domingo, 14 de agosto de 2016

Impeachment do Ódio – A Marcha à Ré Política no Senado.

                                                                                                            Ubiracy de Souza Braga*
 
“Para mim, isso foi um golpe de Estado institucional”. Laurence Cohen, do PCF de Val-de-Marne.
           
       

 O Senado Federal possui 81 senadores, que através do voto majoritário, são eleitos e exercem seus cargos para mandatos de oito anos, sendo que são renovados em uma eleição um terço das cadeiras e na eleição subsequente dois terços delas. As eleições para senador são feitas junto com as eleições para Presidente da República, Governador estadual, Deputado Federal, Estadual e/ou Distrital, dois anos após as eleições municipais. Todas as 27 unidades da Federação (26 estados e o Distrito Federal) possuem a mesma representatividade, com três senadores cada. Os senadores representam os estados e não a população, daí portanto a não proporcionalidade em relação ao número de habitantes de cada estado. O presidente do Senado Federal  é o senador Renan Calheiros, filiado ao do Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Alagoas. Além das lideranças do governo e de cada partido, o Senado possui também lideranças do bloco parlamentar da maioria, da minoria e de apoio ao governo.  
O Senado conta com 2.819 funcionários “terceirizados”, pertencentes a 34 empresas cujos contratos trabalhistas custam anualmente R$ 155 milhões de reais e aproximadamente 2.500 servidores de carreira, a um custo anual de 1,4 bilhão de reais. Em termos de transparência de sua atuação e gastos, o Senado publica dados sobre os projetos de lei e outras matérias e o uso de verbas “indenizatórias”. Seu ponto crítico é que publica de forma precária os dados sobre a assiduidade dos senadores no plenário e nas comissões, além de não publicar dados sobre as viagens parlamentares. As principais estruturas internas do Senado Federal são a Secretaria-Geral da Mesa, responsável pela coordenação de todo o processo legislativo nas comissões e no Plenário, e a Diretoria-Geral, responsável pela gestão administrativa, em particular contratações, manutenção, gestão de recursos humanos e orçamentários.



        O Senado Federal possui 81 senadores, eleitos para mandatos de oito anos, sendo que são renovados em uma eleição um terço e na eleição subsequente dois terços das cadeiras. As eleições para senador são feitas junto com as eleições para Presidente da República, Governador de Estado, Deputados Federal, Estadual e Distrital, dois anos após as eleições municipais. Todas as 27 unidades da Federação somados os 26 estados e o Distrito Federal possuem a mesma representatividade, com três (03) senadores cada. Os senadores representam os Estados e não a população, daí, portanto a não proporcionalidade em relação ao número de habitantes de cada Estado por região. A 55ª legislatura teve início em 1° de fevereiro de 2015, com encerramento previsto para ocorrer em 31 de janeiro de 2019, caso não haja um “golpe branco”. O Senado é tido como a Casa revisora do Legislativo.
            A categoria “golpe branco” ou “golpe brando” é uma expressão usada na historiografia e na ciência política para se referir a uma conspiração ou trama que tem por objetivo a mudança da liderança política ou, em alguns casos, da ordem vigente de um país por meios parcial ou integralmente legais. Também chamado “golpe suave” ou “golpe encoberto”, utiliza um conjunto de técnicas de conspiração não frontais e principalmente não violentas, com o fim de desestabilizar um governo eleito legitimamente até provocar sua queda, sem que esta pareça que ter sido consequência da ação de outro poder. A expressão é atribuída ao politólogo estadunidense Gene Sharp, relacionado com a Central Intelligence Agency. Um golpe de Estado é um ato realizado por órgãos oficiais, mas muitas vezes pelas forças armadas, com base em alguma forma de violência como intimidação ou ataque, visando a substituição de um líder político por outro. No século XX, a ideia de que golpes de Estado violam a ordem constitucional vigente foi incorporada ao conceito de golpe de Estado. O “golpe branco” se diferenciaria do golpe de Estado tradicional apenas na medida em que pode assumir aparência legal, ainda que seja fundamentado em interesses ilegítimos e conspirações políticas. Assim, o golpe de Estado branco passou a ser empregado como alternativa ao golpe de Estado militar, que foi muito utilizado até a década de 1990 e se repete no Brasil. José Eduardo Cardozo entregando a defesa final de presidenta Dilma Rousseff no processo de impeachment.


            Ex-ministro dos governos José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira considera o processo de “impeachment” da presidenta da República Dilma Rousseff um “golpe branco”. Segundo ele, a crise atual repete as que antecederam as quedas dos ex-presidentes Getúlio Vargas e de João Goulart. - Essa crise é muito estranha porque é uma crise em uma democracia que eu entendo consolidada. É uma crise que repete crises passadas, é uma crise em que liberais derrotados nas eleições resolvem tentar dar o golpe de Estado. Isso aconteceu no Brasil inúmeras vezes”, disse Bresser-Pereira em entrevista ao programa “Espaço Público”, da TV Brasil. - “Em 1954, o Getúlio Vargas foi derrubado nessas condições. Em 1964, João Goulart foi assim. Sempre a UDN, que era o partido liberal. Agora é a mesma coisa, mas é o PSDB, meu ex-partido, que virou partido liberal. Tudo é sempre feito em nome da moralidade pública. Como se, de repente, a moralidade pública estivesse encarnada nesses liberais e jamais existisse do outro lado”.
            TV Brasil é uma rede de televisão pública brasileira pertencente à Empresa Brasil de Comunicação, com programação de abrangência nacional. Está presente em Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), São Luís (MA) e em mais 21 estados por meio das emissoras de televisões parceiras da Rede Pública de Televisão. O canal estreou sua programação no dia 2 de dezembro de 2007, ao meio-dia, mesma data que se iniciaram as transmissões de TV digital no território brasileiro. A emissora tem como finalidade complementar e ampliar a oferta de conteúdo audiovisual, e oferecer uma programação com abordagem informativa, cultural, artística, científica e cidadã. A TV Brasil é hoje uma das maiores janelas de exibição de produção audiovisual ditas independente no País, destinando  20% das horas da sua programação. Em cinco anos, participou como coprodutora de cerca de 140 produções, entre documentários, séries, longas e curtas metragens.
No entanto, de acordo com o ex-ministro, na crise atual, diferentemente das anteriores, um setor da classe média radicalizou o discurso, e começou a agir com “ódio” contra o governo. “Em nenhuma das outras vi tanto ódio. Isso me surpreendeu muito já em 2014. Havia um setor da classe média que radicalizou e começou a agir com um ódio em relação ao PT e em relação à Dilma e Lula que eu nunca vi na minha vida”. - “No tempo do golpe militar, por exemplo, havia uma preocupação da direita com um possível golpe socialista, o que era bobagem, mas enfim, era razoável o medo, e havia medo. Mas não havia ódio. Agora tem ódio. E, em minha opinião, quando isso acontece, quando aparece o ódio, é porque não há razão”.  Bresser Pereira diz que não acreditava que Dilma sofreria impeachment porque o Brasil tem uma democracia consolidada.  - “O impeachment só se justifica nos momentos em que o presidente cometeu algum crime. Não há crime, desde o começo não há. Acho que nós estamos em uma democracia consolidada e isso seria um golpe muito sério na democracia”.
Desnecessário dizer que um dos campos de observação mais ricos para o analista social refere-se à relação entre ideologia e linguagem, tendo em vista que as pesquisas desenvolvidas acerca da atividade legislativa brasileira têm questionado o conteúdo das leis apresentadas e aprovadas no âmbito do Congresso Nacional. A principal preocupação compartilhada pela maioria desses estudos é se as leis concentram ou difundem benefícios, caracterizada pela apresentação de matérias que difundem benefícios a toda a sociedade (leis nacionais) ou pela apresentação de proposições com benefícios territorialmente concentrados. As palavras, as inflexões, o modo de construir as frases, cada uma dessas coisas tem sua própria história. Tanto em sua gênese como em seu emprego, seus desejos subterrâneos, os termos da linguagem põem a nu os valores das sociedades que os criaram e os mantêm vivos. Não são necessárias as formas mais abstratas da teoria e as construções filosóficas para compreendermos as distorções ideológicas em suas manifestações individuais e coletivas.
        No Senado, maioria de 65% dos servidores acredita que homens e mulheres têm as mesmas oportunidades de crescimento profissional. É o que revela pesquisa de opinião feita pelo “DataSenado”, dos dias 25 de fevereiro a 14 de março de 2014, com 387 servidores da Casa. Por outro lado, 22% consideram não existir essa igualdade de oportunidades entre gêneros. Desses, 93% são taxativos: no Senado, homens têm mais chances de crescer profissionalmente do que mulheres. Apesar desse indicativo, cumpre destacar que, entre os próprios entrevistados, verifica-se que os homens ocupam mais postos de chefia do que as mulheres: 35% deles contra 22% delas. Para 82% dos entrevistados, a probabilidade de receber um convite para assumir uma chefia é a mesma, independente do sexo do servidor. Em contrapartida, na opinião de 11%, o sexo é sim um fator que influencia na hora de se fazer esse tipo de proposta.
        Neste contexto, registrou-se uma diferença de 10 pontos percentuais na análise por perfil: enquanto 87% dos homens negam a existência de qualquer tipo de discriminação com relação à escolha de mulheres para cargos de chefia, são 77% as servidoras que têm a mesma opinião. Ao investigar as questões de gênero vividas pelos servidores do Senado, a pesquisa registrou ainda diferenças importantes: entre as entrevistadas, 39% avaliam que mulheres com filhos pequenos não estão em condições de igualdade com os homens de serem convidadas para assumir uma chefia. Entre os homens, apenas 16% consideram que existe tal disparidade. As mulheres também são maioria (66%) a apontar que elas seriam capazes de abrir mão de uma chefia para passar mais tempo com os filhos; 52% dos homens têm a mesma percepção. Do total de entrevistadas, 45% já receberam convite para assumir cargo de chefia, sendo que 72% delas aceitaram o desafio. Das 25% que  recusaram a proposta, 40% alegam que o principal motivo reside no fato de querer cuidar dos filhos.

