segunda-feira, 8 de junho de 2026

Melancolia – Arte Cênica, Abismo na Imaginação & Acomodação.

                                                                     A melancolia é a felicidade de se ser triste”. Victor Hugo (1802-1885)                             

                              

            A ocorrência de símbolos valorizados negativamente e às faces imaginárias do tempo poder-se-ia opor, ponto por ponto, o simbolismo simétrico da fuga do tempo ou da vitória sobre o destino e a morte. Porque as figurações do tempo e da morte não passavam de excitações para o exorcismo, convite imaginário a empreender uma terapêutica pela imagem. É um local que transparece um princípio constitutivo da imaginação para figurar um mal, representar um perigo, simbolizar uma angústia e, ainda quando se trata de uma epifania simbólica. Quer dizer, imaginar o tempo sob uma face tenebrosa é já submetê-lo a uma possibilidade de exorcismo pelas imagens da luz. A imaginação atrai o tempo ao terreno onde poderá vencê-lo com toda facilidade. E, enquanto projeta a hipérbole assustadora dos monstros da morte, afia em segredo as armas que abaterão o Dragão. Segundo Durand (1997), a hipérbole negativa não passa de pretexto para a antítese. É o que a imaginação de um Victor Hugo ou René Descarte denotam. Três grandes temas, com as interferências a que o estudo dos esforços imaginários nos habituou, parece-nos não só constituir os homólogos antitéticos das faces do tempo, como também estabelecer uma estrutura profunda consciência, esboço de uma atitude metafísica e moral. A hipótese situa o esquema ascensional, o arquétipo da luz uraniana e o esquema diairético parecem, ser o fiel contraponto da queda, das trevas e do compromisso animal. 

       Esses temas correspondem aos gestos per se dos reflexos posturais: verticalização e esforço de levantar o busto, visão e, por fim, tato manipulatório permitido pela libertação postural da mão humana. Esquemas e arquétipos de transcendência exigem um método de procedimento dialético: a intenção profunda que os guiam é intenção polêmica que os põe em confronto com os seus contrários. A ascensão é imaginada contra a queda e a luz contra as trevas. Gaston Bachelard (1884-1962) analisou bem este “complexo Atlas”, complexo polêmico, esquema do esforço verticalizante do sursum, que é acompanhado por um sentimento de contemplação monárquico e que admitiu o mundo para melhor exaltar o gigantesco e a ambição das fantasias ascensionais. O dinamismo de tais imagens prova facilmente um belicoso dogmatismo da representação. A luz tem tendência para se tornar raio ou gládio e a ascensão para espezinhar um adversário vencido. Começamos a desenhar a filigrana, sob os símbolos ascensionais ou espetaculares, a figura heroica do lutador erguido contra as trevas ou contra a possibilidade do abismo na imaginaçãoO cinema produzido pelos países da região da Escandinávia engloba Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia, ligados às linguagens originárias do teatro clássico e de algumas principais vanguardas artísticas europeias. 

Os “países escandinavos” são Noruega, Suécia e Dinamarca, embora muitos geógrafos incluam também a Islândia, e raramente a Finlândia nessa designação literária, no entanto, através de tratado de cooperação entre estes países, são considerados como países nórdicos. O notável dramaturgo Ingmar Bergman começou a dirigir filmes com uma grande influência da linguagem e da estética teatral, realizando os clássicos O Sétimo Selo (1956), Persona (1966), Morangos Silvestres (1957), O Ovo da Serpente (1977), Fanny e Alexander (1982), entre outros. Em 1995, os cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg lançaram o Manifesto do Dogma 95, representando a proposta estilística para realizar filmes independentes da “indústria cultural” e dos estúdios comerciais. Entrou para a história do cinema contemporâneo ao realizar Festa de Família (1998), quando narra a história da reunião de família para celebrar o 60º aniversário de seu pai. No jantar, o filho mais velho acusa o pai de abusar sexualmente tanto dele, como de sua irmã gêmea. Vinterberg foi inspirado a escrever o filme com Mogens Rukov, com base “em um trote transmitido por uma estação de rádio dinamarquesa”. E o marco do controverso movimento Dogma 95. Alguns anos após fazer o filme, Vinterberg admitiu que seu filme foi baseado em uma história social que ele ouviu no programa de rádio do apresentador Keld Koplev. Ele disse que ficou sabendo desta história (social) através de um amigo de uma enfermaria psiquiátrica cujo argumento dizia que havia tratado do rapaz.                                    

 O herói solar é sempre arquetipicamente um guerreiro violento e opõe-se, por isso, ao herói lunar que é um resignado. Para o herói solar são sobretudo os efeitos que contam, mais que a submissão à ordem de um destino. A revolta de Prometeu é arquétipo mítico da liberdade do espírito. De boa vontade o herói solar desobedece, rompe os juramentos, não pode limitar a sua audácia, tal como Hércules ou o Sansão semita. A transcendência exige este descontentamento primitivo, este movimento humor que a audácia do gesto ou a temeridade da empresa traduzem. A transcendência está sempre, portanto, armada e a encontramos nesta arma arquetípica transcendente por excelência que é o poder da flecha, e já tínhamos reconhecido que o cetro de justiça traz a fulgurância dos raios e o executivo do gládio ou do machado. São as armas cortantes que vamos encontrar em primeiro lugar ligadas aos arquétipos do Regime Diurno da fantasia. Na notável análise de Desoille (1890-1966), na sequência de imagens indutoras ascensionais e das imagens luminosas induzidas, aparece na consciência do sonhador experimental o arquétipo do “gládio de ouro” ornado de uma auréola luminosa e sobre o qual está gravada a palavra “justiça”. 

