terça-feira, 6 de outubro de 2026

A Grande Viagem da Sua Vida – Guerra Fria & Romantismo Fantástico.

                                         “É tolo quem se quer opor ao amor, como se pudesse lutar com ele”. Sófocles

           

        Sófocles foi um dramaturgo grego, um dos mais importantes escritores de tragédia ao lado de Ésquilo e Eurípedes, dentre aqueles cujo trabalho sobreviveu. Suas peças retratam personagens nobres e da realeza. Filho de um rico mercador, nasceu em Colono, perto de Atenas, na época do governo de Péricles, o apogeu da cultura helênica. Suas primeiras peças foram escritas depois que as de Ésquilo e antes que as de Eurípedes. De acordo com a Suda, uma enciclopédia do século X, Sófocles escreveu 123 peças durante sua vida, mas apenas sete sobreviveram em uma forma completa. Por quase 50 anos, Sófocles foi o mais celebrado dos dramaturgos nos concursos dramáticos da cidade-estado de Atenas, que aconteciam durante as festas religiosas Leneana e Dionísia. Sófocles competiu em cerca de 30 concursos, venceu 24 e, talvez, nunca tenha ficado abaixo do segundo lugar; em comparação, Ésquilo venceu 14 concursos e foi derrotado por Sófocles várias vezes, enquanto Eurípides ganhou apenas quatro competições. Também trabalhou como ator. Foi ordenado sacerdote de Asclépio, o deus da medicina, e eleito duas vezes para a Junta de Generais, que administrava os negócios civis e militares de Atenas. Dirigiu o departamento do Tesouro, que controlava os fundos da Confederação de Delos. Em suas tragédias, mostra dois tipos de sofrimento: o que decorre do excesso de paixão e o que é consequência de um acontecimento acidental (destino). Reduziu a importância do coro no teatro grego, relegando-o ao papel de observador do drama que se desenrola. 

        Também aperfeiçoou a cenografia e o número de elementos do coro de 12 para 15, porém esse número pode variar de acordo com o poeta que define a tragédia. Sua concepção teatral foi inovadora e elevou o número de atores de dois para três. Sófocles, filho de Sófilos, era um rico membro do demo (pequena comunidade) rural da Colônia Hipius na Ática, que mais tarde se tornaria um cenário para suas peças, e provavelmente tenha nascido lá. Seu nascimento ocorreu alguns anos antes da Batalha de Maratona em 490: o ano exato não é claro, embora 497 ou 496 seja talvez o mais provável. O primeiro triunfo artístico de Sófocles foi em 468, quando obteve o primeiro prêmio na competição de teatro Dionísia, vencendo o mestre reinante do drama ateniense, Ésquilo. De acordo com Plutarco, a vitória veio em circunstâncias incomuns. Em vez de seguir o costume de escolher os juízes por sorteio, o arconte pediu a Címon e aos outros estrategos presentes para decidir o vencedor do concurso. Plutarco afirma ainda que Ésquilo partiu para a Sicília logo após sua derrota para Sófocles. Embora Plutarco diga que esta foi a primeira produção de Sófocles, considera-se que isso teria sido um embelezamento da verdade e que a sua primeira produção foi em 470. Triptólemo foi uma peça que Sófocles apresentou no festival. Sófocles se tornou um homem de grande importância nos salões públicos de Atenas, bem como nos teatros. Foi escolhido para liderar o “canto de triunfo”, um canto coral a um deus, aos 16 anos, comemorando a vitória marítima decisiva dos gregos sobre os persas na Batalha de Salamina. 

           Esta pequena informação existente sobre a vida cívica de Sófocles mostra que ele era um homem bem quisto que participava de atividades na sociedade e mostrava habilidade artística notável. Ele também foi eleito como um dos dez estrategos, altos funcionários executivos que comandavam as forças armadas, como um colega iniciante de Péricles. Sófocles nasceu extremamente rico, pois seu pai era um fabricante de armas e recebeu excelente educação ao longo de sua vida inteira. No início de sua carreira, o político Címon pode ter sido um de seus patronos, embora se isso ocorreu, não houve nenhuma má vontade por parte de Péricles, rival de Címon, quando este foi condenado ao ostracismo em 46. Em 443 ou 442 serviu como um dos hellenotamiai (tesoureiros) de Atenas, ajudando a controlar as finanças da cidade, durante a ascensão política de Péricles. De acordo com o Vita Sophoclis, serviu como um general na campanha ateniense contra Samos, que se havia se revoltado em 441. Supostamente foi eleito para o cargo como o resultado de sua produção de Antígona. Em 420, acolheu e criou um altar para o ícone de Esculápio em sua casa, quando a divindade foi introduzida em Atenas. Por isso foi-lhe dado o epíteto póstumo Dexion (receptor) pelos atenienses. Ele também foi eleito, em 413, para ser um dos comissários com a função de elaborar uma reação à destruição catastrófica da força expedicionária de Atenas na Sicília durante a Guerra do Peloponeso.                       

Sófocles morreu na idade de noventa ou noventa e um anos, no inverno de 406 ou 405, tendo visto durante sua vida tanto o triunfo grego nas Guerras Persas como o terrível derramamento de sangue da Guerra do Peloponeso. Como aconteceu com muitos homens famosos na Antiguidade Clássica, a morte de Sófocles inspirou uma série de histórias apócrifas sobre sua causa. Talvez a mais famosa é a sugestão de que ele morreu devido ao esforço excessivo “ao tentar recitar uma longa passagem de sua Antígona sem pausa para respirar”. Outra versão sugere que ele se engasgou ao comer uvas no festival Antestreia em Atenas. Uma terceira história afirma que ele morreu de felicidade depois de obter a vitória final na Cidade Dionísia. Poucos meses depois, o poeta cômico escreveu este elogio em sua peça intitulada As Musas: “Bendito seja Sófocles, que teve uma vida longa, era um homem feliz e talentoso e o escritor de muitas boas tragédias, e terminou sua vida assim, sem sofrer qualquer desgraça”. Isto é um tanto irônico, pois de acordo com alguns relatos seus próprios filhos tentaram declará-lo incapaz perto do fim da sua vida. Diz-se que teria refutado seu cargo na corte através da leitura de sua ainda não produzida Édipo em Colono. Tanto Iofon, um de seus filhos e um neto também chamado de Sófocles, seguiram seus passos e tornaram-se dramaturgos.

Fantasia romântica ou romantasia é um subgênero da ficção de fantasia, que descreve uma história de fantasia, utilizando muitos dos elementos e convenções do gênero romance. Uma das principais características do “romantismo fantástico” envolve o escopo nas relações, sociais, políticas e românticas. Fantasia romântica foi publicado por ambos autores de fantasia e romance. Alguns editores distinguem entre a “romântica fantasia”, onde o romance é o mais importante e o “fantasia de romance”, onde os elementos de fantasia são mais importantes. Outros dizem que “a fronteira entre a fantasia, romance e fantasia romântica, essencialmente, deixou de existir, ou se ele ainda está lá, indo e voltando constantemente”. - Atitudes em relação a magia na Fantasia romântica são, geralmente, muito diferentes do que a expressa na mais alta fantasia ou espada e feitiçaria. Em vez de representar um alienígena e corrompendo a força que destrói seus praticantes, ou um complexo secreto do corpo de folclore, que isola mágicos da sociedade normal através de longos estudos e reclusão, a magia normalmente assume a forma de habilidades inatas que são naturais e simples de usar, às vezes, descrito como talentos psíquicos como empatia ou precognição, às vezes, orientados a afinidade ou o controle de um determinado elemento natural, tal como os quatro gregos clássico elementos, fogo, ar, terra e água. A magia é assim apresentada na narrativa como uma capacidade inata e a parte positiva da natureza de alguém, e por extensão de uma parte natural do mundo; o medo de uma dessas habilidades é muitas vezes descrito como uma reação nascida da ignorância simbólica, a má orientação, ou mal.           

Os protagonistas da fantasia romântica muitas vezes começam a sua jornada escapando de um abusivo ou opressivo ambiente, mas seu objetivo não é tornar-se livre de todos os laços sociais. Em vez disso, a maioria dos personagens está procurando uma nova comunidade ou grupo social onde eles realmente pertençam. Recebe apoio de um grupo social que é considerado, de longe, superior a ser independente e solitário. A constatação de um novo grupo socialmente relevante onde o personagem se encaixa e é feliz, é considerado muito melhor do que tentar forçar o seu grupo anterior alterações significativas de opinião e prática, que são discutidas para ser mais útil e eficaz se feitas de maneira gradual, e desenvolver a partir de dentro ao invés de imposto. Enquanto permanece, muitas vezes, sendo necessário a derrota dos inimigos pelo confronto direto, a solução diplomática do conflito é considerada superior à força bruta; muitas histórias contêm, além do principal e, geralmente, mais explicitamente mal antagonista, um subsidiário ou secundário antagonista com motivações mais simpáticas, e que, eventualmente, é convertido para os aliados através da negociação e diplomacia. O filme A Grande Viagem da Sua Vida (A Big Bold Beautiful Journey) tem como representação social um filme norte-americano de “fantasia romântica” de 2025 dirigido por Kogonada e escrito por Seth Reiss. Kogonada é um cineasta e roteirista sul-coreano.

 Reconhecido principalmente por seu filme de estreia, Columbus, lançado em 2017, trabalhou por muito tempo na produção de videoensaios sobre diretores de cinema notáveis, como Wes Anderson, Yasujirō Ozu, Stanley Kubrick, Federico Fellini, Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock, Robert Bresson e Jean-Luc Godard. O filme é estrelado por Margot Robbie, Colin Farrell, Kevin Kline e Phoebe Waller-Bridge. O filme estreou nas Filipinas em 17 de setembro de 2025 e foi lançado nos Estados Unidos pela Sony Pictures Releasing em 19 de setembro de 2025. O filme recebeu críticas mistas e foi considerado um fracasso econômico de bilheteria, arrecadando US$ 20,2 milhões contra um orçamento líquido de US$ 45 milhões. Em dezembro de 2020, A Big Bold Beautiful Journey, escrito por Seth Reiss, foi incluído na lista anual Blacklist. Na prática é uma lista, ata ou registro de alguma entidade ou pessoa física, que por alguma razão nega direitos, serviços, participação ou mobilidade a alguém ou a alguma entidade, em determinada situação, período de tempo ou lugar. O termo é famoso historicamente e se tornou de uso comum, por denominar a relação de pessoas que foram perseguidas ou proibidas de exerceram sua profissão sob a acusação verbal de serem comunistas, pelo hipócrita Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do Senado dos Estados Unidos, no período histórico de “caça às bruxas” do macarthismo, durante os anos 1950, nos Estados Unidos da América, nos anos iniciais e duração social da Guerra Fria.

O termo “comunismo” etimologicamente falando deriva do communisme francês, que se desenvolveu a partir da combinação do latim communis e do sufixo isme. Semanticamente, communis e traduzido “de ou para a comunidade”, enquanto isme que indica a abstração em um estado, condição, ação ou doutrina. Sociologicamente Guerra Fria foi um período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus respectivos aliados, o Bloco Oriental e o Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Considera-se geralmente que o período abrange a Doutrina Truman de 1947 até a dissolução da União Soviética em 1991. O termo “fria” é usado porque “não houve combates em larga escala diretamente entre as duas superpotências, mas cada uma delas apoiou grandes conflitos regionais conhecidos como guerras por procuração”. O conflito foi baseado em torno da luta ideológica e geopolítica pela influência global das duas potências, após sua aliança temporária e vitória contra a Alemanha obscurantista em 1945. A doutrina da Destruição Mutuamente Assegurada  desencorajou um ataque nuclear de ambos os lados. Além do desenvolvimento do arsenal nuclear e da mobilização militar convencional, a luta pelo domínio foi expressa por meios indiretos, precisamente como guerra psicológica, campanhas de propaganda, espionagem, embargos econômicos de longo alcance, rivalidade em eventos esportivos e competições tecnológicas como a Corrida Espacial.  

