segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Alma Ideal – Valor, Cuidados Paliativos & Especulação Sobre a Morte.

  A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Fernando Pessoa                                

         

            Um juízo de valor representa um juízo sobre a correção ou incorreção de algo, ou da utilidade de uso de algo, baseado num ponto de vista pessoal ou subjetivo. Como generalização, um juízo de valor pode referir-se a um julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema de valores determinado. Um significado conexo de juízo de valor é o juízo de um recurso de avaliação baseado nas informações limitadas disponíveis, uma avaliação prática efetuada porque uma decisão deve ser tomada independentemente de estar em função da utilidade, da estética, da moral, ou de qualquer outro critério valorativo. A expressão juízo de valor pode ser usada num sentido positivo; significando que um julgamento deve ser feito levando em conta um sistema de valores, ou, num sentido depreciativo, significando um julgamento realizado de um ponto de vista pessoal, em vez da proposição de um pensamento racional, objetivo. Neste sentido positivo, a recomendação socialmente ao se fazer um juízo de valor, é que se considere cuidadosamente para evitar arbitrariedades e impetuosidade, e buscar consonância com as convicções mais profundas que se tenha sobre a realidade. Em seu sentido depreciativo, a expressão juízo de valor implica uma conclusão que é isolada, parcial e não objetiva — contrastando com julgamentos baseados em deliberação, equilíbrio e racionalidade. Um juízo de valor também pode referir-se a uma tentativa de julgamento baseada numa avaliação estudada das informações disponíveis, tomadas como sendo incompletas e em evolução; por exemplo, um juízo de valor sobre lançar ou não um ataque militar ou como proceder numa emergência médica. Neste caso, a qualidade do julgamento sofre porque a informação disponível é incompleta como resultado da urgência, em vez de ser resultante de limitações culturais ou pessoais. 

Mais comumente, a expressão juízo de valor refere-se a uma opinião individual. De fato, a opinião de um indivíduo é formada até certo ponto por seu sistema de crenças sociais e a cultura específica à qual ele pertença. Uma extensão natural da expressão juízo de valor é incluir declarações que parecem ser de “mão única” em um determinado sistema de valores, mas que podem ser vistas de forma diferente em outro. Conceitualmente, esta extensão da definição relaciona-se tanto ao axioma antropológico de “relativismo cultural”, isto é, que o sentido cultural deriva do contexto quanto à expressão “relativismo moral”, isto é, que as proposições de moral e ética não são verdades universais, mas brotam do contexto cultural. No sentido pejorativo, um juízo de valor formado dentro de um sistema social de valores específico pode ser “paroquial” e estar sujeito a questionamentos junto a audiências mais amplas. Entretanto, um julgamento pessoal é uma expressão descrevendo uma decisão tomada entre alternativas que não são claramente certas ou erradas, e que assim deve ser tomada numa base pessoal. Valor neutro é um adjetivo conexo que sugere independência de um sistema de valores. Por exemplo, a classificação de um objeto depende do contexto: ele é uma ferramenta ou uma arma, um artefato ou um antecedente? O objeto em si pode ser considerado aparentemente de valor neutro, não sendo nem bom nem mau, nem útil nem inútil, nem significativo nem trivial, até que seja colocado em algum contexto inscrito nos níveis de análise social, tanto quanto econômico ou político. 

Para uma discussão sobre o valor “neutro” da tecnologia, estranhamente, um item também pode ter um valor que pode ser neutro na medida em que sua utilidade se uso social, ou importância são evidentes, independentemente do contexto social; por exemplo, oxigênio. Alguns autores argumentam hic et nunc que a objetividade verdadeira do conhecimento é impossível, e que mesmo as mais rigorosas análises racionais se fundamentam no conjunto dos valores aceitos no curso da análise. Consequentemente, todas as conclusões são necessariamente juízos de valor e logo, talvez suspeitas. De fato, por todas as conclusões numa única categoria nada faz para distinguir entre elas e é, portanto, um descritor inútil exceto como um dispositivo retórico pensado para desacreditar uma posição através dum apelo a autoridade. Como exemplo de um ponto de vista mais sutil, “verdades” científicas são consideradas objetivas, mas são mantidas empiricamente, com a compreensão de que evidências mais cuidadosas e/ou experiências mais amplas possam mudar os fatos. Além disso, uma opinião científica, no sentido de uma conclusão baseada num sistema de valores, é um juízo de valor baseado em avaliação rigorosa e amplo consenso. Com este exemplo em mente, caracterizar uma opinião como um juízo de valor é vago sem a descrição do contexto que a cerca. Todavia, como notado no primeiro segmento deste artigo, no uso comum, a expressão juízo de valor possui um significado mais simples, com o contexto simplesmente implicado, não especificado. No entanto, sob a liderança de Benjamin Disraeli moderniza-se, adotando os princípios democráticos e passando a ter como escopo político a defesa do Império como grande bandeira, contra a desconfiança dos liberais perante a expansão colonial.                                     

Disraeli, que concedeu o direito de voto aos operários urbanos, tentou dar um carácter social ao conservadorismo e torná-lo numa aliança entre a aristocracia e as chamadas classes populares. Nas primeiras décadas do século XX, os conservadores têm como referência esses princípios - defesa da unidade do Império, oposição à autonomia irlandesa que levou muitos liberais unionistas, como Joseph Chamberlain, a se juntarem ao Partido Conservador, uma política comercial protecionista favorecendo o comércio com as colônias, etc., a que se junta uma posição antissocialista, à medida que o Partido Trabalhista e o movimento sindical vão ganhando força no âmbito da política global. Para os conservadores, as melhores instituições sociais e políticas não são aquelas que são inventadas pela razão humana, como fora defendido historicamente pelo chamado racionalismo político, mas sim as que resultam de um lento processo de crescimento e evolução ao longo do tempo, empiricamente como a não escrita constituição inglesa face às Constituições promulgadas pelos revolucionários franceses. Não acreditando na ideia de “bondade natural do Homem”, os conservadores consideram que são os constrangimentos introduzidos pelos hábitos e tradições que permitem o funcionamento das sociedades, pelo que qualquer regime duradouro e estável só poderá funcionar se assente nas tradições sociais. 

Assim, para os conservadores não faz sentido elaborar projetos universais do ponto de vista de uma sociedade ideal - não só tal sociedade será inatingível devido ao que acreditem ser a imperfeição intrínseca da natureza humana. Mas, devido a diferentes povos terem diferentes histórias, sociais, políticas e de costumes referendando suas tradições, o modelo social mais adequado a um povo não será o mais apropriado a outro - criticando de seu ponto de vista político conservador os revolucionários franceses. Após sua morte, em 1990, surge no cenário acadêmico norte-americano e britânico uma série de importantes trabalhos acadêmicos buscando resgatar o pensamento de Michael Oakeshott. Um fato considerável é a organização e publicação de inúmeros manuscritos, ensaios e anotações de aulas proferidas na London School of Economics and Political Science, ou simplesmente London School of Economics - LSE. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objeto a análise de uma dessas obras póstumas, o livro: “The Politics of Faith and The Politics of Scepticism”. Elaborado após a 2ª guerra mundial e completada provavelmente em 1952, a obra delineia uma diferenciação entre dois modos ou estilos da atividade de governar: a política de fé e a política de ceticismo.  Neste sentido, apolítica não conhece nada acerca de necessidades genuínas. Não há nada no mundo da política que não provenha da atividade humana, embora haja muita coisa que não seja consequência do desígnio humano. Por isso, ao estudar as atividades políticas do governo, Oakeshott considera que as ações sociais concretizadas se tornam distintas em análise comparada, tendo em vista que não é porque a intenção é diferente, mas porque elas pertencem a outro contexto no qual tem-se estas atividades.

No pensamento deste autor existem sempre dois ingredientes fundamentais no conhecimento que são o informar e o julgar, portanto, o legado que os professores ensinam é sempre composto por uma síntese destes dois fatores. Informação e julgamento são dois modos de comunicação e não constituem partes separadas pertencentes a processos diferentes. De acordo com Oakeshott, estes dois ingredientes do processo de compreensão e apropriação do conhecimento “emergem da dialética ensinar e aprender”. Há faculdades que dependem da informação e faculdades que dependem do julgamento. A informação é impessoal, baseada em fatos e pode ser encontrada em manuais e dicionários e enciclopédias; constitui-se como “peça informativa” ou como “conjunto de fatos”. Poderíamos resumir dizendo que a informação é o “o quê” e o julgamento ou juízo é o “como ou o porquê”. A principal diferença entre o julgamento e a informação adquirida reside neste fato: “o juízo é uma informação de outro tipo e nunca pode ser itemizada”. Assim, todo o ensino e, consequentemente, toda a aprendizagem têm estas duas componentes essenciais, a componente da informação designada como instrução e a componente do juízo designada como partilha. Na busca por compreender esse contexto político é que surge o livro: The Politics of Faith and the Politics of Scepticism (1996). O argumento principal da obra é que os governos europeus, desde o século XV, convivem com diferentes modos ou estilos de política, os quais ele denominou (I) “políticas de fé” (“politics of Faith”) e (II) “políticas de ceticismo” (“politics of scepticism”). Tais formas são expressões que resultam de dois polos extremos nos quais é empreendida a atividade de governar. Enquanto extremos, são construções ideais. Dificilmente encontradas em sua forma pura, aproximando-se da idealidade típica do constructo weberiano, constituem-se mais em tendências do que em “teorias” ou doutrinas propriamente ditas.          

A política de fé é o modo de representação de um estilo de governar caracterizado pela incessante busca pela perfeição da humanidade. Conforme Oakeshott há um grande otimismo cósmico que, derivado não da observação, mas da inferência da perfeição do seu criador, atribui uma indiscutível perfeição do universo. Essa ideia de “perfeição” (ou “salvação”) consiste na busca de uma visão compreensiva de bem seja religiosa, econômica, filosófica, moral, etc. a ser alcançada pela vivência no mundo social e político. Porém não como uma tipologia do caráter humano, mas no sentido que empregou historicamente o florentino Maquiavel, como uma condição mundana das circunstâncias humanas. De modo mais simples, “perfeição” é mudança para melhor, pode significar tanto o caminho específico a ser aprimorado quanto a direção geral pela qual deve a atividade humana deve ser guiada, assim pouco importando o caminho. Foi porque Maquiavel percebeu que qualquer conselho positivo para lidar com problemas políticos era suscetível de ser contrariado por uma alusão pessimista à fortuna, que ele resolveu dedicar a esse tema o penúltimo capítulo de “Il Principe”, livro escrito por Nicolau Maquiavel em 10 de dezembro de 1513, cuja 1ª edição foi publicada postumamente, em 1532. Ele próprio aceitou que a “Fortuna” era o árbitro de metade das ações dos homens, mas sublinhou que isso não deveria levar ao derrotismo. Em duas memoráveis imagens, comparou a fortuna a um rio cujas águas caudalosas podem ser inofensivamente desviadas por diques e canais de drenagem precavidos, e a uma mulher que, sendo mulher, pode ser domada pelo ardor e a violência: “sou de parecer de que é melhor ser ousado do que prudente, pois a fortuna (oportunidade) é mulher e, para conservá-la submissa, é necessário (…) contrariá-la. Vê-se, que prefere, não raramente, deixar-se vender pelos ousados do que pelos que agem friamente. Por isso é sempre amiga dos jovens, visto terem eles menos respeito e mais ferocidade e subjugarem-na com mais audácia”.

O agente responsável para assegurar a perfeição é o Estado.  Se utópico ou se visa a aprimorar a sociedade em apenas em um determinado rumo, tal estilo sustenta que somente o poder humano pode atingi-lo; destarte, não apenas busca, mas supervaloriza este poder, deixando a cargo do governo uma competência quase ilimitada para conduzir a sociedade. Consequentemente, o estilo requer uma dupla confiança: a convicção de que o poder necessário é disponível ou pode ser gerado e uma convicção que, mesmo que não se saiba exatamente o que constitui a perfeição, ao menos se sabe o caminho a ser percorrido. Parece claro que o papel do Estado, não é neutro e assume uma visão substantiva, em vista da reprodução da esfera política da atividade humana. Assim, torna-se o instrumento para alcançar a verdade, concebida a partir de uma visão particular do conservador, exige dos cidadãos não apenas a obediência ou a submissão, mas principalmente entusiasmo e engajamento para a concretização desta finalidade. - “Os inimigos do regime serão identificados não como meros dissidentes a serem inibidos, mas como descrentes a serem convertidos. Mera obediência não é suficiente; deve ser acompanhada pelo fervor. Na verdade, se o sujeito não é entusiasta com o governo, não há nenhum objeto legítimo de devoção; se ele é devotado à “perfeição”, ele deve ser devotado ao governo”. Daí a analogia do conceito descrito na obra: “On Human Conduct”, a política de fé encara ideologicamente a sociedade contemporânea como uma associação empreendedora (“enterprise association”). Neste modo de associação, os agentes estão interligados a partir de um propósito comum substantivo, reconhecido como uma condição exequível pelos homens.

