sexta-feira, 10 de julho de 2026

Por Uma Mulher – Poder, Narrativa & Família Monoparental.

 Mentes criativas são conhecidas por sobreviverem a qualquer tipo de mau treinamento”. Ana Freud (1895-1982)         

            

         Por Uma Mulher (Pour une femme) tem como representação social um filme dramático francês de 2013, dirigido por Diane Kurys, nascida em 3 de dezembro de 1948, é uma diretora, produtora, cineasta e atriz francesa. Vários de seus filmes como diretora são semiautobiográficos. Diane Kurys nasceu em Lyon, Rhône, França, a mais nova de duas filhas de imigrantes judeus russos e poloneses, Lena e Michel. Diane Kurys e sua irmã mais velha passaram seus primeiros anos em Lyon. Como muitas das personagens de seus filmes, ela teve um relacionamento difícil com os pais, e sua infância traumática tornou-se tema de muitos de seus filmes. Seus pais se conheceram e se casaram no Camp de Rivesaltes em 1942, também reconhecido como Campo Joffre, isto é, um campo de internamento e trânsito na comuna de Rivesaltes, no departamento dos Pirenéus Orientais, na Zona Sul da França, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), separando-se em 1954. O divórcio marcou e afetou profundamente Diane, e se tornaria uma verdadeira fonte de inspiração para vários de seus filmes; Kurys afirmou que fez filmes sobre eles porque “queria vê-los juntos novamente”.  Foi após esse evento que sua mãe decidiu se mudar com as duas filhas para Paris, onde administrou uma boutique de moda feminina, enquanto seu pai permaneceu em Lyon, onde administrou uma loja de roupas masculinas.

Ela morou com a mãe após o divórcio em 1954, tendo fugido de casa para se juntar ao pai aos dezesseis anos de idade. Na adolescência, ela foi radicalizada pelo extraordinário evento Maio de 1968, mas ficou um tanto desiludida com razão, depois, chamando-o de “revolução burguesa” em uma entrevista com Jean-Luc Wachthausen.  Ela conheceu seu parceiro e também cineasta Alexandre Arcady quando tinha quinze anos, em 1964, e foi morar em Israel em um kibutz perto da fronteira com o Líbano. Eles são um casal desde a década de 1960 e têm duas produtoras juntos. Seu filho Yasha, nascido em 1991, é um escritor que escreve sob o nome de Sacha Sperling. O acampamento foi chamado de “Campo Joffre” em homenagem ao General Joseph Joffre (1852–1931), comandante-em-chefe do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Após a Retirada, isto é, consumando-se o êxodo de cerca de meio milhão de refugiados da Espanha para a França no início de 1939, no final da chamada Guerra Civil Espanhola, o governo francês decidiu através do processo de permutação usar o Campo Joffre para internar mais de 15.000 refugiados catalães. Esta decisão nunca foi totalmente posta em prática, embora um pequeno fluxo de refugiados catalães tenha sido detido lá em 1939. Em 10 de dezembro de 1940, o Ministério da Defesa reservou 600 acres (2,4 km²) ao Sul do campo para abrigar pessoas expulsas da Alemanha.

Atingimos na modernidade a compreensão do visível como visível e pari pasu do invisível como invisível, enquanto vínculo orgânico que une o invisível ao visível concreto. Assim, é visível todo objeto ou problema que se situa no terreno, e no horizonte, isto é, no campo estruturado definido da problemática teórica de determinada disciplina teórica. Impõe-se-nos tomar essas palavras ao pé da letra. Alguns autores ajudam-nos a elucidar esses termos. A visão já não é então a representação de uma pessoa individual, dotada da faculdade de “ver” a qual é exercida quer da atenção, quer da distração. A vista é o fato imediato de suas condições estruturais. A vista é a relação de reflexão imanente do campo da problemática sobre seus objetos e seus problemas. A visão perde então seus privilégios religiosos da “leitura sagrada”. Nada mais é que a reflexão da necessidade imanente que liga o objeto ou o problema às suas condições de existência, que têm a ver com as condições de sua produção. A rigor, não é mais o olho do espírito de uma pessoa que vê o que existe no campo definido por uma problemática teórica. E esse próprio campo que se vê nos objetos ou nos problemas que ele define, sendo a visão apenas a reflexão necessária do campo de análise em seus objetos. O Quartier Latin deve seu nome à época Medieval, quando os habitantes da zona eram estudantes que utilizavam o latim para se comunicar. Desde a Idade Média, os estudantes do “Bairro Latino” historicamente tiveram uma grande e eficaz influência sobre a França, e durante os séculos XIX e XX promoveram movimentos estudantis de grande transcendência política.

                        


O Quartier Latin foi um dos centros da Revolução de Maio de 68. Depois de atravessar a Praça de Saint Michel, na qual há uma enorme fonte com a figura de São Miguel lutando com um dragão, há pequenas e encantadoras ruazinhas que formam o Bairro Latino. A partir desse ponto, tudo que você verá são restaurantes e cafeterias que oferecem terraços agradáveis com preços acessíveis. Embora haja muitas ruas com restaurantes agradáveis, uma das principais artérias do bairro é a Rue Huchette. O Quartier Latin é um bairro que fica no quinto e no sexto distritos de Paris, na França. Localiza-se na margem esquerda (Sul) do Rio Sena, em torno da Universidade de Sorbonne. O nome do bairro deriva do fato do Latim ter sido amplamente falado próximo à universidade durante a Idade Média. Atualmente, ainda abriga vários estabelecimentos de ensino superior, como a École Normale Supérieure, a École des Mines de Paris e o Campus Universitaires de Jussieu. Durante os anos 1960, especialmente em maio de 1968, foi um grande e extraordinário palco de contestação da sociedade. Na modernidade os estudantes são um barômetro sensível às tensões que estão se acumulando nas profundezas da sociedade. A onda de manifestações e ocupações estudantis que precederam os acontecimentos de maio foi como um relâmpago que anuncia a tormenta.

Nos meses anteriores a maio já havia uma efervescência entre os estudantes que havia se expressado em uma série de manifestações e ocupações. Frente à onda ascendente de protestos estudantis o reitor da prestigiosa universidade Sorbone decidiu fechá-la, era a segunda vez em seus setecentos anos de história. A primeira vez aconteceu em 1940 quando os nazistas ocuparam Paris. A tentativa da polícia de liberar o pátio da Sorbone em 03 de maio foi a centelha que acendeu o fogo. A violência irrompeu no “Bairro Latino”, com o resultado de mais de cem feridos e 596 presos. Os estudantes, os professores, os profissionais, camponeses, cientistas, jogadores de futebol, inclusive as bailarinas do Follies Bergères foram à luta. Em Paris os estudantes ocuparam a Sorbone. O teatro l`Odeon foi ocupado por 2.500 estudantes, inclusive do ensino médio nas escolas. A União Nacional de Estudantes da França (UNEF) e o Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESUP) convocaram greves indefinidas. Em 6 de maio houve novos enfrentamentos no Quartier Latin (“Bairro Latino”): 422 presos, 345 policiais e em torno de 600 estudantes feridos. A repressão utilizada através dos aparelhos de Estado provocara uma indignação popular generalizada nas cidades. Os estudantes enfurecidos arrancaram paralelepípedos do chão, utilizados como arma, para arremessar contra os policiais e levantaram barricadas seguindo a boa tradição francesa.

Os estudantes das universidades na França saíram em seu apoio. Na noite de 10 de maio houve uma ampla revolta no Bairro Latino. Os manifestantes levantaram barricadas e a polícia os atacou com grande violência. Homens armados da polícia antidistúrbios tomaram de assalto apartamentos privados e golpeou gente simples e corrente, até mesmo o inclusivo caso de uma mulher grávida. Depararam-se com uma resistência que não esperavam. Os parisienses de suas janelas rechaçavam a polícia atirando vasos de plantas e objetos pesados. Dos 367 hospitalizados, 251 eram policiais, 720 pessoas feridas e 468 foram presas. Carros foram destruídos ou queimados. O Ministro da Educação insultou os manifestantes: “Ni doctrine, ni foi, ni loi”.  A polícia de choque pode ser composta por policiais regulares que atuam como tal em situações específicas, ou pode ser formada por unidades separadas, organizadas dentro ou em paralelo às forças policiais regulares. A polícia de choque é utilizada em diversas situações e para diferentes fins. Ela pode ser empregada para controlar distúrbios, como o próprio nome sugere, para dispersar ou controlar multidões, para manter a ordem pública ou desencorajar a criminalidade, ou para proteger pessoas ou propriedades.