Além disso, o Muro de Berlim construído em 1961 pelo governo da Alemanha Oriental para evitar que seus habitantes fugissem e deixassem um vazio economicamente desastroso de trabalhadores. A barreira se tornou um símbolo da Guerra Fria e sua queda, em 1989, marcou o fim iminente do conflito e o início do processo de descomunização e lustração. O Ocidente era liderado pelos Estados Unidos e por outras nações do Primeiro Mundo do Bloco Ocidental que eram geralmente democráticas liberais, mas ligadas a uma rede de Estados autoritários, a maioria das quais eram suas ex-colônias. O Oriente era liderado pela União Soviética e seu Partido Comunista, que tiveram influência em todo o Segundo Mundo. O governo dos Estados Unidos apoiou regimes e golpes de direita em todo o mundo, enquanto o governo soviético financiou partidos e revoluções comunistas. Como quase todos os Estados coloniais alcançaram a Independência no período de 1945 a 1960, eles tornaram-se campos de batalha do Terceiro Mundo na Guerra Fria. A primeira fase da Guerra Fria começou imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Os Estados Unidos criaram a aliança militar da OTAN em 1949, apreendendo um ataque soviético e denominaram sua política global contra a contenção da influência soviética. A União Soviética formou o Pacto de Varsóvia em 1955 em resposta à OTAN.

            As principais crises dessa fase incluíram o bloqueio de Berlim de 1948 a 1949, a Guerra Civil Chinesa de 1927 a 1950, a Guerra da Coreia de 1950 a 1953, a Crise de Suez de 1956, a crise de Berlim em 1961 e a crise dos mísseis de Cuba em 1962. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e os Estados Unidos da América competiram por influência na América Latina, no Oriente Médio e nos Estados descolonizadores da África e da Ásia. As repúblicas Armênia, Azerbaijão, Bielo-Rússia, Cazaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão, formaram a União da Repúblicas Socialistas Soviéticas entre 30 de dezembro de 1922 a 26 de dezembro de 1991. Após a crise dos mísseis de Cuba, começou uma nova fase que viu a divisão sino-soviética entre a China e a União Soviética complicar as relações na esfera comunista, enquanto a aliada dos EUA, a França, começou a exigir maior autonomia de ação. A URSS invadiu a Tchecoslováquia para suprimir a Primavera de Praga de 1968, enquanto os EUA experimentaram turbulências internas do movimento pelos direitos civis e oposição à Guerra do Vietnã. Nos anos 1960-1970, um movimento internacional de paz se enraizou entre os cidadãos do mundo globalizado.   

Ocorreram movimentos de protestos contra o teste de armas nucleares e pelo desarmamento nuclear, com grandes protestos antiguerra. Na década de 1970, os dois lados começaram a fazer concessões de paz e segurança, dando início a um período de detenção que viu as conversações estratégicas sobre limitação de armas e os EUA abrindo relações com a República Popular da China como um contrapeso estratégico para a URSS. A détente entrou em colapso no final da década, com o início da Guerra Soviético-Afegã, em 1979. O início dos anos 1980 foi outro período de tensão elevada. Os Estados Unidos aumentaram as pressões diplomáticas, militares e econômicas sobre a União Soviética, numa época em que ela já estava sofrendo de estagnação econômica. Em meados da década de 1980, o novo líder soviético Mikhail Gorbachev introduziu as reformas liberalizantes da glasnost (abertura, c. 1985) e perestroika (reorganização, 1987) e encerrou o envolvimento soviético no Afeganistão. As pressões pela soberania nacional se intensificaram na Europa Oriental e Gorbachev se recusou a apoiar militarmente seus governos. O resultado em 1989 foi uma onda de revoluções que com exceção da Romênia derrubaram pacificamente todos os governos comunistas da Europa Central e Oriental.  O próprio Partido Comunista da União Soviética perdeu o controle na União Soviética e foi banido após uma tentativa de golpe abortada em agosto de 1991. Isso, por sua vez, levou à dissolução formal da URSS em dezembro de 1991, à declaração de independência de suas repúblicas constituintes e ao colapso dos governos comunistas em grande parte da África e Ásia. 

Os Estados Unidos foram deixados como a única superpotência do mundo. A Guerra Fria e seus eventos deixaram um legado significativo. É frequentemente mencionada na cultura popular, especialmente na mídia que apresenta temas de espionagem (principalmente a franquia internacional de livros e filmes de James Bond) e a ameaça da guerra nuclear. Apesar disso, um estado renovado de tensão entre o Estado sucessor da União Soviética, a Rússia, e os Estados Unidos nos anos 2010 incluindo seus aliados ocidentais, bem como uma tensão crescente entre uma China cada vez mais poderosa e os Estados Unidos e seus aliados ocidentais passou a ser referido como a Segunda Guerra Fria. A mais famosa dessas perseguições teve como alvo a comunidade de negócios da indústria do cinema e do entretenimento. Todos aqueles que se negassem a depor diante do Comitê ou que fossem considerados suspeitos de afinidade ideológica com o comunismo ou mesmo que confessassem qualquer ligação com o Partido eram proibidos de trabalhar para os grandes estúdios cinematográficos.  Os primeiros a serem incluídos na chamada “Lista Negra de Hollywood” foram os chamados “Os Dez de Hollywood” - a maioria deles escritores ou roteiristas. Com base na Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, os integrantes do grupo recusaram-se a depor perante o Comitê, sobre a acusação de terem ou terem tido alguma ligação com o Partido Comunista Americano. O mais famoso deles foi o escritor Dalton Trumbo, que, por doze anos, foi obrigado a escrever sob pseudônimos, utilizando-se de “testas de ferro” para poder trabalhar. Trumbo, respeitado intelectual e escritor, foi o autor do roteiro do filme Spartacus, de Stanley Kubrick, de 1960, escrito sob pseudônimo. 

Martin Ritt, anos depois, numa comédia de humor negro, Testa de Ferro Por Acaso, também conta a história de Trumbo e seus companheiros durante esse período sombrio da história americana. Entre outros nomes famosos que integraram a lista negra do macarthismo - um período no qual se destaca a figura do senador Joseph McCarthy (1908-1957), no estabelecimento de um clima de comunicação inquisitorial, marcado por suspeitas e temor generalizados na sociedade americana - estavam a escritora Lillian Hellman (1905-1984) e o ator John Garfield (1913-1952). Nessa época, muitas pessoas acabavam sendo indiciadas pelo Comitê e entravam nesta lista negra por intermédio de denúncias dos próprios colegas do meio artístico. O diretor Elia Kazan (1909-2003), por exemplo, é acusado de ter sido um dos principais delatores de companheiros. Muitos anos depois, Kazan protagonizou um dos momentos mais polêmicos da  história das cerimônias da Academia, quando, ao ser homenageado com um Oscar especial por sua carreira, foi recebido pelo auditório com um misto de aplausos, protestos e vaias. Em 2020, a Associação dos Magistrados de Pernambuco publicou uma cartilha chamada “Racismo nas Palavras” na qual sugere a substituição da expressão “lista negra” por “lista de restrições”, tendo havido manifestações de desconforto por parte de alguns magistrados com a iniciativa. Em fevereiro de 2024, foi anunciado que Kogonada dirigiria o filme com Reiss na produção. Margot Robbie e Colin Farrell em negociações para estrelar. Naquele mês, o Deadline noticiou que a Sony Pictures havia fechado um acordo na faixa de US$ 50 milhões no European Film Market para o filme, descrito como “um dos roteiros mais quentes do mercado”. 

Em abril de 2024, Lily Rabe, Jodie Turner-Smith, Phoebe Waller-Bridge e a estreante Lucy Thomas se juntaram ao elenco. As filmagens começaram na Califórnia. Em maio, Billy Magnussen, Sarah Gadon, Hamish Linklater, Brandon Perea, Yuvi Hecht, Calahan Skogman, Chloe East, Jacqueline Novak e Jennifer Grant completaram o elenco. Kogonada citou O Castelo Animado (2004) e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) como influências no filme. A Big Bold Beautiful Journey foi lançada nas Filipinas em 17 de setembro de 2025 e na Albânia em 18 de setembro de 2025. Nos Estados Unidos, o filme foi lançado em 19 de setembro de 2025, após ter sido previamente agendado para lançamento em 9 de maio de 2025. Desde 9 de outubro de 2025, A Big Bold Beautiful Journey foi lançada juntamente com Him, e a previsão era de que arrecadasse entre US$ 8 e US$ 10 milhões em 3.300 cinemas no fim de semana de estreia. O filme arrecadou US$ 1,4 milhão no primeiro dia e terminou com uma estreia de apenas US$ 3,5 milhões, ficando em sexto lugar. Escólio: Quando seu carro é apreendido, David visita uma peculiar “Locadora de Carros” onde lhe oferecem o único modelo disponível, um Saturn SL de 1994 com um GPS especial. A caminho do casamento de um amigo, David conhece Sarah, que não demonstra interesse em casamento ou relacionamentos, enquanto David, que emigrou da Irlanda na adolescência, revela que seu sonho de infância era se casar e ter filhos. David recusa o convite de Sarah para dançar, e ela passa a noite com outro homem. No caminho para casa, o GPS leva David a um Burger King em uma área de descanso, onde ele encontra Sarah. Apesar da paquera entre eles, ela continua pessimista em relação a relacionamentos. 

Prontos para seguirem caminhos separados, eles descobrem que ambos alugaram carros da mesma locadora inusitada. Quando o carro de Sarah se recusa a ligar, o Global Positioning System de David o instrui a buscá-la, e partem juntos para a viagem. O GPS o guia até sua primeira parada, uma porta misteriosa na floresta. Ao atravessá-la, eles se encontram em um farol no Canadá que David havia visitado. Eles retornam ao carro e chegam a outra porta estranha que Sarah reconhece como a entrada dos fundos de seu museu de arte favorito. Lá dentro, eles exploram as pinturas que ela costumava ver com sua mãe, que faleceu quando ela estava na faculdade. De volta ao carro, Sarah se lembra de uma viagem agradável com seu pai, de quem estava afastada. O próximo destino deles é uma estufa onde encontram as portas da antiga escola de David. Lá dentro, ele revive o dia em que estrelou a peça escolar. “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”, com Sarah e seus pais na plateia. Ele confessa seus sentimentos por uma colega de elenco e revive a rejeição dela, mas acaba atrapalhando o espetáculo ao confrontá-la no palco com duras verdades sobre o futuro. Sarah se junta ao número musical, e todo o auditório canta junto com os dois enquanto eles seguem viagem. Dirigindo noite adentro, Sarah implora a David que não a persiga. O carro para repentinamente e eles se encontram em um teatro experimental com as portas de um hospital à mostra. Sarah confronta a culpa por ter dormido com seu professor da faculdade em vez de estar com a mãe na noite em que ela morreu sozinha no hospital.  

