segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Uma Saída de Mestre – Trabalho & Ação Coletiva Heterogênea.

           A ação humana não é apenas direcionada por metas; ela também é moldada por paixões”. Jon Elster                                        

          O ouro é medida de valor porque seu valor é variável, e é padrão de preços porque é fixado como unidade de peso invariável. Aqui, como em todas as determinações de grandezas nominalmente iguais, solidez e determinidade das relações de medidas são decisivas. A necessidade de se fixar uma quantia de ouro como unidade de medida e partes alíquotas como subdivisões dessa unidade produziu a representação de que uma determinada quantia de ouro, que naturalmente tem um valor variável, se colocasse numa relação de valor fixa com os valores de troca das mercadorias, no que se perdeu de vista que os valores de troca das mercadorias estão transformados em preços, em quantias de ouro antes mesmo que o ouro se desenvolva como padrão dos preços. Assim como o valor do ouro varia, diferentes quantias de ouro apresentam entre si permanente a mesma proporção de valor. O preço de uma mercadoria ou a quantia de ouro, na qual se transforma idealmente, se expressa agora, portanto, nos nomes monetários do padrão-ouro. A forma própria com que essas mercadorias dão os seus valores de troca está transformada em nomes monetários, pelo quais expressam mutuamente o que elas valem. O dinheiro, por sua vez, torna-se moeda de cálculo. O dinheiro, compreendido como moeda de cálculo, pode existir apenas idealmente (teoria), enquanto o dinheiro que circula efetivamente (prática) é cunhado em um outro padrão totalmente diferente.

Em muitas colônias inglesas da América do Norte, a moeda circulante, até boa parte do século XVIII, consistia em moedas portuguesas e espanholas, enquanto, por toda parte, a moeda de cálculo era a mesma da Inglaterra. O mais famoso agiota da literatura viveu em Veneza e se chamava: Shylock, personagem de William Shakespeare, do “Mercador de Veneza”. O assunto empréstimo foi central neste romance, o agiota Shylock se dispõe a emprestar o dinheiro em troca de uma garantia da parte do amigo de Barsanio, o comerciante Antônio. Em qualquer empréstimo o risco de as coisas dar errado é grande, e talvez seja por isso, que as pessoas que emprestam dinheiro precisam economicamente ser compensadas, com um valor pago pelo que emprestou além do montante emprestado que é chamado de juros. Mas porque Shylock se tornou o grande vilão do valor de troca entre pessoas? Naquela época, ele era um dos muitos judeus agiotas que viviam nos guetos de Veneza. Durante a vida de Shakespeare, a agiotagem era uma ocupação comum entre os judeus, devido à crença entre os cristãos nesse período de que a usura era um pecado, e por ser uma das poucas profissões que era permitido aos judeus exercerem na Europa medieval, tendo em vista que as leis mercantilistas proibiam qualquer outro tipo de ocupação. A cidade os tolerava, pois eram os únicos que poderiam fornecer o serviço comercial que os mercadores cristãos eram proibidos de fazer, e poderiam cobrar juros pelos seus empréstimos. Por isso que os maiores banqueiros foram judeus.

Os judeus se sentavam em suas mesas, as suas “tavule” em seus bancos, os “banci”, raiz da palavra italiana para “bancos”, num local reconhecido por Banco Rosso. Pinturas de Giorgio Vasari, Frederico Zuccari e Domenico di Michelino retratam bem a crença de um inferno para os agiotas. No final da história Shylok é proibido de cobrar o meio quilo de carne de Antônio exigido no empréstimo em caso de inadimplência. O tribunal o proíbe de derramar sangue de um veneziano, por ele ser judeu a lei determina ainda a perda de seus bens por planejar a morte de um cristão. Então porque ele confiou o empréstimo, como grande vilão do romance de William Shakespeare – “Mercador de Veneza”? Os bancos desfrutam, portanto, do poder de multiplicação monetária através do crédito sem lastro.  Mas nem sempre foi assim, como demonstra Murray Rothbard. O esquema de reservas fracionárias não passa de uma fraude, segundo o economista.  A produção de mercadorias e a circulação de mercadorias, o comércio, constituem os pressupostos históricos em que aquele surge o mercado mundial e abrem no século XVI a moderna biografia do capital. Se abstrairmos do conteúdo material da circulação de mercadorias, da troca dos diversos valores de uso, e considerarmos apenas as formas econômicas que este processo gera, encontraremos seu último produto o dinheiro.

Este último produto da circulação de mercadorias é a primeira forma fenomênica do capital. O capital contrapõe-se à propriedade fundiária e em primeiro lugar, sob a forma de dinheiro, como fortuna em dinheiro, capital mercantil e capital usurário. E necessário voltarmos à gênese do capital para reconhecermos o dinheiro como a sua primeira forma fenomênica. Murray Rothbard combinou a economia laissez-faire de seu professor Ludwig von Mises com os pontos de vista absolutistas dos direitos do homem e a rejeição do estado que ele tinha absorvido a partir do estudo dos anarquistas individualistas norte-americanos do século XIX, como Lysander Spooner e Benjamin Tucker. Rothbard foi um ardente crítico do influente economista John Maynard Keynes e do pensamento econômico keynesiano. Seu ensaio “Keynes, o homem”, é um ataque as ideias econômicas e ao personagem Keynes. Rothbard foi também um crítico severo do filósofo utilitarista Jeremy Bentham em seu ensaio: “Jeremy Bentham: The Utilitarian as Big Brother”. Rothbard enunciou a ideia segundo a qual “os acadêmicos tenderiam a se especializar no que eles são piores”. Henry George foi grande em tudo, exceto no que diz respeito a terra, sendo assim, ele escreveu sobre terra, 90% do tempo. Milton Friedman foi excelente, exceto em teoria monetária, então foi nisso que ele se concentrou.

Murray Rothbard dedica um capítulo em “Power and Market” para o papel tradicional do economista. Rothbard nota que as funções do economista no livre mercado, diferem muito das do economista em um mercado obstruído. – “O que pode fazer um economista no livre mercado puro?”. No campo da ideologia econômica Rothbard infere. – “Ele pode explicar o funcionamento da economia de mercado (uma tarefa vital, especialmente porque a pessoa ignorante tende a considerar a economia de mercado como mero caos desordenado), mas ele não pode fazer muito mais”. A mesma história desenrola-se diariamente diante dos nossos olhos. Cada novo capital pisa o palco: o mercado de mercadorias e de trabalho ou mercado que se transforma em capital através de processos determinados. O surgimento das operações bancárias foi simultâneo ao surgimento da moeda, na medida em que seu surgimento logo criou a necessidade de instituições que a guardassem e emprestassem. O nome “banco” foi criado pelos banqueiros judeus de Florença na época do Renascimento, designando “a mesa onde eram trocadas as moedas”. Em 1406, foi criado aquele que é considerado o primeiro banco moderno: o Banco di San Giorgio, em Gênova. Em 1983, o Banco da Escócia se tornou o primeiro banco a oferecer serviços eletrônicos, tendência esta que vem se ampliando continuamente desde então no mundo inteiro.  O primeiro caixa eletrônico do mundo ocidental foi fabricado pela empresa britânica De La Rue e foi instalado num bairro no norte da Grande Londres em 27 de junho de 1967 pelo Barclays Bank.

A invenção foi creditada a John Sheperd-Barron, apesar de Luther George Simjian a ter patenteado em Nova Iorque, EUA na década de 1930 e Donald Wetzel e outros da Docutel também o terem feito em 4 de junho de 1973. Os primeiros caixas aceitavam apenas uma “ficha” ou “cupão” de uso único, que era retida pelo caixa. Essas trabalhavam em vários princípios como radiação e magnetismo de baixa coercitividade que era retirado pelo leitor de cartão para tornar fraudes mais difíceis. A ideia de um número de identificação pessoal (PIN) armazenado no cartão em si ao invés de ser digitado quando se queria retirar o dinheiro foi desenvolvido pelo engenheiro britânico James Goodfellow em 1965, que ainda possui patentes internacionais cobrindo esta tecnologia. Os primeiros “caixas eletrônicos falantes”, ou seja, caixas com instruções sonoras para pessoas com deficiência visual, foram instalados no Canadá em 1999. O primeiro caixa eletrônico “falante” nos Estados Unidos foi instalado em São Francisco em outubro do mesmo ano. Em 2005 já há em torno de trinta mil caixas eletrônicos falantes naquele país. A circulação de mercadorias lembra a análise materialista de Marx, é o ponto de partida do capital. Como portador consciente deste movimento, o possuidor de dinheiro torna-se capitalista. A sua pessoa, a sua algibeira, é o ponto de partida e o ponto de chegada do dinheiro.

O conteúdo objetivo daquela circulação - a valorização do valor - é o seu fim subjetivo e apenas na medida em que a crescente apropriação da riqueza abstrata é o único motivo propulsor das suas operações ele funciona como capitalista ou como “capital personificado”, dotado de vontade e consciência. O valor de uso não é, portanto, nunca de tratar como fim imediato do capitalista. E também não o ganho singular, mas apenas o movimento incansável do ganhar. Este impulso absoluto de enriquecimento, esta caça apaixonada ao valor é comum ao capitalista e ao entesourador: mas enquanto que o entesourador é o capitalista louco, o capitalista é o entesourador racional. A incansável multiplicação do valor, a que o entesourador aspira na medida em que tenta salvar o dinheiro da circulação, alcança-a o capitalista esperto quando o entrega de novo à circulação. Com razão afirmava satiricamente nosso jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político brasileiro, o conhecido Barão de Itararé, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971), também reconhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé: - “O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro”.

Uma rede interbancária é uma rede de computadores que liga as caixas eletrônicas de diferentes bancos e permite que estes possam interagir economicamente com clientes de outros bancos. Embora as redes interbancárias possam fornecer recursos para todos os cartões de dentro da mesma rede, para usar caixas eletrônicos de outros bancos que pertencem à mesma rede, os serviços podem variar. Por exemplo, quando uma pessoa usa seu cartão de débito em um caixa eletrônico que não pertencem ao seu banco, serviços básicos, tais como consulta de saldos e saques, são geralmente disponíveis. No entanto, serviços específicos, tais como recarga de telefones celulares, podem não estar disponíveis para clientes de outros bancos. Além disso, os bancos podem cobrar uma taxa, quando o cliente usa esse serviço, a partir de um caixa eletrônico de um banco diferente. Redes interbancárias são úteis porque as pessoas podem acessar caixas eletrônicos de outros bancos que são membros da rede quando não um há caixa eletrônico do seu próprio banco nas proximidades. Isto é especialmente conveniente para as pessoas que viajam ao exterior, onde, as redes interbancárias internacionais como “Plus” ou “Cirrus”, quando estão disponíveis. Redes interbancárias, através de seus diferentes meios, como processo de trabalho, também permitem o uso dos cartões em diversos estabelecimentos, na função crédito ou débito. Apesar dos caixas eletrônicos serem utilizados principalmente para retirar dinheiro, eles evoluíram para incluir muitas outras funções bancárias.

Uma Saída de Mestre (The Italian Job) tem como representação social um filme de assalto de ação, uma refilmagem norte-americana de 2003 do filme homônimo britânico de 1969, dirigido por F. Gary Gray, um diretor de cinema e produtor de videoclipes estado-unidense, e estrelado por Mark Wahlberg, Charlize Theron, Edward Norton, Jason Statham, Seth Green, Mos Def e Donald Sutherland. O enredo segue uma equipe heterogênea de ladrões que planejam roubar o ouro de um ex-associado que os enganou. Apesar do título compartilhado, o enredo e os personagens deste filme diferem daqueles do filme original; Gray descreveu o filme como “uma homenagem ao original”. Neal Purvis e Robert Wade escreveram um esboço de um remake da comédia criminal britânica The Italian Job, de 1969, que originalmente foi rejeitada pela Paramount. A equipe de roteiristas Donna e Wayne Powers foram posteriormente contratados para escrever um remake. A dupla viu o filme original, que nenhum dos dois tinha visto antes, apenas uma vez “porque [eles] queriam ter uma noção do que era” em relação ao seu tom. Ao longo de dois anos e através de 18 rascunhos, eles desenvolveram um roteiro que foi descrito pelo diretor F. Gary Gray como “inspirado no original”. Gray, Powers e Powers e o produtor executivo James Dyer identificaram as semelhanças mais proeminentes como o trio de Mini Cooper usado pelos ladrões, bem como o roubo titular envolvendo o roubo de barras de ouro. Algumas sequências do filme passaram pelo processo de storyboards e previsualizadas por Gray antes do início da produção.

            Etnograficamente a maior parte do filme foi gravada em locações topográficas específicas em Veneza, Itália, no continente europeu e em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, onde canais e ruas, respectivamente, foram temporariamente fechados durante a filmagem principal. Distribuído pela Paramount Pictures, The Italian Job estreou no Festival de Cinema de Tribeca em 11 de maio de 2003, e foi lançado nos Estados Unidos em 30 de maio de 2003. Em seu fim de semana de estreia, o filme arrecadou US$19,457,944, ficando em 3º lugar. A Paramount relançou-o em 29 de agosto e quando o filme foi lançado em novembro de 2003, o filme arrecadou US$106,128.601 nos Estados Unidos e no Canadá e US$69,941,570 no exterior - US$176,070,171 em todo o mundo comercialmente globalizado pela Arte. Foi o filme de maior bilheteria produzido pela Paramount em 2003. Em 2012, foi produzido outro remake em Bollywood na Índia, Players, a indústria cultura de cinema de língua hindi, a maior indústria de cinema indiana, em termos de lucros e popularidade a nível nacional e internacional que empregam igualmente o mesmo enredo da versão de 2003, todavia, enquanto fazem os personagens e incidentes completamente diferentes. A resposta crítica foi geralmente positiva, com publicações destacando as sequências de ação. Uma sequência, The Brazilian Job, está em desenvolvimento desde 2004, mas ainda não foi produzida a partir de 2018. Gray e o diretor de fotografia Wally Pfister trabalharam juntos para desenvolver um estilo visual para o filme avant-première da produção.