O paciente mergulha então na contemplação dessa lâmina. Melancolia tem como representação social um filme de drama escrito e dirigido por Lars von Trier, lançado em 2011. Os personagens principais são interpretados por Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland. A história social gira em torno de duas irmãs, uma das quais está prestes a se casar, enquanto “um planeta gigantesco apelidado de Melancolia está prestes a colidir com a Terra”. A inspiração inicial de Lars von Trier para fazer este filme veio de um episódio depressivo que ele sofreu, bem como da ideia de que pessoas melancólicas tendem a ser serenas durante um evento catastrófico Apresentado na competição oficial do Festival de Cannes de 2011, este filme foi premiado com o prêmio de melhor atriz para Kirsten Dunst. Influenciado pelo cineasta Andrei Tarkovsky, Lars von Trier é reconhecido por seu estilo sombrio e pessimista. Marcado pela experiência de vida por diversos episódios de depressão e alcoolismo, apresenta em sua obra personagens perdidos, enlutados, deprimidos, ninfomaníacos, violentos ou misantropos. Seu estilo dramatúrgico frequentemente alterna entre grandes floreios estéticos com utilidade de uso da câmera lenta, planos majestosos e um naturalismo austero. É um dos cofundadores do movimento Dogma 95.    

Ele escutou o programa e pediu ao roteirista Mogens Rukov para escrever um roteiro baseado nos eventos, “mas em primeira pessoa”. Posteriormente foi revelado que “a história foi totalmente inventada pelo paciente que estava recebendo tratamento”. O roteiro, que trabalha os eventos dantescos que ocorrem durante 24 horas de uma festa de uma família tradicional dinamarquesa, é escrito com malícia, ironia e “acidez ferina” pelo próprio diretor e seu colega Morgens Rukov. O cerne de Festa de Família é mesmo o seu roteiro inspirado, que ganha amplificação na crueza da direção, da fotografia e dos demais elementos obedientes às regras do Dogma. Assusta, aterroriza e causa náusea todo o seu realismo da câmera na mão de Vinterberg, que nos faz assistir in loco as revelações que o Christian (Ulrich Thomsen) faz sobre o pai e o suicídio da irmã. Vinterberg acerta ao narrar uma história que “desmancha no ar” exatamente essas máscaras sociais. O Dogma 95 é um movimento social cinematográfico internacional lançado a partir de um   Manifesto publicado em 13 de março de 1995 em Copenhague. O Manifesto Dogma 95 foi escrito para a criação de um cinema realista e menos comercial. Posteriormente juntaram-se a eles os cineastas Søren Kragh-Jacobsen e Kristian Levring. Trata-se de um ato de resgate do cinema antes da exploração industrial segundo o modelo de Hollywood. Os autores foram os dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. Segundo o relato de Vinterberg, os dois levaram apenas 45 minutos para formular as regras.

Elas foram apresentadas uma semana depois no Odéon - Théâtre de L’Europe, em Paris, em 20 de março de 1995, “onde von Trier foi chamado para celebrar o centenário do nascimento do Cinema”. O manifesto tem cunho técnico, apresenta uma série de restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias nos filmes, e ético, com regras quanto ao conteúdo dos filmes e seus diretores, e suas ideias são tão controversas quanto seus filmes. Todos os filmes que recebem o reconhecimento do Dogma 95 seguem 10 regras estipuladas por Trier e Vinterberg. Para tanto, os realizadores devem enviar cópias de seus filmes à entidade que gerencia o Dogma 95 e submetê-los à avaliação. Caso aprovado e verificado que o voto de castidade foi cumprido, os autores recebem o Certificado Dogma 95. As regras do Dogma 95, conhecidas como “voto de castidade”, resumidamente, são: As filmagens são no local. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos os movimentos, ou ao contrário, a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. Naturalmente o filme deve ser produzido em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. São proibidos a ideia de utilização dos truques fotográficos e filtros. O filme não deve conter nenhuma ação superficial. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. São inaceitáveis os filmes de gênero. 

