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segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Silvia Federici – Em Torno de Marx, Capitalismo & Práticas Feministas.

                                                                  O corpo das mulheres é a última fronteira do capitalismo”. Silvia Federici

          Silvia Federici nascida na cidade de Parma, uma cidade universitária na região Emília-Romagna em 1942, é uma filósofa contemporânea, professora e feminista autonomista italiana radicada nos Estados Unidos da América. Em 1972, Federici participou na fundação do Coletivo Feminista Internacional (International Feminist Collective), organização que lançou a campanha internacional Wages For Housework (WFH) a favor do pagamento de salário para o trabalho doméstico. Com outros membros da organização, dentre eles, Mariarosa Dalla Costa, que fez parte do movimento Potere Operaio de Antonio Negri. Após deixar o grupo, em 1971, Mariarosa constituiu o Lotta Femminista, como forma de criticar as deficiências e limitações na militância do Potere Operaio. Em decorrência da repressão aos radicais de esquerda em fins dos anos 1970, na Itália, ela dedicou-se a lecionar teoria política na Universidade de Padova, com Selma James, cofundadora da International Wages for Housework Champaign e coordenadora da Global Women`s Ataque e com autoras feministas como Maria Mies e Vandana Shiva, Federici tem sido pragmática no desenvolvimento do conceito teórico da reprodução sexual como uma chave para estudar as relações de classe, de exploração e dominação em contextos locais e globais, bem como no centro das formas de autonomia e dos bens comuns. É autora de Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva (2004), O Ponto Zero da Revolução: Trabalho Doméstico, Reprodução e Lutas Feministas (2013), Mulheres e Caça às Bruxas: Da Idade Média aos Dias Atuais (2018) e O Patriarcado do Salário: Notas sobre Marx, Gênero e Feminismo (2020). É professora emérita da Universidade Hofstra, uma universidade particular em Hempstead, na cidade de Nova York. 

      Além da compreensão da extensão da historiografia, permeando o conhecimento, a história pontual, a multireferencialidade, tem sido uma tarefa ímpar no âmbito de todas as ciências sociais. A sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a psicologia, trabalham com questões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, militares, demográficas e outras, que correspondem a ações, relações, processo e estruturas tomados em algum nível da historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpretações, em temos de indução quantitativa ou construção de modelos, mesmo nesses casos onde a pesquisa produz alguma explicação nova, reavalia ou reafirma explicações vigentes, sobre os modos e os tempos de devir da história. Também há aqueles que formalizam e, por assim dizer, fetichizam as categorias dialéticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das ações, relações, processos e estruturas que expressam movimentos e as modificações das gentes, grupos, classes e nações. Uns e outros constroem mitos. Em todos os casos, no entanto, a história social aparece de alguma forma, como história real ou invenção, drama ou epopeia, elegia ou profecia. A multiplicidade de ciências na modernidade e as teorias relativas ao nível social, tem dado origem a distintas interpretações como se escreve ou produz a história real ou ficcional nas sociedades. E heterogêneas a histórias do capitalismo que podem ser compreendidas nas análises de David Ricardo, Karl Marx, Alexis de Tocqueville, Émile Durkheim, Max Weber, John Maynard Keynes, Talcott Parsons e Eric Hobsbawm, para ficarmos nestes exemplos.

            Não só na sociologia, mas no conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se dá a mudança, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é o resultado da “criatividade empresarial”. Isto é, toda mudança, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação sustentada em níveis econômicos tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus discípulos no século XIX e XX relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso social.     

                                                  

         A segunda interpretação, reconhecida como “teoria das elites”, está relacionada com a anterior. Recebeu contribuições de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. E tem sido retomada, em diferentes linguagens, por outros cientistas sociais e escritores, como James Burnham, Samuel P. Huntington, Clark Keer, David E. Apter, John Kenneth Galbraith e outros. É uma corrente de pensamento que propõe o funcionamento da sociedade e a mudança social em termos de elites empresariais, gerenciais, militares, intelectuais e outras. Desde o término da 2ª guerra mundial, essa teoria tem sido a base de programas organizados pelo imperialismo norte-americano, no treinamento de quadros de intelectuais, tecnocratas, militares, gerenciais, empresariais e outros, para soluções golpistas ou não em países dependentes e coloniais. Em terceiro lugar, há a intepretação que atribui importância especial à divisão social do trabalho. Toma-se o meio de trabalho como o processo social, de âmbito estrutural, que comanda o funcionamento, as combinações e as transformações das elações sociais e instituições, em níveis econômico, político e outros. Adam Smith e Émile Durkheim são autores importantes nessa corrente de pensamento. Boa parte do pensamento liberal apoia-se nessa ideia. A divisão internacional do trabalho foi apresentada durante o século XIX e até a década de 1930, como a base da prosperidade econômica e social das pessoas, de grupos sociais e das nações. As teorias sobre a democracia liberal, o pluralismo democrático e a cidadania apoiam-se implicitamente na ideia de que a divisão social do trabalho, em sentido amplo, é o processo estrutural que fundamenta e dinamiza a melhor expressão e articulação de pessoas e grupos, atividades e instituições sociais e políticas, setores produtivos e a internacionalização do trabalho em países e nações continentes.  

 A quarta intepretação considera que o fundamento último da mudança, progresso ou desenvolvimento econômico e social é a “tecnologia”. O progresso técnico comandaria as possibilidades de articulação e dinamização dos fatores produtivos principalmente capital e força de trabalho. As possibilidades de poupança e investimento, bem como desenvolvimento e diferenciação dos sistemas econômico e social estriam na dependência das inovações e aplicações da tecnologia, inovações essas originadas das ciências da natureza e da sociedade. Essa interpretação tem várias formulações. Todas, no entanto, apoiam-se na ideia de que ciência, tecnologia e desenvolvimento, ou pesquisa e desenvolvimento em geral relacionam-se positivamente nas sociedades globalizadas. A quinta interpretação confere papel especial ao Estado. Depois da crise da concepção liberal do poder político-econômico e da história, generalizou-se cada vez mais a intepretação que vê na ação estatal a base da organização e mudanças de relações e organizações econômicas e sociais. É claro que esta ideia já está presente, implícita ou explícita, no pensamento científico e filosófico dos séculos XVIII e XIX. Ela aparece em escritos de Hegel, Marx, Engels e Lenin, além de Keynes, Myrdal, Baran e ouros. Depois da criação do regime socialista em vários países, por um lado, e da crise econômica mundial iniciada em outubro de 1929, por outro, os governos capitalistas, dominantes e dependentes, passaram a intervir de forma cada vez mais ampla e profunda na economia.

          A sexta e última interpretação busca as razões dos movimentos e transformações sociais, político-econômicas e culturais nas relações e contradições de classes. De acordo com essa intepretação, as forças produtivas, a atuação estatal e outros aspectos político-econômicos, sociais e culturais são articulados e desarticulados em conformidade com os movimento e desenvolvimentos das relações e contradições das classes sociais: burguesia, classe média, campesinato, proletariado e suas subdivisões estruturais e de ocasião. Dentre os autores que se situam nessa orientação, ou contribuíram para o seu desenvolvimento, destacam-se Marx, Engels, Lenin, Bukharin, Trotski, Lukács, Gramsci e Mao-Tsé-tung, além de José Carlos Mariátegui, Maurice Dobb, Paul A. Baran, Paul M. Sweezy, Frantz Fannon e alguns outros. Essa interpretação se funda na análise do processo de trabalho produtivo, processo esse que produz a mercadoria, a mais-valia de que o burguês se apropria e a alienação econômica e política do trabalhador. O principal conteúdo e resultado desse processo, ou dessas relações de produção, tem como representação histórica e social o antagonismo entre o operário e o burguês. Nesse sentido, o golpe de Estado analisado por Marx, a greve e a revolução produzem-se neste contexto. Numa formulação breve, essa interpretação engloba relações, processos e estruturas básicos e intermediários da sociedade.  

        Quer dizer que, em cada uma dessas interpretações implica uma forma peculiar de compreender as relações entre biografia e história, conjuntura e estrutura, sincronia e diacronia, ou entre as ações, as relações, os processos e estruturas sociais, em seus perfis e movimentos. Outras, situam-se neste contexto global problemático, paradoxal. São interpretações sobre as condições e possibilidades de produção da história, em forma cômica ou trágica, dramática ou épica. A chamada Guerra Fria representa a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, compreendendo o período entre o final da 2ª guerra Mundial (1940-1945) e a dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a Independência das Repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes. A conjuntura anterior representou um conflito extraordinário de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações, no plano das relações políticas e econômicas internacionais e suas zonas conflitantes de influência político-militar.

Quer dizer, é chamada guerra “fria” porque não houve guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de armas nucleares foi o objetivo central durante a primeira metade da chamada “Guerra Fria”, estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativada nos anos 1980 com o projeto do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Ronald Reagan chamado de “Guerra nas Estrelas”. A corrida espacial foi um dos episódios que marcaram a segunda metade do século XX e foi resultado direto da Guerra Fria. Ocorrida entre os anos de 1957 e 1975, a corrida espacial ficou caracterizada pela intensa exploração no espaço realizada por americanos e soviéticos. Um dos episódios geopolíticos de maior relevância da corrida espacial foi a estratégia global ocorrida à chegada do homem à Lua. É neste âmbito de transformações globais polarizadas que Socialisme ou Barbarie representou um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem de uma frase de Rosa Luxemburgo usada em The Junius Pamphlet um libelo, ou ensaio político de 1916.

