“Mentes criativas são conhecidas por sobreviverem a qualquer tipo de mau treinamento”. Ana Freud (1895-1982)
Por Uma Mulher (Pour une femme) tem como representação
social um filme dramático francês de 2013, dirigido por Diane Kurys, nascida em
3 de dezembro de 1948, é uma diretora, produtora, cineasta e atriz francesa.
Vários de seus filmes como diretora são semiautobiográficos. Diane Kurys nasceu
em Lyon, Rhône, França, a mais nova de duas filhas de imigrantes judeus russos
e poloneses, Lena e Michel. Diane Kurys e sua irmã mais velha passaram seus
primeiros anos em Lyon. Como muitas das personagens de seus filmes, ela teve um
relacionamento difícil com os pais, e sua infância traumática tornou-se tema de
muitos de seus filmes. Seus pais se conheceram e se casaram no Camp de
Rivesaltes em 1942, também reconhecido como Campo Joffre, isto é, um campo de
internamento e trânsito na comuna de Rivesaltes, no departamento dos Pirenéus
Orientais, na Zona Sul da França, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
separando-se em 1954. O divórcio marcou e afetou profundamente Diane, e se
tornaria uma verdadeira fonte de inspiração para vários de seus filmes; Kurys
afirmou que fez filmes sobre eles porque “queria vê-los juntos novamente”. Foi após esse evento que sua mãe decidiu se
mudar com as duas filhas para Paris, onde administrou uma boutique de
moda feminina, enquanto seu pai permaneceu em Lyon, onde administrou uma loja
de roupas masculinas.
Ela morou com a mãe
após o divórcio em 1954, tendo fugido de casa para se juntar ao pai aos
dezesseis anos de idade. Na adolescência, ela foi radicalizada pelo extraordinário
evento Maio de 1968, mas ficou um tanto desiludida com razão, depois,
chamando-o de “revolução burguesa” em uma entrevista com Jean-Luc Wachthausen. Ela conheceu seu parceiro e também cineasta
Alexandre Arcady quando tinha quinze anos, em 1964, e foi morar em Israel em um
kibutz perto da fronteira com o Líbano. Eles são um casal desde a década
de 1960 e têm duas produtoras juntos. Seu filho Yasha, nascido em 1991, é um
escritor que escreve sob o nome de Sacha Sperling. O acampamento foi chamado de
“Campo Joffre” em homenagem ao General Joseph Joffre (1852–1931),
comandante-em-chefe do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918). Após a Retirada, isto é, consumando-se o êxodo de cerca de meio
milhão de refugiados da Espanha para a França no início de 1939, no final da chamada
Guerra Civil Espanhola, o governo francês decidiu através do processo de
permutação usar o Campo Joffre para internar mais de 15.000 refugiados
catalães. Esta decisão nunca foi totalmente posta em prática, embora um pequeno
fluxo de refugiados catalães tenha sido detido lá em 1939. Em 10 de dezembro de
1940, o Ministério da Defesa reservou 600 acres (2,4 km²) ao Sul do campo para
abrigar pessoas expulsas da Alemanha.
Atingimos na modernidade a compreensão do visível como visível e pari pasu do invisível como invisível, enquanto vínculo orgânico que une o invisível ao visível concreto. Assim, é visível todo objeto ou problema que se situa no terreno, e no horizonte, isto é, no campo estruturado definido da problemática teórica de determinada disciplina teórica. Impõe-se-nos tomar essas palavras ao pé da letra. Alguns autores ajudam-nos a elucidar esses termos. A visão já não é então a representação de uma pessoa individual, dotada da faculdade de “ver” a qual é exercida quer da atenção, quer da distração. A vista é o fato imediato de suas condições estruturais. A vista é a relação de reflexão imanente do campo da problemática sobre seus objetos e seus problemas. A visão perde então seus privilégios religiosos da “leitura sagrada”. Nada mais é que a reflexão da necessidade imanente que liga o objeto ou o problema às suas condições de existência, que têm a ver com as condições de sua produção. A rigor, não é mais o olho do espírito de uma pessoa que vê o que existe no campo definido por uma problemática teórica. E esse próprio campo que se vê nos objetos ou nos problemas que ele define, sendo a visão apenas a reflexão necessária do campo de análise em seus objetos. O Quartier Latin deve seu nome à época Medieval, quando os habitantes da zona eram estudantes que utilizavam o latim para se comunicar. Desde a Idade Média, os estudantes do “Bairro Latino” historicamente tiveram uma grande e eficaz influência sobre a França, e durante os séculos XIX e XX promoveram movimentos estudantis de grande transcendência política.
O Quartier Latin
foi um dos centros da Revolução de Maio de 68. Depois de atravessar a Praça de
Saint Michel, na qual há uma enorme fonte com a figura de São Miguel lutando
com um dragão, há pequenas e encantadoras ruazinhas que formam o Bairro Latino.
A partir desse ponto, tudo que você verá são restaurantes e cafeterias que
oferecem terraços agradáveis com preços acessíveis. Embora haja muitas ruas com
restaurantes agradáveis, uma das principais artérias do bairro é a Rue
Huchette. O Quartier Latin é um bairro que fica no quinto e no sexto distritos
de Paris, na França. Localiza-se na margem esquerda (Sul) do Rio Sena, em torno
da Universidade de Sorbonne. O nome do bairro deriva do fato do Latim ter sido
amplamente falado próximo à universidade durante a Idade Média. Atualmente,
ainda abriga vários estabelecimentos de ensino superior, como a École
Normale Supérieure, a École des Mines de Paris e o Campus
Universitaires de Jussieu. Durante os anos 1960, especialmente em maio de
1968, foi um grande e extraordinário palco de contestação da sociedade. Na
modernidade os estudantes são um barômetro sensível às tensões que estão se
acumulando nas profundezas da sociedade. A onda de manifestações e ocupações
estudantis que precederam os acontecimentos de maio foi como um relâmpago que
anuncia a tormenta.