Esse engajamento tem por escopo direcionar a conduta humana a partir de ações que estejam meticulosamente relacionadas para administrar e maximizar o propósito desejado. As eventuais regras emitidas são meramente instrumentais e, por si só, não definem e nem identificam a associação. Destaca algumas conclusões para a política de fé. Em primeiro lugar, ela não é uma invenção que surgiu nos últimos séculos contra um período de negligência ou indiferença governamental. Tampouco foi um fruto da revolução industrial ou da democracia liberal. Deve ser compreendida num contexto histórico de legitimação e idealização do governo como operador racional da atividade humana. Em segundo lugar, não é identificada com nenhum movimento, partido ou causa no mundo moderno. Há representantes desse estilo de política em todo campo, todo partido, cada momento e entre advogados de toda causa. Em terceiro lugar, a política de fé não é, e nunca foi, o único estilo de política que surgiu na história moderna. Essa impressão é causada especialmente pelo sucesso deste estilo especialmente a partir do século XVII. Finalmente, a política de fé é subentendida como política da imortalidade. Dá atenção excessiva ao futuro e se esquece do passado. Ao conduzir a conduta humana para um determinado fim, transmite a ideia de que a própria história possui um sentido. Em seu livro de memórias: “Neoconservatism: The Autobiography of an Idea”, Irving Kristol afirma que decidiu não publicar o ensaio: “On Being Conservative” na revista The Public Interest justamente pelo caráter irremediavelmente secular do texto, o que estaria em desacordo com o elemento religioso presente na sociedade norte-americana.

Enfim, no seu ensaio: “Rationalism in Politics” (1991) o autor volta ao assunto dizendo-nos que há dois tipos de conhecimento: o conhecimento técnico e o conhecimento prático. O conhecimento técnico pode ser formulado através de regras e aprendido nos livros (informação). O conhecimento prático só pode ser aprendido com um mestre porque não pode ser formulado em regras e constitui-se, muitas vezes, como matéria de opinião (julgamento). O conhecimento prático só pode ser adquirido através da mestria porque é impreciso. Um dos problemas centrais da modernidade consiste no fato de “haver uma soberania da razão, uma soberania da técnica, porque o racionalismo e os racionalistas aspiram à certeza, apesar de esta aspiração não ser mais do que uma ilusão”. Tendem a rejeitar a imprecisão e tudo deve passar-se como está descrito nos livros. A mestria passa a ser olhada com desconfiança devido à sua imprecisão. O racionalista argumenta Oakeshott, “always stands”, quer dizer, é sempre a favor de alguma coisa ou contra alguma coisa. As circunstâncias sociais do mundo moderno fazem do racionalista um ser eminentemente contencioso: - “Ele é o inimigo da autoridade, do preconceito, do simplesmente tradicional, costumeiro ou habitual”.      

Mas como toda a atividade humana tende a ser reduzida a problemas de ordem sociológica, concluiríamos admitindo duas ideias que nos parecem fundamentais para haver um compromisso educativo na interpretação oakeshottiana. Há também uma tentativa de promoção da cultura científica de modo a que os seres humanos se identifiquem a si próprios na sua relação com as coisas e o seu império sobre as coisas. Mas a pedra angular é a ideia de “integração social” que radica no preconceito de que “tudo é social e de que tudo deve ter uma função social”, portanto, a educação seria algo de social. Homogeneizando as diferenças e não tornando através das semelhanças algo de distinto, meritório etc. Esta primazia do “social” torna a educação como um investimento social relacionado com o bem-estar de uma sociedade e as Universidades, segundo Oakeshott transformaram-se “numa indústria de serviços cuja finalidade é a de contribuir para o bem-estar da nação”. Os governos calculam a produtividade das universidades através de custos e benefícios. As últimas décadas mostram-nos que os governos querem transformá-las em “instrumentos de socialização” e submetê-las a propósitos extrínsecos ligados a considerações sociais. Pensam que sabem, mas não sabem o que eles fazem!

Alma é um termo equivalente ao hebraico néfesh, ao Sânscrito Ātman e ao grego psykhé e significa ser, vida ou criatura. Etimologicamente, deriva do termo em Latim animu (ou anima), que significa “o que anima”. Sendo a vida de cada organismo, não sendo eterna, e nem separada do corpo, exatamente pelo contrário. Alma não é o mesmo que espírito. Na religião, possui grande importância, conferindo, ao indivíduo, a capacidade de fazer e viver coisas e momentos complexos logicamente, sendo a vida do ser humano, e não parte dela. Foi discutida e citada hic et nunc na história da filosofia. João Calvino, o fundador do calvinismo, defendeu que o espírito e a alma são distintos, e que ela é imortal. Segundo sua interpretação da Bíblia, a alma pode perder-se, ser salva e existir após a morte do corpo. Ela também é citada como a fonte de todas as sensações e sentimentos humanos, além de ser a responsável pela comunhão humana com Deus. João Calvino (1509-1564) foi um extraordinário teólogo, líder religioso e escritor cristão francês. Considerado como um dos principais líderes da Reforma Protestante, em particular na França, as ideias de Calvino tiveram uma grande influência não apenas sobre a teologia cristã, mas também sobre a vida social, a política e até mesmo, sem temor a erro, sobre aspectos do sistema econômico de diversos países, sendo amplamente consideradas como tendo possuído um forte impacto na formação do mundo moderno.  

O sistema teológico bíblico que ele criou é geralmente conhecido como calvinismo, ainda que o próprio Calvino tivesse repudiado veementemente o uso de tal nome para descrevê-lo. Esta variante do protestantismo viria a ser bem-sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os africânderes), Inglaterra, Escócia e Estados Unidos. Martinho Lutero escreveu as suas 95 teses em 1517, quando Calvino tinha apenas oito anos de idade, o que faz com que Calvino seja considerado como pertencente à segunda geração da Reforma Protestante. Para muitos historiadores, Calvino teria sido para o povo de língua francesa aquilo que Lutero foi para o povo de língua alemã — uma figura quase paternal. Lutero era dotado de uma retórica mais direta, por vezes grosseira, enquanto que Calvino tinha um estilo de pensamento mais refinado e geométrico, quase de filigrana. Segundo Bernard Cottret, biógrafo francês de Calvino: “Quando se observa estes dois homens podia-se dizer que cada um deles se insere já num imaginário nacional: Lutero o defensor das liberdades germânicas, o qual se dirige com palavras arrojadas aos senhores feudais da nação alemã; Calvino, o filósofo pré-cartesiano, precursor da língua francesa, de uma severidade clássica, que se identifica pela clareza do estilo”. Em Orleães, Calvino se dedicaria ao estudo do direito civil, sob a influência do conceituado professor Pierre l`Étoile (1546-1611), cognominado “rei da jurisprudência” e “príncipe dos juristas”, e que mais tarde se tornaria presidente do Tribunal do Parlamento em Paris. Em 1529, dirigiu-se também a Bourges, para assistir a aulas do famoso professor de direito italiano Andrea Alciato (1492-1550). Também estudou grego, no qual foi instruído pelo erudito luterano Melchior Wolmar (1597-1561) — e hebraico, em preparação para realizar um estudo sério das Escrituras. Alma Ideal é dirigido por Alice Vial e lançado em 2025. 

O filme foi rodado na Normandia, principalmente em Le Havre e Sainte-Adresse, com exceção das cenas do hospital que foram filmadas na região de Paris. Alice Vial, nascida em 15 de julho de 1986 no 14º arrondissement de Paris, profissionalmente é uma roteirista, diretora e atriz francesa. Ela não cursou estudos formais de roteiro, mas “escreveu roteiros por conta própria, buscando conselhos de roteiristas mais experientes e participando de oficinas e concursos de escrita”. Ela afirmou que apreciava residências artísticas e o ambiente estimulante que elas proporcionavam. Foi dentro dessa estrutura que ela escreveu seu primeiro roteiro em 2009: Les Immortelles. Ela foi corroteirista de Os Inocentes, que foi selecionado para o Festival de Cinema de Sundance e indicado ao Prêmio César de Melhor Roteiro Original em 2017. Ela escreveu e dirigiu o curta-metragem Os Periwinkles, que ganhou o Prêmio César de Melhor Curta-Metragem em 2018 e recebeu prêmios em diversos festivais. Ela cocriou e escreveu a série de sucesso Loulou, exibida no canal Arte Creative e premiada no Series Mania, que mais tarde foi adaptada para um filme para televisão também exibido no canal Arte.  

Ela também co-escreveu e dirigiu todos os 10 episódios da série Sétimo Céu, que ganhou um prêmio no Festival de Ficção de La Rochelle. Em 2011, participou na fundação do coletivo Les Indélébiles, inspirado no primeiro coletivo francês de argumentistas, Le Sas; este coletivo reuniu 14 argumentistas em 2016, que colaboraram e trocaram ideias. Também faz parte do coletivo La Mafia Princesse. Durante um concurso de roteiros organizado pelo Prêmio Sopadin, Alice Vial e Sabrina B. Karine foram ambas selecionadas como finalistas na categoria júnior; Philippe Maynial contou-lhes a história de Madeleine Pauliac, sua tia-avó, uma médica que serviu na Polônia no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Essa história inspirou o roteiro do filme Os Inocentes. Elas pesquisaram sobre a Polônia no final da 2ª Segunda Guerra para garantir a autenticidade do filme, apesar da natureza ficcional da trama, e realizaram um retiro em um mosteiro. Eles submeteram o roteiro ao Festival Internacional de Roteiristas de Valência como parte de uma chamada de projetos, que venceram. Foram selecionados para a residência anual de roteiristas do Groupe Ouest e, em seguida, foram para o TorinoFilmLab para continuar desenvolvendo o projeto. O roteiro foi finalmente adquirido pela Mandarin, por meio da produtora Isabelle Grellat, que eles conheceram no festival de Valência. A Mandarin então ofereceu o projeto a Anne Fontaine, que se interessou pelo roteiro e o dirigiu em 2015. Em 2016, Os Inocentes foi selecionado para o Festival de Cinema de Sundance. Foi pré-selecionado para representar a França no Oscar de 2017. O filme foi indicado ao Prêmio César nas categorias de Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Filme. Também ganhou prêmios em diversos festivais ao redor do mundo.

            Escólio: Elsa é médica e trabalha em uma unidade de cuidados paliativos. Ela possui um dom bastante incomum: consegue ver e falar com os mortos que, por um motivo ou outro, não conseguem fazer a transição completa para a vida após a morte. Esse dom a impede de ter um relacionamento amoroso duradouro. Certa noite, enquanto voltava do trabalho de moto, ela colide com o ônibus à sua frente. Um pouco atordoada, ela é socorrida por um passageiro de táxi chamado Oscar. Oscar é um músico que acaba de conseguir a vaga de banda de abertura para Nero, um artista que ele admira. Ele espera que isso impulsione sua carreira. Sentimentos românticos começam a florescer entre ele e Elsa. No dia seguinte, Elsa é chamada pela polícia para prestar depoimento sobre o acidente. Durante a conversa com o policial, ela percebe que Oscar morreu no acidente, mas que ele não sabe disso. Elsa não sabe como fazer Oscar confessar. Ela o acompanha ao show onde ele deveria se apresentar como ato de abertura, e lá ele descobre que foi substituído por outro artista. A homenagem que lhe foi prestada no início do show, bem como o fato de que ninguém, exceto Elsa, lhe dá atenção, finalmente o convence de que ele está realmente morto. Mas será que ele quer morrer, quando todo o seu esforço para aprimorar sua música estava apenas começando a dar frutos? Ele sente uma profunda injustiça e não tem nenhum desejo de deixar Elsa. 