             Eles viam comerciais de automóveis e fotografias de revistas, bem como sequências de perseguição analogamente nos filmes The French Connection (1971), Ronin (1998) e The Bourne Identity (2002) como referências visuais. Gray queria que o filme fosse o mais realista possível; consequentemente, os atores fizeram a maioria de suas próprias cenas de ação, e as imagens geradas por computador foram usadas com muita parcimônia. A segunda unidade, sob o comando do diretor Alexander Witt e de fotografia Josh Bleibtreu, fizeram plano de estabelecimento, a sequência de perseguição do canal de Veneza e a sequência de perseguição de Los Angeles durante um período de 40 dias. As filmagens no local colocaram alguns desafios. A sequência do assalto inicial em Veneza, na Itália, foi rigorosamente monitorada pelas autoridades locais, devido às altas velocidades em que os barcos foram levados. As temperaturas frias em Passo Fedaia nos Alpes italianos criaram problemas à produção: “Os canhões engasgariam, e se você pudesse imaginar não ser capaz de caminhar 12 metros com uma garrafa de água sem congelar, essas são as condições em que tivemos que trabalhar”, observou Gray. Pedestres tiveram permissão para usar as calçadas da Hollywood Boulevard entre tomadas. Além disso, cenas ocorridas em estradas e ruas da cidade foram filmadas apenas nos finais de semana.

            Em filosofia e lógica, a contingência enquanto representação da realidade é o modo de ser daquilo que não é necessário nem impossível.  É bem verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para lembrarmos de Friedrich Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma coo tal, que afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um “sistema de pensamento”; teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro. Com isso não haveria, nenhum outro ingrediente, naquilo que é para a consciência, a não ser o conceito que é a essência. O conceito abstrato, separando-se da multiplicidade das coisas, não tem conteúdo nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é determinado e justamente essa determinidade é o alheio que o conceito possui nele.  

Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento. E a isto Hegel chama “o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto, é ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. É um desprendimento, um desdobrar-se, e por isso, ao mesmo tempo, um desafogo.

No que toca mais precisamente a um dos lados da educação, melhor dizendo, à disciplina, não se há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele deve obedecer para aprender a mandar. A obediência é o começo de toda a sabedoria; pois, por ela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o objetivo, e não faz deles o seu fim, pelo que ainda não é verdadeiramente autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz que em si vigore a vontade racional que lhe vem de fora, e que pouco a pouco esta se torne a sua vontade. O capricho deve ser quebrado pela disciplina; por ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No começo, a passagem de sua vida ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem como uma dolorosa passagem à vida de filisteu. Até então preocupado apenas com objetos universais, e trabalhando só para si mesmo, o jovem que se torna homem deve, ao entrar na vida prática, ser ativo para os outros e ocupar-se com singularidades, pois concretamente se se deve agir, tem-se de avançar em direção ao singular. Nessa produção do mundo consiste no trabalho do homem. Podemos, pois, fora de dúvida, de um lado dizer que o homem só produz o que já existe. Por outro, é necessário que um progresso individual seja efetuado. Mas o progredir no mundo só ocorrer nas massas, e só se faz notar em uma grande soma de coisas produzidas. Adam Przeworski entende que todas as teorias que explicam o funcionamento da sociedade sejam elas oriundas concepção revolucionária de Marx, conservantista de Émile Durkheim ou sistêmica de Talcott Parsons, incluindo este que buscou combinar atividade humana e estrutura em uma teoria da ação e não se limitou ao “funcionalismo” strictu sensu, necessitam ser submetidas ao pleno desafio: fornecer os micros-fundamentos para interações sociais e especificamente, basear toda a teoria da sociedade nas ações dos indivíduos concebidas como orientadas para a realização de objetivos racionais. 

Mesmo que a ação racional seja um elemento fundamental, o individualismo metodológico não é em princípio, segundo Jon Elster, redutível ao primeiro. Em tese, e isto é importante, na perspectiva da ação, pode-se imaginar a suposição analítica como referencial de análise da ação individual, mas não necessariamente, a ação racional no sentido weberiano. Elster dá um exemplo na seguinte frase, “os Estados Unidos temem a União Soviética, o primeiro substantivo coletivo é objeto de redução, mas não o segundo, porque aquilo que os norte-americanos individualmente considerados temem pode muito bem ser uma nebulosa entidade coletiva (escrito em 1986)”. A função do individualismo metodológico é a de ajudar a “abrir a caixa preta” e mostrar como funcionam as suas “engrenagens internas”. Isto é, a dedução a partir das macroestruturas não é válida, pois os mecanismos causais da ação social ficam ocultos e o nível de explicação do(s) motivo(s) da ocorrência de determinado(s) evento(s) fica bastante reduzido. Além disso, argumenta que “a racionalidade instrumental, a escolha de meios adequados aos interesses egoístas, é mais um mecanismo que explica as razões da escolha e da ação do homem”. Elster estuda um amplo conjunto de práticas e saberes sociais, em torno de mecanismos que ele divide entre aqueles que explicam as ações individuais e aqueles que explicam a interação social entre os indivíduos; evidentemente, os segundos são mais complexos que os primeiros e os pressupõem. Entre os mecanismos da ação social, chama a atenção para dois, e especialmente: a) as emoções e paixões que nos impelem impulsivamente, e, b) as normas sociais, leis que nós obedecemos (e queremos que os outros obedeçam), sem uso de coerção social, e, portanto, formas de conduta compulsória.  

Entre as interações sociais, chama a atenção ainda, em especial, para as consequências “não intencionais” de um comportamento, desde a sua progênie quer em Max Weber e ipso facto em Charles Wright Mills, enquanto que explicam muito bem os mecanismos de “ação coletiva”, uma forma de interação cooperativa entre todos os indivíduos de um grupo (como partidos políticos), e as instituições, mecanismos de imposição de regras compulsórias, utilizando inventivos positivos ou coerções para regular o comportamento do indivíduo, como por exemplo: Estado, empresas, exército, judiciário, etc. Enfim, ele analisa a mudança social de várias esferas da vida social, da inovação tecnológica às revoluções políticas. É muito claro e conciso, igualmente ilustrando os mecanismos hipotéticos, históricos e literários, demonstrando na teoria que sabe muito bem do que está falando, estabelecendo bases sólidas de interpretação para as ciências sociais, considerando uma gama de dados e status correlatos à idade, barrando interesses e posições particulares. O contexto político ligeiramente amplexo é profundamente contextualizado na trama com um roteiro instigante que retoma oportunas reviravoltas ao longo de seu desenvolvimento. Que prende a atenção do espectador, ainda que o “arco dramático” de maior relevância permaneça mesmo com escopo no romance entre Moïse e Alice. Essa relação social é apresentada de modo convincente. E, muito, pelo “social irradiado” do elenco principal, apaixonado e comprometido, além da intrometida presença de Tim Roth nesse conturbado romance. Ela permanece alheia às verdades sobre Moïse. Seus senadores também se engajam em atividades políticas secretas, a pedido do presidente dos Estados Unidos. 

 Escólio: O desenvolvimento do tema da justiça na concepção de teoria de Aristóteles, discípulo de Platão, tem sede no campo ético, ou seja, no campo de um saber que vem definido em sua teoria como saber prático. É da reunião das opiniões dos sábios, dentro de uma visão de todo o problema que surgiu uma concepção propriamente aristotélica. O mestre do Liceu tratou também a justiça a entendendo como virtude, assemelhada a todas as demais tratadas no curso. A justiça, assim definida como virtude, torna-se o escopo das atenções de um ramo do conhecimento humano que se dedica ao estudo próprio do comportamento humano; à ciência prática, intitulada ética, cumpre investigar e definir o que é o justo e o injusto, o que é ser temperante e o que é ser corajoso, o que é ser jactante, etc. Somente a educação ética (hábito em grego), a criação do hábito do comportamento ético, o que se faz com a prática à conduta diuturna do que é deliberado pela reta razão à esfera das ações humanas, pode construir um comportamento virtuoso, ou seja, um comportamento justo. A justiça, em meio as demais virtudes, que se opõem a dois extremos, caracteriza-se por uma peculiaridade: trata-se de uma virtude à qual não se opõe dois vícios diferentes, mas um único vício, que é a injustiça. Teoria da ação representa um nível abstrato da filosofia que se dedica à análise de processos que causam os movimentos voluntários de um tipo mais ou menos complexo.


Este nível de análise tem sido regra dos filósofos, principalmente desde a obra de Aristóteles, Ética a Nicômaco, a principal interpretação de Aristóteles sobre Ética. Nela se expõe sua concepção teleológica e eudaimonista de racionalidade prática, sua concepção da virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência. Em Aristóteles, toda racionalidade prática é teleológica, quer dizer, orientada para um fim, ou um bem, como está no texto. À Ética cabe determinar a “finalidade suprema” (o summum bonum), que preside e justifica todas as demais, e qual a maneira de alcançá-la. Essa finalidade suprema é a felicidade (eudaimonia), que não consiste, comparativamente, nem nos prazeres, nem nas riquezas, nem nas honras, mas numa vida virtuosa. A virtude, por sua vez, se encontra no justo meio de trabalho entre os extremos, da divisão do trabalho intelectual e, será encontrada por aquele “dotado de prudência” (phronesis) e educado pelo hábito no seu exercício. Vale destacar ipso facto que a ideia de virtude, na Grécia Antiga, não é idêntica ao conceito atualmente, muito influenciado tipicamente pela forma moralista pelo cristianismo. Virtude tinha o sentido da “excelência de cada ação”, ou seja, de “fazer bem feito”, na justa medida, cada vez em ato. Os valores sociais da conjuntura em que ele escreveu eram bem diferentes dos leitores atualmente; a palavra bem ou mal, por exemplo, apresenta significados totalmente opostos.

Desta forma, metodologicamente, o que é injusto ocupa na teoria dois polos diversos, ou seja, é ora injustiça por excesso, ora é injustiça por defeito. Desse modo, como o homem sem lei é injusto e o cumpridor da lei é justo, evidentemente todos os atos conforme à lei são atos justos em certo sentido, pois os atos prescritos pela arte do legislador são conforme a lei, e dizemos que cada um dele é justo. Aristóteles desenvolveu uma concepção de justiça muito eficiente sobre a qual vários países do mundo ocidental elaboraram medidas pragmáticas de punições para pessoas que cometerem crimes graves na sociedade, baseadas nos métodos de justiça criados por ele. A palavra equidade, por exemplo, carregada de conteúdo de sentido, tem origem no latim “aequitas” e quer dizer característica de algo ou alguém que “revela senso de justiça, imparcialidade, isenção e neutralidade: duvidou da equidade das eleições”. Correção no modo de agir ou de opinar; lisura; honestidade; igualdade: tratou-a com equidade. Disposição elementar para reconhecer a imparcialidade do direito de cada indivíduo. Assim, Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco, Livro V, aborda a questão da originalmente em torno da equidade enquanto princípio norteador indispensável para a efetivação da justiça.

Para o referido filósofo, o maior pensador da Antiguidade, a singularidade é que “o equitativo é justo, porém não o legalmente justo, e sim uma correção da justiça legal. A razão disto é que toda lei é universal, mas a respeito de certas coisas não é possível fazer uma afirmação universal que seja correta”. Diante de tal raciocínio, é possível constatar que para Aristóteles, a lei não é totalmente plena, no sentido de abranger todas as situações e problemas jurídicos aos quais a sociedade possa estar sujeita, ou seja, existe uma determinada lei, entretanto, podem existir situações que não foram pensadas pelo legislador e consequentemente não estão abrangidas por esta lei, mas que também necessitam de amparo legal. Desse modo, não seria justo que tal situação ou caso fosse ignorado por uma “falha” do legislador, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para permitir que aquele caso seja conhecido e apreciado quanto ao seu mérito de maneira justa, levando-se em consideração as peculiaridades do caso concreto. Aristóteles menciona ainda que “essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”, sendo que é justamente essa correção que torna justa a resolução do caso concreto. Desse modo é possível depreender por meio de um raciocínio lógico que toda lei é justa, mas nem tudo que é justo é abarcado pela lei, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para que aquela situação que não foi abrangida pela lei tenha seu mérito analisado de maneira justa.

E é justamente por ter esse caráter corretivo e, também, complementarmente, que para Aristóteles, o equitativo é uma espécie superior de justiça: por se amoldar as mais diversas situações existentes no mundo fático, afinal, é claro e notório que a sociedade tem uma mutação/mudança social muito mais acelerada do que a legislação posta para a regular, até mesmo porque são as próprias mudanças da sociedade que vão embasar alterações na legislação. Da perspectiva da teoria da ação social, é só de maneira insatisfatória que as atividades do espírito humano podem ser restritas à confrontação cognitivo-instrumental, segundo Habermas (2012) com a natureza exterior; ações sociais orientam-se por valores culturais. Estes últimos, porém, não contam com um referencial de verdade. Assim, coloca-se a seguinte alternativa: ou negamos aos componentes “não cognitivos” da tradição cultural o status assumido pelas entidades do terceiro mundo graças à alojação delas em uma esfera de nexos de validade, e então nivelamos esses mesmos componentes de maneira empirista, como formas enunciativas do espírito subjetivo; ou procuramos equivalentes para o referencial de verdade que está ausente. Essa segunda via, como veremos, é escolhida ou mediada pela teoria da ciência de Max Weber. Ele tem o mérito de distinguir do ponto de vista da teoria, diversas esferas culturais de valor, a saber para o que nos interessa, ciência e técnica, direito e moral, bem como arte e crítica. E também as esferas de valor não cognitivas constituem esferas de validade. Noções jurídicas e morais podem ser criticadas e analisadas sob o ponto de vista da correção normativa; obras de arte, sob o ponto de vista da autenticidade (ou beleza).

