segunda-feira, 11 de maio de 2015

O “banho da morte” e o significado de Aussiedlung.

Ubiracy de Souza Braga*
Eliminar de uma vez por todas o sentido das palavras, eis o objetivo do terror!”. Jean François Lyotard

                    
            Em seu discurso etnográfico, Hannah Arendt situa-se analiticamente distante da linguagem do jornalismo empresarial dominante e recorrente, - em geral tosco e sem imaginação sociológica-, porque bem documentado com as referências históricas e axiológicas que bem entendido, esclarece que nada caracteriza melhor a política de poder da era imperialista do que “a transformação de objetivos de interesse nacional localizados, limitados”. São, portanto, “previsíveis, em busca ilimitada de poder que ameaça devastar e varrer o mundo inteiro sem qualquer finalidade, sem alvo nacional e territorialmente delimitado e, portanto, sem nenhuma direção previsível”. Foi a primeira intelectual contemporânea a entender que o termo “imperialismo” não se limitava apenas ao expansionismo dos grandes grupos econômicos, tal como compreenderam J. A. Hobson, Rosa Luxemburgo, ou mesmo o revolucionário Lenin, entre outros.
            As origens do fascismo alemão remontam a 1919, quando um grupelho de sete homens se reuniu numa cervejaria de Munique e fundou o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores alemães (cf. Jünger, 2000; 2004). O nome do partido não tardou a ser abreviado na fala popular para “nazi”. Em pouco tempo, o mais obscuro dos sete surgia como chefe. Chamava-se ele Adolf Hitler e tinha nascido em 1889, sendo filho de um pequeno funcionário aduaneiro da Áustria (cf. Nicholls, 2000). O começo de sua vida foi infeliz e desajustado. Rebelde e indisciplinado desde a infância parece ter sido sempre oprimidos por um sentimento de frustração. Na escola, perdia tempo desenhando retratos e por fim resolveu ser pintor. Com esse objetivo em vista dirigiu-se em 1909 para Viena, esperando ingressar na Academia. Reprovado no exame durante quatro anos arrastou sua existência obscura como vendedor ocasional e pintor de pequenos esboços e aquarelas que mal conseguia vender a lojas de arte. Enquanto “isso ia alimentando alguns preconceitos políticos de índole violenta (cf. Burns, 1967: 883).      
             Mark Herman, nascido em 1954 em Bridlington, na Inglaterra, é diretor e roteirista inglês. Obteve seu reconhecimento internacional por ter dirigido o filme: “O Menino do Pijama Listrado”. Mark entrou para a indústria cinematográfica no tempo certo. Ele desenhava quadrinhos antes de começar a estudar cinema aos 27 anos, na Universidade de Leeds. Inicialmente, estudava animação, mas no final começou a ter interesse e estudar direção cinematográfica. Herman também compôs algumas músicas para o álbum “The Christians” (1987), da banda do mesmo nome, já que ele foi o colega de um membro da banda, Henry Priestman, na Universidade de Leeds. Durante a sua carreira, teve vários trabalhos elogiados pela crítica, como “Brassed Off”, de 1996, e “Little Voice”, de 1998, porém seu maior trabalho ocorre com o filme: “The Boy in the Striped Pyjamas (2008). Ganhou o prêmio de melhor diretor por “British Independent Film Award” e o prêmio “Chicago International Film Festival” com esse filme.
             A ideologia fascista pode ancorar-se em três características humanas: o medo, o fanatismo e a intolerância. É um fenômeno político e discursivo (propaganda) deste século e cuja formulação definitiva talvez não possa se dar como concluída. Ela tem-se estabelecido pela fórmula autoritária: “Crer e não pensar”; “trabalhar e não refletir”; “obedecer e não discutir”. Surgiu em torno de 1890 na Europa ocidental como “eclipse da razão”, segundo Max Horkheimer. Georg Lukács, no “livro Destruição da Razão”, ou, Hannah Arendt, em “Eichmann em Jerusalém - Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” fizeram como filósofos, uma análise histórico-crítica esclarecedora a respeito. Temos aí o conceito de “autoridade irracional”, que poderia ser caracterizado como “o poder sobre o povo, logrado sobre a base do terror, onde a crítica está proibida, e onde existe uma absoluta desigualdade entre os membros da comunidade” (cf. Braga, 2004).
              Analogamente vale lembrar a história que conta “Valkyrie” é tão incrível e fantástica como o thaumázein, assim como o páthos, têm a ver com “um bom ânimo ou boa disposição (...) que levou certos indivíduos a deixar ocupações do cotidiano para se dedicar a algo extraordinário, a produção do saber: uma atividade incomum, em geral pouco lucrativa, e que sequer os tornava moralmente melhores que os outros” (cf. Spineli, 2006), pois, neste caso tinha que acabar sendo um grande filme, explicou o ator Tom Cruise em entrevista à Agência Efe, sobre um projeto no qual o público viu finalmente o ator com o uniforme do exército nazista e encarnando Claus von Stauffenberg, “um coronel alemão que tentou assassinar Adolf Hitler”. Durante a entrevista, Cruise se mostrou entusiasmado com o resultado do filme e disse que é “muito importante que se saiba que pessoas como Stauffenberg e a resistência civil alemã contra Hitler existiram”. Deste ponto de vista admite: - “Essa história é a que me levou a participar do filme”, disse Cruise sobre o longa-metragem que, após muitas mudanças na data de estreia, permitiu “conhecer de uma vez por todas um projeto muito falado e com o qual o ator pretende relançar sua carreira em Hollywood”.
            O filme tem todos os ingredientes que a priori agradam Hollywood, já que se ambienta na Segunda Guerra Mundial e mostra como houve quem se opusesse aos horrores do nazismo dentro da Alemanha, como ocorreu em longas premiados como “O pianista”, de Roman Polanski, e “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg. A polêmica, no entanto, acompanhou o filme desde seu início, já que a princípio as autoridades alemãs se negaram a deixar o longa-metragem ser gravado no memorial de Benderblock, em Berlim, por Cruise pertencer à Igreja da Cientologia, que sofre forte resistência na Alemanha. Além disso, a imprensa alemã se esforçou em dizer que o ambiente na gravação era tudo menos plácido, um extremo que foi negado por aqueles que trabalharam na produção, que conta com nomes conhecidos como Kenneth Branagh, Terence Stamp e Bill Nighy. - “Trabalhar com Tom foi maravilhoso. Ele faz com que o trabalho pareça simples, porque passa muita energia positiva. É um tipo divertido que se concentra quando é preciso, mas que sabe rir contigo também”, disse à Efe Branagh, que interpreta outro dos cérebros da operação contra Hitler, o general Henning von Tresckow (cf. Braga, 2012).                  
            No inicio da 2ª guerra mundial (1940-1945) a Alemanha encontrava-se em conflito político-ideológico com os judeus radicados na Alemanha. No filme: “O menino de pijama listrado” uma família alemã que morava em Berlim teve que se mudar para uma casa perto do “campo de concentração”, onde o Ralf pai de Bruno trabalhava como militar. Seu filho Bruno fez amizade com um judeu chamado Shmel (Samuel) onde aprendeu o significado da amizade. Bruno apesar de ter prejudicado Samuel ele o perdoou. Sem preconceito social, Bruno prometeu a Samuel que o ajudaria na procura seu pai, sumido, aparentemente depois de ter ido fazer um trabalho e não havia voltado. Em verdade havia sido confinado num campo de concentração nazista.
   