            No entanto, eles terão que encarar a verdade: o amor deles, por mais forte que seja, não tem futuro. Para ajudar Oscar a morrer em paz, Elsa fará tudo ao seu alcance para garantir que ele receba o reconhecimento que tanto almejava e que uma gravação de sua música seja tocada no início de um dos concertos de Nero. Assim, Oscar poderá morrer em paz. Os limites entre uma ação com sentido e um comportamento reativo não relacionado com um sentido visado pelo agente, são inteiramente fluidos. Uma parte muito importante de todo comportamento sociologicamente relevante, especialmente a ação puramente tradicional, situa-se na fronteira entre ambos. Em alguns casos de processos psicofísicos não temos ações com sentido, isto é, compreensíveis e, em outros, estes somente existem para os especialistas; processos místicos e, por isso, não comunicáveis adequadamente em palavras não podem ser compreendidos plenamente pelos que não tenham acesso a esse tipo de experiências. Por outro lado, não é pressuposto para a compreensibilidade de uma ação social a capacidade de produzir, com os próprios recursos, uma ação análoga. - “Não é preciso ser César para compreender César”. A possibilidade de “reviver” completamente a ação é importante para a evidência da compreensão, mas, comparativamente, não é condição absoluta para a interpretação do sentido. Componentes compreensíveis e não compreensíveis de um processo estão muitas vezes misturados e relacionados entre si. Toda interpretação, como toda ciência em geral, pretende alcançar “evidência” da compreensão pode ser de caráter: a) racional (e, neste caso, ou lógico ou matemático), ou b) intuitivamente (emocional, receptivo artístico). No domínio da ação, é racionalmente evidente, antes de mais nada, o que se compreende intelectualmente, de modo cabal e transparente, em sua conexão de sentido visada.

Intuitivamente evidente, no caso da ação, é o que se revive plenamente em sua conexão emocional experimentada. Racionalmente compreensíveis, isto é, neste caso, direta e inequivocamente apreensível em seu sentido intelectual, são principalmente, e em grau máximo, as conexões de sentido que que se encontram na relação de proposições matemáticas entre si. Compreendemos inequivocamente o que significa, quanto ao sentido, quando alguém utiliza, pensando ou argumentando, a proposição estabelecida pelo teorema de Pitágoras, um princípio matemático que afirma que, em qualquer triângulo retângulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa (o lado mais longo do triângulo) é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos outros dois lados, que são chamados de catetos, ou quando extrai uma cadeia de conclusões lógicas de maneira correta. O mesmo ocorre quando ele, partindo de “fatos da experiência” que consideramos “conhecidos” e de finalidades dadas, tira em sua ação as consequências que consideramos conhecidos e de finalidades dadas, tira em sua ação as consequências daí inequivocamente resultantes relativas à espécie de meios a ser empregados. Toda interpretação de uma ação desse tipo, racionalmente orientada por um fim, possui – quanto à compreensão dos meios empregados, um grau máximo de evidência. Com menor grau de evidência, mas suficiente para nossas evidências de explicação, compreendemos também aqueles “erros” (“arredamento de problemas”) nos quais poderíamos incorrer pela realidade vivida ou de cuja formação podemos ter a experiência intuitiva.

Ao contrário, muitas vezes não conseguimos compreender, com plena evidência, alguns dos “fins” últimos e “valores” pelos quais podem orientar-se, segundo a experiência, as ações sociais de uma pessoa; eventualmente conseguimos apreendê-lo intelectualmente, mas, quanto mais divergem de nossos próprios valores últimos, tanto mais dificuldade encontramos em torna-lo compreensíveis por uma revivência mediante a imaginação intuitiva. Nessas condições, temos de contentar-nos, conforme o caso, com sua interpretação exclusivamente intelectual, ou, eventualmente, quando até esta falha, aceita-los simplesmente como dados.  Trata-se, neste caso, de tornar inteligível para nós o desenrolar da ação por eles motivadas, a partir de seus pontos de orientação interpretados intelectualmente na medida do possível, intuitivamente revividos, na maior aproximação possível. A esta classe pertencem, por exemplo, muitas ações virtuosas, religiosas e caritativas para quem é insensível a elas, do mesmo modo que muitos fanatismos de extremo racionalismo (“diretos humanos”) para quem, por sua vez, se aborrece radicalmente desses pontos de orientação. Impulsos afetivos (medo, cólera, ambição, inveja, ciúme, amor, entusiasmo, orgulho, sede de vingança, piedade, dedicação, apetências de toda espécie) e as reações irracionais (do ponto de vista da ação racional, orientada por um fim) que deles resultam podem ser revividos por nós emocionalmente e com tanto mais evidência quanto mais suscetíveis sejamos a esses afetos, em todo caso, porém, mesmo que ultrapassem por sua intensidade nossas próprias possibilidades, conseguimos compreendê-los intuitivamente e avaliar intelectualmente seus efeitos sobre a orientação e os meios da ação.   

            A trivialidade é o modo dominante de produção e consumo de narrativas porque corresponde ao modo de produção dominante de mercadorias, ou melhor, é este modo de produção no setor das narrativas enquanto mercadorias. A atenção concentrada e demorada que é exigida pela natureza única da grande obra de arte, ao invés de ser liberada e desinibida pela automatização, funciona como ocasional oásis dentro dessa preponderância mesmice sob a aparência de diversidade. As obras triviais tendem ao happy end, assim como as obras literárias mais artísticas tendem ao bad end. Este final infeliz pode, contudo, funcionar como um modo de esconjurar a infelicidade na vida, assim como o final feliz corresponde ao desejo de felicidade inerente a todo ser humano. Se todo herói grego é produto da hybris, mantendo em si essa duplicidade de deus e homem, fato que acaba se revelando ao longo do seu percurso, tal dupla dimensão tende a se configurar também nos heróis triviais e, de modo mais fragrante, nos super-heróis. O mocinho de far-west geralmente parece primeiro um bom mocinho que não quer meter-se em encrencas, mas depois aparece o seu lado mais heroico, divino. Um simples e medroso jornalista como Clark Kent se torna o Super-Homem. Uma simples secretária se transforma num passe de mágica, na Mulher-Maravilha. O Pateta, com alguns amendoins, se transforma no Super-Pateta. E todos eles são defensores da justiça e da lei. Por outro lado, certas figuras de carne e osso passam a corporificar, nos meios de comunicação, determinadas figuras míticas do passado: um boxeador peso-pesado é um novo Hércules; uma atriz é o próprio mito da eterna juventude; outra é uma Afrodite revivida.

A dimensão de divindade que está por trás de cada uma dessas figuras serve para conferir uma enorme autoridade a elas no momento em que passam a recomendar determinados produtos para o consumo da população. Não só elas são mercadorias de consumo público, mas servem para estimular o público a consumir mercadorias, tanto mais quanto menos necessárias elas forem. No caso dos super-heróis importados, em geral eles não são pessoalmente proprietários do capital. Batman constitui uma exceção; também o fato de ele ter como que uma dupla personalidade - a de cidadão normal e a de super-herói - configura a natureza híbrida clássica: homem e deus. Para enfrentar heróis tão super, os vilões acabam tendo de ser supervisões: deuses dos infernos, demônios disfarçados de gente, bonecos do mal. Assim também, figuras populares como Nossa Senhora dos Navegantes são como que reencarnações da deusa Diana, uma deusa da fertilidade, assim como a própria Penélope já o era. Em torno de cada uma dessas deusas há como que uma disputa para saber quem será o seu companheiro e, portanto, rei. Esses ritos propiciatórios da reza não só antropomorfizam a natureza como naturificam o rei; o rei precisa ser forte, para representar as forças fecundadoras da natureza. Por isso o rei precisa ser, aparentemente, substituído toda vez que perde a sua força. A não ser que ele coloque alguém - o rei Momo - em seu lugar por alguns dias, durante os quais este goza de todos os privilégios: o carnaval. Após esses dias, o rei substituto será sacrificado: quarta-feira de cinzas. O rei é um herói por excelência de um povo, ainda que seja um rei simbólico: serve para a autoafirmação desse povo; é a vitalidade personificada.

 A risada do herói é a própria alegria de viver. Esquerda volver! Assim como existe a narrativa trivial de direita, existe a de esquerda: a primeira afirma o status quo, a segunda propõe modificá-lo. Toda vez que uma revolução se instaura num país, ela precisa produzir muita literatura trivial de esquerda para se legitimar e obter apoio para as mudanças que ela procura implementar. Mas esse tipo de narrativa também existe antes de qualquer revolução, como expressão das reivindicações das classes baixas. A narrativa trivial de esquerda procura simplesmente demonstrar que a classe alta, e tudo o que a ela pertence, é o baixo por natureza. É, nesse sentido, o alto tudo o que pertencer à classe baixa: dentro do mesmo padrão de clichês repetitivos da trivialidade de direita. É claro que esse “esquerdismo” (termo usado por falta de outro melhor, mas no qual teria de ser detalhada a dialética a ele inerente) pode variar conforme a época e o momento. O grau de esquerdismo pode variar: do legal ao ilegal. De certo modo, um Dom Diego/Zorro, à medida que luta contra a dominação espanhola do México, é um herói trivial de esquerda assim como Robin Hood também o é. A ideologia deste - roubar dos ricos para dar aos pobres - pode aparecer em folhetins nordestinos entronizando Lampião como herói (ainda que isso não corresponda à verdade histórica): essa ideia de redistribuição da riqueza social em soluções individuais, sem alterar radicalmente o sistema da propriedade fundiária, corresponde a uma perspectiva que se poderia chamar de social democrata.              

A carência basicamente de trivialidade de esquerda é que, ao fazer do alto simplesmente o baixo, e do baixo o elevado, ele não só desconhece a natureza complexa e contraditória da realidade como também imagina que a classe baixa, ainda que seja vista como depositária da esperança de redenção da história, possa ser melhor do que o todo da sociedade em que vive. A narrativa trivial pode ser um espelho mágico em que cada classe contempla a outra, mas tende a contemplar apenas sua própria imaginação quanto à outra classe. No momento em que a narrativa trivial mostrasse a Branca de Neve dos anões operários, teria o seu espelho quebrado em estilhaços pelos poderes vigentes: mas a narrativa artística surge contemporaneamente da possibilidade anunciada pelos estilhaços. Feminino/masculino. A narrativa trivial feminina pode usar diferentes veículos: a fotonovela, a novela-cor-de-rosa, a telenovela, o cinema água-com-açúcar etc. De um modo geral destina-se ao público feminino, o que caracteriza também o seu enredo. Basicamente tem se aí sempre uma heroína, uma mocinha com diversas virtudes, e um herói romântico, de excepcionais qualidades. 

São como deuses sobre a terra. Estão predestinados a casarem-se com o outro. Para que haja enredo, surgem vários empecilhos entre eles, o mais ideológico é o fato de ela ser pobre e ele ser rico: é claro que o que ela mais quer é “dar o golpe do baú”, só que exatamente isso é que não pode ser reconhecido. No fim, depois de diversas peripécias, tem-se o final feliz, com o casamento desses maravilhosos seres. A moral da história é, à primeira vista, a tese de que “o amor tudo vence”. Subjacente a ela, há, porém, uma outra tese, que é, basicamente, a de que a melhor coisa na vida é pertencer a classe alta (o que não deixa de estar correto até certo ponto) e que o melhor que se tem a fazer é se identificar com ela e amá-la através de todas as dificuldades e alegrias. Agora o texto não provém mais de uma tradição. É imposto pela geração de uma tecnocracia produtivista. Não se trata mais de um livro de referência, mas de toda a sociedade feita texto, escritura da lei anônima da produção. Para Michel de Certeau, esta mutação torna o texto habitável, à maneira de um apartamento alugado, pois a esta arte de leitores conviria comparar outras. A arte de conversar: as retóricas da conversa ordinária são práticas transformadoras “de situações de palavra”, de produções verbais onde o entrelaçamento das posições locutoras instaura um tecido oral sem proprietários individuais, as criações de uma comunicação que não pertence a ninguém. A conversa é um efeito provisório e coletivo de competências na arte de manipular lugares comuns e jogar com o inevitável para torná-los habitáveis. Os usuários dos códigos os transformam em metáforas e eclipses de suas caçadas.

