domingo, 3 de maio de 2026

Sonhos de Trem – Roubo de Lenha & Companhia Ferroviária Spokane.

                                                             O sonho representa a realização de um desejo”. Sigmund Freud  

     

          A história em transformação é própria do pensamento como uma das mais antigas necessidades de exigência do espírito humano. No conjunto da história e em cada um dos casos concretos, a primeira tarefa do analista social consiste em mensurar facilidades e dificuldades oferecidas pela natureza. O que significa um primeiro encontro entre Marx e os melhores métodos da historiografia contemporânea. É verdade que Direito e História, mesmo na escola histórica do direito positivo, que contrapunha às concepções do direito natural ou racional de um direito concreto produzido pela História, não está mais próxima da visão madura do método de análise de Marx, ou seja, de um direito como metáfora historicamente condicionada do que as concepções metafísicas encontradas em Immanuel Kant preparando a história em Friedrich Hegel, pois é na Introdução da Fenomenologia que se situa o problema do conhecimento. Vemos como em ele retorna ao ponto de vista de Immanuel Kant e Friedrich Fichte. A Fenomenologia não é uma noumenologia nem ontologia, mas um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia conhecer se o Absoluto é verdadeiro? Não obstante, em vez de apresentar o saber do Absoluto em si para si, Hegel considera o saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber fenomênico, mediante sua autocrítica, é como se eleva ao saber Absoluto. 

Sabemos, porém que Marx, num dos primeiros manuscritos anterior ao debate com Hegel sobre a questão do Direito, dirigiu um aguçado ataque contra a Escola Histórica, por ocasião do jubileu do seu fundador. Quase imediatamente, na mesma série de artigos da Rheinische Zeitung é oferecida à Marx outra ocasião política, oferecida ao pensamento pela ação, à teoria pela prática, para penetrar melhor na história que se faz. Marx observa um direito em gestação. A Dieta renana transforma a coleta da lenha, uma vantagem concedida aos pobres pelos costumes, em “furto da lenha”, punido como delito em nome da propriedade que, para tornar-se contemporânea, se faz absoluta. Antes da decisão da dieta, “recolhe-se” a lenha caída; após sua decisão, a lenha é “roubada”: um ato que não era considerado furto é declarado roubo. A noção de propriedade é modificada. Acompanhando os debates da Dieta, Marx tem a primeira intuição sobre a sua concepção materialista da história, que indicará como uma das descobertas fundamentais, de alcance proporcionalmente igual ao seu conteúdo do ponto de vista teórico da análise da mais-valia. A intepretação da história é expressão de uma ideologia que exerce influência prática sobre as mentes humanas. Não era história, mas metafísica. A história, enquanto tal é o oposto da história abstrata, especulativa; o indivíduo humano, ao contrário, é ao mesmo tempo abstrato e concreto. 

Por um lado, o indivíduo humano coincide com o ser genérico do homem, com a consciência de pertencer a uma espécie; por outro, a sociedade não é uma abstração, em oposição ao indivíduo: a história natural da humanidade é a sua história biológica, o percurso do homo sapiens. Assim, se a história da espécie é uma só, e qualquer outra doutrina política seria racismo, a história da humanidade – enquanto história social é múltipla: a totalidade da história do gênero humano é a oposição entre as muitas e a única história. Na sociedade como na história, não opera nenhuma força social a não ser por meio da atividade dos indivíduos em combinação e a consciência não existe senão na mente e graças à mente dos indivíduos vivos. A humanidade da natureza existe apenas para o homem social. A produção das representações da consciência, está ligada com a atividade material e com as relações sociais decorrentes das atividades sociais dos homens entre si. O degredo tem como representação política uma longa duração na história colonial de Portugal.  Há registros etnográficos que atestam a prática desde o século XIV e, hic et nunc numa duração de sete séculos, evidenciando que tanto a prática quanto a pena de degredo sofreram alterações significativas. A palavra degredo enquanto termo diferenciado na legislação, não tem um correspondente específico em outras línguas.                                    

No contexto do império colonial português, o termo foi utilizado para designar um tipo bastante específico de expulsão penal. Para além da esfera jurídica, durante esse período, a palavra serviu também para se referir aos locais onde se cumpria a sentença. Na perspectiva do sistema punitivo português, degredar, na maioria das vezes, significou a expulsão do criminoso do local onde o crime fora cometido e seu envio para outro local, que poderia ou não fazer parte do território metropolitano. A penalização de degredo foi abolida do Código Criminal em 1954. nas sociedades europeias utilizam-se os termos “banimento” ou “exílio”. O desterro, entendido como expulsão, era uma pena prevista na lei visigótica um dos mais notáveis monumentos jurídicos da Idade Média. Em Portugal, o direito visigótico se fez presente nos costumes e na legislação foraleira. Durante a reconquista cristã, com o fim da expulsão dos mouros, as leis previam a pena de desterro, em que o criminoso era condenado a deixar o local onde morava depois de pagar pena pecuniária, sendo previstas sanções para quem abrigasse o desterrado. Os reinos ibéricos eram monarquias feudais, era eficiente para combater incursões muçulmanas e razias, mas dificultava o processo de Reconquista devido a desunião dinástica e as guerras feudais. A ocupação das terras conquistadas fazia-se com um cerimonial: cum cornu et albende de rege, isto é, com o toque das trombetas e o estandarte desfraldado.

No verão de 1917, Robert Grainier participou da tentativa de assassinato de um operário chinês flagrado roubando, ou pelo menos acusado disso, no armazém da companhia ferroviária Spokane Internacional, na estreita faixa de terra que forma o cabo da frigideira do mapa de Idaho. É um dos cinquenta estados dos Estados Unidos, localizado na Região dos Estados das Montanhas Rochosas. Limita-se ao norte com a província canadense de Colúmbia Britânica, ao Sul com o Nevada e o Utah, a Leste com o Montana e o Wyoming, e a Oeste com Washington e Oregon. O Idaho atualmente possui a sexta maior taxa de crescimento populacional entre os estados dos Estados Unidos, atrás apenas de Nevada, Arizona, Flórida, Geórgia e Utah. Com um pouco mais de 216 mil quilômetros quadrados, é o 14º maior estado americano em área do país. O Idaho fazia parte do Oregon Country, um território disputado entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Através de um tratado assinado em 1846, os Estados Unidos assumiram posse da região do atual Idaho. Esta região fez inicialmente parte do Território de Oregon, tornando-se em 1853 parte do Território de Washington. O Território de Idaho foi formado em 1863, e elevado à categoria de estado em 3 de julho de 1890, tornando-se o 43º estado americano a entrar na União. O partido republicano governa o estado desde 1995. Em janeiro de 1868, o Senado ratificou o Tratado de Burlingame com a China, que permitiu o fluxo irrestrito de chineses para os Estados Unidos. Nos anos seguintes, o número de imigrantes chineses aumentou e a violência contra eles eclodiu na cidade de Los Angeles.

A greve de North Adams de 1870, interrompida pela substituição de todos os trabalhadores por 75 chineses, foi o estopim que desencadeou um protesto generalizado da classe trabalhadora em todo o país, moldou o debate legislativo no Congresso e ajudou a transformar a imigração chinesa em uma questão nacional permanente. Leland Stanford, fundador da Central Pacific Railroad e da Universidade Stanford, disse ao Congresso que a maioria dos trabalhadores das ferrovias era chinesa e que seria impossível concluir a expansão para o oeste sem eles. Em 1875, a Lei Page proibiu a entrada de mulheres chinesas para evitar o estabelecimento de famílias, mas manteve a permissão de homens e sua mão de obra. A situação política de 1876 foi fundamental para a transformação da imigração chinesa em questão nacional. Até então, os legisladores californianos haviam tentado restringir a imigração chinesa através de decretos, com foco nas empresas, nos locais de moradia e nos navios que traziam os imigrantes. Contudo, as medidas foram consideradas anticonstitucionais por violar o Tratado de Burlingame (1868), a Décima Quarta Emenda e a Lei de Direitos Civis de 1866. Ao disseminar o sentimento contra a imigração chinesa, os legisladores californianos poderiam influenciar os partidos políticos a adotar uma retórica contra o movimento. No dia 5 de abril de 1876 uma manifestação antichinesa aconteceu em São Francisco com a presença de 20 000 pessoas.

No dia 3 de abril, o Senado do Estado da Califórnia autorizou uma investigação sobre os efeitos da imigração chinesa na cultura e economia do Estado; os resultados deviam ser enviados aos principais jornais dos Estados Unidos e para cada membro do Congresso. Além dessas medidas, o Conselho de Supervisores de São Francisco enviou uma delegação a cidades do leste para expressar o sentimento contrário aos chineses às multidões. Philip Roach e Frank Pixley, membros da delegação, falaram sobre a ameaça econômica que a mão de obra chinesa representava e sobre a incompatibilidade racial e inferioridade deles. Esses esforços culminaram no apoio às políticas antichinesas por partidos políticos. Depois que a economia entrou em crise em 1873, os “imigrantes chineses foram acusados de reduzir os salários dos trabalhadores americanos”. Os chineses representavam 25% dos trabalhadores assalariados da Califórnia. Em 1878, o Congresso tentou proibir a imigração, mas a legislação foi vetada pelo Presidente Rutherford B. Hayes (1822-1893). Em 1879, a Califórnia adotou uma nova constituição que autorizava o governo estadual a determinar quais indivíduos poderiam residir no local e proibia os chineses de trabalhar em corporações e repartições públicas. Três anos depois, após a China concordar com as revisões do tratado, o Congresso tentou novamente excluir os trabalhadores chineses da classe operária quando o Senador John F. Miller apresentou uma Lei de Exclusão Chinesa que bloqueava a entrada de chineses por um período de 20 anos. O projeto foi aprovado, mas foi vetado pelo Presidente Chester A. Arthur, que conclui que a proibição era uma violação do tratado renegociado de 1880.      

O Congresso não conseguiu anular o veto, mas aprovou um novo projeto de lei reduzindo a proibição da imigração para dez anos. Embora ainda se opusesse à negação da entrada de trabalhadores chineses, Arthur concordou com a medida e sancionou a Lei de Exclusão Chinesa em 6 de maio de 1882. Embora a aversão aos chineses tenha permanecido após a lei, os empresários resistiram à sua exclusão devido a mão de obra barata. Quando a lei expirou em 1892, o Congresso a prorrogou por mais 10 anos através da Lei Geary. A prorrogação se tornou permanente em 1901, o que fez com que os sino-americanos fossem obrigados a obter um certificado de residência do governo dos Estados Unidos para evitar serem deportados. Spokane International Railroad (código de identificação SI) era ferrovia de curta distância entre Spokane, Washington, e a Canadian Pacific Railway (CP) em Kingsgate, Colúmbia Britânica. A linha tornou-se importante para a CP devido às suas conexões com a Union Pacific Railroad e Portland, Oregon. A linha férrea, originalmente chamada de Spokane International Railway, foi construída pelo empresário e ferroviário local Daniel Chase Corbin (1832-1918), após um acordo entre ele e a CP, no qual a CP concordou em financiar parte da construção da linha e garantir o empréstimo mantendo os títulos da nova linha. Particularmente significativo foi o fato de controlar a ferrovia Minneapolis, St. Paul and Sault Ste. Marie (Soo Line) e suas conexões com Minneapolis, Minnesota, Saint Paul, Minnesota e Chicago, Illinois.