                       

Entre todos os respondentes, 56% avaliam que aceitariam postos de comando mesmo que fosse necessário reduzir o tempo dedicado à família; 35% não estariam dispostos a assumir esse compromisso, enquanto 10% não têm opinião formada sobre o assunto ou preferiram não se manifestar. Por fim, caso fosse possível decidir livremente entre assumir uma chefia ou dedicar-se à maternidade, 32% das entrevistadas disseram que optariam pela maternidade, 26% privilegiariam a carreira, e 15% indicaram não ter interesse em nenhuma das duas opções. Surpreendentemente, 26% não souberam ou preferiram não responder a essa questão. A pesquisa registrou ainda que, entre as 175 servidoras que foram entrevistadas, 65% têm filhos. Dessas, 32% têm apenas um, 48%, dois, e 19% indicaram ter três ou mais filhos. Também 65% delas disseram ter filhos menores de 18 anos. (Cf. Secretaria de Transparência - Senado. Pesquisa sobre Equidade de Gênero, 27/03/2014).  
Em votação o Senado marcha à ré na história social e política brasileira: aprovou por 59 votos a 21 na madrugada da quarta-feira (10/08/2016), após quase 15 horas de sessão, o relatório da “Comissão Especial do Impeachment” que recomenda que a presidente “afastada” Dilma Rousseff seja levada a julgamento. Com isso, ela passa à condição de ré no processo político, segundo a assessoria do Supremo Tribunal Federal (STF). O julgamento final da presidente “afastada” está previsto para o fim do mês no plenário do Senado. Antes da votação do texto principal, os senadores já tinham rejeitado, também por 59 votos a 21, as chamadas “preliminares” que questionavam o mérito da denúncia contra a presidente Dilma Rousseff. Depois do texto principal, houve a votação de três destaques de alteração do texto principal, apresentados por senadores defensores de Dilma com o objetivo de restringir os supostos delitos atribuídos a ela. Todos os destaques foram rejeitados. Curiosamente o único dos 81 senadores que não votou foi o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). - “Procurei conduzir com isenção. Desconstruir essa isenção agora não é coerente”.     
Sustentamos a tese segundo a qual há um golpe de Estado em curso no ano de 2016. O libelo acusatório entregue é uma consolidação das acusações e provas produzidas durante o processo político de “afastamento”. No documento, os juristas Miguel Reale Júnior, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal – autores da denúncia de crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff – dizem que a petista cometeu “fraudes em torno das contas públicas, perpetradas aos bilhões, justamente em ano eleitoral, com o fim de iludir a população”. Eles voltam a afirmar que a edição de decretos de créditos suplementares sem a autorização do Congresso Nacional e a pratica das chamadas “pedaladas fiscais” – atraso de pagamentos da União a bancos públicos para execução de despesas – configura crime de responsabilidade. A defesa nega que os atos imputados a Dilma Rousseff sejam “crime de responsabilidade” e que o processo de “impeachment” foi aberto em um ato político de vingança.    
            Ao apresentar a defesa da presidente Dilma Rousseff  na comissão do “impeachment” na Câmara afirmou que o procedimento que pede o impedimento da presidente é inválido e alegou que não há “crime de responsabilidade” que o justifique. Fez referência clara no início de sua exposição, rememorando aos integrantes da comissão especial que no regime presidencialista adotado pela Constituição de 1988 que a condição do “impeachment” é “uma situação de absoluta excepcionalidade” e que o impedimento é ato jurídico e, portanto, a presidente não pode ser afastada por questões políticas. Portanto, segundo o advogado Geral da União “(exige) que seja um atentado à Constituição, uma violência excepcional, capaz de abalar os alicerces do Estado e que tenha tipificação legal. Portanto, todo um conjunto de ingredientes necessários para a configuração desse processo. Fora desses pressupostos, qualquer processo de impeachment é inconstitucional, é ilegal”.
O advogado-geral da União discursou por quase duas horas na tarde de 05/04/2016, na  Comissão Especial do Impeachment, na primeira parte da apresentação da defesa da presidenta Dilma Rousseff: a que ele expôs os pontos básicos da defesa, sem poder ser interrompido pelos parlamentares. Num dos momentos mais impactantes da peça jurídica apresentada por ele, Cardozo disse que se não houver todos os requisitos básicos apontados como primordiais pela Constituição o “impeachment” é, sim, um golpe. - “É a ruptura da Constituição Federal, a negação de um Estado de direito. Não importa se feito por meio de canhões e baionetas ou por meio do rasgar da lei. É golpe se ofende o Estado democrático de direito. É algo que jamais será perdoado em nossa história, será mal visto internacionalmente”. Para a lisura de um processo a defesa deve ser intimada em todos os atos e a presidenta Dilma não foi intimada para que comparecesse à comissão especial do impeachment até agora, o que ele considera ilegal. Ressaltou, ainda, que há, portanto, “uma clara e indiscutível ofensa ao direito constitucional da defesa”.
O uso da palavra “golpe” para classificar o processo de “impeachment” da presidente Dilma Rousseff erroneamente motivou o ódio do senador ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) ao advogado-geral da União, ministro José Eduardo Cardozo, durante a fase de perguntas na “Comissão Especial do Impeachment”. É membro de uma família de produtores rurais e políticos de Goiás. É neto de Antônio Ramos Caiado. Notabilizou-se por presidir a União Democrática Ruralista de 1986 a 1989, entidade que visa defender a interesses dos produtores agrícolas, destacando a defesa da propriedade privada. Para o senador ruralista, não cai bem a tese por quem, como Cardozo, tem amplo conhecimento do Direito, além da obrigação constitucional de fazer a defesa jurídica de todos os Poderes. - “Vossa Excelência está impedida de usar essa palavra, interditada de usar essa palavra, porque lhe cabe a função de defender a União, ou seja, o Poder Executivo, o Poder Judiciário e o Poder Legislativo”. O pecuarista Antônio Ramos Caiado Filho, tio do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO), está entre os 91 incluídos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) na atualização semestral da relação de empregadores flagrados com trabalho escravo, na “lista suja”. 

              
Entre as preliminares da defesa apresentadas por José Eduardo Martins Cardozo, o ministro citou como primeiro ponto que só existe crime de responsabilidade se houver um atentado à lei maior, que é a Constituição Federal. - “E a Constituição não fala em violação e sim, atentado, ou ato extremo, no caso, um ato de ruptura constitucional. Não é, portanto, qualquer situação de desrespeito à lei que apontará crime de excepcionalidade”. Cardozo destacou ainda que a Constituição deixa claro que os atos apontados como “crime de responsabilidade” devem ser praticados diretamente pelo Presidente da República e atos que não sejam atribuídos a ele, que não decorram da sua competência direta “não qualificam o impeachment”. Num terceiro ponto, acentuou que “para que exista o crime de responsabilidade é necessária a tipificação legal, o que não existe no caso em questão”.
O advogado-geral também afirmou que não podem qualificar para o “impeachment” atos praticados fora do exercício das funções do Presidente da República. E que a configuração do crime exige a ação dolosa do detentor do cargo. A peça jurídica apresentada por José Eduardo Cardozo terminou tendo o dobro do tamanho inicialmente especulado: são 200 páginas com fundamentação técnica rigorosa e explicações de ordem jurídica e política. Portanto, para ele, há “indiscutível, notório e clamoroso desvio de poder” no recebimento do pedido do impeachment. - “Conforme fartamente noticiado pela imprensa, a decisão do presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) não visou à abertura do impeachment, não era essa sua intenção, não era essa a finalidade. Sua Excelência, Eduardo Cunha, usou da competência para fazer uma vingança e uma retaliação à chefe do Executivo porque esta se recusara a dar garantia dos votos do PT no Conselho de Ética a favor dele”. Eduardo Cunha enfrenta processo por quebra de decoro no Conselho de Ética da Casa. De acordo com o ministro, a análise da denúncia mostra que se trata de uma manifestação improcedente.  
Bibliografia geral consultada.
SOMBART, Werner, Le Bourgeois. Paris: Editions Payot, 1926; MALAPARTE, Curzio, “Technique du Coup d’État” (1931). In: Coup D’état: The Technique of revolution, E. P. Dutton & Co., Inc., 1932; ROSENSTOCK, Eugen-Huessy, Die Europäischen Revolutionen und der Charakter der Nationen. Stuttgart; W. Kohlhammer Verlag, 1961; ARON, Raymond, Dimension de la Conscience Historique. Paris: Union Générale d'Édition, 1961; ALTHUSSER, Louis, “Freud et Lacan”. In: La Nouvelle Critique, n° 161-162, Paris, 1965; Idem, “Idéologie et Appareils Idéologiques d` Etat”. In: Pensée. Paris, jun. 1970; Idem, Montesquieu la Politique et L` Histoire. Paris: PUF, 1972; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; HALL, Stuart, “et al”, Da Ideologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980; KONDER, Leandro, A Questão da Ideologia. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2002; FREUD, Sigmund, “Pulsão e os Destinos da Pulsão”. In: Obras Psicológicas. Vol. I. São Paulo: Editora Imago, 2004; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. 1. Racionalidade da Ação e Racionalização Social. São Paulo: Editora VM/Martins Fontes, 2012; Artigo: “Dilma se torna ré no Senado; votação final pode ser dia 23”. In: Diário do Nordeste, 10 de agosto de 2016;  entre outros. 
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE). 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Paulo Coelho – Esoterismo & Antítese Social do Vencedor.