A militarização da polícia moderna trouxe equipamentos antimotim militarizados e novas tecnologias que permitem que suas funções se expandam para além das atribuições policiais normais. A polícia de choque frequentemente usa equipamentos especiais chamados equipamentos antimotim para se proteger e para uso ofensivo no controle de distúrbios. O equipamento antimotim normalmente inclui coletes à prova de balas, cassetetes, escudos táticos, escudos antimotim e capacetes antimotim. Muitas equipes policiais antimotim também utilizam armas não letais especializadas, como: balas de borracha, granadas de esponja, spray de pimenta, gás lacrimogêneo, armas antimotim, balas de borracha, granadas de efeito moral, canhões de água e dispositivos acústicos de longo alcance. Ao longo dos anos 1900 e até os anos 2000, a tecnologia de equipamentos antimotim avançou com a ajuda da militarização das organizações policiais antimotim. Algumas tecnologias de equipamentos antimotim, incluindo gás lacrimogêneo, foram originalmente criadas para uso militar, especificamente na Primeira Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, em 1969, foi registrado que a polícia antimotim possuía extenso equipamento militarizado, incluindo coletes à prova de balas, granadas multiuso, canhões de água, helicópteros, cassetetes, comunicação por rádio, arame farpado, escudos policiais e veículos antimotim.

 Em 2017, os protestos sociais na Venezuela inauguraram uma nova Era para os equipamentos da polícia antimotim venezuelana, com veículos militares que incluíam recursos como lançadores de gás lacrimogêneo e canhões de água. Os veículos militares foram usados ​​como linhas de defesa perimetral para conter os protestos e fornecer à polícia antimotim poder suficiente para inibir o avanço da violência. Esses veículos militares usados ​​pela polícia de choque em todo o mundo são geralmente provenientes de empresas de produtos militares, incluindo a Norinco, uma fabricante chinesa de produtos militares. Nos Estados Unidos, o programa federal 1033 permite que departamentos de polícia, incluindo unidades de polícia antimotim, solicitem equipamentos militares para circunstâncias que já ocorreram ou que possam ocorrer no futuro. Devido a esse programa, a militarização da polícia se expandiu por todos os estados, permitindo que a polícia antimotim estadual receba equipamentos de estilo militar semelhantes (cf. Foucault, 2016), comparativamente, aos das equipes de Armas e Táticas Especiais (SWAT). Os departamentos de polícia que receberam financiamento do programa 1033 são departamentos de polícia menores. Os equipamentos antimotim tornaram-se as principais ferramentas das forças policiais para combater grandes manifestações, incluindo protestos políticos e econômicos e manifestações laborais, que procuravam mudanças sem o consentimento explícito do governo em exercício. A polícia de choque é responsável por operações policiais que exigem táticas e equipamentos avançados para controlar multidões e manter a ordem pública. Essas atribuições podem variar entre as organizações policiais de choque em diferentes países, mas geralmente são semelhantes, pois têm a tarefa de manter a ordem estabelecida pelo governo vigente.

Começou assim como uma série de greves estudantis que irromperam em algumas universidades e escolas de ensino secundário em Paris, após confrontos com a administração e a polícia. A tentativa do governo gaullista de esmagar essas greves com mais ações policiais no Quartier Latin levou a uma escalada do conflito, que culminou numa greve geral de estudantes e em greves com ocupações de fábricas em toda a França. O símbolo unificador dos protestos foi O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e sua inspiração imediata a Revolução Cultural Chinesa, iniciada em 1966 em que o governo de Pequim usava massas de jovens enraivecidos como “tropa de choque” para perseguir, humilhar, torturar e matar milhares de adversários do regime. Alguns filósofos e historiadores afirmaram que esse evento foi um dos mais importantes e significativos do século XX, porque não se deveu a uma camada restrita da população, como trabalhadores e camponeses - que eram maioria -, mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe. Além disso, teve intrínsecas ligações com os acontecimentos do pós-guerra e com os da chamada Guerra Fria. Vale lembrar que as noções sociológicas e política de “esquerda” e “direita” são rótulos antigos, que remontam à clássica Revolução Francesa. Em 1789, a Assembleia Nacional Constitutiva reuniu-se para decidir se, sob o novo regime político da França, o rei deveria ter poder de veto.

Em caso afirmativo, perguntava-se se esse direito deveria ser absoluto ou simplesmente suspensivo, por um período de tempo social. Ao votar, os partidários do veto absoluto se sentaram ao lado direito do presidente, o lado nobre. De acordo com a tradição cristã, é uma honra sentar-se ao lado direito de Deus, ou à direita do chefe da família na hora do jantar. Aqueles que queriam um veto altamente restrito estavam sentados à esquerda. A organização da sala assumiu o significado político: à direita, aqueles apoiantes de uma monarquia que procurou preservar os poderes do rei; à esquerda, aqueles que desejavam reduzi-los. No século XIX, este vocabulário cada vez mais usado para descrever as tendências políticas dos membros do parlamento francês. Colocariam monarquistas versus republicanos e depois republicanos conservadores versus modernistas que programaram as principais reformas sociais da Terceira República, mas que incluíam a liberdade de imprensa, a liberdade de associação, o direito de pertencer a um sindicato e o divórcio, entre outras coisas.

Na virada do século XX, o debate político-ideológico entre esquerda-direita abrangeu essencialmente a divisão entre os defensores do Catolicismo e os defensores da separação da Igreja e do Estado. Esta mudança, que ocorreu em 1905, é muitas vezes referida como “o choque das duas Franças” – católica e anticlerical. A partir da década de 1930, a divisão surgiu, com a esquerda defendendo o socialismo e a direita a liberalização econômica. Na década de 1970, a liberalização dos costumes tornou-se questão fundamental, com debates contínuos sobre aborto, divórcio, homoerotismo, igualdade matrimonial, eutanásia, entre outros aspectos. O mesmo se aplica à imigração e abertura à globalização que se opõe ao protecionismo cultural, social e econômico. Como presidente, Charles de Gaulle (1890-1970) pôs fim ao caos político que precedeu o seu regresso ao poder. Durante seu governo, promoveu o controle político da inflação e instituiu uma nova moeda em janeiro de 1960. Também fomentou o crescimento industrial. Apesar de ter apoiado inicialmente o domínio imperialista francês sobre a Argélia, decidiu mais tarde “conceder” a independência àquele país, encerrando uma guerra cara, violenta e impopular. 

A decisão dividiu a opinião pública francesa, e De Gaulle teve que enfrentar a oposição dos colonos chamados pieds-noirs e dos militares franceses que tinham inicialmente apoiado seu retorno fabuloso ao poder. Em 13 de maio de 1958, os argelinos de origem europeia apelam ao general Charles De Gaulle, fora do poder desde 1950, para manter a soberania da França sobre a Argélia. No começo de 1958, o deputado democrata-cristão de Estrasburgo, Pierre Pflimlin (1907-2000), estava sendo sondado para o cargo de primeiro-ministro da Quarta República. Porém, havia a suspeita de que queria negociar um cessar-fogo com os rebeldes da Frente Nacional de Libertação (FNL) que lutavam pela independência da Argélia. Os gaullistas que militavam de corpo e alma pelo retorno ideológico de De Gaulle ao poder encorajam os “Pieds-noirs” - população francesa das antigas colônias no norte da África - à sedição contra Pflimlin. Deixam entender que o general é a personalidade em melhores condições estratégicas de manter os três departamentos argelinos da república francesa. De Gaulle empreendeu o desenvolvimento de armas nucleares francesas e promoveu uma política externa pan-europeia, buscando livrar-se das influências norte-americana e britânica. Retirou da França, o comando militar da Organisation du Traité de l`Atlantique Nord apesar de continuar a ser membro da aliança ocidental - e por duas vezes vetou a entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia.

