“A guerra, que desenvolve a força do corpo, simultaneamente tempera a alma”. Pasquale Paoli
Sambucucciu d`Àlandu é uma das figuras importantes na história da Córsega na Idade Média. Entretanto, não se sabe nem a data nem o local de seu nascimento. Ele não é mais mencionado nas fontes depois de 1370; possivelmente morreu de peste ou de causas naturais naquele ano. Acredita-se que ele tenha vindo da vila de Alando, na paróquia de Bozio. Graças aos cronistas corsos da Idade Média, Giovanni della Grossa e Petrus Cyrnæus, sabemos que d`Alandu liderou a revolta antifeudal de 1357 ao lado de outras figuras notáveis. Durante esses levantes populares, todos os senhores foram caçados e seus castelos destruídos, pelo menos temporariamente. Os Corporales (capurali em corso) substituíram os nobres da ilha como a nova aristocracia. Contudo, os senhorios foram restabelecidos no Sul da Córsega, na Terra dos Senhores (A Terra di i Signori) e em Cap Corse. É uma península com aproximadamente 400 km² de área, localizada no Nordeste da ilha da Córsega. Estendendo-se para o Norte em direção à Ligúria, fica a 33 km de Capraia, 83 km de Piombino, 96 km de Livorno, 160 km de Gênova e a menos de 175 km da costa francesa. A ponta Norte do Cabo situa-se ao Sul de uma linha Leste-Oeste que passa por Toulon e um pouco mais ao Sul do que a ilha de Porquerolles, colocando o Norte da Córsega na mesma latitude da parte mais meridional da França continental (Pyrénées-Orientales, ao Sul de Perpignan). Na Antiguidade, o país era chamado de Sacrum Promontorium.
Na Idade Média, tornou-se território de senhorios (San Colombano, Avogari, etc.). Foi dividido em cantões durante a Revolução. O centro da ilha era chamado de Terra di Comune, ou Terra del Comune, em referência à comuna de Gênova, cujos apoiadores politicamente na revolta se colocaram sob sua proteção. É apropriado traduzir essa expressão como “Terra da Comuna (de Gênova)” e não “Terra do Povo Comum”, como era o caso na historiografia próxima passada da Córsega. Sambucucciu d`Alando tinha um sobrinho com o mesmo nome, que foi nomeado tenente do povo em 1466 pelos habitantes de “En-Deçà-des-Monts”. Colonna de Cesari Rocca, em sua História da Córsega publicada em 1916, relata uma infeliz interpretação dos cadernos de Cirno por Limperani que deu origem ideológica ao mais grosseiro anacronismo que a historiografia registrou e que muitos escritores contemporâneos hic et nunc ainda persistem em reproduzir. “Assim, Limperani datou a existência de Sambucucciu d`Alandu e do movimento popular do qual essa figura era líder (1359) no século XI. Então, incapaz de conter sua imaginação, ele inventou do zero um Sambocuccio, senhor de Alando, que expulsou os Cinarchesi da Córsega (numa época em que sua presença lá é incerta), destruiu as fortalezas dos barões e então, como Licurgo e Sólon, dotou a Terra da Comuna de uma constituição adequada às suas necessidades, provando ser um legislador tão judicioso quanto havia sido um capitão corajoso”.
Embora Giovanni della Grossa e Cyrnæus
concordassem que o movimento de Sambocuccio culminou na ocupação genovesa e no
governo de Giovanni Boccanegra, Limperani, cujo texto é repleto de referências,
baseou sua nova teoria na autoridade desses dois cronistas. No entanto, seria
em vão procurar em suas obras uma palavra sequer sobre Sambocuccio no ano 1000,
bem como sobre Sambocuccio o legislador. Limperani tinha “uma mania de corrigir
a história, e nota-se, em seus dois volumes, vários exemplos da obliteração de
sua previsão”. Cego por uma teoria que atribuía uma constituição comunal à
Córsega no século XI, ele encontrou um pretexto para aplicá-la na desordem
dos Cadernos de Cirno. A pega de Sambocuccio precedia a de Giudice ali, e isso
foi um golpe de gênio de Limperani: ele não considerou que Sambocuccio estava
solicitando a intervenção do governador Boccanegra (1359) e que ele próprio
iria a Gênova para solicitar o envio de Tridano della Torre (1362). Ele
se recusou a notar que o Cirno estava atribuindo a biografia do primeiro (século
XIII) ao segundo Giudice (século XV) e que essas transposições poderiam
simplesmente ter se originado da transposição das páginas do manuscrito
original! “Foi por isso que, sob a influência de Limperani, os historiadores
corsos acreditavam com sabedoria adotar de “boa fé” o que consideravam ser a
cronologia de Cirneu: Entre Giovanni e Pietro, declara o Abade Galletti, não
hesitamos em favorecer este último’. Durante o século XIX, apenas Renucci e
Robiquet se conformaram ao texto de Giovanni, que, sendo quase contemporâneo histórico
de Sambocuccio, não merecia ser questionado nesse ponto. Todos os outros
seguiram o sistema de Limperani.
Gregori, em sua nova
edição de Filippini, inseriu uma cronologia da Córsega que consagrou o mito
de Sambocuccio como legislador do ano 1000; encontramos essa cronologia
reproduzida em Jacobi, Friess, Gregorovius, Galletti, Mattei, Monti,
Girolami-Cortona, todos autores de histórias gerais da Córsega; também no Grand
Dictionnaire Larousse e na Grande Enciclopédia, para não mencionar
obras de menor importância. O Inventário dos Arquivos Departamentais da
Córsega (1906) ainda mantém essa cronologia errônea. Além disso, o mais
importante e consciencioso historiador da Córsega, o Abade Rossi, confiando em
Limperani, aceitou sem questionar a história de Sambocuccio assim modificada. Em
seus Anais da Córsega (1873), o doutor Mattei coletou e classificou
cronologicamente um número significativo de registros; em sua obra,
Sambocuccio, duplicado, aparece no século XI e no século XIV. Colonna de Cesari
Rocca afirma que o papel de Sambucucciu foi ampliado por historiadores modernos
que o consideram o libertador do povo e o legislador da Córsega, e conclui: “Não
há tradição nem documento que sustente essa opinião, que surgiu no século XVIII,
nas condições que descrevemos no início desta obra. O povo o escolheu para
liderá-lo contra os senhores feudais; em duas ocasiões, Sambucucciu negociou
com a República o envio de um governador e, muito provavelmente, representou o
partido popular em Gênova, onde atos notariais atestam sua presença. Na
Córsega, ele parece ter servido apenas como conselheiro do governador, cargo
que dividiu com outros seis habitantes da ilha”. Sua estátua, criada por Noël
Bonardi (1934-20212), fica na saída da vila de Alando, perto do antigo Convento
de Alando. Esta obra monumental em granito rosa, pesando 18 toneladas e com 6
metros de altura, foi inaugurada recentemente em 1994.
A Córsega é a quarta
maior ilha do mar Mediterrâneo por extensão depois da Sicília, Sardenha e
Chipre e a maior ilha da França. Localiza-se a Oeste da Itália, na zona
geográfica italiana, constituindo uma coletividade territorial única. É
dividida em dois departamentos: Alta Córsega e Córsega do Sul. Separada da
Sardenha por um curto trecho do Estreito de Bonifácio, emerge como uma enorme
cadeia de montanhas rica em florestas do Mar Mediterrâneo, marcando a fronteira
entre a parte ocidental do mar Tirreno e o mar Lígure. É universalmente reconhecida
como o berço de Napoleão Bonaparte (1769-1821), que nasceu em Ajaccio,
um ano após a ilha ser ocupada pelo Reino da França. Também é o berço de
Pascal Paoli (1725-1807), lutador e revolucionário corso. Pasquale Paoli: “Nós
nascemos italianos pelo sentimento, mas, em primeiro lugar, nos sentimos
italianos pelo idioma, pelas raízes, pelas tradições. Todos os italianos são
irmãos para a História e para Deus... Como corsos, nós não queremos ser
escravos, nem rebeldes e, como italianos, nós temos o direito de ser tratados
como todos os outros irmãos italianos... Nós ganharemos ou nós morreremos
(contra os franceses) com nossas armas em nossas mãos... A guerra contra a
França há pouco é santa porque o nome de Deus é santo e justo. Aqui em nossas
montanhas aparecerá para toda a Itália o sol da liberdade”.
