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sábado, 28 de setembro de 2024

Liberdade Subjetiva, Cultura & Obscuridade no Mundo Contemporâneo.

                                        A filosofia hoje não está mais em posse de verdades metafísicasJürgen Habermas 

 

Os traços obscuros têm muito mais em comum do que coisas que os diferenciam. O conhecimento sobre esse núcleo obscuro, disse Ingo Zettler, pode ter um papel crucial para os terapeutas que trabalham com pessoas com essas características, um dos pesquisadores e professor de psicologia na Universidade de Copenhagen, na Dinamarca. - Vemos isso, por exemplo, em casos de violência extrema, descumprimento de normas, mentiras. O conhecimento sobre o fator D de uma pessoa pode ser uma ferramenta útil para avaliar a probabilidade de que ela volte e cometer o ato ou faça coisas ainda mais grave. O fator D é “a tendência geral a maximizar a utilidade individual sem levar em conta ou provocar de forma mal-intencionada a falta de utilidade para os outros, isso tudo acompanhado de crenças que servem como justificativas”, diz o Relatório. Dito de outro modo, o fator D é o “hábito de colocar nossos próprios objetivos e interesses na frente dos de outras pessoas, sentindo até prazer pelo fato de fazer mal aos outros”. Essa tendência costuma vir acompanhada de desculpas ou justificativas que servem para evitar sentimento de culpa ou vergonha. No estudo, que acabava de ser publicado na revista Psychological Review, uma revista acadêmica bimestral revisada por pares que cobre a teoria psicológica. Os pesquisadores perguntaram a mais de 2.500 pessoas até que ponto se mostravam de acordo com afirmações como “às vezes vale a pena sofrer um pouco para ver alguém sofrer o castigo que merece” e “sei que sou especial porque todos dizem isso”. Também perguntaram aos membros participantes sobre a questão da sua agressividade, impulsividade e comportamento egoísta ou pouco ético.

Há mais de 100 anos Charles Spearman (1863-1945) afirmou que a inteligência humana é composta pelo chamado fator G. Segundo a teoria do psicólogo inglês, o fator G explica por que é provável que as pessoas que tiram notas altas em um tipo específico de provas também se saiam bem em outros testes. Um século depois, especialistas dizem que essa mesma tendência também pode ser usada para explicar a “malevolência” ou o “lado obscuro” das pessoas. E também lhe deram um nome. Trata-se do fator D. Uma nova pesquisa conduzida por uma equipe de psicólogos da Alemanha e da Dinamarca sugere que características psíquicas como egoísmorancor sadismo têm um mesmo denominador comum. Ainda que nos pareça mais normalmente que uma pessoa seja egoísta e não um psicopata, o certo é que o estudo demonstra que todos os aspectos obscuros da personalidade humana estão relacionados e se baseiam numa mesma tendência. Em outras palavras, se você tem um desses traços psíquicos, é provavelmente normal que desenvolva os outros. Isso representa um significado, segundo os pesquisadores, que se uma pessoa exibe um comportamento maldoso, como por exemplo, o gosto por humilhar os outros, terá maior probabilidade de fazer outras coisas maldosas, como enganar, mentir ou roubar, o que não é incomum no cotidiano.  

De todo modo a patologia nos apresenta um grande número de estados em que a delimitação do Eu ante o mundo externo se torna problemática, e nos faz lembrar a expressão de despedida de Gilles Deleuze (1925-1995) que tomamos de empréstimo, através das palavras, entre as palavras, que se vê e que se ouve: - “A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”. Ipso facto, no prefácio à 2ª edição da obra Da Divisão do Trabalho Social, de Émile Durkheim (2010) lembra-nos da ideia que ficou na penumbra na primeira edição e que parece útil ressaltar e determinar melhor, pois ela esclarecerá melhor algumas partes do presente trabalho. Trata-se do papel que os agrupamentos profissionais estão destinados a desempenhar na organização social dos povos contemporâneos. Mas o que proporciona, particularmente excepcional gravidade a esse estado é o desenvolvimento desconhecido, que as funções econômicas adquiriram nos últimos dois séculos. Estamos longe do tempo em que eram desdenhosamente abandonadas às classes inferiores, pois diante delas, vemos as funções militares, administrativas, religiosas recuarem cada vez mais. Somente as funções científicas, adverte o sociólogo, que encetou sua obra magnífica em torno de dez anos de produção ininterrupta, de reconhecimento, estão em condição de disputar-lhes o lugar – e ainda assim, a ciência só tem prestígio na medida em que pode servir à prática, isto é, em grande parte, às “profissões econômicas”. É por isso que se pode dizer  neste estágio de desenvolvimento que elas são essenciais meios de trabalho industriais.

Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão técnica do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade. É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número disciplinar de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim, como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o formado pelos agentes da mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Não sem razão, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais do que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais.

        A teoria da personalidade - mutatis mutandis - tem por objetivo organizar o conhecimento a respeito da personalidade de tal maneira que a grande quantidade de informação gerada pela pesquisa científica seja organizada de maneira sistemática e coerente e novas hipóteses de trabalho possam ser geradas para uma posterior comprovação. A personalidade tem como representação social uma construção pessoal que decorre ao longo da nossa vida, e uma elaboração da nossa história social e política, da forma que sentimos e interiorizamos as nossas experiências, acompanhamento e a reflexividade na maturação psicológica. A personalidade é um processo ativo e que intervém em diferentes fatores. Diversos autores se dedicaram à pesquisa da personalidade, cada um com ênfases teóricas e metodológicas diferentes, o que os levou muitas vezes a resultados felizes completamente distintos. A cultura é o determinante subjacente da tomada de decisão humana. Geralmente determina a atitude em relação à independência, agressão, competição e cooperação. Cada cultura espera e treina seus membros para se comportarem de maneira aceitável para o grupo.  As primeiras teorias da personalidade surgiram em um contexto clínico e com um fim muito prático: oferecer um fundamento teórico para os transtornos mentais e seu tratamento.

As teorias subsequentes, mesmo não tendo se originado em um contexto clínico, oferecem também novas possibilidades para a psicoterapia. A capacidade de determinada teoria de guiar e enriquecer a prática terapêutica é um dos principais elementos para uma avaliação da relevância dessa teoria. Além de descrever e explicar a estrutura, os processos dinâmicos, o desenvolvimento e as possibilidades sociais de mudança da personalidade, uma teoria da personalidade termina, por sua própria natureza, tocando e tendo de se posicionar em outros temas da maior relevância que, no entanto, ultrapassam o âmbito da psicologia da personalidade. Psicologia da personalidade ou psicologia diferencial é a parte da psicologia que se dedica a descrever e explicar as particularidades humanas duradouras, não patológicas e que influenciam o comportamento dentro de uma determinada população. Personalidade tem como representação social o conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir, ou seja, a individualidade per se pessoal e social.

            A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único a cada indivíduo. Encontrar uma exata definição para termo personalidade não é uma tarefa simples. O termo é usado na linguagem comum - isto é, como parte da psicologia do senso comum, com diferentes significados, e esses significados sociais costumam influenciar as definições científicas do termo. A psicologia do senso comum ou da vida quotidiana (Alltagspsychologie), representa um conjunto de crenças e convicções sobre o comportamento e as experiências humanas, e não por acaso, muitas vezes também é chamada de “psicologia ingênua” ou naive, é usada para indicar precisamente a conclusão de uma ideia: um sistema de convicções culturalmente transmitidas a respeito do comportamento e das experiências pessoais humanas e suas causas sociais. Em outras palavras, representa o conjunto de teorias e concepções sociais que cada pessoa tem a respeito de como o ser humano funciona socialmente. Essas teorias e convicções sociais na sociedade contemporânea estão profundamente arraigadas no ser humano e servem de base racionalmente para as decisões que as pessoas tomam em seu no dia-a-dia.       

           Charles Edward Spearman (1863-1945) foi um psicólogo inglês reconhecido pelo seu trabalho na área da estatística, como um pioneiro da análise fatorial e pelo coeficiente de correlação de postos de Spearman. Ele também fez bons trabalhos de modelos da inteligência humana, incluindo a descoberta de que escores em testes cognitivos incompatíveis exibiam um fator geral único, batizado de fator “g”. Spearman tinha um perfil incomum para um psicólogo. Após 10 anos como um oficial do Exército Britânico, ele se demitiu para fazer um doutorado em psicologia experimental. Na Inglaterra a Psicologia era compreendida como uma área da Filosofia. Spearman escolheu estudar na Universidade de Leipzig sob a orientação de Wilhelm Wundt (1832-1920), talvez porque não tivesse qualificações convencionais e porque a Universidade de Leipzig tinha exigências de matrícula liberais. Ele começou em 1897 e, após uma interrupção quando ele foi convocado pelo Exército Britânico durante a Guerra da África do Sul, obteve o grau de doutor em 1906. A essa altura, já tinha publicado seu artigo notório sobre a Análise Fatorial da Inteligência (1904). Spearman encontrou-se com o psicólogo William McDougall (1871-1938) e impressionou-o a ponto de deixar Spearman sucedê-lo na extaoredinária University College London. O gratificante é que Spearman ficou até a sua aposentadoria, em 1931. Inicialmente foi Reader e chefe de pequeno laboratório de psicologia. Em 1911, foi promovido à Grote professorship of the Philosophy of Mind and Logic. Ipso facto seu título acadêmico mudou para Professor de Psicologia, em 1928, quando foi criado um Departamento de Psicologia. 

      Jürgen Habermas (2015) chama-nos atenção para o fato socialmente de que da mesma maneira que os desenvolvimentos internacionais não se ajustavam à concepção anticomunista, tampouco internamente a mobilização que tomara a sociedade na sequência do movimento de direitos civis, do protesto estudantil, da Nova Esquerda, do movimento feminista e das contraculturas escapistas, ajustava-se ao mundo intacto de uma dominação elitista isenta de ideologia. Com a problematização da pobreza em meados dos anos 1960, aconteceu uma fissura no retrato da sociedade de bem-estar social, de caráter psicológico e antes de tudo harmônico. Logo em seguida, mostraram-se também as consequências colaterais dos chamados programas de Estado de bem-estar social, postos em prática burocraticamente sob o governo Lyndon B. Johnson (1908-1973). Não obstante, onde eles funcionaram era tanto pior quanto; pois, nesse caso, ameaçavam o princípio formal de igualdade de oportunidade em favor de uma melhora coletiva de oportunidades iniciais para minorias étnicas ou mulheres. Todas essas tendências foram sintetizadas por McGovern, em uma aliança de coalização contra os sindicatos; existiam também os neoconservadores que até então não haviam rompido com o Partido Democrata, o último passo para o salto. Isto é, em 25 de abril de 1972, George McGovern venceu as primárias da cidade de Massachusetts, e o jornalista Bob Novak (1931-2009) telefonou para políticos democratas de todo o país, que concordaram com sua avaliação de que os votos de operários para McGovern não atendia o que ele realmente representava.

Lyndon Johnson ascendeu à presidência após o assassinato de Kennedy em 22 de novembro de 1963, completando o mandato de Kennedy e sendo eleito por conta própria com uma grande margem na eleição de 1964. Johnson recebeu grande apoio dos Democratas e, enquanto presidente, foi responsável por criar a legislação da “Grande Sociedade”, que incluía leis que confirmavam os direitos civis, radiodifusão pública, Medicare, Medicaid, proteção ambiental, auxílio a educação e sua “Guerra a Pobreza”. Era reconhecido por sua personalidade autoritária e o “tratamento Johnson”, sua coerção de políticos poderosos para avançar legislações. Durante os primeiros anos de sua presidência, a economia cresceu e milhões de norte-americanos saíram da pobreza, especialmente por causa dos seus projetos de estímulo econômicos e sociais. Johnson adotou uma política externa voltada com o anticomunismo. Ele escalou a participação norte-americana na Guerra do Vietnã, indo de 16 mil soldados na região em 1963 para 550 mil no início de 1968, aumentando as fatalidades e diminuindo as chances de paz.

Os vietnamitas haviam proclamado sua Independência em 1945, após uma ocupação francesa e japonesa combinada, e antes da revolução comunista na China. Eles eram liderados por Hồ Chí Minh (1890-1969), um revolucionário, político, escritor, poeta e jornalista vietnamita. Também reconhecido por seu nome de batismo Nguyễn Sinh Cung e pelo pseudônimo Nguyen Ai Quoc, foi um revolucionário e estadista vietnamita. Ele serviu como primeiro-ministro do Vietnã do Norte de 1945 a 1955 e como Presidente de 1945 até sua morte em 1969. Ideológica e politicamente com formação tática e estratégica na guerra de guerrilha marxista-leninista, atuou como presidente e primeiro secretário do Partido dos Trabalhadores do Vietnã. Hồ Chí Minh nasceu na província de Nghệ An, no Vietnã Central. Ele liderou o movimento social de independência de Việt Minh de 1941 em diante. Inicialmente, era um grupo que atuava em todas as partes em células que lutavam pela independência do Vietnã, mas o Partido Comunista ganhou o apoio da maioria depois de 1945. Hồ Chí Minh liderou a República Democrática do Vietnã liderada pelos comunistas em 1945, derrotando a União Francesa em 1954 na Batalha de Điện Biên Phủ, foi uma fase decisiva da Guerra de Resistência Antifrancesa que opôs as forças estratégicas militares maquínicas da União Francesa e do Việt Minh, em Tonkin, entre o dia 13 de março e 7 de maio de 1954, finda a Primeira Guerra da Indochina com a divisão geograficamente e, sobretudo política do Vietnã, com os comunistas no controle social e político do Vietnã do Norte.  