Viajou frequentemente pela Europa Oriental e por outras partes do mundo quando reconheceu a virada da China ao comunismo. Em 1967, durante uma visita oficial ao Canadá, incentivou publicamente o Movimento pela Independência de Quebec, o que causou a mais grave crise diplomática entre a França e o Canadá. Seu discurso pronunciado em Montreal, no dia 24 de julho, foi concluído exatamente com o slogan dos separatistas: “Viva o Quebec livre!”, o que foi interpretado pelas autoridades canadenses como apoio do presidente francês ao movimento autonomista. Foi alvo de três atentados confirmados, todos eles falhados. O primeiro ocorreu em Paris, no ano de 1945, por atiradores furtivos alemães. Outro em 8 de setembro de 1961, organizado por Raoul Salan (1899-1984), uma bomba fabricada com explosivo plástico explodiu perto de seu carro. O último aconteceu em 22 de agosto de 1962, quando seu carro foi crivado de balas, ficando o vidro traseiro estilhaçado e os pneus estourados, num atentado que mais tarde foi narrado no best-seller “O Dia do Chacal”, de Frederick Forsyth. Ainda em 1963, seria desbaratado um complô na Escola Militar para enfim matá-lo. De Gaulle também enfrentou a oposição dos comunistas e socialistas. Apesar de ter sido reeleito presidente em 1965, desta vez por voto popular direto, em maio de 1968 parecia provável que perdesse o poder, em meio a protestos generalizados de estudantes e trabalhadores. No entanto, sobreviveu à crise com uma ampliação da maioria na Assembleia. Em 1969, depois de perder um referendo sobre a reforma do Senado e a regionalização, renunciou.

As manifestações em torno do Maio de 68 representou uma grande onda de protestos que teve início com as mobilizações estudantis para pedir reformas no setor educacional. A maioria dos insurretos era adepta a ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Muitos viam os eventos como uma oportunidade para sacudir os valores conservadores, contrapondo ideias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o prazer. Entre eles, uma barulhenta minoria, como o Occident, professava ideias de direita. O começo de tudo ocorreu com uma série de conflitos entre estudantes e autoridades da Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima à capital francesa. No dia 2 de maio de 1968, a administração decidiu fechar a escola e ameaçou expulsar vários estudantes acusados de liderar o movimento contra a instituição. As medidas provocaram a reação imediata dos alunos de uma das mais renomadas universidades do mundo ocidental, a vetusta Sorbonne, em Paris. Eles se reuniram no dia seguinte para protestar, saindo em passeata sob o comando do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit. A polícia reprimiu estudantes com violência e durante dias as ruas de Paris viraram cenário de brutais batalhas. É político franco-alemão do partido ecologista Die Grünen, deputado europeu e copresidente o grupo parlamentar Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia. Foi líder estudantil protagonista da massiva movimentação popular em maio de 1968 em Paris.

A partir de 68 o “modelo profético do engajamento” passa a sofrer um acentuado declínio, atingindo em cheio os privilégios do intelectual que, autônomo em relação aos partidos ou a quaisquer organismos políticos, se punha a representar os interesses gerais, uma universalidade personificada e estilizada pelo seu carisma. A especialização resultante do fortalecimento das ciências humanas, somada à crescente divisão do trabalho e a prevalência do paradigma científico, condicionou o cenário em que o engajamento profético dos intelectuais veio a ser substituído pelo modelo que conciliava o saber localizado e a luta política concreta, estabelecidos mutualmente por limites estratégicos particulares, o “intelectual crítico especializado” ou, segundo seu nome foucaultiano de batismo, o “intelectual específico”. Daí a filosofia da diferença, embora avessa à teleologia dialética da história, ganhar repercussão no círculo acadêmico e, sem ajuste ou adaptação, encontrar afinidade de princípios junto a determinadas franjas da esquerda extraparlamentar. Porque essa filosofia, inicialmente deleuziana e depois esquizoanalítica, era portadora de categorias que remetiam ao sentido dos engajamentos em curso, ela mostrava-se capaz de indexar, na sua própria linguagem conceitual, a disposição subjetiva de boa parte da militância “gauchista”, o “fundo rebelde irredutível” que permaneceria ativo sob as diferenças de toda representação política.   

O Maio de 1968 tem sido reconhecido como a maior greve geral da história. Este poderoso movimento aconteceu no auge da economia na esfera capitalista do pós-guerra. A reação violenta do governo só ampliou a importância das manifestações: o Partido Comunista Francês (PCF) anunciou seu apoio aos universitários e uma influente federação de sindicatos convocou uma greve geral para o dia 13 de maio. No auge do movimento, quase dois terços da força de trabalho do país cruzaram os braços. Pressionado, no dia 30 de maio o presidente Charles De Gaulle convocou eleições para junho. O movimento cresceu tanto que proporcionalmente evoluiu para uma greve de trabalhadores que balançou as estruturas e técnicas persuasivas do governo do presidente Charles De Gaulle. Os universitários se uniram politicamente aos operários e promoveram a maior greve geral da Europa, com a participação de cerca de 9 milhões de pessoas. Isso enfraqueceu politicamente o general De Gaulle, que renunciou um ano depois. Os acontecimentos de maio, com sua força bruta, não foram previstos pelos analistas e estrategistas do capital, nem na França nem em nenhum lugar do mundo.

O general foi incapaz até mesmo de imprimir as cédulas do referendo devido à greve dos trabalhadores das gráficas franceses e a negativa de seus colegas belgas de atuar como fura greves. Este não foi o único exemplo de solidariedade internacional. Os condutores de trens alemães e belgas detinham seus trens na fronteira francesa para não romper a greve. As forças da reação, até esse momento em estado de choque e obrigadas a estar na defensiva, começaram de fato a se organizar. Foram criados Comitês de Defesa da República (CDR), como tentativa de mobilizar a classe média contra os trabalhadores e estudantes. A correlação de forças de classe não é uma questão puramente numérica do tamanho da classe trabalhadora em relação ao campesinato e da classe média em geral. Uma vez que o proletariado entre na luta decisiva e demonstra ser uma força poderosa na sociedade, atrai rapidamente a massa explorada de camponeses e de pequenos comerciantes de classe média que são vítimas da usura dos bancos e dos monopólios. Este fato era evidente como sodalidade em 1968, quando os camponeses levantaram bloqueios nas estradas ao redor de Nantes e distribuíram comida grátis aos grevistas. Uma importante característica da sodalidade é sua autonomia. Entendemos que há de se diferenciar aqui autonomia de independência.

Uma vez na luta, os trabalhadores começaram a ter iniciativas que ultrapassavam os limites de uma greve normal. Um elemento fundamental na equação foram os meios de comunicação de massas. Formalmente, são armas poderosas nas mãos do Estado, mas também dependem dos trabalhadores, que fazem funcionar as emissoras de rádio e televisão. No dia 25 de maio a rádio televisão estatal, a Office de Radiodiffusion-Télévision Française (ORTF) entrou em greve. Suprimiram as notícias das oito da noite. Os gráficos e jornalistas impuseram uma espécie de controle operário sobre a imprensa. Os jornais burgueses tinham que submeter seus editoriais ao escrutínio e deviam publicar as declarações dos comitês de trabalhadores. A Assembleia Nacional discutiu a crise universitária e as batalhas do “Bairro Latino”. Porém, os debates nos salões da assembleia já eram irrelevantes. O poder havia escapado das mãos dos legisladores e agora estava nas ruas. No dia 24 de maio, o presidente De Gaulle anunciou o referendo no rádio e na televisão. O plano de Charles De Gaulle de celebrar um referendo foi frustrado pela ação social sindicalizada organizada setorialmente pelos trabalhadores.

As greves e ocupações de empresas multiplicam-se a partir de 13 de maio e aumentam, diariamente durante semanas. A 20 de maio, uma semana depois, o número de grevistas será entre 7 e 9 milhões de trabalhadores, o número de dias de greve durante este período é de 150 milhões, segundo as estatísticas. Mais de 4 milhões de pessoas estarão em greve durante três semanas, mais de dois milhões durante um mês. A Sorbonne estará ocupada durante um mês. Nesta conjuntura de crise de hegemonia efetuam-se negociações variadas e serão assinados os acordos de Grenelle em 27 de maio, entre o governo de Pompidou, o patronato e as centrais sindicais. São aprovados um aumento de 35% do salário mínimo e de 10%, em média, para os restantes níveis salariais. É também aprovada a possibilidade de criação de secção sindical em cada empresa. Os acordos não tiveram, no entanto, significativo impacto nas greves e ocupações, que se irão manter até à dissolução da Assembleia Nacional, a 29 de maio, e à realização da manifestação de apoio ao governo a 30 de maio. O Parti Communiste Français (PCF), curiosamente, opôs-se desde início das barricadas ao movimento estudantil e a sua principal preocupação foi acabar com a agitação política e a crise. É um dos partidos políticos historicamente mais tradicionais da França. Liderado atualmente por Fabien Roussel como Secretário Nacional, o partido foi fundado em 1920 e defende uma plataforma de esquerda baseada na justiça social, na transição ecológica e na valorização do trabalho.

