“É um estranho desejo, desejar o poder e perder a liberdade”. Francis Bacon (1625)
Francis Bacon, 1° Visconde de
Alban, também referido como Bacon de Verulâmio nascido em Londres (1561-1626),
foi um político, filósofo empirista, cientista, ensaísta inglês, barão de
Verulam e visconde de Saint Alban. É considerado como um dos fundadores da
Revolução Científica. Desde cedo, sua educação orientou-o para a vida política,
na qual exerceu posições elevadas. Em 1584 foi eleito para a câmara dos comuns.
Sucessivamente, durante o reinado de Jaime I, desempenhou as funções de
procurador-geral (1607), fiscal-geral (1613), guarda do selo (1617) e grande
chanceler (1618). Neste mesmo ano, foi nomeado barão de Verulam e em 1621,
visconde de Saint Alban. Também em 1621, Bacon foi acusado de corrupção.
Condenado ao pagamento de pesada multa, foi também proibido de exercer cargos
públicos. Como filósofo, destacou-se com uma obra onde a ciência era exaltada
como benéfica para o homem. Em suas investigações, ocupou-se especialmente da
metodologia científica e do empirismo, sendo muitas vezes chamado de “fundador
da ciência moderna”. Sua principal obra filosófica é o Novum Organum. Foi
um dos mais reconhecidos e influentes rosacruzes e também um alquimista, tendo
ocupado o posto mais elevado da Ordem Rosacruz, o de Imperator. Estudiosos como
sendo o real autor dos famosos manifestos rosacruzes, Fama Fraternitatis
(1614), Confessio Fraternitatis (1615) e Núpcias Alquímicas de
Christian Rozenkreuz (1616).
O pensamento filosófico de Bacon representa a tentativa de realizar aquilo que ele mesmo chamou de Instauratio magna. A realização desse plano compreendia uma série de tratados que, partindo do estado em que se encontrava a ciência da época, acabariam por apresentar um novo método que deveria superar e substituir o de Aristóteles. Esses tratados deveriam apresentar um modo específico de investigação dos fatos, passando, a seguir, para a investigação das leis e retornavam para o mundo dos fatos para nele promover as ações que se revelassem possíveis. Bacon desejava uma reforma completa do conhecimento. A tarefa era, obviamente, gigantesca e o filósofo produziu apenas certo número de tratados. Não obstante, a primeira parte da Instauratio foi concluída. A reforma do conhecimento é justificada em uma crítica à filosofia anterior, especialmente a Escolástica, considerada estéril por não apresentar nenhum resultado prático para a vida do homem. O conhecimento científico, para Bacon, tem por finalidade servir o homem e dar-lhe poder sobre a natureza. A ciência antiga, de origem aristotélica, também é criticada. O filósofo materialista Demócrito era tido em alta por Bacon, que o considerava mais importante que Platão e Aristóteles. A ciência deve restabelecer o imperium hominis (império do homem) sobre as coisas. A filosofia verdadeira não é “apenas a ciência das coisas divinas e humanas”.
É também algo prático, isto é, saber é poder. A mentalidade científica somente será alcançada através do expurgo de uma série de preconceitos ordinariamente chamados ídolos. O conhecimento, o saber, é apenas um meio vigoroso e seguro de conquistar poder sobre a natureza. No que se refere ao Novum Organum, Bacon preocupou-se inicialmente com a análise de falsas noções (ídolos) que se revelam responsáveis pelos erros cometidos pela ciência ou pelos homens que dizem fazer ciência. É um dos aspectos mais fascinantes e de interesse permanente na filosofia de Bacon. Esses ídolos foram classificados em quatro grupos: 1. Idola Tribus (ídolos da tribo): Ocorrem por conta das deficiências do próprio espírito humano e se revelam pela facilidade com que generalizamos com base nos casos favoráveis, omitindo os desfavoráveis. O homem é o padrão das coisas, faz com que todas as percepções dos sentidos e da mente sejam tomadas como verdade, sendo que pertencem apenas ao homem e não ao universo. Dizia que a mente se desfigura da realidade. São assim chamados porque são inerentes à natureza humana, à própria tribo ou raça humana; 2. Idola Specus (ídolos da caverna): De acordo com Bacon, cada pessoa possui sua “própria caverna”, que interpreta e distorce a luz particular, à qual estão acostumados.