Nos meses anteriores a
maio já havia uma efervescência entre os estudantes que havia se expressado em
uma série de manifestações e ocupações. Frente à onda ascendente de protestos
estudantis o reitor da prestigiosa universidade Sorbone decidiu fechá-la, era a
segunda vez em seus setecentos anos de história. A primeira vez aconteceu em
1940 quando os nazistas ocuparam Paris. A tentativa da polícia de liberar o
pátio da Sorbone em 03 de maio foi a centelha que acendeu o fogo. A violência
irrompeu no “Bairro Latino”, com o resultado de mais de cem feridos e 596
presos. Os estudantes, os professores, os profissionais, camponeses,
cientistas, jogadores de futebol, inclusive as bailarinas do Follies
Bergères foram à luta. Em Paris os estudantes ocuparam a Sorbone. O teatro
l`Odeon foi ocupado por 2.500 estudantes, inclusive do ensino médio nas
escolas. A União Nacional de Estudantes da França (UNEF) e o Sindicato Nacional
do Ensino Superior (SNESUP) convocaram greves indefinidas. Em 6 de maio houve
novos enfrentamentos no Quartier Latin (“Bairro Latino”): 422 presos, 345
policiais e em torno de 600 estudantes feridos. A repressão utilizada através
dos aparelhos de Estado provocara uma indignação popular generalizada nas
cidades. Os estudantes enfurecidos arrancaram paralelepípedos do chão,
utilizados como arma, para arremessar contra os policiais e levantaram
barricadas seguindo a boa tradição francesa.
Os estudantes das
universidades na França saíram em seu apoio. Na noite de 10 de maio houve uma
ampla revolta no Bairro Latino. Os manifestantes levantaram barricadas e a
polícia os atacou com grande violência. Homens armados da polícia antidistúrbios
tomaram de assalto apartamentos privados e golpeou gente simples e corrente,
até mesmo o inclusivo caso de uma mulher grávida. Depararam-se com uma
resistência que não esperavam. Os parisienses de suas janelas rechaçavam a
polícia atirando vasos de plantas e objetos pesados. Dos 367 hospitalizados,
251 eram policiais, 720 pessoas feridas e 468 foram presas. Carros foram
destruídos ou queimados. O Ministro da Educação insultou os manifestantes: “Ni
doctrine, ni foi, ni loi”. A polícia de
choque pode ser composta por policiais regulares que atuam como tal em
situações específicas, ou pode ser formada por unidades separadas, organizadas
dentro ou em paralelo às forças policiais regulares. A polícia de choque é
utilizada em diversas situações e para diferentes fins. Ela pode ser empregada
para controlar distúrbios, como o próprio nome sugere, para dispersar ou
controlar multidões, para manter a ordem pública ou desencorajar a
criminalidade, ou para proteger pessoas ou propriedades.
A militarização da polícia moderna trouxe equipamentos antimotim militarizados e novas tecnologias que permitem que suas funções se expandam para além das atribuições policiais normais. A polícia de choque frequentemente usa equipamentos especiais chamados equipamentos antimotim para se proteger e para uso ofensivo no controle de distúrbios. O equipamento antimotim normalmente inclui coletes à prova de balas, cassetetes, escudos táticos, escudos antimotim e capacetes antimotim. Muitas equipes policiais antimotim também utilizam armas não letais especializadas, como: balas de borracha, granadas de esponja, spray de pimenta, gás lacrimogêneo, armas antimotim, balas de borracha, granadas de efeito moral, canhões de água e dispositivos acústicos de longo alcance. Ao longo dos anos 1900 e até os anos 2000, a tecnologia de equipamentos antimotim avançou com a ajuda da militarização das organizações policiais antimotim. Algumas tecnologias de equipamentos antimotim, incluindo gás lacrimogêneo, foram originalmente criadas para uso militar, especificamente na Primeira Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, em 1969, foi registrado que a polícia antimotim possuía extenso equipamento militarizado, incluindo coletes à prova de balas, granadas multiuso, canhões de água, helicópteros, cassetetes, comunicação por rádio, arame farpado, escudos policiais e veículos antimotim.
Em 2017, os protestos sociais na Venezuela inauguraram uma nova Era para os equipamentos da polícia antimotim venezuelana, com veículos militares que incluíam recursos como lançadores de gás lacrimogêneo e canhões de água. Os veículos militares foram usados como linhas de defesa perimetral para conter os protestos e fornecer à polícia antimotim poder suficiente para inibir o avanço da violência. Esses veículos militares usados pela polícia de choque em todo o mundo são geralmente provenientes de empresas de produtos militares, incluindo a Norinco, uma fabricante chinesa de produtos militares. Nos Estados Unidos, o programa federal 1033 permite que departamentos de polícia, incluindo unidades de polícia antimotim, solicitem equipamentos militares para circunstâncias que já ocorreram ou que possam ocorrer no futuro. Devido a esse programa, a militarização da polícia se expandiu por todos os estados, permitindo que a polícia antimotim estadual receba equipamentos de estilo militar semelhantes (cf. Foucault, 2016), comparativamente, aos das equipes de Armas e Táticas Especiais (SWAT). Os departamentos de polícia que receberam financiamento do programa 1033 são departamentos de polícia menores. Os equipamentos antimotim tornaram-se as principais ferramentas das forças policiais para combater grandes manifestações, incluindo protestos políticos e econômicos e manifestações laborais, que procuravam mudanças sem o consentimento explícito do governo em exercício. A polícia de choque é responsável por operações policiais que exigem táticas e equipamentos avançados para controlar multidões e manter a ordem pública. Essas atribuições podem variar entre as organizações policiais de choque em diferentes países, mas geralmente são semelhantes, pois têm a tarefa de manter a ordem estabelecida pelo governo vigente.