             O grupo existiu durante os anos 1948 até 1965. A personalidade que o animava era Castoriadis, também reconhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. O grupo se originou na trotskista Quarta Internacional, onde Castoriadis e Claude Lefort constituíram a chamada “Tendência Chaulieu-Montal” no Partido Comunista Internacionalista francês, em 1946. Em 1948, eles experimentaram o seu “desencanto final com o trotskismo”, levando-os a romperem com os trotskistas para formar o Socialisme ou Barbarie, cujo jornal começou a aparecer em março de 1949. Castoriadis mais tarde disse a respeito desse período que sua principal audiência e do jornal era formada pela esquerda radical: bordigistas, comunistas de conselho, alguns anarquistas e órfãos da esquerda alemã dos anos 1920. Eles foram vinculados à tendência Johnson-Forest, que desenvolveu um corpo de ideias dentro das organizações trotskistas norte-americanas. Uma facção desse grupo formou mais tarde o grupo Facing Reality. Os primeiros tempos também trouxeram debates com Anton Pannekoek e um influxo de ex-bordigistas para o grupo. Era composto tanto de intelectuais quanto de trabalhadores e concordavam com a ideia de que os principais inimigos da sociedade eram as burocracias que governavam o capitalismo moderno. eles documentaram e analisaram a luta contra a burocracia no jornal do grupo.

         A edição de número 13 ocorrida em janeiro-março de 1954, por exemplo, era dedicada à Revolta de 1953 na Alemanha Oriental e às greves que pipocaram em vários setores de trabalhadores franceses naquele verão. Seguindo a crença de que o que a luta diária que a classe trabalhadora encarava era o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem cada aspecto de suas vidas no trabalho. O caráter-gueto de Socialismo ou Barbárie não deriva apenas da guerra fria Leste-Oeste. Ao chegar a Paris, a bordo do navio Mataroa, Cornelius Castoriadis, assim como outros intelectuais - qual Kostas Axelos, por exemplo -, vem fugido da perseguição movida contra a esquerda grega. Não somente, porém, da repressão desencadeada pela “aliança atlantista”, como igualmente dos próprios comunistas, conforme relata, em tons quase dramáticos, Morin: - “Raríssimos foram os intelectuais europeus que, sob a ocupação nazista, se tornaram militantes da heresia trotskista. Os comunistas trotskistas, presos pela Gestapo, sofriam a mesma sorte dos comunistas stalinistas e, no interior das prisões e campos nazistas, os stalinistas, no melhor dos casos, punham os trotskistas em quarentena e, na pior, liquidavam os hitlero-trotskistas. Na Grécia da Liberação, o Partido Comunista decidiu, em tomada de posição do Comitê Central, pelo extermínio dos trotskistas. Condenado à morte pelos comunistas e prevendo ser abatido pelos anticomunistas, Castoriadis emigrou para a França”.

          Assim sendo, o possível círculo de acolhida ao fugitivo em Paris está nos setores igualmente minoritários da IV Internacional. Mas Castoriadis bem cedo diagnostica um tronco leninista-burocrático comum a stalinismo e trotskismo. O grupo Socialismo ou Barbárie fará ruptura com a IV Internacional Comunista - ruptura marcada por uma dupla originalidade. De modo diferente das inumeráveis cisões anteriores do movimento trotskista, ela não se dá, assim referida “à moda de uma pequena capela que muda de chefe sem transformar em nada a doutrina”. Ao contrário de outras dissensões que igualmente rejeitam a organização de tipo leninista, ela “não joga fora o bebê” (Marx) “junto com a água do banho” (Lênin-centralismo-stalinismo). Ao romper com os heterodoxos ortodoxos - IV Internacional e dissidências da IV Internacional - em nome do marxismo, Socialismo ou Barbárie emerge como a “heresia de uma heresia” (cf. Morin, 1989). O Socialisme ou Barbarie era crítico do leninismo, rejeitando a ideia de um partido revolucionário e colocando ênfase nos conselhos de trabalhadores. Enquanto alguns membros partiram para formarem outros grupos, aqueles que permaneceram se tornaram mais e mais críticos do marxismo ao longo do tempo. Jean Laplanche, um dos membros-fundadores do grupo, recorda os primeiros dias da organização.

O grupo era tanto de intelectuais quanto de trabalhadores e concordavam com a ideia de que os principais inimigos da sociedade eram as burocracias que governavam o capitalismo. Eles documentaram e analisaram a luta contra a burocracia no jornal do grupo. A edição de número 13 referente a janeiro-março de 1954, por exemplo, era dedicada à interpretação da Revolta de 1953 na Alemanha do Leste e às greves em vários setores de trabalhadores franceses naquele verão. Seguindo a ideologia de que o que a luta diária que a classe trabalhadora encarava era o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem cada aspecto social da vida cotidiana no trabalho.  A Hungria começou o período pós-guerra como uma livre democracia pluripartidária, e as eleições em 1945 produziram um governo de coalizão sob a batuta do primeiro-ministro Zoltán Tildy. Entretanto, o Partido Comunista, apoiado pela União Soviética, que tinha recebido somente 17% dos votos, constantemente obtinha pequenas concessões em um processo nomeado “tática do salame”, que fatiava a influência do governo eleito. Depois das eleições de 1945, os poderes do Ministro do Interior - que supervisionava a Autoridade de Proteção de Estado foram transferidos do “Partido dos Pequenos Proprietários Independentes” para gente de confiança do Partido Comunista. Empregava métodos de intimidação, falsas acusações, prisões e tortura para suprimir a esfera política. A democracia pluripartidária acabou quando o Partido Comunista se fundiu com o Partido Socialdemocrata para se tornar o “Partido Popular dos Trabalhadores Húngaro”, cuja lista de candidatos foi a votos sem oposição em 1949.

A República Popular Húngara foi declarada. Depois da 2ª guerra mundial, a Hungria sucumbiu na esfera político-ideológica de influência soviética e foi ocupada militarmente pela guerra de movimento do Exército Vermelho. Em 1949, os soviéticos tinham concluído um tratado de assistência mútua com a Hungria que garantia direitos políticos à União Soviética para uma contínua presença militar, assegurando o último controle político. Dentre 1950-52, a Polícia de Segurança forçadamente realocou milhares de pessoas para obter propriedades e moradias para os membros do Partido Popular dos Trabalhadores, e remover a ameaça da classe intelectual e burguesa. Milhares foram presos, torturados, julgados e aprisionados em campos, deportados para o leste, ou eram executados, incluindo o fundador da ÁVH László Rajk. Em um único ano, mais de 26.000 pessoas foram forçadamente realocadas de Budapeste. Como uma consequência, empregos e moradias eram muito difíceis. Os deportados geralmente experimentavam parcas condições de habitação e eram recrutados para trabalho escravo em fazendas coletivas. Muitos morreram como resultado das pobres condições de vida e desnutrição. O estudo do idioma russo e instrução política comunista foram tornados parte do currículo escolar e universitário pelo país. László Rajk nasceu em Székelyudvarhely, sendo o nono filho de uma família de saxões da Transilvânia, seus laços afetivos com o comunismo começaram como membro do Partido Comunista da Hungria (KMP). Posteriormente, foi expulso da universidade por suas ideias políticas e se tornaria operário da construção civil, até 1936, quando ingressou na Frente Popular na Guerra Civil Espanhola. 

Ele se tornou comissário do Batalhão Rakosi da XIII Brigada Internacional. Após o colapso da Espanha republicana, ele ficou internado na França até 1941, quando finalmente pôde retornar à Hungria, onde se tornou secretário do Comitê Central do Partido Comunista, um movimento comunista clandestino. Em dezembro de 1944, ele foi preso por um destacamento do Partido Arrow Cross. Ele seria executado e transportado para a prisão de Sopronkőhida, depois para a Alemanha; mas a intercessão de seu irmão mais velho, Endre, um subsecretário fascista, salvou sua vida. László Rajk foi lançado em 13 de maio de 1945. Ele voltou para a Hungria e participou da política partidária tornando-se um membro de todas as corporações líderes do partido (MKP) e do Parlamento Extemporal. Rajk foi membro do Alto Conselho Nacional de 7 de dezembro de 1945 a 2 de fevereiro de 1946. Em 20 de março de 1946, foi nomeado ministro do Interior. Neste posto ele organizou exército privado do Partido Comunista Húngaro e da polícia secreta, um análogo organização para a KGB, Securitate, Stasi e depois, o ÁVH (originalmente AVO), tornando-se diretamente responsável por isso. Sob a estratégia de “luta contra o fascismo e a reação” e “defesa do poder do proletariado”, ele proibiu e liquidou vários estabelecimentos e grupos religiosos, nacionalistas e rebeldes em torno de 1.500. Ele foi transferido do Ministério do Interior para o Ministério das Relações Exteriores de 5 de agosto de 1948 a 30 de maio de 1949. Rákosi, que via Rajk como uma ameaça ao seu poder, decidiu acusá-lo de falsas acusações e mandou prendê-lo em 30 de maio 1949 sob acusações forjadas. Rajk, que era popular entre os comunistas antes, logo se tornou o “cachorro acorrentado” de Tito, Horthy e “o imperialista”.