                                                                                                             Ubiracy de Souza Braga*

                                                    “Graças a Deus sou, sim, um vencedor”. Paulo Coelho
                                        
         
          Nascido numa família tradicional, Paulo Coelho ingressa aos sete anos no Colégio Santo Inácio, na enseada de Botafogo no Rio de Janeiro. Cedo mantinha um diário. No colégio, participava de concursos de poesia e cursos de teatro com o colega Paulo Cunha. Na década de 1960, entra para o “mundo do teatro”. Como diretor e ator, criando peças voltadas ao teatro experimental e de Avant-garde, mas obtendo pouca expressividade. No início da década de 1970, entra de ponta-cabeça no movimento hippie, quando conhece o mundo das drogas e do ocultismo, incluindo o chamado “Caminho da Mão Esquerda”, fundamentado na lei filosófica “minha vontade seja feita!”, ao individualismo particular, em oposição ao que se refere o caminho da mão direita: “vossa vontade seja feita!”. Em essência, as duas formas são práticas sociais que buscam o contato com o oculto deus individual e com a sombra ou o poder do inconsciente de Carl Jung por meio de diversas e variadas técnicas mágicas e ritualísticas, que visam a entrar em contato com os aspectos ocultos do Universo e da Divindade. Afirma-se que, por meio de rituais, feitiços, orações ou invocações, e, obviamente considerando a importância e a participação social do feminino e masculino.
Jung ampliou o conceito de inconsciente fazendo uma distinção. Nessa grande região de nossa alma, que é inconsciente, existe o inconsciente pessoal e o “inconsciente coletivo”. O inconsciente pessoal é o que Freud havia estudado. Nele encontramos o que foi recalcado, escondido, esquecido. O que eu vivi e que esqueci, escondi de mim mesmo ou recalquei continua lá. Às vezes reaparece em sonhos, atos falhos ou até em sintomas físicos ou psíquicos. O inconsciente coletivo, por outro lado, não representa o que eu vivi, mas o que a humanidade como um todo viveu. Cada história de vida poderia virar um livro, pois é um relato pessoal sobre sua própria existência. Em outras palavras, trata-se de um testemunho oferecido por um indivíduo em relação às suas vivências pessoais. Ao narrar uma história pessoal e de vida, poderemos notar paralelos: indícios de semelhanças, fatores parecidos, com histórias presentes em mitos, contos de fada, lendas, fábulas, parábolas, etc.         
Paulo Coelho ainda faz excelente uso das mídias sociais, interage com seus leitores e fãs e chamou a atenção quando liberou o download gratuito de seus livros em um site da internet e ainda disse: “Fiquem à vontade para baixar meus livros de graça e, se vocês gostarem deles, comprem uma cópia física - o jeito que nós encontramos de dizer à indústria que ganância não leva a lugar nenhum”. Sérgio Machado da Editora Record sobre Coelho: - Ele virou um craque na negociação e pensa sua carreira sempre três passos adiante. O mago da literatura é também “mago do marketing”. A grande questão não é que deva existir uma unanimidade quanto à obra de Coelho, nem aqui se estabelece que quem o crítica o faz majoritariamente por preconceito já que a experiência literária é algo estritamente pessoal. A falta de padrões no mundo moderno - a impossibilidade de formar novos juízos sobre o que aconteceu e o que acontece todos os dias com base em padrões sólidos, reconhecidos por todos, e de subsumir esses eventos a princípios gerais bem conhecidos, assim como a dificuldade, estreitamente associada, de se proverem princípios de ação para o que deve acontecer agora - tem sido descrita como niilismo inerente à nossa época, como desvalorização de valores, uma espécie de crepúsculo dos deuses, uma catástrofe na ordem moral do mundo. 
Do mesmo modo, ao narrarmos a representação de um sonho, seja na Antropologia ou Psicanálise, encontraremos elementos que são arquetípicos, ou seja, elementos que são coletivos e formam o que. Jung notou, em suas viagens pelo mundo, que um indivíduo que não conhecia (conscientemente) um mito grego, por exemplo, sonhava com ele. Sem que tenhamos conhecimento de uma determinada história mitológica, lenda ou experiência religiosa sonhamos, fantasiamos, vivenciamos elementos parecidos. O importante, para o conceito de inconsciente coletivo, é que participamos todos nós da humanidade. A humanidade inteira está em nós, com seus mitos esquecidos, lendas, fábulas, contos de fadas e experiências.  A consciência só tem como obstáculo o caos, que não é nada. Mas em uma consciência que constitui tudo, ou, antes, que possui eternamente a estrutura inteligível de todos os seus objetos, assim como na consciência empirista que não constitui nada, a atenção permanece um poder abstrato, ineficaz, porque ali ela não tem nada para fazer, além de compreender seu estatuto prático.  A amizade pura, livre e desinteressada dos meninos Bruno e Shmuel mostrou o mundo onde os preconceitos, sejam eles de qualquer categoria, credo, classe,  esmagam a esperança e a vontade de se conviver em paz , mas se a razão, como diz Friedrich Hegel, “é a certeza consciente de ser toda a realidade”, a verdade reside apenas no todo quando as partes se tornam racionais à medida que tomam forma consciente. A consciência não está menos intimamente ligada aos objetos em relação aos quais ela se distrai do que aqueles aos quais ela se volta.
Profissionalmente, atua além de diretor e ator teatral, a função de jornalista em publicações alternativas com as revistas A Pomba e “2001”, quando em 1972 conhece Raul Seixas, então executivo da gravadora CBS, Columbia Records é uma grande gravadora norte-americana de propriedade da Sony Music Entertainment, uma subsidiária da Sony Corporation of America, a divisão norte-americana do conglomerado japonês Sony. Os dois se tornam parceiros em diversas músicas que exerceriam influência no rock brasileiro. Nessa época gloriosa, Paulo Coelho envolve-se com Marcelo Ramos Motta, conhece a Lei de Thelema e no dia 19 de maio de 1974 assina o juramento do grau de “Probacionista da Astrum Argentum”, sob o mote mágico de Frater Luz Eterna. Pouco tempo depois se desligou da Ordem. Foi o responsável por apresentar a Lei de Thelema a Raul Seixas, que fez surgir a partir deste último a “Sociedade Alternativa”. Compõe também para diversos intérpretes, tais como Elis Regina, Rita Lee e outros. Sua obra é referencial tendo sido traduzida para 81 idiomas e lida em aproximadamente 168 países. A grande obra, para o “Probacionista”, é definida como “obter um conhecimento científico da natureza e dos poderes do meu próprio ser”. Ela é definida como um período experimental, durante o qual o indivíduo é testado.
A palavra vem do latim “probare”, “provar”. No Liber 185 o Probacionista é advertido de que esteja atento de que a palavra “probacionista” não é um termo em vão, mas que os Irmãos irão prová-lo de muitas maneiras sutis, quando ele menos esperar. O objetivo essencial do grau probatório é, deste modo, que o aspirante explore uma grande variedade de materiais instrucionais e, principalmente, que encontre seus próprios métodos e estilos de trabalho. Qualquer tentativa de pré-especificar as tarefas devem ser vagas. No esoterismo ao “Probacionista” é dado um  currículo de materiais de estudo, constituído principalmente por todas as publicações em Classe B da A.'.A.'.. - Ele pode escolher quaisquer práticas que preferir, mas em qualquer caso, deve manter um registro exato para que ele possa descobrir a relação de causa e efeito em seu trabalho, e para que a A.'.A.'. possa julgar o seu progresso e direcionar seus estudos posteriores. Em “Eight Lectures on Yoga”, Aleister Crowley descreve como o trabalho das fases iniciais da A.'.A.'. foram desenvolvidos  um método de procedimento o qual será suficientemente elástico para ser útil a todo ser humano: Magia e Yoga. Se nós realizarmos as práticas preliminares, cada um de acordo com sua capacidade, o resultado certamente será a aquisição de uma certa técnica. E mediante a técnica, a linguagem se tornará mais fácil, se nós lembrarmos bem de não tentar discriminar entre estes dois métodos como se eles fossem escolas opostas, mas sim usar um para ajudar um ao outro em uma emergência.
         A edição do seu primeiro livro ocorreu em 1982, intitulado: “Arquivos do inferno”, que não teve repercussão midiática desejada. Lançou o seu segundo livro: “O Manual Prático do Vampirismo”, em 1985, que logo mandou recolher, considerando o trabalho de má qualidade. Conforme suas próprias palavras, afirma: - O mito é interessante, o livro é péssimo. Católico não praticante, em 1986, Paulo Coelho conheceu a viagem de peregrinação pelo “Caminho de Santiago”. Percorreu quase 800 km do sul da França até a cidade de Santiago de Compostela, na Galiza, experiência de que descreveu em detalhes para o seu livro: “O Diário de um Mago”. É com a publicação d`“O Diário” (1987) e “O Alquimista” (1988) que se tornou um grande vendedor de livros, já pela editora Rocco. As estratégias de marketing utilizadas para divulgar as obras foram cruciais para o sucesso. A partir daí, Paulo Coelho passa a ser um escritor conhecido internacionalmente, acumulando sucessos. O Alquimista é uma das mais importantes etnografias literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países e vendeu, até pouco tempo atrás, em torno de 83 milhões de exemplares. O Guinness Book of Records o situa como o autor vivo mais traduzido da história literária. Paulo Coelho vive em Genebra, desde 2007.
