“Regra é, em primeiro lugar, gestão da vida quotidiana”. Max Weber
Max Weber havia resumido sob a expressão racionalidade formal as condições ideal-típicas que torna possível a ponderabilidade das ações sociais sob o aspecto instrumental, a eficácia dos meios disponíveis; e sob o aspecto estratégico e de probabilidade em termos de legitimidade no acerto da escolha dos meios segundo preferência, meios e condições periféricas dadas. A denominação “formal” destina-se em especial a esse segundo aspecto da “racionalidade eletiva”, que por isso diferencia então do julgamento material dos próprios valores subjacentes às preferências dos sujeitos. Ele aplica esse conceito como sinônimo de “racionalidade teleológica”. Trata-se da estrutura de orientações da ação determinada pela racionalidade cognitivo-instrumental, mediante a desconsideração de parâmetros de uma racionalidade moral-prática ou estético-prática. Cadeias prolongadas de ações podem ser julgadas de maneira sistemática sob o aspecto da validade da verdade e da eficácia de sua interpretação, mas que podem ser bem como calculadas e melhoradas no sentido da racionalidade formal. A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é o seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e de sua esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América.
Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, em especial, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Lutero, surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada?
Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith, Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014). No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas. Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Dentre estes existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”. A contribuição social é a de José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992).
O termo Wahlverwandtschaft
tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max
Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado
para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno, se o enxofre
se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos:
“propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos
alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane
(1724), Hermannus Boerhaave explica que “particulae solventes et solutae se
affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma
força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se”
numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do
ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece pela
primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De
attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o
título de Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788). Na
tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi
exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa
versão alemã do livro de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance
Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado
“há cerca de dez anos” por um de seus personagens.
O termo se torna na
verdade uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo
qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de
se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas
almas. Essa transposição de Goethe faz do conceito químico para a o terreno
social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários
alquimistas, como Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado
de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva
quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se,
apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma
renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois
elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não
excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista
holandês. Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na
cultura alemã como designação de um tipo de ligação particular entre duas
almas. Foi na Alemanha, portanto, que ele passou por sua terceira metamorfose:
a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max
Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico. Da acepção antiga, ele conserva as conotações
de escolha recíproca, atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece
desaparecer.
O conceito ocupa um
lugar importante em A Ética Protestante, precisamente por levar a cabo a
análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para Weber,
trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim,
evitar o debate sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”. Com isso, são especificados ao mesmo tempo,
na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em
consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o
desenvolvimento da cultura material. A afinidade eletiva é talvez um meio para
uma busca causal “num segundo momento”, mas isso não significa que ela própria
seja uma relação causal. As formulações de Max Weber são suficientemente
flexíveis para podemos admitir diferentes leituras de interpretação. O que
sociologicamente Weber tenta demonstrar em sua análise com o conceito de Wahlverwandtschaft
é, segundo Michael Löwy, em primeiro lugar a coexistência de elementos
convergentes e análogos entre uma ética religiosa e um comportamento econômico:
o ascetismo puritano e a economia do capital, a ética protestante do trabalho e
a disciplina burguesa do trabalho, a valorização calvinista do ofício virtuosos
e o ethos do empreendimento burguês racional, a concepção ascética do uso
utilitário das riquezas e acumulação produtiva do capital, a exigência puritana
da vida metódica e sistemática e a busca racional do lucro capitalista.
