“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”. Sigmund Freud
Mystic River tem como representação social um
filme norte-americano de drama policial neo-noir de 2003. Foi dirigido e
coproduzido por Clint Eastwood e estrelado por Sean Penn, Tim Robbins, Kevin
Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden e Laura Linney. O roteiro, escrito
por Brian Helgeland, foi baseado no romance homônimo de Dennis Lehane (1965),
publicado em 2001. É um escritor dos Estados Unidos, autor de romances
policiais. Escreve livros de clímax violentos, livros mais bem escritos em que o autor descreve cenas violentas de forma
eloquente e lírica, com enredos investigativos e atmosfera sufocante, em estilo
noir. Seu maior sucesso é o livro Sobre Meninos e Lobos (Título
Original: “Mystic River”), que foi adaptado por Clint Eastwood para o cinema e
foi indicado ao Oscar de melhor filme, além de faturar os prêmios de melhor
ator e melhor ator coadjuvante. Dennis Lehane nasceu e foi criado em
Dorchester, Massachusetts, Estados Unidos. Antes de se dedicar à escrita a
tempo inteiro, trabalhou com crianças com deficiências mentais e vítimas de
abusos, foi empregado de mesa, motorista de limusinas, livreiro e carregador.
Seus livros foram várias vezes premiados e traduzidos em 22 línguas. É o
primeiro filme em que Eastwood foi creditado como compositor da trilha sonora. Mystic
River é um livro escrito por de Dennis Lehane e publicado em 2001, e marca o início
de uma nova fase de inspirada qualidade na obra deste autor.
O livro tornou Lehane
mundialmente famoso após ter os seus direitos comprados por Clint Eastwood, que
o adaptou para o cinema em seu premiado filme Mystic River (Sobre
Meninos e Lobos, em português). Trata-se da história de três vidas que
foram marcadas para sempre por um ato de violência. Sean, Jimmy e Dave são três
garotos que vivem em uma comunidade pobre na cidade de Boston. Os três
brincavam na rua quando foram abordados por falsos policiais que raptaram Dave
e o submeteram a abusos sexuais. Dave consegue escapar, mas ficará marcado para
sempre pelos maus-tratos que sofreu. Sean ir-se-á tornar um policial, enquanto
seu amigo Jimmy irá seguir o caminho oposto, e se envolver em crimes, até
acabar sendo preso e se regenerar. Muitos anos depois, os três irão se
reencontrar, desta vez em função socialmente atribuída de outro ato de
violência física: a filha adolescente de Jimmy é assassinada. Em um determinado
momento, as suspeitas recaem sobre Dave. O filme foi produzido pela Village
Roadshow Pictures, Malpaso Productions e NPV Entertainment, estreou no Festival
de Cannes de 2003 em 23 de maio de 2003 e foi lançado em 15 de outubro de 2003
pela Warner Bros. Pictures, sendo um sucesso merceológico de crítica e consumo público.
Mystic River foi indicado a seis prêmios na 76ª edição do Oscar,
incluindo Melhor Filme, vencendo nas categorias de Melhor Ator para Penn e
Melhor Ator Coadjuvante para Robbins.
Escólio: Em 1975, os amigos de infância irlandeses-americanos Jimmy Markum, Sean Devine e Dave Boyle jogavam hóquei de rua em Charlestown, Boston. Depois de escreverem seus nomes em um pedaço de concreto fresco na calçada, dois predadores, fingindo ser policiais, sequestraram Dave e o estupraram por quatro dias, até que ele conseguiu escapar. Um dos sequestradores morreu antes de ser capturado, e o outro foi preso e posteriormente cometeu suicídio na prisão. Vinte e cinco anos depois, Jimmy é um ex-presidiário e dono de uma mercearia no bairro; Sean é um detetive da Polícia Estadual de Massachusetts, cuja esposa grávida, Lauren, o deixou recentemente; e Dave é um operário constantemente assombrado pelo sequestro e estupro que sofreu. Jimmy e Dave têm uma ligação por casamento: a esposa de Dave, Celeste, e a segunda esposa de Jimmy, Annabeth, são primas. Katie, filha de Jimmy de seu primeiro casamento, planeja fugir para Las Vegas com Brendan Harris, um rapaz de uma família que Jimmy despreza e com quem ela tem um relacionamento secreto. Certa noite, Dave vê Katie e suas amigas em um bar local. Na mesma noite, ela é assassinada, e Dave chega em casa ensanguentado e ferido, alegando ter lutado com um assaltante e possivelmente o ter matado. Sean e seu parceiro, Whitey Powers, investigam o assassinato, enquanto Jimmy, transtornado com a morte de Katie, conduz uma investigação paralela usando seus contatos na vizinhança.
