domingo, 1 de março de 2026

Um Fantasma Na Batalha – Conversão & Pátria Basca e Liberdade.

    Se o problema de fundo da Espanha não for resolvido, essa situação se repetirá”. Unaí Arkauz                     

          

          Um Fantasma na Batalha (2025) acompanha um dos momentos mais importantes realizados contra o Euskadi Ta Askatasuna, em basco: Pátria Basca e Liberdade, mais reconhecido pela sigla ETA, tem como representação social uma organização nacionalista basca que evoluiu para a violência armada e o terrorismo. “Um Fantasma na Batalha” tem roteiro e direção de Agustín Díaz Yanes, e produção de Belén Atienza, Sandra Hermida e Juan Antonio Bayona (“A Sociedade da Neve”). Com Susana Abaitua, Iraia Elias, Raúl Arévalo, Ariadna Gil e Andrés Gertrúdix. É a principal organização do autointitulado: Movimento de Libertação Nacional Basco e o principal ator social do conflito basco. É organização separatista basca que acabou se transformando socialmente em um grupo de terroristas responsável por amedrontar a Espanha por um longo tempo. Durante as décadas de 1990 e 2000, o filme acompanha mais especificamente a jovem Amaia (Susana Abaitua), uma jovem guarda civil que passou esse período infiltrada na Euskadi Ta Askatasuna. Com o objetivo de encontrar os locais praticados nos quais eles se escondiam no Sul da França, a missão foi rastreada e o longa-metragem é baseado em fatos reais do contexto histórico, político e social de seu tempo.  Apesar do nacionalismo basco ter início no final do século XIX, a ETA só foi fundada em 1959 como um grupo de promoção étnica da cultura basca. 

            No final da década de 1960 evoluiu para uma organização paramilitar separatista, lutando pela Independência da região histórica do País Basco, cujo antigo território se distribui entre a Espanha e França. O “independentismo”, também chamado por vezes separatismo, é um conjunto de ideologias nacionalistas que têm a ver com a reivindicação dos direitos nacionais por parte de “um povo sem Estado” face a um Estado expansionário maior. Nas aplicações normais em idioma português, muitas vezes o termo separatismo recebe uma denotação pejorativa. Entretanto, sociologicamente se opõe ao unionismo, também denominado unitarismo, que é a corrente ideológica que defende o contrário, a união de todo o estado originário. Ao mesmo tempo, o Euskadi Ta Askatasuna (ETA) assumiu uma ideologia marxista-leninista revolucionária. Em 7 de julho de 1968 é que se dá a primeira vítima, um guarda civil assassinado por um comando militar, numa operação de stop. Há diversas formas de independentismo, que podem aparecer misturados: de base política, cívica ou administrativa; de base étnica ou “racial”; de base religiosa; de base social. Existem ainda movimentos independentistas de diversos signos, alguns com base na reivindicação por livre exercício de autodeterminação pelas redes internacionais, outros promovidos mais ou menos artificial com base em interesses econômicos de elites poderosas, como da região Padânia, no Norte da (Itália) ou o Departamento de Santa Cruz, na Bolívia.

       A Euskadi Ta Askatasuna (ETA) é classificada como uma organização terrorista pelos governos imperialistas da Espanha, França, Reino Unido, Estados Unidos e pela União Europeia. Em geral, a média doméstica e internacional também se refere aos integrantes do grupo como terroristas.  Desde 1968 o ETA foi responsabilizado pelas mortes de 829 pessoas e ferimentos causados a milhares de outras, além de dezenas de sequestros. Estima-se que mais de 400 membros do ETA estejam em prisões da Espanha, França e outros países. O seu símbolo é uma serpente enrolada em um machado. Foi fundada por membros dissidentes do Partido Nacionalista Basco. Durante a longa e sanguinolenta ditadura franquista (1939-1975) contou com o apoio da população e solidariedade internacional, por ser considerada uma organização política contra o regime, mas foi enfraquecendo devido ao processo de democratização em 1977. O seu lema é Bietan jarrai, que significa seguir nas duas, ou seja, na luta política & militar. A organização reivindica a zona do Nordeste (Noroeste em relação à fronteira Espanha-França) da Espanha e do Sudoeste da França, na região montanhosa junto aos Pirenéus, virada para o Golfo da Biscaia, região denominada por Euskal Herria (País Basco). O ETA reivindica em território espanhol, a região chamada Hegoalde ou País Basco do Sul, que é constituído por Álava, Biscaia, Guipúzcoa e Navarra; também reivindica, em território francês, a região chamada Iparralde ou País Basco do Norte, que é constituído pelos territórios históricos de Labourd, Baixa Navarra e Soule. 


O governo espanhol estendeu o estatuto de Comunidade Autônoma Basca a três províncias da Espanha - Álava, Biscaia e Guipúzcoa - da qual Navarra não faz parte desta possuindo o estatuto da Comunidade Foral de Navarra. Em 1952 organiza-se um grupo universitário de estudos chamado “Ekin” (“empreender” em basco), em Bilbao. Em 1953, o grupo entra em contato com a organização juvenil do Partido Nacionalista Basco (PNB), Euzko Gaztedi. Em 1956 as duas associações fundem-se. Dois anos mais tarde, em 1958, os grupos separam-se por divergências internas, sendo que o Ekin se converte em ETA no dia 31 de julho de 1959. Por questões ideológicas, isto é, a relação imaginária com o ETA desliga-se do PNB, passando a adotar a ação direta como estratégia de resistência, na mesma época em que diversos povos do hemisfério Sul lutavam por independência. O que poderia ser mais objetivo do que o funcionamento da ideologia? Embora se constitua uma surpresa para muitos a verdade é que na cultura liberal-conservadora, quer a percebamos ou não, o sistema ideológico socialmente estabelecido e dominante funciona de modo a representar ou desvirtuar suas próprias regras sociais de seletividade, preconceito, discriminação e distorção sistemática como as noções sobre normalidade, objetividade dita imparcialidade científica presente na concepção de teoria científica nas universidades. Compreensivelmente, a ideologia dominante tem uma grande vantagem na determinação social do que pode ser considerado um critério legítimo de avaliação do conflito, já que controlam efetivamente as instituições culturais e políticas da sociedade, movidos pela ideologia e viciosamente tendencioso, é evidente em toda parte: mesmo entre aqueles que se orgulham em dizer que representam a nossa (sua) qualidade de vida capaz de medir as condições de sociais e políticas  de um ser humano representando as condições que contribuem para o bem físico e espiritual dos indivíduos em sociedade. 

