quarta-feira, 6 de maio de 2026

A Montanha Sagrada – Cinema Surrealista & Automatismo dos Hábitos.

                A fé não move montanhas. Na verdade, coloca montanhas onde não há nenhuma”. Friedrich Nietzsche                            

             

        A expressão nietzschiana vontade de poder significa, consequentemente: vontade, tal como comumente se compreende. Mas mesmo nessa explicação reside ainda uma incompreensão possível. A expressão “vontade de poder” não diz, em sintonia com a opinião habitual, nas relações sociais em que desenvolve que a expressão é, em verdade, um tipo de desejo, que apenas possui, ao invés da felicidade e do prazer, “o poder como meta”. Sem dúvida alguma, Friedrich Nietzsche mesmo fala em muitas passagens dessa forma, a fim de se fazer provisoriamente compreensível. No entanto, na medida em que estabelece o poder como meta para a vontade, ao invés da felicidade, do prazer ou da supressão da vontade, ele não altera a meta da vontade, mas a determinação essencial da própria vontade como meio de luta extraordinária na sociedade. Tomado estritamente no sentido do conceito nietzschiano, o poder nunca pode ser pressuposto previamente como meta para a vontade, como se o poder fosse algo que pudesse ser estabelecido inicialmente como estando fora da vontade. É neste sentido que se pode afirmar, sem temor à erro, que a vontade é decisão por si mesma de um assenhoramento que se estende para além de si; porquanto a vontade é querer para além de si, a vontade é potencialidade que se potencializa para o poder.  Somente quando se tiver apreendido o conceito nietzschiano de vontade segundo esses aspectos gerais, será possível compreender aquelas caracterizações com as quais Nietzsche procura frequentemente indicar o que está presente na palavra vontade.

Portanto, o termo “poder” nunca visa a um complemento da vontade, mas significa uma elucidação da essência da própria vontade. Ele denomina a vontade e com isso a vontade de poder – um “afeto”; ele diz até mesmo: - Minha teoria seria a seguinte: - a vontade de poder é a forma primitiva de afeto, todos os outros afetos não passam de configurações suas. Nietzsche também denomina a vontade uma “paixão” ou um “sentimento”. Se se compreendem tais descrições como geralmente acontece, ou seja, a partir do campo de visão de nossa psicologia habitual, então se cai facilmente na tentação de dizer que Nietzsche transpõe a essência da vontade para o interior do “elemento emocional”, arrancando-a das más interpretações que foram levadas ao idealismo, pois para ele, os afetos são formas de vontade; a vontade é afeto. Denomina-se tal procedimento uma definição circular, própria em seu encadeamento. Nietzsche diz com boa razão que a vontade de poder é a forma originária de afeto. Não diz com isto simplesmente que ela é um afeto, apesar de encontramos essas formulações em suas apresentações superficiais e defensivas. O poder só se potencializa na medida em que se torna senhor sobre o nível de poder a cada vez alcançado. O poder só é e só permanece sendo poder enquanto permanece elevação do poder e comanda para si o mais no poder.

A essência do poder pertence à superpotencialização de si mesmo que emerge do próprio poder, na medida em que é comando e, enquanto comando, apodera-se de si mesmo para a superpotencialização do respectivo nível de poder que se potencializa. O poder está constantemente a caminho “de si” mesmo, não apenas de um próximo nível de poder, mas do apoderamento de sua própria essência. Por isso, ao contrário do que se pensa, a contra-essência em relação à vontade de poder não é a “posse” de poder alcançada em contraposição à mera “aspiração por poder”, mas a “impotência para o poder”. Nesse caso, vontade de poder não significa outra coisa senão a relação social estabelecida do ponto de vista “poder para o poder”, o que significa antes: apoderamento para a superpotencialização. Melhor dizendo, da subjetividade incondicionada da vontade de poder/eterno retorno e da composição técnica. Somente o poder para o poder assim compreendido toca a essência plena do poder. Nessa essência do saber e do poder, a essência da vontade enquanto permanece vinculada como comando. A paixão assim compreendida lança novamente uma luz sobre o que Nietzsche denomina vontade de poder. A vontade é decisão na qual o que quer se expõe de maneira mais ampla relativamente ao domínio do ente, a fim de mantê-lo na esfera de seu comportamento.                                        


Não o acontecimento e a excitação são agora característicos, mas expansão clarividente do campo de vinculação que é ao mesmo tempo uma reunião da essência que se encontra na paixão. O afeto representa o acontecimento que nos agita cegamente. A paixão representa a expansão clarividente e reunidora do campo de vinculação ao ente. Como a paixão restaura nosso ser, nos libera e nos deixa soltos para os seus fundamentos; como a paixão é, ao mesmo tempo, a expansão do campo de vinculação até a amplitude do ente, por isso pertence à paixão – e o que se tem em vista aqui é a compreensão explicativa da grande paixão que pode ser dispendiosa e engenhosa. Não lhe pertence apenas a “capacidade de potência”, mas socialmente mesmo a necessidade de retribuir, e, ao mesmo tempo, aquela despreocupação quanto ao que acontece com o dispêndio com o dispêndio, aquela superioridade que repousa em si mesmo e que caracteriza as grandes vontades. Paixão não tem nada a ver com um mero desejo, não é coisa apenas estimulada dos nervos, da exaltação ou do excesso. Se entendermos que é verdade em Nietzsche que a vontade de poder é o caráter fundamental de todo ente e se determina agora a vontade como um sentimento paralelo e compatível ao de prazer, as duas concepções não são sem mais compatíveis.   O mundo para Friedrich Nietzsche não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade.

Seu princípio filosófico não era, portanto, Deus e razão, mas a vida que atua sem objetivo definido, ao acaso, e, por isso, se está dissolvendo e transformando-se em um constante devir. A única e verdadeira realidade “sem máscaras”, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante. Nietzsche era um crítico: a) das “ideias modernas”, b) da vida social e da cultura moderna, c) do neonacionalismo alemão, e, para sermos breves, d) Para ele, os ideais modernos como democracia, socialismo, igualitarismo, emancipação feminina não eram senão expressões da decadência de determinado “tipo homem”. Por estas razões, é, por vezes, apontado como um precursor da concepção de pós-modernidade. A figura filosoficamente de Friedrich Nietzsche foi particularmente idealizada na Alemanha mediante um processo decadente, num processo político em que opta, mas não decide, tendo sua irmã, simpatizante do regime, fomentado esta associação. Como se dizia ideologicamente, ele próprio um raro nietzschiano, “na Alemanha se era contra ou a favor de Nietzsche”. que em toda a vida, tentou explicar o insucesso de sua literatura, concluindo de que “nascera póstumo”, para os leitores do porvir. Em que medida a vontade de poder é a forma originária de afeto, ou seja, em que medida ela é aquilo que constitui absolutamente o ser do afeto?

Nietzsche não dá quanto a isso, nenhuma resposta clara e exata, assim como não responde o que é uma paixão e o que é um sentimento. Nem a resposta dada por ele nos leva imediatamente adiante, mas nos coloca diante de uma tarefa: procurar vislumbrar pela primeira vez a partir do que é conhecido como afeto, paixão e sentimento, aquilo que caracteriza a essência da vontade de poder. Por meio daí resultam determinados caracteres que são apropriados para tornar mais clara e mais rica a delimitação do conceito essencial de vontade até aqui. Nós mesmos precisamos levar a cabo esse trabalho. No entanto, as perguntas (o que é afeto, paixão e sentimento?), permanecem sem solução. Com essas três noções, que podem ser indiscriminadamente substituídas umas pelas outras, circunscreve-se o assim chamado lado não racional da vida psíquica. Tal asserção pode ser suficiente para a representação habitual, mas não é certamente suficiente para um saber verdadeiro, nem tampouco para um saber que está empenhado em determinar o ser do ente. Nietzsche está visivelmente pensando nesse momento essencial do afeto aquando pretende buscar caracterizar a vontade a partir daí.

Agora a concepção de Friedrich Nietzsche contamina a reflexão crítica na filosofia e inevitavelmente na chamada indústria cultural inclusiva da Sétima Arte. O trágico será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é simplesmente conservação de força frente ao inesperado. Que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da própria realidade e o “cosmiza” ativamente e não reativamente. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como afirma o próprio acaso. Não só afirma a ordem a partir da desordem, como afirma a própria desordem. Não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o próprio caos. Reitera, sobretudo, o próprio devir. Essa é a grande inversão que potencializa a vontade de Nietzsche. Que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor, para construí-los no “jogo de forças” visando expansão de potência. A tese de Nietzsche em relação ao pensamento ocidental pressupõe que o sentido e valor já uma é Der Wille zur Macht, se afirmando como força e moldando os agentes a reagirem contra aquilo que constitui a realidade: a falta de valor em si e de sentido próprio. 

Nos últimos anos de sua atividade intelectual criadora, Nietzsche gostava de caracterizar seu modo de pensar como “filosofar com o martelo”. Na sua própria opinião esse termo é plurívoco: o que menos lhe cabe é o significado de despedaçar grosseiramente como um pedreiro com o martelo de demolir. Ele significa muito mais: arrancar o conteúdo e a essência, arrancar a figura da pedra; ele significa, antes de tudo: auscultar e ouvir todas as coisas como o martelo, para ver se elas dão ou não aquele conhecido som oco - perguntar se ainda há alguma gravidade e algum peso nas coisas ou se todos os fiéis da balança foram apagados das coisas. É para essa direção do entendimento que se encaminha a vontade nietzschiana de pensar: dar uma vez mais um peso às coisas. O que em Nietzsche é uma necessidade, é, por isso mesmo, um direito, nunca vale para os outros; pois Nietzsche é quem ele é, e ele é único. Essa unicidade ganha em determinação e só se torna frutífera se for vista no interior do movimento fundamental constituído de pensar através da herança de matriz ocidental. Peter Gast, pseudônimo de Johann Heinrich Köselitz foi um compositor alemão, mais conhecido por ter sido, durante muitos anos, amigo de Friedrich Nietzsche, que lhe deu o pseudônimo Peter Gast. É preciso desde já atentar para algumas problemáticas levantadas pela análise de Wagner e seu recurso à noção de “melodia absoluta”. Essa questão é tão velha quanto a invenção da monodia acompanhada da qual surgirá a ópera no início do século XVII, em torno das atividades teóricas e práticas da Carmerata Fiorentina. Houve um intenso embate entre os que visavam tomar como princípio a máxima “prima le parole, e poi la musica” e os que defendiam a proposição contrária.