O depoimento de uma
testemunha sugere que Katie pode ter reconhecido seu assassino. Os detetives
descobrem que a arma usada para a matar, um revólver calibre.38 Special, também
foi usada em um assalto a uma loja de bebidas em 1984 por “Just Ray” Harris,
pai de Brendan. Harris está desaparecido desde 1989, mas Brendan afirma que ele
ainda envia US$ 500 por mês para sua família e finge não saber nada sobre a
arma de Ray. Whitey suspeita de Dave, que muda constantemente a história de
como se machucou na mão. Dave continua se comportando de forma errática, o que
deixa Celeste tão perturbada que ela sai de casa e conta a Jimmy que suspeita
que Dave seja o assassino de Katie. Jimmy e seus amigos convidam Dave para um
bar local, o embebedam e o confrontam quando ele está prestes a vomitar. Jimmy confessa a Dave que matou “Just Ray” por
tê-lo implicado no roubo da loja de bebidas, o que resultou em sua prisão. O
sacramento da penitência também comumente chamado na liturgia de “reconciliação”
ou “confissão” é um dos sete sacramentos da Igreja Católica reconhecidos no
cristianismo oriental como “sagrados mistérios”. Por meio deste sacramento,
os fiéis são absolvidos dos pecados cometidos após o batismo e reconciliados
com a comunidade cristã. Durante a reconciliação, os pecados mortais devem ser
confessados e os pecados veniais podem ser confessados por motivos devocionais.
De acordo com o dogma e a prática imutável da Igreja, somente os ordenados
sacerdotes podem conceder a absolvição.
A confissão, foi segundo
Foucault (1984: 14-15), e permanece ainda hoje, a matriz geral que rege a
produção do discurso verdadeiro sobre o sexo. Entretanto, ela se transformou
consideravelmente. Durante muito tempo permaneceu solidamente engastada na
prática da penitência. Mas, pouco a pouco, a partir do protestantismo, da Contra-Reforma,
na pedagogia do século XVIII e da medicina do século XIX, perdeu a situação
ritual e exclusiva: difundiu-se; foi utilizada em toda uma série de relações:
crianças e pais, alunos e pedagogos, doentes e psiquiatras, delinquentes e
peritos. As motivações e os efeitos dela esperados se diversificaram, assim
como as formas que toma: interrogatórios, consultas, narrativas autobiográficas
ou cartas, que são consignados, transcritos, reunidos em fichários, publicados
e comentados. Mas a confissão se abre, senão a outros domínios, pelo menos a
novas maneiras de percorrer tais domínios. Não se trata somente de dizer o que
foi feiro – o ato sexual e como; mas de reconstituir nele e a seu redor, os
pensamentos e as obsessões que acompanham as imagens, os desejos, as modulações
e a qualidade do prazer que o contém. Pela primeira vez, sem dúvida, uma
sociedade se inclinou a solicitar e a ouvir a própria confidência dos prazeres
individuais.
Dave revela a Jimmy que
matou alguém naquela noite, mas não foi Katie; ele espancou até a morte um agressor
que encontrou com uma criança que estava sendo explorada sexualmente. Jimmy,
sem acreditar nele e depois de forçá-lo a confessar o assassinato de Katie, o
mata e se desfaz do corpo no rio Mystic, que fica próximo. O Mystic River é um
estuário de 3,4 milhas de comprimento no canto sudeste do estado norte-americano
de Connecticut. Seu principal afluente é Whitford Brook. Ele deságua em Fishers
Island Sound, dividindo a vila de Mystic, Connecticut entre as cidades de
Groton e Stonington. Grande parte do rio é maré. Enquanto isso, depois de
descobrir que a arma de seu pai sumiu, Brendan confronta seu irmão mais novo, “Silent
Ray”, e seu amigo John O`Shea sobre o assassinato de Katie. Ele espanca os dois
garotos, antes que John pegue a arma de Ray e esteja prestes a atirar em
Brendan. Sean e Whitey, tendo ligado os adolescentes ao assassinato, chegam a
tempo de desarmar e prender John e Ray. Na manhã seguinte, Sean conta a Jimmy
que John e Silent Ray confessaram (cf. Foucault, 1984) ter matado Katie como parte de uma
brincadeira que escapando ao cotrole técnico-social, deu errado. Sean pergunta a Jimmy se ele viu Dave, que está
sendo procurado para interrogatório no caso do assassinato de um agressor reconhecido. Jimmy não responde, em vez disso, agradece a Sean por ter encontrado
os assassinos de Katie. Sean se reconcilia com Lauren depois de se desculpar
por tê-la afastado, enquanto Jimmy confessa o que fez a Annabeth.