Começou assim como uma
série de greves estudantis que irromperam em algumas universidades e escolas de
ensino secundário em Paris, após confrontos com a administração e a polícia. A
tentativa do governo gaullista de esmagar essas greves com mais ações policiais
no Quartier Latin levou a uma escalada do conflito, que culminou numa greve
geral de estudantes e em greves com ocupações de fábricas em toda a França. O
símbolo unificador dos protestos foi O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e
sua inspiração imediata a Revolução Cultural Chinesa, iniciada em 1966 em que o
governo de Pequim usava massas de jovens enraivecidos como “tropa de choque”
para perseguir, humilhar, torturar e matar milhares de adversários do regime. Alguns
filósofos e historiadores afirmaram que esse evento foi um dos mais importantes
e significativos do século XX, porque não se deveu a uma camada restrita da
população, como trabalhadores e camponeses - que eram maioria -, mas a uma
insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de
classe. Além disso, teve intrínsecas ligações com os acontecimentos do
pós-guerra e com os da chamada Guerra Fria. Vale lembrar que as noções
sociológicas e política de “esquerda” e “direita” são rótulos antigos, que
remontam à clássica Revolução Francesa. Em 1789, a Assembleia Nacional
Constitutiva reuniu-se para decidir se, sob o novo regime político da França, o
rei deveria ter poder de veto.
Em caso afirmativo,
perguntava-se se esse direito deveria ser absoluto ou simplesmente suspensivo,
por um período de tempo social. Ao votar, os partidários do veto absoluto se
sentaram ao lado direito do presidente, o lado nobre. De acordo com a tradição
cristã, é uma honra sentar-se ao lado direito de Deus, ou à direita do chefe da
família na hora do jantar. Aqueles que queriam um veto altamente restrito
estavam sentados à esquerda. A organização da sala assumiu o significado
político: à direita, aqueles apoiantes de uma monarquia que procurou preservar
os poderes do rei; à esquerda, aqueles que desejavam reduzi-los. No século XIX,
este vocabulário cada vez mais usado para descrever as tendências políticas dos
membros do parlamento francês. Colocariam monarquistas versus republicanos e
depois republicanos conservadores versus modernistas que programaram as
principais reformas sociais da Terceira República, mas que incluíam a liberdade
de imprensa, a liberdade de associação, o direito de pertencer a um sindicato e
o divórcio, entre outras coisas.
Na virada do século XX, o debate político-ideológico entre esquerda-direita abrangeu essencialmente a divisão entre os defensores do Catolicismo e os defensores da separação da Igreja e do Estado. Esta mudança, que ocorreu em 1905, é muitas vezes referida como “o choque das duas Franças” – católica e anticlerical. A partir da década de 1930, a divisão surgiu, com a esquerda defendendo o socialismo e a direita a liberalização econômica. Na década de 1970, a liberalização dos costumes tornou-se questão fundamental, com debates contínuos sobre aborto, divórcio, homoerotismo, igualdade matrimonial, eutanásia, entre outros aspectos. O mesmo se aplica à imigração e abertura à globalização que se opõe ao protecionismo cultural, social e econômico. Como presidente, Charles de Gaulle (1890-1970) pôs fim ao caos político que precedeu o seu regresso ao poder. Durante seu governo, promoveu o controle político da inflação e instituiu uma nova moeda em janeiro de 1960. Também fomentou o crescimento industrial. Apesar de ter apoiado inicialmente o domínio imperialista francês sobre a Argélia, decidiu mais tarde “conceder” a independência àquele país, encerrando uma guerra cara, violenta e impopular.
A decisão dividiu a opinião pública francesa, e De Gaulle teve que enfrentar a oposição dos colonos chamados pieds-noirs e dos militares franceses que tinham inicialmente apoiado seu retorno fabuloso ao poder. Em 13 de maio de 1958, os argelinos de origem europeia apelam ao general Charles De Gaulle, fora do poder desde 1950, para manter a soberania da França sobre a Argélia. No começo de 1958, o deputado democrata-cristão de Estrasburgo, Pierre Pflimlin (1907-2000), estava sendo sondado para o cargo de primeiro-ministro da Quarta República. Porém, havia a suspeita de que queria negociar um cessar-fogo com os rebeldes da Frente Nacional de Libertação (FNL) que lutavam pela independência da Argélia. Os gaullistas que militavam de corpo e alma pelo retorno ideológico de De Gaulle ao poder encorajam os “Pieds-noirs” - população francesa das antigas colônias no norte da África - à sedição contra Pflimlin. Deixam entender que o general é a personalidade em melhores condições estratégicas de manter os três departamentos argelinos da república francesa. De Gaulle empreendeu o desenvolvimento de armas nucleares francesas e promoveu uma política externa pan-europeia, buscando livrar-se das influências norte-americana e britânica. Retirou da França, o comando militar da Organisation du Traité de l`Atlantique Nord apesar de continuar a ser membro da aliança ocidental - e por duas vezes vetou a entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia.
