“Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. Sigmund Freud
Escócia representa um dos mais importantes países do Reino Unido e cobre o terço Norte da ilha da Grã-Bretanha. Ele compartilha uma fronteira com a Inglaterra ao Sul e outra, formada pelo oceano Atlântico, com o mar do Norte a Leste e com o canal do Norte e o mar da Irlanda a Sudeste. Scotland vem de Scoti, o nome latino para os gaels. A palavra latina Scotia` (“terra dos gaels”) era utilizada para se referir à Irlanda (cf. Dorneles, 2015). Até o século XI, o termo Scotia foi usado para se referir a Escócia ao Norte do rio Forth, juntamente com os termos Albania ou Albany, ambas derivadas do gaélico Alba. O uso das palavras Escócia para se referir a tudo o que é agora o território escocês tornou-se comum durante a Idade Média. Além do continente, o país é composto por mais de 790 ilhas, incluindo as Ilhas do Norte e as Hébridas. Edimburgo, a capital e segunda maior cidade do país, foi o centro do Iluminismo Escocês do século XVIII, que transformou a Escócia em uma das potências comerciais, intelectuais e industriais da Europa. Glasgow, maior cidade, já foi um dos polos industriais mais importantes do mundo. As águas territoriais escocesas consistem em um grande setor do Atlântico Norte e do mar do Norte, região que contém as maiores reservas de petróleo da União Europeia. Isso tem dado a Aberdeen, a terceira maior cidade do país, o título de capital do petróleo da Europa. O Reino da Escócia emergiu como um Estado na Alta Idade Média a existir até 1707. Por herança, em 1603, o rei James VI da Escócia (1566-1625) se tornou rei da Inglaterra e da Irlanda, com a delicada união pessoal entre os três reinos. O Iluminismo Escocês (Scottish Enlightenment) refere-se à transição, no século XVIII, na Escócia, caracterizado por um extraordinário florescimento de intelectuais e obras científicas, rivalizando com qualquer outra nação, em qualquer momento sendo uma base fundante deste pensamento.
O que tornou ainda mais notável foi que ela teve lugar num país que estava entre os mais pobres e era considerado um dos mais atrasados da Europa Ocidental, antes dessa data historicamente. Na Weltanschauung de Hugo Cerqueira (2004), o cenário escocês no período histórico de transição entre a pré-modernidade e o mundo moderno carregou suas particularidades. Na Escócia, segundo as análises kantianas, isto é, o método de análise e síntese, o Iluminismo trouxe características como a autonomia do sujeito, a preocupação com o Esclarecimento e a educação. O autor compreende que não há ruptura do Iluminismo Inglês, não sendo prudente “desconsiderar a presença de particularidades significativas, seja no que diz respeito às origens do movimento, seja no que tange a seu significado, sua motivação e suas características”. Diferente da esfera continental, contradictio sine qua non a versão escocesa, não se opunha aos valores do cristianismo e à religiosidade como um todo. A Igreja Católica na Escócia é parte da Igreja Católica universal, sob a liderança política do Papa e da Santa Sé. Apesar de existirem outras denominações cristãs na Escócia, comparativamente, como a Igreja da Escócia (presbiteriana), a Igreja Católica na Escócia mantém sua identidade como parte da Igreja Católica Romana. A história da igreja na Escócia tem suas particularidades, incluindo períodos de influência e conflitos com outras tradições religiosas, mas a ligação com a Igreja Católica universal quase sempre foi mantida, com exceção de períodos em que houve rompimento com Roma.
Estabelecida na Escócia por quase um milênio, a Igreja Católica foi banida após a Reforma Escocesa em 1560. Em 1° de janeiro de 1801, os reinos da Grã-Bretanha e da Irlanda uniram-se para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Em 1922, o Estado Livre retirou-se, por meio de secessão, do Reino Unido, forçando a renomeação deste para Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em 1927. A Emancipação Católica em 1793 ajudou católicos a recuperar os direitos civis, que eram negados a eles pelo governo protestante. Em 1878, ocorreu a restauração da hierarquia católica escocesa. Ao longo dessas mudanças, vários bolsões na Escócia mantiveram uma população católica anterior à Reforma, incluindo partes de Banffshire, Hébridas e partes ao Norte das Terras Altas da Escócia. Em 1716, o Seminário de Scalan foi estabelecido nas Terras Altas e reconstruído na década de 1760 pelo bispo John Geddes (1735-1799), uma figura popular em Edimburgo no período do iluminismo. Quando Robert Burns (1759-1796) escreveu a um correspondente que “o primeiro [isto é, o melhor] personagem clérigo que eu já vi era um católico romano”, ele estava se referindo a Geddes. O Gàidhealtachd tem sido católico e protestante nos tempos modernos. Geralmente se refere às Terras Altas e Ilhas da Escócia e especialmente à gaélica escocesa da área. A palavra em irlandês Gaeltacht, no entanto, refere-se exclusivamente às áreas de língua irlandesa.
O termo também é usado para se referir a áreas da Nova Escócia e do Condado de Glengarry, em Ontário, onde os dialetos canadenses distintos do gaélico escocês eram ou ainda são falados. Entretanto, “Gàidhealtachd” não é sinônimo de “Terras Altas da Escócia”, pois se refere ao idioma e não à geografia. Além disso, muitas partes das Terras Altas já não possuem populações significativas de falantes de gaélico, e algumas áreas do que é considerado como Terras Altas são, há muito tempo, regiões de língua escocesa ou inglesa, como Cromarty, Grantown-on-Spey, etc. Por outro lado, diversas comunidades de falantes de gaélico estão localizadas fora das áreas administrativas das Terras Altas, Argyll and Bute e Hébridas Exteriores, por exemplo, na Ilha de Arran e em partes de Perth e Kinross sem mencionar Nova Escócia, Carolina do Norte e outras áreas para as quais houve migração significativa. O termo “Gàidhealtachd” também se refere, cada vez mais, a qualquer região onde o gaélico escocês é falado como primeira língua por grande parte da população. No entanto, Gàidhealtachd é usado para se referir às Terras Altas da Escócia, por organizações como Highlands and Islands Enterprise (Iomairt na Gàidhealtachd`s nan Eilean) e o Highland Council (Comhairle na Gàidhealtachd). Um número de áreas gaélico-escocesas é principalmente católico, incluindo Barra, South Uist e Moidart. O poeta e romancista Angus Peter Campbell, um premiado poeta, romancista, jornalista, radialista e ator escocês escreve frequentemente sobre a Igreja Católica em seus trabalhos.