Durante um desfile local, Sean vê Jimmy e aponta uma arma de dedo para ele, mas
Jimmy ignora.
Film noir historicamente é uma expressão
francesa designada a um subgênero de filme policial, derivado do romance de
suspense influenciada pelo expressionismo alemão, o qual teve o seu ápice nos
Estados Unidos entre os anos 1939 e 1950. A expressão foi aplicada pela
primeira vez a um filme pelo crítico francês Nino Frank, em 1946, por analogia
com os romances policiais da Série noire, uma coleção criada pela
Gallimard, em 1945, cujos livros tinham capa preta e amarela, com sobrecapa
preta e bordas brancas. A expressão era desconhecida dos diretores e atores à
época em que foram produzidos os filmes noirs clássicos, tendo sido
introduzida posteriormente por historiadores e críticos de cinema. Muitos dos
criadores de films noirs revelaram mais tarde que não imaginavam, naquela
época, que haviam dado origem a um subgênero cinematográfico. O noir
deriva dos romances de suspense da época da Grande Depressão quando muitos filmes
foram adaptados de romances policiais do período e da estética dos filmes de
terror da década de 1930. Os noirs são da
década de 1940. Historicamente, foram filmados em preto-e-branco em alto
contraste, sob influência da cinematografia do expressionismo alemão. O film
noir é resultado do uso de estilos e gêneros de cinema e das artes
plásticas. Segundo James Monaco, em American Film Now, o “film
noir não constitui propriamente um gênero, mas um estilo visual. Outros
críticos tratam o film noir como um modo ou ciclo”.
A estética do film
noir é fortemente influenciada pelo expressionismo alemão à época do regime
autoritário. Muitos diretores, como Fritz Lang, Billy Wilder e Robert Siodmak,
foram forçados a emigrar, levando em sua bagagem as técnicas que haviam
desenvolvido, e realizaram, nos Estados Unidos da América, alguns dos mais
famosos films noirs, no qual os recursos de iluminação tinham
importância fundamental, sendo utilizados, por exemplo, para destacar aspectos
psicológicos dos personagens ou para criar uma certa tensão no espectador, por
exemplo. O uso da iluminação “por zonas, manchas e flashes era capaz de
estabelecer um isolamento do ator, separando-o do ambiente”. A luz, no cinema
expressionista, tem “o poder de estabelecer rupturas e relações entre
personagens”, acompanhando a ação de modo aparentemente arbitrário, mas com a
finalidade de “concentrar a atenção, articular a ação, acentuar a tensão e
colorir a emoção do público”. Outras influências importantes vieram do realismo
poético francês através de certos temas como o fatalismo, a injustiça,
protagonistas arruinados e do neorrealismo italiano de autenticidade dos
personagens. Muitos films noirs posteriores, como Night and the City
(1950) e Panic in the Streets (1950), adotaram uma abordagem
neorrealista utilizando fotografia in loco e, frequentemente, alguns
atores não profissionais, pessoas comuns e oprimidas, como The Lost Weekend
e In a Lonely Place.
Nos Estados Unidos, a
principal influência literária do film noir veio da ficção policial e de
suspense, produzida por escritores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler e
James M. Cain, popularizado em revistas baratas como Black Mask. Apesar de não
ser considerado um “film noir”, Cidadão Kane (1941) de Orson Welles teve
uma forte influência no desenvolvimento do estilo deste gênero, particularmente
por seus visuais barrocos e a complexa estrutura narrativa conduzida por
sobreposição. As décadas de 1940 e 1950 foram o período clássico do film
noir. Alguns historiadores do cinema consideram Stranger on the Third
Floor (1940) como o primeiro film noir genuíno. Entretanto, Touch
of Evil (1958), de Orson Welles é citado como o último filme do
período clássico do noir. Alguns estudiosos do cinema acreditam que o
film noir nunca tenha acabado realmente, mas apenas perdido temporariamente a
popularidade para, mais tarde, ser revivido de uma maneira um pouco diferente.
