sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vittorio De Sica – Achegas 40 Anos do Neorrealismo Italiano.

Ubiracy de Souza Braga

A tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas de ainda nos sentirmos jovens”. Oscar Wilde
    
                                        
                                            

        Vittorio De Sica nasceu em Sora, Itália, em 7 de julho de 1901 e faleceu em Paris, em 13 de novembro de 1974. Foi um dos mais importantes diretores e atores do cinema italiano. Sua carreira despontou nos anos 1920, quando se juntou a uma companhia teatral. Formou mais tarde sua própria companhia, produzindo peças e inclusive co-estrelando com sua primeira mulher, Giuditta Rissone. É o precursor do neorrealismo italiano e seu último filme: “A Viagem”, com Richard Burton e Sophia Loren, ocorre dias depois de sua morte.   Ao mesmo tempo, conquistou fama como galã em filmes italianos, tornando-se imensamente popular entre a plateia feminina. Como ator estreou em 1932, com o filme “Dois Corações Felizes”. Como diretor em 1939, dirigindo o filme “Rosas Escarlates”. Em 42 anos de carreira recebeu três Óscar de melhor filme estrangeiro: por “Sciusciá” em 1947, por “Ladri di Biciclette”, em 1948, e  “Il giardino dei Finzi-Continiem”, de 1970. Recebeu o Prêmio David di Donatello quatro vezes: em 1956, por “Pane, amore e...”; em 1963, por “I sequestrati di Altona”; em 1965, por “Matrimonio all`italiana”; e em 1973, por “Una breve vacanza”. O neorrealismo italiano (cf. Bondanella, 2008; Genari, 2009; Di Biagi, 2010; Altman, 2011) representou um movimento social e cultural surgido na Itália ao final da 2ª guerra mundial, cujas maiores expressões ocorreram ipsis litteris no cinema. 
Seus maiores expoentes foram Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, todos fortemente influenciados pelos filmes da escola do realismo poético francês. O marco inicial do movimento se dá com o lançamento do filme de Rossellini, “Roma, città aperta” (1944-1945), rodado logo após a libertação de Roma. A paternidade do termo, nesse sentido “é de dúbia possibilidade”.  Como ator Vittorio De Sica tem seus maiores sucessos de bilheteria com: “Madalena”, “Zero em Comportamento”, “Pão, Amor e Fantasia”, “Meu Filho Nero”, “Adeus às Armas”, “Um Italiano na América” e “Coisas da Cosa Nostra”.  E como diretor, além dos filmes com os quais ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro, De Sicca também se destacou pela direção de “Umberto D.”, em 1951; “Boccaccio 70”, de 1962; “Ontem, Hoje e Amanhã”, de 1963; “Matrimônio à Italiana”, de 1964; e “Os Girassóis da Rússia”, de 1970. Vittorio De Sica tinha prazer em trabalhar com atores como Marcello Mastroianni e Sophia Loren, seus amigos particulares, e os dirigiu em “Ontem, Hoje e Amanhã”, “Matrimônio à Italiana” e “Os Girassóis da Rússia”. 
A primeira identificação do neorrealismo italiano diz respeito àquela ideia de Umberto Barbaro quando chamou de “neorrealístico”, à “attività con la quale collaborò con i più famosi registi della sua epoca, in particolare con Luchino Visconti in Ossessione” (1943), do qual havia sido brilhante montador. Vale lembrar que “Ossessione” é um filme italiano de 1943, dirigido por Luchino Visconti, baseado no romance “The Postman Always Rings Twice”, de James M. Cain. Primeiro longa-metragem de Visconti, é considerado por muitos como o primeiro filme neorrealista italiano. A outra possibilidade é atribuída a Mario Serandrei, quando este usou o termo em uma resenha do filme: “Quai des Brumes”.  Seus temas protagonizados por trabalhadores da classe operária, como fizera Píer Paolo Pasolini, imersas em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, foram trazidos por influência do realismo poético francês. Seus primeiros quatro filmes seguiram a tradição do cinema italiano. Porém, a quinta película, “A Culpa dos Pais”, torna-se uma obra profundamente humana e madura “sobre o impacto social da loucura adulta na mente inocente de uma criança”. 