Nas últimas décadas, os intelectuais se intimidaram em admitir a essência de classe em suas teorias e posturas ideológicas. Na verdade, a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. A primeira assembleia do ETA ocorreu no Mosteiro beneditino de Belloc, em maio de 1962, sendo as resoluções: A regeneração histórica, considerando a história basca como um processo de construção nacional. O que define a nacionalidade basca é a euskera, em vez da etnia, como fazia o Partido Nacionalista Basco (PNB). Definem-se como um movimento não religioso, rechaçando a hierarquia católica, ainda que utilizem a doutrina da Igreja para a elaboração do seu programa social. Isto contrasta com o catolicismo do PNB. A Independência do País Basco é compreendida sendo compatível com o federalismo europeu. Ao longo da sua atividade política a ETA desenvolveu vários contatos com organizações terroristas internacionais de diferentes países. Em Portugal, já final dos anos 1960, a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) grupo terrorista Português, que combatia a ditadura, intermediou os contatos que permitiram que a ETA comprasse armamento na antiga República da Checoslováquia. Não por acaso ela viria mais tarde a ceder parte dos passaportes roubados no assalto ao consultado de Portugal e Roterdão e no Luxemburgo, ocorridas em 1971. Estes foram usados pela ETA na operação Ogro que resultou na morte do Almirante Carrero Blanco (1904-1973).

  Posteriormente, já no ano de 1981, quando Portugal e Espanha viviam já em plena democracia, a ETA permutou armas, explosivos e forneceu apoio logístico às FP-25, um grupo terrorista de extrema-esquerda portuguesa. Em 1981 as FP-25 receberam explosivos Gama 2 e duas dezenas de pistolas Firebird por troca de metralhadoras G3. Adicionalmente a ETA chegou a abrigar no País Basco, dois terroristas das FP-25 que necessitavam de recuo. Os membros conseguem uma definição maior da ideologia da ETA a partir da II Assembleia, que define as afinidades da ideologia do movimento com o comunismo. Esta assembleia foi realizada em Bayona, na primavera de 1963. Na III Assembleia, que ocorreu entre abril e maio de 1964, decidiu-se que a luta armada era a melhor maneira de alcançar os seus objetivos. A resolução foi publicada mais tarde no periódico “La Insurrección” e, País Basco. Nesta assembleia também se decidiu, por unanimidade, a ruptura final com o PNB, que para o ETA, “contrariava os interesses da libertação nacional”. É difícil definir qual foi o primeiro atentado do ETA, já que os primeiros não foram assumidos. Em todo caso, o primeiro atentado assumido pela ETA foi a morte do agente do guarda civil José Pardines Arcay, em 7 de junho de 1968. O ETA cometeu seu primeiro atentado de grande repercussão: o assassinato de Melitón Manzanas, chefe da polícia secreta de San Sebastián e torturador da ditadura franquista. Em 1970, vários membros da ETA são julgados e condenados à morte durante o processo de Burgos, mas a pressão internacional fez com que a pena fosse alterada, mesmo tendo sido aplicada a outros membros do ETA antes. 

O atentado de maior repercussão durante a ditadura ocorreu em dezembro de 1973, com o assassinato do almirante e presidente do governo Luis Carrero Blanco, em Madrid, ação que foi aplaudida por muitos exilados políticos. Em 1978, com a nova Constituição espanhola, o País Basco consegue grande autonomia. Porém, o ETA reivindica a independência total da região. No dia 24 de março de 2006, a organização declarou um cessar-fogo permanente, que foi rompido em 30 de dezembro de 2006. A organização assumiu a explosão de um carro-bomba no Terminal 4 do Aeroporto de Madrid-Barajas, em Madrid. Ao contrário do que sucedera no passado, o ETA não anunciou o atentado previamente, provocando o desmoronamento de três dos quatro andares do prédio (o mais recente terminal do aeroporto), a suspensão do tráfego aéreo num dos dias mais movimentados do ano nos aeroportos europeus, deixando 19 pessoas feridas e causando a morte de dois equatorianos. De acordo com um vídeo lançado pela estação televisiva britânica BBC em 5 de setembro de 2010, o ETA não “levará a cabo mais ações militares”. Em 10 de janeiro de 2011 um anúncio informou que irá adotar um cessar-fogo “permanente, geral e verificável”. Em 20 de outubro de 2011 a organização emitiu um comunicado anunciando o fim de suas atividades após 51 anos, durante os quais provocou mais de 800 mortos. 

O abandono da luta armada pela ETA aconteceu no momento em que a organização estava mais débil, devido ao seu crescente isolamento social no País Basco, pela demarcação progressiva do seu braço político, e à pressão policial que, em Espanha e França, destruiu a capacidade operacional dos seus comandos. Apesar do abandono da luta armada, somente em 17 de março de 2017 veio o anúncio do desarmamento “total e sem condições” marcado para uma cerimônia em 8 de abril. Nesta data, em Baiona, na França, próximo à fronteira com Espanha, o ato marcou a entrega da geolocalização de oito depósitos de armas secretos situados nos Pirenéus Atlânticos, na França. Em 20 de abril de 2018 o grupo pediu perdão às vítimas antes de sua dissolução finalmente. Em 2 de maio de 2018, foi divulgado uma carta onde foi anunciado o fim do grupo separatista. Não pode ser superada exclusivamente nas sociedades hierarquicamente estruturadas de classes. Sua persistência se deve objetivamente e constantemente reconstituída como consciência prática inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos. Mas que se entrelaçam conflituosamente e se manifestam no plano da consciência, na grande diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos, que exercem influência sobre os processos materiais mais tangíveis. O metabolismo social é um dado utilizado para a compreensão dos processos sociais e se nesse momento houve a existência de sustentabilidade. Com 24 anos, Unaí Arkauz nunca viu o pai a não ser atrás das grades: - “O custo humano e financeiro é enorme para minha família. Sem falar dos obstáculos encontrados, como quando soubemos, depois de percorrer mil quilômetros, que meu pai havia sido transferido para o outro lado da Espanha”. 

