sábado, 25 de novembro de 2023

Camisa de Força – Cinema, Psiquiatria & Restrição de Movimentos.

                         “Quando um louco parece lúcido é o momento de colocar-lhe a camisa de força”. Edgar Allan Poe

         O corpo percorre a história da ciência e da filosofia. De Platão a Bergson, passando por Descartes, Espinosa, Merleau-Ponty, Freud, Marx, Nietzsche, Weber e principalmente Michel Foucault, quando a definição de corpo demonstra um puzzle. Quase todos reconhecem a profusão da visão dualista de Descartes, que define o corpo como uma substância extensa em oposição à substância pensante. Podemos perceber que seguindo este modo científico de compreensão, sobretudo com o advento da modernidade, o corpo foi facilmente associado a uma máquina. O corpo foi pensado como um mecanismo elaborado por determinados princípios que alimentam as engrenagens desta máquina promovendo o seu bom funcionamento. Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e domínio que constituem a ascese necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo. Neste aspecto Michel Foucault (2014) nos adverte sobre a questão abstrata da analítica do poder que se constitui o marco histórico e pontual de “docilidade dos corpos”. Para ele o soldado é alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais naturais de seu vigor e coragem, as marcas de seu orgulho: seu corpo é o brasão de sua força e de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o ofício das armas, lutando, as manobras como a marcha, as atitudes como o porte da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal com significado e sentido de honra.

Eis como ainda no início do século XVIII se descrevia a figura ideal do soldado. Mas na segunda metade deste século, o soldado se tornou algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas: lentamente uma coação calculada percorrer cada parte do corpo, assenhoreia-se dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi “expulso o camponês” e lhe foi dada a “fisionomia de soldado”. Ipso facto, houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo que se manipula, modela-se, treina-se, que obedece, responde, torna-se hábil ou cujas forças multiplicam o “homem-máquina”. O grande livro do homem-máquina foi descrito simultaneamente em dois registros: no anátomo-metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido escritas por Descartes e que os médicos, os filósofos continuaram; o outro, técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares, hospitalares e por processo empíricos e refletidos para controlar ou corrigir as operações do corpo. Dois registros bem distintos, pois se tratava ora de submissão e utilização, ora de funcionamento e de explicação: corpo útil, corpo inteligível. E, entretanto, de um ao outro, pontos de cruzamento. “O homem-máquina” de La Metrie (1709-1751) é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo manipulável.

Em sua significação específica é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Contudo, os famosos autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar o organismo; eram também bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão de Frederico II (1712-1786), rei minucioso das pequenas máquinas, dos regimentos bem treinados e dos longos exercícios. Para a investigação social da analítica do poder de Foucault metodologicamente a questão a responder é a seguinte: Nesses esquemas de docilidade, em que o século XVIII teve tanto interesse, o que há de tão novo? Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes mito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle; não se trata de cuidar do corpo, massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalha-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao mesmo nível prático da mecânica – movimentos, gestos, atitudes, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que importa realmente é a do exercício. 

A modalidade implica uma coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos.  Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar disciplinas. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. Mas também ocorre que são diferentes também da domesticidade, que é uma relação social de dominação constante, global, maciça, não analítica, ilimitada e estabelecida sob a forma de vontade de poder singular do patrão, sendo quase seu “capricho”. Diferentes da vassalidade que é uma relação de submissão codificada, mas longínqua e que se realiza menos sobre as operações do corpo que os produtos do trabalho e as marcas rituais de obediência.

Diferentes do ascetismo e das “disciplinas” de tipo monástico, que têm por função realizar renúncias mais do que aumentos de utilidade e obediência, têm como fim um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter o domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas ara que operem como se quer, com as técnicas segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis.  A disciplina enquanto processo aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela associa o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar, e faz dela uma relação de sujeição estrita.

The Jacket é um filme teuto-britano-estadunidense de 2005, dos gêneros suspense, drama e ficção científica, dirigido por John Maybury, Tom Bleecker e Marc Rocco. Jack Starks representa um veterano da Guerra do Golfo, ocorrida entre 2 de agosto de 1990 até 28 de fevereiro de 1991, entre o Iraque e forças da chamada Coalizão internacional, liderada pelos Estados Unidos da América e patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), com a aprovação de seu Conselho de Segurança, através da Resolução 678, autorizando o uso da força militar para alcançar a libertação do Kuwait, ocupado e anexado pelas forças armadas iraquianas sob as ordens de Saddam Hussein  que retorna à sua cidade natal após se recuperar de um tiro na cabeça. Ele passa a sofrer de amnésia e, após ser acusado de ter assassinado um policial, é recolhido a um hospital psiquiátrico. O Dr. Thomas Becker faz com que Jack tenha drogas experimentais injetadas em seu corpo, como parte de testes deste tipo de tratamento. Imobilizado em uma camisa de força, Jack constantemente é “trancado por um longo tempo em uma gaveta de cadáveres, no necrotério da clínica em que está”. Completamente drogado, a mente de Jack consegue se projetar para o futuro, no qual conhece Jackie Price e descobre que ele próprio irá morrer dali a quatro dias.

Para entender as origens do conflito bélico, é preciso voltar historicamente à interpretação da década de 1980. Entre 1980 e 1988, os vizinhos Irã e Iraque disputaram uma guerra que deixou cerca de 2 milhões de mortos. Na Guerra Irã-Iraque, o governo iraquiano, comandado pelo presidente Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti (1937-2006), recebeu o apoio de potências ocidentais, interessadas em enfraquecer o regime iraniano. O motivo: em 1979, a revolução que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlevi (1919-1980), do Irã, levou à implantação de uma república islâmica xiita no país. No mesmo ano, Saddam Hussein assumiu a Presidência do Iraque - função que exerceria por mais de duas décadas como um ditador, usando uma repressão violenta para suprimir qualquer tipo de dissidência interna. Ao invadir o território do vizinho e iniciar o conflito, Saddam representou os interesses tanto do Ocidente como dos regimes árabes sunitas, que temiam o fortalecimento do xiita Irã após sua revolução. Terminada a guerra, que não teve vencedor, o presidente do Iraque desentendeu-se com outras lideranças árabes devido ao alto preço que o conflito tinha custado ao seu país - tanto em vidas humanas como na economia. Isso gerou disputas, envolvendo o preço do petróleo, que levaram Saddam Hussein a invadir o pequeno, mas poderoso Kuwait, em 1990.  

Com a invasão do Kuwait, Saddam Hussein, que anos antes recebera apoio do Ocidente, tornou-se inimigo tanto de seus vizinhos árabes como da comunidade internacional. Em 1991, na Guerra do Golfo, as forças de Saddam foram expulsas do Kuwait por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos da América, governado na época pelo republicano George Herbert Walker Bush. O líder do Iraque, porém, continuou no poder em Bagdá. Como Saddam Hussein havia desenvolvido armas químicas no passado e usado os gases sarin e mostarda contra cidadãos iraquianos xiitas e curdos, durante a década de 1990 a comunidade internacional pressionou o regime iraquiano para que permitisse a verificação de seu arsenal, sem nada comprovar. Após anos de pressão política via resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), sanções econômicas e até mesmo um violento bombardeio norte-americano em 1998, ficou a dúvida se seu regime ainda tinha ou não armas de destruição em massa. Muitos acreditavam que sim e temiam que Saddam pudesse utilizá-las. Outros argumentavam que suas armas químicas haviam sido destruídas ou simplesmente envelhecido. Seu poderio militar, segundo essas avaliações, tinha se enfraquecido enormemente após anos de sanções que empobreceram o país.