                    
        O filme marcou o começo da colaboração de De Sicca com o roteirista Cesare Zavattini, um relacionamento criativo que daria ao mundo cinematográfico dois dos mais significativos filmes do movimento neorrealista italiano, “Sciusciá” (1947) e “Ladri di Biciclette” (1948). Ao receber o Óscar especial da Academia, “Sciusciá” recebeu também o que foi acompanhado da menção: - “L`alta qualità di questo film, un riflesso di una vita vissuta in un paese devastato dalla guerra, dimostra al mondo che lo spirito creativo in grado di superare ogni avversità”. Talvez tenha sido a primeira menção, antropologicamente falando, sobre a tópica da diversidade na Sétima Arte, sobretudo num período difícil da produção cinematográfica. Foi o primeiro filme estrangeiro vencedor de Oscar e que engerndrou condições e possibilidades de abrir as portas para os diversos filmes italianos que viriam à ser vencedores no futuro próximo. É o retrato das chamadas “crianças de rua” como tem sido recorrente no Brasil e comparativamente na Itália pós-guerra. 
          Giuseppe e Pasquale são duas crianças, dois grandes amigos que vivem de engraxar sapatos de soldados norte-americanos. Eles dividem suas esperanças e seus sonhos inocentes de um futuro melhor, mas acabam presos numa terrível e inconcebível instituição para menores. É um filme muito importante para a história social do cinema, assim como: “Ladri di Biciclette” de 1948. A carga dramática desses filmes é a que torna a principal característica do diretor, sempre excelente. É também a história de muitos italianos que estavam desempregados com o fim da Guerra. Um desses italianos é Antonio Ricci, que consegue um emprego de colocador de cartazes. Entretanto, para realizar este trabalho, precisava de uma bicicleta. Depois de penhorar diversos objetos, ele adquiriu uma, mas ela é roubada. Juntamente com seu filho, ele parte por toda Roma como o objetivo de encontra-la. É fora de dúvida é uma obra-prima do cinema italiano e mereceu o prêmio honorário.

          Na Itália do início dos anos 1950, enquanto a economia do país renasce, os idosos “sofrem com as miseráveis pensões dadas pelo governo” (cf. Gennari, 2009). Em Roma, Umberto Domenico Ferrari, um funcionário público aposentado, é despejado por não conseguir pagar o aluguel de seu quarto. Na companhia de seu único amigo, o cachorrinho Flik, Umberto vaga pelas ruas, buscando apenas um objetivo: viver com dignidade diante da adversidade, o que levou Antônio Gramsci (cf. Coutinho, 1986; 1997; 1999), à seguinte reflexão: “A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heroica”. Em 8 de novembro de 1926, a polícia fascista deteve Gramsci e, apesar de sua imunidade parlamentar, levaram-no à prisão.  Recebeu uma sentença de cinco anos de confinamento e, no ano seguinte, de 20 anos de prisão em Turim, aonde veio a falecer tuberculoso no cárcere (cf. Milza, 1980; 1985).  
        Não queremos perder de vista que a  velhice é um processo individual (Freud), simultaneamente social (Marx), cultural (Morgan/Engels) e de evolução natural (Darwin), indiscutível e inevitável sobre a morte (Ariès), para qualquer ser humano, dando sentido (Weber) e forma à vida (Simmel). Nessa fase sempre ocorrem mudanças biológicas, fisiológicas, psicossociais, econômicas e políticas que compõe o cotidiano da vida de homens e mulheres. Em muitas culturas e civilizações, principalmente as orientais, o velho, o idoso é visto com respeito e veneração, representando uma fonte de experiência, de talento em seu ersatz por seu valioso saber acumulado ao longo dos anos, com prudência e a cautela no desenvolvimento de sua reflexão. O idoso tem como representação social estigmas tais como: “o velho”, “o ultrapassado” e psicologicamente falando: “a falência múltipla do potencial do ser humano”. Estudos recentes têm demonstrado cada vez com maior clareza do ponto de vista técnico-metodológico (pesquisa empírica) e científico (discursivo) que, o avanço da idade não determina a deterioração da inteligência, pois ela está associada à educação, ao padrão de vida, a vitalidade física, mental e emocional. Também é preciso perder o preconceito sobre a idade cronológica das pessoas. Vale fazer um alerta importante, talvez, só na América do Sul estima-se que no início deste novo milênio mais de 30 milhões de pessoas estarão com idade acima de 60 anos. No Brasil, só o Estado de São Paulo representará quase três milhões de pessoas ou cerca de 8% dessa população. Seu aumento tende a expandir ainda mais nas próximas décadas, o que justifica o interesse e a preocupação da sociedade em criar ações para tratar questões ligadas à velhice.         

