domingo, 1 de novembro de 2026

Contagem Regressiva – Cinema, Ressentimento & Aparelho de Estado.

                         “Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou”. Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981)

                      

          O ressentimento pode surgir em diversas situações sociais, afetando a autoestima e gerando um sentimento per se de injustiça ou humilhação. As situações em que o ressentimento surge com mais frequência incluem: 1. incidentes humilhantes em público, como maus-tratos sem possibilidade de retaliação, atos de discriminação ou preconceito, inveja ou ciúme, 2. sentimentos de ser abusado ou ridicularizado por aqueles ao seu redor e a sensação de ter trabalhado arduamente e não ter seus feitos reconhecidos, enquanto outros obtiveram sucesso com menos esforço. O ressentimento também pode surgir. 3. da rejeição social ou interpessoal deliberadamente humilhante, particularmente, ou do sentimento de injustiça gerado por certas contradições in statu nascendi nas sociedades contemporâneas. Ao contrário das emoções básicas, psicologicamente falando, o ressentimento não possui características faciais que permitam sua expressão. No entanto, certos traços físicos, como franzir a testa, podem ser associados a emoções semelhantes ao ressentimento, comparativamente, como ocorrem com a raiva e a inveja. O ressentimento pode ser autodiagnosticado através de sinais como a necessidade de regulação emocional. E ser diagnosticado durante estados emocionais de agitação ou rejeição, como depressão inexplicável, pensamento repetitivo, raiva sem motivo aparente ou pesadelos ou sonhos perturbadores sobre um ou mais indivíduos no ambiente.

          O ressentimento é um dos principais conceitos filosóficos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). A utilidade desse termo provavelmente remonta ao extraordinário pensador dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855). Posteriormente, foi adotado por Max Scheler (1874-1928) em seu livro O Homem do Ressentimento (1933), onde discute as causas individuais do ressentimento que, ao se acumularem, podem criar um ressentimento difuso, porém generalizado, na sociedade. Para Nietzsche, em sua Genealogia da Moral (1887), o ressentimento é uma perversão moral originada no antigo conflito cultural e religioso entre romanos e judeus, dando origem ao ideal ascético. Para Nietzsche, as pessoas ressentidas são uma espécie de seres humanos para quem “a verdadeira reação, a da ação, é proibida e que se compensam apenas por meio de uma vingança imaginária”. Ele, portanto, vincula o ressentimento ao que chama de “moralidade escrava”, que é essencialmente constituída pelo ressentimento, por uma força não criativa. Assim, uma pessoa ressentida é profundamente reativa, ou seja, encontra-se em um estado de impotência que gera frustração. Qualquer pessoa, seja quem for, que seja proibida de agir e, consequentemente, se veja impotente, é afetada pelo ressentimento: ou seja, só lhe resta suportar a impossibilidade de se expressar.

A força reside em superar esse estado imaginário que então se torna apenas uma fase passageira, assim como quando se supera o desejo de vingança. A fraqueza, ao contrário, reside na incapacidade de se livrar dela, por exemplo, quando o desejo de vingança se torna uma obsessão, ou quando o arrependimento por um ato pragmático se torna uma tortura moral que “não deixa paz de espírito”, e o indivíduo então transforma suas frustrações em vantagem, encontrando justificativas para sua impotência através da negação e da inversão de valores. Esse desejo de encontrar justificativas caracteriza precisamente a mentalidade de “escravo”, segundo Nietzsche. Tal mentalidade ressentida é encontrada em ideologias que se definem em relação a um inimigo real ou imaginário: o inimigo (a causa da impotência) é julgado como a causa do sofrimento suportado; e, inversamente, aquele que o sofre atribui a si mesmo uma imaginária superioridade moral. O conceito de ressentimento foi discutido, notadamente, por Gilles Deleuze em Nietzsche e a Filosofia (1962) a partir da perspectiva de renovação afirmativa e antidialética própria da filosofia. Após a hegemonia das doutrinas pós-hegelianas, propõe uma filosofia não mais centrada na ideia intrínseca subjetivista de superação dialética e na atividade crítica, mas na valorização do ativo sobre o reativo sendo a crítica e a dialética assimiladas ao reativo e à negatividade sensível humana.                      

Vale lembrar que Gilles Deleuze (1925-1995) foi um pensador que nos diz muito acerca dessas questões. Sua filosofia se baseia em um “conflito amplo”, um confronto entre dois modos de pensar as subjetividades culturais. De um lado, quando infere na filosofia da representação, o primado à identidade, do outro, quando analisa a filosofia da diferença, reduzindo a diferença enquanto tal. Deleuze se propõe a pensar a relação do diferente com o diferente, sem submetê-lo a nenhuma forma de representação que o reconduza ao mesmo. Neste sentido oferece a alternativa na interpretação da linguagem entre o poeta e o político muito próximo da “jogada” fenomenológica de Michel de Certeau (1925-1986). O primeiro tem um poder criador, que afirma a diferença e perverte as ordens, num estado de revolução permanente. O segundo nega a diferença, pois quer conservar uma ordem reconhecidamente estabelecida, ou estabelecer o reconhecimento de um mundo que solicite as formas de sua representação. Queremos dizer com isso que a referência à “linguagem comum”, segundo a ênfase do filósofo austríaco, naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e dos filósofos de Oxford, concentra-se nos conceitos “tal como forjados pelos falantes da língua em situações concretas de uso das palavras”. Certeau acaba, afirmando que por essas características a obra disseminada e rigorosa parece oferecer uma épura filosófica a uma ciência do ordinário. Sem entrar nos pormenores, deve-se confrontar este método, tomado como hipótese no campo da comunicação, do poder e da linguagem, com as contribuições das ciências humanas com a redução paradigmática ao conhecimento da cultura ordinária. 

Contagem Regressiva (Blown Away) tem como representação social um filme de ação e suspense norte-americano de 1994 dirigido por Stephen Hopkins e estrelado por Jeff Bridges, Tommy Lee Jones, Forest Whitaker, Suzy Amis e Lloyd Bridges. Stephen Hopkins, nascido em 1° de novembro de 1958 na Jamaica, é um diretor britânico- australiano. Hopkins passou a juventude no Reino Unido e na Austrália, onde dirigiu vários programas, incluindo Rasputin. Ele começou sua carreira de diretor com uma série de videoclipes e comerciais premiados, exibidos em diversos eventos importantes. O filme acompanha um membro do esquadrão antibombas de Boston, Estados Unidos da América, em perseguição a um terrorista irlandês que escapou recentemente da prisão e está mirando os outros membros do esquadrão. O filme foi distribuído e financiado pela Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), um estúdio que enfrentava dificuldades financeiras em seu tempo. O chefe do estúdio era o ex-executivo da Paramount, Frank G. Mancuso Jr., um ex-executivo de estúdio de cinema norte-americano. Mancuso foi presidente e Chief Executive Officer (CEO) da Paramount Pictures entre 1984 e 1991, e da Metro-Goldwyn-Mayer entre 1993 e 1999, quando se aposentou. Mancuso começou com o trabalho de lanterninha em teatro em Buffalo, Nova York e eventualmente dirigiu a programação dos 50 teatros da empresa. Mancuso ingressou na Paramount Pictures em 1962, agendando filmes a partir do escritório de Buffalo. Ele galgou posições na divisão de vendas até se tornar vice-presidente de distribuição nacional em março de 1977. Tornou-se vice-presidente sênior em agosto de 1978. Em abril de 1979,  a vice-presidente executivo de distribuição e marketing, assumindo as responsabilidades de marketing. Em agosto de 1980, tornou-se presidente da nova divisão de Distribuição da Paramount, que também passou a ser responsável pela aquisição de filmes para distribuição.