O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. O nome do diretor não deve figurar nos créditos. Comparativamente o cineasta islandês, Fridrik Thor Fridriksson, considerado um dos mais importantes do país, fundou a primeira revista islandesa sobre cinema e participou da criação do importante Reykjavik Film Festival. Em 1991, realizou Os Filhos da Natureza (Börn náttúrunnar/Children of Nature) que foi selecionado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Apesar de ter lançado o Manifesto, Von Trier não aderiu a suas próprias propostas - à exceção do filme Os Idiotas - e ficou reconhecido por grandes produções de forte conteúdo dramático e impacto teórico-ideológico, como os filmes Europa, drama dinamarquês de 1991 dirigido e escrito por Lars von Trier, estrelado por Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Udo Kier e Ernst-Hugo Järegård, venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, Ondas do Destino (1996), realizado Norte da Escócia quando uma jovem mulher (Emily Watson) se apaixona e se casa com um dinamarquês (Stellan Skarsgard) que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço sofre um acidente, quebrando seu pescoço e o deixando incapacitado, desgraçadamente, para o resto da vida. Nesta situação ele pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações sexuais; Dançando No Escuro (2000), quando Selma Jezkova (Björk) representa uma mãe-solteira tcheca que foi morar nos Estados Unidos da América. Ela tem uma doença que a faz perder a visão, algo que também deverá acontecer um dia a seu filho Gene (Vladan Kostig), um garoto de doze anos.

Em virtude de saber que existem médicos norte-americanos que podem operar seu filho, foi o suficiente para fazê-la imigrar para o país, quando Bill se vê em dificuldades e rouba o dinheiro que Selma tinha economizado. É o ponto de partida para trágicos acontecimentos, e Dogville (2003), onde o cenário está elegantemente decorado para criar um ambiente de cidade pequena, na qual uma misteriosa mulher chamada Grace se esconde de criminosos que a perseguem. A cidade pode refugiar Grace desde que ela faça valer o seu esforço. Ela trabalha duro para várias pessoas da cidade para obter seus favores. A tensão cresce e a situação de Grace como estrangeira provoca o desprezo e o abuso dos moradores. Neste quadro de pensamento o cineasta Thomas Vinterberg é um dos nomes mais proeminentes no cinema nórdico. Junto com Lars von Trier, fundou um movimento na década de 1990, que recusava todos os “vícios”, digamos comerciais, hollywoodianos. Para o Dogma 95, não poderia haver trilha sonora. A câmera deveria vir nas mãos. Os filmes deveriam ser em cores, com iluminação natural, como apresentamos, dentre outras regras técnico-metodológicas. A estratégia cinematográfica de “radicalismo espartano” condicionava inclusive que o nome do diretor não constasse nos créditos da produção/consumo. Festa de Família (1998) é o grande filme de Vinterberg realizado sob a égide do Dogma 95. A outra grande criação do dinamarquês é A Caça, um longa-metragem instigante de 2012 e esteticamente já muito distante do famoso movimento.

O filme Kollektivet (The Commune, 2016), particularmente, foi produzido na Dinamarca, Suécia e Holanda, em 2016. Mas é um filme contextualizado na Copenhague dos anos 1970, quando um casal de meia-idade o acadêmico Erik (Ulrich Thomsen) e a apresentadora de telejornal Anna (Trine Dyrholm), se mudam para residir em uma casa grande, muito maior do que aquela que a família, completada pela filha adolescente, Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen), necessitam para morar. Diante do espaço vazio a ser preenchido do casarão, das dificuldades econômicas do grupo e de um aparente tédio resultante dos seus quinze anos de casamento, Anna dá a ideia de transformar a residência em República; melhor dizendo uma comunidade, ao gosto da década crível dos hippies. A eles se junta um amigo, um casal com um filho diagnosticado por doença cardíaca e um imigrante. Mas Erik escanteado pela esposa, se apaixona pela aluna da universidade e leva-a para a casa, “com o surpreendente aval da esposa, que procura se fazer de liberal”. O idealismo alemão reconhecido idealismo, ou filosofia pós-Kantiana, é representante das orientações filosóficas mais influentes da história. Tem raízes na história da cultura alemã. 

            Mas nem por isso pode ser considerado um fenômeno por assim dizer nacional. Antes deve ser visto no horizonte de diferentes formas de influência, recepção e aculturação, em que o idealismo alemão interagiu com outros elementos da história cultural europeia, como a ciência, a religião, a arte, o direito e a política. Assim, para compreender o idealismo alemão, deve-se levar em consideração outras orientações filosóficas e culturais essenciais, como o empirismo britânico, o racionalismo, como o holandês, de Espinoza, o Iluminismo francês e assim por diante. Torna-se claro que o idealismo alemão é um momento essencial, mas sobretudo representativo do desenvolvimento cultural da Europa, unitário em sua diversidade. Salvo melhor juízo, ainda não se escreveu uma abrangente história da recepção e repercussão do idealismo alemão fora da Europa. É sabido que, à época de seu surgimento, o idealismo alemão já era percebido em outras nações europeias como um estímulo intelectual ou desafio à reflexão. São relativamente recentes os estudos históricos e sistemáticos do idealismo alemão. A investigação sobre o idealismo alemão está longe de ser concluída ou, mesmo, conclusiva. Ipso facto, o idealismo alemão não se esgota nas incursões dos grandes mestres Immanuel Kant, Johann Gottlieb Fichte, Georg Friedrich Hegel e Friedrich Schelling. 