O termo inglês “fifties” (década de 1950) às vezes aparece em francês, dada a influência econômica e cultural dos Estados Unidos da América, vencedores da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) na década anterior. A década de 1950 foi particularmente marcada pelo aumento das tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, cada um no auge do seu poder, e pela oposição entre a ideologia capitalista e o comunismo. O início da Guerra Fria levou, em particular, ao início da corrida espacial entre as duas potências, que terminaria no final da década seguinte. A Guerra Fria tem como representação social um período de intensa tensão geopolítica durante a segunda metade do século XX entre, por um lado, os Estados Unidos e seus aliados no bloco ocidental e, por outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e seus estados satélites no bloco oriental. A Guerra Fria gradualmente se intensificou a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1947, e durou até a queda dos regimes comunistas na Europa em 1989, seguida rapidamente pela dissolução da URSS em dezembro de 1991. O escritor britânico George Orwell foi o primeiro, no contexto do pós-guerra, a usar o termo “Guerra Fria”. A expressão está se espalhando em1947 quando Bernard Baruch, conselheiro do presidente Truman, o usou em um discurso, e depois Walter Lippmann, um jornalista muito lido, o usou em uma série de artigos publicados no New York Herald Tribune.

As raízes da Guerra Fria remontam à Revolução de Outubro de 1917, que deu origem à União Soviética em 1922. A difícil relação entre os Estados Unidos e a União Soviética decorria da própria natureza de seus regimes políticos e das ideologias que os sustentavam. Durante o período entre guerras, contudo, frustradas as esperanças de uma onda revolucionária na Europa, os soviéticos priorizaram a consolidação de seu regime; porém, ao final da Segunda Guerra Mundial, a URSS estava entre os vencedores da Alemanha nazista e ocupou a maior parte da Europa Oriental, que subjugou ao seu controle por meio da imposição de uma série de regimes satélites. Além da Europa, agora dividida em duas pela chamada “Cortina de Ferro”, o comunismo também se difundiu pela Ásia com a vitória comunista na China. Nos Estados Unidos, Harry S. Truman, que sucedeu Franklin Delano Roosevelt em abril de 1945, acreditava que o futuro e a segurança dos Estados Unidos não poderiam ser assegurados por um retorno ao isolacionismo, mas sim por uma política externa de disseminação de seu modelo democrático e liberal, defesa de seus interesses econômicos e contenção do comunismo.

A Guerra Fria tipicamente multidimensional, impulsionada mais por diferenças ideológicas e políticas entre as democracias ocidentais e os regimes comunistas do que por ambições territoriais. Teve repercussões significativas em todas as áreas: econômica, cultural, científica e até mesmo esportiva e midiática. Caracterizou-se também pela corrida armamentista nuclear entre as duas superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, que lhe dedicaram recursos colossais. Foi descrita como uma guerra “fria” porque os líderes americanos e soviéticos que a travaram conseguiram evitar o confronto direto entre os seus países, pelo menos em parte por receio de desencadear um apocalipse nuclear, e porque a Europa se manteve livre de guerras apesar de várias crises graves. Mas noutros continentes, particularmente na Ásia, os conflitos abertos causaram inúmeras baixas civis e militares: a Guerra da Coreia, a Guerra da Indochina, a Guerra do Vietname, a Guerra do Afeganistão e o genocídio cambojano resultaram, em conjunto, em cerca de dez milhões de mortes. Embora tenha sido um conflito entre dois internacionalismos, um liberal e outro comunista, vários outros atores sociais locais com ideologias distintas se envolveram. A Arábia Saudita e os movimentos islâmicos sunitas, o Portugal salazarista e a Espanha franquista se tornaram aliados estratégicos dos Estados Unidos, enquanto potências nacionalistas árabes como o Egito nasserista, a República Árabe do Iêmen e os regimes baathistas da Síria e do Iraque tiveram que navegar entre os EUA e a URSS.