          Depois de dirigir a segunda unidade de Highlander (1986), dirigiu seu primeiro longa-metragem, o thriller australiano Dangerous Game (1987). Em seguida, alcançou seu primeiro sucesso internacional com o filme de terror A Hora do Pesadelo 3: O Filho dos Sonhos (1989), o quinto filme da saga Freddy Krueger. Ele também dirigiu três episódios da série de fantasia Tales from the Crypt (1989) e, posteriormente, dirigiu Danny Glover enfrentando a criatura predadora em Predador 2, em 1990. Na década de 1990, Stephen Hopkins dirigiu diversas produções de Hollywood que combinavam suspense e ação: Judgment Night (1993), com Emilio Estevez; o explosivo Blown Away (1994), estrelado por Jeff Bridges e Tommy Lee Jones; The Ghost and the Darkness (1996), com Michael Douglas e Val Kilmer como caçadores de leões; e Lost in Space (1998), a adaptação da famosa série. Dois anos depois, ele se aventurou na difícil tarefa de um remake, entregando sua própria versão de The Suspicion (2000). Após uma pausa na carreira cinematográfica para participar da futura série de sucesso 24 Horas em 2001, da qual foi coprodutor executivo e diretor do episódio piloto, bem como dos episódios da primeira temporada, Stephen Hopkins retornou com força às telonas, mudando radicalmente seu estilo e apresentando Eu, Peter Sellers (205) na competição oficial do Festival de Cannes de 2004, uma evocação da vida do famoso ator britânico. Quinze anos depois, Hopkins reuniu-se com a equipe de 24 para dirigir o episódio piloto da série derivada 24: Legacy no início de 2016, enquanto atuava como produtor executivo da próxima temporada; ele dirigiu o episódio final no início do ano seguinte, coincidindo com o início da transmissão da série derivada.

        Escólio: Ryan Gaerity, especialista em fabricação de bombas do Exército Republicano Irlandês (IRA), escapa de sua cela na prisão de Castle Gleigh, na Irlanda do Norte, após transformar “um vaso sanitário em uma bomba, matando um guarda e seu companheiro de cela”. Um ano e dois meses depois, em Boston, o tenente Jimmy Dove é um veterano do esquadrão antibombas da polícia, prestes a se aposentar e ajudando a treinar os recrutas mais novos. Dove esconde que, na verdade, é Liam McGivney, um ex-membro de uma célula terrorista da Irlanda do Norte. Ele era amigo de Gaerity, mas quando Gaerity tentou detonar uma bomba que mataria vários civis, ele interveio, resultando na morte da maioria dos membros da célula e de sua namorada (irmã de Gaerity), além da prisão de Gaerity. Devastado, McGivney se mudou para Boston e assumiu uma nova identidade, na esperança de se redimir salvando vidas ao desarmar bombas. Apenas o tio materno de Dove, o policial aposentado de Boston Max O`Bannon, sabe de seu passado e o incentiva a se aposentar mais cedo, por acreditar que ele já cumpriu sua penitência. Gaerity vê Dove na televisão e vai para Boston. Ele arranja provisoriamente um emprego de zelador na delegacia de polícia para aprender mais sobre a vida de Dove e paralelamente de seus colegas no processo de trabalho e se instala em um curioso navio-cassino abandonado no porto de Boston.           

            O Porto de Boston foi historicamente importante para o crescimento da cidade de Boston e estava originalmente localizado no que hoje é a área central da cidade, chamada Long Wharf. O aterro e a conversão para outros usos significam que a área central não lida mais com tráfego comercial, embora ainda haja um uso considerável de balsas e lazer em Long Wharf. As principais instalações de movimentação de carga estão localizadas nos bairros de Charlestown, East Boston e South Boston, em Boston, e na cidade vizinha de Everett. O Porto de Boston também tem sido um ponto de entrada para muitos imigrantes. A Autoridade Portuária de Massachusetts (Massport) foi criada em 1956 por um ato especial da Assembleia Geral de Massachusetts; no entanto, a Autoridade só foi ativada em 1959, devido a atrasos no financiamento por meio de títulos. A Autoridade é uma entidade pública independente sob a lei estadual, não sendo uma agência estatal vinculada ao gabinete. O Secretário de Transportes e Obras Públicas de Massachusetts atua como membro ex-officio do conselho e os seis membros restantes são nomeados pelo governador para mandatos escalonados de sete anos. Os membros do Conselho devem ser residentes de Massachusetts. O Departamento de Segurança Interna também está presente com agentes da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos. O porto possui três áreas de atividade: carga, cruzeiros e serviço de balsas. Antes da colonização das Américas, a área servia como entreposto comercial para os nativos da região. Após a fundação do assentamento de Boston por John Winthrop em 1630 e a criação de uma indústria naval local, o porto serviu às colônias americanas em rápida expansão.

Naquela época, o comércio envolvia produtos manufaturados da Inglaterra em troca de madeira, embarcações totalmente construídas, rum e peixe salgado. Com o rápido crescimento das colônias do Atlântico Médio na década de 1750, os portos de Nova York e Filadélfia, Pensilvânia, começaram a superar Boston no comércio intercolonial. Em resposta, os comerciantes de Boston estabeleceram relações comerciais com nações estrangeiras além da Grã-Bretanha. Esse comércio levou a um enorme aumento na riqueza dos comerciantes locais de Massachusetts. No entanto, a imposição de regulamentações pelo governo britânico restringindo o comércio com a Grã-Bretanha, combinada com os novos impostos sobre os colonos, fez com que os comerciantes de Boston se juntassem aos elementos mais radicais da sociedade americana. Após a Festa do Chá de Boston, o Parlamento Britânico aprovou a Lei do Porto de Boston, que fechou o porto até que a Companhia das Índias Orientais fosse indenizada pelo chá danificado. Essas ações levaram à Guerra da Independência Americana. Embora devastado economicamente pela guerra, o Porto de Boston voltou a prosperar com o comércio com diversos portos estrangeiros, como Xangai. A prosperidade do porto aumentou ainda mais com a instalação de uma base naval em Charlestown. Em meados do século XIX, a indústria naval atingiu seu auge, demonstrado pelos navios clipper desenvolvidos por Donald McKay. O porto testemunhou muitos projetos de aterro e a construção de novos cais.

Com o início da Revolução Industrial nos Estados Unidos, a atividade portuária voltou-se para o comércio interestadual. A partir de meados do século XIX, o Porto de Boston foi novamente ofuscado por outros portos da costa leste, como o Porto de Nova Iorque, à medida que as empresas mercantis locais foram adquiridas por empresários nova-iorquinos. Em 1956, o controle do porto foi transferido para a Autoridade Portuária de Massachusetts (Massport), que iniciou o processo de modernização. Durante as décadas de 1980 e 1990, um projeto dedicado à limpeza do Porto de Boston foi supervisionado pela Autoridade de Recursos Hídricos de Massachusetts (MWRA). Em 1966, a Sea-Land introduziu o transporte de contêineres e, posteriormente, estabeleceu um dos primeiros portos de contêineres na Ilha Castle, onde hoje se encontra o Terminal Conley. Para atender à crescente demanda por transporte de contêineres, a Massport construiu um porto de contêineres de uso comum no que é o Terminal Moran. No entanto, o porto enfrentou um revés com o fechamento do Estaleiro Naval de Charlestown em 1974. Em meados da década de 1990, o porto passou por mais uma rodada de modernização. As operações de transporte de contêineres foram consolidadas no Terminal Conley, enquanto o Terminal Moran passou a ser dedicado ao transporte de automóveis.

 Um projeto de dragagem do porto teve início em 1997. Através do Projeto Central Artery/Tunnel (Big Dig), o acesso terrestre às instalações de South Boston foi aprimorado com a extensão da I-90 e a construção do Túnel Ted Williams, que liga South Boston a East Boston e ao Aeroporto Internacional Logan. O porto também testemunhou um crescimento expressivo da indústria de cruzeiros, bem como a expansão de empreendimentos comerciais e residenciais na orla de Boston. Com a conclusão do projeto de expansão do Canal do Panamá, que permitiu a entrada de navios maiores a partir de 2016, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos iniciara, em 2017, a dragagem das vias de acesso ao porto, aumentando sua profundidade de 40 para 47 e depois para 51 pés. Isso permitirá a passagem de navios porta-contêineres com capacidade para até 12.000 TEUs, em vez dos 7.000 TEUs anteriores, e reduzirá a quantidade de carga que se espera ser enviada para o Porto de Nova York e Nova Jersey e transportada por caminhão para Massachusetts. O projeto tem um custo estimado de US$ 310 milhões e é financiado pela Lei Federal de Reforma e Desenvolvimento de Recursos Hídricos (cerca de dois terços), pela Massport e por uma verba adicional do Estado de Massachusetts. Novos guindastes para contêineres, capazes de suportar navios maiores, foram instalados em 2021. O primeiro navio porta-contêineres da classe de 12.000 TEUs, o Ever Fortune, chegou a Conley em 16 de janeiro de 2022.