      Em primeiro lugar, entendemos significativamente que Friedrich Hegel define na Introdução como se situa nele o problema geral do conhecimento. Vemos como em certo aspecto retorna ao ponto de vista de Kant e de Fichte. A Fenomenologia não representa nem uma noumenologia nem uma ontologia, mas segue um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia estabelecer e relação de conhecer se só o Absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é o Absoluto? Não obstante, em vez de apresentar o saber do Absoluto “em si para si”, Hegel considera o saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber fenomênico, mediante sua autocrítica, é como se eleva ao saber absoluto. Em segundo lugar, Friedrich Hegel define a Fenomenologia como desenvolvimento e “cultura” de seu progressivo afinamento da consciência, natural acerca da ciência, o saber filosófico, o saber do Absoluto; por sua vez indica a necessidade da evolução. Enfim, Hegel precisa a técnica do desenvolvimento fenomenológico, demonstra em que sentido este desenvolvimento é precisamente obra própria da consciência que faz sua aparição na experiência sensorial, em que sentido é suscetível de ser repensado e apreendido em sua necessidade de pensar o domínio da filosofia. A necessidade da arte é a necessidade racional como forma de pensar. Na Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas que não fosse mais que “teoria do conhecimento” em sua démarche. E não obstante, a Fenomenologia, como têm assinalado seus comentaristas, demarca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Immanuel Kant e de Johann Gottlieb Fichte, exceto nas interpretações de pensadores, desde a década de 1950, tais como Jean Wahl, Pierre-Jean Labarrière, Alexandre Kojève, Jean Hippolyte, Hans-Georg Gadamer, Leandro Konder e outros.

Em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha no Bruno o saber fenomênico e o saber Absoluto, mas não demonstrava os laços afetivos entre um e outro. Uma vez colocado a questão do saber Absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico por sua parte fica igualmente cortado (separado) do Saber Absoluto. De outra parte, Hegel volta ao saber fenomênico, isto é, precisamente ao saber da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber Absoluto que, todavia, não se deve saber como tal. O termo “idealismo alemão” é amplamente difundido, mas não há acordo sobre o que significa. Hegel, que considera Kant um idealista, inventou a noção de tradição idealista alemã, portanto do idealismo alemão, já no primeiro texto filosófico. No Differenzschrift ele indica formas de idealismo nos escritos hic et nunc de Kant, Fichte e Schelling.

Se a Fenomenologia representa “o itinerário da alma que se eleva ao espírito por meio da consciência”, fora de dúvida a ideia de semelhante itinerário foi sugerida a Hegel pari passu com a convergência entre as obras literárias, como também aquelas que nos parecem referidas como “novelas de cultura” tendo em vista a leitura realizada sobre o ensaio Emílio de Jean-Jacques Rousseau e que, na bendita obra encontrava uma primeira história da consciência natural elevando-se por si mesma a liberdade, através das experiências que lhe são próprias e que são particularmente formadoras. Daí a seguinte tese: ao “formar a coisa, forma-se a si mesmo”. De acordo com Hans Georg Gadamer (1900-2002), já nessa descrição de Hegel sobre a “formação prática”, reconhece-se a determinação fundamental do espírito histórico: a de se reconciliar consigo mesmo, e de reconhecer-se a si mesmo dialeticamente na diversidade. Essa determinação se torna inteiramente nítida na ideia de conspícua de interpretação “formação teórica”. Comportar-se teoricamente já é, como tal, um alheamento, ou seja, uma exigência de ocupar-se com um não-imediato, com algo de natureza estranha, com algo da reminiscência, que pertença à memória e ao pensamento’. A formação teórica, nunca é demais repetir, conduz o homem, além do que o homem sabe e vivencia imediatamente. Consiste em aprender que também o diferente tem sua validade em encontrar pontos de vista universais, a fim de apreender a coisa, isto é, “o que há de objetivo na sua liberdade” e isento de interesses egoísticos. Reconhecer no estranho o que é próprio, familiarizar-se com ele, eis o movimento fundamental cujo ser é apenas o retorno a si mesmo a partir do diferente.

Friedrich Hegel que parte da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a própria história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída a caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel “existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento”, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são “instrumentos de sua manifestação”. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito Absoluto. Para compreender o sistema hegeliano é necessário começar por uma representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, ao ler a obra de Hegel, a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato para alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata. Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. A Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que unidade abstrata, e não o que é, a noção que, “por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva”. 