Nos relatos de “apartamento” ou de “rua” as manipulações de espaço ou “percursos” levam a melhor. Na maioria das vezes, essa forma de descritores determina o estilo inteiro da narração. Quando intervém a outra forma, ela tem como valor ou ser condicionada ou suposta pela primeira. Nos dois casos um fazer permite um ver. Mas há também casos em que um percurso supõe uma indicação de lugar. A cadeia das operações espacializante parece toda pontilhada de referências ao que produz uma representação de lugares ou ao que implica uma ordem local. Tem-se assim a estrutura do relato de viagem, histórias de caminhadas e gestas que são marcadas pela “citação” dos lugares que resulta ou que as autoridades simbólicas preconizam preconceitos.  Dois pesos e duas medidas bem equilibradas. Os relatos antropológicos efetuam um trabalho que, seguindo a etnografia extraordinária de Michel de Certeau, incessantemente, transforma “lugares em espaços” ou “espaços em lugares”. Organizam os “jogos” das relações mutáveis que uns mantêm com outros. São inúmeros esses jogos, num leque se estende desde a implantação de uma ordem imóvel e quase mineralógica até a sucessividade acelerada das ações multiplicadoras de espaços populares, no âmbito das representações da vida. Mas esse “frenesi espacializante” nem por isso deixa de ser menos circunscrito pelo lugar textual.

Seria possível uma tipologia de todos esses relatos, em termos de identificação de lugares e de efetuações de espaços. Mas, para aí encontrar os modos segundo os quais se combinam essas distintas operações, onde precisa se ter critérios e categorias de análise, e, além disso, a necessidade que reduz aos relatos etnográficos a leitura real do cotidiano não existe. Eis aí precisamente a formalização do primeiro papel do relato: sua autorização. Autoriza práticas sociais arriscadas e contingentes. Disseminada, não só por causa da diversidade dos meios sociais, mas, sobretudo por causa de uma crescente heterogeneidade, ou, pensando bem, de uma heterogeneidade sempre mais desvelada entre as “referências autorizantes”. Referimo-nos à excomunhão das divindades territoriais. O desapreço pelos lugares habitados pelo espírito dos relatos e a extensão das áreas neutras, privadas de legitimidade que marcam a fuga. A fragmentação das narrações organizadoras de fronteiras e de apropriação nos conflitos de classes, nos conflitos étnicos e raciais. Esses fragmentos escondidos articulam a história biográfica cujo espaço fundamenta as práticas de espaço. A organização reconhecível nos relatos de espaço da cultura cotidiana se acha, portanto, invertida pelo trabalho (de análise teórica) que isolou um sistema de lugares geográficos. Esta é a tese fenomenológica de monsieur Certeau.

Enfim, John Toland foi um filósofo racionalista e livre-pensador irlandês, e satirista ocasional, que escreveu vários livros e panfletos sobre filosofia política e filosofia da religião, que são as primeiras expressões da filosofia do Iluminismo. Nascido na Irlanda, ele foi educado nas universidades de Glasgow, Edimburgo, Leiden e Oxford e foi influenciado pela filosofia de John Locke (1632-1704). Sua primeira e mais reconhecida obra, Christianity Not Mysterious (1696), opôs-se à hierarquia tanto na igreja quanto no Estado. Na Irlanda, cópias foram queimadas pelo “carrasco público”, e ele foi forçado a fugir do país para nunca mais retornar. Muito pouco se sabe sobre a infância de Toland. Ele nasceu em Ardagh, na Península de Inishowen, uma região predominantemente católica e de língua irlandesa no Noroeste da Irlanda. Seus pais são desconhecidos. Mais tarde, ele escreveria que havia sido batizado “Janus Junius”, um trocadilho com seu nome que lembrava tanto o deus romano de duas faces Janus quanto Junius Brutus, considerado o fundador da República Romana. De acordo com seu biógrafo Pierre des Maizeaux, ele adotou o nome John quando era estudante, com o incentivo de seu professor.

Tendo se convertido formalmente do catolicismo ao protestantismo aos 16 anos, Toland conseguiu uma bolsa para estudar teologia na Universidade de Glasgow. Em 1690, aos 19 anos, a Universidade de Edimburgo conferiu-lhe um título de mestre. Ele então conseguiu uma bolsa para passar dois anos estudando na Universidade de Leiden, na Holanda, e posteriormente quase dois anos em Oxford, na Inglaterra (1694-95), onde adquiriu uma reputação de grande aprendizado e “pouca religião”. A bolsa de estudos de Leiden havia sido fornecida por ricos dissidentes ingleses, que esperavam que Toland se tornasse um ministro para os dissidentes. No primeiro livro de Toland, Christianity not Mysterious (1696), iniciado em Oxford, ele argumentou que a revelação divina da Bíblia não contém mistérios verdadeiros; em vez disso, todos os dogmas da fé podem ser compreendidos e demonstrados pela razão devidamente treinada a partir de princípios naturais. Seu argumento imediatamente atraiu várias refutações, e ele foi processado por um grande júri em Londres. Como ele era um súdito do Reino da Irlanda, membros do Parlamento da Irlanda propuseram que ele fosse queimado na fogueira e, em sua ausência — interrompendo uma visita em 1697, ele fugiu do país - 16 três cópias do livro foram queimadas pelo carrasco público em Dublin, pois o conteúdo era contrário às doutrinas centrais da Igreja da Irlanda. Toland comparou amargamente os legisladores protestantes aos “inquisidores papistas que realizaram aquela execução no livro, quando não conseguiram apreender o autor, a quem haviam destinado às chamas”.   

Após sua saída de Oxford, Toland residiu em Londres durante a maior parte do resto de sua vida, mas também foi um visitante um tanto frequente do continente europeu, particularmente da Alemanha e da Holanda. Ele viveu no continente de 1707 a 1710. Toland morreu em Putney em 10 de março de 1722. Putney é um distrito no Borough de Wandsworth, na Região de Londres, na Inglaterra. Fica a 8,2 km de Charing Cross, na margem Sul do rio Tâmisa, oposto à Fulham. A Encyclopædia Britannica Décima Primeira Edição (1911) diz sobre ele que em sua morte em Londres aos 51 anos “ele morreu... como tinha vivido, em grande pobreza, no meio de seus livros, com sua caneta na mão”. Pouco antes de morrer, ele compôs seu próprio epitáfio, parte do qual diz: “Ele era um defensor da liberdade, um amante de todos os tipos de aprendizado (...) mas nenhum seguidor ou dependente do homem. Nem as carrancas ou a fortuna poderiam dobrá-lo a declinar dos caminhos que havia escolhido”. Embora ele próprio tenha escrito biografias em sua carreira, conclui, reveladoramente: “Se você quiser saber mais sobre ele, pesquise seus escritos”. Pouco depois de sua morte, uma longa biografia de Toland foi escrita por Pierre des Maizeaux.

Ele lembrou em 1691 que em seus primeiros anos escritor ele havia sido “o maior fracasso que um homem pode ser”. Disciplinado, ele afirmou ter escrito seis romances completos, 26 peças e cem contos antes de completar sua primeira venda, um conto pelo qual a American Magazine pagou US $ 165 em 1954. Em 1792-3, exércitos tomaram o sul da Renânia e estabeleceram uma república jacobina no eleitorado religioso de Mainz, conjunto ao de Trier; em 1794, tomaram toda a margem esquerda do Reno e ali permaneceram até a queda de Napoleão em 1815. A Renânia tornara-se parte da República francesa, e subsequentemente do 1º Império. A doutrina dos direitos universais tinha, portanto, que ser posta em prática ali. A situação da população judaica de 22 mil judeus na majoritariamente católica Renânia variava significativamente de um território para outro. Mudanças sociais e políticas muito mais dramáticas ocorreram na vida cotidianamente dos judeus da Renânia sob o domínio imperialista de Napoleão. Na década de 1790, os jacobinos tinham adotado, de modo geral, uma atitude exploradora para com a população local. Tinham fechado as quatro universidades da Renânia – Bonn, Colônia, Trier e Mainz – e rebocado tesouros artísticos para Paris.

Napoleão, diferentemente, estava decidido a cortejar a colaboração das elites sociais. Aboliu o calendário revolucionário e apoiou costumes e feriados consensuais incluindo o Dia de São Napoleão, que passa a ocorrer em 2 de dezembro de 1804. De pouca paciência com as humanidades e os cursos tradicionais das universidades, era entusiasmado defensor das disciplinas de formação profissional. Fora as ciências aplicadas, ele se interessava particularmente em promover a jurisprudência como meio de apoiar seu recém-construído e definitivo código legal, o Código Napoleônico. Em 1801, basicamente para pacificar a área francesa ocidental da Vendeia, o coração da resistência monárquica e eclesiástica à república secular, Napoleão fez também uma concordata com o papa. Tendo removido as objeções católicas ao governo, ele tomou medidas subsequentes destinadas a estender uniformidade administrativa e outras confissões, principalmente a questão relativa aos protestantes e judeus. Sua justificativa era que “o povo precisa ter uma religião”, e “essa religião deve estar sob controle do governo”. “Minha política”, declarou ele, “é governar os homens como a maioria deseja ser governada. É dessa maneira, acredito, que se reconhece a soberania do povo. Se governasse um pouco de judeus, eu reconstruiria o Templo de Salomão”. 

Napoleão foi um estadista e líder militar francês que ganhou destaque durante a Revolução Francesa e liderou várias campanhas militares de sucesso durante as Guerras Revolucionárias Francesas. Foi imperador Napoleão I de 1804 a 1814 e brevemente em 1815 durante os Cem Dias. Politicamente dominou os assuntos europeus e globais por mais de uma década, enquanto liderava a França contra uma série de coalizões nas guerras napoleônicas. Ele é considerado um dos maiores comandantes da história e suas guerras e campanhas são estudadas em escolas militares em quase todo o mundo. O legado político e cultural de Napoleão perdurou como líder entre os mais célebres e controversos da história da humanidade. Nasceu na Córsega de uma família italiana relativamente modesta, da nobreza menor. Estava servindo como oficial de artilharia no exército francês quando a Revolução Francesa eclodiu em 1789. Ele rapidamente subiu nas fileiras dos militares, aproveitando as novas oportunidades revolucionárias tornando-se general aos 24 anos. O Diretório Francês acabou por lhe dar o comando do Exército da Itália depois que ele suprimiu a Revolta dos 13 Vendémiaire, uma batalha travada entre forças republicanas francesas e manifestantes pró-monarquia nas ruas de Paris.

A insurreição acabou sendo esmagada e levou a fama de um dos generais comandantes, Napoleão Bonaparte, do exército da república. Aos 26 anos, ele iniciou sua primeira campanha militar contra os austríacos e os monarcas italianos alinhados com os Habsburgos, sendo que venceu todas as batalhas e conquistou a Península Italiana em um ano, enquanto estabelecia “repúblicas irmãs” com apoio local e se tornando, por assim dizer, herói de guerra na França. Em 1798, ele liderou uma expedição militar ao Egito que serviu de trampolim para o poder político. Ele orquestrou um golpe em novembro de 1799 e se tornou o primeiro cônsul da República. Na primeira década do século XIX, o império francês sob comando de Napoleão se envolveu em uma série de conflitos bélicos com todas as grandes potências europeias, fabulando as Guerras Napoleônicas. Após uma sequência de vitórias, a França garantiu uma posição dominante na Europa continental, e Napoleão manteve a esfera de influência da França, através da formação de amplas alianças e a nomeação de amigos e familiares para governar os outros países europeus como dependentes da França. A Campanha da Rússia em 1812 marcou uma virada na sorte de Napoleão. Seu Grande Armée foi seriamente danificado na campanha e nunca se recuperou totalmente.  Em 1813, a Sexta Coligação derrotou suas forças em Leipzig. Tem origem num antigo povoado eslavo de nome Lipsk. Foi fundada no século XII e rapidamente se desenvolveu, tornando-se um importante centro de comércio, dada a sua localização na intersecção de rotas comerciais importantes.

No ano seguinte, a coligação invadiu a França, forçou Napoleão a abdicar e o exilou na ilha de Elba, na Toscana, Itália, que dista 20 km da costa da península itálica. Napoleão escapou de Elba em fevereiro de 1815 e politicamente assumiu o controle da França mais uma vez. Os Aliados responderam formando uma Sétima Coalizão que o derrotou na Batalha de Waterloo, em junho. Batalha de Waterloo foi um confronto militar ocorrido a 18 de junho de 1815 perto de Waterloo, na atual Bélgica, então parte integrante do Reino Unido dos Países Baixos. Um exército do Primeiro Império Francês, sob o comando do Imperador Napoleão com 72 000 homens, foi derrotado pelos exércitos da Sétima Coligação que incluíam uma força britânica liderada pelo Duque de Wellington, e uma força prussiana comandada por Gebhard Leberecht von Blücher com 118 000 homens. Este confronto marcou o fim dos Cem Dias e foi a última batalha de Napoleão; a sua derrota terminou seu governo como Imperador. Os britânicos o exilaram para a remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde Napoleão morreu seis anos depois, aos 51 anos. Napoleão tinha uma antipatia instintivamente dos judeus, em parte pela sua criação católica, em parte pela leitura de Voltaire. – “Os judeus são um povo vil”, “covarde, porém cruel”, escreveu em suas Memórias de Santa Helena.