Isso quer dizer que, da
mesma maneira presente na obra “República” de Platão, os indivíduos, cada um,
possui a sua crença, sua verdade particular, tida como única e indiscutível.
Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantêm o
homem preso em preconceitos e singularidades; 3. Idola Fori (ídolos do
foro ou de mercado): Segundo Bacon, os ídolos do foro são os mais
perturbadores, já que estes alojam-se no intelecto graças ao pacto de palavras
e de nomes. Para os teóricos matemáticos um modo de restaurar a ordem seria
através das definições. Porém de acordo com a teoria baconiana, nem mesmo as
definições poderiam remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas
materiais e naturais posto que as próprias definições constam de palavras e as
palavras engendram palavras. Percebe-se, portanto, que as palavras possuem
certo grau de distorção e erro, sendo que umas possuem maior distorção e erro
que outras; 4. Idola Theatri (ídolos do teatro): Os ídolos do teatro têm
suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstrações. Os
falsos conceitos, são as ideologias, essas são produzidas por engendramentos
filosóficos, teológicos, políticos e científicos, todos ilusórios. Os ídolos do
teatro, para Bacon, eram os mais perigosos, porque, em sua época, predominava o
princípio da autoridade – os livros da antiguidade e os livros sagrados eram
considerados a fonte de todo o conhecimento.
Escólio: Nova
Atlântida é um romance utópico incompleto de Francis Bacon, publicado
inicialmente, em julho de 1626, poucos meses após a morte de autor, como um
apêndice de Sylva sylvarum. Nessa obra, o autor expressa suas aspirações e
ideais para a humanidade, expondo sua visão do futuro, que inclui evolução do
conhecimento humano. O romance descreve a criação de uma terra utópica onde “generosidade
e iluminação, dignidade e esplendor, piedade e espírito público” são as
qualidades comumente defendidas pelos habitantes da mítica Bensalém. Um
dos centros dessa utopia é a “Casa de Salomão”, uma moderna universidade de
pesquisa em ciências aplicadas e puras. O romance retrata Bensalém, uma ilha
mítica que foi descoberta pela tripulação de um navio europeu depois que eles
se perderam no Oceano Pacífico em algum lugar a Oeste do Peru. O romance
descreve a evolução gradual da ilha, seus costumes e sua instituição científica
patrocinada pelo estado, a “Casa de Salomão”, que seria “o próprio olho deste
reino”. Muitos aspectos da sociedade e da história da ilha são descritos, como
uma desenvolvida a partir do cristianismo, pois uma cópia da Bíblia e uma carta
do Apóstolo São Bartolomeu teria chegado ali milagrosamente, poucos anos depois
de Ascensão de Jesus. Na ilha seria celebrada, anualmente, uma festa cultural
em homenagem à instituição familiar, denominada: “Festa da Família”; existiria
um colégio de sábios, denominado como: “a Casa de Salomão”, que seria o próprio
“olho do reino”, para a qual o “Deus do céu e da terra concedeu a graça de
conhecer as obras da Criação e os segredos delas”, bem como “para discernir
entre milagres divinos, obras da natureza, obras de arte e imposturas e ilusões
de todos os tipos”.