Justamente graças ao seu pensamento independente, a “teoria do totalitarismo”, ou seja, a conhecida expressão: “Theorie der totalen Herrschaft”, de seus trabalhos sobre filosofia existencial e sua reivindicação da discussão política livre, Hannah Arendt tem um papel central nos debates contemporâneos. Como fontes metodológicas em torno de suas indagações Arendt utiliza, além de documentos filosóficos, no sentido que Hans-Georg Gadamer nos adverte políticos e históricos, biografias e obras literárias. Esses textos são interpretados de forma literal e confrontados com o pensamento de Hannah Arendt. Seu sistema de análise - parcialmente influenciado pela hermenêutica filosófica de Martin Heidegger, a converte em uma pensadora original situada em diferentes campos de conhecimento e especialidades metodológicas acadêmicas. Seu devenir pessoal e seu pensamento demonstram um importante grau de coincidência, mas também de autonomia relativa das instâncias ou níveis de análise da realidade social e independência de raciocínio.
No filme em questão, no dia em que Bruno iria se mudar para morar com sua tia resolveu fugir para ajudar Samuel a procurar seu pai, vestindo-se como as outras crianças, cavou um buraco passando para dentro do campo de concentração. Lá dentro junto com Samuel foi à sua cabana a procura do pai, porém antes que conseguissem sair do campo de concentração foi levado junto com os judeus para a câmera de gás. Quando sua família sentiu sua ausência, fora a sua procura e encontrara suas roupas jogadas em frente ao campo de concentração, quando seu pai entrou em busca de Bruno. Viram que havia uma cabana vazia e lembraram-se que aquele seria o dia em que os judeus seriam colocados na câmera de gás. Logo descobriram que seu filho estava junto com os judeus com seus pijamas jogados ao chão e havia sido morto envenenado pelo gás letal.
            Metodologicamente o nazismo é frequentemente considerado por historiadores, sociólogos e analistas políticos como uma “derivação” do fascismo. Mesmo incorporando elementos comuns tanto da direita política, quanto da esquerda política (cf. Laclau, 1978; 2007), o nazismo é considerado de fato como ideologia de extrema direita, formando um dos vários grupos históricos que utilizaram o termo “nacional-socialismo” para egocentricamente  “descreverem a si mesmo” e, na década de 1920, tornarem-se o maior grupo da Alemanha. O ideal do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista) são expressos no seu “Programa de 25 Pontos”. Entre os elementos-chave para interpretação histórica, teórica e ideológica do nazismo, há o antiparlamentarismo, o pangermanismo, o racismo, o coletivismo, a eugenia, o antissemitismo/antijudaísmo, o anticomunismo, o totalitarismo e a oposição assimétrica ao liberalismo econômico e político, situando-se entre a clássica dicotomia “esquerda” versus “direita”; na direção filosófica e política de uma nova síntese dinâmica entre, os valores da tradição, honra, senso de dever, disciplina, abnegação, coragem e ascetismo, e, ainda, a constelação de perspectivas ideológicas, referidas à dualidade estrutural cujo sentido de gravidade “se estabelece a partir da rejeição radical do liberalismo e do capitalismo” (cf. Bobbio, 1992; 1999; 2004; 2005; 2012).
Quando o terror e a inocência dão as mãos, salta aos olhos a narrativa do filme: “The Boy in the Striped Pyjamas” que usa e abusa da inocência infantil para chocar o público, que absorve os absurdos do nazismo, equidistantes da interpretação de Albert Camus como analisaram noutro lugar. Dirigido por Mark Herman, o filme é surpreendente e baseado no livro homônimo de John Boyne, onde o terror e a inocência dão-se as mãos e compõem uma ciranda cujo efeito social específico para o espectador representa um misto de encanto e nojo. Isso fica explícito logo nos primeiros minutos de exibição quando as crianças, absortas em suas brincadeiras, correm pelas ruas. Estrategicamente espalhados pelo cineasta nas cenas estão elementos como soldados, cães, bandeiras com suásticas. Já nos primeiros minutos nos deparamos com a contextualização do período histórico e político-ideológico. A inocência é reforçada pela sonoplastia que evoca relaxamento. O que virá, no entanto, é o significado do terror; implícito, e ipso facto intenso representando a expressão da dor física e mental.
  

