“A verdadeira figura, em que a verdade existe, só pode ser o seu sistema científico”. Friedrich Hegel
O amor é uma das grandes categorias sociais que dá forma ao existente, mas isso é dissimulado tanto por certas realidades psíquicas como in fieri por certos modos de representações teóricas. Não há dúvida que o efeito amoroso desloca e falsifica inúmeras vezes a imagem objetivamente reconhecível de seu objeto e, nessa medida, é decerto geralmente reconhecido, segundo Simmel, como “formativo”, mas de uma maneira que não pode visivelmente parecer coordenada com as outras forças espirituais que dão forma. Trata-se de uma imagem já existente que se encontra modificada em sua determinação qualitativa, sem que se tenha abandonado seu nível de existência teórica, nem criado um produto de uma nova categoria. Essas modificações que o amor já presente traz à exatidão objetiva da representação nada têm a ver com a criação inicial que produz o ser amado como tal. Na verdade, todas essas categorias são coordenadas, por sua significação, quaisquer que sejam o momento ou as circunstâncias em que elas atuam. E o amor é uma delas, na medida em que cria seu objeto como produto totalmente original. É preciso, antes de mais anda, que o ser humano exista e seja conhecido, antes de ser amado. Esse algo que acontece não tem lugar com esse ser existente que permaneceria não modificado, foi, ao contrário, no sujeito que uma nova categoria fundamental se tornou criadora. Eu, amante, sou diferente do quer era antes – pois não é determinado “aspecto” meu, determinada energia que ama em mim, mas meu ser inteiro, o que não precisa uma transformação das minhas outras manifestações, é um outro, nascendo de outro que não o ser conhecido ou temido, indiferente ou venerado.
Por que o amor está, antes de mais nada, absolutamente intricado em seu objeto, e não simplesmente associado a ele: ou seja, o objeto do amor em toda a sua significação categorial não existe antes do amor, mas apenas por intermédio dele. O que faz aparecer de maneira bem clara que o amor – e, no sentido lato, todo o comportamento do amante enquanto tal – é algo absolutamente unitário, que não pode se compor a partir de elementos preexistentes. Totalmente inúteis parecem, pois, as tentativas de considerar o amor como um produto secundário, no sentido de que seria motivado como resultante de outros fatores psíquicos primários. No entanto, ele pertence a um estágio demasiado elevado da “natureza humana” para que possamos situá-lo no mesmo plano cronológico e genético da respiração ou da alimentação, ou mesmo do instinto sexual. Tampouco podemos safar-nos do embaraço por esta escapatória fácil: em virtude de seu sentido metafísico, de seu significado atemporal, o amor permanece sem dúvida à primeira – ou última - ordem dos valores e das ideias, mas sua realização humana ou psicológica colocá-lo-ia num estágio ulterior de uma série longa e complexa na evolução contínua da vida. Não podemos nos satisfazer com essa estranheza recíproca de seus significados ou de suas areações. O problema de seu dualismo é aí, reconhecido e bem expresso, mas não resolvido; determo-nos nessa conclusão seria duvidar de sua solubilidade.
O amor é sempre uma dinâmica que se gera, filosoficamente para Georg Simmel, por assim dizer, a partir de uma autossuficiência interna, sem dúvida trazida, por seu objeto exterior, do estado latente ao estado de perfeição atualmente, mas que não pode ser, propriamente falando, provocada por ele; a alma o possui enquanto realidade última, ou não o possui, e nós não podemos remontar, para além dele, a um dos movens exterior ou interior que, de certa forma, seria mais que sua causa ocasional. É esta a razão mais profunda que torna o procedimento de exigi-lo, a qualquer título legítimo que seja totalmente desprovido de sentido. Sequer sua atualização dependa sempre de um objeto, e se aquilo que chamamos de desejo ou necessidade de amor – esse impulso surdo e sem objeto, em particular na juventude, em direção a qualquer coisa a ser amada – já não é amor, que por enquanto só se move em si mesmo, digamos um amor em roda livre. Seguramente, a pulsão em direção a um comportamento poderá ser considerada como o aspecto afetivo do próprio comportamento, ele próprio já iniciado; o fato de nos sentirmos “levados” a uma ação significa que a ação já começou anteriormente e que seu acabamento não é outra coisa que o desenvolvimento ulterior dessas primeiras inervações. Onde, apesar do impulso sentido, não passamos à ação, porque a energia não basta para ir além desses elos da ação, porque ela é contrariada por forças opostas, antes mesmo que esses elos já anunciados à consciência tenham podido se prolongar num ato visível.