O Movimento pela Anistia e contra a Repressão (Amnistia Ta Askatasuna, ATA), criado em 2014, nasceu nesse contexto. Embora minoritário, o ATA considera difícil “construir a paz enquanto prisioneiros de guerra morrem na prisão”, como explica um de seus porta-vozes, Sendoa Jurado. - “Se o problema de fundo da Espanha não for resolvido, essa situação se repetirá. O exemplo catalão é revelador: as pessoas ainda são presas por delito de opinião. Diante de qualquer resistência, violenta ou pacífica, o Estado espanhol responde com repressão”. Atualmente considerado o movimento mais radical, o ATA é muito crítico a respeito dos partidos abertzale, que teriam “abandonado a reivindicação histórica da anistia dos prisioneiros em favor da reaproximação”. Embora fale pouco sobre o assunto, o Estado francês relaxou ligeiramente sua política, transferindo uma dúzia de prisioneiros para instituições nas quais podem ficar mais perto da família. A senadora Frédérique Espagnac insiste: - “O trabalho de negociação quanto à aproximação começou sob o governo socialista, dois anos antes da saída de Christiane Taubira [ministra da Justiça entre 2012 e 2016], e estou contente que o atual governo tenha dado continuidade a ele”.Rajoy se mantém inflexível, declarando no início de maio: “Os terroristas não conseguiram nada matando nem parando de matar há alguns anos, e não conseguirão nada anunciando sua dissolução (…). Não haverá impunidade”. - “Qualquer lado que pretenda alcançar a vitória total corre o risco de ver o conflito reaparecer, como temos testemunhado em muitas outras situações”, diz a declaração final de Cambo-les-Bains. Na ausência de justiça transicional, a posição espanhola traz grande risco de complicar o trabalho necessário de verdade e reconciliação. 

O ETA matou 837 pessoas, sendo 358 delas em circunstâncias ainda não explicadas, segundo o Covite. São famílias à espera de esclarecimento. Os separatistas também têm muitas perguntas que continuam sem resposta, em particular sobre os 4.113 casos de tortura registrados desde 1960,4 bem como sobre os assassinatos não resolvidos durante o período da repressão praticada pelos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL). De 1983 a 1987, os comandos paramilitares do governo espanhol eliminaram dezenas de militantes bascos, especialmente em solo francês. Eles cessaram suas atividades em troca da colaboração antiterrorista entre os dois países criada por Charles Pasqua, então ministro do Interior da França. O caso mais recente – do militante do ETA Jon Anza, cujo corpo foi encontrado em 2010 no necrotério de um hospital de Toulouse, depois de ficar lá por dez meses, o que tornava impossível identificar a causa da morte – ainda está na memória de todo mundo. O caso foi resolvido durante uma simples conversa entre um funcionário do necrotério e um policial. Por quase dez meses, os investigadores procuraram por Jon Anza, um militante da ETA que vivia em Ahetze e desapareceu a caminho de uma reunião organizada pela organização.

Ele foi finalmente encontrado morto em 11 de março de 2010, no necrotério do Hospital Rangueil, em Toulouse. Um caso obscuro cuja investigação não conseguiu explicar esse impasse legal. Figura histórica da esquerda abertzale, Arnaldo Otegi adverte: “O conflito político basco é anterior à criação do ETA e não vai se resolver com a dissolução deste. Nosso país tem direito à paz e à liberdade”. Etcheverry concorda: “A capacidade de mobilização e organização da juventude e da população basca é bastante excepcional na Europa. Ela pode constituir, amanhã, uma força de ruptura municipalista, solidária e feminista de primeiro nível”. A questão política é que “construir a paz é muito mais difícil do que fazer a guerra”, disse Gerry Adams na Villa Arnaga. E o caminho será ainda mais longo, considerando que persistem muitas das razões que levaram parte do povo basco a se envolver na luta pelo direito à autodeterminação. Ao adotar uma atitude revanchista, o Estado espanhol, que por muito tempo utilizou a rejeição ao terrorismo para despolitizar o conflito e já enfrenta as reivindicações de autonomia da Catalunha, corre o risco de se ver diante de um segundo processo soberanista. Um interminável adeus às armas. Julho de 1959. Sob o regime ditatorial do general Francisco Franco, estudantes inspirados pelos movimentos de libertação revolucionários fundam o Euskadi Ta Askatasuna (ETA). Junho de 1968. O ETA faz sua primeira vítima, um guarda civil perto de San Sebastián. 

Dezembro de 1973. O ETA ataca pela primeira vez em Madri e mata o almirante Carrero Blanco, sucessor de Franco. Novembro de 1975. Morte de Francisco Franco (1975), democratização da Espanha. Os prisioneiros do ETA são anistiados, mas a organização continua com os atentados. Março de 1980. Os nacionalistas moderados vencem as primeiras eleições para o Parlamento Basco, criadas pelo novo estatuto de autonomia. Dezembro 1983. Criação dos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL). Janeiro de 1989. O ETA anuncia sua primeira trégua e negocia em Argel com emissários do governo de Felipe González, mas o diálogo emperra e o ETA rompe a trégua. Julho de 1997. O sequestro e assassinato de Miguel Ángel Blanco Garrido (1968-1997), jovem conselheiro municipal do Partido Popular, provoca uma onda de indignação. Setembro de 1998. Acordos de Lizarra-Garazi, em 12 de setembro de 1998, todas os partidos nacionalistas bascos, incluída Herri Batasuna, sete sindicatos e outras nove organizações assinam o reconhecido como Pacto de Estella, atualmente, Pacto de Lizarra-Garazi. O ETA decreta cessar-fogo total e ilimitado, mas o processo vai pelos ares em novembro de 1999. 30 de dezembro de 2006. Atentado de Madri marca o fracasso das últimas negociações com o governo de José Luis Rodríguez Zapatero, um político espanhol que foi o 5° Primeiro-Ministro da Espanha após a transição entre 2004 e 2011.

Membro do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), ele atuou como seu secretário-geral entre 2000 e 2012. Durante seu primeiro mandato, iniciado após a vitória do PSOE nas eleições gerais de 2004, as principais medidas de seu governo foram a retirada das tropas espanholas do Iraque, o envio de tropas para o Afeganistão e a promoção da Aliança das Civilizações, apresentada à Assembleia Geral da ONU em 2004 como alternativa à guerra ao terror do presidente Bush. Guerra ao Terror ou Guerra ao Terrorismo é uma campanha militar desencadeada pelos Estados Unidos, em resposta aos ataques de 11 de setembro. O então Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, declarou a “Guerra ao Terror” como parte de sua estratégia global de combate ao terrorismo. O abandono da política atlantista foi acompanhado por laços mais estreitos com a Alemanha e a França. A estabilidade política e econômica durante seu primeiro mandato permitiu o desenvolvimento de um programa progressista com medidas como a Lei Abrangente contra a Violência de Gênero, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei que promove a autonomia pessoal para pessoas em situação de dependência e a Lei da Memória Histórica.17-20 de outubro de 2011. Três dias após a conferência internacional pela paz em Aiete, o ETA anuncia o fim da luta armada e pede o diálogo com a França e a Espanha. 8 de abril de 2017. Diante da imobilidade dos Estados francês e espanhol, atores da sociedade civil organizam o desarmamento do ETA. Em 20 de abril de 2018, o ETA reconhece sua responsabilidade direta e pede perdão.