Para alguns pensadores sociais, como Hugh Trevor-Hoper (1914-2003) e John Robertson (1768-1843), as reflexões do Esclarecimento Escocês, centradas nas atividades de intelectuais, estariam ligadas às temáticas pertinentes pari passu à filosofia moral, à história, à economia política, afastando-se das discussões temática em torno das ciências sociais com as ciências naturais, per se direcionando o pensamento para a defesa do progresso social. Por outro lado, como nas concepções de Nicholas Phillipson (1836-1916), Roger Emerson (1934-2025) e Paul Wood, a física, a química e a medicina também teriam feito parte das discussões centrais de formação ilustrada da Escócia. Mais do que isso, alertam para a importância das características, do método e dos conceitos das ciências naturais para refletir sobre o comportamento social humano. O caráter de florescimento intelectual escocês, em áreas como a economia, a história, a filosofia moral, a geologia, a astronomia, a química, a arquitetura e as artes acontecem como uma reação à crise econômica e ao novo quadro de dependência política com a Inglaterra. Surge para os escoceses como parte de uma forma de superação do novo caráter sujeito do Estado. Além das reformulações curriculares feitas nas universidades escocesas a partir da Revolução Gloriosa, uma série de eventos transcorridos entre 1688 e 1689, na Inglaterra, e que levaram à deposição do rei Jaime II, o qual foi substituído por sua filha Maria II e seu marido, Guilherme III de Orange — o governante de fato da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, sem grande derramamento de sangue. Jaime II & VII foi o Rei da Inglaterra e Irlanda como Jaime II e Rei da Escócia como Jaime VII de 6 de fevereiro de 1685 até ser deposto na Revolução Gloriosa em dezembro de 1688 por sua filha Maria II e seu sobrinho Guilherme III & II.
Este acontecimento marcou o fim do absolutismo na Inglaterra e o início de uma monarquia constitucional, onde o poder do monarca era limitado pelo Parlamento, o que é importante na medida em que no final do setecentos, quando passa a ser adotada uma postura educacional voltada a constituição de valores sociais julgados como mais benéficos à formação humana. E nesse sentido, “a rejeição dos padrões e modelos adotados pelo aristotelismo e pela escolástica abriu espaço para uma nova compreensão do papel e do sentido da busca do conhecimento”. Importantes intelectuais associados ao Iluminismo Escocês foram, entre outros: Francis Hutcheson (1694-1746), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), Thomas Reid (1710-1796), Robert Burns (1759-1796), Adam Ferguson (1723-1816), e James Hutton (1726-1797). Os Atos de União de 1707 com a Inglaterra significou o fim do Parlamento da Escócia e o autogoverno autônomo. Os parlamentares, políticos e aristocratas se mudaram para Londres. A lei escocesa, no entanto, foi totalmente separada da lei inglesa, de modo que as cortes de direito civil, advogados e juristas ficaram para trás, em Edimburgo. A sede e a liderança da Igreja Presbiteriana se mantiveram, assim como as universidades e os estabelecimentos médicos. Os advogados e os teólogos, em conjunto articulados com os professores, intelectuais, os médicos, cientistas e arquitetos formaram uma nova elite de classe média que dominou Escócia urbana e facilitou o Iluminismo Escocês. Além disso o domínio da Escócia entrou numa união política com a Inglaterra em 1° de maio de 1707 para criar o novo Reino Unido da Grã-Bretanha.
A união também criou o
novo Parlamento da Grã-Bretanha, que sucedeu ao Parlamento da Escócia e o
Parlamento de Inglaterra. O Tratado de União foi acordado em 1706,
promulgado pelo Tratado de União de 1707, aprovados pelos parlamentos de ambos
os países, apesar de algumas revoltas populares e da oposição Antiunionista em
Edimburgo, Glasgow e em outros lugares. A Grã-Bretanha posteriormente entrou em
uma união política com a Irlanda em 1° de janeiro de 1801, para criar o Reino
Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. O sistema jurídico escocês manteve-se separado
da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte, sendo que “a Escócia
constitui uma jurisdição distinta no direito público e privado dentro do reino”.
A existência de instituições jurídicas, educacionais e religiosas distintas,
analogamente, daqueles do resto do Reino Unido têm contribuído para a
sobrevivência da cultura e da identidade nacional escocesa desde a união em
1707. Dois séculos depois, após um referendo em 1997, um Parlamento Escocês foi
restabelecido, desta vez como uma legislatura devolvida com autoridade sobre
muitos temas internos. O Partido Nacional Escocês, que apoia a Independência política
do país, ganhou uma maioria absoluta em seu passado recente nas eleições gerais
de 2011. Um referendo realizado em 18 de setembro de 2014 rejeitou a separação
do país do Reino Unido por uma maioria de 55% dos votos, com um comparecimento
às urnas de 85%.
Isto posto, o kilt tem como representação social uma peça típica saia sem bifurcação na altura do joelho, com pregas nas costas, originada no traje tradicional de homens e meninos gaélicos nas Terras Altas escocesas. É registrado pela primeira vez no século XVI como o belted plaid, uma peça de roupa longa cuja metade superior pode ser usada como capa. O kilt pequeno ou kilt moderno surgiu no século XVIII e é essencialmente a metade inferior do belted plaid. A manta com cinto é um grande pedaço de tecido semelhante a um cobertor que é enrolado ao redor do corpo com o material plissado ou, mais precisamente, frouxamente franzido e preso na cintura por meio de um cinto. Desde o século XIX, tornou-se associado à cultura mais ampla da Escócia e, mais amplamente, à herança gaélica ou celta. Na maioria das vezes é feito de pano de lã em um padrão de tartã. Embora o kilt seja mais usado em ocasiões formais e em jogos e eventos esportivos nas chamadas Terras Altas, ele também foi adaptado como “um item de roupas masculinas informais nos últimos anos, retornando às suas raízes como uma peça cotidiana”. Particularmente na América do Norte, os kilts agora são feitos para uso casual em uma variedade de materiais. Fixações alternativas podem ser usadas e bolsos inseridos na indumentária para evitar a necessidade de um sporran. A palavra gaélica escocesa que significa bolsa, é um elemento do traje masculino tradicional das Terras Altas da Escócia. O sporran compensa a falta de bolsos no kilt. Sua origem remonta às bolsas comumente usadas em torno da cintura em toda a Europa medieval. Kilts também foram adotados como vestuário feminino para alguns esportes.