A possibilidade real, a
ocasião apriorística desse modo de comportamento que chamamos amor, fará
surgir, se for o caso, e levará à consciência, como um sentimento obscuro e
geral, inicial de sua própria realidade, antes mesmo que a ele se some a
incitação por um objeto determinado para levá-lo a seu efeito acabado. A existência desse impulso sem objeto, por
assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro
produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva
em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas vezes
dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o amor
seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo su
símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de
uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como
se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De
fato, o amor é o sentimento que, fora dos sentimentos religiosos, se liga mais
estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele
brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o
objeto. É que nenhuma instância vem se interpor. Se venero alguém. É pela
qualidade de venerabilidade que, em sua realidade particular, permanece ligada
à imagem desse por tanto tempo quanto eu o venerar, passível de adoração,
contemplação e grande respeito.
Por mais insuficiente,
por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o conceito de
objetivo e de meios em presença da misteriosa realização da vida, devemos
qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção
da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo
(no sentido lato) mas a mediações psíquicas. Enfim, a pulsão, dirigida a
princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao outro sexo
enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à medida que
seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, sabemos que a pulsão
não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode
ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto
a procriar os melhores filhos. Mas,
indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um
marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando
seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto
que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum,
ou, se quiserem, a prefiguração do amor. A vida se metamorfoseia também nessa
produção, traz sua corrente à altura dessa onda, cuja crista, porém, sobressai acima
dela. O processo da vida é um dispositivo de meios a serviço desse objetivo e
se levarmos em conta o significado efetivo do amor para a propagação da espécie,
então este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si.
Do mesmo modo, no homem
que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente
ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha
representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio
que desmente a assimilação que comumente se faz deles. Mas o específico do amor
é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre
relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção
direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza
verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento
indubitável do que foi sua razão de nascer. Essa constelação, que engloba
inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é vivida
segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a uma
ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente
estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu
significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A
ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez
uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em
construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia
que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que
esta última caiu nas mãos de açougueiros. Por outro lado, o que é óbvio, não
podemos afastar pura e simplesmente essa relação. Nossa emoção sexual, afirma
Simmel, desenrola-se em dois níveis de significação.
Por trás do
arrebatamento e do desejo, da realização e do prazer sentidos, diretamente
subjetivos, delineia-se, consequência disso tudo, a reprodução da espécie. Pela
propagação do plasma germinal a vida corre levada de ponta a ponta. Por mais
insuficiente, por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o
conceito de objetivo e de meios em presença da misteriosa realização da vida,
devemos qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a
manutenção da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um
mecanismo (no sentido lato) mas a mediações psíquicas. Enfim, a pulsão,
dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao
outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à
medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, sabemos
que a pulsão não se torna amor pelo simples fato de sua
individualização; esta última pode ser refinadamente hedonista, ou instinto
vital-teleológico para o parceiro apto a procriar os melhores filhos. Mas, indubitavelmente, ela cria uma
disposição formativa e, por assim dizer, um marco para essa exclusividade que
constitui a essência do amor, mesmo quando seu sujeito se volta para uma
pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto que no seio do que se chama
“atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum, ou, se quiserem, a
prefiguração do amor. A vida se metamorfoseia também nessa produção, traz sua
corrente à altura dessa onda, cuja crista, porém, sobressai livremente acima
dela. Se considerarmos o processo da vida como um dispositivo de meios a
serviço desse objetivo e levarmos em conta o significado efetivo do amor para a
propagação da espécie, então este também é um dos meios que a vida se dá para
si e a partir de si.
Friedrich Hegel que
parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio
primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso
mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua
formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da
consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que
em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história
do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como
força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são
instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os
sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos.
Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que
determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas,
bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito
absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação,
que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção
de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método
dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção
clara e exata.
Assim, temos a passagem
da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do
acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue
perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é
a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a
vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se
a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é
em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma,
revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais
simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade
de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade
precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se
detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua
universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade
representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse
poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as
coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia
eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito
finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em
oposição com esta, e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a
oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia,
mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria
realidade.
A Ideia absoluta que
para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela
como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente
em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela,
torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a
distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e
em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade.
Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da
humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a
realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua
atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel
ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à
existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O
espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como
consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na
minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente
isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande
diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem
isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão. O
homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para
isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em
nada a criança, o inculto.