A conclusão da Spokane International significava que a CP podia competir com as linhas da Northern Pacific Railway e da Great Northern Railway no transporte entre o Meio-Oeste e a região de Puget Sound em conjunto com a subsidiária da Union Pacific Railroad, a Oregon-Washington Railroad and Navigation Company, a Oeste de Spokane. O serviço expresso de passageiros foi logo introduzido na linha através do Soo-Spokane Train De Luxe. Duas locomotivas da Ohio Match Company foram vendidas à Marinha dos EUA em 1940 para construir um ramal da Spokane International, com o objetivo de construir a Base Naval de Farragut em Farragut, Idaho, e foram sucateadas pela Marinha dos EUA em 1944 para materiais de guerra. A SI foi reorganizada em 1º de outubro de 1941, após dificuldades financeiras e administração judicial durante a Grande Depressão. A linha foi renomeada como Spokane International Railroad como parte do acordo de reestruturação, permanecendo em operação até a década de 1950. Em 6 de outubro de 1958, a Union Pacific Railroad (UP) assumiu o controle da Spokane International Railroad. Em 1962, a UP arrendou as 11 locomotivas ALCO RS-1 da SI para operação. As locomotivas foram posteriormente repintadas com o esquema de cores amarelo e cinza da UP, mas mantiveram a inscrição SI. Também em 1962, a UP vendeu quatro de seus vagões-freio de aço mais antigos para a SI. Estes também foram pintados com o esquema amarelo da UP, mas receberam a inscrição e os números da SI. Após o controle da SI pela UP em 1958, a Union Pacific continuou a arrendar a SI para operação. Em 31 de dezembro de 1987, a Union Pacific incorporou formalmente a SI à sua estrutura corporativa. No final de 1960, a SI operava 240 km de estrada em 310 km de trilhos; naquele ano, registrou 141 milhões de toneladas-quilômetro líquidas de carga faturada e zero passageiros. A linha permanece em operação como a Subdivisão Spokane da Union Pacific, uma importante conexão entre o Sul da Colúmbia Britânica e o Noroeste dos Estados Unidos.

Train Dreams é um filme norte-americano de drama histórico de 2025 dirigido por Clint Bentley, um diretor e roteirista americano. Seus trabalhos como diretor incluem Jockey (2021) e Train Dreams (2025). Por seu trabalho como roteirista, Bentley foi indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Sing Sing (2023) e Train Dreams que co-escreveu o roteiro com Greg Kwedar, baseado na novela de 2011 de Denis Johnson. O filme é estrelado por Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Clifton Collins Jr., John Diehl, Paul Schneider, Kerry Condon e William H. Macy, com narração de Will Patton. Obteve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance de 2025, em 26 de janeiro de 2025, e foi lançado em cinemas selecionados nos Estados Unidos da América em 7 de novembro de 2025, antes de sua estreia no serviço de streaming Netflix em 21 de novembro de 2025. O filme recebeu aclamação da crítica, com elogios à direção de Bentley e à atuação de Edgerton. Entre seus prêmios, o filme foi nomeado um dos dez melhores filmes de 2025 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute. Por sua atuação, Edgerton foi indicado ao Globo de Ouro. O filme recebeu quatro indicações ao 98º Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.

            Greg Kwedar nasceu em Fort Worth, Texas. Recrutado para jogar rúgbi pela Texas A&M, formou-se em contabilidade e matriculou-se no Programa Profissional de Contabilidade da universidade. Durante a faculdade, tornou-se bolsista da Mays Business School e atuou como presidente do Conselho Estudantil de Administração. Após perceber, no meio de uma prova, que contabilidade não era sua vocação (cf. Weber, 2015), Kwedar começou a explorar carreiras e oportunidades mais criativas. A ideia que se tornaria seu primeiro longa-metragem, Transpecos, nasceu do tempo que passou como voluntário na fronteira entre os EUA e o México. Kwedar permaneceu um quinto ano na Universidade Texas A&M para obter um mestrado em marketing e se candidatar a programas de cinema. Após se formar na Texas A&M em 2008, recusou uma oferta de pós-graduação da Universidade de Nova York e mudou-se para Austin, Texas, para se dedicar ao cinema em tempo integral. Ao chegar em Austin, Kwedar começou a trabalhar como roteirista e diretor no estúdio de cinema One Spark. Ele trabalhou em videoclipes, comerciais, curtas-metragens e documentários para a One Spark, enquanto trabalhava nos roteiros de dois longas-metragens. Ele trabalhou como produtor no documentário de 2012 Rising From Ashes, um filme sobre a criação da primeira equipe nacional de ciclismo de Ruanda após o genocídio ruandês. Em 2016, Kwedar fez sua estreia na direção de longas-metragens com Transpecos, um filme que dirigiu, produziu e co-escreveu com Clint Bentley.  

            Em 1962, Kofi Annan, mutatis mutandis, começou a trabalhar como Diretor de Orçamento para a Organização Mundial da Saúde, uma agência das Nações Unidas (ONU). De 1974 a 1976, ele trabalhou como Diretor de Turismo em Gana. No final dos anos 1980, Annan voltou a trabalhar para as Nações Unidas, onde foi nomeado secretário-geral Adjunto em três posições consecutivas: Gestão dos Recursos Humanos e Coordenador para as Medidas de Segurança do Sistema das Nações Unidas (1987-1990); Subsecretário-Geral para Planeamento de Programas, Orçamento e Finanças e de Controlador (1990-1992); e Operações de Manutenção da Paz (1993-1996). O genocídio em Ruanda ocorreu em 1994 enquanto Annan dirigia a Operações de Manutenção da Paz. Em 2003 o ex-general Roméo Dallaire, que foi comandante da força da Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda, afirmou que Annan foi “excessivamente passivo em sua resposta ao genocídio iminente”. Em seu livro: Shake Hands with the Devil: The Failure of Humanity in Rwanda (2003), o general Dallaire declarou que Annan reteve as tropas das Nações Unidas de intervir para resolver o conflito, e de fornecer mais apoio material e logístico. Dallaire afirmou que Annan falhou em fornecer respostas “aos seus repetidos faxes pedindo acesso a um depósito de armas; tais armas poderiam ter ajudado Dallaire a defender os quase extintos Tutsis”. Em 2004, dez anos depois do genocídio Annan disse: - “Eu poderia e deveria ter feito mais para soar o alarme e reunir apoio”. Annan serviu como subsecretário-geral desde março de 1994 a outubro de 1995.

Foi nomeado Representante Especial do Secretário-Geral para a ex-Iugoslávia antes de retornar às suas funções em abril de 1996. O genocídio só terminou quando a Frente Patriótica Ruandesa derrotou o governo e se instalou definitivamente no âmbito do poder. Até os dias atuais, o massacre deixa um profundo legado de violência em Ruanda. O país segue enfrentando problemas étnicos e religiosos, ao mesmo tempo em que sofre com dificuldades econômicas seguida de corrupção, gerando extrema pobreza entre a população.  Muitos hutus ajudaram os tutsis a escapar das perseguições. Um caso notório foi o do gerente do Hotel Mille Collines, em Kigali, que foi responsável pela salvação de 1 268 tutsis e hutus, abrigando-os no hotel. Paul Rusesabagina ficou mundialmente reconhecido ao ser retratado no filme “Hotel Ruanda” sobre o massacre. Rusesabagina, residente na Bélgica, afirma que, se não forem tomadas decisões contra o tribalismo em Ruanda, o genocídio poderá voltar a ocorrer, agora pelas mãos dos tutsis, governantes do país desde o fim da matança. Hotel Rwanda é um filme de 2004 dirigido por Terry George e estrelado por Don Cheadle, Nick Nolte, Joaquin Phoenix, Desmond Dube e Sophie Okonedo. O filme é uma coprodução da Itália, Reino Unido e África do Sul, e relata a história real de Paul Rusesabagina, que foi capaz de salvar a vida de 1268 pessoas durante o genocídio de Ruanda em 1994. Logo depois das primeiras exibições, sua história foi imediatamente comparada com a de Oskar Schindler. A história se passa em Kigali, capital da Ruanda que ficou reconhecido por Genocídio de Ruanda.    

Escólio: A primeira vez que Oskar Schindler (1908-1974) foi a Cracóvia, em outubro de 1939 para tratar de assuntos da Abwehr e, no mês seguinte, alugou um apartamento. Embora o Tratado de Versalhes de 1919 proibisse a República de Weimar de estabelecer uma organização de inteligência própria, eles formaram um grupo de espionagem em 1920 dentro do Ministério da Defesa, chamando-o de Abwehr. Emilie manteve a sua casa em Ostrava e visitava Oskar, em Cracóvia, uma vez por semana. Em novembro de 1939, Schindler entrou em contato com a decoradora de interiores Mila Pfefferberg para lhe decorar o seu apartamento. O seu filho, Leopold Poldek Pfefferberg, passou a ser um dos seus contatos no mercado negro. Ambos acabaram por se tornar amigos de longa data. Também neste mês, Schindler foi apresentado a Itzhak Stern, um contabilista do seu amigo e agente da Abwehr, Josef Sepp Aue, que tinha tomado o controle local de trabalho de Stern como Treuhander (administrador). Os bens dos judeus polacos, incluindo lojas comerciais e as suas casas, foram arrestadas imediatamente a seguir à invasão, e os cidadãos judeus viram os seus direitos civis retirados.

 Schindler demonstrou a Stern o balanço de uma empresa que tencionava adquirir, uma fábrica de esmaltes chamada Rekord Ltd detida por um consórcio de empresários judeus que tinham declarado a falência no início daquele ano Stern aconselhou-o a, em vez de gerir a empresa como uma administração, sob as diretivas da Haupttreuhandstelle Ost (ou seja, o Gabinete de Administração Principal para o Leste, ele deveria comprar ou arrendar pois, assim, tinha mais liberdade face às ordens dos invasores, incluindo a facilidade de contratar mais judeus. Com o apoio financeiro dos investidores judeus, Schindler assinou um acordo de arrendamento informal a 13 de novembro de 1939, e formalizou-o exatamente a 15 de janeiro de 1940. Alterou a sua designação para Deutsche Emaillewaren-Fabrik (Fábrica Alemã de Utensílios Esmaltados) ou DEF, e depressa passou a ser reconhecida como Emalia. Atualmente, os esmaltes também são usados ​​para se referir a produtos de verniz que, quando aplicados a um substrato, criam um revestimento resistente. Os esmaltes diferem das tintas por conterem um teor de resina mais elevado. Inicialmente, recrutou uma equipe de sete trabalhadores judeus (incluindo Abraham Bankier, que o ajudou a gerir a empresa) e 250 polacos não-judeus. No seu auge, em 1944, o negócio empregava 1750 trabalhadores, mil eram judeus. Schindler ajudou a gerir a Schlomo Wiener, uma distribuidora que vendia os artigos de esmaltados, e era arrendatário da Prokosziner Glashütte, uma fábrica de produção de vidro.

Paul Rusesabagina (Don Cheadle) é gerente do Hotel des Mille Collines, propriedade da empresa belga “Sabena”. Relata um período de aumento da tensão entre a maioria hutu e a minoria tutsi, duas etnias de um mesmo povo que ninguém sabe diferenciar uma da outra a não ser pelos documentos. Tudo começa quando o presidente de Ruanda morre em um atentado, como retaliação, após assinar um acordo de paz. Imediatamente os hutus entram em guerra aos tutsis, dando início a matança genocida destes últimos. A República de Ruanda é um país sem costa marítima localizado na região dos Grandes Lagos da África centro-oriental, fazendo fronteira com Uganda, Burundi, República Democrática do Congo e Tanzânia. Ruanda recebeu uma atenção internacional considerável devido ao genocídio ocorrido em 1994, no qual cerca de 800 mil pessoas foram mortas. Desde então, o país viveu uma grande recuperação social e, hoje em dia, apresenta um modelo de desenvolvimento que é considerado exemplar para países em desenvolvimento. Em 2009, uma reportagem da rede de notícias CNN classificou Ruanda como tendo a história de maior sucesso do continente, tendo alcançado estabilidade, crescimento da economia, tendo em vista que a renda média triplicou nos últimos dez anos e integração internacional. Em 2007, a revista Fortune publicou um artigo intitulado: Why CEOs Love Rwanda. A capital, Quigali, é a primeira cidade africana a ser galardoada com o Habitat Scroll of Honor Award, em reconhecimento de sua “limpeza, segurança e conservação do modelo urbano”. Em 2008, Ruanda tornou-se o primeiro país a eleger uma legislatura nacional na qual a maioria dos membros eram mulheres.