A sua capital e maior cidade é Ajaccio, que também é a capital da Córsega do Sul, enquanto a Bastia geograficamente, a segunda mais populosa cidade da ilha, é a capital da Alta Córsega. Outras localidades importantes são Porto-Vecchio, Borgo, Corte e Calvi. Seu ponto mais alto é o Monte Cinto, com 2.706 metros de altitude. Com cerca de um terço do território protegido como parque nacional, e muito do belo litoral continuando imune do cimento que mudou grande parte da costa mediterrânica, a Córsega, quase despovoada (31 hab./km²), com base da sua economia em boa parte no turismo, pode praticamente duplicar a sua população no verão. A relação não resolvida entre a Córsega e a França, que a governa há 258 anos, manifesta-se não só a partir do apego de seu povo às suas tradições e sua língua (u Corsu, “linguagem poderosa, e o mais italiano entre os dialetos da Itália”, segundo Niccolò Tommaseo), mas por indicadores estatísticos que revelam a crise econômica e social (perene último colocado do país francês por nascimento e emprego) e por seus fortes sociais impulsos de autonomia e Independência, representados pelo nacionalismo corso, que colidem com a constituição francesa.
Na história de Córsega, a geografia e orografia tiveram consequências maiores que em outros lugares. A grande ilha mediterrânea é uma “montanha no meio do mar”, atravessada de noroeste a sudeste por um formidável relevo cujas montanhas superam por vezes os 2,5 km de altitude. O ponto mais alto da ilha alcança os 2706 m no Monte Cinto, cujo pico fica somente a 28 km do mar, mostrando o grande declive da ilha. Esse relevo sempre dividiu Córsega em duas partes à nordeste e sudoeste da ilha: a Alta Córsega, chamada historicamente de “Banda de dentro” pois se encontra antes das montanhas pegando como referência a Itália ou Cismonte, e a Corse-du-Sud, chamada historicamente de “Banda de fora”, além das montanhas ou Pumonte. Os vilarejos que se dispersam pelas montanhas, muitos acima dos 1000 metros de altitude, ficavam no inverno sem ligações com o resto da ilha por conta de nevascas que podem durar até semanas. Isto causava uma barreira que dividia as duas regiões. Além disto, os íngremes vales eram por vezes sem estradas de ligação com outros vales dentro da própria Banda, o que deixava o interior corso com pouca influência com o restante do mundo.
Se por um lado estas características do terreno deixaram mais difícil o trabalho dos invasores, deixaram bastante lenta a penetração e acostumando os corsos a fazer pequenas guerrilhas para resistir por séculos, contribuíram a deixar baixa a densidade de população e a separar os corsos entre eles. A Alta Córsega, virada para a Península Itálica, sofreu maior influência italiana, que no plano político-social e linguístico, enquanto a parte sudoeste manteve uma originalidade maior, mas tendo um menor progresso político, pelo menos até a invasão francesa. Enquanto as áreas de montanhas tinham uma maior tendência a conservar as tradições locais, as cidades costeiras foram fundadas por invasores. Ocasionando a criação do anarquismo nas aldeias e empurrando a população do interior a fazer “justiça com as próprias mãos”, e a difundir o fenômeno do banditismo (cf. Hobsbawm, 1971). A grande divisão orográfica acabou por criar na ilha fronteiras sociais, linguísticas e de ideais políticos. Tais fronteiras ao longo da história social e política, mesmo com poucas variações, acabaram criando as subdivisões administrativas que permanecem. A grandes dimensões da ilha (quase 8800 km²) mesmo não garantindo autonomia, foi suficiente para criar um desejo de independência nos corsos. Localizada em uma posição estratégica no Mediterrâneo acabou atraindo o interesse em outros povos que chegariam à ilha como comerciantes ou conquistadores. Os fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, pisanos, aragoneses, genoveses e, last but not least, os franceses com o Tratado de Versalhes de 1768 sorrateiramente obrigaram os genoveses a ceder a ilha, e foram os dominadores da ilha, deixando ao povo local poucos períodos de Independência.
Escólio: Devido às
glaciações, o nível médio do Mediterrâneo se abaixou e se criaram diversas
pontes naturais permitiram a passagem da fauna (e talvez do homem) da península
Itálica ao arquipélago sardo-corso, passando pelas ilhas toscanas e
atravessando um pequeno trecho de mar. Entre 12 e 14 mil anos atrás, o clima
começou a sua evolução e levou o Mediterrâneo à sua forma atual, e a Córsega
assumiu o aspecto atual insular. Remontam aproximadamente de 9000 anos as
primeiras localidades paleolíticas de pedras e esboços de escultura achadas na
Córsega, na região de Porto-Vecchio. Um esqueleto feminino chamado a dame de Bonifácio
datado do VII milênio foi achado perto da cidade homônima. O neolítico se
concluiu por volta de 1800 na Córsega. Neste período se desenvolveu uma
civilização megalítica da que ficam menires. A localidade de Filitosa é
reconhecida como patrimônio mundial, se encontra perto de Sollacaro, próximo da
foz do rio Taravo. Sempre no Sul, se desenvolveu com a chegada da Idade do
Bronze, a civilização Torreana, ligada com a Nurágica na ilha vizinha, a
Sardenha. Desta cultura restam numerosas torres com estrutura parecida com as
dos nuragues sardos, ainda que menos imponentes. Pela natureza dos achados, da
época e da localização destas, acredita-se que tal civilização seria da
extensão da desenvolvida na Sardenha.
Melhor organizados e
armados, os Torreanos que alguns acreditam ser o antigo povo do mar dos
Shardana, ganham dos megalíticos e mandam estes para o Centro e o Norte da
ilha. Na mesma localidade de Filitosa restam os traços da destruição cruel do
assentamento precedente e um assentamento Torreano no lugar deste. Na Idade do
Ferro parece que aconteceu uma progressiva fusão entre os herdeiros das duas
civilizações: começa a nascer o povo que os gregos chamarão de Κὁρυιοι,
corsos. Também são achadas algumas inscrições fenícias do século IX a.C. que
citam o povo do mar chamado krsym, que habitavam a Córsega e parte da
Sardenha assentado em Kition (Chipre). Neste período, cada novo invasor expulsa
o precedente. Chegam à ilha iberos, lígures, fenícios e gregos, enquanto os indígenas
negligenciados na literatura se refugiam nos montes.