A camisa de força é descrita no livro de David Macbride (1772), mas outros autores afirmam que ela foi inventada por Guilleret (1790), estofador do hospital de Bicêtre (França) e nomeada de camisole de force. Apesar da sua “paternidade” não estar clara, o início do uso da camisa de forças fica associada ao psiquiatra francês Philippe Pinel (1745-1826), um dos fundadores da psiquiatria contemporânea, na sequência da tentativa de estabelecer um tratamento aparentemente “mais humano” para pacientes com transtornos mentais, comparativamente em detrimento dos “tratamentos” cruéis adotados em França no século XIX. É através da mudança social de atitude na abordagem destas pessoas com transtornos, ajudado por Jean Baptiste Pussin (1746-1811) percursor da enfermagem psiquiátrica, que Pinel terá introduzido a utilidade de uso da camisa de força. Entretanto, na época vitoriana foi utilizada como instrumento de tortura, pois é uma espécie de camisa feita de tecido do tipo “lona”, resistente, com mangas muito compridas e fechadas, que ultrapassam as pontas dos dedos do paciente. Estas permitiam que os braços se cruzassem contra o peito e as extremidades das mangas fossem apertadas atrás das costas, com a extremidade da firmeza, com o objetivo de o maniatar, restringindo todos os seus próprios movimentos físicos.

Por vezes tinha uma argola à qual se ligava uma corda, ou cadeado, para ser amarrada nas costas. Estes dispositivos eram usados isoladamente ou em simultâneo com outro tipo de estratégias de imobilização como a “cadeira forte”, “peias”, correntes, algemas e celas solitárias, sendo considerada uma forma de contenção física mais transitória, menos dolorosa e menos excludente que outros dispositivos usados à época. A camisa de forças é parte inegável da história da Psiquiatria, que abrangia um conjunto de medidas de repressão, impregnadas nas práticas consagradas dos “asilos”, institucionalmente “hospícios”, “hospitais de alienados” e, dos “hospitais psiquiátricos”, denominações dadas a instituições que albergavam pessoas com doenças mentais. A implementação deste tipo de medidas era amplamente aceite, com o objetivo de conter os pacientes em estado de excitação ou furor, agitação psicomotora, agressividade, que agrediam os outros ou se autoagrediam e quando existia a necessidade de estabelecer limites. Os doentes ficavam apenas com os braços amarrados, mas conseguiam andar. Esse tipo de contenção não evitava que a pessoa agredisse os outros, pois os membros inferiores ficavam livres, poderiam ser utilizados. No entanto, constituía grande risco individual de queda e ferimentos, especialmente no rosto, uma vez que prejudicava o equilíbrio e diminuía a possibilidade de o paciente ao cair se proteger com os braços. 

Depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, o governo norte-americano passou a argumentar que as possíveis armas iraquianas poderiam não apenas ser usadas pelo Iraque, mas também cair nas mãos de grupos armados internacionais, como a Al-Qaeda. Saddam Hussein negava ainda manter armas químicas ou mesmo um programa nuclear - como foi argumentado por alguns na época -, e analistas apontavam para o fato de que o regime secular iraquiano era inimigo de militantes islamistas como Osama bin Laden. Isso não impediu que grande parte da população norte-americana acreditasse em alguma ligação entre o líder iraquiano e o 11 de Setembro. Segundo pesquisa do Instituto Gallup, de agosto de 2002, 53% dos norte-americanos acreditavam que Saddam estava “pessoalmente envolvido” nos ataques ocorridos nos estados de Nova York, Washington e Pensilvânia. Os que não acreditavam nessa tese geopolítica era de 34%. Outra pesquisa realizada pelo The Washington Post em setembro de 2003, indicava estatisticamente que 69% dos norte-americanos consideravam ser “pelo menos provável” a possibilidade de Saddam Hussein ter desempenhado “algum papel” nos atentados de 2001.

No caso de queda do indivíduo, por vezes, era necessário suturar as lesões. A camisa de força e a reclusão, não podiam ser empregues sem autorização de um clínico, e regra geral, a sua adoção era delimitada no tempo não podendo exceder dois dias por cada aplicação. A camisa de força é uma peça de roupa em forma de jaqueta que imobiliza os braços de uma pessoa. O desenho consiste em uma camisa de mangas compridas de tecido firme que passa pela ponta dos dedos do usuário, com mangas fechadas nas pontas e amarradas nas costas. É comum seu uso para imobilizar ou manter sob controle criminosos, violentos ou loucos. Juntamente com as algemas, é um dos mecanismos mais conhecidos de controle físico das pessoas. Embora camisa de força seja o termo mais frequente, existe o neologismo francês “camisa de força”, usado no Norte da Catalunha. Seu uso mais comum é para restringir pessoas que “possam causar danos a si mesmas ou a outras pessoas”. O usuário desliza os braços nas mangas, o atendente cruza as mangas contra o peito e amarra as pontas das mangas na parte de trás da jaqueta, garantindo que os braços fiquem próximos ao peito com o mínimo de espaço e de movimento possível.

O efeito da camisa de força como “medida de segurança” torna-a de particular interesse para o escapismo. A camisa de força também é um elemento básico na magia do palco. A camisa de força vem da era georgiana da medicina. A contenção física era usada tanto como tratamento para doenças mentais quanto para pacificar pacientes em manicômios. Pela sua resistência, o cânhamo e a lona são os materiais mais comuns para camisas de força institucionais. O famoso ilusionista Harry Houdini utilizou-o para realizar um de seus mais famosos atos de fuga, no qual conseguiu se livrar de uma camisa de força pendurada de cabeça para baixo no topo de um edifício convencionalmente chamado arranha-céu. Com o desenvolvimento positivista da psiquiatria, o aparecimento dos psicofármacos, o desenvolvimento da psicoterapia e o emergir de diferentes tipos de abordagens terapêuticas, em países nomeadamente em Portugal, a adoção das medidas descritas tornou-se, cada vez mais, de carácter excepcional, e algumas acabaram mesmo por se extinguir, como é o caso do uso da camisa de força. Contudo, não se pode deixar de referir que em alguns países, algumas destas abordagens ainda são utilizadas.

O sociólogo Norbert Elias distingue os seres humanos como indivíduos e como sociedade, entendendo com isso, que quando uma pessoa diz “sociedade” e a outra escuta, elas se entendem sem dificuldade. Mas será que realmente nos entendemos? A sociedade, como sabemos, somos todos nós; é um grande número de pessoas reunidas. Mas um bom número de pessoas reunidas na Índia e na China forma um tipo de sociedade diferente da encontrada na América ou na Grã-Bretanha; a sociedade composta por muitos indivíduos na Europa do século XII era diferente da encontrada nos séculos XVI ou XX. E, embora todas essas sociedades certamente tenham consistido e consistam em nada além de mitos indivíduos, é claro que a mudança de uma forma de convívio para outra não foi planejada por nenhum deles. Pelo menos, é impossível constatar que qualquer pessoa dos séculos XII ou mesmo XVI tenha trabalhado deliberadamente pelas sociedades de nossos dias, que assumem a forma de Estados nacionais altamente industrializados. Que tipo de formação é esse, que só existe diante de um grande número de pessoas, só continua a funcionar quando pessoas, tomadas isoladamente, querem e fazem certas coisas, mas cuja estrutura e transformações históricas independem das intenções de qualquer pessoa em particular? Quando alguém examina as respostas dadas a essas e outras questões sociológicas similares, vê-se confrontado, em termos gerais, com dois amplos campos opostos de indagação. Melhor dizendo, parte das pessoas aborda as formações sócio-históricas como se estas tivessem sido concebidas, planejadas e criadas, tal como agora se apresentam ao observador retrospectivo, por diversos indivíduos ou organismos governamentais.