Pode-se trabalhá-las como campo autônomos de problemas. Entende que a tradição cultural no todo como uma provisão de saber, a partir da qual se podem formar “esferas especiais de valor” e “sistemas especiais de validade distintas”. Por isso ele atribuiria ao terceiro mundo tanto os componentes culturais avaliativos e expressivos quanto os cognitivos-instrumentais. Quando se escolhe essa alternativa, é preciso esclarecer o que podem significar “validade” e “saber” em face dos componentes “não cognitivos” da cultura. Este aspecto é muito importante na análise. Estes últimos, diversamente de teorias e enunciados, não podem ser ordenados a entidades do primeiro mundo. Valores culturais não cumprem uma função representativa. Segundo Habermas, desde Aristóteles, o conceito de agir teleológico está no centro da teoria filosófica da ação. O ator realiza um propósito ou ocasiona um estado almejado, à medida que escolhe em dada situação meios auspiciosos, para empregá-los de modo adequado. O conceito central é o da decisão entre diversas alternativas, voltada à realização de um propósito, de máximas e apoiada na interpretação da situação. O modelo teleológico do agir é ampliado a modelo estratégico, quando pelo menos um ator que atua orientado a determinados fins revela-se capaz de integrar ao “cálculo do êxito” a expectativa de decisões.

Esse modelo de ação é frequentemente interpretado de maneira utilitarista; aí se supõe que o ator escolhe e calcula os meios e fins, provavelmente no trabalho, segundo aspectos da maximização do proveito ou das expectativas de proveito. Esse modelo de ação, em economia, sociologia e psicologia social, está subjacente às abordagens vinculadas à decisão ou à teoria lúdica.  O conceito de agir regulado por normas não se refere ao comportamento de um ator, que encontra outros no entorno, mas a membros de um grupo social, que orientam seu agir segundo valores em comum. O ator individual segue uma norma (ou colide com ela), tão logo as condições se apresentem em uma dada situação na qual se possa emprega-las. As normas expressam o comum acordo subsistente em um grupo social. Todos os membros de um grupo social em que vale determinada norma podem esperar uns dos outros que cada um execute ou omita as ações preceituadas de acordo com determinadas situações. O conceito central de cumprimento da norma significa a satisfação de uma expectativa de comportamento generalizada. A expectativa de comportamento não tem o sentido cognitivo da expectativa de um acontecimento prognosticado, mas o sentido normativo de que o partícipe goze do direito à expectativa de um comportamento. Esse modelo normativo de ação subjaz à teoria dos papéis.

O conceito do “agir dramatúrgico” sociologicamente falando, seguindo as pegadas de Jurgen Habermas não se refere primeiramente ao “ator solitário”, muito menos ao membro de um grupo social, mas aos participantes de uma interação social que constituem uns para os outros um público a cujos olhos eles se apresentam. O ator suscita em seu público uma determinada imagem, uma “impressão de si mesmo”, ao desvelar sua subjetividade em maior ou menor medida. Todo aquele que age pode controlar o acesso público à esfera de suas próprias intenções, pensamentos, posicionamentos, desejos, sentimentos, etc., à qual somente ele mesmo tem acesso. No “agir dramatúrgico”, os partícipes usam essa circunstância e monitoram sua interação por meio da regulação do acesso recíproco à subjetividade culturalmente própria. Portanto, filosoficamente o conceito central de “autorrepresentação” não significa a disciplina de um comportamento expressivo espontâneo, mas per se a “estilização da expressão de vivências próprias endereçadas a expetadores”. Esse modelo dramatúrgico de ação serve em primeira linha a descrições da interação fenomenologicamente orientadas; até o momento, porém, ele não foi elaborado a ponto de construir uma abordagem teoricamente generalizante.

            Baseado em 182 comentários dados por Rotten Tomatoes, The Italian Job tem uma classificação média de aprovação de 73%, com uma pontuação média ponderada de 6.43/10. O consenso do site diz: “Apesar de alguns elementos duvidosos da trama, The Italian Job consegue apresentar uma versão moderna e divertida do filme original de 1969, graças a um elenco carismático”. Em comparação, o Metacritic, que atribui uma classificação normalizada a revisões de críticos convencionais, calculou uma pontuação média de 68 de 100 das 37 revisões que coletou, indicando “revisões geralmente favoráveis”. Stephanie Zacharek, escrevendo para Salon.com, gostou da reinvenção da trama e do estilo e execução das sequências de ação, especificamente aquelas que envolvem o trio de Mini Cooper, que ela escreveu foram as estrelas do filme. O crítico do Los Angeles Times, Kevin Thomas, elogiou a sequência de abertura de Veneza e a caracterização de cada um dos ladrões, mas sentiu que a sequência de assaltos de Los Angeles estava “indiscutivelmente esticada um pouco demais”. Roger Ebert deu o filme 3 de 4, escrevendo que o filme foi “duas horas de escapismo sem sentido em um nível profissional relativamente qualificado”. Mick LaSalle, do San Francisco Chronicle, concordou, descrevendo The Italian Job como entretenimento puro, mas inteligente, “plotado e executado com invenção e humor”. O revisor James Berardinelli também deu ao filme 3 estrelas de 4, e disse que Gray descobriu a receita certa para fazer um filme de assalto: “mantenha as coisas em movimento, desenvolva um bom relacionamento entre os protagonistas, lance ocasionalmente surpresa, e top com uma pitada de brio”.

Robert Koehler, da Variety, comparou The Italian Job a The Score (2001), outro filme de assalto que também contou com Edward Norton em um papel semelhante. David Denby, escrevendo para The New Yorker, elogiou o desempenho de Norton, assim como os de Seth Green e Mos Def, e a falta de efeitos digitais nas sequências de ação. Owen Gleiberman da Entertainment Weekly deu ao filme uma nota B, comparando-o positivamente com o remake de 2000 de Gone in 60 Seconds, bem como o remake de 2001 de Ocean`s Eleven. O revisor do New York Daily News, Jack Mathews, deu para The Italian Job 2,5 de 4 estrelas, escrevendo que as sequências de ação e reviravoltas foram uma “grande melhoria” do original, e que a sequência do roubo de Los Angeles foi “inteligente e absurda”. Mike Clark, do USA Today, um jornal diário norte-americano de circulação nacional fundado em 1982 por Allen Neuharth e publicado pela Gannett. É um dos jornais de maior circulação nos Estados Unidos, mas que também questionou a probabilidade da sequência de assaltos de Los Angeles e escreveu que o filme era “um remake preguiçoso e com apenas um nome”, dando-lhe 2 estrelas de 4. Peter Travers, escrevendo para a Rolling Stone, uma revista mensal sediada nos Estados Unidos dedicada à música, política, e cultura popular, deu para o filme The Italian Job 1 estrela de 4, descrevendo-o de forma rotinizada como “um remake de um filme de assalto que já era plano e estereotipado em 1969”. Travers apreciou o alívio cômico nos personagens de Green e Def, e acrescentou que o Norton era “o desempenho mais perversamente magnético” fora do Mini Cooper, mas sentiu que havia uma falta de lógica no filme.

Bibliografia Geral Consultada.

HOBSBAWM, Eric, Estudios de História de la Clase Obrera. Barcelona: Editorial Crítica, 1979; CHARLE, Christophe, Naissance des Intellectuels – 1880-l890. Paris: Éditions Minuit, 1990; ARON, Raymond, As Etapas do Pensamento Sociológico. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; POLLAK, Michael, “L’Historien et le Sociologue: Le Tournant Épistémologique des Années 1960 aux Années 1980”. In: Écrire l’Histoire du Temps Présent. Paris: Centre National de la Recherche Scientifique Editions, 1993; GATI, Charles, Failed Illusions: Moscow, Washington, Budapest and the 1956 Hungarian Revolt. Stanford: Stanford University Press, 2006; ELSTER, Jon, La Volontà Debole. Edição Italiano por Jon Elster (Autor), G. Viano Marogna (Tradutor). Bolonha: Editore ‎ Il Mulino, 2008; FERGUSON, Niall, La Guerra del Mundo. Barcelona: Editor Debate, 2007; BECKER, Howard, Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009; BALLERINI, Franthiesco, Diário de Bollywood: Curiosidades e Segredos da Maior Indústria de Cinema do Mundo. São Paulo: Summus Editorial, 2009; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; ADORNO, Theodor, The Meaning of Working Through the Past. Cambridge: Harvard University Press, 2010; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. 1. Racionalidade da ação e Racionalização Social. São Paulo: WMF/Editora Martins Fontes, 2012; RAVAZZOLO, Angela, A Escrita da História por Jornalistas: Diálogos e Distanciamentos com a Historiografia Acadêmica: O Caso Elio Gaspari. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012; SCHURSTER, Karl (Org.), Atlântico: A História de um Oceano. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora ‎ Civilização Brasileira, 2013; BENSON, Rodney, “Metamorfoses do Panorama Midiático Americano”. In: Le Monde Diplomatique, setembro de 2017, pp.  18 e 19; DELACROIX, Christian, “A História do Tempo Presente, Uma História (Realmente) Como as Outras?”. In: Tempo e Argumento, 2018; ZUBOFF, Shoshana, A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder.  Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2021; GALDINO, Giancarlo, “Charlize Theron Rouba a Cena Neste Filme da Netflix que Mistura Charme, Vingança e Ação Sem Desperdiçar Um Minuto”. In: https://www.revistabula.com/12/06/2026; entre outros.

domingo, 6 de setembro de 2026

Olimpíadas – Ginástica Artística, Nudez de Gênero & Competição Física.

 Grandeza, entidade variável, mas que, apesar da sua variação, continua sempre a ser a mesma”. Friedrich Hegel                                    

         A ginástica, enquanto um conjunto de práticas e saberes sociais em torno do exercício físico, afirmou-se na Antiguidade, estacionou na Idade Média, fundamentou-se na Idade Moderna e sistematizou-se geneticamente da Idade Contemporânea. A ginástica artística, enquanto atividade, teria surgido segundo estudos, na Grécia Antiga, como forma de atividade física atlética, e no Egito Antigo, comparativamente, onde as pessoas realizavam acrobacias circenses nas ruas com o intuito de entreter os transeuntes que ali passavam. Como a prática disciplinar constante desenvolvia habilidades corporais importantes, como a força e a elasticidade, ela passou a ser introduzida ao treinamento militar. Esta habilidade de uso fora realizada per se na Grécia onde a ginástica continuou a desenvolver-se. Em Roma, o apreço pela modalidade artística enquanto treinamento caiu em aparente desuso, e a ginástica passou a restringir-se a apresentações de circo que inspiravam os soldados antes das batalhas, enquanto estes davam à ginástica outros valores sociais em termos técnicos e militares. Seu ressurgimento na Era Moderna fora, como no princípio desenvolvido ligado à arte. A forma gímnica que chegou a Europa começou com o trampolim, tendo suas primeiras atividades descritas por Archange Tuccaro (1535-1602), no livro Trois Dialogues du Sr. Archange Tuccaro (1599), no século XV, ao Oeste europeu. Archange Tuccaro ou Tuccarro nascido na província de L`Aquila, foi um acrobata e equilibrista italiano que serviu ao Imperador Maximiliano II de Habsburgo e ao Rei Carlos IX da França. 

          Tuccaro escreveu um livro sobre acrobacias intitulado Diálogos sobre o Exercício de Saltar no Ar. Por ordem do Imperador Maximiliano II, foi um imperador eleito do Sacro Império Romano-Germânico, rei da Hungria entre 1564 e 1576 e rei da Boêmia entre 1564 e 1576. Filho de Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico e Ana da Hungria e Boêmia, nascido em Viena, mas educado em Innsbruck, capital do estado do Tirol, no Oeste da Áustria, é uma cidade nos Alpes e tradicional destino para a prática de esportes de inverno, foi arquiduque da Áustria até 1550, rei da Boêmia e rei dos romanos a partir de 1562, rei da Hungria a partir de 1563 e imperador do Sacro Império Romano-Germânico de 1564 até sua morte em 1576. Tuccaro participou da comitiva de sua filha, a Arquiduquesa Isabel, que foi à França para se casar com o Rei Carlos IX, que, depois de vê-lo se apresentar em Mézières, quis tê-lo ao seu lado, concedendo-lhe o título de “saltarin du roi” (“saltador do rei”) e nomeando-o seu instrutor de exercícios acrobáticos. Em 1599, Tuccaro publicou em Paris seu livro Dialogues de l`Exercice de Sauter et Voltiger en l`Aire, avec les Figuras qui Servent à la Parfaite Demonstration et Intelligence du Dit Art.  O livro, inovador, ipso facto escrito em forma de diálogo, foi publicado com 88 gravuras ilustrando mais de 50 exercícios acrobáticos. É considerado o primeiro método de ginástica do mundo e acredita-se que tenha sido escrito de fato por Tuccaro para instrução do Rei Carlos IX.

No Renascimento, os principais artistas faziam culto ao corpo humano e às suas formas. Assim, a prática da ginástica nas escolas tornou-se constante, e cada dia mais a modalidade ganhava espaço entre os homens. Jean-Jacques Rousseau(1712-1778), em meados de 1700, publicou um ensaio misto de educação e treinamento físico para as crianças, chamado Émile; ou, de l’Education, que modificou os padrões e sistematizou uma nova aplicação, incluindo a prática da ginástica. Inspirado na reforma, Johann Christoph Friedrich Guts Muths (1776-1838), implementou a ginástica natural, composta por exercícios aeróbicos, voltada ao benefício corporal e a artificial, voltada para a beleza, como a variedade de montes e desmontes do cavalo. Seu surgimento oficial, entretanto, só ocorreu em 1811, quando o professor Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852) fundou em Berlim, na Alemanha, o primeiro clube voltado apenas à prática da ginástica. Inspirado pelo espírito patriota e pelos escritos de Muths – também reconhecido pai da ginástica pedagógica e autor do livro Gimnastik fur die Jugend (1793) — Jahn inspirou muitos jovens da cidade em prol do orgulho de uma revanche contra as tropas imperialistas de Napoleão, em 1813, pela libertação prussiana e posterior unificação alemã, fornecendo-lhes o ideal histórico e o senso das antigas tradições da nação, através da prática da sistematizada ginástica.                                   