Ruanda aderiu à Commonwealth of Nations em 29 de novembro de 2009, seu 54º membro, fazendo do país historicamente “um dos apenas três membros sem um passado colonial britânico”. A população é predominantemente jovem e rural, com densidade entre as mais altas nações na África. Os ruandeses são provenientes de apenas um grupo cultural e linguístico, o Banyarwanda, embora dentro deste grupo há três subgrupos: os hútus, tútsis e os tuás. Antropologicamente os tuás são pigmeus que habitam a floresta, descendentes dos habitantes de Ruanda. Todavia, estudiosos discordam sobre as origens e as diferenças entre os hútus e tútsis; alguns acreditam que as diferenças são derivadas de antigas castas sociais dentro de um único povo, enquanto outros acreditam que os hútus e tútsis chegaram ao país separadamente e de diferentes locais. O cristianismo é a maior religião do país e a língua principal é o quiniaruanda, falado pela maioria dos ruandeses, com o inglês, francês e o suaíli como línguas oficiais. Ruanda tem um sistema presidencialista de governo. O presidente atual é Paul Kagame, da Frente Patriótica Ruandesa (RPF), que assumiu o cargo em 2000. Ruanda hoje tem baixo nível de corrupção em comparação com os países vizinhos, embora as organizações de direitos humanos relatam supressão de grupos de oposição, a intimidação e as restrições à liberdade de expressão. O país tem sido governado por uma hierarquia administrativa autoritária desde os tempos pré-coloniais. Há cinco províncias delineadas por fronteiras estabelecidas em 2006. O Ruanda é um dos dois únicos países com maioria feminina no parlamento nacional. 

Embora próximo da Linha do Equador, o país possui um clima temperado fresco, devido a alta elevação geográfica. O terreno consiste principalmente de planaltos gramíneos e colinas suaves. A vida selvagem, incluindo raros gorilas-das-montanhas, resultou no turismo tornando-se um dos maiores setores da economia do país. O filme, baseado nas experiências de Kwedar como voluntário na fronteira entre os EUA e o México, foi lançado com críticas positivas. John DeFore, do The Hollywood Reporter, escreveu: “Artisticamente feito, mas totalmente acessível para um público geral, apresenta atuações fortes, mas nenhum nome no elenco que chame a atenção por si só”. O sucesso dos filmes anteriores de Kwedar levou ao início da produção de seu segundo longa-metragem, Sing Sing. Kwedar dirigiu, produziu e co-escreveu o filme (novamente com Bentley). Sing Sing estreou no programa Apresentações Especiais do Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2023 e ganhou o Prêmio do Público do Festival SXSW de 2024. Em seguida, foi adquirido pela A24 e lançado nos Estados Unidos em 12 de julho de 2024. O filme foi aclamado pela crítica e acumulou vários prêmios, incluindo três indicações ao 78º BAFTA, incluindo Melhor Ator para o ator principal Colman Domingo e Melhor Ator Coadjuvante para Clarence Maclin e três indicações ao 97º Oscar e Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator para Domingo. Kwedar co-escreveu o roteiro de Train Dreams com Clint Bentley, adaptando-o da novela homônima de 2011 de Denis Johnson. Estrelado por Joel Edgerton, o filme estreou no Festival de Cinema de Sundance de 2025 e foi adquirido para lançamento em streaming pela Netflix. O filme estreou em 7 de novembro de 2025 com aclamação da crítica. Recebeu quatro indicações ao 98º Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. Em 5 de setembro de 2025, o Deadline anunciou que Charles Melton, Rachel Brosnahan e Will Poulter estrelariam o longa-metragem de Kwedar, Saturn Return.

O filme narra os 80 anos da vida de Robert Grainier em torno de Bonners Ferry, Idaho. A vila de Bonners Ferry foi oficialmente fundada em 1893, na margem Sul do rio Kootenai. Espalhados pelo vale e pelas terras altas, havia alguns ranchos e propriedades rurais. Numerosas minas foram exploradas nas montanhas próximas, incluindo a Mina Continental, nas montanhas Selkirk. A indústria madeireira também cresceu rapidamente. Bonners Ferry, construída sobre palafitas para evitar as inevitáveis ​​cheias da primavera, parecia ser uma cidade em pleno crescimento. No início do século XX, a cidade tornou-se o centro de uma comunidade madeireira e agrícola. As terras do vale foram drenadas, diques foram construídos e fazendas foram desmatadas nos platôs. O fértil Vale Kootenai ficou conhecido como o “Nilo do Norte”, enquanto a Bonners Ferry Lumber Company cresceu e se tornou uma das maiores serrarias do mundo. O centro da cidade tomou forma com a construção de edifícios de tijolos, substituindo os antigos sobre palafitas. A conclusão da Barragem de Libby em 1975 diminuiu a ameaça de inundações graves. Em 20 de setembro de 1974, a Tribo Kootenai, liderada pela presidente Amy Trice, declarou guerra ao governo dos Estados Unidos. Seu primeiro ato foi posicionar soldados em cada extremidade da rodovia que atravessa a cidade, os quais cobrariam um pedágio das pessoas para atravessar o que antes era território ancestral da tribo. O dinheiro seria usado para abrigar e cuidar dos membros idosos da tribo. A maioria das tribos nos Estados Unidos está proibida de declarar guerra ao governo americano devido a tratados, mas a Tribo Kootenai nunca assinou um tratado. A disputa resultou na concessão, por parte do governo dos Estados Unidos, de uma área de 10,5 acres (42.000 m²) que hoje constitui a Reserva Kootenai. Bonners Ferry fica a 13 km (8 milhas) do local do impasse de Ruby Ridge em 1992, que ocorreu nos arredores de Naples, Idaho. Em 2025, o aclamado filme de época americano Train Dreams foi ambientado em Bonners Ferry. A trama retrata a vida e as dificuldades dos lenhadores do Noroeste do Pacífico no início do século XX.

      

Chegando à região pela Great Northern Railway como uma criança órfã, Robert abandona a escola e passa seus anos de juventude sem direção ou propósito, até conhecer Gladys Olding. Eles se casam, constroem uma cabana de madeira ao longo do rio Moyie e têm uma filha, Kate. Robert começa a trabalhar na construção da ferrovia Spokane International Railway. Lá, ele testemunha um trabalhador chinês sendo atirado de uma ponte por um grupo de trabalhadores brancos por razões obscuras, o que lhe causa visões perturbadoras do homem e sonhos recorrentes em que ele é atropelado por um trem. Mais tarde, Robert aceita um trabalho sazonal na extração de madeira, mas isso o mantém longe de Gladys e Kate por longos períodos. Robert conhece muitos homens que o marcam, mas também presencia muitas tragédias ao longo do caminho. Um trabalhador é morto por um justiceiro que buscava vingança pelo assassinato do irmão; vários outros morrem atingidos por uma árvore que cai, e seus túmulos são marcados por pares de botas pregadas nas árvores. Robert se torna amigo de um lenhador, Arn Peeples, que fica gravemente ferido por um galho que cai e morre alguns dias depois. Embora Robert tente encontrar trabalho mais perto de casa, ele enfrenta dificuldades na economia pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ele e Gladys decidem cultivar a terra e construir uma serraria para que ele possa parar de trabalhar com extração de madeira.

No entanto, quando Robert retorna de sua última temporada de trabalho na extração de madeira, ele descobre a cabana destruída em um incêndio florestal, e Gladys e Kate estão desaparecidas. Desolado, ele recebe a companhia de seu amigo Ignatius Jack e, em seguida, reconstrói a cabana.  Ao retornar ao trabalho na extração de madeira, Robert se sente deslocado em meio à nova tecnologia e aos homens mais jovens e rudes, então decide parar. Ao aceitar um emprego como cocheiro para os moradores da cidade, Robert conhece Claire Thompson, do Serviço Florestal dos Estados Unidos, que está na cidade para realizar um levantamento e o encoraja. Ele caminha constantemente pela floresta, acreditando que às vezes consegue sentir os espíritos de sua esposa e filha, e espera não os afugentar; Claire, por sua vez, conta-lhe como seu marido morreu após uma longa doença. Certa noite, Robert acredita ter visto Kate, aparentemente ferida, retornar à cabana. Ele cuida de seus ferimentos e depois brinca com a pequena Kate à beira do rio. Contudo, após uma noite de sonhos, ele acorda e a encontra desaparecida, com uma janela aberta. Ele decide continuar morando na cabana, caso ela retorne algum dia. Os anos passam e o mundo muda ao redor de um Robert envelhecido e abatido, que viaja no trem Great Northern até Spokane, testemunhando o voo de John Glenn pela televisão.

O filme termina num dia de primavera em que Robert decide voar num biplano. Enquanto o avião faz acrobacias e círculos no ar, imagens e sons de pessoas e lugares ao longo de sua vida passam pela sua mente. O narrador conta que Robert morreu enquanto dormia na cabine em novembro de 1968, sem deixar herdeiros, mas que naquele dia de primavera no avião, “ao perder completamente a noção de cima e de baixo, ele se sentiu, finalmente, conectado a tudo”. Em fevereiro de 2024, foi noticiado que o filme seria produzido por Marissa McMahon e Ashley Schlaifer, com a Black Bear como uma adaptação da novela Train Dreams, de Denis Johnson (2011), escrita por Clint Bentley e ilustrada por Greg Kwedar, e dirigida por Clint Bentley, com Felicity Jones e Joel Edgerton nos papéis principais. A produção inclui Marissa McMahon e Ashley Schlaifer, da Kamala Films, e Will Janowitz, Teddy Schwarzman e Michael Heimler, da Black Bear. Em maio de 2024, Kerry Condon, William H. Macy e Clifton Collins Jr. juntaram-se ao elenco. As filmagens principais começaram em Washington em abril de 2024, com locações incluindo Tekoa, Snoqualmie, Spokane, Metaline Falls e Colville. A produção foi aprovada para apoio do Programa de Incentivo à Produção da Washington Filmworks.

Embora Bentley e o diretor de fotografia Adolpho Veloso tenham considerado filmar em película, o cronograma de 29 dias da produção tornou isso impraticável; como resultado, as filmagens foram feitas digitalmente. Bentley afirmou que apenas um número limitado de árvores reais foi derrubado durante a produção; as cenas que demonstravam personagens cortando uma árvore foram realizadas usando um adereço artificial construído de madeira e fibra de vidro, com efeitos visuais aplicados para estender o tronco e a copa para se assemelharem a uma árvore de tamanho real. Will Patton forneceu a narração para o filme. Ele também havia narrado anteriormente o audiolivro da novela de Denis Johnson. Em entrevista à Variety, Veloso menciona que o filme foi filmado inteiramente com luz natural usando uma câmera de cinema ARRI Alexa 35. Além disso, Veloso construiu um suporte personalizado para velas a fim de contornar a regra do set que proibia chamas abertas. Uma canção original gravada para o filme e interpretada por Nick Cave, “Train Dreams”, não foi incluída na versão exibida no Festival de Cinema de Sundance; ela foi adicionada em lançamentos posteriores durante os créditos finais. Esta ideia representada em termos da semelhança foi suficiente ao desenho mais correto na inscrição como esta: “Isto não é um cachimbo”, para que logo a figura esteja obrigada a sair de si própria, isolar-se de seu próprio espaço e, finalmente, pôr-se a flutuar, longe ou perto de si mesma, não se sabe, se semelhante ou diferente de si.                     

No oposto de “Isto não é um cachimbo”, L`Art de la conversation: numa paisagem de começo do mundo ou mesmo de gigantomaquia, dois personagens minúsculos estão falando: discurso inaudível, murmúrio que é logo retomado no silêncio das pedras, no silêncio dessa parede em desaprumo que domina, com seus blocos enormes, os dois tagarelas mudos; ora esses blocos amontoados em desordem uns sobre os outros, formam a sua base, um conjunto de letras onde é fácil decifrar a palavra: rêve – sonho que é possível, olhando melhor, completar com trêve, trégua, ou crêve, morte, ou morra, arrebente, como se todas essas palavras frágeis e sem peso tivessem recebido o poder de organizar o caos das pedras. Ao contrário, pois por detrás da tagarelice despertada, mas logo perdida, dos homens, as coisas pudessem, em seu mutismo e em seu sono, compor uma palavra, estável que anda poderá apagar, palavra que designa a mais fugidia das imagens. Mas não é tudo: pois segundo Foucault, é no sonho que os homens, enfim, reduzida ao silêncio, comunicam com a significação das coisas, e se deixam impressionar por essas palavras enigmáticas, insistentes, que vem de outro lugar. Isto não é um cachimbo, era a incisão do discurso na forma das coisas, era seu poder ambíguo de negar e de desdobrar: A arte da conversa é a gratidão autônoma das coisas que forma as suas próprias palavras na indiferença dos homens, impondo a eles, sem mesmo que saibam, em sua tagarelice cotidiana. Para o que importa entre esses dois extremos, a obra de René Magritte desdobra o jogo das palavras e imagens.