É somente uma
possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real
e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e
distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada
está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que
se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele
e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito
no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste
modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele
pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio
pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A
racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em
si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda
ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse
além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se
desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se
descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais.
O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza.
Isto pertence à essência do homem: a liberdade.
O europeu sabe de si,
afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a
liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade
como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o
que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio)
e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é.
Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este
saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é
o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença
do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou
livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que
existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer
dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por
conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que
chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida
falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é
ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja
negado. Para Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior
originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a
ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito
abstrato assim adquire o poder concreto da realização.
O concreto é em si
diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade.
O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si
distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através
desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à
diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças.
Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada
para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser
atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade,
pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à
unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E
somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo
concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen
se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado,
não poderia evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as
diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno
que nelas persiste e, segundo Hegel, enquanto momentos do seu desenvolvimento. Por serem elas diferenças, à uma, físicas e
espirituais, seria preciso, para determinação ou descrição mais concreta,
antecipar a noção do espírito cultivado. As diferenças são: 1) curso natural
das idades da vida, desde a criança, desde a criança, o espírito envolvido em
si mesmo – passando pela oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade
ela mesma ainda subjetiva em contraste com a singularidade imediata, isto é,
como o mundo presente, não conforme a tais ideais, e a situação que se encontra,
em seu ser-aí para esse mundo.
O indivíduo que, de
outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo não está pronto (o jovem) –
para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento da necessidade e
racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua obra, que leva a
cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade, uma confirmação e
uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença efetiva e um valor
objetivo (homem); até a plena realização da unidade com essa objetividade do
conhecer: unidade que, enquanto real, vem dar na inatividade da rotina que tira
o interesse, enquanto ideal se liberta dos interesses mesquinhos é das
complicações do presente exterior (o ancião). O espírito manifesta aqui sua
independência da própria corporalidade, em poder desenvolver-se antes
que nela torne. Com frequência, crianças têm demonstrado um desenvolvimento
espiritual que vai muito mais rápido que sua formação corporal. Esse foi o caso
histórico, sobretudo em talentos artísticos indiscutíveis, em particular nos
gênios da música. Também em relação ao fácil apreender de variados
conhecimentos, especialmente na disciplina matemática; e tal precocidade tem-se
mostrado não raramente também em relação a um raciocínio de entendimento, e
mesmo sobre objetos éticos e religiosos. O processo de desenvolvimento do
indivíduo humano natural decompõe-se então em uma série de processos, cuja
diversidade se baseia sobre a relação do indivíduo para com o gênero, e funda a
diferença da criança, do homem e do ancião. Essas diferenças são as
apresentações das diferenças do conceito. A idade da infância é o tempo de
representação da harmonia natural, da paz do sujeito consigo mesmo e com o
mundo.
As oposições que surgem ficam sem interesse mais profundo. A criança vive na inocência, sem sofrimento durável; no amor aos seus pais, e no sentimento de ser amado por eles. Na Roma antiga, o gênio representava o espírito ou guia de uma pessoa, ou mesmo de uma gens inteira. Um termo relacionado é genius loci, o espírito de um local específico. Por contraste a força interior que move todas as criaturas viventes é o animus. Um espírito específico ou daimon pode habitar uma imagem ou ícone natural, dando-lhe poderes sobrenaturais. Gênios são dotados de excepcional brilhantismo, mas frequentemente também são insensíveis às limitações da mediocridade bem como são emocionalmente muito sensíveis, algumas vezes ambas as coisas. O termo prodígio indica simplesmente a presença de talento ou “gênio excepcional” na primeira infância. Os termos prodígio e criança prodígio são sinônimos, sendo o último um pleonasmo. Deve-se ter em consideração que é perigoso tomar como referência as pontuações em testes aplicados de QI quando se deseja fazer um diagnóstico razoavelmente correto de genialidade. Há que se levar em consideração que em todos as pontuações, e em todas as medidas, existe uma incerteza inerente, bem como os resultados obtidos nos testes representam a performance alcançada por uma pessoa em determinadas condições, não refletindo necessariamente toda a capacidade da pessoa em condições ideais.