Enquanto Sarah lamenta ao lado do leito da mãe, David consola o próprio pai, que está ansioso com o nascimento prematuro do filho. Saindo com presentes da loja de lembrancinhas, Sarah troca de roupa no banco de trás enquanto David revela que sua mãe abandonou a família por um breve período quando ele era criança. Eles concordam que a vida pode parecer curta demais. Num mirante na montanha, de onde avistam o planeta inteiro, David e Sarah imaginam ter ido juntos ao casamento e se beijam. Chegam a um outdoor à beira da estrada com uma porta que dá para um café. A ex-noiva de David o confronta, exigindo uma explicação para o fim do noivado. Sarah se depara com um ex-namorado que abandonou repentinamente. Cada um é forçado a admitir suas falhas amorosas. Voltam para a estrada, mas acabam atropelando um cervo, saindo ilesos, embora o carro fique danificado. Sarah sugere que terminem a viagem antes que se machuquem. David diz que a ama, mas ela insiste que estão apenas vivendo uma fantasia. Eles passam uma noite solitária na pousada Timely Inn, ali perto, enquanto o carro é consertado. David deixa Sarah perto do carro dela e eles se separam, mas ambos são levados às casas de sua infância. Como seu próprio pai, David conforta seu eu de quinze anos, enquanto Sarah revive uma noite feliz com sua mãe, quando tinha doze anos. David devolve o carro, divertindo o caixa e o mecânico ao sugerir que eles unem clientes com suas almas gêmeas. Mudando de ideia, Sarah chega ao endereço de David e declara que o ama. Eles se beijam e saem juntos pela porta da frente.                

Hollywood é a mais antiga promissora “indústria cultural” onde os estúdios de cinema e empresas de produção cinematográfica surgiram. Mas também é o berço cinematográfico de vários gêneros de cinema, entre os quais a comédia, drama, ação, musical, romance, horror e ficção científica, constituindo um exemplo para outras indústrias cinematográficas nacionais. O cinema dos Estados Unidos, muitas vezes chamado metonimicamente de Hollywood, teve um grande efeito de poder na indústria cinematográfica em geral desde o início do século XX. Seu estilo dominante é o cinema clássico de Hollywood, que se desenvolveu de 1917 a 1960 e caracteriza a maioria dos filmes realizados. Enquanto os franceses Auguste Lumière (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948) são geralmente creditados com o nascimento do cinema moderno, o cinema americano logo veio a ser uma força estratégica dominante na indústria in statu nascendi. Produz o maior número de filmes de qualquer cinema nacional de língua única, com mais de 700 filmes em inglês lançados em média todos os anos. Enquanto os cinemas do Reino Unido (299), Canadá (206), Austrália e Nova Zelândia também produzem filmes na mesma língua, eles “não são considerados parte do sistema de Hollywood que também é considerado um cinema transnacional”. Hollywood clássica produziu versões em vários idiomas de títulos em espanhol ou francês. Produção contemporânea de offshores, ou seja, sociedades ou contas bancárias, abertas em países ou territórios no exterior, que oferecem benefícios fiscais e políticas de privacidade e confidencialidade aos investidores de Hollywood para o Canadá, Austrália, Nova Zelândia e assim por diante.

            Os seres humanos desejam aquilo que amam, e odeiam coisas pelas quais têm aversão. Com o desejo significamos a ausência do objeto; com amor, sua presença. Com aversão a ausência e, com ódio, a presença do objeto. Primeiro filósofo moderno a articular uma teoria detalhada do contrato social, com sua obra Leviatã, escrita em 1651, Thomas Hobbes foi um filósofo inglês do século XVII, reconhecido como um dos fundadores da filosofia política e ciência política moderna. Desde Hobbes o poder de um homem, universalmente considerado, consiste nos meios de trabalho de que dispõe para alcançar, algum bem evidente tanto original (natural) como instrumental (político). O maior de todos os poderes humanos é o poder integrado de vários homens unidos com o consentimento geral de uma pessoa natural ou civil: é o poder do Estado ou aquele representativo de um número estipulado de pessoas, cujas ações estão sujeitas à vontade de determinadas pessoas em particular, como é o poder de uma facção ou de facções coligadas no mundo contemporâneo. Ter servos é poder, como também ter amigos, pois isso significa união de forças. Igualmente, a riqueza, unida à liberalidade, é uma relação estabelecida de poder, pois congrega, une amigos & servos. Mas, sem a liberalidade, a riqueza não é protetora; pelo contrário, expõe o homem à inveja e à rapina.         

Reputação de poder é representação de poder (cf. Crignon, 2007), porque, por meio delas, obtemos a adesão e conquistamos o afeto político dos homens que precisam ser protegidos. Êxito, analogamente também é poder, pois a reputação da sabedoria ou da “boa fortuna” faz com que os outros homens temam, idolatrem ou confiem. O valor ou conceito de um homem é, como para todas as outras mercadorias, seu preço; isto é, depende de quanto seria dado pelo uso de seu poder. Assim, não é absoluto, mas apenas uma consequência da necessidade e do julgamento alheio, através do macróbio senhor dos códigos, escritor, filósofo e filólogo romano, autor das Saturnais e do Comentário ao Sonho de Cipião. Segundo uma das versões, nasceu por volta de 370 na Numídia, na África. Exerceu influência na Idade Média pela transmissão e elaboração de uma parte da tradição filosófica grega pagã no período pré-nissênico da escola neoplatônica do Ocidente latino. A estima pública de um homem, é o valor que lhe é conferido pelo Estado que denominamos ordinariamente dignidade. Esse valor de Estado é expresso pelo cargo público para o qual é designado, na magistratura como em funções públicas, ou quando esse valor é expresso por títulos e honrarias que lhe são concedidos. A fonte da honra é o Estado, e depende da vontade do soberano. A honra não sofre alterações se uma ação é justa ou injusta. 

Ela consiste na opinião de poder. O medo pode levar a cometer um crime expressando o que C. B. Macpherson (1911-1987) denominou de “individualismo possessivo” o que demonstra que há uma tradição europeia na qual a propriedade é constitutiva da individualidade, da liberdade e da igualdade. - “Ser indivíduo é ser proprietário – em uma primeira instância, proprietário de sua própria pessoa e de suas capacidades, mas também daquilo que adquirimos através do uso de nossas capacidades”. Dessa forma, ser livre é ser proprietário, e a liberdade é ser independente em relação aos outros indivíduos. A igualdade é também conceituada em relação à propriedade, uma vez que ser proprietário de sua própria pessoa e de suas capacidades constitui um status que todo o indivíduo pretende alcançar. A interpretação de Macpherson apresenta-nos uma coerência temática, dinâmica, atual e irreprochável, pois ele trata de forma perene os conceitos de propriedade, liberdade e democracia, onde o homem é artífice de sua própria condição, e, além disso, pode conhecer tanto a presente condição miserável quanto os meios para alcançar a paz e a prosperidade. Conceitos que continuam inspirando a reflexão crítica no âmbito da política sobre as condições e possibilidades de realização do poder interpretando o que está por trás das relações sociais e de poder entre os homens. A constituição de uma arquetipologia política de soberania é a resposta dada por Hobbes à distinção entre o poder espiritual e o poder temporal ou civil.

 Não importa se o soberano do governo secular é um líder temporal ou espiritual, se é autoridade soberana representativa de um Estado civil ou cristão, pois neste mundo não há outro reino senão o secular. Tal asserção equivale a dizer que Hobbes quer explicar o Direito e o Estado sem transcender o plano do simplesmente humano. A referida afirmação ressalta o caráter secularista da teoria do Estado de Hobbes, já que fundar o Direito e o Estado em um plano estritamente secular ou simplesmente humano significa romper com a ideia de fundar o poder de dirigir a ação de homens em um plano teológico-metafísico. Ao contrário de um aliciante plano na esfera social de vida voltado para transcendência comandado por autoridades espirituais, desvela-se a possibilidade de planejar a propriedade da vida, isto é, a “salvação”, em uma dimensão política do agir humano que somente pode residir em uma esfera de ação política da constituição do Estado, produto da vontade humana. Não se deve perder de vista que Hobbes somente consegue emancipar um domínio temporal a partir do momento em que reconhece a distinção entre poder espiritual e temporal. E quem reconhecia a Bíblia em igualdade de interpretação como ele entenderia sua metáfora: ele referia-se, ao afirmar isso, à longa servidão e à posterior saída dos filhos de Israel do Egito sob a liderança de Moisés, modelo de um novo libertador, Lutero, complementado agora por ele, Thomas Hobbes, em relação à autonomia do poder civil diante da questão religiosa. A sua afirmação final do Leviatã será: - “A verdade que não se opõe aos interesses ou aos prazeres de ninguém é bem recebida por todos”. Com isso, alerta seu leitor para o fato de que mesmo as Escrituras, ao testemunharem sobre Deus, são obras dos homens.       

Seu principal objetivo é demonstrar que se deve ter cautela em relação ao magistério eclesiástico, que define tanto o que é canônico quanto as regras de interpretação do texto, o que é heresia, o que é verdade e o que é um poder civil legítimo, interferindo, em nome da religião revelada, em todas as esferas da vida civil. A mensagem do Iluminismo era: Religião é superstição. Por isso, a religião, que já fora um componente central na civilização europeia, devia perder a centralidade. A razão devia tomar seu lugar. Se seguíssemos a razão e a ciência, haveria progresso. O progresso era uma ideia nova. Os antigos não acreditavam em progresso, mas na existência de um ciclo de crescimento e deterioração: as instituições e a sociedade seriam puras e vigorosas na juventude, depois se instalaria um processo de corrupção; a história se desenvolveria em ciclos. A Igreja não acreditava em progresso, ao menos não no progresso obtido por esforço humano independente de Deus, pois entendia que os humanos eram basicamente maus. Para ela, humanos guiados unicamente pela razão nunca seriam capazes de produzir uma sociedade perfeita. As ideias do Iluminismo tiveram seu primeiro experimento na clássica Revolução Francesa, no fim do século XVIII.  Frustrando as grandes esperanças individuais e coletivas quanto ao que a razão seria capaz de fazer, quando reis e Igreja foram banidos do poder a Revolução Francesa não inaugurou uma nova era de esclarecimento; na verdade gerou derramamento de sangue, tirania, ditadura. 

Mas antes disso acontecer, o último elemento da antiga mistura foi libertado de suas amarras pelo movimento do Romantismo do fim do século XVIII e início do século XIX. Foi um movimento que abrangeu toda a Europa, porém, mais expressivo na Alemanha, onde essas ideias foram trabalhadas com mais completude. Os adeptos deste movimento romântico não queriam que a razão controlasse nossas emoções e paixões. Achavam que um grande escritor ou artistas não era o que retomava com elegância um antigo tema dos clássicos, mas alguém capaz de desnudar a própria alma, seu furor, suas angústias, seu desespero. A arte devia ser emocional e expressiva. Ideias alemãs se desenvolveram em oposição às ideias do Iluminismo francês. O grande dilema na modernidade é que a teoria não previa a intensa luta supranacional, que ultrapassa os limites imaginários e físicos. Quando limitou a convivência em uma fronteira, não pode conceber a ideia de que governos de outros países que tentassem controlar outrem, só causariam o que nós podermos perceber: o caos e banhos de sangue moderno e contemporâneo. Segundo o historiador Tom Kemp, a industrialização inglesa possuía características concretas e únicas, tendo como resultado forças históricas profundamente enraizadas e da oportunidade e circunstâncias sob as que se iniciaram e foram seguidas. Uma vez iniciada, veio a luz todo um arsenal de inovações técnicas e de organização. Estas puderam ser transplantadas a outros climas, algumas vezes pelos próprios empresários ingleses e outras por adoção estrangeira. Trabalho e capital, o mesmo que empresa, puderam cruzar as fronteiras. Pelo que respeita ao continente, à medida que cada país começou a sentir o impacto da revolução, começou a tomar forma o que poderia chamar-se sua “fisionomia econômica nacional”. Sob a consideração deste aspecto, fundamentalmente deve dar-se uma importância socialmente considerável as estruturas e tradições nacionais. 