            O movimento hippie representou um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960. Embora tendo uma relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos Estados Unidos da América, a célebre expressão “Peace and Love”, que precedeu a expressão “Ban the Bomb”, a qual criticava a criação de usinas atômicas e o uso de armas nucleares. O símbolo da paz foi desenvolvido na Inglaterra como logotipo para uma campanha pelo desarmamento no mundo e contestação que se iniciaram-se nos Estados Unidos, impulsionados por músicos e artistas em geral. Os hippies defenderam o amor livre e a não violência. O lema Paz & Amor sintetiza a postura política dos hippies, que constituíram um movimento social por direitos civis, igualdade e antimilitarismo na luta de líderes Gandhi e Martin Luther King Jr., foi um pastor batista e ativista político estadunidense que se tornou a figura mais proeminente e líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos de 1955 até seu assassinato em 1968, embora não tão organizadamente, mantendo uma prática mais anárquica do que anarquista, neste sentido de arquetipológico. As questões ambientais, em torno da prática de nudismo, naturismo e vegetarianismo e a sexualidade “eram ideias respeitadas nestas comunidades autonomistas”. Optaram por um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de “nova esquerda”, na falta de melhor expressão, a um estilo de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza. Negavam o nacionalismo e a guerra imperialista contra o Vietnã, entre 1959 e 1975, bem como todas as guerras. Abraçavam aspectos de religiões orientais como o budismo e o hinduísmo e do xamanismo indígena norte-americano. Estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média consumista norte-americana e das economias globais capitalistas. Criticavam um conjunto de práticas e saberes sociais em torno do patriarcalismo, do militarismo, e do poder governamental, e as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de um pensamento único sem legitimidade social. Melancolia (do grego μελαγχολία) é uma tristeza vaga, permanente e profunda, que leva o sujeito a sentir-se triste e a não desfrutar dos prazeres da vida. 

            Ela pode surgir devido a causas físicas e/ou morais. Os especialistas consideram que a melancolia, à semelhança da tristeza e de outras emoções, passa a ser patológica a partir do momento em que altera o pensamento normal do indivíduo e dificulta o seu desempenho social. Por exemplo: é considerado normal uma pessoa sentir-se melancólica uma tarde qualquer e, assim, ficar em casa sem fazer nada. Em contrapartida, se esse comportamento se repetir durante vários dias e o sujeito abandonar a sua vida social ou as suas obrigações, a melancolia passa a ser um tipo de depressão que requer tratamento. no Século V a.C., Hipócrates classificou melancolia como doença. Ele criou a teoria dos quatro humores corporais (sangue, fleugma ou pituíta, bílis amarela e bílis negra), sendo o equilíbrio ou o desequilíbrio deles responsável pela saúde (eucrasia) ou enfermidade e dor (discrasia) de um indivíduo. Segundo Hipócrates, a influência de Saturno leva o baço a secretar mais bílis negra, alterando o humor do sujeito (escurecendo-o), o que leva ao estado de melancolia. No período da Renascença e do Romantismo, encontramos melancolia descrita por alguns como uma doença bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma. Dom Duarte I, no capítulo XIX do seu Leal Conselheiro, descreve-a como uma doença da qual padeceu quando aos 22 anos começou a assumir responsabilidades de governança do reino, e logo procurou curar. Robert Burton autora em 1621 o seu The Anatomy of Melancholy, que procura também apresentar curas para o mal.

Sigmund Freud, em seus estudos sobre o superego, deparou-se com algo reconhecido na época como melancolia que se assemelhava ao processo do luto, mas sem haver, necessariamente, uma perda (senão uma carência narcisista). Pessoas com sintomas de melancolia falam de si próprias como “inúteis”, “incapazes de amar”, “incapazes de fazer algo bem, ou de bom para os outros”, além de “irritantes” e com “hábitos chatos”. Na prática médica, a conceituação exata da melancolia é de extremo valor no diagnóstico dos distúrbios mentais. Na verdade, inicialmente, a classe médica em geral acaba por marginalizar as ideias de Freud; seu único confidente durante esta época é o médico Wilhelm Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em outubro de 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações tornam-se a fonte etnográfica para a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta autoanálise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade em relação a seu pai. É o que constitui o famoso “complexo de Édipo”, que se torna o “coração”, por assim dizer, da teoria de Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes per se investigados clinicamente. Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras em que contém suas teses acadêmicas principais: “A Interpretação dos Sonhos” e “A psicopatologia da vida cotidiana”. Nesta época, Freud já não mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários lugares: Eugen Bleuler, Carl Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sandor Ferenczi, demostram respaldo às suas ideias e passam a compor o “Movimento Psicanalítico”.

Por sua vida inteira, Freud teve uma posição financeira modesta, como Marx ou Nietzsche. Josef Breuer foi, no início, um aliado de Freud em suas ideias e também um aliado com patrocínio financeiro. Freud criou o termo “psicanálise” para designar um método, uma teoria e uma técnica para investigar cientificamente os processos inconscientes e de outro modo inacessíveis do psiquismo. Foi com o decorrer das discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as ideias que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a psicanálise. O primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer e descreve o tratamento dado sua paciente Bertha Pappenheim, chamada de “Anna O”, no livro e posteriormente no cinema, que demonstrava vários sintomas clássicos de histeria. O método de tratamento consistia na chamada “cura pela fala”, ou “cura catártica”, na qual o ou a paciente discute sobre as suas associações com cada sintoma e, com isso, os faz desaparecer. Esta técnica tornou-se o centro de manejo das técnicas de Freud, que também acreditava, cientificamente, que as memórias ocultas ou “reprimidas” nas quais se baseavam os sintomas de histeria eram sempre de natureza sexual. Entretanto, Breuer não concordava com Freud, o que levou à separação de ideias entre eles logo após a publicação dos casos clínicos em sociedades científicas. 