Além disso, este educador ainda criou regras específicas, aparelhos diferentes e um sistema de exercícios físicos chamado Die Deutsche Turnkunst (em português: A Arte Gímnica), ainda considerado matriz na ginástica artística praticada. Nesta mesma época, na Suécia, Pehr Henrik Ling (1776-1839) introduziu um tipo diferente de ginástica. Seu sistema, baseado no exercício coletivo, aspirava desenvolver um ritmo perfeito do movimento. Assim como a ginástica de Jahn, os métodos de Ling também foram adotados para o treinamento militar. Junto a essas escolas incipientes, nasceram os Clubes de Ginástica Internacionais. Estes clubes estabeleceram associações nacionais para controlar os treinamentos e as competições. Não tardou para que a Federação Internacional de Ginástica uma das entidades esportivas mais antigas do mundo fosse fundada em 1881. Quinze anos depois, a modalidade fora incluída no programa dos primeiros Jogos Olímpicos modernos, realizados em Atenas, na Grécia. Por razões da origem do nome, a entrada das mulheres nas competições se deu na edição de 1928 das Olimpíadas, que aconteceu em Amsterdã, na Holanda. O referido nome incluía a prática nua por parte dos ginastas. Por esta razão, os homens nos Jogos, competiam despidos da cintura para cima. Com a providência de vestirem-se por completo, as mulheres comparativamente nas competições físicas puderam tête-à-tête estrear nos campeonatos.

 A partir daí, a evolução histórica da ginástica enquanto desporto, deu-se ao longo de poucos anos e 1950 foi um momento em particular: as mulheres competiram em alguns aparelhos masculinos, como as argolas e a ginástica rítmica ainda fazia parte das apresentações artísticas. Pouco antes e em seguida, algumas provas foram acrescentadas e outras retiradas. Os aparelhos foram definidos para cada evento. E por fim, seu aprimoramento não para e a cada revisão das regras e métodos, a dificuldade e a beleza dos movimentos aumenta. Atualmente, a ginástica artística é um dos mais populares esportes, não apenas nos Jogos Olímpicos, e um dos mais exigentes para com seus atletas e praticantes. Baseada nessa evolução e popularização entre as mulheres, a modalidade artística tornou-se a rainha da FIG entre as demais práticas da ginástica. Surgida como um esporte tipicamente masculino, a modalidade artística globalizou-se como um desporto feminino, que hoje possui maior destaque, um maior número de praticantes e atletas mundialmente reconhecidas. A abordagem através da divisão sexual do trabalho, segundo Helena Hirata, deveria permitir o rompimento das categorias tradicionais da sociologia industrial e de uma das concepções marxistas da separação – demasiado simplista – entre a esfera produtiva (produção de valor) e a esfera reprodutiva (produção de valores de uso não mercantis), com vistas à elaboração de novos conceitos que superem de um lado, a universalidade apenas aparente das categorias da economia política, muito frequentemente calcadas num modelo masculino, e que rompam com a divisão rígida das disciplinas, que caracterizam atualmente as ciências sociais. 

Nosso objeto de estudo – a divisão sexual do trabalho na reprodução das relações mercantis no Japão – convém melhor do que qualquer outro para tal posicionamento, na medida em que o caso japonês é particularmente exemplar: fluidez da linha de demarcação entre tempo de trabalho e tempo de extratrabalho, atividade profissional e pessoal, pública e privada; fluidez  na qual desempenha um papel decisivo o lugar primitivo atribuído às mulheres no seio da sociedade capitalista desenvolvida. A primeira marca histórica do patriarcado na divisão do trabalho segundo os sexos aparece no nível da linguagem.  Essa divisão do trabalho segundo os sexos, indicada no nível da linguagem, é praticada desde o nascimento, pontuada por ritos e marcada por inumeráveis símbolos. Com efeito, a aceitação e a interiorização da divisão sexual do trabalho tanto entre trabalho doméstico e trabalho assalariado quanto no interior mesmo do trabalho assalariado são o objetivo da socialização inicial das crianças. Essa educação é condição prévia da aceitação e interiorização mesmas da autoridade mediante aprendizado, na escola, das formas de linguagem diferenciadas de acordo com o estatuto social do emissor e do receptor. Assim, desde o nascimento, a menina será educada dentro do respeito pelos homens, que serão os primeiros (contrariamente ao Ladies First da etiqueta ocidental) a ser servidos à mesa e a ter os melhores pedaços; os primeiros a entrar no banho; o que consagra e reproduza o preceito feudal das mulheres dentro e dos homens fora (“oto wa sotomawari, tsuma wa utimawari”) e a regra de obediência em ordem: quando jovem, ao pai; casada, ao marido, e idosa, ao primogênito. 

Esse duplo movimento impulsionou em vários países a abordagem da divisão sexual do trabalho para repensar a questão tópica do trabalho e suas categorias. Essas reflexões levaram a mudança de simbólica da sociologia da família e do paradigma funcionalista que lhe servia de base. No que se referem à sociologia do trabalho (cf. Braga, 1990) elas permitiram retomar noções e conceitos como de qualificação, produtividade, mobilidade social e abriram novos campos de pesquisa: relação de serviço, trabalhos de cuidado pessoal, mixidade no trabalho, ingresso das mulheres às profissões de nível superior, temporalidades sexuadas, vínculos entre políticas de emprego e políticas para família etc. Tal literatura tinha como escopo aspectos sociais como o crescimento das taxas de desempenho de atividade no trabalho, o perfil etário da mulher na composição da força de trabalho e as transformações sociais no padrão de mixidade em setores e ocupações enquanto tendências que também se verificavam em outros países.  A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa forma é modulada entre os sexos. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, per se, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). Sobre essa definição, todo mundo, ou quase, está de acordo. Em nosso ponto de vista, era necessário ir mais longe ao plano conceitual.

Por isso, propusemos distinguir claramente os princípios da divisão sexual do trabalho e suas modalidades. Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios organizadores: o de separação existente entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e o princípio hierárquico, segundo o qual, um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher. Esses princípios são válidos tanto no plano teórico como empírico para todas as sociedades no tempo e no espaço. Portanto, pode ser aplicada mediante um processo específico de legitimação, a chamada ideologia naturalista. Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie. Com essa perspectiva naturalista e manipuladora da realidade, a ideologia naturalista dificulta a consciência de que a desigualdade entre os sexos é determinada por interesses socialmente construídos. Se os dois princípios (de separação e hierárquico) encontram-se em todas as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não significa, no entanto, que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável. Ao contrário, ela tem inclusive uma incrível plasticidade: suas modalidades concretas variam grandemente no tempo e no espaço, como demonstraram fartamente antropólogos e historiadores (as). O que é estável não são as situações (que evoluem sempre), e sim a distância entre os grupos de sexo. Esta análise deve tratar dessa distância, assim como das “condições”, pois, se é inegável que a condição feminina melhorou, pelo menos na sociedade francesa, a distância continua insuperável. 

Trata-se antes de tudo da aparição e do desenvolvimento, com a precarização e a flexibilização do emprego, de “nomadismos sexuados”, segundo Kergoat (1998): nomadismo no tempo, para as mulheres (é a explosão do trabalho em tempo parcial, geralmente associado a períodos de trabalho dispersos no dia e na semana); nomadismo no espaço, para homens com provisórios canteiros do Banque du Bâtiment et Travaux Publics (BTP) e do setor nuclear para os operários, banalização e aumento dos deslocamentos profissionais na Europa no mundo para executivos. Constata-se que a divisão sexual do trabalho molda as formas do trabalho e de emprego e, que a bendita “flexibilização” reforça as formas mais estereotipadas das relações sociais de sexo. O segundo exemplo é o da priorização do emprego feminino, que ilustra bem o cruzamento das relações sociais. Desde a década de 1980, o número de mulheres contabilizadas pelo Institut National de la Statistique et des Études Économiques - como “funcionários e profissões executivas de nível superior” mais do que dobrou; eles destacam que cerca de 10% das mulheres ativas são classificadas nessa categoria. Simultaneamente à precarização e à pobreza de um número crescente de mulheres, observa-se, portanto, o aumento dos capitais econômicos, culturais e sociais estudados desed Marx à Boudieu de uma proporção não desprezível de mulheres ativas no trabalho. Assiste-se também ao aparecimento, pela primeira vez na história social do capitalismo, de uma camada de mulheres cujos interesses diretos, isto é, não mediados como antes pelos homens: pai, esposo, amante, opõem-se frontalmente aos interesses daquelas que foram atingidas pela generalização do tempo parcial, pelos empregos em serviços muito mal remunerados e não reconhecidos socialmente e, de maneira mais geral, pela precariedade.                       

 Enfim, as mulheres das sociedades do Norte trabalham cada vez mais e, com uma frequência cada vez maior, são funcionárias e investem em suas carreiras. Como o trabalho doméstico nem sempre é levado em conta nas sociedades mercantis, e o envolvimento pessoal é cada vez mais solicitado, quando não exigido pelas novas formas de gestão de empresas, essas mulheres para realizar seu trabalho profissional precisam externalizar o trabalho doméstico. Para isso, podem recorrer à enorme reserva de mulheres em situação precária, sejam francesas ou imigrantes. Essa demanda, maciça no âmbito europeu, criou um imenso alento para as mulheres migrantes que chegam aos países do Norte com a esperança de conseguir um emprego de serviço, neste caso, particularmente no cuidado de crianças e idosos, no em prego doméstico e assim por diante. Essas mulheres, muitas vezes diplomadas, entram em concorrência direta com as dos países de origem, que têm situação precária e pouco estudo. Duas relações sociais entre mulheres, inéditas historicamente, estabelecem-se dessa maneira: uma relação de classe entre as mulheres do Norte, empregadoras, e essa nova classe servil; uma relação de concorrência entre mulheres, todas precárias, mas precárias de maneira diferente, dos países do Norte e dos países do Sul e, logo também, de etnias diferentes com a chegada e a esse mercado globalizado em movimento de mulheres dos países do Leste.

As relações étnicas começam assim a ser remodeladas através das migrações femininas e da explosão dos serviços a particulares. As relações de gênero também se apresentam de uma forma inédita: a externalização do trabalho doméstico tem uma função de apaziguamento das tensões nos casais burgueses dos países do Norte (e em inúmeros países urbanos do Sul, mas, nesse caso, trata-se de movimentos migratórios internos no país em questão) e permite igualmente maior flexibilidade das mulheres em relação à demanda de envolvimento das empresas. A reorganização simultânea do método e processo de trabalho no campo assalariado da oficina, da fábrica, e no campo doméstico da casa. O que remete, no que diz respeito a este último, à externalização do trabalho doméstico, mas também à nova divisão do trabalho doméstico, o maior envolvimento de certos pais é acompanhado de um envolvimento quase exclusivo no trabalho parental; duplo movimento de mascaramento, de atenuação das tensões nos casais, de um lado, e a acentuação das clivagens objetivas entre mulheres, de outro: ao mesmo tempo em que aumenta o número de mulheres em profissões de nível superior, cresce o de mulheres em situação precária de desemprego, flexibilidade, feminização das correntes migratórias.

 Esses movimentos desenvolvem-se em um nível material, a externalização, mas, evidentemente, estendem-se às representações ad hoc (os “novos pais”, o casal visto como lugar de negociação entre dois indivíduos iguais de direito e de fato). Contudo, é preciso rever agora a outra modalidade de teorização, a da divisão sexual do trabalho como vínculo social, pois é ela que fundamenta a tese, que hoje adquiriu o estatuto de política – e de política europeia a partir da cúpula de Luxemburgo em 1997 -, da conciliação vida familiar/vida profissional – política fortemente sexuada, visto que define implicitamente um único ator dessa conciliação: as mulheres, e consagra o statu quo segundo o qual homens e mulheres não são iguais perante o trabalho profissional. A ideia de uma complementaridade entre os sexos está inserida na tradição funcionalista da complementaridade de papéis. Remete a uma conceptualização em termos de vínculo social pelos conteúdos de sentido de suas noções como solidariedade orgânica, conciliação, coordenação, parceria, especialização e divisão de tarefas etc. A abordagem em termos de complementaridade, e por asim dizer, em opsição assimétrica, é coerente com a ideia de uma divisão de trabalho entre mulheres e homens do trabalho profissional e doméstico e, dentro do trabalho profissional, a divisão entre tipos sociais e modalidades de empregos que possibilitam a reprodução dos papéis sexuados. É essa expansão dos empregos em serviços nos países capitalistas ocidentais, tanto desenvolvidos como em vias de desenvolvimento, como o Brasil, que oferecem novas “soluções” para o antagonismo entre responsabilidades familiares e profissionais.   

Os Jogos Pan-Americanos de 2007, oficialmente denominados XV Jogos Pan-Americanos, foram um evento multiesportivo realizado em julho na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Durante os dezessete dias de competições, 5633 atletas de 42 países competiram em 332 eventos de 47 modalidades. O Rio de Janeiro foi eleito sede dos Jogos em 2002, vencendo a cidade de San Antonio, nos Estados Unidos. Nos cinco anos de preparação, diversos locais de competição foram construídos ou reformados e mais de vinte mil voluntários foram convocados para trabalhar no evento principal e em eventos preparatórios. Ações como a escolha do nome da mascote e o revezamento da Tocha Pan-Americana foram feitas para envolver todo o país na realização do Pan. Os Jogos do Rio de Janeiro criaram uma nova perspectiva e definiram novos marcos para os Jogos Pan-Americanos. Considerada uma competição olímpica de nível organizado, esta edição foi a mais cara na história do evento, com um orçamento de 2 bilhões de dólares. Os meios de comunicação relataram um interesse do público sem precedentes nos Jogos, com o maior público e maior audiência de televisão na história do Pan-Americano. Os jogos foram transmitidos em alta definição e todas as instalações esportivas estavam localizadas dentro dos limites da cidade de acolhimento. Esta edição do Pan foi marcada por atrasos nas obras, como também por polêmicas envolvendo a postura dos torcedores, que vaiaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de Abertura e atletas estrangeiros durante todo o evento, e pela deserção de quatro membros da delegação de Cuba. Durante o período do Pan também ocorreu o acidente com o Voo TAM 3054 em São Paulo, tendo sido decretado luto oficial pelo governo federal e pela ODEPA.