Ao curso de uma década de reflexões sobre a ópera, Nietzsche e Gast perceberam a transformação das querelas nacionais e estilísticas do século XVIII em oposições metafísicas como sintoma de uma superinvestida idealista, niilista e reativa do problema filosófico. Este século cantou derradeiramente, representando o século do entusiasmo, dos ideais e sentimentos partidos e da felicidade fugaz, até o fim do século a música possuía uma função social mais prática que estética e artística. Em Basileia, desenvolveu-se a amizade entre Köselitz e Nietzsche. Na literatura nas ciências sociais sobre o tema, a amizade é vista em geral como uma relação afetiva e voluntária, que envolve práticas de sociabilidade, trocas íntimas e ajuda mútua, e necessita de algum grau de equivalência ou igualdade entre amigos. Nessa discussão, a amizade é alocada estritamente no domínio privado historicamente da vida individual e coletivamente. Ipso facto alguns estudos mais recentes demonstram como os significados da amizade em contextos históricos distintos, mas em análise comparada, vão realçar esses termos, que, por sua vez, se demonstram entrelaçados, socialmente, com uma forma especificamente ocidental e moderna de pensar a pessoa e sua relação com os outros, problematizando, sobretudo sua localização na esfera privada. Subjacente a essa regra de interpretação estava a ideia de que a espontaneidade e a falta de autocontrole, poderiam ser vistas como uma imposição em termos de tempo e espaço pessoal. Em relações nas quais não havia confiança na aceitação desse tipo de comportamento social. Johann Köselitz colaborou na preparação de todos os trabalhos de Nietzsche depois de 1876, revendo os manuscritos para enviá-los à tipografia, e, por vezes, também interferindo na formatação do texto final. O rompimento de Friedrich Nietzsche com Richard Wagner e a sua procura por uma estética do sul, que o imunizasse contra o melancólico Norte alemão, fizeram-no superestimar Köselitz como músico: - “Eu não sei como poderia passar sem Rossini; muito menos, sem o meu próprio sul na música, a música do meu maestro veneziano 'Pietro Gasti'”. 

Como secretário, Köselitz foi de uma dedicação absoluta; a propósito de seu ensaio: “Humano, Demasiadamente Humano”, Nietzsche dizia que Peter Gast o escrevera e corrigira: “fundamentalmente, foi ele o verdadeiro escritor, enquanto eu fui apenas o autor”. Köselitz adorava seu professor, envolvendo-se com ele ao ponto da autonegação. Gast teria corrigido seus escritos, mesmo após o reconhecido “colapso do filósofo” vítima de um distúrbio, provavelmente causado pela sífilis, em seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras e sem a sua aprovação - o que é duramente criticado, com razão, pelos inúmeros estudiosos. A evolução da doença se divide esquematicamente em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva, apresentando sinais de demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só se tornaram perceptíveis dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos manuscritos de 1887. 

O que se observa, a partir de A Gênese da Moral, é a passagem do que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para outro atípico parecendo incapaz de afrontamentos habituais, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica, com razão, ainda é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, contraditórios e difusos, que parecem manuscritos sob alguma forma de pressão, e com a irradiação social de seus prediletos leitores já esperavam encontrar em volumes de filosofia.  Na Primavera de 1881, durante uma visita a Recoaro, comuna italiana da região do Vêneto, província de Vicenza, Nietzsche criou o pseudônimo de Peter Gast para Köselitz, que “assim passou a assinar suas composições musicais”. Dentre essas, a mais ambiciosa foi a ópera cômica em três atos “O leão de Veneza” (“Der Lowe von Veneza”). Em 1880, Gast e Nietzsche tentaram por várias vezes encená-la, em vão. A estreia ocorreu apenas em fevereiro de 1891, em Gdansk, com a direção de Carl Fuchs, mas sob o título original “Die Ehe heimliche” (“O casamento secreto”). Tardiamente em 1930, foi reintroduzido o título sugerido por Nietzsche. Mas quando Nietzsche retorna a Gioachino  Rossini, dez anos mais tarde, para evocá-lo em “Opiniões e Sentenças dDversas”, ele ainda não conhece o compositor pessoalmente. É somente em 1881 que Nietzsche afirma ter assistido, sem dúvida pela primeira vez a ópera de Gioachino Rossini, intitulada: Semiramide. Trata-se de uma breve menção em um cartão postal endereçado a Peter Gast, pseudônimo inventado de Heinrich Köselitz, enviado de Gênova: - “Eu estive - e digo isso com muita seriedade, por culpa sua - no teatro, onde eu assisti a Semiramide de Rossini e “Giulietta e Romeo” de Bellini (esta quatro vezes)”.

É, portanto, por conta dos conselhos de Peter Gast (1854-1918) que Nietzsche, que provavelmente não tomaria a iniciativa por si própria, vai escutar esses compositores. Nietzsche preferiu assistir a quatro representações sucessivas de Bellini, uma música mais elegíaca, marcada, portanto pelo sofrimento, se comparada aos fastos solenes de Semiramide, última obra de Rossini para a Itália, na qual brilhava o último fogo do gênero, agora apagado, da ópera considerada séria. Mas, é ainda por estímulo de Gast que Nietzsche, entre 1881 e 1888, aprenderá a conhecer a obra lírica de Gioachino Rossini. Não queremos perder de vista sua popularidade no início do século XIX, o compositor erudito italiano Gioachino Rossini escreveu 39 óperas, além de vários trabalhos para música sacra e música de câmara. O músico era célebre pela velocidade extraordinária com que compunha suas obras. Em poucos dias, o artista criava composições que se tornaram clássicos da música erudita, como “O Barbeiro de Sevilha”, composta em apenas três semanas. Além desta ópera, “Sinfonia Fina” resgata a memória de produções importantes e reconhecidas da obra de Rossini como “Guilherme Tell” e “La Gazza Ladra”. 

As composições do músico erudito foram interpretadas pela Orquestra Sinfônica de São José dos Campos em grande estilo. Diferentemente da parcela significativa dos compositores românticos, Gioachino Rossini (1792-1868) obteve êxito financeiro e conseguiu ganhar dinheiro com suas composições de música erudita. O autor escrevia óperas profissionalmente de encomenda e trabalhou para companhias europeias em seu tempo. Nesse período, Gioachino Rossini chegou a compor até vinte obras líricas. Era comum atribuir à sua genialidade que havia uma “febre rossiniana” no continente.  É Nietzsche que, por uma troca de gentilezas, recomenda a Gast a leitura de Vida de Rossini, de Stendhal e envia-lhe um exemplar em 21 de março de 1881. Henri-Marie Beyle, mais reconhecido como Stendhal, foi um escritor francês.  Gast fica entusiasmado: - “Pela extrema alegria que Stendhal me proporcionou, eu devo dizer-te ainda uma palavra repleta de reconhecimento (...). Eu estou impressionado com a acuidade de seu olhar sobre o horizonte histórico no seu livro sobre Rossini”. Alguns dias mais tarde, ele decide até mesmo tomar, a partir de agora, Stendhal como guia, a fim de “dissipar as névoas propagadas há 50 anos por sobre a música”. Quando, confrontado com as dificuldades de concepção de seu Leão de Veneza, ele sonha, em dezembro de 1881, com uma criação futura no Fenice de Veneza, a ideia que o emociona é que tanto Tancredi quanto Sigismondo de Rossini tinham sido criados nesse teatro 70 anos antes.

Até 1888, Gast é um dos raros interlocutores de Nietzsche acerca da ópera e o único com o qual Nietzsche, em suas cartas, trata sobre Rossini. Durante um século, e até a tomada de consciência da necessidade de uma arte nacional no final do século XVIII, a Alemanha assistiu a esse conflito franco-italiano como uma espectadora idealizadora ou como uma espécie de epígono no plano dessa disputa. O sucesso de Nietzsche, entretanto, sobreveio quando um professor dinamarquês leu a sua obra: “Così Parlò Zarathustra” (cf. Nietzsche, 1968) e, então, tratou de difundi-la, em 1888. Em 3 de janeiro de 1889, como vimos, Nietzsche sofreu um colapso mental. Teria testemunhado “o açoitamento de um cavalo no outro extremo da Piazza Carlo Alberto”. Então correu em direção ao cavalo, jogou os braços ao redor de seu pescoço para protegê-lo e em seguida, caiu no chão. Nos dias seguintes, Nietzsche enviou escrito breve conhecido como: “Wahnbriefe” em português: “Cartas da loucura” – para um número de amigos, entre eles, Cosima Wagner, filha do pianista húngaro Franz Liszt com a Condessa Marie d`Agout e Jacob Burckhardt, filósofo da história e da cultura suíça, autor de obras sobre a cultura e história da arte. Muitas destas cartas foram per se assinadas “Dionísio”. Embora a maioria dos analistas considere “seu colapso como alheios à sua filosofia”, Bataille (1967) chegou a insinuar que sua filosofia pudesse tê-lo enlouquecido e a psicanálise “post-mortem”, de René Girard, uma “rivalidade de adoração” com Wagner. 

As composições de Wagner, particularmente do fim do período, são notáveis por sua complexidade, harmonias ricas e orquestração, e o elaborado uso de Leitmotiv: temas musicais associados com caráter individual, lugares, ideias ou outros elementos. Inicialmente estabeleceu sua reputação como um compositor de trabalhos tais como Der fliegende Holländer e Tannhäuser, transformando assim as tradições românticas de Carl Maria von Weber (1786-1826) e Giacomo Meyerbeer (1791-1864) em um pensamento operístico de seu conceito de Gesamtkunstwerk. Isso permitiu atingir a síntese de todas as artes poéticas, visuais, musicais e dramáticas, sendo anunciada numa série de ensaios entre 1849 e 1852. Entretanto, seus pensamentos sobre a relativa importância social da música e o drama mudaram novamente e ele reintroduziu algumas formas tradicionais da ópera em seu último estágio estético e artístico, incluindo Die Meistersinger von Nürnberg. Wagner foi o pioneiro em avanços técnicos da linguagem musical e no desenvolvimento da música erudita europeia. Sua ópera Tristan und Isolde é inúmeras vezes descrita como marco de desenvolvimento da música moderna. A influência de Wagner vai além da música.

É também sentida na filosofia, literatura, artes visuais e teatro. Ele teve sua própria casa de ópera, o Bayreuth Festspielhaus. Foi nessa casa que Ring e Parsifal tiveram suas premières mundiais e onde suas obras mais importantes continuam a ser produzidas e irradiadas até hoje, em um festival anual dirigido por seus descendentes. Se quisesse, Richard Wagner em Desdren poderia levar uma vida tranquila e livre de preocupações financeiras, totalmente dedicadas à sua arte. E seria isso que teria acontecido se ele não tivesse se metido em política. Tudo começou quando Wagner tentou introduzir uma série de reformas na orquestra do teatro, cujo principal objetivo era “melhorar o desempenho dos músicos a um nível que lhe satisfizesse”. Os salários eram baixos, e os músicos forçados a trabalhar demais, com prejuízo à saúde e queda no nível de qualidade. Uma das primeiras coisas que Wagner notou no meio artístico e musical foi a discrepância enorme entre os salários irrisórios dos músicos da orquestra e as somas exorbitantes angariadas por cantores solistas com muito menos talento musical. Essa degradação do processo e método de trabalho social ele estava disposto a corrigir. Músicos velhos deveriam ser aposentados, e instrumentos velhos substituídos por instrumentos novos. O sistema de promoção deveria ser baseado no talento musical, não no tempo de serviço. Ao insistir nas reformas Wagner passou a ser mal visto pelos seus superiores.