Durante as convulsões
que acompanharam o fim do Império Romano do Ocidente, a Córsega foi disputada
entre vândalos e godos, aliados dos últimos imperadores romanos, até que
Genserico assegurou o controle em 469. Durante os 65 anos de dominação, os
vândalos desfrutaram do patrimônio florestal da ilha para os estaleiros, e
tiveram uma frota que aterrorizou o Mediterrâneo ocidental. A potência vândala
na África foi destruída por Belisário, enquanto seu general Cirilo conquista a
Córsega em 534, que foi unida ao Império Romano do Oriente. Segundo Procópio,
na Córsega restavam menos de 30 000 habitantes. No período sucessivo, godos e
longobardos saqueiam a ilha, deixada indefesa pelos Bizantinos, os quais após
empobrecerem a ilha devido a um excessivo peso fiscal, não a tinham protegido
devidamente. Por outro lado, os próprios Bizantinos tiveram problemas na África
com a invasão árabe e, em 713, os árabes realizam as primeiras incursões contra
a Córsega. Nesta conjuntura ocorre notável processo de despovoamento da ilha e
a formação, perto de Roma, de uma colônia corsa em Porto (Óstia). A Córsega
continua ligada nominalmente ao Império romano do oriente até que, em 774,
Carlos Magno vence os Longobardos na Itália e conquista a ilha, que passa assim
sob a jurisdição dos Francos. Porém, em 806 há novas incursões de mouros, desta
vez provenientes da Península Ibérica; mesmo vencidos várias vezes por tropas
de Carlos Magno (748-814), estes conseguem estrategicamente tomar o controle
por breve tempo em 810.
Foram enfim expulsos
por uma Expedição guiada pelo filho de Carlos Magno, porém os mouros não
se dão por vencidos e continuam a fazer incursões na ilha. Para tentar acabar
com esta situação, em 828 a defesa da ilha foi entregue ao Marquês Bonifácio II
da Toscânia (791-838), que conduziu expedições punitivas contra os portos
norte-africanos de onde saíram incursões árabes contra o litoral do mar
Tirreno; na via de volta Bonifácio construiu uma fortaleza perto da ponta sul
da Córsega, fundando o núcleo fortificado da cidade de Bonifácio. A guerra
contra os sarracenos, que voltaram bem cedo a fazer ataques, foi continuada
pelo filho de Bonifácio, Adalberto, que herdou o compromisso em 846. Os
sarracenos permaneceram donos de algumas bases na ilha pelo menos até 930. A
Córsega, que nesta altura era unida ao reino de Berengário II, rei da Itália,
virou refúgio de seu filho Adalberto em 962, depois que Berengário perdeu o
reino para Otão I, o Grande, coroado Rei de Itália em Pavia, em 951. Adalberto
conseguiu manter o controle da Córsega e passou-a para o seu filho homônimo, que
foi vencido pelas forças de Otão II. Determinou-se então a entrega da ilha à
marca da Toscana, ficando o último Adalberto responsável pela Córsega. Nesta
época surgiu uma anarquia feudal que viu explodir uma luta entre pequenos
senhores locais ansiosos de expandir seus pequenos domínios. Entre estes
aparecem os Condes de Cinarca, que se pretendem descendentes diretos de
Adalberto e procuram expandir o domínio à ilha inteira. Tal vontade deu origem
a batalhas que duraram por séculos: para pôr contraste às ambições dos
feudatários, ainda no século XIV Sambuccio d`Alando se colocou à frente de uma
Dieta que se opôs às pretensões deles, confinando os senhores na porção
Sudoeste da ilha.
Esta receberá o nome de
“Terra dos Senhores” (Pomonte) enquanto no restante da ilha se afirma
definitivamente um regime que liga entre eles comuns autônomos (ao exemplo do
modelo análogo que se aconteceu na Itália desde o século XI). Tal território
receberá o nome de “Terra de Comuns” (Cismonte). A divisão durará até ao século
XVIII e marcará significativas diferenças no desenvolvimento social, econômico
e até linguístico entre as duas partes da ilha, com o Norte mais ligado à
Itália e com uma língua mais parecida com a da Toscana. Do ponto de vista de
organização, na Terra de Comuns, cada qual dos comuns mais importantes
chefiando uma Piave (a paróquia principal) nomeavam através de sufrágio
universal, incluindo as mulheres, os representantes chamados “Pais dos comuns”,
responsáveis pela administração da justiça e da eleição dos presidentes deles,
chamado podestà, que coordenava a operação. Os podestàs das
várias Piaves, por sua vez, escolhiam os membros de um conselho
superior, chamado “Conselho dos Doze”, responsável das leis e regulamentos
estabelecidos na Terra de Comuns. Os “Pais dos comuns”, além disso, elegiam
para cada Piave um Chefe, um magistrado responsável pela proteção e pela
segurança da população, encarregado de garantir que os mais desfavorecidos não
fossem explorados e que fosse mantida justiça para eles. Grande parte das
terras dessa região eram consideradas de propriedade da coletividade comunal.
A total abolição das propriedades comuns,
promovida na segunda metade do século XIX pela França, trouxe consequências
graves para a economia da Córsega. Em Cinarca (Terra dos Senhores), os
barões feudais mantinham as suas prerrogativas, assim como aqueles que
controlavam o Capo Corso, e juntos constituíam uma ameaça para o sistema em
vigor na “Terra de Comuns. Para fazer frente, em 1020 os magistrados desta
última pediram ajuda de Guglielmo Marquês de Massa (1160-1214) da família
Malaspina, o qual, descendo na ilha, reduziu a ordem dos barões do Conde de
Cinarca e estabeleceu na Córsega um próprio protetorado, para transmitir
depois ao próprio filho. Em torno da metade do século XI, todavia, o Papado
levantou, na base de documentos falsificados, uma doação por obra de Carlos
Magno, o qual havia estabelecido ama reversibilidade do próprio domínio a favor
da Santa Sede, a questão da própria soberania na Córsega.
Tal reivindicação achou
grande consentimento na ilha, a começar pelo seu clero, e em 1077 os corsos se
declararam súbditos de Roma. O papa Gregório VII (1073-1085), em auge da
questão das investiduras com o Imperador Henrique IV, não tomou diretamente o
controle da ilha, mas passou ao bispo de Pisa, Landolfo, que o encarregou de
legado pontifício pela Córsega. Em seguida, o titular da cátedra arcebispal
pisana passou a ser também Primado da Córsega (e da Sardenha). Catorze anos
depois, o Papa Urbano II (1088-1099) confirmou as concessões do seu predecessor
através da bula Nos Igitur. O título de legado pontifício passou então a
Daiberto, instalado na cátedra de Landolfo. A assinação como sufragânea dos
bispados corsos fez com que o bispo de Pisa assumisse o título de arcebispo. Pisa,
com o seu porto, mantinha por séculos (desde a época romana) estreitos ligações
com a ilha, expandindo - ao mesmo tempo que a própria potência marítima crescia
- a própria influência política, cultural e econômica. Durante a administração
episcopal seguiu inevitavelmente a autoridade política dos Juízes da República
toscana, destinada em breve tempo a fazer reflorescer a Córsega e marcar
profundamente também depois de substancial perda de controle da ilha em seguida
a desastrosa derrota sofrida pelos pisanos nas mãos dos genoveses, na Batalha
da Meloria em (1284). Apesar de que na atualidade em geral se julgue
positivamente o governo da República de Pisa, não faltaram na Córsega motivos
de descontentamento.