O campo militar passou então a funcionar em paralelo com os campos civis. Após a assinatura do armistício, a França foi dividida em duas. A zona livre, na qual os Pirenéus Orientais estavam incluídos ficou sob a administração do governo de Vichy, um colaboracionista francês liderado pelo marechal Philippe Pétain, estabelecido na cidade homônima entre 1940 e 1944. Gradualmente, o campo de Joffre tornou-se um local de internamento para famílias de ciganos, judeus e refugiados espanhóis. Com capacidade para 8.000 pessoas, em pouco tempo o campo ficou superlotado, famílias foram separadas e as condições deterioraram-se drasticamente. Quando os primeiros internos chegaram em 14 de janeiro de 1941, o status do campo ainda não estava definido. Inicialmente planejado para um máximo de 17.000, o campo incluía 150 grandes barracões com capacidade para 10.000 pessoas. Em 31 de maio de 1941, o campo abrigava 6.475 internos de 16 nacionalidades; espanhóis constituíam mais da metade deles, e refugiados judeus de outros países, mais de um terço. Às cinco horas da manhã de 26 de agosto de 1942, os judeus estrangeiros da zona sul foram reunidos e levados para o Centre National de Rassemblement des Israélites em Rivesaltes. Este “centro” havia sido recentemente estabelecido no campo, dividido em blocos J ​​(para mulheres e crianças), F (para homens; este bloco era anteriormente reservado para trabalhadores) e K (recepção, triagem e classificação). Foi planejado estrategicamente como um “campo de trânsito” para um total de 10.000 internos, que seriam alojados ali por 15 dias antes de serem deportados.

Os 1.176 judeus que já estavam no campo antes da reunião foram incluídos nessa contagem. Os comboios partiram de Rivesaltes para o campo de internamento de Drancy em 11 de agosto (400 pessoas), 23 de agosto (175 pessoas), 1 de setembro (173 pessoas), 4 de setembro (621 pessoas), 14 de setembro (594 pessoas), 21 de setembro (72 pessoas), 28 de setembro (70 pessoas), outubro (101 pessoas) e 20 de outubro (107 pessoas). Serge Klarsfeld chamou o campo de Rivesaltes de “o Drancy da zona livre”, observando que de 4 de setembro a 22 de outubro ele desempenhou o mesmo papel que o campo de Drancy, foi um infame campo de concentração temporário na cidade de Drancy, poucos quilômetros ao Norte de Paris, França. Foi usado durante a ocupação da França pelos alemães na Segunda Guerra Mundial, na zona ocupada: um campo de trânsito para deportados cujo destino final eram os campos de extermínio. Rivesaltes foi, o campo onde os judeus presos na chamada “zona livre” foram reunidos e de onde muitos deles (cerca de 1.700) foram enviados para o próprio Drancy. Em novembro de 1942, quando a Alemanha invadiu a zona Sul da França, até então desocupada, as tropas alemãs se instalaram no Campo Joffre, que foi fechado como “campo de internação” em 25 de novembro. Havia 277 funcionários quando foi fechado. Durante esses dois anos, o campo de Rivesaltes abrigou cerca de 21.000 internos; 5.714 deles foram internados no “campo especial” ou campo de trânsito, dos quais 2.313 foram enviados para Drancy e 2.251 excluídos da deportação pelo comitê de triagem. Outros 215 internos morreram no campo, incluindo 51 crianças de um ano ou menos.

        

Diane Kurys dirigiu vários filmes vagamente baseados na vida de seus pais, vistos pelos olhos da jovem Kurys e de sua irmã mais velha. Entre eles (em ordem cronológica): Coup de Foudre (1983) — o encontro de seus pais; Pour Une Femme (2013) — os primeiros anos de casamento; La Baule-les-Pins (1990) — a separação; e Diabolo Menthe (1977) — as duas irmãs e sua mãe em uma família monoparental. No início da década de 1980, Anne e Tania acabavam de perder a mãe. Mergulhando nos escritos, fotos e memórias deixados por ela, Anne, cineasta, descobriu e reconstruiu os primeiros anos do casamento de seus pais. Durante a Segunda Guerra Mundial, Michel, um judeu francês, casa-se por amor com Léna, uma judia estrangeira internada em Rivesaltes. Essa união permite que ela escape do campo. Após a guerra, Léna, Michel e sua filha pequena, Tania, vivem felizes em Lyon, entre a alfaiataria de Michel e a célula local do Partido Comunista. Um dia, Jean, o irmão mais novo de Michel, entra em suas vidas. Ele estava em um acampamento de verão na União Soviética quando a guerra começou, e Michel acreditava que ele fosse uma vítima do Holocausto, como seus pais. 

Gradualmente, um amor apaixonado se desenvolve entre Léna e Jean. Mas Jean é uma figura misteriosa, na verdade um agente secreto do recém-criado Estado de Israel. Sua missão é assassinar ex- nazistas que fogem para a América do Sul; ele e seu superior, Sacha, estão sendo perseguidos pela polícia francesa. É enquanto o ajuda a preparar sua fuga que Léna se entrega a Jean. Michel, tomado pela dor, concorda em levar seu irmão até a fronteira italiana para garantir sua fuga. Tendo trazido seu passaporte e o da esposa, ele propõe a Léna que ela parta com Jean, como marido e mulher; mas Léna fica. Na primavera seguinte, nasce Anne. O parêntese se fecha e a vida cotidiana pode recomeçar. Construída sob o signo de ruptura, não queremos perder de vista, sociologicamente falando, que a obra de Michel Foucault subverteu, transformou, amplificou nossa relação social com o saber e a verdade institucionalizada. Será preciso balizar: a perversidade da economia do poder e não tanto a fraqueza ou a crueldade é o que ressalta da crítica dos seus reformadores. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política de coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o desarticula e o recompõe. A divisão do trabalho não visa o aprofundamento das relações técnicas, mas a penas seu quadriculamento: uma disciplina linear das pesquisas.

    Mesmo de corte etnográfico, fabrica corpos submissos e exercitados, os chamados “corpos dóceis”. A disciplina aumenta as forças em termos econômicos de utilidade e diminuem essas mesmas forças em termos políticos de obediência programada. É neste sentido que Michel Foucault ressalta que o espaço disciplinar tende a se dividir em tantas parcelas quando corpos ou elementos há a repartir. A disciplina organiza o espaço analítico. Lugares determinados se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil, um dispositivo que afixa e quadricula, decompondo a confusão da ilegalidade e do princípio do mal. Na disciplina, os elementos são intercambiáveis, pois cada um se define pelo lugar que ocupa na série, e pela distância que o separa dos outros. A unidade não é, portanto, nem o território (unidade de dominação), nem o local (unidade de residência), mas a posição na fila, o lugar que alguém ocupa numa classificação, o ponto em que se cruzam uma linha e uma coluna, o intervalo numa série de intervalos que se pode percorrer sucessivamente. A disciplina, arte de dispor em fila, e da técnica, para a transformação dos arranjos, individualiza os corpos pela localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações. A organização de um espaço serial representou uma das grandes modificações técnicas do ensino elementar. Permitiu ultrapassar o sistema tradicional: um aluno que trabalha alguns minutos com o professor, enquanto fica ocioso e sem vigilância o grupo confuso dos que estão esperando.

   

Determinando lugares individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma “máquina de ensinar”, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar. O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles minuciosos do poder. O controle disciplinar não consiste simplesmente em ensinar ou impor uma série de gestos definidos; impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto dos recursos multimodais (aspectos verbais, gestos, corpo e mundo material) com rigor abrangendo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador. A aprendizagem corporativa com a utilização de bolsistas, introduzidas pelas castas que formam pequenos grupos de pesquisas nas universidades públicas, surgiu originalmente em 1667, confiados certo tempo a um mestre que devia realizar “sua educação e instrução”, depois colocados para a aprendizagem junto aos diversos mestres tapeceiros da manufatura; após seis anos de aprendizagem, quatro anos de serviço e uma prova qualificatória, tinham direito a “erguer e manter loja” em qualquer cidade do reino.