Escólio: O kilt é aplicado a um conjunto de roupas. A vestimenta tradicional, seja em sua forma histórica, ou na adaptação moderna, agora comum na Escócia, geralmente em um padrão de tartã. Os kilts usados por pipe bands irlandesas são baseados na tradicional peça escocesa, mas em uma única cor (sólida). Variantes do kilt escocês adotadas em outras nações celtas, como a cilt galesa e a cilt da Cornualha. De acordo com o Dictionary of the Scots e Oxford English Dictionary, o substantivo deriva de um verbo para kilt, originalmente significando “cingir-se; enrolar (as saias) ao redor do corpo”, que é aparentemente de origem escandinava. Organizações que sancionam e classificam as competições em danças e gaitas das Terras Altas têm regras que regem os trajes aceitáveis para os competidores. Estas regras especificam que kilts devem ser usados, exceto que nas danças nacionais, as competidoras usarão o vestido Aboyne. O kilt escocês exibe singularidade de design, construção e convenção que o diferencia de outras peças que se encaixam na descrição geral. É uma peça sob medida que envolve o corpo na cintura natural, entre a costela inferior e o quadril, começando de um lado, geralmente o esquerdo do usuário, pela frente e pelas costas e pela frente novamente para o lado oposto.
As fixações consistem
em correias e fivelas nas duas extremidades, a cinta na extremidade interna
geralmente passando por uma fenda na cintura para ser afivelada do lado de
fora; alternativamente, pode permanecer dentro do cós e ser afivelado por
dentro. Um kilt cobre o corpo da cintura até o centro dos joelhos. As camadas
sobrepostas na frente são chamadas de “aventais”, para proteção dianteira e são
planas; a única camada de tecido ao redor dos lados e de trás é pregueada. Um
broche de kilt é preso ao avental dianteiro no canto livre (mas não é passado
pela camada abaixo, pois sua função é adicionar peso). Roupas íntimas podem ou
não ser usadas, como o usuário prefere, embora a tradição diga que um
verdadeiro escocês “não deveria usar nada sob o seu kilt”. A Scottish
Tartans Authority, no entanto, adverte que em algumas circunstâncias a
prática poderia ser “infantil e anti-higiênica” e voar “na face da decência”. O
kilt típico visto nos eventos modernos dos jogos das Terras Altas é feito de
sarja tecida de lã penteada. O tecido de sarja usado para kilts é do tipo “2 a
2”, o que significa que cada fio de trama passa por cima e por baixo de dois
fios de urdidura de cada vez. O resultado é um padrão de tecido diagonal no
tecido que é chamado de linha de sarja. Este tipo de sarja, quando
tecido de acordo com um dado padrão ou padrão de cores escritas é chamado
tartã.
Em contraste, os kilts usados pelos gaiteiros irlandeses são feitos de tecido de cor sólida, sendo o açafrão ou o verde as cores mais utilizadas. Os pesos dos tecidos de Kilting são dados em onças por jarda e correm do muito pesado, regimental de lã de aproximadamente 18–22 onças (510-620 g) até uma penugem leve de cerca de 10–11 onças (280-310 g). Os pesos mais comuns para os kilts são 13 onças (370 g) e 16 onças (450 g). Os pesos mais pesados são mais apropriados para climas mais frios, enquanto os pesos mais leves tendem a ser selecionados para clima mais quente ou para uso ativo, como as danças das Terras Altas. Alguns padrões estão disponíveis em apenas alguns pesos. Um kilt moderno para um adulto típico usa cerca de 6 a 8 jardas de tecido de tartã de largura simples (cerca de 66 a 76 centímetros) ou cerca de 3 a 4 jardas de tecido de tartã de largura dupla (cerca de 137 a 152 centímetros). O tecido de largura dupla é tecido de modo que o padrão corresponda exatamente ao selvagem. Kilts geralmente são feitos sem uma bainha porque uma bainha tornaria a peça muito volumosa e causaria uma queda incorreta. A quantidade exata de tecido depende de vários fatores, incluindo o tamanho do tecido, o número de pregas colocadas na peça e o tamanho da pessoa. Para um kilt completo, 8 jardas de tecido seriam usadas independente do tamanho e o número de pregas e a profundidade do plissado seriam ajustados com seu tamanho. Soldados escoceses a serviço de Gustavus Adolphus (1631). Para uma cintura muito grande, pode ser necessário usar 8 metros de tecido.
Uma das características mais distintivas do
autêntico kilt escocês é o padrão tartã, o sett, é exibido. A
associação de padrões particulares com clãs e famílias individuais pode ser
rastreada talvez um ou dois séculos. Foi apenas na Era Vitoriana do século XIX
que o sistema de tartãs conhecidos começou a ser sistematicamente registrado e
formalizado, principalmente por tecer empresas para fins mercantis. um longo
período histórico de prosperidade e paz (Pax Britannica) para o povo britânico,
com os lucros adquiridos a partir da expansão do Império Britânico no exterior,
bem como o auge e consolidação da Revolução Industrial e o surgimento de novas
invenções. Isso permitiu que uma grande e educada classe média se
desenvolvesse. Três grandes fontes do pensamento moderno foram forjadas durante
a Era Vitoriana: Charles Darwin, que descobriu que “o homem se encontra
na origem da espécie”, Sigmund Freud que descobriu que “o homem não
detém o centro de sua individualidade” e Karl Marx, que descreveu do
ponto de vista materialista e histórico, que “os homens fazem a história,
mas sob condições determinadas”. Apesar dos seus impulsos de modernização
teórica e histórica na ciência, na Psicologia e na História no mergulho no
indivíduo e na dinâmica econômica, das sociedades globalizadas, esta Era foi
demarcada igualmente por rígidos costumes, um moralismo social e sexual atroz,
exegese de fundamentalismo religioso e exploração de sobre-trabalho burguês
capitalista. Alguns estudiosos poderiam
estender o início do período, na análise comparada à época da aprovação do Ato de
Reforma de 1832, como a marca de uma nova historia cultural. Melhor dizendo, se
a relacionarmos por eventos cíclicos, a era vitoriana foi precedida pela era da
regência ou período georgiano e antecedeu o período dito Eduardiano.