Mas ao mesmo tempo também estava decidido a aliviar a tensão endêmica sobre as novas províncias orientais do Império, em particular acelerando o processo de “regeneração” dos judeus. Apesar da sua antipatia, segundo Jones (2017), ele muito fez para regularizar a situação de cidadãos judeus e ampliar suas oportunidades profissionais. Em 9 de fevereiro de 1807, junto com o apoio de outros 71 rabinos e destacados judeus laicos, Samuel Marx, o rabino de Trier, irmão de Heinrich e tio de Karl Marx, foi convocado por Napoleão para “O Grande Sinédrio” em Paris. Uma reunião anterior de notáveis judeus tinha ouvido uma série de perguntas hostis destinadas a acelerar a sua assimilação, ressaltando as áreas nas quais a lei judaica era tida como incompatível com as leis da nação. Foram interrogados sobre sua atitude para com as ideias em torno do patriotismo, o casamento misto, a autoridade estatal e a prática da usura. Como resultado do Sinédrio, dois decretos reorganizaram a fé judaica em conformidade com políticas aprovadas pelo Estado. Os membros do rabinato tornaram-se servidores públicos de caráter similar comparado aos pastores protestantes e aos padres católicos, e a administração do credo judaico foi confiada a um Consistório Geral, semelhante ao que governa as comunidades protestantes. Mais inflamatório era potencialmente o terceiro decreto, reconhecido como Décret Infâme. Essa medida de corte ideológico dava continuidade à prática da tributação discriminatória, mas per se destinada a erradicar obstáculos à “regeneração” judaica, em especial a prática da usura.

O recente Consistório gostava de agir decididamente contra a usura. Um documento de 1810 declara que Samuel não tinha “perdido nenhuma oportunidade de alertar contra o espírito do fanatismo, tão contrário aos princípios da religião”; e declarava, ainda, que o Consistório denunciaria imediatamente às autoridades qualquer “israelita” que, em consequência da usura, fosse considerado “culpado de fraudar um não israelita. Deve ter sido também mais ou menos na mesma data que o pai de Marx começou sua carreira de advogado. Pelas novas exigências da administração civil, Heinrich – originalmente Herschel – passou a se chamar Henri. Ele foi registado ente os matriculados no curso de licenciatura em direito em Koblenz, com duração de três anos, e em 1814 – os anos de seu casamento – assinou, como testemunha do nascimento da sobrinha, “H. Marx, avoué”. Mas o tempo estava acabando para Napoleão e seu novo império. Na desastrosa campanha russa de 1812, Napoleão perdeu 570 mil soldados. O exército russo continuou sua marcha para Oeste, fortalecido pela deserção do contingente prussiano do Grande Exército. Os austríacos reincorporaram-se à coalizão aliada, e em outubro de 1813, na Batalha de Leipzig, o exército de Napoleão, com seus 200 mil soldados, foi derrotado pela coalização de 265 mil austríacos, prussianos, russo e suecos. O que restava do exército de Napoleão entrou em Mainz em novembro, mais de 18 mil foram vitimados pelo tifo. Em janeiro de 1814 a margem esquerda do Reno estava nas mãos dos aliados. A fortuna da Renânia era uma questão entre as forças aliadas vitoriosas.

Bibliografia Geral consultada.

GOLDGRUB, Franklin Winston, O Conceito de Inconsciente em S. Freud e C. Lévi-Strauss. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1990; MARX, Karl, La Questione Ebraica. Roma: Editori Riuniti, 1964; SALEM, Jean, “Marx et l’Atomisme Ancien: la Dissertation de 1841”. In: Annali Della Scuola Normale Superiore Di Pisa. Classe Di Lettere e Filosofia, vol. 25, n° 4, 1995; OAKESHOTT, Michael, On Human Conduct. Oxford: Oxford University Press, 1975; Idem, The Voice of Liberal Learning. Indianapolis: Liberty Foundation, 1989; Idem, Rationalism in Politics and other essays. 2ª ed. Indianapolis: Liberty Foundation, 1991; Idem, The Politics of Faith and the Politics of Scepticism. New Haven: Yale University Press, 1996; RIBEIRO, Renato Janine, “Um Pensador da Ética”. In: Revista Cult, dezembro de 2004; COSTA, Frederico Jorge Ferreira, Ideologia e Educação na Perspectiva da Ontologia Marxiana. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira. Faculdade de Educação. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2007; COTRIM, Ivan, Karl Marx: A Determinação Ontogenética Originária do Valor. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica do São Paulo, 2008; CHASIN, José, Marx: Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009; SILVA, Romero Júnior Venâncio, A Crítica da Religião em Marx: 1840-1846. Tese de Doutorado em Filosofia. Recife: Programa de Pós-Graduação Interinstitucional em Filosofia UFPE, UFPB e UFRN, 2010; CHAUÍ, Marilena, O Que é Ideologia. Rio de Janeiro: Editora Brasiliense (coleção Primeiros Passos), 2017; OLIVEIRA, Heitor Coelho Franca de, Marx na Transição: sobre a Relação entre Teoria e Práxis n`A Ideologia Alemã. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; ROSA, Giorgio, L`Isola delle Rose. La Vera Storia tra il Fulmine e il Temporale. Bologna: Persiani Editore, 2020; RESING, Daniela Souto, Design Gráfico e Imagem em Movimento no Brasil (1929–2017): Uma Coleção de 200 Artefatos Gráficos Audiovisuais. Tese de Doutorado em Design. Escola Superior em Desenho Industrial. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2025; Artigo: “Ubuplay: Plataforma Brasileira Dedicada ao Cinema Negro Reforça Diversidade no Audiovisual”. Disponível em: https://www.ufrb.edu.br/nudoc/noticias/11/02/2026; entre outros.

domingo, 5 de abril de 2026

Guerras Espirituais – Disciplinas Científicas & Estudantes Universitários.

                                                                 A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito”. Lulu Santos                                     

          

           William Gurnall (1616-1679) foi um escritor inglês e clérigo anglicano nascido em King`s Lynn, Norfolk, onde foi batizado em 17 de novembro de 1616. Reconhecida até 1537 como Bishop`s Lynn e coloquialmente como Lynn, é uma cidade portuária e mercantil no distrito de King`s Lynn e West Norfolk, no condado de Norfolk, Inglaterra. Fica a 58 km a Nordeste de Peterborough, 71 km a Nordeste de Cambridge, 71 km a Oeste de Norwich e cerca de 8 km para o interior do estuário de The Wash. A etimologia de King`s Lynn é incerta. O nome Lynn pode significar um corpo de água perto da cidade – a palavra galesa llyn significa lago; mas o nome é plausivelmente de origem anglo-saxônica, de lean, que significa posse em regime de propriedade plena ou fazenda. O Domesday Book de 1086 registra-o como Lun e Lenn, e o atribui ao Bispo de Elmham e ao Arcebispo de Canterbury. O Domesday Book menciona salinas em Lena (Lynn); uma área de tanques divididos pode ter existido ali na época. A presença de sal, que era relativamente raro e caro no início do período medieval, pode ter aumentado o interesse de Herbert de Losinga e outros normandos proeminentes na modesta paróquia. A cidade foi chamada de Len Episcopi (Bishop`s Lynn) enquanto estava sob a jurisdição temporal e espiritual do Bispo de Norwich.

         Mas no reinado de Henrique VIII de 1509 até sua morte, em 1547, foi entregue à coroa e recebeu o nome de Lenne Regis ou King`s Lynn. No entanto, a cidade é geralmente conhecida localmente como Lynn. Outros lugares no velho continente com Lynn no nome incluem Dublin, Irlanda, com An Dubh Linn significando “a Piscina Negra”. A cidade de Lynn, Massachusetts, ao Norte de Boston, foi nomeada em 1637 em homenagem ao seu primeiro ministro religioso oficial, o Reverendo Samuel Whiting Sr., que chegou lá vindo de Lynn, Norfolk. Lynnhaven, Virgínia, também recebeu o nome de King`s Lynn, tendo sido nomeada pelo Capitão Adam Thoroughgood, que era natural de King’s Lynn. William Gurnall foi educado na escola primária gratuita de sua cidade natal e, em 1631, foi indicado para a bolsa de estudos Lynn no Emmanuel College, em Cambridge, onde se formou em bacharelado em 1635 e em mestrado em 1639. Ele foi nomeado reitor da Igreja de São Pedro e São Paulo, em Lavenham, Suffolk, em 1644; e antes de receber essa nomeação, parece ter oficiado, talvez como cura, em Sudbury. Na Restauração, ele assinou a declaração exigida pelo Ato de Uniformidade de 1662 e, por esse motivo, foi alvo de um ataque difamatório publicado em 1665 intitulado “Renunciantes do Pacto, Apóstatas Desesperados”. 

       Gurnall é reconhecido por sua obra Christian in Complete Armour (O Cristão em Armadura Completa), publicada em três volumes, datados de 1655, 1658 e 1662. Consiste em sermões ou palestras ipsis litteris proferidas pelo autor no decorrer de seu ministério regular, em uma sequência de ensinamentos sobre Efésios 6:10-20. É descrita como um repositório do qual o cristão é provido de “armas espirituais” para a batalha, auxiliado a vestir sua armadura e instruído no uso de sua arma; juntamente com o desfecho feliz de toda a guerra. É, portanto, considerada um clássico sobre guerra espiritual. A obra é mais prática do que abstrata teológica; e seu estilo e seu tom religioso fervoroso continuaram a torná-la popular entre alguns leitores. Richard Baxter e John Flavel tinham o livro em alta consideração.  Augustus Montague Toplady foi um clérigo anglicano inglês e escritor de hinos. Ele foi um grande oponente calvinista de John Wesley. Ele é mais lembrado como o autor do hino Rock of Ages que costumava fazer extensos trechos dele em seu caderno de anotações. John Newton, o ex-traficante de escravos convertido, anteriormente à passagem do trabalho escravo ao trabalho livre da produção capitalista disse que, se fosse obrigado a escolher apenas um livro além da Bíblia, escolheria Christian Armour. Richard Cecil passou muitos dos últimos dias de sua vida lendo-o e expressou repetidamente sua admiração pela obra.                  


Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) comentou que o trabalho de Gurnall é “incomparável e inestimável; cada linha repleta de sabedoria. O livro já foi tema de inúmeros sermões e é, em nossa opinião, o melhor gerador de ideias em toda a nossa biblioteca”. Em 1988, a Banner of Truth Trust, uma editora evangélica e reformada sem fins lucrativos, estruturada como um fundo de caridade e fundada em Londres em 1957 por Iain Murray, Sidney Norton e Jack Cullum, publicou uma versão revisada e abreviada em inglês contemporâneo. A velha tradição anticapitalista da Igreja, lembra-nos Michael Löwy (2014), entra assim em relação de afinidade eletiva com a análise marxista da exploração capitalista e com a crítica dos marxistas latino-americanos, originária da extraordinária Teoria da Dependência, ao capitalismo dependente como fundamento estrutural do “subdesenvolvimento”, da miséria e do autoritarismo militar. A solidariedade com o pobre é o ponto de partida deste processo social de elaboração teológica. A grande diferença, a novidade decisiva, o salto qualitativo em relação à concepção católica tradicional do pobre, é que este já não é considerado como “vítima passiva, objeto de caridade e assistência, mas sim como sujeito de sua própria libertação”.