Outros críticos - talvez a maioria - não consideram autênticos os filmes feitos
fora do período clássico. Esses críticos consideram o genuíno noir
pertencente a um ciclo ou período e creem que os filmes subsequentes, que
tentaram reviver os filmes clássicos, são diferentes, pois os criadores são
conscientes do estilo noir, o que os diretores dos film noirs
originais talvez não fossem.
Muitos dos filmes deste
subgênero eram produções de baixo orçamento, sem atores de grande prestígio.
Alguns diretores e roteiristas foram mesmo perseguidos políticos durante o macartismo
do fim da década de 1940 até meados da década de 1950 e impedidos de trabalhar
nos grandes estúdios de Hollywood. Assim, colaboravam, sob pseudônimo, nessas
produções comercialmente baratas. Os mais populares exemplos de film noir
giravam em torno de uma mulher de virtudes questionáveis e eram também
conhecidos por “bad girl movies” (“filmes de menina má”). Enquanto os filmes
dos grandes estúdios cinematográficos demandavam mensagens mais positivas, nos
filmes noir, os protagonistas podiam ser personagens fracos e moralmente
ambíguos, enquanto os personagens secundários raramente possuíam alguma
profundidade ou autonomia. Era regra nos filmes etiologicamente enquadrados sob
uso de iluminação sofisticada, interiores luxuosos e sets de filmagem externas
ricamente elaborados. O film noir ficou reconhecido por narrar dramas
inteligentes e austeros permeados por niilismo, desconfiança, paranoia e
cinismo, em ambientes realistas e utilizando-se de técnicas como narração
confessional e movimentos de câmera com o ponto-de-vista do protagonista.
Gradativamente, o estilo noir influenciou a estética do cinema mesmo
fora de Hollywood.
A teoria inicial do
cinema surgiu durante o período da chamada Era do Cinema Mudo e se preocupava
principalmente com a definição dos elementos cruciais do meio de trabalho.
Ricciotto Canudo (1877-1923) foi um dos primeiros teóricos do cinema italiano
que via o cinema como “arte plástica em movimento”, e deu ao cinema o rótulo de
“a Sexta Arte”, posteriormente alterado para “a Sétima Arte”. Em 1915, Vachel
Lindsay (1879-1931) escreveu um livro sobre cinema, seguido um ano depois por
Hugo Münsterberg (1863-1916). Lindsay argumentou que os filmes poderiam ser
classificados em três categorias: filmes de ação, filmes íntimos, e também
filmes de esplendor. Segundo ele, o filme de ação era escultura em movimento,
enquanto o filme íntimo era pintura em movimento, e o filme de esplendor
arquitetura em movimento. Ele também argumentou contra a noção contemporânea de
chamar os filmes de fotoplays e vistos como versões filmadas do teatro,
em vez de ver o filme com oportunidades nascidas da câmera. Ele também
descreveu o cinema como hieroglífico no sentido de conter símbolos em suas
imagens (cf. Turner, 1988; 1990). Ele acreditava que essa visualidade dava ao
filme o potencial de acessibilidade universal. Münsterberg, observou as
analogias entre técnicas cinematográficas e processos mentais. Ele
comparou o close-up com “a mente prestando atenção”.
O flashback,
seria semelhante a recordar. Isso foi seguido pelo formalismo de Rudolf Arnheim
(1904-2007), que estudou como as técnicas influenciaram o cinema como arte.
Cinema mundial é um termo da teoria do cinema que se refere a representação
social de filmes e produções cinematográficas realizadas fora da cinematografia
norte-americana, particularmente aquelas que se opõem à estética e aos valores
do cinema comercial norte-americano. A teoria do cinema é um conjunto de
abordagens acadêmicas dentro da disciplina acadêmica chamada de filmologia que
começou na década de 1920 questionando os atributos formais essenciais do
cinema; e que agora fornece estruturas conceituais para entender a relação
social do filme com a realidade concreta, as outras artes, os espectadores
individuais e a sociedade em geral. A teoria do cinema não deve ser confundida
com a especialidade institucionalizada de críticas de cinema, ou a história do
cinema, embora essas três disciplinas se interrelacionem. Embora alguns ramos
da teoria do cinema sejam derivados da linguística e da teoria literária em
geral, ela também se originou e se sobrepõe à questão da filosofia do
cinema. Deste ponto de vista Matéria e Memória (1896), do filósofo
francês Henri Bergson, antecipou o desenvolvimento da teoria do cinema durante
o nascimento do cinema no início do século XX.