 Além disso, o regime nacionalista-trabalhista argentino de Juan Perón (1895-1974), a República Islâmica do Irã, os movimentos islâmicos xiitas e o regime de Gaddafi na Líbia eram hostis a ambos os blocos. O conflito israelense-árabe dividiu os dois blocos. O Estado de Israel, inicialmente mais próximo da União Soviética, enfrentou hostilidade da Espanha franquista, Portugal, Paquistão, Arábia Saudita e Iraque, enquanto outros países europeus do bloco ocidental apoiaram Israel. Por outro lado, os países do bloco oriental apoiaram Israel em sua criação, mas eventualmente se alinharam aos estados árabes e apoiaram a criação de um Estado palestino. Nesse contexto social de relações internacionais bipolares e descolonização, países do chamado Terceiro Mundo, como a Índia sob Jawaharlal Nehru (1889-1964), o Egito sob Gamal Abdel Nasser (1918-1970) e a Iugoslávia sob Josip Broz Tito (1892-1980), formaram o Movimento Não Alinhado, um fórum composto por 120 países que não estão formalmente ao lado ou contra qualquer grande bloco de poder internacional. Depois das Nações Unidas, é o maior agrupamento de estados do mundo, proclamando sua neutralidade e explorando a rivalidade entre os blocos para obter concessões. Outro evento importante da segunda metade do século XX, a descolonização proporcionou à União Soviética e à República Popular da China inúmeras oportunidades de influência em detrimento das antigas potências coloniais. Na Roma italiana da década de 1950, uma passeata não autorizada de aposentados, carregando cartazes com os dizeres “Aumentem as pensões! Trabalhamos a vida toda”, foi dispersada pela polícia.

 Alguns idosos refugiaram-se no saguão de um prédio de apartamentos: entre eles estava Umberto Domenico Ferrari, funcionário público há trinta anos no Ministério das Obras Públicas, com uma pensão de dezoito mil liras por mês. Ao meio-dia, Umberto foi ao refeitório comunitário, onde vendeu seu relógio por três mil liras para pagar o aluguel. Ao voltar para casa, encontrou seu quarto temporariamente ocupado por um casal para quem a dona do imóvel o havia sublocado durante sua ausência. Ele protestou, mas a mulher respondeu ameaçando despejá-lo caso não pagasse o aluguel atrasado. Na cozinha, Umberto conversa com a jovem e compreensiva empregada Maria, que revela estar grávida, mas desconhecer a identidade do pai, pois se relaciona com dois homens, e seus dois amantes, um soldado de Florença e outro de Nápoles, querem evitar a responsabilidade. Umberto fica sozinho com seu único amigo, o cachorro Flaik. Enquanto isso, a inflexível e avarenta senhoria se recusa a lhe devolver as três mil liras que ele havia juntado anteriormente, exigindo, em vez disso, o valor total do aluguel, assim como faz quando Umberto, tendo arrecadado mais duas mil liras com a venda de livros, chega para lhe oferecer cinco mil. Febril, o homem se deita na cama.

No dia seguinte, sofrendo de amigdalite, ele é internado no hospital, onde Maria e Flaik o visitam e onde ele tenta permanecer o máximo possível para economizar no aluguel e quitar sua dívida. Ao sair do hospital, ele dá o endereço à sua companheira de quarto, mas, ao voltar para casa, descobre que estão em obras para o casamento da sua amante; ela quer transformar o quarto dele numa sala de estar para receber visitas. Enquanto procura o cão, Umberto encontra Maria em lágrimas, abandonada pelos dois soldados que se recusam a assumir a responsabilidade por uma paternidade incerta. A jovem conta-lhe que o animal fugiu de casa depois de o dono ter deixado a porta aberta de propósito. Preocupado com Flaik, Umberto vai ao canil onde o encontra mesmo a tempo de impedir que seja sacrificado. Enquanto passeava pela cidade, ele encontra um velho amigo, agora um “aposentado rico", a quem confidencia seu dilema, mas o homem a dispensa, alegando pressa para pegar o bonde. Vendo como um mendigo recebe esmolas facilmente, Umberto tenta pedir algumas ele mesmo, mas sua dignidade o impede. Ele tenta enganar Flaik, fazendo-o segurar seu chapéu na boca enquanto se esconde, mas quando um comandante que ele conhece passa por perto, Umberto fica envergonhado e finge que Flaik estava brincando. De volta ao seu quarto, devastado em obras na Corso Umberto, se resigna ao destino e começa a contemplar o suicídio. Na manhã seguinte, arruma a mala, se despede de Maria e pega o bonde. 