Graças a esta ruptura - fruto da experiência prática dos cristãos comprometidos no curso das conjunturas históricas dos anos 1960 e 1970, que tem como primícias a problemática de a interpelação da Teologia da Libertação vai convergir com o princípio político fundamental do marxismo: a emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Enfim, a opção prioritária pelos pobres, aprovada pela Conferência dos Bispos Latino-Americanos de Puebla (1979) é, na realidade, uma fórmula de compromisso, interpretada num sentido tradicional e assistencialista pelas correntes mais moderadas ou conservadoras da Igreja católica, e num sentido radical pelos teólogos da libertação e as correntes mais avançadas do clero: como um engajamento na organização e na luta dos pobres e despossuídos por sua própria libertação. A luta de classes - não só como método de análise da realidade, mas também como guia para a ação - se torna assim um elemento central (implícito ou explícito) na nova teologia. Como escreveu Gustavo Gutierrez Merino: “negar o fato da luta de classes é, na realidade, tomar partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade neste assunto é impossível”. De qualquer forma, para o método marxista, o essencial é o que se passa na realidade.

 Enquanto processo de convergência por afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores (comunitários), a certas opções (a solidariedade com os pobres), a utopias do futuro (uma sociedade sem ético-políticas exploração nem opressão). E na medida em que a teologia da libertação é a expressão de uma práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead (1901-1978). Em The Causes of World War Three (1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e intelectuais.

Fidel Castro teria então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha.  Mills acreditara que os revolucionários cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes. Durante sua estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination, apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague. A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário.

A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014).

No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas. Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”.

A contribuição social é a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992). O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o título de Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788).

Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens. O termo se torna uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas. Essa transposição de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês.

Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de um tipo social de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha que ele passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Historicamente da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, isto é, relacional entre a atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer. O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante, precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate inútil sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material.

Ibiúna representa, mutatis mutandis, um município brasileiro do estado de São Paulo. Situa-se na Região Metropolitana de Sorocaba, na extensa Mesorregião Macro Metropolitana Paulista e na Microrregião de Piedade. Localiza-se a uma latitude 23º39`23” Sul e a uma longitude 47º13`21” Oeste, estando a uma altitude de 996 metros. Sua população foi estimada em 80 062 habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística. O município é formado pela sede e pelos distritos de Carmo Messias e Paruru. Ibiúna possui a segunda maior população rural do estado de São Paulo, menor apenas que a capital do estado. Por estar localizada geograficamente entre as grandes bacias hidrográficas do Tietê e Paranapanema, a região que abarca o atual município de Ibiúna provavelmente já reunia ótimas condições para o estabelecimento de grupos humanos há milênios atrás. De acordo com algumas pesquisas arqueológicas, os primeiros indícios da presença de grupos ameríndios no estado de São Paulo datam de fins do Pleistoceno, sendo que a área onde hoje está a capital e região metropolitana contam com datações radiocarbônicas de cerca de 6.000 anos atrás. Estes primeiros grupos humanos produziam tecnologicamente diversas ferramentas feitas em pedra, madeira e ossos, utilizando assim diversos tipos de matéria-prima para confecção desses instrumentos de subsistência. Sua alimentação era baseada na caça de animais e coleta de frutos e raízes, lhes sendo desconhecida a agricultura nesse primeiro momento.

As primeiras populações indígenas agricultoras só teriam alcançado a região de Ibiúna e outras próximas dos grandes rios paulistas por volta do início da Era Comum. Ancestrais dos atuais grupos Tupi-Guarani e Macro-Jê, essas populações cultivavam mandioca, feijão e milho, assim como diversas várias espécies não alimentícias, como cabaças, tabaco, algodão e urucu. Também produziam cerâmica, tecnologia provavelmente desconhecida pelos primeiros grupos que haviam se estabelecido nas margens de rios como o Una e o Sorocamirim e arredores. Séculos depois, os primeiros colonizadores europeus se depararam com diversos grupos Guaianás, também reconhecidos como Guaianazes nas cabeceiras do rio Sorocaba e boa parte do Planalto Paulista. Falante de um idioma relacionado ao tronco Macro-Jê, o contato entre este povo e os portugueses se deu já nas primeiras décadas de colonização da América, geralmente mencionados nas documentações dos séculos XVI e XVII como “índios bravos”. Por resistirem ao avanço português sobre suas terras, diversos conflitos ocorreram, sendo muitas vezes escravizados, mortos ou eventualmente expulsos para o interior do continente. O nome Guaianá não corresponde à identidade própria desses povos, já que esse termo era normalmente utilizado para designar diversas gentes não-tupis. A presença de grupos Tupi na região das nascentes do rio Sorocaba também parece ser confirmada pelos registros arqueológicos, inclusive durante o período colonial.

Os Acordos MEC-USAID foram implementados no Brasil com a lei 5.540/68. Foram negociados secretamente e só se tornaram públicos em novembro de 1966 após intensa pressão política e popular. Foram estabelecidos entre o Ministério da Educação (MEC) do Brasil e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) para reformar o ensino brasileiro de acordo com padrões impostos pelos Estados Unidos da América. A USAID surgiu em 1961, com a assinatura do Decreto de Assistência Externa do Presidente John F. Kennedy, unificando diversos instrumentos assistenciais dos Estados Unidos. Diretamente ou através de agências subsidiárias, a USAID atua como um reforço à política externa norte-americana, cooperando nas áreas de economia, agricultura, saúde, política e assistência humanitária. A agência tem sido objeto de críticas e acusada de trabalhar em colaboração com a CIA por conta de suas atividades de inteligência na desestabilização de governos não alinhados com as políticas dos Estados Unidos da América (USA). Apesar da ampla discussão ocorrida anteriormente sobre a educação, iniciada ainda em 1961, essas reformas foram implantadas pelos militares que tomaram o poder após o Golpe Militar de 1° de abril de1964. A reforma mais visível ocorreu na renomeação dos cursos. 

A tradição de 1º de abril remonta à instituição do Calendário Gregoriano, que substituiu o Calendário Juliano por determinação do Concílio de Trento, o conselho ecumênico da Igreja Católica. O Calendário Gregoriano divide o ano em quatro estações distribuídas ao longo de 12 meses, ou 365 dias, de acordo com o movimento da Terra em relação ao Sol e estabelece o primeiro dia do ano em 1º de janeiro. Com a instituição do novo calendário pelo papa Gregório XIII, em 1582, historiadores contam que parte da população francesa se revoltou contra a medida e se recusou a adotar o 1º de janeiro como início do ano. Zombados pelo resto considerado da população, os resistentes às mudanças sociais e política eram convidados para festas e comemorações inexistentes no dia 1º de abril. Nascia assim a tradição de zombaria e de pregação de peças. Há também relatos históricos que relacionam a data ao festival de Hilária - uma festa romana no período anterior ao nascimento de Cristo - que celebrava o equinócio de março em honra à deusa Cibele, a “Mãe dos Deuses”, uma divindade que reunia aspectos das deusas gregas Gaia, Reia e Deméter. No Brasil, a tradição foi introduzida em 1828, com o noticiário impresso mineiro “A Mentira”, que trazia em sua edição a morte do colonizador português Dom Pedro I imperador brasileiro de 1822 a 1831 na capa e foi em 1º de abril.           

      

Mas não são apenas as pessoas que contam mentiras no 1º de abril. Empresas entenderam o potencial de marketing e a oportunidade de engajamento das “pegadinhas” para aumentar a visibilidade no mercado e passaram, desde o século passado, a participar da celebração. Entre os mais conhecidos exemplos está a emissora pública britânica BBC, que tradicionalmente prega peças no público desde a década de 1930. Em uma das memoráveis brincadeiras, a BBC afirmou que o governo do Reino Unido trocaria o mecanismo de ponteiros do Big Ben - o relógio mais famoso do mundo e símbolo nacional - por um mostrador digital. A mentira, veiculada em 1980, ainda prometeu que a primeira pessoa a ligar para a rádio ganharia os antigos ponteiros do grande relógio como lembrança. A ação gerou milhares de ligações e cartas e acabou causando problemas à emissora, que teve que explicar a manobra durante a programação nas semanas seguintes. Nos Estados Unidos, em 1992, a National Public Radio (NPR), também uma emissora pública de comunicação, veiculou entrevista do comediante Rich Little em que ele se passava pelo ex-presidente Richard Nixon. No quadro, chamado “Conversa da Nação”, o personagem afirmava categoricamente que se candidataria novamente à Presidência naquele ano. O problema é que Nixon, figura política controversa, havia renunciado durante processo de impeachment em 1974 pelo envolvimento no escândalo de Watergate, o que no âmbito da comunicação social gerou revolta nos ouvintes. 

A emissora ficou com todas as linhas telefônicas congestionadas até que, em determinado momento, foi anunciada a pegadinha do Dia dos Tolos. A Amazon, a maior loja online do mundo, também celebra o Dia da Mentira com brincadeiras que, muitas vezes, confundem os usuários. Em 2015, a Amazon reverteu sua página principal para a versão de 1999 - época em que a internet ainda era rudimentar. Até descobrirem a brincadeira, os usuários deveriam passar pela experiência de “túnel do tempo” na navegação do site.  Apesar da permissão lúdica no dia 1º de abril, a mentira pode se tornar hábito e degradar relações sociais. Em tempos de ampla difusão de conteúdos na internet, uma mentira pode ser considerada até mesmo fake News - notícias falsas ou com dados manipulados deliberadamente para enganar ou enviesar as conclusões do leitor - e ser punida legalmente. Para o psiquiatra Ilton Castro, existem diferentes níveis de mentira: há aquelas que suavizam realidades e as que são usadas para usufruir benefícios em detrimento de outras pessoas. Há também a condição psicológica conhecida como mitomania, definida pelo uso compulsivo de mentiras. - “No jogo social, é normal mentir ou omitir alguma coisa, mas existem casos considerados sérios. A mentira aparece como um hábito. O mitomaníaco mente e acredita no que diz. A fantasia vira realidade e ganha enredos intermináveis. A mentira cresce”. O uso exacerbado de mentiras pode indicar transtorno de personalidade e fragilidades psicológicas que necessitam ser trabalhadas.

O antigo curso primário (5 anos) e ginasial (4 anos) foram fundidos e renomeados como primeiro grau, com oito anos de duração. o antigo curso científico foi fundido com o clássico e passou a ser denominado segundo grau, com três anos de duração. O curso universitário passou a ser denominado terceiro grau. Essa reforma eliminou um ano de estudos, fazendo com que o Brasil tivesse apenas 11 níveis até chegar ao fim do segundo grau enquanto países europeus e o Canadá possuem um mínimo de 12 níveis. Documentos obtidos pelo WikiLeaks mostram que nas ações da USAID na Venezuela, entre os anos de 2004 e 2006, houve intenções de desestabilizar o governo do país. A USAID fez uma doação de 15 milhões de dólares a várias organizações civis, com o intuito de impulsionar a estratégia do ex-embaixador de Washington na Venezuela, William Brownfield, baseada em provocar uma fratura interna no chavismo, e em organizar os setores descontentes com as reformas realizadas pelo Partido Socialista Unido da Venezuela. Em 3 de abril de 2014, a imprensa revelou que de 2009, a USAID organizou e participou ativamente em uma operação secreta americana para derrubar o governo de Cuba, com a criação de uma rede de comunicação, similar ao twitter visando provocar uma “Primavera Cubana”.

O programa foi financiado pelo governo dos Estados Unidos da América e criou uma rede supostamente independente, mas na verdade falsa, com o objetivo de criar “uma comoção e incitar uma revolta popular levando a queda do governo cubano”. O programa, chamado de ZunZuneo, armazena dados estritamente pessoais dos assinantes cubanos e informações demográficas, com seu gênero, idade, receptividade e tendências políticas. O nome ZunZuneo se relacionada ao nome do pássaro colibri em Cuba - o zunzún. O projeto foi iniciado em 2009, depois da prisão do americano Alan Gross, que executava missão clandestina da United States Agency for International Development em Cuba e   foi condenado à prisão quando foi descoberto. Os usuários não sabiam que o projeto foi criado por uma agência dos Estados Unidos da América ligada ao Departamento de Estado, nem que os americanos coletaram informações pessoais sobre eles para que esses dados fossem usados para fins políticos. Os organizadores do ZunZuneo criaram o que parecia ser um negócio legítimo. Fizeram um portal de internet, e uma campanha, de maneira que os usuários pudessem se inscrever e enviar suas próprias mensagens de texto a grupos de sua escolha. Seus contratantes omitiram que o projeto tinha ligações diretas com Washington D. C.