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834) foi pregador em Berlim na Igreja da Trindade e professor de Filosofia da Teologia na Universidade de Berlim. Traduziu as obras de Platão para o alemão. Foi influenciado por Kant e Fichte, mas não se tornou um idealista subjetivo. Teólogo e filósofo, foi contemporâneo de Johann Fichte, Friedrich Schelling, Friedrich Krause e Friedrich Hegel. Em 1797, em Berlim, conheceu Friedrich Schlegel e se uniu ao círculo dos românticos, colaborando com o Athenaeum. Posteriormente, ensinou Teologia em Halles. A partir de 1810, em Berlim Schleiermacher foi nomeado pregador da Corte e também professor de Teologia e Filosofia na Universidade de Berlim. As obras que lhe deram maior notoriedade foram os “Discursos sobre Religião” (1799) e os “Monólogos” (1800). Em 1822, publicou a “Doutrina da fé”, que tem importância sobretudo em relação à teologia dogmática protestante. Entre 1804 e 1828, traduziu os diálogos de Platão. Postumamente, foram publicadas as aulas relativas à dialética, à ética e à estética, além de outros temas, dentre os quais revestem-se de particular importância a Hermenêutica, na qual se revela precursor. As suas doutrinas exerceram grande influência na teologia protestante e foram estudadas, com a evolução do seu espírito, por Dilthey, que dividiu em quatro períodos a sua atividade literária: a juventude (manuscritos), período da intuição (1796-1802), época crítica (1802-1806), período sistemático (1806-1834). Ao contrário de Hegel, não subordina a religião à Filosofia, porque o sentimento, como unidade originária de pensamento e querer, não é abolido pelo pensamento. O sentimento da imortalidade e da fé na imortalidade fundam-se na “imortalidade da união da essência de Deus com a natureza humana na pessoa de Cristo”. Para Schleiermacher, a religião é a relação do homem com o todo. Ora, a Totalidade e o Todo relacionam-se também com a metafísica e a moral.      

 Mas isso, segundo o nosso filósofo-teólogo, foi fonte de graves equívocos, que fizeram penetrar indevidamente na religião grande quantidade de ideias filosóficas e morais. Mas a metafísica diz respeito ao pensamento que se vincula à Totalidade, ao passo que a ética diz respeito ao agir em relação à Totalidade, as simples ações vistas como “deveres” deduzidos da natureza do homem em relação com o universo. A religião, no entanto, não é pensamento nem atividade moral. É intuição e sentimento do infinito e, como tal, possui fisionomia bem precisa, que se distingue tanto da metafísica como da ética. A religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento nem na ação social, e sim na intuição e no sentimento. Ela aspira a intuir o Universo; quer ficar contemplando-o piedosamente em suas manifestações e ações originais; quer fazer-se penetrar e preencher por suas influências imediatas, com passividade infantil. Assim, a religião se opõe a ambas em tudo o que constitui sua essência e em tudo o que caracteriza os seus efeitos. Em todo o universo, elas não veem nada mais além do que o homem no centro de toda relação, como condição de todo ser e causa de todo devir; esta, porém, tende a ver no homem, não menos que em todas as outras coisas particulares e finitas, o infinito, a imagem, a marca, a expressão do Infinito. E mais: “A intuição do Universo (...) é a pedra angular de todo o meu discurso, é a fórmula mais universal e mais elevada da religião, através da qual podeis descobrir todas as suas partes, e se podem determinar a sua essência seus limites do modo mais exato. Toda intuição deriva da influência do objeto intuído sobre o sujeito que intui, da ação originária e independente do primeiro, que é acolhida, compreendida e concebida pelo segundo, em conformidade com a sua natureza”. 

A ação do infinito sobre o homem, portanto, é a intuição. E o sentimento é a resposta do sujeito: é o estado de espírito, ou seja, a reação da consciência. Este sentimento que acompanha a intuição do infinito é sentimento de total dependência do sujeito em relação ao infinito. O sentimento religioso, portanto, é sentimento de total dependência do homem (finito) em relação à Totalidade (infinita). Essa ideia básica vale, como diz Schleiermacher, para todas as formas de religião. Mas, com o passar dos anos, ele também acabou por privilegiar o cristianismo. Na sua ideia “A Fé Cristã” (1821-1822), Schleiermacher fez uma formulação sistemática da cristologia, segundo a qual Jesus é o Urbild, a imagem originária do que o homem é antes da queda. No entanto, Paul Tillich considera sua formulação mais completa, pois para ele o Novo Ser não é somente o Urbild, o homem essencial, o homem perfeito, ideal da consciência religiosa, e sim o homem novo, aquele que participa da existência e vence sua alienação. No “A Flute é Cristã”, portanto, é traçada uma nova síntese entre fé e cultura e entre teologia [protestante] e filosofia. Dessa forma, por ser todo o seu pensamento profundamente cristocêntrico, Schleiermacher afirma que o cristão tem consciência de depender de algo superior, sobrenatural, derivando-se daí sua consciência ética, uma vez que tudo está subordinado àquela sensação religiosa, que, enfraquecendo-se, gera o pecado, fortalecendo-se, gera a graça. Para ele o cristão pergunta a si mesmo continuamente: o que deve ser, à luz da consciência cristã? Assim, ele harmonizou as concepções do protestantismo com as convicções da burguesia culta e liberal. Foi considerado radical pelos ortodoxos e visionário pelos racionalistas, mas influenciou, mais do que outro teólogo, o pensamento protestante do século XIX.

Rosino Gibellini (1998) comentando a hermenêutica de Schleiermacher diz que ela pode muito bem ser aplicada na Religião para se entender a vida espiritual: "As ciências do espírito compreendem um fato espiritual, quando decifram seu sentido inserindo-o numa conexão significativa. A compreensão da vida espiritual, expressa e estabelecida em documentos escritos, é possível quando quem compreende e interpreta toma por base a expressão (Ausdruck) linguístico-literária e chega à própria experiência espiritual (Erlebnis) do autor, revivendo-a na identificação (mitfuhlendes Nacherleben). Do mesmo modo que pode ser objetivada em documentos escritos, a vida espiritual também pode ser revivida no processo e interpretada. A concepção que Schleiermacher tem de Deus, baseada no sentimento de dependência absoluta, de Deus como unidade absoluta do ideal e do real, enquanto no conceito do mundo se manifesta a unidade relativa do ideal e do real, obriga a concluir que não há identidade entre Deus e o mundo, mas também que Deus não é pensável separado do mundo. Esta concepção tem raízes em Plotino e nalguma mística cristã e é atribuída a Schleiermacher, que, de fato, procura eliminar a contradição entre panteísmo e teísmo. Entretanto, Schleiermacher, e outros, concebe Deus, para além do naturalismo e do sobrenaturalismo, como o “ser-em-si”, como “o fundamento criador de tudo que existe”, como “a potência incondicionada e infinita do ser”. Entretanto, para o naturalismo Deus está no mundo e, por outro lado, para o sobrenaturalismo Deus está acima do mundo. Por fim, a religião para Schleiermacher é uma relação do homem com a totalidade, é intuição e sentimento do infinito.