A segunda metade da Era vitoriana
coincidiu com a primeira parte da Belle Époque, ocorrido principalmente na
Europa continental. Ao final do século, as políticas do novo imperialismo
levaram ao aumento de conflitos coloniais e posteriormente, à Guerra
Anglo-Zanzibari e Guerra dos Bôeres na África. Internamente, a
política se tornou cada vez mais liberal, com uma série de mudanças graduais na
direção de reformas políticas e ao alargamento dos direitos do voto. A
sociedade civil da era vitoriana era pródiga em moralismos e disciplina, com
preconceitos rígidos e proibições severas. Os valores vitorianos podiam
classificar-se como puritanos, e na época a poupança, a dedicação ao trabalho,
a defesa da moral, os deveres da fé e o descanso dominical eram considerados
valores de grande importância. Os homens dominavam, tanto em espaços públicos,
como em privado e as mulheres deviam ser submissas e dedicar-se em exclusivo à
manutenção familiar do lar e à educação dos filhos. Existem exemplos como a
sociedade vitoriana levava a moralidade ao extremo, e dentre casos mais infames
foi a condenação e criminalização de Oscar Wilde (1854-1900) e de Lord Alfred
Douglas (187-1945), a dois anos de trabalhos forçados por sodomia, por
terem mantido um caso amoroso.
Douglas era um poeta e
tradutor inglês, famoso por ter sido amigo íntimo e amante. Após o julgamento,
foi condenado a dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por
prática denominada de “indecência grave”. Até esse ponto, os tartãs das Terras
Altas mantinham associações regionais em vez de serem identificados com
qualquer clã em particular. Hoje também existem tartãs para distritos,
condados, sociedades e corporações. Há também setts para estados e
províncias; escolas e universidades; Atividades esportivas; indivíduos; e
padrões genéricos comemorativos e simples que qualquer um pode usar. Os
arranjos são sempre organizados horizontalmente e verticalmente, nunca na
diagonal (exceto quando adaptados para as saias das mulheres). Eles são
especificados por suas contagens de linhas, a sequência de cores e suas
unidades de largura. Como exemplo, o tartã Wallace tem uma contagem de linhas
dada como “K / 4 R32 K32 Y / 4” (K é preto, R é vermelho e Y é amarelo).
Isso significa que 4 unidades de fio preto serão substituídas por 32 unidades
de vermelho, etc., tanto na urdidura quanto na trama. Normalmente, as unidades
são o número real de encadeamentos, mas, desde que as proporções sejam
mantidas, o padrão resultante será o mesmo. Esta contagem de encadeamentos
também inclui um ponto de giro indicado pela barra entre a cor e o número do
encadeamento. O tecelão deve inverter a sequência de tecelagem no ponto de giro
para criar uma imagem espelhada do padrão. Isso é chamado de tartã simétrico.
Alguns tartãs, como Buchanan, são assimétricos, o que significa que eles não
têm um ponto de pivô.
O tecelão tece toda a
sequência e começa no começo do próximo sett. Setts são ainda caracterizados
pelo seu tamanho, o número de polegadas (ou centímetros) em uma repetição
completa. O tamanho de uma determinada configuração depende não apenas do
número de linhas na repetição, mas também do peso da malha. Isso ocorre porque
quanto mais pesado o tecido, mais espessos serão os fios e, assim, o mesmo
número de fios de um tecido mais pesado ocupará mais espaço. As cores
fornecidas na contagem de threads são especificadas como na heráldica, embora
os padrões de tartan não sejam heráldicos. O tom exato que é usado é uma
questão de liberdade artística e vai variar de um moinho de tecido para outro,
bem como em um lote de corante para outro dentro do mesmo moinho. Os tartãs são
comercialmente tecidos em quatro variações de cores padrão que descrevem o tom
geral. Cores “antigas” ou “velhas” podem ser caracterizadas por uma aparência
ligeiramente desbotada destinada a assemelhar-se aos corantes vegetais que
foram usados uma vez, embora em alguns casos “Velha” simplesmente identifique
um tartã que estava em uso antes do atual. Verdes e azuis antigos são mais
claros, enquanto os vermelhos parecem laranjas. As cores “modernas” são
brilhantes e exibem métodos modernos de tingimento de anilina. As cores são
vermelho brilhante, verde-escuro e geralmente azul-marinho.
As cores “Weathered” ou
“Reproduction” simulam a aparência de um pano mais antigo, intemperizado pelos
elementos. Os verdes se tornam castanho-claros, os azuis tornam-se cinzentos e
os vermelhos são uma cor de vinho mais profunda. A última variação de cor é “Muted”,
que tende para tons terra. Os verdes são de oliva, azuis são de ardósia azul e
vermelho é uma cor de vinho ainda mais profunda. Isto significa que dos cerca
de 3500 tartãs registados disponíveis na base de dados da Scottish Tartans
Authority a partir de 2004 existem quatro possíveis variações de cores para
cada uma, resultando em cerca de 14.000 opções reconhecidas de tartã. Setts
podem ser registrados com o International Tartan Index (ITI) da
organização de caridade Scottish Tartans Authority (STA), que mantém uma
coleção de amostras de tecidos caracterizadas por nome e número de linhas,
gratuitamente e/ou registradas no Scottish Register of Tartans (SRT) do
órgão estatutário National Archives of Scotland (NAS), se o tartã
satisfizer os critérios SRT, para o Reino Unido £70 a partir de 2010. Embora
muitos tartãs sejam adicionados todos os anos, a maioria dos padrões
registrados disponíveis hoje foi criada no Século XIX em diante por tecelões
comerciais que trabalhavam com uma grande variedade de cores. A ascensão do
romantismo das terras altas e a crescente anglicização da cultura escocesa
pelos vitorianos da época levaram ao registro de tartãs com nomes de clãs.