Os habitantes de
Bensalem foram descritos como tendo um alto caráter moral e honestidade, pois
nenhum oficial aceita qualquer pagamento de indivíduos. O povo também foi
descrito como casto e piedoso. No último terço do livro, o Chefe da Casa do
Salomão leva um dos visitantes europeus para apresentar toda a formação
científica da Casa do Salomão, onde são realizados experimentos utilizando o método
baconiano para compreender e conquistar a natureza, e para aplicar os
conhecimentos recolhidos para a melhoria da sociedade. Desse modo, são
apresentados: o objetivo da fundação, que seria: “o conhecimento das causas e
movimentos secretos das coisas; e a ampliação dos limites do império humano,
para a efetivação de todas as coisas possíveis”; os preparativos que os
integrantes fazem para realizar os seus trabalhos; as várias funções que são
atribuídas aos bolsistas; e as ordenanças e ritos que eles observam. Desse
modo, o autor descreveu sua visão do futuro para o desenvolvimento do
conhecimento humano. O plano e a organização de seu colégio ideal, a “Casa de
Salomão”, previa a como deveriam funcionar as universidades de pesquisa moderna
tanto em ciência aplicada quanto em ciência pura. Os integrantes da “Casa de
Salomão”, que eram divididos em grupos: os “mercadores de luz”, que eram doze
integrantes navegavam para países estrangeiros, nomes ocultos, que traziam os
livros e resumos, e padrões de experimentos feitos em outros lugares.
Os “triadores” que eram
três integrantes que faziam triagem dos experimentos descritos nos livros
trazidos pelos mercadores; os “misteriosos”, que eram três integrantes que
compilavam os experimentos das artes mecânicas, das ciências liberais e de
práticas que não eram trazidas para as artes; os “pioneiros”, que eram três
integrantes que tentavam novos experimentos; os “compiladores”, que eram três
integrantes que faziam desenhos dos experimentos em títulos e tabelas, para dar
melhor luz para o desenho de observações e axiomas a partir deles; os “benfeitores”,
que eram três integrantes que examinavam os experimentos realizados para
extrair deles coisas úteis e práticas para a vida e o conhecimento do homem,
tanto para obras quanto para demonstração simples de causas, meios naturais,
adivinhações e a descoberta fácil e clara das virtudes e partes dos corpos; os “lâmpadas”
eram três integrantes que direcionavam os novos experimentos, a partir de uma
luz mais elevada, para que fossem mais penetrantes do que os anteriores; os “inoculadores”,
que eram três integrantes que executam os experimentos concebidos pelos “lâmpadas”
e os relatavam; os “intérpretes da natureza”, que eram três integrantes que
elevavam as descobertas a observações, axiomas e aforismos maiores.
Ao descrever as ordenanças e ritos observados pelos cientistas da “Casa de Salomão”, o líder disse: - “Temos certos hinos e serviços, que dizemos diariamente, do Senhor e graças a Deus por Suas obras maravilhosas; e algumas formas de oração, implorando Sua ajuda e bênção para a iluminação de nossos labores e para torná-los em usos bons e sagrados”. Desejos são representações sociais estados mentais expressos por termos como querer, almejar ou apetecer. Uma grande variedade de fatos sociais que ocorrem na vida cotidiana apresenta características que são comumente associadas a desejos. São vistos como atitudes proposicionais em relação a estados de coisas concebíveis. Visam mudar o mundo como o mundo deveria ser, ao contrário das crenças, que visam representar como o mundo realmente é. Os desejos estão intimamente ligados à agência: motivam o agente a realizá-los. Para que isso seja possível, um desejo deve ser combinado com uma crença sobre qual ação o realizaria. Desejos apresentam seus objetos sob uma luz favorável, de forma intermitente como algo que é normal parece ser bom. Sua realização é normalmente experimentada como prazerosa, em contraste com a experiência negativa de não o conseguir. Os desejos conscientes são acompanhados por alguma forma de resposta emocional. Embora muitos pesquisadores concordem sobre essas características gerais, há uma discordância significativa sobre como definir desejos, ou seja, quais dessas características são essenciais e quais são meramente acidentais. As teorias baseadas na ação definem desejos como estruturas que nos inclinam para ações. As teorias baseadas no prazer focalizam a tendência dos desejos de prazer quando realizados. As teorias baseadas em valor identificam desejos com atitudes em relação a valores, como julgar ou ter a aparência de que algo é bom.