O nacionalismo, especialmente no período que seguiu a Revolução Francesa, se constituiu em uma das grandes forças da história europeia. Se formaram novos estados nacionais e os antigos estados dinásticos adquiriram uma nova natureza. A expansão de uma classe média comerciante e industrial aconteceu no seio destes estados. E mais, a consciência de identidade nacional a tout court encontrou nela sua mais forte expressão. O nacionalismo, o mesmo que o liberalismo, viu-se assim alimentado pelo crescimento econômico. O Estado, já era nacional ou dinástico, tinha voz no parlamento e voto popular, na economia através de suas aduanas, suas unidades monetárias e o corpo legal, civil e comercial, que regulava os tratados comerciais e distinguia entre indígenas e estrangeiros. Ao largo do século XIX e à medida que a vida econômica se fazia cada vez mais complexa e o nacionalismo se convertia em uma força política de crescente importância, tomou parte mais ativa e dominante na esfera produtiva econômica.  Em certos aspectos seria muito mais lógico contemplar a industrialização europeia desde a base de uma perspectiva continental, prescindindo das fronteiras nacionais. O que ressaltaria então seria a importância dos fatores físicos, especialmente a localização e a dotação de recursos, a hora de determinar a extensão e o índice de industrialização.

As áreas mais avançadas da Europa do século XIX tiveram por núcleo as minas de carvão do Norte da França, Bélgica e a região ocidental da Alemanha; desde a influência da industrialização se foi estendendo ao largo a formação de oportunas vias de comunicação, incluindo nelas o mar, a outras áreas destes mesmos países, criando instalações distantes em zonas que ligam regiões do Sul e do Leste, contando-se centros administrativos, portos marítimos e fluviais, além de depósitos minerais entre pontos chaves. Do ponto de vista da divisão do trabalho social entre regiões industriais e predominantemente agrárias se realizou sobre as divisões fronteiriças e, uma vez estabelecida, conservou considerável influência até o presente. Contudo, esta breve ilustração da industrialização europeia pode ser completada com outra generalização, pois para ele, “tendemos a prestar especial atenção as diferenças existentes ente a Inglaterra e o Continente durante os séculos XIX e XX; não obstante, desde uma perspectiva mundial, o verdadeiramente importante é a diferenciação existente entre a Europa e o resto do mundo”.  Se excluímos os “povos transplantados” europeus e a América, os pesquisadores só tem podido traçar leves sinais precursores – e ainda assim, praticamente só em algumas partes da Índia e do Japão, de um processo de crescimento autônomo que pode haver tido como consequência a industrialização em outros continentes.

O único argumento que nos sugere este enfoque é que o curso da história do que resultou ser a “preparação” para a industrialização ocupa um espaço muito prolongado e vem ligado a natureza global da civilização europeia tal como surgiu da Idade Média. O fato de que a irrupção tivera lugar na Europa em primeiro lugar, é mais importante que o ponto geográfico europeu donde aconteceu em concreto. Em realidade, graças a sua posição geográfica e insular e a possessão do tipo adequado de recursos disponíveis, o primeiro ato se representou no cenário político britânico. Não obstante, em alguns lugares e espaços, como o Norte da Itália e Flandres, homens destas mesmas características haviam montado importantes industrias na Idade Média sem que deste seguisse ali um processo geral de transformação econômica. Enfim, o estabelecimento do controle capitalista sobre a indústria foi só um começo e podia não levar a parte alguma, a menos de ver-se acompanhado por um câmbio em conjunto da economia, isto é, no setor agrário, onde estava empregada a grande massa da população trabalhadora. O que distinguiu o desenvolvimento britânico, e o inglês particularmente, da Europa continental, foi o fato social de que estas relações agrárias feudais começaram a rachar-se antes e, portanto, com maior rapidez e exaustividade. Embora os seres humanos não sejam civilizados “por natureza”, na esteira do pensar de Elias (2011), possuem por natureza uma disposição que torna possível, sob determinadas condições sociais, uma civilização que representa uma autorregulação individual de impulsos do comportamento momentâneo, condicionado por afetos e pulsões, ou o desvio desses impulsos de seus fins primários para alguns fins secundários, sendo eventualmente também sua reconfiguração sublimada.

É decerto desnecessário, mas talvez útil, dizer que Sigmund Freud e Anna Freud são os pais do conceito de “impulsos pulsionais humanos moldáveis, capazes de sublimação”. O fato social de que processos de civilização não seriam possíveis sem um potencial do biológico que os antecedesse é facilmente esquecido. Dado que os seres humanos, diferentemente de muitos outros seres vivos sociais, não possuem uma regulação nativa dos afetos e pulsões. Mas eles não podem prescindir da sua mobilização de disposição natural rumo à autorregularão mediante o aprendizado (pessoal/singular) dos controles dos afetos e pulsões, no sentido de um modelo de civilização específico da sociedade, a fim de que possam conviver consigo mesmos e com os outros seres humanos. O processo universal de civilização individual pertence tanto às condições da individualização do ser humano singular, como às condições da vida social em comum dos seres humanos. No uso cotidiano da linguagem, o conceito de civilização é, muitas vezes, despido de seu caráter enquanto “civilizer” originalmente processual como derivação da cultura francesa. 

O conceito alemão Kultur alude a fatos sociais intelectuais, artísticos e religiosos e apresenta a tendência de traçar uma nítida linha divisória entre fatos deste tipo, por um lado, e fatos políticos, econômicos e sociais, por outro. O conceito francês e inglês comparado de civilização pode ser referir a realizações, mas também a atitudes ou “comportamentos” de pessoas, pouco importando se realizaram ou não alguma coisa. No conceito alemão de Kultur, em contraste, a referência a “comportamento”, o valor que a pessoa tem em virtude de sua mera existência e conduta, sem absolutamente qualquer realização, é provavelmente aspecto muito secundário. O sentido especificamente alemão do conceito Kultur encontra sua expressão clara em seu derivado, o adjetivo Kuluturell, que descreve o caráter e o valor de determinados produtos humanos, e não apenas o valor intrínseco da pessoa. Esta palavra, o conceito inerente a kulturell, porém, não pode ser traduzido exatamente para o francês e o inglês. A palavra Kultiviert (cultivado) aproxima-se muito do conceito ocidental de civilização. Até certo ponto, representa a forma mais alta de ser civilizado: até mesmo pessoas e famílias que nada realizaram de kulturell podem ser kultiviert. Tal como a palavra “civilizado”, comparativamente kultiviert refere-se à forma da conduta de referência social da pessoa. Descreve a qualidade real das pessoas, suas habitações, suas maneiras, sua fala, suas roupas, ao contrário de kulturell, que “não alude diretamente às próprias pessoas”, mas exclusivamente a realizações humanas peculiares.

Como um apanhado algo sumarizado do que se apurou na investigação empírico-teórica das transformações civilizatória acerca de seu direcionamento, pode-se dizer que dentre os principais critérios para um processo de civilização estão as transformações do habitus social dos seres humanos na direção de um modelo de autocontrole mais bem proporcionado, universal, estável. Mas o que é decisivo é que estes conceitos portam o selo não de seitas ou famílias, mas de povos inteiros, ou talvez apenas de certas classes. Mas, em muitos aspectos, o que se aplica a palavras específicas de grupos menores estende-se também a eles: são usados basicamente por e para povos que compartilham uma tradição e situação particulares, polindo-os na fala e na questão própria da escrita. É neste sentido comparativo que o conceito de “civilização” minimiza as diferenças nacionais entre os povos. Manifesta a autoconfiança de povos cujas fronteiras nacionais e identidade nacional forma plenamente estabelecidas, desde séculos, e que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que há muito se expandiram fora de suas fronteiras reais e colonizaram terras além delas. O conceito alemão Kultur dá ênfase especial a diferenças nacionais e à identidade particular de formação de grupos. Em virtude disto, adquiriu em campos a pesquisa etnológica e antropológica uma significação muito além da área linguística alemã e da situação em que se originou o conceito.                

Enquanto o conceito político de civilização inclui a “função de dar expressão a uma tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores”, o conceito de Kultur reflete a “consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar e constituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político como no espiritual”. A orientação do conceito alemão de cultura, para Norbert Elias (2011), com sua tendência à demarcação e ênfase dentre as diferenças, e no seu detalhamento, entre grupos sociais, corresponde a este processo histórico.  A história coletiva neles se cristalizou e ressoa. O indivíduo encontra essa cristalização já em suas possibilidades de uso. Não sabe bem por que este significado teórico e desta delimitação estão implicadas nas palavras, ou por que exatamente, esta nuance e aquela possibilidade delas podem ser derivadas. Usam-nas porque lhes parecem uma coisa natural. Porque desde a infância aprendem a ver a janela do mundo através da lente conceitual. A sobrevivência do sistema de crenças no Novo Mundo é notável, embora as tradições tenham se modificado com o tempo.

Uma das maiores diferenças entre o vodu da África Ocidental e o haitiano é que os africanos “transplantados” ao Haiti, na tipologia clássica da Antropologia das Civilizações de Darcy Ribeiro, correspondentes às nações criadas pela migração europeia para novos espaços enquanto “lugares praticados” mundiais, procuram reconstituir formas de vida idênticas às de sua origem. Entretanto, historicamente, a categoria social chamada “Novo Mundo” é um termo criado pelos europeus para designar o continente americano. A expressão teve seu uso difundido no período do descobrimento do continente, a América, pois até então era desconhecido pelos europeus, vindo a ser algo novo em relação aos continentes já reconhecidos. O conceito de figuração, é revelador, neste caso, pois distingue-se de muitos conceitos abstratos da sociologia de Elias por incluir expressamente os seres humanos em sua formação. No caso da figuração fílmica de Liam Neeson há incorporação e brilhantismo de interpretação à atividade de trabalho social como ator. Contrasta decididamente com um tipo ideal sociológico dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como as de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações magníficas uns em relação com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma base geracional a outra, por meio do ingresso do singular no mundo simbólico específico, de uma figuração já existente dos seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais ligadas se somam, no caso dos seres vivos humanos, a expressão de uma quinta, a de representação dos símbolos socialmente aprendidos.

 Sem sua apropriação, por exemplo, o aprendizado de uma determinada língua, especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo, e nem de se comunicar de forma clara uns com os outros. Um ser humano adulto, que não teve livre acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo social, permanece de fora de todas as figurações humanas e, não é propriamente dito um ser humano. O crescimento de um jovem em figurações humanas, como processo e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação com os seres humanos, é condição indispensável do desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização de um ser humano são, portanto, nomes diferentes para o mesmo processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Em seu ersatz o convívio em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na desordem social, uma forma absolutamente determinada. É o que exprime o conceito concreto de figuração. Uma geração os transmite a outra sem estar consciente do processo todo, e os conceitos sobrevivem enquanto esta cristalização de experiências passadas e situações retiver um valor existencial, uma função na existência concreta da sociedade. Isto é, enquanto suas gerações sucessivas puderem identificar suas próprias experiências nuas e cruas no significado das palavras. Em outras ocasiões, eles apenas adormecem, ou o fazem em certos aspectos vívidos, e adquirem um novo valor existencial com uma nova situação. Mas são relembrados porque algo estado presente encontra expressão na cristalização do passado corporificada nas palavras.            