Encontramos aí a divisão técnica do trabalho corporativo: relação de dependência ao mesmo tempo individual e total quanto ao mestre; duração estatutária da formação que se conclui com uma prova qualificatória, mas que não se decompõe segundo um programa preciso; troca total entre o mestre que deve dar seu saber e o aprendiz que deve trazer seus serviços, sua ajuda mútua e muitas vezes uma retribuição. A forma de domesticidade se mistura a uma transferência de conhecimento. A escola é dividida em três classes. A primeira para os que não têm nenhuma noção de desenho; a segunda para os que já têm alguns princípios e, na terceira, aprendem as cores, fazem pastel, iniciam-se na teoria e na prática do tingimento. Regularmente, os alunos fazem deveres individuais: cada um desses exercícios, marcado com o nome e a data da execução, é depositado nas mãos do professor. Os melhores são recompensados, reunidos no fim do ano e comparados entre eles, permitem estabelecer os progressos, o valor atual, o lugar relativo de cada aluno, e os que podem seguir para a classe superior. Em resumo, pode-se dizer historicamente que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla quatro tipos de individualidade, ou antes, uma individualidade dotada de quatro características: é celular, pelo jogo da repartição espacial, é orgânica, pela codificação das atividades, é genética, pela acumulação do tempo, é combinatória, pela composição das forças.

E, para tanto, essencialmente utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza táticas. Esta representa a arte de construir, com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática disciplinar. Uma técnica extensiva utilizada nos laboratórios das universidades. É possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política. A política, como técnica da paz e da ordem interna, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento na manobra e no exercício. Se há uma série guerra-política que passa pela estratégia, há uma série exército-política que passa pela tática. A vigilância se torna um operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar. Na essência de todos os sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo penal.                        

É beneficiado por uma espécie de privilégio de justiça, com suas leis próprias, seus delitos especificados, suas formas particulares de sanção, suas instâncias de julgamento. As disciplinas estabelecem uma infrapenalidade, quadriculam um espaço deixado pelas leis, qualificam e reprimem um conjunto de comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa indiferença. Na oficina, na escola, no exército, funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes incorretas, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, uma série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues de conduta social, e de dar uma função punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora.

Mas a disciplina traz consigo uma maneira específica de punir, e que é apenas um modelo reduzido do tribunal. O que pertence à penalidade disciplinar é a inobservância, tudo o que está inadequado à regra, tudo o que se afasta dela, os desvios. É passível de pena o campo indefinido do não conforme. O regulamento da infantaria prussiana impunha tratar com “todo o rigor possível” o soldado que não tivesse  aprendido a manejar corretamente o fuzil. O castigo disciplinar tem a função de reduzir os desvios. Deve, portanto, ser essencialmente corretivo. De modo que o efeito corretivo que dela se espera apenas de uma maneira acessória passa pela expiação e pelo arrependimento; é diretamente obtido pela mecânica de um castigo. Castigar é exercitar. Ipso facto, o exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar, punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados. Em todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado. Nele vêm-se reunir a cerimônia do poder. A forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade. O indivíduo é o átomo fictício de uma representação social. É uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder: a disciplina.

   O panóptico de Bentham, é uma máquina de dissociar o par-ser-visto: no anel periférico, se é totalmente, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto, pois é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é reconhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre: esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber a torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades que permitem “ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções – trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e se suprime duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha” (cf. Foucault, 2014: 194).

Bentham não diz se se inspirou, em seu projeto, no zoológico que Le Vaux construíra em Versalhes: primeiro zoológico cujos elementos não estão, como tradicionalmente, espalhados em um parque: no centro, um pavilhão octogonal que, no primeiro andar, só comportava uma peça, o salão do rei; todos os lados se abriam com largas janelas, sobre sete jaulas (o oitavo lado estava reservado para a entrada), onde encerradas diversas espécies de animais. O panóptico descrito pela analítica do poder, é um zoológico real; o animal é substituído pelo homem, a distribuição individual pelo grupamento específico e o rei pela maquinaria de um poder furtivo. Fora essa diferença, o Panóptico, também, faz um trabalho de naturalista. Permite estabelecer as diferenças: nos doentes, observar os sintomas de cada um, sem que a proximidade dos leitos, a circulação dos miasmas, os efeitos do contágio misturem os quadros clínicos; nas crianças, anotar os desempenhos (sem que haja limitação ou cópia), perceber as aptidões, apreciar os caracteres, estabelecer classificações rigorosas e, em relação a uma evolução normal, distinguir o que é “preguiça ou teimosia” do que é “imbecilidade incurável”; nos operários, anotar as aptidões de cada um, comparar o tempo que levam para fazer um serviço, e, se são pagos por dia, calcular seu salário em vista disso. Mas o panóptico pode ser utilizado como uma “máquina de fazer experiências”, modificar o comportamento, treinar ou retreinar os indivíduos. Experimentar remédios e verificar seus efeitos.

Tentar diversas punições sobre os prisioneiros, segundo seus crimes e temperamento, e procurar as mais eficazes. Ensinar simultaneamente diversas técnicas aos operários, estabelecer qual é a melhor. Tentar experiências pedagógicas – e particularmente abordas o famoso problema da educação reclusa, usando crianças encontradas ; ver-se-ia o que acontece quando aos dezesseis ou dezoito anos rapazes e moças se encontram; poder-se-ia acompanhar “a genealogia de qualquer ideia observável”; criar diversas crianças em diversos sistemas  de pensamento, fazer alguns acreditarem que dois e dois são quatro e que a lua é um queijo, depois de juntá-los todos quando tivessem vinte ou vinte e cinco anos; haveria então discussões que valeriam bem os sermões ou as conferências para as quais se gasta tanto dinheiro: haveria pelo menos ocasião de fazer descobertas no campo da metafísica. O Panóptico é um local privilegiado para tornar possível a experiência com homens, e para analisar com toda certeza as transformações que se pode obter neles. Mais do que isso: pode até se constituir em aparelho de controle, pois em sua torre, o diretor pode inspecionar todos os empregados submetidos a seu serviço; poderá julgá-los continuamente, modificar seu comportamento, impor-lhes métodos que considerar melhores; e ele mesmo, por sua vez, poderá ser facilmente observado. O Panóptico funciona como uma espécie de Laboratório de poder. Através da observação, ganha em eficácia e em capacidade de penetração no corpo dos homens: um aumento de saber vem se implantar em todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser conhecidos em todas as superfícies de saber-poder.

  Em cada uma de suas aplicações, na esfera da ação individual e coletiva, permite aperfeiçoar o exercício do poder de várias maneiras: porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo em que multiplica o número daqueles sobre os quais é exercido. Permite intervir a cada momento e a pressão constante age antes mesmo que as faltas, os erros, os crimes sejam cometidos. Porque, nessas condições, sua força é nunca intervir, é se exercer espontaneamente e sem ruído. É construir um mecanismo de efeitos em cadeia. Porque é um intensificador para qualquer aparelho de poder: assegura sua economia (em material, em pessoal, em tempo); assegura sua eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus mecanismos automáticos. É uma maneira astuciosa de obter poder. É uma espécie de “ovo de Colombo” na ordem da política. Ele cria dispositivos discursivos com efeitos de vir se integrar a uma função qualquer, de educação, de terapêutica, de produção, de castigo; de aumentar essa função, ligando-se intimamente a ela; de construir um mecanismo misto no qual as relações de poder (e de saber) podem-se ajustar exatamente, e até nos detalhes, aos processos que é preciso controlar; de estabelecer uma proporção direta entre o “mais-poder” e a “mais produção”. 

Enfim, o dispositivo panóptico não é simplesmente uma charneira. Um local de trocas simbólicas e experimentais entre um mecanismo de poder e uma função. É capaz de reformar a moral, preservar a saúde, revigorar a indústria, difundir a instrução, aliviar os encargos públicos, estabelecer a economia como que sobre um rochedo, desfazer, em vez de cortar, tudo isso com uma simples ideia arquitetural. Na realidade, qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada quanto aquelas controladas por uma casta, poderá sem dificuldade ser submetida ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público, que pode ser agregado à analítica do poder, como membro da sociedade com direito de vir constatar com seus olhos como funcionam as universidades, os hospitais, as fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento de poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania, pois a máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder disciplinar poderá ser democraticamente controlado, com a redução de mandato colocaria em xeque como função estabelecer as diretrizes, objetivos e metas de médio prazo da administração pública. Não queremos perder de vista que o panoptismo é o princípio geral de uma nova “anatomia política”, cujo objeto e fim não são as relações de soberania do Eu. São relações de disciplina-bloco, na constituição de uma instituição fechada, entorpecida pelo ódio e pré-estabelecida à margem, mormente voltada para funções negativas: realizar para o mal, romper as comunicações, suspender o tempo.    

Bibliografia Geral Consultada.