Para tal, criaram uma rede de empresas de fachada com sede em Espanha e contas bancárias nas Ilhas Cayman, na tentativa de esconder as transações financeiras e recrutaram executivos de empresas privadas para fazer parte da fachada do projeto, de forma que não ficasse claro que o projeto foi financiado com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos e estava sendo executado pela USAID. – “Não será mencionada a participação do governo dos Estados Unidos”, disse um relatório da empresa Mobile Acord, uma das empresas que colaborou com o programa como contratadas. - “É absolutamente crucial para o êxito a longo prazo do serviço e para garantir o cumprimento da missão”. A revelação do programa veio confirmar afirmações anteriores de Raúl Castro que em janeiro de 2014, havia afirmado que havia tentativas contra de introduzir o capitalismo neocolonial em Cuba. As atividades em Cuba se assemelham as atividades reveladas em 2013 pelo jornal Der Spiegel, com base em documentos revelados por Edward Snowden, um analista de sistemas, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da National Security Agency (NSA) que tornou públicos detalhes de programas do sistema de vigilância global da NSA americana, referentes as Campanhas EFFECTS (Operações confidenciais), do GCHQ britânico.

O sítio Muduru, localizado no bairro dos Alves, na cidade de Ibiúna, na Serra de São Sebastião a 70 km da capital de São Paulo, tornou-se destaque nas páginas dos jornais publicados em outubro de 1968, dentro e fora do Brasil, por ter sido escolhido para abrigar em torno de 700 estudantes no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). É uma organização estudantil representante de alunos do Ensino Superior do país, tendo sede em São Paulo, além das regionais no Rio de Janeiro e Goiás. Fundada em 11 de agosto de 1937, a instituição desempenha um papel singular na política desde o início do século XX, especialmente aqueles ligados à esquerda política. Essa propriedade, que pertencia a Domingos Simões, também chegou a ser utilizada para abrigo de militantes e disponibilizada ao congresso, após uma reunião com Therezinha Zerbini fundadora do Movimento Feminino pela Anistia e Frei Tito de Alencar, frade dominicano e estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo. A luta estudantil contra os governos autoritários, com o golpe de Estado de 1° de abril de 1964 contra o governo popular democrático de João Goulart (1919-1976), teve início nos primeiros momentos de ação política do golpe civil-militar.

As atividades ideológicas e sociais da “elite orgânica”, na expressão de Dreifuss (1981: 231 e ss.), consistiam em doutrinação geral e doutrinação específica, ambas coordenadas com atividades político-ideológicas mais amplas no Congresso, sindicatos, movimento estudantil e clero. A doutrinação geral visava a apresentar as abordagens da elite aos responsáveis por tomadas de decisão políticas e ao público em geral, assim como causar um impacto ideológico em públicos selecionados e no aparelho do Estado. A doutrinação geral através da mídia era realizada pela ação encoberta e ostensiva, de forma defensiva e defensiva-ofensiva, onde conflitos e tensões subsistem de forma necessária. Nessas situações, não há alternativas senão na confiança recíproca. Constituía-se basicamente numa medida neutralizadora. Visava infundir ou fortalecer atitudes e pontos de vista tradicionais na esfera de ação política de direita e estimular percepções negativas do bloco popular nacional-reformista. No ordenamento jurídico brasileiro, a abordagem pessoal por qualquer agente de segurança só é permitida quando há razões, concretas e objetivas, para a suspeita de que o indivíduo esteja portando bem ilícito ou praticando algum desvio ou delito.

Ela atacava o comunismo, o socialismo, a oligarquia rural e a falsa ideia de “corrupção” do populismo. No aspecto positivo, argumentava que a prosperidade do país e a melhoria dos padrões de vida do povo se deviam à iniciativa privada e não se deviam, certamente, a métodos socialistas ou à inversão do Estado na economia. Sua abordagem negativa podia ser vista na sua utilização de uso socialmente de uma mesclagem de técnicas sofisticadas e uma grosseira propaganda anticomunista, constituindo uma pressão ideológica, que explorava representativamente o chamado “encurralamento pelo pânico organizado”. O objetivo geral da doutrinação específica era modelar as várias frações das classes dominantes e diferentes grupos sociais das classes médias em um momento de opinião com objetivos em curto prazo amplamente compartilhados, qual seja, a destruição de João Goulart da presidência e a contenção da mobilização popular,  às demandas históricas das esquerdas e, ipso facto pregadas por ele mesmo: as reformas de base. A elite institucionalmente publicava, diretamente ou através das editoras, uma série de trabalhos, incluindo livros, panfletos, periódicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o rádio e a televisão com mensagens ideológicas.

Frei Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza, em 14 de setembro de 1945 e morreu enforcado em Éveux, em 10 de agosto de 1974. Foi um frade católico alvo de perseguição da ditadura militar após ser fichado pela polícia devido a sua participação no Congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), no ano de 1968. Nasceu em Fortaleza e estudou no Liceu do Ceará. Sua militância se iniciou na União Cearense de Estudantes Secundaristas e, em 1963, mudou-se para Recife, após ser escolhido como dirigente regional da região nordeste da Juventude Estudantil Católica (JEC). Em 1966, ingressou no noviciado dos dominicanos em Belo Horizonte, e fez a profissão dos votos no ano seguinte. Em 1968 mudou-se para São Paulo para estudar filosofia na Universidade de São Paulo e no mesmo ano, no dia 12 de outubro, foi preso por participar do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna após ser fichado pela polícia e se tornar alvo de perseguição da ditadura militar. Foi preso pela segunda vez dia 4 de novembro de 1968 junto com outros companheiros da ordem dos dominicanos de Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social.                        

Nessa ocasião foi acusado junto aos outros presos, de manter contatos com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e seu dirigente, Carlos Marighella, um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura. Frei Tito foi submetido à palmatória e choques elétricos. Posteriormente foi transferido para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até 17 de fevereiro de 1970 e, em seguida, nas mãos da Justiça Militar, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes (Oban). Na prisão, Frei Tito escreveu sobre a tortura com a qual conviveu, quando este documento se transformou em um símbolo da luta pelos direitos humanos. Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um grupo de luta armada brasileira de extrema-esquerda que lutou contra a ditadura militar brasileira, visando à instauração de um governo de cunho socialista no país. Frei Tito foi banido do Brasil pelo governo militar de Emílio Garrastazu Médici seguindo para o Chile. Sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde recebeu apoio afetivo dos dominicanos. Traumatizado pela tortura, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico e, no dia 10 de agosto de 1974, cometeu suicídio.

No dia 1º de abril de 1964 a sede da União Nacional dos Estudantes foi invadida e incendiada por militares comandados pelo presidente cearense marechal Humberto Castelo Branco. A Lei Suplicy de Lacerda, decretada em novembro de 1964, colocou a UNE na clandestinidade. O novo regime político organizado em abril de 1964 tinha no movimento estudantil um forte elemento de antagonismo, razão por que o governo procurou substituir as entidades estudantis existentes, regidas pelo Decreto Café Filho, de 1955, por outras, controladas direta ou indiretamente pelo Ministério da Educação. O instrumento criado pelo Estado de Exceção dessa tentativa de controle foi baseado na Lei nº 4.464, de 9 de novembro de 1964, reconhecida como Lei Suplicy, devido ao nome do ministro da Educação que a patrocinou, Flávio Suplicy de Lacerda. Os acontecimentos posteriores a 1968, quando o regime assumiu sua feição ditatorial por meio do AI-5, fizeram com que se desse pouca importância à natureza da violência surgida a partir de 1964 e ao modo como ela foi enfrentada pelo governo Castello Branco. Ali estava a gênese da tortura e, frequentemente coberta por uma definição imprecisa do conceito nas legislações de organizações militares, sobretudo, de uma política que arruinaria as instituições políticas e militares do país.

Art. 1º: - Os órgãos de representação dos estudantes de ensino superior, que se regerão por esta Lei, têm por finalidade: a) defender os interesses dos estudantes; b) promover a aproximação e a solidariedade entre os corpos discente, docente e administrativo de ensino superior; c) preservar as tradições estudantis, a probidade da vida escolar, o patrimônio moral e material das instituições de ensino superior e a harmonia entre os diversos organismos da estrutura escolar; d) organizar reuniões e certames de caráter cívico, social, cultural, científico, técnico, artístico, e desportivo, visando o aprimoramento da formação universitária. Art. 2º - São órgãos de representação dos estudantes de ensino superior: a) o Diretório Acadêmico (D.A.), em cada estabelecimento de ensino superior; b) o Diretório Central de Estudantes (D.C.E.), em cada Universidade; c) o Diretório Estadual de Estudantes (D.E.E.), em cada capital de Estado, Território ou Distrito Federal, onde houver mais de um estabelecimento de ensino superior; d) o Diretório Nacional de Estudantes (D.N.E.), com sede na Capital Federal. E, principalmente: Art. 14. É vedada aos órgãos de representação estudantil qualquer ação, manifestação ou propaganda de carácter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares.

Flávio Suplicy de Lacerda foi ministro da Educação no governo Castelo Branco (cf. Figueiredo, 1980), de 15 de abril de 1964 a 8 de março de 1965, e de 22 de abril de 1965 a 10 de janeiro de 1966. Durante sua gestão no Ministério de Educação e Cultura, estabeleceu um acordo de cooperação com a United States Agency for International Development, que visava transformar o ensino brasileiro num projeto tecnocrático. Essa estratégia político-ideológica foi reconhecida como um Acordo institucionalizado. Com ele as universidades seriam as maiores afetadas. Redutos de manifestações estudantis nos mais diversos matizes da esquerda brasileira, as universidades eram vistas “pelo comando da ditadura militar como focos de subversão ao regime”. O acordo serviria para transformar o jovem ensino superior brasileiro não mais numa formação crítica do cidadão na sociedade, mas tão somente em cursos de formação meramente profissional e técnica. Nessa mesma conjuntura golpista, surgiram os primeiros rumores de privatização das universidades federais e estaduais, que, tal qual todo o projeto previsto no acordo norte-americano, revoltou os estudantes. Com a crise de hegemonia civil-militar, o movimento estudantil brasileiro entrou na sua fase mais aguerrida, com uma série de revoltas realizadas entre 1966 e 1968, ano de seu auge nas organizações. Vários desses conflitos tiveram vítimas fatais entre os estudantes.

A lei determinava que os diretórios acadêmicos (DA) continuariam tendo existência obrigatória nos estabelecimentos de ensino público superior. Os estudantes das universidades teriam seu Diretório Central de Estudantes (DCE) composto de representantes dos diretórios. Estes se reuniriam, também, para organizar os Diretórios Estaduais de Estudantes (DEE), os quais, por sua vez, comporiam, por meio de representantes, o Diretório Nacional de Estudantes (DNE). A lei “assegurava” a participação de representantes discentes junto aos órgãos de deliberação coletiva e aos departamentos das instituições de ensino superior, designados pelos estudantes. Atendia, também, antiga reivindicação do movimento estudantil, tornando obrigatório o voto para a eleição das diretorias. Em compensação, vedava aos órgãos de representação estudantil “qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”, cujo objetivo, ainda que indireto, seja a promoção de uma pessoa, um partido político ou uma ideologia partidária.

 Mas em contrapartida a lei procurava limitar e desacelerar a participação social das diretorias das entidades estudantis, tornando inelegíveis “os estudantes repetentes, dependentes ou matriculados em regime parcelado, proibindo o abono de faltas pela participação nos diretórios”. Ao contrário do que acontecia com as entidades estudantis gerindo seu processo eleitoral, a lei determinava que as eleições para os diretórios devessem “ser acompanhadas por um professor designado pela direção da escola ou da universidade”. A fiscalização do cumprimento da lei deveria ser feita pelas Congregações ou Conselhos Departamentais, para os diretórios; pelos Conselhos Universitários (CU), no caso do Diretório Central do Estudantes (DCE), e pelo Conselho Federal de Educação (CFE), instituído pela lei nº 4024/61 reconhecida como Lei de Diretrizes e Bases de/1961, no caso respectivo do DEE e DNE. As universidades e as entidades estudantis deveriam adaptar seus Estatutos à lei em 60 dias. Sobre a determinação militar, a lei estipulava que os diretores de faculdade ou reitores de universidades incorreriam em “falta grave” se permitissem ou tolerassem o não cumprimento das normas por ação ou por omissão.