É a partir dessas analogias profundas, desses “parentescos íntimos”, que na Holanda, na Inglaterra e nos Estados Unidos historicamente do século XVII ao XIX, vai se desenvolver uma relação de afinidade eletiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo, graças a qual a concepção puritana da existência favorece a tendência a uma vida burguesa economicamente racional e vice-versa. Não surpreende que a expressão “afinidade eletiva” não tenha sido compreendida pela recepção anglo-saxã historicista positivista de Max Weber. O próprio autor utiliza o conceito apenas três vezes em A Ética Protestante, mas ela aparece também em outros escritos, na maioria das vezes em ensaios de sociologia das religiões. 1. No nível de análise religioso: trata-se da relação da afinidade eletiva em diversas formas religiosas; por exemplo, entre o ritualismo e a graça sacramental ou entre a profecia de missão e “determinada concepção do divino: a de um Deus criador, transcendente, pessoal, fulminante, que perdoa, ama, exige, castiga”, em oposição à divindade impessoal e contemplativa da profecia exemplar. 2. No nível econômico: entre o “espírito” do capitalismo e as formas de organização econômicas capitalistas. Isso pode parecer redundante, mas Weber insiste no fato de que, do mesmo modo que uma organização sindical nem sempre é movida por um espírito sindicalista ou um império colonial, pelo espírito do imperialismo, uma economia capitalista não é necessariamente movida pelo “espírito do capitalismo”. Conforme o caso, o “espírito” encontra-se, num grau ou noutro, em adequação e, eventualmente, em “relação de afinidade eletiva” com a “forma”.
3. No campo cultural: esse é um exemplo curioso, pois Weber opõe a formação patrimonial que, ao racionalizar-se conduz à burocracia moderna (especialização, profissionalização) – a formação (Bildung) feudal, “com seus traços lúdicos e sua afinidade eletiva com a atividade artística. Max Weber tem em mente a educação da aristocracia, mas os traços comuns com a prática da arte não são explicitados. Para sermos breves, a partir do uso weberiano do termo, Michael Löwy propõe a seguinte definição: a afinidade eletiva representa o processo pelo qual a) duas formas culturais/religiosas, intelectuais, políticas ou econômicas ou b) uma forma cultural e o estilo de vida e/ou os interesses de um grupo social entram, a partir de certas analogias significativas, parentescos íntimos ou afinidades de sentido, numa relação de atração e influência recíprocas, de escolha ativa, convergência e de reforço mútuo. Essa definição leva em consideração os diversos níveis ou graus de afinidade eletiva, a começar pela finidade simples, o parentesco espiritual, a congruência, a adequação interna. É importante frisar que esta última é ainda estática, cria a possibilidade, mas não a necessidade, de uma convergência ativa, de uma atração eletiva. A transformação dessa potência em ato, sua dinamização, depende de condições históricas e sociais concretas. Assim, Weber constata, por exemplo, “certo parentesco (Verwandtschaft)” entre o confucionismo e o racionalismo puritano. Isso não é o suficiente para criar entre eles uma relação efetiva de convergência. Naturalmente, a afinidade eletiva depende do grau de “adequação” ou mesmo de “parentesco” entre as duas formas, mas depende também de outros fatores, pois ela é favorecida ou entravada por certas condições históricas. Em outras palavras, é preciso haver certa “constelação” de fatores históricos, sociais e culturais para que ocorra um processo de attractio electiva, de seleção recíproca, de esforço mútuo e até, em certos casos, de “simbiose” de duas figuras espirituais. Esse aspecto está presente em Max Weber, mas é raramente desenvolvido.
Parker é um filme americano dirigido por Taylor Hackford e lançado em 2013. É uma adaptação do romance Flashfire, de Donald E. Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark, publicado em 2000. Jason Statham interpreta Parker, um personagem que já apareceu em diversos romances e filmes. O filme recebeu críticas mistas após seu lançamento e não foi um sucesso comercial. Parker (Jason Statham) é um ladrão profissional. Seu mentor, Hurley (Nick Nolte), pede que ele aceite um trabalho com uma equipe que ele não conhece, composta por Melander (Michael Chiklis), Carlson (Wendell Pierce), Ross (Clifton Collins Jr.) e Hardwicke (Kirk Baltz). Eles roubam com sucesso a Feira Estadual de Ohio, mas Hardwicke altera parte do plano de Parker, resultando em uma morte desnecessária. Enfurecido com o assassinato, Parker se recusa a participar do roubo de joias proposto. Precisando de sua parte do saque em Ohio para financiar o plano maior, Melander ordena que Hardwicke mate Parker, e eles o abandonam em um rio à beira da estrada. Ele sobrevive e é resgatado por fazendeiros. Após fugir do hospital, ele é levado por Hurley para Nova Orleans, onde o irmão de Hardwicke lhe diz que a quadrilha está em Palm Beach, na Flórida. Hurley tenta convencer Parker a ficar com seu próprio dinheiro e deixar o assunto para lá, a fim de proteger a si mesmo e sua filha Claire que também é namorada de Parker de represálias do tio de Hardwicke, Danzinger, um chefão da máfia de Chicago. Parker se recusa. O assassino de aluguel de Danzinger tenta capturar Claire, mas ela escapa.