Bergson comentou sobre a necessidade de novas formas de pensar sobre o movimento e cunhou os termos “imagem-movimento” e “imagem-tempo”. No entanto, em seu ensaio de 1906 L’Illusion Cinématographique (em L’Évolution Créatrice) ele rejeita o cinema como um exemplo do que ele tinha em mente. Historicamente, décadas depois, em Cinéma I e Cinema II (1983-1985), o filósofo Gilles Deleuze tomou Matéria e Memória como base de sua filosofia do cinema e revisitou os conceitos de Bergson, combinando-os com a semiótica de Charles Sanders Peirce. Entre os primeiros teóricos franceses, Germaine Dulac (1882-1942) foi uma pioneira diretora, roteirista, produtora e crítica de cinema francesa quando trouxe o conceito de impressionismo para o cinema, descrevendo o cinema que explorava a maleabilidade da fronteira entre a experiência interna e a realidade externa, por exemplo, através da sobreposição. O surrealismo também influenciou a cultura do cinema francês. O termo fotogenia foi importante para ambos, tendo sido usado por Louis Delluc em 1919 e se difundido em sua utilidade de uso social para capturar o poder único do cinema. Jean Epstein (1897-1953) observou como a filmagem dá uma “personalidade” ou um “espírito” aos objetos, ao mesmo tempo em que revela “o falso, o irreal, o surreal”.
Isso foi semelhante à desfamiliarização usada por artistas de vanguarda para recriar o mundo. Ele viu o close-up como a essência da fotogenia. Béla Balázs (1884-1949), um crítico e teórico de cinema, escritor e poeta húngaro, desenvolvedor da teoria formalista cinematográfica, também elogiou o close-up por razões semelhantes. Não por acaso, Arnheim também acreditava que a desfamiliarização era um elemento crítico do filme. Após a Revolução Russa (1917), a situação no país também criou uma sensação de empolgação com novas possibilidades. Isso deu origem à teoria da montagem no trabalho de Dziga Vertov (1896-1954) e Serguei Eisenstein (1898-1948). Após o estabelecimento da Escola de Cinema de Moscou, Lev Kuleshov (1899-1970) montou uma oficina para estudar a estrutura formal do filme, focando na montagem como “a essência da cinematografia”. Isso produziu descobertas sobre o efeito Kuleshov. A edição também foi associada ao conceito marxista fundamental do materialismo dialético. Eisenstein afirmou que “montagem é conflito”. Suas teorias estavam centradas na montagem tendo a capacidade de criar significado transcendendo a soma de suas partes com um efeito temático de uma forma que os ideogramas transformavam gráficos em símbolos abstratos. Múltiplas cenas podem funcionar para produzir temas (montagem tonal), enquanto múltiplos temas podem criar níveis ainda mais elevados de significado (montagem intelectual).
Dziga Vertov, por sua
vez, concentrou-se no desenvolvimento do Kino-Pravda, verdade cinematográfica,
e do Kino-Eye, que ele afirmou demonstrar uma verdade mais profunda do que
poderia ser vista a olho nu. Nos anos após a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o crítico
de cinema e teórico francês André Bazin (1918-1958) argumentou que a essência
do cinema residia em sua capacidade de reproduzir mecanicamente a realidade,
não em sua diferença da realidade. Isso se seguiu à ascensão do realismo
poético no cinema francês na década de 1930. Ele acreditava que o propósito da
arte é preservar a realidade, chegando a afirmar que “A imagem fotográfica é o
próprio objeto”. Com base nisso, ele defendeu o uso de tomadas longas e maior
profundidade de campo, para revelar a profundidade estrutural da realidade e
encontrar significado objetivamente nas imagens. Isso foi logo seguido pela
ascensão do neorrealismo italiano. Siegfried Kracauer (1889-1966) também foi
notável por argumentar que o realismo é a função mais importante do cinema. A
teoria do Auteur derivou da abordagem do crítico e cineasta Alexandre
Astruc (1923-1916), entre outros, e foi originalmente desenvolvida em artigos
do Cahiers du Cinéma, jornal de cinema cofundado por
Bazin. Ipso facto, François Truffaut emitiu manifestos de autorismo em
dois ensaios Cahiers: “Une suree tendance du cinéma français” (janeiro
de 1954) e “Ali Baba et la Politique des Auteurs” (fevereiro de 1955).