Os títulos, frequentemente inventados a posteriori e por outrem, se inserem nas figuras onde o ponto em que podem se agarrar, estava se não marcado, autorizado de antemão, onde representam um ambíguo. Foucault nos coloca em dupla condição diante de um complexo esboço filosófico sobre a arte que, ao mesmo tempo, é arte enquanto abstração. Dois sujeitos escapam ao marcado mundo das semelhanças: o leitor e o expectador. Este mesmo campo das semelhanças serve à representação e igualmente a ordena, enquanto a similitude se estabelece na incerteza e na flutuação. Tudo isso é necessário para afirmar que “em nenhum lugar há um cachimbo” (p. 34). O que importa saber para além da representação de Magritte é que os signos e as coisas, dois universos de semelhanças, estão unidos pelo mesmo jogo. A semelhança domina a trama do mundo das coisas. O que Foucault chamou de “um apagar do lugar-comum” não é mais que a ausência de espaço entre os signos da escrita e as linhas da imagem. A arte escreve algo em nós, discursa e apresenta enunciados de difícil compreensão. Um objeto num quadro é um volume organizado e colorido de tal sorte que sua forma se reconhece logo e que não é necessário nomeá-lo, mas no objeto, a massa necessária é reabsorvida, o nome inútil é despedido; Magritte elide o objeto e deixa o nome imediatamente superposto à massa.

O fuso substancial do objeto não é mais representado senão por seus dois pontos extremos, a massa que faz sombra e o nome que designa. L`Alphabet des Révélations se opõe muito exatamente ao Personagem caminhando em direção do horizonte: para Foucault, um grande quadro de madeira dividido em dois painéis, à direitas, formas simples, perfeitamente reconhecíveis, um cachimbo , uma chave, uma folha, um copo; ora, embaixo do painel, a figuração de um rasgo mostra que essas formas não são nada além de recortes numa folha de papel sem espessura; sobre o outro painel, uma espécie de barbante torcido e inextricável não desenha nenhuma forma reconhecível. Sem massa, sem nome, forma e volume, recorte vazio, tal é o objeto, entenda-se, que havia desaparecido do quadro precedente. É preciso não se enganar: num espaço em que cada elemento parece obedecer ao único princípio de representação plástica e da semelhança, os sinais linguísticos, que pareciam excluídos, que rondavam de longe à volta da imagem, e que o arbitrário do título parecia ter afastado para sempre, se aproximaram sub-repticiamente: introduziram na solidez da imagem, uma desordem – uma ordem que só lhes pertence. Fizeram fugir o objeto, que revela a finura de sua película. Parece, grosso modo, que Magritte dissociou a semelhança da similitude e joga esta contra aquela.

A semelhança tem um padrão impreciso, mas que funciona como elemento original que ordena e hierarquiza a partir de si todas as cópias, cada vez mais fracas, que podem ser tiradas. Assemelhar significa uma referência primeira que prescreve e classifica. O similar se desenvolve em séries que não tem começo nem fim, que é possível percorrer num sentido ou em outro, que não obedecem a nenhuma hierarquia, como num colegiado universitário, mas se propagam sob a forma de pequenas diferenças em inúteis pequenas diferenças. A semelhança serve à representação, que reina sobre ela; a similitude serve à repetição, que corre através dela. A semelhança se ordena segundo o modelo que está encarregada de acompanhar e de fazer reconhecer; a similitude faz circular o simulacro como relação indefinida e reversível do simular ao simular. Na Décalcomanie (1966), uma cortina vermelha de largas dobras que ocupa dois terços do quadro subtrai ao olhar uma paisagem do céu, do mar e de areia. Ao lado da cortina, dando como de costume, as costas ao espectador, o homem com chapéu-coco olha para o perigo.

A cortina se encontra recortada com uma forma que é exatamente a do homem: como se fosse ele próprio um pedaço de cortina cortado com a tesoura. Nessa larga abertura, vê-se a praia. O que se deve compreender? É o homem destacado da cortina e, ao se deslocar permite ver o que ele provavelmente estava olhando quando se misturava com a dobra da cortina? Decalcomania? Deslocamento e mudança de elementos similares, mas, de modo alguma reprodução semelhante: “corpo=cortina”, diz representação semelhante. A semelhança comporta uma única asserção, sempre a mesma. A similitude as afirmações diferentes, que dançam juntas, apoiando-se e caindo umas em cima das outras. Expulsa do espaço do quadro, excluída da relação entre as coisas que reenviam uma à outa, a semelhança desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar, onde estaria liberta do jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança ser a soberania que faz surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das coisas, não é própria ao pensamento? “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado ser semelhante; ele assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o mundo oferece”. O pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio essas coisas cuja similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse ponto onde está na vertical um pensamento sob o modo da semelhança e das coisas que estão nas relações de similitude.

A pergunta que o arguto filósofo francês faz é a seguinte: “Isto não é um cachimbo” é suficiente para a questão: quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os elementos dispostos, seja deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura um jogo de transferências que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no plano do quadro sem nada afirmar, nem representar nesses jogos da similitude. Em Les Liaisons Dangereuses uma mulher nua mantém diante de si um espelho que a esconde quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados, baixa a cabeça, que volta para a esquerda como se quisesse não ser vista e não ver que é vista. Esse espelho, que se encontra no plano do quadro e de frente para o espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega aparentemente esconde. O espelho funciona um pouco ao modo de uma tela radioscópica. Mas com todo um jogo de diferenças. É um filme de drama americano-britânico dirigido por Stephen Frears, lançado em 1988. Este filme é uma adaptação da peça de Christopher Hampton (1985), que por sua vez foi adaptada do famoso romance epistolar de Pierre Choderlos de Laclos, Les Liaisons Dangereuses (1782). Ganhou três Oscars, incluindo o de Melhor Roteiro Adaptado para Christopher Hampton.

A mulher é ali sutilmente vista de perfil, inteiramente voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço não estendido para carregar o espelho pesado, mas dobrado sobre os seios; a longa cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na imagem do espelho, à esquerda, ligeiramente interrompida pela moldura do espelho, no momento desse ângulo brusco. A imagem é notavelmente menor do que a própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar; translações sem ponto de partida nem suporte. Dia virá no qual a própria imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em circulação.     

Bibliografia Geral Consultada,

BALANDIER, Georges, Sociologie Actuelle de L’Afrique Noire. Paris: Presses Universitaires de France, 1971; FREUD, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos. Capítulo VI, “O trabalho do sonho”. In: Obras Completas, Volume V. Rio de Janeiro:  Editora Imago, 1972; MARCHAL, Roland, “La Cause des Armes au Mozambique: Anthropologie d`une Guerre Civile”. In: Cultures & Conflits, 1990; DERVILLE, Alain, Agricultura no Norte durante a Idade Média: Artois, Cambrésis, Valônia Flandres. Villeneuve-d `Ascq: Editor Universidade Septentrion, 1999; HOBSBAWM, Eric, Nazioni e Nazionalismi dal 1780. Programma, Mito, Realtà. Torino: Einaudi Editore, 2002; SAIDEL, Rochelle, The Jewish Women of Ravensbruck Concentration Camp. New York: Terrace Books Editor, 2006; MARX, Karl, La Questione Ebraica. Roma: Editori Riuniti, 1964; Idem, Contribuição à Crítica da Economia Política. 4ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011; MAGALHÃES, Fernanda Cândido, A Teoria da Evolução de Charles Darwin e sua Representação Social Contemporânea. Tese de Doutorado.  Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. Centro de Educação e Humanidades. Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2013; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Nelson Rolihlahla Mandela: Um Homem Justo”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 14 de dezembro de 2013; FONSECA, Danilo Ferreira, Etnicidade e Luta de Classes na África Contemporânea: Ruanda (1959-1994) e África do Sul (1948-1994). Tese de Doutorado em História. Programa de Estudos Pós-Graduados em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; BRAGA, Élcio, “Paul Rusesabagina: ‘As palavras são as melhores armas jamais vistas’”. In: https://oglobo.globo.com/mundo/13/02/2015; FOUCAULT, Michel, Isto não é um cachimbo. 7ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2016; BENSAID, Daniel, Os Despossuídos: Karl Marx, os Ladrões de Madeira e o Direito dos Pobres. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016; OLIVEIRA, Heitor Coelho Franca de, Marx na Transição: sobre a Relação entre Teoria e Práxis n`A Ideologia Alemã. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; RJONES, Dale W., Spokane International Railway. United States: Arcadia Publishing, 2019; TRACEY, Liz, “The Chinese Exclusion Act: Annotated”. In: Daily, 19 de maio de 2022; GUERRA, Gustavo Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diário. Madrid, 11 de março de 2026; entre outros.

sábado, 2 de maio de 2026

Estação Bielorrúsia – Guerra Patriótica, Trabalho & Ética de Solidariedade.

            Na terra sofredora, as explosões estão trovejando hoje e as pessoas estão morrendo”. Alexander Lukashenko

        Aleksandr Grigorievitch Lukashenko, ou Łukašenka, nascido em 30 de agosto de 1954 é um historiador, militar, economista, diretor agrícola e político bielorrusso. É o atual presidente da Bielorrússia. Eleito pela primeira vez em 20 de julho de 1994 com mandato até 2001, foi novamente reeleito. O seu governo é muito controverso: os seus apoiadores afirmam que sua política econômica salvou o país das piores consequências do capitalismo pós-soviético. Entretanto, seus opositores o acusam de ser ditador, sendo reconhecido inclusive como “o último tirano da Europa”. Os Estados Unidos da América e a União Europeia proibiram a entrega de vistos para ele e a sua família. É considerado o homem mais rico da Bielorrússia, com uma fortuna estimada em 2010 de US$ 9 bilhões de dólares. Lukashenko foi membro do Partido Comunista da União Soviética até a Bielorrússia e os outros estados soviéticos tornarem-se Independentes. Quando jovem, teve experiência militar no exército soviético, depois se tornou vice-presidente de uma fazenda coletiva (sovkhoz). Foi eleito deputado no Conselho Supremo da República da Bielorrússia, em 1990, onde ele apoiou os esforços de linha dura para expulsar reformistas na Era de Mikhail Gorbachev, foi o último governante soviético, estando no poder de 1985 a 1991. Formou-se em Direito e em Produção Agrícola. Entrou para o Partido Comunista na década de 1950 e cresceu rapidamente na hierarquia desse partido. Implantou duas reformas importantes em seu governo: a glasnost e a perestroika.

Ele presidiu o comité anti-corrupção do parlamento em 1993 e concorreu à presidência em uma plataforma populista nas eleições de 1994. Logo depois, ele iria empurrar uma nova constituição, apesar do protesto de dezenas de membros do parlamento que pediram seu impeachment, que, basicamente, concedido o regime de Lukashenko uma ditadura legal. Em 2005, 2006 e em 2008, ele foi presidente do Conselho Interestadual da Comunidade Econômica da Eurásia. Lukashenko nasceu na cidade de Orsha, em 31 de agosto de 1954. Formou-se na Universidade Estatal Pedagógica de Mogilev em 1975 e na Academia Agrícola da Bielo-Rússia em 1985, em História e Economia. Em 1975, Lukashenko casou com sua namorada de colégio, Galina Rodionovna, e eles tiveram dois filhos: Viktor, nascido em 1975, e Dmitry, nascido em 1980. Viktor trabalha como assessor do seu pai, mas Lukashenko considera, aparentemente, como seu “herdeiro” um filho de outra relação matrimonial, Nikolai Lukashenko, nascido por volta de 2005 (a mãe é alegadamente Irina Abelskaya, sua médica) e que ele apresentou oficialmente ao casal Obama e levou a eventos como a Assembleia Geral da ONU e a um desfile militar na China em 2015. Sua esposa Galina vive afastada do público desde o início de seu primeiro mandato, numa fazenda remota em Shkloŭ, enquanto a biografia presidencial oficial omite qualquer menção a ela e mesmo aos filhos. 