Nos anos subsequentes, foram lançados os livros: “Brida” (1990), “As Valkírias” (1992), “Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei” (1994), “Maktub” (1994), “O Monte Cinco” (1996), “Manual do Guerreiro da Luz” (1997), “Veronika Decide Morrer” (1998), “O Demônio e a Srtª Prym” (2000), “Histórias para Pais, Filhos e Netos” (2001), “Onze Minutos” (2003), “O Gênio e as Rosas” (2004), “O Zahir” (2005), “A Bruxa de Portobello” (2006), “Ser Como o Rio Que Flui” (2006), “O Vencedor Está Só” (2008), “O Aleph” (2010), “Fábulas” (2011), “Manuscrito Encontrado em Accra” (2012), data que coincide com o 25° aniversário da publicação de seu livro “O Diário de um Mago”, e “Adultério” (2014). Como escritor, ocupa as primeiras posições no ranking dos livros mais vendidos no mundo. No livro “O Aleph”, narra sua viagem de trem pela Rússia. Vendeu, até 2007, mais de 92 milhões de livros, em mais de 150 países, tendo suas obras copiosamente traduzidas para 66 idiomas, sendo o autor mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos, ultrapassando o libelo marxista Jorge Amado, cujas vendas somam 55 milhões de livros. Paulo Coelho foi considerado pela Revista Época da Rede Globo de televisão, que é a maior empresa do país e, em 2012, a segunda maior emissora de televisão do mundo globalizado, quando Paulo Coelho foi considerado um dos 100 personagens brasileiros mais influentes de 2009.  
Recebeu a comenda de Ordre des Arts et des Lettres (1996), uma condecoração concedida pelo Ministério da Cultura da França que visa recompensar as pessoas que se distinguem pela sua criação no domínio artístico ou literário ou pela sua contribuição ao desenvolvimento das artes e das letras na França e no mundo, onde ouviu do ministro da cultura francês: - “Seus livros fazem bem porque estimulam a capacidade de sonhar, nosso desejo de buscar e de encontrar a nós mesmos nessa busca”. Já quando foi homenageado na 60ª Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 2008 e convidou o então ministro da cultura para participar, este não compareceu. Seu livro: “Veronika decide Morrer” recebeu elogios do consagrado escritor italiano Umberto Eco. O autor também serviu como inspiração para um musical no Japão e peças de teatro na França. Unanimidades não existem,  Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar, lembrava o espetacular dramaturgo Nelson Rodrigues, mas os números e as críticas analíticas comprovam que os brasileiros tendem a ser menos receptivos com a obra. Fernando Morais, autor da biografia do escritor: “O Mago”, cita a frase de Tom Jobim, “Sucesso, no Brasil, é ofensa pessoal”.         
Em 2008, lançou o livro “O Vencedor Está Só”, que fala sobre uma série de assassinatos no Festival de Cinema de Cannes. Nesse livro, Paulo faz uma forte crítica social sobre como a elite se comporta e como somos manipulados por suas ações. Sendo esse o primeiro livro em que Paulo sai do mundo da magia e da religiosidade e entra no mundo do suspense policial, o tema não agradou boa parte dos fãs, mas isso não fez com que o livro também não se tornasse um sucesso de vendas, ao contrário. “O Vencedor Está Só' é, segundo Paulo Coelho, uma radiografia do mundo em que vivemos. A ação, em ritmo acelerado, se passa em 24 horas, durante o Festival de Cinema de Cannes. Produtores, atores consagrados, candidatas a atriz, “top models”, estilistas e um “serial killer”, que comete cinco assassinatos, fazem parte da trama. Tendo como escopo os bastidores da festa em Cannes, o livro apresenta um comentário livre da “superclasse, a elite da elite que define os rumos de nossos dias”. Levando ao leitor detalhes de como vivem e se comportam personagens na vida real, descreve um testemunho da crise de valores de um universo centrado nas belas aparências. A história em sua narrativa se passa em 24 horas, no Festival de Cinema de Cannes, e nesse espaço de tempo, muitas vidas se cruzam.  Todos os personagens estão em busca de algo,  o objetivo da maioria e fazer parte da Superclasse, tem uma chance de ter pode e riqueza e ser famoso. 
         Esse livro, detalha os bastidores desse mundo de luxo, as preocupações, os medos e desejos dessas pessoas que vivem de aparências. E por fim o que acontece com elas, quando chegam ao topo do mundo, muitas vezes sozinhas, mostrado que no fim o vencedor está só. Neste livro uma mulher de cerca de 30 anos começa a questionar a rotina e a previsibilidade de seus dias. Aos olhos de todos, ela tem uma vida perfeita: um casamento sólido e estável, um marido amoroso, filhos doces e bem-comportados, um emprego como jornalista do qual não pode se queixar. Porém já não consegue mais suportar o esforço que precisa fazer para “fingir felicidade” quando tudo o que sente pela vida é uma enorme apatia. Tudo isso muda quando ela encontra um ex-namorado da adolescência. Jacob agora é um raro político bem-sucedido e, durante uma entrevista, acaba despertando nela algo que havia muito ela não sentia: paixão. Agora ela fará de tudo para conquistar esse amor impossível, e terá a angústia para descer o poço das emoções humanas para enfim encontrar sua redenção. - “Quando se vê um homem com uma garotinha as pessoas toleram. Mas, se veem uma mulher casada com um rapaz mais jovem, todos vão julgá-la e a considerar uma aberração”, disse o Paulo Coelho em entrevista à revista de fofocas Contigo, adquirida em bancas de jornais em circulação nas capitais, publicada entre 2 de outubro de 1963 e 7 de dezembro de 2018. Foi comentando o tema do livro. – “Todo mundo pode cair em tentação e ser fraco, mas isso não justifica o fim de um casamento”.  O amor, considerado como desejo de fusão com a alteridade, encontra na expressão de Hegel, talvez seu maior defensor.
A noção de amor tem um papel central na sua filosofia, especialmente nos textos de juventude. Para Hegel, o amor é o impulso inerente do ser vivente em direção à unificação com o outro. Os amantes formam um todo, em que cada um é igual no poder: “somente no amor somos um com objeto, sem que ele domine, ou seja, dominado”, diz ele em uma anotação do verão de 1797. O amor, do jeito que Hegel compreende, é uma unidade equilibrada de opostos e presta um serviço inestimável na história: estabelecer comunhão, comunidade e comunicação entre os seres humanos. O jovem Hegel esperava que o amor representasse a solução para todos os problemas éticos e políticos. Mas o amor também tinha seu inconveniente, pois quem  ama sem razão; tendia a ser possessivo e, por fim, deixaria de amar, também sem razão. Neste sentido, a solidariedade caminha ao lado do amor incondicional, um gesto que não necessita de palmas nem de palco. É simplesmente um ato revolucionário de descoberta “em si”, quando reconhecemos que estamos numa sociedade em que esta palavra ganha cada vez mais sentido, pois é e será sem dúvida um “bem” necessário para quem dá e para quem quer receber. Por se tratar de um sentimento, o amor apresenta-se como algo finito, passageiro, acidental e arbitrário. 
Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.
Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.
A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas ocorrem precisamente nesta esfera metafísica, a do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada para todo o conjunto da vida humana.
É um eterno desafio com a dialética do amor. Mas por que o vencedor está só? Com essa obra, o autor entra na passarela da moda. Existem milhares de prisioneiros de consciência em todos os continentes. A tortura volta a ser tolerada como um método de interrogatório. Os países ricos aparentemente fecham suas fronteiras. Os países pobres assistem a um êxodo sem precedentes de seus habitantes em busca do Eldorado. Os genocídios continuam em pelo menos dois países africanos. O sistema econômico dá mostras de exaustão, e grandes fortunas começam a ruir. O trabalho escravo infantil tornou-se uma constante. Esta prática é considerada uma exploração por muitas organizações internacionais. A legislação trabalhista em todo o mundo proíbe o trabalho infantil. Essas legislações não consideram todo o trabalho das crianças como trabalho infantil: As exceções incluem trabalho de artistas infantis, tarefas familiares, treinamento supervisionado, certas categorias de trabalho, como as de crianças Amish, algumas formas de trabalho infantil comum entre crianças de povos ameríndios e outros. Centenas de milhões de pessoas vivem abaixo da linha crítica da pobreza absoluta. A proliferação nuclear é aceita como irreversível. Surgem novas doenças. Antigas doenças ainda não foram controladas. Mas é este o retrato do mundo em que vivo, indaga o esotérico Paulo Coelho? - Claro que não. Quando resolvi fotografar minha época,  escrevi este livro: “O Vencedor está só”.
 