O levante húngaro começou em 23 de outubro de 1956, com uma manifestação pacífica de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação soviética e a implantação do “socialismo verdadeiro”. Quando os estudantes tentaram resgatar alguns colegas que haviam sido presos pela polícia política, esta abriu fogo contra a multidão. No dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes nas ruas da capital. A estátua de Josef Stálin foi derrubada por manifestantes que entoavam, “russos, voltem para casa”, “abaixo Gerő” e “viva Nagy”. Em resposta, o comitê central do Partido Comunista Húngaro recomendou o nome de Imre Nagy para a chefia de governo. Em 25 de outubro, tanques soviéticos dispararam contra manifestantes na Praça do Parlamento. Chocado com tais acontecimentos, o comitê central do partido forçou a renúncia de Gerő e substituiu-o por Imre Nagy. Prontamente foi à Rádio Kossuth e anunciou a futura instalação das liberdades, como seja o multipartidarismo, a extinção da polícia política, a melhoria radical das condições de vida do trabalhador e a busca do socialismo condizente com as características nacionais da Hungria. Em 28 de outubro, o primeiro-ministro Nagy vê as suas opções serem aceites por todos os órgãos do Partido Comunista. Os populares desarmam a polícia política. Em 30 de outubro, Nagy comunicou a libertação do cardeal Mindszenty e de outros prisioneiros políticos.

Reconstituíram-se os Partidos dos Pequenos Proprietários, Socialdemocrata e Camponês Petőfi. O Politburo Soviético decide, numa primeira fase (30 de outubro) mandar as tropas sair de Budapeste, e mesmo da Hungria se viesse essa a ser a vontade do novo governo. Mas no dia seguinte volta atrás e decide-se pela intervenção militar e instauração de um novo governo. A 1° de novembro, o governo húngaro, ao tomar conhecimento das movimentações militares em direção a Budapeste, comunica a intenção húngara de se retirar do Pacto de Varsóvia e pede a proteção das Nações Unidas. A 3 de novembro, Budapeste está cercada por mais de (01) mil tanques. Em 4 de novembro, o Exército Vermelho invade Budapeste, com o apoio de ataques aéreos e bombardeamentos de artilharia a Hungria, derrotando rapidamente as forças húngaras. Calcula-se que 20 000 pessoas foram mortas durante a intervenção soviética. Nagy foi preso (e executado) sendo substituído no poder pelo simpatizante soviético János Kádár. Mais de 2 mil processos políticos foram abertos, extraordinariamente resultando em 350 enforcamentos. Dezenas de milhares de húngaros fugiram do país e próximo de 13 mil foram presos. As tropas soviéticas saíram da Hungria em 1991. 

       Escolas religiosas foram nacionalizadas e líderes de igrejas foram substituídos. Em 1949 o líder da Igreja Católica Húngara, cardeal József Mindszenty, foi preso e condenado à prisão perpétua por traição. Sob Rákosi, o governo húngaro era dos mais repressores na Europa. A Revolução Húngara de 1956 e outros eventos da década de 1950 levaram à afluência de mais membros ao grupo. Nesse período conturbado do Leste europeu, eles propunham o ponto fundamental como a necessidade do capitalismo, por um lado, reduzir os trabalhadores a simples executores de tarefas e, por outro, a impossibilidade de continuar funcionando se for bem sucedido nesse ínterim. O capitalismo precisa atingir objetivos mutuamente incompatíveis: a participação social e a exclusão do trabalhador na produção - como todos os cidadãos em relação à política. Isso ficou caracterizado como a distinção entre o dirigeant (“dirigente”) e o exécutant (“executor”). Essa perspectiva permitiu o grupo expandir-se no que se refere às novas formas de luta e de conflito social que emergiam fora da esfera da produção.

Vale lembrar neste aspecto quando voltou a seu país natal para fazer este filme, o cineasta húngaro István Szabó já havia adquirido fama e respeito internacionais com o filme Mephisto, de 1981, Coronel Redl, de 1985, e Encontro com Vênus, de 1991, realizando-se grandes coproduções internacionais, lançadas no mercado cinematográfico internacional. Este aqui é em tudo diferente desses três anteriores, comparativamente, que garantiram a Szabó a admiração geral; não é um afresco, um painel; é um pequeno retrato; não é um espetáculo para dezenas de atores, é todo em tom menor, centrado na amizade natural de duas mulheres que vivem no seu dia-a-dia a passagem de um mundo para outro. Ao contrário do que seria de se esperar, não se comemora com fanfarras o fim do regime autoritário, o fim dos grilhões, a volta à liberdade plena (cf. Gati, 2006). Demonstra a perplexidade das pessoas diante da mudança radical que ocorre de tudo à sua volta – e tem mesmo um tom melancólico com a perda do valor da solidariedade entre as pessoas, o sonho que não se conseguiu realizar. Um belíssimo diálogo resume a weltanschauung de Szabó sobre aquele momento radical. Uma das amigas, a querida Böbe do título original do filme, pergunta à outra, a doce Emma; o que ela quer da vida, e ela diz: - “Uma sociedade fraterna; que apreciem o que eu faço”. E Böbe responde, ao contrário: - “Isso não vale mais nada. O que vale agora é o dinheiro e as coisas materiais que você possui”.

Em 1958 desentendimentos quanto ao papel político do grupo levou à saída de membros importantes. Claude Lefort e Henri Simon deixaram o grupo para formar “Informations et Liaison Ouvrières”. Em 1960, o grupo tinha crescido para ao redor de 100 membros e tinha desenvolvido novas ligações internacionais, primariamente na emergência de uma organização irmã na Grã-Bretanha chamada “Solidarity”. Disputas dentro do grupo sobre a crescente rejeição do marxismo por Castoriadis levou à saída do grupo ao redor do jornal Pouvoir Ouvrier. O principal jornal Socialisme ou Barbarie continuou a ser publicado até a edição de 1965, depois da qual o grupo permaneceu dormente e foi dissolvido. Uma tentativa de Castoriadis para reviver o grupo durante os nichos através da ressonância dos eventos de Maio de 1968 fracassou. A Internacional Situacionista foi associada ao grupo e influenciada através da interpretação de Guy Debord (1966), que era membro de ambos. O movimento social italiano Autonomia também acabou influenciado, embora de forma menos influente diretamente. A busca de uma argumentação que vise à universalidade (a própria filosofia) não se originaria na racionalidade humana, mas na imaginação intelectual criadora e/ou “imaginária radical”.

O homem é criação propiciada por uma formação exagerada da faculdade da imaginação que faz a essência do homem, precisamente criadora. Para que a espécie humana pudesse sobreviver, a psique precisou ser socializada e dar sentido a um mundo aparentemente sem-sentido natural-biológico. Ao criar as significações, institui-se a sociedade que é a origem de si mesma. Não se poderia pensar a humanidade fora do mundo de significações, ou a subjetividade, a partir do termo “para si”, das representações das instituições sociais. O “para si” é inferido a partir das instancias, interdependentes, em que todas existem, mas nenhuma se mantém sem a outra, numa completa relação de atividade e reciprocidade representando a totalidade do sujeito. Enfim, Castoriadis admite que é impossível fazer filosofia sem uma ontologia, isto é, sem uma interrogação sobre o ser, mas, ao contrário do que possa pensar aquele para quem ontologia soa como “palavra proibida”, sua reflexão é inteiramente articulada à questão política. Não sendo, pois, uma idealização, mas um pensamento radical sobre a possibilidade de uma sociedade na qual os homens tenham consciência de seu poder. Por sua vez, o imaginário radical enquanto imaginário social aparece como corrente do coletivo anônimo, traduzindo-se na sociedade e no que para o social-histórico é posição, criação e fazer ser. Duas dimensões não incomunicáveis nem estáticas, obviamente, embora a dimensão de análise psíquica, a todo tempo, tenha a sua participação oculta na formação do que é próprio na criação.

As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos aptos a enfraquecerem o imprinting, segundo Morin (2008), e a normalização na medida em que avança permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio da práxis cognitiva. Essas condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e intolerâncias sociais e religiosas, o que resulta no próprio crescimento. Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito social, moral e político, entre ideias, concepções e visões de mundo.

Bibliografia Geral Consultada.

GOTTRAUX, Philippe, Socialisme ou Barbarie, un Engagement Politique et Intellectuel dans la France de l`après Guerre. Suíça: Editions Payot Lausanne, 1997; BARNABÉ, Israel Roberto, “Elites, Classe Social e Poder Local”. In: Revista Estudos de Sociologia. Araraquara (UNESP), vol. 4, n° 7. pp. 01-16; 1999; ALLEGRO, Luís Guilherme Vieira, A Reabilitação dos Afetos: Uma Incursão no Pensamento Complexo de Edgar Morin. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; GUARALDO, Olivia, “Pensadoras de Peso: O Pensamento de Judith Butler e Adriana Cavarero”. In: Revista Estudos Feministas, vol. 15, n° 3, 2007: MORIN, Edgar, O Método 4 – As Ideias. 4ª edição. Porto Alegre: Editora Sulina, 2008; Idem, Edwige, L`Inséparable. Paris: Éditions Fayard, 2009; CAVARERO, Adriana, Vozes Plurais: Filosofia da Expressão Vocal. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011; CURIEL, Ochy, La Nación Heterosexual: Análisis del Discurso Jurídico y el Régimen Heterosexual desde la Antropología de la Dominación. Colombia: Impresol Ediciones, 2013; MARQUES, Alfran Marcos Borges, A Política como Projeto de Autonomia em Cornelius Castoriadis. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2014; FERREIRA, Tiago Alfredo da Silva, Entendimento, Conhecimento e Autonomia: Virtudes Intelectuais e o Objetivo do Ensino de Ciências. Tese de Doutorado em Ensino, História e Filosofia das Ciências. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015; FEDERICI, Silvia, Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017; Idem, O Ponto Zero da Revolução. São Paulo: Editora Elefante, 2019; OSMAN, Elzahra Mohamed Radwan Omar, “O Sonho da Sultana, a Razão Colonial e os Feminismos em Contextos Islâmicos”. In: Revista Ártemis, vol. 32, n° 1, 2021; GARCIA, Rubya Souza, Gênero, Trabalho Doméstico e de Reprodução Social: Uma Análise Sobre a Exploração e Opressão de Mulheres no Capitalismo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Escola de Humanidades. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2022; GABRIEL, Alice de Barros, Materialidade, Maternidade e Outras Matrizes. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Instituto de Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. Brasília: Universidade de Brasília, 2022; LIMA, Caio Taner, A Binariedade de Gênero como Controle Sociopolítico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Setor de Ciências Humanas. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2023; entre outros.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Clarice Lispector - Dom, Identidades & Afeto Mediado nas Palavras.