Pelo menos desde 1899, com a publicação do conspícuo ensaio A Interpretação dos Sonhos, o austríaco Sigmund Freud se transformou num dos pensadores mais polêmicos da história social e, portanto, clínica. Desacreditada inicialmente, a psicanálise, o método e a técnica por ele concebido para o tratamento dos problemas psíquicos e a compreensão da mente humana, chegou a ser considerada a última palavra da ciência sobre a questão. Há quem despreze (e não são poucos) essas novas posições psicológicas e clínicas e defenda apaixonadamente as teorias de Freud cuja essência considera-se correta e aparentemente inquestionável. Mais importante do que essa discussão é descrever os fundamentos da doutrina psicanalítica e apresentar as principais contribuições que ela refez à ciência, à filosofia, à antropologia e à sociologia em seu surgimento. A psicanálise interpreta as manifestações da psique, as tendências sexuais (ou libido), e as fórmulas morais e limitações condicionantes do indivíduo. São dois os fundamentos da teoria psicanalítica: 1) Os processos psíquicos são em sua imensa maioria inconscientes, a consciência não é mais do que uma fração de vida psíquica total; 2) os processos psíquicos inconscientes são dominados por tendências sexuais reprodutivas. Freud descreve a vida humana tanto do ponto de vista pessoal e individual, mas também pública e social, recorrendo a essas tendências sexuais a que chamou de libido.

Com esse termo, o pai da psicanálise designou a “energia sexual” de maneira mais geral e indeterminada. Assim, por exemplo, em suas primeiras manifestações sociais, a libido liga-se as funções vitais: no bebê que mama, o ato de sugar o seio materno provoca outro prazer além do de obter alimento e esse prazer passa a ser buscado por si mesmo. Na abordagem psicanalítica fundada por Sigmund Freud, o indivíduo se constitui como um ente à parte do social e que compõe o nível de análise social. Freud refere-se aos aspectos que compõem um estado instintivo humano e que acaba por se tornar inibido em prol da convivência em comunidade. A inibição destes aspectos, que são instintivos, consiste numa privação de características que são inatas aos homens, e, esta própria privação, acaba por consistir em determinados descontentamentos. Neste sentido, os homens em civilização ou civilizados demonstram-se descontentes na busca de sua felicidade, pois seus instintos não são prontamente atendidos em sociedade. No seu ensaio: “O mal-estar da civilização”, Freud elabora uma discussão filosófico-social a partir de sua teoria psicanalítica. O autor desenvolve a ideia pragmática segundo a qual, em sociedade, “não há avanço sem perdas”. A ideia central que desenvolve nesta obra é a de que a civilização é inimiga da satisfação dos instintos humanos. A sociedade modifica a natureza humana individual, constitui o homem como membro da comunidade, adaptando-o a um processo vital que torna o indivíduo um ente social.

Em 1923, no livro “O Ego e o Id”, Freud expôs uma divisão da mente humana em três partes: 1) o ego que se identifica à nossa consciência; 2) o superego, que seria a nossa consciência moral, os princípios sociais e as proibições que nos são inculcadas nos primeiros anos de vida e que nos acompanham de forma inconsciente a vida inteira; 3) o id, isto é, os impulsos múltiplos da libido, dirigidos sempre para o prazer. A influência que Freud exerceu em várias correntes da ciência, da arte, da sociologia e da filosofia foi enorme. Mas não se deve deixar de dizer que muitos filósofos, psicólogos e psiquiatras fazem sérias objeções ao modo como o pai da psicanálise e seus discípulos apresentam seus conceitos: como “realidades absolutas” e não como suportes ou “instrumentos” de explicação que podem ser ultrapassados pela dinâmica científica e, em alguns casos, foram mesmo. Em uma de suas últimas obras “O Mal-Estar na Civilização”, publicado em 1930, Freud descreve a história da humanidade como a “luta entre os instintos de vida” (Eros) e “os da morte” (Tanatos), teoria cujo pioneirismo deu ao fator sexual que era - até Freud - uma área de quase absoluta ignorância para a ciência em geral e a filosofia. A psicanálise é o que se faz através da conversação. Em suas teorias, Freud afirma que os pensamentos são desenvolvidos por processos diferenciados, relacionando tal ideia à de que o nosso cérebro trabalha essencialmente no campo da semântica. A mente desenvolve os pensamentos num sistema intrincado de linguagem baseada em imagens, as quais são meras representações de significados latentes. Em diversas obras Freud não só desenvolve sua teoria sobre o inconsciente da mente humana, como articula o conteúdo do inconsciente ao ato da fala, especialmente aos atos falhos. 