Hồ Chí Minh (1890-1969) foi uma figura chave no Exército Popular do Vietnã e o Việt Cộng durante a Guerra do Vietnã, que durou das décadas de 1955 a 1975. Ho deixou oficialmente o poder em 1965 devido a problemas de saúde e morreu em 1969. O Vietnã do Norte acabou vitorioso contra o Vietnã do Sul e aliados e o Vietnã foi oficialmente unificado em 1976. Saigon, a antiga capital do Vietnã do Sul, foi renomeada para cidade de Ho Chi Minh em sua homenagem. Os Estados Unidos da América na contramão da história, decidiram apoiar a França na sua reconquista de sua ex-colônia. O ex-imperador, Bao Dai (1926-1945), último do Vietnã fez de Saigon a capital do Estado do Vietname, em 1949, como chefe de Estado. Após o movimento Việt Minh ganhar o controle do Vietname do Norte, em 1954, tornou-se comum referir-se ao governo de Saigon como “Vietnã do Sul”. O governo passou a se chamar com a mudança radical na política de República do Vietname, quando Bao Daí foi deposto por seu primeiro-ministro, Ngo Dinh Diem, em 1955, mas em referendo fraudulento. Saigon foi combinada unidade administrativa reconhecida como Djo Thành Sai Gon (Capital Saigon). Na conclusão da Guerra do Vietname, em 30 de abril de 1975, a cidade ficou sob o controle do Exército do Povo do Vietnã. Entre as comunidades da diáspora vietnamita e particularmente os Estados Unidos que havia lutado contra os comunistas. Este evento político-ideológico é chamado pela mídia global de “Queda de Saigon”, enquanto a República Socialista do Vietname se refere a ela como a Libertação de Saigon. Em 1976, quando da unificação do Vietname do Norte e Vietname do Sul sob o regime vitorioso comunista, e a criação da República Socialista do Vietnã, a cidade de Saigon - incluindo a pequena cidade próxima de Cholon, a província de Gia Dịnh e dois bairros suburbanos de duas outras províncias vizinhas, foi renomeada na esfera política para Ho Chi Minh, em homenagem ao líder comunista Hồ Chí Minh, que veio a falecer em 1969.

Entretanto, o antigo nome de Saigon, como é de interesse público, ainda é amplamente utilizado por muitos vietnamitas, especialmente em contextos informais. O Vietnã reunificado sofreu repressão interna e foi isolado devido à manutenção da chamada Guerra Fria e da invasão vietnamita do Camboja. Em 1986, o Partido Comunista do Vietnã começou as reformas do setor privado semelhantes às da China, tendo um crescimento econômico e ligeira redução na repressão, apesar de ter um aumento de denúncias de corrupção. Dia da Reunificação ou de nome oficial Dia da Libertação Sul para a Reunificação Nacional (Giải phóng miền Nam, thống nhất đất nước) é um feriado público no Vietname que marca o evento quando as forças norte-vietnamitas e Việt Cộng capturaram Saigon, atual cidade de Ho Chi Minh a 30 de abril de 1975. Isto assinalou o fim da Guerra do Vietname, reconhecida em vietnamita como Kháng chiến chống Mỹ cứu nước (Anti-American Resistance War for National Salvation) ou Chiến tranh Việt Nam (“Guerra do Vietname”). Representou o início do período de transição para a reunificação, que ocorreu durante as eleições nacionais para a reunificação a 2 de julho de 1976, quando permitiram que a República do Vietname do Sul e o Vietname do Norte organizassem politicamente os dois países independentes, formando o Vietname dos tempos modernos. Certas partes da comunidade vietnamita ultramarina denominam politicamente de diversas formas: o dia como a “Queda de Saigon”, o “abril Negro” (Tháng Tư Đen), o “Dia Nacional da Vergonha” (Ngày Quốc Nhục) ou last but not least também reconhecido “Dia do Ódio” (Ngày Quốc Hận).

O envolvimento gerou vários movimentos sociais antiguerra principalmente em universidades de todo o país. Revoltas começaram a ocorrer em várias regiões e o crime nas grandes cidades aumentou em 1965, e seus oponentes passaram a exigir medidas de lei e ordem. O Partido Democrata dividiu-se em várias facções e, após não ter ido bem na convenção de Nova Hampshire em 1968, Johnson não conseguiu a indicação para tentar a reeleição, tendo que desistir da corrida presidencial em 1968. O Republicano Richard Nixon (1913-1994) acabou por sucedê-lo. Após deixar a presidência, ele voltou para sua cidade natal, Stonewall, morrendo em 22 de janeiro de 1973. O legado de sua presidência divide opiniões. Muitos historiadores argumentam que seu governo marcou o pico do liberalismo americano após a Era do New Deal. Johnson é bem avaliado por muitos estudiosos e historiadores devido as suas políticas domésticas e a assinatura de diversas leis, incluindo de direitos civis, controle de armas e seguridade social. Apesar dos avanços internos, muitos o desqualificam como um bom presidente devido ao fiasco da guerra do Vietnã. Os liberais que se tornaram neoconservadores não abandonaram simplesmente as bandeiras. Pelo contrário, tentaram explicar os fatos que os inquietavam com a mobilização de todos os seus talentos. Os neoconservadores buscam as causas da crise não no modo de funcionar da economia e do aparelho estatal, mas nos problemas de legitimação condicionados através da relação entre democracia e cultura.

Richard Nixon foi o único presidente dos Estados Unidos a renunciar.  Divide com George W. Bush (2001-2009) o status de governante mais impopular na história do país. Algo de semelhante se passou com o tema da consciência. Nele, a ideologia mente duas vezes, dizendo a mesma frase: a primeira quando mente, e a segunda quando diz a verdade. Ela mente quando diz que a consciência determina a existência – é a mentira idealista, que os profissionais da desmistificação são plenamente competentes para desmascarar. E mente, como o segundo judeu, ao dizer a verdade, ainda que de um modo deformado: ela aponta com clareza para a importância intrínseca da consciência, mas o faz de uma forma estridente que os especialistas da suspeita não acreditam no que ela afirma, e vão procurar a verdade não em Cracóvia, onde de fato está, mas em Lanberg. A primeira mentira usa a técnica semelhante à que Sigmund Freud chama de Verschiebung, deslocamento – desviar a atenção de um tema conflitivo (as condições de existência) para um campo visto como não-problemático (a consciência). E a segunda usa uma técnica nova, que poderíamos chamar Verblendung, ou ofuscação – isto é, a cegueira induzida por uma luz demasiado intensa. Pela primeira mentira, destinada ao “pensamento ingênuo”, a ideologia escamoteia as condições de existência; pela segunda, destinada ao pensamento crítico, ela escamoteia aquilo mesmo que ela proclama – as estruturas da consciência, impedindo que elas sejam tematizadas em sua vinculação com as condições de existência.

O Complexo Watergate é um robusto conglomerado de escritórios e apartamentos localizado em Washington. Tornou-se famoso após o assalto que levou ao escândalo político reconhecido Caso Watergate (1972), culminando com a renúncia do Presidente Richard Nixon. Todo o complexo foi designado como um edifício no Registro Nacional de Lugares Históricos em 12 de outubro de 2005. Seu objetivo é ajudar aos proprietários e às associações, como o National Trust for Historic Preservation, que deve coordenar, definir e proteger os sítios históricos dos Estados Unidos. Watergate situa-se na parte Noroeste de Washington, D.C., no bairro de Foggy Bottom. Está limitado ao Norte pela Virginia Avenue, à leste pela New Hampshire Avenue, ao Sul pela F Street, e à Oeste pela Rock Creek and Potomac Parkway. Adjacente ao complexo está o Kennedy Center e a embaixada da Arábia Saudita. A estação do metrô de Washington mais próxima é a Foggy Bottom-GWU. Foi construído pela companhia Società Generale Immobiliare, a maior empresa imobiliária e de construção civil da Itália. Foi fundada em Turim em 1862, mas anos depois se mudou para Roma com a unificação da Itália e da Alemanha, em 1871. O grande objetivo era expulsar os austríacos do Norte e estabelecer um estado italiano coeso. Depois da mudança, a empresa se interessou pela terra pastoral de Roma e acabou comprando parte dela. Com a aquisição de 10 acres que constituíam uma parte do extinto Canal de Chesapeake e Ohio, no início da década de 1960 por 10 milhões de dólares. O conjunto arquitetônico Watergate foi inaugurado na América em 1967.      

 Segundo Habermas eles se inquietam com a suposta perda de autoridade das instituições basilares, especialmente no que diz respeito ao controle e manutenção do sistema político. Esse fenômeno social é exposto sugestivamente sob rubricas de ingovernabilidade, o decréscimo de confiança, a perda da legitimidade e assim por diante. A inflação começa pela “inflação” de expectativa se reivindicações, impulsionada pela concorrência entre os partidos políticos, concomitantemente pelas mídias de massa, pelo pluralismo de associações etc. Essa pressão das expectativas dos cidadãos “explode” em uma ampliação drástica do volume de tarefas estatais. Os instrumentos de controle da administração se sobrecarregam com isso. A sobrecarga leva tanto mais às perdas de legitimidade quando o espaço de ação estatal é estrangulado por blocos de poder pré-parlamentares, e quando os cidadãos responsabilizam o governo pelas perdas econômicas perceptíveis. Isso é tanto mais perigoso quanto mais a lealdade da população depende de comparações materiais. No começo e no fim dessa espiral se encontram recursos culturais, isto é: a assim chamada “inflação de reivindicações” e a falta de uma “disposição para a anuência e a obediência”, suportada pela tradição histórica e pelo consenso de valores e imunizada contra as oscilações funcionais.   

As propostas de terapia resultaram dessa análise. As burocracias estatais precisam de desoneração. Para isso serve a retransferência dos problemas pontuais que oneram os orçamentos públicos do Estado para o mercado. Uma vez que, ao mesmo tempo, a atividade de investimento deve ser promovida, a redução do volume de tarefas precisa estender-se aos serviços sociais públicos, aos gastos consumptivos em geral. Nesse ponto, os estímulos para uma política econômica orientada à oferta, que quer incentivar a atividade investidora por meio de facilitações fiscais, se ajustam comodamente ao ideário neoconservador. A tese de Habermas é a seguinte: quanto mais fortemente o Estado se retira do processo econômico, por exemplo, por meio de uma privatização dos serviços públicos, tanto mais ele pode se safar das exigências de legitimação que lhe resultam da sua competência geral para os custos sociais inerentes de um capitalismo suscetível a perturbações. Outras concepções visam imediatamente às causas presumidas. Os neoconservadores recomendam um desacoplamento mais forte do Executivo em relação à formação política mais ampla da vontade, em geral uma moderação daqueles princípios democráticos que cravam o nível de legitimação em uma altura demasiada.  Enfim, é preciso nomear um adversário responsável por essa sobre-excitação dos recursos culturais – a “Nova Classe” dos intelectuais. Estes liberam por negligência ou de propósito os conteúdos explosivos da modernidade cultural; eles são os advogados de uma “cultura hostil”, desde a perspectiva das necessidades funcionais do Estado e da economia. Assim, os intelectuais se apresentam como os alvos mais visíveis da crítica neoconservadora.

Historicamente desde os dias de Friedrich Hegel (1807), entre os intelectuais alemães, a sensibilidade para o preço exigido pela modernização social do mundo da velha Europa foi talhada com mais profundidade do que comparativamente a Oeste. O discernimento sobre a dialética do progresso não impediu a formação esquerda, desde Marx, de apostar nas forças produtivas do mundo moderno, ao passo que os conservadores persistiram na rejeição e na melancolia. Nesse lado das frentes da guerra civil europeia, um “sim” diferenciado à modernidade só foi alcançado no nosso século XX. Ainda assim, os jovens conservadores prepararam esse passo a passo com um gesto heroico e muitas reticências – posteriormente, autores como Joachim Ritter, Ernest Forsthoff e Arnold Gehen, que percorrem o período do pré-guerra e o pós-guerra, efetuaram de fato esse passo e na forma de uma negociação, para ser exato.  A negociação consistiu em que eles aceitaram a modernidade socialmente apenas sob as condições que excluíam um “sim” à modernidade cultural. O capitalismo industrial aparece no caminho que leva à sociedade pós-industrial, sob uma luz semelhante, e é preciso explicar como as injunções dessa sociedade podem ser compensadas per se – seja por meio de tradições substanciais, as quais não são vulneráveis, seja por meio da substância autoritária de um poder estatal soberano, seja por meio da substancialidade secundária das assim chamadas legalidades objetivas teoricamente bastante estimulantes, reelaboradas durante a “extraordinária” década dos anos 1950, precisamente, no curso de uma reconciliação conservadora com a modernidade social, que, ao mesmo tempo, não foi necessária pelo lado dos liberais norte-americanos.  