Parte do clero e dos
bispos da ilha não suportava a submissão ao arcebispo de Pisa, ao mesmo tempo
que o poder crescente da República de Génova, rival tradicional de Pisa,
sabendo do valor estratégico da Córsega, apoiou às reclamações dos corsos no
tribunal papal de Roma para obter a ilha em próprio favor. Deste modo, depois
de um período durante o qual o papado não adotou uma posição clara, em 1138
Papa Inocêncio II estabeleceu uma solução de compromisso e dividiu a jurisdição
eclesiástica da ilha entre os arcebispos de Pisa e de Gênova, assinando o começo
da influência lígure na Córsega, sendo ainda mais forte depois de 1195 com a
ocupação genovesa de Bonifácio. Os pisanos tentaram por vinte anos, sem
sucesso, de recapturar a cidade, até que em 1217 o Papa Honório III tomou o
controle da ilha. Porém, a mediação papal não serviu para cessar a briga entre
Pisa e Gênova, e com a influência deles, fez repercutir durante todo o século
XIII também na ilha a briga entre guelfos e gibelinos que estava acontecendo em
toda a Itália. No ambiente desta briga e que já tinha acontecido e que se
repetiria muitas vezes mais tarde favorecendo os domínios, os maiorais da Terra
de Comuns invocaram a intervenção do marquês Isnardo Malaspina. Os pisanos
reagiram estabelecendo um novo conte de Cinarca, e a guerra invadiu a ilha sem
que nem o partido genovês nem o pisano puderam ser impostos definitivamente até
a batalha de Meloria 1284, inclinado a balança a favor de Gênova que, a partir
daquele momento, estendeu a sua influência na Córsega.
A memória da influência pisana permaneceu na toponímia e na onomástica ainda são muito difundidos na Córsega sobrenomes de origem toscana, no idioma local bem toscano principalmente na região de Bastia e de Capo corso e em alguns dos exemplos mais notáveis de arquitetura românica que permaneceu na ilha, igrejas e edifícios públicos: em todas as catedrais de Nebbio, Mariana, San Michele di Murato, San Giovanni di Carbini, Santa Maria Maggiore di Bonifacio, San Nicola di Pieve e de infraestruturas de rodovias, pontes, fortificações e torres. Contudo, até mesmo depois do começo do domínio genovês, Pisa manteve intensas relações com a Córsega, como é demonstrado empiricamente no corpus documental abundante relativo à Córsega que está na Cúria de Pisa, a qual anexara uma escola para seminaristas corsos durante muito tempo. Pouco conhecido, embora significante, é o fato de o Nielluccio, um dos vinhedos mais difundido na ilha semelhante ao Sangiovese da Toscana, a base do vinho corso Patrimônio, ter sido importado pelos pisanos no século XII. Durante aquele tempo ganha também prestígio na Córsega o toscano vulgar, que passa a ser a língua oficial. Pisa também será a primeira da sede universitária seguida por Roma e Nápoles frequentada por corsos.
Estudaram em Pisa Carlo e Giuseppe Bonaparte, Antonmarchi, médico em Santa Helena de Napoleão, o poeta Salvatore Viale, o higienista Pietrasanta, o doutor de Napoleão III vindo a ser, nos casos de Angeli, Farinola, Pozzo di Borgo e outros a formar parte do corpo educacional e reitoral da extraordinária Universidade de Pisa. Em 12 de junho de 1295, para complicar ainda mais a situação na Córsega, depois da derrota dos pisanos na batalha de Meloria que fez estes perderem o controle da ilha, interveio o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), investindo em favor do rei Jaime II de Aragão (insinuado na briga pela Reconquista) e soberano do novo Reino de Sardenha e Córsega (Tratado de Anagni). Porém, os aragoneses não decidiram atacar a Sardenha até 1324, acabando assim com qualquer desejo dos pisanos de controlar o norte de Sardenha e da Córsega. Durante aquele tempo a Córsega continuou em uma situação de anarquia até 1347, tempo em qual foi convocada uma grande assembleia de Líderes e Barões que, guiada por Sambucuccio de Alando, decidiu-se ficar sob a proteção de Génova e oferecer à república lígure a soberania total na ilha que seria exercitada por meio de um governador. De acordo com esta oferta, a Córsega pagaria tributos regulares a Génova, que em troca ficaria com o custo de proteger a ilha dos ataques repetidos de piratas que continuarão de um modo descontínuo até o século XVIII e garantiria a manutenção das leis corsas e de suas estruturas e alfândegas de governo autônomo local que foi regulado pelo Conselho dos Doze em Cismonte, e para o Conselho dos Seis em Pumonte. Os interesses insulares seriam representados por Génova através de um Oratore.
Naquele tempo toda a
Europa estava sendo afetada pela Peste negra que também chegou na Córsega e
causou numerosas vítimas no mesmo momento no qual a supremacia genovesa foi
afirmada. O acordo entre os Líderes e Barões foi violado e tanto uns como os
outros mantiveram conflitos que afetaram a colocação efetiva do domínio genovês
na Córsega. Nesta situação o rei Pedro IV de Aragão reivindicou os direitos de
soberania da ilha. Então, o Barão Arrigo della Rocca, Conde de Cinarca, aparece
em cena, e com o apoio das tropas aragonesas em 1372 assume o controle quase
total da ilha, deixando apenas o extremo norte e algumas fortificações marinhas
sob controle genovês. Esta vitória levou os Barões do Capo corso a pedir ajuda
novamente a Génova, que pensou resolver o problema investindo na ilha uma
companhia comercial chamada Maona, formada por cinco pessoas com tentativa de
subornar Arrigo, ainda que sem resultados. A Maona especialmente era um
consórcio de comerciantes por vezes de caráter familiar que Gênova usou entre
os séculos XIII e o século XV, com as funções de governo também nas colônias
orientais. Entre as primeiras Maonas esteve a da ilha de Quios, no Egeu,
instituída em 1347 e entre os sócios originou a família nobre famosa genovesa
dos Giustiniani. Ao continuar as tensões, em 1380, quatro dos cinco sócios da
Maona resignaram a Gênova os cargos, deixando Leonello
Lomellino a exercitar a função de governador. Com tal cargo, Lomellino fundou,
em 1383, a cidade de Bastia, dedicado a transformar o núcleo mais importante do
domínio genovês e capital da ilha até a mudança para Ajaccio, depois da invasão
francesa no século XVIII.
Foi somente em 1401, depois da morte de Arrigo, que a autoridade genovesa foi formalmente restabelecida na ilha, embora Génova naquela época tenha caído nas mãos dos franceses: entre 1396 e 1409, Carlos VI da França foi senhor da República de Génova, que administrou por meio do governador Jean II Le Meingre (1366-1421) chamado Boucicault. Sob o governo destes, em 1407, foi fundado o Banco di San Giorgio, um consórcio potente de credores privados os quais foi dada a administração das rendas do Estado e o governo de numerosas terras e colônias, entre elas a Córsega. Então, Lomellino foi reenviado a Córsega em 1407 como governador por conta de Carlos VI da França e teve que enfrentar Vincentello d`Istria que, depois que obter privilégios da Coroa de Aragão, tinha sido declarado Senhor de Cinarca e tinha contido ao redor sim a Terra de Comuns Bastia incluída, se proclamou Conde da Córsega em 1405. Os esforços de Lomellino não tinham êxito e em 1410 Gênova que tinha recuperado a Independência só controlava Bonifácio e Calvi. Uma revolta interna acabou com a Independência virtual da Córsega: a revolta de um feudatário e do bispo de Mariana fez Vincentello perder o controle da Terra de Comuns e, enquanto ele foi para Aragão para pedir ajuda, os genoveses poderiam completar a reconquista da ilha inteira.
