terça-feira, 3 de março de 2026

Reais Jardins Botânicos de Kew – Invenção, Conceito e Sexualidade.

                               Um jardim faz-se de luz e sons - as plantas são coadjuvantes”. Roberto Burle Marx

            

           A divisão do trabalho social não é específica do nível de análise econômico: podemos observar sua influência admirável nas regiões mais distintas da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas no âmbito das universidades. As especulações filosóficas da biologia nos demonstraram, na divisão do trabalho, um fato social de uma tal generalidade que os economistas, que foram os primeiros a mencioná-lo, não haviam podido suspeitar. Não é mais uma instituição social que tem sua fonte na inteligência e na vontade dos homens. Mas um fenômeno de biologia geral, cujas condições, ao que parece, precisam ser buscadas nas propriedades essenciais da disciplina organizada. A divisão do trabalho social passa a aparecer apenas como uma forma particular desse processo geral, e as sociedades, conformando-se a essa lei, parecem ceder a uma corrente de pensamento que nasceu bem antes delas e que arrasta no mesmo sentido todo o mundo vivo. Semelhante fato não pode, evidentemente, produzir-se sem afetar profundamente nossa constituição moral, pois o desenvolvimento do homem se fará em dois sentidos de todo diferentes. Não é necessário demonstrar a gravidade desse problema prático; qualquer que seja o juízo sobre a divisão do trabalho, todo o mundo sabe que ela é e se torna cada vez mais as bases fundamentais da ordem social tanto quanto política.

            Vale lembrar, neste aspecto que a biomatemática é um ramo da biologia que emprega análises teóricas, modelos matemáticos e abstrações dos organismos vivos para investigar os princípios que governam a estrutura, desenvolvimento e comportamento dos sistemas, em oposição à biologia experimental que lida com a realização de experimentos para comprovar e validar as teorias científicas. O campo multidisciplinar é algumas vezes chamado de biologia matemática ou biomatemática para enfatizar o lado técnico-científico matemático, ou biologia teórica para enfatizar abstratamente o lado biológico. Ipso facto, biologia teórica se concentra mais do que nunca no desenvolvimento programático de princípios teóricos para a biologia. Enquanto a biologia matemática se concentra no uso de técnicas matemáticas para estudar sistemas biológicos embora ambos sejam muitas vezes trocados. A biologia matemática visa a representação matemática e modelagem de processos biológicos, utilizando técnicas e procedimentos metodológicos da matemática aplicada. Pode ser útil tanto em pesquisas teóricas e práticas. Descrever sistemas de maneira quantitativa significa que seu comportamento pode ser melhor simulado e, podem ser previstas propriedades que podem não ser evidentes para o experimentador. Uma matéria tem a tendência de manter o seu estado, seja de repouso,  ou de movimento, a não ser que uma força externa influencie.

A massa é uma grandeza que indica a medida da inércia ou da resistência de um corpo de ter seu movimento acelerado. De uma forma geral, podemos associar a massa à quantidade de partículas existentes em uma matéria.  Isso requer modelos matemáticos precisos. Devido à complexidade dos sistemas vivos, a biologia teórica emprega vários campos de domínio de métodos da matemática, e tem contribuído para o desenvolvimento de novas técnicas. A matemática foi usada na biologia já no século XIII, quando Leonardo Fibonacci (1170-1250) usou a famosa série de Fibonacci para descrever uma população crescente de coelhos. No século XVIII, Daniel Bernoulli (1700-1782) aplicou a matemática para descrever o efeito da varíola na população humana. O ensaio de Malthus de 1789 sobre o crescimento da população humana foi baseado no conceito de crescimento exponencial. Há aqui um debate memorável: Pierre François Verhulst (1804-1849) formulou o modelo de crescimento logístico em 1836. Fritz Müller (1822-1897) descreveu os benefícios evolucionários do que é chamado mimetismo Müllerian em 1879, em uma conta notável sendo o primeiro uso de argumento matemático em ecologia evolutiva para mostrar o quão poderoso o efeito da seleção natural seria, a menos que se inclui Malthus s` discussão dos efeitos do crescimento populacional que influenciaram Charles Robert Darwin (1809-1882) e Thomas Malthus (1766-1834) argumentam que tal crescimento seria exponencial, pois os recursos só poderiam crescer aritmeticamente.

                                


O termo biologia teórica ​​foi usado pela primeira vez por Johannes Reinke em 1901. Um texto fundador é On Growth and Form (1917) por D`Arcy Thompson, e outros especialistas incluem Ronald Fisher, Hans Leo Przibram, Nicolas Rashevsky e Vito Volterra. A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos. É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os seres humanos, a Terra é o único corpo celeste onde é reconhecida a existência de vida. O planeta formou-se há 4,56 bilhões de anos, e a vida surgiu na sua superfície depois de um bilhão de anos. Desde então, a biosfera terrestre alterou de forma significativa a atmosfera e fatores abióticos do planeta, permitindo a proliferação de organismos aeróbicos, como a formação da camada de ozônio, que em conjunto com seu campo magnético, bloqueia radiação solar prejudicial, permitindo a vida no planeta. A sua superfície exterior é dividida em segmentos rígidos, chamados placas tectônicas, que migram sobre a superfície terrestre ao longo de milhões de anos. Aproximadamente 71% da superfície é coberta por oceanos de água salgada, com o restante consistindo de continentes e ilhas, contendo lagos e corpos de água que contribuem para a hidrosfera. Os polos do planeta Terra encontram-se majoritariamente cobertos por mantos de gelo ou por banquisas. O interior abstrato permanece ativo e relativamente sólido: um núcleo externo líquido que gera um campo magnético, e um núcleo interno sólido, composto, sobretudo por ferro. 

A Terra interage com objetos em movimento no espaço, em particular com o Sol e a Lua. Orbita o Sol uma vez por cada 366,26 rotações sobre o próprio eixo, o que equivale a 365,26 dias solares ou representa um (01) ano sideral. O eixo de rotação da Terra possui uma inclinação de 23,4° em relação à perpendicular ao seu plano orbital, reproduzindo variações sazonais na superfície do planeta, com período igual a um ano tropical, ou, 365,24 dias solares. Um fato social é questão sociológica ainda mais necessária porque se utiliza essa qualificação sem muita precisão. Ela e empregada correntemente para designar socialmente as relações que se dão no interior de uma sociedade determinada, por menos que apresentem, com uma certa generalidade, algum interesse social. Todo indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente. O sistema de signos de que me sirvo para exprimir meu pensamento, o sistema de moedas que emprego para pagar minhas dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo em minhas relações comerciais, as práticas observadas em minha profissão, etc., funcionam independentemente do uso que faço deles. Que se tomem um a um todos os membros de que é composta a sociedade; o que procede poderá ser repetido a propósito de cada um deles, ou seja, maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam essa notável propriedade de existirem fora das consciências individuais, seja em Friedrich Hegel ou Émile Durkheim. Mas não são apenas exteriores ao indivíduo, como são dotados de uma “força imperativa” e coercitiva em virtude da qual se impõe a ele, quer ele queira, quer não.      

Em se tratando de máximas puramente morais, a consciência pública reprime todo ato que as ofenda através da vigilância que exerce sobre a conduta dos cidadãos. A coerção social, mesmo sendo de forma indireta, continua sendo uma técnica ou estratégia de submissão eficaz. Trata-se de uma ordem de fatos que apresentam características muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele. Por conseguinte, eles não poderiam se confundir com os fenômenos orgânicos, já que consistem em representações e em ações, nem com os fenômenos psíquicos, os quais só tem existência na consciência individual e através dela. Estes fatos constituem, portanto, uma espécie nova, e é a eles que deve ser dada e reservada a qualificação de sociais. Essa qualificação lhes convém; pois é claro que, não tendo o indivíduo por substrato, eles não podem ter outro senão a sociedade, seja a sociedade política em seu conjunto, seja um dos grupos parciais que ela encerra: confissões religiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais, etc. 

É a eles só que ela convém; pois a palavra social só tem sentido definido com a condição de designar unicamente fenômenos que não se incluem em nenhuma das categorias de fatos já constituídos e denominados. Eles representam o domínio próprio da sociologia que não confunde as práticas dos rituais com o sentido. Mas só há fato social onde há organização delineada, normalizada e estritamente definida. O hábito coletivo não existe apenas em estado de imanência nos atos sucessivos que ele determina, mas se exprime de uma vez por todas, por um privilégio cujo exemplo não encontramos no reino biológico, numa fórmula que se repete de boca em boca, que se transmite pela educação, que se fixa através da escrita. Tais são as origens e a natureza das regras jurídicas, morais, dos aforismos e dos ditos populares, dos artigos de fé em que as seitas religiosas ou políticas condensam em crenças, dos códigos de gosto que as escolas literárias estabelecem, etc. Nenhuma dessas maneiras de agir ou de pensar se acha por inteiro nas aplicações que os particulares fazem delas, já que eles podem inclusive existir sem serem atualmente aplicadas. Há certas correntes de opinião que nos impelem, com desigual intensidade, conforme os tempos e os lugares, uma ao casamento, por exemplo, outra, ao suicídio, ou a uma natalidade mais ou menos acentuada. As circunstâncias individuais (o sonho) e coletivas (os mitos, os ritos, os símbolos) que podem ter alguma participação social na produção do fenômeno, neutralizam-se mutuamente e não contribuem para em princípio poder determina-lo. O que esse fato exprime é um certo estado de alma coletiva.

            Um fato social se reconhece, segundo Durkheim (1999), pelo poder de coerção que exerce ou é capaz de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse poder se reconhece, por sua vez, seja pela resistência que o fato opõe a toda tentativa individual de faze-lhe violência. De fato, a coerção é fácil de constatar quando se traduz exteriormente por alguma reação direta da sociedade, como é o caso em relação ao direito, à moral, às crenças, aos costumes, inclusive às modas. Mas, quando, é apenas indireta, como a que exerce uma organização econômica, ela nem sempre se deixa perceber tão bem. A generalidade combinada com a objetividade pode então, ser mais fáceis de esclarecer. Essa segunda definição não é senão outra forma da primeira; pois, se uma maneira de se conduzir, que existe exteriormente às consciências individuais, se generaliza, ela só pode fazê-lo impondo-se. A sociologia não pode desinteressar-se do que diz respeito ao substrato da vida social coletiva. Mas o número e a natureza das partes elementares de que se compõe a sociedade, a maneira como elas estão dispostas, o grau de coalescência a que chegaram, a distribuição estatística da população pela superfície do território, o número e a natureza das vias de comunicação, a forma das habitações, etc.  não parecem capazes, num primeiro exame, de se reduzir sociologicamente aos modos de agir, de sentir ou de pensar.  No plano abstrato da teoria, a sociologia não confunde a prática dos rituais com seu sentido. A palavra função é empregada de duas maneiras bastante diferentes.               

Designa um sistema de movimentos vitais, fazendo-se abstração das suas consequências, ora exprime a relação de correspondência que existe entre esses movimentos e algumas necessidades sociais. Perguntar-se qual é a função da divisão do trabalho é, portanto, a que necessidade ela corresponde; quando tivermos “resolvido” essa questão, poderemos ver se essa necessidade é da mesma natureza que aquelas a que correspondem outras regras de conduta cujo caráter moral não é discutido. De todos os elementos da civilização, a ciência é o único que, em certas condições, apresenta um caráter moral. De fato, as sociedades tendem mais a considerar um dever para o indivíduo desenvolver sua inteligência, assimilando as verdades científicas que são estabelecidas. Não é impossível entrever de onde vem esse privilégio especial da ciência. Ela nada mais é do que a consciência, desde Hegel, Marx, Lukács, elevada a seu mais alto ponto de clareza. Quanto mais obscura uma consciência, para Durkheim, mais refratária à mudança, porque não vê o que é necessário mudar, nem em que sentido é preciso mudar. 

Uma consciência esclarecida sente, compreende e sabe de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança. Eis por que é necessário que a inteligência guiada pela ciência, com consciência, adquira importância maior no curso da vida social e coletiva. Mas a ciência, do ponto de vista da divisão do trabalho social, de acordo com Durkheim (2015), que todo mundo é assim chamado a possuir não merece ser designada por esse nome. Não é a ciência, é no máximo sua parte comum e mais geral. Ela se reduz a um pequeno número de conhecimentos indispensáveis, que só são exigidos de todos, aparentemente por estarem ao alcance de todos. A ciência propriamente dita supera infinitamente esse nível vulgar. Ela não compreende apenas o que é vergonhoso ignorar, mas tudo o que é possível saber. Ela não supõe apenas, nos círculos que a cultivam, essas faculdades médias que quase todos os homens possuem, mas disposições especiais. Por conseguinte, não sendo acessível senão a uma elite social, não é obrigatória; é uma coisa útil e bela, mas não é necessária a ponto de a sociedade reclamá-la imperativamente. É vantajoso estar munido dela; nada há de imoral em adquiri-la. É um campo de ação aberto à iniciativa das massas, mas em que ninguém é obrigado a entrar. Costuma-se qualificar de moral tudo o que tem alguma nobreza e algum preço, tudo o que é objeto de aspirações um tanto elevadas, e é graças a essa excessiva abrangência da palavra que se fez a civilização entrar na moralidade. O domínio do ético está longe de ser indeterminado. E todas as regras de ação que se impõem imperativamente à conduta e a que está vinculada uma sanção, mas não vai além disso em qualquer instância.

Contudo, o conceito de “civilização” refere-se a uma grande variedade de ocorrência de fatos: ao nível de tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao de tipo de habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário, ou educacional de vigilância e punição, explicado por Michel Foucault, e satisfatoriamente ao modo como são preparados os diversos tipos de alimentação como compreendemos com Claude Lévi-Strauss. Daí ser sempre difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode descrever como civilização. Ela se resume culturalmente em tudo que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos julga “superior”, para descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou cosmovisão. Sociologicamente representa um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive. É a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo, coletividade ou da sociedade, num dado espaço-tempo e cultura, a respeito de tudo o que existe: sua gênese, sua natureza, suas propriedades.