Em fevereiro de 1848, no mesmo mês em que Marx & Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista, inscrevendo no plano teórico, histórico e ideológico a importância dos comunistas organizados num partido único, repercutiu na França a revolução que depôs Luís Filipe, o rei burguês. Ele foi declarado rei em 1830 depois de Carlos X ter sido forçado a abdicar. Seu reino, reconhecido como a Monarquia de Julho, foi dominada por ricos burgueses e vários ex-oficiais napoleônicos. Ele seguiu políticas conservadoras a partir de 1840, especialmente sob a influência de François Guizot, promoveu uma amizade com o Reino Unido e apoiou uma expansão colonial, notavelmente a conquista da Argélia. Sua popularidade diminuiu sendo forçado a abdicar em fevereiro de 1848, vivendo o resto da vida em exílio no Reino Unido. Levou vida precária no estrangeiro e, para manter-se, trabalhou como professor num colégio de Reichenau. Quando o pai foi executado (1793), herdou o título de duque de Orléans o que fortaleceu suas aspirações conservantistas dinásticas. Viveu dois anos nos Estados Unidos e no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte).

Durante o período napoleônico (1804-14), conseguiu reconciliar os Orléans com o rei francês exilado Luís XVIII. Em 1809 foi para a Sicília e casou-se com Maria Amélia de Bourbon, princesa das Duas Sicílias, filha do rei Fernando I das Duas Sicílias. Aos gritos de Liberté, l`Égalité ou la Mort, sublevações vingaram pela Europa contra as monarquias absolutas. Na Itália e na Alemanha os revolucionários tinham por objetivo a unificação destes países. Wagner também ficou entusiasmado pelos ideais revolucionários. De repente, a música passou para segundo plano nas suas preocupações imediatas e a política para o primeiro. No mesmo ano, o militante anarquista russo Mikhail Bakunin se refugiou em Dresden, e com Richard Wagner se uniram em amizade. Somente numa sociedade alemã radicalmente transformada Wagner podia ver a possibilidade de realização de seu idealismo radical que, nessa época eram fortemente anarquistas, posto que ele odiasse a pomposidade e a perversidade da corte de Dresden. Ele sonhava com a criação de uma nova sociedade alemã, na qual o Volk encontraria expressão numa nova cultura alemã universal. Movido por esses ideais, Wagner entrou para o Vaterlandsverein, partido político fundado em março de 1848 para lutar pela  democracia. Wagner, Bakunin e outros revolucionários debatiam a revolução, republicanismo, socialismo, comunismo e anarquismo (cf. Woodcock, 1962).

A 8 de maio de 1849 Wagner publicou um artigo anônimo no Volksblätter, intitulado “A Revolução”. Era um novo texto de expressão política, “glorificando a deusa Revolução”. Sua mãe faleceu em 9 de janeiro de 1848. Em junho, Wagner juntou-se à Guarda Comunal Revolucionária e publicou dois poemas revolucionários e um artigo. Para William Ashton Ellis, a forte impressão causada em Wagner teve um contributo em Leipzig: ele pôde acompanhar de perto a revolta da população contra a justiça e a polícia criminais da cidade, com a incidência de tumultos em que houve a destruição da iluminação pública, agressões a policiais e a quebra das janelas de casas de magistrados. O primeiro poema, Gruss aus Sachsen an die Wiener (“Saudações Saxãs aos Vienenses”) parabenizava os austríacos terem forçado o imperador a fugir e incitava os saxões ao exemplo. O segundo, Die alte Kampf ist`s gegen Osten (“A Velha Luta é contra o Leste”) conclamava uma cruzada contra a Rússia reacionária. No artigo: “Que relação existe entre a empreitada republicana e a monarquia?”, Wagner descreve a utopia que surgiria após a queda da monarquia, com sufrágio universal, um exército do povo, congresso unicameral e economia burguesa. Apesar de anônimo, ninguém parecia ter dúvidas a respeito da autoria. A 1° de abril Wagner regeu uma apresentação pública da Nona Sinfonia de Beethoven (Sinfonia n° 9 em ré menor, op. 125, Coral), predecessora da música romântica, e reconhecidamente uma das grandes obras-primas de Ludwig van Beethoven (1770-1827). No final da apresentação o revolucionário anarquista russo Mikhail Bakunin (cf. Woodcock, 1962) se levantou do meio da plateia, e de forma inusitada apertou a mão de Wagner e disse bem alto para que todos ouvissem que, se toda música que já foi escrita fosse se perder na conflagração mundial que estava para acontecer, “esta sinfonia pelo menos teria que ser salva”. A 3 de maio de 1849 o rei da Saxônia recusou as exigências dos democratas e ordenou à Guarda Comunal se dissolvesse. Na reunião exaltada daquela tarde, os membros do Vaterladsverein decidiram oferecer resistência armada às autoridades, que contou com a participação de Wagner. Ele correu à casa do tenor Tichatschek e persuadiu a aturdida esposa do tenor a entregar as armas que seu marido guardava em casa; a seguir foi inspecionar as barricadas. 

Tropas prussianas estavam a caminho da cidade, a fim de esmagar a revolução. Wagner tomou posse das impressoras do Volksblätter e mandou imprimir panfletos revolucionários ao mesmo tempo em que mandava seu amigo Semper inspecionar as barricadas e comprar granadas. Wagner passou a sexta-feira 4 de maio junto com Mikhail Bakunin. No dia seguinte as primeiras tropas prussianas entraram em Dresden, havia lutas em torno de toda a cidade. Ele subiu à torre da Kreuzkirche, utilizada pelos rebeldes como um belvedere e um excelente ponto de observação. De lá, ele lançou mensagens atadas a pedras a Heubner e Bakunin sobre os movimentos de guerra das tropas inimigas. Wagner passou a noite na torre, em bombardeio contínuo e intenso das tropas prussianas. No dia seguinte ele escapou, foi até sua casa e fugiu com Minna para a cidade de Chemnitz, antes uma cidade conhecida como Karl-Marx-Stadt, para deixá-la em lugar provavelmente mais seguro fora do front da rebelião. Mas para horror dela, ele resolveu voltar para o centro popular da revolta. Seu envolvimento com as forças políticas rebeldes lhe custou 11 anos de exílio, pois ele voltou à Alemanha apenas em 1864. Em carta a Carl August Röckel, provavelmente entre maio de 1851 e setembro de 1852, o compositor narra que após maio de 1849 (cf. Janz, 1978) teve uma breve estadia em Paris, seguindo para Zurique, utilizando, para tanto, um passaporte falso providenciado por Franz Liszt. Durante o tempo que passou distante da Alemanha, houve um pedido de anistia dirigido ao rei da Saxônia, em 1856, mas a autorização para retornar ao solo alemão somente seria dada a Wagner se ele admitisse ter praticado atos criminosos contra a nação – uma condição que o compositor não aceitou, sob a justificativa de que ele não acreditava ter praticado nenhum crime. Em Dresden havia lutas casa a casa, e na prefeitura ocupada pelos revolucionários, os homens estavam desanimados e exaustos após seis noites sem dormir na arena dentre violentos embates. Richard Wagner foi despachado para Freiberg para chamar reforços. Antes que Wagner pudesse retornar a Dresden com reforços de tropas para combater, a revolução social em curso já havia sido esmagada. Wagner juntou-se a Heubner e Bakunin a caminho de Freiberg e sugeriu que eles montassem um governo provisório em Chemnitz. Naquela noite, Wagner e Bakunin dormiram no mesmo sofá. 

Quando Wagner acordou, Bakunin e Heubner tinham fugido. Wagner correu para onde se encontrava Minna, e os dois rapidamente, sem temor a erro, para evitar a onda de terror abandonaram o país. O cinema surrealista é uma abordagem modernista à produção, teoria e crítica cinematográfica que surgiu em Paris durante a década de 1920. As obras dessa categoria transferem para o cinema as técnicas do movimento surrealista do mundo da arte; imagens chocantes, irracionais ou absurdas são combinadas com simbolismo freudiano onírico para desafiar a visão tradicional de que a função da arte é representar a realidade. Está relacionado ao dadaísmo e é caracterizado, de forma semelhante, por justaposições, pela rejeição da psicologia dramática e pelo uso frequente de imagens chocantes. O cinema surrealista floresceu na década de 1920, com filmes notáveis ​​incluindo Entr`acte (1924), um curta-metragem francês mudo do movimento dadaísta dirigido por René Clair; Ballet Mécanique (1924), um filme francês mudo, pós-cubista e dadaísta, dirigido por Dudley Murphy e Fernand Léger, The Whirlpool of Fate (1925), um filme dramático mudo francês de 1925 dirigido por Jean Renoir e estrelado por Catherine Hessling como sua heroína, Anemic Cinema (1926), um filme experimental francês dadaísta / surrealista de 1926 , dirigido por Marcel Duchamp (creditado ao seu alter ego , Rrose Sélavy ), realizado em colaboração com Man Ray e Marc Allégret, as adaptações francesa e norte-americana de The Fall of the House of Usher (1928), e The Seashell and the Clergyman (1928), além de Un Chien Andalou (1929) e L`Âge d`Or (1930), ambos coescritos por Salvador Dalí que chama a atenção inevitavelmente pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica. Os artistas surrealistas estavam interessados ​​como meio de expressão para uma oportunidade de retratar o ridículo como racional.

Eles perceberam que a câmera cinematográfica podia capturar o mundo real de uma maneira onírica que canetas e pincéis não conseguiam, a saber: sobreposições, superexposição, movimento rápido, câmera lenta, movimento reverso, stop motion, reflexos de lente, profundidades de campo muito variáveis ​​e outros truques de câmera bizarros podiam transformar a imagem original diante da lente em algo novo, uma vez exposta na película. Para os surrealistas, o cinema dava-lhes a capacidade de desafiar e moldar as fronteiras entre a fantasia e a realidade, especialmente no que diz respeito ao espaço e ao tempo. Tal como os sonhos que desejavam trazer à vida, o cinema não tinha limites nem regras. O cinema proporcionava ilusões mais convincentes do que o seu rival mais próximo, o teatro, e a tendência dos surrealistas para se expressarem através do cinema era um sinal da sua confiança na adaptabilidade do cinema aos objetivos e requisitos do surrealismo. Foram os primeiros a considerar seriamente a semelhança entre as imagens imaginárias do cinema e as dos sonhos e do inconsciente. Luis Buñuel, cuja técnica cinematográfica foi amplamente estudada, disse que “o cinema parece ser a imitação involuntária do sonho”. Os cineastas procuraram redefinir a consciência humana da realidade, ilustrando que o real era pouco mais do que aquilo que era percebido como real, e que a realidade era apenas limitada pelos limites que as pessoas lhe pensavam.                        