                                                                                                Ubiracy de Souza Braga 
                                                     “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”. Clarice Lispector
 

            Pode-se afirmar que a tradução de qualquer texto literário, um texto que tem como representação a vida social e política produz efeito estético e provoca um efeito catártico no leitor, segundo a definição corrente de literatura. É claro que, não excluindo os tradutores generalistas, os tradutores especializados são frequentemente capazes de oferecer, pela familiaridade com aquele gênero ou aquele autor, um estilo literário capaz de reter e identificar aquele universo particular, gerando alguns efeitos   específicos na leitura do original, no leitor, o que pode representar uma vantagem para a realização desta atividade. Ainda assim, mesmo especializando-se em autores ou gêneros literários, o tradutor literário precisa dominar a técnica da escrita de diálogos, uso de coloquialismos, gírias, estilos narrativos e quase todas as estratégias empregadas pelos autores dos originais, o que não deixa de ser uma forma de especialização “em si”.  Os resultados da operação contam então com restos da adesão. Fazem cálculos até mesmo com o desgaste de toda convicção. Durante séculos, supunha-se que fossem indefinidas as reservas de crença. Aos poucos a crença se poluiu, como ar e a água. Percebe-se ao mesmo tempo não se saber o que ela é. Tantas polêmicas e reflexões na vida cotidiana sobre os conteúdos ideológicos em torno do voto e enquadramentos institucionais para lhe fornecer, não foram acompanhadas de uma elucidação acerca da natureza do ato de crer.

          Metodologicamente a descrição da dialética que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do pensamento humano desde a Antiguidade, em todas as épocas e sua conclusão é surpreendente: “o homem integral, livre, satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa”. Não é o senhor nem o escravo, mas sim o escravo que consegue suprimir sua sujeição. Isto é Hegel, um homem admirável. A célebre metáfora do senhor e do escravo, tão popularizada na tradição ocidental, foi criada por Hegel (cf. Kojève, 1973) e utilizada por muitos pensadores no século XX, e hoje em tempos sombrios mais do que nunca. Desse modo, qualquer aproximação da metáfora “em si” ou do seu sentido, necessita de uma análise da obra e do contexto filosófico onde a mesma se insere. Diferentemente das muitas lições e cursos que G. W. F. Hegel ministrou e que, posteriormente, foram transformados em aulas, sua escrita aqui é bastante distinta. No âmbito filosófico podemos notar a clara oposição de Hegel ao posicionamento kantiano. A segunda significação é cultural, isto é, a “consciência vive num determinado contexto e época”. Já a terceira significação é histórica, ou seja, “a consciência do indivíduo e da cultura caminha para uma ciência na história”. A partir de tais cruzamentos é que podemos compreender a dialética do “senhor e do escravo” em Hegel. 



                                    
            Quando Hegel morreu em 1831, o corpo violentamente decapitado de Maria Antonieta “jazia numa vala comum em Paris”. Napoleão e a Revolução clássica haviam percorrido seus caminhos. Os ingleses e a revolução de Metternich haviam se encarregado do grande homem. A república norte-americana tomara seu lugar entre as potências imperialistas e seus navios velozes percorriam os sete mares. Goethe serenamente observava uma vida de conflitos fundida em forma clássica e selava seu épico de Fausto, o homem universal que transcende o mundo da sensualidade. A tragédia Fausto é, sem dúvida alguma, um dos textos que emoldura a Goethe repercussão universal. Nela, pode-se dizer, o poeta expressa a experiência da existência. Holbach estava fora de moda, “mas um garoto de treze anos em Trier, Marx, nascido no ano em que Hegel se tornara professor de filosofia da Universidade de Berlim, já começava a descobrir a filosofia que significava Hegel e logo iria ressuscitar Holbach em uma forma mais dinâmica do que todo o romantismo e que varreria o mundo, até a China, com uma paixão do intelecto mais poderosa do que qualquer coisa que Werther tenha conhecido”.
Clarice Lispector foi uma escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, mas declarava, quanto a sua brasilidade, ser pernambucana, sendo considerada uma das escritoras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka. A escritora dizia não ter aparentemente nenhuma ligação com a Ucrânia e que sua “verdadeira” pátria era o Brasil. Pouca gente se dá conta de que uma das escritoras mais talentosas da literatura brasileira viveu em Maceió. Trata-se de Clarice Lispector, que passou alguns anos de sua infância na capital alagoana. Inicialmente, a família passou um breve período em Maceió, até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu e onde, aos oito anos, perderia a mãe. Aos quatorze anos de idade, transfere-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde a família estabilizou-se, e onde o seu pai viria a falecer, em 1940. Sua obra literária tem como escopo cenas cotidianas e enredos psicológicos, sendo considerada uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Predomina em suas obras o nível de análise psicológico, visto que o narrador segue o fluxo do pensamento e o monólogo interior das personagens. As ações sociais, quando ocorrem, destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. São comuns enredarem-se histórias sem começo, meio ou fim. Por isso, ela se dizia, do ponto de vista da criação, ser mais que uma escritora, irradiando uma ideia afetiva nas palavras, porque registrava em palavras aquilo que sentia. 
Mais que histórias, seus livros apresentam impressões. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. .Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo. Mas esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado - pelo menos inusitado para a personagem. Ocorre a “epifania” como a representação do momento em que a personagem sente uma “luz iluminadora” de sua consciência, contraditória, no sentido hegeliano, que a fará despertar para a vida contradições, perplexidades que noutra instância nela não fariam a menor diferença. 