Viajou frequentemente
pela Europa Oriental e por outras partes do mundo quando reconheceu a virada da
China ao comunismo. Em 1967, durante uma visita oficial ao Canadá, incentivou
publicamente o Movimento pela Independência de Quebec, o que causou a mais
grave crise diplomática entre a França e o Canadá. Seu discurso pronunciado em
Montreal, no dia 24 de julho, foi concluído exatamente com o slogan dos
separatistas: “Viva o Quebec livre!”, o que foi interpretado pelas autoridades
canadenses como apoio do presidente francês ao movimento autonomista. Foi alvo
de três atentados confirmados, todos eles falhados. O primeiro ocorreu em
Paris, no ano de 1945, por atiradores furtivos alemães. Outro em 8 de setembro
de 1961, organizado por Raoul Salan (1899-1984), uma bomba fabricada com
explosivo plástico explodiu perto de seu carro. O último aconteceu em 22 de agosto
de 1962, quando seu carro foi crivado de balas, ficando o vidro traseiro
estilhaçado e os pneus estourados, num atentado que mais tarde foi narrado no
best-seller “O Dia do Chacal”, de Frederick Forsyth. Ainda em 1963, seria
desbaratado um complô na Escola Militar para enfim matá-lo. De Gaulle também
enfrentou a oposição dos comunistas e socialistas. Apesar de ter sido reeleito
presidente em 1965, desta vez por voto popular direto, em maio de 1968 parecia
provável que perdesse o poder, em meio a protestos generalizados de estudantes
e trabalhadores. No entanto, sobreviveu à crise com uma ampliação da maioria na
Assembleia. Em 1969, depois de perder um referendo sobre a reforma do Senado e
a regionalização, renunciou.
As manifestações em
torno do Maio de 68 representou uma grande onda de protestos que teve início com
as mobilizações estudantis para pedir reformas no setor educacional. A maioria
dos insurretos era adepta a ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas.
Muitos viam os eventos como uma oportunidade para sacudir os valores
conservadores, contrapondo ideias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o
prazer. Entre eles, uma barulhenta minoria, como o Occident, professava ideias
de direita. O começo de tudo ocorreu com uma série de conflitos entre
estudantes e autoridades da Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima
à capital francesa. No dia 2 de maio de 1968, a administração decidiu fechar a
escola e ameaçou expulsar vários estudantes acusados de liderar o movimento
contra a instituição. As medidas provocaram a reação imediata dos alunos de uma
das mais renomadas universidades do mundo ocidental, a vetusta Sorbonne, em
Paris. Eles se reuniram no dia seguinte para protestar, saindo em passeata sob
o comando do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit. A polícia reprimiu estudantes
com violência e durante dias as ruas de Paris viraram cenário de brutais
batalhas. É político franco-alemão do partido ecologista Die Grünen,
deputado europeu e copresidente o grupo parlamentar Grupo dos Verdes/Aliança
Livre Europeia. Foi líder estudantil protagonista da massiva movimentação
popular em maio de 1968 em Paris.
A partir de 68 o
“modelo profético do engajamento” passa a sofrer um acentuado declínio,
atingindo em cheio os privilégios do intelectual que, autônomo em relação aos
partidos ou a quaisquer organismos políticos, se punha a representar os
interesses gerais, uma universalidade personificada e estilizada pelo seu
carisma. A especialização resultante do fortalecimento das ciências humanas,
somada à crescente divisão do trabalho e a prevalência do paradigma científico,
condicionou o cenário em que o engajamento profético dos intelectuais veio a
ser substituído pelo modelo que conciliava o saber localizado e a luta política
concreta, estabelecidos mutualmente por limites estratégicos particulares, o
“intelectual crítico especializado” ou, segundo seu nome foucaultiano de
batismo, o “intelectual específico”. Daí a filosofia da diferença, embora
avessa à teleologia dialética da história, ganhar repercussão no círculo
acadêmico e, sem ajuste ou adaptação, encontrar afinidade de princípios junto a
determinadas franjas da esquerda extraparlamentar. Porque essa filosofia,
inicialmente deleuziana e depois esquizoanalítica, era portadora de categorias
que remetiam ao sentido dos engajamentos em curso, ela mostrava-se capaz de
indexar, na sua própria linguagem conceitual, a disposição subjetiva de boa
parte da militância “gauchista”, o “fundo rebelde irredutível” que permaneceria
ativo sob as diferenças de toda representação política.
O Maio de 1968 tem sido
reconhecido como a maior greve geral da história. Este poderoso movimento
aconteceu no auge da economia na esfera capitalista do pós-guerra. A reação
violenta do governo só ampliou a importância das manifestações: o Partido
Comunista Francês (PCF) anunciou seu apoio aos universitários e uma influente
federação de sindicatos convocou uma greve geral para o dia 13 de maio. No auge
do movimento, quase dois terços da força de trabalho do país cruzaram os
braços. Pressionado, no dia 30 de maio o presidente Charles De Gaulle convocou
eleições para junho. O movimento cresceu tanto que proporcionalmente evoluiu
para uma greve de trabalhadores que balançou as estruturas e técnicas
persuasivas do governo do presidente Charles De Gaulle. Os universitários se
uniram politicamente aos operários e promoveram a maior greve geral da Europa,
com a participação de cerca de 9 milhões de pessoas. Isso enfraqueceu
politicamente o general De Gaulle, que renunciou um ano depois. Os
acontecimentos de maio, com sua força bruta, não foram previstos pelos
analistas e estrategistas do capital, nem na França nem em nenhum lugar do
mundo.