O filósofo Habermas pretende esboçar apenas três dessas linhas de argumentação, pois a quarta linha de pensamento, etológica, seguida por Konrad Lorenz (1903-1989), ele a deixa por ora de lado, já que ela leva antes à Nova Direita na França do neoconservadorismo alemão: a) pela via de uma interpretação tão fascinante dos escritos de Hegel, Joachim Ritter descreveu a “sociedade burguesa” moderna, proveniente da Revolução Francesa, como o espaço de duas coisas, da emancipação e da cisão. A desvalorização do mundo tradicional, a cisão das ordens de vida historicamente transmitidas, é vista positivamente como a única forma em que os cidadãos do mundo moderno podem obter e preservar sua liberdade subjetiva. Por outro lado, a sociedade econômica moderna restringe os homens ao status de suportes da produção e do consumo.  Visto que lhe é inerente a tendência de reduzir as pessoas à sua mera natureza carencial, melhor dizendo, mediante a noção primária uma “socialização absoluta”, que venha a negar seus próprios pressupostos históricos, aniquilaria também as conquistas da liberdade subjetiva.  No modo da cisão, a liberdade só poderá ser assegurada contra esse perigo de uma socialização total se os poderes desvalorizados da tradição, isto é, “como os poderes da vida pessoal, da subjetividade e da procedência”, mantiverem, contudo, a força para compensar as abstrações necessárias da sociedade burguesa. Portanto, para se estabilizar, a modernidade social precisa tornar presente a sua própria substância histórica; em outras palavras: uma substância desesperada, nevrálgica, já que se trata da operação paradoxalmente de um tradicionalismo perceptivelmente esclarecido.    

b) Uma outra saída é buscada pela doutrina conservadora do direito público, apoiada no conceito de soberania proposto por Carl Schmitt. No começo dos anos 1950 surgira uma discussão sobre a questão de qual peso caberia à cláusula do Estado de bem-estar social, estabelecida por nossa Lei Fundamental, para a interpretação constitucional. Ernest Forsthoff defendeu então a concepção segundo a qual as normas que definem o estatuto do Estado de direito da República Federal da Alemanha deveriam manter uma procedência absoluta sobre a cláusula que exigia o Estado de bem-estar social, a qual deveria ser entendida apenas como recomendação política. Essa questão da dogmática jurídica só se torna compreensível quanto ao seu conteúdo em termos de filosofia da história quando mantemos em vista a premissa, quando lembramos a interpretação de Hegel feita por Ritter: a sociedade que representa o substrato da democracia de massas do Estado de bem-estar social não é por si mesma capaz de estabilização e requer compensações. Todavia, Forsthoff não quer ver a dinâmica dessa sociedade represada pelo contrapeso de uma tradição retoricamente evocada, mas sim pelo Estado soberano. O Estado só poderá desdobrar a força necessária para estabilizar a modernidade social se for imune, em caso de urgência, aos motivos alegados em nome de interesses sociais. O guardião do bem comum precisa ter o poder político de não argumentar e, em vez disso, decidir. O político deveria permanecer avesso aos pontos de vista da justificação moral.

c) Esta terceira linha formulada de argumentação é seguida por Arnold Gehen. Em sua importante antropologia do começo dos anos 1940, ele acentuara a plasticidade incrível e a vulnerabilidade da essência humana, que não se define por instintos e, em virtude disso, depende da força regulamentadora de instituições arcaicas e naturalizadas. Desse ângulo de visão, a demolição de instituições sacrais, a perda da autoridade da Igreja, do Exército e do Estado, e mesmo o desvanecimento de sua substância suprema, devem ser considerados o sinal de um desenvolvimento patológico. Daí se aplica a crítica cultural rude que Gehlen exerceu inicialmente, a pós a Guerra. Os espaços livres desinstitucionalizados são minados pela energia psíquica de uma interioridade inflada, pela subjetividade da vivência e pela reflexividade da fruição de si mesmo. Cada passo para a emancipação para os indivíduos de controles automáticos da ação. Expõe-no sem proteção a seus impulsos divagantes, sobrecarrega-o com a exigência de decisão, faz dele tanto mais servo quanto mais se propalam os ideais de autodeterminação e da autorrealização. Além do mais, a complexidade crescente da sociedade faz estreitar as margens da ação responsável, ao passo que inunda pari passu o interior com os estímulos provocantes, emoções e experiências de segunda mão.

Esse tom se altera no curso dos anos 1950, quando Gehen se familiariza com uma tese tecnocrática que lhe possibilita ver a sociedade moderna sob uma luz diferente. Enfim, de acordo com essa ideia, a economia, a administração estatal, a técnica e a ciência se vinculam no interior da jaula de ferro da modernidade, formando as leis funcionais que parecem ininfluenciáveis e que agora assumem a liderança no lugar das instituições demolidas. Em 1960, Gehen tentou comprovar essa tese com o exemplo do desenvolvimento da pintura moderna. Entretanto, a arte reflexiva tornou-se “incapaz de antagonismo”. Diante desse pano de fundo, trona-se clara que a cena transformada nestes anos, com a renovação de uma crítica militante da sociedade e de uma tradição de Esclarecimento mobilizada em toda a sua amplitude, com um movimento antiautoritário, com a nova irrupção da vanguarda nas artes plásticas e uma contracultura esteticamente inspirada, despertou à vida tudo o que os teóricos conservadores acreditaram estar morto. Segundo Habermas, teóricos como Ritter, Forsthoff e Gehen se conciliaram com a modernidade social justamente na base de uma modernidade cultural paralisada. Esa guinada em direção ao aspecto prático e polêmico explica por que os neoconservadores alemães puderam caminhar na trilha que tomaram, não precisando oferecer nada de absolutamente novo no plano teórico. Quando muito, é novo o tipo de professor que cumpre corajosamente seu figurino nos fronts semânticos da guerra civil.  

De acordo com Habermas, a doutrina neoconservadora que ao longo dos anos 1970 se infiltrou no nosso cotidiano político por meio da imprensa, segue um caminho simples: o mundo moderno se restringe ao progresso técnico e ao crescimento capitalista; moderna e desejável é toda dinâmica social que remonta, em última instância, aos investimentos privados; carecem de proteção também as reservas motivacionais das quais se nutre essa dinâmica. Em contrapartida, são iminentes os perigos provocados pelas mudanças culturais no mundo da vida, criando assim curto-circuitos. Por isso, as reservas da tradição deveriam ser congeladas na medida do possível. As propostas terapêuticas que penetraram a política do dia a dia podem se resumir a três elementos. Em primeiro lugar: todos os fenômenos que não se ajustam à imagem de uma modernidade pacificada por meio de compensações, projetada por autores como Ritter, Forsthoff ou Gehlen, são personalizados e moralizados, isto é, lançados na conta dos intelectuais de esquerda; esses promoveriam uma revolução cultural a fim de assegurar sua própria dominação, “o domínio sacerdotal da nova classe”. Em segundo lugar: os conteúdos explosivos da modernidade cultural, dos quais se alimenta essa revolução cultural, precisam ser desativados, de preferência declarando-os coisa do passado. Na verdade, já alcançamos a margem da salvação representada pela pós-história, pelo pós-Esclarecimento ou pela pós-modernidade – só os retardatários, cativos da sonolência dogmática de um “humanitarismo”, não notaram ainda a mudança no processo global de comunicação.  Em terceiro lugar: as consequências colaterais socialmente indesejadas de um crescimento econômico politicamente sem direção são deslocadas para o plano de uma “crise espiritual e moral” e precisam de compensação por meio do common sense incompto, da consciência da história e da religião.

Jürgen Habermas comenta essas três recomendações, de acordo com a sequência.  Ad I) A crítica aos intelectuais, à qual Arnold Gehlen dedicou o trabalho de uma década devida e que foi ampliada por H. Schelsky na teoria da “Nova Classe”, bebe três fontes. De início, ele mobiliza aqueles clichês que se amontoaram na “história de um palavrão”, desde o dia da campanha contra o capitão judeu Alfred Dreyfus (1894). Dietz Bering investigou essa história, e seu estudo agregou um catálogo de termos curtos e grossos que vai desde “abstrato”, “abstruso” e “sedicioso”, passa por “decadente”, “formalista”, “suspenso no ar”, “critiqueiro”, “mecanicista”, “oportunista”, “parasitário”, “radical”, “alheio à raça”, “revolucionário”, “mordaz”, “sórdido”, “desalmado”, autocrático”, “sem substância”, e chaga a “estiolado”, “alheio ao mundo”, “desenraizado”, “desagregador”, “indisciplinado” e cínico. Para quem atravessou por esse catálogo com seus quase mil registros, a crítica mais recente aos intelectuais não pode dizer muto de novo.  Em segundo lugar, a firmação de uma dominação sacerdotal dos intelectuais se apoia em determinadas tendências. Assim, por exemplo, nas sociedades pós-industriais cresce a parcela das profissões acadêmicas e, de maneira geral, aumenta a importância do sistema científico e educacional. No entanto, das profissões intelectuais, Schelsky seleciona apenas os professores e os publicistas, os padres e os assistentes sociais, os pesquisadores das ciências humanas e os filósofos, para estilizá-los em uma classe exploradora constituída pelos mediadores do sentido – ao passo que os demais fazem o trabalho. Essa construção ocidental não combina com ninguém – a não ser com os próprios intelectuais neoconservadores. Mas nem sequer eles creem nela. Richard Löwenthal critica convincentemente os curtos-circuitos dos quais a concepção da “Nova Classe” é tributária: - A primeira equiparação falsa é aquela entre um setor social e uma classe. A segunda equiparação falsa é aquela entre influência e poder. A terceira equiparação falsa é aquela entre uma erupção quialista da fé, é o proeminente quialismo, ou milenarismo, que é a crença em um reinado visível de Cristo em glória na Terra, com os santos ressuscitados, por mil anos, antes da ressurreição geral e do julgamento, suportada por esperanças escatológicas e, por isso, necessaria, de curta duração, e uma religião capacitada para formar em longo prazo o cotidiano socialmente.

O terceiro elemento é o vínculo idealista dos intelectuais com as crises do sistema educacional. As reformas educacionais, forçadas por mudanças estruturais, adiadas na Alemanha por um longo tempo, ocorreram, de fato, em uma época em qua a política educacional se encontrava sob a influência de objetivos liberais e moderadamente de esquerda. E, de fato, só a própria práxis reformista provocou a tomada de consciência plena dos perigos da juridificação e da burocratização, inclusive dos perigos de uma cientificização da pedagogia, ipso facto de um âmbito de atividade insatisfatoriamente profissionalizado. Mas os neoconservadores falseiam essas consequências não intencionadas, atribuindo-as aos propósitos de uma revolução cultural; e conseguiram fazer dessas consequências colaterais, sentidas a contragosto, um pretexto para mobilizar ressentimentos das camadas médias, visto que a campanha contra os intelectuais oferecia o elo de ligação para produzir uma conexão fatal entre a crítica social, a reforma educacional e o terrorismo de esquerda. As análises biográficas efetuadas nesse meio-tempo sobre carreiras de terroristas dissolveram no nada essa alucinação. De resto, esses autores apressados estariam se perguntando o que será que viria à tona caso se fizesse a tentativa de explicar queiramos ou não, a condição e possibilidade do terrorismo de direita nos moldes da responsabilidade objetiva, os quais continuam e encontrar ressonância apenas no âmbito infeliz da dominação stalinista.

Ad 2) A tese do esgotamento da modernidade cultural se refere a todos os três componentes: às ciências tecnicamente bem-sucedida, à arte de vanguarda e à moral universalista, conceituados por Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant. Para Jürgen Habermas em consideração à ciência, a mensagem é simples. Se o progresso científico se tornou “desinteressante do ponto de vista da política de ideias”, se a solução dos problemas científicos não toca mais de modo algum nos nossos problemas vitais, não se pode esperar mais nada, para o cotidiano, das culturas de especialistas encapsulados – fora as inovações técnicas e as recomendações em termos de técnicas sociais. Após o Esclarecimento, os conhecimentos científicos só devem ser usados ainda para o progresso técnico e, quando muito, para o planejamento econômico e administrativo. A força orientadora da ação é concedida apenas às ciências históricas que presentificam as tradições e asseguram as continuidades teorias e convicções com meios narrativos. Isso explica a valorização das ciências do espírito que procedem em termos narrativos e, ao mesmo tempo, a desconfiança em relação à história como ciência social e uma desvalorização significativamente da sociologia, em geral das ciências sociais fecundas para a realização de diagnósticos. Isso não passaria pela cabeça dos neoconservadores norte-americanos, pelo fato de que seus porta-vozes são quase exclusivamente sociológicos.

Desta perspectiva, torna-se compreensível igualmente a resistência contra as reformas escolares, que desembocam na absorção de matérias das ciências sociais nos planos de ensino. No entanto, a esse surto das ciências sociais na configuração dos planos de ensino, que ocorrera nos Estados Unidos da América algumas décadas antes, seria possível reagir com maior serenidade caso fosse lembrado o conflito disputado no final do século XIX entre os defensores das Humaniora e das Realien, as ciências naturais. De resto, a tese do pós-Esclarecimento é tudo, menos convincente. Certamente, as imagens metafísicas e religiosas do mundo se decompuseram. As ciências empíricas não oferecem nenhum substituto para elas. Mas já o alto nível de sínteses científicas popularizadas testemunha que os conhecimentos cosmológicos sobre a origem e o desenvolvimento do universo, que os conhecimentos biomédicos sobre o mecanismo da transmissão hereditária, que principalmente os conhecimentos antropológicos e etológicos sobre a história natural do comportamento humano e a evolução genética de nossa espécie, que os conhecimentos psicológicos  sobre o desenvolvimento da consciência moral, de seus afetos e impulsos, que a psicologia das doenças mentais, que os conhecimentos sociológicos sobre o surgimento e o desdobramento das sociedades modernas – que tudo isso continua a afetar a autocompreensão dos sujeitos agentes.

