito mais do que o esperado. A atriz Vinessa Shaw foi inicialmente contratada por duas semanas e uma cena, mas acabou trabalhando por dois meses.  Segundo Kidman, “Stanley não trabalhava sob pressão. O tempo era a coisa mais importante para ele. Ele estava disposto a abrir mão de locações para economizar dinheiro, mas não estava disposto a abrir mão de tempo”. As filmagens ocorreram exclusivamente à noite,  e a produção foi acompanhada por uma forte campanha de sigilo, facilitada pelo fato de Kubrick sempre trabalhar com uma pequena equipe no set. Devido à natureza implacável da produção, a equipe ficou exausta e houve relatos de que o moral estava baixo. Cruise desenvolveu uma úlcera, mas não contou a Kubrick. As filmagens foram finalmente concluídas em junho de 1998, com o orçamento de produção do filme atingindo US$ 65 milhões. O Guinness World Records reconheceu o trabalho cenográfico de Eyes Wide Shut como a filmagem contínua mais longa de um filme, que durou “...mais de 15 meses, um período que incluiu uma filmagem ininterrupta de 46 semanas”.

Larry Smith, que havia trabalhado como eletricista-chefe em Barry Lyndon e O Iluminado, foi escolhido por Kubrick para ser o diretor de fotografia do filme. Sempre que possível, Smith utilizava fontes de luz disponíveis e visíveis nas cenas, como lâmpadas e luzes de Natal, mas quando isso era insuficiente, ele usava lâmpadas de papel chinesas para iluminar suavemente a cena, com outros tipos de iluminação de filme, se necessário. A cor foi realçada pelo processamento forçado dos rolos de filme (emulsão), o que ajudou a intensificar a cor e enfatizar os destaques. Esse efeito é evidente na cena da festa de Natal na casa de Ziegler, com Smith observando que o processamento forçado “fez com que as luzes parecessem muito mais brilhantes do que eram” e criou um “brilho quente maravilhoso”. O perfeccionismo de Kubrick o levou a supervisionar cada elemento visual que apareceria em um determinado quadro, desde adereços e móveis até a cor das paredes e outros objetos. Um desses elementos eram as máscaras usadas na orgia, inspiradas nos bailes de máscaras de carnaval visitados pelos protagonistas do romance. A figurinista Marit Allen explicou que Kubrick sentiu que elas se encaixavam naquela cena por fazerem parte do mundo imaginário e acabaram “criando a impressão de ameaça, mas sem exagero”. Tantas máscaras quanto as usadas no carnaval veneziano foram enviadas para Londres e Kubrick escolheu quem usaria cada uma. Os retratos da esposa de Kubrick, Christiane, e de sua enteada, Katharina, aparecem como decoração.

Kidman revelou que suas cenas explícitas com o oficial naval, interpretado por Gary Goba, foram filmadas ao longo de três dias e que Kubrick queria que elas fossem “quase pornográficas”. Devido ao medo de voar de Kubrick, todo o filme foi rodado na Inglaterra, com exceção de algumas cenas externas filmadas na cidade de Nova York, que foram projetadas atrás de Cruise durante algumas das sequências de rua. Os trabalhos de estúdio foram concluídos nos Estúdios Pinewood de Londres, que incluíram uma recriação detalhada de Greenwich Village, bem como interiores do apartamento dos Harford. O perfeccionismo de Kubrick chegou ao ponto de enviar designers de produção a Manhattan para medir a largura das ruas e anotar a localização das máquinas de venda automática de jornais. Somerton, a propriedade palaciana “onde ocorre a sequência da orgia”, era uma amálgama de diferentes locais interiores e exteriores. Três propriedades separadas foram usadas para essas cenas: Mentmore Towers em Buckinghamshire serviu como exterior, enquanto as sequências interiores foram filmadas em Elveden Hall em Suffolk e Highclere Castle em Hampshire. As locações externas incluíram Hatton Garden representando uma rua de Greenwich Village, enquanto a loja de brinquedos Hamleys em Londres foi usada como substituta da FAO Schwarz na cena final do filme. Fotografias adicionais ocorreram no Chelsea and Westminster Hospital, bem como no Lanesborough Hotel, este último servindo como o apartamento dos Nathansons. A atriz Julienne Davis lembrou que a cena do necrotério em que o personagem de Cruise visita seu cadáver foi filmada dentro de uma fábrica de bacon desativada em St Albans, Hertfordshire.