Desejos podem ser agrupados em vários tipos de acordo com algumas distinções básicas. Os desejos intrínsecos dizem respeito ao que o sujeito quer para seu próprio bem, enquanto os desejos instrumentais referem-se ao que o sujeito quer para o bem de outra coisa. Os desejos ocorrentes são conscientes ou causalmente ativos, em contraste com os desejos parados, que existem em algum lugar no fundo da mente. Os desejos proposicionais são dirigidos a possíveis estados de coisas, enquanto os desejos objetais são diretamente sobre objetos. Vários autores distinguem entre desejos superiores associados a objetivos espirituais ou religiosos e desejos inferiores, que se preocupam com prazeres corporais ou sensoriais. Desejos desempenham um papel em muitos campos diferentes. Há desacordo se os desejos devem ser entendidos como razões práticas ou se podemos ter razões práticas sem ter o desejo de segui-los. De acordo com as teorias do valor de atitude adequada, um objeto é valioso se é adequado desejá-lo ou se devemos desejá-lo. As teorias do bem-estar baseadas na satisfação do desejo afirmam que o bem-estar de uma pessoa é determinado por se os desejos dessa pessoa estão satisfeitos. As teorias do desejo visam definir os desejos em termos de suas características essenciais. Uma grande variedade de características é atribuída aos desejos, como que são atitudes proposicionais, que levam a ações, que sua realização tende a trazer prazer, etc. Através das diferentes teorias do desejo há um amplo acordo sobre quais são essas características. Sua discordância diz respeito a quais dessas características pertencem à essência dos desejos e quais são meramente acidentais ou contingentes. As duas teorias mais importantes definem desejos de disposições para causar ações ou em relação à sua tendência a produzir prazer ao ser cumpridos.
Uma alternativa importante de origem mais recente sustenta que desejar algo significa ver o objeto do desejo como valioso. É comum na axiologia definir o valor em relação ao desejo. Tais abordagens enquadram-se na categoria de “teorias da atitude adequada” (fitting-attitude theories). Segundo eles, um objeto é valioso se é adequado desejar este objeto ou se devemos desejá-lo. Isto às vezes é expresso dizendo que o objeto é desejável, apropriadamente desejado ou digno de desejo. Dois aspectos importantes deste tipo de posição são que ele reduz os valores a noções deônticas, ou o que devemos sentir, e que torna os valores dependentes das respostas e atitudes humanas. Apesar de sua popularidade, as teorias do valor de atitude adequada enfrentam objeções teóricas. Um problema frequentemente citado é o “problema das razões do tipo errado” (wrong kind of reason problem), que se baseia na consideração de que fatos independentes do valor de um objeto podem afetar se esse objeto deve ser desejado. Em um experimento mental, um demônio maligno ameaça o agente com matar sua família, a menos que ele deseje o demônio. Em tal situação, é apropriado para o agente desejar o demônio para salvar sua família, apesar do fato de que o demônio não possui valor positivo. O bem-estar é geralmente considerado um tipo especial de valor: o bem-estar de uma pessoa é o que, em última instância, é bom para essa pessoa. As teorias sociais da satisfação do desejo estão entre as principais teorias do bem-estar. Afirmam que o bem-estar de uma pessoa é determinado pela satisfação dos seus desejos: quanto maior o número de desejos satisfeitos, maior o bem-estar. Um problema para algumas versões da teoria do desejo é que nem todos os desejos são bons: alguns desejos podem até ter consequências terríveis para o agente. Os teóricos do desejo tentaram evitar essa objeção sustentando que o que importa não são os desejos reais, mas os desejos que o agente teria se estivesse completamente informado.
Francis Bacon, sociologicamente
ele defendeu a possibilidade de conhecimento baseado unicamente no raciocínio
indutivo e na observação cuidadosa de fenômenos naturais. Mais
importante ainda, argumentou que a ciência poderia ser alcançada por meio de
uma “abordagem cética e metódica”, na qual os cientistas buscam evitar enganar
a si mesmos. Esse método constituiu uma nova estrutura retórica e
teórica cujos detalhes práticos permanecem centrais nos debates sobre ciência e
metodologia científica. Ele foi inicialmente membro da Câmara dos Comuns na
Inglaterra, antes de se tornar Procurador-Geral, Lorde Guardião dos Selos é o
título do presidente da Câmara dos Lordes, que desempenha, simultaneamente, a
função de ministro da Justiça e de presidente do Tribunal da Chancelaria, é o
título atribuído ao ministro das Finanças, finalmente, Chanceler aos 57 anos. Embora
sua carreira política tenha terminado em desgraça, permaneceu influente na
sociedade por meio de suas obras, como defensor filosófico e praticante do
método científico durante a revolução científica. Bacon foi considerado o
criador do empirismo. Suas obras popularizaram metodologias indutivas
para a investigação científica, frequentemente chamadas de método baconiano
ou simplesmente método científico. Sua exigência de um
procedimento planejado para investigar todas as coisas naturais marcou uma nova
virada na estrutura retórica e teórica da ciência, grande parte da qual ainda na
atualidade permeia as concepções de metodologia adequada.