Esses conhecimentos alteram também os standards da discussão de problemas vitais, para os quais as próprias ciências empíricas não têm uma resposta pronta. Finalmente, seria preciso perguntar aos neoconservadores, que gostariam assim de colocar a ciência à distância, como é que eles mesmo querem comprovar suas respostas bastantes eloquentes sobre a lastimada crise de orientação - se não é com argumentos que devem resistir ao exame científico. Desta perspectiva se explica a precedência das instituições de controle despolitizadas, em geral a estilização de uma pretensa concorrência entre a divisão dos poderes e a democracia. Em ambos os casos, as argumentações desembocam na ideia de que a ordem estatal deve ser desonerada do conflito democrático de opiniões a respeito das finalidades político-sociais. O elemento prático-moral, do qual a política deve ganhar distância, é uma democratização dos processos de decisão que coloca a ação politica sob os pontos de vista controversos da justiça social, em geral das formas de vida desejáveis. Vale lembrar que a atualidade no âmbito do pensamento social e dessas reflexões está ao alcance da mão em uma situação na qual se trata da questão de princípio. Isto é, sobre qual medida de injustiça social estamos dispostos a acatar para recolocar em marcha um crescimento econômico inalterado em seus mecanismos de propulsão, em vista da crise financeira dos orçamentos domésticos. Esse mecanismo pró-capitalista requer que a distribuição dos locais de trabalho suceda apenas segundo o mercado de trabalho, mesmo no caso de o exército industrial de reserva formado pelos desempregados crescer cada vez mais.        

Ad 3) Finalmente, a despedida programática da modernidade cultural deve criar espaço para uma consciência saudável da tradição.  Tão logo a modernidade cultural feche as portas todas as comportas abertas para a práxis cotidiana, tão logo as culturas de especialistas sejam isoladas suficientemente da prática cotidiana, os poderes permanecentes do common sense, da consciência histórica e da religião se veem em seu direito. O parto do pós-Esclarecimento carece, no entanto, do auxílio neoconservadores.  Estes se concentram na “coragem para educar”, ou seja, em uma política educacional que talhe a educação escolar fundamental de acordo com as habilidades elementares e as virtudes secundárias como diligência, disciplina e asseio. Ela se concentra, ao mesmo tempo, na “coragem de encarar o passado”, na escola, na família e no Estado. Os neoconservadores veem sua tarefa, na mobilização dos passados em relação aos quais é possível comportar-se com anuência e, por outro lado, na neutralização moral de outros passados que poderiam provocar tão somente crítica e rejeição. Walter Benjamin mencionou “a empatia com o vencedor” como uma característica do historicismo. Gustav Heinemann (1899-1976), que, no espírito de Benjamin, havia exortado adoção dos vencidos, dos insurgentes e dos revolucionários derrotados, teve de ouvir que essa orientação pelo ideal do próprio passado seria uma “fixação da imaturidade”. 

Enfim, no lugar de imperativos econômicos e administrativos, as assim chamadas coerções econômicas, que monetarizam e burocratizam cada vez mais os âmbitos da vida, que transformam cada vez mais as relações em mercadorias e em objetos de administração - no lugar do foco real da crise da sociedade, eles colocam o fantasma de uma cultura subversivamente transbordante. Essa análise falsa explica também que, para os neoconservadores, quando têm de escolher, o mundo da vida, mesmo o familial, de modo algum é tão sagrado como o alegam. Enquanto os democratas cristãos não têm nenhuma inibição em encher a Alemanha com cabos de televisão privada, os social-democratas, em questões de política para as mídias, são antes os guardiões da tradição. Nós temos de lidar cuidadosamente com a substância de formas de vida comprovadas, na medida em que não foram ainda destruídas pela dinâmica de crescimento da modernização social. Pergunta-se somente quem cuida dessas reservas em caso de urgência. A cultura política da Alemanha estaria pior se não tivesse aceitado e assimilado, nas primeiras décadas depois da guerra, estímulos provenientes da cultura política da América do Norte. A Alemanha se abriu sem reservas ao Ocidente pela primeira vez; nós nos apropriamos então da teoria política do esclarecimento, compreendemos a força do pluralismo que marca as mentalidades e que foi suportado inicialmente em sua origem teológica por seitas religiosas, travamos conhecimento com o espírito democrático-radical do neopragmatismo norte-americano, de Charles Peirce a George Herbert Mead e John Dewey. Os neoconservadores alemães se desviam dessas tradições, eles bebem de outra fonte. Eles recorrem a um constitucionalismo alemão que da democracia não reteve tempo muito mais do que o Estado de direito; recorrem aos motivos do eclesiasticismo estatal luterano que se enraíza em uma antropologia pessimista; recorrem aos motivos de um jovem conservadorismo cuja herança só conseguiram levara diante em uma negociação inconvicta com a modernidade. 

Bibliografia Geral Consultada.

RUSSEL, Bertrand, War Crimes in Vietnam. London: Editor George Allen & Unwin, 1967; HAUG, Wolfgang Fritz (Hg), Theorien Über Ideologie. Berlin: Editor Argument Verlag, 1979; MONTALBÁN, Manoel Vásquez, História y Comunicación Social. Madrid: Editorial Alianza, 1985; TAYLOR, Charles, As Fontes do Self: A Construção da Identidade Contemporânea. São Paulo: Edições Loyola, 1997; NUNES, Carlos Henrique Sancineto da Silva; HUTZ, Claudio Simon, “Construção e Validação da Escala Fatorial de Socialização no Modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade”. In: Psicol. Reflex. Crit. 20 (1) 2007; SENNETT, Richard, A Corrosão do Caráter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo. 14ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009; HABERMAS, Jürgen, Conhecimento e Interesse. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982; Idem, What Does Socialism Mean Today? The Rectfying Revolution and the Need for New Thinking on the Left. In: New Left Review, number 183, sep./oct., 1990; Idem, A Nova Obscuridade: Pequenos Escritos Políticos V. 1ª edição. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 2015; CARVALHO, Vânia Sofia Gomes, A Relação Trabalho-família: O Desafio para Ontem. Tese de Doutorado. Faculdade de Psicologia. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; GALLEGO, Esther Solano (Org.), O Ódio Como Política: A Reinvenção das Direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018; Artigo: “O que é o Fator D, que define Egoísmo, Rancor, Psicopatia e Outros Traços Obscuros da Personalidade”. In: https://www.bbc.com/13/10/2018; ADORNO, Theodor, Estudos sobre a Personalidade Autoritária. 1ª edição. São Paulo: São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 2019; ALVES, Maracy Domingues, Sofrimento Psíquico no Trabalho: Construção de um Instrumento para o Diagnóstico de Penosidade. Tese de Doutorado. Departamento de Psicologia. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2019; SILVA, Ana Rafaela Oliveira e, Ethos Discursivo e a Construção Discursiva Identitária de Mulher Criminosa nas Páginas Policiais Brasileiras: De Heloísa Borba Gonçalves: Viúva Negra (1971-1992) a Elize Matsunaga (2012). Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem. Dissertação de Mestrado. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2023; PACHECO, Raíssa Araújo, “A Poderosa Voz Anticolonial de Hồ Chí Minh”. In: https://outraspalavras.net/17/05/2024; MATHIAS, Caroline Façanha dos Santos, Da Vítima ao Monstro: Personagens Femininas em Mulheres Empilhadas, de Patrícia Melo e O poder, de Naomi Alderman. Tese de Doutorado. Instituto de Letras. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024; entre outros. 

domingo, 24 de julho de 2022

Mestre Irineu Serra - Casa, Ayahuasca & Caboclos da Amazônia.

 

Irineu Serra, um caboclo maranhense com dois metros de altura”. Pedro Ranzi (2017)

            O Santo Daime é uma manifestação religiosa surgida na região amazônica nas primeiras décadas do século XX. Consiste em uma Doutrina espiritualista que tem como base o uso sacramental de uma bebida enteógena, a ayahuasca. A doutrina representa a prática espiritual individual sobre o autoconhecimento e internalização dos meios de obter sabedoria. Segundo seus adeptos, a Doutrina do Santo Daime representa uma missão espiritual, que encaminha os praticantes ao sentido do perdão e a regeneração do seu ser. Isto acontece porque o daimista, ao participar dos cultos e ingerir o chá Santo Daime inicia um processo de autoconhecimento, que visa corrigir os defeitos e melhorar-se sempre, aprimorando-se como ser humano. Nos rituais são cantados hinos e usados instrumentos musicais como maracás, violas, flautas, bongôs e atabaques. Surgiu no estado brasileiro do Acre, no início do século XX, tendo como fundador o lavrador e descendente de escravos Raimundo Irineu Serra (1892-1971), que com o trabalho e devoção passou a ser chamado Mestre Irineu. Após conhecer a bebida sacramental ayahuasca, através dos nativos da região Amazônica, os Guaranis, Xerentes, Amawákas, Anambés, Kambebas, os Aruá etc., teve uma visão de características marianas, em que um ser espiritual superior lhe entrega a missão do Santo Daime.

            Os dogmas e doutrinas marianas da Igreja Católica têm a sua fundação na visão central de que a Virgem Maria é a Mãe de Deus, devido a isso, a Igreja Católica sempre considerou Maria a figura mais importante do cristianismo e da salvação depois da Trindade, por conseguinte, a Igreja possui muitos ensinamentos e doutrinas em relação a sua vida e papel. A igreja católica possuí uma disciplina específica para o estudo da pessoa, do papel e significado da Virgem Maria e sua veneração fundamentalmente com a representação disciplinar da Mariologia. A doutrina mariana tem se desenvolvido ao longo de muitos séculos, e foi estudada e codificada pelos Concílios, bem como pelos principais teólogos das ordens religiosas e universidades marianas, Escolas Pontifícias, como a Marianum são especificamente dedicadas a este campo de estudo. No entanto, revelações marianas por indivíduos nem sempre são aceitos pela ordenação da Igreja. A Perpétua Virgindade de Maria ensina que religiosamente Maria é virgem antes, durante e depois do parto. Este dogma mariano é o mais antigo da Igreja Católica e Oriental Ortodoxa, que afirma a “real e perpétua virgindade mesmo no ato de dar à luz o Filho de Deus feito homem”. Maria foi Virgem pelo resto de sua vida, sendo o nascimento de Jesus como seu filho biológico, uma “revelação da concepção milagrosa”.                              O Acre representa uma das 27 unidades federativas do Norte do Brasil. Localiza-se no sudoeste da Região Norte, fazendo divisa com duas unidades federativas: Amazonas ao norte e Rondônia a Leste; e faz fronteira com dois países: a Bolívia a Sudeste e o Peru ao Sul e a Oeste. Sua área é de 164 123,040 km², que equivale aproximadamente ao Nepal, um país asiático da região dos Himalaias. Essa área responde a 2% de todo o país. De acordo com os geógrafos, com menor densidade demográfica do Brasil e foi o mais recente que os brasileiros povoaram de maneira efetiva na extremidade ocidental. A capital Rio Branco sedia o Executivo, Legislativo e Judiciário. Outros municípios com mais de 30 mil habitantes são: Cruzeiro do Sul, Feijó, Sena Madureira e Tarauacá. Em 1877 teve início no Acre a quase totalidade dos migrantes que, oriundos do Nordeste do Brasil, mais precisamente do Ceará, colonizaram a região para buscar a borracha (hévea-latex coagulado) que se encontrava na Floresta Amazônica. Nas últimas décadas do século XIX, moravam cerca de cinquenta mil brasileiros na região. Os seringueiros, lutaram com suas tropas militares para realizar a ocupação da região e, em 1903, ao lado do último líder da Revolução Acriana, o gaúcho Plácido de Castro (1873-1908), proclamaram o Estado Independente do Acre. A região foi ocupada militarmente pelo governo brasileiro e depois a chancelaria estabeleceu diálogo diplomático com a Bolívia e assumiria o controle do Acre com a criação do território federal em 1904. Por força da lei federal nº 4 070, o presidente João Goulart elevou o território à categoria de Estado em 1962. Foi promovido pela borracha produzida que o estado tinha sido ocupado e se desenvolveu. O Acre é um dos estados que mais produzem e exportam borracha.

A altitude média de 200 metros, sendo uma forma de relevo com definição de planalto é o relevo dominante da maioria do território acriano. Juruá, Purus, Tarauacá, Muru, Envira e Xapuri são os rios de maior importância do Estado. As principais atividades econômicas do estado são o trabalho de extrair borracha e castanha, a pecuária e a agricultura. Com duas horas anteriores ao fuso horário de Brasília (DF), nele está localizada “a última localidade brasileira a ter visão do sol nascente, na serra da Moa, na fronteira com a República do Peru”. A intensidade do extrativismo vegetal, que tem atingido o ponto mais alto no século XX, constituiu-se em atração para os brasileiros que, vindos de uma variedade de regiões, chegaram ao Estado. Misturando tradições vindas da Região Sul do Brasil, de São Paulo, da Região Nordeste do Brasil e dos grupos étnicos indígenas, deu-se o surgimento de uma culinária com muitas diversidades, que põe junto a carne-de-sol combinado ao pirarucu, peixe característico da região, pratos que são acompanhados com tucupi, molho cujo ingrediente é a mandioca. O transporte fluvial, que se concentra nos rios Juruá e Moa, no oeste do estado, e Tarauacá e Envira, no Noroeste, é um dos mais importantes meios sociais de comunicação e transporte, junto à BR-364, ligando de Rio Branco até Cruzeiro do Sul e que o governo federal recentemente asfaltou e construiu as pontes onde antigamente era preciso atravessar por meio de balsas.