Breton comparou certa vez a experiência da literatura surrealista ao “ponto em que o estado de vigília se junta ao sono”. Sua analogia ajuda a explicar a vantagem do cinema sobre os livros em facilitar o tipo socialmente de libertação que os surrealistas buscavam das pressões diárias.  A modernidade do cinema também era atraente para os surrealistas. Os críticos têm debatido se o cinema surrealista é um gênero distinto; como o reconhecimento de gênero envolve a capacidade de citar muitas obras que compartilham características temáticas, formais e estilísticas, referir-se ao Surrealismo como um gênero implica que há repetição de elementos e fórmula genérica reconhecível que os descreve. Vários críticos argumentaram, portanto, que o uso de não sequiturs e do irracional pelo Surrealismo torna impossível que ele constitua um gênero. Embora existam inúmeros filmes que são dialeticamente verdadeiras expressões do movimento, muitos outros filmes comparativamente que foram classificados como surrealistas simplesmente contêm apenas moderadamente fragmentos surrealistas. Isto é, ao invés de realizar “filme surrealista”, o termo mais preciso para tais obras pode ser “surrealismo no cinema” quando mergulham em temas sociais extraordinários como desejo, sexualidade, medo e irracionalidade, procurando desvendar aspectos ocultos prementes da psique humana.

Alejandro Jodorowsky nasceu no Chile filho de pais judeus ucranianos oriundos de Yekaterinoslav (atual Dnipro) e Elisavetgrad (atual Kropyvnytskyi) no Império Russo (atual Ucrânia). Seu pai, Jaime Jodorowsky Groismann, era um comerciante e era abusivo com sua esposa Sara Felicidad Prullansky Arcavi, e certa vez a acusou de flertar com um cliente. Furioso, ele a agrediu e estuprou, engravidando-a, o que levou ao nascimento de Alejandro. Em 1947 sua família mudou-se para Santiago, Chile, onde ele estudou na universidade. Nessa época já trabalhava como palhaço de circo e artista de marionetes. Em 1953 mudou-se para Paris onde estudou mímica com Marcel Marceau, foi o mímico mais popular do período pós-guerra. Junto com Étienne Decroux e Jean-Louis Barrault deu uma nova roupagem à mímica no Século XX. Trabalhou com Maurice Chevalier, que se tornou um dos artistas mais populares nos music halls franceses, antes de embarcar em uma bem-sucedida carreira de ator em Hollywood na década de 1930 e fez seu primeiro filme, La Cravate (1957), até há pouco tempo dado como perdido e o primeiro curta-metragem em que aparece. O filme, entretanto, acabou sendo redescoberto por acaso na posse de um particular e incluído como conteúdo extra no box de DVDs - O Universo de Alejandro Jodorowsky. Todos os cenários são feitos de papelão, conferindo-lhe uma estética teatral, a mesma do teatro de onde Alejandro Jodorowsky surgiu.

Também em Paris ele conheceu Roland Topor e Fernando Arrabal, e juntos criaram o Moviment Panique em 1962. O grupo multimídia, que homenageava o deus grego Pan, fazia performances ao vivo misturando teatro de vanguarda, literatura e cinema. Nesse período, Jodorowsky escreveu diversos livros e peças teatrais. No final dos anos 1960, dirigiu peças de vanguarda em Paris e na Cidade do México. O grupo multimídia, que homenageava o deus grego Pan, fazia performances ao vivo misturando teatro de vanguarda, literatura e cinema. Nesse período, Jodorowsky escreveu diversos livros e peças teatrais. No final dos anos 1960, dirigiu peças de vanguarda em Paris e na Cidade do México. Também criou a tira de história em quadrinhos “Fabulas Panicas”, e fez seu primeiro filme de verdade - Fando y Lis, em 1967, baseado em uma peça de Arrabal. A partir de 1966, o grupo foi acompanhado pelos pintores Christian Zeimert, Michel Parré e depois Sam Szafran, pelo escultor Abel Ogier Diego Bardon, bem como pelo gravador polonês Roman Cieslewicz e pelo diretor Jérôme Savary, que fundou em 1967 “Le Grand Théâtre Panique” com Arrabal, Topor e Jodorowsky, que mais tarde se tornou “Le Grand Panic Circus” e depois “Le Grand Magic Circus et ses animaux tristes”. O Panic é um movimento artístico acionista ou, como afirmam os seus fundadores, um anti-movimento, fundado em fevereiro de 1962 por iniciativa de Roland Topor com amigos Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, na sequência do grupo Burlesque, também criado pelos mesmos três no Café de Paris dois anos antes, na companhia do escritor belga Jacques Sternberg, do pintor francês Olivier O. Olivier, do pintor mexicano Alberto Gironella e do escritor francês André Ruellan.

Com aspirações anarquistas e antidogmáticas, “nem um grupo nem um movimento artístico ou literário [mas] antes um estilo de vida”, o Panic, que se coloca sob o signo da contradição e da autodepreciação, pretende distinguir-se do surrealismo e recusar qualquer hierarquia, direção ou restrição, reivindicando “todos os valores morais”, com um programa “suficientemente vago para não ser obrigado a segui-lo”. Escolhendo seu nome em referência ao deus Pan e cultivando os aspectos irracionais e temerosos do pânico, o grupo mistura o barroco, o contraditório, o monstruoso e o mítico em suas obras, praticando escrita, ilustração, teatro e cinema. Em 1970, Jodorowsky lançou “El Topo”, um faroeste surrealista criativo e vanguardista. Graças a seu mais ilustre fã, o beatle John Lennon, o filme foi muito comentado e distribuído na América, alcançando status de cult. Em 1973, lança “The Holy Mountain”. O financiamento do filme foi retirado, e o romance acabou sendo filmado nos Estados Unidos por David Lynch. Arrabal fez a primeira formulação pública do movimento durante uma conferência realizada em Sydney em 1962, que foi traduzida para o espanhol sob o título El Hombre Panico e adaptada para o francês como L`Homme Panique, incluída no livro Le Panique publicado em 1973. Exibido nas galerias Aurora em Genebra em 1973 e Messidor em Paris no ano seguinte, ao lado de artistas como Olivier O. Olivier e Christian Zeimert, o trabalho do grupo recebeu reconhecimento público com a realização dos filmes A Montanha Sagrada de Jodorowsky, exibido no Festival de Cinema de Cannes em 1973, e Planeta Fantástico, que recebeu o prêmio especial do júri.  Em 1975, retorna à França, onde tenta fazer uma versão cinematográfica do romance Duna, de Frank Herbert, que teria a participação de Orson Welles e Salvador Dali, trilha sonora de Pink Floyd, e a colaboração visual dos artistas H. R. Giger, Dan O`Bannon e Moebius.

A Montanha Sagrada tem como representação social um filme surrealista de vanguarda mexicano de 1973, dirigido, escrito, produzido, co-composto, coeditado e estrelado por Alejandro Jodorowsky, que também participou como cenógrafo e figurinista do filme. Após o sucesso underground de Jodorowsky com El Topo (1970), aclamado por John Lennon e George Harrison, o filme foi produzido pelo empresário dos Beatles, Allen Klein, da ABKCO Music and Records, empresa sucessora fundada em 1961 como Allen Klein & Co. Allen Klein (1931–2009) um gerente de negócios especializado em clientes musicais, incluindo Bobby Darin e Sam Cooke e, mais tarde, administrou os Rolling Stones e os Beatles. Foi fundada em 1968 como uma empresa guarda-chuva envolvida em gestão, edição musical, cinema, TV e produção teatral. Mais tarde adquiriu o catálogo da Cameo-Parkway Records com uma fábrica que a empresa usou para produzir discos de vários de seus artistas, incluindo os Beatles e os Rolling Stones. John Lennon e Yoko Ono financiaram a produção. Foi exibido em vários festivais internacionais de cinema em 1973, incluindo Cannes, e teve exibições limitadas em Nova York e São Francisco.

Escólio: Um homem (mais tarde identificado como o ladrão), representando a carta de tarô O Louco, jaz no deserto com moscas cobrindo seu rosto. O Louco simboliza na vida cotidiana novos começos, novas experiências, simboliza o início da jornada. Ele faz amizade com um anão sem pés e sem mãos, representando o Cinco de Espadas, e a dupla viaja para a cidade onde ganham a vida entretendo turistas. Como o ladrão se assemelha a Jesus Cristo na aparência, alguns moradores locais, uma freira e três guerreiros fazem um molde de seu corpo e vendem os crucifixos resultantes. Após uma discussão com um padre, o ladrão come o rosto de sua estátua de cera e a envia para o céu com balões, simbolicamente comendo o corpo de Cristo e oferecendo “a si mesmo” ao Céu. Logo depois, ele percebe uma multidão reunida em torno de uma torre alta, de onde um grande gancho com um saco de ouro foi enviado em troca de comida. O ladrão, desejando encontrar a origem do ouro, sobe à torre. Lá, encontra o alquimista e seu assistente silencioso. Após um confronto com o alquimista, o ladrão defeca em um recipiente. As fezes são transformadas em ouro pelo alquimista, que proclama: “Você é excremento. Você pode se transformar em ouro”. O ladrão aceita o ouro, mas quebra um espelho com ele ao ver seu reflexo. O alquimista então o aceita como aprendiz.  

O ladrão é apresentado a sete pessoas que o acompanharão em sua jornada. Cada uma é apresentada como a personificação de um dos planetas, em particular as características negativas associadas a cada um deles. São elas: Fon (Vênus), uma esteticista que produz rostos artificiais; Isla (Marte), uma fabricante de armas; Klen (Júpiter), um milionário negociante de arte especializado em máquinas eróticas; Sel (Saturno), uma fabricante de brinquedos que usa seus produtos para doutrinar crianças; Berg (Urano), um conselheiro político que defende a redução da população para fins financeiros; Axon (Netuno), um chefe de polícia que castra seus oficiais; e Lut (Plutão), um arquiteto de casas minimalistas. O alquimista instrui os sete a queimarem seu dinheiro, bem como efígies de cera de si mesmos. Juntamente com o alquimista, o ladrão e o assistente do alquimista, eles formam um grupo de dez. Os personagens são guiados pelo alquimista através de diversos rituais de transformação. Os dez viajam de barco até a “Ilha de Lótus” para obter o segredo da imortalidade de nove mestres imortais que vivem em uma montanha sagrada. Uma vez na Ilha de Lótus, eles se distraem com o Bar do Panteão, uma festa em um cemitério onde as pessoas abandonaram sua busca pela montanha sagrada e, em vez disso, se entregam a drogas, poesia ou demonstrações de força física.

