
O termo inglês “fifties”
(década de 1950) às vezes aparece em francês, dada a influência econômica e
cultural dos Estados Unidos da América, vencedores da 2ª Guerra Mundial (1939-1945)
na década anterior. A década de 1950 foi particularmente marcada pelo aumento
das tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, cada um no auge do seu
poder, e pela oposição entre a ideologia capitalista e o comunismo. O início da
Guerra Fria levou, em particular, ao início da corrida espacial entre as duas
potências, que terminaria no final da década seguinte. A Guerra Fria tem como
representação social um período de intensa tensão geopolítica durante a segunda
metade do século XX entre, por um lado, os Estados Unidos e seus aliados no
bloco ocidental e, por outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS) e seus estados satélites no bloco oriental. A Guerra Fria gradualmente
se intensificou a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1947, e
durou até a queda dos regimes comunistas na Europa em 1989, seguida rapidamente
pela dissolução da URSS em dezembro de 1991. O escritor britânico George Orwell
foi o primeiro, no contexto do pós-guerra, a usar o termo “Guerra Fria”. A
expressão está se espalhando em1947 quando Bernard Baruch, conselheiro do
presidente Truman, o usou em um discurso, e depois Walter Lippmann, um
jornalista muito lido, o usou em uma série de artigos publicados no New York
Herald Tribune.

As raízes da Guerra
Fria remontam à Revolução de Outubro de 1917, que deu origem à União Soviética
em 1922. A difícil relação entre os Estados Unidos e a União Soviética decorria
da própria natureza de seus regimes políticos e das ideologias que os sustentavam.
Durante o período entre guerras, contudo, frustradas as esperanças de uma onda
revolucionária na Europa, os soviéticos priorizaram a consolidação de seu
regime; porém, ao final da Segunda Guerra Mundial, a URSS estava entre os
vencedores da Alemanha nazista e ocupou a maior parte da Europa Oriental, que
subjugou ao seu controle por meio da imposição de uma série de regimes
satélites. Além da Europa, agora dividida em duas pela chamada “Cortina de
Ferro”, o comunismo também se difundiu pela Ásia com a vitória comunista na
China. Nos Estados Unidos, Harry S. Truman, que sucedeu Franklin Delano
Roosevelt em abril de 1945, acreditava que o futuro e a segurança dos Estados
Unidos não poderiam ser assegurados por um retorno ao isolacionismo, mas
sim por uma política externa de disseminação de seu modelo democrático e
liberal, defesa de seus interesses econômicos e contenção do comunismo.
A Guerra Fria tipicamente
multidimensional, impulsionada mais por diferenças ideológicas e
políticas entre as democracias ocidentais e os regimes comunistas do que por
ambições territoriais. Teve repercussões significativas em todas as áreas:
econômica, cultural, científica e até mesmo esportiva e midiática. Caracterizou-se
também pela corrida armamentista nuclear entre as duas superpotências, os
Estados Unidos e a União Soviética, que lhe dedicaram recursos colossais. Foi
descrita como uma guerra “fria” porque os líderes americanos e soviéticos que a
travaram conseguiram evitar o confronto direto entre os seus países, pelo menos
em parte por receio de desencadear um apocalipse nuclear, e porque a Europa se
manteve livre de guerras apesar de várias crises graves. Mas noutros
continentes, particularmente na Ásia, os conflitos abertos causaram inúmeras
baixas civis e militares: a Guerra da Coreia, a Guerra da Indochina, a Guerra
do Vietname, a Guerra do Afeganistão e o genocídio cambojano resultaram,
em conjunto, em cerca de dez milhões de mortes. Embora tenha sido um conflito
entre dois internacionalismos, um liberal e outro comunista, vários outros
atores sociais locais com ideologias distintas se envolveram. A Arábia Saudita
e os movimentos islâmicos sunitas, o Portugal salazarista e a Espanha
franquista se tornaram aliados estratégicos dos Estados Unidos, enquanto
potências nacionalistas árabes como o Egito nasserista, a República Árabe do
Iêmen e os regimes baathistas da Síria e do Iraque tiveram que navegar entre os
EUA e a URSS.