Parker viaja para Palm Beach e se passa por um rico magnata do petróleo do Texas chamado Parmitt, em busca de uma casa luxuosa. A corretora de imóveis Leslie Rodgers (Jennifer Lopez) lhe mostra uma casa supostamente vazia, comprada por um homem chamado Rodrigo, o que desperta seu interesse. Leslie, uma divorciada com dificuldades financeiras, convida Parker (Parmitt) para sair, mas ele recusa. Ao verificar seu crédito, ela descobre que sua identidade (obtida de um conhecido de Hurley) é falsa. Desesperada por dinheiro e para sair do apartamento da mãe, ela oferece sua ajuda. Quando Parker lhe conta que o próximo trabalho é um roubo de joias, Leslie sugere que haja um leilão de joias nas proximidades. O assassino encontra Parker e o ataca em seu hotel, mas Parker o joga da sacada do prédio e escapa. Um policial vai até o apartamento de Leslie para interrogar Parmitt sobre a briga já que ela o havia mostrado algumas casas e, durante a conversa, ela encontra Parker sangrando na varanda. Ela convence o policial a ir embora e começa a trabalhar. Ela fica arrasada ao retornar e encontrar Claire cuidando dos ferimentos de Parker. Apesar dos ferimentos, ele insiste em se vingar da gangue de Melander naquela noite. Melander e sua equipe se infiltram na casa de leilões para instalar alto-falantes adulterados, com a intenção de explodi-los. Mais tarde, eles se disfarçam de bombeiros e roubam as joias, escapando pela água. Parker os espera em casa; antes, ele havia invadido o local, plantado rifles e danificado os percutores das armas.
Quando eles
retornam, ele se prepara para atacar, mas Leslie é capturada por Melander. Usando uma das pistolas escondidas e os percutores danificados, Leslie e Parker
conseguem matar a equipe. Parker entrega as joias a Leslie, pede que ela as
guarde em um lugar seguro e diz que encontrará um jeito de conseguir o valor
equivalente. Em seguida, ele mata Danzinger em Chicago, envia a parte dela para
Leslie um ano e meio depois e manda dinheiro para os fazendeiros que o
salvaram. Escólio: A semelhança
comporta uma única asserção, sempre a mesma. A similitude as afirmações
diferentes, que dançam juntas, apoiando-se e caindo umas em cima das outras.
Expulsa do espaço do quadro, excluída da relação entre as coisas que reenviam
uma à outa, a semelhança desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar,
onde estaria liberta do jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança
ser a soberania que faz surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das
coisas, não é própria ao pensamento? “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado
ser semelhante; ele assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o
mundo oferece”. O pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio
essas coisas cuja similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse
ponto onde está na vertical um pensamento que está sob o modo da semelhança e
das coisas que estão nas relações de similitude. Isto não é um cachimbo é
suficiente para a questão: quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os
elementos dispostos, seja deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura
um jogo de transferências que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no
plano do quadro sem nada afirmar, nem representar nesses jogos da similitude.