Bibliografia geral consultada.
HUTTON, Ronald, Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Withcraft. Oxford University Press, 1999; COELHO, Paulo, The Alchemist. San Francisco: Harper Collins Publishers, 1994; Idem, Palavras Essenciais. São Paulo: Editor Vergara e Riba, 1998; Idem, As orillas del río Piedra me senté y lloré. México: Editorial Planeta, 1998; Idem, Il Diavolo e la Signorina Prym. Milano: Editore Romanzo Bompiani, 2000; CAWTHORNE, Nigel, A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004; ALBANESE, Ronaldo, “A Marca do Coelho”. In: Revista Língua Portuguesa. São Paulo: Editor Segmento. Ano I, n° 10, 2006, pp. 37-41; HEGEL, Friedrich, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007;  SALGADO, Ana Helena Seuánez, O Impacto das Novas Tecnologias na Indústria Editorial do Livro. Dissertação de Mestrado em Administração. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008; RIBEIRO, Ivi Furloni, A Auto-ajuda Interdiscursividade em O Alquimista de Paulo Coelho. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Departamento de Linguística e Artes. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2009; OLIVEIRA, Sayonara Amaral de, Na Transversal das Cotações: Um Estudo da Recepção de Paulo Coelho nos blogs do Escritor. Tese de Doutorado. Instituto de Letras. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2010; PIN, Adriana, A Recepção da Obra de Paulo Coelho pela Crítica Literária e pelo Leitor. Tese de Doutorado em Letras. Centro de Ciências Humanas e Naturais. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2014; PEREIRA, Julia Luiza Bento, Mariana Brasil: Um Manuscrito Autobiográfico entre Fronteiras. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2016;  SOUZA, Lucas Marcelo Tomaz de, Construção e Autoconstrução de um Mito: Análise Sociológica da Trajetória Artística de Raul Seixas. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016;  entre outros.   
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).  

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Camilismo – Ideologia, Política & Utilidade de Uso do Estado.

                                                                                                             Ubiracy de Souza Braga*

 “Amici favori, per i nemici la legge”. Maquiavel

        
                 
Na linguagem teórica, as palavras e expressões funcionam como conceitos teóricos. Mas em sua periodização histórica, teórica e ideológica as palavras e expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem a concepção de uma determinada teoria da história. A dificuldade própria da terminologia teórica consiste, pois, em que, por detrás do significado usual da palavra, é preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual corrente nas fontes, nas atas, nos documentos oficiais, no âmbito da formação discursiva. Na sua significação mais geral deve nos permitir a compreensão que tem por efeito o conhecimento de um objeto: a narrativa da história. É assim que a história abstrata ou a história em geral não existem, no sentido exato do termo, mas apenas a história real, ou “como efetivamente ocorreu” (“essen Sie tatsächlich, es passierte”), desses objetos concretos e singulares que enformam a experiência da humanidade.    
A tradição marxista concebe o Estado como um “aparelho repressivo”, uma “máquina de repressão”, ou, “comitê executivo da classe dominante” que permite às classes dominantes assegurar a sua dominação sobre a classe operária, extorquindo desta última a mais-valia. O Estado é, antes de tudo, o “Aparelho de Estado”, termo que compreende não somente o “aparelho especializado”, mas também o exército que intervém como força repressiva de apoio em última instância, o Chefe de Estado, o Governo e a Administração, definindo o Estado como força de execução e de intervenção repressiva a serviço das frações da classe dominante. A rejeição filosófica hegeliana parte da própria negação de “estruturas hegelianas” reproduzidas em Marx, onde a totalidade expressiva de Hegel cede lugar, na análise crítica de Althusser, ao todo-estruturado. É sobredeterminado com níveis de análise e instâncias (instare) relativamente autônomas. Na configuração das esferas de ação há, diferente da lógica dialética, “todos parciais”, sem prioridade de um “centro”. Em nível de análise opera-se a rejeição da “unicausalidade econômica” da história e das lutas sociais e políticas atribuindo-se o nível do discurso como o político e ideológico, o “peso” de instâncias decisivas, dominantes em ser determinantes. 