Os primeiros relatos etnográficos da utilidade de uso indígena de ayahuasca são dos missionários jesuítas Pablo Maroni (1737) e Franz Xaver Veigl (1768), que descreveram um cipó (liana) reconhecido como ayahuasca, “usado para adivinhação, mistificação e enfeitiçamento”, enquanto estiveram presentes no Rio Napo, de 1130 km de extensão que nasce no Equador, atravessa o Peru e desagua na margem esquerda do rio Solimões, ou rio Amazonas. Sua fonte está localizada nos Andes, Monte Cotopaxi. Seus maiores afluentes são os braços dos rios Coca, Tiputini, Yasúni, Aguarico, Curaray e rio Tambor-Yacu. Estima-se, entretanto, que populações indígenas utilizem algumas bebidas com estas plantas há pelo menos em torno de 3.500 anos. A ayahuasca é utilizada tradicionalmente em países como Estados Unidos da América, Austrália, Peru, Equador, Colômbia, Bolívia, Brasil e 72 diferentes tribos indígenas da Amazônia. São mais de 180 povos indígenas, além de vários grupos isolados vivendo no bioma. Ocupam uma área de cerca de 110 milhões de hectares. Há estimativas da sua utilização e dispersão entre as tribos ameríndias entre 1500 e 2000 a.C., estando, entre os principais estudos, os realizados pelo etnógrafo equatoriano Plutarco Naranjo Vargas (1921-2012), que sumariou a informação sobre a pré-história da ayahuasca de evidências em cerâmica, estatuetas antropomórficas e outros artefatos. 

Ayahuasca do quíchua aya, que significa “morto, defunto, espírito”, e waska, cipó, podendo ser traduzido como “cipó do morto” ou “cipó do espírito”, também reconhecida como hoasca, daime, iagê, santo-daime e vegetal, é “uma bebida enteógena produzida a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi com várias plantas, em particular a Psychotria viridis e a Diplopterys cabrerana”. Quando se fala, pois, em Ayahuasca, deve-se ter em mente que estamos tratando de um patrimônio cultural da humanidade. A origem da utilização da Ayahuasca se perde no tempo e no espaço. Tal dispersão de sua utilidade de uso entre as tribos ameríndias tenha ocorrido entre os anos 2000 e 1500 a.C., os quais comungam a Ayahuasca por milhares de anos etnograficamente desde os idos de 4.000 a.C. A produção e o consumo da bebida são difundidos em quase todo mundo, em especial nos países ocidentais. A ayahuasca é associada a rituais de diferentes grupos e religiões, além de fazer parte da medicina tradicional dos povos da Amazônia. O nome pode designar tanto a liana Banisteriopsis spp. quanto a bebida. Entre as traduções estão “cipó do homem morto”, aya significando “espírito, morto ou ancestral” e huasca significando “vinha ou corda”, “liana das almas”, “cipó dos espíritos”, “cipó da pequena morte”, “vinho da alma”. Os nomes além do significado referem-se a elementos da cultura, a exemplo de “professor dos professores”, “planta professora”, entre outros. 

A farda para o daimista tem como representação social uma veste ritualística que simboliza a pertença a uma Egrégora de Luz, uma real entrega a uma “força superior e um comprometimento de crescimento e desenvolvimento espiritual, em primeiríssima instância consigo mesmo e com Deus”. A farda também é um instrumento litúrgico, magístico. Assim como o médico, ao se concentrar para uma cirurgia, troca a vestimenta de uso cotidiano por indumentária apropriada, a farda é um instrumento de “assepsia energética para adentrar em um rito de profundo significado”. O ato simbólico do fardamento e a consequente entrega a um Mestre Espiritual, no caso do Mestre Juramidam e sua Falange de Seres Divinos, e a pertença a uma egrégora não quer dizer de forma alguma, subserviência. Absolutamente todas as casas espirituais, com fardas ou sem fardas, tem regras e normas de conduta que devem ser seguidas conscientemente para o bem da coletividade. Da mesma forma, os fardados vão seguir certas normas de convívio na casa a que pertencem. O que se apregoa como liberdade hoje em dia, inclusive no meio neo-ayahuasqueiro, nada tem a ver com a genuína liberdade em seu significado mais profundo e espiritual. Tem a ver com “liberalidade e afrouxamento ou inexistência da disciplina espiritual”.

A própria organização dos compartimentos do apartamento ou da choupana: canto onde se dorme, lugar praticado onde se prepara a refeição, sala de jantar, quarto de dormir, dormitório, sala de estar, celeiro, casa da fruta, granja, sótão, todos estes elementos orgânicos traem equivalentes anatômicos mais do que fantasias arquiteturais. A casa inteira é mais do que um lugar para se viver, é um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita. Honoré Balzac sabe-o bem ao começar os seus romances pela descrição minuciosa da casa Grandet, do Chat qui pelote ou da pensão Vauquer.  A Sra. Vauquer, nascida de Conflans, é uma velha que há quarenta anos mantém em Paris uma pensão burguesa, estabelecida à Rue Neuve-Sainte-Geneviève entre o Quartier Latin e o Faubourg Saint Marceau. Essa pensão, conhecida pelo nome de Casa Vauquer, aceita igualmente homens e mulheres, moços e velhos, sem que jamais a maledicência tenha atacado os costumes desse respeitável estabelecimento.

São notáveis os hábitos disciplinares de trabalho em que se dispunha Balzac - embora não conseguisse trabalhar rapidamente, esforçava-se com dedicação e foco incríveis. Seu método preferido era comer uma rápida refeição as cinco ou seis horas da tarde e então dormir até meia-noite. Depois do descanso, levantava-se na madrugada e escrevia por um considerável tempo, às vezes interruptamente, com pausas apenas para tomar algumas xícaras de café preto, pois, conforme escreveu, “o café é a bebida que desliza para o estômago e põe tudo em movimento”. Costumava trabalhar em um único trecho por cerca de quinze horas ou mais; chegou a declarar que certa vez trabalhou interruptamente por 48 horas com apenas três horas de descanso. Além disso, realizava revisões obsessivamente, cobrindo provas de impressão com mudanças e adições a serem repostas. Por vezes repetia este processo durante a publicação de um livro e como resultado criava despesas significativas para si próprias e seu Editor. Não raro o produto final era muito diferente da ideia concebida anteriormente e do livro original.

O uso excessivo que Balzac faz dos detalhes, especialmente os detalhes de objetos, para ilustrar a vida de suas personagens, fez com que ele fosse um dos pioneiros do realismo literário. Embora admirasse e fosse inspirado pelo estilo romântico de autores como o escocês Walter Scott, procurou em sua obra retratar a existência humana através do uso de particularidades. Um exemplo notável são as descrições da Pension Vauquer em Le Père Goriot, em que o papel de parede da pensão reflete a identidade interior dos seus moradores, inspirado num amigo do autor, Hyacinthe de Latouche (1785-1851), que tinha conhecimento sobre suspensão de papéis de parede. Há críticos que consideram a escrita de Balzac um notável exemplo do naturalismo - uma forma mais pessimista e analítica do realismo que busca explicar o comportamento humano como intrinsecamente relacionado ao meio. Émile Zola declarou certa vez com razão que Honoré de Balzac “era o pai da novela naturalista”. Enquanto os românticos viam o mundo através de lentes coloridas, o naturalista vê o mundo através de um vidro transparente - o tipo de efeito específico que Balzac se esforçava para alcançar a irradiação pública em suas obras.

Embora alguns de seus livros nunca tenham chegado a um estado final, como Les Employés (1841), eles não deixam de ser notados pelos críticos. Apesar de Balzac ter sido um “eremita e vagabundo”, conseguiu manter-se conectado, e principalmente retratar como ninguém, o mundo social que alimentava a sua escrita. Era amigo de Théophile Gautier e Pierre-Marie-Charles de Bernard du Graal de la Villette, e conhecia Victor Hugo, a quem admirava e escrevia cartas. Não gastava seu tempo social em saloons, tampouco em clubes das elites, como faziam muitos de seus personagens principais. Porque, como dizem biógrafos e críticos do talentoso pensador, Balzac não se sentia confortável nesses lugares, pois “pressentia que seu negócio não era frequentar a sociedade, mas criá-la”. Porém, isto não o impediu de frequentar muitas vezes o Château de Saché, próxima de sua cidade natal, Tours, e que era a casa de seu amigo Jean de Margonne, amante de sua mãe e pai de seu irmão mais novo. Muitos de seus personagens foram concebidos no quarto do segundo andar, hoje museu dedicado à vida do autor. 

É admitido como o fundador do realismo na literatura moderna. Sua Magnum opus, A Comédia Humana, é o título geral que dá unidade à obra máxima de Honoré de Balzac. Consiste de um total de 95 romances, novelas e contos que procuram abranger todos os níveis culturais da sociedade francesa, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815. Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugénie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans, mas na tradução brasileira comercializada como A Bretanha (1829), Balzac descreveu os problemas econômicos em torno do uso do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos poderes na França liberal e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre aspectos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, fez incursão em traços filosóficos, como no ensaio A Procura do Absoluto (1834) e estudos analíticos, como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829.

Um clássico de 1833, Eugênia Grandet narra a história da personagem que dá nome ao livro, e o cotidiano de sua família abastada, numa província francesa. Eugênia é filha única de um rico comerciante avarento, o Sr. Grandet. A história se passa na primeira metade do século XIX. O livro é rico em detalhes, tanto na ambientação como nos próprios personagens. Honoré de Balzac escreve de forma poética os hábitos da sociedade do interior da França, bem com seus costumes tipicamente rurais e econômicos. O pai de Eugênia representa a personificação da avareza na terra. Dono de muitas terras, com uma reputação respeitada na cidade, adquiriu fortuna por causa dos vinhedos, algumas terras arrendadas e uma abadia, bem como por ter se casado e ganho o dote de sua esposa. Com um talento exímio em administrar seus negócios, aumentou sua fortuna e vive o tempo inteiro economizando, fazendo contas e cobrando seus arrendamentos.  Um dos pontos fortes da narrativa literária encontra-se na descrição de uma avidez etnológica do pai de Eugênia, “um velho sovina, que passa os dias a contar e recontar seus lucros, calculando juros e deixando a família praticamente a passar fome”. Age compulsivamente como gago ao fazer acordo comercial ou quando vende seus produtos, mas em casa fala normalmente. Vive dando uns centavos a esposa, para mais tarde se lamuriar que não tem um tostão, a fim de que ela se compadeça e acabe por lhe devolver o dinheiro que ganhou dele. O tanoeiro Grandet é o avarento que não desperdiça as migalhas que caem de sua mesa.

É verdade que há trinta anos não se via ali uma moça, e que para um rapaz morar ali era preciso que a família lhe desse uma mesada muito pequena. Em 1819, porém, época em que este drama social começa, vivia lá uma pobre moça. Qualquer que seja o descrédito em que tenha caído a palavra drama, pela maneira abusiva e iníqua com que tem sido usada nestes tempos de dolorosa literatura, é necessário empregá-la aqui, não que esta história seja dramática no verdadeiro sentido da palavra, mas porque, terminada a obra, talvez se tenham derramado algumas lágrimas intra e extramuros. A atmosfera psicológica só em segundo lugar é determinada pelos odores do jardim, os horizontes da paisagem. São os cheiros da casa que constituem a cenestesia da intimidade: vapores de cozinha, perfumes de alcova, bafios de corredores, perfumes de benjoim ou de patchouli dos armários maternos. A intimidade social reprodutiva deste microcosmo vai redobrar-se e sobredeterminar-se como se quiser. Duplicado do corpo, ela vai tornar-se isomórfica do nicho, da concha, do tosão e finalmente do colo materno. Mas, sobretudo, vai operar-se nela o redobramento do “Jonas”: temos necessidade de uma casa pequena na grande “para reencontramos as seguranças primeiras da vida sem problemas”, é esse o papel do cantinho, do retiro obscuro, do Santo dos Santos, ou da câmera secreta e última.

A casa constitui entre o microcosmo do corpo humano e o cosmo, um microcosmo secundário, um meio termo, segundo Durand (1997: 243), cuja configuração iconográfica é, por isso mesmo, muito importante no diagnóstico psicológico e psicossocial. Pode-se dizer: - “Diz-me que casas imaginas e te direi quem és”. E as confluências sobre o habitat são mais fáceis de fazer do que representar sobre o corpo ou sobre um elemento objetivamente pessoal. Os poetas, os psicanalistas, a tradição católica ou a sabedoria dos dogon fazem coro para reconhecer no simbolismo da casa um duplicado microcosmo do corpo material e do corpo mental. Os quartos da casa equivalem a órgãos, nota Charles Baudouin (1982), e espontaneamente a criança reconhece nas janelas os olhos da casa e pressente as entranhas na adega e nos corredores. Rainer Maria Rilke tem a impressão de avançar pelas escadas “como nas veias” e as valorizações negativas do inferno intestinal e anatômico. O labirinto é frequente tema de um pesadelo, mas a casa representa labirinto tranquilizador, amado apesar do que pode no seu mistério subsistir de ligeiro temor. É este antropomorfismo microcósmico que a adega ventral significa, como o cervical sótão.

A própria organização dos compartimentos do apartamento ou da choupana: canto onde se dorme, lugar praticado onde se prepara a refeição, sala de jantar, quarto de dormir, dormitório, sala de estar, celeiro, casa da fruta, granja, sótão, todos estes elementos orgânicos traem equivalentes anatômicos mais do que fantasias arquiteturais. A casa inteira é mais do que apenas um lugar para se viver, é um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita. Honoré Balzac sabe-o bem ao começar os seus romances pela descrição minuciosa da casa Grandet, do Chat qui pelote ou da pensão Vauquer.  A Sra. Vauquer, nascida de Conflans, é uma velha que há 40 anos mantém em Paris uma pensão burguesa, estabelecida à Rue Neuve-Sainte-Geneviève entre o Quartier Latin e o Faubourg Saint Marceau, é espaço este em que se desenvolverá a maior parte dos acontecimentos sociais. Em seguida, um a um, os sete pensionistas internos são apresentados, entre eles o protagonista pai Goriot, que dá nome à obra. Goriot é um burguês, ex-comerciante, que enriqueceu com a especulação da venda de trigo. Essa pensão, aceita igualmente homens e mulheres, moços e velhos, sem que a maledicência tenha atacado os costumes sociais desse respeitável estabelecimento.