Em Les Liaisons Dangereuses uma mulher nua mantém diante de si um
espelho que a esconde quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados,
baixa a cabeça, que volta para a esquerda como se quisesse não ser vista e não
ver que é vista.
Esse espelho, que se encontra exatamente no plano do quadro e de frente para o espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega esconde. O espelho funciona um pouco ao modo de uma tela radioscópica. Mas com todo um jogo de diferenças. A mulher é ali vista de perfil, inteiramente voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço não estendido para carregar o espelho pesado, mas dobrado sobre os seios; a longa cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na imagem do espelho, à esquerda, ligeiramente interrompida pela moldura do espelho, no momento desse ângulo brusco. A imagem é notavelmente menor do que a própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar; translações sem ponto de partida nem suporte.
Dia virá no qual a própria imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em circulação. Michel Foucault com o único fim de estabelecer os efeitos sociais a partir de tais relações sociais e políticas desloca-se deste ponto de vista para trabalhar com algumas séries de noções: “formações discursivas”, “positividade”, “arquivo”, definindo um domínio. Os enunciados, o campo enunciativo, as práticas discursivas, revelam a especificidade de um método de análise filosófico que não seria “nem formalizador, nem interpretativo”, pois já existem muitos métodos capazes de descrever e analisar a linguagem, para que não seja presunção querer acrescentar-lhes outro. Ele já havia mantido “sob suspeita”, expressão que utiliza hic et nunc, em unidades de discurso como o livro ou a obra porque desconfiava que não fosse tão imediata e evidente quanto pareciam: será razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço, depois de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que foram necessárias centenas de páginas para elucidá-los? O que pode oferecer essa arqueologia? Qual é a recompensa de tão árdua empresa? A arqueologia em termos de método procura ordenar, classificar, averiguar e compreender os fatos sociais e históricos ocorridos.
Entre análise
arqueológica e história das ideias, os pontos de separação são numerosos, mas
que simplificadamente, para o filósofo, apresentam quatro distinções: 1ª) A
arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os
temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os
próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras sociais. Ela não
trata o discurso como documento, mas onde se mantém a parte, a profundidade do
essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio, na qualidade de
monumento. Não busca um “outro discurso” mais oculto. Recusa-se a ser
“alegórica”; 2ª) A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e
insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os precede, envolve
ou segue. O problema dela é, pelo contrário, definir a tópica dos discursos em
sua especificidade, sintoma e precariedade dada. Mostrando em que sentido o jogo das regras
que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas
exteriores para melhor salientá-los. Ela não vai à progressão lenta do campo do
confuso da opinião à singularidade do sistema ou à estabilidade definitiva da
ciência; não é uma “doxologia”, mas uma análise diferencial das modalidades de
discurso; 3ª) A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não
busca compreender o momento em que esta intuição se destacou no horizonte
anônimo. Não quer reencontrar o ponto enigmático em que o individual e o social
se invertem um no outro.
Ela não é nem psicologia, nem sociologia, nem, num sentido mais geral, a ideia de “antropologia da criação”. A obra não é para ele um recorte metodológico acadêmico pertinente, mesmo se se tratasse de recolocá-la em seu contexto mais global, ou na rede das causalidades positivistas que a sustentam. Ela define tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais. Embora muitas vezes as comandasse inteiramente e as dominam sem que nada lhes escape, no sentido panoptista. Mas sem dúvida em outras vezes, que só lhes rege uma parte referida à instância do sujeito e princípio de sua unidade que ao que parece lhes são estranhas. Mas Michel Foucault entende que a arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiam o discurso. Ela não se propõe a recolher esse núcleo aparente e fugidio onde Autor e obra trocam de identidade. Onde o pensamento permanece ainda o mais próximo de si, na forma ainda não alterada do mesmo, e onde a linguagem não se desenvolveu ainda na dispersão espacial sucessiva do discurso. Não tenta repetir o que parece que foi dito, reencontrando-o em sua própria identidade. Não se pretende apagar na modéstia ambígua de uma leitura que deixaria voltar, em sua pureza, a luz longínqua, precária, quase extinta da origem. Menos que nada e diferente de uma “reescrita”. É na forma mantida da exterioridade, uma transformação regulada do que já foi escrito. Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é descrição de um discurso-objeto. É neste sentido que no livro: As Palavras e as Coisas (2016), a arqueologia indica-nos pistas e propõe metodologicamente uma forma peculiar de descrever a imagem, sobre a técnica de interpretação através da pintura do quadro Las Meninas, de 1656 de Diego Velásquez, o principal artista do século de ouro espanhol havendo sido reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental.