A religião, assim, aspira a intuir o universo, tende a ver no homem, e em todas as outras coisas finitas, o infinito, a imagem, a marca, a expressão do infinito: a ação do infinito sobre o homem é, portanto, a intuição, e a resposta do sujeito é o sentimento de total dependência do infinito. Com Friedrich Schleiermacher no início do século XIX, a hermenêutica recebe uma reformulação, pela qual ela definitivamente entra para o âmbito da filosofia. Em seus projetos de hermenêutica coloca-se uma exigência significativa: a exigência de se estabelecer uma hermenêutica geral compreendida abstratamente como uma teoria geral da compreensão. A hermenêutica geral deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações linguísticas. Onde houvesse linguagem, ali aplicar-se-ia sempre a interpretação. E pensando bem tudo o que é objeto da compreensão é linguagem. Esta afirmação, entretanto, demonstra todas as suas implicações quando se lhe justapõe esta outra tese de Schleiermacher: - “A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo. Pois, não há pensamento sem discurso (...). Ninguém pode pensar sem palavras”. Ao postular a unidade de pensamento e linguagem, a tarefa da hermenêutica se torna universal e abarca a totalidade do que importa ao humano. Representa uma análise da compreensão a partir da natureza da linguagem e das condições basilares da relação entre o falante e o ouvinte. Em verdade a expressão ambígua que fora criada quando da tradução alemã, em 1843, do Sistema de Lógica do filósofo utilitarista John Stuart Mill, “cujo Livro VI trata das Moral Sciences. O empreendimento de Dilthey nada tem em comum com a postura de Stuart Mill, antes se opõe a ela” (cf. Cohn, 2003).     

Essa distinção teria enormes repercussões sociais, no plano da teoria, causando polêmicas e discussões, tornando-se um divisor de águas que perduram no pensamento filosófico. Wilhelm Dilthey procura “resolver” inclusivamente esta questão, pois para ele é possível, diante do mundo humano, adotar uma atitude de “compreensão pelo interior”, ao passo que, diante do mundo da natureza, essa via de compreensão estaria completamente fechada. As “ciências do espírito” teriam como objeto o homem e, por assim dizer, o comportamento humano.  Os meios necessários à compreensão do mundo histórico-social podem ser dessa maneira, tirados da própria experiência psicológica, e a psicologia, deste ponto de vista Diltheyano, “é a primeira e mais elementar das ciências do espírito”. A experiência imediata e “vivida na qualidade de realidade unitária” (“Erlebnis”) seria o meio a permitir a apreensão singular da realidade histórica e humana sob suas formas concreta e viva. Em seus ensaios gerais intitulados “Estudos sobre os Fundamentos das Ciências do Espírito” e “Teoria das Concepções do Mundo”, Dilthey submete a uma análise rigorosa o conceito de “Erlebnis”. Em “A Essência da Filosofia”, obra de (1907), o hermeneuta chega a afirmar a falência da filosofia como metafísica.

Em verdade ele propõe metodologicamente uma filosofia histórica e relativa que analise os comportamentos humanos e esclareça as estruturas do mundo no qual vive o homem contrapondo-se a uma metafísica que se pretende colocar como imagem da realidade e a reduzir todos os aspectos da realidade a um único princípio absoluto. O contato conceitual de Wilhelm Dilthey com a hermenêutica está relacionado à sua preparação teológica, embora a tenha utilizado para responder a seguinte pergunta: - “Como se diferenciam as ciências humanas ou sociais das ciências naturais? A reflexão de Dilthey para estabelecer as relações entre significados e sistemas está presente ao longo de todos os seus escritos principalmente àqueles relacionados sobre as “ciências do espírito”, com oscilações que ensejam a leitura da sua obra tanto no âmbito psicológico quanto de uma perspectiva mais sociológica. Sem dúvida ele sempre recusou algum caráter de ciência à sociologia, referindo-se às suas variantes positivistas, mas em sintonia com uma preocupação com os fenômenos históricos em grande escala, nos quais as dimensões decisivas dizem respeito às formas de organização da vida coletiva. Foi o primeiro pensador preocupado em aproximar a hermenêutica do terreno das incertezas no conhecimento da história social europeia (cf. Hidalgo e Cruz, 2015).

A inovação causada por sua teoria foi única e, por isso, ele está na base de muitas correntes de pensamento que articulam história e hermenêutica. A hermenêutica tradicional se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito. A hermenêutica moderna ou contemporânea engloba não somente textos escritos, mas também tudo que há no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não verbais de comunicação, assim como aspectos que afetam a comunicação, como proposições, pressupostos, o significado e a filosofia da linguagem e a semiótica. Não tem a pretensão de eternizar o homem, mas possibilitar ao homem se aproximar da vida, por meio de conexões que integram, aproxima e relaciona os homens. A teoria compreensiva tem uma importância ética ímpar para o mundo contemporâneo.  A base para esse nexo em que se dá a relação da vivência é a categoria do significado. Tal categoria corresponde a um apoio sólido que aparece como uma unidade de conjunto onde age o pensamento, os sentimentos e a vontade. Considerando que há relação conceitual estabelecida sobre o balanço referencial entre a parte e todo no nexo da vivência, o que garante o equilíbrio para esse balanço é a categoria interpretativa do significado que para Dilthey, é a integração num todo que nós encontramos junto e nos remete ao significado e sentido contido na relação parte-todo que encontra na vivência e é seu fundamento.

É neste sentido que Dilthey considera que vida e a mudança dos seus principais momentos estruturais fazem que a concepção do mundo sempre e em toda a parte se expresse em oposições, embora sobre um fundo comum. Portanto, é na arte, na religião e no pensamento que encarnam os ideais que atuam na existência de um povo. Por conseguinte, toda a mundividência é produto da história. A historicidade revela-se como uma propriedade fundamental da consciência humana. Os sistemas filosóficos não constituem uma exceção. Como as religiões e as obras de arte, contêm uma visão da vida e do mundo, inserida na vitalidade das pessoas que os produziram e em consonância com as épocas em que vieram à luz do dia; traduzem uma determinada atitude afetiva, caracterizam-se pela imprescindível energia lógica, porque o filósofo procura trazer a imagem do mundo à clara consciência e ao mais estrito urdimento cognitivo. Neste esforço de reflexão e de trabalho dos conceitos, que gera uma circunspecção potenciada, é que reside o valor prático da atitude filosófica.   Como o centro da compreensão está na vida como um todo estruturado, mas sempre resultando da relação entre individualidades, é possível perceber a conexão entre a ética e a teoria compreensiva. Em verdade uma concepção da teoria, ao longo de quase meio século, permeado lado a lado por um motivo básico: uma unidade cuja garantia de existência é a presença do sentido.