Deixando o bar para trás, eles escalam a montanha. Cada um tem uma visão simbólica pessoal que representa seus piores medos e obsessões. Perto do topo, o ladrão é enviado de volta para o seu “povo” junto com uma jovem prostituta e um chimpanzé que o seguiram da cidade até a montanha. Os demais confrontam os imortais encapuzados, que se revelam apenas manequins sem rosto. O alquimista então quebra a quarta parede com o comando “Afastem-se, câmera!” e revela o aparato de filmagem (câmeras, microfones, luzes e equipe) fora do enquadramento. Ele instrui a todos, incluindo o público do filme, a deixarem a montanha sagrada: “Adeus à Montanha Sagrada. A vida real nos aguarda”. O filme é baseado em A Subida do Monte Carmelo, de São João da Cruz, e Monte Análogo, de René Daumal, aluno de George Gurdjieff. Nesta obra, grande parte da narrativa visualmente psicodélica de Jodorowsky segue a linha metafísica de Monte Análogo. Isso se revela em eventos como a escalada até o alquimista, o encontro de indivíduos com habilidades específicas, a descoberta da montanha que une o Céu e a Terra “que não pode deixar de existir” e os desafios simbólicos ao longo da ascensão. Daumal morreu antes de concluir seu romance alegórico, e o final improvisado de Jodorowsky oferece uma maneira de completar a obra tanto quanto de outras formas. Antes do início das filmagens principais, Jodorowsky e sua esposa passaram uma semana sem dormir sob a direção de um mestre Zen japonês.

Os principais membros do elenco passaram três meses fazendo vários exercícios espirituais guiados por Oscar Ichazo, do Instituto Arica. O treinamento do Arica inclui exercícios Zen, Sufi e de ioga, juntamente com conceitos ecléticos extraídos da Cabala, do I Ching e dos ensinamentos de George Gurdjieff. Após o treinamento, o grupo viveu por um mês em comunidade na casa de Jodorowsky antes do início da produção. Em seguida, as filmagens começaram no início de 1972. O filme foi rodado sequencialmente, inteiramente no México, com um orçamento de US$ 750.000. Jodorowsky também foi instruído por Ichazo a tomar LSD com o propósito de exploração espiritual. Ele também administrou cogumelos psilocibinos aos atores durante as filmagens da cena de morte e renascimento. A Montanha Sagrada foi concluída a tempo para o Festival de Cannes de 1973, onde era muito aguardada. Jodorowsky cortou vinte minutos de diálogos do filme, com a intenção de remover o máximo de diálogos possível.

O filme estreou no Waverly Theatre, um cinema de arte na cidade de Nova York, em 29 de novembro de 1973, onde teve exibição restrita às sessões da meia-noite de sexta-feira e sábado durante dezesseis meses. Também foi exibido no Filmex em 30 de março de 1974, o que foi descrito como a “estreia americana”. Em alguns lugares, foi lançado em sessão dupla com o filme de Jodorowsky de 1970, El Topo, e eventualmente se tornou um filme cult devido à sua influência na cultura popular. O filme não teve um lançamento amplo até mais de 30 anos após sua estreia, exceto por dois lançamentos japoneses em LaserDisc fortemente censurados. Uma cópia restaurada foi exibida em Cannes em 23 de maio de 2006. Fez uma turnê pelos Estados Unidos, sendo exibido com El Topo. Foi lançado em DVD em 1º de maio de 2007, e um Blu-ray visto em 26 de abril de 2011. No agregador de críticas Rotten Tomatoes, A Montanha Sagrada possui uma aprovação de 85%, com base em 26 críticas, e uma classificação média de 7,3/10. O consenso diz: “Um deleite visual rico em simbolismo, A Montanha Sagrada adiciona mais um capítulo desafiadoramente idiossincrático à filmografia completamente única de Jodorowsky”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 76 em 100, com base em 11 críticas, indicando avaliações “geralmente favoráveis”.

É um site norte-americano de agregação de críticas de filmes e televisão. A empresa foi lançada em agosto de 1998 por três estudantes de graduação da Universidade da Califórnia, Berkeley: Senh Duong, Patrick Y. Lee e Stephen Wang. Embora o nome “Rotten Tomatoes” faça referência à prática do público um lugar comum de atirar tomates podres em sinal de desaprovação a uma má apresentação teatral, a inspiração direta para o nome, dada por Duong, Lee e Wang, veio de uma cena equivalente no filme canadense Léolo, de 1992. A equipe do Rotten Tomatoes coleta resenhas de escritores que são membros certificados de diversas associações de escritores ou de críticos de cinema. Para ser aceito como crítico no site, as resenhas originais de um crítico devem obter um número específico de “curtidas” dos usuários. Aqueles classificados como “Críticos Principais” geralmente escrevem para grandes jornais. Os críticos publicam suas resenhas na página do filme no site e precisam marcá-las como “frescas” se forem geralmente favoráveis ​​ou “podres” caso contrário. É necessário que o crítico faça isso, pois algumas resenhas são qualitativas e não atribuem uma pontuação numérica, o que impossibilitaria a automatização do sistema. O site mantém um registro de todas as críticas contabilizadas para cada filme e calcula a porcentagem de críticas positivas chamada de “Tomatômetro”. Se as críticas positivas representarem 60% ou mais, o filme é considerado “fresco”. Se as críticas positivas forem inferiores a 60%, o filme é considerado “ruim”. Anteriormente, também era calculada uma pontuação média em uma escala de 0 a 10. Esse recurso foi introduzido em 2003 e removido em abril de 2025. 

Em cada crítica, um breve trecho é citado, servindo também como um hiperlink para o ensaio completo da crítica, para quem tiver interesse em ler a análise completa do crítico sobre o assunto. Críticos renomados, como Roger Ebert, Desson Thomson, Stephen Hunter, Owen Gleiberman, Lisa Schwarzbaum, Peter Travers e Michael Phillips, são identificados em uma sublista que calcula suas avaliações separadamente. Suas opiniões também são incluídas na classificação geral. Quando há um número suficiente de avaliações, a equipe cria e publica uma declaração de consenso para expressar os motivos gerais da opinião coletiva sobre o filme. Essa classificação é indicada por um ícone equivalente na lista de filmes, para dar ao leitor uma visão geral da opinião crítica sobre a obra. O selo “Certified Fresh” é reservado para filmes que atendem dois critérios: uma pontuação no Tomatometer de 75% ou superior e pelo menos 80 avaliações (40 para filmes de lançamento limitado) de críticos do Tomatometer (incluindo 5 dos principais críticos). Os filmes que conquistam esse status o mantêm, a menos que a porcentagem de avaliações positivas caia abaixo de 70%. Filmes com 100% de avaliações positivas que não possuem o número necessário de avaliações podem não receber o selo “Certified Fresh”. Para que uma pontuação no Tomatometer seja exibida, um filme deve atender a um número mínimo de críticas. O limite varia dependendo da bilheteria projetada do filme nos Estados Unidos, com a previsão financeira fornecida por uma “fonte externa independente”. Para filmes com projeção de arrecadação superior a US$ 120 milhões, eles devem receber 40 críticas antes de receberem uma pontuação no Tomatometer; para projeções de US$ 60 milhões ou mais, são necessárias 20 críticas; e para projeções inferiores a US$ 60 milhões, ou para filmes sem projeção, são necessárias 10 críticas.

Bibliografia Geral Consultada.

WOODCOCK, George, Anarchism. A History of Libertarian Ideas and Movements. Londres: World Publishing, 1962; BATAILLE, Georges, Sur Nietzsche: Volonté de Chance. Paris: Éditions Gallimard, 1967; DOMÍNGUEZ ARAGONÉS, Edmundo, Tres Extraordinarios: Luis Spota, Alejandro Jodorowsky, Emilio “Indio” Fernández. México: Juan Pablos Editor, 1980; pp. 109-146; BERMAN, Marshall, All That Is Solid Melts into Air: The Experience of Modernity. London: Penguin Books, 1981; FERRO, Marc, Cinema e História. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992; MONTELEONE, Massimo, La Talpa e la Fenice. Il Cinema di Alejandro Jodorowsky. Bolonia: Granata Press, 1993; FREUD, Sigmund, “Os Instintos e suas Vicissitudes”. In: Obras Completas. Volume XIV. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996; JODOROWSKY, Alejandro, A Jornada Espiritual de um Mestre. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2005; AUMONT, Jacques “et al”, A Estética do Filme. Campinas: Editora Papirus, 2007; SILVA, Márcia Regina Barros da, “O Filme de Temática Científica: Possibilidades de uma Documentação Histórica”. In: Cad. hist. ciênc. vol.3 nº2. São Paulo, 2007; MAGER, Juliana Muylaert, É Tudo Verdade? Cinema, Memória e Usos Públicos da História. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Educação. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2019; SOUZA, Lucas Soares de, Diante dos Pedaços: A Fragmentação do Corpo n’a Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo. Curitiba: Universidade Estadual do Paraná, 2021; REIS, Adriel Diniz dos, A Experiência de Samuel Beckett no Cinema. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Performances Culturais. Faculdade de Ciências Sociais. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2021; SANTOS NETO, Romeu Villa Flor, Ficcionalidade Religiosa e o Grotesco em A Montanha Sagrada, de Alejandro Jodorowsky. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2023; Artigo: “Alejandro Jodorowsky, 97 anos e a Eterna Busca pela Verdade”. In: https://www.swissinfo.ch/20/02/2026; entre outros.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Big Boy – Disc Jockey Estiloso, Técnica & Comunicação Massificada.

   Justificar tragédias como vontade divina tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas”. Umberto Eco                          

           Um disc jockey (DJ), disc-jóquei ou discotecário, tem como representação social um artista que seleciona e reproduz as mais diferentes composições, previamente gravadas ou produzidas na hora para um determinado público alvo, trabalhando seu conteúdo e diversificando seu trabalho em radiodifusão em frequência modulada (FM), pistas de dança de bailes, clubes, boates e danceterias. Disc jóquei foi e é utilizado para descrever, primeiramente, a figura do locutor de rádio que introduziam e tocavam discos de gramofone, posteriormente, o long play (LP), mais tarde compact disc laser e atualmente, empregam o uso do MP3 é um dos primeiros tipos de compressão de áudio com perdas quase imperceptíveis ao ouvido humano. O seu bitrate é da ordem de kbps, sendo 128 kbps a taxa-padrão, na qual a redução do tamanho do arquivo é de cerca de 90%, ou seja, o tamanho do arquivo passa a ser 1/10 do tamanho original. O nome foi logo encurtado para disc jockey. Faz quase 50 anos que o DJ mudou a forma como experimentamos música, mas pouca gente sabe exatamente o que um DJ profissional realmente faz no palco. Se você sair perguntando por aí, a maioria das pessoas vai te dizer que um DJ aperta alguns botões, ao mesmo tempo que sorri e coloca as mãos pra cima, mas um DJ profissional faz mais do que isso.  É preciso estudar e praticar pra fazer o que um DJ faz no palco. Diante dos numerosos fatores envolvidos, incluindo a composição escolhida, o tipo de público a lista de canções, o meio da manipulação do som, há diferentes tipos de DJs, sendo que nem todos usam discos, alguns podem tocar com CDs, outros com laptop e DJ softwares, entre outros meios.