Porém, o jogo complexo de alianças e inimizades locais não permitiu que esta reconquista fosse durável. A colocar a situação novamente em movimento foi o Cisma do Ocidente e a briga para a investidura papal que acontece em torno ao último papa de Avinhão, Bento XIII, apoiado pelos bispos corsos favoráveis a Génova por um lado, e pelo antipapa João XXIII, apoiado por aqueles favoráveis a Pisa. Vincentello que conseguiu desembarcar na ilha com uma força militar aragonesa, não acha grandes obstáculos e tira proveito das rivalidades cruzadas para assumir o controle facilmente de Cinarca e de Ajaccio. Depois de se aliar com os bispos a favor dos pisanos, aumentou sua influência na Terra de Comuns e construiu o castelo de Corte: em 1419 a influência genovesa na ilha tinha sido novamente reduzida aos núcleos de Calvi e Bonifácio, enquanto Vincentello, com o título de Vice-rei da Córsega, estabelecia a partir de 1420 a sede de seu governo em Biguglia. Nestas circunstâncias, Afonso V de Aragão apresentou-se com uma grande frota no mar da Córsega, com o objetivo de tomar posse pessoalmente da ilha para que passasse a fazer parte do Reino de Sardenha e Córsega. Depois da queda de Calvi, Bonifácio, cidade que sempre teve grande influência genovesa seguiu resistindo animada pelas intrigas dos partidários de Gênova. Durante esse período de tempo, a resistência de Bonifácio fez com que os sitiadores acabassem com o bloqueio da cidade, que, uma vez obteve a confirmação de seus privilégios, se tornou de facto numa espécie de microrrepública independente sob proteção dos genoveses. Pouco depois, o descontentamento devido aos elevados impostos fez estourar uma revolta geral contra Vincentello, que, numa tentativa de se dirigir à Sicília, acabou restando prisioneiro e, conduzido a Gênova como rebelde e traidor, foi decapitado em 27 de abril de 1434.
A luta entre as facções
pró-genovesas e pró-aragonesas prosseguiu na ilha, e o Doge genovês Giano di
Campofregoso recuperou o controle da Córsega, apoiando-se na maior capacidade
artilheira (1441). Com motivo de dita reconquista funda-se e fortifica a cidade
de San Fiorenzo (1440). A reação aragonesa levou a luta ao seu ponto
culminante. Em 1444 desembarcou na ilha um exército pontifício de 14 000
homens, enviada pelo papa Eugênio IV. Este exército, no entanto, foi derrotado
pelas milícias corsas controladas por Rinuccio da Leca, encabeçando uma união
que reunia quase todos os Chefes e Barões locais. No entanto, uma segunda
expedição saiu vitoriosa, e o próprio Rinuccio morreu em batalha na frente de
Biguglia. O ano de 1447 pode considerar-se crucial para o controle genovês da
Córsega. Neste ano acede à cadeira papal Nicolau V, natural de Sarzana, na
região lígure, e por isso ligado à República de Gênova. De modo imediato fez
valer os direitos papais sobre a ilha (cujas principais praças estavam sob
controle das tropas pontifícias) e cedeu-os a Gênova. Assim passou-se a um
período em que a ilha passa a estar controlada amplamente pela República
genovesa excetuando Cinarca, sob controle nominal dos aragoneses mediante o
domínio mais concreto dos Senhores locais, e da Terra de Comunas, que mediante
uma assembleia de seus chefes, em 1453 decidiu oferecer o governo de toda a
ilha ao Banco de San Giorgio, a potente companhia comercial e financeira
estabelecida em Gênova em 1407, que o aceita.
Uma vez expulsos os aragoneses de cujo passo pela Córsega ficará o emblema da Cabeça Moura, o Banco de San Giorgio começou uma autêntica guerra de extermínio contra os Barões insulares, cuja resistência organizada termina em 1460, quando os líderes são detentos e mandados ao exílio na Toscana. Ainda teriam de decorrer dois anos de lutas para conseguir submeter por completo a ilha, até 1462, em que o capitão genovês Tommasino da Campofregoso, de mãe corsa, fez valer com sucesso seus direitos familiares para reafirmar o controle total da República também no interior da ilha. Apenas dois anos depois, em 1464, Gênova, e com a Córsega, cai em mãos de Francisco I Sforza, duque de Milão. A sua morte, em 1466, a autoridade milanesa na ilha desvaneceu-se pelas habituais turbulências internas e, uma vez apenas as cidades costeiras permaneceram de modo efetivo sob a tutela das potências continentais. Em 1484 Tommasino da Campofregoso convenceu aos duques Sforza para que lhe confiassem o governo da ilha, conseguindo o controle das fortificações.
Nesse tempo consegue consolidar o poder interno, aliando-se com Gian Paolo da Leca, o mais poderoso dos Barões insulares. Três anos depois a situação voltava-se a mover. Um descendente dos Malaspina, que já tinham tido relação com Córsega no século XI, Jacopo IV de Appiano, príncipe de Piombino, foi chamado para que interviesse em favor daqueles que se opunham a Tommasino, e assim o irmão do príncipe, Gerardo conde de Montagnano, se proclamou conde da Córsega e, depois de desembarcar na ilha, se apoderou de Biguglia e de San Fiorenzo. Mais que se opor a Gerardo, Tommasino restituiu discretamente as prerrogativas em favor do Banco de San Giorgio, que durante esse tempo refundou e fortificou Ajaccio (1492) perto do lugar da antiga Aiacium romana. A decisão de Tommasino foi criticada por outros membros de sua família e por Gian Paolo da Leca, com razão, já que em quanto o banco terminou com Gerardo, apontou suas armas contra os belicosos barões corsos, aos que não conseguiu submeter até 1511, e isto depois de longa e sangrenta luta. Durante seu governo, o Banco de San Giorgio demonstrou escassa visão política, optando por uma busca do benefício mais imediato em lugar de uma estratégia de integração, e instaurando desse modo um regime colonial.
Aumentou-se o
desenvolvimento dos bosques, mas os principais benefícios eram para o Banco,
que impunha à ilha umas taxas de tal magnitude que de fato impedia qualquer
possibilidade de desenvolvimento local. Ao longo de toda a costa da ilha se
reconstruíram e em grande parte se construíram ex novo torres de vigilância e
defesa (muitas delas ainda existem hoje em dia) para dispor de um sistema de
alerta contra as incursões dos piratas berberiscos, unido às patrulhas
marítimas. Apesar de que não se eliminará do todo (permanecerá até o século
XVIII), esta praga se controlou, ainda que mais para proteger os interesses
econômicos coloniais que para brindar proteção à população corsa, que seguirá
sofrendo as sangrentas incursões dos piratas, virtualmente impunes quando atuavam
nas zonas de costa, que o banco considerava sem interesse estratégico e
econômico. Em grande parte, as instituições locais (entre as que se distinguia
por seu realmente avançado conceito político a organização da Terra de Comunas)
foram abolidas ou esvaziadas de conteúdo e concorrências concretas. Os notáveis
corsos nem sequer puderam gozar por completo dos direitos de cidadania, sem
falar de aceder à oligarquia republicana genovesa, que por definição lhes
estava fechada. As tentativas de rebelião foram geralmente reprimidas com
grande dureza, utilizando com frequência o recurso à pena de morte; ou
alternativamente aplicando o princípio de “divide et impera”, manejou
habilmente, incitando-as quando era necessário batalhas ou inícios de guerra
civil, utilizando esses desencontros para debilitar as forças e o moral dos
senhores da ilha e, portanto, prevenir contra alianças que pudessem ocasionar
um levantamento geral.
Desenvolveu-se a
cultura da vendetta e do banditismo, que cresceram ao invés de acabarem.
Tudo isto enquanto em Europa, e especialmente na vizinha Itália peninsular,
florescia o Renascimento. Às desgraças políticas uniram-se epidemias de peste e
o encarecimento do custo da vida que serviram para que o processo de
empobrecimento e “embarbaramento” da ilha, além de exacerbar o ódio dos corsos
para o domínio genovês. Durante a primeira metade do século XVI França, que se
estava desenvolvendo como estado e potência europeia, começa a colocar os seus
peões no Mediterrâneo pelo que manifesta interesse pela Córsega e por Itália.