As novas relações econômicas e sociais e a necessidade de desenvolvimento motivaram entes subnacionais a se relacionar e cooperar com o mundo civilizado exterior. As novas tecnologias da informação, os avanços nas telecomunicações, a diminuição nos custos de transporte de cargas e pessoas também contribuíram para essa mudança, afinal tornaram o plano internacional mais acessível. Ipso facto, a dimensão metodológica do conceito de processo social refere-se às transformações amplas, contínuas, de longa duração – ou seja, em geral não aquém de três gerações - de figurações formadas por seres humanos, ou de seus aspectos, em uma de duas direções opostas. Uma delas tem, geralmente, o caráter de uma ascensão, a outra o caráter decorrente de um certo declínio. Em ambos os casos, os critérios são puramente objetivos. Eles independem do fato de o respectivo observador os considerar bons ou mesmo ruins. Exemplos disso são, comparativamente, a diferenciação crescente e decrescente de funções sociais. O aumento ou a diminuição do “capital social”, ou, do patrimônio social do saber, do nível de controle humano sobre a natureza não-humana ou da compaixão por outros homens, pertençam eles ao grupo estabelecido que for. Um deles pode tornar-se dominante, ou caber ao outro manter o equilíbrio.

Assim um processo dominante, direcionado a uma maior integração, pode, sucessivamente, andar de par em par com uma desintegração parcial. Inversamente, um processo dominante de desintegração social, como exemplo, o processo de feudalização pode conduzir sob certas condições a uma reintegração sob novas bases, a princípio parcial e para seguir dominante um novo processo de formação do Estado. A espada socialmente foi associada com a lenda Arturiana e incluem duas espadas. Ciclo Arturiano é um ciclo literário, a parte reconhecida da Matter of Britain (“Matéria da Bretanha”), quer dizer a lenda referente ao rei Artur e os cavaleiros (cf. Assumpção, 2014). Seu sucesso comunicativo deveu-se em grande parte ao fato de que conta duas histórias entrelaçadas que intrigaram autores posteriores. Uma diz respeito à cidade de Camelot, geralmente imaginada como uma utopia condenada de virtude cavalheiresca, desfeita pelas falhas fatais de Artur e Sir Lancelot. A outra diz respeito às buscas dos vários cavaleiros obter o Santo Graal; alguns obtiveram êxito (Galahad, Percival), e outros falharam (Lancelot). O conto medieval de Artur e seus cavaleiros está recheado de temas cristãos; estes temas envolvem a destruição dos planos humanos de virtude pelas falhas morais de seus personagens, e a busca de uma importante relíquia cristã. Finalmente, o relacionamento entre os personagens convidava ao tratamento na tradição de beleza do amor cortês, tais como Lancelot e Guinevere, ou Tristão e Isolda. Em anos mais recentes, a tendência é vinculada aos contos do rei Artur e seus cavaleiros com a mitologia céltica, geralmente em versões reconstruídas altamente romantizadas do início do século XX.

Bibliografia Geral Consultada.

CASTORIADIS, Cornelius, L`Institution Imaginaire de la Société. Paris: Éditions Du Seuil, 1975; Idem, “From Marx to Aristotle, from Aristotle to Us”. In: Social Research 45 (1978); Idem, L`Enigma del Soggetto: L`Immaginario e Le Istituzione. Itália: Edizionne Dédalo, 1998; AMORIM, Mirtes Miriam, Labirintos da Autonomia: A Utopia e o Imaginário em Castoriadis. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Fortaleza: Editora da Universidade Federal do Ceará, 1995; ARRIGHI, Giovanni, O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens de Nosso Tempo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996; GOTTRAUX, Philippe, Socialisme ou Barbarie, un Engagement Politique et Intellectuels dans la France de l`Après Guerre. Suisse: Editions Payot Lausanne, 1997; CARVALHO, Flávio José de, A Constituição da Subjetividade em Cornelius Castoriadis: A Relação Psique e Sociedade. Dissertação de Mestrado. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2002; CRIGNON, Philippe, Hobbes et la Represéntation: Une Ontologie Politique. Paris: Thèse. Université de Paris 8. Saint-Denis, 2007; LANSDORF, Thomas, Communism. New York: Cavendish Square Publishing, 2007; DUTRA, Daniel Iturvides, Literatura de Ficção Científica no Cinema: A Transposição para a Mídia Fílmica de A Máquina do Tempo de H. G. Wells. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Instituto de Estudos de Letras. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009; ELIAS, Norbert, O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2011; FERREIRA, Evandson Paiva, Filosofia, Democracia e Autonomia: O Pensamento de Cornelius Castoriadis e a Formação Humana. Tese de Doutorado em Ciências Humanas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2012; SANTOS, Erickson Henrique Martins, O Narrador e a Figuração de Personagens em Les Misérables, de Victor Hugo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2021; REINA, Alessandro, O Cinema Novo como Fator de Educação por Intermédio da Prática Cineclubista. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Setor de Educação. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2022; COSTA, João Reynaldo de Paiva, Texto, Visualidade e Movimento: Do Filme-texto ao Datilograma. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2025; ROXBOROUGH, Scott, “Como Festival de Cannes de 2026 Reflete o Mundo em Conflito”. In: https://www.dw.com/22/05/2026; entre outros.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Bravura Indômita – Natureza do Velho Oeste & Reabilitação dos Afetos.

                                        “Não se sabe o que se passa no coração de um homem”. Charles Portis (1969)                                 

             

        Bravura Indômita (True Grit) tem como representação social um filme norte-americano de faroeste, escrito e dirigido pelos irmãos Coen. É a segunda adaptação do romance de Charles Portis de 1968, que havia sido adaptado para o cinema em 1969, estrelado por John Wayne. Neste caso é estrelado por Hailee Steinfeld como Mattie Ross e Jeff Bridges, como Delegado Reuben J. “Rooster” Cogburn, juntamente com Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper. As filmagens começaram em março de 2010, e o filme foi lançado oficialmente em 22 de dezembro de 2010 nos Estados Unidos da América, após as exibições prévias no início do mês. O filme abriu o 61ª Festival Internacional de Berlim em 10 de fevereiro de 2011. O filme estreou em 11 de fevereiro no Brasil em 17 de fevereiro de 2011 em Portugal. Foi indicado a dez Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Jeff Bridges), Melhor Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. O filme é narrado pela já adulta Mattie Ross (Elizabeth Marvel), que explica que seu pai foi assassinado por um de seus ajudantes contratados, Tom Chaney (Josh Brolin), quando tinha 14 anos; Chaney fugiu com os cavalos de seu pai e duas peças de ouro da Califórnia. Enquanto recolhe o corpo de seu pai, Mattie (interpretada por Hailee Steinfeld) indaga sobre a contratação de um oficial para rastrear Chaney. Lhe são dados três nomes, mas opta por contratar Rooster Cogburn (Jeff Bridges), porque é descrito como o mais impiedoso. Ele aceita o pagamento, mas não gosta quando a menina diz que quer acompanhá-lo.

        Tese: De maneira geral, a vida é condizente com as palavras que David Hume (1711-1776) escreveu sobre si: “um homem de disposição branda, de têmpera equilibrada, de humor franco, sociável e alegre, capaz de manter laços de afeição e pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões”. Numa carta em que fala sobre o pensamento de Hume, Adam Smith conclui sua exposição com as seguintes palavras: “No todo, sempre o considerei, tanto durante a sua vida como desde a sua morte, como alguém que se aproximava tanto da ideia de um homem sábio e virtuoso permite a frágil natureza humana”. Quando as ideias representam adequadamente seus objetos, todas as relações, contradições e concordâncias entre elas são aplicáveis a estes. Tal é como podemos observar em geral, o fundamento de todo o conhecimento humano. O termo unidade é apenas uma denominação fictícia, que a mente pode aplicar a qualquer quantidade de objetos por ela reunidos. Sendo um verdadeiro número, tal unidade não pode existir sozinha, já que um número não o pode. A unidade que pode existir sozinha, e cuja existência é necessária à existência de todos os números, é uma unidade de outro tipo; ela deve ser indivisível e incapaz de ser resolvida em unidade menor. Todo esse raciocínio também se aplica ao tempo, juntamente com um argumento adicional, que valeria a pena considerar. 

       Uma propriedade inseparável do tempo, e que constitui, e que constitui de certa maneira sua essência, é que suas partes são todas sucessivas, nenhuma delas podendo coexistir com outra, ainda que sejam contíguas. A mesma razão pela qual os anos de 1737 não podem coincidir com o presente ano de 1738 faz que todo momento deva ser distinto, deva ser posterior ou anterior a ele. Portanto, é certo que o tempo, tal como existe, deve ser composto de momentos indivisíveis. Pois se, no caso do tempo, nunca pudéssemos chegar ao fim da divisão. E, se cada momento, ao suceder o outro, não fosse perfeitamente singular e indivisível, haveria um número infinito de momentos ou partes coexistentes do tempo. A divisibilidade infinita do espaço implica a do tempo, como fica evidente pela natureza do movimento. Mas podemos aqui observar, afirma Hume (2009), que nada pode ser mais absurdo que esse costume de atribuir uma dificuldade aquilo que pretende ser uma demonstração. As demonstrações não são como as probabilidades, em que podem ocorrer dificuldades, e um argumento pode contrabalançar outro, diminuindo sua autoridade. Uma demonstração ou é irresistível, ou não tem força alguma. Portanto, falar em objeções e respostas, em contraposição de argumentos numa questão como essa, é o mesmo que confessar que a razão humana é um simples jogo de palavras, ou que a pessoa que assim se exprime não está à altura desses assuntos.  Há demonstrações difíceis de compreender, por causa do caráter abstrato de seu tema; nenhuma demonstração, porém, uma vez compreendida, pode conter dificuldades que enfraqueçam sua autoridade.

É uma máxima estabelecida da metafísica que tudo que a mente concebe claramente inclui a ideia da existência possível, ou, em outras palavras, que nada que imaginamos é absolutamente impossível. Não poderia haver descoberta mais feliz para a solução de todas as controvérsias em torno das ideias que as impressões sempre precedem as ideias, e que toda ideia contida na imaginação apareceu primeiro em uma impressão correspondente. As percepções deste último tipo são todas tão claras e evidentes que não admitem discussão, ao passo que muitas de nossas ideias são tão obscuras que é quase impossível, mesmo para a mente que as forma, dizer qual é exatamente sua natureza e composição. Façamos uma aplicação desse princípio, a fim de descobrir algo mais sobre a natureza de nossas ideias de espaço e tempo. Como toda ideia é derivada de uma impressão que lhe é exatamente similar, as impressões a essa ideia de extensão devem ser ou bem sensações derivadas da visão, ou bem impressões internas oriundas dessas sensações”. Do ponto de vista analítico o liberalismo de David Hume e o dos Fisiocratas, encontra-se a distância que separa a invenção da conformidade. Hume de um lado, os Fisiocratas de outro. Fisiocratas que viam a produção de bens e serviços como consumo do excedente agrícola, uma vez que a principal fonte de energia era o músculo humano ou animal e toda a energia era derivada a partir do excedente de produção agrícola.