Após a conclusão das filmagens, Kubrick iniciou um longo processo de pós-produção. O editor Nigel Galt trabalhou com Kubrick no processo de edição usando a tecnologia Avid e indicou que havia começado a editar as filmagens existentes enquanto o filme ainda estava em fase de fotografia principal, a partir de 30 de dezembro de 1996. A carga de trabalho era tão exigente que Galt solicitou editores assistentes, após o que Melanie Viner-Cuneo e Claus Wehlisch foram contratados, muitas vezes trabalhando 12 horas por dia. Em meados de fevereiro de 1999, Galt observou que estava trabalhando até 15 horas por dia com o prazo iminente da Warner Bros. em março. Embora Kubrick normalmente exibisse a versão final de seus filmes na Inglaterra, ele enviou a primeira versão do filme finalizado para Nova York para acomodar Cruise e Kidman. Em 2 de março de 1999, a primeira versão foi exibida para Cruise, Kidman e executivos da Warner Bros. na sede do estúdio na Quinta Avenida. De acordo com o executivo do estúdio, Semel: “[Stanley] gostou muito do filme e devo dizer que ficamos realmente entusiasmados. É um filme incrível”. O filme foi bem recebido por Cruise, Kidman e Semel. Segundo Semel, restavam apenas alguns ajustes menores, consistindo em títulos e “algumas correções de cor e algumas questões técnicas”. Em 5 de março de 1999, Kubrick realizou uma segunda exibição do filme para um representante britânico da Warner Bros. em sua casa em Childwickbury. Kubrick morreu repentinamente dois dias depois, vítima de um ataque cardíaco. Em 13 de março de 1999, um dia após o funeral de Kubrick, Galt retomou o processo de pós-produção com a ajuda de Viner-Cuneo, Leon Vitali, Jan Harlan e da esposa de Kubrick, Christiane.

Em 2019, foi revelado que Cate Blanchett havia fornecido a voz da misteriosa mulher mascarada na festa da orgia porque a atriz Abigail Good não conseguiu falar com um sotaque americano convincente. Cruise e Kidman acabaram sugerindo Blanchett para a dublagem, que ocorreu após a morte de Kubrick. Jocelyn Pook compôs a música original de Eyes Wide Shut, mas, como outros filmes de Kubrick, o filme foi notável pelo uso de música clássica. A música de abertura é a Valsa nº 2 de Shostakovich, da “Suite para Orquestra de Palco de Variedades”, erroneamente identificada como “Jazz Suite nº 2”. Uma peça recorrente é o segundo movimento do ciclo para piano de György Ligeti, “Musica ricercata”. Kubrick originalmente pretendia apresentar “Im Treibhaus”, das Wesendonck Lieder de Wagner, mas o diretor acabou substituindo-a pela peça de Ligeti, achando a canção de Wagner “bonita demais”. Na cena do necrotério ouve-se a peça tardia para piano solo de Franz Liszt, “Nuages ​​Gris” (1881). Mas também “Rex tremendae” do Réquiem de Mozart toca enquanto Bill entra no café e lê sobre a morte de Mandy. Vale lembrar que Jocelyn Pook foi contratada depois que a coreógrafa Yolande Snaith ensaiou a  cena da orgia do baile de máscaras usando a composição de Pook, “Backwards Priests” (1999) – que apresenta uma Divina Liturgia Ortodoxa Romena gravada em uma igreja em Baia Mare, tocada ao contrário – como faixa de referência. Kubrick então ligou para a compositora e perguntou se ela tinha mais alguma coisa “estranha” como aquela música, que foi retrabalhada para a versão final da cena, com o título “Masked Ball”.