Vale lembrar que a “suástica” ou “cruz gamada” representa um símbolo místico encontrado em muitas culturas em tempos históricos diferentes, desde os índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus, ou neste caso. Alguns autores acreditam que a suástica tem um valor especial por ser encontrada em muitas culturas sem contatos umas com as outras. Os símbolos a que chamamos suástica possuem detalhes gráficos bastante distintos. Vários desenhos de suásticas usam figuras com três linhas. A nazista, para o que nos interessa, tem os braços, apontando para o sentido horário, ou seja, indo para a direita – carregando de significado e sentido político sua simbologia e roda a figura de modo a um dos braços estarem no topo. Outras chamadas suásticas não têm braços e consistem de cruzes com linhas curvas. Os símbolos Islâmicos e Malteses parecem mais hélices do que propriamente suásticas.
Ao ser promovido dentro do regime de Adolf Hitler, um comandante (David Thewlis) muda-se com a família para o interior. O impacto da mudança é maior para o filho Bruno (Asa Butterfield), que se vê diante de uma casa imensa, lembrando-nos o filme: “Il Giardino dei Finzi-Contini” (1970), mas sem amigos. Um dia, ele encontra um menino numa estranha fazenda habitada por pessoas vestindo curiosos “pijamas listrados”. Uma cerca os separa. Ou quase. Bruno e Shmuel (Jack Scanlon), o amigo ameniza a separação física da cerca de arame farpado, típica dos “Aussiedlung”, com diálogos que os aproximam, mas eles que são de mundos estranhos e tão opostos assimetricamente como complementares. O filme: “O Menino do Pijama Listrado”, guardadas as proporções, é um dos raros casos em que a adaptação cinematográfica de uma obra literária acaba sendo tão envolvente quanto o próprio livro. A transposição para a tela pretende ter o maior grau possível de fidelidade ao trabalho escrito, mas obtém algumas  complementações que enriqueceram o relato etnográfico, como ocorre nos detalhes das cenas finais com processo de amadurecimento da irmã de Bruno.
No filme: “The Boy in the Striped Pyjamas” o menino aparentava ter medo e ao mesmo tempo admiração pelo pai, por ser autoritário na vida familiar e político-militar. A corrupção da consciência, fenomenologicamente falando, no sentido que emprega Merleau-Ponty (2006: 53 e ss.) funciona como a “essência da consciência para o mal”, ou, “essência da percepção para o mal”, posto que: a consciência só começa a serem determinando um objeto, e mesmo os fantasmas de uma “experiência interna” só é possível por empréstimo à experiência externa. Portanto, não há vida privada da consciência. A consciência só tem como obstáculo o caos, que não é nada. Mas em uma consciência que constitui tudo, ou, antes, que possui eternamente a estrutura inteligível de todos os seus objetos, assim como na consciência empirista que não constitui nada, a atenção permanece um poder abstrato, ineficaz, porque ali ela não tem nada para fazer. Contudo, a amizade pura, livre e desinteressada dos meninos Bruno e Shmuel mostrou o mundo onde os preconceitos de diversidades, sejam eles de qualquer categoria, credo, classe social, ou cor, esmagam a esperança e a vontade de se conviver em paz.
A consciência não está menos intimamente ligada aos objetos em relação aos quais ela se distrai do que aqueles aos quais ela se volta. O filme foi baseado no best-seller homônimo de John Boyne. Diferente do seu processo de criação normal, Boyne declarou que escreveu a primeira versão do livro em apenas dois dias e meio. O campo de concentração no qual o pai de Bruno trabalha não é nomeado, mas os especialistas dizem ser possível reconhecê-lo como o campo de Auschwitz pela presença de quatro crematórios na composição do cenário.  - “Auschwitz I, o principal campo do complexo de Auschwitz, foi a primeira das unidades a serem estabelecidas, nas proximidades da cidade polonesa de Oswiecim. Sua construção teve início em maio de 1940, em um quartel de artilharia usado anteriormente pelo exército polonês na região de Zasole, subúrbio de Oswiecim. O campo foi se expandindo continuamente por meio de trabalho escravo. A câmara improvisada estava localizada no porão da prisão (Bloco 11). Mais tarde, uma câmara de gás fixa foi construída dentro do crematório”. A propaganda nazista do campo de concentração que aparece no filme foi baseada em um vídeo originalmente rodado em 1941, produzido pelos ideólogos nazistas. 
Bibliografia geral consultada:

 LACLAU, Ernesto, Política e Ideologia na Teoria Marxista: Capitalismo, Fascismo e Populismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1978; Idem, La razón populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2007; BOBBIO, Norberto, Ni con Marx ni contra Marx. 1ª edição. Espanha: Fondo de Cultura, 1999; Idem, Il Futuro della Democrazia. 1ª edição. Itália: Einaudi Editore, 2005; FRITZSCHE, Peter, Germans into Nazis. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998; EATWELL, Roger, Fascism, A History. London: Viking/Penguin Ed., 1996; JUNGER, Ernest, A Guerra como Experiência Interior. Lisboa: Ulisseia, 2004; ARENDT, Hannah, Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Cia das Letras, 1999; Idem, Compreender. Formação, exílio e totalitarismo. Ensaios 1930-1954. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2008b; Idem, A promessa da política. 2ª edição. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009; HEIDEGGER, Martin, Nietzsche. Berlim: Gunther Neske Verlag, 1961; Idem, Ensaios e conferências. 3ª edição. Petrópolis (RJ): Editor Vozes, 2006; Idem, Nietzsche (I). Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2007; NICHOLLS, David, Adolf Hitler: A Biographical Companion. Chapel Hill, North Carolina; USA: University of North Carolina Press, 2000; MERLEAU-PONTY, Maurice, Fenomenologia da Percepção. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2006; entre outros.
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* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE). 

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