Uma visão de mundo pode incluir a filosofia natural, postulados fundamentais, existenciais e normativos, ou temas, valores, emoções e ética. A cosmovisão ou visão do mundo continua a ser um conceito complexo e confuso em qualquer cultura, sendo usado de forma muito diferente por cientistas sociais.  No entanto, as crenças centrais da visão mundial são muitas vezes profundamente enraizadas e raramente são refletidas pelos indivíduos e coletividades, e são trazidas à superfície apenas em momentos e formas de crise de fé, de algum modo ocorrentes. Por exemplo, visão de mundo da causalidade como unidirecional, cíclica ou espiral gera um quadro abstrato do mundo que reflete esses sistemas de causalidade. Uma visão unilateral da causalidade está presente em algumas visões de mundo monoteísticas com um começo e um fim e uma única grande força com um único fim, no cristianismo e no islamismo, enquanto que uma visão de mundo cíclica da causalidade está presente na tradição religiosa que é cíclica e sazonal e na qual os eventos e experiências repetem-se em padrões sistemáticos: zoroastrismo, mitraísmo e hinduísmo. Essas visões não apenas subjazem as tradições religiosas, mas outros aspectos do pensamento como a história, teorias políticas e econômicas, e sistemas como a democracia, autoritarismo, anarquismo, capitalismo, socialismo e comunismo.             

         Nada há na civilização que apresente esse critério de moralidade, ela é moralmente indiferente. Se a divisão do trabalho não tivesse outro papel além de tornar a civilização possível, ela participaria da mesma neutralidade moral. Foi por não se ter geralmente atribuído à divisão do trabalho outra função, segundo Émile Durkheim, que as teorias propostas são a tal ponto inconsistentes. Isto é, supondo-se que exista uma “zona neutra” na moral, é impossível que a divisão social do trabalho dela faça parte. Se ela não é boa, é ruim; se não é moral, é uma decadência moral. Se ela não serve para outra coisa, cai-se em insolúveis antinomias, porque as vantagens econômicas que ela apresenta são compensadas por inconvenientes morais, e como é impossível subtrair uma dentre duas quantidades heterogêneas e incomparáveis, não se poderia dizer qual das duas leva a melhor sobre a outra, nem, por conseguinte, tomar partido. Invocar-se-á o primado da moral para condenar radicalmente a divisão do trabalho. Mas não apenas essa última ratio é sempre um “golpe de Estado científico”, como a evidente necessidade de especialização torna tal posição impossível de ser sustentada. 

        Se a divisão do trabalho não cumpre outro papel, ela não só não tem caráter moral, como não se percebe que razão possa ter.  A civilização não tem valor intrínseco e absoluto; o que lhe dá seu preço é o fato de corresponder a certas formas de divisão do trabalho.  Ipso facto, o mais relevante, do ponto de vista sociológico, é o fato de que a experimentação tecnológica normalmente anda lado a lado, desde muito cedo, com experiências relacionadas à organização social. O mais notável efeito da divisão do trabalho não é aumentar o rendimento das funções divididas, como insistem os “burocratas da cultura” a que se referia José Arthur Giannotti, em seus aparelhos de Estado, mas torna-las solidárias. Seu papel social, em todos esses casos, não é simplesmente embelezar ou melhorar sociedades existentes, mas tonar possíveis sociedades que, sem elas, não existiriam. Façam a divisão do trabalho sexual regredir além de certo ponto, socialmente e a questão conjugal desaparece, deixando subsistir relações sexuais eminentemente efêmeras; mesmo se os sexos não fossem separados, toda uma forma da vida social sequer teria nascido. É possível que a utilidade de uso econômica da divisão do trabalho tenha algo a ver com esse resultado, mas, em todo caso, ele supera infinitamente a esfera dos interesses puramente econômicos, pois consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui generis.

Se, com frequência, fez-se as relações sociais a que dá nascimento a divisão do trabalho consistirem apenas na troca, foi por se ter desconhecido o que a troca implica e o que dela resulta. Ela supõe que dois seres dependem mutuamente um do outro, por serem ambos incompletos, e apenas traduz exteriormente essa dependência mútua. Nada mais é que a expressão superficial de um estado interno e mais profundo. Precisamente por ser constante, esse estado suscita todo um mecanismo comunicativo de imagens que funciona como uma continuidade que a troca não possui. É por isso que apreciamos a companhia daquele que ela representa, porque a presença do objeto que ela exprime, fazendo-a passar ao estado de percepção atual, lhe dá maior relevo. Ao contrário, sofremos com todas as circunstâncias que, como a distância ou a morte, podem ter por efeito impedir seu retorno ou diminuir sua vivacidade. Por mais curta que seja a análise, basta para demonstrar que esse mecanismo não é idêntico comparativamente ao que serve dos sentimentos de simpatia, cuja fonte é a semelhança. Sem dúvida, só pode haver solidariedade entre outrem e nós se a imagem desse outrem se une à nossa. 

       Mas quando a união resulta da semelhança das duas imagens, ela consiste numa aglutinação. As duas representações tornam-se solidárias porque, sendo indistintas, no todo ou em parte, se confundem e se tornam uma só coisa, e só são solidárias na medida em que se confundem. Ao contrário, no caso da divisão do trabalho, estão fora uma da outra e só são ligadas por serem distintas. Portanto, os sentimentos não poderiam ser os mesmos nos dois casos, nem as relações sociais que deles derivam. Não temos apenas que procurar se, nessas espécies de sociedades, existe uma solidariedade social proveniente da divisão do trabalho. É uma verdade evidente, pois a divisão do trabalho é muito desenvolvida nelas e produz a solidariedade. Mas é preciso determinar, sobretudo, em que medida a solidariedade que ela produz contribui para a integração geral da sociedade, pois somente então saberemos até que ponto essa solidariedade é necessária, se é um fator essencial da coesão social, ou então, ao contrário, se nada é mais é do que uma condição acessória e secundária. Para responder a essa questão de forma primacial é preciso comparar esse vínculo social aos outros, seja com o grupo tomado coletivamente, a fim de medir a parte que lhe cabe no efeito total, sendo para isso indispensável começar por classificar as diferentes espécies de solidariedade social. A seleção sexual é a seleção natural que surge pela preferência de um sexo por certas características em indivíduos do sexo oposto. 

Trata-se de um conceito comum na evolução dos animais, mas, no caso das plantas, frequentemente é negligenciado, pois muitas são hermafroditas. As angiospermas (plantas com flores) possuem diversas características influenciadas pela seleção sexual. Por exemplo, a simetria das flores, a produção de néctar, a estrutura floral e as inflorescências estão entre as características sexuais secundárias afetadas por esse processo. Diferenças sexuais e órgãos reprodutivos também podem ser moldados pela seleção sexual. Existem dois principais mecanismos de seleção sexual em angiospermas: a competição intra-sexual e a escolha de parceiros pelas fêmeas. A seleção intra-sexual é responsável por grande parte do processo de evolução e diversificação floral. Com o auxílio de polinizadores, esse tipo de seleção também resultou em exemplos notáveis de características exageradas em plantas hermafroditas. Da mesma forma, o dimorfismo sexual provavelmente desempenhou um papel na evolução de diferenças sexuais nas características florais de plantas dioicas e, possivelmente, na evolução de dimorfismos sexuais secundários devido a correlações genéticas com traços florais. A seleção sexual por meio da escolha da fêmea é um conceito talvez mais desafiador de aplicar às plantas. 

Há evidências de que as fêmeas (ou a função feminina em hermafroditas) exercem escolhas, especialmente durante a fertilização. Esses dois mecanismos são as forças principais que impulsionam a seleção sexual em plantas com flores. A simetria floral é frequentemente influenciada pela seleção sexual. As características das flores estão sujeitas a uma forte seleção direcional por parte dos polinizadores, o que pode perturbar a homeostase do desenvolvimento e levar a altos graus de assimetria flutuante. Essa assimetria em traços florais pode resultar em seleção sexual nas plantas se os polinizadores visitarem flores simétricas de maneira preferencial. Diversos estudos demonstraram que polinizadores tendem a visitar padrões florais mais simétricos, e há várias razões possíveis para essa preferência. Primeiro, ela pode surgir de um reforço positivo: os polinizadores podem aprender, por experiência, que flores assimétricas oferecem recompensas comparativamente menores que as simétricas. Em segundo, polinizadores com vieses sensoriais podem estar predispostos a escolher flores simétricas. Essa preferência pode levar a flores simétricas sendo fertilizadas com maior frequência, o que aumenta a produção de sementes e resulta em mais descendentes com flores simétricas e atraentes. Há inúmeros dimorfismos sexuais em plantas com flores. Essas diferenças incluem o aborto de botões, o tamanho das flores, o número de flores por planta, a longevidade floral, o conteúdo nutricional das flores, a produção de néctar, a fenologia e periodicidade da floração, os aromas florais, a defesa contra herbivoria e várias características das inflorescências, como o número total de flores.

 O tamanho da exibição diária e a arquitetura da inflorescência. Em espécies polinizadas por animais, essas diferenças afetam a visitação dos polinizadores, a competição por parceiros e a evolução dos dimorfismos sexuais. No entanto, há limitações em espécies polinizadas por animais, pois uma divergência excessiva pode interferir no sucesso do acasalamento se os polinizadores forem mais atraídos por um sexo do que pelo outro ou se os sexos atraírem polinizadores diferentes. Essas restrições não se aplicam a plantas polinizadas pelo vento, onde os requisitos biofísicos contrastantes para a dispersão e captura de pólen resultaram em casos marcantes de dimorfismo sexual na arquitetura e produção de flores em algumas espécies. A seguir, estão alguns exemplos específicos de dimorfismos sexuais em plantas com flores. As inflorescências podem ser influenciadas pela seleção sexual de várias maneiras, geralmente envolvendo arranjo, número e tamanho. Por exemplo, as inflorescências masculinas em plantas frequentemente produzem mais flores do que as femininas. Além disso, a exportação de pólen e, consequentemente, a paternidade, muitas vezes aumentam com o número de flores, mesmo em plantas com flores hermafroditas. A retenção de flores mais velhas sem recompensas para polinizadores pode aumentar a taxa de visitação e a remoção de pólen. Estudos sugerem que houve seleção para um maior transporte de pólen, alcançado por inflorescências maiores, e parece provável que a competição entre machos seja comumente parte dessa pressão seletiva. As corolas, ou pétalas das flores, também são alvo da seleção sexual. Características como cor, forma, tamanho e simetria frequentemente enfrentam pressões seletivas. 

Um exemplo é que flores masculinas são, em algumas espécies, maiores que as femininas. Embora isso provavelmente seja resultado de mecanismos de alocação de recursos, é improvável que a alocação de recursos baseada no menor custo do androceu em comparação ao gineceu, levando a maior investimento na corola nos machos, explique completamente as diferenças de tamanho. Algum aumento na corola pode surgir por seleção em caracteres correlacionados, como a produção de pólen. No entanto, é provável que a competição entre machos contribua diretamente para a evolução de corolas masculinas grandes, especialmente onde a disponibilidade de pólen não é um fator limitante. A maioria das flores de angiospermas produz néctar. A produção de néctar, isto é, a concentração de açúcar, quantidade, sincrinia em relação às fases de gênero floral varia em cada planta com flores que o produz, sendo influenciada por diversas forças seletivas. Não há uma única força evolutiva que determine a produção de néctar, mas acredita-se que a seleção sexual desempenhe um papel significativo. Estudos sustentam a ideia de que a seleção sexual é uma explicação provável para pelo menos algumas espécies com produção de néctar influenciada pelo gênero. Por exemplo, a expressão de néctar enviesada por gênero frequentemente acompanha uma expressão semelhante de outras características florais. 

Um caso específico vem das flores de Impatiens capensis, que demonstram maior longevidade na fase masculina, mais recompensadora. Em outras espécies, as pétalas podem murchar visivelmente durante a fase feminina menos recompensadora ou mudar de cor ao passar para essa fase. Mais evidências da seleção sexual na produção de néctar dependem de comportamentos genéticos específicos dos polinizadores. Se a seleção sexual mantém a produção de néctar enviesada por gênero, os polinizadores devem distinguir entre flores das fases masculina e feminina, preferencialmente as da fase mais recompensadora. Em espécies com polinizadores discriminatórios, maiores recompensas podem aumentar o sucesso no acasalamento, permitindo que o néctar seja um traço sexualmente selecionado. Os estames, coletivamente conhecidos como androceu, frequentemente enfrentam pressões da seleção sexual. Isso é particularmente evidente na produção de pólen, onde podem existir várias fontes de seleção sexual na forma como o pólen é apresentado aos vetores de polinização. Como o pólen é embalado em unidades que garantem que vários grãos viajem juntos como em polínias, poliedros, fios de viscin, etc., os doadores de pólen podem monopolizar estigmas e os óvulos associados, bloqueando o acesso de outros machos, a menos que a seleção também favoreça o aumento compensatório do estigma. 

A germinação do pólen depende de um número mínimo de grãos para superar a inibição estigmática, um mecanismo que intensifica a competição masculina, pode haver seleção para unidades maiores de dispersão de pólen ou outros mecanismos de liberação. Se as visitas dos polinizadores forem raras, há seleção para embalar o pólen de modo que todo ele seja removido em uma única visita. Quando visitas repetidas são comuns, pode haver seleção para diferentes padrões temporais de apresentação do pólen e métodos de liberação. A variação no comprimento dos estames, tanto dentro quanto entre flores, influencia a dispersão do pólen e o potencial sucesso reprodutivo masculino. Aumentar a oportunidade de paternidade distribuindo pólen entre polinizadores pode seguir caminhos diferentes em sistemas distintos, e qualquer dessas possibilidades pode ser vista no contexto da seleção sexual. O gineceu também é afetado pela seleção sexual. Todas as partes, desde os ovários, estilos, estigma e carpelos, podem enfrentar essas pressões. Na embalagem dos óvulos, a intensidade da competição por pólen depende, em parte, da relação entre o número de grãos de pólen e o número de óvulos. Embora muitos fatores possam determinar o número de óvulos, uma maneira de as fêmeas aumentarem a competição por pólen é reduzir o número de óvulos enquanto mantêm o tamanho do estigma. A evolução da sincarpia funcional, sem outras mudanças associadas, presumivelmente aumenta simultaneamente o número de óvulos acessíveis a partir de um estigma, diminuindo a intensidade da competição por pólen, e concentra a deposição de pólen em um único estigma, aumentando essa competição. 