Não por acaso o pintor barroco Luca Giordano afirmou que ela representa a “teologia da pintura”, com o presidente da Academia Real Inglesa ou Royal Academy School of Arts: Sir Thomas Lawrence (1769-1830) descrevendo a obra em 1827 para David Wilkie refere-se a ela como “a verdadeira filosofia da arte”. Seguindo esta direção interpretativa a obra foi descrita magistralmente ainda como a “realização suprema de Velásquez, uma demonstração bem consciente e calculada sobre o que uma pintura pode alcançar”. Artista celebrado e prolífico, tinha o cognome de Luca Fapresto pelos seus contemporâneos pela inusitada rapidez com que pintava. Uma tela da igreja de Santa Maria do Pranto, Nápoles, teria sido pintada em 48 horas. O número de obras a ele atribuído ascende à casa dos cinco mil títulos, mas a maioria de nível medíocre. Na análise o pintor está ligeiramente afastado do quadro, com um olhar em direção ao modelo e acrescentar um último toque, mas é possível também que o primeiro traço não tenha ainda sido aplicado. O braço que segura o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; permanece imóvel, por um instante, entre a tela e as cores. Essa mão hábil particular do ofício de pintor está pendente do olhar; e o olhar, em troca, repousa sobre o gesto suspenso. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. Não sem um sistema sutil de evasivas. Distanciando-se o pintor colocou-se ao lado da obra na qual trabalha.
Isso quer dizer que para o espectador que olha, ele está à direita de seu quadro, o qual ocupa toda a extremidade esquerda. A esse mesmo espectador o quadro volta às costas: dele só se pode perceber o reverso, com a imensa armação que o sustenta como se fosse um arco da representação e captura da imagem. É perfeitamente visível em toda a sua estatura. Mas, de todo modo, ele não está encoberto pela alta tela que, talvez, irá absorvê-lo logo em seguida, quando, dando um passo em sua direção, se entregará novamente a seu trabalho; mas, nesse mesmo instante, ele acaba de aparecer aos olhos do espectador, surgindo dessa espécie de grande gaiola virtual que a superfície que ele está pintando projeta para trás. Podemos vê-lo agora, num instante de pausa, no centro neutro dessa oscilação. Jennifer Lopez foi escalada como protagonista feminina do filme chamada Leslie, uma fonte que ajuda Parker durante um assalto. Seu talhe escuro, seu rosto claro são meios-termos entre o visível e o invisível: saindo dessa tela que nos escapa, ele emerge aos nossos olhos; mas quando, dentro em pouco, der um passo para a direita, furtando-se aos nossos olhares, achar-se-á colocado bem em face da tela que está pintando; entrará nessa região onde seu quadro, negligenciado por um instante, se lhe vai tornar-se de novo visível, sem sombra nem reticência por que se trata de imiscuir na realidade. Como se o pintor não pudesse ser ao mesmo tempo visto, no quadro em que está representado, e ver, aquele em que se aplica representar, ele reina no limiar dessas duas visibilidades incompatíveis.