Antes disso, a maioria
desses padrões estava mais conectada a regiões geográficas do que a qualquer
clã. Não há, portanto, nada simbólico sobre as cores, e nada sobre os
padrões é um reflexo do status do usuário. Embora os kilts prontos para
o uso possam ser obtidos em tamanhos padrão, um kilt personalizado é
adaptado às proporções individuais do usuário. Pelo menos três medidas, a
cintura, quadris e comprimento do kilt, são geralmente necessários. Às vezes a
elevação (distância acima da cintura) ou a queda (distância da cintura até a
parte mais larga dos quadris) também é necessária. Um kilt feito corretamente,
quando afivelado nos furos mais apertados das correias, não é tão solto que o
usuário pode facilmente torcer o kilt ao redor de seu corpo, nem tão apertado
que cause "fiação" do tecido onde ele está afivelado. Além disso, o
comprimento do kilt quando afivelado na cintura atinge um ponto não inferior ao
meio da rótula e não superior a cerca de uma polegada acima. Um kilt pode ser
plissado com pregas de box ou knife. Uma dobra de knife é uma
dobra simples, enquanto a dobra da box é mais volumosa, consistindo de duas
pregas de knife de volta para trás. As pregas de knife são as mais comuns nos
modernos kilts civis. Tradições regimentais variam. Os Highlanders de
Argyll e Sutherland usam pregas de box, enquanto o Black Watch faz seus
kilts do mesmo tartã com pregas de knife. Essas tradições também foram
passadas para regimentos afiliados na Commonwealth, e foram retidas em
batalhões sucessores para esses regimentos no regimento real amalgamado da
Escócia.
Plissados podem ser organizados em relação ao padrão de duas maneiras. Ao plissar a faixa, uma das listras verticais no tartã é selecionada e o tecido é então dobrado de modo que esta faixa percorra o centro de cada prega. O resultado é que, ao longo da seção pregueada do kilt (costas e laterais), o padrão parece diferente da frente não plissada, muitas vezes enfatizando as faixas horizontais em vez de criar equilíbrio entre horizontal e vertical. Costuma ser chamado de plissado militar porque é o estilo adotado por muitos regimentos militares. Também é amplamente utilizado por bandas de tubos. Ao plissar o tecido, o tecido é dobrado de modo que o padrão do tecido seja mantido e seja repetido ao redor do kilt. Isso é feito tomando-se um plinto inteiro em cada plissado, ou dois plenos completos, se forem pequenos. Isso faz com que as seções plissadas tenham o mesmo padrão da frente não plissada. Qualquer prega é caracterizada por profundidade e largura. A porção da dobra que se projeta sob a prega sobrejacente é o tamanho ou a largura. A largura do plissado é selecionada com base no tamanho do tecido e na quantidade de tecido a ser usada na construção do kilt, e geralmente varia de cerca de ½” a cerca de ¾”. A profundidade é a parte da dobra que é dobrada sob a dobra sobreposta. Depende unicamente do tamanho do tartan, mesmo quando se prega à faixa, já que a marca determina o espaçamento das listras. O número de pregas usadas na fabricação de kilts depende da quantidade de material a ser usada na construção da peça de vestuário e do tamanho da peça. As dobras ao longo da queda são levemente afuniladas, uma vez que a cintura do usuário é geralmente mais estreita que os quadris e as dobras geralmente são costurados à máquina ou à mão. Na dança das Terras Altas, é fácil ver o efeito da costura na ação de um kilt. Abraça o corpo do dançarino desde a cintura até a linha do corpo e, em resposta aos movimentos do dançarino, ele se rompe abruptamente.
A maneira como o kilt
se move em resposta aos passos de dança é uma parte importante da dança. Se as
pregas não fossem costuradas nessa parte do kilt, a ação ou o movimento seriam
bem diferentes. O kilt escocês é geralmente utilizado com meias de lã, com
golas e flashes, e um sporran (gaélico para bolsa), que fica pendurado ao redor
da cintura por uma corrente. ou pulseira de couro. Isso pode ser couro liso ou
gravado, ou decorado com pele de foca, pele ou chapeamento de metal polido. Outros
acessórios comuns, dependendo da formalidade do contexto, incluem: um cinto
(geralmente com fivela em relevo); um casaco (de vários desenhos tradicionais);
um alfinete de kilt; um dubh sgiano (gaélico: “faca preta”: uma pequena
faca embainhada usada no topo da malha). Ghillie brogues. Ocasionalmente
usado com uma camisa Ghillie, embora isso seja mais utilizado casualmente e,
sendo uma invenção relativamente moderna, no tempo e espaço, não deve
ser confundido com roupas históricas reais. A maioria das pessoas
escocesas considera os kilts como roupas formais ou roupas nacionais. Embora
ainda existam algumas pessoas que usam um kilt diariamente, ele geralmente é de
propriedade ou escolhido para ser usado em casamentos ou outras ocasiões
formais e pode ser usado por qualquer pessoa, independentemente da
nacionalidade ou descendência.
Para o uso semiformal,
os kilts costumam ser usados com um Prince Charlie ou uma jaqueta Argyll. Os
fornecedores comerciais já produziram jaquetas equivalentes com estilo temático
irlandês e galês. Formalmente é gravata branca e requer um Doublet de
regulamento ou superior. Kilts também são usados para desfiles por grupos
como a Boys` Brigade e Escoteiros, e em muitos lugares os kilts são
vistos em vigor nos campeonatos de pipe band e no Highland games, além
de serem usados em danças escocesas e ceilidhs. Certos
regimentos/unidades do Exército Britânico e exércitos de outras nações da Commonwealth,
incluindo Austrália, Canadá, Nova Zelândia e África do Sul, com uma linhagem
escocesa ou herança ainda continuam a usar kilts como parte do uniforme vestido
ou dever, embora não tenham sido usados em combate desde 1940. Uniformes em que
são usados kilts incluem vestido cerimonial, vestido de serviço e vestido de
quartel. Kilts são considerados apropriados para desfiles cerimoniais, deveres
de escritório, desfiles menos formais, sair de casa, jantares informais e aulas
ou aulas práticas. Kilts cerimoniais também foram desenvolvidos para o Corpo de
Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, e para as bandas de tambores e flautas da
Academia Militar, da Academia Naval e da Universidade de Norwich - o Colégio
Militar de Vermont.