Aumentos adicionais na competição por pólen poderiam ocorrer por maior entrega de pólen, via mudança de polinizador, maior atratividade do display floral ou recompensas, redução no número de óvulos ou tamanho do estigma, alterações nos padrões temporais de receptividade do estigma ou mudanças no ambiente competitivo do carpelo. Kew é um distrito do borough de Richmond upon Thames, localizado a Sudoeste de Londres. É famoso por ser a sede dos Jardins Botânicos Reais de Kew, do Kew Palace e dos Arquivos Nacionais do Reino Unido. O distrito apresenta diversas lojas junto à estação dos jardins reais, diversos restaurantes e cafés, e uma mistura de vendedores ambulantes. A maior parte de Kew se desenvolveu no final do século XIX com a chegada da linha District do metrô de Londres, e sua característica são as grandes casas separadas ou semi-separadas demograficamente. É uma zona residencial de padrão elevado devido, em parte, ao acesso fácil às linhas de transporte e a proximidade com os jardins reais. Kew é reconhecido também por alguns de seus habitantes famosos, como o ator Ray Brooks (1939-2025) e a jornalista de televisão da BBC Sophie Jane Raworth. Ela é uma apresentadora de notícias sênior e uma das principais apresentadoras do BBC News (BBC News at Six e BBC News at Ten). Ela já apresentou programas de televisão em ocasiões de Estado e também apresentou a cobertura da BBC na noite das eleições, ao lado de outros apresentadores.  Em 2015, ela se tornou a nova apresentadora do programa de defesa do consumidor Watchdog e, em 2016, começou a apresentar o Crimewatch, ambos na BBC One. 

O nome Kew é a combinação de duas palavras: “quay” derivada de “kai”, que no francês antigo significa “lugar de ancoragem ou ancoradouro”, e do antigo inglês “hoh” que significa “dente de terra”. O dente de terra é a curvatura do Rio Tamisa. O nome foi registrado em 1327 como “Cayho”. A igreja de Kew, devotada a Santa Ana, em inglês: Saint Anne`s Church foi consagrada em 1714 em memória da Reina Ana da Grã-Bretanha. Em seu cemitério, tem as sepulturas dos artistas de Thomas Gainsborough (1727-1788) e Johann Zoffany (1733-1810), e dos botânicos e diretores dos Jardins Reais de Kew de William Jackson Hooker (1785-1865) e seu filho Joseph Dalton Hooker (1817-1911). O duque Adolfo de Cambridge e a sua mulher Augusta de Hesse-Cassel (1797-1889) eram sepultados em um mausoléu a Leste da igreja até de ser trasladados na Capela de São Jorge de Windsor no ano 1930. A origem do conceito de um jardim semelhante ao atual Jardim Botânico é discutida por diversos autores, mas, em geral, pode ser rastreada até a Antiguidade, historicamente, desde o Jardim Botânico de Karnak, do faraó egípcio Tutmés III, até a coleção de plantas medicinais durante o período ateniense, que decorreu entre 450 a 400 a.C. constituiu o período áureo da grande Atenas. Foi um período de mudanças políticas e sociais profundas com uma divisão do trabalho distinguindo hic et nunc uma atividade intelectual e artística intensa. No séc. V a.C., Atenas foi, na realidade, a maior das cidades-estados gregas. por exemplo, Teofrasto, no século IV a. C., ou o período romano de jardim fechado, designado como hortus conclusus. Nos dias do Novo Reino Egípcio, a Rainha Hatshepsut decidiu enviar expedições à misteriosa terra de Punt na atual Somália.

No Antigo Egito os anos eram contados a partir da ascensão de um novo soberano ao poder. Hatshepsut não seguiu esta tradição, tendo preferido inserir-se nos anos de Tutemés III. No ano 7, Hatshepsut deixa de ser rainha, assumido os cinco nomes que estavam reservados aos faraós. Para legitimar a sua posição, Hatshepsut, junto com os membros do clero de Amom, recorreu a um relato que fazia de si filha do deus Amom-Rá (teogamia). Nas paredes do templo funerário de Hatshepsut, em Deir Elbari, está representado o episódio que relata a concepção e nascimento da rainha-faraó. A mãe de Hatshepsut, Amósis, encontra-se no palácio real. O deus Amom-Ra observa-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decide que chegou à altura de gerar um novo faraó. O deus toma a aparência do rei Tutemés I, encontrando-a no quarto adormecida. A rainha acorda ao sentir o perfume que emana do corpo do esposo e o Deus Amom-Rá se mostra em toda sua plenitude, Ahmose, cai aos prantos em emoção pela grandiosidade do Deus. O casal une-se sexualmente e depois Amom-Rá informa que a filha que nascerá da união dos dois, governará o Egito em todas as esferas de poder do palácio. Apesar de não concordarem, os sacerdotes foram obrigados a legitimar a história, pois viviam bem e com mordomias, principais por causa das doações que a rainha fazia a eles. Acreditaram que se o Deus Amom não ficasse satisfeito com as decisões da rainha-faraó, o Egito sofreria com pragas e colheitas, e então eles poderiam agir.

 Mas parece que Amom-Rá estava de acordo com as idéias de Hatshepsut, pois ela governou em um período de muita prosperidade e tranquilidade. Mais tarde, em seu reinado, a rainha foi descrita como um homem. Após sua morte, aos 37 anos e com 22 anos de reinado, Tutemés III subiu ao trono do Egito. Hatshepsut foi enterrada na tumba KV20. O governo de Hatshepsut é habitualmente apresentado como correspondendo a uma era de paz, mas esta imagem tem sido relativizada por alguns investigadores. Pelo menos duas campanhas militares foram conduzidas durante o seu reinado, uma das quais à Núbia, a qual talvez tenha sido liderada pela própria Hatshepsut. Hatshepsut conservou alguns servidores do tempo do seu pai Tutemés I. Dois homens ficaram conhecidos como os ministros mais importantes da rainha: Hapuseneb e Senemut. O primeiro era o sumo sacerdote de Amom, tendo dirigido os vários trabalhos de construção ordenados por Hatshepsut, em particular os que tiveram lugar na cidade de Tebas. Senemut, um oficial do exército de origem modesta, é por vezes visto como companheiro de Hatshepsut, que não casou enquanto foi faraó. Foi chefe do conselho da rainha e preceptor da filha de Hatshepsut, a princesa Neferuré, com a qual surge representado em várias “estátuas-cubo”, estátuas nas quais apenas a cabeça emerge de um bloco de pedra. Nos baixos-relevos do templo de Deir e-Bahari ficou representada a expedição à região do Punt. Esta terra, que se julga corresponder à algures na costa da Somália, era conhecida pelas suas riquezas, como a mirra, o incenso, o ébano, o marfim e os animais exóticos. A expedição parece ter sido pacífica, tendo os egípcios trocado os bens que desejavam por armas e joias.  Nas paredes do templo é possível ver as cenas que mostram cinco barcos a partir para o Punt seguindo a rota do Mar Vermelho. 

São calorosamente recebidos pelo rei local, Pa-Rahu, e a sua esposa, Ity, representada como uma senhora obesa. Depois de um banquete, os barcos foram carregados com os produtos. As representações mostram árvores de incenso, que teriam sido plantadas no recinto do templo de Deir Elbari. As expedições trouxeram de volta preciosos aromáticos, olíbano e mirra, mas também as árvores que produzem essas resinas, Boswellias e árvores de bálsamo, que foram plantadas nos jardins de seu templo em Deir el-Bahari. O jardim mais antigo de que se conhece uma representação é o Jardim Real de Tutmés III, que foi projetado por Nekht, jardineiro-chefe dos jardins anexos ao templo de Karnak. Apesar da beleza desses jardins, acredita-se que sua importância se deva a razões econômicas. A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios sociais organizadores: o de separação existente entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e o princípio hierárquico, segundo o qual, um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher. Esses princípios são válidos no plano teórico como empírico para todas as sociedades no tempo e no espaço. Pode ser aplicada mediante um processo específico de legitimação, a chamada ideologia naturalista. 

Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie. Se os dois princípios de separação e hierárquico encontram-se em todas as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não significa que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável. No entanto, os chineses podem ser considerados os verdadeiros inventores do conceito de jardim botânico, uma vez que documentos antigos comprovam que os coletores de plantas eram enviados a partes distantes, de onde traziam plantas que eram cultivadas pelo seu valor económico ou medicinal. Acredita-se que o lendário imperador Shen Nung testou as qualidades medicinais das plantas para o tratamento de doenças. Se isso for de fato correto, é uma repetição da história que levou à fundação de jardins monásticos no século IX. A Idade Média não poder considerada, por ignorância simbólica de pensadores a “Idade das Trevas”, e o mesmo se aplica ao avanço do conhecimento científico. No entanto, nas ciências biológicas, houve alguns pequenos progressos. Muitos leitores e estudantes de medicina também começaram a concentrar seus estudos em botânica. Durante o século XIII, Alberto Magno (1200-1280) escreveu o tratado De Vegetabilis et Plantis. Este autor deu particular importância à reprodução e sexualidade das plantas. Tal como o seu contemporâneo Roger Bacon (1214-1294), Alberto Magno estudou intensamente a natureza, fazendo uso extensivo do método experimental. Em termos de estudo da botânica, as suas obras são comparáveis ​​em importância às de Teofrasto. 

A primeira descrição de um jardim ornamental medieval encontra-se num capítulo da obra de Alberto Magno, De Vegetabilis et Plantis, escrita por volta de 1260. O Orto Botanico di Pisa, também reconhecido como Orto Botanico dell`Università di Pisa, é um jardim botânico administrado pela Universidade de Pisa e localizado na via Luca Ghini 5, Pisa, Itália. O jardim foi fundado em 1544 sob o reinado de Cosimo I de' Medici (1519-1574), o segundo e último duque de Florença, de 1537 até 1569, quando se tornou o primeiro grão-duque da Toscana, título que manteve até sua morte. Cosimo I sucedeu seu primo no ducado. Construiu a Galeria Uffizi (escritório) para organizar sua administração e conquistou Siena para consolidar o domínio de Florença na Toscana. Expandiu o Palácio Pitti e a maior parte dos Jardins de Boboli também foi projetada durante seu reinado, como o primeiro jardim botânico universitário da Europa, e confiado ao famoso botânico Luca Ghini de Imola. 

Em 1563, o jardim foi transferido de sua localização original às margens do rio (atual Arsenal Medici) para uma área próxima ao convento de Santa Marta, e em 1591, sob a direção de Joseph Goedenhuyze (1530-1595) mudou-se novamente para sua terceira e atual localização. Desde os primórdios, o jardim abriga galeria de objetos naturais (atual Museu de História Natural de Pisa), uma biblioteca (atual biblioteca da universidade) e retratos de seus diretores ao longo dos séculos. Inclui também uma das primeiras estufas com estrutura de ferro construídas na Itália. O jardim está dividido em seções que incluem a escola de botânica, jardins, lagos, estufas e vários edifícios. As principais coleções incluem jardins de ervas e arboretos, bem como o antigo instituto de botânica, construído entre 1591 e 1595, com uma fachada ornamentada com conchas marinhas. Na Idade Média e, posteriormente, durante o Renascimento, o cultivo de plantas medicinais difundiu-se nos Horti sanitatis (jardins medicinais) localizados em mosteiros e nas escolas de medicina e farmácia da Universidade. O primeiro jardim botânico do mundo ocidental foi provavelmente estabelecido em Salerno, sob a orientação de Matias Selvático (1285-1342), um proeminente médico da Escola de Medicina de Salerno, no século XIV. Ele se destacou como um conhecedor de plantas medicinais. Em seu Jardim de Simples, o “Jardim de Minerva”, um grande número de plantas e ervas foram cultivadas e classificadas pela primeira vez para o estudo científico de suas propriedades terapêuticas e medicinais. A flora local, antes pouco conhecida, tornou-se objeto de estudo para a descoberta de novas espécies vegetais. 

O interesse na representação precisa de plantas medicinais introduziu um novo conceito de literatura, acompanhado por uma coleção iconográfica de plantas (hortus pictus). O tratado De Materia Medica de Dioscórides (40-90 d.C.) foi a principal fonte de informação do século I ao XVII e inspirou fundamentalmente o Renascimento. Otto Brunfels (1489-1534) escreveu o primeiro Herbarum vivae eicones, que descrevia plantas e incluía suas representações. Leonhart Fuchs (1501-1566), contemporâneo de Otto Brunfels, escreveu: De História Stirpium, descrevendo e ilustrando cerca de quinhentas plantas pertencentes à flora alemã. Fuchs também é considerado o fundador do primeiro jardim botânico alemão. Na Europa, o estudo da obra de Dioscórides despertou o mesmo interesse que o de Otto Brunfels e Leonhart Fuchs. Na Inglaterra, William Turner (1508-1568) e John Gerard (1545-1612) também escreveram obras sobre botânica. Os franceses Jacques Daléchamps (1513-1588) e Mathieu de l`Obel (1538-1616) também contribuíram para o desenvolvimento da literatura botânica. Graças ao impulso desses estudiosos, os elementos necessários para o crescimento significativo da botânica estavam presentes. O desenvolvimento de jardins botânicos e de disciplinas universitárias dedicadas ao seu ensino foi uma consequência natural desse movimento urbano. A Itália, que já havia desempenhado um papel central na história do paisagismo durante o Renascimento com o surgimento e a disseminação do jardim italiano, foi, no século XVI, o berço de um renovado interesse pela observação naturalista e pela classificação de plantas. O Senado da República de Veneza criou o primeiro jardim dedicado exclusivamente à botânica em 1525. 