Quer deixar Flaik em um canil, mas percebe que os funcionários são pessoas inescrupulosas que não gostam de animais, e muda de ideia. Vai ao parque e tenta confiar Flaik a uma jovem que conhece, mas a governanta dela proíbe categoricamente. Contudo, decidido a se matar, atravessa uma passagem de nível com Flaik nos braços, aproximando-se dos trilhos enquanto o trem se aproxima. O cachorro, pressentindo o perigo, aterrorizado, se soltou das mãos de Umberto e correu em direção ao parque; o trem passou e Umberto perseguiu o cachorro, que foi se esconder atrás de uma árvore, já não confiando mais infelizmente em seu dono; mas o velho o encorajou a brincar, jogando uma pinha para longe e convidando-o com um gesto a ir buscá-la: os dois se reconciliaram assim e, enquanto continuavam a brincar, seguiram caminhando pela trilha. O filme: “Umberto D.” tem apenas duas “manifestações de vida”, no sentido simmeliana, com quem poderá contar: seu cachorro que acabaria por ser o responsável por um dos finais mais arrebatadores, do cinema da década de 1950, após “O Vagabundo de Chaplin”, na década de 1930 (cf. Braga, 2011), e a empregada doméstica que trabalhava na pensão onde residia. Uma jovem grávida que possui seus próprios problemas. Todos os outros personagens significam adversidade: desde a dona da pensão até os velhos amigos que não querem ou “lavam as mãos” para não compreender a situação social do aposentado e poder ajudar Umberto financeiramente. 

Por conta das adversidades, Umberto nem sempre consegue ser um personagem moral e economicamente estável. Ele é capaz de transformar-se e tomar decisões bastante desumanas, o que torna seu personagem completo e real, em sua “dramatis personæ” acima de tudo, para lembramos de William Shakespeare de 1623, no cinema. Tecnicamente bem estruturado, o trabalho do diretor italiano encontra-se situado em um momento político de transformação do cinema tanto quanto da vida real no velho continente e em particular a Itália. E do ponto de vista teórico das cartas de Antônio Gramsci são hoje um pretexto ou um ponto de partida na análise marxista das classes para uma interpretação da história italiana durante o período de entre guerras (cf. Gramsci, 1947; 1954). Desde 1918 até a chegada do fascismo em 1922, o Estado liberal defendera-se do seu inimigo mais perigoso, o movimento obreiro. Assustada pela vaga de greves e ocupação de terras, as frações da classe dominante e/ou dirigentes irá de mãos dadas em aliança política.

 Com o avanço do fascismo, que aproveitará esta crise estrutural para se candidatar progressivamente como a única força com a capacidade para travar o pulo imparável do movimento obreiro, somando os consensos das classes médias. Com efeito, o Estado italiano enfrentava desde a Unificação uma importante frustração nacional, derivada não apenas da questione romana, mas também e principalmente do problema do irredentismo e da provada incapacidade colonial. Acabada a 1ª grande guerra (1914-18), a Itália verificava que ter estado do lado dos países vencedores na Europa não ajudara em absoluto para solucionar estes problemas na dinâmica política que, antes como polos contrários se incrementaram. O fascismo representou, nesse sentido, uma resposta à crise da democracia liberal, numa perspectiva autoritária e de incorporação das massas, que serão mobilizadas por meio de um intenso nacionalismo herdeiro do nacionalismo da pré-guerra, nomeadamente do nacionalismo da corrente florentina de Corradini e Papini, para além da influência clara de D`Annunzio e Marinetti (cf. Candeloro, 1986; Arbizzani, 1988; Bondannella, 2008). Aliás, o fascismo enquanto weltanschaaung tem raízes na filosofia de um certo Friedrich Nietzsche (“super homem”), Henri Bergson (“élan vital”) e em Georges Sorel (“violência revolucionária”), guardadas as proporções. 