Neste quadro, Henrique II da França concebe um projeto para apoderar-se da
ilha, aproveitando a torpeza da política dos genoveses e o ressentimento dos
corsos enrolados nos exércitos franceses como mercenários. Depois de assinar em
1553 um tratado de cooperação com o sultão otomano Solimão, o Magnífico, o rei
da França garantiu-se não só a neutralidade, senão também a colaboração da
frota turca no Mediterrâneo. Só 18 anos depois, em 1571, o avanço turco para Europa
deter-se-á na batalha de Lepanto com uma frota multinacional, ainda que
dirigida principalmente por Espanha e Veneza, e na que França não participa.
Pouco depois da
assinatura do tratado entre Francisco I da França e Solimão, a frota
franco-turca apresentou-se ante a costa da ilha e atacou-a, sitiando ao mesmo
tempo todas as fortalezas costeiras. Bastia caiu quase sem lutar, enquanto
Bonifacio resistiu muito tempo e só cedeu ante a promessa à guarnição de
respeitar a vida dos sitiados, promessa que os turcos incumpriram, já que uma
vez a cidadela se rendeu toda a guarnição foi massacrada e a cidade saqueada.
Cedo caiu toda a ilha, salvo Calvi que seguiu resistindo. Preocupado pela ação
francesa, que abria decididamente as portas aos otomanos em pleno coração do
Mediterrâneo ocidental, interveio o rei de Espanha e imperador de Alemanha,
Carlos V, que a sua vez invadiu a ilha à cabeça de suas tropas e as de Gênova.
Nos anos seguintes (os Turcos tinham desembarcado brevemente só em Bonifacio),
alemães, espanhóis, genoveses, franceses e corsos lutaram ferozmente pelas
fortalezas da ilha. Em 1556, data em que ocorre uma trégua, que deixava
momentaneamente a França o controle de toda a ilha, salvo Bastia que,
anteriormente tinha voltado a ser conquistada por genoveses e espanhóis. O
governo francês conseguiu simpatias entre a população, também graças à ação dos
corsos ao serviço da França, entre os que estava, com o grau de coronel, o
mercenário Sampiero di Bastelica (1498-1567).
No entanto, em 1559, as
conclusões da Paz de Cateau-Cambrésis dispuseram a restituição da Córsega ao
Banco de San Giorgio. Os responsáveis do banco procederam imediatamente a impor
duros impostos para tratar de ressarcir-se dos gastos de guerra, impostos que
grande parte dos corsos se negaram ou estiveram em medida de pagar e, violando
o tratado, que previa uma anistia general, procederam a confiscar todos os bens
de Sampiero, de sua esposa Vannina d`Ornano (1527-1563), e de outros corsos que
tinham servido ao lado da França. Sampiero, estabelecido em Provença, não se
deu por vencido e começou a trabalhar para agrupar meio a ele uma parte
significativa dos notáveis da ilha enfrentados a Gênova, enquanto paralelamente
buscava apoios para seu projeto de separar a ilha da República de Gênova.
Dirigiu-se com esse objetivo a Catarina de Médicis, então rainha regente da
França depois da morte de seu marido durante os festejos de celebração da Paz
de Cateau-Cambrésis (1559). Catarina negou-se a apoiar Sampiero, não
querendo se implicar numa operação que reabrisse a longa guerra que acabara de
terminar. Não teve mais sorte uma tentativa com Cosme I de Médicis, que queria apropriar-se da Córsega, mas pretendia fazer com ela só mediante
tratados com as potências europeias, já que sabia que Toscana não estava em
condições de desafiar abertamente aos genoveses.
Fracassada uma
posterior tentativa de conseguir o apoio dos Farnésio de Parma, Sampiero, que
tinha conseguido credenciais diplomáticas francesas, conseguiu ir pessoalmente
ao Norte da África e Constantinopla para suplicar ao Sultão que interviesse
para converter a Córsega em província otomana, o que demonstra bem até que
ponto Gênova era odiada entre os corsos agrupados ao redor do antigo coronel
dos franceses. A missão de Sampiero em Oriente terminou frustrada porque
enquanto Cosme I, conhecedor dos projetos do corso para instalar à potência
otomana justo em frente à costa toscanas, tinha advertido da iniciativa aos
genoveses, cujos embaixadores se tinham adiantado a Sampiero e convencido aos ministros
turcos para que recusassem a proposta. Enquanto Sampiero estava em Oriente, sua
mulher, Vannina d`Ornano (1527-1563), dona de feudos confiscados por Gênova,
tinha de recuperá-los buscando pessoalmente um acordo com a Serenísima
República de Gênova. Ao ficar a saber Sampiero destas gestões ao regressar à
França, não hesitou em reagir ante o que considerava uma sangrenta traição,
matando a um amigo corso que tinha permanecido para cuidar a sua esposa e
estrangulando pessoalmente a esposa e às duas damas de companhia que a cuidavam
em sua ausência.
Sampiero reivindicou os
homicídios como delito de honra debochando deste modo à justiça francesa.
Levado por um grande entusiasmo e uma dose de desespero unida às suas vivências
pessoais, desembarcou em julho de 1563 com um punhado de seguidores em Propriano,
no golfo de Valinco, com o desejo de expulsar aos genoveses da ilha. Enquanto
os genoveses uma vez conscientes do nefasto papel político desempenhado pelo
Banco de San Giorgio na administração da Córsega, tinham decidido assumir o
controle direto a partir de 1562, instalando um governador na ilha. Em muito
pouco tempo Sampiero consolidou as alianças antes preparada consolidando um
exército de 8000 homens, com o que levou a cabo uma sangrenta série de golpes
de mão aos que o governo genovês se opôs tanto pelas armas como animando as
rivalidades entre os notáveis ilhéus. Depois de anos de uma guerra
caracterizada por uma extrema ferocidade por ambas partes, por matanças,
saques, incêndios de colheitas e de populações, os genoveses explodindo o ódio
dos familiares de Vannina conseguiram recrutar entre eles sicários que, em 1567
mataram Sampiero pelas costas e levaram sua cabeça ao governador de Gênova. O
suposto nome do assassino de Sampiero, Vittolo passou assim a se converter em
paradigma do traidor na fantasia corsa popular e ainda hoje guarda esse
significado.
A luta prosseguiu
durante algum tempo encabeçada por um juveníssimo filho de Sampiero, Afonso,
mas os rebeldes corsos, sem a experiente liderança de Sampiero e sem recursos
militares, se desanimaram e buscaram a paz, à que se chegou em 1569 com o pacto
entre Afonso e o genovês Giorgio Doria. Se chegou também ao final da guerra
graças a que, já nos últimos momentos da luta, Gênova parecia ter compreendido
que a excessiva dureza mostrada na administração e na exploração da Córsega
incitava seus habitantes a se rebelar ante as misérias infligidas, e tinha
preparado uma política mais moderada e equilibrada para recuperar o apoio da
população. O dispositivo de paz previa uma anistia e a libertação de reféns e
prisioneiros, a concessão aos corsos de liberdade de movimento de e para Itália
e liberdade para dispor diretamente seus bens, remissão e prorrogação fiscal de
cinco anos. Ofereceu-se a Alfonso a restituição dos feudos de Ornano que,
confiscados, estavam na origem da tragédia familiar, sempre que ele, junto a
seus mais próximos colaboradores, se exilasse, como fez trasladando-se a
França. Com intenção de pacificar a ilha de modo duradouro e reconhecer, além
dos direitos mais básicos, elementos de autogoverno local significativos, em
1571 Gênova que se tinha voltado a ocupar diretamente da Córsega desde o final
da administração do Banco de San Giorgio em 1562, instituiu os Estatutos
Civis e Militares que, desde esse momento em adiante, regulariam, ao menos
sobre o papel, o direito e a administração na ilha.