O clima de comunicação, próprio para ganhar confiança vem do modo como ela “dialoga” com criança através da obra. Como no mesmo livro “A Mulher que Matou os Peixes”, logo no início antes de contar a história vem a frase: “Antes de começar, quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e meu coração vai ouvir”. E esse recurso estilístico se repete várias vezes. As digressões ou os supostos diálogos da narradora com o leitor predominam em relação às ações da própria narrativa. Clarice Lispector parecia estar ciente de como penetrar no universo infantil de modo seguro e que não fizesse em momento algum com que o pequeno leitor se sentisse “sozinho” ao ler a história – na verdade, a impressão de que a narradora é uma companhia está muito presente, tal a intimidade oferecida pelo contexto. Como em uma das passagens de “O Mistério do Coelho Pensante”, a confiança a ser conquistada é uma prioridade quando permite estabelecer uma analogia. É autora original não só quanto à ficção imaginada, mas também uma pioneira em outras áreas: ingressando no jornalismo ainda na década de 1940, era a única mulher da redação em que trabalhava, e uma das poucas, a exercer uma profissão. Nos anos 1950, enfrenta novo desafio. Convidada a escrever “colunas femininas”, precisa falar sobre moda, beleza e comportamento, mas deseja “driblar” o que está por trás destas relações sociais, uma poderosa ideologia que reduzia a mulher e seu desempenho através de um papel menor na sociedade.
Ao lado dessa preocupação, vive o temor de que o ofício comprometa sua atividade intelectual como ficcionista. Por isso, utiliza pseudônimos e concorda, anos mais tarde, em ser a ghost writer da famosa manequim Ilka Hack Soares, uma das mulheres mais belas do Brasil dos anos 1950 e 1960, fez sua estreia no cinema em 1949 no filme: Iracema, uma adaptação do romance homônimo de José de Alencar. Passou ainda pelos estúdios das pioneiras e reveladoras Vera Cruz e Atlântida. Na TV apresentou programas de consumo jornalístico e/ou de variedades. Foi também modelo de capa de revistas de classe média; desfilou em passarelas profissionalmente. Acompanhou o ator Rock Hudson em visita ao Brasil em 1958. Em 1971 atuou no teatro e televisão, destacando-se em telenovelas pragmáticas da Rede Globo como “Bandeira 2” (1971), “Anjo Mau” (1976), “Locomotivas” (1977), “Champagne” (1983), “Corpo a Corpo” (1984) e “Mandala” (1987). Apresentou a representação do chamado “Jornal de Verdade”, era um telejornal da Rede Globo e surgiu como substituto do Jornal de Vanguarda, do qual conservou, além de alguns integrantes da equipe, as principais características: o tom informal e coloquial no discurso de seus apresentadores, a presença de vários locutores, o comentário de jornalistas especializados, que interpretavam os fatos mais importantes do dia; e o humor e a irreverência dos bonecos em movimento de Borjalo.
Para escrever as colunas femininas, uma atividade independente do percurso literário, Clarice utilizava-se de vários pseudônimos. O livro Só Para Mulheres  reúne 290 textos e pequenos trechos. Os temas vão do melhor corte de cabelo e do vestido do momento à felicidade conjugal, passando por uma série de receitas de almanaque. Respeitando as limitações comerciais - no Correio, a coluna era patrocinada pelos cosméticos Pond`s - e as referentes ao veículo de comunicação e à média do público-alvo, Clarice soube imprimir a tudo sua marca literária. A inventividade com os adjetivos, as construções com duplos sentidos e o uso de metáforas do poder nada óbvias, recursos presentes em seus contos e romances, também aparecem. Sob o aparente papo inocente das chamadas dona-de-casa, escondem-se reflexões sobre a essência do feminino e sua relação estratégica com os homens.
        Clarice também critica os excessos consumistas. Parte dos textos que escreveu à época, sob os pseudônimos de Tereza Quadros e Helen Palmer e como ghost writer de Ilka Soares, estão em  Só para Mulheres, coletânea organizada por Aparecida Nunes, doutora em literatura brasileira e estudiosa da obra da autora de romances como A Hora da Estrela e A Paixão Segundo G.H. Referência a este aspecto foi realizada em reportagem publicada no jornal O Globo, a respeito da compilação das colunas de assuntos femininos a ser lançada com o título Correio Feminino. A matéria apresenta uma faceta pouco conhecida mas também muito característica de Clarice Lispector: a da mulher vaidosa, e que como jornalista podia dar dicas para outras mulheres também preocupadas com a moda, a beleza e comportamento. Para falar desses temas, Clarice assinou como Tereza Quadros, depois como Helen Palmer, e também a ghost writer da atriz Ilka Soares. Outra atividade que Clarice exerceu foi a produção de livros infantis. O primeiro deles, “O Mistério do Coelho Pensante”, data de 1968 e foi baseado numa história real da família. Depois vieram “A Mulher que Matou os Peixes”, “A Vida Íntima de Laura”, “Quase de Verdade” e “Como Nasceram as Estrelas”.
Registrada como Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 na aldeia de Chechelnyk, região da Podólia, então parte da República Popular da Ucrânia e hoje parte da moderna Ucrânia. Filha dos judeus russos Pinkhas Lispector e Mania Lispector (nascida Krimgold), seu nascimento se deu em meio aos “preparativos” da família para a fuga, em razão do antissemitismo resultante da guerra civil russa (1918-1920). Pinkhas Lispector era um comerciante, filho do religioso Shmuel Lispector e da burguesa Heived. Pinkhas e Mania se casaram no ano novo de 1889, por determinação dos pais. Do casamento nasceriam três filhas: Leah, em 1911; Tania, em 1915; e Chaya (ou Haia), em 1920. A proibição da emigração fez com que os Lispector buscassem meios aparentemente ilegais em uma tentativa, que falhou e que fez com que eles se mudassem para uma aldeia mais próxima das fronteiras, Chechelnyk. Estudou Direito na Universidade do Brasil, posteriormente UFRJ, apesar de demonstrar interesse pelo meio literário, no qual ingressou precocemente como tradutora, logo se consagrando como escritora, jornalista, contista e ensaísta, tornando-se uma das intelectuais mais influentes da literatura brasileira (e do modernismo), sendo inclusive considerada uma das principais influências da nova geração de escritores brasileiros. É incluída pela crítica analítica especializada entre os principais pensadores brasileiros do século XX. 
A presença judaica assumida como tal tem início apenas no século XIX, após a Constituição de 1824 ter instituído formalmente a liberdade religiosa no país. Como fenômeno de massa, no entanto, a imigração judaica começou depois do desenvolvimento da navegação a vapor e do estabelecimento de linhas comerciais entre a Europa e o Brasil, o que aconteceria só na segunda metade do século XIX. No inverno de 1921, conseguiram deixar a Ucrânia após alcançarem o rio Dniestre, através do qual foram levados à cidade de Soroco, então pertencente à Romênia e atualmente à República da Moldávia. Lá viveram em um albergue, e Mania foi internada em um hospital de caridade. Planejaram a fuga da Europa, com o intento de emigrar para o Brasil ou para os Estados Unidos, opção esta que acabou por ser inviável devido à aprovação do “Emergency Quota Act”, que dificultava a emigração do Leste Europeu. A fuga foi cogitada primeiramente por Mania Lispector e sua família, que já havia emigrado em sua maior parte para a América do Sul a fim trabalhar em organizações judaicas. No entanto, Pinkhas concordou com a emigração somente em razão do avanço dos pogroms, no fim da década de 1910. Por volta de 1918, a pobreza fez com que a família se mudasse para a cidade de Haisyn, também na Podólia, no atual Oblast de Vinnitsa, onde ocorreram alguns “pogroms”, historicamente, termo que se refere aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países. A palavra russa significa “causar estragos, destruir violentamente”. Num deles, por volta de 1919, Mania “foi estuprada por um grupo de soldados, que lhe teriam transmitido sífilis”.
  Mas o movimento social ganharia volume significativo apenas na segunda metade da década de 1920, quando Estados Unidos da América e Argentina introduziram restrições à entrada de determinados grupos. O Brasil, que desde fins do século XIX se  estabelecera como um importante destino da migração internacional, tornou-se uma alternativa natural. Sucessivamente, judeus provenientes do Império Russo, dos Bálcãs e da Europa Central passaram a chegar em números crescentes: calcula-se que, entre 1920 e o início da 2ª guerra mundial, mais de 50 mil judeus tenham aqui aportado. Desde as últimas décadas do século XIX, o Brasil havia recebido alguns milhões de imigrantes europeus, vindos principalmente da Itália, Alemanha, Portugal, Espanha e Polônia. Em Maceió, a família continuou a viver em condições precárias e enfrentou alguns conflitos decorrentes das dificuldades econômicas e culturais. Para sustentar a família, Pedro tornou-se um pequeno mascate, comprando roupas velhas e usadas em áreas carentes para revendê-las aos comerciantes da cidade, e também deu algumas aulas particulares de língua hebraica para os filhos de alguns vizinhos e vendia cortes de linho. A situação melhorou somente quando Pedro, ao lado de José, passou a fabricar sabão, como fez na Ucrânia. Em 1925, após três anos morando em Maceió, no estado de Alagoas, mudou-se, pouco depois de seu pai, para Recife, no estado de Pernambuco, com sua mãe e irmãs, possivelmente em consequências dos conflitos familiares e do desejo de Pedro de melhorar as condições sociais da família mudando-se para um centro econômico mais desenvolvido culturalmente que apresentava também uma população judaica mais coesa. Viveram no bairro Boa Vista.

Em 1928, aos sete anos, aprendeu a ler e a escrever. Em 1930, pouco depois, escreveu, inspirada por uma peça que havia visto, sua primeira peça teatral, “Pobre menina rica”, de três atos e cujas páginas foram perdidas. Em 1931, enviou contos para a página infantil do Diário de Pernambuco, mas o jornal não publicou seus textos porque “os outros diziam assim: - ‘Era uma vez, e isso e aquilo...’. E os meus eram sensações (cf. Manzo, 2001). Eram contos sem fadas, sem piratas. Então ninguém queria publicar”. Após completar o jardim de infância, ingressou no ensino primário, na Escola João Barbalho, mostrando bastante interesse por matemática e passando a dar aulas dessa disciplina aos filhos dos vizinhos.  Nesse período mudaram-se para a rua Imperatriz Teresa Cristina. Em 1930, na terceira série, ingressou no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro, onde aprendeu hebraico e iídiche. O estado de Mania agravou-se, e Clarice escreveu, para tentar agradá-la, contos e peças, mas em 21 de setembro de 1930, aos quarenta e dois anos, Mania Lispector morreu e foi sepultada no Cemitério Israelita do Barro. Em homenagem à mãe, Clarice Lispector compôs sua primeira peça para piano.
Em 15 de dezembro, seu pai deu início ao processo de nacionalização, solicitando um documento inicial. Em 17 de junho de 1931, encaminhou um pedido de naturalização. Em 1932, Clarice, aos doze anos, foi aprovada, ao lado da irmã Tania e da prima Bertha, no Ginásio Pernambucano. Em 1933, decidiu tornar-se escritora quando “tomei posse da vontade de escrever ... vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar”. Na sua última entrevista em vida, ela disse que nessa sua formação literária “misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Fiódor Dostoievski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, O Lobo da Estepe, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora”. A família mudou-se para uma casa própria na avenida Conde da Boa Vista, em Recife,  um importante logradouro. Inicia-se na Ponte Duarte Coelho e termina na Rua Dom Bosco, e depois passa a se chamar Av. Carlos de Lima Cavalcanti. Corta os bairros da Boa Vista e da Soledade.
Em 7 de janeiro de 1935, com 14 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro na residência de um casal judaico no bairro do Flamengo e depois moram em uma casa antiga perto do Campo de São Cristóvão. Estabilizam-se na cidade logo em seguida, ocupando parte da casa 341 da rua Mariz e Barros, no bairro da Tijuca. Clarice então estudava o quarto ano do ginásio no colégio Sílvio Leite, na mesma rua de sua casa. Em 1936, terminou o ginásio e ingressou, em 2 de março de 1937, em uma escola preparatória, a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, então chamada de Universidade do Brasil. A decisão causou estranhamento na época, tanto por Clarice ser mulher quanto por não pertencer à elite carioca, mas era justificada por seus desejos de mudanças sociais, pois “o que eu via [em Recife] me fazia como me prometer que não deixaria aquilo continuar”. De acordo com ela, “como eu não tinha orientação de nenhuma espécie sobre o que estudar, fui estudar advocacia”. Apesar da relutância do pai, que temia mudanças “estressantes” na filha, ela perseguiu sua vocação na literatura com seus planos disciplinares em sua vida e tinha um objetivo humanista claro: - “Minha ideia ... era estudar advocacia para reformar as penitenciárias”.
A atuação de Agamenon Magalhães na Constituinte de 1933 foi pautada na defesa do regime parlamentarista, na qual não teve apoio nem do governo nem dos demais parlamentares. Apesar disso, em 1934, foi convidado pelo presidente Getúlio Vargas para a pasta do Trabalho, Indústria e Comércio. Passam a primeira semana no Rio de Janeiro. Nesse período, deu apoio à criação da Justiça do Trabalho, ampliou a rede de apoio aos trabalhadores urbanos, e cooptando-os utilizou a arregimentação sindical para combater a infiltração comunista no movimento operário, principalmente após chamada Intentona Comunista de 1935. Para isso, defendeu a intensificação do controle sobre os sindicatos e o aceno com novas leis sociais para os trabalhadores. Em 1937, após a demissão de Vicente Rao, passou a acumular também as funções da pasta da Justiça. Aliado fiel de Vargas, Agamenon Magalhães entrou em choque com o interventor Lima Cavalcanti, que tendia a apoiar a candidatura oposicionista de Armando de Sales Oliveira para a sucessão presidencial de 1938. Por este motivo, em novembro de 1937, após a decretação do Estado Novo, Agamenon Magalhães foi nomeado interventor federal em Pernambuco, substituindo seu antigo aliado e opositor. A interventoria de Agamenon Magalhães coincidiu com os anos de militar norte-americana no Recife, em virtude das alianças em torno da 2ª guerra mundial. Este período foi marcado por mudanças políticas, mas sobretudo no plano cultural.