A unidade própria do nascente liberalismo econômico se tornaria problemática. Apesar da relativa uniformidade das reivindicações, parece que o fosso se escava entre, de um lado, uma metafísica da ordem que impõe respeito a uma norma natural, limitadora por essência e instruída pela providência regida, em última instância, pela cumplicidade secreta entre finalismo e mecanicismo, e, de outro, a marcha hesitante de uma espontaneidade cega em seu princípio, e anônima em seus efeitos sociais, que exige que a norma, em sua variedade e contingência, seja construída, inventada, em função das circunstâncias. Assim comparativamente a política econômica nacional é constituída sobre o modelo da gestão privada, sendo que a representação da economia do universo é, do mesmo modo, construída a partir do modelo tecnológico da ação humana sobre a apropriação da natureza. O arquiteto divino aparece também como uma derivação conceitual do artesão. Em todo lugar em que surge uma vontade capaz de dar forma ao projeto que ela mesma concebeu, o arranjo mecânico dos elementos, sustentado pelo decreto inicial, compõe uma totalidade externa cuja finalidade escapa por natureza aos componentes para se transportar inteira para a mente do organizador.

Analogamente podemos inferir que o lucro do negociante sugere o lucro da nação. A balança é sua imagem obrigatória. O produto artesanal sugere o produto divino: o relógio, divisor do tempo, a máquina se torna sua representação privilegiada. Equilíbrio, ajuste e adaptação dos meios aos fins se unem no trabalho de montagem que supõe ao mesmo tempo um projeto humano, um plano, um construtor, condicionando uma escolha entre as diferentes séries de objetos manufaturados. Sem dúvida, é por ter apreendido nessas falências a lógica da argumentação, que Hume sugere nos Diálogos, a fábula de uma repartição de tarefas. Seus personagens debatem uma série de ideias e argumentos cujos proponentes acreditam que através do qual poderemos vir a conhecer a natureza de Deus. Os artesãos divinos contra os que persistem em considerar a questão da divisão do trabalho como conveniência comandada pela providência, mais do que a solução do problema vital colocado como sobrevivência para a espécie. Reconhecido pelo padrão de que não há ideias inatas na vida e que todo o conhecimento vem da experiência rigorosamente ao nexo de causalidade e necessidade, em vez de tomar a noção de causalidade, como concedido, desafia-nos a considerar o que a experiência nos permite saber sobre a relação estabelecida entre causa e efeito, pois nada é mais usual e natural, para aqueles que pretendem oferecer ao mundo novas descobertas filosóficas e científicas que insinuar elogios ao seu próprio sistema. O homem de discernimento e de saber percebe a fragilidade do fundamento, até mesmo daqueles sistemas bem aceitos e com maiores pretensões de conter raciocínios precisos e profundos.

Isto é, alguns princípios acolhidos da confiança; consequências deles deduzidas de maneira defeituosa; falta de coerência entre as partes, e de evidência no todo – tudo isso se pode encontrar nos sistemas dos mais eminentes filósofos, e parece cobrir de opróbrio a própria filosofia, pois mesmo “a plebe lá fora é capaz de julgar, pelo barulho e vozerio que ouve, que nem tudo vai bem aqui dentro”. Neste âmbito tampouco é necessário um conhecimento muito profundo para se descobrir a distância e imperfeição e que de fato, não há nada que não seja objeto de discussão e sobre o qual os estudiosos não manifestam opiniões contrárias. Se por um lado multiplicam-se as disputas, como se tudo fora incerto; e essas disputas são conduzidas da maneira mais acalorada, como se tudo fora certo. É daí que surge na opinião de Hume, o preconceito comum contra todo tipo de raciocínio metafísico. Mesmo por parte daqueles que são doutos e que costumam avaliar de maneira justa todos os outros gêneros da literatura. E realmente nada, a não ser o mais determinado ceticismo, juntamente como um elevado grau de indolência, pode justificar tal aversão à metafísica. 

Pois se a verdade está ao alcance da capacidade humana, é certo que ela deva esconder em algum lugar muito profundo e abstruso. Não por acaso, devemos reunir nossos experimentos mediante a observação cuidadosa da vida.  Tomando-os tais aspectos como aparecem no curso habitual do mundo, no comportamento dos homens em suas ocupações e prazeres. E criteriosamente reunidos e comparados, podemos estabelecer, com base neles, uma ciência, que não será inferior em certeza, mas superior em utilidade, a qualquer outra que esteja ao alcance da compreensão humana. Assim Hume sustenta que nossas ideias são imagens de nossas impressões, assim também podemos formar ideias secundárias, que são imagens das primárias. Não se trata de uma exceção à regra, mas de uma explicação. As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas como supomos que as primeiras são derivadas de impressões, continua sendo verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, de suas impressões correspondentes. Esse é o primeiro princípio que Hume estabelece na ciência da natureza humana. Pois cabe notar que a presente questão, a respeito da anterioridade de nossas impressões ou ideias, é a mesma que produziu tanto barulho sob outra formulação, quando se discutiu se haveria ideias inatas, ou se todas as ideias derivam da sensação e da reflexão. A fim de provar que as ideias de extensão e de cor não são inatas, os filósofos nada mais fazem que mostrar que elas são transmitidas por nossos sentidos. Para provar que as ideias de paixão e desejo são inatas, eles observam que experimentamos previamente em nós mesmos essas emoções. A faculdade pela qual repetimos nossas impressões da primeira maneira se chama memória, e a outra, imaginação. Mas se examinarmos cuidadosamente esses argumentos, veremos que eles nada provam, senão que as ideias são precedidas por outras percepções mais vívidas, das quais derivam e as quais elas representam.

            Melhor dizendo, que as ideias da memória são muito mais vivas e fortes que as da imaginação, e que a primeira faculdade pinta seus objetos em cores mais distintas que todas as que possam ser usadas pela última. Ao nos lembrarmos de um acontecimento passado, sua ideia invade nossa mente com força, ao passo que, na imaginação, a percepção é fraca e lânguida, e apenas com muita dificuldade pode ser conservada firme e uniforme pela mente durante todo o período considerável de tempo. Temos aqui uma diferença sensível entre as duas espécies de ideias. Mas há uma outra diferença, não menos evidente, entre esses dois tipos de ideias. Embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vívidas nem as fracas possam surgir na mente antes que impressões correspondentes tenham vindo abrir-lhes o caminho, a imaginação não se restringe à mesma ordem na forma das impressões originais, ao passo que a memória está de certa maneira amarrada quanto a esse aspecto, sem nenhum poder de variação. É evidente que a memória preserva a forma original sob a qual seus objetos se apresentaram. A principal função da memória não é preservar as ideias simples, mas sua ordem e posição. Per se se apoia em aspectos comuns da vida cotidiana, sem ser vulgares do dia a dia que podemos nos poupar o trabalho de continuar insistindo nele.                                   

           Como a imaginação pode separar todas as ideias simples, e uni-las novamente da forma que bem lhe aprouver, nada seria mais inexplicável que as operações dessa faculdade, se ela não fosse guiada por alguns princípios universais, que a tornam, em certa medida, uniforme em todos os momentos e lugares. Fossem as ideias inteiramente soltas e desconexas, apenas o acaso as ajuntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se reunissem de maneira regular em ideias complexas se não houvesse algum laço de união entre elas, alguma qualidade associativa, pela qual uma ideia naturalmente introduz outra. Esse princípio de união entre as ideias não deve ser considerado uma conexão inseparável, tampouco devemos concluir que, sem ele a mente não poderia juntar duas ideias – pois nada é mais livre que essa faculdade. Devemos vê-lo apenas como uma força suave, que comumente prevalece, e que é a causa pela qual, entre outras coisas, as línguas se correspondem de modo tão estreito umas às outras: pois a natureza de alguma forma aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideia complexa. As qualidades não dão origem a tal associação, e que levam a mente, dessa maneira, de uma ideia a outra, são três, a saber: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço, e causa e efeito. Dois objetos podem ser considerados como estando inseridos nessa relação, seja quando um deles é a causa de qualquer ação ou movimento do outro, seja quando o primeiro é a causa da existência do segundo.

          Pois como essa ação ou movimento não é senão o próprio objeto, considerado sob um certo ângulo, e como o objeto continua o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil imaginar de que forma tal influência dos objetos uns sobre os outros pode conectá-los na imaginação. Podemos prosseguir com esse raciocínio, observando que dois objetos estão conectados pela relação causa e efeito não apenas quando produz um movimento ou uma ação qualquer no outro, no outro, mas também quando tem o poder de os produzir. Notemos que essa é a fonte de todas as relações de interesse e dever através dos quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade que se ligam pelos laços de governo e subordinação. Um senhor é aquele que, por sua situação, decorrente quer da força quer de um acordo, tem o poder de dirigir, sob alguns aspectos particulares, as ações de outro homem. Um juiz é aquele que, em todos os casos litigiosos entre membros da sociedade, é capaz de decidir, com sua opinião a quem cabe a posse ou a propriedade de determinado objeto. Quando uma pessoa possui certo poder, nada mais é necessário para convertê-lo em ação que o exercício da vontade; e isso, em todos os casos, é considerável possível, e em muitos, provável – especialmente no caso da autoridade, em qua a obediência do súdito é um prazer e uma vantagem para seu superior.                     

            Está claro que, no curso de nosso pensamento social e na constante circulação de nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia a qualquer outra que seja semelhante a ela. Assim como existe o nascimento de uma semiologia e sociologia da celebridade e até mesmo mais recentemente, uma economia da celebridade e tal qualidade, por si só, constitui um vínculo afetivo e uma associação suficiente para a fantasia. É também evidente que, com os sentidos, ao passarem de um objeto a outro, precisam fazê-lo de modo regular, tomando-os sua contiguidade uns em relação aos outros, a imaginação adquire, por um longo costume, o mesmo método de pensamento, e percorre as partes do espaço e do tempo ao conceber seus objetos. Quanto à conexão realizada pela relação de causa e efeito, basta observar que nenhuma relação produz uma conexão mais forte na fantasia e faz com que uma ideia evoque mais prontamente outra ideia que a relação de causa e efeito entre seus objetos. Para compreender toda a extensão dessas relações sociais, devemos considerar que dois objetos estão conectados na imaginação. Não somente quando um deles é imediatamente semelhante ou contíguo ao outro, ou quando é a representação da causa. Mas quando se encontra inserido um terceiro objeto, que mantém com ambos alguma dessas relações pontuais necessárias. Dentre as três relações mencionadas, a de causalidade é a de maior extensão. A história das ideias nos Estados Unidos da América teve seu início somente no século XVIII. No século anterior, os primeiros colonizadores investiram nas tarefas imediatas da prática; no nível de domínio das ideias religiosas, contentavam-se com o calvinismo puritano, transplantado da velha Europa.

              Mas é neste século que surgiram as primeiras reflexões teóricas com as quais Jonathan Edwards que defende o “idealismo imaterialista”, enquanto Samuel Johnson, influenciado por George Berkeley, preocupa-se em criticar o materialismo de orientação newtoniana. Por outro lado, como veremos un passant, Benjamin Franklin (1706-1790), notável por suas contribuições científicas para a extraordinária teoria da eletricidade, acreditava nas condições e possibilidades de explicação totalmente mecânica dos fenômenos naturais. Além de Franklin, outros foram influenciados pelo raciocínio iluminista, que dominava os principais centos de irradiação do pensamento europeu. Nesse quadro de pensamento em que a consciência despertava, ganharam particular relevo as ideias políticas, vinculadas intimamente ao processo revolucionário que conduzia à Proclamação da Independência norte-americana.   Em 1783, sete anos após a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi declarada no dia 4 de julho de 1776 e colocou fim ao vínculo colonial que existia entre as Treze Colônias e a Inglaterra, a giant nação imperialista. Com essa conquista, os Estados Unidos da América transformaram-se na primeira nação do continente americano a ter sua Independência política. E o Haiti, historicamente a primeira República negra do chamado Novo Mundo (cf. Roupert, 2011). Entretanto, o único vínculo institucional que unia os treze Estados norte-americanos eram Confederation Articles, firmados em 1782.