Não é incomum ver kilts usados nos pubs irlandeses nos Estados Unidos, e está se tornando um pouco menos raro vê-los no local de trabalho. O uso ocasional de kilts vestidos com botas de renda ou mocassins, e com camisetas ou camisas de golfe, está se tornando cada vez mais familiar em Highland Games. O kilt é associado a um senso de orgulho nacional escocês e, muitas vezes, é visto sendo usado, juntamente com uma camiseta de futebol, quando os membros do Tartan Army (torcedores do time da Escócia) estão assistindo a uma partida de futebol ou Rugby. A pequena faca Sgian Dubh às vezes é substituída por uma alternativa de madeira ou plástico ou omitida por questões de segurança: por exemplo, eles normalmente não podem ser usados ou transportados para uma aeronave comercial. Embora as origens do kilt irlandês continuem a ser objeto de debate, as evidências atuais sugerem que os kilts se originaram nas Terras Altas e Ilhas da Escócia e foram adotados pelos nacionalistas irlandeses na virada do século XX como um símbolo da identidade gaélica. Uma peça de vestuário que muitas vezes foi confundida com kilts nas primeiras representações é a irlandesa lein-croich, uma longa túnica tradicionalmente feita de tecido de cor sólida, com preto, açafrão e verde.
Kilts de cor sólida foram adotados pela primeira vez para uso por nacionalistas irlandeses e depois por regimentos irlandeses servindo no exército britânico, mas eles podem ser vistos em fotos do final do século XIX e início do século XX na Irlanda, especialmente em reuniões políticas e musicais, como o kilt foi readotado como um símbolo do nacionalismo gaélico na Irlanda durante este período. No mundo da dança irlandesa, os kilts dos meninos foram largamente abandonados, especialmente desde que a popularidade mundial de Riverdance e o renascimento e interesse pela dança irlandesa em geral. Embora não seja um componente tradicional analogamente do vestuário nacional fora da Escócia, os kilts tornaram-se recentemente populares nas outras nações celtas como um sinal da identidade celta. Kilts e tartãs podem, portanto, ser vistos também na Irlanda, no País de Gales, na Cornualha, na Ilha de Man, na Bretanha e na Galícia. Há atualmente dezesseis tartãs bretões registrados oficialmente nos registros de tartãs escoceses. Os tartãs bretões são respectivamente: Brittany National (nacional bretão), Brittany Walking, Lead it Of, e nove tartãs do condado (Kerne, Leon, Tregor, Gwened, Dol, St. Malo, Rennes, Nantes, St. Brieuc). Outros foram recentemente criados para áreas menores na Bretanha (Ushent, Bro Vigoudenn and Menez Du “Black Mountain”).
Existem dois tartãs galegos registados nos registos escoceses: Galicia e “Gallaecia- Galician National”. Há evidências do uso de tartã e kilt na Galícia até o século XVIII. Kilts contemporâneos (também conhecidos como kilts modernos e, especialmente nos Estados Unidos da América, kilts de utilidade) apareceram no mercado de vestuário na Escócia, os EUA e o Canadá em uma variedade de tecidos, incluindo couro, jeans, veludo cotelê e algodão. Eles podem ser projetados para roupas formais ou casuais, para uso em esportes ou recreação ao ar livre, ou como roupas de trabalho de colarinho branco ou azul. Alguns são modelados de perto nos tradicionais ternos escoceses, mas outros são similares apenas em roupas masculinas que parecem saias na altura do joelho. Eles podem ter pregas de box, pregas de knife simétricas e ser fixados por pregos ou velcro em vez de fivelas. Muitos são projetados para serem usados sem um sporran e podem ter bolsos ou cintos de ferramentas conectados. No Canadá, os kilts são muito comuns como parte do vestuário feminino em escolas com uma política uniforme. Além disso, devido à rica herança escocesa do país, eles podem ser frequentemente vistos em casamentos e eventos formais. Na Nova Escócia, eles podem até ser usados como traje diário comum. Em 2008, um porta-voz do USPS, Dean Peterson, fez uma proposta formal de que o kilt fosse aprovado como um uniforme postal aceitável - por razões de conforto. A proposta foi derrotada na convenção da National Association of Letter Carriers (NALC) de 220.000 membros em 2008 por uma grande margem. Tactical produziu um Kilt Tactical Duty como resultado da piada corporativa de 1º de abril. Os kilts híbridos contemporâneos são feitos de tecido tartã. Atletas do sexo feminino, especialmente jogadoras de lacrosse, costumam usar kilts durante os jogos.
Elas normalmente usam shorts de compressão ou spandex por baixo. Kilts são populares entre muitos níveis de lacrosse, de ligas jovens a ligas universitárias, embora algumas equipes estejam substituindo kilts pela saia atlética mais aerodinâmica. Os kilts masculinos costumam ser vistos na mídia contemporânea popular. Por exemplo, na série Syfy Tin Man, personagens coadjuvantes são demonstrados vestindo kilts como roupas de trabalho camponesas. As tendências da moda cotidiana, especialmente na subcultura gótica, levaram à popularização do kilt como uma alternativa ao vestuário masculino mais convencional. Alguns destes são feitos de PVC ou misturas de algodão-poliéster.Metodologicamente a invenção da tradição é um conceito popularizado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger que propõe que muitas tradições que parecem ou supostamente são antigas foram, na verdade, criadas recentemente, muitas vezes em resposta a uma nova situação ou a um momento de crise. Elas têm uma definição simbólica e tentam obter alguma veracidade de que vêm historicamente do passado. Podem ser usadas para compreender os usos ideológicos do passado e as utilizações políticas da memória e da comemoração. Para Hobsbawm, a identidade tanto cultural ou nacional – é historicamente construída e, logo, contingente. Este fenômeno, sociologicamente falando, embora válido a vários campos sociais, é evidente e comum às nações e aos nacionalismos.
Nação é um tipo de organização em que uma identidade coletiva, denominada identidade nacional, emerge a partir da combinação de características compartilhadas por uma determinada população, como língua, história, etnia, cultura, território ou religião. Algumas nações são construídas em torno da etnia enquanto outras são fundamentadas em constituições políticas. Uma nação é, em geral, mais abertamente política do que um grupo étnico. Benedict Anderson define uma nação como “uma comunidade política imaginada (…) imaginada porque mesmo os membros da menor das nações nunca conhecerão a maioria de seus companheiros, nunca os encontrarão ou sequer ouvirão falar deles, mas, na mente de cada um, vive a imagem da comunhão entre eles”. Anthony D. Smith define as nações como comunidades cultural-políticas que se tornaram conscientes de sua autonomia, unidade e interesses particulares. Assim, nação pode ser sinônimo de Estado ou país. De fato, segundo Thomas Hylland Eriksen, o que distingue as nações de outras formas de identidade coletiva, como a etnicidade, é justamente essa relação com o Estado. O consenso entre os estudiosos é que as nações são construções sociais, historicamente determinadas e organizacionalmente flexíveis, um fenômeno típico da modernidade. Ao longo do tempo, as pessoas sempre tiveram apego a seus grupos de parentesco e tradições, às autoridades territoriais e à sua terra natal, mas o nacionalismo – a crença de que Estado e nação devem constituir uma só unidade (Estado-nação), não foi uma ideologia proeminente até o final do século XVIII. A diferença entre uma tradição nova e uma tradição inventada é que esta última diz ter origens antigas. Nem sempre é feito de forma óbvia, podem ser invenções de pequena escala, adaptações de antigas tradições para novos propósitos ou sequências de antigas tradições. Para alguns autores, este fenômeno é particularmente claro no caso das nações e dos nacionalismos.