        Por último, os “fasci di combattimento” relembram principalmente pelo nome os “fasci sicilianos” de 1893, bem como as “bandas garibaldinas”, polo seu caráter intrépido e paramilitar. E, antes de mais, o fascismo, filho da crise pós-bélica, é também filho da frustração nacional. Com efeito, o nacionalismo fascista assumirá como objetivo fulcral o acabamento do labor de construção nacional, do ponto de vista da questão meridional, analisada por Gramsci, através de um Estado totalitário onde Estado e Nação se confundem de forma definitiva. Os objetivos da regeneração fascista resumem-se, pois em fazer novamente de “Roma, la capitale del mondo”, o centro de uma Europa fascista e de um Império neocolonial em África. É este um discurso que atrai e engaiola as massas, especialmente aquelas camadas sociais que temem perder na crise o status obtido com a Unificação de Itália, feita à custa do proletariado industrial e do campesinato pobre e miserável. “Humberto D.” é um transformador relato etnográfico da história de vida de um aposentado tentando manter um pouco de dignidade à sua vida intelectual e moralmente e de seu único e melhor amigo do homem, o cachorro, numa miserável pensão do governo, exatamente como faziam, na década de 1960, os italianos do Sul pobre do país que, escapando da miséria, imigravam para trabalhar nas minas e nos canteiros de obras da Suíça.

Bibliografia geral consultada.

GRAMSCI, Antônio, Il Risorgimento. Torino: Editore Einaudi, 1954; Idem, Sobre el Fascismo. Madrid: Editore Era, 1980; MILZA, Pierre, De Versailles a Berlin. 1919-1945. 4ª edição. Paris: Masson Editeur, 1980; CASTELLO, Giulio Cesare, Il Cinema Neorealístico. Torino: ERI, 1960; FERNANDEZ, Dominique, Il Romanzo Italiano e la Crisi della Coscienza Moderna. Milano: Lerici Editori, 1960;  ASOR ROSA, Scrittori e Popolo - Il Populismo nella Letteratura Italiana Contemporânea. Roma: Edizione Savelli, 1976; PASOLINI, Pier Paolo, Empirismo Herege. Lisboa: Assírio & Alvim,1982; FABRIS, Mariarosaria, O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996; COUTINHO, Carlos Nelson, “Socialismo e Democrazia in Gramsci”. In: Critica Marxista. Roma, volume n° 5-6, pp. 37-47, 1997; AMARGO, Mauricio Hermini, La Ciociara: Romance, cinema e relação com o espaço. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura Italiana. Departamento de Letras Modernas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, 2005; TONETTO, Maria Cristina, Cultura e Imagem: O Cinema Neo-Realista no Mercosul - 1935 a 1962. Dissertação de Mestrado. Program de Pós-Graduação em Integração Latino-Americana. Centro de Ciências Sociais e Humanas. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2006;  BONDANELLA, Peter, Italian Cinema. From Neorealism to the Present. New York/London: Editor Um, 2008; DI BIAGI, Flaminio, Il Cinema a Roma. Guida alla Storia e ai Luoghi del Cinema nella Capitale. Roma: Palombi Editore, 2010; ALTMAN, Max, “Hoje na História: 1974 - Morre o diretor Vittorio De Sicca, Precursor do Neorrealismo Italiano”. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/13/11/2011; SANCHEZ, Renata Latuf de Oliveira, A Cenografia e o Espaço-tempo no Neorrealismo como Indicador da Sociedade Italiana no Pós-Guerra: Uma Breve Análise a partir de Roma, Cidade Aberta e Ladrões de Bicicleta. In: Urbana - Dossiê História Urbana, vol. 7, n° 1, jan./jun. (2015);  entre outros. 
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*Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará.

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