Lukashenko é reconhecido por ter um grande interesse em concursos de beleza do seu país. Em 2019, a imprensa começou a reportar que ele estaria namorando a Miss Bielorrússia 2018, Maria Vasilevich, que havia participado do Miss Mundo 2018 e com quem ele havia sido visto em diversos eventos públicos, inclusive na Copa do Mundo FIFA de 2018. Os dois foram vistos dançando juntos nos bailes de final de ano de 2019 e 2020. Galina Rodionovna, sua esposa, foi banida e não participa da vida pública do marido. Segundo o website Alfa da Lituânia em janeiro de 2010, ela vive no distrito de Shkloŭ, “uma remota vila bielorrussa esquecida por todos”. Em novembro de 2019, a imprensa reportou que Maria Vasilevich havia ganho um assento no parlamento em eleições fraudadas. Segundo o The Sun britânico, “nenhum candidato da oposição ganhou uma cadeira nas eleições parlamentares de fim de semana - embora Vasilevich, que não tem experiência e nem mesmo campanha, tenha conquistado uma cadeira como parlamentar”. Grandes eventos como futebol e hóquei no gelo continuaram com sua agenda regularmente no país e Lukashenko chegou a dizer que jogar hóquei protege contra o vírus. “É melhor morrer de pé do que viver de joelhos! Não há vírus no gelo. Isto é um frigorífico. Eu vivo a mesma vida que sempre vivi, ainda ontem tive uma sessão de treino com a minha equipe. Encontrámo-nos, apertámos as mãos, abraçámo-nos, batemos uns nos outros”. 

Em 28 de julho de 2020, Lukashenko anunciou que testou positivo para a covid-19, mas que já estava recuperado. Logo após sua reeleição em 2020, depois de 26 anos no poder, os bielorrussos começaram a protestar, dizendo que as eleições haviam sido fraudadas. Segundo a Euronews em 11 de agosto, “Lukashenko diz que não passam de ´carneiros ao serviço das potências estrangeiras` e ´querem armar confusão no nosso país. Avisei que não iriam fazer o mesmo que na Ucrânia, por muito que queiram fazer isso. As pessoas têm de se acalmar`”. Na Bielorrússia os votos dos eleitores são feitos em cédulas de papel, onde os eleitores marcam suas escolhas e em seguida depositam o voto em uma urna. A contagem dos votos é realizada manualmente pelas comissões eleitorais nas seções eleitorais. A transparência e a segurança desse processo têm sido amplamente questionadas. Observadores internacionais e grupos dos direitos humanos frequentemente apontam para possíveis manipulações e irregularidades no registro e na contagem dos votos. Sua opositora Svetlana Tikhanovskaya pediu a recontagem dos votos, mas teve que deixar o país logo após o pleito, se refugiando na Lituânia. Antes, o marido de Svetlana, Sergei Tikhanovsky, um blogueiro popular, havia sido impedido de concorrer e enviado para a prisão. Enquanto isto, Maria Vasilevich, escreveu em seu Instagram que os protestos deveriam parar. “Aqueles que causam desordem, parem com a agressão!”, escreveu em seu Instagram. Enquanto a União Europeia condenava a repressão aos protestos após as eleições de 2020, Lukashenko recebeu apoio da China e da Rússia, de quem é aliado.  Em 3 de setembro de 2020, após o governo alemão ter noticiado no dia anterior que o opositor de Putin, Alexei Navalny (1976-2024), havia sido envenenado, Lukashenko disse que “não houve envenenamento de Navalny”.      

       A Bielorrússia é um país sem saída para o mar, relativamente plano, com grandes extensões de terreno pantanoso. De acordo com uma estimativa realizada em 2005 pela Organização das Nações Unidas, 40% do país está coberto por florestas. Diversos riachos e cerca de 11 mil lagos podem ser encontrados na Bielorrússia. Três grandes rios cortam o país: o Neman, o Pripyat, e o Dnieper. O Neman corre em direção oeste, rumo ao mar Báltico, enquanto o Pripyat vai para Leste, rumo ao Dnieper, que por sua vez deságua no mar Negro. O ponto mais elevado geograficamente da Bielorrússia é o Dzyarzhynskaya Hara (Monte Dzyarzhynsk), com 345 m de altitude, e seu ponto mais baixo é o rio Neman, situado a 90 m. A altitude média do país é de 160 m acima do nível do mar. Seu clima apresenta invernos frios, com temperaturas médias, em janeiro, de −6 °C, e verões frescos e úmidos, com uma temperatura média de 18 °C. A Bielorrússia tem uma média de chuva anual de 550 a 700 mm. O país se situa na zona de transição entre o clima continental e o clima oceânico. Entre os recursos naturais da Bielorrússia estão depósitos de turfa, pequenas quantidades de petróleo e gás natural, granito, dolomita (calcário), marga, giz, areia, cascalho e argila. Cerca de 70% da radiação resultante do desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986 na vizinha Ucrânia, penetrou o território bielorrusso, e em 2005 cerca de um quinto das terras do país, especialmente fazendas e florestas nas províncias do Sudeste continuam a ser afetadas pela cinza nuclear. As Nações Unidas e agências internacionais procuraram reduzir o nível de radiação nas áreas afetadas, através do uso de substâncias retentoras de césio e do cultivo de colza, visando diminuir os níveis de césio 137 no solo.

A Bielorrússia faz fronteira com a Letônia, ao Norte, com a Lituânia, a Noroeste, a Polônia a Oeste, a Rússia ao Norte e Leste e a Ucrânia ao Sul. Tratados realizados em 1995 e 1996 demarcaram as fronteiras da Bielorrússia com a Letônia e a Lituânia, porém a Bielorrússia não ratificou um tratado de 1997 que estabelecia a fronteira Bielorrússia-Ucrânia. A Bielorrússia e a Lituânia ratificaram os documentos que estabeleceram de maneira final a demarcação de suas fronteiras em fevereiro de 2007. As florestas bielorrussas ocupam 40% da superfície do país. São limpas, bem gerenciadas e altamente protegidas. A Constituição estipula que as florestas pertencem ao Estado; portanto, não há florestas privadas no país. Entretanto, algumas áreas florestais são arrendadas a empresas internacionais. A extração de madeira é altamente regulamentada a fim de manter a cobertura florestal estável e muitas áreas são protegidas. O alto número de guardas florestais e um nível relativamente baixo de corrupção permite que o país aplique suas leis melhor do que muitos de seus vizinhos, tais como Rússia, Ucrânia ou Polônia. A política de proteção florestal é de longa data. O corte maciço de madeira começou a corroer gravemente as florestas do país no início do século XX. Em 1945, eles haviam sido reduzidos a 25% do território da Bielorrússia. Entretanto, a partir dos anos 1950, a política ambiental do regime soviético enfatizou o equilíbrio entre a exploração e a proteção dos recursos naturais, de modo que no início dos anos 1990 o país havia voltado para a área florestal do início do século. A Floresta de Białowieża é um Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1992. Considerada “a última floresta primária da Europa”, foi usada como campo de caça pela aristocracia russa já no século XV.

Durante o período soviético, após a 2ª guerra mundial (1939-1945), ela se tornou uma área protegida, uma vitrine da política ecológica do regime comunista. Um refúgio para muitos mamíferos, notadamente o bisonte europeu, só ele concentra 70% da flora da Bielorrússia. Indivíduos de etnia bielorrussa constituem 81,2% do total da população do país. Os outros principais grupos étnicos são os russos (11,4%), poloneses (3,9%) e ucranianos (2,4%). Os dois idiomas oficiais do país são o russo e o bielorrusso. O russo é o principal idioma, utilizado por 72% da população, enquanto o bielorrusso, segunda língua oficial, é utilizado apenas por 11,9%. O polonês, o ucraniano e o iídiche oriental também são falados por minorias. A Bielorrússia tem uma densidade populacional de cerca de 50 hab./km2; 71,7% do total está concentrado nas áreas urbanas. Minsk, a capital e maior cidade do país, é lar de 1 741 400 dos 9 724 700 habitantes da Bielorrússia. Gomel, com 481 000 habitantes, é a segunda maior cidade do país, e capital do Voblast de Homel. Outras grandes cidades são Mogilev (365 100), Vitebsk (342 400), Hrodna (314 800) e Brest (298 300). Como muitos outros países europeus, comparativamente, a Bielorrússia tem um crescimento populacional negativo, e uma taxa negativa de crescimento natural. Em 2007 a população do país diminuiu em 0,41% e sua taxa de fertilidade era de 1,22. Sua taxa bruta de migração é de +0,38 por 1 000, indicando que a Bielorrússia tem uma imigração levemente superior à sua emigração. Em 2007, 69,7% da população do país tinha entre 14 e 64 anos de idade; 16% tem menos de 14, e 14,6% tem mais de 65. Sua população também está envelhecendo; enquanto a idade média atualmente é de 37, estima-se que a idade média dos bielorrussos estará entre 55 e 65 anos em 2050. Existem cerca de 0,88 homens para cada mulher no país. A expectativa de vida média é de 68,7 anos com 63,0 para homens e 74,9 para as mulheres.

Mais de 99% dos bielorrussos são alfabetizados. Historicamente, a Bielorrússia teve a predominância de diferentes religiões, principalmente o cristianismo ortodoxo, o catolicismo especialmente nas regiões ocidentais, diferentes denominações do protestantismo, especialmente durante o período de união com a Suécia protestante. Grandes minorias praticam o judaísmo e outras religiões. Diversos bielorrussos se converteram à Igreja Ortodoxa Russa depois que a Bielorrússia foi anexada pela Rússia, após a partilha da Comunidade Polonesa-Lituana. Como consequência, a ortodoxia russa tem atualmente mais adeptos que as outras denominações cristãs. A minoria católica romana do país, que forma cerca de 10% da população do país, e se concentra na parte ocidental do país, especialmente em torno de Hrodna, e é formada por uma mistura de bielorrussos e da minoria polonesa e lituana do país. Em torno de 1% da população pertence à Igreja Greco-Católica Bielorrussa. Atualmente, o país tem a maior proporção de católicos romanos em toda a Europa do Leste. A Bielorrússia já foi um dos grandes centros judaicos da Europa, com até 10% da população pertencendo à religião em determinado ponto de sua história, porém a população de judeus foi reduzida drasticamente pelas guerras, fomes, o Holocausto e a imigração subsequente; hoje em dia os judeus formam uma minoria bem pequena, de cerca de 1% ou menos. Os tártaros de Lipka, muçulmanos, totalizam mais de 15 000 indivíduos. De acordo com o Artigo 16 da Constituição da Bielorrússia, o país não tem religião oficial. Embora a liberdade de religião seja estabelecida no mesmo artigo, organizações religiosas tidas como ameaçadoras ao governo, à ordem social ou ao país podem ser proibidas.