Diante da Lei Suplicy, os estudantes precarizaram as atividades políticas e se dividiram. Uma corrente era favorável à participação nos “Diretórios oficiais” mantendo-se ou não entidades “livres” paralelas. Outros defendiam o boicote aos “Diretórios oficiais”, anulando seus votos nas eleições obrigatórias. Esta última posição prevaleceu, fazendo com que após a contenção política iniciada pela promulgação do Ato Institucional nº 5, o Decreto Aragão, sucessor da Lei Suplicy, fosse aplicado com mais intensidade. Edson Luís de Lima Souto nascido em Belém, em 24 de fevereiro de 1950 e assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968.  foi um estudante secundarista morto, durante confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5. Nascido em uma família pobre, iniciou os estudos na Escola Estadual Augusto Meira em Belém, no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço.

Em 28 de março de 1968, os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para protestar contra a alta do preço da comida no restaurante Calabouço, que deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia.  Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo. Os estudantes se abrigaram dentro do restaurante e responderam à violência policial utilizando paus e pedras. Isso fez com que os policiais recuassem e a rua ficasse deserta. Quando os policiais voltaram, tiros começaram a ser disparado do edifício da Legião Brasileira de Assistência (LBA), o que provocou pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais acreditavam – não se sabe por qual razão, que os estudantes iriam atacar a Embaixada dos Estados Unidos e invadiram o restaurante. Durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o secundarista Edson Luís “com um tiro a queima roupa no peito”. Outro estudante, Benedito Frazão Dutra, também baleado, chegou a ser levado ao hospital, mas morreu. Temendo que a PM sumisse com o corpo, os estudantes não permitiram que ele fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado. A necropsia foi feita no próprio local pelos médicos Nilo Ramos de Assis e Ivan Nogueira Bastos na presença do Secretário de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. Óbito n° 16.982 teve como declarante o estudante Mário Peixoto de Souza.

O registro de ocorrência n° 917 da 3ª Delegacia de Polícia informou que, no tiroteio ocorrido no restaurante Calabouço, outras seis pessoas ficaram feridas: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra (que morreu logo depois), Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto. Todos foram atendidos no Hospital Souza Aguiar. No período que se estendeu do velório até a missa da Igreja da Candelária, realizada em 2 de abril foram mobilizados protestos em todo o país. Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade São Francisco, na Escola Politécnica da Universidade de Sao Paulo e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.  O Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais, À queima roupa e Coração de Luto. Centenas de cartazes foram colados nas paredes e postes da Cinelândia com frases como: “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”. Edson Luis foi enterrado ao som do Hino Nacional, cantado pela multidão em vigília.

Diante do quadro de terror/horror no início de 1970, poucos eram os estabelecimentos de ensino superior onde existiam diretórios acadêmicos “oficiais” ou “livres”. Foi só a partir de 1973, que os estudantes começaram a organizar entidades livres que vingaram, instituindo o voto direto para o DCE, e fazendo as entidades “oficiais” saírem dos limites da Lei Suplicy. A lei determinava que os diretórios acadêmicos continuariam tendo existência obrigatória nos estabelecimentos de ensino superior. Os estudantes das universidades teriam seu Diretório Central de Estudantes composto de representantes dos diretórios acadêmicos. Estes se reuniriam, também, para organizar os diretórios estaduais de estudantes que comporiam, por representantes, o Diretório Nacional de Estudantes. Durante a ditadura militar, o movimento estudantil ocupou um espaço destacado na estratégia política ao regime. Manifestações coordenadas pela UNE denunciaram os problemas da educação e expuseram os tempos sombrios do regime. Todos os eventos políticos da entidade eram organizados e realizados em clandestinidade.

 A primeira ação da ditadura militar brasileira ao tomar o poder em 1964 e depor o presidente João Goulart (1961-1964) foi metralhar, invadir e incendiar a sede da UNE, na Praia do Flamengo 132, na fatídica noite de 30 de março para 1º de abril. Ficava clara a dimensão do incômodo que os militares golpistas e os grupos elitistas conservadores sentiam em relação à entidade. A ditadura perseguiu, prendeu, torturou e executou centenas de brasileiros, muitos deles estudantes. O regime militar retirou legalmente a representatividade da UNE por meio da Lei Suplicy de Lacerda e a entidade passou a atuar na ilegalidade. As universidades eram vigiadas, intelectuais e artistas reprimidos, o Brasil escurecia. Em 1966, um protesto em Belo Horizonte na Faculdade de Direito é brutalmente reprimido. No mesmo ano, também na capital mineira, a UNE realiza um congresso clandestino porão de uma igreja. Já no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina da UFRJ, a ditadura reprimi com violência os estudantes no episódio conhecido como Massacre da Praia Vermelha. A UNE continuou a existir nas sombras da ditadura, em firme oposição ao regime, como aconteceu no ano de 1968, marcado por revoluções culturais e sociais em quase todo o mundo ocidental. 

  Decorre daí que estudantes e artistas engrossaram a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, pedindo democracia, liberdade e justiça. No entanto, os militares endureciam a repressão em episódios como o assassinato do estudante secundarista Édson Luis e a invasão do Congresso da UNE em Ibiúna (SP), com a prisão de cerca de mil estudantes. No fim do mesmo ano, a proclamação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) indicava uma violência ainda maior. Nos anos seguintes, a ditadura torturou e assassinou estudantes como a militante Helenira Rezende e o presidente da UNE, Honestino Guimarães, perseguido e executado durante o período de clandestinidade da entidade. Mesmo assim, o movimento estudantil continuou nas ruas, como nos atos e missa de 7º dia da morte do estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, em 1973. Ao final dos anos 1970, com os primeiros sinais de enfraquecimento do regime militar, a UNE começou a se reestruturar. O Congresso de reconstrução da entidade aconteceu Salvador, em 1979, reivindicando mais recursos para a universidade, defesa do ensino público e gratuito, assim como pedindo a libertação de estudantes presos do Brasil. No início dos anos 1980, os estudantes tentaram também recuperar sua sede na Praia do Flamengo, mas foram duramente reprimidos e os militares demoliram o prédio.

Na manhã de 4 de abril foi realizada um missa na Igreja da Candelária em memória de Edson. Após o término da missa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da Polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas. Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la. A missa foi celebrada com cerca de 600 pessoas.  Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo com os sabres desembainhados, mas atrás estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS. Num ato de coragem, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” da porta da igreja até a Avenida Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria militar em represália aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas apertadas da Candelária. O saldo negativo foi de dezenas de pessoas feridas. Percebe-se a impossibilidade de se ver o menino que vivia na rua, como uma criança ou a adolescente. Ele era visto como “menor”. Foram mortas crianças, adolescentes e jovens que viviam à margem de tudo que a sociedade imaginava constituir a infância. Eram nomeadas “de rua”. Como se o traço humano, o nascimento, fosse subtraído. Não tinham nomes, família, humanidade. Nasciam e morriam nas ruas.

A maior parte dos membros participantes do 30º Congresso estava dormindo quando a polícia chegou ao sítio Muduru, na pequena cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo. Por volta das 7h30 daquele sábado, dia 12 de outubro de 1968, agentes do Departamento de Ordem Política e Social invadiram à propriedade acompanhados por homens armados da Força Pública, como eram denominadas as tropas estaduais. Após anunciar o cerco com disparos de metralhadora, os policiais prenderam 739 estudantes que estavam hospedados no sítio para os debates do encontro.  Os estudantes tornaram-se alvo do Aparato Repressivo de Estado (ARE). Muitos foram monitorados, fichados, presos, torturados e mortos. O histórico da repressão militar em Sorocaba e região destaca o episódio icônico daquela conjuntura, a prisão de quase mil estudantes em outubro de 1968, num sítio em Ibiúna, durante o 30º Congresso Nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE), dissolvido por ação conjunta de 215 policiais da Força Pública e do temido DOPS, comandado pelo coronel da PM de Sorocaba, Divo Barsotti do 7º Batalhão Policial.  O 30º Congresso da UNE foi finalizado com a invasão do sítio pela polícia às 07 horas e 15 minutos da manhã de 12 de outubro de 1968. - “Todos foram presos”, foi a frase utilizada pela imprensa para destacar o resultado da operação policial, que prendeu quase todos os estudantes participantes.

 A comissão criada pelo governo para definir o valor de indenização a ser paga a União Nacional dos Estudantes (UNE), pela perda de sua sede durante a ditadura, em 1964, estipulou em R$ 44,6 milhões a reparação. Esta é a primeira reparação coletiva do Estado brasileiro quando foram depositados R$ 30 milhões desse montante na conta da entidade. A segunda parcela restante, de R$ 14,6 milhões, foi também paga em 2011. O governo reconheceu a responsabilidade do Estado pelo incêndio que destruiu a sede da UNE. A comissão trabalhou durante 60 dias e apresentou seu Parecer aos ministros da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e ao ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci. Os dois acataram o Parecer da comissão. A lei sancionada por Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) previa indenização de até R$ 97,2 milhões, montante que representa seis vezes o valor do terreno, mas avaliado por baixo do valor de mercado pela Caixa Econômica Federal em torno de R$ 16,2 milhões. O valor fixado pela comissão representa pouco menos da metade do limite da lei. A indenização foi paga pela Comissão de Anistia. O presidente Lula participou de um ato simbólico de inauguração da pedra fundamental da reconstrução do prédio, na Praia do Flamengo. O projeto da arquitetura do prédio foi uma doação de Oscar Niemeyer (1907-2012).

A canção Menino, composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no álbum Geraes (1976), e também por Elis Regina nas apresentações e no disco Saudade do Brasil (1980), refere-se a Edson Luís. A canção “Coração de Estudante”, composta por Wagner Tiso inicialmente sob o nome de “Tema de Jango” para um documentário sobre João Goulart, ganhou letra de Milton Nascimento lembrando a tragédia de Edson Luís e a canção foi rebatizada como “Coração de Estudante”. A canção foi gravada no álbum “ao vivo” em 1983. Em 28 de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao estudante Edson Luís na Praça Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua Santa Luzia, no Rio de Janeiro. O trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, passou a ser reconhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto. A trágica cena do seu violento assassinato foi representada na novela do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Amor e Revolução, no dia 28 de setembro de 2011. Foi escrita por Tiago Santiago, com colaboração de Renata Dias Gomes, Miguel Paiva e Elliana Garcia, e dirigida por Reynaldo Boury, Luiz Antônio Piá e Marcus Coqueiro e produção-executiva de Sérgio Madureira. A ditadura militar é o tema da trama, as consequências do golpe militar no país entre os anos 1960 até o final dos anos 1980, envolvendo a moda, a música, a expansão da televisão na vida. Foram investidos 25 milhões de reais na produção da novela, entre cenários, a compra de novos equipamentos e gravações em externas.

Bibliografia Geral Consultada.

FIGUEIREDO, Eurico de Lima, Os Militares e a Democracia (Análise Estrutural dos Discursos do Presidente Castelo Branco). Dissertação de Mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia). Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 1975; Idem, Os Militares e a Democracia. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1980; LAQUEUR, Thomas, Inventando O Sexo: Corpo e Gênero dos Gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001; WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2003; YAXLEY, Susan, ed., O Cerco de King`s Lynn. Larks Press Publisher, 2009; MAIA JUNIOR, Edimilson Alves, Memórias de Luta: Ritos Políticos do Movimento Estudantil Universitário (Fortaleza, 1962-1969). Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará, 2008; PAULA, Gil César Costa de, A Atuação da União Nacional dos Estudantes – UNE: Do Inconformismo à Submissão do Estado (1960-2009). Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2009; MULLER, Angélica, A Resistência do Movimento Estudantil Brasileiro contra o Regime Ditatorial e o Retorno da UNE à Cena Pública (1969-1979). Tese Doutorado em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2010; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; SANTANA, Flávia de Angelis, Movimento Estudantil e Ensino Superior no Brasil: A Reforma Universitária no Centro da Luta Política Estudantil dos Anos 60. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; SOUZA, Eliezer Felix de, Flávio Suplicy de Lacerda: Relações de Poder no Campo Acadêmico/Político Paranaense e o Processo de Federalização e Modernização da Universidade do Paraná (1930-1971). Tese Doutorado em Educação. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2016; ZONATTO, Octávio, “O Adolescente Mais Velho do Brasil”: Investigações sobre as Representações de Dinho Ouro Preto Associadas à Juventude. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2024; OLIVEIRA, Laura Beatriz Alves de, “As Inquietações Sociais da Morte em Hieronymus Bosch Uma Análise da Obra A Morte do Avarento (1490–1510)”. In: Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade, (37), 2026; e75256; entre outros.