LENAIN, Thierry (Org.), L’Image: Deleuze, Foucault, Lyotard. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1997; BOITEL, Anne, Le Camp de Rivesaltes 1941-1942. Perpignan: Presses Universitaires de Perpignan, 2001; PESCHANSKI, Denis, La France des Camps. Paris: Éditions Gallimard, 2002; LÉVINAS, Emmanuel, Éthique Comme Philosophie Première. Paris: Éditions Payot & Rivages, 1998; Idem, Difícil Libertad: Ensayos sobre el Judaísmo. Madrid: Caparrós Editores, 2004; BURGER, Peter, Teoria da Vanguarda. São Paulo: Editor Cosac & Naify, 2008; DEWEY, John, A Arte como Experiência. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; PASSOS, Helder Machado, Relação entre Ética e Política no Pensamento de Emmanuel Levinas. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2012; BERMAN, Marshall, Tutto Ciò Che è Solido Svanisce Nell'aria. L`esperienza Della Modernità. Bologna: Editore Il Mulino, 2012; ARCHER, Michael, Arte Contemporânea. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013; MAIDA, Bruno, La Shoah dei Bambini. La Persecuzione dell’infanzia hebraica in Italia, 1938-1945. Torino: Einaudi Editore, 2013; MILLER, Jeannette E., “Um Campo para Estrangeiros e Alienígenas: O Exílio dos Harkis no Campo de Rivesaltes (1962–1964)”. In: Política, Cultura e Sociedade Francesas, 2013; 31 (3): 21–44; LEFEBVRE, Michel, “Mémorial de Rivesaltes: Se Souvenir des Camps Français”. In: Le Monde, 25 de setembro de 2015; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42. ed. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; Idem, Isto não é um cachimbo. 7ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2016; DE SALVADOR AGRA, Saleta, “Viendo el Sentido: Similitudes y Juegos Sígnicos en Magritte”. In: Revista Signa. Vigo: Universidade de Vigo, 27 (2018), pp. 1023-1042; ACHILLE, Etienne; FORSDICK, Charles; MOUDILENO, Lydie, Domínios Pós-coloniais da Memória: Locais e Símbolos na França Moderna. Reino Unido: Liverpool University Press, 2020; OLIVEIRA, Daniela Vale de Monoparentalidade Feminina e Socialização dos Filhos: Um Estudo com Famílias em Situação de Vulnerabilidade Social. Dissertação de Mestrado em Educação. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Mariana: Universidade Federal de Ouro Preto, 2020; FELINTO, Jislayne Fidelis e outros, “Ser mãe solo no Brasil: um panorama dos desafios em diferentes contextos sociais”. In: Revista Delos. Curitiba, vol.19, n°79, pp. 01-25, 2026; entre outros.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Annette Kellerman - Escritora & Atriz de Cinema, Estrela de Vaudeville.

                     Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror”. Charles Chaplin  (1889-1977)  

          

            Os filmes de arte surgiram na França, em 1908, por iniciativa do empresário Paul Laffitte (1864-1949), que fundou a Le Film d`Art com a intenção de levar os intelectuais ao cinema. Para isso, a empresa realizou versões cinematográficas de obras literárias de autores famosos, como Charles Baudelaire, Émile Zola, Victor Hugo, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Molière e outros. Louis Feuillade, diretor do estúdio Gaumont, se opõe a esse tipo de intelectualismo e leva seu estúdio a produzir cerca de 80 filmes por ano em todos os gêneros, incluindo comédias, dramas do cotidiano, épicos e melodramas, mas foram seus filmes seriados sobre crimes que o levaram à fama na França e nos Estados Unidos. Filme de arte é um termo que comumente se refere a produções cinematográficas quase que tipicamente “independentes” e voltadas a um nicho condicionado de mercado. Em oposição a obras de caráter hollywoodiano, que são direcionadas ao grande público de mercado, o “filme de arte” é pretendido ser um trabalho sério, artístico, muitas vezes experimental e não projetado para o apelo de massa, feito principalmente por razões estéticas em vez de lucro comercial, e contém conteúdo não convencional ou altamente simbólico. O termo é usado na América do Norte, Reino Unido e Austrália, comparado ao resto da Europa, onde está associado a filmes autorais e ipso facto, ao cinema nacional. Suspense, para o que nos interessa, representa um sentimento de incerteza ou ansiedade mediante as consequências de um fato social, mas à perceptividade da audiência em um trabalho de teor dramático.

          Não é, porém, uma exclusividade da ficção, pode ocorrer em qualquer situação onde há a possibilidade de um grande evento ou um momento dramático, com a tensão como emoção primária mediante a situação. Em uma definição mais ampla do suspense, tal emoção surge quando alguém está preocupado com sua falta de conhecimento sobre o desenvolvimento de um evento significativo; assim o suspense seria, então, a combinação da antecipação com a lide da incerteza e obscuridade do porvir. Toda ideia de suspense ou, mais precisamente, narrativa tensional, não tem boa reputação no campo da literatura tradicional, considerada por alguns como um aspecto social dinâmico do roteiro. Meir Sternberg, em uma visão retórica-funcionalista, considera o suspense como um dos vários componentes de interesse da narração. De acordo com ele, a narração pode ser definida como a interação entre suspense/curiosidade/surpresa e o tempo abstrato de comunicação per se em qualquer combinação, qualquer meio, qualquer manifesto ou forma latente. Nas mesmas linhas funcionais, ele define a narrativa como um discurso onde essa interação domina: a narratividade, então, ascende de um possível detalhe ou papel secundário, ao status de princípio regulador, o primeiro entre as prioridades de contar/ler. Nessa concepção, suspense pode ser o oposto de curiosidade, porque precisa de uma narração cronológica. o interesse estando na obscuridade do futuro, enquanto o segundo cria mistério modificando a ordem de exposição dos eventos, numa teleologia da narração.

Vaudeville representou um gênero de entretenimento de variedades culturais predominante nos Estados Unidos da América e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Desenvolvendo-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, “circos de horror”, museus populares e literatura burlesca, o vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento e também entretenimento teatral dos Estados Unidos. A cada noite, uma série de números era levada ao palco, sem nenhuma relação direta entre eles, como músicos tanto clássicos quanto populares, dançarinas ou dançarinos, comediantes, animais variados treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças inteiras em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e também filmes o que seria representaria um circo. Na França, o vaudeville foi um gênero de poesia e composição dramática muito popular. O uso de drama em um sentido mais restrito para designar um tipo específico de peça data da Era Moderna. Drama, neste sentido, refere-se qualitativamente a uma peça tetral que não é comédia nem tragédia, como Thérèse Raquin (1873) de Émile Zola ou Ivanov (1887) de Chekhov. É esse sentido que as indústrias cinematográficas in statu nascendi e televisiva, juntamente com a filmologia, adotaram para descrever o drama como um gênero dentro de suas respectivas mídias. O termo drama radiofônico tem sido usado em ambos os sentidos, originalmente transmitido em uma apresentação ao vivo.  

                                


Também pode ser com utilidade de uso (cf. Marx, 2013) para se referir ao final mais intelectual e sério da produção dramática do rádio. A encenação do drama no teatro, realizada por atores em um palco diante de uma plateia, pressupõe modos de produção colaborativos e uma forma coletiva de recepção. A estrutura dos textos dramáticos, ao contrário de outras formas de literatura, é diretamente influenciada por essa produção colaborativa e recepção coletiva. A mímica é uma forma de drama onde a ação de uma história é contada apenas através do movimento corporal. O drama pode ser combinado com a música: o texto dramático na ópera é geralmente cantado; como em alguns balés, a dança “expressa ou imita emoção, caráter e ação narrativa”. Os musicais incluem diálogos falados e canções; e algumas formas específicas de drama autenticidadde detêm música incidental ou acompanhamento musical enfatizando o diálogo como ocorre historicamente no melodrama e japonês Noh, por exemplo. É uma palavra sino-japonesa para habilidade é uma importante forma de dança-drama clássica japonesa, apresentada desde o século XIV. É a mais antiga arte teatral importante do Japão ainda encenada com certa regulariedade. É frequentemente baseado em contos da literatura de fato tradicional, apresentando um ser sobrenatural transformado em um herói humano que narra a história.