    O nome Bielorrússia deriva da expressão Rússia Branca (“Branco-Rus”). O nome descrevia a área da Europa Oriental coberta por neve e povoada por povos eslavos, em oposição à Ruténia Negra, controlada pelos lituanos. Outra origem para o nome poderia ser a vestimenta branca utilizada no período pela população eslava. Outras hipóteses para o nome diriam respeito às terras meridionais do país Polatsk, Vitsiebsk e Mahilyow, que não haviam sido conquistadas pelos tártaros; antes de 1267, a terra que não havia sido conquistada pelos mongóis era considerada parte do “Rus Branco”, dado que bel ou biel também significaria “livre”, num período em que a maior parte da Rússia se encontrava sob o jugo dos tártaros. O nome apareceu pela primeira vez na literatura medieval alemã e latina. Nas crônicas escritas por Jan de Czarnków (1320-1387), mencionava-se que o grão-duque lituano Jogaila e sua mãe teriam sido encarcerados, em 1381, em “Albae Russiae, Poloczk dicto”. O termo latino Alba Russia foi utilizado novamente pelo Papa Pio VI, ao estabelecer ali uma Sociedade Jesuíta em 1783. Sua bula papal decretava: “Approbo Societatem Jesu in Alba Russia degentem, approbo, approbo”. Historicamente, o país foi designado em idiomas ocidentais como “Ruténia Branca”; o primeiro uso de “Rússia Branca” para se referir à Bielorrússia se deu no fim do século XVI, pelo inglês sir Jerome Horsey (1550-1626). Durante o século XVII, os czares russos utilizaram o termo “Rus' Branco” para descrever etnograficamente as terras conquistadas do Grão-Ducado da Lituânia.

            Pio VI, nascido Giovanni Angélico Braschi (1717-1799) foi o Papa da Igreja Católica e Soberano dos Estados Papais de 15 de fevereiro de 1775 até a data de sua morte. Seu Pontificado decorreu num dos períodos mais turbulentos da história europeia, quando o advento do Iluminismo, o avanço do Absolutismo estatal e, posteriormente, a eclosão da Revolução Francesa colocaram em tensão social a relação entre a Igreja e as monarquias. Pio VI enfrentou a supressão de instituições religiosas, o confisco de bens eclesiásticos e as tentativas de subordinar a Igreja ao poder civil. Sua firme resistência às políticas revolucionárias e sua defesa da liberdade espiritual conduziram-no ao dramático exílio pelas forças francesas, que o levaram cativo até Valença, onde faleceu após prolongado sofrimento. Braschi se tornou o secretário particular do legado papal, cardeal Tommaso Ruffo. Bispo de Ostia e Velletri. O cardeal Ruffo o levou como seu conclavista no Conclave de 1740 e, quando este se tornou decano em 1740, Braschi foi nomeado auditor, cargo que ocupou até 1753. Sua habilidade na condução de uma missão à corte de Nápoles lhe rendeu a estima do Papa Bento XIV. Em 1753, após a morte do cardeal Ruffo, Bento nomeou Braschi secretário. Em 1755 nomeou um cânone da Basílica de São Pedro. Em 1758, pondo fim ao noivado, ele foi ordenado ao sacerdócio como referendo da Assinatura Apostólica em 1758 e ocupou esse cargo até 1759. Ele também se tornou auditor e secretário do cardeal Carlo Rezzonico, sobrinho do papa Clemente XIII.

Em 1766, ele foi apontado como o tesoureiro da câmera apostólica pelo Papa Clemente XIII. Aqueles que sofreram com sua economia consciente conseguiram convencer o Papa Clemente XIV a elevá-lo ao cardinalato. Braschi foi elevado em 26 de abril de 1773 em Roma, como cardeal-sacerdote de Santo Onofre. Foi uma promoção que o tornou inócuo por um breve período de tempo. Ele então se retirou para a Abadia de Subiaco, da qual ele era abade de louvor. O Papa Clemente XIV morreu em 1774 e desencadeou um conclave para escolher um sucessor. Espanha, França e Portugal abandonaram todas as objeções à eleição de Braschi, que era um dos oponentes mais moderados da postura anti-jesuíta do falecido papa. Braschi recebeu apoio daqueles que não gostavam dos jesuítas e acreditavam que ele continuaria as ações de Clemente XIV e se manteria fiel ao breve “Dominus ac Redemptor” (1773) de Clemente, que viu a dissolução da ordem. Mas a facção zelanti, pró-jesuíta, acreditava que ele tinha uma simpatia secreta com os jesuítas e esperava reparação pelos erros sofridos no reinado anterior. Como resultado, Braschi empossado como papa foi levado a situações em que ele dava pouca satisfação a ambos os lados. O cardeal Braschi foi eleito para o pontificado em 15 de fevereiro de 1775 e recebeu o nome pontifício de “Pio VI”. Ele foi consagrado ao episcopado em 22 de fevereiro de 1775 pelo cardeal Gian Francesco Albani e foi coroado no mesmo dia pelo cardeal Protodeacon Alessandro Albani.  

Pio VI abriu um jubileu que seu antecessor convocou e iniciou o ano do jubileu de 1775.  Os atos anteriores de Pio VI deram uma promessa justa de governo reformista e abordaram o problema da corrupção nos Estados papais. Embora ele fosse geralmente benevolente, Pio VI às vezes mostrava discriminação. Ele nomeou seu tio Giovanni Carlo Bandi como bispo de Ímola em 1752 e depois como membro da Cúria Romana, cardeal no consistório em 29 de maio de 1775, mas não ofereceu nenhum outro membro de sua família. Ele repreendeu o príncipe Potenziani, governador de Roma, por não ter lidado adequadamente com a corrupção na cidade, nomeou um conselho de cardeais para remediar o estado das finanças e aliviar a pressão dos impostos, chamado a prestar contas a Nicolò Bischi (1732-1813) pelo gasto de fundos “destinado à compra de grãos, reduziu os desembolsos anuais ao negar pensões a muitas pessoas proeminentes e adotou um sistema de recompensa para incentivar a agricultura”. Após sua eleição, Pio VI ordenou a libertação de Lorenzo Ricci, um padre jesuíta italiano, décimo oitavo superior-geral de 1758 a 1773. Superior Geral da Companhia de Jesus, que foi mantido prisioneiro no Castel Sant`Angelo, mas o general morreu “antes da chegada do decreto de libertação”. Foi o último superior-geral antes da Supressão da Companhia de Jesus. Talvez seja devido a Pio VI, que os jesuítas conseguiram escapar à dissolução na Ruténia Branca e na Silésia. Em 1792, o papa considerou o restabelecimento da Companhia de Jesus como um “baluarte contra as ideias da Revolução Francesa”, mas isso não aconteceu.

É um castelo localizado na margem direita do rio Tibre, diante da Ponte do Santo Anjo, próximo do Vaticano, no rione Borgo de Roma, Itália. Construído sobre as ruínas do antigo Mausoléu de Adriano e, posteriormente, dedicado ao Arcanjo São Miguel, é atualmente um museu. Sua primitiva estrutura foi iniciada no ano 135 pelo imperador Adriano como um mausoléu pessoal e familiar (Tumbas de Adriano), concluído por Antonino Pio em 139. O monumento, em travertino, era adornado por uma quadriga em bronze, conduzida por Adriano. Em pouco tempo, entretanto, a sua função foi alterada, sendo utilizado como edifício militar. Nessa qualidade, passou a integrar a Muralha Aureliana em 403. A sua atual designação remonta a 590, durante uma grande epidemia de peste que assolou Roma. Na ocasião, o Papa Gregório I afirmou ter visto o Arcanjo São Miguel sobre o topo do castelo, o qual embainhava a sua espada, indicando o fim da epidemia. Para celebrar essa aparição angélica, a estátua do referido anjo coroa o edifício: inicialmente um mármore de Raffaello da Montelupo, e desde 1753, um bronze de Pierre van Verschaffelt sobre um esboço de Gian Lorenzo Bernini. Durante a história medieval esta foi a mais importante das fortalezas pertencentes aos Papas. Serviu também como sistema prisional (cf. Foucault, 2014) na época dos movimentos de unificação da Itália no século XIX. De planta circular, o seu desenho renascentista influenciou a traça do Forte de São Lourenço do Bugio, em Portugal, e a do Forte de São Marcelo, no Brasil. A Ponte do Santo Anjo, sobre o rio Tibre, é ornada por doze estátuas de anjos esculpidas por Gian Lorenzo Bernini. De seu terraço superior, tem-se uma magnífica vista do rio Tibre, dos prédios da cidade e até do domo superior da Basílica de São Pedro.

A Invasão francesa da Rússia em 1812, também reconhecida como a Campanha Russa em França (Campagne de Russie) e Guerra Patriótica de 1812 na Rússia, foi um ponto de virada durante as chamadas Guerras Napoleônicas. Reduziu a dimensão das forças francesas e forças aliadas (o Grande Armée) para uma pequena fracção de sua força inicial, e provocou uma grande mudança na política europeia uma vez que enfraqueceu dramaticamente a hegemonia francesa na Europa. A reputação de Napoleão como “um gênio militar invencível foi severamente abalada”, enquanto antigos aliados do Império Francês, primeiro o Reino da Prússia e depois o Império Austríaco, romperam a sua aliança com a França, e trocaram de lado, desencadeando a guerra da Sexta Coligação. A campanha começou em 24 de junho de 1812, quando as forças de Napoleão atravessaram o rio Neman. Ele pretendia obrigar o imperador da Rússia Alexandre I (1777-1825) a permanecer no Bloqueio Continental do Reino Unido; um objetivo oficial era acabar com a ameaça de uma invasão russa da Polônia. Napoleão designou a campanha de Segunda Guerra Polaca em referência à Primeira Guerra Polaca; o governo russo proclamou uma Guerra Patriótica. Quase meio milhão de homens, o Grande Armée, marchou pela Rússia Ocidental, ganhando uma série de pequenas batalhas e uma grande batalha (Batalha de Smolensk), entre 16 e 18 de agosto. a ala direita do exército russo, sob o comando do general Peter Wittgenstein, bloqueou parte do exército, liderado pelo mal Nicolas Oudinot, na Batalha de Polotsk.

Esta ação impediu os franceses de avançar sobre a capital russa de São Petersburgo; o destino da guerra tinha que ser decidido na frente de Moscovo, onde o próprio Napoleão liderou suas forças.  Embora os russos tenham utilizado a política da terra queimada, e, por vezes, tenham atacado o inimigo com a cavalaria ligeira de cossacos, o seu exército principal retirou-se por cerca de três meses. Este recuo prejudicou a confiança no marechal-de-campo Michael Andreas Barclay, (1761-1818) levando Alexandre I a nomear um veterano, Príncipe Mikhail Kutuzov (1745-1813), o novo comandante-em-chefe. Finalmente, a 7 de setembro, os dois exércitos encontraram-se perto de Moscovo, na Batalha de Borodino. A batalha resultou na maior e mais sangrenta ação em um único dia, durante as Guerras Napoleónicas. Envolveu mais de 250 mil soldados e resultou em pelo menos 70 mil vítimas. Os franceses capturaram o campo de batalha, mas não conseguiram destruir o exército russo. Além disso, os franceses não conseguiram substituir as suas perdas, enquanto os russos o podiam fazer. Napoleão entrou Moscovo no dia 14 de setembro, depois de o exército russo ter, novamente, recuado. Mas, por essa altura, os russos tinham já evacuado a cidade e até libertado criminosos das prisões para complicar o avanço francês. Além disso, o governador, o conde Fyodor Rostopchin (1763–1826), ordenou que a cidade fosse incendiada. Alexandre I recusou-se a capitular, e as conversações de paz de Napoleão falharam. Em outubro, sem um sinal de vitória claro, Napoleão começou a sua retirada desastrosa de Moscovo, durante o período de chuvas e lama habituais no Outono russo. Na Batalha de Maloyaroslavets, os franceses tentaram chegar a Kaluga, onde poderiam encontrar alimentos para os homens e para os animais.

Mas o exército russo, bem alimentado, bloqueou a estrada, e Napoleão foi forçado a recuar pelo mesmo caminho de onde tinham vindo desde Moscovo, através das áreas fortemente devastadas ao longo da estrada de Smolensk. Nas semanas seguintes, o grande Armée sofreu golpes catastróficos como o início do Inverno Russo, a falta de suprimentos e constantes ataques de camponeses russos e tropas irregulares. Quando as restantes tropas do exército de Napoleão atravessaram o rio Berezina em novembro, já só restavam 27 mil soldados; o grande Armée tinha perdido 380 mil homens e 100 mil tinham sido feitos prisioneiros. Napoleão abandonou os seus homens e voltou para Paris para proteger a sua “posição como Imperador e preparar-se para resistir aos avanços dos russos”. A campanha terminou a 14 de dezembro de 1812, quando as últimas tropas francesas deixaram a Rússia. Um evento de proporções épicas e de grande importância para a história da Europa, a invasão francesa da Rússia tem sido objeto de muita discussão entre os historiadores. A importância da campanha na cultura russa pode ser vista na obra de Liev Tolstoi, Guerra e Paz; na composição de Tchaikovsky, Abertura 1812; e a sua identificação com a invasão alemã de 1941-1945, que se tornou reconhecida como a Grande Guerra Patriótica na União das Republicas Socialistas Soviética. Para um projeto dessas dimensões, em 1810 Napoleão começou a preparar uma tropa à altura.