Pook acabou compondo e gravando quatro peças musicais, muitas vezes baseadas em seus trabalhos anteriores, totalizando 24 minutos. O trabalho da compositora acabou tendo principalmente instrumentos de corda – incluindo uma viola tocada pela própria Pook – sem metais ou sopros, pois Pook “simplesmente não conseguia justificar essas outras texturas”, principalmente porque queria que as faixas tocadas em cenas com muitos diálogos fossem “subliminares” e sentia que tais instrumentos seriam intrusivos. Outra faixa da orgia, “Migrations”, apresenta uma canção tâmil cantada por Manickam Yogeswaran , um cantor de música carnática. A versão original apresentava uma recitação das escrituras do Bhagavad Gita, que Pook retirou de uma gravação anterior de Yogeswaran. O Hindu Mahasabha da África do Sul, um grupo hindu, protestou contra o uso das escrituras, a Warner Bros. emitiu um pedido público de desculpas, e contratou o cantor para gravar uma faixa semelhante para substituir o cântico. A festa na casa de Ziegler apresenta rearranjos de canções de amor como “When I Fall in Love” e “It Had to Be You”, usadas de maneiras cada vez mais irônicas, considerando como Alice e Bill flertam com outras pessoas na cena. Como Kidman estava nervosa em relação às cenas de nudez, Kubrick afirmou que ela poderia trazer sua própria música para as filmagens. Quando Kidman trouxe um CD de Chris Isaak, Kubrick aprovou e incorporou a música de Isaak “Baby Did a Bad, Bad Thing” tanto em um abraço romântico inicial de Bill e Alice quanto no trailer do filme.

            Escólio: O Dr. Bill Harford e sua esposa, Alice, são um jovem casal que vive em Nova York. Eles vão para uma festa de Natal feita por um paciente rico, Victor Ziegler. Bill encontra um velho amigo da faculdade de medicina, Nick Nightingale, que agora toca piano profissionalmente. Enquanto um homem húngaro chamado Sandor Szavost tenta pegar Alice, duas jovens modelos tentam tirar Bill para um encontro. Ele é interrompido por um telefonema de seu anfitrião no andar de cima, que tinha tido relações sexuais com Mandy, uma jovem que tem uma overdose. Mandy recupera-se com a ajuda de Bill. Na noite seguinte, em casa, ao fumar cannabis, Alice pergunta se ele teve relações sexuais com as duas meninas. Depois de Bill tranquiliza-la, ela pergunta se ele está sempre com inveja de homens que se sentem atraídos por ela. Como a discussão se aquece, ele afirma que acha que as mulheres são mais fiéis do que os homens. Ela refuta, dizendo-lhe de uma recente fantasia que ela tinha com um oficial da Marinha que tinham encontrado em um período de férias. Perturbado pela revelação de Alice, Bill é então chamado pela filha de um paciente que acaba de morrer; ele então vai encontrá-la. Em sua dor, Marion Nathanson impulsivamente o beija e diz que o ama. Despedindo-a antes de seu noivo Carl chegar, Bill toma uma caminhada. Ele encontra uma prostituta chamada Domino e vai para seu apartamento, começa a beijar Bill, até que ele é chamado por Alice.

Bill paga ao Domino pelo programa, sem ter relações com ela, e volta a caminhar. Nick, no clube de jazz, está terminando seu último set. Bill descobre que Nick tem um compromisso onde ele deve tocar piano com olhos vendados. Bill o pressiona para obter mais detalhes. Ele descobre que para ganhar o ingresso, é preciso um traje, uma máscara e a senha que Nick escreve para ele. Bill vai a uma loja de fantasias. Ele oferece ao proprietário, o Sr. Milich, uma generosa quantidade de dinheiro para alugar um traje. Na loja, Milich encontra sua filha adolescente com dois homens japoneses e fica indignado. Bill pega um táxi para a mansão mencionado por Nick. Ele diz a senha e descobre um ritual sexual quase religioso que está ocorrendo. Embora ele esteja mascarado, uma mulher chama Bill e avisa que ele não deve ficar lá, insistindo que ele está em perigo terrível. Eles são interrompidos por um porteiro, que diz a Bill que o motorista de táxi quer falar com ele. No entanto, o porteiro leva-o para a sala do ritual, onde o Mestre de Cerimônia vestindo um manto vermelho confronta Bill com uma pergunta sobre uma segunda senha. Bill diz que esqueceu. O Mestre de Cerimônia o anfitrião do evento insiste para naquele momento que Bill “gentilmente retire a sua máscara”, em seguida, suas roupas. A mulher mascarada que tinha tentado avisar Bill agora intervém e insiste que ela deve ser punida no lugar dele. Bill é conduzido para fora da mansão e avisado ​​para não contar a ninguém sobre o que aconteceu lá. Pouco antes do amanhecer, Bill chega em casa culpado e confuso. Ele encontra Alice chorando alto em seu sono e desperta-a.  