O Noh integra máscaras, figurinos e diversos adereços em uma performance baseada na dança, exigindo atores e músicos altamente treinados. As emoções são transmitidas principalmente por gestos convencionais estilizados, enquanto as máscaras icônicas representam papéis específicos, como fantasmas, mulheres, divindades e demônios. Com forte ênfase na tradição em vez da inovação, o Noh é altamente codificado e regulamentado pelo sistema iemoto. Embora os termos Noh e nōgaku sejam às vezes usados ​​como sinônimos, nōgaku engloba tanto o Noh quanto o kyōgen . Tradicionalmente, um programa completo de nōgaku incluía várias peças de Noh com peças cômicas de kyōgen entre elas; um programa abreviado com duas peças de Noh e uma de kyōgen tornou-se comum. O kanji para Noh significa “habilidade”, “arte” ou “talento”, particularmente no campo das artes cênicas neste contexto. A palavra Noh pode ser usada sozinha ou com gaku entretenimento, música) para formar a palavra nōgaku. Noh é uma tradição clássica muito valorizada atualmente. Quando usado sozinho, Noh se refere ao gênero histórico de teatro que se originou do sarugaku em meados do século XIV e continua a ser apresentado. Um dos precursores mais antigos do Noh e do kyōgen é o sangaku, que foi introduzido no Japão vindo da China no século VIII. O termo sangaku se referia a vários tipos de apresentações com acrobacias, canto e dança, bem como esquetes cômicas. Sua adaptação subsequente à sociedade japonesa levou à assimilação de outras formas de arte tradicionais. 

   

Vários elementos de artes cênicas no sangaku, bem como elementos do dengaku (celebrações rurais realizadas em conexão com o plantio de arroz), sarugaku  (entretenimento popular incluindo acrobacias, malabarismo e pantomima), shirabyōshi (danças tradicionais realizadas por dançarinas na Corte Imperial no século XII), gagaku (música e dança realizadas na Corte Imperial a partir do século VII) e kagura (danças xintoístas antigas em contos populares) evoluíram para o Noh e o kyōgen. Estudos sobre a genealogia dos atores de Noh no século XIV indicam que eles eram membros de famílias especializadas em artes cênicas. Segundo a lenda, a Escola Konparu, considerada a tradição mais antiga do Noh, foi fundada por Hata no Kawakatsu no século VI. No entanto, o fundador da Escola Konparu, amplamente aceito entre os historiadores, foi Bishaō Gon no Kami (Komparu Gonnokami) durante o período Nanboku-chō, no século XIV. De acordo com a árvore genealógica da Escola Konparu, Bishaō Gon no Kami é um descendente após 53 gerações de Hata no Kawakatsu. A Escola Konparu descendia da trupe sarugaku, que desempenhou papéis ativos em Kasuga-taisha e Kofuku-ji, na província de Yamato. 

Outra teoria, de Shinhachirō Matsumoto, sugere que o Noh se originou de párias que lutavam para reivindicar um status social mais elevado, servindo aos poderosos, ou seja, à nova classe samurai dominante da época. A transferência do xogunato de Kamakura para Kyoto no início do período Muromachi marcou o crescente poder da classe samurai e fortaleceu a relação entre o xogunato e a corte. Como o Noh se tornou a forma de arte favorita do xogum, ele pôde se tornar uma forma de arte cortesã por meio dessa relação recém-formada. No século XIV, com forte apoio e patrocínio do xogum Ashikaga Yoshimitsu, Zeami conseguiu estabelecer o Noh como a forma de arte teatral mais proeminente. Annette Marie Sarah Kellerman nasceu em Marrickville, em 6 de julho de 1886 e faleceu em Southport, em 5 de novembro de 1975. Foi uma nadadora e mergulhadora campeã australiana profissional, atriz de cinema e vaudeville, escritora e empresária. Uma pioneira na utilização do fato de banho de uma peça só e criação do maiô até hoje é atribuída a ela. Annette também foi a primeira australiana a atuar em um filme mudo nos Estados Unidos. Filha do violinista Frederick William Kellerman e sua esposa Francesca Alice Ellen Charbonnet, professora de música e piano, Annette foi diagnosticada com raquitismo aos 6 anos o que exigiu o uso doloroso de cintas de aço para poder andar. A fim de continuar o tratamento, seus pais colocaram-na em aulas de natação para fortalecer suas pernas, em Sydney. Com a idade de 13 anos, suas pernas estavam praticamente normais, e com 15, ela já havia dominado todos os segredos da natação. Nesta idade também ganhou sua primeira prova. Nessa época, ela também estava competindo em provas de saltos ornamentais. Em 1902, Kellerman decidiu levar entrar para a natação profissional e posteriormente, ganhou as provas de 100 jardas e a milha de Nova Gales do Sul no tempo recorde de 1minuto, 22 segundos, e de 33 minutos, 49 segundos.

            Em 24 de agosto de 1905, com 18 anos, Annette Kellerman se mudou para Londres e foi a primeira mulher a tentar atravessar a nado o Canal da Mancha. Apesar de não ter conseguido tal feito, Annette foi noticiada por sua ousadia não só na travessia, mas também em sua roupa de natação que, assim como as masculinas, deixavam as pernas à mostra. Kellerman ficou famosa por defender os direitos de as mulheres usarem maiôs de uma peça, o que não era aceito na época de extremo conservadorismo. De acordo com um jornal australiano: “No início de 1900, as mulheres usavam pesadas combinações e calças quando nadavam. Em 1907, no auge da popularidade, Kellerman foi presa em Revere Beach, Massachusetts, por atentado ao pudor por usar um de seus maiôs de uma peça. A popularidade de seus maiôs resultou na sua criação própria marca com uma linha de roupa de banho específico para mulheres. Os maiôs “Annette Kellermans”, como eram reconhecidos, foram o primeiro passo para as roupas de banho femininas modernas. Em 1912, Kellerman casou-se com seu empresário, James Raymond Louis Sullivan, em Danbury, Connecticut. Depois de sua tentativa de atravessar o Canal, Annette ganhou a corrida de 7 milhas “Nado em Paris Através do Sena”, derrotando 16 homens. O evento contou com meio milhão de espectadores, a maior audiência já vista em uma corrida de natação. Annette também desafiou e venceu Walpurga von Isacescu, a mais conhecida nadadora austríaca, em uma corrida de 22 milhas no Danúbio de Tuin até Viena. Annette Kellerman também era vegetariana e advogava um estilo de vida saudável. 

Quando sua carreira no cinema começou a acabar, ela se torna dona de uma loja de alimentação natural em Long Beach, Califórnia. Ela e seu marido voltaram a morar na Austrália em 1970, e em 1974, foi homenageada pelo International Swimming Hall of Fame em Fort Lauderdale, Flórida. Ela permaneceu ativa até uma idade avançada, continuando a nadar e a fazer exercícios até pouco tempo antes de sua morte. Ela morreu em um hospital em Southport, Queensland, Austrália, em 5 de novembro de 1975, aos 89 anos e foi cremada seguindo ritos católicos. Suas cinzas foram espalhadas na Grande Barreira de Corais. Ela não deixou filhos. Em 1916, Kellerman foi a primeira australiana a atuar em Hollywood e também foi a primeira grande atriz a fazer uma cena de nudez, quando ela apareceu no filme A Daughter of the Gods. Realizado pela Fox Film Corporation. Este também foi o primeiro filme com uma produção envolvendo merceologicamente de milhões de dólares. A maioria dos filmes de Kellerman tinham temas de aventuras aquáticas devido a suas capacidades extraordinárias de mergulho e natação. Disciplinada ela era seu próprio dublê, realizando cenas perigosas, incluindo um mergulho de 28 metros no mar e 18 metros em uma piscina de crocodilos. 

Muitas vezes ela representava sereias que recebiam seu nome próprio ou variações dele. Seus “filmes de conto de fadas”, como ela chamava, começaram com The Mermaid, no qual ela foi a primeira atriz a vestir um traje de sereia que lhe permitisse nadar no filme, abrindo o caminho para outras atrizes nadadoras que estrelaram em filmes com este tema em Hollywood, como Glynis Johns e Esther Williams.  Ela também desenvolveu seus próprios trajes de natação de sereia e, por vezes ela mesmo os fabricava. Depois de 5 filmes, Annette retornou ao Hipódromo de Nova Iorque com “o maior espetáculo de sereia já visto no palco”. Sua vida é retratada nas telas e interpretada por Esther Williams no filme Million Dollar Mermaid (1952). Kellerman participou em um dos últimos filmes feitos em Prizma Color, Venus of the South Seas, uma coprodução EUA/Nova Zelândia, onde um trecho do filme colorido de 55 minutos, foi filmado embaixo d`água. O filme Venus of the South Seas foi restaurado pela Biblioteca do Congresso estadunidense em 2004 e é o único longa-metragem estrelado por Annette Kellerman que existe em sua forma completa. Além dos filmes e a carreira no teatro, Kellerman escreveu vários livros incluindo, How To Swim (1918), Physical Beauty: How to Keep It (1919), e um livro de histórias infantis Fairy Tales of the South Seas (1926) e My Story, uma autobiografia não publicada. Ela também escreveu numerosos folhetos para correspondência sobre saúde, beleza e fitness.