Na trama cinematográfica, do porto Gaerity fabrica bombas projetadas para matar o resto da equipe antibombas: a primeira vítima, Blanket, é morta por uma bomba colocada sob uma ponte na noite do casamento de Dove com sua noiva, Kate. Mais tarde, no local de uma falsa ameaça de bomba, os técnicos Rita e Cortez são mortos por um explosivo escondido em seu robô de desativação de bombas. Dove recebe uma ligação de Gaerity e percebe que Kate e sua enteada, Elizabeth, estão em perigo. Ele corre para casa e não encontra nenhuma bomba, mas seu cachorro, Boomer, foi morto. Ele explica seu passado para Kate e a convence, junto com Elizabeth, a se esconderem na casa de praia de Max. A terceira bomba de Gaerity quase mata o técnico novato Anthony Franklin, que havia ligado a vida anterior de Dove à de Gaerity, mas Dove o resgata, e Franklin promete ajudá-la. Max decide deter Gaerity, obtendo a localização dele através de um contato irlandês. Ele tenta se aproximar de Gaerity em um bar irlandês, mas acaba capturado e algemado a uma bomba improvisada. Dove rastreia Max e vai recuperar suas ferramentas, mas Max, percebendo que Gaerity estava por perto e havia criado a bomba para matar os dois, a aciona enquanto Dove está ausente, sacrificando-se. 

Ao analisar os destroços da bomba, encontra bola de roleta que aponta para o navio abandonado e encontra Gaerity que revela que instalou outra bomba no carro de Kate e a ativa por meio de um sinal de rádio, acionando em seguida um mecanismo complexo para detonar os explosivos que destruirão o navio. Dove enfrenta Gaerity em uma luta corpo a corpo por todo o navio. Dove leva a melhor e se algema a Gaerity, impedindo-o de escapar, preparando-se para morrer a fim de manter seu segredo e evitar mais mortes. Dove é salva por Franklin no último segundo, e os dois escapam antes que a nave exploda, matando Gaerity. Os dois voltam correndo onde Kate está tocando violino na celebração ao ar livre do 4 de julho com a Orquestra Sinfônica de Boston, na esperança de impedi-la antes que ligue o carro. Eles chegam tarde demais, mas alcançam Kate, e Dove pula para dentro do carro dela. Ele encontra a bomba complexa e tecnicamente a desativa a tempo. Enquanto se recuperam, Franklin diz a Dove que sabe sua identidade anterior, mas que manterá segredo se puder levar o crédito por derrubar Gaerity; Dove concorda e entrega seu pager para Franklin antes de partir com Kate e Lizzie. Stephen Hopkins, que concordou em fazer o filme depois de terminar Judgment Night, disse ao seu agente: “Não quero fazer um filme sobre um esquadrão antibombas! Mas ele insistiu, o que raramente faz, então eu li e achei ótimo. Quarenta e oito horas depois, o acordo estava fechado, pronto”. – “Eu diria que o filme é, espero, mais um filme de suspense, o que é mais interessante para mim do que aquele tipo de filme onde vemos um monte de explosões”, disse Hopkins.

Fui atraído porque havia um monte de personagens ótimos que obviamente atrairiam ótimos atores para interpretá-los. E também a parte do suspense; há muitos tipos diferentes de suspense no filme. Há algumas cenas de suspense divertidas e algumas cenas emocionalmente muito intensas”. - Você pode transformar a violência em uma situação fantasiosa ou pode tentar torná-la relacionável, disse Hopkins. “Se você a reduzir a termos o mais realistas possível dentro das circunstâncias, então, para mim, ela se torna mais interessante do que estar lá com tipos super-humanos grandiosos em situações glamorosas e sofisticadas. Há algumas coisas politicamente incorretas neste filme que eu gosto e que geralmente não são permitidas nesse tipo de filme. O herói cometeu erros, mentiu para a esposa, mente para os amigos durante o filme, sente-se culpado e age de forma irresponsável, desiste. Normalmente, acho que agora todos têm que ser perfeitos”. Hopkins diz que a escalação de Bridges “abre um leque enorme de atores que realmente querem trabalhar com ele”. Eu estava procurando um filme de ação, disse Jeff Bridges. “Então li muitos roteiros, procurando um que transcendesse o gênero. Eu queria algo que tivesse um pouco mais de profundidade — que tivesse personagens e relacionamentos genuínos. O que me atraiu neste roteiro foi que você se importava com as pessoas”.

Richard Harris iria interpretar o mentor de Bridges. No entanto, o papel acabou sendo interpretado pelo pai de Bridges, Lloyd. Os produtores fizeram Lloyd Bridges fazer um teste porque associavam o ator a comédias. Cuba Gooding Jr. foi originalmente cotado para um dos papéis principais, mas acabou sendo escalado para um papel menor. Outro ator estreante no gênero foi Forest Whitaker, que queria interpretar “um personagem que pudesse entrar em uma sala e dizer: Eu sou o melhor. Fique por perto e talvez você aprenda algo comigo”. As filmagens estavam programadas para começar em 24 de agosto de 1993 em Massachusetts. Na época, era o filme de maior orçamento já realizado no estado. O Esquadrão Antibombas de Boston atuou como consultor. Hopkins usou microfotografia e efeitos sonoros digitais expandidos para entrar de cabeça nas bombas. “Achei que era uma ótima maneira de usar som e imagens”, disse ele. – “Você pode aumentar a resposta visceral à cena. Você pode de repente cortar para esta grande bola de gude pendurada ali e ouvi-la Whooosh! por toda parte. Você é capaz de mudar o mundo, de entrar e realmente ver o que está acontecendo”. A filmagem da explosão climática do navio causou ondas de choque tão poderosas que 8.000 janelas foram quebradas na área de East Boston. Paul Hill, um dos quatro de Guildford que foram presos injustamente no Reino Unido, ajudou os cineastas com informações de contexto. A MGM fez grande campanha para o filme, gastando 7 milhões de dólares em anúncios de televisão.

Bibliografia Geral Consultada.

STEPHEN, Klain, “Presidência da Paramount Distribuidora para Mancuso; Aquisições São Parte Integrante”. In: Variety, 13 de agosto de 1980; HARMETZ, Aljean, “Um Magnata se Recusa a Fracassar”. In: The New York Times, 15 de setembro de 1987; LACAN, Jacques, “La Agresividad en Psicoanálisis”. In: Lacan, Jacques. Escritos. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, Vol. I, 1994; JOHNSON, Tracy, “Estado Conquista seu Maior Filme até Hoje: Hollywood vem a Boston Para Fazer Sucesso de Bilheteria sobre o Esquadrão Antibombas”. In: Boston Globe, 4 de agosto de 1993; LÖWY, Michael, La Théorie de la Révolution Chez Jeune Marx. 2. ed. Paris: Éditions Sociales, 1997; MACHADO, Roberto, Nietzsche e a Verdade. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999; BOBBIO, Norberto, Ni con Marx Ni contra Marx. 1ª edición. Espanha: Fondo de Cultura, 1999; ARON, Raymond, Le Marxisme de Marx. Paris: Le Livre de Poche, 2004; OLIVA NETO, João Angelo, Falo no Jardim: Priapéia Grega, Priapéia Latina. Campinas: Editora Universidade de Campinas, 2006; TOURAINE, Alain, El Mundo de las Mujeres. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007; EPSTEIN, Edward Jay, O Grande Filme: Dinheiro e Poder em Hollywood. São Paulo: Summus Editora, 2008; COTRIM, Ivan, Karl Marx: A Determinação Ontogenética Originária do Valor. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica do São Paulo, 2008; ALVARENGA JUNNIOR NETO, Francisco, A Incorporação do Ceticismo por Nietzsche. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Belo Horizonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, 2020; KEHL, Maria Rita, Deslocamentos do Feminino. A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2008; MANZANO, Sofia Pádua, Desigualdade e Ideologia: A Nova Missa em Latim. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; LUEDY OLIVEIRA, Laura Sant`Anna, Para a Crítica das Ciências Naturais: Marx e o Projeto Engelsiano da Dialética da Natureza. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2024; Artigo: “Bilheteria dos EUA em Maio Supera US$ 1 Bilhão Pela Primeira Vez Sem Um Filme da Marvel”. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-life/2026/06/07; entre outros.

sábado, 10 de outubro de 2026

A Filha Pródiga – Cultura, Romance Político & Revelações em Segredo.