A grande Armée reunia mais de meio milhão de homens. Eram 610 mil combatentes, levando 1 420 canhões. Ao todo, mais de 680 mil, se contarmos as tropas reservas. Esse gigantesco exército, além de franceses, era formado por gente do Reino da Prússia, Áustria, Baviera, Saxônia, Itália, Nápoles, Polônia, Espanha e Croácia. A campanha começou na madrugada do dia 24 de junho de 1812, quando o grande exército napoleônico cruzou o rio Neman e invadiu a Rússia sem avisos ou declarações formais de guerra, e a 16 de agosto atacava Smolensk. A ação foi um golpe nos planos de Alexandre I, que desde maio vinha montando seu próprio grande exército. Incluindo cossacos e milícias populares, chegava-se à espantosa cifra de 900 mil homens. O problema é que essa massa militar estava sendo reunida na Moldávia, na Crimeia, no Cáucaso, na Finlândia e em regiões do interior do império, longe demais do local de entrada do exército francês. Por isso, em junho de 1812 os russos só conseguiram colocar cerca de 280 mil homens e 934 canhões na fronteira ocidental. A importante cidade de Smolensk caiu rapidamente. O exército russo decidiu não dar muita batalha aos franceses, uma decisão difícil do alto comando para não correr o risco de perder importantes forças em uma batalha praticamente perdida. Eram três exércitos cuidando da fronteira. O primeiro, com 160 mil homens, combateria sob as ordens do gAL e ministro, Mikhail Bogdanovich Barclay de Tolly (1761-1818) em direção a São Petersburgo.

 

O segundo exército, de Pyotr Bagration (1765-1812), general e príncipe da Geórgia, tinha 62 mil homens e se fixara entre os rios Neman e Bug, ao Norte dos pântanos de Pripet. Já o terceiro exército, do general Pyotr Alexander Tormasov, tinha cerca de 58 mil homens e olhava para o sul, em direção a Kiev. Sem condições de contra-atacar, os russos começaram a se retirar para o interior do país. Era uma necessidade para oferecer combate aos invasores. Em 8 de julho, a Rússia saiu às ruas para ouvir um manifesto de Alexandre I que chamava o povo a combater os franceses. As milícias populares vieram por causa do chamado, apoiado pela Igreja Ortodoxa. Cossacos, camponeses e até ciganos se alistaram aos milhares. Mesmo assim, no dia 23 de julho o marechal Blason de Louis-Nicolas Davout (1770-1823) bloqueou a passagem do general Bagration em Mogilev na atual Bielorrússia e impediu sua reunião com Barclay e, por extensão, a reação russa. Os problemas já começavam a rondar a brigada francesa. Sem ter lutado nenhuma batalha decisiva, a grand Armée havia sido reduzida em dois terços por causa de fadiga, fome, deserção e morte. A vantagem continuava ao lado de Napoleão.           

No lado oposto, o czar reclamava da incompetência de Barclay em interromper o avanço francês e o substituiu pelo veterano general Mikhail Illarionovich Golenishchev-Kutuzov (1745-1813) em 20 de agosto. Este, contudo, após tomar ciência da delicada situação, continuou a estratégia do seu antecessor de “ceder terreno arrasado ao invasor ainda com mais vigor”. Na época, ele disse o seguinte a seus homens: “Os franceses vieram para cá sozinhos e sozinhos voltarão”. É preciso entender que essa retirada russa escondia um mecanismo perverso. Quanto mais os franceses avançavam, mais sofriam com a falta de comida e armamentos e cada vez mais se distanciavam da linha de suprimentos estabelecida na fronteira. Em paralelo, as fileiras de Alexandre I engordavam com alistamentos em massa. Preocupado em conseguir mantimentos, Napoleão rumou para a capital russa, onde tinha a certeza de poder se reabastecer. Não foi bem o que aconteceu. Em setembro, com uma armada já numerosa e organizada, o general Kutuzov achou que chegara o momento de parar e lutar. Estacionou seus então 155 mil homens e 640 canhões na aldeia de Borodino, a menos de 150 km de Moscou. No dia 7 de setembro, às 6 horas da manhã, Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil homens e 587 canhões. O sangue jorrou até depois do pôr-do-sol. Foram cerca de 16 horas de confronto ininterrupto, transformando-o na maior batalha de um dia das Guerras Napoleônicas. Apesar de a vitória formal ter sido francesa, a armada de Napoleão amargou 58 mil mortos, incluindo 48 generais. Os russos perderam quase metade de seu exército: 66 mil baixas, incluindo 29 generais entre elas a do talentoso general Bagration.             

A demora na chegada do reforço e o massacre do dia anterior fizeram Kutuzov optar pela difícil decisão da retirada ainda mais para o Leste e do abandono da capital. Mesmo sob severas reprimendas do czar, e de boa parte de seu estado-maior, Kutuzov conseguiu prevalecer a sua decisão de entregar a cidade sem oferecer combate nos portões, suportando uma forte pressão, e provando mais tarde que este sacrifício foi crucial para o estabelecimento do cruel destino do exército francês. Napoleão entrou então em Moscou, e encontrou a cidade surpreendentemente vazia evacuadas dias antes prevendo a invasão. Em meio a indisciplina das tropas francesas, e a falta de autoridade dos oficiais perante as suas tropas, que não conseguiam impedir o saque, a pilhagem e a deserção dos soldados; grandes incêndios provocados por fogueiras mal alocadas e sabotadores acabaram por transformar a cidade em pilhas de escombros. Enquanto Napoleão acampado esperava a rendição do czar, o inimigo recuperava seus exércitos rapidamente. Napoleão teve então de reavaliar as opções estrategicamente. Seu exército estava enfraquecido e com moral baixa. As linhas de abastecimento foram cortadas. A rendição inimiga não dava mostras de acontecer. Após cinco semanas de acampamento sobre as cinzas da cidade, o imperador francês decidiu dar meia volta e iniciar o retorno à França em 19 de outubro. Junto aos soldados, seguiram uma lenta procissão de carroças carregadas de peles, prata, porcelana e seda da utilidade da força bruta fruto dos saques.

Em 24 de outubro, 20 mil homens do general francês Alexis Joseph Delzons (1775-1812) procuravam suprimentos em Maloyaroslavets, a 121 km de Moscou. Ao dar com os primeiros franceses, o general russo Kutuzov cometeu um erro. Acreditando se tratar de uma fação desgarrada, enviou apenas 12 mil homens para detê-la. Na Batalha de Maloyaroslavets, apesar da vitória tática de Napoleão, o imperador francês foi empurrado de volta ao caminho devastado usado na ida. No dia 4 de novembro, uma neve pesada começou a cair sobre os franceses desnutridos. No dia 9 de novembro, a temperatura caiu para cerca de -26 °C e continuava baixando. O frio penetrava nas roupas esfarrapadas dos soldados e se somava à exaustão. Muitos, mal conseguiam andar, cair simplesmente significava não levantar mais, devido a tamanha fraqueza das tropas. Centenas de franceses acampavam para dormir nas longas noites nas estepes geladas e simplesmente amanheciam congelados devido ao inverno rigoroso ou então assados pela proximidade das fogueiras que montavam, na tentativa de escapar do frio. Somado a isto, surgiam os constantes ataques dos cossacos liderados pelo chefe Matvey Ivanovich Platov (1753-1818), e pelas guerrilhas camponesas pelo caminho de volta. Quando essa multidão maltrapilha finalmente alcançou os suprimentos guardados em Smolensk, todo o resquício da disciplina militar desapareceu. Uma turba de soldados famélicos saqueou os armazéns e destruiu boa parte dos alimentos, que poderiam ter durado o inverno inteiro.

Por volta do dia 16 de novembro, sob o frio de -32 °C, a marcha tentava ir para casa. A partir de Smolensk, criou-se o sentimento de cada um por si nas tropas francesas. As armas e bagagens de saque, agora inúteis e inoportunas, eram abandonadas pelo caminho. Os cadáveres congelados espalhavam-se aos milhares pelas estradas, vilas abandonadas e florestas. Lutar contra o exército russo não era mais possibilidade, somente havia entre o imaginário do restante do exército francês o desejo cego de fugir. É esclarecedor sobre a terrífica retirada este texto de obra do historiador e escritor J. Lucas-Dubreton (1883-1972): Nas estradas geladas, luzidias como espelhos, os cavalos tombavam, obrigando-os a abandonar as carroças que transportavam o tesouro. Do Norte chegava um vento gelado, capaz de queimar; o cano do fuzil grudava nas mãos, a pele inchava, cheia de bolhas; e as extremidades dos dedos, duras e descoradas, pareciam bolas de marfim. Cobertos de andrajos, os olhos injetados, o rosto tumefato, infestados de vermes - fazia três meses que não trocavam de farda nem de roupa de baixo -, os antigos vencedores da Europa lutavam contra a agonia. Se adormecessem, era a morte; se resistissem, se um passante os arrastasse um pouco mais adiante, ela estava apenas adiada. Os fracos morriam primeiro, o sangue na boca e, antes que expirassem, seus camaradas já os haviam despido. Neste oceano de barbárie, nunca há de ter havido semelhante trajetória de cadáveres na extensão da que seguiram os que fizeram essa campanha; eles estão em todos os cantos, em todas as estradas, frescos e velhos.

A natureza humana, exaurida, desgastada pelo sofrimento, punha sua trama a nu, sua fibra fundamental; já não havia hierarquia nem disciplina; só um egoísmo feroz; todos curvados sob o mesmo nível de miséria. A própria velha guarda tinha perdido a bela compostura, e Napoleão se viu obrigado a chamá-la à ordem: “Não deem ouvidos a esses fracos que a desgraça abate e que não sabem sofrer. Façam justiça, pelas próprias mãos, com aqueles que, dentre vocês, saírem da fila durante a marcha; estabeleçam uma disciplina interior em cada companhia, e que os homens que se comportarem mal sejam apedrejados pelos camaradas”. O gráfico histórico de Charles Joseph Minard (1781-1870) demonstra a evolução do exército francês ao longo da campanha, e a respectiva quantidade de homens, bem como as condições atmosféricas. O passo seguinte era atravessar o rio Berezina na atual Bielorrússia. No dia 26 de novembro, os remanescentes da armada francesa caíram numa armadilha. Pela frente os russos seguravam a ponte. Por trás pressionava o exército de Kutuzov. Em segredo, Napoleão enviou seu corpo de engenharia para construir uma ponte improvisada sobre o semicongelado Berezina. Quando os russos perceberam, abriram fogo. 

Cerca de 10 mil russos pereceram, contra 36 mil franceses, muitos dos quais só foram encontrados com o degelo da primavera. No dia 14 de dezembro de 1812, sob um frio de -38 °C, o que restou da grande Armée conseguiu cruzar o rio Nemen de volta; apenas 10 mil homens em estado lastimável, incluindo um Bonaparte perplexo. A contagem das baixas do fracasso napoleônico: 550 mil homens mortos. No lado russo, 250 mil soldados efetivos e 50 mil entre milícias cossacas e populares. A campanha da Rússia mostrou que Napoleão não era invencível. Muitos países se rebelaram. Era o fim do sonho napoleônico de um domínio da Europa. A invasão do exército de Napoleão de 1812 deixou uma profunda herança no imaginário russo; da sensação de perdição do país, da completa destruição de Moscou, e da improvável virada posterior, e o extermínio e expulsão dos invasores, este episódio marcou a cultura da França e da Rússia e de suas tradições militares. Carl von Clausewitz (1780-1831), um general prussiano da época e teórico literário militar, esclareceu em suas obras que na invasão napoleônica de 1812 na Rússia, surgiu e definiu-se as características da chamada guerra total, onde os lados combatentes buscam destruir e conquistar não apenas os alvos militares, mas todos os componentes no caminho do conflito, mobilizando todos os recursos disponíveis, inclusive os ligados na vida civil.