É verdade que há 30 anos não se via ali uma moça, e que para um rapaz morar ali era preciso que a família lhe desse uma mesada muito pequena. Em 1819, porém, época em que este drama social começa, vivia lá uma pobre moça. Qualquer que seja o descrédito em que tenha caído a palavra drama, pela maneira abusiva e iníqua com que tem sido usada nestes tempos de dolorosa literatura, é necessário empregá-la aqui, não que esta história seja dramática no verdadeiro sentido da palavra, mas porque, terminada a obra, talvez se tenham derramado algumas lágrimas intra e extramuros. A atmosfera psicológica só em segundo lugar é determinada pelos odores do jardim, os horizontes da paisagem. São os cheiros da casa que constituem a cenestesia da intimidade: vapores de cozinha, perfumes de alcova, bafios de corredores, perfumes de benjoim ou de patchouli dos armários maternos. A intimidade social deste microcosmo vai redobrar-se e sobredeterminar-se como se quiser. Duplicado do corpo, ela vai tornar-se isomórfica do nicho, da concha, do tosão e finalmente do colo materno. Operar-se nela o redobramento do “Jonas”: temos necessidade de uma casa pequena na grande “para reencontramos as seguranças primeiras da vida sem problemas”, é esse o papel do cantinho, do retiro obscuro, do Santo dos Santos, ou da câmera secreta e última. 

A casa é, portanto, sempre a imagem da intimidade repousante, quer seja templo, palácio ou cabana. E a palavra “morada” duplica-se, como nos Upanixades ou em Sta. Tereza, do sentido de parada, repouso, “centro” definitivo ou iluminação interior. Por meio de diálogos entre mestre e discípulo, os Upanixades falam sobre a compreensão da alma humana (Atman) e o caminho para se atingir a realidade absoluta (Brahma). O autor dos textos é desconhecido, mesmo após estudiosos tentarem em vão descobrir sua identidade. Tal é o papel mais ou menos explícito desempenhado pela choupana dos “bons selvagens” do pré-romantismo, pela cabana das canções da Belle Époque ou pelo castelo certamente caro à Franz Kafka. Sua literatura pode ser lida também assim: - como representação desse estado mental em que um sofrimento desagrega a noção de tempo e põe em seu lugar uma duração - a de um presente contínuo gerado pela certeza de que a repetição indesejada se instalou como lei impossível de burlar. Na acepção mais corrente, kafkiano, para nós, tornou-se o enredo literário que não acaba de oprimir; uma situação kafkiana é o que é, para sempre, e nenhuma pergunta sobre sua natureza parece atingi-la no centro. Kafka morreu em 1924, antes de completar a idade de 41 anos.

Escreveu O Castelo em 1922, em cerca de seis meses. Não se sabe por quê, suspendeu a escrita no meio de uma frase: - “Ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse”. Não há como não ver essa incompletude gramatical como imagem da própria literatura kafkiana. Lendo Kafka à luz de Kafka, parece desnecessário ou impertinente devanear sobre a sequência, pois ela está inscrita em todas as páginas anteriores: K., o suposto agrimensor, não alcança o castelo. Não se desenreda - e é esse o seu presente contínuo. Decerto, essa interioridade é objetivamente duplicada pela exterioridade da parede e do recinto, porque a casa é acessoriamente um “universo contra”, motivo pelo qual pode suscitar fantasias diurnas. Um psicólogo notou muito bem, afirma Gilbert Durand (1997), o duplo uso que pode ser feito da “construção habitável”. – “A casa é uma construção, mas é também uma habitação, um lar. Há duas orientações simbólicas possíveis, para uns a casa deve ser construída antes de se sentir aleatoriamente um lar, para outros – e são estes últimos que nos interessam, pois, a casa representa primitivamente um lar esses não decompõem em fatores racionais e em fatores sentimentais a cabana está mais próxima deles do que o arranha-céu das cidades.

E é de fato para essa última espécie de imaginação que a casa assume o seu sentido mais profundo: a amêndoa importa aqui mais que a casca. Do mesmo modo, a significação da casa como “construção de si”, invocando a imagem da “pedra angular”, e a parábola evangélica das duas casas não passam, na nossa opinião, de incidências secundárias do fundamental simbolismo da intimidade. Vamos aí, uma vez mais, o inconveniente que existe em classificar os símbolos em torno do de objetos-chave em vez de em torno de trajetos psicológicos, ou seja, de esquemas e gestos. O mundo da objetividade é polivalente para a projeção imaginária, só o trajeto psicológico é simplificador. Baudouin não consegue descrever um simbolismo nítido da morada porque em duas páginas passa sub-repticiamente dos arquétipos da interioridade aos da “ascensão moral” simbolizada pelos andares. A ascensão sob todas as suas formas, escadas, escadarias, elevadores, campanários ou zigurates, pertence, uma constelação arquetípica, por assim dizer, completamente diferente da morada. O campanário está separado psicologicamente da igreja, sendo esta imaginada como uma nave espacial.

As escadas da casa dessem sempre e subir ao sótão ou aos quartos de cima é ainda descer ao “coração do mistério”, de um mistério certamente diferente da adega, mas igualmente matizado de isolamento, regressão e intimidade. Portanto, “da adega ao sótão” são sempre os esquemas de descida, da escavação, da involução e os arquétipos da intimidade que dominam as imagens da casa. A casa, para a fantasia individual e coletiva, nunca é muralha, fachada ou pináculo, muito menos arranha-céu, é sim moradia, e só para a estética arquitetural é que se perverte em alinhamento de paredes a torre de Babel. A importância microscópica concedida à moradia indica já a primazia dada na constelação da intimidade às imagens do espaço feliz, do centro paradisíaco. Não insistiremos nas famosas teses rankianas segundo as quais o tema do espaço paradisíaco seria pré-formado pelo esquematismo do farniente intrauterino. Notemos que a história das religiões insiste na doce coalescência do homem e do seu meio ambiente; mais ainda, a gentrix é isomórfica do lugar santo; “Paisagem natural e estatueta feminina são dois aspectos equivalentes da abundância e da fecundidade. E, de resto, o habitat, a morada relacionam-se positivamente numa dialética sintética com o meio ambiente geográfico.

O chalé implica a montanha e o terraço do bordf reclama o sol tropical. A deusa exige um lugar sagrado. E os móveis desse lugar santo primitivo, além de uma nascente ou uma extensão de água, são a árvore sagrada, o poste de madeira, ou seu equivalente, o bétilo, o churinga australiano cuja verticalidade vem dar fecundidade, pelo seu aspecto masculino, às virtudes propriamente paradisíacas. O lugar santo, microcosmo sagrado e completo, tal como o Graal, completa-se pela espada; compreende também, com efeito, símbolos fálicos e masculinos: montanha, árvore e pedra levantada, só os dois últimos se prestam à individuação, e Jean Przyluski em L`Évolution Humaine (1942) tenta mostrar como a estátua sagrada deriva da estela de pedra ou do poste de madeira. Linguista francês estudioso de religião e budismo de ascendência polonesa. Seus interesses variaram através da estrutura da língua vietnamita, o desenvolvimento de mitos e lendas budistas, bem como tradições folclóricas indo-europeias, como o culto aos lobisomens. 

Cada símbolo empregado na doutrina do Santo Daime apresentam a seguinte descrição: Farda: vestimenta usada durante os rituais do Santo Daime. Pode ser branca, para dias de hinários oficiais, ou azul para concentração e trabalhos não oficiais. Para as mulheres, a farda é acompanhada de uma fita verde pregada no ombro esquerdo, que simboliza proteção. Já para os homens, a roupa é composta pelo paletó branco e a gravata azul marinho, que possui o mesmo significado da fita. Coroa: de cor branca e bordada com lantejoulas, é usada pelas mulheres e representa a Rainha da Floresta. Santo Cruzeiro ou Cruz de Caravaca: é uma cruz de dois braços que representa fé redobrada ou também os trabalhos dos Daimistas (braço menor da cruz) sobreposto à cruz de Jesus Cristo (braço maior da cruz). Ou ainda significa o lado espiritual e a parte física. Rosário: adotado do catolicismo, é um terço com 165 contas, que correspondem a 15 dezenas de ave-marias e 15 pais-nossos. Beija-flor: é o símbolo da doutrina. A imagem do pássaro é associada à ayahuasca e representa a cura. Estrela de Salomão ou Selo de Salomão: a estrela de seis pontas entrelaçadas deve ser ostentada no peito do daimista. O vértice superior representa o fogo, e o inferior, a água. Maracá: chocalho usado pelos índios nas solenidades religiosas e de guerra. O instrumento acompanha os hinários. Ele é feito com uma lata pequena, bolinhas de metal e um cabo de madeira. Sol: fonte de vida na Terra, no Santo Daime está associado ao Cristo, sendo a ressurreição do filho de Deus a cada dia que nasce. Lua: representa Nossa Senhora da Conceição, e, finalmente, o Hinário: são as canções religiosas cantadas durante o parcours do culto. Podem representar lições preciosas, testemunhos de graças, chamados de entidades protetoras e guias espirituais.        

Nos Trabalhos de Hinário o objetivo é prestar atenção nos hinos, pois eles trazem os ensinamentos espirituais. Eles podem ser feitos com as pessoas sentadas ou bailando. Os Trabalhos Festivos, em celebração a datas especiais, são sempre Trabalhos de Hinário e neles é usada a Farda Branca. Nesse tipo de seção, se consagra o Daime uma vez para o início do Trabalho e, depois disso, consagra-se por volta de 30 a 30 hinos no decorrer do hinário. Quando são cantados hinários mais longos, como O Cruzeiro Universal do Mestre Irineu, é comum que se faça um intervalo. O bailado, feito em alguns dos trabalhos de hinário, são passos específicos para cada ritmo de hino. Os ritmos mais comuns são a marcha, a valsa, a meia valsa e a mazurca. No Trabalho de Concentração o objetivo é o silêncio, para que possamos tocar nosso Eu Superior e ouvir a voz de Deus em nós. A seção começa com a consagração do Daime e o canto de hinos específicos de Concentração que servem para chamar a força espiritual necessária. Depois disso, se consagra o Daime para o início da Concentração quando, em posição meditativa, as pessoas devem se manter em silêncio para a conexão com o Eu Divino.    

É importante, na Concentração, que se mantenham os braços e as pernas descruzados para que a energia possa circular e os Chakras se equilibrarem. É bom manter a coluna ereta, os músculos relaxados, porém atentos e a respiração calma e constante. Depois de 1 hora e 40 minutos de concentração, o trabalho pode se encerrar. Algumas vezes, pode acontecer uma terceira consagração para o canto de uma seleção de hinos ou de um hinário pequeno, como O Cruzeirinho do Mestre Irineu. O Trabalho de Cura é bastante semelhante ao Trabalho de Concentração, com a diferença de ser feito inteiramente para a intenção da cura. - Nele nos focamos na cura em todos os níveis (emocional, físico e espiritual) de nós mesmos, nossos ancestrais, entes queridos e pela humanidade. A Santa Missa foi deixada pelo Mestre Irineu e nela oramos pela iluminação das almas desencarnadas. É também a versão daimista do Sacramento da Extrema Unção. No Céu do Gamarra, a fazemos quando do desencarne de um irmão ou irmã, do sétimo dia de sua passagem, e à passagem de pessoas importantes (Mestre Irineu e o padrinho Sebastião) e em toda primeira segunda-feira do mês como forma de caridade para as almas necessitadas. Na Missa do Mestre se consagra o Daime uma vez, no início, e são cantados os dez hinos sem o acompanhamento de instrumentos musicais.

Entre um hino e outro, são rezados três Pai Nossos e três Ave Marias. Na missa com os hinos do Padrinho Fabio, também o Daime é consagrado uma vez, no início, e são cantados dez hinos com acompanhamento de instrumento musical, porém sem maracá. Ao invés das orações entre um hino e outro, é feita uma pequena concentração de dois minutos. As orações acontecem todos os domingos as 10h. Nelas, além de encontrarmos nossos irmãos e irmãs, temos a oportunidade de agradecer pelas coisas que têm acontecido em nossa semana e rogar pelo que necessitamos. No Céu do Gamarra iniciamos sempre com uma pequena concentração de 10 minutos, e cantamos os hinários que podem ser: Oração do Padrinho Sebastião, o Pão Nosso, o Vinho Santo. A sessão dura uma hora. O Feitio é quando o sacramento da doutrina do Santo Daime é feito. No Feitio é preparado o Daime, o sacramento da Doutrina. - “Com o Jagube e a Rainha na fornalha. Com o Sol e a Lua a brilhar. São as forças masculina e feminina.      