Francis Bacon nasceu em York House, no Strand, onde seu pai, Sir Nicholas Bacon (1509–1579), possuía uma residência. Este último foi Lorde Guardião do Grande Selo por vinte anos. A mãe de Bacon, Anne Cooke (1528-1610), foi a segunda esposa de Nicholas Bacon. Aos doze anos (abril de 1573), Bacon foi enviado para o Trinity College, em Cambridge, juntamente com seu irmão Anthony Bacon (1558–1601). Desde a infância, destacou-se por seu gênio precoce e concebeu cedo o plano de reformar as ciências; contudo, foi dissuadido desse projeto por muito tempo devido a preocupações com sua segurança financeira. Em sua juventude, acompanhou o embaixador inglês Amias Paulet à França, na corte de Henrique III. Convocado de volta à Inglaterra após a morte de seu pai, formou-se em direito e prosseguiu com sucesso nos estudos de jurisprudência. Preferindo, porém, uma carreira na vida pública, aproximou-se do Conde de Essex e foi eleito para a Câmara dos Comuns (1592). Embora tivesse concordado, para obter o favor da Rainha Elizabeth, em defender a condenação do infeliz Essex, seu protetor, recebeu dela apenas o título honorário de Conselheiro da Rainha. Ele também estudou por um período na Universidade de Poitiers, em 1577-78, aos 16 anos de idade. Após a morte de Elizabeth, Jaime I, que favorecia os eruditos, rapidamente elevou Bacon a altos cargos; nomeou-o sucessivamente Procurador- Geral (1607), depois Procurador-Geral Adjunto (1615), membro do Conselho Privado (1616), Guardião dos Selos (1617) e, finalmente, Alto Chanceler (1618); também o nomeou Barão de Verulam e Visconde de St. Albans.
Lady
Anne Bacon (nascida Cooke) (1528–1610), dama e erudita, era filha de Sir
Anthony Cooke (1505–1576), um dos tutores humanistas de Eduardo VI; recebeu o
nome de sua mãe, Anne (falecida em 1553), filha de Sir William Fitz William.
Ela foi uma das renomadas irmãs Cooke, que receberam educação clássica de seu
pai e que, segundo Thomas Fuller, eram “todas eruditas eminentes (uma honra
para elas e uma vergonha para o nosso sexo)”. A própria Anne publicou traduções
do italiano dos sermões de Bernardino Ochino (1548, 1551), bem como uma
tradução do latim da Apologia da Igreja da Inglaterra de John Jewel
(1564). Em 1553, ela se casou com Sir Nicholas Bacon (1510–1579), que
mais tarde se tornou Lorde Guardião do Selo, e foi mãe de Anthony Bacon
(1558–1601) e de seu irmão mais novo, o filósofo Sir Francis Bacon
(1561–1626). Anne procurou promover o desenvolvimento de seus filhos,
especialmente após a morte do marido, como fica evidente pelos conselhos
maternos presentes em sua correspondência. Ela era uma reformista convicta em
questões religiosas e, como viúva, promoveu ativamente a “reforma correta”,
pressionando seu cunhado, William Cecil (1520-1598), 1º Barão de Burghley e
estadista inglês, foi o principal conselheiro da rainha Isabel I durante a
maior parte do seu reinado, duas vezes secretário de Estado e Lord High
Treasurer de 1572 até sua morte, a garantir uma audiência mais justa para os
pregadores não conformistas que haviam sido marginalizados pelos artigos de
Whitgift de 1583.