Dentro dos locais de competição, o Rio de Janeiro viu as conquistas da primeira medalha de Granada e do primeiro ouro de Antígua e Barbuda e El Salvador, os feitos de Thiago Pereira, o maior medalhista em uma única edição do Pan, e a vitória do Brasil no futebol feminino em um Maracanã lotado. Em agosto, foram realizados os Jogos Parapan-Americanos de 2007, que pela primeira vez ocorreram na mesma cidade e foram organizados pelo mesmo comitê do Pan. Foi a segunda vez que uma cidade brasileira recebeu os Jogos Pan-Americanos. A primeira edição sediada no Brasil ocorreu em 1963, em São Paulo. Enfim, para Hirata, os estudos de gênero têm, sobretudo, contribuído para ampliar o conceito de trabalho para além do trabalho profissional, restituindo a importância devida ao trabalho doméstico e ao trabalho exercido pelas mulheres no interior da família. A gratuidade dessa modalidade de trabalho repercute sobre o trabalho profissional das mulheres, que é constantemente desvalorizado e não reconhecido. Pensamos - afirma - que o debate marxista sobre trabalho produtivo e improdutivo, que dominou a polêmica sobre o trabalho doméstico nos anos 1970, foi suplantado pelo estudo empírico das características constitutivas do trabalho doméstico, como relação de “disponibilidade permanente” aos filhos, ao marido, ao companheiro, etc. Essas análises apontam para outra dimensão específica do trabalho, a dimensão da afetividade, do amor, que está no cerne do exercício do “care” no interior da família, base da sociedade. A dificuldade em lutar contra a divisão sexual do trabalho doméstico, que aloca à mulher as tarefas relacionadas ao ambiente da casa e às crianças, liberando o homem para as responsabilidades na esfera profissional, está nessa dimensão de afetividade, que cria relação precisa nesta perspectiva crítica de “servidão voluntária” das mulheres.

Bibliografia Geral Consultada.

JAEGER, Werner, Paidéia: los Ideales de la Cultura Griega. México: Fondo de Cultura Económica, 1962; MITZMAN, Arthur, La Jaula de Hierro. Una Interpretación Histórica de Max Weber. Madrid: Alianza Universidad, 1976; GUATTARI, Félix, As Três Ecologias. Campinas (SP): Editora Papirus, 1990; RODRIGUES, José Carlos, Ensaios em Antropologia do Poder. Rio de Janeiro: Editora Terranova, 1992; Idem, O Corpo na História. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999; HAURICH, Héctor, Hegel y la Lógica de la Pasión. Buenos Aires: Marymar Ediciones, 1995; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000; LAQUEUR, Thomas, Inventando o  Sexo: Corpo e Gênero, dos Gregos à Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001; KERGOAT, Daniele, “A Classe Operária tem Dois Sexos”. In: Revista de Estudos Feministas, Ano 2, 1º semestre, 1994; Idem, “Reestruturação Produtiva e Relações de Gênero”. In: Revista Latinoamericana de Estudos do Trabalho, Ano 4, n° 7, 1998; HIRATA, Helena; MARUANI, Margaret (Org.), Novas Fronteiras da Desigualdade: Homens e Mulheres no Mercado de Trabalho. 1ª edição São Paulo: Editora Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, 2003; HALL, Stuart, Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003; DEVIDE, Fabiano Pires, Gênero e Mulheres no Esporte: História das Mulheres nos Jogos Olímpicos. Ijuí: Unijuí, 2005; RAGO, Margareth, A Aventura de Contar-se: Feminismos, Escrita de Si e Invenções da Subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2015; ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric, A Busca da Excitação: Desporto e Lazer no Processo Civilizacional. 1ª edição. Lisboa: Edições 70, 2019; HOBSBAWM, Eric, A Era dos Impérios. 31ª edição. São Paulo: Editora Paz & Terra, 2022; GAUDÊNCIO, Marcelo Araujo; PENA, Graziele Borges de Oliveira; DARSIE, Marta Maria; PAULA, Jacqueline Borges de, “Fogo e Ciência Moderna no Mito de Prometeu: Reflexões à Luz da Filosofia Baconiana”. In: Veritas. Porto Alegre, vol. 71, n° 1, pp. 1-13, jan.-dez. 2026; ROAN, Dan, “Só Mulheres Biológicas Poderão Competir em Esportes Femininos nas Olimpíadas, Decide COI”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/26/03/2026; entre outros.

sábado, 5 de setembro de 2026

Sistema Abstrato, Cinema & Trivialização de Inteligência Artificial.

Um trabalho tem sentido para uma pessoa quando ela o acha importante, útil e legítimo”. Edgar Morin (1921-2026)

         A inteligência artificial (IA) tem como representação social um conjunto de sistemas computacionais capazes de executar tarefas tipicamente associadas à inteligência, como aprendizado, raciocínio, resolução de problemas, percepção e tomada de decisões. A inteligência artificial é também o campo extraordinário constitutivo de pesquisa voltado para o desenvolvimento desses sistemas. É um campo da ciência da computação que se baseia em fundamentos matemáticos: estatística, álgebra linear, probabilidade e conceitos da ciência cognitiva (cf. Mészáros, 2004). Ela tem como escopo resolver problemas de alta complexidade lógica ou algorítmica. Por extensão, na linguagem comum, inclui dispositivos que imitam, simulam ou substituem humanos em certas implementações de suas funções cognitivas. As aplicações de IA abrangem muitas áreas, incluindo motores de busca, sistemas de recomendação, assistência ao diagnóstico médico, compreensão de linguagem natural, carros autônomos, chatbots, ferramentas de geração de imagens, de tomada de decisão automatizada, programas competitivos em jogos de estratégia e alguns personagens não jogáveis ​​em jogos de vídeo. O campo de pesquisa, estabelecido em 1956, vivenciou períodos de otimismo e decepção ao longo do século XX. A partir de 2012, o uso de unidades de processamento gráfico (GPUs) acelerou per se as redes neurais artificiais, promovendo a adoção do aprendizado de máquina em detrimento de abordagens baseadas em regras programadas.

Essa tendência se intensificou em 2017 com o surgimento da arquitetura Transformer e de modelos de linguagem, que são treinados com grandes quantidades de texto da rede mundial de computadores (internet).  Em 2022, a IA generativa ganhou ampla popularidade com o lançamento do ChatGPT. Malhor dizendo, bate-papo (chat) integrado a um modelo de IA chamado Transformador Pré-treinado Generativo (em inglês Generative Pre-trained Transformer). Modelos para geração de música, imagens e vídeos também surgiram. A IA levanta preocupações relativas ao emprego, à desinformação, ao seu impacto ambiental e à proteção de dados pessoais. Alguns acreditam que os avanços na inteligência artificial podem representar um risco existencial. O termo “inteligência artificial”, frequentemente abreviado como “IA”, foi introduzido em 1956 por John McCarthy (1927-2011), que o definiu em 2004 como “a ciência e a engenharia de fazer amáquinas inteligentes, especialmente programas de computador inteligentes. Está relacionada à tarefa semelhante de usar computadores para entender a inteligência humana, mas a IA não deve ser restrita a métodos que são biologicamente observáveis”. Para Marvin Lee Minsky (1927-2016), um de seus criadores, a IA é “a construção de programas de computador que executam tarefas que, por ora, são realizadas de forma mais satisfatória por seres humanos porque exigem processos mentais de alto nível, como aprendizagem perceptual, organização da memória e raciocínio crítico”. Essa definição técnico-metodológica combina proporcionalmente tanto o aspecto artificial dos computadores e processos computacionais com os aspectos inteligentes da imitação humana, particularmente o raciocínio e a aprendizagem.

Isso está presente em jogos, na prática da matemática, na compreensão da linguagem natural, na percepção visual (interpretação de imagens e cenas), na percepção auditiva (compreensão da linguagem falada) ou por meio de outros sensores, e no controle de um robô em um ambiente desconhecido ou hostil. Antes dos anos 2000, outras definições eram próximas da de Minsky, mas diferiam em dois pontos fundamentais: Definições que vinculam a IA a um aspecto humano da inteligência e aquelas que a vinculam a um modelo ideal de inteligência, não necessariamente humano, chamado racionalidade; Existem definições que insistem que a IA deve ter todas as aparências de inteligência (humana ou racional), e outras que insistem que o funcionamento interno do sistema de IA também deve se assemelhar ao de um ser humano e ser, no mínimo, tão racional quanto ele. Bolhas aninhadas para posicionar os conceitos de IA, aprendizado de máquina e aprendizado profundo. Diagrama de Venn mostrando como os conceitos de inteligência artificial, aprendizado de máquina e aprendizado profundo estão interligados. Os diagramas adotam o nome do criador John Venn (1834-1923), matemático e filósofo britânico do século XIX. Foi estudante e professor no Caius College da Universidade de Cambridge, onde viria a desenvolver toda sua obra teórica. Venn introduziu os diagramas em um trabalho de lógica formal publicado em julho de 1880, intitulado: “Da Representação Mecânica e Diagramática de Proposições e Raciocínios” in Philosophical Magazine and Journal of Science. 

                                          

Embora a primeira forma de representação geométrica de silogismos seja frequentemente atribuída a Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), e tenha sido retomada já durante o século XIX pelos matemáticos George Boole (1815-1864) e Augustus De Morgan (1806-1871), o método de Venn superava os sistemas anteriores em termos de clareza e simplicidade, ao ponto de ser aceite como método padrão ao fim de algum tempo. Venn foi o primeiro a formalizar o seu uso e a dotá-lo de um mecanismo de generalização. O próprio Venn não se referia aos diagramas como sendo da sua autoria, mas sim como círculos Eulerianos, fazendo referência aos diagramas criados por Leonhard Euler (1707-1783) no século XVIII. No parágrafo introdutório do seu artigo, Venn afirma: Esquemas de representação diagramática tem sido tão familiarmente introduzido nos Tratados de Lógica durante o último século que se pode supor que muitos leitores, mesmo aqueles que não fizeram qualquer estudo profissional de lógica, possam ter familiaridade com a noção geral de tais objetos. Dentre tais esquemas, apenas um - aquele comummente chamado “Círculos Eulerianos”, encontrou aceitação geral. Venn desenvolveu o método no livro Lógica Simbólica, publicado em 1881 com o objetivo de interpretar e corrigir os trabalhos de Boole no campo da lógica formal.

Em 1889, publicou uma nova expansão de seu trabalho, com o livro Princípios da Lógica Empírica. A primeira referência escrita conhecida do termo Diagrama de Venn surge apenas em 1918, no livro de Clarence Irving Lewis (1883-1964), A Survey of Symbolic Logic. No século XX, os diagramas de conjuntos passaram por novos desenvolvimentos. D. W. Henderson (1939-2018) demonstrou em 1963 que a existência de um diagrama de Venn para N conjuntos com N eixos de simetria implica que N deve ser um número primo. Também demonstrou que tais diagramas simétricos existem quando N é 5 ou 7. Em 2002, Peter Hamburger encontrou diagramas simétricos para N = 11 e, em 2003, Griggs, Killian e Savage (2004) demonstraram que diagramas simétricos existem para todos os outros primos. A partir da década de 1960, os diagramas de Venn foram introduzidos no ensino de matemática, na aprendizagem da teoria dos conjuntos e de funções, como parte do movimento da Matemática Moderna. Desde então, sua utilidade de uso, no sentido marxista, foi ampla e bem difundida, em áreas tão distintas como a compreensão de textos. O Movimento da Matemática Moderna é o movimento internacional do ensino de matemática que surgiu na década de 1960 e se baseava na formalidade e no rigor dos fundamentos da teoria dos conjuntos e da álgebra para o ensino e a aprendizagem de matemática. 

A introdução da matemática moderna é objeto de críticas e controvérsias. Morris Kline foi um dos críticos que ajudou a dicionarizar o termo “Matemática Moderna” ao publicar em 1973, o livro Why Johnny can’t add: The failure of the new math, no qual apresenta a origem, o porquê e as deformações do movimento de reforma do currículo tradicional no ensino de matemática nos Estados Unidos da América, que depois teve repercussão no mundo globalizado. Em seu ersatz o  Movimento da Matemática Moderna foi um movimento que teve grande força após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A partir da década de 1960 houve maior preocupação nas áreas relacionadas com a educação, a Matemática foi uma delas e pode tratar de temas que moldam área atualmente, realizou-se unificações de disciplinas e foi elencado temas pelos quais seriam debatidos e a partir de então ocorrem reuniões frequentes para que o tema seja debatido e postos a análise. Segundo Lima (2011), o ensino da matemática é embasado em três pilares: conceituação, manipulação e aplicações. A conceituação tout court é constituída por definições, demonstrações e correlações (conexões). A manipulação compreende o manuseio de fórmulas algébricas, de operações aritméticas, de soluções de equações por meio de algoritmos. A manipulação tem um papel preponderante no ensino da matemática.

Na década de 1960, surgiu o movimento denominado Matemática Moderna que enfatizava a conceituação, em detrimento da manipulação. O aluno aprendia que 3 + 5 = 5 + 3, pela propriedade comutativa da adição, mas não sabia que é 8. O movimento acabou caindo no descrédito, porque 3 + 5 = 5 + 3, não resolve o problema. As aplicações consistem na utilização de noções e teorias da matemática na resolução de problemas para obter resultados, tirar conclusões e fazer previsões. Para Ávila (1993), a matemática moderna foi uma reforma profunda no ensino da matemática. Enfatizava acentuadamente a linguagem de conjuntos e abordava as diferentes partes da matemática de modo excessivamente formal. Inicialmente, contou com muitos adeptos, mas com a constatação de sua ineficiência, foi aumentando o número de opositores. Em muitos países, a matemática moderna foi sendo deixada de lado, com o aparecimento de novas mudanças. No Brasil, last but note least, esse processo foi mais demorado, deixando resquícios ineludíveis que se perpetuam. O conteúdo era carregado de simbolismo e linguagem de conjunto, o que dificulta na prática a aprendizagem. Em vez de dizer que as raízes da equação x² + 2x – 3 = 0 são 1 e -3, se dizia que o conjunto verdade da sentença x² + 2x – 3 = 0 é V = -3,1. A matemática depende de linguagem e simbolismo próprios. Como essas ferramentas são o que torna na aparência tão difícil, mas são inevitáveis, pois devem ser utilizadas com o necessário cuidado. 