Em 2016, Pénélope Bagieu desenhou a sua biografia que foi publicada com outras mulheres no livro Les Culottées, publicado em Portugal com o título Destemidas, nome que também foi dado à série de animação transmitida pela RTP, Rádio e Televisão de Portugal (RTP). MHIH é uma empresa pública portuguesa que inclui estações de rádio e televisão públicas. Antes do ano de 2004, a Radiodifusão Portuguesa (RDP) e a Radiotelevisão Portuguesa (RTP), empresas públicas de rádio e televisão respetivamente, estavam separadas e eram entidades jurídicas independentes e distintas. Em 2004, foram reestruturadas e fundidas numa única empresa pública, prestadora do serviço público, a Rádio e Televisão de Portugal. Desde então, a sigla RTP passou a designar o grupo inteiro de Rádio e Televisão de Portugal. Kellerman deixou uma extensa filmografia, além de sua grande coleção de roupas de natação e material teatral como herança para o Sydney Opera House. Atualmente, grande parte de suas peças de natação originais e itens pessoais estão no museu do Powerhouse Museum em Sydney, Austrália. Em 2002, sua vida é tema do documentário australiano premiado chamado The Original Mermaid. Em 2010, um complexo de natação em Marrickville recebeu o seu nome. Annette também tem uma estrela com seu nome na Calçada da Fama, em Hollywood Boulevard, é uma calçada ao longo das ruas Hollywood Boulevard e Vine Street em Hollywood, Califórnia, Estados Unidos da América, constituído por mais de 2 000 lajes com estrelas, fazendo menção a celebridades honradas pela Câmara do Comércio de Hollywood pelas suas contribuições para a indústria do entretenimento. Gene Autry e Britney Spears são exemplos destacados na Calçada da Fama: ele por ser a única pessoa com estrelas em todas as cinco categorias e ela por ser a pessoa mais jovem a receber uma, com apenas 21 anos.

Annette Kellerman é considerada a primeira estrela - masculina ou feminina - a aparecer nua em uma grande produção de Hollywood. O drama A Daughter of the Gods (“Uma Filha dos Deuses”) teve a atriz no papel de Alícia, uma mulher que se apaixona por um príncipe e pede ajuda dos habitantes da Terra dos Gnomos. O elenco do filme mudo incluiu um sultão, uma Bruxa do Mal, uma Fada do Bem, e diversos eunucos. Acredita-se que não existam mais cópias da produção, mas os arquivos dos jornais demonstram que houve grande interesse. Quando A Daugther of the Gods estreou na Austrália, o país natal de Kellerman, uma revista local exaltou o filme ao dizer que aqueles que não o viram “tinham perdido um dos maiores eventos na história” australiana. Mas se foi inédito para a Hollywood, o filme foi apenas um de uma série de eventos notáveis na vida de Kellerman. Campeã de natação, pioneira do teatro vaudeville, estilista de trajes de banho, dublê e guru de saúde e boa forma. – “Ela simbolizava o corpo feminino em forma, ativo e espetacular. Ela conclamou outras mulheres a jogar fora seus corpetes e investir numa vida saudável”, diz Angela Woolacott, historiadora da Universidade Nacional da Austrália. “Algumas pessoas a viram como um ícone da feminilidade moderna”. 

Um filme mudo não possui a trilha sonora de acompanhamento que corresponde às imagens exibidas, sendo esta lacuna substituída normalmente por músicas ou rudimentares efeitos sonoros executados no momento da exibição. Nos filmes mudos para o entretenimento, o diálogo é transmitido através de gestos suaves, mímica e letreiros explicativos. A ideia de combinar filmes com sons gravados é quase tão antiga quanto o próprio cinema, mas antes do fim dos anos 1920, os filmes eram mudos em sua maior parte, devido à inexistência de tecnologia para tornar isso possível. Os anos anteriores à chegada do som ao cinema são reconhecidos como a chamada “era muda”, ou, a chamada “era silenciosa” entre os estudiosos do tema e historiadores. Considera-se que a arte cinematográfica atingiu a maturidade plena antes da substituição dos filmes mudos para a passagem de “filmes sonoros” e alguns cinéfilos defendem que a qualidade dos filmes baixou durante alguns anos, até que o novo meio sonoro estivesse totalmente adaptado ao cinema. A qualidade visual e perceptível dos filmes mudos - especialmente aqueles produzidos na década de 1920 - muitas vezes foi alta. No entanto, há um equívoco extensamente divulgado sobre esses filmes serem “primitivos” e mal interpretados para os padrões modernos. Este equívoco resulta de filmes mudos sendo reproduzidos na “velocidade errada” e em “estado deteriorado”. Muitos desses filmes mudos existem apenas em cópias de segunda ou terceira geração.

O épico de três horas e meia de duração apresenta quatro linhas narrativas emaranhadas de um período de 2 500 anos: a) um melodrama contemporâneo sobre crime e redenção; b) uma história bíblico-galileia, elevando a missão de Jesus e a dimensão da morte; c) uma história renascentista francesa com eventos antecedendo o Massacre da Noite de São Bartolomeu em 1572; d) uma história babilônica com destaque para a queda do Império perante os Persas em 539 a. C., na batalha de Opis, no rio Tigre, localizado a cerca de 80 km ao Norte da moderna Bagdá. As cenas são ligadas por imagens de uma mulher balançando um berço, representando a ideia da cristandade do “crescei-vos e multiplicai-vos enchei e dominai a terra” (Gen. 1, 28), da maternidade eterna. Ipso facto, o filme Intolerância foi realizado parcialmente em resposta às críticas ao filme de D. W. Griffith, The Birth of a Nation. A quantidade exata do investimento pelo filme é quase desconhecida. Mas estima-se que tenha sido gasto cerca de 2,5 milhões de dólares, uma soma sem precedentes em seu tempo para investimento. Mesmo assim, o filme não foi bem recebido pelas jovens plateias, e “é considerado o primeiro grande fracasso do cinema”. A Triangle Studios, foi à falência e Griffith ficou endividado por anos.

Bibliografia Geral Consultada.

HEGEL, Friedrich, “Qui Pense Abstract?”. In: Revue d`Enseignement de la Philosophie, n° 4, Avril-mai., 1972; CHAPLIN, Charles, Mis Primeros Años. Buenos Aires: Emecé Editores, 1981; WALSH, Gerald Patrick, “Kellerman, Annette Marie Sarah (1886-1975)”. In: Australian Dictionary of Biography. Melbourne University Press, 1983; WRIGHT, Andrée, Brilliant Careers, Women in Australian Cinema. Sidney: Pan Books; New South Wales, 1986; SAUL, John Ralston, Los Bastardos de Voltaire: La Dictadura de la Razón en Occidente. Barcelona: Editorial Andrés Bello, 1988; MANNHEIM, Karl, “El Problema de las Generaciones”. In: Revista Española de Investigaciones Sociológicas (REIS), n° 62, pp. 193-242; 1993; COHEN, Diane Micheline, O Consumidor da Informação Documentária: O Usuário de Sistemas Documentários Visto sob a Lente da Análise Documentária. Dissertação de Mestrado. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995; CALLERY, Dympha, Through the Body: A Practical Guide to Physical Theatre. London: Editor Nick Hern, 2001; GIBSON, Emily and FIRTY, Barbara, The Original Million Dollar Mermaid. Sydney: New South Wales, 2005; BURT, Daniel, The Drama 100: A Ranking of the Greatest Plays of All Time. Facts on File ser. New York: Editor Facts on File/Infobase, 2008; MARX, Karl, O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013; HOEFEL, Diego, Entre Retratos e Paisagens: Ensaio sobre Rosto no Cinema. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Instituto de Cultura e Arte. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2013; BURGESS, John Timothy, Freedom, Virtue Ethics and the Narrative Identity of American Librarianship 1876 to Presente. Dissertation Doctor of Philosophy. College of Communication and Information Sciences. Tuscaloosa: University of Alabama, 2013; PARKINSON, Justin, “Há 100 Anos, Hollywood Tinha Sua Primeira cena de nudez”. In: https://www.bbc.com/noticias/2016/02/22; LILTI, Antoine, A Invenção da Celebridade (1750-1850). 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018; ORTEGA, Cristina Dotta, Organizar para Socializar: A Função Social da Mediação Documentária. Marília (SP): Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2024; GUERRA, Gustavo Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diário Madrid, 11 de março de 2026; entre outros.