Embora com frequência alguns indivíduos dentro desse campo geral possam ter algum nível de consciência de que seu tipo de explicação não é realmente satisfatório, por mais que distorçam suas ideias de modo a fazê-las corresponderem aos fatos, o modelo conceitual a que estão presos continua a ser o da criação racional e deliberada de uma obra – como um prédio ou uma máquina – por pessoas individuais. Quando têm diante de si instituições sociais específicas, como os parlamentos, a polícia, os bancos, os impostos, os livros etc., eles procuram para explicá-las, as pessoas que originalmente tiveram a ideia dessas instituições ou que primeiro a puseram em prática. Quer dizer, ao lidarem com um gênero literário, buscam o escritor que serviu de modelo para os outros. Ao depararem com formações em que esse tipo de explicação é difícil, como a linguagem ou o Estado, por exemplo, ao menos procedem como se essas formações sociais pudessem ser explicadas da mesma forma que as outras, as que seriam deliberadamente produzidas por pessoas isoladas para fins específicos. Podem, por exemplo, acreditar que a existência da linguagem é suficientemente explicada ao se assinalar sua função coletivamente de meio de comunicação entre as pessoas, ou que a dos Estados se explica ao se argumentar que a finalidade do Estado tenha como representação a manutenção da ordem, como se, no curso da história da humanidade, a linguagem ou a organização das pessoas sob a forma de Estados tivesse sido criada para essa finalidade específica, em algum momento, por indivíduos isolados, como resultado do pensamento racional. E, com frequência, ao serem confrontados com fenômenos sociais que obviamente não podem ser explicados por esse modelo, e caso da evolução dos estilos artísticos ou do processo civilizador, seu pensamento estanca, sem fazer perguntas. Opostamente é amiúde tratada com desdém.  

A Guerra do Golfo Pérsico foi uma das maiores campanhas militares da história moderna, com uma enorme mobilização de recursos humanos e materiais em um curto espaço de tempo, introduzindo no campo de batalha diversos novos meios bélicos e tecnologias sofisticadas de ponta, para a época. Novos vocábulos foram adicionados ao léxico global, como aviões Stealth e bombas inteligentes. Este conflito também foi um dos primeiros a ser demonstrado ao vivo das linhas de frente, com transmissão via satélite, catapultando à notoriedade a rede de televisão CNN e o formato de “jornalismo 24 horas”. É uma guerra de cinco semanas de intenso bombardeio aéreo por parte da Coalizão de 17 de janeiro até 24 de fevereiro, seguido por menos de 100 horas de campanha terrestre que resultou na rápida expulsão das forças iraquianas do Kuwait. No final das contas, os aliados da Coalizão conseguiram uma avassaladora vitória, libertando o Kuwait, enquanto infligiam pesadas baixas nos iraquianos, embora suas próprias perdas tenham sido mínimas. Em 28 de fevereiro, a Coalizão internacional declarou que seus objetivos foram completados com a libertação do território kuwaitiano e a retirada das tropas de Saddam, firmando um cessar-fogo e encerrando as hostilidades. No decorrer da guerra, os combates se restringiram a apenas o Iraque, Kuwait e a regiões de fronteira saudita.

A Cable News Network foi inaugurada às 5:00 da tarde Hora do Leste em 1° de junho de 1980. Após uma introdução de Ted Turner, a equipe de marido e mulher de David Walker e Lois Hart ancorou o primeiro noticiário do canal. Burt Reinhardt, vice-presidente executivo da CNN em seu lançamento, contratou a maioria dos 200 primeiros funcionários do canal, incluindo o primeiro âncora da rede, Bernard Shaw. Desde o seu lançamento, a CNN expandiu seu alcance para vários fornecedores de televisão a cabo e por satélite, vários sites e canais especializados de circuito fechado como o CNN Airport. A empresa possui 42 agências sendo 11 nacionais, 31 internacionais, mais de 900 estações locais afiliadas que também recebem conteúdo de notícias e recursos por meio do serviço de notícias em vídeo CNN Newsource, e várias redes regionais e de idiomas estrangeiros em todo o mundo. O sucesso do canal transformou o fundador Ted Turner em um legítimo magnata, e preparou o terreno para a eventual aquisição pelo conglomerado Time Warner do Turner Broadcasting System em 1996. A primeira Guerra do Golfo Pérsico em 1991 foi um divisor de águas para a CNN que catapultou o canal pelas três grandes redes norte-americanas pela primeira vez em sua história social e de tecnologia, em grande parte devido a uma informação histórica e sem precedentes: a CNN era a única fonte de notícias com a capacidade de se comunicar de dentro do Iraque durante as primeiras horas da campanha de bombardeio da Coalizão, com reportagens ao vivo do hotel al-Rashid em Bagdá pelos repórteres Bernard Shaw, John Holliman e Peter Arnett. O momento em que o bombardeio começou foi anunciado na CNN, a segunda rede de televisão a noticiar o caso atrás, por segundos, da rede TV Globo, por Shaw em 16 de janeiro de 1991, como segue: - Este é Bernie Shaw. Algo está acontecendo lá fora. Peter Arnett, junte-se a mim aqui. Vamos descrever aos nossos espectadores o que estamos vendo. Os céus de Bagdá foram extraordinariamente iluminados. Estamos vendo flashes brilhantes disparando por todo infinito firmamento. 

Incapaz de transmitir cenas ao vivo de Bagdá, a cobertura das horas iniciais da Guerra do Golfo da CNN tinha a sensação dramática de uma transmissão de rádio - e foi comparada aos lendários e emocionantes relatos de Edward R. Murrow, âncora da CBS, em rádio ao vivo do bombardeio nazista de Londres durante a 2ª guerra mundial. Apesar da falta de imagens ao vivo, a cobertura da CNN foi transmitida por estações de televisão e redes em todo o mundo, resultando na CNN sendo assistida por mais de um bilhão de telespectadores em todo o mundo. A experiência da Guerra do Golfo trouxe à CNN certa legitimidade e transformou nomes familiares de repórteres anteriormente obscuros. Shaw, conhecido por sua reportagem ao vivo de Bagdá durante a Guerra do Golfo, tornou-se o principal âncora da CNN até sua aposentadoria em 2001. A cobertura inicialmenet da Primeira Guerra do Golfo e de outras crises do início dos anos 1990, particularmente a infame Batalha de Mogadíscio levou as autoridades do Pentágono a cunhar ideologicamente o termo “efeito CNN” para descrever o impacto social e político percebido da cobertura de notícias em tempo real nos processos de tomada de decisão do governo estadunidense. A CNN foi o primeiro canal de notícias a cabo a divulgar os ataques de 11 de setembro de 2001.

A âncora Carol Lin estava no ar para entregar o primeiro relato público do evento. Ela entrou no meio de um comercial às 8:49 da manhã, horário da costa leste, e disse: - Acabou de acontecer. Você está vendo obviamente uma cena ao vivo muito perturbadora. Esse é o World Trade Center e temos relatos não confirmados nesta manhã de que um avião colidiu com uma das torres do World Trade Center. O CNN Center agora está apenas começando a trabalhar nesta história, obviamente chamando nossas fontes e tentando descobrir exatamente o que aconteceu, mas claramente algo relativamente devastador está acontecendo nesta manhã no extremo sul da ilha de Manhattan. Mais uma vez, uma cena de uma das torres do World Trade Center. Sean Murtagh, vice-presidente de finanças e administração da CNN, foi o primeiro funcionário da “rede no ar”. Ele ligou para o CNN Center de seu escritório no escritório da CNN em Nova York e informou que um jato comercial atingiu o Trade Center. Daryn Kagan e Leon Harris estavam no ar pouco depois das 9:00, quando o segundo avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center e, por meio de uma entrevista com o correspondente da CNN, David Ensor, informou a notícia de que autoridades estadunidenses determinaram “que este é um ato terrorista”.

Mais tarde, Aaron Brown e Judy Woodruff “ancoraram” dia e noite enquanto os ataques se desenrolavam, ganhando o prêmio Edward R. Murrow pela rede. Antes da eleição presidencial de 2008 nos Estados Unidos da América, a CNN dedicou grande parte de sua cobertura à política, incluindo a realização de debates de candidatos durante as temporadas primárias democrata e republicana. Em 3 e 5 de junho de 2007, a CNN se uniu ao Saint Anselm College para patrocinar os debates republicanos e democratas de New Hampshire. Mais tarde durante aquele ano, o canal sediou os primeiros debates presidenciais da CNN no YouTube, um formato “não tradicional em que os espectadores eram convidados a enviar previamente perguntas”. Em 2008, a CNN fez uma parceria com o Los Angeles Times para sediar dois debates políticos principais que antecederam a cobertura da chamada Super Terça-Feira. O debate da CNN e a cobertura da noite das eleições levaram às suas audiências mais altas do ano, com uma média 1,1 milhão de espectadores consumidores em janeiro de 2008, um aumento de 41% em relação ao ano anterior. O início do ataque, que incluiu um intenso bombardeio de alvos em Bagdá, forças norte-americanas rapidamente entraram no Sul do Iraque, cruzando a fronteira com o Kuwait, e seguiram em direção à capital. Os britânicos usaram a mesma rota de entrada, mas permaneceram no Sul do país, onde assumiriam o controle da cidade portuária de Basra, mais importante do Iraque. Sem a participação de uma coalizão ampla, a invasão contou também com pequenos contingentes da Austrália e da Polônia.