A debilidade do Congresso norte-americano e a autonomia dos Estados eram patentes. As decisões políticas importantes requeriam o apoio de sete delegados estatais ao Congresso; as resoluções acerca da guerra e da paz, os tratados com o estrangeiro, a impressão de papel-moeda e outras questões fundamentais deviam contar como nove votos estatais afirmativos. Dessa forma, as abstenções representavam verdadeiros vetos. O Congresso não tinha ainda autoridade direta sobre os cidadãos. Mas somente através dos Estados, e, aliás, não tinha meios de impor sua vontade. Os congressistas foram incapazes de encaminhar medidas eficazes para as dificuldades econômicas (cf. Faulkner, 1956) que apareceram na Guerra de Independência. Não conseguiram impor a estabilidade, nem a uniformidade da moeda dos Estados, nem recolher os impostos necessários ao pagamento de dívidas. O Congresso foi incapaz de proteger determinadas indústrias que deviam enfrentar a competição de mercado da Inglaterra. A tentativa de alguns Estados de desenvolver uma política protecionista e instituir impostos em seus territórios delimitados levou à criação de barreiras aduaneiras que os separavam uns dos outros, acentuando as tendências à dissolução. A debilidade constitucional também se refletiu na esfera política: os governos estatais começaram a disputar entre si, e alguns deles não somente armaram milícias como também chegaram a ter seus próprios barcos de guerra. Para solucionar esses problemas, o Congresso decidiu autorizar a realização de uma Convenção de representantes inclusiva a todos os Estados que foi realizada em Filadélfia, em maios de 1787. Aprovada uma Constituição, ela deveria ser submetida à sanção dos Estados, realizada entre 1787 e 1789 depois de implantada a forma de governo que o texto constitucional propunha: George Washington (1732-1799) já havia sido feito presidente, por aclamação dos membros da Convenção, em 1789. Durante o período em que estava sendo discutida a Constituição nos Estados, foram publicados por jornais de Nova York artigos de políticos que defendiam o texto proposto: Alexander Hamilton (1757-1804), James Madison (1751-1836) e John Jay (1745-1829). Estes artigos, que seriam compilados em O Federalista, representavam o pensamento político dos líderes criadores do futuro partido político que viria a nascer com o mesmo nome.

Desde a invenção do cinema, foram filmados quase sete mil westerns. A ênfase nas vastas paisagens naturais é uma característica fundamental do faroeste. Ela deriva da natureza imutável do Velho Oeste. O faroeste é, portanto, claramente um gênero que se passa ao ar livre. Apesar de exceções como Rio Bravo (1959), os estúdios de Hollywood geralmente são inadequados para representar as vastas extensões do Oeste americano. Para alcançar um mínimo de realismo, os cineastas precisam encontrar paisagens naturais. O saguaro é o cacto que, erroneamente, se tornou o símbolo das paisagens do Oeste americano. O local mais simbólico dos filmes de faroeste é o Monument Valley. Sua fama deriva da reputação de John Ford, que filmou ali uma dúzia de obras importantes, como Rastros de Ódio (1956). Da mesma forma, graças à popularidade de Sergio Leone, a presença do Monument Valley em Era Uma Vez no Oeste (1968) parece ter consolidado o local como o emblema máximo do faroeste, criando uma ponte improvável entre os faroestes clássicos e os faroestes italianos. Quantitativamente, o local mais importante para os filmes de faroeste é sem dúvida Alabama Hills, onde centenas de produções foram filmadas. Ao contrário do Monument Valley, Alabama Hills foi principalmente o cenário de filmes B como Seven Men from Now (1956). Todos os grandes nomes deixaram sua marca, alguns com tanta frequência que agora estão inextricavelmente ligados ao lugar: Gene Autry, Roy Rogers, Hopalong Cassidy e Tom Mix. Esses dois locais principais compartilham uma característica comum: a aridez. Nesse aspecto, são unidos pelas planícies desérticas do Arizona e do Novo México, culminando no Vale da Morte.

Essas paisagens áridas simbolizam a dureza da conquista do Oeste. A infertilidade da terra é um dos elementos fundamentais do mito: a difícil relação entre a humanidade e a natureza. Por outro lado, alguns filmes de faroeste apresentam paisagens exuberantes e verdejantes. Estes foram filmados em estados mais ao Norte, como Colorado (O Sobrevivente das Montanhas Distantes, 1957), Idaho (A Grande Passagem, 1940), Oregon (Cachoeiras Serafim, 2006), Dakota do Sul (A Última Caçada, 1956) e até mesmo no Canadá (Campo Aberto, 2003). Anthony Mann (1906-1967), entre outros, é renomado por sua habilidade em utilizar paisagens naturais. Nascido Emil Anton Bundmann, foi um ator e realizador de cinema estadunidense. Começou a sua carreira como ator em Nova Iorque, na Broadway, onde se tornou também encenador. Em 1938, mudou-se para Hollywood, onde se juntou aos estúdios de David O. Selznick. Ele se destacou na poeira do Novo México (O Homem de Laramie, 1955) e do Arizona (Winchester ´73, 1950), bem como nas florestas do Colorado (A Espora Nua, 1953) e nas montanhas canadenses (Eu Sou um Aventureiro, 1954). Muitos filmes de faroeste foram filmados na área do Parque Nacional Saguaro e nos arredores da cidade de Tucson. Entre eles estão Os Sinos de Santa Maria (1945), Winchester '73 (1950), Duelo de Pistoleiros (1957), a série Bonanza (1959), Rio Bravo (1959), A Conquista do Oeste (1962), El Dorado (1967), Rio Lobo (1970), Tombstone (1993) e Wild Wild West (1998).

O saguaro, também chamado de “cacto candelabro gigante”, é uma espécie endêmica do Deserto de Sonora, mas tornou-se, erroneamente, o símbolo das paisagens do Oeste americano e dos filmes de faroeste. Quanto ao faroeste spaghetti, ele foi filmado principalmente na Espanha, na província de Almería. O deserto de Tabernas é um dos lugares mais secos da Europa, o que o torna um substituto ideal para os desertos do Arizona. Serviu de cenário para os cinco faroestes de Leone e também, por exemplo, para “O Último Confronto” (1967) e a trilogia “Sabata” (1969-1971). Também existem faroestes spaghetti de montanha: “O Grande Silêncio” (1968) foi filmado na neve dos Pirineus e das Dolomitas. Para chegar às regiões selvagens de Nevada ou Arizona, as equipes de filmagem de Hollywood precisavam viajar centenas de quilômetros. Essas viagens eram caras para os produtores e inconvenientes para a equipe. Consequentemente, no início do século XX, os grandes estúdios preferiram alugar ou comprar terrenos nos arredores de Los Angeles, nas montanhas de Santa Monica, em Canyon Country ou no Vale de San Fernando. Assim, os ranchos foram reaproveitados para a produção cinematográfica. Alguns eram propriedades familiares, como o rancho Iverson. Grandes estúdios comercialmente possuíam seus próprios ranchos: Paramount, RKO, etc. Durante a segunda metade do século XX, eles desapareceram gradualmente devido à expansão urbana. O gênero western se baseia essencialmente no conceito americano de fronteira, que a palavra francesa “frontière” traduz de forma imperfeita.

       

A linha divisória corresponde a uma fronteira, enquanto a fronteira é o limite do mundo habitado, marcado pelo espírito pioneiro e por uma lei bastante relativa. O Extremo Oeste é considerado uma terra árida e hostil, onde a lei ainda não se impôs. As vastas planícies ocidentais não estão sob o controle dos Estados Unidos. O conceito de um lugar sem lei é essencial para o faroeste. Os próprios fundamentos do Oeste derivam diretamente dessa ideia. O xerife ou delegado é a autoridade policial eleita pela população da cidade. Ele contrata auxiliares, personagens secundários recorrentes nos filmes. No faroeste italiano, surge o caçador de recompensas que, mediante resgate, leva fugitivos, vivos ou mortos, de volta ao xerife. Essa autoridade é autônoma e, portanto, mal organizada, sociologicamente, daí o surgimento da regra do “melhor tiro”. A falta de hierarquia leva à corrupção, que só é contestada pela presença dos delegados federais, os únicos representantes do governo, frequentemente retratados como raros e aguardados por dia. Em alguns casos, a ausência de lei serve apenas como pano de fundo, mas muitas vezes é central para o filme. O Homem Que Matou Liberty Valance (1962) narra a história de um advogado do Leste que descobre um mundo onde suas crenças são rejeitadas. Ele representa o norte-americano que quer expandir a fronteira com a ambição de civilizar o Oeste. Vários faroestes se concentram particularmente na gênese do Extremo Oeste, começando com A Conquista do Oeste (1962) e O Cavalo de Ferro (1924).

É interessante notar que esse conceito de justiça inexistente pode ser facilmente transposto para outro país. Por exemplo, ele também existe na Austrália, onde a situação no século XIX era semelhante à do Velho Oeste. Assim, esse país é igualmente propício para a ação de um faroeste, como demonstram filmes como Quigley, o Australiano (1990), Ned Kelly (2003) e Austrália (2008). Bravura Indômita (True Grit) tem como representação social um drama de faroeste norte-americano escrito e dirigido por Joel David Coen e Ethan Jesse Coen, Joel e Ethan Coen lançado em 2010, são cineastas reconhecidos profissionalmente por Irmãos Coen, que escrevem, produzem, editam e dirigem seus próprios filmes conjuntamente. Seus filmes abrangem muitos gêneros e estilos cinematográficos, que eles frequentemente subvertem ou parodiam. É adaptação do romance de Charles Portis (1933-2020) para o cinema em 1969 como True Grit por Henry Hathawaye (1898-1985) e para a televisão em 1978 como True Grit: A Further Adventure por Richard T. Heffron (1930-2007), um filme inspirado nos personagens dos filmes True Grit e A Bible and a Gun (1996), estrelado por Warren Oates, Lisa Pelikan, Lee Meriwether e Parley Baer. O filme Bravura Indômita, objeto de análise, é estrelado por Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin nos papéis principais. Steinfeld interpreta Mattie Ross, uma garota de 14 anos que vive em uma fazenda e contrata Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um policial impulsivo e alcoólatra, para perseguir o fora da lei (Josh Brolin) que assassinou seu pai. True Grit é o maior sucesso financeiro da carreira dos irmãos Coen. O filme recebeu dez indicações ao Oscar em 2011. O filme foi um grande sucesso comercial, arrecadando US$ 251.123.791 em todo o mundo globalizado, incluindo US$ 171.243.005 nos Estados Unidos e Canadá, tornando-se o maior sucesso comercial dos irmãos Coen. Vendeu 1.402.149 ingressos na França.