O general foi incapaz
até mesmo de imprimir as cédulas do referendo devido à greve dos trabalhadores
das gráficas franceses e a negativa de seus colegas belgas de atuar como fura
greves. Este não foi o único exemplo de solidariedade internacional. Os condutores
de trens alemães e belgas detinham seus trens na fronteira francesa para não
romper a greve. As forças da reação, até esse momento em estado de choque e
obrigadas a estar na defensiva, começaram de fato a se organizar. Foram criados
Comitês de Defesa da República (CDR), como tentativa de mobilizar a classe
média contra os trabalhadores e estudantes. A correlação de forças de classe
não é uma questão puramente numérica do tamanho da classe trabalhadora em
relação ao campesinato e da classe média em geral. Uma vez que o proletariado
entre na luta decisiva e demonstra ser uma força poderosa na sociedade, atrai
rapidamente a massa explorada de camponeses e de pequenos comerciantes de
classe média que são vítimas da usura dos bancos e dos monopólios. Este fato
era evidente como sodalidade em 1968, quando os camponeses levantaram
bloqueios nas estradas ao redor de Nantes e distribuíram comida grátis aos
grevistas. Uma importante característica da sodalidade é sua autonomia.
Entendemos que há de se diferenciar aqui autonomia de independência.
Uma vez na luta, os
trabalhadores começaram a ter iniciativas que ultrapassavam os limites de uma
greve normal. Um elemento fundamental na equação foram os meios de comunicação
de massas. Formalmente, são armas poderosas nas mãos do Estado, mas também dependem
dos trabalhadores, que fazem funcionar as emissoras de rádio e televisão. No
dia 25 de maio a rádio televisão estatal, a Office de Radiodiffusion-Télévision
Française (ORTF) entrou em greve. Suprimiram as notícias das oito da noite. Os
gráficos e jornalistas impuseram uma espécie de controle operário sobre a
imprensa. Os jornais burgueses tinham que submeter seus editoriais ao
escrutínio e deviam publicar as declarações dos comitês de trabalhadores. A
Assembleia Nacional discutiu a crise universitária e as batalhas do “Bairro
Latino”. Porém, os debates nos salões da assembleia já eram irrelevantes. O
poder havia escapado das mãos dos legisladores e agora estava nas ruas. No dia
24 de maio, o presidente De Gaulle anunciou o referendo no rádio e na televisão.
O plano de Charles De Gaulle de celebrar um referendo foi frustrado pela ação social
sindicalizada organizada setorialmente pelos trabalhadores.
As greves e ocupações
de empresas multiplicam-se a partir de 13 de maio e aumentam, diariamente
durante semanas. A 20 de maio, uma semana depois, o número de grevistas será
entre 7 e 9 milhões de trabalhadores, o número de dias de greve durante este
período é de 150 milhões, segundo as estatísticas. Mais de 4 milhões de pessoas
estarão em greve durante três semanas, mais de dois milhões durante um mês. A
Sorbonne estará ocupada durante um mês. Nesta conjuntura de crise de hegemonia efetuam-se
negociações variadas e serão assinados os acordos de Grenelle em 27 de maio,
entre o governo de Pompidou, o patronato e as centrais sindicais. São aprovados
um aumento de 35% do salário mínimo e de 10%, em média, para os restantes
níveis salariais. É também aprovada a possibilidade de criação de secção
sindical em cada empresa. Os acordos não tiveram, no entanto, significativo
impacto nas greves e ocupações, que se irão manter até à dissolução da
Assembleia Nacional, a 29 de maio, e à realização da manifestação de apoio ao
governo a 30 de maio. O Parti Communiste Français (PCF), curiosamente, opôs-se
desde início das barricadas ao movimento estudantil e a sua principal
preocupação foi acabar com a agitação política e a crise. É um dos partidos
políticos historicamente mais tradicionais da França. Liderado atualmente por
Fabien Roussel como Secretário Nacional, o partido foi fundado em 1920 e
defende uma plataforma de esquerda baseada na justiça social, na
transição ecológica e na valorização do trabalho.
O campo militar
passou então a funcionar em paralelo com os campos civis. Após a assinatura do
armistício, a França foi dividida em duas. A zona livre, na qual os Pirenéus
Orientais estavam incluídos ficou sob a administração do governo de Vichy, um colaboracionista
francês liderado pelo marechal Philippe Pétain, estabelecido na cidade homônima
entre 1940 e 1944. Gradualmente, o campo de Joffre tornou-se um local de
internamento para famílias de ciganos, judeus e refugiados espanhóis. Com
capacidade para 8.000 pessoas, em pouco tempo o campo ficou superlotado,
famílias foram separadas e as condições deterioraram-se drasticamente. Quando
os primeiros internos chegaram em 14 de janeiro de 1941, o status do
campo ainda não estava definido. Inicialmente planejado para um máximo de
17.000, o campo incluía 150 grandes barracões com capacidade para 10.000
pessoas. Em 31 de maio de 1941, o campo abrigava 6.475 internos de 16
nacionalidades; espanhóis constituíam mais da metade deles, e refugiados judeus
de outros países, mais de um terço. Às cinco horas da manhã de 26 de agosto de
1942, os judeus estrangeiros da zona sul foram reunidos e levados para o Centre
National de Rassemblement des Israélites em Rivesaltes. Este “centro” havia
sido recentemente estabelecido no campo, dividido em blocos J (para mulheres
e crianças), F (para homens; este bloco era anteriormente reservado para
trabalhadores) e K (recepção, triagem e classificação). Foi planejado estrategicamente
como um “campo de trânsito” para um total de 10.000 internos, que seriam
alojados ali por 15 dias antes de serem deportados.