Sua abordagem foi
levada à crítica norte-americana por Andrew Sarris em 1962. A teoria do autor
baseava-se em filmes que retratavam as próprias visões de mundo e impressões
dos diretores sobre o assunto, variando a iluminação, o trabalho de câmera, a
encenação, a edição e assim por diante. Georges Sadoul (1904-1967) considerou
com razão que o suposto “autor” de filme potencialmente até um ator, mas
representando um filme de fato colaborativo. Aljean Harmetz uma
jornalista e historiadora de cinema norte-americano foi a correspondente de
Hollywood para o The New York Times de 1978 a 1990, citou grande
controle até mesmo por executivos de cinema. A visão de David Kipen do
roteirista como de fato o autor principal é a teoria de Schreiber. É uma
abordagem da crítica e teoria cinematográfica que argumenta que o autor
principal de filme é geralmente o roteirista, e não o diretor. O termo
foi desenvolvido por David Morris Kopen, Diretor de Literatura do National
Endowment for the Arts nos Estados Unidos. Nas décadas de 1960 e 1970, a
teoria do cinema passou a residir na academia, importando conceitos de
disciplinas como psicanálise, estudos de gênero, antropologia, teoria
literária, semiótica e linguística, conforme avançado por estudiosos como
Christian Metz (1931-1993).
No entanto, não até o
final dos anos 1980 ou início dos anos 1990, a teoria do cinema em si ganhou
muito destaque nas universidades norte-americanas, substituindo a predominante
teoria do Auteur humanística que havia dominado os estudos de cinema e que se
concentrava nos elementos práticos da escrita, produção e edição de filmes, e
críticas. O estudioso norte-americano
David Bordwell (1947-2024) falou criticamente contra muitos desenvolvimentos
proeminentes na teoria do cinema desde a década de 1970. Ele usa o termo
depreciativo “teoria SLAB” para se referir aos estudos de cinema baseados nas
ideias de Ferdinand de Saussure (1857-1913), na linguística e na filosofia,
Jacques Lacan (1901-1981), na reinterpretação da psicanálise, Louis Althusser,
no marxismo e Roland Barthes, na crítica literária. Em vez disso, Bordwell
promove o que descreve como “neoformalismo”, um renascimento da teoria
formalista do cinema. Durante a década de 1990, a revolução digital nas
tecnologias de imagem influenciou a teoria do cinema de várias maneiras. Houve
um novo alvo na capacidade do filme de celuloide de capturar uma imagem
“indexical” de um momento no tempo por teóricos como Mary Ann Doane, Philip
Rosen e Laura Mulvey, que foram informados pela psicanálise. De uma perspectiva
psicanalítica, após a noção lacaniana de “o real”, o filósofo e sociólogo
esloveno Slavoj Žižek ofereceu novos aspectos do “olhar” utilizado
na análise cinematográfica contemporânea.
A partir da década de
1990, a teoria matricial da artista e psicanalista Bracha L. Ettinger
revolucionou a teoria feminista do cinema. Seu conceito do “olhar matricial”,
que estabeleceu um olhar feminino e articulou suas diferenças em relação
ao olhar fálico e sua relação com o feminino, bem como especificidades
maternas e potencialidades de “coemergência”, oferecendo uma crítica da
psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan, é amplamente utilizada na análise
de filmes de autoras, como Chantal Akerman (1950-2015), e também de autores
como Pedro Almodóvar. O olhar matricial
oferece à mulher a posição de sujeito, não de objeto abstrato de pensamento,
propriamente dito, mas do olhar, enquanto desconstrói teoricamente a
estrutura do próprio sujeito per se, e oferece uma interpretação sociológica
em torno da concepção fronteira-tempo, fronteira-espaço e uma possibilidade de
compaixão e testemunho. As noções de Ettinger articulam as ligações entre
estética, ética e trauma. Também houve uma revisitação histórica das primeiras
exibições de cinema, práticas e modos de espectador pelos escritores Tom
Gunning, Miriam Hansen e Yuri Tsivian. Em Critical Cinema: Beyond the Theory
of Practice (2011), Clive Meyer sugere que “o cinema é uma experiência
diferente de ver um filme em casa ou em uma galeria de arte”, e os teóricos
reengajem a especificidade dos conceitos filosóficos para o cinema como um meio
de trabalho distinto dos outros.