Sucessivamente emendados e ampliados, os Estatutos resultaram ser um bom instrumento institucional e, nas partes trasladadas à Constituição Paolina de 1755, seguirão parcialmente em vigor até a conquista francesa (1769). Desde o ponto de vista administrativo Córsega passou a depender a partir desse momento, de uma espécie de ministério especial com sede em Gênova, o Magistrado da Córsega, que rendia contas de suas atuações ante os máximos órgãos da República, a saber: o Maggior Consiglio e o Minor Consiglio. Na ilha residia um governador genovês, ajudado por um Vicário e pelo Conselho dos Doze Nobres, inspirado na instituição similar da Terra de Comunas. O território subdividiu-se em províncias, cada uma das quais chefiada por um comissário com sede em Bonifacio, Ajaccio e Calvi, ou um lugar tenente com sede em Corte ou Aleria, Rogliano, Algaiola, Sartena e Vico. As fortalezas nuns casos consertaram-se e em outros se consolidaram e ampliaram, além de dispor nelas guarnições mais sólidas que no passado.
Se reorganizaram as Cortes de Justiça e foram dotadas de um complexo aparelho burocrático. A vida pública se reorganização sobre uma cuidada redefinição das comunidades rurais que passaram a ser o núcleo básico do território desde o ponto de vista institucional, fiscal e religioso, integrando a antiga rede das Pievi. Os povos, reunidos em parlamentos, elegiam periodicamente seus Podestás ou Pais do município, responsáveis das funções administrativas e de polícia local, mediante o cargo, também eletivo, de capitão da milícia. As comunidades governavam-se, pois, de modo bastante autônomo, sem intervenção da República, salvo casos excepcionais. Nos povos do interior da ilha esta liberdade de desenvolvimento foi tal que se criou uma classe de notáveis aos que se chamou Principais. Os atos, tanto privados como públicos, isto é, as eleições locais e Grida do governador, se transcreviam nos registros notariais, que eram remetidos de forma regular ao Cancelliere da sede provincial competente e durante um verdadeiro período as autoridades locais puderam enviar representantes próprios ao Governador ou, inclusive, às autoridades centrais em Gênova, para expressar exigências particulares, denúncias por abusos graves ou petições de ajuda em caso de calamidades como a seca. Subdividiu-se o território, desde o ponto de vista fiscal e produtivo, em círculos destinados a frutais e vinhas, tomadas, destinadas a semeia-as, e terras comuns, patrimônio coletivo das comunidades, destinadas a pastos, a cultivos de temporada e hortos, enfim, à coleta de frutos do bosque e da madeira.
Guardas florestais e juízes especializados preocupavam-se de velar por que se respeitassem os Estatutos no tratamento das terras. Definiram-se as leis civis e criminosas, bem como os impostos, que foram bem mais eficientes, apesar de seguir se baseando na talha (imposição direta) e na gabela como o escudo por bota para o vinho, as mermas para outros produtos, o boatico, venda forçada a preço reduzido de cevada e grão às guarnições estabelecidas na ilha e diversos monopólios (o mais importante o da saia) no que diz respeito à imposição indireta. As cidades costeiras, algumas das quais estavam povoadas em sua grande maioria por gente originaria de Liguria em especial Calvi, Bastia e Bonifacio, tinham diversos privilégios com respeito às localidades do interior como isenções fiscais, imunidades especiais), pelo que constituíam um mundo à parte. Sede dos governos provinciais, estas pequenas capitais desenvolveram um patriciado similar ao que se estava desenvolvendo nesse momento em Itália, se enriquecendo tanto com o comércio marítimo e com os benefícios derivados do exercício de funções administrativas unidas ao governo, como mediante os labores de exploração agrícola desenvolvidas nas zonas do interior mais próximas. A classe do patriciado, chamados os Nobres, ainda que em realidade tratava-se de uma burguesia urbana, controlava o mercado do cereal é, o da pesca, o dos empréstimos e o dos artesãos e manufaturas locais.
Serão precisamente os
membros desta classe estamental os que, sempre desejosos de ter maior
prestígio e riquezas, encabeçarão no século XVIII a rebelião popular e
constituirão a fonte da Córsega independente de Pasquale Paoli (1725-1807), e a
seguir o primeiro elemento de legitimação local dos governos franceses. A
República, tanto durante o século XVII como no XVIII, recuperou as melhores
ideias do Banco de San Giorgio para melhorar o cultivo de cereais nas regiões
litorais, o cultivo da oliveira, especialmente em Balagna e o aproveitamento
florestal em especial os castanheiros de Castagniccia. A rede de estradas da
ilha ampliou-se e melhorou alguns das pontes genoveses ainda seguem em uso, ao
mesmo tempo que especialmente no Cismonte e em todas as cidades da costa teve
lugar uma intensa atividade de urbanização e reestruturação de edifícios que
caracterizou muitos centros históricos cujo aspecto hoje segue marcado pela
forte influência do estilo lígure e barroco deste período. Na costa reforçou-se
o dispositivo das torres de vigilância e defesa, devido ao
recrudescimento das incursões berberiscas, que foram especialmente frequentes e
destrutivas nas duas décadas que seguiram à derrota dos turcos em Lepanto em
1571. Isto é normal, já que a pirataria vinha a encher o vazio deixado
pela impossibilidade de aceder de outro modo às riquezas que antes dispunham
através do comércio e não era acessível devido à derrota de sua frota.
As consequências destas
duas décadas de ataques, muito bem documentados e distribuídos ao longo da
costa da ilha, foram desastrosas e ocasionaram o despovoamento de muitas zonas
nas planícies, num êxodo que não se conhecia desde séculos antes. Como exemplo
pode-se citar o caso de Sartena. Em 1540 esta região tinha onze centros maiores
que no final de século ficaram abandonados em sua totalidade, se exceptuamos a
própria Sartena, que teve que se fortificar e constituiu assim refúgio para
toda a população circundante até o século XVIII em que, uma vez passado o
perigo, puderam ressurgir os centros menores. Nesse mesmo período a ilha
padeceu duas epidemias de peste que constituíram mais adiante um grave
obstáculo para poder levar a cabo os planos de desenvolvimento preparados pela
República, que apesar de estar bem concebidos sobre o papel não tiveram o
sucesso realmente esperado. As dificuldades econômicas mantiveram a emigração
dos corsos, que buscaram politicamente falando fortuna no continente, quando muitos
servindo como militares ao serviço das potências estrangeiras, desafiando a
proibição que nessa linha emitia Gênova, preocupada por esta sangria que
dificultava seus planos de desenvolvimento e despovoava os campos. Ademais,
dita preocupação estava justificada pela diminuição de erário dos rendimentos
fiscais devido à falta de desenvolvimento. Esta míngua nos rendimentos era
muito preocupante devido aos problemas financeiros da República, que se tinha
arriscado a financiar à coroa da Espanha que, durante o século XVII, deixou de
pagar os importantes empréstimos concedidos pelos genoveses nos prazos
estipulados, chegando inclusive a se declarar insolventes.