Quando se colocam o espectador no campo de seu olhar, os olhos do pintor captam-no, constrangem-no a entrar no quadro, designam-lhe um lugar-tempo privilegiado, obrigatório, apropriam-se da espécie e projetam a superfície inacessível da tela virada. Ele vê sua invisibilidade tornada visível ao pintor e transposta em uma imagem definitivamente invisível a ele próprio. Surpresa que é multiplicada e tornada ainda mais inevitável por um estratagema marginal. Pensando bem, ele não faz ver nada do que o próprio quadro representa. Seu olhar imóvel vai captar à frente do quadro, nessa região necessariamente invisível que forma sua face exterior, as personagens que ali estão dispostas. Em vez de girar em torno de objetos visíveis, esse espelho atravessa todo o campo da representação, negligenciando o que aí poderia captar, e restitui a visibilidade ao que permanece fora do olhar. As significações são armadilhas inevitáveis. Como podermos nos portar diante delas? Talvez como leitores e expectadores deslumbrados pelo universo dos discursos. Parker tem como representação social um filme norte-americano dirigido por Taylor Hackford e lançado em 2013. É um diretor e produtor, nascido em 31 de dezembro de 1944.
Após estudar Ciência Política e servir por dois anos como voluntário do Corpo da Paz na Bolívia, na década de 1960, Taylor Hackford dedicou-se à produção de documentários, criando inúmeros documentários e reportagens investigativas para a emissora de televisão californiana pública americana KCET, localizada em Los Angeles, Califórnia, e afiliada à rede Public Broadcasting Service (PBS). É uma rede de televisão pública sem fins lucrativos com mais de 330 estações de televisão afiliadas nos Estados Unidos que a detêm coletivamente. Seu trabalho, reconhecido em Hollywood e que lhe rendeu dois prêmios Emmy, permitiu-lhe diversificar sua carreira. Ele se tornou produtor e fundou sua própria empresa, a New Visions Pictures. Em 1978, Teenage Father, que ele escreveu, produziu e dirigiu, ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action. Com base nesse sucesso, ele dirigiu seu primeiro longa-metragem dois anos depois, The Age of Rock and Roll. Mas foi An Officer and a Gentleman, estrelado por Richard Gere, em 1982, um sucesso comercial e de crítica, que realmente o trouxe à atenção do público em geral e de toda a indústria cinematográfica, rendendo-lhe dois Oscars: Melhor Canção Original por “Up Where We Belong” e Melhor Ator Coadjuvante para Louis Gossett Jr. Em 1996, ele produziu o documentário “When We Were Kings”, sobre a luta entre o boxeador Muhammad Ali (1942-2016) e o boxeador George Foreman (1949-2025) em 1974 em Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo. É o principal centro econômico e político, das indústrias, incluindo manufatura, telecomunicações, bancos etc., dirigido por Leon Gast com o Oscar de melhor documentário.
Em 2004, ele dirigiu o filme Ray, sobre a vida do cantor Ray Charles (1930-2004), estrelado pelo ator Jamie Foxx, com uma indicação ao Oscar de melhor diretor. O filme é uma adaptação do romance Flashfire, de Donald E. Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark, publicado em 2000. Jason Statham interpreta Parker, um personagem que já apareceu em diversos romances e filmes. Parker é um personagem fictício criado por Donald E. Westlake que aparece em seus romances sob o pseudônimo de Richard Stark. Westlake escolheu esse pseudônimo como uma homenagem a Richard Widmark, “um ator magnífico, fantástico em papéis ameaçadores”. Parker é um ladrão de bancos independente que age friamente, guiado unicamente pelo interesse próprio. O personagem já apareceu em diversos filmes. O próprio Westlake criou uma versão cômica com o personagem Dortmunder. Desde o primeiro livro, a característica que define Parker é a sua completa ausência de emoção na sociedade. Ele é o ladrão profissional por excelência, agindo com frio distanciamento. A intenção de Stark/Westlake era suprimir quaisquer sentimentos pelo seu personagem principal, mesmo quando o submete a enormes provações: a traição dos seus cúmplices e da sua esposa, o confronto com a máfia no primeiro romance. O primeiro nome de Parker nunca é mencionado nos romances, e muitos detalhes sobre ele permanecem envoltos em torno do mistério. Suas principais características são “sua natureza taciturna e seu hábito de esperar pelas pessoas sentado em um sofá em um quarto escuro”. Parker é assustador não apenas por ser frio, metódico e eficiente, mas também porque Westlake conseguiu torná-lo extremamente verossímil. Parker não se envolve em feitos espetaculares, o que o tornaria irreal, mas age de forma realista, optando pelo caminho mais direto em suas ações.