Há também aqueles que mixam sons e vídeos (os VJs), mesclando seu conteúdo ao trabalho desenvolvido no momento da apresentação musical. Há, no entanto, uma vasta gama de denominações para classificar o termo DJ. No rádio, os DJs contribuíram para a consolidação do movimento Rock and Roll a partir da segunda metade dos anos 1950, como a maior manifestação cultural da juventude do século XX; nomes de artistas tão díspares como Elvis Presley (1935-1977) e The Beatles (1960-1970), não teriam alcançado o estrelato se não fosse o empenho dos DJs originais. Nessa mesma época começavam a surgir os DJs jamaicanos, conhecidos como seletores, que inicialmente tocavam principalmente discos estadunidenses de R&B nos sistemas de som, e faziam sucesso principalmente entre a população menos privilegiada que não tinha condições de ter rádio ou toca-discos. Com o advento da discoteca nos anos 1970, os DJs também ganharam fama fora do rádio e foram para as pistas de dança. Nas pistas, de danças os DJs que atuaram até o meiados dos anos 1990 utilizavam apenas discos de vinil em suas apresentações. Em que pese o fato social de já existirem Compact Disc antes, não havia equipamentos que permitissem o sincronismo da música entrante com a música em execução (ajuste do pitch para posterior mixagem). 

A forma como esta ação de mixagem é realizada, aliás, é o principal diferencial entre os profissionais desta área.  Um DJ tem a percepção musical de saber quais composições possuem velocidades (mensuradas em batidas por minuto) próximas ou iguais, de forma que uma alteração em um ou dois por cento da velocidade permite com que o compasso das mesmas seja sincronizado e mixado, e o público não consiga notar que uma faixa está acabando e outra está iniciando, pois, as duas faixas estão no mesmo ritmo, métrica e velocidade. DJs das décadas de 1980 e 1990 sincronizavam a composição mixada (entrante) regulando a velocidade do prato do toca-discos, com o cuidado de fazer com que a agulha não escapasse do sulco do vinil (que na prática faz com que a música “pule”) e também com que o timbre da voz da música não ficasse, por demais, alterada com a velocidade muito alta ou muito baixa do prato. Esta alteração da velocidade era possível em toca-discos que possuem o botão chamado pitch. O toca-discos mais famoso, nesta época, era o Technics SL-1200 MK-2, que até hoje é vendido e procurado por profissionais e amantes do vinil pela robustez e força que o seu motor de tração direta apresenta. Após a popularização do CD, empresas como Pioneer, Technics e Numark desenvolveram aparelhos do tipo CD player com recursos próprios para DJ. Conhecidos CDJs, possuem botões para alteração de pitch, retorno da faixa, marcação de ponto (ou cue) e looping.

                                        

         Umberto Eco frequentou a escola salesiana, um instituto religioso católico romano fundado no século XIX por Saint Don Bosco. Curiosamente o sobrenome Eco, vem do acrônimo latino “ex caelis oblaus” que fora dado ao seu avô, que era um órfão abandonado por um oficial da cidade e que tem como representação religiosa “um presente dos céus”. Entre o final da década de 1950 e 1960, passou a se interessar pela semiótica. Em 1961, escreveu o ensaio: “Fenomenologia di Mike Bongiorno” sobre o fenômeno popular do anfitrião de um Quiz Show chamado Mike Bongiorno (1924-2009) e também “Apocalitiici e Integrati” (1964), onde analise a comunicação de massa a partir de uma perspectiva sociológica. Precisa uma nova orientação nos estudos sociais de cultura de massa. Nesse período publicou o seu primeiro livro como uma extensão do trabalho contido de sua tese de doutorado. Sua démarche filosófica obteve impulso com a influência positiva de Luigi Pareyson, na Itália. Ele se concentrou nos estudos sobre estética do período medieval aos trabalhos de são Tomás de Aquino (1225-1274), e defendia a dedicação deste membro da Igreja Católica referente às questões do belo. Logo surge seu segundo livro: “Sviluppo dell´estetica medievale” (1959), em que se posicionou como um pensador da filosofia medieval. Nesse mesmo ano passou a ser um editor sênior na editora Bompiani (Milão), onde permaneceu até 1975. Eco criou na Universidade de Bolonha um programa chamado “Antropologia do Ocidente” a partir da perspectiva dos africanos e estudiosos chineses, onde foi desenvolvida uma rede transcultural na África Ocidental, que resultou na primeira conferência em Guangzhou na China (1991), intitulada: “Fronteiras do Conhecimento”. 

Sob o olhar semiótico de Umberto Eco, descoberto no filósofo John Locke, aderiu assim à concepção anglo-saxônica desta antiga disciplina, deixando de lado a visão semiológica adotada por Ferdinand Saussure. Ele busca também sua visão renovada da semiótica nos conceitos de Immanuel Kant e Charles Pierce, o que se pode verificar nas obras “As Formas do conteúdo” (1971) e “Tratado Geral de Semiótica” (1975). Umberto Eco critica o uso esotérico da interpretação, fazendo ver que um texto não pode ser aprisionado em seu conjunto por uma única verdade, pois demonstra que a vontade de uma interpretação única é, afinal, a vontade de manutenção de um segredo, que diz respeito à manutenção de poder. Essa crítica não desfaz a impressão de que a interpretação não pode ser meramente uma impressão subjetiva do texto. Cabe a nós sermos “servos respeitosos” da semiótica. Se nós, leitores, podemos achar no texto um significado, cabe a nós ter claro que esse significado é uma referência nossa, que evidentemente nem sempre irá respeitar o texto original. Portanto, que existe a “intentio lectoris e a intentio operis”, isto é a intenção do leitor e a do texto. Enquanto a intenção do leitor pode ser reconhecida, a intenção do texto parece para sempre perdida, mas deve ser conjecturada pela interpretação desse leitor, pelo menos através de coerência: qualquer interpretação feita de parte de um texto poderá ser aceita se for confirmada por outra parte processual do mesmo texto, e deverá ser rejeitada se a contradisser.  Daí a sua importância em distinguir, no modelo comunicacional, e, portanto, no universo retórico, o termo ideologia que se presta a numerosas codificações. Deixando de lado a noção de ideologia como “falsa consciência”, Umberto Eco, reitera o papel da ideologia como tomada de posição filosófica, política, estética, etc. em face da realidade.

Nosso intuito, afirma, é conferir ao termo ideologia, e a par dele ao de retórica, uma acepção muito mais ampla vinculada ao universo do saber do destinatário e do grupo a que pertence, os seus sistemas de expectativas psicológicas, os seus princípios morais, isto é, quando o que pensa e quer é socializado, passível de ser compartilhado pelos seus semelhantes. Para consegui-lo, porém, é mister que o sistema de saber se torne sistema de signos: a ideologia é reconhecível quando, socializada, se torna código. Nasce, assim, uma estreita relação entre o mundo dos códigos e o mundo do saber preexistente. Esse saber torna-se visível, controlável, comerciável, quando se faz código, convenção comunicativa. O aparato sígnico remete ao aparato ideológico e vice-versa e a Semiologia, como ciência da relação entre códigos e mensagens, transforma-se concomitantemente na atividade de identificação contínua das ideologias que se ocultam sob as retóricas. Enfim, do ponto de vista teórico e metodológico, a Semiologia mostra-nos no universo dos signos, sistematizado em códigos e léxicos, o universo das ideologias, que se refletem nos modos pré-constituídos da linguagem. Ipso facto, em sua gênese, no início do século XIX, designava um estudo das ideias, como elas se formam e que fenômenos incidem para isso, empreendido pelo pensador Destutt de Tracy.

O timbre da música passou a ser controlado (opcionalmente) por um acionador específico, normalmente reconhecido como Master Tempo. Com este recurso, mesmo que a composição esteja extremamente acelerada (ou desacelerada), o timbre da voz, teclados, guitarras etc. é mantido, driblando de certa forma a capacidade de percepção do público, em notar que determinado som está tocando em velocidade diferente da normal. Além disso, não há mais o risco de o disco pular, apesar de o cuidado em se limpar as mídias de CD ser o mesmo, pois uma mancha em uma mídia óptica pode prejudicar e até interromper a canção em execução. Outra facilidade destes equipamentos é marcar o ponto de início da música (designado cue point). Assim, um DJ com um simples toque no botão pode retornar ao ponto de partida poucos segundos antes de mixar a música sobre a que está sendo executada. Atente-se aqui para o fato de que, além do talento musical obrigatório a um DJ em se conhecer aproximadamente o tempo das composições que ele pretende mixar durante sua apresentação, o mesmo também deve conhecer onde, quando e se uma composição ou determinada versão desta possui uma região (geralmente sem vocal, com batidas secas e pouco ou nenhum aparecimento de guitarras e teclados) popularmente conhecida como quebrada, onde é possível entrar a próxima composição sem que o resultado fique confuso (com dois vocais de canções diferentes ao mesmo tempo). 

Este capricho é obrigatório para profissionais que fazem mixagens ao vivo, tanto com vinis quanto com CDs. As versões das canções que um DJ utiliza não são as mesmas versões que normalmente se ouve em videoclipes ou estações de rádio. Para cada nova canção que é lançada no mercado, desde os anos 1970, a gravadora lança um disco (ou CD) específico, denominado compacto, para aquela canção. No caso do vinil, um compacto também pode ser de sete polegadas, dez polegadas ou doze polegadas. Em CD, este é conhecido como 5 (cinco) polegadas. Um compacto é um vinil ou CD que possui uma mesma canção em várias versões, produzidas especialmente para mixagens ou amantes de versões alternativas. Enquanto uma versão normal de canção possui normalmente de três a quatro minutos de duração, uma versão de compacto pode durar até quinze minutos, com grandes introduções, quebradas, edições, reprises de vocal etc. Estas versões alteradas também são conhecidas como remixagens, versões 12, versões club, versões estendidas e dub. Um compacto também pode conter versões instrumentais e a cappella daquela música. Enquanto um álbum de coletânea de determinado artista pode possuir um nome qualquer, um compacto sempre tem o nome da canção que nele está gravada, mesmo que o disco tenha apenas uma versão da canção que o nomeia. No fim do século XX, com a popularização do formato MPEG-1 layer 3 popularmente reconhecido como MP3 para utilidade de uso de canções digitais, de programas de compartilhamento de arquivos como o Napster e o de programas de edição, surgiu uma nova casta de editores musicais autodenominados DJs.