Estas dificuldades
minguaram a capacidade econômica de uma República genovesa, já diminuída pela
progressiva perda de todas suas colônias orientais a mãos dos turcos e da
diminuição do volume de seu comércio com o Levante, devido à concorrência dos
franceses, que se uniu a partir do século XVI, à já tradicional concorrência
exercida pela República de Veneza. Além de restabelecer a proibição formal de
emigrar, imposta de novo aos corsos apesar do que se estabelecia nos Estatutos,
Gênova tratou de todos os modos possíveis de impulsionar a revalorização das
terras da ilha, instituindo também com esse objetivo a figuração do
Magistrado do cultivo e elaborando planos de desenvolvimento que no entanto
resultaram ineficazes em sua maior parte, mas de cuja qualidade geral dá
depoimento o fato de que bem mais tarde serão copiados pelos franceses em
planos similares por outra parte, também ineficazes durante muito tempo. Um dos
pontos débeis desses planos se devia ao fato de que se baseavam, mais que sobre
a questão da atuação na esfera do Estado que, em contrapartida, tinha
dificuldades por seus problemas econômicos, sobre a iniciativa privada mediante
um complexo sistema de feudos e enfiteuse que longe de iniciar uma dinâmica
positiva acabou erodindo as terras comuns impedindo a disponibilidade plena às
comunidades locais e favorecendo o lucro de alguns Principais e Nobres sem que
a coletividade tivesse vantagem alguma.
Este fenômeno de
expropriação e empobrecimento das comunidades corsas em benefício dos
terratenentes ricos se acelerará quando este esquema seja proposto de novo
pelos franceses, e acabará ocasionando danos sociais enormes e que
desencadearão das rebeliões que, durante meio século, se deram na Córsega
depois da ocupação francesa, e que ocasionarão o fenômeno que passará à
história social como Banditismo. Neste quadro se implanta a chegada de
algumas centenas de gregos originários da Lacônia a região meridional do
Peloponeso fugindo do domínio otomano. Depois de dar, com problemas, o
consentimento do primado pontifício estes prófugos instalaram-se em 1676 nas
terras costeiras a uns 50 km ao Norte de Ajaccio. Na região, telefonema Paomia,
os gregos fundaram uma colônia em Cargese que, depois da ocupação francesa,
manteve quase até nossos dias seu idioma e algumas tradições originarias,
incluindo o rito religioso oriental. O sucesso frustrado dos planos genoveses
de desenvolvimento, que acabou por propor a questão agrícola cujas
consequências se fazem sentir até nossos dias, no contexto de uma economia
ainda marcada por uma exploração substancialmente colonial e de restrição
progressiva na prática das escassas liberdades de que gozavam os corsos,
considerados de fato súbditos e não cidadãos da República, acabou ocasionando
uma crise que se parecia levar a Córsega à ruptura definitiva com Gênova,
primeiro de modo gradual e imperceptível, e finalmente com a explosão da
revolta a partir de 1729. A longa história dos conflitos e violências que
caracterizou a Córsega a partir ao menos da queda do Império Romano, tinha
acostumado a seus habitantes a considerar a guerra algo habitual e tinha fato
do oficio das armas uma das principais atividades exercidas pelos corsos
expatriados para os estados italianos e em muita menor medida para França desde
a Idade Média até a Idade Moderna. Percorrendo atenciosamente a lista de nomes
dos capitães mercenários italianos, pode-se observar que muitos deles eram
originários da Córsega e que, em alguns casos, contavam com batalhões inteiros
de corsos.
Entre os destacamentos
militares integrados em sua totalidade por corsos que operaram fora da ilha
destaca a Guarda Corsa papal, que exerceu suas funções durante vários séculos.
Apesar da pouca fiabilidade dos documentos, normalmente data-se em 1378, coincidindo
com o final do cativeiro de Avinhão, a fundação em Roma de um corpo militar
composto exclusivamente por corsos com funções de Guarda Pontifícia e de
milícia urbana. Não parece que tenha documentos que certifiquem a criação deste
corpo militar antes, apesar da presença de uma significativa colônia corsa em
Porto (Fiumicino) e depois no Trastevere quando a igreja de San Crisogono foi
basílica sepulcral dos corsos, certificada ao menos desde o século IX e de fato
socialmente não se pode excluir uma presença organizada de milícias corsas no
seio os exércitos papais inclusive muito antes do século XIV, considerando o
importante vínculo extraordinário entre Córsega e Roma, cidade da que dependeu
a ilha formalmente a partir do século VIII e até sua definitiva entrada
na órbita genovesa. A Guarda Corsa que estará ao serviço do Papa durante
quase três séculos e precederá em quase 130 anos à instituição em 1506 da
Guarda Suíça. Seu final chega depois de um incidente ocorrido em Roma em 20 de
agosto de 1662 e é um dos indícios de que os franceses têm a cada vez mais
influência na Itália. Em meados do século XVII a presença em Roma de numerosas
delegações diplomáticas dos Estados tinha acabado por criar uma situação
paradoxal, com respeito às potências maiores, que abusando do conceito de extraterritorialidade,
tinham dotado suas embaixadas de autênticas guarnições militares que se moviam
armadas por toda a cidade, e levado à transformação de zonas inteiras do centro
da cidade em zonas francas, nas que os delinquentes e assassinos de todo tipo
encontravam refúgio e impunidade.
O Papa Alexandre VII
tratou de remediar estes excessos. O rei da Espanha e os representantes do
Império aceitaram reduzir suas milícias, mas o rei da França Luís XIV, em
mudança, mandou a Roma o seu primo Carlos III, duque de Créqui, como embaixador
extraordinário com uma escolta militar reforçada, que pouco tempo depois teve
um grave confronto perto da Ponte Sixto com alguns membros da Guarda Corsa, que
patrulhavam as ruas de Roma, especialmente grave porque, inclusive, os
militares sem serviço no quartel tentaram assaltar o vizinho Palácio Farnese,
sede da embaixada da França, exigindo a detenção dos militares franceses
responsáveis do incidente. Produziram-se disparos, no momento em que regressava
ao Palácio Farnesio, a esposa do embaixador com numerosa escolta militar. Um
pajem da senhora de Créqui foi ferido de morte e Luís XIV aproveitou-se para
explorar ao máximo o conflito com a Santa Sé que se tinha iniciado com o
governo do Cardeal Mazarino (1602-1661). O Rei Sol retirou de Roma o seu
embaixador, expulsou da França o embaixador do Papa, anexou os territórios
pontifícios de Avinhão e ameaçou seriamente com a invasão de Roma se o Papa não
lhe apresentasse desculpas e não se submetesse a suas petições, que
compreendiam a imediata dissolução da Guarda Corsa, a emissão de um anátema
contra seu país, o encarceramento como represália de verdadeiro número de
militares e a condenação como galeotes para outros muitos, o cesse do
Governador de Roma e a construção cerca do quartel da Guarda de uma coluna de
infâmia e maldição para os corsos que se tinham atrevido a desafiar a
autoridade francesa. Num primeiro momento, o Papa opôs-se e tratou de ganhar
tempo, mas a real possibilidade de uma intervenção do exército francês em Roma
fez que cedesse. Dissolveu-se a Guarda Corsa para sempre e se encarcerou a
alguns de seus membros, foi erguido o monumento infamante, e se desterrou de
Roma ao governador. Em fevereiro de 1664 os franceses restituíram os
territórios de Avinhão e em julho, em Fontainebleau, o sobrinho do papa, Flavio
Chigi, foi obrigado a humilhar-se e a apresentar desculpas de Roma ao rei da
França, que quatro anos depois deu permissão para destruir a coluna infamante. Nas negociações Luis XIV tinha visto como ampliar sua influência em
Itália, convertendo-se em protetor de alguns príncipes italianos ao obrigar ao
Papa, sempre no contexto dos desagravos pelo assunto da Guarda, a devolver
Castro e Ronciglione ao Duque de Parma e a indenizar ao Duque de Modena por
seus direitos sobre Comacchio.
Bibliografia Geral consultada.
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Disponível em: https://podcast.ausha.co/dinastia-podcast/13/10/2024;
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Revista de História da Ciência, nº 20, janeiro de 2026; entres outros.