Para Freud, a consciência humana subdivide-se em três níveis analíticos: consciente, pré-consciente e inconsciente. O primeiro nível de análise contém o material perceptível; o segundo nível, o material latente, mas passível de emergir à consciência com certa facilidade; e o terceiro nível contém o material de difícil acesso, isto é, o conteúdo mais profundo da mente, que está ligado aos instintos primitivos do homem. Os níveis de consciência estão distribuídos entre as três entidades que formam a mente humana, ou seja, o Id, o Ego e o Superego. Segundo Freud, o conteúdo do inconsciente é, muitas vezes, reprimido pelo Ego. Para driblar a repressão, as ideias inconscientes “apelam” aos mecanismos definidos por Freud em sua obra: “A Interpretação dos Sonhos”, como deslocamento e condensação. Estes dois, mais tarde, seriam relacionados por Romain Jacobson (1896-1982) à metonímia e metáfora, respectivamente. Portanto, as representações de ideias inconscientes manifestam-se nos sonhos como símbolos imagéticos, tanto metafóricos quanto metonímicos. Aplicando o conceito à fala, o inconsciente consegue expelir ideias recalcadas através dos chistes ou atos falhos. Freud propõe que as piadas ou as “trocas de palavras por acidente” nem sempre são inócuas. Antes, são mecanismos da fala que articulam ideias aparentes com ideias reprimidas, são meios pelos quais é possível exprimir os instintos primitivos. Semelhante à análise dos sonhos, a análise da fala seria um caminho psicanalítico para investigar os desejos ocultos do homem e as causas das psicopatologias. – “É na palavra e pela palavra que o inconsciente encontra sua articulação essencial”. Deste modo, Freud cria uma inter-relação entre os campos da linguística e da psicanálise, que será retomada por estudiosos posteriores, como ocorre precisamente nos Séminaire qualitativamente importante e revelador de seu incontestavelmente maior intérprete: Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981).                                  

Uma curiosa imagem, não? Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do “Estádio do Espelho”. O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da psicanálise. Esse registro é o do simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Claude Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é o “Grande Outro” que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”. O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”.

A isto se refere o aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”: biblioteca, escrivaninha e o célebre divã. Eis tudo o que se esperaria encontrar no ambiente de trabalho de Sigmund Freud: um aficionado por arqueologia. O local de trabalho era enobrecido por mais de 2 mil peças antiquíssimas: esculturas de porte médio ou menor, fragmentos de pintura em gesso, papiro e linho, recipientes e pedaços de vidro. Havia objetos gregos, romanos e asiáticos, mas Freud tinha especial predileção pela cultura egípcia, que compreendia quase metade de sua coleção. Por quase meio século demonstrou-se não um mero colecionador, mas aquele que conhecia profundamente a arte antiga. Mais tarde afirmaria que, desde aquele primeiro contato com a extinta civilização greco-romana, estudar culturas antigas lhe trouxe conforto e consolação ao longo dos inúmeros dissabores de sua vida atribulada. Tinha uma relação “desejante” com Roma: entre 1895 e 1898, tentou visitar a cidade nada menos do que cinco vezes, mas uma irresistível inibição o fazia retroceder. Na Interpretação dos Sonhos, ele analisou a imaginação, relacionando-a com sua origem judaica e o antissemitismo.

As obras de arte exerceram grande influência na vida de Freud, mas nenhuma, talvez, como a estátua de Moises de Michelangelo, exposta na Igreja de San Pientro in Vincolli na qual visitou por vezes e chegou a dedicar um trabalho analítico somente para a obra. Nos tempos de estudante identificava-se com Aníbal, general cartaginês de origem fenícia, semítica, portanto, contra Roma, inimiga figadal de Cartago. Como ocorria com aquele general, Freud sentia-se inibido, constrangido a não penetrar em Roma. Com a publicação da obra viu-se livre do “estranhamento”, tornando-se um visitante da cidade e de suas adoráveis antiguidades. Alienação nas ciências sociais, é um conceito que designa indivíduos que estão alheios a si próprios ou a outrem, tornando-se dependentes de atividades ou instituições humanas, devido a questões econômicas, sociais ou religiosas. Desta forma, refere-se também à diminuição da capacidade dos indivíduos em pensarem e agirem por si próprios. Há quem defina a alienação como a falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui um grau de responsabilidade na formação do mundo a seu redor, e vice-versa. Deste conceito filosófico-sociológico, derivaram-se outros usos da palavra, como por exemplo, na psiquiatria, pode ser usada como um sinônimo de loucura. No Direito, existem a alienação de um bem, a alienação parental e a alienação fiduciária. Ainda que a alienação seja um conceito a priori filosófico, existe o conceito de alienação mais propriamente dito originário na filosofia.

Não queremos perder de vista que a disciplina é, antes de tudo, a análise do espaço. É a individualização pelo espaço, a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. A disciplina exerce seu controle, não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. No século XVII, nas oficinas de tipo corporativo, o que se exigia do companheiro ou do mestre era que fabricasse um produto com determinadas qualidades. A maneira de fabricá-lo dependia da transmissão de geração em geração. Do mesmo modo, se ensinava o soldado a lutar, a ser mais forte do que o adversário na luta individual da batalha. A partir do século XVIII, se desenvolve uma arte do corpo humano. Observa-se de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. Nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do contramestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser mais rapidamente realizado e com gestos melhor adaptados. O famoso Regulamento da Infantaria Prussiana, que assegurou as vitórias de Frederico da Prússia, consiste em mecanismos de gestão disciplinar dos corpos.  A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que o que fizeram é conforme à regra.