Além disso, o regime nacionalista-trabalhista
argentino de Juan Perón (1895-1974), a República Islâmica do Irã, os movimentos
islâmicos xiitas e o regime de Gaddafi na Líbia eram hostis a ambos os blocos. O
conflito israelense-árabe dividiu os dois blocos. O Estado de Israel,
inicialmente mais próximo da União Soviética, enfrentou hostilidade da Espanha
franquista, Portugal, Paquistão, Arábia Saudita e Iraque, enquanto outros
países europeus do bloco ocidental apoiaram Israel. Por outro lado, os países
do bloco oriental apoiaram Israel em sua criação, mas eventualmente se
alinharam aos estados árabes e apoiaram a criação de um Estado palestino. Nesse
contexto social de relações internacionais bipolares e descolonização,
países do chamado Terceiro Mundo, como a Índia sob Jawaharlal Nehru (1889-1964),
o Egito sob Gamal Abdel Nasser (1918-1970) e a Iugoslávia sob Josip Broz Tito
(1892-1980), formaram o Movimento Não Alinhado, um fórum composto por
120 países que não estão formalmente ao lado ou contra qualquer grande bloco de
poder internacional. Depois das Nações Unidas, é o maior agrupamento de estados
do mundo, proclamando sua neutralidade e explorando a rivalidade entre os
blocos para obter concessões. Outro evento importante da segunda metade do século
XX, a descolonização proporcionou à União Soviética e à República
Popular da China inúmeras oportunidades de influência em detrimento das antigas
potências coloniais.
Alguns idosos refugiaram-se no saguão de um
prédio de apartamentos: entre eles estava Umberto Domenico Ferrari, funcionário
público há trinta anos no Ministério das Obras Públicas, com uma pensão de
dezoito mil liras por mês. Ao meio-dia, Umberto foi ao refeitório comunitário,
onde vendeu seu relógio por três mil liras para pagar o aluguel. Ao voltar para
casa, encontrou seu quarto temporariamente ocupado por um casal para quem a
dona do imóvel o havia sublocado durante sua ausência. Ele protestou, mas a
mulher respondeu ameaçando despejá-lo caso não pagasse o aluguel atrasado. Na
cozinha, Umberto conversa com a jovem e compreensiva empregada Maria, que
revela estar grávida, mas desconhecer a identidade do pai, pois se relaciona
com dois homens, e seus dois amantes, um soldado de Florença e outro de Nápoles,
querem evitar a responsabilidade. Umberto fica sozinho com seu único amigo, o
cachorro Flaik. Enquanto isso, a inflexível e avarenta senhoria se recusa a lhe
devolver as três mil liras que ele havia juntado anteriormente, exigindo, em
vez disso, o valor total do aluguel, assim como faz quando Umberto, tendo
arrecadado mais duas mil liras com a venda de livros, chega para lhe oferecer
cinco mil. Febril, o homem se deita na cama.
No dia seguinte, sofrendo de amigdalite, ele é internado no hospital, onde Maria e Flaik o visitam e onde ele tenta permanecer o máximo possível para economizar no aluguel e quitar sua dívida. Ao sair do hospital, ele dá o endereço à sua companheira de quarto, mas, ao voltar para casa, descobre que estão em obras para o casamento da sua amante; ela quer transformar o quarto dele numa sala de estar para receber visitas. Enquanto procura o cão, Umberto encontra Maria em lágrimas, abandonada pelos dois soldados que se recusam a assumir a responsabilidade por uma paternidade incerta. A jovem conta-lhe que o animal fugiu de casa depois de o dono ter deixado a porta aberta de propósito. Preocupado com Flaik, Umberto vai ao canil onde o encontra mesmo a tempo de impedir que seja sacrificado. Enquanto passeava pela cidade, ele encontra um velho amigo, agora um “aposentado rico", a quem confidencia seu dilema, mas o homem a dispensa, alegando pressa para pegar o bonde. Vendo como um mendigo recebe esmolas facilmente, Umberto tenta pedir algumas ele mesmo, mas sua dignidade o impede. Ele tenta enganar Flaik, fazendo-o segurar seu chapéu na boca enquanto se esconde, mas quando um comandante que ele conhece passa por perto, Umberto fica envergonhado e finge que Flaik estava brincando. De volta ao seu quarto, devastado em obras na Corso Umberto, se resigna ao destino e começa a contemplar o suicídio. Na manhã seguinte, arruma a mala, se despede de Maria e pega o bonde.