Há uma démarche que atravessa o homem, e nesta noção de sentido está a marca de uma concessão fatal a uma metafísica.  Ele desejava evitar tanto quanto o empirismo dos positivistas, desde que fique clara a dimensão de ser criador de significados, que não é simplesmente a noção ampla de vida, mas sua unidade constitutiva, a vivência, representada em toda experiência humana. A história é suscetível de conhecimento porque é obra humana; nela o sujeito e objeto do conhecimento formam uma unidade. Nessa direção chega-se à formulação final da concepção hermenêutica de Dilthey. São seus elementos: vivência, expressão e compreensão. A vivência surge nesse ponto, como algo especificamente social – pela sua dimensão intersubjetiva, e cultural – pela sua dimensão significativa -, para além do seu nível psicológico ou mesmo biológico porque guarda na memória. Trata-se de um ato reflexivo de consciência, que propõe e persegue fins num contexto intersubjetivo. As interações humanas ganham corpo nas diversas formas de “manifestação de vida” através da arte, filosofia, religião, ciência, como expressão desse caráter objetivo que a experiência, intersubjetivamente constituída assume.               

O processo de formação da maior parte dos países atuais envolveu o separatismo em suas diversas formas. São exemplos disso os numerosos países surgidos dos processos políticos de descolonização das potências imperialistas durante os séculos XIX e XX nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania. Foi por processo de separação que os Estados Unidos proclamaram sua Independência da Grã-Bretanha, e o Texas, do México, antes de se auto-anexar aos Estados Unidos. O mesmo ocorreu comparativamente com o Brasil, emancipado de Portugal em 1822, e essencialmente o Uruguai, emancipado do Brasil, em 1825. Durante a história do Brasil, especialmente no período do II Reinado, surgiram vários movimentos separatistas, pretendendo formar repúblicas separadas, por acharem que a monarquia brasileira não atendia adequadamente os interesses de uma determinada região, a seguir: Conspiração dos Suassunas, Revolução Pernambucana, Confederação do Equador e Revolução Praieira, em Pernambuco; Cabanagem, no Pará; a Balaiada, no Maranhão; e a Sabinada, na Bahia. Houve também movimentos que defendiam criações de novos estados nacionais, como aconteceu com Mato Grosso do Sul e Tocantins. O único movimento separatista de sucesso no Brasil foi o que proclamou a República Oriental do Uruguai, na Guerra da Cisplatina; e o que mais tempo social durou sendo suplantado foi o que proclamou a República Rio-Grandense, na Revolução Farroupilha.

No mundo globalizado contemporâneo, existem movimentos separatistas em numerosos países, de maior ou menor expressão. Por exemplo, na Europa, apenas a Islândia e Portugal carecem de movimentos soberanistas de grande incidência, uma vez que todos os outros Estados contam com territórios com línguas e consciência nacional próprias. Os movimentos separatistas podem ser armados ou pacíficos, e podem ou não envolver conflitos com os países dos quais se pretende a separação. Alguns casos de separatismo recentemente bem-sucedido, por via militar ou mais ou menos violenta, incluem: A Namíbia, da África do Sul, em 1990; A Croácia, da antiga Iugoslávia, em 1991; A Bósnia, da antiga Iugoslávia, em 1992; A Eritreia, da Etiópia, em 1993. Por via pacífica, mediante referendo, atingiram recentemente a Independência: Finlândia, da União das Repúblicas Socialistas Soviética, em 1918; Repúblicas bálticas da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviética (Estônia, Letônia e Lituânia, em 1991); Eslovênia, da antiga Iugoslávia, em 1990; Eslováquia e a República Checa, que formavam a Checoslováquia, em 1993; Timor-Leste, da Indonésia, mediante referendo após uma longa e violenta guerra de resistência, em 2002; Montenegro, em 2006, emancipado da Sérvia mediante um referendo de autodeterminação;  Sudão do Sul, em 2011, emancipado do Sudão mediante um referendo de autodeterminação. A Independência de Kosovo, emancipado da Sérvia em 2008, ainda não pode ser tida como bem-sucedida, eis que não foi até o momento reconhecida pela Sérvia, Rússia e outros países. Sua Independência também não pode ser tida por pacífica ainda, devido à ameaça constante de guerra, tanto civil, podendo envolver a minoria sérvia do norte do país, como externa, contra a própria Sérvia. A Federação Russa possui vários movimentos separatistas além da Chechênia e Tartaristão, e sua dissolução é prevista por acadêmicos desde os anos 1990.

Esse conflito tampouco será resolvido no domínio legislativo da “razão teórica” isolada, independentemente do nome da moda sociológica que lhe seja dado. É por isso que o estruturalmente mais importante conflito – cujo objetivo é manter ou, ao contrário, negar o modo dominante de controle sobre o metabolismo social dentro dos limites das relações de produção estabelecidas em que os homens se tornam conscientes desse conflito e o resolvem pela luta. Em outras palavras, as diferentes formas ideológicas de consciência social têm implicações práticas de longo alcance. Em todas as suas variedades como na arte e na literatura, assim como na filosofia e na teoria social, independentemente de sua vinculação sociopolítica a posições progressistas ou conservadoras. É esta orientação prática que define também o tipo social de racionalidade apropriado ao discurso ideológico e inscreve, por assim dizer, a questão da racionalidade ideológica como inseparável do reconhecimento das limitações objetivas dentro das quais são formuladas as estratégias alternativas a favor ou contra a reprodução de determinada ordem social. Não é questão de conformidade ou não conformidade a algum conjunto de regras predeterminado de normas lógicas. As ideologias são determinadas pela época histórica em dois sentidos. Primeiro, enquanto a orientação conflituosa das várias formas de consciência social prática permanecer a característica mais proeminente dessas formas de consciência, na medida em que as sociedades forem divididas em classes.

Em outras palavras, a consciência social prática de tais sociedades não podem deixar de ser ideológica, isto quer dizer é idêntica à ideologia, em virtude do caráter insuperavelmente antagônico de suas estruturas sociais. Segundo, na medida em que o caráter específico do conflito social fundamental, que deixa sua marca indelével nas ideologias conflitantes em diferentes períodos históricos, surge do caráter historicamente mutável – e não em curto prazo – das práticas produtivas e distributivas da sociedade e da necessidade correspondente de se questionar radicalmente a continuidade da imposição das relações socioeconômicas e políticas que, anteriormente viáveis, tornam-se cada vez menos eficazes no curso do desenvolvimento histórico. Desse modo, os limites de tal questionamento são determinados pela época, colocando em primeiro plano as novas formas de desafio ideológico em íntima ligação com o surgimento de meios de satisfação das exigências fundamentais sociais. Sem se reconhecer a determinação das ideologias como a consciência prática das sociedades de classe, a estrutura interna permanece completamente ininteligível. É neste sentido que devemos diferenciar três posições ideológicas fundamentalmente distintas, na vida social e política, com sérias consequências para os tipos de conhecimento compatíveis com cada uma delas.