A contribuição histórica e cultura dos filósofos pré-socráticos à matemática, enquanto ciência, não são discutíveis e em grande parte fruto de tradição bem documentada. As mais antigas evidências concretas sobre as atividades de um matemático propriamente dito referem-se a Hipócrates de Quios. Nossos conhecimentos sobre Hipócrates de Quios e outros matemáticos baseiam-se em fragmentos de suas obras e em tradições conservadas nos séculos posteriores. O mais antigo tratado matemático que chegou até nós é o Da Esfera Móvel, um estudo a respeito do valor piramidal da esfera. Dos matemáticos posteriores restam-nos diversas obras de valor desigual, dentre as quais se destaca Os Elementos, de Euclides, cuja influência persiste analiticamente. O interesse pela história da Matemática iniciou, também, na Grécia Antiga. Eudemo de Rodes um dos discípulos de Aristóteles escreveu consecutivas histórias da aritmética, da geometria e da astronomia, mas que infelizmente não foram conservadas. Durante o período greco-romano o matemático Papo de Alexandria representa um relato etnográfico sistemático da obra de seus predecessores, desde Euclides até Esporo de Niceia. Há também extensas notas explicativas sobre vários temas matemáticos e valiosas introduções aos diversos livros, nas quais Papo de Alexandria resume o tema geral e os assuntos técnico-metodológicos a serem tratados. Notabilizou-se por ser pai da filosofa Hipátia e por produzir em 390 uma versão mais elaborada da obra Os Elementos de Euclides que sobreviveu aos dias atuais. Dentre suas obras está uma que faz considerações sobre um eclipse solar em Alexandria.
A mobilidade social
trouxe a Atenas Hipócrates de Quios, no século V a. C., o primeiro autor de uma
compilação de Elementos, em que parecem já figurar investigações ligadas
à resolução do problema de Delos sobre a duplicação do cubo e à quadratura do
círculo. Com a morte de Platão, seu discípulo, Têudio de Magnésia, escreveu
nova compilação dos manuscritos Elementos. Para que o gênio se manifeste
num indivíduo, este indivíduo deve ter recebido como herança a soma de poder
cognitivo que excede em muito o que é necessário para o serviço de uma vontade
individual, segundo Arthur Schopenhauer, é este excedente que, tornado livre,
serve para constituir um objeto liberto de vontade, um claro espelho do ser do
mundo. A través disto se explica a vivacidade que os homens de gênio
desenvolvem por vezes até a turbulência: o presente raramente lhes chega, visto
que ele não enche, de modo nenhum, a sua consciência; daí a sua inquietude sem
tréguas; daí a sua tendência para perseguir sem cessar objetos novos e dignos
de estudo, para desejar enfim, quase sempre sem sucesso, seres que se lhes
assemelham, que estejam à sua medida e que os possam compreender. O homem
comum, plenamente farto e satisfeito com a rotina atual, aí se absorve; em todo
lado encontra seus iguais; daí essa satisfação particular que experimenta no
curso da vida e que o gênio não conhece. - Quis-se ver na imaginação filosófica
um elemento essencial do gênio, o que é bastante legítimo; quis-se mesmo
identificar os dois, mas isso é um erro. O fato social e dinâmico é que, seja
em que medida for, o certo é o incerto e o incerto a estrada reta.
Onde
reina só a imaginação, ela empenha-se em construir castelos no ar a lisonjear o
egoísmo e o capricho pessoal, a enganá-los momentaneamente e a diverti-los; mas
neste caso, conhecemos sempre, para falar com propriedade, apenas as relações
das quimeras assim combinadas. Talvez ponha por escrito os sonhos da sua
imaginação: é daí que nos vêm esses romances ordinários, de todos os gêneros,
que fazem a alegria do grande público e das pessoas semelhantes aos seus
atores, visto que o leitor sonha que está no lugar do herói, e acha tal
representação bastante agradável. A
história da matemática é uma área de estudo dedicada à investigação sobre a
origem das descobertas da matemática e, em uma menor extensão, à investigação
dos métodos matemáticos e aos registros etnográficos ou notações matemáticas do
passado. A matemática islâmica, por sua vez, desenvolveu e expandiu a
matemática conhecida destas civilizações. Muitos textos gregos e árabes sobre
matemática foram então traduzidos ao Latim, o que contribuiu com o
desenvolvimento da matemática na Europa medieval. Dos tempos antigos à Idade
Média, a eclosão da criatividade matemática foi frequentemente por séculos de
estagnação. Começando no Renascimento e a partir daí a revelação de novos
talentos e progressos técnicos da matemática, interagindo com as descobertas
científicas, realizados de forma crescente, continuando decerto sem paixão. Deve
ser suprassumida como essa unidade imediata do indivíduo com seu gênero e com o
mundo em geral; é preciso que o indivíduo progrida a ponto de se contrapor ao
universal, como a Coisa assente-para-si, pronto e subsistente; e de
apreender-se em sua autonomia.