 “A metrópole é a sede desta cultura, que eliminou todas as características da pessoa”. Georg Simmel (1858-1918)                                   

       O conservadorismo representa um freio às ambições prometeicas do movimento revolucionário e, mais genericamente, sem exceção dos governantes. É britânico deriva largamente de Edmund Burke (1729-1797) e principalmente da sua obra Reflexões sobre a Revolução na França (1790), onde este defende que as Constituições não devem ser o produto da razão abstrata (como as francesas), mas sim de uma lenta evolução histórica (como a Constituição inglesa), considerando a sociedade como sendo não apenas um contrato entre os vivos, “mas entre os vivos, os mortos e os que estão por nascer”. Contra a Liberdade Proclamada pela Revolução como um Absoluto, Burke faz a defesa das liberdades, das prerrogativas particulares e tradicionais dos diversos grupos sociais e locais, que se equilibravam mutuamente na ordem pré-revolucionária. Ao contrário de Burke, outros parlamentares whigs, como Charles James Fox (1749-1806), tomaram o partido da Revolução Francesa, acabando as ideias das Reflexões por serem mais aceites entre os Tories. Durante o século XIX, o conservadorismo britânico, inspirado por pensadores conspícuos como Samuel Coleridge (1772-1834), Thomas Carlyle (1795-1881), Henry Maine (1822-1888), etc. desenvolve-se partido político de representação da aristocracia tradicional, em volta de temas como a desconfiança em face da democracia, a defesa da Câmara dos Lordes e uma certa nostalgia pela Inglaterra pré-industrial.

          Um juízo de valor representa um juízo sobre a correção ou incorreção de algo, ou da utilidade de algo, baseado num ponto de vista pessoal ou subjetivo. Como generalização, um juízo de valor pode referir-se a um julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema de valores determinado. Um significado conexo de juízo de valor é o juízo de um recurso de avaliação baseado nas informações limitadas disponíveis, uma avaliação efetuada per se porque uma decisão deve ser tomada independentemente de estar em função da utilidade, da estética, da moral, ou de qualquer outro critério valorativo. A expressão juízo de valor pode ser usada num sentido positivo; significando que um julgamento deve ser feito levando em conta um sistema de valores, ou, num sentido depreciativo, significando um julgamento realizado de um ponto de vista pessoal, em vez da proposição de um pensamento racional, objetivo. A recomendação ao se fazer um juízo de valor, é que se considere cuidadosamente para evitar arbitrariedades e impetuosidade, e buscar consonância com as convicções mais profundas que se tenha sobre a realidade. Em seu sentido depreciativo, a expressão juízo de valor implica uma conclusão que é isolada, parcial e não objetiva — contrastando com julgamentos baseados em deliberação, equilíbrio e racionalidade. 

Um juízo de valor também pode referir-se historicamente a uma tentativa de julgamento baseada numa avaliação estudada das informações disponíveis, tomadas como sendo incompletas e em evolução; por exemplo, um juízo de valor sobre lançar ou não um ataque militar ou como proceder numa emergência médica. Neste caso, a qualidade do julgamento sofre porque a informação técnica e social disponível é incompleta como resultado da urgência, em vez de ser resultante de limitações culturais ou pessoais. Mais comumente, a expressão juízo de valor refere-se a uma opinião individual. De fato, socialmente a opinião de um indivíduo é formada até certo ponto por seu sistema de crenças e a cultura à qual ele pertença. Assim, uma extensão natural da expressão juízo de valor é incluir declarações que parecem ser de mão única em um determinado sistema de valores, mas que podem ser vistas de forma diferente em outro. Conceitualmente, esta extensão da definição relaciona-se tanto ao axioma antropológico de “relativismo cultural”, isto é, que o sentido cultural deriva do contexto quanto à expressão “relativismo moral”; as proposições de moral e ética não são verdades universais, mas brotam do contexto cultural.  

No sentido pejorativo, um juízo de valor formado dentro de um sistema social de valores específico pode ser “paroquial” e estar sujeito a questionamentos junto a audiências mais amplas. Entretanto, um julgamento pessoal é uma expressão descrevendo uma decisão tomada entre alternativas que não são claramente certas ou erradas, e que assim deve ser tomada numa base pessoal. Valor neutro é um adjetivo conexo que sugere independência de um sistema de valores. Por exemplo, a classificação de um objeto depende do contexto: ele é uma ferramenta ou uma arma, um artefato ou um antecedente? O objeto em si pode ser considerado aparentemente de valor neutro, não sendo nem bom nem mau, nem útil nem inútil, nem significativo nem trivial, até que seja colocado em algum contexto inscrito nos níveis de análise social, tanto quanto econômico ou político. Para uma discussão sobre o valor “neutro” da tecnologia, estranhamente, um item também pode ter um valor que pode ser neutro na medida em que sua utilidade se uso social, ou importância são evidentes, independentemente do contexto social; por exemplo, oxigênio. Diversos autores argumentam hic et nunc que a objetividade verdadeira do conhecimento científico é impossível, e que mesmo as mais rigorosas análises racionais se fundamentam no conjunto dos valores aceitos relativamente no curso da análise. Todas as conclusões são necessariamente juízos de valor e logo, talvez suspeitas. 

De fato, por todas as conclusões numa única categoria nada faz para distinguir entre elas e é, portanto, um descritor inútil exceto como um dispositivo retórico pensado para desacreditar uma posição através dum apelo a autoridade. Como exemplo de um ponto de vista mais sutil, “verdades” científicas são consideradas objetivas, mas são mantidas empiricamente, com a compreensão de que evidências mais cuidadosas e/ou experiências mais amplas possam mudar os fatos. Além disso, uma opinião científica, no sentido de uma conclusão baseada num sistema de valores, é um juízo de valor baseado em avaliação rigorosa e amplo consenso. Com este exemplo em mente, caracterizar uma opinião como um juízo de valor é vago sem a descrição do contexto que a cerca. Todavia, como notado no primeiro segmento deste artigo, no uso comum, a expressão juízo de valor possui um significado mais simples, com o contexto simplesmente implicado, não especificado. No entanto, sob a liderança de Benjamin Disraeli (1804-1881) moderniza-se, adotando os princípios democráticos e passando a ter como escopo político a defesa do Império como grande bandeira, contra a desconfiança dos liberais perante a expansão colonial. Disraeli, que concedeu o direito de voto aos operários, tentou dar um carácter ao conservadorismo e torná-lo aliança entre a aristocracia e as chamadas classes populares. Ele teve papel central na criação do Partido Conservador moderno, definindo suas políticas e ampla divulgação.

Nas primeiras décadas do século XX, os conservadores têm como referência esses princípios - defesa da unidade do Império, oposição à autonomia irlandesa que levou muitos liberais unionistas, como Joseph Chamberlain (1836-1914), a se juntarem ao Partido, uma política comercial protecionista favorecendo o comércio com as colônias, etc., a que se junta uma posição antissocialista, à medida que o Partido Trabalhista e o movimento sindical vão ganhando força no âmbito da política global. Para os conservadores, as melhores instituições sociais e políticas não são aquelas que são inventadas pela razão humana, como fora defendido pelo chamado racionalismo político, mas sim as que resultam de um lento processo de crescimento e evolução ao longo do tempo, empiricamente como a não escrita constituição inglesa face às Constituições promulgadas pelos revolucionários franceses. Não acreditando na ideia de “bondade natural do Homem”, os conservadores consideram que são os constrangimentos introduzidos pelos hábitos e tradições que permitem o funcionamento das sociedades, pelo que qualquer regime duradouro e estável só poderá funcionar se assente nas tradições sociais. Para os conservadores não faz sentido elaborar projetos universais do ponto de vista de uma sociedade ideal - não só tal sociedade será inatingível devido ao que acreditem ser a imperfeição intrínseca da natureza humana. Mas, devido a diferentes povos terem diferentes histórias, sociais, políticas e de costumes referendando suas tradições, o modelo social mais adequado a um povo não será o mais apropriado a outro - criticando de seu ponto de vista político conservador os revolucionários franceses.