Enfim, a obra de Clarice Lispector concebeu mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas, do tcheco ao japonês, sendo mais de 179 traduções integrais de livros e 25 de contos publicados na imprensa nanica especializada por “periódicos”. Seus livros mais traduzidos são principalmente os romances: “A Hora da Estrela”, com 22 traduções; “A Paixão Segundo G. H.”, também com 22; “Perto do Coração Selvagem”, com 18; “Laços de Família”, com 16; e “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, com 15 traduções que foram iniciadas logo depois do início de sua carreira literária e receberam uma boa acolhida da crítica especializada, sendo os idiomas com mais tradução o espanhol, o inglês e o francês. Em 1954, seu primeiro livro a ser traduzido foi editado na França: “Perto do Coração Selvagem”, em tradução de Denise-Teresa Moutonnier pela editora Plon. É o romance de estreia de Clarice Lispector. Publicado originalmente em dezembro de 1943, o livro é marcado pelo estilo introspectivo da escritora. Recebeu muitas críticas positivas na época, tendo sido premiado como melhor romance de estreia pela Fundação Graça Aranha, em outubro de 1944. A tradução desagradou Clarice Lispector, “que enviou reclamações sobre erros ao editor”, Pierre de Lescure, “mas acabou por preferir fingir que a tradução nunca existiu”.
            Em 1955, ocorreu a primeira tradução para o espanhol: “Água Viva”, por Haydeé Yofre para a Sudamericana. Clarice Lispector teve seu primeiro texto publicado na Espanha em 1965, mas apenas nos anos 1990 sua obra é reconhecida pelo público espanhol e passa a fazer parte do repertório de leituras do país europeu, contando com um grupo fiel de leitores. Em 1961, a primeira versão para o inglês: “A Maçã no Escuro”, por Gregory Rabassa para a editora da Universidade do Texas. Em 1963, teve sua primeira tradução para o alemão representando a primeira tradução de um de seus livros de contos: “Laços de Família”, por Marianne Eyre, Margareta Ahlberg e Arne Lundgren, para a Norstedts. Em 1964, ocorreu a versão também para o alemão: “A Maçã no Escuro”, por Curt Meyer-Clason para a Classen. Em 1966, duas de suas obras são traduzidas para o alemão: “Onde Estivestes de Noite?” por Sarita Brandt para a Suhrkamp; e o conto “A Imitação da Rosa” por Curt Meyer-Clason para a Claassen. Em 1969, “A Paixão Segundo G. H.”, para o espanhol, por Juan García Gayo para a Monte Avila. Em 1973, a primeira para o tcheco: “Perto do Coração Selvagem”, por Přeložila Pavla Lidmilová para a Odeon; e também o primeiro livro de contos traduzido para o espanhol, “Laços de Família”, por Haydeé Yofre Barroso para a editora Sudamericana, desde 1998 do grupo editorial Penguin Random House, fundado em 1939 por argentinos e espanhóis radicados na cidade de Buenos Aires.                  
Bibliografia geral consultada.
 
KOJÈVE, Alexandre, Introduction à la Lecture de Hegel. Paris: Éditions Gallimard, 1973; GODELIER, Maurice, O Enigma do Dom. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2001; ÁNGELES, Guadalupe, “Chi ès Clarice Lispector”. In: SagaranaRivista Litteraria. Rio de Janeiro, n° 8, 2002; LISPECTOR, Clarice, A Vida Íntima de Laura. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1974; dem, Revelación de un mundo. Buenos Aires: Ediciones Hidalgo, 2004; Idem, Para no olvidar: crónicas y otros textos. Madrid: Ediciones Siruela, 2007; Idem, Todas as Crônicas. Prefácio de Marina Colasanti. Organização de Pedro Karp Vasquez. Pesquisa textual de Larissa Vaz. 1ª  edição. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2018; SÁ, Olga de, A Escritura de Clarice Lispector. 3ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes: 2000; MANZO, Lícia, Era uma vez Eu: A não ficção na obra de Clarice Lispector. Juiz de Fora: Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2001; MENDONÇA, Maria Helena Magalhães, A Crônica e as Cronistas Brasileiras: Questão de Gênero(s). Tese de Doutorado em Literatura. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002; NUNES, Aparecida Maria, Clarice Lispector Jornalista. São Paulo: Editora Senac, 2006; FONSECA, Ailton Siqueira de Sousa, A Odisséia de Si: Reconstrução do Homem em Clarice Lispector. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; MOSER, Benjamin, Clarice. São Paulo: Editor Cosac Naify, 2009; MELO, Marina Félix, A Percepção da Teoria da Dádiva em um Modelo Contemporâneo de Fazer Sociológico. In: Revista Espaço Acadêmico 111, agosto de 2010; PAJOLLA, Alessandra Dalva de Souza, Identidades Femininas Múltiplas em Crônicas de Clarice Lispector. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Estadual de Maringá, 2010; FERREIRA, Rony Márcio Cardoso, Clarice Lispector: Uma Tradutora em Fios de Seda (Teoria, Crítica e Tradução Literária). Tese Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Literatura. Instituto de Letras. Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Brasília: Universidade de Brasília, 2016; LEAL, Wesclei Ribeiro da, A Condição Humana na Poética de Clarice Lispector. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2017;  entre outros.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Nadezhda Tolokonnikova: Ativismo & Nova Expressão da Mulher Russa.

Ubiracy de Souza Braga*

                                                                 Vladimir Putin, tsar of the new Russia”. Nadezhda Tolokonnikova

Nadezhda Tolokonnikova condenada em 2012.

        “Pussy Riot” é um grupo de punk rock feminista russo que encena, em Moscou, performances extemporâneas de provocação política sobre temas como: a) o “estatuto das mulheres” na Rússia e, mais recentemente, b) contra a campanha do primeiro-ministro Vladimir Putin para a presidência da Rússia. Em março de 2012, durante um concerto improvisado e “não autorizado” na Catedral de Cristo Salvador de Moscou, três mulheres da banda foram presas e acusadas ​​de vandalismo motivado por “intolerância religiosa”. Seu julgamento começou no final de julho. Os membros da banda ganharam simpatia, tanto dentro da Rússia como internacionalmente, inclusive no Brasil, devido a acusações de tratamento cruel enquanto sob custódia, e um risco de uma possível sentença de prisão de sete anos, mas também foram criticados na Rússia, pasmem, “por ofender os sentimentos das pessoas religiosas”. Advogados do grupo declararam que as circunstâncias do caso reavivaram “a tradição da era soviética do julgamento farsa”. Em 17 de agosto de 2012 as três integrantes foram condenadas por vandalismo motivado por ódio religioso e receberam penas de dois anos de prisão.
            Vale lembrar que “fanatismo religioso” é uma forma de fanatismo baseada em rejeição de qualquer outra ideia que não a da interpretação religiosa particular de quem o possui, não raro considerando-se quem diverge como inimigo. Não é típica de nenhuma religião em particular, distinguindo-se de outras formas de fanatismo, como por exemplo, o político e o ideológico, apenas por envolver uma religião ao invés de uma ideologia ou opção política. O apego e cultivo, mesmo quando desmesurado, por determinados gostos e práticas sociais como costuma ocorrer com colecionadores de selos, revistas, etc., não configura, necessariamente, fanatismo. Para tanto, faz-se preciso que a conduta da pessoa seja marcada pelo radicalismo e por absoluta intolerância para com todos os que não compartilhem suas predileções. De um modo geral, o fanático tem uma weltanschauung maniqueísta, cultivando a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar, levando-o a adotar condutas irracionais e agressivas que podem chegar a extremos perigosos como recurso à violência de seu ponto de vista. Tradicionalmente, o fanatismo aparece associado a temas de natureza religiosa e/ou política, porém, mais recentemente, ele se tem mostrado também em outros cenários, como os das torcidas de futebol e ídolos da música.



             Rússia, em idioma russo: “Россия”, transl. “Rossíya”, oficialmente Federação Russa, ou Federação da Rússia, é um país localizado no norte da Eurásia. A história do país inicia-se com os eslavos do leste, que surgiram como um grupo reconhecido na Europa entre os séculos III e VIII. Fundada e dirigida por uma classe nobre de guerreiros vikings e pelos seus descendentes, o primeiro Estado eslavo, a Rússia Kievana, surgiu no século IX e adotou o Cristianismo ortodoxo do Império Bizantino em 988, dando início à síntese das culturas bizantina e eslava que definiriam a cultura russa. A Rússia Kievana finalmente se desintegrou e suas terras foram divididas em vários pequenos Estados feudais. O Estado sucessor de Kiev foi a Moscóvia, que serviu como a principal força no processo de reunificação da Rússia e na luta de Independência contra a Horda de Ouro. Berdi Beg ou Berdibek foi o khan da Horda de Ouro de 1357 a 1359, sucedendo seu pai Jani Beg, após assassiná-lo. Seu reinado ficou marcado pelo que ficou conhecido como Período de anarquia, o qual teria fim apenas em 1380 com a ascensão de Tokhtamysh. Este período ficou marcado por assassinatos políticos e guerras internas dentro da Horda de Ouro. O próprio Berdi Beg foi assassinado em 1359.
A Moscóvia gradualmente reunificou os principados russos e passou a dominar o legado cultural e político da Rússia Kievana. Por volta do século XVIII, o país teve grande expansão através da conquista, anexação e exploração de territórios, tornando-se o Império Russo, que foi o terceiro maior império da história, se estendendo da Polônia, na Europa, até o Alasca, na América do Norte. Estabeleceu poder e influência em todo o mundo, desde os tempos do Império Russo, entre 1721 e 1917, até ser a maior e principal república constituinte da União Soviética, entre 1922 e 1991, o primeiro e maior Estado socialista constitucional e reconhecido como uma superpotência, que desempenhou um papel decisivo após a vitória aliada na Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945. A Federação Russa foi criada na sequência da dissolução da União Soviética, em 1991, mas é reconhecida como um Estado sucessor da então URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Em 21 de fevereiro de 2012 como partem de um protesto contra as eleições presidenciais russas de 2012, que culminaram com a reeleição de Vladimir Putin, três mulheres do grupo adentraram a Catedral de Cristo Salvador de Moscou, “curvaram-se diante do altar e começaram a cantar”. Menos de um minuto depois, elas foram conduzidas por guardas para fora da Catedral. A filmagem do protesto foi usada posteriormente para criar um videoclipe para a música. Na música cantada na Catedral, o grupo pede à Virgem Maria, em russo: “Богородица”, no alfabeto cirílico ou Bogoroditsa, no município de Petrich, de Blagoevgrad, na versão latinizada, politicamente “para retirar Putin do poder”. A música também descreve o patriarca russo, Cirilo I de Moscou, como alguém que acredita em Putin “ao invés de acreditar em Deus”. Esta referência da música remete ao fato de Cirilo I ter demonstrado abertamente apoio a Putin durante as eleições gerais.


A política interna de Putin, principalmente durante seu primeiro mandato, visou a criação de um “poder vertical”. Em 13 de Maio de 2000, ele sancionou um decreto dividindo as 89 subdivisões da Rússia entre 7 distritos comandado por representantes nomeados por ele próprio, de forma a facilitar a administração federal. Putin também desenvolveu uma política de crescimento das subdivisões: o número caiu de 89 em 2000 para os atuais 83, após a fusão dos “okrugs” com demais subdivisões próximas. Em 2000, a Rússia foi dividida em sete distritos, pondo em prática o “poder vertical” proposto por Putin. Em 2010, o distrito Ciscáucaso foi criado, estabelecendo um novo distrito. Em Julho de 2000, de acordo com uma lei proposta por Putin e aprovada pelo Soviete Federal, o presidente ganhou o direito de despedir chefes das subdivisões federais. Em 2004, as eleições para governadores por voto direto foi extinta. Esta jogada política foi vista como necessária por Putin, para dar um fim às tendências separatistas e livrar-se daqueles governadores que estavam conectados com o chamado “crime organizado”.
A medida, de fato, parece ter sido temporária, já que em 2012, segundo proposta do presidente Dmitri Medvedev, sucessor de Putin, as eleições para governadores foram reintroduzidas, e junto delas, as reformas de Medvedev também simplificaram o registro de partidos políticos e reduziram o número de assinaturas necessárias por candidatos partidos não-parlamentares para lançar candidatos independentes à presidência, afrouxando a rigidez e restrições impostas pela antiga legislação de Putin. A rígida legislação eleitoral foi outro motivo para a crítica da mídia independente russa e de observadores estrangeiros, que a chamaram de “anti-democrática”. Desde o título da biografia política O Novo Czar: Ascensão e Reinado de Vladimir Putin (Editora Amarilys, tradução de Márcia Men), o jornalista norte-americano Steven Lee Myers procura dissecar as afinidades entre o longevo presidente da Federação Russa e a tradição antidemocrática e autoritária do país. Ao fim de seu quarto mandato presidencial, em 2024, Putin terá permanecido durante 20 anos no poder, superando o Leonid Brejnev (1906-1982), que governou a União Soviética por 18 anos de 1964 até sua morte.
            Historicamente em 3 de março de 2012, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova, duas supostas integrantes do Pussy Riot, foram presas pelas autoridades russas sob a acusação de vandalismo. A princípio, ambas negaram integrar o grupo, e iniciaram uma greve de fome por terem sido detidas e separadas de seus filhos até o início do julgamento, em abril. Em 16 de março outra mulher, Ekaterina Samoutsevitch, que havia sido antes interrogada como testemunha do caso, foi igualmente presa e indiciada. Em 4 de junho de 2012 foram apresentadas acusações formais contra o grupo que compunham um processo de 2800 páginas. Em 4 de julho as réus foram notificadas que teriam o prazo de até 9 de julho de 2012 para preparar suas defesas. Como resposta, as três reiniciaram a greve de fome, alegando que dois dias útil era um prazo insuficiente para a elaboração de suas defesas. Em 21 de julho o tribunal estendeu a prisão preventiva em mais seis meses. Contudo, para a determinação de uma medida cautelar, como a prisão preventiva, no caso das ativistas russas, é realizado apenas um juízo de periculosidade sobre o acusado, moldando o seu estado de inocência em benefício do direito à segurança que faz parte do domínio complexo de toda sociedade.

 
Curiosamente a análise do nome Nadezhda, do ponto de vista da numerologia é expresso por: “naturaleza emotiva y activa. Se expresa por medio de la perseverancia, las asociaciones, el planteamiento y el asentamiento. Ama las innovaciones y las realizaciones. Le gusta ser asistido y apoyado. Es empeñoso. Se expresa por medio de su comprensión para los demás, despierta simpatías y antipatías. le gusta resolver problemas ajenos y dar amistad. Ama lo que perdura”. Em 17 de agosto de 2012 as três integrantes foram condenadas por vandalismo motivado por ódio religioso e receberam penas de dois anos de prisão. A Igreja Católica Ortodoxa Russa pediu às autoridades que demonstrassem misericórdia às condenadas “na esperança de que estas evitassem a repetição de ações de blasfêmia no futuro”; ao mesmo tempo, a Igreja declarou não questionar a legitimidade da decisão do tribunal. No dia 26 de agosto de 2012, o grupo punk russo havia anunciado que duas das suas integrantes procuradas pela polícia abandonaram a Rússia para evitar a perseguição “devido ao protesto contra Vladimir Putin”, conhecido como: “tsar of the new russia”. Por dezesseis anos, Putin foi oficial do KGB, o serviço secreto da União Soviética, chegando à patente de tenente-coronel.
Ele se aposentaria das atividades militares para ingressar na política, em sua cidade, São Petersburgo, em 1991. Mudou-se para Moscou em 1996, para que fizesse parte da administração do então presidente Boris Iéltsin, em qual cresceu rapidamente, tornando-se presidente interino em 31 de Dezembro de 1999, quando o presidente Iéltsin renunciou ao cargo inesperadamente. Putin venceria a eleição do ano seguinte, tornando-se de fato Presidente da Rússia, sendo reeleito em 2004. Putin foi impedido de concorrer para um terceiro mandato em 2008, já que, na época, a Constituição russa só permitia dois mandatos consecutivos. Assim sendo, seu aliado Dmitri Medvedev seria seu sucessor, o que levaria à escolha de Putin como primeiro-ministro do país, cargo que ele manteve até o final da presidência de Medvedev. Em Setembro de 2011, Putin anunciou que concorreria a um terceiro mandato nas eleições do ano seguinte, gerando diversos protestos nas principais cidades do país. Como esperado, Putin foi reeleito por mais seis anos, em seu terceiro mandato previsto até2018.
Do ponto de vista político o que está em jogo, diz respeito à condenação a dois anos de prisão “por acusações de vandalismo motivados por ódio religioso”. O julgamento das mulheres trouxe críticas internacionais e provocou protestos em Moscou, onde alguns de seus partidários - incluindo o líder da oposição Sergei Udaltsov e ex-campeão de xadrez Garry Kasparov - foram presos. Manifestações foram realizadas em seu apoio em Washington D C, Tel Aviv, Paris, Londres, Sydney e Dublin. A convicção e condenação têm atraído indignação de seus torcedores no “Twitter”, bem como comentários interessados da União Europeia, os Estados Unidos da América (EUA) e por parte da Anistia Internacional. – “Os EUA estão preocupados com tanto o veredicto e as sentenças desproporcionais, proferida por um tribunal de Moscou no processo contra seus membros e o impacto negativo sobre a liberdade de expressão na Rússia”. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA Victoria Nuland disse: - “Instamos as autoridades russas a analisar este caso e garantir que o direito à liberdade de expressão é procedente”.  O “Alto Representante” da UE para os Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, também descreveu a sentença como “desproporcional” e criticou o assunto por sentenciar “três jovens mulheres para expressar pacificamente suas opiniões”.
 
             Juntamente com os relatos de maus tratos dos membros da banda durante a sua prisão preventiva e as irregularidades comunicadas do julgamento, ele coloca uma questão séria de interrogação sobre o respeito da Rússia às obrigações internacionais de um processo equitativo, transparente e independente. Ele também contraria as obrigações internacionais da Rússia em matéria de respeito pela liberdade de expressão. Neste caso, acrescenta ao recente recrudescimento da intimidação politicamente motivada e repressão de ativistas da oposição na Federação Russa, uma tendência que é uma preocupação crescente para a União Europeia. O respeito pelos direitos humanos e o Estado de direito é uma parte indispensável da relação UE-Rússia. Desde março de 2014, a UE tem imposto progressivamente medidas restritivas contra a Rússia em resposta à anexação ilegal da Crimeia e à desestabilização da Ucrânia. 
            A UE expandiu consideravelmente as suas sanções após o abate do voo MH17, em 17 de junho de 2015, no espaço aéreo de um território do leste da Ucrânia controlado por rebeldes apoiados pela Rússia. As sanções são regularmente atualizadas e prorrogadas. As medidas restritivas da UE assumem várias formas que consistem na exclusão da Rússia do G8, com a consequente interrupção do processo de adesão da Rússia à OCDE e à Agência Internacional da Energia, bem como na suspensão das cimeiras bilaterais UE-Rússia.  O Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros britânicos, Alistair Burt, disse que seu governo está “comprometido com a relação com a Rússia em que podemos discutir as diferenças franca e construtiva”, acrescentando: - “Temos apelado repetidamente às autoridades russas para proteger os direitos humanos, incluindo o direito à liberdade de expressão, e aplicar a regra da lei de uma forma não discriminatória e proporcional. Burt é um político que serviu como membro do Parlamento para North East Bedfordshire de 2001 a 2019. Foi deputado pelo seu país natal, Bury North, na Grande Manchester, de 1983 a 1997. O veredicto que põe em questão o compromisso da Rússia para proteger esses direitos e liberdades fundamentais”. O ex-campeão mundial de xadrez  Garry Kasparov foi um dos que manteve apoio da banda presos fora do tribunal de Moscou.  Enquanto isso, os companheiros de banda de Maria Alyokhina, Yekaterina Samutsevich e Nadezhda Tolokonnikova lançaram um novo single gravado na sua ausência, após o veredicto anunciado.
 Sociologicamente falando “neostalinismo” é um termo político referindo-se às tentativas de reabilitar o papel de Joseph Stalin na história e restabelecer a orientação política de Stalin, ao menos parcialmente. O termo também é utilizado para designar os regimes políticos modernos, em alguns estados, a vida política e social que tem muitas semelhanças com o regime de Stálin. O termo “neostalinismo” é amplamente utilizado por muitos especialistas, políticos e pesquisadores. A única prática realmente considerada neostalinista na história foi o período quando a União Soviética era governada por Leonid Brejnev, Iuri Andropov e Konstantin Chernenko, de 1964, após a deposição do liberal Khrushchov, a 1985, quando o reformista Gorbachov chegou à chefia do Kremlin. Atualmente, na Rússia, o Partido Comunista da Federação Russa, “celebra o governo stalinista”. Um programa de televisão russo, que pretendia escolher a personalidade que mais fez e marcou história na Rússia, foi bastante polêmico, em terceiro lugar encontrava-se o nome de Joseph Stálin, e ironicamente, ele não era russo, mas sim geórgio, muitos acusam que Stálin foi o primeiro na lista, mas os rumores não foram confirmados. Vladimir Putin iniciou, em torno de 2004, um movimento para encorajar o povo russo a não sentir vergonha, mas orgulho, do herói de guerra Joseph Stálin.

 
Vale lembrar que o projeto paralelo à “Bienal de Arte Contemporânea de Moscou”, a exposição “InstaArt: Arte Através dos Filtros do Instagram” apresentou até o dia 19 de outubro de 2013, 1.500 fotos com o olhar de blogueiros russos sobre o mundo. Hoje o “Instagram” é um aplicativo acessível a todos, incluindo pessoas cuja atividade diária se encontra longe do domínio da fotografia. Além disso, se inscrever neste concurso foi bem fácil. Mais de 6.000 fotos foram postadas segundo a hashtag oficial #voxxter. Dessas, o júri da exposição, formado por fotógrafos profissionais, críticos de arte e historiadores de arte, selecionou as 1.500 melhores. O visitante da exposição irá se deparar com incomuns monumentos da arquitetura, instantes do cotidiano capturados no momento certo, paisagens bizarras e locais de interesse de várias cidades do mundo. A decisão, encarada como censura e contra a liberdade de expressão, faz parte de diversas medidas restritivas do governo. Em 2014, a Rússia promulgou uma lei que exige que blogueiros com mais de 3 mil leitores sejam registrados no Roskomnadzor, o que, segundo o jornal, visa impedir blogs anônimos. A nova política foi anunciada pelo Roskomnadzor, sigla em russo para o “Serviço Federal para Supervisão de Comunicações, Tecnologia da Informação e Mídia de Massa”. O órgão é considerado claramente um censor por muitos analistas porque tem o poder legal de proibir determinados conteúdos.
 Mutatis mutandis, sabemos que um livro de história para alunos das escolas do país “descreve Stalin como um administrador eficiente que liderou a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial”. Em 2005, o político comunista Guennadi Ziuganov, disse que a Rússia “deve mais uma vez prestar homenagens a Stálin, por seu papel na construção do socialismo e por salvar a civilização humana contra a praga nazista”. Em alguns casos, as práticas stalinistas em outros países é definida como “neostalinismo”, mas esta definição não era válida durante a época de Stálin, uma vez que o stalinismo não havia sido extinto e substituído pelo neoestalinismo, mas estas doutrinas, que se assemelham stalinistas, não a são, uma vez que têm seus nomes e teorias próprias, como o maoísmo na China, o Juche na Coreia do Norte, o Castrismo em Cuba e outros nomes que podemos afirmar que são stalinistas reformados, mas que segundo os próprios, contraditoriamente não são. Além disso, o líder da revolução cubana Fidel Castro no livro “Biografia a duas vozes” - de Ignacio Ramonet - e faz severas críticas aos erros da URSS, como também havia feito no programa “Roda Viva”.
Nenhum país recentemente passou por uma transformação tão profunda e radical como a Rússia de hoje. Abandonou um regime político-econômico que perdurou por mais de 70 anos, o do socialismo de Estado, e lançou-se em reformas que visavam alterar sua própria essência, como a “perestroika” e a “glasnost”. Foi uma imensa operação de reversão econômica de um modelo estatizante, baseado na propriedade coletiva dos meios de produção e no planejamento econômico centralizado, para um sistema oposto, o do capitalismo laissez-faire. Adotaram como modelo, o estado liberal ocidental, onde o intervencionismo reduz-se a um mínimo e as propriedades estatais foram entregues ao controle e administração privados. As reformas na Rússia ganharam amplo apoio, político e financeiro, dos principais países capitalistas ocidentais em função delas visarem a absorção dela ao sistema capitalista mundial.  Foram estendidos à Rússia e ao governo de Boris Yeltsin generosos empréstimos que permitiram que ele sobrevivesse politicamente às naturais turbulências do processo. Tudo indica que com a crise asiática e a generalização dos seus efeitos sociais e políticos, a Rússia marcha para a depressão econômica. Tendo uma das maiores reservas do mundo de petróleo, gás, minerais e demais produtos estratégicos com os quais paga suas dívidas e suas importações, ipso facto comparativamente, qualquer abalo que ela sofra faz com que as economias dos países ditos ricos, incluindo a plutocracia norte-americana também se afetem e sintam-se ameaçadas.
Bibliografia geral consultada.

BETTELHEIM, Charles, La Transition vers L`economie Socialiste. Paris: Éditions François Maspero, 1968; LENIN, Vladimir Ilyich, El Desarrollo del Capitalismo em Rusia. El Processo de la Formación de un Mercado Interior para la Gran Industria. Barcelona: Editorial Ariel, 1974; AZCÁRATE, Manuel, Crisis del Eurocomunismo. Barcelona: Argos Vergara, 1982; HABERMAS, Jürgen, “What does socialismo mean today? The rectifying revolutions and the need for new thinking on the left”. In: New Left Review, number 183, September/October, 1990; ARBEX JR., José, A Segunda Morte de Lenin - O Colapso do Império Vermelho. 1ª edição. São Paulo: Editora Folha de São Paulo, 1991; 
EICHLER, M. “Russia's Post-Communist Transformation: a gendered analysis of the chechen wars”. In: International Feminist Journal of Politics, 4, Dezmebro 2006; 486-511; ANDRES, Laiapea, “Putin`s Neo-Stalinism in Historical Perspective”. In: American Chronice, 26 de fevereiro de 2007; Artigo: “Na solitária e em greve de fome”. In: Revista Época, 30 de setembro de 2013; TOLOKONNIKOVA, Nadezhda, “Pussy Riot: Court Statements”. In: Let’s Start a Pussy Riot. Jade French & Emely Neu (org.). Londres: Rough Trade/ New York: Feminist Press, 2013; LEITE, Flávia Lucchesi de Carvalho, Riot Grrril: Capturas e Metamorfoses de uma Máquina de Guerra. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015; entre outros.  
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Sociólogo (UFF)Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).