Em 1533, na cidade de Pádua, surgiu o primeiro professor de botânica, Francesco Bonafede (1474-1558), juntamente com a primeira cátedra de botânica dedicada ao ensino de plantas medicinais – a Lectura Simplicium. Com a criação de cátedras de botânica nas universidades italianas, surgiu, em meados do século XVI, uma necessidade acadêmica para o ensino de estudantes, o que levou à criação e ao desenvolvimento dos primeiros jardins botânicos universitários.  O primeiro jardim botânico universitário parece ter sido o Jardim Botânico de Pisa, fundado em 1544 por Luca Ghini (1490-1560) na Universidade de Pisa com o apoio de Cosimo I de Medici, Grão-Duque da Toscana. Jardins semelhantes se seguiram: o Jardim Botânico de Pádua, o mais antigo ainda existente, em junho de 1545, o de Florença em dezembro de 1545 e o de Bolonha, criado por Aldrovandi (1522-1605), em 1568. No resto da Europa, floresceram inúmeros jardins botânicos, sendo os mais famosos os de Leiden, Leipzig, Basileia, Montpellier e Paris.  As principais cidades comerciais do Norte da Europa também estão instalando os seus próprios. Foram estabelecidos em Hamburgo em 1540, Zurique em 1560, Kassel em 1567, Viena em 1573, Berlim em 1573, Göttingen em 1576, Leipzig em 1580, Königsberg em 1581, Jena em 1586, Breslau em 1587, Basileia em 1589, Fronecker em 1589, Leiden em 1590, Heidelberg em 1593, Copenhague em 1600, Giessen em 1609, Estrasburgo em 1619, Freiburg em 1620, Oxford em 1621, Amsterdã em 1638, Uppsala em 1655, Hanover em 1666, Kiel em 1669, Edimburgo em 1670, Berlim em 1679. 

A aristocracia de modo geral também participou desse movimento de conhecimento botânico. Soberanos e príncipes apoiaram iniciativas de estudiosos para a criação de jardins botânicos. Alguns monarcas possuíam seus próprios jardins, que confiavam a médicos especializados no estudo de plantas medicinais ou a botânicos. No Reino da França, o primeiro jardim botânico foi o de Montpellier, fundado por Pierre Richer de Belleval (c. 1564-1632) em 1593, a pedido de Henrique IV. Em seguida, veio o Jardim Botânico de Paris, o “Jardin du Roy”, criado entre 1626 e 1635 a pedido de Luís XIII por Guy de la Brosse (1586-1641), médico do rei. Foi inaugurado oficialmente em 1640. Seu propósito, como indica o nome, Jardin Royal des Plantes Médicinales, era cultivar exclusivamente plantas medicinais. Esses jardins botânicos, chamados de hortus medicus, hortus academicus ou jardins de plantas medicinais, surgiram para auxiliar o ensino da medicina e abastecer os boticários. Durante sua expansão geográfica na Europa, foram utilizados para o estudo botânico de novas espécies de plantas exóticas. Diferentemente dos jardins de ervas, já difundidos na Idade Média e destinados ao cultivo de plantas medicinais, os novos jardins botânicos ampliaram suas coleções para todos os tipos de plantas, tanto espécies nativas quanto aquelas provenientes de terras distantes. Sua importância foi significativa para possibilitar o estudo e o fornecimento de espécies locais devidamente controladas aos herboristas e, posteriormente, para o estudo e aclimatação de espécies exóticas do chamado Novo Mundo. No entanto, devido a razões sazonais, climáticas ou geográficas, era impossível ter um fornecimento constante de plantas vivas para estudo. 

Para resolver esse problema, a prática de coletar plantas tornou-se comum, uma técnica conhecida desde o século XIV, mas difundida a partir da década de 1530, após a criação do Jardin des Simples em Pisa. O herbário, composto por plantas secas, era chamado de hortus siccus, ou jardim seco. A evolução dos jardins botânicos foi simultânea e inseparável da evolução dos herbários. A necessidade de estudar a flora natural acompanhou a evolução das técnicas de herbário e a coleta de espécies para o herbário, primeiro numa fase inicial sob a forma de um livro com indicações terapêuticas, depois numa fase mais recente sob a forma organizada de espécies vegetais devidamente descritas e preservadas, o que, por sua vez, levou a uma necessidade constante de obter espécies vegetais vivas que pudessem ser observadas ao longo do ano e, assim, mantidas e cultivadas no jardim. Do ponto de vista de sua origem e significado histórico e social, cinco missões principais, a saber, científica, educacional, recreativa, cívica e econômica foram atribuídas aos jardins botânicos. Os jardins botânicos se tornaram não apenas locais programáticos de estudo, pesquisa, treinamento, experimentação e ensino, mas objetivamente de pesquisa e disseminação de conhecimento, bem como importantes centros de referência para atividades econômicas e comerciais. Existem diversas aspirações que sempre impulsionaram a humanidade a viajar por lugares distantes: a busca por ouro e materiais preciosos, especiarias e drogas ou medicamentos. É a duas dessas necessidades humanas universais que se pode atribuir a origem, significado e a fundação dos jardins botânicos.  O valor das especiarias levou ao estabelecimento de jardins botânicos em regiões tropicais, enquanto o estabelecimento dos jardins botânicos mais antigos da Europa deve-se à necessidade de medicamentos derivados de substâncias terapêuticas extraídas de plantas medicinais.       

 O mais antigo de que se conhece representação é o Jardim Real de Tutemés III, que foi idealizado por Nekht, chefe-jardineiro dos jardins ligados ao Templo de Carnaque. Apesar da beleza destes Jardins, pensa-se que a sua importância se deve a motivos econômicos. Sociologicamente falando, ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. O Jardim Botânico de Nova York, no Bronx, abriga a maior exposição já realizada em seu espaço em 128 anos de existência, inspirada na genialidade do arquiteto e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx. No entanto, pode-se considerar que os chineses foram os verdadeiros inventores do conceito de jardim botânico, uma vez que se comprova que os coletores de plantas eram enviados para partes longínquas e as plantas que traziam consigo eram cultivadas pelo seu valor econômico e medicinal. Historicamente durante o século XIII, Alberto Magno escreveu De Vegetabilis et Plantis e De Animalibus. Este autor deu especial relevância à reprodução e sexualidade das plantas e animais. 

Tal como Roger Bacon (1214-1294), seu contemporâneo, Alberto Magno (1193-1280) estudou intensivamente a natureza, utilizando de modo intensivo o método experimental. Em termos do estudo da botânica, os seus trabalhos são comparáveis, em importância aos de Teofrasto. O surgimento de jardins botânicos e disciplinas universitárias dedicadas ao seu ensino foi uma consequência natural deste movimento. Em 1533, na cidade de Pádua, surge o primeiro professor de botânica e ipso facto, a primeira disciplina de botânica: Lectura Simplicium. Segue-se um florescimento de jardins botânicos. Os mais famosos foram os de Pisa, Pádua, Bolonha, Leida, Leipzig, Basileia, Montpellier e Paris. Estes jardins botânicos, denominados hortus medicus, hortus academicus ou jardins de plantas medicinais, surgiram com o objetivo de auxiliarem o ensino da matéria médica e de fornecerem as boticas. Com a expansão geográfica europeia eles foram utilizados para o estudo botânico das novas espécies vegetais exóticas. A sua importância foi notória por permitirem o estudo e fornecimento das farmácias em espécies locais devidamente controladas, e posteriormente o estudo e aclimatação de espécies exóticas provenientes do novo mundo. No entanto, por razões sazonais ou geográficas, era impossível ter as plantas vivas para serem estudadas. Para fazer face a este problema, tornou-se corrente o recurso à herborização, uma técnica conhecida desde o século XIV, mas difundida a partir do Orto dei Simplici de Pisa desde a década de 1530, como o nome de hortus siccus

A evolução dos jardins botânicos e a dos herbários foi simultânea e inseparável. A necessidade de estudar a flora natural acompanhou a evolução das técnicas de herborização e a colecção das espécies em herbário, numa primeira fase sob a forma de livro com indicações terapêuticas e numa fase mais recente sob a forma organizada de espécies de plantas devidamente descritas e conservadas, que por sua vez levou a uma constante preocupação em obter espécies de plantas vivas que pudessem ser observadas durante todo o ano e por isso mantidas e cultivadas em jardim. O jardim botânico tem como representação social um lugar dedicado as plantas que faz à coleção, cultivo e, exposição de uma ampla diversidade de plantas, identificadas de acordo com o nome botânico. Pode ter coleções especializadas em determinadas plantas, como cactos e suculentas, ervas aromáticas, plantas de determinadas regiões do mundo, ou ter ainda estufas com coleções de plantas tropicais, alpinas ou outro tipo de plantas exóticas. Entre os serviços geralmente disponibilizados para o público estão visitas guiadas, exposições educativas, exposições artísticas, salas de leitura e atuações artísticas e musicais ao ar livre. Os jardins botânicos são na sua maioria geridos por universidades ou organizações científicas, per se associados a programas de investigação em taxonomia ou aspectos botânicos, para os quais contam com um herbário.

 Por princípio, o seu papel é a manutenção de coleções documentadas de plantas vivas com a finalidade de investigação científica, conservação, exposição e educação, embora isto dependa dos recursos disponíveis e do interesse particular de cada jardim botânico. Os jardins botânicos modernos têm origem nos jardins medicinais medievais europeus, denominados jardins dos simples, o primeiro dos quais fundado durante o Renascimento italiano no século XVI. Com a importação de novas plantas e exploração de territórios fora da Europa, a partir do século XVII, a botânica foi-se gradualmente afirmando como uma ciência independente da medicina. No século XVIII, os botânicos implementaram sistemas de nomenclatura, os quais eram muitas vezes mostrados nos canteiros de jardins com propósitos educativos. A partir do século XVIII, com o desenvolvimento do comércio de espécies botânicas, começaram a ser implementados jardins botânicos nos trópicos. Enquanto instituições culturais e científicas os jardins botânicos deram resposta às necessidades da botânica e horticultura. Contemporaneamente além da vertente científica os jardins botânicos aproveitam a forte ligação com o público em geral para fornecer aos visitantes informação relativa às questões ambientais do século XXI, em particular as que estão ligadas à conservação e inventores sociais do conceito biológico de jardim botânico.  

Bibliografia Geral Consultada.

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Canal 100 – Estádio de Futebol, Cinejornal & Tecnologia Disciplinar.

Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação”. Charles Chaplin

         O Canal 100 foi um cinejornal brasileiro (cf. Padiglione, 2016). Fundado em 1957 por Carlos Niemeyer, inicialmente com o nome “Líder Cinematográfica”, funcionou até 2000. Com sede no Rio de Janeiro, o cinejornal era exibido semanalmente por todo o Brasil e realizava sobretudo documentários cinematográficos de eventos importantes do país e do futebol. Um cinejornal é uma forma de filme curto documental predominante na primeira metade do século XX, regularmente exibido em salas de exibição pública e contendo notícias e itens de interesse tópico. Ele foi fonte de notícias, atualidades e entretenimento para milhões de espectadores até que a televisão substituiu o seu papel na década de 1950. Cinejornais são agora considerados documentos históricos significativos, uma vez que são muitas vezes o único registro audiovisual de acontecimentos históricos e culturais daqueles tempos. Cinejornais eram normalmente exibidos como curtas-metragens precedendo o filme principal na década de 1960. Haviam cinemas dedicados a eles em muitas grandes cidades nos anos de 1930 e 1940, e algumas salas também incluíam um pequeno cinema onde noticiários eram exibidos de forma contínua durante todo o dia. Tornou-se reconhecido pela qualidade técnica da filmagem dos jogos de futebol com uma visão documental e uma narrativa dramática. Teve um cinegrafista particularmente famoso, Francisco Torturra. De seu acervo foram realizados vários filmes de longa-metragem, como Brasil Bom de Bola (1971) e Futebol Total (1974). Alguns filmes do Canal 100 estão sob guarda do Arquivo Nacional na cidade do Rio de Janeiro e, portanto, acessíveis à população. 

        A famosa música usada é Na Cadência do Samba (Que Bonito É), composta em 1956 por Luiz Bandeira e gravada por Waldir Calmon. O filme australiano de 1978 Newsfront é um drama sobre o ofício dos cinejornais. Os cinejornais findaram por causa dos avanços tecnológicos, tais como a captação eletrônica de notícias no telejornalismo (cf. Souza, 2017), introduzida na década de 1970, tornando-os obsoletos. No entanto, alguns países, como Cuba, Japão e Espanha continuaram a produzir noticiários para cinema nas décadas de 1980 e 1990. O canal 100 (cf. Behm, 2024; O Tempo, 2025) inicia as suas atividades fazendo filmagens de jogos e posteriormente apresentados antes dos filmes principais nos cinemas. Em 1958 acompanha o Brasil na disputa da Copa do Mundo na Suécia e registrou em filme as primeiras atuações de Pelé e Garrincha. A década de 1960 é iniciada com a fundação de Brasília, e este evento não podia deixar de ser documentado pelo Canal 100. Nos anos que se seguiram foram feitas dezenas de filmagens que mostravam glórias como a Palma de Ouro para o filme brasileiro O Pagador de Promessas e o título de Boxe para Éder Jofre, mas também faziam uma visão menos felizes como as enchentes causadas pela chuva no Rio de Janeiro ou a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1966.  