Essa autonomia, essa oposição, primeiro se apresenta em uma figura tão unilateral quanto, na criança, a unidade do subjetivo e do objetivo. O jovem desagrega a ideia efetivada no mundo, de modo a atribuir-se a si mesmo a determinação do substancial: o verdadeiro e o bem; e atribui ao mundo, pelo contrário, a determinação do contingente, do acidental. Não se pode ficar nessa oposição não-verdadeira: o jovem deve, antes, elevar-se acima da dela à inteligência de que, ao contrário, deve-se considerar o mundo como o substancial, e o indivíduo, inversamente, só como um acidente; e que portanto o homem só pode encontrar sua ativação e contentamento essenciais no mundo que se lhe contrapõe firmemente, que segue seu curso com autonomia; e que, por esse motivo, deve conseguir a aptidão necessária para a Coisa. Chagado a esse ponto de vista, o jovem tornou-se homem. Pronto em si mesmo, o homem considera também a ordem ética do mundo não como a ser produzida só por ele, mas como uma ordem pronta, no essencial. Assim ele é ativo pela Coisa, não contra ela; assim se mantém elevado, acima da subjetividade unilateral do jovem, no ponto de vista da espiritualidade objetiva.
A velhice, ao contrário, é o retorno ao desinteresse pela Coisa; o ancião habituou-se a viver dentro da Coisa, e por causa dessa unidade (que faz perder a oposição em relação à Coisa) renuncia à atividade de interesse. É bem verdade que a liberdade no pensamento tem somente o puro pensamento por sua verdade; e verdade sem a implementação da vida. Por isso, para Hegel, é ainda só o conceito da liberdade, não a própria liberdade viva. Com efeito, para ela a essência é só o pensar em geral, a forma coo tal, que afastando-se da independência das coisas retornou a si mesma. Mas porque a individualidade, como individualidade atuante, deveria representar-se como viva; ou, como individualidade pensante, captar o mundo vivo como um sistema de pensamento; então teria de encontrar-se no pensamento mesmo, para aquela expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do agir, um conteúdo do que é bom, e para essa expansão do pensamento, um conteúdo do que é verdadeiro. Com isso não haveria, absolutamente nenhum outro ingrediente, naquilo que é para a consciência, a não ser o conceito que é a essência. Porém, aqui o conceito enquanto abstração, separando-se da multiplicidade variada das coisas, não tem conteúdo nenhum em si mesmo, exceto um conteúdo que lhe é dado. A consciência, quando pensa o conteúdo, o destrói como um ser alheio; mas o conceito é conceito determinado e justamente essa determinidade é o alheio que o conceito possui nele.
Esta unidade do
existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um
conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do
desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da
razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o
entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas
diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito.
Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na
existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com
graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa
representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o
em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo
que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora
o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento. E a isto Hegel chama
“o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito
chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu
objeto de pensamento, é ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. O
desenvolvimento do espírito é um desprendimento, um desdobrar-se, e por isso,
ao mesmo tempo, um desafogo.
No que toca mais
precisamente a um dos lados da educação, melhor dizendo, à disciplina, não se
há de permitir ao adolescente abandonar-se a seu próprio bel-prazer; ele deve
obedecer para aprender a mandar. A obediência é o começo de toda a sabedoria;
pois, por ela, a vontade que ainda não conhece o verdadeiro, o objetivo, e não
faz deles o seu fim, pelo que ainda não
é verdadeiramente autônoma e livre, mas, antes, uma vontade despreparada, faz
que em si vigore a vontade racional que lhe vem de fora, e que pouco a pouco
esta se torne a sua vontade. O capricho deve ser quebrado pela disciplina; por
ela deve ser aniquilado esse gérmen do mal. No começo, a passagem de sua vida
ideal à sociedade civil pode parecer ao jovem como uma dolorosa passagem à vida
de filisteu. Até então preocupado apenas com objetos universais, e trabalhando
só para si mesmo, o jovem que se torna homem deve, ao entrar na vida prática,
ser ativo para os outros e ocupar-se com singularidades, pois concretamente se
se deve agir, tem-se de avançar em direção ao singular. Nessa conservadora
produção e desenvolvimento do mundo consiste no trabalho do homem. Podemos,
pois, de um lado dizer que o homem só produz o que já existe. É necessário que
um progresso individual seja efetuado. Mas o progredir no mundo só ocorrer nas
massas, e só se faz notar em uma grande soma de coisas produzidas. Ipso facto,
a consciência moral não pode renunciar à felicidade.
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