Os 1.176 judeus que já
estavam no campo antes da reunião foram incluídos nessa contagem. Os comboios
partiram de Rivesaltes para o campo de internamento de Drancy em 11 de agosto
(400 pessoas), 23 de agosto (175 pessoas), 1 de setembro (173 pessoas), 4 de
setembro (621 pessoas), 14 de setembro (594 pessoas), 21 de setembro (72
pessoas), 28 de setembro (70 pessoas), outubro (101 pessoas) e 20 de outubro
(107 pessoas). Serge Klarsfeld chamou o campo de Rivesaltes de “o Drancy da
zona livre”, observando que de 4 de setembro a 22 de outubro ele desempenhou o
mesmo papel que o campo de Drancy, foi um infame campo de concentração
temporário na cidade de Drancy, poucos quilômetros ao Norte de Paris, França.
Foi usado durante a ocupação da França pelos alemães na Segunda Guerra Mundial,
na zona ocupada: um campo de trânsito para deportados cujo destino final eram
os campos de extermínio. Rivesaltes foi, o campo onde os judeus presos na
chamada “zona livre” foram reunidos e de onde muitos deles (cerca de 1.700)
foram enviados para o próprio Drancy. Em novembro de 1942, quando a Alemanha
invadiu a zona Sul da França, até então desocupada, as tropas alemãs se
instalaram no Campo Joffre, que foi fechado como “campo de internação” em 25 de
novembro. Havia 277 funcionários quando foi fechado. Durante esses
dois anos, o campo de Rivesaltes abrigou cerca de 21.000 internos; 5.714 deles foram internados no “campo especial” ou campo de
trânsito, dos quais 2.313 foram enviados para Drancy e 2.251 excluídos da
deportação pelo comitê de triagem. Outros 215 internos morreram no campo,
incluindo 51 crianças de um ano ou menos.
Diane Kurys dirigiu vários filmes vagamente baseados na vida de seus pais, vistos pelos olhos da jovem Kurys e de sua irmã mais velha. Entre eles (em ordem cronológica): Coup de Foudre (1983) — o encontro de seus pais; Pour Une Femme (2013) — os primeiros anos de casamento; La Baule-les-Pins (1990) — a separação; e Diabolo Menthe (1977) — as duas irmãs e sua mãe em uma família monoparental. No início da década de 1980, Anne e Tania acabavam de perder a mãe. Mergulhando nos escritos, fotos e memórias deixados por ela, Anne, cineasta, descobriu e reconstruiu os primeiros anos do casamento de seus pais. Durante a Segunda Guerra Mundial, Michel, um judeu francês, casa-se por amor com Léna, uma judia estrangeira internada em Rivesaltes. Essa união permite que ela escape do campo. Após a guerra, Léna, Michel e sua filha pequena, Tania, vivem felizes em Lyon, entre a alfaiataria de Michel e a célula local do Partido Comunista. Um dia, Jean, o irmão mais novo de Michel, entra em suas vidas. Ele estava em um acampamento de verão na União Soviética quando a guerra começou, e Michel acreditava que ele fosse uma vítima do Holocausto, como seus pais.
Gradualmente, um amor apaixonado se desenvolve entre Léna e Jean. Mas Jean é uma figura misteriosa, na verdade um agente secreto do recém-criado Estado de Israel. Sua missão é assassinar ex- nazistas que fogem para a América do Sul; ele e seu superior, Sacha, estão sendo perseguidos pela polícia francesa. É enquanto o ajuda a preparar sua fuga que Léna se entrega a Jean. Michel, tomado pela dor, concorda em levar seu irmão até a fronteira italiana para garantir sua fuga. Tendo trazido seu passaporte e o da esposa, ele propõe a Léna que ela parta com Jean, como marido e mulher; mas Léna fica. Na primavera seguinte, nasce Anne. O parêntese se fecha e a vida cotidiana pode recomeçar. Construída sob o signo de ruptura, não queremos perder de vista, sociologicamente falando, que a obra de Michel Foucault subverteu, transformou, amplificou nossa relação social com o saber e a verdade institucionalizada. Será preciso balizar: a perversidade da economia do poder e não tanto a fraqueza ou a crueldade é o que ressalta da crítica dos seus reformadores. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política de coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o desarticula e o recompõe. A divisão do trabalho não visa o aprofundamento das relações técnicas, mas a penas seu quadriculamento: uma disciplina linear das pesquisas.
Mesmo de corte etnográfico, fabrica corpos
submissos e exercitados, os chamados “corpos dóceis”. A disciplina aumenta as
forças em termos econômicos de utilidade e diminuem essas mesmas forças em
termos políticos de obediência programada. É neste sentido que Michel Foucault
ressalta que o espaço disciplinar tende a se dividir em tantas parcelas quando
corpos ou elementos há a repartir. A disciplina organiza o espaço analítico.
Lugares determinados se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar,
de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil, um
dispositivo que afixa e quadricula, decompondo a confusão da ilegalidade e do
princípio do mal. Na disciplina, os elementos são intercambiáveis, pois cada um
se define pelo lugar que ocupa na série, e pela distância que o separa dos
outros. A unidade não é, portanto, nem o território (unidade de dominação), nem
o local (unidade de residência), mas a posição na fila, o lugar que alguém
ocupa numa classificação, o ponto em que se cruzam uma linha e uma coluna, o
intervalo numa série de intervalos que se pode percorrer sucessivamente. A disciplina,
arte de dispor em fila, e da técnica, para a transformação dos arranjos,
individualiza os corpos pela localização que não os implanta, mas os distribui
e os faz circular numa rede de relações. A organização de um espaço serial
representou uma das grandes modificações técnicas do ensino elementar. Permitiu
ultrapassar o sistema tradicional: um aluno que trabalha alguns minutos com o
professor, enquanto fica ocioso e sem vigilância o grupo confuso dos que estão
esperando.