       Na década de 1970 o canal aumenta o número de filmagens culturais apresentando o músico Carlos Santana no festival da canção e a banda Genesis no Rio de Janeiro. Eventos esportivos como a Copa do Mundo de 1970 no México e os Jogos Olímpicos de Verão de 1976 foram também acompanhados pelas lentes do Canal 100. Eventos históricos como a inauguração da Ponte Rio-Niterói, a despedida de Pelé do futebol e a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek tiveram lugar nas produções do Canal 100. A década de 1980 começo com grandes eventos que foram documentados pelo Canal 100.  O show de Frank Sinatra e a visita do Papa João Paulo II, ambos no Rio de Janeiro, não podiam deixar de figurar nos documentários. Sempre mantendo o interesse pelo futebol, o Canal 100 acompanhou o Brasil na Copa do Mundo de 1982 e 1986. Ainda apoiando eventos culturais o Canal 100 fez as filmagens para a primeira edição do Rock in Rio. Na década de 1990 o Canal 100 faz a sua estreia na televisão através da Rede Manchete, fazendo assim chegar a mais pessoas os seus documentários. Durante alguns anos os documentários deixaram de ser exibidos nas salas de cinema, regressando mais tarde. Esta década foi particularmente menos ativa, já indicando o encerramento das filmagens, que aconteceria mais tarde. Com a morte do seu fundador, o Canal 100 foi gradualmente deixando de fazer novas filmagens, restando um grande arquivo histórico. Em 2001, Alexandre Niemeyer, filho de Carlos Niemeyer, iniciou um projeto em que visava a recuperação e apresentação de todo o acervo cinematográfico feito pelo seu pai e o Canal 100. Foi criada a “Revista Canal 100” que apresenta fotos do arquivo e um site oficial do projeto onde é possível ver pequenos filmes.                                        


Sir Charles Spencer Chaplin, reconhecido como Charlie Chaplin (1889-1977), foi um ator, diretor, produtor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Chaplin foi um dos atores mais famosos da chamada “Era do Cinema Mudo”, notabilizado pelo uso de mímica e da “comédia pastelão”. Atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes, sendo fortemente influenciado por um antecessor, o comediante francês Max Linder (1883-1925), a quem ele dedicou um de seus filmes. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatros do Reino Unido durante a Era Vitoriana quase até sua morte aos 88 anos de idade. Sua vida pública e privada abrangia adulação e controvérsia. Juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith, Chaplin fora co-fundador da United Artists, uma extraordinária companhia de cinema fundada em 5 de fevereiro de 1919. Seu principal e mais famoso personagem in statu nascendi foi The Tramp, reconhecido internacionalmente como a figuração de Charlot, na Europa, e igualmente reconhecido como Carlitos, ou ainda “O Vagabundo”, entre nós, em análise comparada no caso do brasileiro. Consiste em um andarilho pobretão que possui todas as maneiras refinadas e a dignidade de um gentleman, usando “um fraque preto esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu-coco ou cartola, uma bengala de bambu e – sua marca pessoal – um pequeno bigode-de-broxa”.

Foi também um talentoso jogador de xadrez e chegou a enfrentar o campeão estadunidense Samuel Reshevsky. Em 2008, em uma resenha do livro Chaplin: A Life, Martin Sieff escreve: - “Chaplin não foi apenas ´grande`, ele foi gigantesco”. Em 1915, ele “estourou” um mundo dilacerado pela guerra trazendo o dom da comédia, risos e alívio enquanto ele próprio estava se dividindo ao meio pela Primeira grande Guerra. Durante os próximos 25 anos, através da Grande Depressão e da infeliz ascensão do obscurantismo europeu, ele permaneceu no emprego. Ele foi maior do que qualquer um. É duvidoso que algum outro indivíduo tenha dado mais entretenimento, prazer e alívio para tantos seres humanos quando eles mais precisavam. O termo Sétima Arte, é usado para designar o cinema; foi estabelecido por Ricciotto Canudo no “Manifesto das Sete Artes”, em 1911, embora tenha sido publicado apenas em 1923. Por sua inigualável contribuição ao desenvolvimento da Sétima Arte, Chaplin é o mais homenageado cineasta de todos os tempos, sendo ainda em vida condecorado pelo governo britânico: “Cavaleiro do Império Britânico”, pelo governo francês: “Légion d`Honneur”, pela Universidade de Oxford: Doutor Honoris Causa e pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América com o Óscar especial “pelo conjunto da obra”, em 1972. Além de atuar no palco como um brilhante artista, Chaplin dirigiu, escreveu, produziu e eventualmente compôs a trilha sonora de seus próprios filmes, tornando-se uma das personalidades mais criativas e influentes em sua progênie da Era do “Cinema Mudo”.   O cinema ainda era uma forma de arte essencialmente visual.

Chaplin foi fortemente influenciado por um antecessor, como vimos o comediante francês Max Linder, a quem ele dedicou um de seus filmes. Era canhoto, nasceu no dia 16 de abril de 1889, na East Street, Walworth, Londres, Inglaterra. Seus pais eram artistas de music-hall. Seu pai, Charles Spencer Chaplin, era vocalista e ator, e sua mãe, Hannah Chaplin, era cantora e atriz. Chaplin aprendeu a cantar com seus pais, os quais se separaram antes dele completar três anos de idade. Após a separação, Chaplin foi deixado aos cuidados de sua mãe, que estava cada vez mais instável emocionalmente. O censo de 1891 demonstra que sua mãe morava com Charlie e seu “meio-irmão” mais velho Sydney na Barlow Street, Walworth. Um problema de laringe acabou com a carreira de cantora da mãe de Chaplin. A primeira crise de Hannah ocorreu em 1894 quando ela estava cantando no “The Canteen”, um teatro em Aldershot, geralmente frequentado por manifestantes e soldados. Além de “ser vaiada, Hannah foi gravemente ferida pelos objetos atirados pela plateia”. Nos bastidores, ela chorava e argumentava com o seu gerente. Enquanto isso, com apenas cinco anos de idade, o pequeno Chaplin subiu sozinho ao palco e cantou uma música popular da época, “Jack Jones” (cf. Chaplin, 1981). Seu pai, Charles Spencer Chaplin, era alcoólatra e tinha pouco contato com seu filho, apesar de Chaplin e seu meio-irmão morarem durante um curto período de tempo socialmente falando, com seu pai e sua amante, Louise, na 287 Kennington Road, onde há uma placa em homenagem ao fato histórico e social na vida familiar destes atores e atrizes.

Estádio de futebol, mutatis mutandis, tem como representação social a edificação esportiva que abriga partidas de futebol, e, ocasionalmente, eventos diversos como feiras culturais e espetáculos musicais, entre outros. Na Era Moderna, os estádios estão sendo construídos com o propósito de garantir mais conforto e segurança do público, para daí colher um maior encaixe financeiro, contrariamente aos recintos antigos que tinham a intenção quantitativamente apenas de abrigar um número enorme de espectadores no menor espaço possível. A maioria dos estádios de futebol são propriedade dos clubes, mas existem também estádios construídos apenas para as seleções. Desporto ou esporte é uma atividade física ou jogo. É toda a forma de praticar alguma atividade física, de forma metódica, com objetivos competitivos, que por meio de participação casual ou organizada, procure usar, manter ou melhorar as habilidades físicas e/ou mentais, proporcionando diversão aos participantes e, em alguns casos, entretenimento para os espectadores. Os objetivos do desporto podem ser, além da competição, também recreativos, ou de melhoria da saúde, ou ainda de melhoria de aptidão física e/ou mental. O vencedor ou vencedores podem ser identificados por obtenção de um objetivo, e pode exigir um grau de habilidade, especialmente em níveis mais elevados. São centenas os tipos de desportos existentes, incluindo aqueles para um único participante, até aqueles com centenas de participantes simultâneos, em equipas ou individualmente. De acordo com A.T. Kearney, uma consultoria, a indústria desportiva global vale até US$ 620 bilhões a partir de 2013 o que é um marco da cultura esportiva.

            A Associação das Federações Esportivas Internacionais Reconhecidas pelo COI, em inglês: Association of IOC Recognised International Sports Federations, ARISF, é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, constituída e reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Os membros da ARISF são federações esportivas internacionais reconhecidas pelo COI que atualmente não competem nas Olimpíadas de Verão ou de Inverno. Tornar-se membro desta organização não implica ou garante que o esporte será incluído em futuros jogos olímpicos. Entre os objetivos da ARISF estão: atuar como porta-voz para defender e coordenar os interesses comuns de seus membros, mantendo sua autoridade, independência e autonomia, determinar o consenso das federações membros sobre questões de interesse comum em relação ao Movimento Olímpico e garantir a maior participação possível nas atividades do COI. Com sede na cidade suíça de Lausanne, foi formada em 1983. É dirigida por Raffaele Chiulli, um executivo esportivo italiano que é o presidente da ARISF. A palavra “desporto” vem do francês antigo desport, que significa “recreação”, “passatempo”, “lazer”. Surgiu na língua portuguesa no século XV, com o sentido de “divertimento”. No entanto, apenas a partir do século XIX a influência do termo inglês sport, que também tem origem em desport, contribuiu para o incremento do seu uso com o significado moderno em Portugal.  

No Brasil, comparativamente, a par das variantes “desporto” e “desporte”, esta última também presente no português europeu, surgiu a variante “esporte” adaptada da palavra inglesa sport, que viria a popularizar-se na mídia e a ser a mais comum atualmente. Algumas reminiscências do uso da variante “desporto” se podem verificar em nomes de clubes e organizações, como a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, a Confederação Brasileira de Desportos na Neve, a Confederação Brasileira do Desporto Universitário, bem com as extintas Conselho Nacional de Desportos e Confederação Brasileira de Desportos, entre outras. O desporto é geralmente reconhecido como um sistema de atividades baseadas no físico atletismo ou físico destreza, com as maiores competições importantes como os Jogos Olímpicos admitindo apenas desportos que atendem a essa definição, e outras organizações, como o Conselho da Europa, usam definições que impedem atividades sem um elemento físico da classificação como desporto. No entanto, várias atividades competitivas, mas não físicas, reivindicam reconhecimento como desporto desportivo. 

O Comitê Olímpico Internacional por meio da ARISF reconhece o xadrez e bridge como desportos de boa-fé, na falta de melhor expressão, e a SportAccord, a associação da federação internacional de desportos, reconhece cinco desportos não físicos: bridge, xadrez, Damas, Go e Xiangqi, e limita o número de jogos mentais que podem ser admitidos como desportos. Desportos são geridos pelo conjunto de regras metodológicas e sociológicas de acordo com os costumes ou cultura. Eventos físicos, tais como marcar gols ou cruzar uma linha em primeiro muitas vezes definem o resultado de um desporto. Um reconhecido ditado ou trocadilho diz que “o rúgbi é um esporte de brutos jogado por cavalheiros”. No caso, o “cavalheirismo” pode ser associado ao fair play (jogo justo) geralmente incentivado nas práticas esportivas. O desportivismo é uma atitude que luta pelo fair play (jogo justo), pela delicadeza com os adversários e colegas de equipe, pelo comportamento ético e integridade, pelo jogo limpo, e pela ética na vitória ou na derrota. O desportivismo expressa uma aspiração ou espírito de que a atividade vai ser apreciada por si mesma. O sentimento é bem reconhecido pelo jornalista desportivo Henry Grantland Rice (1880-1954), que disse “não interessa como ganhaste ou perdeste, mas como jogaste o jogo”. O lema dos Jogos Olímpicos modernos é expresso pelo seu fundador Pierre de Coubertin (1863-1937): “O mais importante não é vencer, mas sim, participar”. 

Estas são expressões típicas desse sentimento. A violência no desporto envolve cruzar a linha entre a concorrência leal e a violência agressiva intencional. Atletas, treinadores, fãs, e pais, por vezes, desencadeiam comportamentos antissociais sobre pessoas ou bens, em demonstrações equivocadas de lealdade, dominância, raiva e/ou celebração. Tumultos ou vandalismo são problemas comuns e em curso em competições desportivas. O aspecto dos desportos, juntamente com o aumento do poder dos meios de comunicação e lazer, tem levado ao “profissionalismo” do desporto. A vigilância se torna um operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar. Na essência de todos os sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo penal. É beneficiado por uma espécie de privilégio de justiça, com suas leis próprias, seus delitos especificados, suas formas particulares de sanção, suas instâncias de julgamento. As disciplinas estabelecem uma infrapenalidade, quadriculam um espaço deixado pelas leis, qualificam e reprimem um conjunto de comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa indiferença. Na oficina, na escola, no exército, funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes incorretas, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, uma série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações.        

Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues de conduta social, e de dar uma função punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora. Mas a disciplina traz consigo uma maneira específica de punir, e que é apenas um modelo reduzido do tribunal. O que pertence à penalidade disciplinar é a inobservância, tudo o que está inadequado à regra, tudo o que se afasta dela, os desvios. É passível de pena o campo indefinido do não conforme. O regulamento da infantaria prussiana impunha tratar com “todo o rigor possível” o soldado que não tivesse aprendido a manejar corretamente o fuzil. O castigo disciplinar tem a função de reduzir os desvios. Deve, portanto, ser essencialmente corretivo. De modo que o efeito corretivo que dela se espera apenas de uma maneira acessória passa pela expiação e pelo arrependimento; é diretamente obtido pela mecânica de um castigo. Castigar é exercitar. Ipso facto, o exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. 

É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar, punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados. Em todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado. Nele vêm-se reunir a cerimônia do poder. A forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade. O indivíduo é o átomo fictício de uma representação social. É uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder: a disciplina. O panóptico de Bentham, é uma máquina de dissociar o par-ser-visto: no anel periférico, se é totalmente, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto, pois é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é reconhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre: esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber a torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem “ver sem parar e reconhecer imediatamente. 

Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções – trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e se suprime duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que protegia. A visibilidade é uma armadilha” (cf. Foucault, 2014: 194). Jeremy Bentham não diz se se inspirou, em seu projeto, no zoológico que Le Vaux construíra em Versalhes: primeiro zoológico cujos elementos não estão, como tradicionalmente, espalhados em um parque: no centro, um pavilhão octogonal que, no primeiro andar, só comportava uma peça, o salão do rei; todos os lados se abriam com largas janelas, sobre sete jaulas (o oitavo lado estava reservado para a entrada), onde encerradas diversas espécies de animais. O panóptico descrito pela analítica do poder, é um zoológico real; o animal é substituído pelo homem, a distribuição individual pelo grupamento específico e o rei pela maquinaria de um poder furtivo. Fora essa diferença, o Panóptico, também, faz um trabalho de naturalista. Permite estabelecer as diferenças: nos doentes, observar os sintomas de cada um, sem que a proximidade dos leitos, a circulação dos miasmas, os efeitos do contágio misturem os quadros clínicos; nas crianças, anotar os desempenhos (sem que haja limitação ou cópia), perceber as aptidões, apreciar os caracteres, estabelecer classificações rigorosas e, em relação a uma evolução normal, distinguir o que é “preguiça ou teimosia” do que é “imbecilidade incurável”; nos operários, anotar as aptidões de cada um, comparar o tempo que levam para fazer um serviço, e, se são pagos por dia, calcular seu salário. Mas o panóptico pode ser utilizado como uma “máquina de fazer experiências”, modificar o comportamento, treinar ou retreinar os indivíduos. Experimentar remédios e verificar efeitos. Tentar diversas punições sobre os prisioneiros, seus crimes e temperamento mais eficazes.  