Enquanto chorava, ela diz a ele de um sonho perturbador em que ela estava fazendo sexo com o oficial naval e muitos outros homens e rindo com a ideia de Bill vê-la com eles. Na manhã seguinte, Bill vai para o hotel de Nick, onde o funcionário da recepção diz para Bill que Nick chegou machucado e assustado algumas horas mais cedo após o retorno com dois homens assustadores. Nick tentou passar um envelope para o funcionário quando eles estavam saindo, mas foi interceptado e Nick foi expulso pelos dois homens. Bill vai para devolver o traje - sem a máscara, que ele guardou mal - e Milich, com sua filha ao seu lado, afirma que ele pode fazer outros favores para Bill “e ele não precisa usar uma fantasia”. Os mesmos dois homens japoneses saém; Milich implica a Bill que ele vendeu sua filha para a prostituição. Bill retorna à mansão de campo em seu próprio carro e dá de cara no portão por um homem com uma nota alertando-o para desistir de procurar. Em casa, Bill pensa sobre o sonho de Alice enquanto assiste sua filha. Bill reconsidera suas ofertas sexuais na noite anterior. Ele telefona para Marion, mas desliga depois que Carl atende. Bill, em seguida, vai ao apartamento do Domino com um presente. Sua companheira de quarto Sally está em casa, mas não o Domino. Depois de Bill tenta seduzir Sally, ela lhe revela que foi diagnosticada com doença contagiosa. Bill sai e vê que um homem está seguindo-o. Depois de ler um artigo de jornal sobre uma rainha de beleza que morreu de uma overdose de drogas, Bill vê o corpo no necrotério e identifica-lo como Mandy. Bill é convocado para a casa de Ziegler, onde ele é confrontado com os acontecimentos da noite anterior.

Ziegler foi um dos envolvidos com a orgia no ritual e identificou que Bill tem conexão com Nick. Sua própria posição com a sociedade secreta foi comprometida pela intrusão de Bill, desde que Ziegler recomendou Nick para o trabalho. Ziegler afirma que ele tinha seguido Bill para sua própria proteção e que as advertências feitas contra ele pela sociedade são destinadas apenas para assustá-lo de falar sobre a orgia. Mas ele implica a sociedade que é capaz de agir sobre suas ameaças, dizendo para Bill: “Se eu lhe dissesse seus nomes, eu acho que você não ia dormir tão bem”. Bill pergunta sobre a morte de Mandy, a quem Ziegler foi identificar como a mulher mascarada na festa que tinha “sacrificado-se” para impedir a punição de Bill e sobre o desaparecimento de Nick, o tocador piano. Ziegler insiste que Nick está salvo de volta em sua casa em Seattle e a “punição” foi uma farsa pela sociedade secreta para assustar ainda mais Bill, diz também que não tinha nada a ver com a morte de Mandy; ela era uma prostituta e toxicodependente e tinha realmente morrido de uma outra overdose. Bill não sabe se Ziegler está dizendo a verdade, mas ele não diz nada mais e deixa o assunto. Quando volta para casa, encontra a máscara alugada em seu travesseiro ao lado de sua esposa. Ele chora e decide contar a Alice toda a verdade dos últimos dois dias. Na manhã seguinte, eles vão às compras de Natal com sua filha. Alice comenta que eles deveriam ser gratos de terem sobrevivido, que ela o ama e quer fazer algo o mais rápido possível. Quando Bill pergunta o que ela quer fazer, ela simplesmente diz: Foder.

Kubrick sempre se interessou por um filme estudando relações sexuais, e após ler Traumnovelle, de Arthur Schnitzler, em 1968, pediu para o jornalista e futuro roteirista Jay Cocks comprar os direitos de filmagem. Mesmo tendo cogitado na década de 80 uma adaptação como “comédia de humor negro” estrelando Steve Martin, o projeto só decolou nos anos 1990, quando Kubrick contratou o roteirista Frederic Raphael para ajudá-lo na adaptação. O presidente da Warner Bros. sugeriu a Kubrick chamar atores reconhecidos para os papéis principais, e o diretor eventualmente chegou em Tom Cruise e na esposa Nicole Kidman para interpretar o casal Hartford. Citando obrigações contratuais de fornecer uma classificação R, a Warner Bros. alterou digitalmente a orgia para o lançamento do filme nos Estados Unidos, bloqueando a sexualidade explícita com figuras adicionais para obscurecer a visão, a fim de evitar uma classificação NC-17 para maiores de 17 anos que teria limitado sua viabilidade financeira.  O diretor de fotografia Larry Smith comentou sobre a censura: - Os únicos problemas que ocorreram foram com a MPAA quando estávamos tentando obter a classificação. Seguimos um caminho com o qual eu não concordava porque eles ficaram obcecados com a nudez. Eles foram tão banais e ridículos a respeito disso. Eles me fizeram fazer alterações, e eu tive que fazê-las porque me mandaram... Tivemos cinco exibições com a Motion Picture Association of America (MPAA), e a cada vez eles continuavam tentando nos fazer cortar mais cenas.                   