Foi neste último cargo
que ele julgou Sir Walter Raleigh (1552-1618) quando foi o primeiro a
informá-lo de sua sentença de morte e, em seguida, Thomas Howard (1619). Bacon
apoiou veementemente os esforços do rei para unificar os reinos da Inglaterra e
da Escócia e implementou reformas úteis. No entanto, mal havia completado dois
anos como Alto Chanceler quando foi acusado pela Câmara dos Comuns de “aceitar
subornos para a concessão de cargos e privilégios”. O motivo de sua queda
política foi uma acusação de suborno contra a Corte da Chancelaria em
1621.Consequentemente Bacon foi condenado pela Câmara dos Lordes à
prisão na Torre de Londres e a uma multa de 400.000 libras; também foi
destituído de todas as suas dignidades e impedido de ocupar cargos públicos.
Ele admitiu sua culpa, recebeu a multa e nunca mais pisou no Parlamento. Com
essa dura sentença, o objetivo do Parlamento não era tanto punir Bacon, cujo
crime era muito menos grave do que foi apresentado, mas sim atingir o favorito
de Jaime I, George Villiers de Buckingham (1592-1628), de quem o fraco
chanceler era fantoche e cujas irregularidades ele havia tolerado com
facilidade. Por outro lado, é possível que ele tenha sido vítima de manobras
políticas dentro da corte inglesa. Após
dias, o rei o libertou e perdoou a multa.
Alguns anos depois, o
rei revogou todas as incapacitações pronunciadas contra ele (1624). No entanto,
Bacon manteve-se afastado da vida pública após sua desgraça e dedicou os
últimos anos ao trabalho filosófico. Ele morreu em 9 de abril de 1626, em
decorrência de experimentos físicos excessivos. Em seu leito de morte, escreveu
a Lord Arundel: - “Meu senhor, estava em meu destino terminar como Plínio, o
Velho, que morreu por ter chegado muito perto do Vesúvio para melhor observar
sua erupção. Eu estava diligentemente envolvido em um ou dois experimentos
sobre o endurecimento e a preservação de corpos, e tudo estava indo
perfeitamente, quando, no caminho entre Londres e Highgate, fui acometido por
um vômito tão grande que não sei se devo atribuí-lo à pedra, à indigestão, ao
frio ou aos três juntos”. Teorias controversas propostas por Elizabeth Wells Gallup
(1848-1934) e posteriormente pelo General François Cartier (1862–1953) em Un
Problème de Cryptographie et d`Histoire e por Pierre Henrion (1742-1829) em
diversas publicações, incluindo Shakespeare: Supreme Masterpiece and Proof
Definitive, tentam demonstrar que Francis Bacon e William Shakespeare são a
mesma pessoa. Essas teorias não foram aceitas pelos historiadores. Seus
principais oponentes são William Friedman e sua esposa Elizabeth Smith, com
quem se casou em 1917 — e Elizabeth Wells Gallup, em The Shakespearean
Ciphers Examined. Francis Bacon morreu de pneumonia em 9 de abril de 1626,
em Highgate, após contrair uma infecção pulmonar durante suas tentativas de
prolongar “a vida de uma galinha congelando-a na neve”.
Além de suas carreiras
no direito e na política, Francis Bacon contribuiu para a ciência, a filosofia,
a história e a literatura. Opositor da escolástica, ele é considerado o “pai do
empirismo”. Suas reflexões sobre os erros dos cientistas o levaram a formular a
famosa doutrina dos ídolos da mente (Ídolos do Teatro, Ídolos da Tribo,
Ídolos da Caverna e Ídolos do Fórum). Em Novum Organum, ele escreveu que
a dificuldade que a mente humana encontra em seu esforço para compreender a
natureza é que ela tende a projetar suas próprias construções que ele chama de “antecipações”
sobre ela. Segundo Bacon, portanto, o erro científico decorre do fato de que a
mente humana tende espontaneamente a distorcer a realidade, em vez de
refletir fielmente a ela. No século XIX, foi introduzida uma “tese
baconiana”, que afirmava que o filósofo Bacon era o autor das peças de William Shakespeare.