Quer deixar Flaik em um canil, mas percebe que os funcionários são pessoas inescrupulosas que não gostam de animais, e muda de ideia. Vai ao parque e tenta confiar Flaik a uma jovem que conhece, mas a governanta dela proíbe categoricamente. Contudo, decidido a se matar, atravessa uma passagem de nível com Flaik nos braços, aproximando-se dos trilhos enquanto o trem se aproxima. O cachorro, pressentindo o perigo, aterrorizado, se soltou das mãos de Umberto e correu em direção ao parque; o trem passou e Umberto perseguiu o cachorro, que foi se esconder atrás de uma árvore, já não confiando mais infelizmente em seu dono; mas o velho o encorajou a brincar, jogando uma pinha para longe e convidando-o com um gesto a ir buscá-la: os dois se reconciliaram assim e, enquanto continuavam a brincar, seguiram caminhando pela trilha. O filme: “Umberto D.” tem apenas duas “manifestações de vida”, no sentido simmeliana, com quem poderá contar: seu cachorro que acabaria por ser o responsável por um dos finais mais arrebatadores, do cinema da década de 1950, após “O Vagabundo de Chaplin”, na década de 1930 (cf. Braga, 2011), e a empregada doméstica que trabalhava na pensão onde residia. Uma jovem grávida que possui seus próprios problemas. Todos os outros personagens significam adversidade: desde a dona da pensão até os velhos amigos que não querem ou “lavam as mãos” para não compreender a situação social do aposentado e poder ajudar Umberto financeiramente.
Por conta das adversidades, Umberto nem sempre consegue ser um personagem moral e economicamente estável. Ele é capaz de transformar-se e tomar decisões bastante desumanas, o que torna seu personagem completo e real, em sua “dramatis personæ” acima de tudo, para lembramos de William Shakespeare de 1623, no cinema. Tecnicamente bem estruturado, o trabalho do diretor italiano encontra-se situado em um momento político de transformação do cinema tanto quanto da vida real no velho continente e em particular a Itália. E do ponto de vista teórico das cartas de Antônio Gramsci são hoje um pretexto ou um ponto de partida na análise marxista das classes para uma interpretação da história italiana durante o período de entre guerras (cf. Gramsci, 1947; 1954). Desde 1918 até a chegada do fascismo em 1922, o Estado liberal defendera-se do seu inimigo mais perigoso, o movimento obreiro. Assustada pela vaga de greves e ocupação de terras, as frações da classe dominante e/ou dirigentes irá de mãos dadas em aliança política.
Com o avanço do fascismo, que aproveitará esta crise estrutural para se candidatar progressivamente como a única força com a capacidade para travar o pulo imparável do movimento obreiro, somando os consensos das classes médias. Com efeito, o Estado italiano enfrentava desde a Unificação uma importante frustração nacional, derivada não apenas da questione romana, mas também e principalmente do problema do irredentismo e da provada incapacidade colonial. Acabada a 1ª grande guerra (1914-18), a Itália verificava que ter estado do lado dos países vencedores na Europa não ajudara em absoluto para solucionar estes problemas na dinâmica política que, antes como polos contrários se incrementaram. O fascismo representou, nesse sentido, uma resposta à crise da democracia liberal, numa perspectiva autoritária e de incorporação das massas, que serão mobilizadas por meio de um intenso nacionalismo herdeiro do nacionalismo da pré-guerra, nomeadamente do nacionalismo da corrente florentina de Corradini e Papini, para além da influência clara de D`Annunzio e Marinetti (cf. Candeloro, 1986; Arbizzani, 1988; Bondannella, 2008). Aliás, o fascismo enquanto weltanschaaung tem raízes na filosofia de um certo Friedrich Nietzsche (“super homem”), Henri Bergson (“élan vital”) e em Georges Sorel (“violência revolucionária”), guardadas as proporções.
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