 Outros países que apoiaram a guerra, como Espanha, Itália e Ucrânia, enviariam tropas ao país depois de iniciada a ocupação. Menos de um mês depois do início da guerra, os americanos tomaram Bagdá, declarando ter controle da capital em 14 de abril. Outras cidades importantes, como Tikrit, Falluja e Ramadi, na região central, e Kirkut, no Curdistão (Norte), foram tomadas pelas forças de ocupação. Saddam Hussein, no entanto, não foi encontrado. Em 1º de maio de 2003, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, o presidente George W. Bush fez um discurso em que declarou que, “na batalha do Iraque, os Estados Unidos e nossos aliados prevaleceram”. Atrás dele, uma faixa dizia “Missão Cumprida”. Até então, a guerra já impusera um enorme custo humano ao Iraque. Levantamento do instituto americano Project on Defence Alternatives, divulgado em outubro de 2003, estimou que entre 10.800 e 15.100 iraquianos foram mortos nas semanas da invasão. Destes, entre 3.200 e 4.300 eram civis. Com a queda do regime, começou a ocupação. Em 12 de maio, aterrissava em Bagdá o novo “administrador do Iraque”, o norte-americano Paul Bremer. No dia da chegada ao país, a BBC News noticiou: - Vários bairros de Bagdá ainda estão sem eletricidade e água corrente, lixo se acumula nas ruas, e muitos comerciantes têm medo de reabrir seus negócios por causa de saqueadores”. A administração do país era conduzida a partir de uma área, no centro da capital, protegida e isolada do resto da cidade. Era reconhecida como Zona Verde.

O Iraque tentou atrair Israel para a guerra ao lançar mísseis Scud contra o seu território, tendo como objetivo tentar causar uma cisão entre as potências ocidentais e seus aliados árabes.  A decisão de Saddam Hussein de invadir o Kuwait foi essencialmente uma tentativa de lidar com a contínua vulnerabilidade da sua economia e o seu consequente impacto nas finanças públicas. Ao fim da Guerra Irã-Iraque, em agosto de 1988, a economia iraquiana estava de fato à beira do colapso e também internamente havia tensões sectárias pelo país. Os maiores credores da dívida da nação eram a Arábia Saudita e o Kuwait. O governo do Iraque tentou fazer com que estes países perdoassem parte do débito, mas eles se recusaram. Além da questão econômica, o conflito entre o Iraque e Kuwait também acontecia por disputas territoriais. O Kuwait era parte da província de Baçorá na época da dominação do Império Otomano, que passou a ser reivindicado como território iraquiano. A família real kuwaitiana havia concluído um acordo de protetorado com o Reino Unido em 1899, deixando assim a responsabilidade aos britânicos de cuidar da política externa do país. A fronteira entre as duas nações foi desenhada então pelos ingleses em 1922. Do ponto de vista geopolítico a criação de um Kuwait independente tirou a única saída para o mar que o Iraque detinha. Os kuwaitianos rejeitaram tentativas dos iraquianos de tentar manter provisões no país.

O governo de Saddam, logo após o conflito com o Irã, começou a acusar o Kuwait de extrapolar as cotas de controle de mercado da OPEP de exportação de petróleo. O cartel na época queria manter o preço da commodity a US$ 18 dólares por barril e disciplina era necessária. Os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait estavam produzindo acima do esperado. O resultado do excesso de produção foi uma redução no preço do barril para apenas US$ 10, o que representava uma perda de US$ 7 bilhões anuais ao Iraque, que era quase o exato valor do pagamento para balancear o déficit em 1989. Os gastos públicos e os planos para reconstruir a infraestrutura interna do país acabaram se saindo debilitados, o que fez com que a economia iraquiana entrasse em forte recessão. A Jordânia e o Iraque tentavam manter a disciplina nos preços, mas com pouco sucesso merceológico. O governo iraquiano acusou os kuwaitianos de fazer “guerra econômica”. O Kuwait também foi acusado de fazer perfurações subterrâneas próximas a fronteira com o Iraque, em amplos territórios sob disputa.

A guerra do Iraque também teve grande impacto político no Reino Unido. Parceiro de George W. Bush na invasão e ocupação do Iraque, o premiê Tony Blair foi acusado por muitos de ter mentido sobre as verdadeiras razões para a guerra. Em julho de 2003, uma polêmica reportagem de rádio da BBC sugeria que um relatório de inteligência sobre as supostas armas de destruição em massa iraquianas havia sido produzido sob influência política do governo, que negava a acusação. Após ser exposto pela imprensa como a fonte da reportagem, o cientista David Kelly, especialista em guerra biológica a serviço do ministério de Defesa britânico, se suicidou. Apesar da queda de popularidade que o episódio e a guerra lhe causaram, em maio de 2005 Tony Blair foi reeleito para um terceiro mandato como primeiro-ministro. A Guerra do Iraque, entretanto, continuaria a assombrar os britânicos. Em julho de 2005, quatro britânicos muçulmanos provocaram quatro explosões suicidas na capital, Londres - três delas em trens do metrô e uma em um ônibus. Além dos quatro suicidas, 52 pessoas foram mortas, e cerca de 800 ficaram feridas.

Duas semanas depois, houve uma tentativa frustrada de novos ataques, em que bombas colocadas no metrô não explodiram. Com o país em estado de alerta máximo, o brasileiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um suspeito pela polícia londrina e morto a tiros por policiais dentro de um vagão do metrô. A rede Al-Qaeda indicou ter ligação com os ataques, e um dos suicidas gravara um vídeo dizendo que eles eram vingança contra bombardeios de países muçulmanos. Mas o premiê Tony Blair negava que a invasão do Iraque tivesse levado aos atentados. Em junho de 2007, após dez anos como primeiro-ministro, Blair renunciou ao cargo, entregue a seu colega de partido e ministro da Economia, Gordon Brown. Na avaliação, se não fosse pela perda de popularidade causada pela Guerra do Iraque, Blair poderia ter ficado ainda mais tempo no poder. Saddam Hussein foi detido pelas forças de ocupação em dezembro de 2003, num esconderijo subterrâneo próximo a Tikrit, sua região natal. Ele foi entregue às autoridades locais para ser julgado por inúmeros crimes que cometeu contra a população iraquiana enquanto estava no poder, processo iniciado no segundo semestre de 2004.

No julgamento político, cujas sessões eram transmitidas ao vivo pela televisão à população, o ex-ditador do país questionou o processo. Ao lado de outros integrantes do regime, disse que seu julgamento era ilegítimo e que os juízes iraquianos estavam sendo manipulados pelas forças de ocupação. Após ser declarado culpado, ele foi condenado à morte. Em 30 de dezembro de 2006, Saddam foi executado por enforcamento, numa cena gravada em vídeo e exibida no mundo todo. Sua morte, no entanto, assim como sua captura três anos antes, não resultou em avanços na situação de segurança. No início de 2007, o conflito sectário no Iraque vivia seus piores momentos, com uma série de atentados a bomba - muitos suicidas, vários usando carros-bomba -, geralmente matando dezenas de civis, especialmente em Bagdá. Mercados da comunidade xiita foram alvos de ataques, organizados pelo grupo Al-Qaeda no Iraque. Milícias xiitas, por sua vez, realizavam sequestros e assassinatos de membros da população sunita. Em Washington, Robert Gates assumiu o lugar de Rumsfeld como secretário de Defesa. O resultado das eleições de novembro de 2006 significava que os norte-americanos pediam o fim da guerra, mas o governo concluiu que precisava, primeiro, reduzir os níveis de violência. Como?