O Santo Daime, ele vai se apresentar. Hino 31 do hinário Império do Sol da madrinha Suzana Pedalino. O nome Daime vem do verbo dar. É uma interjeição: dai-me luz, dai-me força, dai-me amor. A Doutrina tem o nome de Santo Daime porque “a bebida é um Vinho Santo, um presente da Rainha da Floresta para que possamos nos conectar com Deus dentro de nós”. A bebida é feita pela união da folha Rainha, do cipó Jagube, da água e do fogo, que se tornam um Vinho Santo através da Alquimia Divina, alcançada pelo esforço comunitário, pela concentração e pela disciplina durante o feitio: “O Cipó tem a força. E a Folha nos traz a luz. Da água vem a vida. E do fogo o Vosso Santo Amor”. Hino 17 d’O Terceiro Livro (Renascimento) do padrinho Fábio. O Cipó e a Folha são conhecidos desde tempos imemoriais por povos indígenas da Amazônia Ocidental. Ayahuasca é um dos nomes que a bebida feita com o Cipó e a Folha recebe entre esses povos. O nome significa linha dos mortos, pois une as palavras quíchua Aya (pessoa morta) e Huasca (linha) e a bebida servia principalmente para o contato desses povos com seus ancestrais. A Ayahuasca é uma infusão, como um chá, diferente do Daime que é um Vinho. O Vinho foi um presente da Rainha da Floresta, que ensinou seu feitio para o Mestre Irineu. Quando consagramos o Daime, acessamos a Luz da Rainha da Floresta, a Doutrina presente nas plantas amazônicas e acesa pela Alquimia Divina.

Assim, apesar de as plantas já serem reconhecidas por tantos povos, foi com o Mestre que esse caminho em específico, o caminho da Divina Mãe, se abriu. - “Essa luz é da floresta, que ninguém não conhecia”. Hino 65 d’O Cruzeiro Universal do Mestre Irineu. Este Vinho Santo é como um cordão que nos liga diretamente à Deus dentro de nós, despertando nossa Consciência Divina e nos elevando a frequências espirituais superiores. Quando tomamos Daime e silenciamos nossa mente, podemos ouvir a Deus e ao nosso professor Juramidam, o espírito superior do Mestre Irineu que se mantém sempre vivo neste Sacramento Divino. Como uma Alquimia perfeita o Daime une o feminino, que é a Folha Rainha e o masculino, que é o Cipó Jagube. O Cipó traz a força e a Folha a luz da miração. O Feitio dura por volta de um mês. Começa com a colheita do Cipó na lua nova pelos homens e da Rainha pelas mulheres. Termina com os últimos litros de Daime sendo engarrafados. Seguindo a Alquimia Divina das plantas, existe uma sincronia constante entre homens e mulheres para que o material e a infraestrutura necessárias estejam sempre disponíveis e em boas condições. O Daime é feito na Casinha de Feitio, onde os homens trabalham. O Cipó é macerado e em panelões junto com a Folha e a água. Alquimia é completa com o fogo, constantemente alimentado pelos fogueiros, que mantêm a temperatura adequada das panelas.

Esse processo dura cerca de cinco dias pois são muitas as fases de cozimento e apuro do Sacramento. O Daime está pronto quando o feitor bate três vezes na panela. Depois disso ele é “litrado”, ou seja, engarrafado e, como um vinho, fica guardado por pelo menos um ano para que sua fermentação atinja um ponto ideal para a consagração na Igreja. - “Três batidas.  É o ponto do Daime, Sol, Lua, Estrela. Foi quem me chamou”. Hino 25, Segundo Livro (Ancestral) do padrinho Fabio Pedalino. No Santo Daime celebramos os Sacramentos de Batismo, Crisma, Casamento e Fardamento nos trabalhos de Farda Branca. Ao longo do ano realizamos dois trabalhos de mulheres, um durante o feitio na semana santa e outro no início da primavera onde também acontece um retiro do Sagrado Feminino no Espaço Lua Branca. Outros trabalhos como nas bençãos do útero mundiais e em luas novas também acontecem eventualmente onde a energia feminina é trabalhada através de cânticos, danças, meditações e conversas. O hinário para as crianças cantamos na igreja ou ao ar livre celebrando os animais e os elementais com danças e gestuais no dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida. O trabalho de jovens vem sendo desenvolvido desde 2018 e tem o intuito de estimular e capacitar os jovens dentro da Doutrina do Santo Daime. Fazemos caminhadas, jogos, oficinas musicais, além da consagração da santa bebida dentro da ritualística da doutrina do Santo Daime. Antropólogos culturais e adeptos religiosos frequentemente desaprovam o uso do termo ideológico “alucinógeno” para descrever a ayahuasca. Propõe-se o termo enteógeno, ou “gerador da divindade interna” uma vez que sua utilidade de uso se dá em contextos ritualísticos específicos.

A categorização científica da ayahuasca, enquanto substância, sem levar em consideração qualquer contexto social de uso, é de um alucinógeno ou psicodélico. Para a farmacologia, do ponto de vista bioquímico, ele denota a substância como um alterador da percepção e da cognição que age sobre os receptores de serotonina, igual ao dietilamida do ácido lisérgico (LSD) vulgarmente reconhecido simplesmente por “ácido”, é uma das mais fortes substâncias alucinógenas reconhecidas. Foi descoberto acidentalmente em 1943 pelo químico suíço Albert Hofmann (1906-2008), enquanto trabalhava na Sandoz, que se tornou um entusiasta da substância até sua morte aos 102 anos. Ela se originou de uma pequena empresa que surgiu na Basileia, Suíça, em 1886. Kern & Sandoz, como a empresa era originalmente chamada, tendo como seu escopo na produção de corantes. Contudo, em uma década de atividade, ela produziu sua primeira substância medicinal, a antipirina, um agente controlador da febre. Em 1917, a empresa estabeleceu seu departamento farmacêutico (1929), o Calcium Sandoz ao mercado, servindo de base para a terapia e continuou sendo produzido até se tornar o produto da empresa e ainda se encontra representado no portfólio de produtos da Novartis.  

A droga foi muito visada nas sequências de pesquisas clínicas. Alguns psiquiatras e demais estudiosos do tema “a testaram em si mesmos”. Queriam entender as desordens severas por que pacientes eram acometidos, pois segundo determinadas teorias e dadas experiências, era possível simular a esquizofrenia sob seu efeito, entre outras condições semelhantes. Após certa experimentação e maior divulgação no âmbito da comunidade científica, tornou-se prática frequente seu uso clínico em sessões de psicoterapia, pois acreditava-se que o inconsciente se tornava intensamente acessível por meio do LSD, é uma droga cristalina, que ocorre naturalmente como resultado das reações metabólicas do fungo Claviceps purpurea, relacionado especialmente com os alcaloides produzidos por esta cravagem, ajudando o paciente a nova percepção acerca das questões que envolvem seu universo psicoafetivo. Stanislav Grof, nascido em Praga, 1º de julho de 1931 é um psiquiatra checo que desenvolveu pesquisas nos Estados Unidos da América sobre os estados alterados de consciência, psiquiatra, ganhou renome mundial com o pioneirismo desta prática, mas teve de abandoná-la e procurar alternativas após a ilegalidade do LSD. Atribui-se auxílio na descoberta da estrutura do DNA, que rendeu o prêmio Nobel a Francis Crick (1916-2004), à mente brilhante do cientista sob o LSD.

Similarmente ao modo como a molécula de benzeno foi descoberta no século XIX em um sonho por Friedrich von Stradonitz (1829-1896), Crick visualizou a dupla hélice do DNA pela primeira vez, em meados do século XX, sob a influência essencialmente onírica da droga. Outra mente inventiva famosa que considerava a experiência com LSD como uma das mais importantes de sua vida foi Steve Jobs (1955-2011), cofundador e antigo Chief Executive Officer (CEO) da Apple Inc. A dietilamida do ácido lisérgico atingiu o apogeu de sua popularidade comercial na extraordinária década de 1960, estando seu consumo constantemente associado ao movimento psicodélico, e teve um efeito, não apenas na música, mas também em muitos aspectos da cultura popular. Isso incluiu estilo de vida, roupas, linguagem, arte, literatura e filosofia. Ipso facto que abrange imenso número de composto de renomados artistas; estão entre nomes famosos Jim Morrison, Emerson Lake and Palmer, Pink Floyd, King Crimson, Jethro Tull, Tom Zé, Beatles etc. Sua utilidade de uso associa-se também a um dos pensadores e artistas de grande peso do século XX, Aldous Huxley (1894-1963), este situado na produção cultural erudita, com a autobiografia escrita em inglês The Doors of Perception, é obra de Aldous Huxley. Publicada em 1954, discorre sobre sua experiência psicodélica sob “o efeito da mescalina em maio de 1953”. Huxley relembra os insights que experimentou, desde a visão puramente estética à visão sacramental sobre suas implicações filosóficas e psicológicas.   

Em 1956, Huxley publicou Heaven and Hell, outro ensaio em que aprofunda essas reflexões. As duas obras têm sido muitas vezes publicadas juntas em edições e traduções posteriores; o título de ambos advém do poema The Marriage of Heaven and Hell (1973), de William Blake. A obra provocou reações controversas por suas considerações acerca da utilidade de uso de “drogas psicodélicas como caminho para a abertura mística com grandes benefícios potenciais para a ciência, arte e religião”. Enquanto muitos acharam o argumento convincente, outros, incluindo o escritor Thomas Mann, o monge vedântico Swami Prabhavananda, o filósofo Martin Buber e o pesquisador Robert Charles Zaehner, rebateram que “os efeitos da mescalina são subjetivos e não devem ser confundidos com o misticismo religioso objetivo”. O próprio Huxley continuou a tomar psicodélicos pelo resto de sua vida, assunto que retornou em seu romance Island, de 1962. Especula-se que Salvador Dalí tenha feito uso da substância, visto ser bastante próximo ao denominado “guru do LSD” Timothy Leary que o apresentou à sua futura esposa, Nena Thurman, mãe da atriz Uma Thurman. Nos chamados anos dourados do século XX, o LSD, em seu auge, também teve sua proibição. Mas ressalta-se que, para compreender seus efeitos psíquicos ou subjetivos culturalmente, não se pode ignorar as crenças e contexto social de uso.

Nos anos 1930, o antropólogo Raoul Weston La Barre (1911-1996) publicou The Peyote Cult, o primeiro estudo do uso ritual do peiote como substância enteógena entre o povo huichol no oeste do México. Os huichóis são um grupo étnico indígena do México centro-ocidental que habitam a Sierra Madre Occidental nos estados de Nayarit e Jalisco. Devido ao isolamento, e resistência à evangelização, em que deliberadamente há muito vivem, em termos de preservação étnico-cultural mantêm muitos dos seus traços culturais originais. Os huichóis afirmam ser originários do estado de San Luis Potosí, donde migraram em direção a Oeste para partes de Durango, Jalisco, Zacatecas e Nayarit onde se situa a acidentada Sierra Huichol. Uma vez por ano alguns huichóis viajam até San Luis Potosí, terra ancestral, para as cerimônias com peiote chamadas mitote. As três principais comunidades huicholas situam-se no município de Mezquitic, Jalisco e são: San Sebastián Teponohuastlan (Wautüa em huichol), Santa María Cuexcomatitlán (Tuapuri em huichol) e San Andrés Cohamiata (Tatei Kié em huichol). Outras comunidades huicholes incluem Guadalupe Ocotán (Nayarit), Santa Catarina e Tuxpan de Bolaños (Jalisco). No entanto, apenas cerca de 7 000 huichóis vivem na sua região enquanto que 13 000 migraram para outros locais no México e outros ainda vivem em comunidades coras na Mesa del Nayar. La Mesa é parte da municipalidade (Município) de Del Nayar, está localizada no estado do Nayarit (NA) no México. As coordenadas de satélite de La Mesa são: latitude 22°1`0” N e longitude 104°30`34” W.

La Barre observou que os usuários nativos do cacto “o consumiam para obter visões de profecia, cura e força interior”. A maioria dos projetos de pesquisa psiquiátrica sobre a droga na década de 1930, e no início da década de 1940 propunham analisar “o papel da droga na mimetização da psicose”. Em 1947, no entanto, a Marinha dos Estados Unidos empreendeu o Projeto Chatter, que examinou o potencial da droga como agente revelador da verdade. No início da década de 1950, quando Huxley escreveu seu livro, a mescalina ainda era considerada apenas um produto químico de interesse científico e estava listada no catálogo laboratorial-industrial da Parke-Davis. A mescalina também desempenhou um papel fundamental na influência da geração beat de poetas e escritores do final dos anos 1940 até o início dos anos 1960, dentre eles William S. Burroughs (1914-1977), Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997), sendo todos eles respeitados artistas de sua radiante geração. Os trabalhos de muitos outros artistas de seu tempo foram influenciados por formas de mescalina vendidas “sem receita durante esse período”, devido à potência e de fácil acessibilidade no mercado.

Aldous Huxley se interessava por assuntos espirituais e usava terapias alternativas há algum tempo. Em 1936 ele disse a T. S. Eliot (1888-1965), poeta, dramaturgo e crítico de língua inglesa, que estava começando a meditar e também usava outras terapias; por exemplo, a Técnica de Alexander e o Método Bates tiveram particular importância para guiá-lo através de problemas pessoais. No final da década de 1930, ele se interessou pelo ensino espiritual do Vedanta. A filosofia do Vedanta consiste em entender que a pessoa é “livre” do samsara, que se compreende pelo ciclo de sucessivas reencarnações no qual as pessoas passam por períodos de altos e baixos, felicidades e tristezas. Publicou The Perennial Philosophy em 1945, que estabeleceu uma filosofia em que acreditava ser encontrada entre os místicos de todas as religiões. Ele já reconhecia há algum tempo a experiência visionária “alcançada pelo uso de drogas em certas religiões”. Huxley tinha ouvido falar da utilidade de uso do peiote pela primeira vez em cerimônias da Igreja Nativa Americana no Novo México, logo depois de chegar aos Estados Unidos em 1937. Ele tomou conhecimento do princípio ativo do cacto, a mescalina, depois de ler um artigo científico escrito por Humphry Fortescue Osmond (1917-2004), psiquiatra britânico que trabalhava no Weyburn Mental Hospital, em Saskatchewan, no início de 1952.  