Apesar de estes possuírem, às vezes, até certo talento para música, pois precisam alterar uma faixa para mixar na anterior, têm seu trabalho extremamente facilitado e, portanto, não são bem vistos por profissionais que executam seu trabalho ao vivo em clubes, casas, discotecas e eventos. A mixagem em computador é feita de forma caseira, e não há o julgamento do público ao trabalho sendo feito ao vivo. O que o público irá ouvir é uma mixagem feita em estúdio e já gravada. Caso uma canção seja alterada e mixada com a anterior, mas o resultado não seja o esperado pelo editor (timbres, batidas ou compassos dessincronizados, por exemplo), a ação de mixagem pode ser desfeita e refeita quantas vezes forem necessárias. Assim, o resultado final é uma mixagem tão perfeita quanto artificial. Porém, grandes DJs também fazem uso destes programas para criação de sequências de múltiplas canções denominadas megamixes, de participações de curta duração em programas de rádio e até mesmo de novas versões dessas canções, que não existam em seus respectivos compactos. Existem, hoje em dia, softwares capazes de simular na tela de um computador dois toca-discos ou cdjs e um mixer, com inúmeros recursos iguais ou até superiores aos melhores equipamentos. Além de alguns poderem ser baixados gratuitamente pela internet, esses softwares estão se popularizando por serem uma alternativa a quem deseja discotecar e não pode investir muito.

Big Boy, pseudônimo de Newton Alvarenga Duarte (01/06/1943-07/03/1977) foi um importante disc jockey de seu tempo, responsável por uma revolução no estilo de apresentação e na programação musical do rádio no Brasil. Como locutor introduziu uma linguagem jovem, mais próxima do público que o ouvia. Costumava saudar seus ouvintes com a frase “hello crazy people!”, que se tornou sua marca registrada. Era considerado descontraído e tinha voz diferente da entonação impostada dos locutores de então. Como programador musical demonstrou extrema sensibilidade ao captar o gosto do público, observando as tendências musicais ao redor do mundo e inovando a partir de ideias que modificariam o sistema de programação estabelecido. Big Boy nasceu na capital fluminense em 1943. Apaixonado por música desde a infância, ainda era adolescente quando começou uma coleção de discos de música pop, que chegou a vinte mil unidades, manifestando preferência pelo rock and roll, o então novo ritmo norte-americano que conquistou os jovens no mundo todo. Também costumava frequentar a Rádio Tamoio, do Rio de Janeiro, que apresentava a programação mais atualizada, procurando manter contato com os programadores e outros aficionados por rock em busca de informações e de realizar o sonho de se tornar profissional. 

A oportunidade finalmente surgiu quando foi convidado para substituir um programador que entrara em férias. Mais tarde foi convidado para participar de uma bem sucedida tentativa de reformulação da Rádio Mundial AM, que se tornou a de maior audiência entre o público jovem do Rio de Janeiro. Assim, não hesitou em interromper a carreira de professor de geografia para tornar-se radialista. Foi ali que iniciou sua atuação como DJ, ganhou o apelido de Big Boy e criou o estilo que continua influenciando locutores, inclusive das rádios FM, cujas programações muitas vezes ainda seguem os moldes de seus programas. Com sua postura informal complementava as músicas que tocava com informações sobre o mundo do disco, impondo uma dinâmica ao programa. No início da carreira como DJ, a sua real identidade não era reconhecida dos ouvintes, de seus colegas na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFI). A Faculdade Nacional de Filosofia foi fundada em 4 de abril de 1939, pelo então Presidente Getúlio Vargas, através do Decreto-lei nº 1.190, que reorganizou a estrutura e o corpo docente da antiga Universidade do Distrito Federal. Foi extinta em 1968 pelo regime militar. E nem dos alunos no Colégio de Aplicação (cf. Sena, 1987) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde deu aulas, sob avaliação, como parte do processo de aprovação como professor. Um dos alunos da turma CAP-66-B, fã do programa na Rádio Mundial, colocou nele o apelido de “Big Boy”, pois achou a voz parecida. Ao final das aulas de avaliação, já aprovado, Newton Alvarenga se identificou como o próprio Big Boy, encerrando a fase de identidade secreta. Big Boy também pode ser considerado o primeiro “profissional multimídia” do show business brasileiro. Programador e radialista eclético, diversificava sua atuação mantendo a ligação da paixão pela música contemporânea nos seus diversos segmentos e movimentos. A emissora foi inaugurada como Rádio Clube do Brasil em 1º de outubro de 1924, sendo uma das primeiras no Brasil e a segunda no Rio de Janeiro.

   

 Elba Pinheiro Dias nasceu em Campos, em 1889. Formou-se em Engenheiro Geógrafo em 1916 pela Escola Politécnica de Salvador, sendo então contratado pela Repartição Geral dos Telégrafos para supervisionar a instalação de linhas telegráficas nas regiões Norte e Nordeste. Transferido para o Rio de Janeiro, foi Diretor do Serviço Telegráfico Oficial e do Plano Postal Telegráfico, repartições à qual estavam subordinadas as transmissões de Radiofonia. Graças a sua posição funcional, conseguiu que o Ministro da Viação, Francisco Sá, fizesse a cessão dos equipamentos Western Electric da Estação da Praia Vermelha para uma nova emissora de radiodifusão a ser fundada com o nome de “Rádio Club do Brasil”. Com a experiência adquirida na montagem da Rádio Sociedade, lançou então uma campanha para angariar associados, única maneira de manter uma emissora em funcionamento. A nova emissora, com o prefixo SPE, inicia as suas atividades em  caráter experimental em 1923, transmitindo sua programação através do equipamento instalado na Praia Vermelha. Ela foi fundada por Elba Pinheiro Dias, então funcionário dos Telégrafos (ECT), que havia recebido autorização do governo para adaptar uma estação telegráfica de 500 watts, instalada em frente ao Largo da Carioca. Operava sob as mesmas condições das emissoras da época, ou seja, funcionavam como associações ou clubes, sobrevivendo da contribuição financeira dos ouvintes, que também participavam emprestando discos. Em 1937 foi renomeada como Rádio Cajuti, que é “tijuca” com sílabas ao contrário, pois fora adquirida pelo Tijuca Tênis Clube, que instalou seus estúdios em sua sede. O clube vendeu a rádio para os Diários Associados em 1948, que cinco anos depois alterou seu nome para Rádio Mundial.  Foi comprada pelas Organizações Victor Costa, em 1954. 

Em 1959, foi arrendada para o radialista Alziro Zarur, fundador da Legião da Boa Vontade. Em 1965, foi vendida ao Sistema Globo de Rádio, junto com o restante das Organizações Victor Costa. A partir desse ano passou a ter uma programação essencialmente musical, tendo como um dos seus programadores musicais e apresentadores o radialista e disc jockey Big Boy, falecido em 1977. Nesta fase a emissora competia com a Rádio Tamoio, dos Diários Associados, que também apresentava uma programação musical dedicada ao público jovem. Na década de 1970 a emissora investiu na black music e no rock. A partir da década de 1980, devido ao aumento da audiência das emissoras FM, a rádio decaiu aos poucos. Entre 1993 e 1996, a emissora retransmitiu integralmente a programação da CBN Rio de Janeiro, invertendo suas frequências nesse ano, com a Mundial passando para os 1180 kHz e retomando sua programação independente com samba e pagode, além de transmissões das corridas do Jockey Club do Brasil. Em 2002 a frequência foi arrendada à ONG Viva Rio, criando a Viva Rio AM. Somente as corridas do Jockey Club eram transmitidas por razões contratuais. Em 2005, o contrato com a Viva Rio se encerrou e a Mundial voltou com uma programação musical. Em 2007 transmitiu o Pan Americano do Rio de Janeiro, em simultâneo com o Sistema Globo de Rádio. Em 2008, o Sistema Globo de Rádio encerrou o contrato que tinha com o Jockey Club e começou o processo de venda da rádio. No dia 27 de maio de 2008 a emissora ganhou mais conteúdo jornalístico, com notas intercaladas nas execuções musicais. 

As equipes de jornalismo da Rádio Globo Rio de Janeiro (AM 1220) e da CBN Rio de Janeiro (AM 860) eram usadas para contribuir com essas intervenções na programação. No dia 30 de janeiro de 2009, a emissora encerrou seus programas, passando a ter apenas execuções musicais. Em fevereiro do mesmo ano, foi comprada pela Igreja Mundial do Poder de Deus, passando a retransmitir, inicialmente, a Rádio Nova Mundial. Na Rádio Mundial mantinha dois programas diários, o Big Boy Show e o Ritmos de Boite, e um semanal especializado em Beatles, o extraordinário Cavern Club. Na Rádio Excelsior de São Paulo apresentava outro programa diário. Atuava como programador, colunista em diversos jornais e revistas, produtor de discos e DJ dos Bailes da Pesada, onde mantinha um contato direto com o público que gostava especialmente de soul e funk, principalmente na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na televisão inovou ao apresentar em sua participação diária no Jornal Hoje da TV Globo, pela primeira vez, film clips com músicas de sucesso do momento. Em seu programa Papo Pop, na TV Record de São Paulo, lançou grupos brasileiros de rock. Foi também o responsável pela implantação do projeto Eldo Pop, no início das transmissões em FM no Brasil, especializado em rock progressivo e visando um público consumidor de música de vanguarda. Chegou a participar como ele mesmo da novela cômica Linguinha, ao lado do humorista Chico Anysio, na TV Globo, em 1970. Durante sua curta vida profissional, Big Boy ampliou sua coleção de discos.

Em diversas viagens a outros países apurou seu acervo, buscando raridades como “discos piratas” de tiragens limitadíssimas. Ao morrer havia juntado cerca de vinte mil títulos, entre LPs e compactos, na maioria importados, que abrangem diversos gêneros musicais como rock, jazz, soul music, rock progressivo, música francesa, trilhas sonoras de filmes, orquestrais, etc. Como um todo, a discoteca Big Boy constitui-se num acervo cultural importante, pois retrata vários períodos do cenário discográfico mundial. Foi o primeiro DJ a executar, num programa de rádio, a música Let It Be, dos Beatles, em 1970, após uma permanência na cidade de Londres. Conseguiu, por intermédio de um amigo, adentrar num dos estúdios de gravação da Apple, onde ensaiavam, e com um minigravador escondido sob a roupa, registrou o pré-lançamento. A Apple construiu dois estúdios de rádio no prédio, e ambos podem ser adaptados para podcasts, entrevistas ou transmissões ao vivo. Outro destaque é a sala usada para mixagens em Áudio Espacial. Ela conta com um sistema 9.2.4 da PMC e foi projetada exclusivamente para produção em Dolby Atmos. Ao ser descoberta a trama, conseguiu evadir-se do local com a fita gravada e a exibiu num de seus programas na Rádio Mundial do Rio de Janeiro. Em 7 de março de 1977, Big Boy teve uma crise de asma em um hotel em São Paulo, seguida de um infarto, e acabou falecendo. Ele foi sepultado no Rio de Janeiro, no Cemitério de São João Batista.  A Igreja Mundial do Poder de Deus é uma denominação cristã evangélica neopentecostal internacional, com fundada na cidade de Sorocaba, em 3 de março de 1998, por Valdemiro Santiago.