Após sua morte, em 1990, surge no cenário acadêmico norte-americano e britânico uma série de importantes trabalhos acadêmicos buscando resgatar o pensamento de Michael Oakeshott. Um fato considerável é a organização e publicação de inúmeros manuscritos, ensaios e anotações de aulas proferidas na London School of Economics and Political Science, ou simplesmente London School of Economics. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objeto a análise de uma dessas obras póstumas, o livro: The Politics of Faith and The Politics of Scepticism. Elaborado após a 2ª guerra mundial (1939-1945) e completada provavelmente em 1952, a obra delineia uma diferenciação entre dois modos ou estilos da atividade de governar: a política de fé e a política de ceticismo.  Neste sentido, a política não conhece nada acerca de necessidades genuínas. Não há nada na política que não provenha da atividade humana, embora haja muita coisa que não seja consequência do desígnio humano. Ao estudar as atividades políticas do governo, considera que as ações concretizadas se tornam distintas em análise comparada, tendo em vista que não é porque a intenção é diferente, mas porque elas pertencem a outro contexto no qual tem-se estas atividades.

Na esfera do pensamento político deste autor existem sempre dois ingredientes fundamentais no conhecimento que são erspectivasmednte o ato de informar e o julgar, portanto, o legado que os professores ensinam é sempre composto por uma síntese destes dois fatores regulados. Informação e julgamento são dois modos de comunicação e não constituem partes separadas pertencentes a processos diferentes. De acordo com Oakeshott, estes dois ingredientes do processo de compreensão e apropriação do conhecimento “emergem da dialética ensinar e aprender”. Há faculdades que dependem da informação e faculdades que dependem do julgamento. A informação é impessoal, baseada em fatos e pode ser encontrada em manuais e dicionários e enciclopédias; constitui-se como “peça informativa” ou como “conjunto de fatos”. Poderíamos resumir dizendo que a informação é o “o quê” e o julgamento ou juízo é o “como ou o porquê”. A principal diferença entre o julgamento e a informação adquirida reside neste fato: “o juízo é uma informação de outro tipo e nunca pode ser itemizada”. Assim, todo o ensino e, consequentemente, toda a aprendizagem têm estas duas componentes essenciais, a componente da informação designada como instrução e a componente do juízo designada como partilha.

Na busca por compreender esse contexto político é que surge o livro: The Politics of Faith and the Politics of Scepticism (1996). O argumento principal da obra é que os governos europeus, desde o século XV, convivem com diferentes modos ou estilos de política, os quais ele denominou (I) “políticas de fé” (“politics of Faith”) e (II) “políticas de ceticismo” (“politics of scepticism”). Tais formas são expressões que resultam de dois polos extremos nos quais é empreendida a atividade de governar. Enquanto extremos, são construções ideais. Dificilmente encontradas em sua forma pura, aproximando-se da idealidade típica do constructo weberiano, constituem-se mais em tendências do que em “teorias” ou doutrinas propriamente ditas. A política de fé é o modo de representação de um estilo de governar caracterizado pela incessante busca pela perfeição da humanidade. Conforme Oakeshott há um grande otimismo cósmico que, derivado não da observação, mas da inferência da perfeição do seu criador, atribui uma indiscutível perfeição do universo. Essa ideia de “perfeição” (ou “salvação”) consiste na busca de uma visão compreensiva de bem seja religiosa, econômica, filosófica, moral, etc. a ser alcançada pela vivência no mundo social e político. Porém não como uma tipologia social do caráter humano, mas no sentido de Maquiavel, como uma condição mundana das circunstâncias humanas.       

De modo mais simples, “perfeição” é mudança para melhor, pode significar tanto o caminho específico a ser aprimorado quanto a direção geral pela qual deve a atividade deve ser guiada, assim pouco importando o caminho. Foi porque Maquiavel (1469-1527) percebeu que qualquer conselho positivo para lidar com problemas políticos era suscetível de ser contrariado por uma alusão pessimista à fortuna, que ele resolveu dedicar a esse tema o penúltimo capítulo de Il Principe, livro escrito por Maquiavel em 10 de dezembro de 1513, cuja 1ª edição foi publicada postumamente, em 1532. Ele próprio aceitou que a “Fortuna” era o árbitro de metade das ações dos homens, mas sublinhou que isso não deveria levar ao derrotismo. Em duas memoráveis imagens, comparou a fortuna a um rio cujas águas caudalosas podem ser inofensivamente desviadas por diques e canais de drenagem precavidos, e a uma mulher que, sendo mulher, pode ser domada pelo ardor e a violência: “sou de parecer de que é melhor ser ousado do que prudente, pois a fortuna (oportunidade) é mulher e, para conservá-la submissa, é necessário (…) contrariá-la. Vê-se, que prefere, não raramente, deixar-se vender pelos ousados do que pelos que agem friamente. Por isso é sempre amiga dos jovens, visto terem eles menos respeito e mais ferocidade e subjugarem-na com mais audácia” (cf. Portantiero, 2000).

O agente responsável para assegurar a perfeição é o Estado.  Se utópico ou se visa a aprimorar a sociedade em apenas em um determinado rumo, tal estilo sustenta que somente o poder humano pode atingi-lo; destarte, não apenas busca, mas supervaloriza este poder, deixando a cargo do governo uma competência quase ilimitada para conduzir a sociedade. Consequentemente, o estilo requer uma dupla confiança: a convicção de que o poder necessário é disponível ou pode ser gerado e uma convicção que, mesmo que não se saiba exatamente o que constitui a perfeição, ao menos se sabe o caminho a ser percorrido. Parece claro que o papel do Estado, não é neutro e assume uma visão substantiva, em vista da reprodução da esfera política da atividade humana. Assim, torna-se o instrumento para alcançar a verdade, concebida a partir de uma visão particular do conservador, exige dos cidadãos não apenas a obediência ou a submissão, mas principalmente entusiasmo e engajamento para a concretização desta finalidade. - “Os inimigos do regime serão identificados não como meros dissidentes a serem inibidos, mas como descrentes a serem convertidos. Mera obediência não é suficiente; deve ser acompanhada pelo fervor. Na verdade, se o sujeito não é entusiasta com o governo, não há nenhum objeto legítimo de devoção; se ele é devotado à “perfeição”, ele deve ser devotado ao governo”. Daí a analogia do conceito descrito na obra: “On Human Conduct”, a política de fé encara ideologicamente a sociedade contemporânea como uma associação empreendedora (“enterprise association”).

Neste modo de associação, os agentes estão interligados a partir de um propósito comum substantivo, reconhecido como uma condição exequível pelos homens. Esse engajamento tem por escopo direcionar a conduta humana a partir de ações que estejam meticulosamente relacionadas para administrar e maximizar o propósito desejado. As eventuais regras emitidas são meramente instrumentais e, por si só, não definem e nem identificam a associação. Destaca algumas conclusões para a chamada “política de fé”. Em primeiro lugar, ela não é uma invenção que surgiu nos últimos séculos contra um período de negligência ou indiferença governamental. Tampouco foi um fruto da revolução industrial ou das ideias em torno da democracia liberal. Deve ser compreendida num contexto histórico de legitimação e idealização do governo como operador racional da atividade humana. Em segundo lugar, não é identificada com nenhum movimento social, partido ou causa no mundo moderno. Há representantes desse estilo de política em todo campo, todo partido, cada momento e entre advogados de toda causa. Em terceiro lugar, a política de fé não é, e nunca foi, o único estilo de política que surgiu na história moderna. Essa impressão é causada especialmente pelo sucesso deste estilo especialmente a partir do século XVII. Finalmente, a política de fé é subentendida como política da imortalidade. Dá atenção excessiva ao futuro e se esquece do passado. Ao conduzir a conduta humana para um determinado fim, transmite a ideia de que a própria história possui um sentido. 