O público em geral frequentemente confunde, não por acaso, inteligência artificial com aprendizado de máquina e aprendizado profundo. Esses três conceitos diferem e estão, na verdade, interligados: a inteligência artificial engloba o aprendizado de máquina, que por sua vez engloba o aprendizado profundo. As definições frequentemente envolvem: uma capacidade de perceber o ambiente e levar em consideração a complexidade do mundo real; processamento de informações (coleta e interpretação de entradas, capturadas na forma de dados); tomada de decisões (incluindo raciocínio e aprendizagem), escolha de ações, execução de tarefas (incluindo adaptação, reação a mudanças no contexto…), com certo nível de autonomia; a obtenção de objetivos específicos (a razão fundamental dos sistemas de IA). O grupo AI ​​Watch observa que a IA também pode ser classificada de acordo com as famílias de algoritmos e/ou os modelos teóricos que os fundamentam, as capacidades cognitivas reproduzidas pela IA e as funções desempenhadas pela IA. As aplicações de IA podem, por sua vez, ser classificadas de acordo com o setor socioeconômico e/ou as funções que desempenham dentro dele. Uma forma de definir inteligência artificial é considerar suas aplicações e os tipos de tarefas que ela resolve. Um relatório da Comissão Europeia de 2020 apresenta uma taxonomia que classifica as definições de IA de acordo com várias tarefas realizadas, como raciocínio, aprendizado, percepção, etc.                  

Nesse mesmo ano, Jack Copeland, um professor universitário que estudou o trabalho de Alan Turing (1912-1954) e escreveu sobre inteligência artificial, propôs uma definição semelhante, que distingue mais claramente as facetas da inteligência artificial, de acordo com cinco categorias principais: Aprendizagem generalizada: ela aprende com dados diversos para identificar padrões e aplicar esse conhecimento a novas situações, como a detecção de fraudes online; O raciocínio: essa capacidade permite que a ela faça previsões e tire conclusões a partir de dados, auxiliando em decisões como prever o comportamento de compra; Resolução de problemas: ela encontra soluções ótimas para problemas específicos, sendo utilizada em contextos como otimização industrial ou estratégias de jogos; Percepção:  permite que ela reconheça e interaja com o ambiente, sendo utilizada em robótica avançada e veículos autônomos para navegar e executar tarefas; compreensão da linguagem:  a inteligência artificial analisa e gera linguagem por meio de processamento de linguagem natural, sendo utilizada em aplicações como assistentes de voz e chatbots para a interação do usuário. A aprendizagem de máquina envolve permitir que o modelo de IA aprenda a executar uma tarefa em vez de especificar exatamente como ele deve executá-la. O modelo contém parâmetros cujos valores são ajustados ao longo do processo de aprendizagem. O método de retropropagação pode detectar, para cada parâmetro, a extensão em que ele contribuiu para uma resposta correta ou incorreta do modelo e pode ajustá-lo de acordo. 

A aprendizagem de máquina requer uma maneira de avaliar a qualidade das respostas fornecidas pelo modelo. Os principais métodos de aprendizagem são: Na aprendizagem supervisionada, as respostas são conhecidas, enquanto na aprendizagem não supervisionada, o algoritmo descobre estruturas nos dados por si só. Um conjunto de dados anotado é usado para treinar o algoritmo. Ele contém dados de entrada fornecidos ao modelo e as respostas esperadas correspondentes que o modelo é treinado para produzir. Às vezes é difícil obter dados anotados suficientes com as respostas esperadas. Um conjunto de dados é fornecido ao modelo, mas não é anotado com as respostas esperadas. O objetivo pode ser, por exemplo, agrupar dados semelhantes (clustering). Um problema de aprendizagem supervisionada é gerado automaticamente a partir de um conjunto de dados não anotado. Isso geralmente funciona ocultando algumas das informações (palavras de um texto, partes de imagens, etc.) para treinar o modelo a prevê-las. O agente está imerso em um ambiente onde suas ações são avaliadas. Por exemplo, um agente pode aprender a jogar xadrez jogando contra si mesmo, e o resultado (vitória ou derrota) permite que cada iteração avalie se ele jogou corretamente. Nesse caso, não há necessidade de um conjunto de dados. As redes neurais artificiais são inspiradas no funcionamento do cérebro humano: os neurônios geralmente estão conectados a outros neurônios tanto na entrada quanto na saída. Quando ativados, os neurônios de entrada agem como se estivessem participando de uma votação ponderada para determinar se um neurônio intermediário deve ser ativado e, assim, transmitir um sinal para os neurônios de saída.

Na prática, para o equivalente artificial, os “neurônios de entrada” são simplesmente números, e os pesos dessa “votação ponderada” são parâmetros ajustados durante o treinamento. Além da função de ativação, as redes neurais artificiais na prática realizam apenas adições e multiplicações de matrizes, o que significa que podem ser aceleradas pelo uso de processadores gráficos. Em teoria, uma rede neural pode aproximar qualquer função. Em redes neurais feedforward simples, o sinal viaja em apenas uma direção. Com redes neurais recorrentes, o sinal de saída de cada neurônio é realimentado na entrada desse neurônio, permitindo a implementação de um mecanismo de memória de curto prazo. Redes neurais convolucionais, que são particularmente usadas no processamento de imagens, introduzem uma noção de localidade. Suas primeiras camadas identificam padrões relativamente básicos e locais, como contornos, enquanto as camadas posteriores processam padrões mais complexos e globais. A aprendizagem profunda utiliza múltiplas camadas de neurônios entre entradas e saídas, daí o termo “profunda”. O uso de unidades de processamento gráfico (GPUs) para acelerar os cálculos e o aumento na disponibilidade de dados contribuíram para o aumento da popularidade da aprendizagem profunda. Ela é usada particularmente em visão computacional, reconhecimento automático de fala e processamento de linguagem natural que inclui grandes modelos de linguagem. Os grandes modelos de linguagem são modelos de linguagem com bilhões de parâmetros. Eles frequentemente dependem da arquitetura transformer. Os Transformers Generativos Pré-treinados (GPTs) são conceitualmente um tipo particularmente popular de modelo de linguagem de grande escala.

Seu “pré-treinamento” consiste em prever, dada uma porção de um texto, o próximo token (um token sendo uma sequência de caracteres, tipicamente uma palavra, parte de uma palavra ou pontuação). Esse treinamento em prever o que virá a seguir, repetido para um grande número de textos, permite que esses modelos acumulem conhecimento sobre o mundo. Eles podem então gerar texto semelhante ao usado para o pré-treinamento, prevendo os tokens subsequentes um a um. Geralmente, outra fase de treinamento é então realizada para tornar o modelo mais verídico, útil e inofensivo. Essa fase de treinamento frequentemente usando uma técnica chamada “reinforcement learning from human feedback” (RLHF) ajuda a reduzir um fenômeno chamado “alucinação”, onde o modelo gera informações aparentemente plausíveis, mas falsas. Antes de ser inserido no modelo, o texto é dividido em tokens. Estes são convertidos em vetores que codificam seu significado e posição dentro do texto. Dentro desses modelos há uma alternância de redes neurais e camadas de atenção. As camadas de atenção combinam conceitos, permitindo que o contexto seja levado em consideração e que relações complexas sejam compreendidas. Esses modelos são frequentemente integrados em agentes conversacionais, também chamados de chatbots, que representam um software que tem a capacidade de interagir com os usuários e simular uma conversação humana onde o texto gerado é formatado para responder ao usuário.  

Por exemplo, o agente conversacional ChatGPT usa os modelos GPT-3.5 e GPT-4. Em 2023, surgiram modelos de consumo que podiam processar simultaneamente diferentes tipos de dados, como texto, som, imagens e vídeos, como o Google Gemini. Ilustração do método do gradiente descendente para três pontos de partida diferentes, variando dois parâmetros de forma a minimizar a função de custo representada pela altura. A busca local, ou busca de otimização, baseia-se na otimização matemática para encontrar uma solução numérica para um problema, melhorando progressivamente a solução escolhida. Em particular, em aprendizado de máquina, o método do gradiente descendente permite encontrar uma solução localmente ótima, dada uma função de custo a ser minimizada, variando os parâmetros do modelo. A cada passo, envolve a modificação dos parâmetros a serem otimizados na direção que melhor reduz a função de custo. A solução resultante é localmente ótima, mas podem existir soluções globalmente melhores que poderiam ter sido obtidas com diferentes valores iniciais dos parâmetros. Os modelos modernos de IA podem ter bilhões de parâmetros para otimizar e frequentemente utilizam variantes mais complexas e eficientes do método do gradiente descendente. Os algoritmos evolutivos, inspirados na teoria evolutiva, utilizam uma forma de busca de otimização. Em cada etapa, sucessivamente operações como “mutação” ou “cruzamento” são realizadas aleatoriamente para obter variantes diferentes, e as variantes mais adequadas são selecionadas para a próxima etapa. 

A busca no espaço de estados visa encontrar um estado que satisfaça o objetivo percorrendo uma árvore de estados possíveis. Por exemplo, a busca adversarial é usada para programas que jogam jogos como xadrez ou Go. Ela consiste em percorrer a árvore de movimentos possíveis do jogador e de seu oponente, procurando por um movimento vencedor. A busca exaustiva simples raramente é suficiente na prática, dado o número de estados possíveis. Heurísticas são usadas para priorizar os caminhos mais promissores. A IA quântica é um campo de pesquisa interdisciplinar que visa explorar as propriedades únicas da física quântica (incluindo superposição quântica e emaranhamento quântico) para resolver problemas complexos inacessíveis à IA clássica, usando computadores quânticos que executam novos tipos de algoritmos. Alguns especialistas acreditam que a computação quântica pode, a longo prazo, melhorar o desempenho dos sistemas de aprendizado de máquina. Para sistemas de inteligência artificial usados ​​principalmente para criar a impressão de inteligência em um ambiente controlado, especialmente para personagens não jogáveis ​​em videogames, o aprendizado de máquina geralmente não é empregado. Em vez disso, implementa-se um conjunto de funções e comportamentos mais precisos e menos flexíveis. Geralmente são listas de textos ou palavras predefinidas, às vezes com gatilhos condicionais, por exemplo, uma escolha de movimentos seguindo uma série de regras e movimentos de busca de caminho. A lógica formal é usada para raciocínio e representação de conhecimento. Ela se apresenta em duas formas: lógica proposicional e lógica predicativa. A lógica proposicional opera sobre afirmações que são verdadeiras ou falsas e usa lógica conectiva com operadores como “e”, “ou”, “não” e “implica”.

A lógica predicativa estende a lógica proposicional e também pode operar sobre objetos, predicados ou relações. Ela pode usar quantificadores, como em “Todo X é um Y” ou  “Alguns Xs são Ys”. A inferência lógica (ou dedução) é o processo de fornecer — com o auxílio de um mecanismo de inferência - uma nova afirmação (a conclusão) a partir de outras afirmações sabidamente verdadeiras (as premissas). Uma regra de inferência descreve os passos válidos em uma prova; a mais geral é a regra de resolução. A inferência pode ser reduzida a encontrar um caminho das premissas às conclusões, onde cada passo é uma aplicação de uma regra de inferência. Mas, exceto para provas curtas em domínios restritos, uma busca exaustiva é muito demorada. A lógica fuzzy atribui valores de verdade entre 0 e 1, permitindo o tratamento de afirmações vagas, como “está quente”. A lógica não monotônica permite a invalidação de certas conclusões. Várias outras formas de lógica são desenvolvidas para descrever muitos domínios complexos. Um exemplo de uma rede bayesiana e as tabelas de probabilidade condicional associadas. Muitos problemas em IA (raciocínio, planejamento, aprendizado, percepção, robótica, etc.) exigem a capacidade de operar a partir de informações incompletas ou incertas. Algumas técnicas dependem da inferência Bayesiana, que fornece uma fórmula para atualizar probabilidades subjetivas com base em novas informações.

Este é notavelmente o caso das redes Bayesianas. A inferência Bayesiana muitas vezes precisa ser aproximada para ser calculada. Os métodos de Monte Carlo são um conjunto de técnicas para resolver problemas complexos realizando aleatoriamente muitas simulações a fim de aproximar a solução. As redes neurais também podem ser otimizadas para fornecer estimativas probabilísticas. Separação de dados em dois grupos (particionamento) por meio de um algoritmo de maximização da expectativa. Ferramentas matemáticas precisas foram desenvolvidas para analisar como agentes inteligentes podem fazer escolhas e planos usando a teoria da decisão, a maximização da expectativa e a teoria do valor da informação. Essas técnicas incluem modelos como processos de decisão Markovianos, teoria dos jogos e mecanismos de incentivo. Muitos modelos de IA visam atribuir uma categoria (classificação), um valor (regressão) ou uma ação a dados fornecidos. Os métodos de classificação incluem árvores de decisão, k-vizinhos mais próximos, máquinas de vetores de suporte e classificação Bayesiana ingênua. Redes neurais também podem realizar classificação. Como precursores da inteligência artificial, vários autômatos foram criados ao longo da história, incluindo o pato de Vaucanson (1950) e os autômatos de Al-Jazari, foram máquinas engenhosas criadas no século XII pelo polímata muçulmano Ismail al-Jazari (1136–1206), descritas em sua obra mestre de 1206, O Livro do Conhecimento de Engenheiros Mecânicos Geniais. Alguns autômatos datam da Antiguidade e eram usados ​​para cerimônias religiosas. Mitos e rumores também relatam a criação de seres inteligentes, por exemplo, golens. Filósofos e matemáticos como Raymond Lull, Leibniz e George Boole procuraram formalizar o raciocínio e a geração de ideias.