E então ficou claro que isso não ia acontecer. Quem são eles para dizer ao mundo o que veem em um filme de Stanley Kubrick? A premissa era que, no que dizia respeito à Warner, eles só queriam um lançamento do filme. Essa alteração irritou tanto os críticos de cinema quanto os fãs, que argumentaram que Kubrick nunca teve receio de classificações indicativas (o filme Laranja Mecânica recebeu originalmente a classificação X). Roger Ebert criticou duramente a técnica de usar imagens digitais para mascarar a ação, escrevendo que “não deveria ter sido feita de forma alguma” e que é “simbólica da hipocrisia moral do sistema de classificação, que forçaria um grande diretor a comprometer sua visão, enquanto, ao mesmo tempo, torna seu filme adulto mais acessível a jovens espectadores”. Embora Ebert tenha sido frequentemente citado por chamar a versão padrão norte-americana com classificação R de “a versão Austin Powers” do filme De Olhos Bem Fechados – referindo-se a duas cenas em Austin Powers: Um Agente Nada Discreto em que, por meio de ângulos de câmera e coincidências, a nudez frontal completa é bloqueada da visão de forma cômica – sua crítica afirmou que essa piada se referia a um rascunho inicial da cena alterada, nunca divulgado publicamente.

As filmagens começaram em novembro de 1996. Como Kubrick morava na Inglaterra desde a década de 1970 e possuía medo de avião, a produção foi totalmente filmada no Reino Unido, com uma reconstrução de Nova York sendo criada nos Estúdios Pinewood em Londres. As filmagens se prolongaram devido ao perfeccionismo de Kubrick, que pedia repetidas tomadas e chegava a reescrever páginas do roteiro no mesmo dia de rodá-las, e acabaram apenas em junho de 1998. A duração excessiva acabou afastando duas escolhas originais do elenco, Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh, que mesmo já tendo gravado cenas tiveram de ser substituídos por Sydney Pollack e Marie Richardson. Após terminar as filmagens, Kubrick entrou em um longo processo de pós-produção, e em 2 de março de 1999 mostrou seu corte final do filme para os executivos da Warner. Cinco dias depois o cineasta morreu enquanto dormia. Mais de 50 críticos listaram o filme entre os melhores de 1999. No entanto, o público pesquisado pelo CinemaScore deu ao filme uma nota média de “D-” em uma escala de A+ a F.

No consenso do agregador de críticas Rotten Tomatoes diz que “o intenso estudo de Kubrick da psique humana produz uma obra cinematográfica impressionante”. Na pontuação onde a equipe do site categoriza as opiniões da grande mídia e da mídia independente apenas como positivas ou negativas, o filme tem um índice de aprovação de 76% calculado com base em 160 comentários dos críticos. Por comparação, com as mesmas opiniões sendo calculadas usando uma média aritmética ponderada, a nota alcançada é 7,5/10. Em outro agregador, o Metacritic, que calcula as notas das opiniões usando somente uma média aritmética ponderada de determinados veículos de comunicação em maior parte da grande mídia, tem uma pontuação de 68/100, alcançada com base em 34 avaliações da imprensa anexadas no site, com a indicação de “revisões geralmente favoráveis”. Em 23 de novembro de 2023, a cantora e compositora brasileira Marina Sena fez referências diretas ao filme de Stanley no clipe de sua música “Dano Sarrada” do seu segundo álbum de estúdio Vício Inerente. O álbum foi lançado em 27 de abril de 2023, pela gravadora Sony Music Brasil. Conta com quatro singles: “Tudo pra Amar Você”; “Olho no Gato”; “Que Tal” com Fleezus, e “Dano Sarrada”, a mais viral.

Bibliografia Geral Consultada.

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