É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua “pirâmide de olhares”. Mas a disciplina implica um registro contínuo. Anotação do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar escape a esse saber. No sistema clássico o exercício do poder era confuso, global e descontínuo, do soberano sobre grupos constituídos por famílias, cidades, paróquias, isto é, por unidades globais, e não um poder contínuo atuando sobre o indivíduo. A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento de uso pertinente para o exercício do poder. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um presunçoso método geral.

 Não se trata de fazer aqui a história das diversas instituições disciplinares no que podem ter cada uma de singular: 1) ambas, neste caso, são instituições públicas gerenciadas por uma casta no poder. Existe uma série de exemplos de algumas das técnicas essenciais empregadas que, de uma a outra, se generalizaram mais facilmente. Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, são dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza (assédio moral), são eles, entretanto que levaram à mutação do regime punitivo contemporâneo; 3) Descrevê-los metodicamente, nominalmente, implicará a demora sobre o detalhe da corrupção do pensamento e a atenção às minúcias: para procurar entender não um sentido, mas uma precaução; recoloca-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática; 4) Astúcias, não tanto de grande razão que trabalha até durante o sono, no sentido freudiano, e dá coerência ao insignificante quando da atenta malevolência que de tudo alimenta. A disciplina é uma anatomia política do detalhe. O que nos interessa é a racionalização utilitária do detalhe na contabilidade moral e no controle político. A regra das localizações funcionais vai pouco a pouco codificar um espaço que a arquitetura deixava livre e pronto para vários usos. Lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil.

Temos assim, um dispositivo que asfixia e quadricula; tem que realizar uma apropriação sobre toda essa mobilidade e esse formigar humano, decompondo a confusão da ilegalidade e do mal. Essa gente, através do impedimento de elementos intercambiáveis, conquistados a duras penas, quer através da vigilância e punição, da prevaricação e do ressentimento acadêmico, quer individualizar corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa série de relações. O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e a sua combinação num procedimento que lhe é específico. A vigilância se torna um operador decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem especial do poder disciplinar.  A arte de punir, no regime de poder disciplinar, não visa nem a expiação, nem mesmo exatamente a repressão. Põe em funcionamento cinco operações bem distintas: relacionar os atos, os desempenhos, os comportamentos singulares a um conjunto, que é ao mesmo tempo campos de comparação, espaço de diferenciação e princípio de uma regra a seguir. Diferenciar os indivíduos em relação uns aos outros e em função dessa regra de conjunto – que se deve fazer funcionar como base mínima, como média a respeitar ou como o ótimo de que se deve chegar perto. Medir em termos quantitativos e hierarquizar em termos de valor as capacidades, o nível, a natureza humana dos indivíduos. Fazer funcionar, através dessa medida valorizadora negativamente, a coação de uma conformidade a realizar. E por último, traçar o limite que definirá a diferença em relação a todas as diferenças, a fronteira externa do “anormal”. A penalidade que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, homogeneíza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza. 

Bibliografia Geral Consultada.

BAECHLER, Jean, Les Origines du Capitalisme. Paris: Éditions Gallimard, 1971; em particular, “La Théorie de Marx”, pp. 19-53; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; ESPOSITO, Roberto, Communitas: Origen y Destino de la Comunidad. Buenos Aires: Amorrotu Editores, 2003; RODRIGUES, Marcella Furtado, A Contracultura no Cinema segundo Milos Forman a partir das Análises de Procura Insaciável: Um Estranho no Ninho e Hair. Dissertação de Mestrado em Belas Artes. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2008; BERNARDINI, Riccardo, Jung a Eranos: Il Progetto della Psicologia Complessa. Milano: Franco Angeli Editore, 2011; SCHMIDT, João Pedro, “Raízes do Comunitarismo: Concepções sobre a Comunidade no Pensamento Ocidental”, in Comunidade e Comunitarismo: Temas em Debate. Curitiba: Editora Multideia, 2013; FOUCAULT, Michel, Idem, Nietzsche, Marx, Freud. Buenos Aires: Ediciones Anagrama, 2010; Idem, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; ROCHA, Heliana Faria Mettig, O Lugar das Práticas Comunitárias Emergentes: Caminhos de Coexistência Socioecológica em Projetos Urbanos. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo. Faculdade de Arquitetura. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2017; CAPITANI, Dhandara, Multiplicidade Transcendente: Imaginário e Arquétipos na Lírica Feminina. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Centro de Educação, Comunicação e Artes. Cascavel: Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2019; VIEIRA, Allan Josué, O Idealismo Transcendental como Fenômeno em Husserl. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2021; NOLLI, Marcelo Ricardo, Formação sobre Ruínas. Uma Leituras da Noção de Experiência (Erfahrung) em Walter Benjamin. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2021; RODRIGUES, Luís M. Figueiredo”, Hermenêutica da Suspeita: A Lucidez Necessária Diante dos Populismos”. In: https://www.diariodominho.pt/opiniao/2026-05-09; entre outros.

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