Era também artista, atriz, roteirista, produtora e professora de cinema. Segundo a pesquisadora Gwendolyn Audrey, teve grande influência para o cinema feminista e Avant-Garde. Seu filme mais reconhecido é Jeanne Dielman (1975). Chantal nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 6 de junho de 1950. Filha de uma família judeus que foram vítimas do Holocausto Polonês, sua mãe, Nathalia, foi a única sobrevivente. Tinha ainda uma irmã mais velha, Sylviane Akerman. Era extremamente próxima de sua mãe, que a incentivava a ter uma carreira ao invés de ser apenas dona de casa. Entra na faculdade de cinema belga Institut National Supérieure des Arts du Spectacle et des Techniques de Diffusion aos 18 anos, porém sai em seu primeiro período para fazer o curta-experimental Saute ma ville, no qual ela mesma atua e que serve como estudo para seu filme posterior Jeanne Dielman. A relação de Akerman com a mãe é retratada em alguns de seus filmes. Em seu filme News from Home (1976), as cartas escritas pela mãe servem como narração. Ipso facto, em No Home Movie (2015), seu último filme, faz uma homenagem à morte da mãe descrevendo as conversas que tiveram poucos meses antes. Akerman admitia que a mãe decisivamente era o centro de seus trabalhos. Após sua morte, a diretora se sente desnorteada e começa a ter recaídas.
Se suicida em 5 de outubro de 2015, em Paris. Estava hospitalizada por depressão, e havia retornado para sua casa em Paris 10 dias antes de sua morte, segundo sua irmã. Sua primeira influência foi o filme Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard. Após assisti-lo, aos 15 anos, decide se tornar cineasta. Seu primeiro filme, Saute ma ville, estreia em 1971 no festival de curta-metragem de Oberhausen. No mesmo ano, muda-se para Nova York, onde permanece por um ano. Ao voltar para a Europa, faz seu primeiro longa-metragem, Hotel Monterey (1972), e os curtas experimentais La Chambre 1 (1972) e La Chambre 2 (1972). Através desses filmes, seu trabalho começa a criar o estilo que vai aderir até o fim da carreira, com sequências longas e repetição de tarefas ordinárias. Apesar de lésbica, não se considera como uma cineasta queer, tendo seu único filme com referência ao tema Je, tu, il, elle (1974). Faz seu próximo filme, Jeanne Dielman (1975), com apenas 25 anos, o qual é considerado uma obra-prima do cinema feminista. Akerman fez parte da segunda onda do feminismo, e seus trabalhos refletiam sobre a presença feminina no cinema, tanto atrás das câmeras quanto na frente. Ela acreditava que a visão feminista estava mais em como os filmes eram feitos do que as histórias que eram contadas nos filmes; a visão feminina sobre a mulher não retratava uma presença ordinária, o trabalho de câmera feminino mostrava a mulher vista pelos olhos de outra mulher. Também foi influenciada por filósofos como Gilles Deleuze e Felix Guattari e suas literaturas menores. As três características da literatura menor, sociologicamente, são a ideia pragmática de desterritorialização da língua, a ligação do indivíduo no imediato político, o agenciamento coletivo de enunciação.
Essa literatura menor
nos filmes de Akerman aparece frequentemente em forma de cartas, músicas ou
piadas. As cartas que frequentemente cruzam sua obra falam de sua busca por
ressonâncias entre sua própria história pessoal e outros problemas e
deslocamentos atuais. Uma das mais pungentes dessas cartas é lida em uma
reunião improvisada em torno de uma tabela em Do outro Lado (2002).
Depois de conhecer alguns mexicanos que foram abandonados no meio de sua
tentativa de atravessar a fronteira, Akerman os convida para uma refeição. Em
agradecimento, eles leem uma carta assinada coletivamente à câmera. Mesmo sendo
constantemente rotulada às características
de uma cineasta mulher, judia e lésbica, Akerman reduz esses rótulos pessoais e
se distancia de um cinema essencialmente feminista. Ela vê o cinema como um “campo
gerador de liberdade dos limites da identidade”, e é contra a expressão “cinema
feminista” porque “quando as pessoas dizem que há uma linguagem de cinema
feminista, é como dizer só existe uma maneira para as mulheres se expressarem”.
Desejos são
representações sociais estados mentais expressos por termos como querer,
almejar ou apetecer. Uma grande variedade de fatos sociais que ocorrem na vida
cotidiana apresenta características que são comumente associadas a desejos. São
vistos como atitudes proposicionais em relação a estados de coisas concebíveis.
Visam mudar o mundo como o mundo deveria ser, ao contrário das crenças, que
visam representar como o mundo realmente é. Os desejos estão intimamente
ligados à agência: motivam o agente a realizá-los. Para que isso seja possível,
um desejo deve ser combinado com uma crença sobre qual ação o realizaria.