Determinando lugares
individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de
todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o
espaço escolar como uma “máquina de ensinar”, mas também de vigiar, de hierarquizar,
de recompensar. O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles
minuciosos do poder. O controle disciplinar não consiste simplesmente em
ensinar ou impor uma série de gestos definidos; impõe a melhor relação entre um
gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de rapidez.
No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar
ocioso: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo
disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto dos recursos
multimodais (aspectos verbais, gestos, corpo e mundo material) com rigor
abrangendo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador. A
aprendizagem corporativa com a utilização de bolsistas, introduzidas pelas
castas que formam pequenos grupos de pesquisas nas universidades públicas,
surgiu originalmente em 1667, confiados certo tempo a um mestre que devia
realizar “sua educação e instrução”, depois colocados para a aprendizagem junto
aos diversos mestres tapeceiros da manufatura; após seis anos de aprendizagem,
quatro anos de serviço e uma prova qualificatória, tinham direito a “erguer e
manter loja” em qualquer cidade do reino.
Encontramos aí a
divisão técnica do trabalho corporativo: relação de dependência ao mesmo tempo
individual e total quanto ao mestre; duração estatutária da formação que se
conclui com uma prova qualificatória, mas que não se decompõe segundo um
programa preciso; troca total entre o mestre que deve dar seu saber e o
aprendiz que deve trazer seus serviços, sua ajuda mútua e muitas vezes uma
retribuição. A forma de domesticidade se mistura a uma transferência de
conhecimento. A escola é dividida em três classes. A primeira para os que não
têm nenhuma noção de desenho; a segunda para os que já têm alguns princípios e,
na terceira, aprendem as cores, fazem pastel, iniciam-se na teoria e na prática
do tingimento. Regularmente, os alunos fazem deveres individuais: cada um
desses exercícios, marcado com o nome e a data da execução, é depositado nas
mãos do professor. Os melhores são recompensados, reunidos no fim do ano e
comparados entre eles, permitem estabelecer os progressos, o valor atual, o
lugar relativo de cada aluno, e os que podem seguir para a classe superior. Em
resumo, pode-se dizer historicamente que a disciplina produz, a partir dos
corpos que controla quatro tipos de individualidade, ou antes, uma
individualidade dotada de quatro características: é celular, pelo jogo
da repartição espacial, é orgânica, pela codificação das atividades, é genética,
pela acumulação do tempo, é combinatória, pela composição das forças.
E, para tanto, essencialmente utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza táticas. Esta representa a arte de construir, com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática disciplinar. Uma técnica extensiva utilizada nos laboratórios das universidades. É possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política. A política, como técnica da paz e da ordem interna, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento na manobra e no exercício. Se há uma série guerra-política que passa pela estratégia, há uma série exército-política que passa pela tática. A vigilância se torna um operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar. Na essência de todos os sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo penal.
É beneficiado por uma
espécie de privilégio de justiça, com suas leis próprias, seus delitos
especificados, suas formas particulares de sanção, suas instâncias de
julgamento. As disciplinas estabelecem uma infrapenalidade, quadriculam
um espaço deixado pelas leis, qualificam e reprimem um conjunto de
comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa
indiferença. Na oficina, na escola, no exército, funciona como repressora toda
uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das
tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de
ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do
corpo (atitudes incorretas, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade
(imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, uma
série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e
a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações
mais tênues de conduta social, e de dar uma função punitiva aos elementos
aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que
tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre
preso numa universalidade punível-punidora.
Mas a disciplina traz
consigo uma maneira específica de punir, e que é apenas um modelo reduzido do
tribunal. O que pertence à penalidade disciplinar é a inobservância, tudo o que
está inadequado à regra, tudo o que se afasta dela, os desvios. É passível de
pena o campo indefinido do não conforme. O regulamento da infantaria prussiana
impunha tratar com “todo o rigor possível” o soldado que não tivesse aprendido a manejar corretamente o fuzil. O
castigo disciplinar tem a função de reduzir os desvios. Deve, portanto, ser
essencialmente corretivo. De modo que o efeito corretivo que dela se espera
apenas de uma maneira acessória passa pela expiação e pelo arrependimento; é
diretamente obtido pela mecânica de um castigo. Castigar é exercitar. Ipso
facto, o exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que
normaliza. É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar,
classificar, punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da
qual eles são diferenciados e sancionados. Em todos os dispositivos de
disciplina, o exame é altamente ritualizado. Nele vêm-se reunir a cerimônia do
poder. A forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da
verdade. O indivíduo é o átomo fictício de uma representação social. É uma
realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder: a disciplina.
O panóptico de Bentham, é uma máquina de
dissociar o par-ser-visto: no anel periférico, se é totalmente, se é totalmente
visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto, pois é
a figura arquitetural dessa composição. O princípio é reconhecido: na periferia
uma construção em anel; no centro, uma torre: esta é vazada de largas janelas
que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida
em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas
janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá
para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então
colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente,
um condenado, um operário ou um estudante. Pelo efeito da contraluz, pode-se
perceber a torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas
silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos
teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e
constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades que permitem
“ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é
invertido; ou antes, de suas três funções – trancar, privar de luz e esconder –
só se conserva a primeira e se suprime duas. A plena luz e o olhar de um vigia
captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma
armadilha” (cf. Foucault, 2014: 194).