O primeiro romance da série Parker é “O Caçador”, adaptado duas vezes para o cinema “À Queima-Roupa” e “O Golpe”, no qual ele persegue seu parceiro e sua ex-esposa, que o traíram durante um assalto e o deixaram para morrer. Após uma breve passagem pela prisão, ele os encontra e os elimina, voltando então sua atenção para a Organização, para quem seu parceiro havia entregado sua parte do roubo para quitar uma dívida. No final deste primeiro romance, Parker foi preso pela polícia. O editor, no entanto, perguntou a Westlake se havia alguma maneira de Parker escapar. Sua intenção era publicar dois ou três livros ano com esse personagem. Westlake concordou prontamente, considerando Parker “bem melhor” do que a polícia. Após essa primeira aventura, ele orquestra roubos e assaltos à mão armada com cúmplices escolhidos a dedo ou que encontra por acaso, como o assalto a uma cidade inteira En coupe règle, ou a uma base da Força Aérea em Le Divan Indiscret (1968). Ele é conhecido no submundo do crime por planejar meticulosamente seus roubos. Mas seus planos são regularmente frustrados, pela incompetência ou ganância de um de seus parceiros. Esse padrão geralmente leva a um infeliz final sangrento. Jean-Patrick Manchette (1942-1995) mostrou como esse padrão pode ser decomposto em “figuras impostas”: o primeiro plano de ação é falho, então Parker impõe outro.
Ele se impõe como
líder, geralmente sem entusiasmo, mas porque precisa de dinheiro. Algumas
características definem a equipe de executores. Financiamento, preparação de
equipamentos e logística constituem outras sequências. Parker cerca-se de
cúmplices para realizar seus roubos. Alguns deles são personagens recorrentes.
O mais próximo deles é um ator chamado Alan Grofield, que Richard Stark também
apresenta em outros quatro romances nos quais Parker não aparece. John Sheer,
Handy McKay, Ed e Brenda Mackey aparecem em vários livros da série. Em “Piecework”,
o nono romance da série, Parker conhece Claire Carroll, que se torna sua
parceira e com quem ele vive nos períodos em que não está ocupado planejando ou
executando seus roubos. Claire não deseja se envolver nas atividades ilícitas
de seu parceiro, mas ocasionalmente se vê involuntariamente arrastada para
episódios de violência. O casal vive grande parte do ano em uma casa à beira de
um lago em Nova Jersey, mas passa o verão em Miami. Entre 1962 e 1974, Westlake
publicou dezesseis romances com Parker como protagonista. Vinte e quatro anos
depois, Parker reapareceu em mais dez romances. Parker foi retratado no cinema:
Lee Marvin (Walker em Point Blank), Jim Brown (McClain em The Split),
Michel Constantin (Georges em Mise à sac), Robert Duvall (Earl
Macklin em The Outfit), Peter Coyote (Stone em Slayground), Mel
Gibson (Porter em Payback) e Jason Statham, sob seu próprio nome, em Parker.
A atuação de Lee Marvin em Point Blank impressionou tanto Westlake que
influenciou a representação de Parker em seus romances posteriores. Em 2025,
Parker é assumido por dois autores franceses: o ilustrador Kieran e o escritor
Doug Headline. A obra serve para lançar uma nova coleção da editora Dupuis
chamada “Aire noire”. A Presa, 2025, adaptação de Um Pouco de Vinagre,
publicado em 1969.
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