A primeira apoia a ordem estabelecida com uma atitude acrítica, adotando e exaltando a forma vigente do sistema dominante – por mais que seja problemático e repleto de contradições – como o horizonte absoluto da própria vida social. A segunda, exemplificada por pensadores radicais como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), revela acertadamente as irracionalidades da forma específica de uma anacrônica sociedade de classes que ela rejeita a partir de um ponto de vista. Mas sua crítica é viciada pelas próprias contradições de sua própria posição social – igualmente determinada pela classe, ainda que seja historicamente evoluída. E a terceira, contrapondo-se às duas posições sociais anteriores, questiona a viabilidade histórica da própria sociedade de classe, propondo, como objetivo central de sua intervenção prática consciente, a superação de todas as formas de antagonismo de classe. Apenas o terceiro tipo de ideologia pode tentar superar as restrições associadas com o conhecimento prático dentro do horizonte da consciência social dividida, sob as condições da sociedade dividida em classes. A questão prática, permanece a mesma. Mas sugere também como “resolver pela luta” o conflito fundamental relativo ao direito estrutural de controlar o “metabolismo social” como um todo. O quadro categorial das discussões teóricas, de acordo com a história social e política não pode ser determinado significativamente por meio de escolhas arbitrárias.

Embora a arbitrariedade se manifeste com frequência nas mutáveis proposições das tendências ideológico-intelectuais dominantes. No entanto, observando-se mais de perto as autodefinições de tais tendências, em geral elas revelam um padrão e uma objetividade característicos, embora isto não signifique que sejam isentas de problemas. Contrastando com o grau relativamente alto de objetividade das próprias tendências, a inconstância e a arbitrariedade podem predominar nas escolhas individuais dos intelectuais que assumem a orientação ideológica dominante de um dado período, passando em grande número, por exemplo, sem motivação muito profunda, para o grupo de partidários da “modernidade”. No entanto, este fenômeno é diferente da formação do grupo de partidários em si, pois a categoria de “modernidade” é um exemplo notável dessa tendência ideológica à atenuação anistórica do conflito. É neste sentido que o pensamento materialista e dialético de Marx contrapõe o anacronismo histórico da Alemanha retardatária às condições revolucionárias políticas e econômicas avançadas de nações modernas comparativamente como ocorre com a Inglaterra e a França.

Entretanto, na parte analítica que nos interessa, concordamos com Mészáros, quando admite que o elo crucial é da racionalidade de Max Weber. Sua influência tanto metodológica quanto ideológica nunca poderia ser suficientemente enfatizada. Weber justifica sua análise científica tipológica a partir de sua pretensa “conveniência”. Sua cientificidade só existe, porém, por definição. De fato, a aparência de “cientificidade tipológica rigorosa” surge de definições “inequívocas” e “convenientes” com que Max Weber sempre compreende a discussão dos problemas selecionados. Ele é um mestre sem rival nas definições circulares, justificando seu próprio procedimento teórico em termos de “clareza e ausência de ambiguidade” dos “tipos ideais”, e da “conveniência” que, segundo se diz, eles oferecem. Além disso, nunca permite que o leitor questione o conteúdo das próprias definições nem a legitimidade e validade científica de seu método, construído sobre suposições ideologicamente convenientes e definições circulares “rigorosamente” autossustentadas. 

Estabelecida no tipo puro conceitual da autoridade tradicional, metodologicamente falando, é impossível que o direito ou as regras administrativas sejam deliberadamente criados por um ato legislativo. Uma vez que, segundo ele, o “tipo puro” da autoridade tradicional é considerado distinto da “autoridade legal” pela ausência de legitimação legislativa, no sentido em que seu mandato à autoridade repousa nas “tradições e na legitimidade do status daqueles que exercem a autoridade”, afirmação da passagem citada que é considerada tout court problemática. A seletividade e a arbitrariedade ideológica podem dominar o quadro conceitual típico-ideal weberiano, que se apresenta para István Mészáros, falsamente como o notável paradigma da racionalidade. Uma vez que os pressupostos definidores são simples enunciados, e espera-se que as pessoas os aceitem tacitamente e tratem-nos como o padrão absoluto da análise “racional”. É a priori descartada a possibilidade de que algo esteja substancialmente errado com os critérios proclamados por tal “análise topologicamente científica” e com seus termos de avaliação. Em vez disso, espera-se que nos submetamos sem que tenhamos sequer uma sombra de dúvida, à autoevidente solidez do decreto weberiano, que considera “mais conveniente” compreender um pânico da bolsa de valores como causado pela “irracionalidade”, tendo ao fundo o pressuposto do capitalismo como um cálculo racional. Max Weber trata os sintomas de crise da ordem socioeconômica eternizada como “desvios” em relação a sua racionalidade intrínseca enquanto sistema total. Este fato não se encaixa no quadro conceitual weberiano. Uma análise crítica do fenômeno do “pânico da bolsa de valores” exigiria, não a rejeição “conveniente” e tácita da “irracionalidade” dos indivíduos, mas ao contrário, o questionamento radical das limitações estruturais da racionalidade capitalista em si.

Na verdade, a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, não pode ser superada nas sociedades de classe. Sua persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente (e constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos. Os interesses sociais que se desenvolvem ao longo da história e se entrelaçam conflituosamente manifestam-se, no plano da consciência social, na grande diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos (mas, é claro, de modo algum independentes), que exercem forte influência sobre os processos materiais mais tangíveis do metabolismo social. Compreensivelmente, o conflito mais fundamental na arena social refere-se à própria estrutura social que proporciona o quadro regulador das práticas produtivas e distributivas de qualquer sociedade específica. Esse conflito tampouco será no domínio legislativo da “razão teórica” isolada, independentemente do nome da moda que lhe seja dado. É isso  estruturalmente o mais importante no conflito – cujo objetivo é manter ou, ao contrário, negar o modo dominante de controle sobre o metabolismo social dentro dos limites das relações estabelecidas, encontra suas manifestações necessárias nas formas ideológicas (orientadas para a prática) em que os homens se tornam conscientes desse conflito sócia e o resolvem pela luta.