Ipso facto, a nação é uma invenção moderna e a maioria dos símbolos, ritos e tradições que hoje tendem a ser considerados muito antigos, foram na verdade criados entre 1870 e 1914, ao mesmo tempo em que as nações foram criadas. Alguns exemplos são as artes marciais japonesas, o escotismo ou as tradições da maioria das principais religiões. Outro tipo de exemplo é o tradicional vestido de noiva branco, que virou moda desde que a rainha Vitória se casou com essa cor. Todas as línguas nacionais padrão, ensinadas nas escolas como modelo de língua escrita e falada, são em grande parte produto de invenção, deixando de lado uma pequena elite que as falava. Hobsbawm dá como exemplo a língua flamenga ensinada nas escolas, o que não é o que as avós e mães de Flandres ensinam aos seus filhos. A tradicional saia escocesa ou kilt foi criada no século XVIII por um empresário siderúrgico inglês, com seus padrões tradicionais típicos de cada clã, tradição ainda mais recente. A gaita escocesa também é um instrumento de incorporação moderna e surge após a união da Escócia com a Inglaterra. Os trajes regionais, populares ou nacionais que conhecemos na Europa e que parecem muito antigos são um produto da invenção moderna.
Assim, por exemplo, o traje dos flamengos não foi inventado até finais do século XIX e não se tornaria popular até 1929, quando foi comemorada a Exposição Universal de Barcelona e a Ibero-Americana de Sevilha. O hino nacional mais antigo do mundo não é muito antigo, é La Marseillaise, escrito em 1792. Outro dos hinos mais antigos do mundo é o argentino, que data de 1812-1813. Algumas composições que temos hoje como hinos nacionais eram originalmente canções populares, militares ou outras mais antigas, mas só receberiam o status de hino nacional em tempos mais recentes. As bandeiras nacionais foram todas criadas nos últimos tempos, como adaptações de estandartes militares ou de insígnias marítimas de um reino ou de outro ou diretamente a partir de abordagens originais. No passado, as bandeiras tinham, em última análise, a única função de distinguir um lado do outro no campo de batalha, pelo que não tinham de forma alguma um carácter nacional, nem eram bandeiras no sentido atualmente da palavra. É com a invenção da nação na Idade Contemporânea, quando diferentes Estados começam a reinterpretar e usar diferentes bandeiras de um reino ou de outro como bandeiras nacionais. As primeiras utilizações de bandeiras fora dos campos de batalha ocorreram em navios europeus, é o caso da bandeira espanhola ou do Reino Unido, originais insígnias marítimas.
Também foram nacionalizados símbolos dinásticos, como a bandeira da Catalunha, que originalmente representava o rei de Aragão e conde de Barcelona e em nenhum caso um território, significado que seria dado posteriormente. Outra forma de criar bandeiras é a partir de criações originais, como é o caso da Ikurriña basca, criada no final do século XIX e inspirada na bandeira do Reino Unido, na francesa, inspirada numa insígnia militar holandesa, que por sua vez constituiria também sua bandeira ou a da maioria das autonomias espanholas, que têm origem nos séculos XIX e XX ou originaram-se de modificações de modelos anteriores. Todos os feriados nacionais e regionais, e muitas vezes a história que os acompanha, são uma invenção moderna. Por exemplo, todo dia 11 de setembro é comemorado o Dia da Catalunha. Um dos seus atos consiste na ida de uma delegação ao monumento a Rafael Casanova (1660-1743) em Barcelona, onde são colocadas flores desde 1894. Como uma espécie de iniciador da luta pela Independência da Catalunha e líder da resistência de Barcelona em 1714 contra as tropas espanholas, que acabariam por suprimir os seus direitos tradicionais e liberdades. No entanto, o que é considerado na história social como uma guerra entre a Catalunha e a Espanha, foi na realidade uma guerra entre a casa dos Habsburgos da Áustria e da França, cada um deles procurando colocar um candidato ao trono na corte espanhola. Além disso, Rafael Casanova acreditava estar lutando “pela liberdade de toda a Espanha”.
Diferentes estilos arquitetônicos como o neogótico, que se popularizou na Europa no século XIX, mas também outros como o neoromânico ou o neomudéjar, são tradições inventadas, popularizadas como resultado do nascimento das jovens nações em sua progênie e do nacionalismo político. As invenções das tradições respondem a alguma função social, principalmente a de estabelecer ou simbolizar a coesão social ou a propriedade a um grupo real ou fictício. Pode também querer dar legitimidade e fundamento às hierarquias sociais e às relações de autoridade, como o patriarcalismo ou o preconceito social, e em particular também a certas instituições, da nação ou do Estado. Finalmente, outro grupo de invenções são aquelas destinadas a incutir, socializar e naturalizar crenças, sistemas de valores e códigos de conduta convencionais. Há três perspectivas notáveis sobre como as nações se desenvolveram. O primordialismo (ou perenialismo), que reflete concepções populares de nacionalismo, mas perdeu força entre os acadêmicos, propõe que sempre existiram nações e que o nacionalismo é um fenômeno natural. O etnossimbolismo explica o nacionalismo como um fenômeno dinâmico e em constante evolução, destacando a importância social de símbolos, mitos, ritos e tradições no desenvolvimento das nações e do nacionalismo.