            Escólio: O projeto foi anunciado extraoficialmente já em fevereiro de 2008, antes de ser confirmado em março de 2009. Ethan Coen descreve o projeto como uma adaptação mais próxima do romance do que o filme de 1969, True Grit. Esta é a segunda vez que os irmãos Coen dirigem Jeff Bridges, depois de O Grande Lebowski, lançado em 1998. Ele assume o papel do Marechal Cogburn, que rendeu a John Wayne o Oscar de Melhor Ator. Josh Brolin volta a colaborar com os irmãos Coen depois de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). Ele interpreta Tom Chaney, papel anteriormente vivido por Jeff Corey. Uma grande série de audições foi realizada no Texas para encontrar a jovem atriz principal. Hailee Steinfeld foi escolhida entre quase 15.000 candidatas. Em uma entrevista ao New York Times, Ethan Coen afirmou: “Foi, e você provavelmente pode imaginar, fonte de muita ansiedade. Sabíamos que se não a encontrássemos, não haveria filme”. As filmagens ocorreram em março e abril de 2010, nos estados do Texas, condado de Austin, Blanco e Granger, onde a cidade de Fort Smith foi recriada e Novo México (Santa Fé). O nome Novo México foi dado no processo civilizatório pelos espanhóis às terras ao Norte do Rio Bravo tendo em vista que a região do alto Rio Bravo era chamada de Nuevo México já em 1561. O nome foi anglicizado e também dado às terras cedidas aos Estados Unidos pelo México após a Guerra Mexicano-Americana. O nome México, por outro lado, vem da língua asteca e diz que tem como significado “umbigo do mundo”.         

            A filmografia dos irmãos Coen é baseada em uma divisão de trabalho social: Joel é creditado como diretor e Ethan como produtor, embora compartilhem essas funções durante as filmagens. Eles escrevem ou adaptam o roteiro em conjunto, além de editarem (às vezes sob o pseudônimo de Roderick Jaynes). No entanto, desde 2004, ambos são creditados como diretores de seus filmes. O sucesso de crítica começou com Barton Fink (1991), a história de um escritor sem inspiração interpretado por John Turturro. O filme ganhou a Palma de Ouro, o prêmio de Melhor Diretor e o prêmio de Melhor Ator para John Turturro no Festival de Cannes de 1991. Essa tríplice vitória levou a uma mudança nas regras do festival, já que, teoricamente, os júris não podiam mais conceder vários prêmios ao mesmo filme. Apenas um dos dois prêmios de atuação poderia ser combinado com outro prêmio. Parte do sucesso dos irmãos Coen vem de comédias como O Grande Lebowski (1998), E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), Intolerável Crueldade (2003) e Ladykillers (2004). No entanto, dois thrillers se destacam em sua filmografia: Fargo (1996), que os apresentou ao público internacional, e, Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), que marcou sua ascensão ao estrelato. Adaptado do romance homônimo de Cormac McCarthy, este segundo filme narra a história de um cowboy (Josh Brolin) caçado por um assassino psicopata (Javier Bardem). Arrecadou US$ 160 milhões nas bilheterias e ganhou quatro prêmios na 80ª edição do Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Javier Bardem.

Os irmãos Coen dirigiram então Queime Depois de Ler (2008), uma comédia sombria sobre o mundo da espionagem, a CIA e o fitness, estrelada por George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand e John Malkovich. Em seguida, dirigiram o discreto Um Homem Sério (2009), uma comédia ainda mais sombria sobre a comunidade judaica, com fortes elementos autobiográficos. O filme seguinte foi um faroeste, Bravura Indômita (2010), adaptado do romance homônimo de Charles Portis e previamente adaptado para o cinema em Bravura Indômita (1969), estrelado por John Wayne. Jeff Bridges, que eles haviam dirigido em O Grande Lebowski, interpretou o papel principal ao lado de Matt Damon e Josh Brolin. O filme apresentou a jovem atriz Hailee Steinfeld a um público mais amplo, e ela recebeu inúmeros prêmios e indicações por sua atuação. Bravura Indômita continua sendo o maior sucesso de bilheteria dos irmãos Coen, arrecadando US$ 250 milhões. O faroeste recebeu dez indicações ao 83º Oscar. Os irmãos Coen então fizeram um filme mais intimista e melancólico, Inside Llewyn Davis (2013), que narra a história inspirada na vida do próprio Dave Van Ronk de um cantor folk em Greenwich Village na década de 1960. O elenco inclui Oscar Isaac, Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Justin Timberlake e John Goodman. O filme foi um sucesso de crítica, culminando com o Grande Prêmio no Festival de Cannes de 2013. Os irmãos Coen deram continuidade a um projeto de longa data, Hail, Caesar! (2016), uma paródia da Hollywood dos anos 1950 que reuniu George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes e Tilda Swinton. Eles então abandonaram temporariamente o cinema para produzir, escrever e dirigir uma minissérie de faroeste em seis episódios, com a intenção de ser transmitida pela Netflix em 2018. Por fim, a série se tornou um filme, A Balada de Buster Scruggs, que estreou no Festival de Cinema de Veneza de 2018.

            Historicamente os espetáculos do Velho Oeste eram grandes shows itinerantes nos Estados Unidos e na Europa que desfrutaram de enorme sucesso popular das décadas de 1870 a 1930. Com romances baratos, eles dramatizam os estereótipos do cowboy e do índio e revivem, através do prisma distorcido do espetáculo e da literatura, os mitos da conquista ainda muito recente do Oeste. A invenção e subsequente disseminação do cinema no início do século XX ampliaram essa mitificação por meio dos filmes de faroeste. O faroeste é um gênero cinematográfico cuja ação geralmente se passa na América do Norte, mais especificamente nos Estados Unidos, durante a expansão para o oeste nas últimas décadas do século XIX. Esse subgênero do cinema histórico surgiu logo após a invenção da cinegrafia, em 1895, quase sempre com escopo no Oeste americano. Atingiu seu auge nos Estados Unidos em meados do século XX, com a Era de Ouro dos estúdios de Hollywood, antes de ser reinventado por cineastas europeus na década de 1960. Existem diversos tipos de faroestes. É comum definir o faroeste por seu cenário (o Estados Unidos) e pelo período que representa, que se estende do fim da Guerra Civil ao desaparecimento da Fronteira Selvagem (1865-1890). De fato, o gênero, no entanto, não pode ser definido inteiramente por essas duas características. A ação de Os Desajustados, que pode ser considerado um faroeste, se passa no século XX. Obras ambientadas durante a Guerra dos Sete Anos, como O Último dos Moicanos, bem como filmes que retratam a Guerra da Independência contra os britânicos, também são comumente associados ao gênero. Mas, paradoxalmente, esse tema foi pouco explorado pelo cinema americano.

            O filme começa com uma citação bíblica: “Os ímpios fogem quando ninguém os persegue”. Provérbios 28:1. Em 1878, Mattie Ross (Hailee Steinfeld), de 14 anos, viaja para Fort Smith, Arkansas, para organizar o funeral de seu pai, Frank, que foi brutalmente assassinado por um de seus funcionários, Tom Chaney (Josh Brolin). Chaney fugiu e está escondido no território indígena Chacta, denominação geral dada pelos norte-americanos às terras que foram destinadas por lei federal aos nativos americanos (índios) a partir dos década de 1830. As fronteiras foram definidas por lei de 1834 (“Indian Intercourse Act”), onde se juntou a um bando de foras da lei liderado por “Lucky” Ned Pepper (Barry Pepper). As autoridades estão proibidas de entrar no território e parecem relutantes em perseguir Chaney. Mattie negocia arduamente com o empresário Stonehill para conseguir financiamento para a captura e recaptura de Chaney para julgamento. Ela decide contratar o delegado Reuben J. “Rooster” Cogburn (Jeff Bridges), considerado o delegado mais durão da região. Cogburn decide perseguir os fugitivos sozinho, mas Mattie insiste em acompanhá-lo. Eles são acompanhados por LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger que caça Tom Chaney há meses pelo assassinato de um senador e seu cachorro no Texas.

Durante a longa perseguição pela mata, os três companheiros têm dificuldades de convivência, e LaBoeuf os abandona após uma discussão com Cogburn, alegando que ele está sob a influência da garota. Cogburn arma uma emboscada perto de uma cabana onde o bando de Pepper deveria parar, mas LaBoeuf chega primeiro. O bando de Pepper chega logo depois, e LaBoeuf é capturado e ferido no ombro. Cogburn mata dois membros do bando, e os outros escapam. No dia seguinte, LaBoeuf alega ter sido baleado acidentalmente por Cogburn durante o tiroteio; ele segue seu próprio caminho novamente após outra discussão. De manhã, Mattie acorda e encontra Cogburn ainda dormindo. Ela pega um balde e vai até o rio para enchê-lo de água. Ela ouve barulhos vindos da outra margem. Ela reconhece Chaney. Ele também a vê, se aproxima e a reconhece. Ela diz que veio capturá-lo com um bando; ele percebe que ela está mentindo e continua se aproximando. Ela pega o revólver do pai na bolsa dele e atira. A bala ricocheteia, quebrando uma de suas costelas. O barulho atrai seus cúmplices. Chaney a agarra e a leva para a outra margem, até Pepper. Cogburn, alertado pelo barulho, chega à margem do rio e atira no bando de Pepper, que revida. 

Pepper força Cogburn a abandoná-los, ameaçando matar Mattie. Eles retornam ao acampamento na beira de um penhasco. Usando o ferimento de Chaney como pretexto lógico, que o torna difícil de mover, Pepper o deixa sozinho com Mattie enquanto ele e seus homens vão procurar cavalos. Chaney começa a cortar a garganta de Mattie com sua faca. De repente, ele é nocauteado por LaBoeuf. Ele explica que voltou depois de ouvir os tiros. Cogburn explicou a situação para ele. No vale abaixo, eles observam Pepper e seus três cúmplices fugindo a cavalo. Ao longe, no extremo oposto, Cogburn emerge da floresta a cavalo, bloqueando o caminho deles. Cogburn diz a Pepper que não o deixará ir, saca suas armas e ataca os cavaleiros, que fazem o mesmo. Cogburn mata dois deles e fere Pepper gravemente. Pepper atira no cavalo de Cogburn, que cai. A perna de Cogburn fica presa sob o cavalo morto. Ele não consegue recuperar suas armas, que são jogadas para longe durante a queda. Pepper, ainda montado, retorna para e se prepara para acabar com ele. LaBoeuf atira nele com seu rifle Sharps Modelo 1874. Chaney, tendo recuperado a consciência, aproveita para nocautear LaBoeuf, mas Mattie agarra o rifle de LaBoeuf e atira nele.

O recuo da arma a joga para trás em uma vala profunda, na qual ela cai. Impedida de cair pela vegetação, ela mexe em um corpo em decomposição que jaz ali e perturba uma cobra, que a morde na mão esquerda. Cogburn e LaBoeuf a tiram da água e tentam em vão tratá-la, sugando o veneno após um corte com uma faca. Cogburn monta em Blackie, o cavalo de Mattie, e parte a galope, com a jovem na sela, em busca de um médico para tratá-la; o cavalo está exausto, desmaia e é sacrificado, para grande desespero de Mattie, que começa a ter febre. Cogburn continua a pé, carregando Mattie nos braços, e chega perto de uma casa, que ele alerta com um tiro, sem poder ir mais longe. Mattie recebe tratamento, mas seu braço necrosou e precisa ser amputado. Sabendo que ela está fora de perigo, Cogburn a deixa antes que ela acorde da cirurgia. Ela escreve para Cogburn para receber o pagamento restante por sua missão, mas sem sucesso. Vinte e cinco anos depois, em 1903, Mattie ainda solteira recebe uma carta de Cogburn, agora muito velho e integrante de um espetáculo do Velho Oeste. Cogburn escreve que gostaria de vê-la novamente, mas quando Mattie chega, Cogburn já está morto há três dias. Ela leva o caixão de Cogburn de volta para enterrá-lo em sua propriedade, refletindo sobre a passagem do tempo e se perguntando como poderá ver LaBoeuf novamente.

Bibliografia Geral Consultada.

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