Ensinar simultaneamente diversas técnicas aos operários, estabelecer qual é a melhor. Tentar experiências pedagógicas – e particularmente abordas o famoso problema da educação reclusa, usando crianças encontradas ; ver-se-ia o que acontece quando aos dezesseis ou dezoito anos rapazes e moças se encontram; poder-se-ia acompanhar “a genealogia de qualquer ideia observável”; criar diversas crianças em diversos sistemas  de pensamento, fazer alguns acreditarem que dois e dois são quatro e que a lua é um queijo, depois de juntá-los todos quando tivessem vinte ou vinte e cinco anos; haveria então discussões que valeriam bem os sermões ou as conferências para as quais se gasta tanto dinheiro: haveria pelo menos ocasião de fazer descobertas no campo da metafísica. O Panóptico é um local privilegiado para tornar possível a experiência com homens, e para analisar com toda certeza as transformações que se pode obter neles. Mais do que isso: pode até se constituir em aparelho de controle, segundo a analítica do poder de Michel Foucault, pois em sua torre, o diretor pode inspecionar todos os empregados submetidos a seu serviço; poderá julgá-los continuamente, modificar seu comportamento, impor-lhes métodos que considerar melhores; e ele mesmo, por sua vez, poderá ser facilmente observado. O Panóptico funciona como uma espécie de Laboratório de poder. 

Através da observação, ganha em eficácia e em capacidade de penetração no corpo dos homens: um aumento de saber vem se implantar em todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser conhecidos em todas as superfícies de saber-poder. Para sermos breves, em cada uma de suas aplicações, na esfera da ação individual e coletiva, permite aperfeiçoar o exercício do poder de várias maneiras: porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo em que multiplica o número daqueles sobre os quais é exercido. Permite intervir a cada momento e a pressão constante age antes mesmo que as faltas, os erros, os crimes sejam cometidos. Porque, nessas condições, sua força é nunca intervir, é se exercer espontaneamente e sem ruído. É construir um mecanismo de efeitos em cadeia. Porque é um intensificador para qualquer aparelho de poder: assegura sua economia (em material, em pessoal, em tempo); assegura sua eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus mecanismos automáticos. É uma maneira astuciosa de obter poder. É uma espécie de “ovo de Colombo” na ordem da política. Ele cria dispositivos discursivos com efeitos de vir se integrar a uma função qualquer, de educação, de terapêutica, de produção, de castigo; de aumentar essa função, ligando-se intimamente a ela; de construir um mecanismo misto no qual as relações de poder (e de saber) podem-se ajustar exatamente, e até nos detalhes, aos processos que é preciso controlar; de estabelecer uma proporção direta entre o “mais-poder” e a “mais produção”.  

O dispositivo panóptico não é simplesmente uma charneiraÉ um local de trocas simbólicas e experimentais entre um mecanismo de poder e uma função. É capaz de reformar a moral, preservar a saúde, revigorar a indústria, difundir a instrução, aliviar os encargos públicos, estabelecer a economia como que sobre um rochedo, desfazer, em vez de cortar, tudo isso com uma simples ideia arquitetural. Na realidade, qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada quanto aquelas controladas por uma casta, poderá sem dificuldade ser submetida ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público, que pode ser agregado à analítica do poder, como membro da sociedade com direito de vir constatar com seus olhos como funcionam as universidades, os hospitais, as fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento de poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania, pois a máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder disciplinar poderá ser democraticamente controlado, com a redução de mandato colocaria em xeque como função estabelecer as diretrizes, objetivos e metas de médio prazo da administração pública. Não queremos perder de vista que o panoptismo é o princípio geral de uma nova “anatomia política”, cujo objeto e fim não são as relações de soberania do Eu. São relações de disciplina-bloco, na constituição de uma instituição fechada, entorpecida pelo ódio e pré-estabelecida à margem, mormente voltada para funções negativas: realizar para o mal, romper as comunicações, suspender o tempo.    

Isso fez resultar algum conflito na prática desportiva, pois aí o salário passa a ser mais importante que o aspecto recreativo, e os desportos passam a ser estruturados de forma a torná-los mais rentáveis ​​e populares, perdendo-se, assim, valiosas tradições éticas. De facto, o desporto, por definição, é uma atividade de lazer, e “desporto profissional” não o é e não pode existir como tal. No entanto, o termo é comum e aceite para nomear um jogo ou outra atividade considerada pela população em geral como desporto e que seja realizada por pessoas pela recompensa com a intenção de entreter os espectadores. O aspecto de entretenimento significa também que os desportistas e as suas mulheres são muitas vezes elevadas ao status de celebridade na média e cultura populares. Por este motivo, muitos jornalistas com razão, têm sugerido que o desporto não deve ser divulgado pela média em geral, mas apenas por revistas especializadas. O desporto e a política podem influenciar-se muito mutuamente. Quando o apartheid era a política oficial na África do Sul, houve um boicote internacional ao país, inclusive no campo desportivo, e em especial no Rugby de quinze. Alguns sentem que esta foi uma contribuição efetiva para a eventual queda da política de apartheid, outros acham que esta pode ter prolongado e reforçado os seus piores efeitos. Os Jogos Olímpicos de Verão de 1936, realizados em Berlim, foram uma ilustração, talvez a mais reconhecida em retrospecto, de um momento em que uma ideologia se aproveitou de um evento para reforçar a sua disseminação populista através de propaganda política. Um caso muito famoso de quando o desporto e a política colidiram foi nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972 em Munique. Homens mascarados entraram no hotel da equipe olímpica israelita e mataram muitos dos seus homens. Este caso ficou reconhecido como o Massacre de Munique.

Escólio: Antoine Lilti, nascido em 1972, é um historiador francês especializado na Era Moderna e no Iluminismo. É diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) desde 2011. Formou-se na École Normale Supérieure, que frequentou entre 1991 e 1995. Foi aprovado na agregação em história em 1994. Defendeu sua dissertação de mestrado em história na Universidade de Paris 1 em 1993 sob a orientação de Antoine Prost, intitulada: Le PSU et La Gauche (1960-1968). Em 2003, Antoine Lilti defendeu uma tese em história na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne intitulada: “O Mundo dos Salões: Sociabilidade Mundana em Paris na Segunda Metade do século XVIII” sob a direção de Daniel Roche. Entre 2005 e 2011 lecionou na École Normale Supérieure como conferencista. Ele então se tornou diretor de estudos na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Desde 2006, é membro do conselho editorial da revista Annales Histoire, Sciences Sociales, da qual foi Editor entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011. Dirigiu a redação dos Annales entre 2006 e 2011. Seu trabalho mais recente enfoca a recepção atual do período do Iluminismo e seu legado no mundo político de hoje. As primeiras obras de Antoine Lilti centraram-se nos salões do século XVIII,  instituições, em Paris, das elites intelectuais.      

Antoine Lilti os apresenta na encruzilhada da sociedade da corte e da vida intelectual, ao mesmo tempo em que enfatiza seu papel fundamental no início da Revolução Francesa. Por exemplo, o salão Choiseul em Chanteloup é objeto, no Le Monde des Salons, de um estudo aprofundado de Lilti. Este é descrito como um “nó onde se cruzam os fluxos de informação do tribunal, do mundo literário, dos cafés e dos jornalistas” (Éric Saunier) e um pool de oponentes e oposições. Além disso, Lilti quer contradizer uma visão excessivamente idealizada – às vezes tingida de nostalgia – de salões onde estes são considerados apenas pelo seu aspecto filosófico e intelectual. Ele enfatiza as dimensões mundanas e triviais (jogos, refeições, shows): Roger Chartier explica que Antoine Lilti, os salões “não são tanto lugares para exercícios filosóficos, mas oportunidades para compartilhar os prazeres e jogos do mundanismo”. Seu livro Le Monde des Salons (2005) foi traduzido para o inglês por Lydia Cochrane em 2015, sob o título: “O mundo dos salões: sociabilidade e mundanismo na Paris do século XVIII”, na imprensa da Oxford Universidade. Ainda ligada ao ideário do Iluminismo e à clássica Revolução Francesa, Lilti estudou, em Public Figures (2014), o nascimento e a relação de poder histórico do conceito moderno de celebridade que tem como primícias no século XVIII. Neste livro, o historiador se propõe a estudar “as figuras públicas que desde a década de 1750 até cerca de 1850 marcaram a opinião europeia e americana”. 

Analisa as celebridades de Rousseau transportado pelo sucesso de La Nouvelle Héloïse, de Voltaire (Lilti retorna à sua “coroação” na Comédie-Française em março de 1778) do comediante Janot. Lilti explica que alguns autores contemporâneos à Voltaire e Janot lamentaram que um filósofo e um ator de boulevard pudessem ter uma celebridade equivalente. Assim, a fama é vista “como uma força que 'nivela', que apaga as distinções legítimas entre esferas de atividade”. Uma ligação com sua obra sobre o mundo dos salões seria a da distinção entre as noções de público e privado, e do comentário à obra do teórico Jürgen Habermas sobre esses conceitos. Na introdução do livro, Antoine Lilti propõe diferenciar entre glória, reputação e celebridade. As duas primeiras são as características do tradicional latim fama. Enquanto o terceiro é mais moderno. Ele detalha que a glória se refere aos heróis antigos e à comemoração dos gloriosos mortos e que a reputação é “em grande parte independente” da celebridade. Para descrever a celebridade, Lilti cita uma velha fórmula: “uma pessoa famosa é conhecida por pessoas que não têm motivos para opinar sobre ela”. A celebridade é pública e mais amplo, variegado, contemporâneo à pessoa. Esse público costuma estar ávido por detalhes sobre a vida privada dessas celebridades e busca construir um vínculo afetivo com elas. Lilti se propõe a compreender a notoriedade do ator François-Joseph Talma (1763-1826) com esta chave de leitura. Ipso facto, David Garrick e Sarah Siddons na Inglaterra, ou mesmo Miss Clairon na França.                                

Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma  distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso a elas exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos.           

Que os rostos dos atores sociais célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem. Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em close ou com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes, outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação era sobre social e cultural. Nos grandes centros urbanos, os retratos eram cada vez mais visíveis, em todas as formas de suporte – dos retratos pintados, expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana que se tornaram na moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos comerciantes. 

Mas a celebridade não se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII. O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes, a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam, a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou no século das Luzes. Quando Kant, em O Que é o Iluminismo?  descreve a Auflarklärung como um processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se aos leitores de jornais.

E foi, em um deles, nomeadamente Berlinische Monatsshcrift, que esse texto famoso apareceu em 1784, no quadro de um debate sobre as questões do casamento religioso. Alguns anos mais tarde, Hegel poderá chegar a escrever que a “leitura do jornal” da manhã tornou-se “a prece do homem moderno”. Entretanto, ao lado dos homens eruditos e políticos que relatam as notícias diplomáticas e políticas, recenseiam as novidades científicas e literárias ou acolhem debates intelectuais, existem, no século XVIII, outros jornais, cada vez mais numerosos, muitos deles mais interessados na atualidade da alta sociedade e na cultural, no sentido amplo. Eles oferecem a seus leitores as notícias dos espetáculos e dos lançamentos literários, dos principais acontecimentos literários e políticos, mas também os faits divers notórios e, cada vez mais, anedotas sobre a vida, pública e privada, das pessoas célebres. Por mais que esses periódicos tenham chamado menos a atenção dos historiadores, eles contribuíram de maneira decisiva para moldar a consciência das camadas médias urbanas de que elas constituíram um público. A atualidade era alimentada tanto por faits divers e escândalos quanto por tratados e batalhas. O conjunto dessas transformações marca a entrada em uma nova era midiática, que, espirituosamente, um historiador propôs chamar de Print 2.0, para indicar que se trata de uma verdadeira guinada na história do impresso, de seus usos e de seus efeitos. A comunicação mediatizada, que difunde textos e imagens para um público indefinido, potencialmente ilimitado, torna-se uma condição ordinária da comunicação e concorre com as formas tradicionais fundadas na oralidade, na co-presença e na reciprocidade.

As próprias condições da celebridade são profundamente transformadas por ela: as cadeias da reputação estendem-se, e ser confrontado com o nome ou a imagem de pessoas que jamais se encontrará em carne e osso torna-se cada vez mais frequente. A notoriedade de alguns indivíduos muito conhecidos emancipa-se dos círculos tradicionais em que circulava o reconhecimento (a corte, os salões, os espectadores de teatro, as academias e as redes eruditas) e, projeta no espaço público um conjunto de representações – de discursos e de imagens – destinadas a um público indefinido e anônimo de leitores e de consumidores, de curiosos e de admiradores. Essa circulação potencialmente ilimitada e incontrolável de representações os constitui como figuras públicas. Mas a questão é: onde se viam retratos de pessoas vivas, antes do século XVIII? Nas moedas em que figurava o rosto do soberano; nos palácios, em que os cortesãos podiam admirar os retratos do rei; nos palacetes aristocráticos em que os donos da casa se faziam voluntariamente retratar ao lado a galeria de seus ancestrais. Tratava-se, antes de tudo, de uma representação de poder, político ou social em sua dinamicidade. O retrato do rei era, um simulacro do poder, e que tinha uma eficácia própria para representar o poder e de ser, de algum modo, o próprio poder, em sua força e em seu prestígio, o mesmo podendo ser dito da força sociopolítica que “emanava” dos retratos aristocráticos. Seria possível objetar que havia, no século XVII, retratos de alguns escritores, como Corneille ou Molière. Inversamente, pode-se lembrar que não existe nenhum retrato, em vida, de Rabelais. 