A teoria da modernização, que substituiu o primordialismo como principal explicação do nacionalismo, adota uma abordagem construtivista e propõe que o nacionalismo surgiu devido a processos de modernização, como a industrialização, a urbanização e a educação em massa, que tornaram possível a consciência nacional. Os defensores da teoria da modernização descrevem as nações como “comunidades imaginadas”, um termo cunhado por Benedict Anderson. Uma nação é uma comunidade imaginada no sentido de que existem condições materiais para imaginar conexões amplas e compartilhadas, e que ela é objetivamente impessoal, mesmo que cada indivíduo na nação se sinta subjetivamente parte de uma unidade encarnada com os outros. Na maioria das vezes, os membros de uma nação permanecem estranhos entre si e provavelmente nunca se encontrarão. O nacionalismo é, portanto, visto como uma “tradição inventada”, na qual um sentimento compartilhado fornece uma forma de identidade coletiva e une os indivíduos em solidariedade política. A história fundacional de uma nação pode ser construída em torno de uma combinação de atributos étnicos, valores e princípios, e pode estar intimamente ligada a narrativas de pertencimento. Acadêmicos dos séculos XIX e início do XX apresentaram críticas construtivistas às teorias primordialistas sobre nações. Uma palestra influente de Ernest Renan (1823-1892), intitulada: “O que é uma nação?”, argumenta que uma nação é “um plebiscito diário”, e que as nações se baseiam no que os povos esquecem e quanto no que lembram.
Carl Darling Buck (1866-1955) argumentou, em um estudo de 1916, que “a nacionalidade é essencialmente subjetiva, um sentimento ativo de unidade, dentro de um grupo relativamente extenso, um sentimento baseado em fatores reais, porém diversos tais como políticos, geográficos, físicos e sociais, dentre os quais qualquer um ou todos podem estar presentes neste ou naquele caso, mas nenhum dos quais precisa estar presente em todos os casos”. No final do século XX, muitos cientistas sociais argumentaram que havia dois tipos de nação: a nação cívica, da qual a sociedade republicana francesa era o principal exemplo, e a nação étnica, exemplificada pelos povos germânicos. A tradição alemã foi concebida como tendo origem nos filósofos do início do século XIX, como Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), contemporâneo de Friedrich Hegel (1770-1831) e referia-se a um povo que compartilha uma língua, religião, cultura, história e origens étnicas comuns, que os diferenciam de outros povos. Por outro lado, a nação cívica foi associada à Revolução Francesa e às ideias oriundas dos filósofos franceses do século XVIII. Era entendida como centrada na vontade de “viver juntos”, produzindo uma nação que resulta de um ato de afirmação, tal qual postulava Ernest Renan (1823-1892). Muitas vezes, o nacionalismo, como sentimento comum de uma comunidade entra em conflito com os Estados formados institucionalmente, o que leva a lutas políticas, guerrilhas, e terrorismo de Estado consoante o ponto de vista de vários países, não obstante a dura repressão do governo indonésio que consideravam a guerrilha timorense como terrorismo, o que em Portugal e agora que Timor-Leste se definiu como Estado - não era de forma alguma aceito, tendo em conta o apoio institucional dado a este movimento social de libertação nacional, em ersatz várias comunidades, sendo algumas delas os curdos e os bascos.
Uma manifestação diferente do nacionalismo é o irredentismo, que é a aspiração de um povo a completar a própria unidade territorial nacional, anexando terras sujeitas ao domínio estrangeiro (“terras irredentas”). Existe um debate contínuo ad infinitum sobre o futuro das nações, isto é, se esse modelo de divisão étnico-político continuará existindo tal como é hoje e se há alternativas viáveis ou em desenvolvimento. A teoria do choque de civilizações contrasta diretamente com teorias cosmopolitas, que defendem um mundo cada vez mais conectado e que já não necessitaria mais dos Estados-nação. Segundo o cientista político Samuel P. Huntington, as identidades culturais e religiosas das pessoas seriam a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. Assim, sucede-se a pulverização dos conflitos armados: não há mais guerras mundiais, mas guerras civis e de motivação político-religiosa em diversos países do mundo. A teoria foi formulada em uma palestra de 1992 no American Enterprise Institute, e depois desenvolvida em um artigo publicado na revista Foreign Affairs (1993), intitulado “O Choque de Civilizações?”, como resposta ao livro de Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, de 1992. Huntington mais tarde expandiu sua tese no livro O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, publicado em 1996. De acordo com Fukuyama, a democracia liberal seria o “ponto final da evolução ideológica da humanidade”, sendo assim, essa “forma final de governo humano” constituiria “o fim da história”. Esse último conceito, elaborado sobre termos hegelianos, não se refere ao fim dos grandes acontecimentos como a queda do Muro de Berlim e o Massacre da Praça da Paz Celestial, mas sim com o entendimento de história como esse processo único e evolutivo considerando todos os povos e todos os tempos.
O autor, comemora o enfraquecimento das ditaduras ao redor do mundo, mas confere esse êxito e tantos outros da humanidade ao legado de uma revolução liberal no pensamento econômico. A crítica à teoria do filósofo nipo-estadunidense reside justamente no fato de atribuir o maior grau de evolução humana à democracia liberal. O autor indica que esse modelo econômico conectaria os mercados globais, algo que não se concretizou tendo em vista a competição entre as grandes potências capitalistas e os conflitos bélicos ainda presentes na atualidade. Huntington acreditava que, embora a era das ideologias tivesse chegado ao fim, o mundo havia apenas retornado a um estado “normal” de coisas, caracterizado por conflitos culturais. Em sua tese, ele argumentava que o eixo principal dos conflitos futuros estaria nas linhas culturais e religiosas. O pós-nacionalismo é o processo ou tendência pela qual os Estados-nação e as identidades nacionais perdem importância diante de entidades supranacionais e globais. Vários fatores contribuem para essa tendência identificada por Huntington, incluindo: a globalização econômica, o aumento da importância de corporações multinacionais, a internacionalização dos mercados financeiros, a transferência de poder sociopolítico de autoridades nacionais para entidades supranacionais como as corporações multinacionais, a Organização das Nações Unidas e a União Europeia, e o surgimento de novas tecnologias da informação e da cultura, como a Internet. No entanto, o apego à cidadania e às identidades nacionais frequentemente continua sendo significativo. Jan Zielonka, da Universidade de Oxford, afirma que “a futura estrutura e exercício do poder político se parecerão mais com o modelo medieval do que com o modelo westfaliano”, sendo este último caracterizado pela “concentração de poder, soberania e identidade bem definida”, enquanto o neomedievalismo implicaria “autoridades sobrepostas, soberania dividida, múltiplas identidades e instituições de governança, e fronteiras difusas”.
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