Carl Philipp Gottlieb von Clausewitz (1972) foi um general do Reino da Prússia e teórico militar que destacou os aspectos políticos e psicológicos da guerra. Sua obra mais reconhecida, Vom Kriege, inacabada à época de sua morte, é considerada um tratado fundamental de estratégia militar e ciência militar. Toda a história da campanha napoleônica na Rússia gerou a famosa obra literária Guerra e Paz de Leon Tolstói; escrita ainda na segunda metade do século XIX, eternizando dezenas de passagens da campanha, a maioria verídicas. A derrota inicial da Rússia e sua vitória final também são lembrados na Abertura 1812 de Tchaikovsky. Até 1941 ela era reconhecida na Rússia sob o nome de “Guerra Patriótica”. Atualmente, o termo russo Guerra Patriótica de 1812 a distingue da Grande Guerra Patriótica, que designa a campanha levada à cabo pelos Soviéticos contra os militares alemães durante a 2ª Guerra Mundial. Em meados de 2010 um grupo de amantes da história, que procuravam restos mortais de soldados encontraram dezoito soldados do Grande Exército de Napoleão I, numa região próxima à cidade de Vilnius, na Lituânia. Com os botões dos uniformes, que estavam bem conservados, foi possível determinar que os soldados pertenciam ao 29º regimento de infantaria, ao 2° regimento de dragões e ao 7° regimento de hussardos, unidades estas que faziam a guarda de Napoleão na retirada das tropas francesas na campanha da Rússia em 1812. Desta maneira, os restos dos soldados descobertos em 2010 foram enterrados em novembro deste ano, junto com outros dois mil corpos de soldados napoleônicos descobertos em 2001 e sepultados em 2003, no cemitério de Antakalnis, em Vilnius.

A Bielorrússia passou a receber seu nome atual no período do Império Russo; o czar russo costumava ser designado o “Czar de Todas as Rússia” referindo-se à Grande, à Pequena e à Branca. Na época, a Bielorrússia era vista como parte da nação russa, e o idioma bielorrusso era considerado um dialeto do russo. Após a Revolução Bolchevique de 1917, o termo Rússia Branca passou a causar alguma confusão, pois também era o nome da força militar que se opunha aos bolcheviques vermelhos. Durante o período da República Socialista Soviética Bielorrussa, o termo Bielorrússia foi adotado como parte de uma consciência nacional. Na Bielorrússia Ocidental, sob o domínio polaco, o termo foi utilizado com frequência para se referir às regiões de Bialystok e Grodno, durante o período entreguerras. O termo Bielorrússia assim como seus nomes na maioria dos idiomas vem da forma russa, Byelorussia, foi utilizado oficialmente apenas até 1991, quando o Soviete Supremo da RSSB decretou que a nova república independente deveria se chamar Belarus (Беларусь), em russo e em todas as transcrições do nome para outros idiomas. A mudança supostamente visava refletir adequadamente a forma bielorrussa do nome, e o período de transição durou até 1993. Forças conservadoras da recém-independente República não apoiaram a mudança de nome e se opuseram à sua inclusão no esboço realizado em 1991 da Constituição da Bielorrússia. Desde a Independência do país, com o fim da União Soviética, o governo bielorrusso oficializou este pedido para que o endônimo Belarus fosse usado em todas as línguas para se referir ao país.

Em determinados idiomas, como o inglês, o pedido foi bem aceito, mas a maioria das outras línguas europeias mantiveram seus exônimos próprios, como o grego Λευκορωσία, o alemão Weißrußland, o dinamarquês Hviderusland, o sueco Vitryssland, o neerlandês Wit-Rusland, o islandês Hvíta-Rússland, todos traduzidos literalmente como Rússia Branca que também era o nome português até a década de 1990. O francês mantém o nome Biélorussie. O mesmo que se deu com o inglês aconteceu, até certo ponto, com o russo embora o nome tradicional ainda exista naquele idioma; do mesmo modo, o adjetivo “Belorussian” ou “Byelorussian” foi substituído, em inglês, por Belarusian, enquanto o russo não tenha desenvolvido uma nova versão do adjetivo (“bielaruski”). A intelligentsia bielorrussa no período de Stalin tentou alterar o nome do país para “Krivia”, para tentar eliminar esta suposta ligação com a Rússia; alguns nacionalistas também têm objeção ao nome por este mesmo motivo. Diversos jornais populares publicados localmente, no entanto, ainda conservam o nome antigo do país em russo nos seus nomes, como por exemplo Komsomolskaya Pravda v Byelorussii, edição local de um popular tabloide russo. Partidários da união do país com a Rússia também continuam a utilizar a forma anterior. Oficialmente, o nome completo do país é República da Bielorrússia.

            Ex-companheiros de armas não se encontram há 20 anos, desde o verão de 1945, quando cada um per se seguiu seu caminho depois de chegar à estação ferroviária da Bielorrússia em Moscou ao final da 2ª guerra mundial (1939-1945). Agora, uma triste ocasião reúne os homens novamente - a morte de um deles que permaneceu no exército. Muitas mudanças sociais aconteceram na vida de cada um, mas os amigos conservaram os sentimentos de irmandade, solidariedade e humanidade desenvolvidos no front. Antes de retornarem às suas rotinas cotidianas, vivem um dia repleto de recordações e situações inesperadas. O diretor Andrei Smirnov conseguiu o impossível. Rodou um dos filmes mais autênticos sobre a Grande Guerra Patriótica, sem mostrar uma cena sequer da própria guerra. Além disso, a canção “Precisamos de uma vitória”, de Bulat Okudzhava (1924-1997), acabou se tornando uma das músicas mais poderosas sobre a guerra. Bulat Shalvovich Okudzhava foi um extraordinário poeta, escritor, músico, romancista e cantor e compositor soviético e russo de ascendência georgiana-armênia. Ele foi um dos fundadores do gênero soviético chamado “canção de autor”, ou “canção de violão”, e autor de cerca de 200 canções, musicadas com sua própria poesia. Suas canções são uma mistura equilibrada de tradições poéticas e folclóricas russas e do estilo francês chansonnier, representado por contemporâneos de Okudzhava como Georges Brassens.

Embora suas canções nunca tenham sido explicitamente políticas, a frescura e a independência da voz artística de Okudzhava representaram um desafio sutil às autoridades culturais soviéticas, que, portanto, hesitaram por muitos anos em lhe conceder reconhecimento oficial. Bulat Okudzhava nasceu em Moscou em 9 de maio de 1924, em uma família de comunistas que vieram de Tbilisi, a capital da Geórgia, para estudar e trabalhar para o Partido Comunista. Filho de pai georgiano, Shalva Okudzhava [ru], e mãe armênia, Ashkhen Nalbandyan, Bulat Okudzhava falava e escrevia apenas em russo. A mãe de Okudzhava era sobrinha de um reconhecido poeta armênio, Vahan Terian (1885-1920). Seu pai serviu como comissário político durante a Guerra Civil e como membro de alto escalão do Partido Comunista, posteriormente, sob a proteção de Sergo Ordzhonikidze (1886-1937). Seu tio Vladimir Okudzhava era um anarquista e terrorista que deixou o Império Russo após uma tentativa fracassada de assassinar o governador de Kutaisi. Vladimir estava listado entre os passageiros do infame trem lacrado que transportou Vladimir Lenin, Grigory Zinoviev e outros líderes revolucionários da Suíça para a Rússia em 1917. Shalva, pai de Okudzhava, foi preso em fevereiro de 1937 durante o Grande Expurgo, acusado de trotskismo e sabotagem. Ele foi fuzilado em 4 de agosto com seus dois irmãos. Sua esposa foi presa em 1939 “por atos antissoviéticos” e enviada para o Gulag. 

Bulat retornou a Tbilisi para viver com seus parentes.  Sua mãe foi libertada em 1946, mas presa pela segunda vez em 1949, passando mais 5 anos em campos de trabalho forçado. Ela foi totalmente libertada em 1954 e reabilitada em 1956, juntamente com seu marido. Em 1942, aos 17 anos, Bulat Okudzhava, aluno do 9º ano, alistou-se voluntariamente na infantaria do Exército Vermelho e, a partir de 1942, participou da guerra contra a Alemanha. Após sua dispensa do serviço militar em 1944, retornou a Tbilisi, onde concluiu o Ensino Médio e ingressou na Universidade Estadual de Tbilisi, graduando-se em 1950. Depois de formado, trabalhou como professor, primeiro em uma escola rural na vila de Shamordino, na região de Kaluga, e mais tarde na própria cidade de Kaluga. Em 1956, Okudzhava retornou a Moscou. Após a reabilitação de seus pais e o XX Congresso do Partido Comunista Chinês, no qual Khrushchov denunciou os expurgos, Bulat Okudzhava pôde ingressar no Partido Comunista, do qual permaneceu membro até 1990. Na capital soviética, trabalhou inicialmente como editor na editora Molodaya Gvardiya (Jovem Guarda) e, posteriormente, como chefe da seção de poesia do mais importante semanário literário nacional da antiga União das Repúblicas Socialista Soviética, o Literaturnaya Gazeta (“Jornal Literário”). Foi então, em meados da década de 1950, que começou a compor canções e a interpretá-las, acompanhando-se ao violão russo. Logo ele começou a dar concertos. Ele usava apenas alguns acordes e não tinha formação musical formal, mas possuía um dom melódico excepcional, e as letras inteligentes de suas canções combinavam perfeitamente com sua música e sua voz. Suas canções eram elogiadas por seus amigos, e gravações amadoras foram feitas. Essas gravações não oficiais foram amplamente copiadas como magnitizdat e se espalharam pela URSS e Polônia, onde outros jovens pegaram violões e começaram a cantar as canções por conta própria.

Em 1970, suas letras apareceram no clássico filme soviético Beloye Solntse Pustyni “Sol Branco do Deserto” é um filme ostern soviético de 1970, dirigido por Vladimir Motyl (1927-2010). Sua mistura de comédia de ação, música e drama o tornou altamente bem-sucedido nas bilheterias soviéticas e resultou em uma série de citações memoráveis. Ele mantém alta aprovação doméstica. Embora as canções de Okudzhava não tenham sido publicadas por nenhuma organização de mídia até o final da década de 1970, elas rapidamente alcançaram enorme popularidade, especialmente entre a intelectualidade, principalmente na URSS a princípio, mas logo também entre os falantes de russo em outros países. Vladimir Nabokov, por exemplo, citou sua Marcha Sentimental no romance Ada ou Ardor. Okudzhava, no entanto, considerava-se principalmente um poeta e afirmava que suas gravações musicais eram insignificantes. Durante a década de 1980, ele também publicou muita prosa, pois em seu ersatz seu romance O Espetáculo Acabou lhe rendeu o Prêmio Booker Russo em 1994. Na década de 1980, gravações de Okudzhava interpretando suas canções finalmente começaram a ser lançadas oficialmente na União Soviética, e muitos volumes de sua poesia também foram publicados. Em 1991, ele foi agraciado com o Prêmio Estatal da URSS. Ele apoiou o movimento reformista na URSS e, em outubro de 1993, assinou a Carta dos Quarenta e Dois. Okudzhava faleceu em Paris em 12 de junho de 1997 e está sepultado no Cemitério Vagankovo, em Moscou. Um monumento marca o prédio de  43 da Rua Arbat, onde ele morava. Sua dacha em Peredelkino é um museu aberto ao público. Um planeta menor, 3149 Okudzhava, descoberto pela astrônoma tcheca Zdeňka Vávrová em 1981, recebeu o nome em sua homenagem. Ela também descobriu vários asteroides. Suas canções continuam populares e são executadas.

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