       Citando o caso da morte do policial civil Alisson Mendonça em uma tentativa de assalto, o governador Camilo Santana do Partido dos Trabalhadores (PT) fez críticas ao Código Penal Brasileiro junto ao “Comitê de Governança do Pacto por um Ceará Pacífico” no Palácio da Abolição (CE). Para o gestor as leis “são frouxas” e permitem que criminosos presos pela Polícia do Estado do Ceará sejam liberados e cometam novos delitos. Camilo Santana citou o homem envolvido na morte do policial, que trocou tiros com Alisson e morreu no local, para exemplificar a crítica. - “Esse cidadão já tinha sido preso várias vezes. Ele tem seis condenações, sendo dois homicídios, e estava solto. Enquanto a Polícia prende, as leis são frouxas. É preciso rever as leis desse país para não permitir que criminosos presos voltem para as ruas e cometam este tipo de crime”.  Mais uma vez o chefe do executivo estadual prometeu marcar uma reunião com a bancada dos deputados federais do Estado para sugerir que apresentem mudanças “mais rigorosas” no Código Penal, na Câmara Federal. 
            A candidatura de Camilo Santana pelo Partido dos Trabalhadores (PT) foi oficializada no dia 29 de junho, em Fortaleza, durante convenção coletiva do PROS, PT e outros partidos aliados à inédita coligação liderada pelo então governador Cid Ferreira Gomes (PRB / PP / PDT / PT / PTB / PSL/PRTB / PHS / PMN / PTC / PV / PEN / PPL / PSD / PC do B / PT do B / SD / PROS). A convenção foi marcada, entretanto, pela indefinição a respeito das indicações aos cargos de senador e vice-governador da coligação. Camilo Santana já havia sido cogitado para o cargo do executivo do Estado, mas não figurava a lista dos favoritos para o cargo, dominado por integrantes do PROS. Camilo Santana foi eleito governador do Ceará em 26 de outubro de 2014. Camilismo é uma ideologia política. Sua vitória foi dada como matematicamente certa antes mesmo da confirmação oficial pelo Tribunal Superior Eleitoral. Faz parte do processo de celular de cooptação estatal. É professor e coordenador da FATEC Cariri. Servidor público federal por concurso público de provas e títulos, ocupou a superintendência adjunta do IBAMA no Ceará em 2003 e 2004. É cidadão honorário dos municípios cearenses de Barbalha, Juazeiro do Norte e Quixeramobim. Foi o deputado estadual mais votado do Ceará em outubro de 2010, com 131.171 votos.  Em 2014, foi eleito o governador do Estado do Ceará. Enfrenta a mais densa greve de professores na Universidade Estadual do Ceará que já ultrapassa 100 dias.               
Camilo Santana chama greve dos professores de “politicagem” e diz que irá acionar a Justiça. Em evento neste sábado (6/09/2016), governador do Estado afirmou que, caso a paralisação dos docentes estaduais não seja encerrada, irá acionar a Justiça para garantir o retorno das aulas. Greve já dura mais de 100 dias. Contraditoriamente Camilo Santana participou da abertura do “Seminário dos Conselhos Comunitários de Defesa Social” em Fortaleza.  Contabilizando mais de 100 dias de duração, a greve dos professores estaduais no Ceará foi comentada pelo governador Camilo Santana, em Fortaleza. Questionado sobre o retorno das aulas durante a abertura do Seminário o governador afirmou que, “caso os docentes da rede de ensino do Estado não retomem as atividades, irá acionar a Justiça para intervir” (Cf. Diário do Nordeste, 06.08.2016). O governador declarou, ainda, que parte da categoria estaria transformando a paralisação em “politicagem”. Segundo ele, em 2015, a categoria recebeu em torno de 13% de aumento salarial. Neste ano, a reivindicação é de 12% de reajuste. Segundo Camilo, dentre as propostas pelo governo do Estado, estão a implantação da lei que reformula o sistema de promoção dos docentes, reajuste de 4% e aumento de 5% na regência dos professores. - “Já oferecemos 9% de aumento e eles não aceitaram porque estão transformando essa greve em uma politicagem por conta das eleições e eu não vou aceitar isso. Não vou permitir que isso prejudique o ano letivo dos alunos do Ceará por essa intransigência de um grupo, uma minoria, que vai lá para a Assembleia, porque o próprio sindicato é contra a greve”, alegou Camilo. – “Se eles não voltarem, vou ter que ir à Justiça. Não posso ficar pagando salário das pessoas sem trabalhar”.       
Metodologicamente falando, virtù é justamente a capacidade do indivíduo de controle das ocasiões e acontecimentos históricos, no âmbito da vida cotidiana, ou seja, da “fortuna”. O político com grande virtù vê justamente na fortuna as condições e possibilidades reais da construção de uma estratégia para controlá-la e alcançar determinada finalidade, agindo frente a uma determinada circunstancia, percebendo seus limites e explorando as possibilidades perante os mesmos. A virtù está sempre analisando a “fortuna” e, portanto, não existe em abstrato, não existe uma fórmula, ela varia de acordo com a situação determinada historicamente. Pois, os fins justificam os meios dentro de uma determinada conjuntura política que sofre influência de outras dimensões como a representação social, a econômica e a moral e cabe ao político com as suas capacidades de análise e de estratégia achar um meio mediante o qual essa conjuntura para realização de um determinado fim.    
No livro “Il Principe” (cap. 25): - “Quanto pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela”, em que Maquiavel explica esses conceitos, ele fala sobre a crença que há em sua época em um “determinismo divino”, o desenvolvimento dos mesmos se opõe a esse determinismo, porém devemos cuidar, pois assim como a fortuna não é determinada e fatalista, mas sim muda de acordo com a conjuntura, a virtù não o simples livre arbítrio, mas sim a escolha certa na hora certa. Nos “Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio”, Maquiavel defende a forma de governo republicana com uma constituição mista, de acordo com o modelo da República de Roma Antiga. Defende também a necessidade de uma cultura política sem corrupção, pautada por princípios morais e éticos. Foram pensados como análise e comentário a toda a obra de Tito Lívio, mas permaneceram incompletos, não passando da primeira década. Esta obra surgiu da vontade do autor de comparar as instituições da Antiguidade, em especial às da Roma clássica, com as de Florença no período. Assim, seguindo a obra de Tito Lívio, analisa como surgem, se mantém e se extinguem os Estados. Ficou assim dividido em três partes, estudando na primeira a fundação e a organização, em seguida o enriquecimento e a expansão e por fim sua decadência. 
Para ele, a “natureza humana” seria “essencialmente má” e os seres humanos querem obter os máximos ganhos politicamente a partir do menor esforço, apenas fazendo o bem quando forçados a isso, contrariando Thomas Hobbes, para quem a “condição da natureza humana e as leis divinas exigem um cumprimento inviolável”, ou, John Locke, “dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir permissão ou depender da vontade de qualquer outro homem”. De acordo com o conceito aceito pela ciência moderna, “natureza humana” é a parte do comportamento humano que se acredita que seja normal e/ou invariável através de longos períodos de tempo e de contextos culturais dos mais variados. Assim a chamada “natureza humana” também não se alteraria ao longo da história social do ocidente fazendo com que seus intérpretes e debatedores contemporâneos agissem da mesma maneira que os antigos romanos e que a história dessa e de outras civilizações servissem de exemplo. Falta-lhe quiçá um senso das mudanças históricas. Como consequência acha inútil imaginar Estados utópicos, nunca antes postos em prática, se já não é um truísmo e prefere pensar no real concreto.
           O governador do estado do Ceará está estatisticamente enfrentando alguns dos piores indicadores sociais do país. Com 8,7 milhões de habitantes, o Estado do Ceará tem o 3º maior índice de homicídios do Brasil, com taxa de 44,6% de mortes por 100 mil habitantes, segundo dados comparativos do Mapa da Violência (cf. WISELFISZ, 1998; 2014), do Instituto Sangari. A média nacional é de 29 mortes a cada 100 mil habitantes. Em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, Camilo Sobreira Santana tem afirmado que vai criar o programa: “Em Defesa da Vida”, interiorizando o policiamento. O político petista também vem reiterando que vai atuar “de forma integrada, com as demais políticas públicas, atuando de forma sistêmica no território, criando nos locais mais vulneráveis ações relacionadas a segurança, saúde, educação, emprego e infraestrutura pública, envolvendo as secretarias de governo”. Igualmente na economia de renda e empregos, o governador eleito fala em interiorizar as oportunidades e fazer o Estado crescer de forma “mais equitativa, do ponto de vista geográfico”.  O governador tem afirmado que vai “ampliar e fortalecer as ações articuladas com o governo federal, governos estaduais e governos municipais, visando a consolidação de programas e projetos estratégicos para a economia e o desenvolvimento regional e local”.
Desnecessário dizer, que o filósofo Benedito de Espinoza, também  chamado Bento de  Espinoza, foi o primeiro em todos os tempos a suscitar o problema do ler, e, por conseguinte do escrever, tenha sido também o primeiro no mundo a propor simultaneamente uma teoria da história e uma filosofia da opacidade do imediato. Que temos nele pela primeira vez no mundo que um homem tenha ligado a essência do ler e a essência da história numa teoria da diferença entre o imaginário e o verdadeiro - eis o que nos faz compreender por que é por uma razão necessária que Marx só pôde se tornar Marx fundando uma teoria da história e uma filosofia da distinção histórica entre a ideologia e a ciência e que em última análise essa fundação se tenha consumado na dissipação do que se chama “mito religioso da leitura”. Por mais paradoxal que possa parecer a expressão “o que é ler”, é possível afirmar que na cultura ocidentalizada da história humana nosso presente corre o risco de aparecer um dia como que assinalado pela provação mais dramática e mais laboriosa possível.
            A descoberta e o aprendizado do sentido dos atos mais “simples” da existência: ver, escutar, falar, ler. Não é à psicologia que devemos estes conceitos perturbadores, mas a homens como Marx, Nietzsche e Freud. Depois de Freud é que começamos a suspeitar do quer-dizer o escutar, e, portanto o falar (e o calar) e o que quer-dizer do falar e do escutar revela, sob a inocência do falar e do escutar, a profundidade de uma fala inteiramente diversa, a fala do inconsciente.  Para Louis Althusser, ou Michel Foucault, deveríamos começar a suspeitar do que, pelo menos em teoria, ler e, portanto escrever “quer dizer” (“veut-dire”). Isto porque podemos justamente apreender nele, não somente no que ele diz, mas no que faz a própria passagem de uma primeira ideia e prática de leitura a uma nova prática de leitura e a uma teoria da história capaz de nos fornecer uma nova teoria do ler. E melhor, “deixar que se diga” implica que se renunciou ao projeto de deter, em qualquer nível que seja, o que o enunciado do texto “quer dizer” ou “queria dizer”. Melhor dizendo  enquanto a Representação acredita “falar-sobre”, essa fala sempre é situável no desenvolvimento daquilo “que se fala”. Ou noutra possibilidade do que é que se dizia, portanto, no que era dito? Ou ainda a possibilidade do dito: no que é que aquilo que era dito, era portanto, fatalmente (mal)dito, pelo fato de que ele era expresso?
            Daí, toda a fragilidade no sistema de interpretação de categorias e conceitos, que constitui o conhecimento, reduzir-se à fraqueza psicológica do “ver”. São as omissões do ver que explicam as suas equívocos, do mesmo modo, por uma necessidade peculiar, será a acuidade do “ver” o que há a explicar suas visões: de todos os conhecimentos reconhecidos. Atingimos assim a compreensão da determinação do visível como visível, e conjuntamente do invisível como invisível, e do vínculo orgânico que une o invisível ao visível concreto. Assim, é visível todo objeto ou problema que se situa no terreno, e no horizonte, isto é, no campo estruturado definido da problemática teórica de determinada disciplina teórica. Impõe-se-nos tomar essas palavras ao pé da letra. Alguns autores ajudam-nos a elucidar esses termos. A visão já não é então o fato de uma pessoa individual, dotada da faculdade de “ver” a qual é exercida quer da atenção, quer da distração. A  vista é o fato imediato de suas condições estruturais. A vista é a relação de reflexão imanente do campo da problemática sobre seus objetos e seus problemas. A visão perde então seus privilégios religiosos da “leitura sagrada”. Nada mais é que a reflexão da necessidade imanente que liga o objeto ou o problema às suas condições de existência, que têm a ver com as condições de sua produção. Não é mais o olho do espírito que vê o que existe no campo definido por uma problemática teórica. E esse próprio campo que se vê nos objetos, ou nos problemas que ele define, sendo a visão apenas a reflexão necessária do campo de análise em seus objetos.
Esta renovação na explicação marxista dos processos sociais “superou” efetivamente os extremismos de se imputar invariavelmente a “causa econômica” a todos os acontecimentos sociais e políticos, negando-se a realidade dos fatos sociais ou invertendo-se a sua lógica. A rejeição da totalidade expressiva hegeliana, que nos marxistas anteriores significava “determinação e dominância” só do econômico, ganha assim estatuto teórico e respeitabilidade na análise social. Althusser interpreta o político dominando historicamente sobre (às vezes até contra) o econômico na sociedade. Isto é importante do ponto de vista analítico e opera uma distinção no âmbito da formação de uma Teoria das Ideologias. Seu ensaio mais conhecido é “Idéologie et appareils idéologiques d'état”(1970), onde precisa: a) o conceito de ideologia, e, b) relaciona o marxismo com a psicanálise. A ideologia, deriva dos conceitos do inconsciente e da “fase do espelho” de Freud e Lacan, respectivamente, e, c) descrevendo as estruturas e sistemas sociais que permitem um conceito significativo do Eu. Estas estruturas são tanto agentes de repressão quanto são inevitáveis - é impossível escapar das ideologias ou não ser-lhes subjugado: a) pela interpelação, b) o reconhecimento, c) a sujeição e d) os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), são quatro categorias básicas.
 
Bibliografia geral consultada.

ALTHUSSER, Louis, “Idéologie et Appareils Idéologiques d`Etat. Notes pour une Recherché”. In: La Pensée, nº 151, 1970; KURT, Lenk, El Concepto de Ideología. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1971; BAECHLER, Jean, ¿Qué es la Ideología? Buenos Aires: Ediciones Paidós, 1998; LACLAU, Ernesto, Política e Ideología en la Teoría Marxista: Capitalismo, Fascismo, Populismo. México: Siglo Veintiuno Editores, 1978; Idem, La Razón Populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2005; CASTRO, Alice Viveiros de, O Elogio da Bobagem – Palhaços no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005; LUHMANN, Niklas, “L’Opinione Pubblica”. In: Stato di Diritto e Sistema Sociale. Napoli: Guida Editori, 1978; Idem, “Remarques Préliminaries en Vue d’une Théorie des Systèmes Sociaux”. In: Critique, nº 413; 1981; Idem, La Sociedad de la Sociedad. México: Editor Herder, 2007; Idem, Risk: A Sociological Theory. New Brunswick/New Jersey: Transaction Publishers, 2008; MICHELS, Robert, Los Partidos Políticos. Un Estudio Sociológico de las Tendencias Oligárquicas de la Democracia Moderna. 2ª edición. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2008; HOBSBAWM, Eric, “Perché Marx Sopravvive alla Fine del Comunismo”. In: http://www.corriere.it/11_maggio_2011; WAISELFISZ, Julio Jacobo, Mapa da Violência 2014. Os Jovens do Brasil. Rio de Janeiro: Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2014; Artigo: “Camilo Chama Greve dos Professores de Politicagem e Diz que irá Acionar a Justiça”. In: http:diariodonordeste.verdesmares.com.br/06/08/2016; MELO, Elderson Melo de, O Riso Invade a Educação: Uma (Des) proposta para a Pedagogia do Cômico. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016;  MONTE, José Cleyton Vasconcelos, Os Caminhos do Poder no Ceará: A Política de Alianças nos Governos Cid Gomes (2007-2014). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2016; entre outros.

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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais.Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE). 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Questão Argelina – Política, Afeto & Movimento Celular.

                                                                                                             Ubiracy de Souza Braga*
                                                                                                   
                    “En la calle, en Orán, se hablaba sobre todo español". Marcelino Camacho

                         

O território da Argélia constituiu-se o centro do império otomano na África do Norte no século XVI. As populações tribais mantiveram suas culturas ao permanecerem no interior da Argélia, pois a dominação otomana ocorria principalmente nos meios urbanos. No século XIX a Argélia foi invadida pela França. Através da tática de criar colônias agrícolas militares que seriam bases de provisões junto às áreas de luta, os franceses procuraram minar a resistência nativa. Destruindo a agricultura árabe em razias com uma violência sem precedentes que não poupava mulheres e crianças.  Apesar do bombardeio e pilhagem das aldeias, os berberes, sob a liderança de Abd-el-Kader, não se renderam e foram expulsos para o sul. Kader foi preso na fronteira com Marrocos em 1847, quando franceses apoiados na antiga administração turca defenderam a participação árabe no governo, iniciando-se uma fase de “negociações” às instituições locais. Em 1845, embora persistisse a insegurança, 40.000 colonos franceses haviam se estabelecido na Argélia. Em 1850 eram 110.000 o número de colonos, entre franceses, italianos e espanhóis.  O berbere, perdendo a terra, tornou-se o proletário rural, em meio a miséria social, econômica e brutalidade da política.
O governo de Napoleão III demarcou uma forte militarização na Argélia. Dissolveu o sistema de propriedade tribal, fixando árabes e berberes em minifúndios e aumentando a miséria dos agricultores. Em 1870, a região da Kabilia revoltou-se. Reprimida a insurreição, os colonos franceses apossaram-se de 500.000 hectares em detrimento da população árabe. Em 1918 um grupo de intelectuais árabes, “os Jovens Argelinos” se organizam baseando-se em ideias nacionalistas, reivindicando melhorias para a população árabe. Nos anos 1930 já se falava em supressão do governo francês e igualdade entre nativos e europeus, mas foi após a 2ª guerra mundial que a “questão argelina” agravara-se, pois, na medida em que a França deu aos colonos o direito de se estabelecerem nas melhores terras, quando mais de 1.500.000 famílias berberes não possuíam terras, provocou êxodo rural e miséria, agravando-se os problemas nas áreas metropolitanas e fazendo com que um décimo da população vivesse, então, da “caridade” pública. Nesse ambiente surge a chamada “Questão Argelina”, um dos maiores problemas internacionais do pós-guerra. Em maio de 1945 houve uma grande chacina de civis argelinos por soldados franceses, no massacre de Setif. A repressão francesa é intensa, militares admitem entre 6 e 8 mil mortos, nacionalistas falam de 40 a 50 mil. Em 1º de novembro de 1954, foi anunciada oficialmente a Revolução Argelina.


Sociologicamente falando os movimentos de Libertação Nacional são aqueles movimentos de caráter nacionalistas que pretendem a Independência política ou económica de um território, denunciando a opressão e a dependência nacional sob regimes coloniais, neocoloniais, racistas ou de ocupação militar. Amiúde, os movimentos de libertação nacional aderiram a programas de libertação nacional que incluíam a nacionalização de setores básicos da economia e também medidas de limitação ou restrição das atividades de empresas multinacionais. Diferentes organizações têm utilizado o conceito “Movimento de Libertação Nacional” no seu próprio nome, como acontece no caso do “Movimento de Libertação Nacional” – Tupamaros (MLN-T) do Uruguai ou o “Movimento de Libertação Nacional Basco” (MLNB). Outras organizações, embora não o utilizem, mantêm claramente as mesmas características, como no caso do FLN, EZLN, o IRA, as FARC ou o EGPGC.
Guerre d'Algérie foi um movimento de libertação nacional da Argélia do domínio francês, que tomou curso entre 1954 e 1962. Caracterizou-se por ataques de guerrilha e atos de violência contra civis - perpetrados tanto pelo exército e “pied-noirs” (colonos franceses) quanto pelo Front de Libération Nationale - FLN e outros grupos argelinos pró-independência. – “Tras ocho años de contienda, con dos intentonas golpistas y cerca de medio millón de muertos, en su abrumadora mayoría argelinos, Argelia será el último país del Magreb en acceder a la independencia el 3 de julio de 1962” (cf. Cembrero, 2004). O governo interino francês considerava criminoso ou terrorista todo ato de violência cometido por argelinos contra franceses, sobretudo militares. No entanto, alguns franceses, como o antigo guerrilheiro antinazista e advogado Jacques Vergès, compararam a Resistência francesa à ocupação “nazi” com a resistência argelina à ocupação francesa.  
Uma campanha de atentados antiárabes (1950-1953) havia sido praticada por colonos direitistas, desencadeando, em contrapartida, a luta lançada pela FLN em 1954, apenas dois anos antes dos franceses serem obrigados a desistir do controle sobre a Tunísia e Marrocos. O principal rival argelino da FLN tendo como escopo o mesmo objetivo de independência para a Argélia era o Mouvement National Algérien - MNA, criado posteriormente, cujos membros principais eram constituídos por trabalhadores argelinos em França. A FLN e o MNA lutaram entre si durante quase toda a duração do conflito. Na madrugada de 1º de novembro de 1954, militantes da FLN lançaram ataques em vários locais da Argélia, contra instalações militares, postos de polícia, armazéns, infraestrutura de comunicações e serviços de utilidade pública. O general Raoul Salan argumentou que aderiu ao golpe de Estado sem se preocupar com o seu planejamento técnico, no entanto, sempre foi considerado como um dos quatro homens do golpe, ou como De Gaulle notoriamente classificou, "un quarteron de généraux en retraite". Foi, contudo, politicamente quem estrategicamente comandou a oposição ao processo de descolonização da Argélia.

                                                
Foi criado em 1º de novembro de 1954 como uma fusão de pequenos partidos, com o objetivo de obter a independência da Argélia frente à França. O partido representou parte do corpo revolucionário que dirigiu a guerra pela independência. A FLN foi criada pelo Comitê Nacional de Unidade e Ação. Este comitê pretendia unir todas as facções de luta contra a França. Em 1956 quase todas as organizações nacionalistas na Argélia tinham se juntado à FLN. Nesse mesmo período a FLN se reorganizou em um governo provisório. Consistia de 5 homens fortes e um corpo legislativo. A guerra continuou até março de 1962, quando o governo francês assinou um cessar-fogo com a FLN, como parte dos Acordos de Évian. Em julho do mesmo ano, a população argelina votou em um referendo que aprovava o cessar-fogo com a França e concordava com a cooperação econômica e social entre os dois países.
Após a independência, o partido sofreu uma cisão. Um departamento político foi criado por Ahmed Ben Bella, pelo Coronel Houari Boumédiène e por Muhammad Khidr. Foi o primeiro presidente da Argélia e principal líder da guerra da Argélia pela independência em relação à França. Teve uma breve passagem como futebolista no Olympique de Marseille entre os anos 1939 e 1940 e também pelo IRB Maghnia. Ben Bella se tornou líder do partido em 1963, mas, em 1965, foi derrotado por Boumédiène, que manteve o controle do partido até a sua morte, em 1978, quando o partido reorganizou suas estruturas, as quais se mantiveram inalteradas desde então. A FLN foi o partido único na Argélia até o fim dos anos 1980, quando a Constituição argelina foi modificada e instaurou o sistema multipartidário. O processo político decisivo para a independência do país teve início em 1954, embora Ben Bella e outros já se encontrassem empenhados nesse objetivo desde vários anos antes.
Ben Bella e os líderes nacionalistas argelinos residentes no Egito encontraram-se secretamente na Suíça, onde criaram o movimento FLN e decidiram realizar a insurreição contra os franceses. Em 1956, Ben Bella foi preso depois de ter escapado com vida a dois atentados, um no Cairo e outro em Trípoli. Foi posto em liberdade em 1962, ano da independência. Em 1963, o país encontrava-se numa situação grave e Ben Bella foi eleito, aparentemente sem oposição, para a presidência da Argélia com imensa maioria. Restabeleceu a ordem no território, operou um conjunto de nacionalizações e programou uma reforma agrária, encaminhando o país para uma economia socialista. Ben Bella foi o primeiro chefe de Governo e o primeiro presidente eleito (1963-1965) da República da Argélia. Em 1965, foi deposto, na sequência de um golpe de Estado. Passou dez anos no exílio e regressou ao seu país em 1990, quando a Frente de Salvação Islâmica estava no poder. Ben Bella conseguiu o apoio de seis partidos políticos e, um ano depois, convocou eleições. Seu partido perdeu as eleições de 1991 para a FSI. Ahmed Ben Bella morreu em 11 de abril de 2012.
Uma guerra colonial que ocorreu há 50 anos não é justificativa para assassinatos em massa, mas fornece um contexto sem o qual nenhuma explicação do porquê dos ataques terem ocorrido na França faz qualquer sentido. A identidade franco-argelina de um dos agressores demonstra o quanto a selvagem guerra da França na Argélia (1956-1962) segue influenciando as atrocidades de hoje. A recusa absoluta de considerar o papel da Arábia Saudita como fornecedora da seita Wahabi-sunita, a mais extremista do Islã, na qual o Exército Islâmico (EI) acredita, pois demonstra como seus líderes ainda se recusam a reconhecer ligações entre o reino e a organização política que atingiu Paris. E nessa relutância total em aceitar que a única força militar oficial em constante combate com o EI é o exército sírio - que luta por um regime social e político que a França também deseja destruir - o que para eles significa que não podem entrar em contato com os impiedosos soldados que estão em ação contra o EI, ainda mais politicamente organizados do que os curdos.
 Sempre que o Ocidente é atacado e nossos inocentes são mortos, nosso banco de memória é apagado. Assim, quando os repórteres nos dizem que os 129 mortos em Paris representam a pior atrocidade na França desde a II Guerra Mundial, eles não mencionam o massacre em Paris de até 200 argelinos que participavam de uma marcha ilegal contra selvagem guerra colonial da França na Argélia. A maioria foi assassinada pela polícia francesa, muitos foram torturados no Palais des Sports, tendo seus corpos lançados no rio Sena. Os franceses apenas assumem 40 mortos. O oficial de polícia encarregado era Maurice Papon, que trabalhava para a polícia colaboracionista de Pétain na 2ª guerra mundial e deportou mais de hum mil judeus para a morte. Omar Ismail Mostafai, um dos assassinos-suicidas em Paris, tem origem argelina – e também podem ter os demais suspeitos nomeados. Uma fonte oficial da Turquia disse ao The Guardian que as autoridades turcas enviaram dois avisos sobre o suicida bombista Omar Ismail Mostefai, em dezembro de 2014 e junho de 2015, mas que só receberam um pedido de informações sobre ele depois dos atentados em Paris. A fonte oficial turca revelou que Mostefai entrou na Turquia em 2013, não existindo nenhum registo sobre o momento em que ele abandonou o país. Em 2014 o país recebeu um pedido de informações sobre quatro suspeitos de terrorismo, sendo que Omar Ismail Mostefai não estava entre eles.




 
Os irmãos Said e Cherif Kouachi, acusados do massacre na revista satírica Charlie Hebdo, fazem parte de um grupo de jovens muçulmanos franceses doutrinados nos anos 2000 em Paris. Ambos estiveram vinculados à chamada rede de Buttes-Chaumont, o nome de um parque do norte de Paris, onde os integrantes faziam exercícios físicos e recrutavam combatentes para a jihad ("Guerra Santa") no Iraque. Depois de desbaratar a rede, a polícia descreveu Cherif Kouachi como um jovem que odiava os infiéis e que tinha a intenção de agir na França. Em 2008 foi julgado e condenado a três anos de prisão, com 18 meses de pena condicional. Said, seu irmão mais velho, mais discreto, esteve no Iêmen em 2011, onde recebeu treinamento militar, segundo uma autoridade norte-americana. Cherif e Said Kouachi, os irmãos que mataram os jornalistas da Charlie Hebdo, eram também de ascendência argelina. Eles vieram da comunidade argelina de cinco milhões de pessoas na França, para muitos dos quais a guerra da Argélia nunca terminou, e que vivem hoje nas favelas de Saint-Denis e outros bairros argelinos de Paris. No entanto, a origem dos 13 assassinos de novembro - e a história da nação de onde seus pais vieram - tem sido largamente suprimida da narrativa em torno dos acontecimentos horríveis e fatais. Um passaporte sírio com um selo grego é mais interessante, por razões óbvias. Assim, também, a seita Wahabi-sunita da Arábia Saudita, que é uma fundação do chamado "califado islâmico" e de seus assassinos pragmáticos. Mohammed ibn Abdel al-Wahab era o clérigo purista e filósofo cujo desejo de expurgar os xiitas e demais infiéis do Oriente Médio levou aos massacres cruéis ocorridos no  século 18 em que a original dinastia al-Saud estava profundamente envolvida em banhos de sangue. O Estado Islâmico terrorista formado por sunitas, pretende criar um califado onde estão os territórios da Síria e do Iraque. Minorias das regiões, como católicos e yazidis, estão deixando suas moradias nesses países para fugir do conflito com os extremistas.
Bibliografia geral consultada.

EAGLETON JR., William, The Kurdish Republic of 1946. London: Oxford University Press, 1963; Idem, La république kurde.  Bruxelles:  Éditions Complexe, 1992; LENIN, Vladimir, L`État et la Révolution. Édition en Langues Étrangère. Pékin, 1966; Idem, “Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento”. In: Obras Escolhidas. 2ª edição. São Paulo: Editora Alfa-ômega, 1982; FRONT NATIONAL, “Défendre les Français. C’est le programme du Front National”. In: Supplement to Front National, n° 3, february 1973; CHIROUX, René, L’Extrême-droite sous la Ve République. Paris: Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence, 1974,  n° 419; GONZALES, Horácio, Albert Camus a libertinagem do sol. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983; MARAN, Rita, Torture. The role of  ideology in the French-Algerian war. New York: Prager Publishers 1989; CEMBRERO, Ignácio, “El Doble Juego de Franco en la Guerra de Argélia”. Disponível em: http://elpais.com/diario/2004/10/31; Pierre Abramovici, Le Putsch des Généraux. Paris: Editions Fayard
, 2011; JAUFFRET, Jean-Charles; VAÏSSE, Maurice, Militaires et Guérilla dans la Guerre d'Algérie. Bruxelles: André Versaille Éditeur, 2012; ANDRADE, Guilherme Ignácio Franco de, “A Organização Armada Secreta: A Participação da Extrema Direita Francesa na Luta Armada durante a Guerra da Argélia (1954 - 1962)”. In: Revista Contemporânea. Dossiê Guerras e Revoluções no Século XX. Ano 5, n° 8, 2015, volume 2; entre outros.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado do curso de Ciências Sociais do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE).