quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Última Parada de Yuma – Anti-heróis & Suspense Policial Neo-western.

        O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente”. Fiódor Dostoiévski             

               

       Fiódor Dostoiévski nascido em Moscou, em 11 de novembro de 1821 e falecido em São Petersburgo, em 9 de fevereiro de 1881 foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos especialistas um dos maiores romancistas e pensadores da história social, bem como um dos maiores “psicólogos” que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique. Ao terminar a sua formação acadêmica, como engenheiro, Dostoiévski trabalhou a full-time como escritor, escrevendo romances, novelas, contos, memórias, notas, escritos jornalísticos e escritos críticos. Além disso, atuou como editor em revistas próprias, como preceptor e participou em algumas atividades políticas. Suas obras mais importantes foram as literárias, nas quais abordou, entre outros temas, o significado do sofrimento e da culpa, o livre-arbítrio, o cristianismo, o racionalismo, o niilismo, a pobreza, a violência, o assassinato, o altruísmo, além de analisar transtornos mentais, muitas vezes ligados à humilhação, ao isolamento, ao sadismo, ao masoquismo e ao suicídio. Pela retratação filosófica e psicológica profunda e atemporal dessas questões, sociais seus escritos são comumente chamados de romances filosóficos e romances psicológicos. Dostoiévski logrou atingir certo sucesso já com seu primeiro romance, Gente Pobre, o qual foi elogiado e protegido pelo mais importante crítico literário russo da primeira metade do século XIX, Vissarion Belinski (1811-1848).

Seu segundo romance, O Duplo (1846), obra muita famosa, tendo sido reinterpretada literária e cinematograficamente, recebeu críticas muito negativas, inclusive do seu antigo protetor, críticas que acabaram por destruir o reconhecimento que Dostoiévski começava a adquirir como escritor. Apenas após seu retorno da prisão na Sibéria, Dostoiévski foi preso por tramar contra o Czar, repetiria o escritor seu sucesso inicial com a semibiográfica obra Recordações da Casa dos Mortos, a qual trata dos anos que passou na prisão. Mais tarde sua fama aumentaria drasticamente graças a obras como Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios. Foi, entretanto, já próximo da morte que Dostoiévski consolidou-se um dos maiores escritores de todos os tempos com sua obra-prima Os Irmãos Karamazov.  A influência de Dostoiévski é ímpar: ele influenciou diretamente a Literatura, a Filosofia, a Psicologia e a Teologia. Sob sua influência direta foram produzidas várias obras literárias e cinematográficas. Foi também reconhecido como precursor dos seguintes movimentos sociais: nietzscheanismo, psicanálise, expressionismo, surrealismo, teologia da crise e existencialismo. O reconhecimento populista também é imenso, tendo em vista que é mundialmente reconhecido, possui diversas estátuas, selos e moedas em sua homenagem e contemporaneamente celebra-se em São Petesburgo o Dia Dostoiévski. São Petersburgo é a segunda maior cidade da Rússia, politicamente incorporada como uma cidade autônoma ou cidade federal. Ela está localizada no rio Neva, na entrada do Golfo da Finlândia, no Mar Báltico.

Em 1914, o nome da cidade foi mudado para Petrogrado e, em 1924, para Leningrado. Em 1991, após o “colapso” da União Soviética, a cidade voltou ao seu nome original. É frequentemente chamada apenas de Petersburgo e informalmente conhecida como Peter. São Petersburgo foi fundada pelo czar Pedro, o Grande em 27 de maio de 1703. Entre 1713–1728 e 1732–1918, foi a capital do Império Russo. Em 1918, as instituições da administração central mudaram-se de São Petersburgo então denominada Petrogrado para Moscou. Com 5 milhões de habitantes (2012) é a quarta subdivisão federal mais populosa do país. A cidade é um grande centro cultural europeu e também um importante porto russo no Báltico. É frequentemente descrita como a metrópole mais ocidentalizada da Rússia, bem como a capital cultural do país. É a cidade mais setentrional do mundo com população acima de 1 milhão de habitantes. Seu centro histórico e monumentos constituem um Patrimônio Mundial. São Petersburgo também é o lar do Hermitage, um dos maiores museus de arte do mundo. Um grande número de consulados estrangeiros, corporações internacionais, bancos e outras empresas estão sediados na cidade. Em 1611, exploradores suecos construíram Nyenskans, um forte às margens do rio Neva, na terra da Íngria, habitada por um grupo de fínicos. Uma pequena cidade chamada Nyen cresceria naquele local. O czar Pedro I, o Grande era interessado pela marinha, e aspirava pela construção de novo porto para o Império, já que a principal cidade portuária do país, Archangelsk, localizava-se no mar Branco, que era bloqueado para navegação durante os meses de inverno rigoroso.

                                        


Em 12 de maio de 1703, durante a Grande Guerra do Norte, Pedro capturou a cidade de Nyenskans das mãos dos suecos. Em 27 de maio de 1703, próximo do estuário da ilha de Hare, o czar estabeleceu o Forte de Pedro e Paulo, que daria início à construção da cidade. A cidade seria então construída por camponeses de toda a Rússia, junto de alguns prisioneiros de guerra suecos, que também se envolveram na construção, todos sob a supervisão de Alexandre Menchikov. Dezenas de milhares de servos morreram durante a construção da cidade, que mais tarde se tornaria o centro de uma nova província. Pedro então transferiu a capital de Moscou para uma São Petersburgo ainda não concluída no ano de 1712, nove anos antes do Tratado de Nystad que daria um fim à guerra. Ele referia-se a São Petersburgo como a capital desde 1704. Em seus primeiros anos, a cidade desenvolveu-se em torno da Praça da Trindade na margem oeste do Neva, próximo ao forte. No entanto, São Petersburgo logo começou a ser construída de acordo com o plano. Em 1716, Domenico Trezzini elaborou um projeto no qual o centro da cidade localizar-se-ia na Ilha de Vassiliev e seria moldada por uma cadeia retangular de canais. O projeto não foi completado, e o fracasso da ideia ainda é visível nos formatos das vias. Em 1716, Pedro apontaria Jean-Baptiste Alexandre Le Blond como o arquiteto-chefe da cidade.

O estilo Barroco, desenvolvido por Trezzini e outros arquitetos são explícitos em construções como o Palácio de Menchikov, o Kunstkamera e a Catedral de Pedro e Paulo, que se tornaram prédios proeminentes no início do século XVIII. Em 1724, a Academia de Ciências, a Universidade nacional e um Ginásio Acadêmico foram inaugurados na cidade pelo czar que a fundara. Em 1725, Pedro morreria, sete anos após o filho, deixando o trono ao seu neto Pedro II, que transferiu a capital novamente para Moscou, pressionado pela nobreza que se opunha aos ideais de modernizações característicos de Pedro I. Com a ascensão da czarina Ana, em 1732, São Petersburgo mais uma vez viria a se tornar a capital russa. Por mais 186 anos, a cidade permaneceria como o trono da família Romanov e a sede da corte do Império Russo, até a Revolução de 1917.  Em 1736, a cidade sofreu de incêndios catastróficos. Para reestruturar os distritos mais danificados, um novo plano foi estabelecido em 1737, por um comitê sob o comando de Burkhard Christoph von Münnich. A cidade foi dividida em cinco distritos, enquanto o centro foi transferido para o bairro do Almirantado, situado na margem leste entre o Neva e o Fontanka. O centro então passou a prosperar por três vias radiais, que se encontravam no Almirantado e que dariam origem à célebre Avenida Névski. O estilo Barroco dominou a cidade pelos primeiros sessenta anos, sendo sucedido pelo estilo Naryshkin, representado pelo arquiteto Bartolomeo Rastrelli com o majestoso Palácio de Inverno.

Na década de 1760, a arquitetura barroca foi substituída pelo neoclássico. O departamento de construção civil da cidade definiu que em 1762 que nenhuma estrutura deveria ser mais alta que o Palácio de Inverno, proibindo espaços entre construções. Durante o reinado de Catarina, a Grande, as margens do rio Neva foram definidas com granito. Todavia, apenas em 1850 foi aberta a primeira ponte permanente sobre o Neva, a Blagoveshchenski. Os principais nomes do neoclássico de São Petersburgo da época foram Jean-Baptiste Vallin de la Mothe, que construiu a Academia Imperial de Artes, o Gostiny Dvor, o Arco de Nova Holanda e a Igreja Católica de Santa Catarina; Antonio Rinaldi, arquiteto do Palácio de Mármore; Iuri Felten, representado pelo Hermitage e pela Igreja de Chesme, Giacomo Quarenghi, que arquitetou a Academia de Ciências, o teatro do Hermitage e o Palácio de Iussupov; Andrei Voronikhin, cujas obras incluem o Instituto de Mineração e a Catedral de Nossa Senhora de Kazan; Andrei Zakharov, arquiteto do prédio do Almirantado; Jean-François Thomas de Thomon, que projetou a Bolsa da Ilha de Vassiliev; Carlo Rossi, autor do Palácio de Ielagin, de Mikhailovski, do Teatro Alexandrino, dos prédios do Senado e do Sínodo e de várias ruas, praças e avenidas; Vassili Stasov, que construiu o Portão Triunfal de Moscou e a Catedral da Trindade e Auguste de Montferrand, arquiteto da Catedral de Santo Isaac e da Coluna de Alexandre.            

Em 1810, a primeira instituição de ensino superior de engenharia foi aberta em São Petersburgo pelo czar Alexandre I. A vitória sobre a Império Francês de Napoleão Bonaparte na Guerra Patriótica de 1812 foi celebrada com vários monumentos, incluindo a Coluna, de 1834 e o Portão Triunfal de Narva. Em 1825, a revolta contra Nicolau I ocorreria na Praça do Senado da cidade, um dia após ele ter assumido o trono. Em torno dos anos 1840, a arquitetura neoclássica deu lugar a vários estilos românticos, que permaneceriam na moda até a década de 1890, representados por arquitetos como o reconhecido Andrei Stackenschneider, que projetou os palácios de Mariinski, Beloselski-Belozérski e Nikolaiévski. Com a emancipação dos camponeses sancionada por Alexandre II em 1861 e uma revolução industrial, o influxo de camponeses para a capital cresceu imensamente. Os distritos mais pobres emergiriam nas periferias da cidade. São Petersburgo ultrapassava Moscou com relação à população e crescimento industrial, desenvolvendo-se até tornar-se uma das maiores cidades industriais da Europa, com uma importante base naval em Kronstadt. 

Os nomes dos santos Pedro e Paulo, que batizaram as primeiras construções da cidade, por ironia, eram os mesmos dos primeiros dois czares russos assassinados - Pedro III, em 1762, como resultado de um complô elaborado pela própria czarina Catarina, e Paulo I, em 1801, morto por conspiradores que pretendiam levar o seu filho, Alexandre I, ao trono. O terceiro czar assassinado seria Alexandre II, em 1881 e, posteriormente, Nicolau II seria o último, em 1918. The Last Stop in Yuma County tem como representação social um filme norte-americano de suspense policial neo-western de 2023, produzido, escrito e dirigido por Francis Galluppi em sua estreia na direção de longas-metragens. É estrelado por Jim Cummings, Jocelin Donahue, Richard Brake, Faizon Love e Michael Abbott Jr. O filme estreou no Fantastic Fest em 23 de setembro de 2023 e teve um lançamento limitado nos cinemas dos Estados Unidos antes de ser lançado em plataformas digitais em 10 de maio de 2024 pela Well Go USA Entertainment. O faroeste contemporâneo é um subgênero do gênero faroeste que inclui cenários contemporâneos e utiliza temas, arquétipos e motivos do Velho Oeste, como um “anti-herói rebelde, planícies abertas e paisagens desérticas, ou tiroteios”. Este subgênero inclui os gêneros pós-faroeste, neo-faroeste e faroeste urbano, que incluem o “culto do cowboy” em um cenário moderno que envolve os sentimentos e a compreensão do público sobre os filmes de faroeste. Pode-se dizer que um neo-faroeste utiliza temas do faroeste ambientados. De acordo com Stephen Teo em Eastern Westerns: Film and Genre Outside and Inside Hollywood, há pouca diferença entre o neo-faroeste e o pós-faroeste, e os termos podem ser frequentemente usados de forma intercambiável.  

            O filme representou um projeto de paixão para Francis Galluppi, que passou anos tentando realizá-lo. Antes de trabalhar na indústria da Sétima Arte, o realizador teve uma carreira musical que envolvia muitas viagens, tendo descrito experienciar uma sensação recorrente de ser um “peixe fora d`água” ao entrar em estabelecimentos de áreas pouco povoadas. Após um acordo com uma produtora que não se concretizou, o produtor executivo James Claeys ofereceu-se para vender a sua própria casa e financiar o filme, acabando Galluppi por aceitar a oferta de Claeys. Numa entrevista, o realizador confessou que o projeto só se concretizou quando finalmente encontrou um cenário de lanchonete no Four Aces Movie Ranch em Palmdale, Califórnia, para começar as filmagens. O longa-metragem foi rodada ao longo de 20 dias com um orçamento de US$ 1 milhão. O filme The Last Stop in Yuma County estreou no Fantastic Fest em 23 de setembro de 2023. Teve um lançamento limitado nos cinemas e foi lançado em plataformas digitais a 10 de maio de 2024 e em formato físico Blu-ray nos Estados Unidos a 16 de julho de 2024, ambos pelo Well Go USAM Entertainment. A versão em Blu-ray contem versões com comentários em audio, um making-of e o trailer original de cinema do filme. A Arrow Vídeo lançou o filme também em Blu-ray a 17 de fevereiro de 2025 no Reino Unido. O lançamento contém todos os extras do lançamento anterior, para além de uma entrevista adicional com Galluppi, um ensaio visual e um texto sobre o filme. 

Na América do Norte (Canadá, Estados Unidos e Porto Rico), The Last Stop in Yuma County arrecadou cerca de US$ 41.520 em 45 cinemas durante o seu fim de semana de estreia, terminando em 29º lugar no ranking. No total, o filme arrecadou US$ 94.344 na América do Norte. O filme teve um ótimo desempenho e críticas em França, estreando com US$ 211.801 e arrecadando US$ 590.840 durante o seu tempo de exibição nos cinemas. Mundialmente, o filme arrecadou US$ 685.184. Historicamente em 1929, já se falava da necessidade de mudanças nos filmes de faroeste para que se mantivessem relevantes na América moderna da época, pois “Tom Mix, Hoot Gibson e Ken Maynard precisam trocar os cavalos pelos aviões ou voltar para o asilo de atores veteranos”. No entanto, o surgimento do faroeste contemporâneo é atribuído a dois motivos específicos: 1) a ambientação contemporânea permitiu o uso de um número maior de ideias sociais para enredos, que incluíam de tudo, desde bandidos modernos e malvados até carros de alta tecnologia e metralhadoras; 2) Gene Autry, um astro famoso dos filmes de faroeste, também era um cantor e artista renomado. Para aproveitar ao máximo sua reputação, a Republic Pictures decidiu que o melhor seria Autry interpretar a si mesmo, transferindo assim os filmes do Velho Oeste para um cenário contemporâneo.


Alguns atores anteriores, como Ken Maynard (1895-1973) e Hoot Gibson (1892-1962), ocasionalmente estrelaram filmes com ambientação moderna, mas Autry foi o primeiro ator a estrelar esse tipo de filme regularmente. Os filmes de Autry também foram descritos como “dramas policiais em um cenário ocidental contemporâneo”. Outros exemplos iniciais do gênero foram filmes estrelados por Roy Rogers, que incluíam cenários contemporâneos com forte dependência de personagens e imagens tradicionais do faroeste, como Silver Spurs (1943). Seus filmes realizados após 1947 são descritos como “quase sem exceção, filmes de aventura modernos ambientados no oeste americano”. A empresa Republic Pictures, que distribuiu um número significativo de filmes de Gene Autry e Roy Rogers foram as duas maiores lendas dos faroestes musicais dos anos 1930 e 1940. Embora tenham sido os maiores rivais da época de ouro do estúdio Republic Pictures, eles trabalharam juntos num único longa-metragem e dividiram espaço  em outro. Autry e Rogers se especializou no subgênero faroeste contemporâneo, um exemplo do qual é também Texas Rangers Ride Again (1940) da Paramount.

Um dos primeiros anti-heróis é Tersites, de Homero, pois ele serve para expressar críticas, demonstrando uma postura anti-establishment. O conceito também foi identificado no drama grego clássico, na sátira romana e na literatura renascentista como Dom Quixote e o malandro picaresco. Um anti-herói que se encaixa na noção mais contemporânea do termo é o guerreiro de casta inferior Karna, no Mahabharata. Karna é o sexto irmão dos Pândavas (simbolizando o bem), nascido fora do casamento e criado por um cocheiro de casta inferior. Ele é ridicularizado pelos Pândavas, mas aceito como um excelente guerreiro pelo antagonista Duryodhana, tornando-se assim um amigo leal, eventualmente lutando no lado errado da guerra justa final. Karna serve como uma crítica à sociedade da época, aos protagonistas, bem como à ideia de a guerra ser válida em si, mesmo que Krishna a justifique posteriormente de forma adequada. O termo anti-herói foi usado pela primeira vez já em 1714, surgindo em obras como O Sobrinho de Rameau no século XVIII, e também é usado mais amplamente para cobrir os heróis byronianos, criados pelo poeta inglês Lord Byron. O Romantismo literário do século XIX ajudou a popularizar novas formas de anti-herói, como o duplo gótico. O anti-herói acabou por se tornar uma forma estabelecida de crítica social, um fenômeno frequentemente associado ao protagonista sem nome em Notas do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski. O anti-herói emergiu como um contraponto ao arquétipo tradicional do herói, um processo que Northrop Frye chamou de “centro de gravidade” ficcional. Este movimento indicou uma mudança literária no ethos heroico, do aristocrata feudal (cf. Anderson, 1984) para o democrata urbano, tal como a mudança das narrativas épicas para as narrativas irônicas.

O anti-herói tornou-se proeminente em obras existencialistas do início do século  XX, como A Metamorfose de Franz Kafka (1915), A Náusea de Jean-Paul Sartre (1938), e O Estrangeiro de Albert Camus (1942). O protagonista nessas obras é um personagem central indeciso que vagueia pela vida e é marcado pelo tédio, angústia e alienação. O anti-herói entrou na literatura americana nas décadas de 1950 e 1960 como uma figura alienada, incapaz de se comunicar. O anti-herói americano das décadas de 1950 e 1960 era tipicamente mais proativo do que seu equivalente francês. A versão britânica do anti-herói emergiu nas obras dos “jovens raivosos” da década de 1950. Os protestos coletivos da contracultura dos anos 1960 fizeram com que o anti-herói solitário fosse gradualmente eclipsado da proeminência ficcional, embora não sem subsequentes ressurgimentos em formas literárias e cinematográficas. Durante a Era de Ouro da Televisão, dos anos 2000 até o início dos anos 2020, anti-heróis como Tony Soprano, Jack Bauer, Gregory House, Dexter Morgan, Walter White, Frank Underwood, Don Draper, Neal Caffrey, Nucky Thompson, Jax Teller, Alicia Florrick, Annalise Keating, Selina Meyer e Kendall Roy tornaram-se proeminentes nos programas de TV mais populares e aclamados pela crítica. Na década de 2020, os estudos sobre televisão expandiram-se para incluir a “anti-heroína”, examinando protagonistas femininas complexas que subvertem as expectativas tradicionais de gênero de cuidado e submissão. Em seu ensaio publicado em 2020, intitulado: Heróis Pós-heroicos – Uma Imagem Contemporânea, o sociólogo alemão Ulrich Bröckling examina a simultaneidade de modelos de papéis heroicos e pós-heroicos como uma oportunidade para explorar o lugar do heroísmo na sociedade contemporânea.

Na arte contemporânea, o artista multimídia francês Thomas Liu Le Lann aborda essa questão é clara em sua série espetacular Soft Heroes (2006), na qual anti-heróis sobrecarregados, modernos e cansados parecem ter desistido do mundo da vida cotidiana ao seu redor.  Bröckling é um sociólogo alemão e professor de sociologia cultural na Universidade Albert-Ludwigs de Freiburg. É coeditor das revistas Leviathan – Berliner Zeitschrift für Sozialwissenschaft e Behemoth – A Journal on Civilization. Após concluir a formação profissional como professor de educação especial, Bröckling estudou sociologia, história moderna e filosofia na Universidade de Freiburg. Até 1991, trabalhou para o publicitário Walter Dirks e foi coeditor da coletânea de escritos de Dirks (1987–1991), além de contribuir para a revista trimestral anarquista Schwarzer Faden. De 1991 a 1999, Bröckling trabalhou como editor em uma editora. De 1999 a 2002, foi pesquisador associado no Centro de Pesquisa Colaborativa 511 da DFG “Literatura e Antropologia” na Universidade de Konstanz e, posteriormente, até 2007, foi o coordenador acadêmico do Grupo de Treinamento em Pesquisa 838 da DFG “A Figura do Terceiro”, também na Universidade de Konstanz. Bröckling recebeu seu doutorado em 1996 e sua habilitação em sociologia pela Universidade de Freiburg em 2006. De 2007 a 2009, foi professor de Ética, Política, Retórica, no Instituto de Ciência Política da Universidade de Leipzig. De 2009 a 2011, foi professor de sociologia geral centrado em teoria sociológica na Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg. Desde 1º de abril de 2011, Bröckling é professor de Sociologia Cultural no Instituto de Sociologia da Universidade de Freiburg.      

De outubro de 2016 a setembro de 2017, foi pesquisador associado no Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da Universidade de Konstanz. A pesquisa de Ulrich Bröckling concentra-se na sociologia das tecnologias sociais e do Eu, estudos de governamentalidade, sociologia cultural, antropologia e sociologia da guerra e das forças armadas. Bröckling publica regularmente artigos e livros sobre formas contemporâneas de governo e subjetivação. Além de inúmeros ensaios sobre esses temas, suas publicações incluem a monografia The Entrepreneurial Self (Suhrkamp, 2007), que adota uma postura crítica em relação à governamentalidade, e a coletânea de ensaios Good Shepherds Lead Gently: On the Arts of Governing People (Suhrkamp, 2017). Essas publicações receberam ampla atenção, inclusive no Die Zeit e no Frankfurter Rundschau. O livro de Bröckling, Heróis Pós-Heroicos, foi escrito como parte do Centro de Pesquisa Colaborativa interdisciplinar Heróis - Heroização - Heroísmos. Da meta-perspectiva sociocultural, examina a relevância dos heróis, o desejo de heroização e também as tendências à deseherização. Bröckling explica que o culto aos heróis permanece uma “tecnologia de dominação” mesmo em sociedades pós-heroicas, como as democracias liberais. 

O crítico Michael Opitz (1962-2026) escrevendo na Deutschlandfunk Kultur, afirma: A tese muito convincente de Bröckling é que o “heroico” deve ser “pensado até o esquecimento”. Ulrich Bröckling demonstra teórica e metodologicamente de forma impressionante, neste ensaio estimulante e esclarecedor, como o status de herói pode ser “pensado até o esquecimento” e como se pode refutar de forma inteligente e elegante o heroísmo duvidoso. O xadrez, empiricamente, é classificado como jogo de mesa, classificação dada por aspectos visíveis, posto que é jogado em uma superfície plana. A formação do conceito teórico é decorrente do processo de investigação da gênese e desenvolvimento do objeto, que possibilitará a expressão da relação essencial. Para investigarmos o conteúdo teórico do conceito de xadrez, segundo Meneghel (2019), necessitamos acessar elementos teóricos referentes à essência e manifestação do objeto estudado, neste caso, o xadrez. A essência de um objeto se dá por formações a partir de conjuntos de relações sociais e históricas. Se o alvo está relacionado ao objetivo, podemos concluir que uma peça do xadrez, por exemplo, não pode ser o alvo dessa relação essencial. Dessa forma, a peça age como instrumento intermediário, pois o verdadeiro alvo é a conquista de território ou espaço. A estrutura do jogo é formada por quatro elementos: as regras, a dinâmica de ataque e defesa, a percepção e análise nas situações de jogo e os conhecimentos estratégicos e táticos. O controle da ação corporal do outro é a estrutura do xadrez desde seu surgimento como atividade lúdica, em jogos que o precederam ainda que não totalmente desenvolvidos. O jogo como manifestação do xadrez é o ponto de partida para a investigação da especificidade de nosso objeto de pesquisa. 

Partindo das relações sociais derivadas dessa compreensão, temos como finalidade, nesta produção de âmbito acadêmico, responder ao seguinte questionamento: quais elementos específicos compõem o conteúdo teórico do conceito de xadrez? Para responder compreensivamente ao nosso questionamento sobre quais são os elementos que os jogadores necessitam operar em suas ações durante o jogo de xadrez, de forma geral, reportamo-nos a sua gênese e desenvolvimento, buscando no jogo contemporâneo tal resposta. Embora diversas civilizações antigas tenham sido descritas ou caracterizadas como havendo sido o berço do xadrez, tais como o Antigo Egito e a China dinástica, na contemporaneidade a maioria dos pesquisadores concorda que o jogo tenha se originado na Índia por volta do século VI d. C., na forma de uma concepção antiga xadrez com regras diferentes das atuais e denominados Chaturanga em sânscrito. Posteriormente o Chaturanga difundiu-se na Pérsia durante o século VII, recebendo o nome persa de Shatranj, provavelmente com regras diferenciadas comparativamente em relação ao jogo indiano. O Shatranj, por sua vez, foi assimilado pelo Mundo Islâmico após a conquista da Pérsia pelos muçulmanos, porém as peças se mantiveram durante muito tempo com os seus nomes persas originais. Dentre os praticantes de Shatranj, aqueles que mais se notabilizaram foram al-Razi, al-Adli e o historiador al-Suli e seu discípulo e sucessor al-Lajlaj. Diversos estudos foram realizados por al-Suli com o objetivo de compreender os princípios das aberturas e os finais de cada partida, além de “classificar os praticantes de Shatranj em cinco categorias em razão de sua força de jogo”. Na passagem do primeiro milênio da nossa Era civilizacional, o jogo já havia se difundido por grande toda a Europa e atingido a Península Ibérica no século X, sendo citado no manuscrito do século XIII, o Libro de los Juegos, que discorria sobre o Shatranj, dentre outros jogos.    

            Os jogos de tabuleiro são reconhecidos desde a Antiguidade, mas foi durante a Idade Média que a maioria deles recebeu as regras e a imagem com que são reconhecidos. Xadrez, Dama, Gamão e Moinho possuem praticamente as mesmas regras e tabuleiros que tinham na Era Medieval. Quando surgiram, os jogos de tabuleiro estavam restritos aos membros da nobreza e do clero. As pessoas comuns que formavam os gentios não tinham acesso a este tipo de entretenimento. A explicação para isso pode ser encontrada na complexidade técnica de interpretação da regra de alguns destes jogos. Outro fator estava no elevado preço que estes produtos tinham, como mercadoria, o que afastava a maior parte dos consumidores. Entre todos os jogos de tabuleiro surgidos, destacou-se o Xadrez. Mas ao contrário do que se possa imaginar, o Xadrez não foi criado na Europa. Apesar das peças do jogo estarem relacionadas a sociedade medieval europeia: rei, rainha, bispo, cavalo, torre e peões, o jogo surgiu no oriente. Mais precisamente na Índia, onde o jogo é reconhecido como Chaturanga. Com isso as peças do jogo estão associadas a cultura e religião deste povo: Raja (espécie de rei), Mantri (conselheiro do rei), Ratha (carruagem), elefante, cavalo e infantaria.     

            Um dos ancestrais dos jogos de tabuleiro contemporâneos é o Jogo real de Ur. Estima-se que era jogada em torno de 2.500 a. C. na cidade Suméria de Ur, atualmente Iraque. O jogo foi descoberto entre 1922 e 1934, durante as escavações lideradas pelo arqueólogo inglês Sir Leonard Woolley (1880-1960). Em meio a tumbas, Leonard encontrou joias, armas, e também vários tabuleiros, trabalhados em madeira e adornados com madrepérola e lápis-lazúli. O curador do Museu Britânico e especialista em escrita cuneiforme Irving Finkel, trabalhou na decifração das regras do jogo, sendo um trabalho complexo, realizado durante longa duração de sua vida. Finkel e outros especialistas do Museu Britânico encontraram uma tabuinha que se permitiu concluir que os jogos eram utilizados por essas atividades divinatórias. A arte divinatória era muito importante para os sumérios, utilizada como uma forma de se comunicar com os deuses, e para isso poderia ser usada além dos jogos, como a interpretação de sonhos e a observação de vísceras de animais. Os egípcios se interessavam por jogos de tabuleiro, um deles era o Senat, ou Senet, também conhecido como “Jogo de passagem da alma para outro mundo”.

             Fragmentos e hieróglifos encontrados em escavações indicam que o jogo de Senat teria por volta de 5.500 anos. Na tumba do faraó Tutancâmon foi encontrado quatro tabuleiros, um deles constituído de ébano e marfim, com peças em ouro. O faraó detinha o poder religioso, administrativo, judicial e militar. Podia ter diversas esposas e grande número de amantes. A endogamia era comum não somente entre os faraós, mas também nas outras frações de classes sociais. A sociedade do antigo Egito era dividida em diversos estratos sociais. A primeira era constituída pelos membros da família real. Depois, os sacerdotes, os nobres, os escribas, os guerreiros, os mercadores e os artesões. Os lavradores, operários e servos faziam parte da classe baixa da população. As classes privilegiadas eram as classes dos nobres e dos sacerdotes. Os nobres eram funcionários que administravam, em nome do faraó, os nomos, antigas divisões territoriais. Os sacerdotes faziam parte da elite intelectual de grande poder social, em virtude de serem considerados intermediários entre os homens e os deuses. Os escribas eram fiscais e contabilistas da produção das terras do faraó e constituíam uma classe prestigiada, pois era a única que dominava a complicada escrita hieroglífica.    

O jogo de Senat tinha profunda ligação com a mitologia egípcia, sendo citado no Livro dos Mortos e textos religiosos. Quando havia apenas um jogador, entendia-se que ele enfrentava o seu próprio destino, representado pela imagem do deus dos mortos, Osíris. Se vitorioso, o jogador receberia a benção da vida eterna. Vencer o jogo de Senat significa triunfar sobre o mal e renascer com sucesso na vida após a morte. O Senet era utilizado como entretenimento pelos antigos egípcios, assim como podemos perceber em várias cenas apresentadas em papiros. Apesar de ter um fim de entretenimento, apresentava um profundo significado religioso por representar a alma em sua árdua trajetória no mundo dos mortos. Segundo o arqueólogo norte-americano Peter Piccione (1980: 58) o jogo indica que os antigos egípcios acreditavam que eles poderiam influenciar a sua pós-vida. Até o final da décima oitava dinastia em 1293 a. C., o Senet foi transformado em uma simulação das viagens ao submundo. Isso porque os jogos foram encontrados em tumbas e inscrições mostram que o jogo poderia em alguns momentos ser jogado por apenas uma pessoa. Então o autor acredita em duas formas simultâneas de uso do jogo Senet. Quando se faz uso por duas pessoas, em forma de entretenimento, e por uma pessoa, em um ritual divinatório da vida após a morte.  

O Condado de Yuma é um dos 64 condados do Estado americano do Colorado. A sede do condado é Wray, e a sua maior cidade é Yuma. Os primeiros nativos norte-americanos que viviam no Colorado foram os anasazis, cerca de um milênio antes da chegada dos primeiros exploradores europeus na região. À época da chegada dos primeiros exploradores europeus na região, viviam no atual Colorado os Arapahos, os Cheyennes, os Comanches, os Kiowas e os Pawnees, na região Leste, e os Utes, no Oeste. Milhares de nativos, de tribos diferentes do Leste norte-americano, passariam pela região durante o século XIX, quando foram forçados a sair do Leste e migrar em direção ao Oeste. Os primeiros exploradores europeus na região foram espanhóis, durante o século XVI. Tais exploradores chegaram à região vindos do Sul, do México, e estavam em busca de metais preciosos, tais como ouro. Os espanhóis, não tendo encontrado ouro no atual Colorado, não se interessaram em povoar a região, tendo reivindicado posse da região somente em 1706, 24 anos depois de o francês René-Robert Cavelier ter reivindicado a posse da região Leste do atual Colorado para a coroa francesa e, assim, ter feito parte da colônia francesa de Louisiana. Nascido em Sieur de La Salle (1643-1687) foi um nobre, comerciante e explorador francês do século XVII, atuante principalmente na América do Norte. Um dos mais notórios exploradores franceses do chamado Novo Mundo, La Salle explorou a região dos Grandes Lagos dos países posteriormente fundado e nomeados Estados Unidos da América e Canadá, o rio Mississippi e o Golfo do México. No período de 1770 a 1830 a grande maioria das colônias europeias no continente americano passam por profundas transformações que marcam a descolonização e o período das independências políticas.

             Enquanto isso boa parte da África encontra-se na fase “pré-colonial”. Fase em que a presença dos europeus - sobretudo portugueses, holandeses, franceses e ingleses em contínua disputa e concorrência - se expressa em entrepostos, localizados nas costas atlânticas, onde era praticado o comércio de mercadorias bem como de homens, mulheres e crianças escravizados. Levados à força como mão-de-obra para as Américas, foi por meio desse tráfico humano que se estruturou um forte eixo de conexão transcultural entre o espaço africano ocidental, oeste e leste central e americano. Nessa parte da África, a colonização pelas nações europeias se cristaliza a partir da década de 1860, e se acirra na de 1880 com a corrida imperialista. Do lado americano do Atlântico, após a fase das independências políticas, observa-se o processo de construção e formação dos estados modernos e das nações americanas. Se as Américas e a África vivenciam trajetórias políticas marcadas por diferenças e especificidades, pode-se especular com a hipótese que impacto da Ilustração apresenta semelhanças. A Ilustração - um movimento cultural, científico, social e político que se espraia pelo continente europeu - teve a sua materialização, na França, por exemplo, no projeto da Encyclopédie, na fundação de sociedades científicas e na profissionalização das academias de ciências, que contribuíram para a organização das grandes viagens de exploração. Como as de Louis Antoine de Bougainville (1729-1811) e Jean François de La Pérouse (1741-1788), que semelhante ao britânico James Cook (1728-1779), viajam pelo “mundo afora” com uma enorme equipe de cientistas, em navios, que funcionavam também como laboratórios e gabinetes itinerantes de pesquisa nas várias áreas do saber.    

Essas viagens de circum-navegação foram essenciais no sentido civilizatório de mapear os continentes e descobrir rincões ainda desconhecidos pelos colonizadores europeus. Mas essas expedições priorizavam os litorais e somente em raros casos, como por exemplo a expedição do matemático Charles Marie de La Condamine (1701-1774) pela bacia do Amazonas, atravessavam os continentes. Afora as regiões costeiras onde os europeus já mantinham desde o século XV os seus entrepostos e por onde passam também as viagens de circum-navegação, o interior da África era terra ignota aos europeus. Com a fundação da African Association em 1788, na Grã-Bretanha, “a abertura da África” dá os seus primeiros passos. O escocês Mungo Park (1771-1806) será uma das figuras pioneiras desse movimento social in statu nascendi, ancorado na ciência da Ilustração, tornando-se referência para ulteriores exploradores, dentre eles os franceses, com o intento de penetrar no continente africano. Na América, as independências políticas e o fim dos monopólios coloniais implicaram na abertura das fronteiras franqueando a entrada de muitos estrangeiros, dentre eles numerosos viajantes exploradores motivados por razões científicas e comerciais. No caso do Brasil joanino (1808-1821), os franceses somente puderam usufruir dessa abertura após a queda de Napoleão e o restabelecimento da paz no continente europeu. É a partir dessa conjuntura política que ocorre um novo “descobrimento francês” no Brasil e um renovado interesse comercial pelo país.

La Salle é mais reconhecido por sua expedição no início de 1682 em que canoou o Baixo Mississippi da foz do rio Illinois até o Golfo do México. Em 9 de abril de 1682, La Salle reivindicou toda a Bacia do Mississippi para a França de Luís XIV, “batizando” a região de La Louisiane em homenagem a São Luís e ao próprio monarca francês. Alguns historiadores salientam que a expedição de La Salle “adquiriu para a França a metade mais fértil do continente norte-americano”. La Salle é frequentemente considerado o primeiro europeu a atravessar o rio Ohio e, eventualmente, o Mississippi como um todo. Entretanto, estudos mais recentes confirmam que Louis Jolliet (1645-1700) e Jacques Marquette (1637-1675) o precederam no Mississippi em sua jornada de 1673-1674, e evidências existentes não indicam que La Salle sequer alcançou o vale dos rios Ohio e Allegheny. Esta região passaria ao controle dos espanhóis em 1762 e, sob os termos do Tratado de Santo Ildefonso, passaria novamente ao controle dos franceses em 1800, para ser finalmente anexada, como parte da Compra da Luisiana, pelos Estados Unidos. Em 1806, um oficial do Exército dos Estados Unidos, Zebulon Montgomery Pike (1779-1813), realizou a Expedição Pike na parte norte-americana do Colorado.  

O Monte Pike seria nomeado em sua homenagem. Outra exploração, também liderada por oficiais do exército norte-americano, seria realizada em 1820. Em 1833, os norte-americanos fundariam seu primeiro forte na região, onde atualmente está localizada La Junta. Em 1848, os norte-americanos obteriam posse do restante do Colorado, então sob domínio do México, após o fim da guerra mexicano-americana. A região do atual Colorado era escassamente povoada até a década de 1850. Em 1858, porém, minas de ouro foram encontradas na região. Em apenas um ano cerca de 50 000 pessoas, entre imigrantes e habitantes do Leste norte-americano, haviam migrado para a região. O súbito crescimento populacional da região causou problemas entre os mineiros e os nativos que viviam na região, que reivindicavam a posse da região. Os mineiros instituíram um território, que foi chamado de Território de Jefferson. O governo norte-americano não reconheceu o território, e, no lugar, criou o Território de Colorado, em 1861. Diversos conflitos entre brancos e nativos ocorreram no Colorado, nas décadas de 1860 e 1870. Em 1864, por exemplo, uma milícia branca mataria, no que ficou reconhecido como o Massacre de Sand Creek, 150 cheyennes e arapahos, a maioria mulheres, crianças e idosos. Em 1868, 50 soldados do exército foram emboscados por nativos. Estes soldados lutaram por diversos dias, até serem salvos por tropas norte-americanas. A última batalha entre brancos e nativos no Colorado ocorreria em 1879, no Massacre de Meeker. Grandes minas de prata seriam encontradas no Colorado depois do término da Corrida do Ouro, o que manteve em alta o crescimento populacional do estado.

 Grandes reservas de petróleo foram encontradas no Colorado, embora estas não tenham sido exploradas em grande escala até o início da década de 1900. Em 1870, a primeira ferrovia conectando o Colorado com outras regiões foi inaugurada, comunicando Denver com Cheyenne, em Wyoming. Em 1° de agosto de 1876, o Colorado tornou-se o 38º estado norte-americano. Escólio: Em um local remoto e desértico no Condado de Yuma, Arizona, na década de 1970, um vendedor ambulante de facas para em um posto de gasolina. Vernon, o frentista do posto e do motel, informa-o de que “as bombas estão secas e que não há outros postos de gasolina num raio de 160 km, mas que um caminhão-tanque deve chegar em breve”. No rádio, o vendedor ouve sobre um assalto a banco ocorrido naquela manhã em Buckeye, onde os ladrões fugiram com aproximadamente US$ 700.000 em um Ford Pinto verde com a traseira danificada. Charlotte, garçonete de uma lanchonete próxima, é deixada ali por seu marido Charlie, que é o xerife local; ela abre a lanchonete e recebe o vendedor. Em conversa com Charlotte, ele menciona que está a caminho de Carlsbad, Califórnia, para o aniversário de sua filha Sarah. Pouco depois, os dois assaltantes de banco, Travis e Beau, passam pelos destroços de um caminhão-tanque e chegam em um Pinto verde, que o vendedor reconhece sendo o carro usado na fuga do assalto. Ele conta suas suspeitas para Charlotte, que tenta ligar para o marido na delegacia, mas Beau a impede e corta o fio do telefone antes que ela consiga falar com o xerife. Os assaltantes a obrigam, sob a mira de armas de fogo, a continuar agindo normalmente em suas atividades de garçonete até que o caminhão-tanque chegue ou que alguém com combustível suficiente no carro pare. 

Sem que ninguém no restaurante saiba, o caminhão nunca chegará, pois saiu da estrada e está tombado a vários quilômetros de distância e é derradeiro para o desfecho da trama. Charlie pede ao seu assistente, Gavin, que passe na lanchonete para pegar café para a delegacia, e Charlotte tenta lhe entregar um pedido de ajuda na tampa de um dos copos, mas o café acaba derramando sem que Gavin veja a tampa quando esbarra em Travis. Enquanto isso, juntando-se ao vendedor e a Charlotte na lanchonete estão um casal de idosos do Texas, dois jovens aspirantes a criminosos chamados Miles e Sybil, e o fazendeiro local Pete que como praxe visita-o matinalmente. Com o tanque de combustível do carro de Pete quase cheio, Beau e Travis tentam obrigá-lo a entregar as chaves, mas como várias pessoas na lanchonete estão armadas, um impasse se instala. Pete tenta negociar uma saída para o impasse. No entanto, Charlotte esfaqueia Beau, o que desencadeia um tiroteio no qual todos morrem, exceto o vendedor e Sybil. Mas Sybil atira no vendedor, e ele consegue esfaqueá-la e matá-la em legítima defesa. Comparativamente é o que ocorre, na prática, com o truque espetacular no jogo de Damas que as peças parecem cair todas simultaneamente é reconhecido no meio enxadrístico como Golpe do Ladrão, Tema Turco ou simplesmente “a tática de sacrifício em cadeia”. A mágica acontece porque a captura é obrigatória, e uma dama sua colocada estrategicamente é forçada a comer várias peças do adversário em um único turno. Como funciona o truque na prática. 

Nessa manobra, você entrega uma ou mais peças de bandeja, obrigando o adversário a capturá-las. Em seguida, ao chegar na casa correta, a sua peça, geralmente uma dama, inicia uma longa sequência de capturas ziguezagueando pelo tabuleiro. O termo “Tema Turco” refere-se à dinâmica onde uma única peça limpa uma grande área de capturas em uma velocidade visual impressionante. Regras fundamentais para o golpe dar certo. Captura em Cadeia: A sua dama deve pousar em uma casa onde ela seja obrigada a pular sobre outra peça do adversário, e assim sucessivamente, até que não restem mais pulos válidos. A Lei da Maioria: Lembre-se de que, pelas regras oficiais, a captura é obrigatória e, se houver mais de um caminho possível, o jogador é obrigado a escolher o caminho que captura o maior número de peças. Casas de Pouso: A peça só é retirada do tabuleiro após a dama completar a volta inteira da captura, o que dá a ilusão de que todas as pedras caem ao mesmo tempo quando a sequência se encerra. O vendedor decide pegar o dinheiro roubado do porta-malas do Pinto e furta um pouco de combustível da caminhonete do Pete. Antes de partir em seu próprio Toyota, ele é interrompido por um jovem casal com um bebê que chega ao local. Em uma briga que se segue, o vendedor acaba matando os dois e, sem saber, atirando no próprio tanque de gasolina. O vendedor deixa o bebê chorando no carro do casal e foge, deixando um rastro de gasolina derramada. O xerife e o delegado chegam e descobrem a carnificina. Buscando vingança pelo assassinato de sua esposa, o xerife persegue o vendedor em fuga, cujo carro ficou sem gasolina perto dos destroços do caminhão-tanque. O xerife duvida, pela sua experiência, da inocência do vendedor e atira nele enquanto foge. Pouco antes de ser atingido no abdômen, o vendedor incendeia um rastro de gasolina que destrói o caminhão-tanque, resultando em uma explosão imediatamente que mata o xerife. O vendedor se deixa cair sobre sua sacola de dinheiro enquanto as notas voam com o vento.

Bibliografia Geral Consultada.

DESCHAMP, Hubert, L´Europe Découvreur L´Afrique. Afrique Occidental (1794-1900). Paris: Editions Berger-Levrault, 1967; CANTIN, Serge, “L`Homme de Marx est-il un Sujet Individuel ou un Être Social? À Propos de l`Interprétation de Marx par Louis Dumont”. In: Philosophiques, 18 (1): 25-60, 1991; ANDERSON, Perry, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto: Edições Afrontamento, 1984; Idem, Fim da História – de Hegel a Fukuyama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992; MONTÁLBAN, Manuel Vásquez, História y Comunicación Social. Madrid: Alianza Editorial, 1985; BROC, Numa, Dictionnaire Illustré des Explorateurs et Grands Voyageurs Français du XIXè siècle. Paris: Éditions du CTHS, 1988; JUNG, Carl Gustav, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 2ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2000; KURY, Lorelai, Histoire Naturelle et Voyages Scientifiques: (1780-1830). Paris: L’Harmattan, 2001; HARVEY, David, A Brief History of Neoliberalism. New York: Oxford University Press, 2005; CATROGA, Fernando, Os Passos do Homem como Restolho do Tempo: Memória e Fim do Fim da História. Coimbra: Editor Almedina, 2009; GOFFMAN, Erving, Estigma: La Identidad Deteriorada. Madrid: Amorrotu Editores, 2009; DELEUZE, Gilles, Diferença e Repetição. 1ª edição. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Paz e Terra, 2018; TEO, Stephen, Eastern Westerns (Media, Culture and Social Change in Asia). 1st Edition. Editorial Board; Publisher ‎ Routledge, 2018; MENEGHEL, Gustavo Amâncio Bonetti, O Conteúdo Teórico do Conceito de Xadrez. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Mestrado em Educação. Criciúma: Universidade do Extremo Sul Catarinense, 2019; LALLO, Pedro Gabriel Antonio, A Crise do Conhecimento Oficial: Uma Análise da Relação Vocabulário/Organização Social. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Faculdade de Filosofia e Ciências. Marília:  Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2022; TAVEIRA, Nefferson, “Conheça o Aclamado suspense do diretor que comandará o próximo A Morte do Demônio”. In: https://cinepop.com.br/09/05/2024; Amorim, Marília, A Vigilância dos Corpos: Por Uma Biografia Fragmentada de Michel Foucault. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre:  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2024; SILVA, Natalia Francisca da, Documentário, True Crime e Narrativa Transmídia na Análise e Recepção do Caso Evandro. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2025; entre outros.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Medalha de Bronze – Cinema, Pragmatismo & Potencialidades Bioantropológicas.

                    A verdade não é para ser encontrada, é para ser construída”. Richard Rorty (1931-2007)  

              

        A cultura, que caracteriza as sociedades humanas, é organizada/organizadora via o veículo cognitivo da linguagem, a partir, segundo Morin (1998), do “capital cognitivo coletivo” dos conhecimentos adquiridos, das competências aprendidas, das experiências vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma sociedade. E, dispondo de seu capital cognitivo, a cultura institui as regras/normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos individuais. Estas regras geram processos sociais e regenera globalmente a complexidade social adquirida por essa mesma cultura. Assim, a cultura não deve ser compreendida pelas metáforas estruturais, que são termos impróprios em uma organização recursiva onde o que é produzido e gerado torna-se produtor e gerador daquilo que o produz ou gera. Isso facto, cultura e sociedade estão em relação geradora mútua; nessa relação, não podemos esquecer as interações entre indivíduos, eles próprios portadores ou transmissores de cultura, que regeneram a sociedade, a qual regenera a cultura. Daí a tese sociológica segundo a qual, “se a cultura contém um saber coletivo acumulado em uma memória social, se é portadora de princípios, modelos, esquemas de conhecimento, se gera uma visão de mundo, se a linguagem e o mito são partes constitutivas da cultura, então a cultura não comporta somente uma dimensão cognitiva: é uma máquina cognitiva cuja práxis é cognitiva”. É neste saber cognitivo que uma cultura abre e fecha as potencialidades bioantropológicas do conhecimento.

Ela as abre e atualiza fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus paradigmas, a sua lógica, os seus esquemas, os seus métodos de aprendizagem, métodos de investigação, de verificação, etc., mas, ao mesmo tempo, ela as fecha e inibe com as suas normas, regras, proibições, tabus, o seu etnocentrismo, isto é, a sua autossacralização, a sua ignorância de ignorância. Ainda aqui, o que abre o conhecimento é o que fecha o conhecimento. Desde o seu nascimento, o ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas, também pela sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade, para elas, em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se de memória biológica e de memória cultural, associadas na própria memória, que obedece a várias entidades de referência, diversamente presentes nela. Tudo o que é linguagem, lógica, consciência, tudo o que é espírito e pensamento, constitui-se na encruzilhada dialógica entre dois princípios de tradução, um contínuo, o outro descontínuo (binário). As aptidões individuais organizadoras da mente necessitam de condições socioculturais para se atualizarem, as quais necessitam das aptidões do espírito humano para se organizarem individual e socialmente. A cultura está nos espíritos, vive nos espíritos, os quais estão na cultura, vivem na cultura. Meu espírito conhece através da minha cultura, vivem na cultura.

Meu espírito conhece através da minha cultura, mas, em certo sentido, a minha cultura conhece através do meu espírito. Assim, portanto, as instâncias produtoras do conhecimento se coproduzem umas às outras; há uma unidade recursiva complexa estabelecida entre produtores e produtos do conhecimento, ao mesmo tempo em que há relação hologramática entre cada uma das instâncias, cada uma contendo as outras e, nesse sentido, cada uma contendo o todo enquanto todo. Falar em complexidade é falar em relação de interação simultaneamente complementar, concorrente, antagônica, recursiva e hologramática entre essas instâncias cogeradoras do reconhecimento humano. Mas não é apenas essa complexidade que permite compreender a possível autonomia relativa do espírito (faculdades intelectuais) e no sentido técnico do cérebro individual. Mas é assim mesmo que o espírito individual pode autonomizar-se em relação à sua determinação biológica. Recorrendo às suas fontes e recursos socioculturais. Em relação à determinação cultural utilizando sua aptidão bioantropológicas para organizar o conhecimento. O espírito individual pode alcançar a sua autonomia jogando com a dupla dependência que, ao mesmo tempo, o constrange, limita e alimenta.                       

Entre o bioantropológico e o sociocultural, o ser individual e a sociedade residem a possibilidade de autonomia do espírito inscrita no princípio de seu conhecimento. E isso em nível de seu conhecimento cotidiano, proporcionalmente quanto em nível de pensamento filosófico ou científico. A cultura fornece ao pensamento as suas condições sociais e materiais de formação, de concepção, de conceptualização do ponto de vista de sua dinamização. Impregna, modela e eventualmente governa os conhecimentos individuais. A cultura e, pela via da cultura, a sociedade está no interior do conhecimento. O conhecimento está na cultura e a cultura está na representação do conhecimento. Um ato cognitivo é, ipso facto, um elemento do complexo cultural coletivo que se atualiza em um ato cognitivo individual. As nossas percepções ou mesmo concepções de vida e de trabalho estão sob um controle, não apenas de constantes fisiológicas e também psicológicas, mas níveis de variáveis culturais e históricas. A percepção é submetida a categorizações, conceptualizações, taxinomias, que influenciarão o reconhecimento e a identificação das cores, das formas, dos objetos como na trilogia das cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski: Trois Couleurs: Bleu (de 1993), Trois Couleurs: Blanc (de 1994) Trois Couleurs: Rouge (de 1994). O conhecimento intelectual organiza-se em função de paradigmas que selecionam, hierarquizam, rejeitam as ideias sociais e as informações técnicas, bem como em função de significações mitológicas e de projeções imaginárias. Assim opera a “construção social da realidade”, ou antes, a “co-construção social da realidade”, visto que a realidade se constrói a partir de dispositivos cerebrais, em que o real (imagem) se consubstancializa e se dissocia do irreal (ficção), que constitui a visão de mundo, que se concretiza em verdade, em erro, na mentira.

Para conceber a sociologia do conhecimento, é necessário, conceber não só o enraizamento do conhecimento na sociedade e a interação social do conhecimento na sociedade. Mas no anel recursivo que agencia a dinâmica entre sujeitos e objetos, no qual o conhecimento é produto/produtor sociocultural que comporta uma dimensão própria cognitiva. Os homens de uma cultura, pelo seu modo de conhecimento, produzem a cultura que produz seu reconhecimento. A cultura gera os conhecimentos que regeneram a cultura. Ao considerar-se a que ponto o conhecimento é produzido por uma cultura, dependente de uma cultura, integrado a uma cultura, pode-se ter a impressão de que nada seria capaz de libertá-lo. Mas isso seria, sobretudo, ignorar as potencialidades de autonomia relativa, no interior de todas aquelas culturas, dos espíritos individuais. Os indivíduos não são todos, e nem sempre, mesmo nas condições culturais mais fechadas, máquinas triviais obedecendo impecavelmente à ordem social e às injunções culturais. Isso seria ignorar que toda cultura está vitalmente aberta ao mundo exterior, de onde tiram conhecimentos objetivos e que conhecimentos e ideias migram entre as culturas.   

   

Seria ignorar que aquisição de uma informação, a descoberta de um saber, a invenção de uma ideia, podem modificar e transformar uma sociedade, mudar o curso da história. Assim, o conhecimento está ligado, por todos os lados, à estrutura da cultura, à organização social, à práxis histórica. Sempre por toda parte, o conhecimento científico transita pelos espíritos individuais, que dispõem de autonomia potencial, a qual pode em certas condições sociais e políticas atualizarem-se e tornar-se um pensamento pessoal crítico.  Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de terminações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar, princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma weltanschauung, um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive e das coisas que governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. 

Ao organizar os paradigmas e modelos sociais explicativos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu. É um triângulo sob a forma de campo. As doutrinas e ideologias dominantes dispõem também da força imperativa e coercitiva que leva a evidência aos convictos e o temor inibitório aos desalmados. Há, assim, sob o conformismo cognitivo, muito mais do que mero conformismo. Há um imprinting cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o impõe. O imprinting é um termo que Konrad Lorentz (1903-1989) propôs para dar conta da marca incontornável imposta pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu alcance. Há um imprinting cultural que marca os humanos, desde o nascimento, com o selo da cultura, primeiro familiar e depois escola, prosseguindo na universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas da sociedade. Os subcultivados sofrem um imprinting e normalização atenuados e há mais opiniões pessoais “diante do balcão de café do que num coquetel literário”. Embora contrariados em contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que permite a expressão de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting e a normalização crescem em paralelo com a cultura.

O imprinting cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório, que nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda objeção vinda de fonte técnica considerada má. A normalização manifesta-se de maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a tentação de duvidar ou de contestar. A normalização, portanto, com seus subaspectos de conformismo, exerce uma prevenção contra o desvio e elimina-o, se ele se manifesta. Mantém, impõe a norma do que é importante, válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo, imbecil, perverso. Indica os limites a não ultrapassar. As palavras a não proferir. Os conceitos a desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting assimila a perpetuação dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas. Obedece a processos de tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento entre os homens dessa cultura. Através do seu modo de conhecimento, reproduzem a legitimidade que produz esse conhecimento. As crenças que se impõem são fortalecidas pela fé que suscitaram. Se reproduzem não somente os conhecimentos, mas as estruturas e os modos reguladores que determinam a invariância desses conhecimentos. As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética, intelectual, psicológica e bem diversos, apto a outros pontos de vista cognitivamente variados.

São, justamente, essas diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a normalização reprime. Do mesmo modo, as condições ou acontecimentos aptos a enfraquecerem o imprinting e a normalização permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e intolerâncias, o que resulta no seu próprio crescimento. Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito social e político, e portanto, entre ideias, concepções e visões de mundo. Quando a sociedade é demasiada complexa, isto é, policultural, e um mesmo indivíduo experimentam várias inserções, seja familiar, de casta ou clã, étnica, nacional, política, filosófica, religiosa, e assim por diante, então, todo o conflito entre essas dependências e crenças pode tornar-se fonte de debates, problemas, crises internas, o que segundo a perspectiva de Morin, “instala a dialógica no seio do próprio espírito individual”. Mas quando ideias contrárias se enfrentam no espírito de um mesmo indivíduo, elas podem então: - seja se anular reciprocamente, dando lugar ao ceticismo, ele mesmo fermento de atividade crítica e motos do debate de ideias; seja, provocar uma double bind, contradição pessoal gerando na mente uma crise espiritual, que estimula a autorreflexão e suscita eventualmente uma busca de nova solução; - seja suscitar uma hibridização ou, melhor, uma síntese criadora entre ideias contrárias.

O encontro de ideias antagônicas cria uma zona de turbulência que abre uma brecha no determinismo. Mas pode estimular, entre indivíduos na formação de grupos, interrogações, dúvidas, reticências, buscas. Medalha de Bronze (The Bronze) tem como representação social um filme norte-americano de 2015 do gênero comédia-drama, dirigido por Bryan Buckley e escrito por Melissa Rauch e Winston Rauch. É estrelado por Melissa Rauch, Gary Cole, Thomas Middleditch, Sebastian Stan, Cecily Forte, Haley Lu Richardson e Dale Raoul. Teve a sua estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance em 22 de janeiro de 2015. O filme foi lançado nos cinemas em 18 de março de 2016 pela Sony Pictures Classics. Bryan Buckley é um cineasta, roteirista, produtor e diretor americano, indicado duas vezes ao Oscar. A estreia de Buckley na direção aconteceu com uma série de comerciais que ele criou para a NHL na ESPN, antes de criar a campanha “This is SportsCenter” para a ESPN em 1999. O trabalho tornou-se parte da marca ESPN e lançou Buckley no mundo da publicidade. Buckley dirigiria mais de 70 comerciais do Super Bowl. Seu primeiro longa-metragem, The Bronze (2015), abriu o Festival de Cinema de Sundance de 2015, enquanto seu segundo, The Pirates of Somalia (2017), estreou no Festival de Tribeca em 2017. Dois de seus curtas-metragens, Asad (2013) e Saria (2019), foram indicados ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action, isto é, um termo cinematográfico que define produções audiovisuais gravadas com atores e cenários reais, em oposição a animações. Suas duas indicações na mesma década marcam a vez que um diretor conseguiu retornar à categoria em mais de 30 anos.

O pai de Bryan Buckley, um ex-reservista do Exército, trabalhou como diretor de arte em uma pequena agência de publicidade regional e mais tarde tornou-se presidente da Escola de Arte da Nova Inglaterra de Boston. Sua mãe trabalhava como executiva de promoção de alto nível na loja de departamentos Jordan Marsh. Seus pais eram ambos ativistas envolvidos nos movimentos contra a guerra e pelos direitos civis da década de 1960. Em 1976, seus pais se separaram e ele retornou a Massachusetts com sua mãe. Em seu último ano do ensino médio, Buckley foi selecionado para o Instituto de Curta Duração na escola preparatória Phillips Andover com uma bolsa integral de arte. Ele foi então admitido no programa de design da Universidade de Syracuse; ele concluiu sua primeira aula em design publicitário lá em 1985, mas nunca se matriculou em uma aula de cinema durante seu tempo na faculdade. Após se formar em Syracuse, Buckley começou como diretor de arte iniciante na Doyle Dane Bernbach. Em 1988, ele cofundou sua própria agência, Buckley/DeCerchio, com seu colega da Chiat/Day, Tom DeCerchio. Seu primeiro cliente foi a conta de 4 milhões de dólares da Godfather`s Pizza. Buckley e DeCerchio então contrataram amigos e cineastas que trabalhariam por baixo custo. Em poucos meses, Buckley e DeCerchio estavam na capa da Adweek.

No primeiro ano de atividade, o trabalho que fizeram para a Godfather`s Pizza foi premiado com um Lápis de Ouro no One Show, uma premiação merceológica de publicidade. A agência viria a fechar contratos com clientes como a Yugo Cars e a Snapple, para quem criaram o famoso slogan: “Feito com os melhores ingredientes da Terra”. Em dezembro de 1993, Buckley e DeCerchio foram capa da seção de negócios do New York Times. No dia seguinte, anunciaram o fechamento da agência. Em 1994, Buckley e seu colaborador Frank Todaro receberam a oportunidade de dirigir alguns comerciais não roteirizados e de baixíssimo orçamento para as transmissões de hóquei da ESPN. Buckley nunca havia estado atrás das câmeras antes, e o trabalho não era remunerado.  Ao longo de seus 25 anos de duração, a campanha contou com aparições de várias estrelas do esporte, incluindo Kobe Bryant, Wayne Gretzky, David Ortiz, LeBron James, Mike Tyson e Michael Phelps. O SportsCenter foi eleito a melhor campanha comercial da década de 1990 pelo The One Club. Em 1997, Buckley cofundou a Hungry Man Productions com Hank Perlman, criador do programa “This is SportsCenter”, e Steve Orent, produtor de longa data. A empresa rapidamente adicionou diretores ao seu elenco, como Jim Jenkins, David Shane, Bennett Miller e Stacy Wall.

O primeiro grande trabalho de Buckley veio em 1999 com seu primeiro comercial para o Super Bowl, um anúncio para o Monster.com chamado “When I Grow Up”. No comercial de 30 segundos, crianças respondiam à pergunta “O que você quer ser quando crescer?” com respostas como “Quero ser um puxa-saco” e “Quero ser forçado a me aposentar cedo”. Inicialmente, o anúncio foi considerado uma decepção, já que os telespectadores deram notas baixas ao comercial no USA Today Ad Meter, uma pesquisa de opinião pública sobre os melhores e piores anúncios do Super Bowl, que se tornou um padrão da indústria para medir a reação do público ao projeto multimilionário. No entanto, o anúncio da Monster.com continuou a ser exibido nos dias seguintes, enquanto a conversa sobre outros comerciais diminuiu, e o site de empregos acabou saindo do ar devido ao aumento da atividade do usuário. A Monster.com relatou um aumento de 1 milhão de visitas ao site por mês durante o restante do período de 1999. Em 2004, a empresa conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes como a melhor produtora de comerciais do mundo globalizado e figurou entre as dez melhores por mais de dez anos consecutivos, sendo a primeira produtora a alcançar tal feito. A Hungry Man possui escritórios em Nova York, Los Angeles, Londres, Rio de Janeiro e São Paulo, e conta com diretores como Taika Waititi, Wayne McClammy e Nanette Burstein.

            A ex-medalhista de bronze de ginástica Hope Ann Greggory (Melissa Rauch) vive de seu status de celebridade em sua cidade natal, Amherst, Ohio, embora ela esteja reduzida a passar pelas entregas de correio do pai carteiro (Gary Cole) para buscar dinheiro. Quando sua ex-treinadora Pavleck (Christine Abrahamsen) tira a própria vida, chega uma carta endereçada a Hope afirmando que, se ela puder orientar a melhor aluna de Pavleck, uma jovem estrela de ginástica chamada Maggie Townsend (Haley Lu Richardson) para as Olimpíadas em Toronto, ela receberá uma herança de US$500.000. Não querendo ser ofuscada pelo sucesso de Maggie, Hope planeja aceitar o dinheiro, sabotando o treinamento de Maggie para que ela possa ficar por cima, inicialmente a alimentando sua junk food e um shake de maconha. Maggie tem um desempenho tão ruim que o arrogante medalhista olímpico de ouro Lance Tucker (Sebastian Stan), que se ressente da celebridade de Hope por causa de sua medalha de bronze inferior (que ela venceu apesar de uma lesão no final da carreira), ameaça assumir o cargo de treinador de Maggie. Quando Hope descobre que perderá o dinheiro da herança se não continuar treinando Maggie, Hope se dedica a contragosto ao treinamento de Maggie. Ao longo do caminho, ela inicia um romance com seu assistente técnico Ben Lawfort (Thomas Middleditch), apelidado de “Twitchy” devido a espasmos faciais involuntários. 

Os esforços de Hope acabam sendo recompensados ​​quando Maggie se qualifica para os Jogos Olímpicos. No entanto, ela fica chocada ao descobrir que a academia da treinadora Pavleck corre o risco de fechar porque Pavleck não tinha dinheiro em seu nome quando morreu. Ao ouvir a notícia, o pai de Hope confessa que foi ele quem escreveu a carta, para motivar Hope a fazer algo significativo com a vida dela. Depois de uma conversa acalorada, Hope fica bêbada e acaba transando com Lance Tucker, levando um Ben de coração partido, que testemunhou o ato, a romper o relacionamento. Maggie ganha a medalha de ouro e é comemorada como uma heroína local em Amherst, mas anuncia sua intenção de começar a treinar com Lance em Los Angeles, em vez de ficar com Hope. Quando Maggie não aparece para dar autógrafos em um shopping center, Hope se dirige à multidão decepcionada e declara que ela sempre será o herói de Amherst. Ela propõe um plano para financiar a academia de Pavleck sozinha, vendendo uniformes e aulas de ginástica para garotas locais. Ela então pede desculpas a Ben e o mantém como seu assistente técnico. No epílogo, uma legenda revela que Maggie foi forçada a abandonar sua carreira em ginástica após engravidar do filho de Lance. Hope continua treinando ginástica, embora nenhuma de suas alunas tenha feito distinção no esporte.

            Escólio: Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma  distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, comparativamente, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos mesmos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos.   

Que os rostos dos atores sociais célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem. Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em close ou com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes, outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação era sobre social e cultural. Nos centros urbanos, os retratos eram cada vez mais visíveis, nas formas de suporte – dos retratos pintados, expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana se tornaram moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos comerciantes. 

Mas a celebridade não se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII. O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes, a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam, a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou no século das Luzes. Quando Kant, em O Que é o Iluminismo?  descreve a Auflarklärung como um processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se aos leitores de jornais.

E foi, em um deles, nomeadamente Berlinische Monatsshcrift, que esse texto famoso apareceu em 1784, no quadro de um debate sobre as questões do casamento religioso. Alguns anos mais tarde, Friedrich Hegel poderá chegar a escrever que a leitura do jornal da manhã tornou-se “a prece do homem moderno”. Entretanto, ao lado dos homens eruditos e políticos que relatam as notícias diplomáticas e políticas, recenseiam as novidades científicas e literárias ou acolhem debates intelectuais, existem, no século XVIII, outros jornais, cada vez mais numerosos, muitos deles mais interessados na atualidade da alta sociedade e na cultural, no sentido amplo. Eles oferecem a seus leitores as notícias dos espetáculos e dos lançamentos literários, dos principais acontecimentos literários e políticos, mas também os faits divers mais notórios e, cada vez mais, anedotas sobre a vida, pública e privada, das pessoas célebres. Por mais que esses periódicos tenham chamado menos a atenção dos historiadores, eles contribuíram de maneira decisiva para moldar a consciência das camadas médias urbanas de que elas constituíram um público. A atualidade era alimentada tanto por faits divers e escândalos quanto por tratados e batalhas. O conjunto dessas transformações marca a entrada em uma nova Era Midiática, que, espirituosamente, um historiador propôs chamar de Print 2.0, para indicar que se trata de uma guinada na história do impresso, de seus usos e de seus efeitos.

A comunicação mediatizada, que difunde textos e imagens para um público indefinido, potencialmente ilimitado, torna-se uma condição ordinária da comunicação e concorre com as formas tradicionais fundadas na oralidade, na co-presença e na reciprocidade. As próprias condições da celebridade são profundamente transformadas por ela: as cadeias da reputação estendem-se, e ser confrontado com o nome ou a imagem de pessoas que jamais se encontrará em carne e osso torna-se cada vez mais frequente. A notoriedade de alguns indivíduos muito conhecidos emancipa-se dos círculos tradicionais em que circulava o reconhecimento (a corte, os salões, os espectadores de teatro, as academias e as redes eruditas) e, projeta no espaço público um conjunto de representações – de discursos e de imagens – destinadas a um público indefinido e anônimo de leitores e de consumidores, de curiosos e de admiradores. Essa circulação potencialmente ilimitada e incontrolável de representações os constitui como figuras públicas. Mas a questão é: onde se viam retratos de pessoas vivas, antes do século XVIII? Nas moedas em que figurava o rosto do soberano; nos palácios, em que os cortesãos podiam admirar os retratos do rei; nos palacetes aristocráticos em que os donos da casa se faziam voluntariamente retratar ao lado a galeria de seus ancestrais.

Tratava-se, antes de tudo, de uma representação extraordinárias das relações de poder, político ou social. O retrato do rei era, um simulacro do poder, e que tinha uma eficácia própria para representar o poder e de ser, de algum modo, o próprio poder, em sua força e em seu prestígio, o mesmo podendo ser dito da força sociopolítica que “emanava” dos retratos aristocráticos. Seria possível objetar que havia, no século XVII, retratos de alguns escritores, como Corneille ou Molière. Inversamente, pode-se lembrar que não existe nenhum retrato, em vida, de Rabelais. O reinado de Luís XIV já marcara uma clara ascensão do retrato, com a criação da Academia de pintura e de escultura, na qual os retratistas eram admitidos, e o sucesso de Pierre Mignard e, depois, de Hyacinthe Rigaud. No entanto, os retratos permaneceriam essencialmente ligados ao universo da corte e da alta nobreza, na qual tinham uma função política e sentimental. Dificilmente deixava-se que fossem copiados. Até o início do século XVIII, a existência de retratos sinalizava o acesso de raras figuras culturais a um estatuto social excepcional, sobretudo no quadro de instituições a acadêmicas. Eles circulavam unicamente em espaços restritos, que todavia, estavam quase sempre integrados nas relações sociais frequentemente em uma relação interpessoal. Possuir o retrato de alguém era uma honra calcada na dignidade do modelo, mas também na exibição de um laço direto, familiar ou de amizade.

Quando Samuel Sorbière, que admirava Thomas Hobbes e muito contribuiu para a difusão de sua obra na Europa, quis obter seu retrato, teve que lhe pedir autorização pessoalmente para mandar copiar um retrato já existente, que pertencia a Thomas de Martel: “Peço-lhe do modo mais sério do mundo, certo de que examinareis com benevolência meu pedido e desconsiderará obrigatoriamente minha ousadia”. Em 1658, escreve-lhe que seu maior prazer é poder falar dele e de sua obra com seus amigos e contemplar “o retrato na minha coleção”. O retrato substitui o amigo ausente, inscreve-se em um regime de familiaridade, de afeição e de admiração. Sua presença honra Sorbière, pois demonstra que ele mantém laços diretos de amizade com o modelo. Em 1661, Hobbes aceita posar no ateliê de Samuel Cooper para seu grande amigo John Aubrey, afim de agradecer-lhe por tê-lo permitido cair nas graças de Charles II.  A clericatura significa na origem o Estado eclesiástico, mas, já no século XV, o clérigo tornou-se a pessoa instruída, o letrado, o sábio e, embora dentro da Igreja, ele se diferencia do padre. Depois, a maior parte do saber moderno escapou à clericatura da Igreja e o termo clérico laicizou-se e profissionalizou-se. À antiga clericatura, sucedeu a intelligentsia, aos clérigos, sucederam os intelectuais. O termo vem-nos da Rússia do século XIX e designa o conjunto de pessoas instruídas, cultivadas, por oposição à massa rural ou urbana que não teve acesso à escola, ou mesmo à escrita.

Mais intensivo que o termo “intelectual”, da teoria geral do italiano Antônio Gramsci especifica as duas esferas de ação social, de divisão do trabalho intelectual na luta política de organização da cultura entre letrado (abstrato) das frações da classe dominante e orgânico (concreto) da classe subalterna, para a análise de Edgar Morin, a intelligentsia engloba não apenas letrados e professores, mas, também, funcionários e burgueses educados, abrangendo, assim, um grande número de categorias sociais. Ela compreende as profissões que produzem ou reproduzem saber (professores, pesquisadores), ideias (filósofos), formas (artistas, arquitetos, designers), ou ainda, cuja qualidade do trabalho profissional depende do manejo das ideias (advogados), do saber (experts) ou da concepção (engenheiros). Edgar Morin define a intelligentsia em função do caráter intelectual/espiritual dos produtos da atividade social de seus membros (saber, ideias, coisas do espírito) e não pela atividade intelectual/espiritual em si mesma, de que são desprovidos muitos membros da intelligentsia, como práticas manuais, como o artesanato, a caça, a pesca, que demandam inteligência constantemente desperta, de que muitos são desprovidos. 

Isto quer dizer o seguinte: que em seu processo social de desenvolvimento a intelligentsia contemporânea engloba categorias muito diferentes. Ela avoluma-se e diversifica-se com o desenvolvimento, em paralelo à intelligentsia humanista, de uma intelligentsia científica e de uma intelligentsia tecnicista. Mais do que isso, os intelectuais são membros da intelligentsia, mas os membros da intelligentsia não são necessariamente intelectuais. Escritores, artistas, advogados, pesquisadores não são, enquanto tais, “intelectuais”. Para que se tornem intelectuais é necessário que, a partir, mas para além da sua arte e da sua ciência, auto-instituam-se como tais, isto é, autorizem-se a tratar dos problemas gerais/fundamentais de importância moralmente, socialmente, politicamente; assumam-se assim general problems setters/solvers. A noção de intelectual explicativa não pode reduzir-se a uma categoria socioprofissional; ao contrário, ela perpassa as categorias: muitos escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados consideram-se e são considerados exclusivamente como escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados; outros, consideram-se e são considerados como intelectuais porque intervêm na vida pública, seja pelo ensaio, pelo artigo de jornal, seja em função de uma tribuna política. Roland Barthes, escritor, crítico literário e filósofo dizia que o escritor (écrivain) escreve para escrever, e que o escritor-intelectual (écrivant) escreve para exprimir propriamente ideias. Os que são écrivains e écrivants são ao mesmo tempo, filósofos, escritores e ensaístas, talvez possam ser considerados os mais representativos dos intelectuais, visto que a atividade social e política de intelectuais em geral, ignoram as categorias especializadas e tratam os problemas ignorados pelas categorias sociais especializadas. 

Bibliografia Geral Consultada.

BAECHLER, Jean, Qu`est-ce que L’Idéologie? Paris: Col. Idées Gallimard, 1976; SAUL, John Ralston, Los Bastardos de Voltaire: La Dictadura de la Razón en Occidente. Barcelona: Editorial Andrés Bello, 1988; MORIN, Edgar, O Método 4 – As Ideias, Habitat, Vida, Costumes, Organização. 4ª edição. Porto Alegre: Editora Sulina, 1998; WEBER, Max, Ensaios de Sociologia. Organização e Introdução de Hans Gerth e Charles Wright Mills. Revisão Técnica de Fenando Henrique Cardoso. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974; Idem, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição revista. São Paulo: Editora Pioneira, 2003; PITTA, Danielle Perin Rocha, Iniciação à Teoria do Imaginário de Gilbert Durand. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2005; GIROLA, Lídia, Anomia e Individualism: Del Diagnóstico de la Modernidad de Durkheim al Pensamiento Contemporáneo. Barcelona: Anthropos Editorial, 2005; ESTABLET, Roger, “A Atualidade de O Suicídio”. In: MASSELLA, Alexandre et al, Durkheim: 150 Anos. Belo Horizonte: Argvmentvm Editora, 2009; ARON, Raymond, L`Opium des Intellectuelles. Paris: Editeur Hachette, 1991; Idem, O Marxismo de Marx. São Paulo: Editor Arx, 2005; COMETTI, Jean-Pierre, Qu`est-ce que le pragmatisme? Paris: Éditions Gallimard, 2010; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; LILTI, Antoine, A Invenção da Celebridade (1750-1850). 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018; OLIVEIRA, Juliana Michelli da Silva, A Vida das Máquinas: O Imaginário dos Autômatos em O Método de Edgar Morin. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; NOVARINA, Gilles, Histoire de l`Urbanisme de la Renaissance à Nos Jours: L`Art et la Raison. Paris: Éditions du Moniteur, 2023; SANTOS NETO, Romeu Villa Flor, Ficcionalidade Religiosa e o Grotesco em A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2023; Artigo: “Alejandro Jodorowsky, 97 anos e a Eterna Busca pela Verdade”. Disponível em: https://www.swissinfo.ch/20/02/2026; entre outros.