Desejos apresentam seus objetos sob uma luz favorável, de forma intermitente
como algo que é normal parece ser bom. Sua realização é normalmente
experimentada como prazerosa, em contraste com a experiência negativa de não o
conseguir. Os desejos conscientes são acompanhados por alguma forma de resposta
emocional. Embora muitos pesquisadores concordem sobre essas características
gerais, há uma discordância significativa sobre como definir desejos, ou seja,
quais dessas características são essenciais e quais são meramente acidentais.
As teorias baseadas na
ação definem desejos como estruturas que nos inclinam para ações. As
teorias baseadas no prazer focalizam a tendência dos desejos de prazer quando
realizados. As teorias baseadas em valor identificam desejos com atitudes em
relação a valores, como julgar ou ter a aparência de que algo é bom. Desejos podem ser agrupados em vários tipos de
acordo com algumas distinções básicas. Os desejos intrínsecos dizem respeito ao
que o sujeito quer para seu próprio bem, enquanto os desejos instrumentais
referem-se ao que o sujeito quer para o bem de outra coisa. Os desejos
ocorrentes são conscientes ou causalmente ativos, em contraste com os desejos
parados, que existem em algum lugar no fundo da mente. Os desejos
proposicionais são dirigidos a possíveis estados de coisas, enquanto os desejos
objetais são diretamente sobre objetos. Vários autores distinguem entre desejos
superiores associados a objetivos espirituais ou religiosos e desejos
inferiores, que se preocupam com prazeres corporais ou sensoriais. Desejos
desempenham um papel em muitos campos diferentes. Há desacordo se os desejos
devem ser entendidos como razões práticas ou se podemos ter razões práticas sem
ter o desejo de segui-los. De acordo com as teorias do valor de atitude
adequada, um objeto é valioso se é adequado desejá-lo ou se devemos desejá-lo.
As teorias do bem-estar
baseadas na satisfação do desejo afirmam que o bem-estar de uma pessoa é
determinado por se os desejos dessa pessoa estão satisfeitos. As teorias do
desejo visam definir os desejos em termos de suas características essenciais. Uma
grande variedade de características é atribuída aos desejos, como que são
atitudes proposicionais, que levam a ações, que sua realização tende a trazer
prazer, etc. Através das diferentes teorias do desejo há um amplo acordo sobre
quais são essas características. Sua discordância diz respeito a quais dessas
características pertencem à essência dos desejos e quais são meramente
acidentais ou contingentes. As duas teorias mais importantes definem desejos de
disposições para causar ações ou em relação à sua tendência a produzir prazer
ao ser cumpridos. Uma alternativa importante de origem mais recente sustenta
que desejar algo significa ver o objeto do desejo como valioso. É comum na
axiologia definir o valor em relação ao desejo. Tais abordagens enquadram-se na
categoria de “teorias da atitude adequada” (fitting-attitude theories).
Segundo eles, um objeto
é valioso se é adequado desejar este objeto ou se devemos desejá-lo. Isto às
vezes é expresso dizendo que o objeto é desejável, apropriadamente desejado ou
digno de desejo. Dois aspectos importantes deste tipo de posição são que ele
reduz os valores a noções deônticas, ou o que devemos sentir, e que torna os
valores dependentes das respostas e atitudes humanas. Apesar de sua
popularidade, as teorias do valor de atitude adequada enfrentam objeções
teóricas. Um problema frequentemente citado é o “problema das razões do tipo
errado” (“wrong kind of reason problem”), que se baseia na consideração de que
fatos independentes do valor de um objeto podem afetar se esse objeto deve ser
desejado. Em um experimento mental, um demônio maligno ameaça o agente com
matar sua família, a menos que ele deseje o demônio. O bem-estar é geralmente
considerado um tipo especial de valor: o bem-estar de uma pessoa é o que, em
última instância, é bom para essa pessoa. As teorias sociais da satisfação do
desejo estão entre as principais teorias do bem-estar. Afirmam que o bem-estar
de uma pessoa é determinado pela satisfação dos seus desejos: quanto maior o
número de desejos satisfeitos, maior o bem-estar. Um problema para versões da
teoria do desejo é que nem todos são bons: alguns desejos podem até ter
consequências terríveis para o agente. Os teóricos do desejo tentaram evitar
essa objeção sustentando que o que importa não são os desejos reais, mas os
desejos que o agente teria se estivesse completamente informado.
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