O caminho escolhido pelo governo Bush foi o envio de 30 mil soldados adicionais, a maioria para Bagdá e região, o que ganhou o nome de “surge”, mas em português, “escalada”. Com o reforço, o tamanho do efetivo norte-americano voltou aos níveis da invasão de 2003, cerca de 150 mil soldados - e 2007 foi “um dos mais sangrentos períodos da guerra”. Segundo o Brookings Institute, foi o ano com o maior número de soldados americanos mortos durante a ocupação: 904. O de britânicos mortos atingiu 47, próximo dos 53 de 2003. O número de civis iraquianos que perderam a vida, 26.112, só ficou abaixo dos 29.526 de 2006. Até o número de jornalistas mortos no Iraque foi o mais alto em 2007, um total de 32 vítimas, igualando o recorde do ano anterior. Em 2008 a violência começou a diminuir significativamente, com menos da metade de soldados americanos e civis iraquianos mortos. Também em 2008, nos Estados Unidos da América, os eleitores foram às urnas, dessa vez para escolher o sucessor de George W. Bush. Desgastado pelos anos de guerra no Iraque, o Partido Republicano foi tirado do poder. O senador Barack Obama, oportunista, tornou-se o primeiro negro a ocupar a Casa Branca. Aparentemente crítico da Guerra prometera que colocaria fim no conflito. A primeira medida foi a manutenção de Robert Gates no cargo.

Com a continuidade da mesma equipe no Departamento de Defesa, os Estados Unidos, juntamente com o governo iraquiano, conseguiram deixar o país menos instável. As mortes, tanto de civis como de combatentes, caíram significativamente, especialmente a partir de 2009. Em abril daquele ano, os últimos soldados britânicos saíram do Iraque. Em 2010, os Estados Unidos encerraram sua participação em operações de combate, deixando apenas cerca de 50 mil soldados no país. No dia 18 de dezembro de 2011, veio o esperado momento. Quase nove anos depois da invasão liderada pelos Estados Unidos da América, a agência Reuters noticiava: - “Últimas tropas dos EUA deixam o Iraque, terminando a guerra”. Apenas cerca de 150 soldados americanos ficaram no país, em funções de treinamento das forças locais. Com um saldo de 120 mil civis iraquianos, 4.431 americanos, 179 britânicos mortos e um país parcialmente destruído, chegava ao fim o conflito cujo maior motivo não existia - e que a Reuters chamou de “a guerra mais impopular desde o Vietnã”. O total de vidas perdidas foi estimado em pelo menos 200 mil, e o custo para os cofres americanos em pelo menos US$ 800 bilhões. Para o Iraque, porém, o processo de pacificação - tanto de suas cidades como da política - seria lento e de resultado incerto. As lideranças xiitas haviam consolidado seu poder, mas parte dessa autoridade precisava ser compartilhada com curdos e sunitas, segundo a Constituição - convivência raramente tranquila. Militantes sunitas islamistas continuavam em operação e, voltariam a ameaçar o país sob a bandeira do Estado Islâmico. A Guerra do Iraque havia acabado, mas o Iraque culturalmente continuaria em guerra.

Bibliografia Geral Consultada.

ELIAS, Norbert, A Sociedade dos Indivíduos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1994; KAPLAN, Harold; SADOCK, Benjamin; GREBB, Jack, Compêndio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 7ª edição. Porto Alegre: Editora Artmed, 2002; FACION, José Raimundo, Transtornos do Desenvolvimento e do Comportamento. 3ª edição. Rev. Atual. Curitiba: Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, 2007; CAMPOS, Haroldo de, Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008; MATTOS, Cristiane Brum Marques, Vestir a Camisa de Força: Adoecimento Psíquico em uma Instituição Pública na Amazônia. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Porto Velho: Fundação Universidade Federal de Rondônia, 2013; FOUCAULT, Michel, O Nascimento da Clínica. 7ª edição. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2011; Idem, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; CARVALHO, Leno Veras de, Cápsulas do Tempo - Memória e Amnésia: Iconologia Imagética em Espaço Mnemotécnico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Faculdade de Comunicação. Brasília: Universidade de Brasília, 2014; NASCIMENTO, Marcio Lima do, Do Mal-estar em Freud ao Mal-estar em Bauman. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2014; PEREIRA, José Manuel Morgado, A Psiquiatria em Portugal. Protagonistas e História Conceptual (1884-1924). Tese de Doutorado. Faculdade de Letras. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2015; OLIVEIRA, Ana Paula Galdino de, Da Camisa de Força ao Psicotrópico: Um Olhar Fenomenológico Hermenêutico para o Sofrimento no Contexto da Atenção Primária à Saúde. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica. Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2020; BERNARDES, Guilherme, Uma Camisa de Força para Houdini: Paul Muldoon, Forma Fixa e Tradução. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Setor de Ciências Humanas. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2020; NASCIMENTO, Rodrigo Trindade, Uma Discussão da Filosofia do Empirismo Lógico em seu Contexto Histórico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2022; entre outros. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Silvia Federici – Em Torno de Marx, Capitalismo & Práticas Feministas.

                                                                  O corpo das mulheres é a última fronteira do capitalismo”. Silvia Federici

          Silvia Federici nascida na cidade de Parma, uma cidade universitária na região Emília-Romagna em 1942, é uma filósofa contemporânea, professora e feminista autonomista italiana radicada nos Estados Unidos da América. Em 1972, Federici participou na fundação do Coletivo Feminista Internacional (International Feminist Collective), organização que lançou a campanha internacional Wages For Housework (WFH) a favor do pagamento de salário para o trabalho doméstico. Com outros membros da organização, dentre eles, Mariarosa Dalla Costa, que fez parte do movimento Potere Operaio de Antonio Negri. Após deixar o grupo, em 1971, Mariarosa constituiu o Lotta Femminista, como forma de criticar as deficiências e limitações na militância do Potere Operaio. Em decorrência da repressão aos radicais de esquerda em fins dos anos 1970, na Itália, ela dedicou-se a lecionar teoria política na Universidade de Padova, com Selma James, cofundadora da International Wages for Housework Champaign e coordenadora da Global Women`s Ataque e com autoras feministas como Maria Mies e Vandana Shiva, Federici tem sido pragmática no desenvolvimento do conceito teórico da reprodução sexual como uma chave para estudar as relações de classe, de exploração e dominação em contextos locais e globais, bem como no centro das formas de autonomia e dos bens comuns. É autora de Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva (2004), O Ponto Zero da Revolução: Trabalho Doméstico, Reprodução e Lutas Feministas (2013), Mulheres e Caça às Bruxas: Da Idade Média aos Dias Atuais (2018) e O Patriarcado do Salário: Notas sobre Marx, Gênero e Feminismo (2020). É professora emérita da Universidade Hofstra, uma universidade particular em Hempstead, na cidade de Nova York. 

      Além da compreensão da extensão da historiografia, permeando o conhecimento, a história pontual, a multireferencialidade, tem sido uma tarefa ímpar no âmbito de todas as ciências sociais. A sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a psicologia, trabalham com questões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, militares, demográficas e outras, que correspondem a ações, relações, processo e estruturas tomados em algum nível da historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpretações, em temos de indução quantitativa ou construção de modelos, mesmo nesses casos onde a pesquisa produz alguma explicação nova, reavalia ou reafirma explicações vigentes, sobre os modos e os tempos de devir da história. Também há aqueles que formalizam e, por assim dizer, fetichizam as categorias dialéticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das ações, relações, processos e estruturas que expressam movimentos e as modificações das gentes, grupos, classes e nações. Uns e outros constroem mitos. Em todos os casos, no entanto, a história social aparece de alguma forma, como história real ou invenção, drama ou epopeia, elegia ou profecia. A multiplicidade de ciências na modernidade e as teorias relativas ao nível social, tem dado origem a distintas interpretações como se escreve ou produz a história real ou ficcional nas sociedades. E heterogêneas a histórias do capitalismo que podem ser compreendidas nas análises de David Ricardo, Karl Marx, Alexis de Tocqueville, Émile Durkheim, Max Weber, John Maynard Keynes, Talcott Parsons e Eric Hobsbawm, para ficarmos nestes exemplos.