No século XX, Alan Turing (1912-1954) notavelmente inventou um modelo de computação posteriormente chamado de Máquina de Turing, explorou a noção de computabilidade e inteligência artificial e propôs o “jogo da imitação” (teste de Turing) para avaliar a inteligência de máquinas futuras. O termo “inteligência artificial” foi introduzido por John McCarthy na Conferência de Dartmouth em 1956, onde a inteligência artificial foi estabelecida como uma disciplina distinta. Nos anos que se seguiram, pesquisadores propuseram várias provas de conceito, em situações específicas, do que as máquinas podem teoricamente fazer. Por exemplo, o programa ELIZA (cf. Dillon, 2020) poderia se passar por um psicoterapeuta e o Logic Theorist poderia provar teoremas. O final do século foi marcado por períodos de entusiasmo e dois períodos de desilusão e congelamento de financiamento conhecidos como os “invernos da IA”, o primeiro de 1974 a 1980 e o segundo de 1987 a 1993. Os sistemas especialistas foram particularmente populares na década de 1980, apesar de sua fragilidade e da dificuldade de implementar manualmente as regras de inferência corretas. Técnicas de aprendizado de máquina foram desenvolvidas (redes neurais, retropropagação do gradiente, algoritmos genéticos), assim como a abordagem conexionista. Mas o poder computacional limitado e a falta de dados de treinamento restringiram sua eficácia. Algumas áreas gradualmente deixaram de ser consideradas parte da inteligência artificial à medida que soluções eficientes foram encontradas; um fenômeno às vezes chamado de “efeito IA”. Em 1997, pela primeira vez, um supercomputador venceu várias partidas de xadrez contra o campeão mundial. Na década de 2010, os assistentes pessoais inteligentes foram uma das primeiras aplicações de inteligência artificial a se tornarem populares. Na década de 2000, a Web 2.0, a big data e as novas infraestruturas e capacidades computacionais possibilitaram a exploração de conjuntos de dados sem precedentes. Em 2005, teve início o projeto Blue Brain, com o objetivo de simular o cérebro de mamíferos. 

Em 2012, a rede neural convolucional AlexNet foi pioneira no uso de unidades de processamento gráfico (GPUs) para treinar redes neurais, aumentando drasticamente o poder computacional dedicado ao aprendizado de máquina. Em 2016, um programa venceu quatro de cinco partidas de Go jogadas contra Lee Sedol, um dos melhores jogadores do mundo. Surgiram organizações com o objetivo de criar inteligência artificial geral, como a DeepMind em 2010 e a OpenAI em 2015. Desde a década de 2010, as ferramentas de inteligência artificial (especializadas ou generativas) fizeram progressos espetaculares, mas ainda estão longe do desempenho dos seres vivos em muitas das suas capacidades naturais, particularmente na sua capacidade de aprender rapidamente a partir de uma pequena quantidade de informação (por indução), de acordo com a revista Slate em 2019. Em 2017, pesquisadores do Google propuseram a arquitetura transformativa, que serviu de base para grandes modelos de linguagem. Em 2018, Yann LeCun, Yoshua Bengio e Geoffrey Hinton ganharam o Prêmio Turing por seu trabalho em aprendizado profundo. Em 2022, programas que geram imagens a partir de descrições de texto, como Midjourney e DALL-E 2, tornaram-se populares. Nesse mesmo ano, o chatbot ChatGPT experimentou um crescimento sem precedentes, ganhando um milhão de usuários em apenas cinco dias e cem milhões de usuários em dois meses, o que intensificou a “corrida” da IA. Em 2023, o rápido progresso da IA ​​levantou preocupações sobre um potencial risco de extinção humana. Modelos fundamentais “multimodais”, capazes de processar simultaneamente múltiplas modalidades (texto, imagens, som), emergiram, como o Google Gemini e o GPT-4o. Novas infraestruturas de hardware foram desenvolvidas, notadamente aproveitando processadores gráficos Blackwell e TPUs. A pesquisa também está explorando as aplicações potenciais da computação quântica em IA.

O conceito sociológico de uma “fábrica de IA” também se materializou, abrangendo infraestruturas integradas que combinam a produção e o treinamento de modelos em larga escala com supercomputadores e centros de dados dedicados. Até 2025, vários projetos desse tipo foram anunciados, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, como a parceria entre a Alemanha e a Nvidia. A inteligência artificial geral (IAG) abrange qualquer sistema computacional capaz de executar ou aprender praticamente qualquer tarefa cognitiva que seja exclusiva dos humanos ou de outros animais. Alternativamente, pode ser definida como um sistema computacional que supera os humanos na maioria das tarefas de interesse econômico. A inteligência artificial geral tem sido considerada há muito tempo um assunto puramente especulativo. Algumas pesquisas já descreveram o GPT-4 como tendo “faíscas” de inteligência artificial geral. Especialistas em inteligência artificial demonstram amplas divergências e incertezas quanto à possível data de desenvolvimento das primeiras inteligências artificiais gerais (às vezes chamadas de “inteligências artificiais de nível humano”), seu impacto na sociedade e seu potencial para desencadear uma “explosão de inteligência”. Uma pesquisa de 2022 sugere que 90% dos especialistas em IA acreditam que a IA-G tem mais de 50% de chance de ser alcançada em 100 anos. A superinteligência artificial é um tipo hipotético de inteligência artificial geral cujas capacidades intelectuais ultrapassariam em muito as dos humanos mais brilhantes. O filósofo Nick Bostrom, reconhecido por seu trabalho sobre risco existencial, princípio antrópico, ética do aperfeiçoamento humano, transferência mental, riscos da superinteligência e o teste de reversãoobserva que as máquinas certamente têm certas vantagens sobre os cérebros humanos, particularmente no que diz respeito à memória, velocidade (as frequências dos processadores são da ordem de dez milhões de vezes superiores às dos neurónios biológicos) e à capacidade de partilhar conhecimento.

          A trivialização do conhecimento não faz produto do conhecimento apenas um produto determinado, faz também dele um produto qualquer. Mas as ideias podem tornar-se ideológicas na medida em que sua estrutura socialmente obedece às estruturas socioprofissionais, sua produção integra-se entre os outros processos de produção e a cultura torna-se cognoscível a partir das categorias econômicas do capital e do mercado. Mas nem a informação, nem a teoria, nem o pensamento abstrato, nem a cultura são produtos triviais, ainda que mais não seja pelo fato socialmente de serem, ao mesmo tempo, produtos/produtores e, mesmo comportando hologramaticamente a dimensão socioeconômica, fora de dúvida não poderiam ser reduzidas a isso. A redução trivializante não teme exercer-se como sujeito sobre o conhecimento científico. Este nível abstrato como qualquer outro é apropriado pelo pensamento, como a religião e através da ciência, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e suas estratégias, seus interesses e seus inusitados ganhos. Mas, por seu lado, os estudos de etnografias dos laboratórios, estes que parecem ter dinamismo, demonstram-nos como se estabelecem essas mediações dos pesquisadores, em função de posições, ou status, as lutas e a utilização de alguns truques diabólicos pelo reconhecimento per se, pelo prestígio ou pela glória, com as negociações necessárias ao estabelecimento de uma prova, os ritos de passagem na pesquisa e na universidade. A motivação primeira do cientista é a notoriedade.  

Mas não se pode reduzir o interesse científico ao interesse econômico, a vontade de pesquisar ao desejo de prestígio, a sede de conhecimento à sede de poder, em alguns casos terrenos sim. A sociologia não pode ser considerada uma concepção que exclui o indivíduo ou que, no máximo, o tolera. É uma concepção humanista, mas que deve implicá-lo e explicitá-lo. Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de determinações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Edgar Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar, princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma visão de mundo e das coisas que se governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. Ao organizar os paradigmas e modelos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu. As doutrinas e ideologias dispõem também da força imperativa e coercitiva que evidencia aos convictos e o temor inibitório aos desalmados.       

A partir deste fundamento, compreendemos de forma desafiadora que ordem, desordem e organização são elementos essenciais para o entendimento da questão da complexidade, pois se desintegram e se desorganizam ao mesmo tempo. Nesse entendimento, constata-se que o sentido da realidade se dá por meio da relação do todo com as partes e vice e versa em uma análise integradora em que não é pertinente examinar o fenômeno a partir de uma única matriz de racionalidade. A desordem torna-se indispensável para a organização social da vida humana, pois a sociedade é dependente de acontecimentos/fatos que possam modificar a ordem já estabelecida para gerar novos meios de organização entre os sujeitos. Há um imprinting cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o impõe. O imprinting é um termo que Konrad Lorentz (1903-1989) propôs para dar conta da marca incontornável pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu alcance. Há um imprinting cultural que marcam os humanos, desde o nascimento, com o selo da cultura, primeiro familiar e depois da escola, prosseguindo na universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas da sociedade.

Os subcultivados sofrem um imprinting e uma normalização atenuados e há mais opiniões pessoais diante do balcão de café do que num coquetel literário. Embora contrariados em contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que permite a expressão de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting e a normalização crescem paralelamente com a aquisição real da cultura. O imprinting cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório, que nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda objeção vinda de fonte técnica considerada ruim. A normalização manifesta-se de maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a tentação de duvidar ou de contestar. A normalização, portanto, com seus subaspectos de conformismo, exerce uma prevenção contra o desvio e elimina-o, se ele se manifesta. Mantém, impõe a norma do que é importante, válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo, imbecil, perverso. Indica os limites a não ultrapassar. As palavras que não devem proferir. Os conceitos a desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting assimila a perpetuação dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas. Obedece a processos de tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento entre os homens dessa própria cultura. Através do seu modo e circularidade de conhecimento, reproduzem a legitimidade que produz esse conhecimento. As crenças que se impõem são fortalecidas pela fé que as suscitaram. Então, reproduzem não somente os conhecimentos, mas as estruturas de poder e os modos reguladores que determinam a invariância desses conhecimentos normalizados.                  

            A liberdade intelectual não pode ser vista apenas como determinada possibilidade de expressão como prática de lugares estabelecidos. É uma noção que se torna necessário sociologizar, culturalizar, complexificar, termodinamizar. Está ligada a um contexto cultural pluralista, dialógico, conflitual agitado. Necessita não apenas das condições sociais que se tornam, de fato, permissivas, mas, também das condições dinâmicas irradiadas pelas conjunturas de crises, turbulências, conflitos nas ideias e visões de mundo. Comparativamente, como ocorre no mundo físico, a termodinâmica do mundo das ideias só é fecunda, produtiva ou criadora entre certos patamares, os quais não podem ser determinados a priori. Aquém desses limiares, não há “efervescência cultural” e, além, a turbulência torna-se dispersiva ou explosiva. Não se pode determinar uma temperatura intelectual ideal, ainda mais que não há nenhum termômetro ad hoc. Mas, para concordarmos com Morin, assim como a verdadeira vida do pensamento realiza-se na temperatura de sua própria destruição, “a verdadeira vida de uma efervescência cultural desenrola-se quase na temperatura de sua própria ebulição”. Neste sentido, se podemos conceber o complexo das liberdades, então podemos compreender que a cultura enquanto representação seja tanto libertação quanto prisão para o conhecimento ou o pensamento.                    

A cultura aprisiona-nos no seu etno-sócio-centrismo, seu hic et nunc, nos seus imperativos categóricos e proibições, nas suas normas e normalizações, nas suas limitações e encobrimentos, nos seus artigos de fé e também de desconfiança, nas suas verdades e nos seus erros. Mas, ao mesmo tempo, a cultura oferece-nos uma linguagem, um saber, uma memória, um processo comunicativo, uma possibilidade de trocas linguísticas, verificações e refutações. Quando comporta em si a pluralidade dialógica e a abertura para as outras culturas e os outros saberes exteriores, oferece-nos as condições e possibilidades de emanciparmos relativamente das suas limitações e dissimulações. Com o desenvolvimento da cultura crescem, naturalmente, o artificial e o frívolo na esfera do pensamento; além de pequenos imprinting locais e sofísticos multiplicam-se em outros tantos diaforismos e trissotinadas; um “alto cretinismo” instala-se nas esferas superiores; a proliferação da abstração e da matematização mascara o real concreto ou mesmo de análise, que deviam traduzir, mas, ao mesmo tempo crescem e multiplicam-se as brechas que permitem as autonomias e as liberdades, as possibilidades de acesso aos problemas essenciais e universais, mesmo se sob a pressão das frivolidades e dos “altos cretinismos”, inicialmente usado para descrever uma pessoa de muito pouca inteligência e lunática, os problemas decisivos permanecem confinados a uma minoria tola, medíocre, desviante. 

         O etnocentrismo in statu nascendi é por vezes comparativamente associado ao racismo, à estereotipagem, à discriminação ou à xenofobia. No entanto, o termo etnocentrismo não implica necessariamente uma visão negativa da “raça alheia” nem indica uma conotação negativa. O oposto do etnocentrismo é o relativismo cultural, uma filosofia orientadora que afirma que a melhor forma de compreender uma cultura diferente é através da sua perspetiva, em vez de a julgar a partir de pontos de vista subjetivos moldados pelos próprios padrões culturais. O termo etnocentrismo foi aplicado pela primeira vez nas ciências sociais pelo sociólogo norte-americano William G. Sumner (1840-1910). Em seu livro de 1906, Folkways, Sumner descreve o etnocentrismo como “o nome técnico para a visão de mundo em que o próprio grupo é o centro de tudo, e todos os outros são dimensionados e avaliados em relação a ele”. Ele ainda caracterizou o etnocentrismo como frequentemente levando ao orgulho, à vaidade, à crença na superioridade do próprio grupo e ao desprezo por pessoas de fora. Historicamente, o etnocentrismo desenvolveu-se em paralelo com a evolução das compreensões sociais por parte de pessoas como o teórico social Theodor W. Adorno (1903-1969). Em A Personalidade Autoritária, Adorno e seus colegas da Escola de Frankfurt estabeleceram uma definição mais ampla do termo como resultado da “diferenciação entre grupo interno e grupo externo”, afirmando que o etnocentrismo “combina uma atitude positiva em relação ao próprio grupo étnico/cultural (o grupo interno) com uma atitude negativa em relação ao outro grupo étnico/cultural (o grupo externo)”. Ambas as atitudes justapostas são também resultado de um processo conhecido como identificação social e contraidentificação social. Nas ciências sociais, etnocentrismo significa julgar outra cultura com base nos padrões da própria cultura, em vez dos padrões da outra cultura específica.