Nesse sentido, o que determina a natureza da ideologia, acima de tudo, é o imperativo de se tornar praticamente consciente do conflito social fundamental – a partir dos pontos de vista mutuamente excludentes das alternativas hegemônicas que se defrontam em determinada ordem social com o propósito de resolvê-lo pela luta. Em outras palavras, as diferentes formas ideológicas de consciência social têm implicações práticas, mesmo se em graus variáveis, direta ou indiretamente, de longo alcance em todas  as suas variedades, na arte, na literatura, assim como na filosofia e na teoria social, independentemente de sua vinculação sociopolítica a posições que são progressistas ou conservadoras. É esta orientação prática que define o tipo de racionalidade apropriado ao discurso ideológico. A racionalidade ideológica é inseparável do reconhecimento das limitações dentro das quais são formuladas as estratégias alternativas a favor ou contra a reprodução de determinada ordem social. As ideologias são determinadas pela consciência em dois sentidos. Primeiro, enquanto a orientação conflituosa das várias formas de consciência prática permanecer a característica mais proeminente dessas formas de consciência, na medida em que as sociedades forem divididas em classe.  

Em outras palavras, a consciência social prática de tais sociedades não pode deixar de ser ideológica – isto é, idêntica à ideologia – em virtude do caráter insuperavelmente antagônico de suas estruturas sociais. Segundo, na medida em que o caráter específico do conflito social fundamental, que deixa sua marca indelével nas ideologias conflitantes em diferentes períodos históricos, surge do caráter historicamente mutável – e não em curto prazo – das práticas produtivas e distributivas  e da necessidade correspondente de se questionar radicalmente a continuidade da imposição das relações socioeconômicas e político-culturais que, anteriormente se tornaram viáveis, mas em determinada conjuntura tornam-se cada vez menos eficazes no curso histórico. Desse modo, os limites de tal questionamento são determinados pela época, colocando em primeiro plano novas formas de desafio ideológico em íntima ligação com o surgimento de meios mais avançados de satisfação das exigências fundamentais do metabolismo social. Sem se reconhecer a determinação das ideologias pela época como a consciência social prática das sociedades de classe, a estrutura interna permanece completamente ininteligível. Devemos diferenciar, entretanto, três posições ideológicas fundamentalmente distintas, com sérias consequências para os tipos sociais de conhecimento compatíveis com cada uma delas.

A primeira apoia a ordem estabelecida com uma atitude acrítica, adotando e exaltando a forma vigente do sistema dominante – por mais que seja problemático e repleto de contradições como o horizonte absoluto da própria vida social. A segunda, exemplificada por pensadores radicais como J.-J. Rousseau, revela acertadamente as irracionalidades da forma específica de uma anacronia de classes que ela rejeita a partir de um ponto de vista. A crítica é viciada pelas contradições da posição social, igualmente determinada pela classe, ainda historicamente mais evoluída. E a terceira, contrapondo-se às duas anteriores, questiona a viabilidade histórica da própria sociedade de classe, propondo, como objetivo de sua intervenção prática consciente, a superação de todas as formas de antagonismo de classe. Apenas o terceiro tipo de ideologia pode tentar superar as restrições associadas com a produção do conhecimento prático dentro do horizonte da consciência social dividida, sob as condições da sociedade também dividida em classes. A esse respeito, é importante ter em mente a visão marxiana de que, na atual conjuntura de desenvolvimento histórico, a questão da “transcendência” deve ser formulada como a necessidade de se ir além da sociedade de classes como tal, e não simplesmente sair de um tipo particular de sociedade de classes em favor de outro. Essa proposição, porém, não significa que se possa escapar da necessidade de articular a consciência social – orientada para o objetivo estratégico de remodelar a sociedade de acordo com as potencialidades produtivas reprimidas de um agente coletivo identificável - como uma ideologia coerente e vigorosa. A questão prática pertinente permanece a mesma: como “resolver pela luta” o conflito fundamental relativo ao direito estrutural de controlar o metabolismo social como um todo.  A questão não é opor a ciência à ideologia comumente numa dicotomia positivista anacrônica, passadista ou antimarxista, mas esclarecer sua unidade viável a partir do ponto de vista teórico, histórico e ideológico.

Bibliografia Geral Consultada.

FOURIER, Charles, L`orde Subversif Trois Texts Sur la Civilisation. Paris: Editeur Aubier Montaigne, 1972; TRISTAN, Flora, Le Tour de France. Journal Inédite 1843-1844. Paris: Éditions Tête de Feuilles, 1973; ARANZADI, Juan, “El Mito de la Edad de Oro Vasca”. In: El Milenarismo Vasco. Madri: Ediciones Taurus, 1982; GARCÍA, Ángel López, El Rumor de los Desarraigados: Conflicto de Lenguas en la Península Ibérica. Barcelona: Editorial Anagrama, 1985; GIBELLINI, Rosino, A Teologia do Século XX. 2ª edição. São Paulo: Editora Loyola, 1998; COHN, Gabriel, “Dilthey e a Hermeneutica”. In: Crítica e Resignação: Max Weber e a Teoria Social. Tese de Titular em Sociologia. 2ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2003; BREÑA, Carmen Morán, “Congresso Aprova Reforma do Divórcio”. In: El País, 30 de junho de 2005; ABELLÁN, Lucía, “A Reforma Trabalhista Estreia no Domingo”. In: El País, 19 de setembro de 2010; OLIVEIRA, Davison Schaeffer, Filosofia e Teologia em Friedrich Schleiermacher: A Teoria do Sentimento como Ponto de Inflexão dos Princípios da Dialética e da Dogmática. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião. Instituto de Ciências Humanas. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2015; HIDALGO, Yaremis da Trinidade; CRUZ, Yenisey López, “La Hermenéutica en el Pensamiento de Wilhelm Dilthey”. In: Griot - Revista de Filosofia. Santiago de Cuba. Volume 11, n°1, junho de 2015; ALMEIDA, São José, “LUAR: A Organização Armada que Recusou o Terrorismo”. Disponível em: https://www.publico.pt/2016/09/30/; LOURENÇO, Luís Eduardo Morimatsu, A Teoria da Experiência de Wilhelm Dilthey enquanto Crítica da Tradição Epistemológica (1883-1894). Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016; NOIVO, Diogo, “Uma História da ETA - Nação e Violência em Espanha e Portugal”. In: Bookbuilders, 2020; LOPEZ, Iñaki Iriarte, “We the Basques, and the Other(s): Ethnic Asymmetries in Basque Nationalist Discourse”. In Kirill Postoutenko (ed.), Beyond Hellenes and Barbarians: Asymmetrical Concepts in European Discourse. New York: Editor Berghahn Books, 2023; BATISTA, Vitor Hugo, “Israel critica países que condenam novos assentamentos na Cisjordânia”. In: Folha de São Paulo, 25/12/2025; entre outros.

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