O texto de Osmond apresentou resultados de sua pesquisa sobre esquizofrenia, com os médicos Abram Hoffer e John Smythies, fazendo uso controlado da mescalina em pacientes. No epílogo de seu romance The Devils of Loudun, publicado no início daquele ano, Huxley havia escrito que as drogas eram “atalhos tóxicos para a autotranscendência”. Para o famoso escritor anarquista canadense George Woodcock, Huxley mudou de opinião porque a mescalina não era viciante e parecia não ter efeitos colaterais físicos ou mentais desagradáveis. Além disso, ele descobriu que a hipnose, a autohipnose e a meditação falharam em produzir os resultados que desejava.  Depois de ler o artigo de Humphry Osmond, enviou-lhe Huxley uma carta na quinta-feira, 10 de abril de 1952, expressando interesse na pesquisa e apresentando-se como “cobaia experimental”. Sua carta explicou as motivações como sendo enraizadas na ideia de que o cérebro é uma válvula redutora que restringe a consciência, e esperançoso de que a mescalina poderia ajudá-lo a maior grau de consciência, ideia incluída depois no livro.  

Refletindo sobre suas motivações declaradas, Woodcock escreveu que Huxley havia percebido que os caminhos para a iluminação eram muitos, incluindo oração e meditação. Ele esperava que as drogas também derrubassem as barreiras do ego, e ambas o aproximassem da iluminação espiritual e satisfizessem sua procura abstrata em busca de conhecimento. Em uma segunda carta no sábado, 19 de abril, Huxley convidou Osmond para permanecer em Los Angeles enquanto o visitava para participar da convenção da importante Associação Americana de Psiquiatria, é a principal organização profissional de psiquiatras e estudantes de psiquiatria nos Estados Unidos da América, e a mais influente no mundo ocidental. Seus cerca de 38 mil membros são, em sua maioria, norte-americanos, mas muitos são de vários lugares do mundo. A associação tem várias publicações e panfletos, bem como do ponto de vista técnico-metodológico o Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais (DSM), que descreve as condições psiquiátricas e é usado como referência para diagnóstico dos transtornos mentais. Ele também escreveu que estava ansioso pela experiência com mescalina e assegurou a Osmond que seu médico não se opunha ao consumo. Huxley convidou seu amigo, o escritor Henry Fitzgerald Heard (1889-1971), um historiador, escritor de ciências, conferencista, educador e filósofo norte-americano nascido no Reino Unido. Ele escreveu inúmeros artigos e pouco mais de 35 livros temáticos e foi convidado para participar do experimento; embora Henry Heard estivesse muito ocupado desta vez, mesmo assim, juntou-se a ele para uma sessão em novembro daquele ano. Osmond chegou à casa de Huxley em West Hollywood no domingo, 3 de maio de 1953, e registrou suas impressões do famoso autor “como um homem tolerante e gentil”, embora esperasse o contrário.                        

O psiquiatra tinha dúvidas sobre dar a droga a Huxley e escreveu: - “Eu não gostei da possibilidade, por mais remota que seja, de ser o homem que deixou Aldous Huxley louco”, mas, em vez disso, achou-o um sujeito ideal. Huxley era “astuto, prático e direto ao ponto” e sua esposa, Marie Nys (1899-1955), “eminentemente sensata”. Os amigos, familiares e entes queridos de Marie a descreviam consistentemente como uma mulher encantadora e caprichosa que se preocupava profundamente com o marido, muitas vezes ao ponto de priorizar o bem-estar e sucesso dele sobre o dela. A refugiada tinha 17 anos quando começou a ser Aldous em 1915, enquanto residia em Garsington Man, perto de Oxford, Inglaterra. Os dois se casaram em 1919 e tiveram seu filho, Matthew, no ano seguinte. Em 1937, a família Huxley mudou-se para Hollywood, Califórnia. A tendência de adorar Aldous continua até sua morte por câncer de mama em 12 de fevereiro de 1955. Mas ela não era apenas a esposa de Aldous. Ela foi uma pioneira psicodélica por direito próprio. E participante direta em uma das experiências dos Estados Unidos, finalmente com o pensamento de seu marido famoso e psicodélico, foi fundamental para influenciar as dimensões artísticas, estéticas e culturais da sociedade na América do pós-guerra.

No geral, é possível admitir que todos gostavam uns dos outros, o que era muito importante na administração clínica do medicamento. A mescalina demorou a fazer efeito, mas Osmond percebeu que “depois de duas horas e meia a droga já fazia efeito e depois de três horas Huxley estava respondendo bem. A experiência durou oito horas e tanto Osmond quanto Marie Nys permaneceram com ele o tempo todo possível. A experiência começou no escritório de Huxley antes que o grupo fizesse uma viagem de sete quarteirões até a loja The Owl Drug, reconhecida como “a maior drogaria do mundo”, na esquina das avenidas Beverly e La Cienega. Huxley gostava particularmente da loja e da grande variedade de produtos disponíveis. Lá, contemplou uma variedade de pinturas em livros de arte. Para um amigo, a visão distorcida de Huxley se manifestava em um grande desejo de ver e interpretar o mundo daquela forma, quanto em um interesse pela pintura, o que influenciou a natureza visual e artística de sua experiência.

Depois de voltar para casa para ouvir música, para comer e passear no jardim, um amigo levou o trio para as colinas com vista panorâmica para a cidade. As fotografias mostram Huxley em pé, alternadamente com os braços nos quadris e estendidos com um sorriso no rosto. Finalmente, eles voltaram para casa e para a consciência comum. Um dos amigos de Huxley que o conheceu no dia disse que, apesar de escrever sobre o uso de calças de flanela, na verdade ele estava vestindo jeans. Huxley admitiu ter trocado o tecido porque Maria achava que ele deveria estar mais bem vestido para seus leitores. Osmond disse mais tarde que tinha uma foto do dia que demonstrava Huxley vestindo flanelas. Uma das cópias das edições exclusivas pintadas à mão de William Blake, criadas para a impressão original do poema. A linha da qual Huxley retira o título está na penúltima estrofe. Esta cópia está atualmente no Museu Fitzwilliam, considerado um extraordinário museu de arte e antiguidades da Universidade de Cambridge, localizado na Trumpington Street, na área central de Cambridge, Inglaterra. Foi fundado em 1816 pela doação da coleção de Richard Fitzwilliam, o 7º Visconde Fitzwilliam. A coleção do museu inclui obras-primas de mestres nada menos que Ticiano, Giambattista Pittoni, Canaletto, Simone Martini, Domenico Veneziano, Veronese, Rubens, Van Dyck, Frans Hals, Hogarth, Gainsborough, Constable, Monet, Degas, Renoir, Cézanne e Picasso.

Após a partida de Osmond, Huxley e Mary partiram para uma viagem de carro de três semanas e 8 000 quilômetros pelos parques nacionais do noroeste dos Estados Unidos. Depois de retornar a Los Angeles, ele levou um mês para escrever o livro: The Doors of Perception foi o primeiro livro que Huxley dedicou à sua esposa Mary. Harold Raymond, da Editora Chatto & Windus, disse sobre o manuscrito: - “Você é a cobaia mais articulada que qualquer cientista poderia esperar envolver”. O título foi tirado do poema de William Blake, The Marriage of Heaven and Hell. Trata-se de uma série de textos escritos imitando a profecia bíblica, expressando as próprias crenças românticas e revolucionárias intensamente pessoais de William Blake. A obra foi composta entre 1790 e 1793, no período de fermento radical e conflito político imediatamente após a Revolução Francesa. O título é uma referência irônica à obra teológica de Emanuel Swedenborg, Paraíso e o Inferno, publicada em latim 33 anos antes. Swedenborg é diretamente citado e criticado por Blake em vários lugares de Casamento. Embora Blake tenha sido influenciado por sua concepção cósmica grandiosa e mística, as restrições morais convencionais de Swedenborg e sua visão maniqueísta do bem e do mal levaram Blake a expressar uma visão deliberadamente despolarizada e unificada do cosmos no qual o mundo material e o desejo físico são igualmente parte da ordem divina; portanto, um casamento do paraíso e do inferno. O livro é escrito em prosa, exceto pela abertura “Argumento” e “Uma Canção de Liberdade”. O livro descreve a visita do poeta ao inferno, um dispositivo adotado por Blake da Divina Comédia de Dante e Paraíso Perdido de Milton.

Se as portas da percepção fossem limpas, tudo pareceria ao homem como é: Infinito. Pois o homem se fechou até ver todas as coisas através das estreitas fendas de sua caverna. Huxley havia usado a metáfora de Blake em The Doors of Perception ao discutir as pinturas de Johannes Vermeer e os irmãos Nain, e antes em The Perennial Philosophy, para se referir ao uso da “mortificação como meio de remover a miopia espiritual persistente e à ausência de separação na visão espiritual”. William Blake teve um impacto de revelação de interesse sobre a modernidade retumbante em Huxley: ele compartilhou muitas das revelações e interesses que Blake já apontava na arte e na literatura. No início da década de 1950, Huxley havia sofrido “um ataque debilitante da doença ocular irite”. Isso aumentou sua preocupação com sua visão já deficiente e grande parte de seu trabalho no início da década apresentava terríveis “metáforas da visão”, o principal texto da teoria cinematográfica de Stan Brakhage, diretor expoente do cinema underground norte-americano, com cenas  do Anticipations of the night (1958).

A controvérsia enteógeno versus alucinógeno ocorre devido à conotação negativa que este último termo adquiriu em seu uso nos meios sociais e nos meios de comunicação de massa. O etnofarmacologista Dennis McKenna, tendo em vista essa controvérsia, considera tanto o termo alucinógeno quanto o termo enteógeno como inadequados para descrever a ayahuasca, e diz preferir o termo “shamanic medicine”, pois, os indivíduos podem buscar a cura xamânica para muitas doenças diferentes. A cura xamânica normalmente faz parte de uma abordagem multidisciplinar usada “para qualquer doença ou desequilíbrio, em parceria com curandeiros, medicamentos botânicos, mudanças na dieta e outras terapias”. Pesquisadores de medicina indígena, sistemas etnomédicos e adeptos religiosos consideram a possibilidade e/ou atribuem à substância propriedades curativas. Nas religiões tradicionais do Brasil e entre curandeiros mestizos da região da cordilheira andina, por exemplo, acredita-se que a ayahuasca é capaz de desintoxicar (purgar), reativar órgãos danificados e propiciar melhoras em quadros de dependência química, por exemplo. O Mestre Irineu, fundador do primeiro grupo neo-ayahuasqueiro, o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, dizia afirmativamente que “o seu daime podia curar todas as doenças, exceto aquelas que vieram por sentença divina”. Entretanto, ele também dizia dialeticamente que “o Daime é para todos, mas nem todos são para o Daime”, e enfim, proibiu o proselitismo da bebida para os seus seguidores.

Bibliografia geral consultada.

HUXLEY, Aldous, Admirável Mundo Novo. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Divulgação do Livro, 1969; LUNA, Luis Eduardo; AMARINGO, Pablo, Ayahuasca Visions: The Religious Iconography of a Peruvian Shaman. Berkeley (CA): North Atlantic Books, 1991; MACRAE, Edward, Guiado pela Lua: O Xamanismo e o Uso Ritual da Ayahuasca no Culto do Santo Daime. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992; MCKENNA, Dennis Jon, Ayahuasca: Uma História Etnofarmacológica. Ayahuasca: Alucinógenos, Consciência e o Espírito da Natureza. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2002; GOULART, Sandra Lucia, Contrastes e Continuidades em uma Tradição Amazônica: As Religiões da Ayahuasca. Tese de Doutorado. Departamento de Antropologia. Campinas: Universidade de Campinas, 2004; BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz, Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007; OLIVEIRA, Isabel, Santo Daime: Um Sacramento Vivo, Uma Religião em Formação. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Brasília: Universidade de Brasília, 2007; ARAÚJO, Maria Clara Rebel, Salve a Luz e Salve a Força: Dimensões Psicossociais na Doutrina do Santo Daime. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2010; ANTUNES, Henrique Fernandes, Droga, Religião e Cultura: Um Mapeamento da Controvérsia Pública sobre Uso da Ayahuasca no Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; DIAS, Maíra de Oliveira, Processos de Patrimonialização no Campo Religioso Brasileiro: O Caso do Santo Daime. Dissertação de Mestrado.  Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2015; NEVES, André Coitinho das, O Processo de Patrimonialização da Ayahuasca no Brasil: Conquistas, Disputas & Tensões. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2017; RANZI, Pedro, Vamos Falar o Acreanês. Rio Branco: Editora da Universidade Federal do Acre, 2017; BENEDITO, Camila de Pieri, “Maria Que Me Ensina a Ser Mulher”: Religião e Gênero no Santo Daime. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2019; KAHMANN, Ana Paula; SILVEIRA, Éder da Silva, “Narrativas sobre Processos Educativos no Santo Daime”. In:  Revista Teias. Edição Especial. vol. 21, agosto de 2020; SOEIRO, Herta Maria de Açucena do Nascimento, “Eu Canto nas Alturas”: Uma Análise do Ethos Discursivo nos Hinos do Santo Daime. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Porto Velho: Fundação Universidade Federal de Rondônia,  2022; entre outros.