Em seu livro de memórias: Neoconservatism: The Autobiography of an Idea, Irving Kristol (1920-2009) afirma que decidiu não publicar o ensaio: “On Being Conservative” na revista The Public Interest justamente pelo caráter irremediavelmente secular do texto, o que estaria em desacordo com o fundamental elemento religioso presente na sociedade norte-americana. Enfim, no seu ensaio: Rationalism in Politics (1991) o autor volta ao assunto dizendo-nos que há dois tipos sociologicamente de conhecimento: o conhecimento técnico e o conhecimento prático. O conhecimento técnico pode ser formulado através de regras e aprendido nos livros (informação). O conhecimento prático só pode ser aprendido com um mestre porque não pode ser formulado em regras e constitui-se, muitas vezes, como matéria de opinião (julgamento). O conhecimento prático só pode ser adquirido através da mestria porque é impreciso. Um dos problemas centrais da modernidade consiste no fato de “haver uma soberania da razão, uma soberania da técnica, porque o racionalismo e os racionalistas aspiram à certeza, apesar de esta aspiração não ser mais do que uma ilusão”. Tendem a rejeitar a imprecisão e tudo deve passar-se como está descrito nos livros. A mestria passa a ser olhada com desconfiança devido à sua imprecisão. O racionalista argumenta Oakeshott (1901-1990), “Always stands”, quer dizer, estruturalmente é sempre a favor de alguma coisa ou contra alguma coisa no âmbito de certo binarismo. As circunstâncias sociais do mundo moderno fazem do racionalista um ser eminentemente contencioso: - “Ele é o inimigo da autoridade, do preconceito, do simplesmente tradicional, costumeiro ou habitual”.

Mas como toda a atividade humana tende a ser reduzida a problemas de ordem sociológica, concluiríamos admitindo duas ideias que nos parecem fundamentais para haver um compromisso educativo na interpretação oakeshottiana. Há também uma tentativa de promoção da cultura científica de modo a que os seres humanos se identifiquem a si próprios na sua relação com as coisas e o seu império sobre as coisas. Mas a pedra angular é a ideia de “integração social” que radica no preconceito de que “tudo é social e de que tudo deve ter uma função social”, portanto, a educação seria algo de social. Homogeneizando per se as diferenças e não tornando através das semelhanças algo de distinto, meritório etc. Esta primazia do “social” torna a educação como um investimento social relacionado com o bem-estar de uma sociedade e as Universidades, segundo Oakeshott transformaram-se “numa indústria de serviços cuja finalidade é a de contribuir para o bem-estar da nação”. Os governos calculam a produtividade das universidades através de custos e benefícios. As últimas décadas mostram-nos que os governos querem transformá-las em “instrumentos de socialização” e submetê-las a propósitos extrínsecos ligados a considerações sociais. Pensam que sabem, mas não sabem o que eles fazem.          

A Filha Pródiga tem como representação social a história de Reese Donahue (Jessica Rothe), uma jovem aspirante a escritora de Chicago. Ela passou a vida inteira se esforçando ao máximo justamente para evitar o trabalho, vivendo a vida que todos os outros desejam. Até que descobre um segredo que a obriga a escolher entre a vida predeterminada que conhece tão bem e aquilo que parece ser o destino que sua mãe queria para ela. Ela acaba sendo levada a trair o pai e a buscar uma vida que imagina ser melhor do que comparativamente que já possui. Quando Reese retorna para casa carregando apenas arrependimento, o perdão de seu pai lhe ensina o verdadeiro significado de amar. É a história de Florentyna Rosnovski, filha de Abel Rosnovski, personagem de Kane e Abel, também de Arche. O romance, um dos mais vendidos de Archer, retrata a vida de Florentyna desde a infância até sua ascensão à presidência dos Estados Unidos. Dessa forma, a presidente Kane se torna a primeira mulher a ocupar a presidência dos EUA. A personagem Florentyna Kane também aparece em “Shall We Tell the President?” de Archer. Inicialmente, o livro apresentava o presidente Ted Kennedy (1932-2009), mas, após o sucesso de “Kane and Abel” e “The Prodigal Daughter”, o personagem foi alterado para o presidente Kane em edições posteriores. A Filha Pródiga é um romance político de 1982 do autor inglês Jeffrey Archer nascido em15 de abril de 1940.

Em Londres, o Barão Archer de Weston-super-Mare é um escritor, dramaturgo e ex -político britânico. Ele é membro do Parlamento pelo Partido Conservador e na esfera de ação política é um par vitalício de 1992 a 2024. Sua carreira política foi marcada por diversos escândalos e controvérsias; ela terminou quando ele foi considerado culpado de perjúrio em um desses casos e preso. Ele é marido de Mary Archer, uma renomada cientista da área de energia solar. Além de sua atividade política, ele é reconhecido como romancista e contista. Ele nasceu no Hospital Maternidade da Cidade de Londres. Sua família deixou Londres quando ele tinha apenas duas semanas de vida, rumo à cidade litorânea de Weston-super-Mare, em Somerset, onde passou quase toda a sua infância. Em 1951, ganhou uma bolsa de estudos para a Wellington School, em Somerset que não deve ser confundida com o prestigiado Wellington College, o que é possível dada a biografia ambígua nos primeiros livros de Archer. Nessa época, sua mãe, Lola, escrevia uma coluna sobre xícaras de chá para o jornal local de Weston-super-Mare e narrava as aventuras de seu filho Tuppence, o que mais tarde levaria Archer a sofrer bullying na Wellington School. Na literatura, ele ficou reconhecido por seus romances de espionagem com Kane e Abel como heróis, que são mundos à parte: um é filho de banqueiro norte-americano de Boston; o outro, um órfão polonês. Multimilionário, ele é uma figura proeminente no jet set de Londres. Archer foi deputado conservador entre 1985 e 1986, chegando a ser vice-presidente do partido.

Ele foi forçado a renunciar após artigos no Daily Star alegarem relações sexuais com uma prostituta. Em 1987, ele ganhou um processo por difamação contra o Daily Star e recebeu uma indenização de meio milhão de libras por invasão de privacidade. Em 1992, foi nomeado pela Rainha membro da Câmara dos Lordes. Em 1999, foi revelado que ele havia mentido durante seu julgamento em 1987, pedindo a um amigo que fabricasse um álibi para ele. Ele foi condenado à prisão, onde cumpriu dois anos (2001-2003), o que pôs fim à sua carreira política. Escólio: Jeffrey Howard Archer, Barão Archer de Weston-super-Mare, nascido em 15 de abril de 1940 é um romancista inglês e ex-político. Ele foi membro do Parlamento (MP) por Louth (Lincolnshire) de 1969 a 1974, mas não buscou a reeleição após quase falir. Archer recuperou sua fortuna economicamente falando como romancista. Seu romance Kane e Abel (1979) continua sendo um dos livros mais vendidos do mundo globalizado, com cerca de 34 milhões de cópias vendidas. No total, seus livros venderam mais de 320 milhões de cópias em todo o mundo. Archer retornou à política e foi vice-presidente do Partido Conservador de 1985 a 1986; renunciou após um jornal o acusar de pagar dinheiro a uma prostituta.

Em 1987, venceu um processo civil e recebeu uma grande indenização devido a essa alegação. Foi nomeado par vitalício em 1992 e, posteriormente, tornou-se o primeiro candidato conservador a ser selecionado como candidato a prefeito de Londres. Encerrou sua candidatura em 1999, após ter sido descoberto que ele havia mentido no caso em 1987. Em 2001, foi condenado a quatro anos de prisão por perjúrio e obstrução da justiça, encerrando sua carreira política ativa. Foi libertado no início de 2003. Jeffrey Howard Archer nasceu no Hospital Maternidade da Cidade de Londres em Holloway, Londres, em 15 de abril de 1940. Ele tinha duas semanas de vida quando sua família se mudou para Somerset, eventualmente se estabelecendo na cidade litorânea de Weston-super-Mare, onde Archer passou a maior parte de sua infância. Seu pai, William (falecido em 1956), tinha 64 anos quando Jeffrey Archer nasceu. No início de sua carreira, Archer deu relatos etnográficos contraditórios à imprensa sobre a suposta, mas inexistente, carreira militar de seu pai. William Archer era, na verdade, um bígamo, fraudador e vigarista, que se fazia passar por outro William Archer, um falecido detentor de medalha de guerra.  Ele trabalhou em diferentes épocas como vendedor de chicletes em Nova York e corretor de hipotecas em Londres.