No entanto, essa “teoria” permanece contestada. Francis Bacon é o “pai do
empirismo” em sua forma moderna. Immanuel Kant dedicou sua Crítica da Razão
Pura a ele como tal. Ele primeiro lançou os fundamentos da ciência moderna
e seus métodos, que ele concebeu como um empreendimento coletivo, o que
o distinguirá da pesquisa solitária defendida em grande parte por Descartes no Discurso
sobre o Método, baseada na observação de fatos naturais, nas artes e
técnicas e na busca por causas naturais.
Ele planejou escrever uma obra intitulada Instauratio Magna (1620), que deveria compreender seis partes: 1. De Augmentis Scientiarum (a revista científica); 2. Novum Organum (o novo método); 3. História Natural (a coleção de fatos e observações); 4. Scala Intellectus (a arte de aplicar o método aos fatos coletados); 5. Anticipationes Philosophiæ Secunda (os resultados provisórios do método); 6. Philosophia Secunda Aut Scientia Activæ (os resultados finais ou segunda filosofia). Dessas seis partes, entretanto, apenas duas foram concluídas (De Dignitate et Augmentis Scientiarum e Novum Organum, que pode ser traduzido como “Novo Instrumento” ou “Nova Lógica”, sua obra mais famosa). Restam apenas rascunhos incompletos das demais partes. Bacon é considerado o pai da filosofia experimental: a ideia fundamental de todas as suas obras é, como ele mesmo diz, restaurar as ciências e substituir as vãs hipóteses e os argumentos sutis então em uso no escolasticismo pela observação e pelos experimentos que revelam os fatos, seguidos pela indução legítima, que descobre as leis da natureza e as causas dos fenômenos, com base no maior número possível de comparações e exclusões. De Dignitate et Augmentis Scientiarum estabelece, last but not least, uma classificação das ciências de sua época e aponta suas deficiências, e Novum Organum apresenta um método para orientar a mente e progredir nas ciências e no conhecimento. Em seu estudo sobre raciocínio falacioso, sua contribuição mais significativa diz respeito à doutrina dos ídolos.
No Novum Organum (1620), ele escreve, em oposição a
Aristóteles, que o conhecimento nos chega na forma de objetos da natureza, mas
que impomos nossas próprias interpretações a esses objetos. Nossas
teorias científicas são construídas de acordo com a forma como vemos os
objetos; os seres humanos são, portanto, tendenciosos na formulação de
hipóteses. Para Bacon, “a verdadeira ciência é a ciência das causas”. Opondo-se
à escolástica, reduzida à interpretação de textos clássicos, ele defende a “interpretação
da natureza”, onde a observação direta dos fatos enriquece o conhecimento. Ele
busca, assim, um meio-termo entre a acumulação empírica de fatos, sem qualquer
tentativa de organizá-los, e o raciocínio teórico que procede unicamente
de princípios e dedução. - “Os empíricos, como as formigas, só sabem acumular e
consumir; os racionalistas, como as aranhas, tecem teias que constroem a partir
de si mesmos; o método da abelha situa-se algures entre os dois: recolhe os
seus materiais das flores dos jardins e dos campos; mas transforma-os e
destila-os por uma virtude que lhe é própria: esta é a imagem da verdadeira
obra da filosofia, que não depende unicamente das forças da mente humana e nem
sequer delas retira o seu principal apoio. É por isso que há tudo para esperar
de uma “aliança íntima e sagrada destas duas faculdades experimentais e
racionais; uma aliança que ainda não foi alcançada”. Bacon, por meio da frase “Natura
non nisi parendo vincitur” (“A natureza não pode ser comandada senão
obedecendo-lhe”), destaca a afinidade entre o conhecimento teórico e a operação
técnica e prática, o que levaria erroneamente alguns historiadores da ciência a
acusá-lo de utilitarismo.