O reinado de Luís XIV já marcara uma clara ascensão do retrato, com a criação da Academia de pintura e de escultura, na qual os retratistas eram admitidos, e o sucesso de Pierre Mignard e, depois, de Hyacinthe Rigaud. No entanto, os retratos permaneceriam essencialmente ligados ao universo da corte e da alta nobreza, na qual tinham uma função política e sentimental. Dificilmente deixava-se que fossem copiados. Até o início do século XVIII, a existência de retratos sinalizava o acesso de algumas raras figuras culturais a um estatuto social excepcional, sobretudo no quadro de instituições a acadêmicas. Eles circulavam unicamente em espaços restritos e estavam quase sempre integrados em uma relação interpessoal. Possuir o retrato de alguém era uma honra calcada na dignidade do modelo, mas também na exibição de um laço direto, familiar ou de amizade. Quando Samuel Sorbière, que admirava Thomas Hobbes e muito contribuiu para a difusão de sua obra na Europa, quis obter seu retrato, teve que lhe pedir autorização pessoalmente para mandar copiar um retrato já existente, que pertencia a Thomas de Martel: “Peço-lhe do modo mais sério do mundo, certo de que examinareis com benevolência meu pedido e desconsiderará obrigatoriamente minha ousadia”. Em 1658, escreve-lhe que seu maior prazer é poder falar dele e de sua obra com seus amigos e contemplar “o retrato na minha coleção”. O retrato substitui o amigo ausente, inscreve-se em um regime de familiaridade, de afeição e de admiração. Sua presença honra Sorbière, pois demonstra que ele mantém laços diretos de amizade com o modelo.

Em 1661, Hobbes aceita posar no ateliê de Samuel Cooper para seu grande amigo John Aubrey, afim de agradecer-lhe por tê-lo permitido cair nas graças de Charles II.  A clericatura significa na origem o Estado eclesiástico, mas, já no século XV, o clérigo tornou-se a pessoa instruída, o letrado, o sábio e, embora dentro da Igreja, ele se diferencia do padre. Depois, a maior parte do saber moderno escapou à clericatura da Igreja e o termo clérico laicizou-se e profissionalizou-se. À antiga clericatura, sucedeu a intelligentsia, aos clérigos, sucederam os intelectuais. O termo intelligentsia vem-nos da Rússia do século XIX e designa o conjunto de pessoas instruídas, cultivadas, por oposição à massa rural ou urbana que não teve acesso à escola, ou mesmo à escrita. Mais intensivo que o termo “intelectual”, da teoria geral de Antônio Gramsci especifica as duas esferas de ação social, de divisão do trabalho intelectual na luta política de organização da cultura entre letrado (abstrato) da classe dominante e orgânico (concreto) da classe subalterna, para a análise de Edgar Morin, a intelligentsia engloba não apenas letrados e professores, mas, também, funcionários e burgueses educados, abrangendo, assim, um grande número de categorias sociais. Ela compreende as profissões que produzem ou reproduzem saber (professores, pesquisadores), ideias (filósofos), formas (artistas, arquitetos, designers), ou ainda, cuja qualidade do trabalho profissional depende do manejo das ideias (advogados), do saber (experts) ou da concepção (engenheiros). Morin define a intelligentsia em função do caráter intelectual/espiritual dos produtos da atividade social de seus membros (saber, ideias, coisas do espírito) e não pela atividade intelectual/espiritual em si mesma, de que são desprovidos muitos membros da intelligentsia, como práticas manuais.

Isto é, como lembrava o jovem Marx, o artesanato, a caça, a pesca, que demandam inteligência constantemente desperta, de que muitos são desprovidos.  Isto quer dizer o seguinte: a intelligentsia contemporânea engloba categorias muito diferentes. Ela avoluma-se e diversifica-se com o desenvolvimento, em paralelo à intelligentsia humanista, de uma intelligentsia científica e de uma intelligentsia tecnicista. Mais do que isso, os intelectuais são membros da intelligentsia, mas os membros da intelligentsia não são necessariamente intelectuais. Escritores, artistas, advogados, pesquisadores não são, enquanto tais, “intelectuais”. Para que se tornem intelectuais é necessário que, a partir, mas para além da sua arte e da sua ciência, autointitulam-se como tais, isto é, autorizem-se a tratar dos problemas gerais/fundamentais de importância moralmente, socialmente, politicamente; assumam-se assim general problems setters/solvers. A noção de intelectual não pode reduzir-se a uma categoria socioprofissional; ao contrário, ela perpassa as categorias: muitos escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados consideram-se e são considerados exclusivamente como escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados; outros, consideram-se e são considerados como intelectuais porque intervêm na vida pública, seja pelo ensaio, pelo artigo de jornal, seja em função de uma tribuna política. Roland Barthes, escritor, crítico literário e filósofo dizia que o escritor (écrivain) escreve para escrever, e que o escritor-intelectual (écrivants) escreve para exprimir propriamente ideias. Os que são écrivain e écrivants são ao mesmo tempo, filósofos, escritores e ensaístas, e talvez considerados os mais representativos dos intelectuais, visto que a atividade social e política de intelectuais em geral, ignoram as categorias especializadas e tratam os problemas ignorados pelas categorias sociais especializadas. 

A teoria neopragmática de Richard Rorty representa um termo filosófico recente, existente da década de 1960, sendo utilizado para denominar a filosofia que reintroduziu muitos dos conceitos do pragmatismo, sobre a verdade como objetivo de desvencilhar-se das influências dos dualismos metafísicos típicos; as distinções entre essência e acidente, aparência e realidade, sendo tal posição denominada de antiessencialista. Grande parte do que Rorty descreve em seus textos sobre a verdade desenvolve-se através de um diálogo com Donald Davidson (2002) e sua teoria semântica da verdade. Ambos estão de acordo que a noção de verdade filosoficamente não pode ser tida como uma correspondência, como uma representação, mas discordam em alguns pontos quanto à solução pragmática que procuram encaminhar para essa questão. Enquanto que para Davidson, os nossos conceitos podem ser verdadeiros e utilmente descrever uma realidade objetiva, para Rorty a verdade não deve ser um objetivo da reflexão filosófica, pois o objetivo da investigação é procurar evidências substantivas para nossas crenças ocidentais, e que não há nada mais que possamos fazer para firmar nossas convicções. Embora seja possível reconhecer que o universalismo liberal tenha sido um instrumento de entendimento da dissolução das diferenças, ele acredita que a associação não é forçosa, mas representação contingente. 

O pragmatismo mais do que nunca e em diferentes variantes técnicas apresenta-se como uma forma de filosofia capaz de enfrentar os desafios próprios de nosso tempo, certamente, pode ser compreendido do ponto de vista de suas raízes, como sendo devedor, in statu nascendi, de um lado, ao pragmatismo clássico recursivo aos pensadores norte-americanos Charles Peirce, John Dewey, James, Schiller, por outro lado, às filosofias que emergiram da reviravolta pragmática do Ludwig Wittgenstein das Investigações Filosóficas. O pragmatismo que segundo Jean-Pierre Cometti (2010), é a filosofia mais solidamente enraizada na cultura norte-americana, desenvolveu-se em torno de uma filosofia do conhecimento, mas, desde o princípio, se afastou de concepções que tendem a privilegiar a busca de um fundamento no Absoluto ou de um modelo da Razão, que determina a priori as possibilidades de busca e de descoberta. Pode-se dizer que o pensamento central da metafísica, é que o conhecimento não se limita ao conhecimento puramente da experiência, mas que é possível chegar a um conhecimento objetivo do mundo através das categorias e dos conceitos. Analogamente fundamento da verdade não é, o mundo “material empírico”, mas o “mundo do pensamento”, que apreende a estrutura inteligível desde Sócrates de análise. O espírito é compreendido ao mundo em que a lógica exprime as leis que estruturam a realidade.

Richard Rorty interpreta esta postura clássica como sendo a pretensão de captar, pela mediação do conceito, a forma e o movimento da natureza e da história o que, em última instância, desembocou na ideia de que o ser humano é capaz, tanto de descobrir como reparar a injustiça da história humana. Há cerca de duzentos anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta começou a tomar conta do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) europeu. O precedente estabelecido pelos românticos conferiu a seu pleito uma plausibilidade inicial. O papel efetivo de romances, poemas, peças teatrais, quadros, estátuas e prédios no movimento social dos últimos 150 anos deu-lhe uma plausibilidade ainda maior, obtendo legitimidade, já que as ideias adquirem força na história. Alguns filósofos inclinaram-se ao iluminismo e continuaram a se identificar com a ciência. Eles veem a antiga luta entre a ciência e a religião, a razão e a irracionalidade, como um processo ainda em andamento que assumiu a forma de uma luta entre a razão e todas as mediações complexas intraculturais que pensam na verdade como algo constituído e não de fato encontrado. Esses filósofos consideram que a ciência é a atividade paradigmática primus inter pares e insistem que a ciência natural descobre a verdade, ao invés de cria-la de acordo com os instrumentos da razão. Encaram a expressão “criar a verdade” como meramente metafórica e totalmente enganosa. Pensam deste ponto de vista na perspectiva comparada entre a política e a arte como esferas de ação social em que a ideia de “verdade” fica deslocada.

Enfim, um dos primeiros estádios de futebol foram inaugurados ainda antes do século XX. Um dos mais reconhecidos é o Stamford Bridge, localizado em Londres e inaugurado a 28 de abril de 1877, e que ainda é usado pelo Chelsea FC. O Antigo Estádio da Luz, inaugurado em 1° de dezembro de 1954 e demolido em 2003, foi o maior estádio da Europa e um dos maiores do mundo, inicialmente com uma capacidade de 40 mil lugares, depois atingindo uma capacidade recorde de 120 mil lugares em 1985. Era propriedade do SL Benfica, tendo lhe custado cerca de 12 milhões de escudos e tendo sofrido vários rebaixamentos e melhoramentos. Foi substituído pelo novo Estádio da Luz após a demolição. No ano de 1989, é inaugurado o atual maior estádio do mundo, o Estádio Rungrado May Day, na Coreia do Norte, com capacidade de 150 mil espetadores. Apesar da sua grandeza, é pouco utilizada para eventos desportivos e jogos de futebol, mas sim para festas, espetáculos e eventos culturais. A 30 de maio de 2005, é inaugurado o Allianz Arena, com uma capacidade 75 mil espetadores. É propriedade do Bayern de Munique e do Munique 1860. Esse e o Mineirão, nominalmente Estádio Governador Magalhães Pinto, são os únicos estádios no mundo que podem mudar de cor conforme a equipe que joga no estádio, isto é importante em termos de representação: vermelho para o Bayern de Munique, azul para o Munique 1860, e branco para a seleção nacional. Foi a partir de inícios do século XXI que os estádios começaram a ser criados para satisfazer socialmente os espectadores, sendo mais modernos e mais cômodos do que os antigos. Atualmente, o Estádio da Luz, localizado em Lisboa é propriedade do Benfica, é o maior estádio português, e o Maracanã é o maior estádio brasileiro, inaugurado em 1950 e com uma capacidade de cerca de 78 mil lugares, servindo para jogos do Clube de Regatas Flamengo e do Fluminense Football Club. Nos Estados Unidos da América, a criação de estádios específicos para futebol ajudou a popularizar a Major League Soccer. Anteriormente, os times de futebol jogavam em estádio multiusos de Futebol americano, o que impedia a criação de uma identidade dos torcedores com os times. O primeiro a ser criado foi o Historic Crew Stadium do Columbus Crew Soccer Club.      

Nosso intelecto realizou tremendas proezas enquanto desmoronava nossa morada espiritual. Estamos profundamente convencidos de que apesar dos mais modernos e potentes telescópios refletores construídos nos Estados Unidos da América, não descobriremos nenhum empíreo nas mais longínquas nebulosas; sabemos também que o nosso olhar comunicativamente errará desesperadamente através do vazio mortal dos espaços incomensuráveis. As coisas não melhoram quando a física matemática nos revela o mundo do infinitamente pequeno. Finalmente, desenterramos a sabedoria de todos os tempos e povos, descobrindo que tudo o que há de mais caro e precioso já foi dito na mais bela 1inguagem. Estendemos as mãos como crianças ávidas e, ao apanhá-lo, pensamos possuí-lo. No entanto, o que possuímos não tem mais validade e as mãos se cansam de reter, pois a riqueza está em toda a parte, até onde o olhar alcança. Temos, seguramente, de percorrer o caminho da água, que sempre tende a descer, se quisermos resgatar o tesouro, a preciosa herança do Pai. No hino gnóstico à alma, o Filho é enviado pelos pais à procura da pérola perdida que caíra da coroa real do Pai. 

Ela jaz no fundo de um poço, guardada por um dragão, na terra dos egípcios - mundo de concupiscência e embriaguez com todas as suas riquezas físicas e espirituais. O filho e herdeiro parte à procura da joia, e se esquece de si mesmo e de sua tarefa na orgia dos prazeres mundanos historicamente dos egípcios, até que uma carta do pai o lembra do seu dever. Ele põe-se então a caminho em direção à água e mergulha na profundeza sombria do poço, em cujo fundo encontra a pérola, para oferecê-la então à suprema divindade. Como podemos escapar da alternativa entre o para si e o em si, como a consciência perceptiva pode ser obstruída por seu objeto, como podemos distinguir a consciência sensível da consciência intelectual? É que: 1°) Toda percepção acontece em uma atmosfera de generalidade e se dá anos como anônima. Não posso dizer que eu vejo o azul do céu no sentido em que digo que compreendo um livro ou, ainda, que decido consagrar minha vida às matemáticas. Minha percepção, mesmo vista do interior, exprime uma situação dada: vejo o azul por que sou sensível às cores – ao contrário, os atos pessoais criam uma situação: sou matemático porque decidi sê-lo. De forma que, se eu quisesse traduzir exatamente a experiência perceptiva, deveria dizer que se percebe em mim e não que eu percebo. Toda sensação comporta um germe de sonho ou de despersonalização, como nós o experimentamos por essa espécie de estupor em que ela nos coloca quando vivemos verdadeiramente em seu plano.  Sem dúvida, o conhecimento me ensina que a sensação não aconteceria sem uma adaptação de meu corpo, por exemplo que não haveria contato determinado sem um movimento de minha mão. Mas essa atividade se desenrola na periferia de meu ser, não tenho mais consciência de ser o verdadeiro sujeito da sensação do que de meu nascimento ou de minha morte.

Nem meu nascimento nem minha morte podem aparecer-me como experiências minhas, já que, se eu os pensasse assim, eu me suporia preexistente ou sobrevivente a mim mesmo para poder experimentá-los, e, portanto, não pensaria seriamente meu nascimento ou minha morte. Quer dizer, cada sensação, sendo rigorosamente a primeira, a última e a única de sua espécie, é um nascimento e uma morte. O sujeito que tem a sua experiência começa e termina com ela, e, como ele não pode preceder-se nem sobreviver a si, a sensação necessariamente se manifesta a si mesma em um meio de generalidade, ela provém de quem de mim mesmo, ela depende de uma sensibilidade que a precedeu e que sobreviverá a ela, assim como meu nascimento e minha morte pertencem a uma natalidade e a uma mortalidade anônimas. Pela sensação, eu apreendo, à margem de minha vida pessoal e de meus atos próprios, uma vida de consciência dada da qual eles emergem, a vida de meus olhos, de minhas mãos, de meus ouvidos, que são tantos Eus naturais. Enfim, toda vez que experimento uma sensação, sinto que ela diz respeito não ao meu ser próprio, evidentemente, aquele do qual sou responsável e do qual decido, mas a um outro eu que já tomou partido pelo mundo, que já se abriu a alguns de seus aspectos e sincronizou-se a eles. Entre minha sensação e mim há sempre a espessura de um saber originário que impede minha experiência de ser clara para si mesma. 

Experimento a sensação como modalidade de uma experiência geral, e isso é fundamentalmente humano, já consagrada a um mundo físico, e que crepita através de m sem que eu seja seu autor. 2°) A sensação só pode ser anônima porque é parcial. Aquele que vê e aquele que toca não sou exatamente eu mesmo, porque o mundo visível e o mundo tangível não são o mundo por inteiro. Quando vejo um objeto, sinto sempre que ainda existe ser para além daquilo que atualmente vejo, não apenas ser visível, mas ainda ser tangível ou apreensível pela audição, e não apenas ser sensível, mas inda uma profundidade do objeto que nenhuma antecipação sensorial esgotará. Correlativamente não estou por inteiro nessas operações, elas permanecem marginais, produzem-se adiante de mim, o eu que vê ou o eu que ouve são de alguma maneira um eu especializado, familiares a um único setor do ser, e é justamente a esse preço que o olhar e a mão são capazes de adivinhar o movimento que vai tornar a percepção precisa e pode dar provas desta presciência que lhes dá a aparência do automatismo. Podemos resumir essas duas ideias dizendo que toda sensação pertence a um certo campo. Dizer que tenho um campo visual é dizer que, por posição, tenho acesso e abertura a um sistema de seres, os seres visuais, que eles estão à disposição de meu olhar em virtude de uma espécie de contrato primordial e por um dom da natureza, sem nenhum esforço de minha parte; é dizer, portanto, que a visão é pré-pessoal; e é dizer ao mesmo tempo que ela é sempre limitada, que existe em torno de minha visão atual a um horizonte de coisas não-vistas ou mesmo não visíveis. A visão é um pensamento sujeito a um certo campo e é isso que chamamos de um sentido. Quando digo que tenho sentidos e me fazem ter acesso ao mundo.         

Não sou vítima de uma confusão, não misturo o pensamento causal e a reflexão, não apenas exprimo esta verdade que se impõe a uma reflexão integral: que sou capaz, por conaturalidade, de encontrar um sentido para certos aspectos do ser, sem que eu mesmo o tenha dado receptivamente a eles uma operação constituinte. Com a distinção entre os sentidos e a intelecção, em Merleau-Ponty, encontra-se justificada a distinção entre os diferentes sentidos. O intelectualismo não fala dos sentidos porque, para ele, sensação e sentidos só aparecem quando eu retorno ao ato concreto de conhecimento para analisá-lo. Então distingo nele uma matéria contingente e uma forma necessária, mas a matéria é apenas um momento ideal e não um elemento separável do ato total. Portanto, os sentidos não existem, mas apenas a consciência. Por exemplo, o intelectualismo recusa-se a colocar o famoso problema da contribuição dos sentidos na experiência do espaço, porque as qualidades sensíveis e os sentidos, enquanto materiais do conhecimento, não podem possuir como propriedade o espaço que é a forma da objetividade em geral e, em particular, o meio pelo qual uma consciência de qualidade se torna possível.

Se uma sensação não fosse uma sensação de algo, ela seria um nada de sensação, e “coisas” no sentido mais geral da palavra, por exemplo qualidades definidas, só se esboçam na massa confusa das impressões se esta é posta em perspectiva e coordenada pelo espaço. Assim, todos os sentidos devem ser espaciais se eles devem fazer-nos ter acesso a uma forma qualquer do ser, quer dizer, se eles são sentidos. E, pela mesma necessidade, é preciso que todos eles se abram ao mesmo espaço, sem o que os seres sensoriais com os quais eles nos fazem comunicar só existiriam para os sentidos dos quais eles dependem – assim como os fantasmas só se manifestam à noite -, faltar-lhes-ia a plenitude do ser e não poderíamos verdadeiramente ter consciência deles, quer dizer, pô-los como seres verdadeiros. A essa dedução, o empirismo tentaria em vão opor fatos. Por exemplo, se se quer demonstrar que o tato não é por si mesmo espacial, se se tenta encontrar nos cegos ou nos casos exemplares de cegueira psíquica uma experiência tátil pura e mostrar que ela não é articulada segundo o espaço e tempo, essas provas experimentais pressupõem aquilo que a elas caberia estabelecer. Com efeito, como saber se a cegueira e a cegueira psíquica se limitaram a subtrair, da experiência do doente, os dados visuais, e se elas também não atingiram a estrutura de sua experiência tátil?  Não se tata, bem entendido, de uma relação de continente e conteúdo, já que esta relação só existe entre objetos, nem mesmo de uma relação de inclusão lógica, como a que existe entre o indivíduo e a classe, já que o espaço é anterior às suas pretensas partes, que sempre são recortadas nele. 

O espaço não é o ambiente (real ou lógico) em que as coisas se dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível. Quer dizer, em lugar de imaginá-lo como uma espécie de éter no qual todas as coisas mergulham, ou de concebê-lo abstratamente com um caráter que lhes seja comum, devemos pensá-lo como a potência universal de suas conexões. O testemunho do sonho encontra uma violenta resistência por parte da mente consciente, que só reconhece o “espirito” como algo que se encontra no alto. O “espírito” parece “sempre vir de cima”, enquanto tudo o que é turvo e reprovável vem de baixo. Segundo esse modo de ver o espírito significa a máxima liberdade, um flutuar sobre os abismos, uma evasão do cárcere do mundo ctônico, por isso um refúgio para todos os pusilânimes que não querem “tornar-se” algo diverso. Mas a água é tangível e terrestre, é o fluido do corpo dominado pelo instinto, sangue e fluxo de sangue, o odor do animal e a “corporalidade cheia de paixão”. O inconsciente (cf. Jung, 2000) é a psique que alcança, a partir da luz diurna de uma consciência espiritual, e moralmente lúcida, o sistema nervoso designado há muito tempo por “simpático”. Este não controla como o sistema cérebro espinal a percepção e a atividade muscular e através delas o ambiente; mantém, no entanto, o equilíbrio da vida sem os órgãos dos sentidos, através das vias misteriosas de excitação, que não só anunciam a natureza mais profunda de outra vida, mas também irradia sobre eia um efeito interno. Trata-se de um sistema extremamente coletivo: a base operativa de toda participation mystique, ao passo que a função cérebro-espinhal, e per se social do ponto de vista, comparativamente, culmina na distinção diferenciada do Eu, e só apreende o superficial e exterior sempre por meio de sua relação com o espaço. O social capta como “fora”, e o sistema simpático tudo vivência como “dentro”. 

Câmera lenta, expressão que tem como representação social o efeito especial de cinema, e vídeo em que os movimentos e ações em quadro são vistos numa duração maior do que a normal, dando a sensação de que o próprio tempo está passando mais devagar. Efeito especial é qualquer uma de várias técnicas utilizadas na indústria de entretenimento, cinema e televisão para realizar cenas que não podem ser obtidas por meios normais ou por ação ao vivo. Estas técnicas também são utilizadas quando a criação de efeitos por meios tradicionais sairia proibitivamente dispendiosa; por exemplo, seria extremamente caro construir um castelo do século XVI ou afundar um transatlântico do século XX, mas isto pode ser simulado com efeitos visuais. Com o advento da computação gráfica, são utilizados também para realçar elementos previamente filmados, acrescentando, removendo ou destacando objetos em uma cena. Existem muitas técnicas diferentes de efeitos especiais, indo dos tradicionais efeitos teatrais como corre com os dos “espetáculos da restauração” ingleses historicamente de fins do século XVII, através das técnicas cinematográficas clássicas inventadas no início do século XX, tais como fotografia aérea e impressão óptica, até a modernidade per se do emprego de computação gráfica. Frequentemente, diferentes técnicas são utilizadas em conjunto numa única cena ou tomada para atingir o efeito desejado. Embora o efeito só seja perceptível quando da projeção, ele pode ser preparado na filmagem ou no tratamento das imagens. 

Os efeitos especiais também podem ser categorizados em três tipos, sendo eles: efeitos sonoros, que são produzidos digitalmente ou com auxílio de dublagem, legendagem e mixagem sonora; efeitos visuais, produzidos digitalmente com o mais recente auxílio da pós-produção; e os efeitos físicos, que podem ser referenciados como sendo práticas ao vivo com auxílio de cenários, figurinos, caracterização, objetos de cena, etc. Carlos Niemeyer (1920-1999) foi um produtor de cinema brasileiro. Nos anos 1940, foi piloto da Força Aérea Brasileira e em 1945 foi aos Estados Unidos da América com um grupo de oito aviadores, levando aviões para reparos. Lá conheceu a cantora Carmem Miranda, uma cantora, dançarina, e atriz luso-brasileira. Sua carreira artística transcorreu no Brasil e nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950. Trabalhou no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão e que, nesta época vivia em Los Angeles. Os dois tiveram um romance, que durou um mês, até Niemeyer voltar para o Brasil. Niemeyer também ficou conhecido por pertencer ao “Clube dos Cafajestes”, uma turma de playboys bem nascidos do Rio de Janeiro, nos anos 1950 e 1960. Em 1970, foi ao México para filmar as primeiras imagens coloridas de uma Copa do Mundo a serem exibidas no Brasil. Entre os outros “cafajestes” estavam o jornalista Ibrahim Sued e o ator Jece Valadão. Começou na atividade nos anos 1950, produzindo documentários com Jean Manzon, e notabilizando-se ao lançar o Canal 100, um cinejornal semanal que era exibido nos cinemas, como introito antes do filme principal. Com estilo próprio, e com muitas câmeras colocadas em vários pontos do estádio, inclusive detalhando o lance em câmera lenta, contando para isso com o talento do cinegrafista Francisco Torturra. Com seu acervo, produziu também filmes de longa-metragem, como Brasil Bom de Bola e Futebol Total. Era primo do arquiteto Oscar Niemeyer e morreu de causas naturais, aos 79 anos.

Bibliografia Geral Consultada.

CHAPLIN, Charles, Mis Primeros Años. Buenos Aires: Emecé Editores, 1981; MATOS-CRUZ, José de, Charles Chaplin, A Vida, o Mito, os Filmes. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora Vega, 1982; FELDEN, Marceau, La Guerra en el Espacio. Armas e Nuevas Tecnologías. Madrid: Fundesco; Editorial Tecnos, 1983; DE MASI, Domenico (Org.), L`Emozione e la Regola. I Gruppi Creativi in Europa dal 1850 al 1950. Bari: Casa Editrice Laterza, 1991; TAVARES, Ana Maria, Armadilhas para os Sentidos: Uma Experiência no Espaço-Tempo da Arte. Tese de Doutorado em Artes. Departamento de Artes Plásticas. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2000; JUNG, Carl, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 2ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2000; CANEVACCI, Massimo, Antropologia della Comunicazione Visuale. Roma: Edizionne Meltemi, 2001; BOUNANNO, Milly, L’Etat della Télévisione. Esperienze e Teorie. Roma: Edizionne Laterza, 2006; MAIA, Paulo Roberto de Azevedo, Canal 100: A Trajetória de Um Cinejornal.  Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2006; BECKER, Harold, Outsiders: Estudos da Sociologia do Desvio. Rio de Janeiro: Editor Zahar, 2008; COMPAGNON, Antoine, O Demônio da Teoria. Literatura e Senso Comum. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2011; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; PADIGLIONE, Cristina, “Com Imagens Históricas, Canal 100 é Digitalizado e Rende Série de Documentários à ESPN”. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/23/04/2016; SOUZA, André Barcellos Carlos de, Televisão e (Des)razão. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2017; ROMERO, Hidalgo, Em Câmera Lenta: Uma Transcriação. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes. Campinas; Universidade Estadual de Campinas, 2019; DEJOURS, Christophe, Primeiro, o Corpo: Corpo Biológico, Corpo Erótico e Senso Moral. Porto Alegre: Editora Dublinense, 2019; BOEHM, Camila, “Cinemateca Lança Projeto de Recuperação de Acervo do Canal 100”. In: https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2024-11/27; RESING, Daniela Souto, Design Gráfico e Imagem em Movimento no Brasil (1929–2017): Uma Coleção de 200 Artefatos Gráficos Audiovisuais. Tese de Doutorado em Design. Escola Superior em Desenho Industrial. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2025; Artigo: “Globo Joga Pesado e Torce para Arrecadar R$ 2 bilhões na Copa do Mundo de 2026”. In: https://www.otempo.com.br/entretenimento/2025/9/17/; entre outros.