Nesta última função, foi acusado no Old Bailey de uma série de crimes de fraude. Ao ser libertado sob fiança, fugiu para os EUA sob o nome de William Grimwood. Nos Estados Unidos, William Archer teve uma filha, Rosemary Turner (1917-1986), meia-irmã de Jeffrey. Em 1940, Rosemary casou-se com o advogado Brien McMahon, que se tornou senador democrata por Connecticut (1945-1952) e candidato à nomeação presidencial democrata em 1952. Após a morte de Brien McMahon naquele ano, Rosemary casou-se, em 1953, com o embaixador belga em Washington, Barão Silvercruys. A primeira-dama, Mamie Eisenhower (1896-1979), foi a convidada de honra em seu casamento. Quando menino, Archer sonhava em ser capitão do Bristol Rovers Football Club. Ele ainda é torcedor do clube. Em 1951, Archer ganhou uma bolsa de estudos para a Wellington School em Somerset (e não para o Wellington College em Berkshire, como ele posteriormente tenderia a afirmar) após ser aprovado no exame de admissão. Nessa época, sua mãe, Lola, trabalhava como jornalista no jornal local de Weston, o Weston Mercury. Ela escrevia uma coluna semanal intitulada “Over the Teacups” e frequente escrevia sobre Jeffrey, chamando-o de “Tuppence”.

Embora Archer gostasse da fama local que isso lhe trouxe, também o tornou vítima de bullying enquanto estudava na Wellington School. Archer saiu da escola com níveis O em literatura inglesa, arte e história. Ele então passou alguns anos em uma variedade de empregos, incluindo treinamento com o exército e um curto período com a Polícia Metropolitana. Mais tarde, ele trabalhou como professor de Educação Física, primeiro em Vicar`s Hill, uma escola preparatória em Hampshire, e mais tarde no Dover College em Kent. Em 1963, Archer recebeu uma oferta de vaga na Delegação de Estudos Extramuros da Universidade de Oxford para cursar um Diploma de Educação. O curso era oferecido pelo departamento, e Archer tornou-se membro do Brasenose College. Há alegações de que Archer forneceu provas falsas de suas qualificações acadêmicas ao Brasenose, citando, por exemplo, uma instituição americana que na verdade era um clube de fisiculturismo, para ser admitido no curso. Também foi alegado que Archer forneceu declarações falsas sobre três aprovações inexistentes no A-Level e um diploma universitário americano. Embora o curso de diploma tenha durado apenas um ano, Archer passou um total de três anos em Oxford, onde obteve sucesso no atletismo, competindo em corridas de velocidade e com barreiras, e tornou-se presidente do Oxford University Athletic Club em 1965-1966. Seu colega da Universidade de Cambridge, Wendell Mottley, tornou-se um amigo para a vida toda. 

Há registros televisivos dele fazendo largadas falsas em uma corrida de velocidade de 1964, mas ele não foi desclassificado. Ele ganhou um prêmio de melhor atleta em atletismo e passou a correr pela Inglaterra, tendo competido uma vez pela Grã-Bretanha. Seu tempo de 10,6 segundos para 100 metros é o segundo melhor tempo já registrado por um estudante da Universidade de Oxford. Archer angariou fundos para a instituição de caridade Oxfam, obtendo o apoio dos Beatles em uma campanha de arrecadação de fundos. A banda aceitou seu convite para visitar a residência do diretor do Brasenose College, onde foram fotografados com Archer e professores da faculdade, embora não tenham tocado lá. O crítico Sheridan Morley, então estudante em Merton, estava presente e relembrou a ocasião: - No intervalo, fui ao banheiro e lá, ao meu lado, estava Ringo Starr. Ele perguntou se eu conhecia esse tal de Jeffrey Archer. Eu disse que todo mundo em Oxford estava tentando descobrir quem ele era. Ringo disse: “Ele me parece um cara legal, mas é o tipo de cara que engarrafaria seu xixi e venderia”. Após deixar Oxford, Archer continuou como angariador de fundos para instituições de caridade, inicialmente trabalhando para o National Birthday Trust, uma instituição de caridade médica que promovia o parto seguro, antes de ingressar na Associação das Nações Unidas (UNA) como seu principal angariador de fundos. O presidente Humphry Berkeley (1926-1994), alegou que havia discrepâncias nas declarações de despesas de Archer enquanto ele lá trabalhava.         

O corpo, notoriamente, percorre a história da ciência e da filosofia. De Platão a Bergson, passando por Descartes, Espinosa, Merleau-Ponty, Freud, Marx, Nietzsche, Weber e principalmente Michel Foucault, a definição de corpo demonstra um puzzle. Quase todos reconhecem a profusão da visão dualista de Descartes, que define o corpo como uma substância extensa em oposição à substância pensante. Podemos perceber que seguindo este modo de compreensão, sobretudo com o advento da modernidade, o corpo foi facilmente associado a uma máquina. O corpo foi pensado como um mecanismo elaborado por determinados princípios que alimentam as engrenagens desta máquina promovendo o seu bom funcionamento. Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e domínio que constituem a ascese necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. 

E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo. Neste aspecto Michel Foucault (2014) nos adverte sobre a questão abstrata da analítica do poder que se constitui o marco histórico e pontual de “docilidade dos corpos”. Para ele o soldado é, antes de tudo, alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais naturais de seu vigor e coragem, as marcas também de seu orgulho: seu corpo é o brasão de sua força e de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o ofício das armas – essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes como o porte da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal de honra. Eis como ainda no início do século XVIII se descrevia a figura ideal do soldado. Mas na segunda metade deste século, o soldado se tornou algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorrer cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi “expulso o camponês” e lhe foi dada a “fisionomia de soldado”. Ipso facto, houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo que se manipula, modela-se, treina-se, que obedece, responde, torna-se hábil ou cujas forças multiplicam o “homem-máquina”.

O grande livro do homem-máquina foi descrito simultaneamente em dois registros: no anátomo-metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido escritas por Descartes e que os médicos, os filósofos continuaram; o outro, técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares, hospitalares e por processo empíricos e refletidos para controlar ou corrigir as operações do corpo. Dois registros bem distintos, pois se tratava ora de submissão e utilização, ora de funcionamento e de explicação: corpo útil, corpo inteligível. E, entretanto, de um ao outro, pontos de cruzamento. “O homem-máquina” de Julien Offray La Metrie (1709-1751) é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo manipulável. Em sua significação específica é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Os famosos autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar o organismo; eram também bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão de Frederico II (1712-1786), rei minucioso das pequenas máquinas, dos regimentos bem treinados e dos longos exercícios. Para Michel Foucault a questão a responder é a seguinte: Nesses esquemas de docilidade, em que o século XVIII teve tanto interesse, o que há de tão novo?

 Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes mito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro do controle; não se trata de cuidar do corpo, massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalha-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao mesmo nível prático da mecânica – movimentos, gestos, atitudes, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente importa é a do exercício. A modalidade, enfim, implica uma coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos.

Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar disciplinas. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. Mas também ocorre que são diferentes da domesticidade, que é uma relação social de dominação constante, global, maciça, não analítica, ilimitada e estabelecida sob a forma de vontade de poder singular do patrão, sendo quase seu “capricho”. Diferentes da vassalidade que é uma relação de submissão altamente codificada, mas longínqua e que se realiza menos sobre as operações do corpo que sobre os produtos do trabalho e as marcas rituais de obediência. Diferentes do ascetismo e das “disciplinas” de tipo monástico, que têm por função realizar renúncias mais do que aumentos de utilidade e obediência, têm como fim um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo.

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter o domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas ara que operem como se quer, com as técnicas segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis.  A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela associa o poder do corpo; faz dele uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro a energia, a potência que poderia resultar, e faz dela uma relação de sujeição estrita.

Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada. Entendida como consumo cultural, a prática do culto ao corpo situa-se como preocupação geral de mobilidade social, que perpassa a estratificação de classes sociais e faixas etárias, apoiada num discurso clínico difuso que se refere tanto a questão estética, quanto a preocupação alimentar com a saúde. Nas sociedades contemporâneas há uma crescente apropriação do corpo, in statu nascendi com a dieta alimentar e o consumo excessivo de cosméticos, impulsionados pelo processo de massificação da propaganda/consumo desde o desenvolvimento econômico dos anos 1980, onde o corpo ganha mais espaço, nos meios de trabalho midiáticos. Nesse sentido, as fábricas de imagens estéticas do vencedor como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso. Ipso facto, nos leva a pensar que a imagem da eterna fonte de juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, ao sucesso na educação, no trabalho e na vida amorosa atravessa as etnias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos estilos de vida.

Nesta conjuntura, Archer iniciou uma carreira na política, servindo como vereador conservador por Havering no Conselho da Grande Londres (1967–1970). Archer fundou sua própria empresa de arrecadação de fundos e relações públicas, a Arrow Enterprises, em 1969. No mesmo ano, ele abriu uma galeria de arte, a Archer Gallery, em Mayfair. A galeria era especializada em arte moderna, incluindo obras do escultor e pintor Leon Underwood. A galeria acabou dando prejuízo, no entanto, e Archer a vendeu dois anos depois. Aos 29 anos, Archer foi eleito membro do Parlamento (MP) pelo círculo eleitoral de Louth, em Lincolnshire, ocupando a cadeira pelo Partido Conservador em uma eleição suplementar em 4 de dezembro de 1969. Archer derrotou Ian Gow na seleção após conquistar uma parcela substancial de membros mais jovens na reunião de seleção. O partido nacional tinha preocupações sobre a seleção de Archer, relacionadas às alegações de despesas da UNA feitas por Humphry Berkeley, ele próprio um ex-membro do Parlamento Conservador. Berkeley tentou persuadir a Sede Central Conservadora de que Archer era inadequado como candidato. Archer moveu uma ação por difamação contra Berkeley e a história foi mantida fora da imprensa, embora uma versão truncada da história tenha aparecido no The Times.

O caso foi finalmente resolvido fora dos tribunais, com Archer concordando em pagar as custas judiciais de cerca de £ 30.000. A circunscrição de Louth tinha três áreas principais: Louth, Cleethorpes e Immingham. Durante o seu tempo como deputado, Archer era um frequentador assíduo do Clube Conservador de Immingham, na parte mais operária da circunscrição. Em 1970, participou no Kennedy Memorial Test, uma corrida/caminhada de 50 milhas de Louth a Skegness e volta. No parlamento, Archer estava à esquerda do Partido Conservador, rebelando-se contra algumas das políticas do seu partido. Defendia licenças de televisão gratuitas para idosos e era contra a cobrança de entradas em museus. Em 1971, contratou David Mellor para tratar da sua correspondência. Deu a Mellor informações privilegiadas para chegar ao gabinete. Na entrevista, em fevereiro de 1999, Archer disse: “Espero que não voltemos aos extremos. Sou o que se poderia chamar de centro-direita, mas sempre detestei a direita tanto quanto detestei a esquerda”. Em 1974, Archer foi vítima de um esquema de investimento fraudulento envolvendo uma empresa canadense chamada Aquablast. O desastre lhe custou sua primeira fortuna e o deixou com quase 500.000 libras em dívidas.

Alertado pelo repórter do Daily Mirror, Revel Barker – a quem ele erroneamente identificou como um colega estudante de Oxford – de que, como falido, não poderia ser um membro do Parlamento, ele anunciou que não se candidataria nas eleições gerais de outubro de 1974 “devido a dificuldades financeiras”. Enquanto era testemunha no caso Aquablast em Toronto, em 1975, Archer foi acusado de roubar três ternos de uma loja de departamentos. Archer negou a acusação por muitos anos, mas no final da década de 1990 ele finalmente reconheceu que havia pegado os ternos, embora tenha alegado que na época não havia percebido que havia saído da loja. Nenhuma acusação foi feita. Archer escreveu seu primeiro livro, Not a Penny More, Not a Penny Less, no outono de 1974, como forma de evitar a falência. O livro foi adquirido pela agente literária Deborah Owen e publicado primeiro nos Estados Unidos e, posteriormente, na Grã-Bretanha, no outono de 1976. Uma adaptação radiofônica foi transmitida pela BBC Radio 4 no início da década de 1980 e uma adaptação para a televisão pela Britisch Broadcasting Corporation (BBC) foi exibida em 1990.  Kane e Abel (1979) provou ser sua obra mais vendida, alcançando o primeiro lugar na lista de best-sellers do The New York Times. Como a maioria de seus primeiros trabalhos, foi editado por Richard Cohen, medalhista de ouro olímpico na esgrima. Foi adaptado para minissérie pela Columbia Broadcasting System (CBS) em 1985, estrelada por Peter Strauss e Sam Neill.      

No ano seguinte, a Granada TV exibiu uma adaptação em 10 partes de outro best-seller de Archer, First Among Equals, que contava a história de quatro homens e sua busca para se tornarem primeiros-ministros. Na edição do romance, o personagem Andrew Fraser foi eliminado, reduzindo o número de protagonistas para três. Além de romances e contos, Archer também escreveu três peças teatrais. A primeira, Beyond Reasonable Doubt, estreou em 1987 e ficou em cartaz no Queen`s Theatre, no West End de Londres, por mais de um ano. A peça seguinte de Archer, Exclusive, estreou no Strand Theatre, em Londres, em setembro de 1989. Não foi bem recebida pela crítica e encerrou sua temporada após algumas semanas. Sua última peça, The Accused, estreou no Theatre Royal, em Windsor, em 26 de setembro de 2000, antes de ser transferida para o Theatre Royal Haymarket, no West End, em dezembro. Em 1988, a autora Kathleen Burnett acusou Archer de plagiar uma história que ela havia escrito e de incluí-la em sua coleção de contos, A Twist in the Tale. Archer negou ter plagiado a história, alegando que simplesmente se inspirou na ideia. Embora os livros de Archer sejam comercialmente bem-sucedidos, os críticos têm sido geralmente desfavoráveis ​​à sua escrita. O jornalista Hugo Barnacle, escrevendo para o The Independent sobre The Fourth Estate (1996), considerou que o romance, embora demonstrasse que “os editores parecem não ter feito nenhum trabalho”, “não era totalmente insatisfatório”.

Archer afirmou que passa um tempo considerável escrevendo e reescrevendo cada livro. Ele viaja para o exterior metodologicamente para escrever o primeiro rascunho, trabalhando em blocos de duas horas de cada vez, e depois escreve até 17 rascunhos no total. Desde 2010, Archer escreve o primeiro rascunho de cada novo livro em sua vila em Maiorca, na Espanha, chamada “Writer`s Block”. Em 2011, Archer publicou o primeiro de sete livros da série As Crônicas de Clifton, que acompanham a vida de Harry Clifton desde seu nascimento em 1920 até seu funeral em 1993. O primeiro romance da série, Só o Tempo Dirá, conta a história de Harry de 1920 a 1940 e foi publicado no Reino Unido em 12 de maio de 2011. O sétimo e último romance da série, Este Era um Homem, foi publicado em 3 de novembro de 2016. Além disso, The Short, the Long and the Tall, uma coleção ilustrada de contos de Archer, foi publicada em novembro de 2020, com ilustrações em aquarela do artista Paul Cox. Over My Dead Body foi publicado em outubro de 2021 e é o quarto livro de uma série de thrillers com o detetive William Warwick. O livro foi aclamado pela crítica e tornou-se um best-seller do New York Times. Em janeiro de 2020, foi noticiado que Archer havia processado seus antigos agentes literários, Curtis Brown, por £500.000 em royalties não pagos. Durante a cerimônia de entrega dos prêmios Índia Global Forum Awards em 2025, Jeffrey Archer afirmou que estava trabalhando em seu último romance. Segundo Archer, a ideia para o livro surgiu seis anos antes, e ele acredita que a história pode superar Kane e Abel, seu romance mais vendido, que havia alcançado sua 134ª reimpressão.

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