 Quando as pessoas usam sua própria cultura como parâmetro para avaliar outras culturas, elas frequentemente tendem a considerar sua cultura superior e a ver outras culturas como inferiores e bizarras. O etnocentrismo pode ser explicado em diferentes níveis de análise. Por exemplo, em um nível intergrupal, esse termo é visto como consequência de um conflito entre grupos; enquanto em um nível individual, a coesão intragrupal e a hostilidade extragrupal podem explicar traços de personalidade. Além disso, o etnocentrismo pode nos ajudar a explicar a construção da identidade. O etnocentrismo pode explicar a base da identidade de uma pessoa ao excluir o grupo externo que é alvo de sentimentos etnocêntricos e usado como forma de se distinguir de outros grupos que podem ser mais ou menos tolerantes. Essa prática nas interações sociais cria limites sociais; tais limites definem e traçam fronteiras simbólicas do grupo com o qual se deseja estar associado ou ao qual se deseja pertencer. Dessa forma, o etnocentrismo é um termo não apenas limitado à antropologia, mas também pode ser aplicado a outros campos das ciências sociais, como a sociologia ou a psicologia. O etnocentrismo pode ser particularmente acentuado na presença de competição interétnica, hostilidade e violência. Por outro lado, o etnocentrismo pode influenciar negativamente o desempenho do trabalhador expatriado. As classificações de etnocentrismo têm origem nos estudos de antropologia. Com sua onipresença ao longo da história, o etnocentrismo sempre foi um fator na forma como diferentes culturas e grupos se relacionaram entre si. 

Exemplos incluem como, historicamente, os estrangeiros eram caracterizados como “bárbaros”. Essas tendências existem em sociedades complexas, por exemplo, “os judeus se consideram o povo escolhido e os gregos defendem todos os estrangeiros como bárbaros”, e como a China acreditava que seu país era “o centro do mundo”. No entanto, as interpretações antropocêntricas surgiram inicialmente, principalmente no século XIX, quando os antropólogos começaram a descrever e classificar várias culturas de acordo com o grau em que haviam desenvolvido marcos significativos, como religiões monoteístas, avanços tecnológicos e outras progressões históricas. A maioria das classificações foi fortemente influenciada pela colonização e pela crença de que era possível melhorar as sociedades colonizadas, classificando as culturas com base no progresso de suas sociedades ocidentais e no que consideravam marcos importantes. As comparações baseavam-se principalmente no que os colonizadores acreditavam ser superior e no que suas sociedades ocidentais haviam realizado. O político e historiador da era vitoriana, Thomas Macaulay (1800-1859), certa vez afirmou que “uma prateleira de uma biblioteca ocidental” continha mais conhecimento do que séculos de textos e literatura escritos por culturas asiáticas. Ideias desenvolvidas por cientistas ocidentais, como Herbert Spencer (1829-1903), incluindo o conceito de “sobrevivência do mais apto”, continham ideais etnocêntricos, influenciando a crença de que as sociedades “superiores” tinham probabilidade de sobreviver e prosperar. 

O conceito de Orientalismo de Edward Said representava como as reações ocidentais às sociedades não ocidentais se baseavam em uma “relação de poder desigual” que o mundo ocidental desenvolveu devido à sua história de colonialismo e à influência que exercia sobre as sociedades não ocidentais. A classificação etnocêntrica de “primitivo” também foi usada por antropólogos dos séculos XIX e XX e representava como a falta de conhecimento cultural e religioso alterava as reações gerais às sociedades não ocidentais. O antropólogo do século XIX, Edward Burnett Tylor (1832-1917), escreveu sobre sociedades “primitivas” em Cultura Primitiva (1871), criando uma escala de “civilização” na qual se subentendia que as culturas étnicas precediam as sociedades civilizadas. O uso de “selvagem” como classificação é reconhecido como “tribal” ou “pré-letrado”, sendo geralmente um termo pejorativo à medida que a escala de “civilização” se tornou mais comum. Exemplos que demonstram a falta de compreensão incluem quando viajantes europeus julgavam diferentes línguas com base no fato de não as entenderem e demonstravam uma reação negativa, ou a intolerância demonstrada por ocidentais quando expostos a religiões e simbolismos desconhecidos. Friedrich Hegel, um filósofo alemão, justificou o imperialismo ocidental argumentando que, como as sociedades não ocidentais eram “primitivas” e “incivilizadas”, sua cultura e história não valiam serem conservadas e, deveriam acolher a ocidentalização.

Escólio: Num futuro próximo, historicamente, diante de um aumento da criminalidade, a cidade de Los Angeles implementou um novo sistema de justiça baseado em inteligência artificial chamado Mercy. Nesse sistema, todo réu “é presumido culpado e tem 90 minutos para provar sua inocência”. Durante esse tempo social, ele tem acesso a uma vasta quantidade de informações, provas, gravações de áudio e vídeo, arquivos de computador e outros materiais armazenados na chamada “nuvem da cidade”. Se falhar, tecnologicamente, o réu é condenado à morte e executado imediatamente. O tenente de polícia Chris Raven (Chris Pratt) acorda no tribunal do Sistema Mercy. A inteligência artificial designada para julgá-lo, na forma de uma mulher chamada Maddox (Rebecca Ferguson), informa-o de que ele é acusado de assassinar sua esposa, Nicole (Annabelle Wallis), que foi encontrada morta a facadas em sua casa. O corpo foi descoberto pela filha de Chris e Nicole, Britt (Kylie Rogers). Incrédulo, Chris nega qualquer envolvimento na morte da esposa, mas alega não se lembrar de eventos recentes. Maddox lhe apresenta gravações que mostram que, após ir trabalhar, ele voltou para casa e discutiu com Nicole pouco antes de sua morte, se embriagar em um bar onde foi violentamente preso. Buscando mais informações, Chris pede para contatar sua colega, Jaq Diallo (Kali Reis), que está inspecionando a cena do crime. 

Após analisar as evidências, Chris admite que tudo aponta para um crime passional, uma teoria que se torna plausível pelas informações apresentadas por Maddox, mostrando que o casamento de Chris e Nicole estava em crise. Chris revela que suspeitava que sua esposa estivesse tendo um caso e, graças às informações fornecidas por Maddox, identifica o homem com quem Nicole estava se encontrando: Patrick Burke (Jeff Pierre). A polícia inicia uma busca por Burke, mas, embora ele tente escapar da prisão, apresenta um álibi sólido, o que o inocenta. Chris então discute seu alcoolismo, no qual havia recaído apesar do apoio de Rob Nelson (Chris Sullivan), um colega de Nicole que o havia apadrinhado para o Alcoólicos Anônimos. Ele não consegue esquecer a morte de seu ex-companheiro de equipe, Ray Vale (Kenneth Choi), assassinado por um criminoso que foi posteriormente absolvido pelo sistema judiciário tradicional, o que fez de Chris comparativamente, “um fervoroso defensor do sistema de misericórdia”. Chris admite que se lembra de ter discutido com Nicole pouco antes de sua morte: em sua raiva, ele quebrou o vaso favorito da esposa, e ela se cortou ao recolher os cacos, o que explica a presença de sangue dela em Chris, que tentou ajudá-la. Embora Chris admita que possa ter cometido o assassinato, Maddox o incentiva a continuar a investigação até que a verdade seja completamente esclarecida.

Chris recorda que, durante sua prisão, Burke mencionou que Nicole a havia confidenciado problemas que estava enfrentando em seu trabalho em uma empresa de importação e exportação, enquanto investigava o desaparecimento de carregamentos contendo ureia. Ele suspeita que um dos colegas de Nicole possa estar envolvido em sua morte: vários deles compareceram a um churrasco na casa de Chris e Nicole na noite anterior ao assassinato. Assistir a um vídeo postado por sua filha em sua conta do Instagram também revela a possibilidade de que um dos convidados possa ter se escondido a noite toda no porão antes de sair pela porta dos fundos. As suspeitas de Chris recaem sobre Holt Charles (Rafi Gavron), um colega de Nicole viciado em jogos de azar e em sérias dificuldades financeiras, apesar do apoio de Rob. Chris tenta ligar para Rob, mas Holt atende. Chris o acusa do assassinato de Nicole, mas Holt nega veementemente e revela que Rob não apareceu para trabalhar no dia em que Nicole morreu. Imagens de vídeo não oficiais analisadas por Chris confirmam que Rob se hospedou secretamente na casa de Chris antes de sair escondido no porta-malas do carro do vizinho. Chris pede a Jaq que vá atrás de Rob. Ele também percebe possíveis problemas com Maddox, que é sensível às emoções de Chris e à sua tendência de agir por instinto em vez de fatos.

Uma equipe da SWAT invade a casa de Rob, mas ele continua foragido. A polícia descobre que Rob usou grandes quantidades de ureia para fabricar explosivos. Parte dessa ureia foi usada para armar uma armadilha em sua garagem, que explode, matando vários policiais. Jaq, que sobreviveu à explosão, continua a caçar Rob. Uma foto de infância que Rob encontrou ajuda Chris e Maddox a entenderem os verdadeiros motivos de Rob: ele é irmão de David Webb, um ex-morador de rua que foi julgado pela Mercy, instituição à qual Chris o havia confiado, e condenado à morte por assassinato. Rob, que também fez Britt de refém, busca vingança pela morte do irmão matando Chris e destruindo as instalações da Mercy. As provas que Chris reuniu são suficientes para reduzir a probabilidade de sua culpa no assassinato da esposa a 0%. Mesmo assim, Chris se recusa a sair do tribunal, apesar da contagem regressiva quase esgotada, pois perderia o acesso à vasta quantidade de dados que Maddox está lhe fornecendo. Uma equipe tática consegue desviar temporariamente o caminhão de Rob de seu alvo pretendido, com o objetivo de detoná-lo em uma ponte longe de qualquer vítima humana, mas Chris se opõe, alegando a presença de sua filha no veículo.

Jaq ordena a detonação do caminhão mesmo assim, mas Maddox secretamente hackeia o drone destinado a destruí-lo para proteger Britt. Rob dirige o caminhão carregado de explosivos até a sede da Mercy, atrasando a explosão para garantir a presença de Chris. Chris finalmente é libertado do tribunal onde estava detido e confronta Rob. Maddox oferece a Chris a chance de testemunhar em favor de seu falecido irmão, mas as informações que ele fornece são consideradas não confiáveis. Uma luta se inicia entre Chris e Rob, durante a qual Chris consegue desarmar Rob e desativar o detonador. Chris quase executa Rob ali mesmo, mas decide poupá-lo após os apelos de Britt e a insistência de Maddox. Rob continua a proclamar a inocência de seu irmão, argumentando que estava ao telefone com ele no momento do assassinato do qual foi acusado. Maddox então acessa os arquivos que corroboram sua versão dos fatos. Descobriu-se que Jaq, responsável por catalogar as provas após a prisão de Webb, escondeu seu celular para garantir que nenhuma evidência tecnologicamente pudesse corroborar sua inocência: como Webb foi o primeiro suspeito julgado por Mercy, Jaq acreditava que o veredicto deveria ser incontestável. Como resultado, Jaq é preso junto com Rob. Chris, reunido com sua filha, testemunha Maddox anunciar paradoxalmente “a absolvição definitiva das acusações a seu favor pelo assassinato de sua esposa”.

Bibliografia Geral Consultada.

BARON, Margaret, “A Note on the Historical Development of Logic Diagrams: Leibniz, Euler and Venn”. In: The Mathematical Gazette. LIII (383), 1969; MITZMAN, Arthur, La Jaula de Hierro: Una Interpretación Histórica de Max Weber. Madri: Alianza Editorial, 1976; MATA, Roberto da, Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1981; WATZLAWICK, Paul (Org.), L’Invention de la Réalité. Comment Savons-Nous Ce Que Nous Savons? Contributions au Constructivisme. Paris: Editeur Seuil, 1988; HATON, Jean-Paul; HATON, Marie-Christine, Inteligência Artificial. Paris: Que sais-je?, 1990; DUMONT, Louis, Homo Hierarchicus. O Sistema de Castas e suas Implicações. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992; MÉSZÁROS, István, O Poder da Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; CARVALHO, Marçal Luis Ribeiro, A Questão Punitiva na Pós-modernidade: Desafios Contemporâneos à Luz da Ética da Alteridade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2010; IANNI, Octavio, A Sociologia e o Mundo Moderno. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2011; FREITAS, Francisco Augusto Canal, Habitar o Hábito: Reflexão e Origem da Cidade no Pensamento de Walter Benjamin. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2012; RODRIGUES, Alexandre Amaral, Ambição e Prudência: Os Sistemas Econômicos de Adam Smith. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; CUBERO, Alexandra, “TEC Gradúa el Primer Ingeniero Ciego de Costa Rica”. In: La Republica, 14 mars, 2018; DILLON, Sarah, “The Eliza Effect and its Dangers: From Demystification to Gender Critique”. In: Journal for Cultural Research, vol. 24, n° 1,‎ 2 Janvier 2020, pp. 1–15; D`ALESSANDRO, Anthony, “Filme de ficção científica de Chris Pratt, Mercy, adiciona Rafi Gavron, Chris Sullivan, Kenneth Choi e Kylie Rogers”, no Deadline.com, 3 de abril de 2024; JACKSON, Angélique, “Annabelle Wallis junta-se a Chris Pratt e Rebecca Ferguson no thriller de ficção científica Mercy para a Amazon MGM Studios (Exclusivo)”, na Variety,19 de março de 2024; MENDES, José Vieira, “Berlinale 2026: quando o cinema volta a medir a temperatura do mundo”. In: https://visao.pt/atualidade/cultura/2026-02-11; entre outros.