A sede da Igreja Mundial do Poder de Deus encontra-se na Cidade mundial, no bairro do Brás, em São Paulo, alternando as principais reuniões com a Cidade Mundial dos Sonhos de Deus no bairro de Santo Amaro também em São Paulo, possuindo templos espalhados hoje em 24 países. Como característica distintiva de outras denominações, a igreja mundial tem ênfase principalmente em cura e milagres, sendo apresentados diversos testemunhos durante os cultos e na programação da Rede Mundial e da IMPD TV. O primeiro templo da Igreja Mundial do Poder de Deus iniciou-se em Sorocaba, tendo como fundador o pastor Valdemiro Santiago de Oliveira, sua esposa bispa Franciléia e um pequeno grupo de membros. Valdemiro Santiago fundou a Igreja Mundial em 3 de março de 1998 após se desligar do quadro de pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual fora bispo por 18 anos, por conta de desentendimentos com Edir Macedo. Inicialmente não houve muita divulgação do trabalho. Panfletos e fitas cassetes de testemunhos eram utilizados no trabalho evangelístico. Valdemiro Santiago nunca se formou em nenhum curso de teologia, nem de oratória. Aproxima-se do povo com um discurso ora popular, ora austero com constantes referências ao seu passado rural. Suas concentrações seguem um formato pré-estabelecido caracterizado pela leitura de trechos da Bíblia previamente selecionados com destaque para a apresentação de supostos milagres durante o transcurso de toda a pregação. 

Em 2010, a Igreja Mundial elegeu dois deputados federais, José Olímpio (PP-SP) e Francisco Floriano (PR-RJ), além de um estadual, Rodrigo Moraes (PSC-SP). Em 2014, José Olímpio foi reeleito com mais de 154 mil votos, e Francisco Floriano foi reeleito com mais de 47 mil votos. Elegeu Milton Rangel (PSD-RJ) para deputado estadual a partir de 2015 com 28 mil votos, o deputado estadual Missionário Volnei (PR-RS) com 33.255 votos e o deputado estadual missionário Márcio Santiago (PR-MG). Valdemiro Santiago publicou livros e gravou mídias pela sua editora e gravadora WS Music. A IMPD conta com a revista Avivamento Urgente. Depois de se converter entre 2003 e 2004, o repórter Herbeth de Souza migrou para Igreja Mundial se tornou um porta voz ativo da igreja, trabalhou no extinto Aqui Agora, no programa Cidade Alerta e depois no Ratinho. Em 2001, para a TV Gazeta apresentou um quadro chamado “Impacto”, dentro do programa Mulheres. De 2010 a 2012, operou uma mini rede de rádios, denominada “Sê Tu uma Bênção”, que operava em Jundiaí em 98,1 FM. Esta rede foi desfeita e em 2013 chegou a anunciar o retorno que não ocorreu. Atualmente na 91.7, a Rádio Nova Mundial apresenta uma programação 24 horas. É proprietária da Rádio Mundial do Rio de Janeiro. A IMPD fica conhecida no Brasil a partir de 2008, quando o Grupo Bandeirantes aluga 22 horas da Rede 21, fato que gerou polêmica, pois nunca houve a concessão de um grupo de comunicação a uma igreja só para fins religiosos. Possuía duas horas diárias na RedeTV e quatro horas na Bandeirantes. Em 2009, alugou algumas horas da igreja à RedeTV!, que chegou até vencer a Rede Bandeirantes na Grande São Paulo.

Em novembro de 2013 comprou horários na Rede TV! Em 2017, se torna sócia do canal 21 TV Mercosul de Curitiba, ocupando o espaço que antes era da Record News. No mesmo ano, o canal 21 TV Mercosul passa a se chamar Rede Mundial Curitiba. A Associação Mundial de Assistência Social (AMAS) é uma entidade filantrópica ligada à IMPD, destinada à assistência social, que conta com equipe de voluntários. Em 2006 o pastor Agenor Duque e sua esposa, a Bispa Ingrid Duque, fundam a Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus. Em abril de 2009 o Bispo Roberto Damásio, na época o braço direito do pastor, desliga-se e inaugura sua própria instituição, a Igreja da Fé Renovada em Cristo, em São Paulo. Em 2010 o pastor Givanildo de Souza saiu da igreja após desentendimentos com as lideranças devido a não concordar com práticas considerados por ele como simonia, fundando a sua própria, a Igreja Missionária do Amor, em Araçatuba, São Paulo. Em 2011 o Bispo José Silva deixa a Igreja Mundial para fundar a Igreja Evangélica Celeiro de Deus em Curitiba, PR. Em novembro de 2022 foi a vez do ex-número 2 da Mundial, o bispo Luciano Neves, sair da denominação para fundar a Igreja Unida Deus Proverá. Em pouco menos de um ano de fundação da igreja, Neves arrendou duas horas diárias da Rede Bandeirantes. O pastor Givanildo de Souza, discípulo de Valdemiro desde 1998, deixou a igreja em agosto de 2010 com denúncias de simonia.

        

 Denunciou que os bens sagrados eram barganhados e teria sido humilhado por não praticar campanha da “água benta” que custaria 100 reais; então, segundo ele, ao enviar a renda menor para igreja sede, era acusado de roubo. Givanildo era responsável pela direção e arrecadação de 14 igrejas da Mundial. Saiu da denominação em setembro de 2010 e fundou sua própria igreja, a Igreja Missionária do Amor, em Araçatuba, SP. Desde outubro de 2013, a IMPD atravessa grave crise financeira devendo entre R$ 13 milhões e R$ 21 milhões para o Grupo Bandeirantes, perdendo a locação de 22 horas diárias da Rede 21, e de quatro horas diárias nas madrugadas da Band. O espaço seria ocupado pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. A Igreja Mundial se desfez de quatro horas de horário na madrugada da BAND, perdeu os horários no Canal 21, deixou a programação da Rede TV, entregou os horários da CNT, saiu de diferentes retransmissoras de diversos Estados, suspendeu os projetos de programação na Argentina, México e Colômbia. Com diversas filiais, a igreja acumula cobranças judiciais derivadas de dívidas não pagas. Em dezembro de 2024, a Justiça de São Paulo autorizou o arrombamento de um imóvel locado pela IMPD, localizado na Mooca, devido a uma dívida de R$ 75 mil em aluguel. A igreja não desocupou o apartamento após a ordem de despejo, levando a uma ação judicial movida pela Terrantez Imobiliária. O imóvel era utilizado por pastores da instituição. Após disputas com a Igreja Universal do Reino de Deus, sofreu denúncias de que teria uma fazenda comprada por 29 milhões de reais. A Fazenda Santo Antonio do Itiquira, localizada em Santo Antônio de Leverger, MT, com 10.174 hectares de terras e milhares de cabeças de gado, está em nome da empresa W. S. Music, do pastor e sua esposa.

Desde janeiro de 2013 a Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Fazenda, da Polícia Civil, apura um suposto crime de lavagem de dinheiro, em processo que corre em sigilo. Até os dias atuais não foi comprovado que a fazenda pertence ao pastor Valdemiro. Dias após a reportagem da fazenda, um ex-pastor da Igreja Universal declarou a coluna de um site “O crescimento da Igreja Mundial estremeceu as bases da Universal”, afirma Didini, fundador do ministério Caminhar, ex-apresentador do “25ª Hora”, da Record. – “O fato é que a Mundial tem as mesmas características de evangelho de massa, proclama-o na linguagem do povo e tem presença maciça nos meios de comunicação de massa", afirma o pastor Didini. “É tudo o que o bispo Macedo não quer”. Se referindo ao fato da Igreja Universal usar a TV Record para expor a possível Fazenda, atacando assim a Igreja Mundial e seu ex e bem sucedido pastor Valdemiro Santiago. A assessoria da Igreja Universal não respondeu ao pedido para se manifestar sobre as declarações de seu ex-pastor, afirma o site Universo On Line. Em 2018, fiscais do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro apreenderam milhares de panfletos dos candidatos a deputado estadual e federal Milton Ramos (PSDB) e Francisco Floriano (DEM) em templos da Igreja na cidade de Macaé. Os próprios fiéis denunciaram a prática, já que é proibido candidatos usarem de instituições religiosas para fazer campanha em obediência ao Estado laico. Em fevereiro de 2025, um ex-grevista da igreja ganhou um processo contra a instituição, com indenização de R$ 15 mil, por danos extrapatrimoniais. A decisão foi tomada após o pastor Valdemiro Santiago de Oliveira chamar os grevistas de “imundos” e “endemoniados”. Valdemiro Santiago também conhecido como Apóstolo Valdemiro, é um autodeclarado apóstolo, televangelista, empresário, líder religioso, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus, escritor e cantor brasileiro. A instituição também estava inadimplente quanto ao pagamento dos salários dos funcionários, o que levou à greve.

Bibliografia Geral Consultada.

BRECHT, Bertold, “Teoria de la Radio (1927-1932)”. In: BASSETS, Lluis (Ed.), De las Ondas Rojas a las Radios Libres. Textos para la Historia de la Radio. Barcelona: Gustavo Gili, 1981; SENA, Guiomar Osório, O Colégio de Aplicação no Contexto das Universidades Brasileiras. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Administração. Centro de Ciências Humanas e da Educação. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 1987; GUGLIELMI, Nilda, El Eco de la Rosa y Borges. Buenos Aires: Editorial Universitária, 1988; JUNG, Carl, Sincronicidade. 5ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1991; BACAL, Tatiana, Músicas, Máquinas e Humanos: Os DJs no Cenário da Música Eletrônica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 2003; BARBOSA, Fernando Antônio Mansur, Rádio, Um Veículo Subutilizado? Conversando sobre Aspectos da Comunicação Radiofônica do Rio de Janeiro. Tese de Doutorado. Escola de Comunicação da Social. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004; DE MARCHI, Leonardo Gabriel, Transformações Estruturais da Indústria Fonográfica no Brasil 1999-2009. Desestruturação do Mercado de Discos, Novas Mediações do Comércio de Fonogramas Digitais e Consequências para a Diversidade Cultural no Mercado da Música. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Escola de Comunicação. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011; MERHEB, Rodrigo, O Som da Revolução: Uma História Cultural do Rock 1965-1969. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012; SBERNI JUNIOR, Cleber, Nos Rastros das Pedras: Rock, MPB e Contracultura no Periódico Rolling Stone – 1972. Tese de Doutorado em História. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Franca: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2015; XAVIER, Marcelo Esperança, Imprensa e Música no Brasil:  Cultura Pop na coluna Top Jovem, de Big Boy (1970-1974). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2021; FONTES, Helen Pinto de Britto, Rádio Endereçado a Jovens: Reestruturação do Mercado Carioca e Contradições na Disputa pela Audiência do Futuro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Centro de Educação e Humanidades. Faculdade de Comunicação Social. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2022; Artigo: “A cultura da música eletrônica encontra a sua voz entre uma nova geração nesta capital”. Disponível em:  https://pt.euronews.com/cultura/2026/03/18/; entre outros.