            Não só na sociologia, mas no conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se dá a mudança, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é o resultado da “criatividade empresarial”. Isto é, toda mudança, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação sustentada em níveis econômicos tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus discípulos no século XIX e XX relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso social.     

                                                  

         A segunda interpretação, reconhecida como “teoria das elites”, está relacionada com a anterior. Recebeu contribuições de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. E tem sido retomada, em diferentes linguagens, por outros cientistas sociais e escritores, como James Burnham, Samuel P. Huntington, Clark Keer, David E. Apter, John Kenneth Galbraith e outros. É uma corrente de pensamento que propõe o funcionamento da sociedade e a mudança social em termos de elites empresariais, gerenciais, militares, intelectuais e outras. Desde o término da 2ª guerra mundial, essa teoria tem sido a base de programas organizados pelo imperialismo norte-americano, no treinamento de quadros de intelectuais, tecnocratas, militares, gerenciais, empresariais e outros, para soluções golpistas ou não em países dependentes e coloniais. Em terceiro lugar, há a intepretação que atribui importância especial à divisão social do trabalho. Toma-se o meio de trabalho como o processo social, de âmbito estrutural, que comanda o funcionamento, as combinações e as transformações das elações sociais e instituições, em níveis econômico, político e outros. Adam Smith e Émile Durkheim são autores importantes nessa corrente de pensamento. Boa parte do pensamento liberal apoia-se nessa ideia. A divisão internacional do trabalho foi apresentada durante o século XIX e até a década de 1930, como a base da prosperidade econômica e social das pessoas, de grupos sociais e das nações. As teorias sobre a democracia liberal, o pluralismo democrático e a cidadania apoiam-se implicitamente na ideia de que a divisão social do trabalho, em sentido amplo, é o processo estrutural que fundamenta e dinamiza a melhor expressão e articulação de pessoas e grupos, atividades e instituições sociais e políticas, setores produtivos e a internacionalização do trabalho em países e nações continentes.  

 A quarta intepretação considera que o fundamento último da mudança, progresso ou desenvolvimento econômico e social é a “tecnologia”. O progresso técnico comandaria as possibilidades de articulação e dinamização dos fatores produtivos principalmente capital e força de trabalho. As possibilidades de poupança e investimento, bem como desenvolvimento e diferenciação dos sistemas econômico e social estriam na dependência das inovações e aplicações da tecnologia, inovações essas originadas das ciências da natureza e da sociedade. Essa interpretação tem várias formulações. Todas, no entanto, apoiam-se na ideia de que ciência, tecnologia e desenvolvimento, ou pesquisa e desenvolvimento em geral relacionam-se positivamente nas sociedades globalizadas. A quinta interpretação confere papel especial ao Estado. Depois da crise da concepção liberal do poder político-econômico e da história, generalizou-se cada vez mais a intepretação que vê na ação estatal a base da organização e mudanças de relações e organizações econômicas e sociais. É claro que esta ideia já está presente, implícita ou explícita, no pensamento científico e filosófico dos séculos XVIII e XIX. Ela aparece em escritos de Hegel, Marx, Engels e Lenin, além de Keynes, Myrdal, Baran e ouros. Depois da criação do regime socialista em vários países, por um lado, e da crise econômica mundial iniciada em outubro de 1929, por outro, os governos capitalistas, dominantes e dependentes, passaram a intervir de forma cada vez mais ampla e profunda na economia.

          A sexta e última interpretação busca as razões dos movimentos e transformações sociais, político-econômicas e culturais nas relações e contradições de classes. De acordo com essa intepretação, as forças produtivas, a atuação estatal e outros aspectos político-econômicos, sociais e culturais são articulados e desarticulados em conformidade com os movimento e desenvolvimentos das relações e contradições das classes sociais: burguesia, classe média, campesinato, proletariado e suas subdivisões estruturais e de ocasião. Dentre os autores que se situam nessa orientação, ou contribuíram para o seu desenvolvimento, destacam-se Marx, Engels, Lenin, Bukharin, Trotski, Lukács, Gramsci e Mao-Tsé-tung, além de José Carlos Mariátegui, Maurice Dobb, Paul A. Baran, Paul M. Sweezy, Frantz Fannon e alguns outros. Essa interpretação se funda na análise do processo de trabalho produtivo, processo esse que produz a mercadoria, a mais-valia de que o burguês se apropria e a alienação econômica e política do trabalhador. O principal conteúdo e resultado desse processo, ou dessas relações de produção, tem como representação histórica e social o antagonismo entre o operário e o burguês. Nesse sentido, o golpe de Estado analisado por Marx, a greve e a revolução produzem-se neste contexto. Numa formulação breve, essa interpretação engloba relações, processos e estruturas básicos e intermediários da sociedade.  

        Quer dizer que, em cada uma dessas interpretações implica uma forma peculiar de compreender as relações entre biografia e história, conjuntura e estrutura, sincronia e diacronia, ou entre as ações, as relações, os processos e estruturas sociais, em seus perfis e movimentos. Outras, situam-se neste contexto global problemático, paradoxal. São interpretações sobre as condições e possibilidades de produção da história, em forma cômica ou trágica, dramática ou épica. A chamada Guerra Fria representa a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, compreendendo o período entre o final da 2ª guerra Mundial (1940-1945) e a dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a Independência das Repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes. A conjuntura anterior representou um conflito extraordinário de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações, no plano das relações políticas e econômicas internacionais e suas zonas conflitantes de influência político-militar.

Quer dizer, é chamada guerra “fria” porque não houve guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de armas nucleares foi o objetivo central durante a primeira metade da chamada “Guerra Fria”, estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativada nos anos 1980 com o projeto do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Ronald Reagan chamado de “Guerra nas Estrelas”. A corrida espacial foi um dos episódios que marcaram a segunda metade do século XX e foi resultado direto da Guerra Fria. Ocorrida entre os anos de 1957 e 1975, a corrida espacial ficou caracterizada pela intensa exploração no espaço realizada por americanos e soviéticos. Um dos episódios geopolíticos de maior relevância da corrida espacial foi a estratégia global ocorrida à chegada do homem à Lua. É neste âmbito de transformações globais polarizadas que Socialisme ou Barbarie representou um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem de uma frase de Rosa Luxemburgo usada em The Junius Pamphlet um libelo, ou ensaio político de 1916.

             O grupo existiu durante os anos 1948 até 1965. A personalidade que o animava era Castoriadis, também reconhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. O grupo se originou na trotskista Quarta Internacional, onde Castoriadis e Claude Lefort constituíram a chamada “Tendência Chaulieu-Montal” no Partido Comunista Internacionalista francês, em 1946. Em 1948, eles experimentaram o seu “desencanto final com o trotskismo”, levando-os a romperem com os trotskistas para formar o Socialisme ou Barbarie, cujo jornal começou a aparecer em março de 1949. Castoriadis mais tarde disse a respeito desse período que sua principal audiência e do jornal era formada pela esquerda radical: bordigistas, comunistas de conselho, alguns anarquistas e órfãos da esquerda alemã dos anos 1920. Eles foram vinculados à tendência Johnson-Forest, que desenvolveu um corpo de ideias dentro das organizações trotskistas norte-americanas. Uma facção desse grupo formou mais tarde o grupo Facing Reality. Os primeiros tempos também trouxeram debates com Anton Pannekoek e um influxo de ex-bordigistas para o grupo. Era composto tanto de intelectuais quanto de trabalhadores e concordavam com a ideia de que os principais inimigos da sociedade eram as burocracias que governavam o capitalismo moderno. eles documentaram e analisaram a luta contra a burocracia no jornal do grupo.

         A edição de número 13 ocorrida em janeiro-março de 1954, por exemplo, era dedicada à Revolta de 1953 na Alemanha Oriental e às greves que pipocaram em vários setores de trabalhadores franceses naquele verão. Seguindo a crença de que o que a luta diária que a classe trabalhadora encarava era o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem cada aspecto de suas vidas no trabalho. O caráter-gueto de Socialismo ou Barbárie não deriva apenas da guerra fria Leste-Oeste. Ao chegar a Paris, a bordo do navio Mataroa, Cornelius Castoriadis, assim como outros intelectuais - qual Kostas Axelos, por exemplo -, vem fugido da perseguição movida contra a esquerda grega. Não somente, porém, da repressão desencadeada pela “aliança atlantista”, como igualmente dos próprios comunistas, conforme relata, em tons quase dramáticos, Morin: - “Raríssimos foram os intelectuais europeus que, sob a ocupação nazista, se tornaram militantes da heresia trotskista. Os comunistas trotskistas, presos pela Gestapo, sofriam a mesma sorte dos comunistas stalinistas e, no interior das prisões e campos nazistas, os stalinistas, no melhor dos casos, punham os trotskistas em quarentena e, na pior, liquidavam os hitlero-trotskistas. Na Grécia da Liberação, o Partido Comunista decidiu, em tomada de posição do Comitê Central, pelo extermínio dos trotskistas. Condenado à morte pelos comunistas e prevendo ser abatido pelos anticomunistas, Castoriadis emigrou para a França”.

          Assim sendo, o possível círculo de acolhida ao fugitivo em Paris está nos setores igualmente minoritários da IV Internacional. Mas Castoriadis bem cedo diagnostica um tronco leninista-burocrático comum a stalinismo e trotskismo. O grupo Socialismo ou Barbárie fará ruptura com a IV Internacional Comunista - ruptura marcada por uma dupla originalidade. De modo diferente das inumeráveis cisões anteriores do movimento trotskista, ela não se dá, assim referida “à moda de uma pequena capela que muda de chefe sem transformar em nada a doutrina”. Ao contrário de outras dissensões que igualmente rejeitam a organização de tipo leninista, ela “não joga fora o bebê” (Marx) “junto com a água do banho” (Lênin-centralismo-stalinismo). Ao romper com os heterodoxos ortodoxos - IV Internacional e dissidências da IV Internacional - em nome do marxismo, Socialismo ou Barbárie emerge como a “heresia de uma heresia” (cf. Morin, 1989). O Socialisme ou Barbarie era crítico do leninismo, rejeitando a ideia de um partido revolucionário e colocando ênfase nos conselhos de trabalhadores. Enquanto alguns membros partiram para formarem outros grupos, aqueles que permaneceram se tornaram mais e mais críticos do marxismo ao longo do tempo. Jean Laplanche, um dos membros-fundadores do grupo, recorda os primeiros dias da organização.

O grupo era tanto de intelectuais quanto de trabalhadores e concordavam com a ideia de que os principais inimigos da sociedade eram as burocracias que governavam o capitalismo. Eles documentaram e analisaram a luta contra a burocracia no jornal do grupo. A edição de número 13 referente a janeiro-março de 1954, por exemplo, era dedicada à interpretação da Revolta de 1953 na Alemanha do Leste e às greves em vários setores de trabalhadores franceses naquele verão. Seguindo a ideologia de que o que a luta diária que a classe trabalhadora encarava era o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem cada aspecto social da vida cotidiana no trabalho.  A Hungria começou o período pós-guerra como uma livre democracia pluripartidária, e as eleições em 1945 produziram um governo de coalizão sob a batuta do primeiro-ministro Zoltán Tildy. Entretanto, o Partido Comunista, apoiado pela União Soviética, que tinha recebido somente 17% dos votos, constantemente obtinha pequenas concessões em um processo nomeado “tática do salame”, que fatiava a influência do governo eleito. Depois das eleições de 1945, os poderes do Ministro do Interior - que supervisionava a Autoridade de Proteção de Estado foram transferidos do “Partido dos Pequenos Proprietários Independentes” para gente de confiança do Partido Comunista. Empregava métodos de intimidação, falsas acusações, prisões e tortura para suprimir a esfera política. A democracia pluripartidária acabou quando o Partido Comunista se fundiu com o Partido Socialdemocrata para se tornar o “Partido Popular dos Trabalhadores Húngaro”, cuja lista de candidatos foi a votos sem oposição em 1949.

A República Popular Húngara foi declarada. Depois da 2ª guerra mundial, a Hungria sucumbiu na esfera político-ideológica de influência soviética e foi ocupada militarmente pela guerra de movimento do Exército Vermelho. Em 1949, os soviéticos tinham concluído um tratado de assistência mútua com a Hungria que garantia direitos políticos à União Soviética para uma contínua presença militar, assegurando o último controle político. Dentre 1950-52, a Polícia de Segurança forçadamente realocou milhares de pessoas para obter propriedades e moradias para os membros do Partido Popular dos Trabalhadores, e remover a ameaça da classe intelectual e burguesa. Milhares foram presos, torturados, julgados e aprisionados em campos, deportados para o leste, ou eram executados, incluindo o fundador da ÁVH László Rajk. Em um único ano, mais de 26.000 pessoas foram forçadamente realocadas de Budapeste. Como uma consequência, empregos e moradias eram muito difíceis. Os deportados geralmente experimentavam parcas condições de habitação e eram recrutados para trabalho escravo em fazendas coletivas. Muitos morreram como resultado das pobres condições de vida e desnutrição. O estudo do idioma russo e instrução política comunista foram tornados parte do currículo escolar e universitário pelo país. László Rajk nasceu em Székelyudvarhely, sendo o nono filho de uma família de saxões da Transilvânia, seus laços afetivos com o comunismo começaram como membro do Partido Comunista da Hungria (KMP). Posteriormente, foi expulso da universidade por suas ideias políticas e se tornaria operário da construção civil, até 1936, quando ingressou na Frente Popular na Guerra Civil Espanhola. 

Ele se tornou comissário do Batalhão Rakosi da XIII Brigada Internacional. Após o colapso da Espanha republicana, ele ficou internado na França até 1941, quando finalmente pôde retornar à Hungria, onde se tornou secretário do Comitê Central do Partido Comunista, um movimento comunista clandestino. Em dezembro de 1944, ele foi preso por um destacamento do Partido Arrow Cross. Ele seria executado e transportado para a prisão de Sopronkőhida, depois para a Alemanha; mas a intercessão de seu irmão mais velho, Endre, um subsecretário fascista, salvou sua vida. László Rajk foi lançado em 13 de maio de 1945. Ele voltou para a Hungria e participou da política partidária tornando-se um membro de todas as corporações líderes do partido (MKP) e do Parlamento Extemporal. Rajk foi membro do Alto Conselho Nacional de 7 de dezembro de 1945 a 2 de fevereiro de 1946. Em 20 de março de 1946, foi nomeado ministro do Interior. Neste posto ele organizou exército privado do Partido Comunista Húngaro e da polícia secreta, um análogo organização para a KGB, Securitate, Stasi e depois, o ÁVH (originalmente AVO), tornando-se diretamente responsável por isso. Sob a estratégia de “luta contra o fascismo e a reação” e “defesa do poder do proletariado”, ele proibiu e liquidou vários estabelecimentos e grupos religiosos, nacionalistas e rebeldes em torno de 1.500. Ele foi transferido do Ministério do Interior para o Ministério das Relações Exteriores de 5 de agosto de 1948 a 30 de maio de 1949. Rákosi, que via Rajk como uma ameaça ao seu poder, decidiu acusá-lo de falsas acusações e mandou prendê-lo em 30 de maio 1949 sob acusações forjadas. Rajk, que era popular entre os comunistas antes, logo se tornou o “cachorro acorrentado” de Tito, Horthy e “o imperialista”.

O levante húngaro começou em 23 de outubro de 1956, com uma manifestação pacífica de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação soviética e a implantação do “socialismo verdadeiro”. Quando os estudantes tentaram resgatar alguns colegas que haviam sido presos pela polícia política, esta abriu fogo contra a multidão. No dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes nas ruas da capital. A estátua de Josef Stálin foi derrubada por manifestantes que entoavam, “russos, voltem para casa”, “abaixo Gerő” e “viva Nagy”. Em resposta, o comitê central do Partido Comunista Húngaro recomendou o nome de Imre Nagy para a chefia de governo. Em 25 de outubro, tanques soviéticos dispararam contra manifestantes na Praça do Parlamento. Chocado com tais acontecimentos, o comitê central do partido forçou a renúncia de Gerő e substituiu-o por Imre Nagy. Prontamente foi à Rádio Kossuth e anunciou a futura instalação das liberdades, como seja o multipartidarismo, a extinção da polícia política, a melhoria radical das condições de vida do trabalhador e a busca do socialismo condizente com as características nacionais da Hungria. Em 28 de outubro, o primeiro-ministro Nagy vê as suas opções serem aceites por todos os órgãos do Partido Comunista. Os populares desarmam a polícia política. Em 30 de outubro, Nagy comunicou a libertação do cardeal Mindszenty e de outros prisioneiros políticos.

Reconstituíram-se os Partidos dos Pequenos Proprietários, Socialdemocrata e Camponês Petőfi. O Politburo Soviético decide, numa primeira fase (30 de outubro) mandar as tropas sair de Budapeste, e mesmo da Hungria se viesse essa a ser a vontade do novo governo. Mas no dia seguinte volta atrás e decide-se pela intervenção militar e instauração de um novo governo. A 1° de novembro, o governo húngaro, ao tomar conhecimento das movimentações militares em direção a Budapeste, comunica a intenção húngara de se retirar do Pacto de Varsóvia e pede a proteção das Nações Unidas. A 3 de novembro, Budapeste está cercada por mais de (01) mil tanques. Em 4 de novembro, o Exército Vermelho invade Budapeste, com o apoio de ataques aéreos e bombardeamentos de artilharia a Hungria, derrotando rapidamente as forças húngaras. Calcula-se que 20 000 pessoas foram mortas durante a intervenção soviética. Nagy foi preso (e executado) sendo substituído no poder pelo simpatizante soviético János Kádár. Mais de 2 mil processos políticos foram abertos, extraordinariamente resultando em 350 enforcamentos. Dezenas de milhares de húngaros fugiram do país e próximo de 13 mil foram presos. As tropas soviéticas saíram da Hungria em 1991. 

       Escolas religiosas foram nacionalizadas e líderes de igrejas foram substituídos. Em 1949 o líder da Igreja Católica Húngara, cardeal József Mindszenty, foi preso e condenado à prisão perpétua por traição. Sob Rákosi, o governo húngaro era dos mais repressores na Europa. A Revolução Húngara de 1956 e outros eventos da década de 1950 levaram à afluência de mais membros ao grupo. Nesse período conturbado do Leste europeu, eles propunham o ponto fundamental como a necessidade do capitalismo, por um lado, reduzir os trabalhadores a simples executores de tarefas e, por outro, a impossibilidade de continuar funcionando se for bem sucedido nesse ínterim. O capitalismo precisa atingir objetivos mutuamente incompatíveis: a participação social e a exclusão do trabalhador na produção - como todos os cidadãos em relação à política. Isso ficou caracterizado como a distinção entre o dirigeant (“dirigente”) e o exécutant (“executor”). Essa perspectiva permitiu o grupo expandir-se no que se refere às novas formas de luta e de conflito social que emergiam fora da esfera da produção.

Vale lembrar neste aspecto quando voltou a seu país natal para fazer este filme, o cineasta húngaro István Szabó já havia adquirido fama e respeito internacionais com o filme Mephisto, de 1981, Coronel Redl, de 1985, e Encontro com Vênus, de 1991, realizando-se grandes coproduções internacionais, lançadas no mercado cinematográfico internacional. Este aqui é em tudo diferente desses três anteriores, comparativamente, que garantiram a Szabó a admiração geral; não é um afresco, um painel; é um pequeno retrato; não é um espetáculo para dezenas de atores, é todo em tom menor, centrado na amizade natural de duas mulheres que vivem no seu dia-a-dia a passagem de um mundo para outro. Ao contrário do que seria de se esperar, não se comemora com fanfarras o fim do regime autoritário, o fim dos grilhões, a volta à liberdade plena (cf. Gati, 2006). Demonstra a perplexidade das pessoas diante da mudança radical que ocorre de tudo à sua volta – e tem mesmo um tom melancólico com a perda do valor da solidariedade entre as pessoas, o sonho que não se conseguiu realizar. Um belíssimo diálogo resume a weltanschauung de Szabó sobre aquele momento radical. Uma das amigas, a querida Böbe do título original do filme, pergunta à outra, a doce Emma; o que ela quer da vida, e ela diz: - “Uma sociedade fraterna; que apreciem o que eu faço”. E Böbe responde, ao contrário: - “Isso não vale mais nada. O que vale agora é o dinheiro e as coisas materiais que você possui”.

Em 1958 desentendimentos quanto ao papel político do grupo levou à saída de membros importantes. Claude Lefort e Henri Simon deixaram o grupo para formar “Informations et Liaison Ouvrières”. Em 1960, o grupo tinha crescido para ao redor de 100 membros e tinha desenvolvido novas ligações internacionais, primariamente na emergência de uma organização irmã na Grã-Bretanha chamada “Solidarity”. Disputas dentro do grupo sobre a crescente rejeição do marxismo por Castoriadis levou à saída do grupo ao redor do jornal Pouvoir Ouvrier. O principal jornal Socialisme ou Barbarie continuou a ser publicado até a edição de 1965, depois da qual o grupo permaneceu dormente e foi dissolvido. Uma tentativa de Castoriadis para reviver o grupo durante os nichos através da ressonância dos eventos de Maio de 1968 fracassou. A Internacional Situacionista foi associada ao grupo e influenciada através da interpretação de Guy Debord (1966), que era membro de ambos. O movimento social italiano Autonomia também acabou influenciado, embora de forma menos influente diretamente. A busca de uma argumentação que vise à universalidade (a própria filosofia) não se originaria na racionalidade humana, mas na imaginação intelectual criadora e/ou “imaginária radical”.

O homem é criação propiciada por uma formação exagerada da faculdade da imaginação que faz a essência do homem, precisamente criadora. Para que a espécie humana pudesse sobreviver, a psique precisou ser socializada e dar sentido a um mundo aparentemente sem-sentido natural-biológico. Ao criar as significações, institui-se a sociedade que é a origem de si mesma. Não se poderia pensar a humanidade fora do mundo de significações, ou a subjetividade, a partir do termo “para si”, das representações das instituições sociais. O “para si” é inferido a partir das instancias, interdependentes, em que todas existem, mas nenhuma se mantém sem a outra, numa completa relação de atividade e reciprocidade representando a totalidade do sujeito. Enfim, Castoriadis admite que é impossível fazer filosofia sem uma ontologia, isto é, sem uma interrogação sobre o ser, mas, ao contrário do que possa pensar aquele para quem ontologia soa como “palavra proibida”, sua reflexão é inteiramente articulada à questão política. Não sendo, pois, uma idealização, mas um pensamento radical sobre a possibilidade de uma sociedade na qual os homens tenham consciência de seu poder. Por sua vez, o imaginário radical enquanto imaginário social aparece como corrente do coletivo anônimo, traduzindo-se na sociedade e no que para o social-histórico é posição, criação e fazer ser. Duas dimensões não incomunicáveis nem estáticas, obviamente, embora a dimensão de análise psíquica, a todo tempo, tenha a sua participação oculta na formação do que é próprio na criação.

As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos aptos a enfraquecerem o imprinting, segundo Morin (2008), e a normalização na medida em que avança permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio da práxis cognitiva. Essas condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e intolerâncias sociais e religiosas, o que resulta no próprio crescimento. Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito social, moral e político, entre ideias, concepções e visões de mundo.

Bibliografia Geral Consultada.

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