Bentham não diz se se
inspirou, em seu projeto, no zoológico que Le Vaux construíra em Versalhes:
primeiro zoológico cujos elementos não estão, como tradicionalmente, espalhados
em um parque: no centro, um pavilhão octogonal que, no primeiro andar, só comportava
uma peça, o salão do rei; todos os lados se abriam com largas janelas, sobre
sete jaulas (o oitavo lado estava reservado para a entrada), onde encerradas
diversas espécies de animais. O panóptico descrito pela analítica do poder, é
um zoológico real; o animal é substituído pelo homem, a distribuição individual
pelo grupamento específico e o rei pela maquinaria de um poder furtivo. Fora
essa diferença, o Panóptico, também, faz um trabalho de naturalista. Permite
estabelecer as diferenças: nos doentes, observar os sintomas de cada um, sem
que a proximidade dos leitos, a circulação dos miasmas, os efeitos do contágio
misturem os quadros clínicos; nas crianças, anotar os desempenhos (sem que haja
limitação ou cópia), perceber as aptidões, apreciar os caracteres, estabelecer
classificações rigorosas e, em relação a uma evolução normal, distinguir o que
é “preguiça ou teimosia” do que é “imbecilidade incurável”; nos operários,
anotar as aptidões de cada um, comparar o tempo que levam para fazer um
serviço, e, se são pagos por dia, calcular seu salário em vista disso. Mas o
panóptico pode ser utilizado como uma “máquina de fazer experiências”,
modificar o comportamento, treinar ou retreinar os indivíduos. Experimentar
remédios e verificar seus efeitos.
Tentar diversas
punições sobre os prisioneiros, segundo seus crimes e temperamento, e procurar
as mais eficazes. Ensinar simultaneamente diversas técnicas aos operários,
estabelecer qual é a melhor. Tentar experiências pedagógicas – e
particularmente abordas o famoso problema da educação reclusa, usando crianças
encontradas ; ver-se-ia o que acontece quando aos dezesseis ou dezoito anos
rapazes e moças se encontram; poder-se-ia acompanhar “a genealogia de qualquer
ideia observável”; criar diversas crianças em diversos sistemas de pensamento, fazer alguns acreditarem que
dois e dois são quatro e que a lua é um queijo, depois de juntá-los todos
quando tivessem vinte ou vinte e cinco anos; haveria então discussões que
valeriam bem os sermões ou as conferências para as quais se gasta tanto
dinheiro: haveria pelo menos ocasião de fazer descobertas no campo da
metafísica. O Panóptico é um local privilegiado para tornar possível a
experiência com homens, e para analisar com toda certeza as transformações que
se pode obter neles. Mais do que isso: pode até se constituir em aparelho de
controle, pois em sua torre, o diretor pode inspecionar todos os empregados
submetidos a seu serviço; poderá julgá-los continuamente, modificar seu
comportamento, impor-lhes métodos que considerar melhores; e ele mesmo, por sua
vez, poderá ser facilmente observado. O Panóptico funciona como uma espécie de
Laboratório de poder. Através da observação, ganha em eficácia e em capacidade
de penetração no corpo dos homens: um aumento de saber vem se implantar em
todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser conhecidos em
todas as superfícies de saber-poder.
Em cada uma de suas aplicações, na esfera da
ação individual e coletiva, permite aperfeiçoar o exercício do poder de várias
maneiras: porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo em que
multiplica o número daqueles sobre os quais é exercido. Permite intervir a cada
momento e a pressão constante age antes mesmo que as faltas, os erros, os
crimes sejam cometidos. Porque, nessas condições, sua força é nunca intervir, é
se exercer espontaneamente e sem ruído. É construir um mecanismo de efeitos em
cadeia. Porque é um intensificador para qualquer aparelho de poder:
assegura sua economia (em material, em pessoal, em tempo); assegura sua
eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus
mecanismos automáticos. É uma maneira astuciosa de obter poder. É uma espécie
de “ovo de Colombo” na ordem da política. Ele cria dispositivos discursivos com
efeitos de vir se integrar a uma função qualquer, de educação, de terapêutica,
de produção, de castigo; de aumentar essa função, ligando-se intimamente a ela;
de construir um mecanismo misto no qual as relações de poder (e de saber)
podem-se ajustar exatamente, e até nos detalhes, aos processos que é preciso
controlar; de estabelecer uma proporção direta entre o “mais-poder” e a “mais
produção”.
Enfim, o dispositivo panóptico
não é simplesmente uma charneira. Um local de trocas simbólicas e experimentais
entre um mecanismo de poder e uma função. É capaz de reformar a moral,
preservar a saúde, revigorar a indústria, difundir a instrução, aliviar os
encargos públicos, estabelecer a economia como que sobre um rochedo, desfazer,
em vez de cortar, tudo isso com uma simples ideia arquitetural. Na realidade,
qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada
quanto aquelas controladas por uma casta, poderá sem dificuldade ser submetida
ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso
não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público, que
pode ser agregado à analítica do poder, como membro da sociedade com direito de
vir constatar com seus olhos como funcionam as universidades, os hospitais, as
fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento de
poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania, pois a máquina de
ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se
torna um edifício transparente onde o exercício do poder disciplinar poderá ser
democraticamente controlado, com a redução de mandato colocaria em xeque como
função estabelecer as diretrizes, objetivos e metas de médio prazo da
administração pública. Não queremos perder de vista que o panoptismo é o
princípio geral de uma nova “anatomia política”, cujo objeto e fim não são as
relações de soberania do Eu. São relações de disciplina-bloco, na constituição
de uma instituição fechada, entorpecida pelo ódio e pré-estabelecida à margem,
mormente voltada para funções negativas: realizar para o mal, romper as
comunicações, suspender o tempo.
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