O conhecimento é poder
porque permite agir sobre o objeto de estudo de modo a obter o que se
deseja. Ele acrescenta que a tecnologia e a ciência são complementares, porque
a ciência nos permite conceber invenções, assim como o conhecimento da luz nos
permite fabricar microscópios, e porque nos permite organizar fatos observados,
mas a tecnologia nos permite explorar esses fatos, servindo o microscópio,
portanto, como meio para novas descobertas. Ele também é creditado com vários
conceitos médicos e morais, como o conceito de eutanásia. Ele escreve em
uma passagem de The Advancement of Learning: “Sobre a Eutanásia
Exteriore. Além disso, acredito que a tarefa do médico não é apenas restaurar a
saúde, mas também aliviar o sofrimento e a dor. E isso não apenas quando tal
alívio é propício à cura, mas também quando pode ajudar a falecer em paz e facilmente”.
E “não são asas que devem ser acrescentadas à compreensão”, esclareceu ele, “mas
sim chumbo”. Alexandre Koyré faz um julgamento negativo sobre seu método:
“‘Bacon, o iniciador da ciência moderna’ é uma piada, e das piores, que ainda
se repete nos livros didáticos. Na verdade, Bacon nunca entendeu nada de
ciência. Ele era crédulo e completamente desprovido de pensamento crítico. Sua
mentalidade está mais próxima da alquimia, da magia (ele acreditava em
‘simpatias’), em suma, da de um homem primitivo ou renascentista do que da de
um Galileu, ou mesmo de um escolástico”.
Bibliografia Geral Consultada.
CROMBIE, Alistair Cameron, História de la Ciência: de San Agustín a Galileo. Vol. I. Madrid: Editorial Alianza, 1974; GRANADA MARTÍNEZ, Miguel Angel, El Método y la Concepción de la Ciencia en Francis Bacon (1561-1626) como Superacion del Escepticismo y Dominio de la Naturaleza. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1980; GELDSETZER, Luts, “L’induction de Bacon et la Logique Intensionnelle”. In: MALHERBE, Michel; POUSSEUR, Jean-Marie (eds.), Francis Bacon, Science et Méthode: Actes du Colloque de Nantes. Paris: Librairie Philosophique Vrin, 1985; COHEN, Ierome Bernard, La Rivoluzione nella Scienza. Milano: Editore Longanesi, 1988; MARÍAS, Julián, A Felicidade Humana. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1989; ENRIQUEZ, Eugène, Da Horda ao Estado. Psicanálise do Vínculo Social. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1990; BOLTANSKI, Luc, L’Amour et la Justice Comme Compétences. Paris: Éditions Métailié, 1990; OLIVA, Alberto, “A Hegemonia da Concepção Empirista de Ciência a partir do Novum Organum de F. Bacon”. In: OLIVA, Alberto (org.), Epistemologia: A Cientificidade em Questão. Campinas: Papirus Editora, 1990, pp. 11-33; MIRZOEFF, Nicholas, An Introduction To Visual Culture. Londres: Editora Routledge, 1999; GADAMER, Hans-Georg, La Dialéctica de Hegel. Cinco Ensayos Hermenéuticos. 5ª edición. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000; OLIVEIRA, Bernardo Jefferson de, Francis Bacon e a Fundamentação da Ciência como Tecnologia. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 2002; CARONE, Iray, “Saber é Poder: A Racionalidade Técnica da Ciência Moderna”. In: Cadernos de Psicologia, 12, 1 (2002), pp. 11-29; MOCELLIN, Ronei Clécio, Lavoisier e a Longa Revolução na Química. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2003; EVA, Luiz Antônio Alves, “Sobre as Afinidades entre a Filosofia de Francis Bacon e o Ceticismo”. In: Revista Kriterion, 47 (2006), pp. 73-97; SPINELLI, Miguel, Bacon, Galileu e Descartes. O Renascimento da Filosofia Grega. São Paulo: Editora Loyola, 2013, pp.23-130; GAUDÊNCIO, Marcelo Araujo; PENA, Graziele Borges de Oliveira; DARSIE, Marta Maria; PAULA, Jacqueline Borges de, “Fogo e Ciência Moderna no Mito de Prometeu: Reflexões à Luz da Filosofia Baconiana”. In: Veritas. Porto Alegre, vol. 71, n° 1, pp. 1-13, jan.-dez. 2026; entre outros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário