ALTHUSSER, Louis, “Idéologie et Appareils Idéologiques d`Etat. Notes pour une Recherché”. In: La Pensée, nº 151, 1970; KURT, Lenk, El Concepto de Ideología. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1971; BAECHLER, Jean, ¿Qué es la Ideología? Buenos Aires: Ediciones Paidós, 1998; LACLAU, Ernesto, Política e Ideología en la Teoría Marxista: Capitalismo, Fascismo, Populismo. México: Siglo Veintiuno Editores, 1978; Idem, La Razón Populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2005; CASTRO, Alice Viveiros de, O Elogio da Bobagem – Palhaços no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005; LUHMANN, Niklas, “L’Opinione Pubblica”. In: Stato di Diritto e Sistema Sociale. Napoli: Guida Editori, 1978; Idem, “Remarques Préliminaries en Vue d’une Théorie des Systèmes Sociaux”. In: Critique, nº 413; 1981; Idem, La Sociedad de la Sociedad. México: Editor Herder, 2007; Idem, Risk: A Sociological Theory. New Brunswick/New Jersey: Transaction Publishers, 2008; MICHELS, Robert, Los Partidos Políticos. Un Estudio Sociológico de las Tendencias Oligárquicas de la Democracia Moderna. 2ª edición. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2008; HOBSBAWM, Eric, “Perché Marx Sopravvive alla Fine del Comunismo”. In: http://www.corriere.it/11_maggio_2011; WAISELFISZ, Julio Jacobo, Mapa da Violência 2014. Os Jovens do Brasil. Rio de Janeiro: Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2014; Artigo: “Camilo Chama Greve dos Professores de Politicagem e Diz que irá Acionar a Justiça”. In: http:diariodonordeste.verdesmares.com.br/06/08/2016; MELO, Elderson Melo de, O Riso Invade a Educação: Uma (Des) proposta para a Pedagogia do Cômico. Tese de Doutorado. Programa de Pòs-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; MONTE, José Cleyton Vasconcelos, Os Caminhos do Poder no Ceará: A Política de Alianças nos Governos Cid Gomes (2007-2014). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2016; entre outros.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Camilismo – Ideologia, Política & Utilidade de Uso do Estado.
Ubiracy de Souza Braga*
“Amici
favori, per i nemici la legge”. Maquiavel
Na
linguagem teórica, as palavras e expressões funcionam como conceitos teóricos.
Mas em sua periodização histórica, teórica e ideológica as palavras e
expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem a concepção de
uma determinada teoria da história. A dificuldade própria da terminologia
teórica consiste, pois, em que, por detrás do significado usual da palavra, é
preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente
do significado usual corrente nas fontes, nas atas, nos documentos oficiais, no
âmbito da formação discursiva. Na sua significação mais geral deve nos permitir
a compreensão que tem por efeito o conhecimento de um objeto: a narrativa da
história. É assim que a história abstrata ou a história em geral não existem,
no sentido exato do termo, mas apenas a história real, ou “como efetivamente
ocorreu” (“essen Sie tatsächlich, es passierte”), desses
objetos concretos e singulares que enformam a experiência da
humanidade.
A tradição marxista concebe
o Estado como um “aparelho repressivo”, uma “máquina de repressão”, ou, “comitê
executivo da classe dominante” que permite às classes dominantes assegurar a
sua dominação sobre a classe operária, extorquindo desta última a mais-valia. O
Estado é, antes de tudo, o “Aparelho de Estado”, termo que compreende não
somente o “aparelho especializado”, mas também o exército que intervém como
força repressiva de apoio em última instância, o Chefe de Estado, o Governo e a
Administração, definindo o Estado como força de execução e de intervenção
repressiva a serviço das frações da classe dominante. A rejeição filosófica hegeliana
parte da própria negação de “estruturas hegelianas” reproduzidas em Marx, onde a totalidade
expressiva de Hegel cede lugar, na análise crítica de Althusser, ao
todo-estruturado. É sobredeterminado com
níveis de análise e instâncias (instare) relativamente autônomas. Na configuração das esferas de ação há, diferente da lógica dialética, “todos parciais”, sem
prioridade de um “centro”. Em nível de análise opera-se a rejeição
da “unicausalidade econômica” da história e das lutas sociais e políticas
atribuindo-se o nível do discurso como o político e
ideológico, o “peso” de instâncias decisivas, dominantes em ser
determinantes.
A candidatura de Camilo Santana pelo Partido dos Trabalhadores (PT) foi
oficializada no dia 29 de junho, em Fortaleza, durante convenção coletiva do PROS, PT e outros
partidos aliados à inédita coligação liderada pelo então governador Cid Ferreira Gomes
(PRB / PP / PDT / PT / PTB / PSL/PRTB / PHS / PMN / PTC / PV / PEN / PPL / PSD
/ PC do B / PT do B / SD / PROS). A convenção foi marcada, entretanto, pela
indefinição a respeito das indicações aos cargos de senador e vice-governador
da coligação. Camilo Santana já havia sido cogitado para o cargo do executivo
do Estado, mas não figurava a lista dos favoritos para o cargo, dominado por
integrantes do PROS. Camilo Santana foi eleito governador do Ceará em 26 de
outubro de 2014. Camilismo é uma ideologia política. Sua vitória foi dada como
matematicamente certa antes mesmo da confirmação oficial pelo Tribunal Superior
Eleitoral. Faz parte do processo de celular de cooptação estatal. É professor e
coordenador da FATEC Cariri. Servidor público federal por concurso público de
provas e títulos, ocupou a superintendência adjunta do IBAMA no Ceará em 2003 e
2004. É cidadão honorário dos municípios cearenses de Barbalha, Juazeiro do
Norte e Quixeramobim. Foi o deputado estadual mais votado do Ceará em outubro
de 2010, com 131.171 votos. Em 2014, foi
eleito o governador do Estado do Ceará. Enfrenta a mais densa greve de
professores na Universidade Estadual do Ceará que já ultrapassa 100 dias.
Camilo
Santana chama greve dos professores de “politicagem” e diz que irá acionar a
Justiça. Em evento neste sábado (6/09/2016), governador do Estado afirmou que,
caso a paralisação dos docentes estaduais não seja encerrada, irá acionar a
Justiça para garantir o retorno das aulas. Greve já dura mais de 100 dias.
Contraditoriamente Camilo Santana participou da abertura do “Seminário dos
Conselhos Comunitários de Defesa Social” em Fortaleza. Contabilizando mais de 100 dias de duração, a
greve dos professores estaduais no Ceará foi comentada pelo governador Camilo
Santana, em Fortaleza. Questionado sobre o retorno das aulas durante a abertura
do Seminário o governador afirmou que, “caso os docentes da rede de ensino do
Estado não retomem as atividades, irá acionar a Justiça para intervir” (Cf. Diário do Nordeste, 06.08.2016). O
governador declarou, ainda, que parte da categoria estaria transformando a
paralisação em “politicagem”. Segundo ele, em 2015, a categoria recebeu em
torno de 13% de aumento salarial. Neste ano, a reivindicação é de 12% de
reajuste. Segundo Camilo, dentre as propostas pelo governo do
Estado, estão a implantação da lei que reformula o sistema de promoção dos
docentes, reajuste de 4% e aumento de 5% na regência dos professores. - “Já
oferecemos 9% de aumento e eles não aceitaram porque estão transformando essa
greve em uma politicagem por conta das eleições e eu não vou aceitar isso. Não
vou permitir que isso prejudique o ano letivo dos alunos do Ceará por essa
intransigência de um grupo, uma minoria, que vai lá para a Assembleia, porque o
próprio sindicato é contra a greve”, alegou Camilo. – “Se eles não
voltarem, vou ter que ir à Justiça. Não posso ficar pagando salário das pessoas
sem trabalhar”.
Metodologicamente
falando, virtù é justamente a capacidade do indivíduo de controle das ocasiões
e acontecimentos históricos, no âmbito da vida cotidiana, ou seja, da “fortuna”. O político com grande virtù vê
justamente na fortuna as condições e possibilidades reais da construção de uma estratégia para
controlá-la e alcançar determinada finalidade, agindo frente a uma determinada
circunstancia, percebendo seus limites e explorando as possibilidades perante
os mesmos. A virtù está sempre analisando a “fortuna” e, portanto, não existe
em abstrato, não existe uma fórmula, ela varia de acordo com a situação
determinada historicamente. Pois, os fins justificam os meios dentro de uma determinada
conjuntura política que sofre influência de outras dimensões como a representação social, a
econômica e a moral e cabe ao político com as suas capacidades de análise e de
estratégia achar um meio mediante o qual essa conjuntura para realização de um
determinado fim.
No
livro “Il Principe” (cap. 25): - “Quanto pode a fortuna influenciar as coisas
humanas e como se pode resistir a ela”, em que Maquiavel explica esses
conceitos, ele fala sobre a crença que há em sua época em um “determinismo
divino”, o desenvolvimento dos mesmos se opõe a esse determinismo, porém
devemos cuidar, pois assim como a fortuna não é determinada e fatalista, mas
sim muda de acordo com a conjuntura, a virtù não o simples livre arbítrio, mas
sim a escolha certa na hora certa. Nos “Discorsi sopra la prima deca di Tito
Livio”, Maquiavel defende a forma de governo republicana com uma constituição
mista, de acordo com o modelo da República de Roma Antiga. Defende também a
necessidade de uma cultura política sem corrupção, pautada por princípios
morais e éticos. Foram pensados como análise e comentário a toda a obra de Tito
Lívio, mas permaneceram incompletos, não passando da primeira década. Esta obra
surgiu da vontade do autor de comparar as instituições da Antiguidade, em
especial às da Roma clássica, com as de Florença no período. Assim, seguindo a
obra de Tito Lívio, analisa como surgem, se mantém e se extinguem os Estados.
Ficou assim dividido em três partes, estudando na primeira a fundação e a
organização, em seguida o enriquecimento e a expansão e por fim sua decadência.
Para
ele, a “natureza humana” seria “essencialmente má” e os seres humanos querem
obter os máximos ganhos politicamente a partir do menor esforço, apenas fazendo o bem quando
forçados a isso, contrariando Thomas Hobbes, para quem a “condição da natureza
humana e as leis divinas exigem um cumprimento inviolável”, ou, John Locke,
“dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir permissão ou depender da
vontade de qualquer outro homem”. De acordo com o conceito aceito pela ciência
moderna, “natureza humana” é a parte do comportamento humano que se acredita
que seja normal e/ou invariável através de longos períodos de tempo e de
contextos culturais dos mais variados. Assim a chamada “natureza humana” também
não se alteraria ao longo da história social do ocidente fazendo com que seus intérpretes e debatedores contemporâneos
agissem da mesma maneira que os antigos romanos e que a história dessa e de
outras civilizações servissem de exemplo. Falta-lhe quiçá um senso das mudanças
históricas. Como consequência acha inútil imaginar Estados utópicos, nunca
antes postos em prática, se já não é um truísmo e prefere pensar no real concreto.
O governador do estado do Ceará está
estatisticamente enfrentando alguns dos piores indicadores sociais do país. Com
8,7 milhões de habitantes, o Estado do Ceará tem o 3º maior índice de homicídios do Brasil, com taxa de 44,6% de
mortes por 100 mil habitantes, segundo dados comparativos do Mapa da Violência (cf. WISELFISZ, 1998;
2014), do Instituto Sangari. A média nacional é de 29 mortes a cada 100 mil
habitantes. Em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral,
Camilo Sobreira Santana tem afirmado que vai criar o programa: “Em Defesa da
Vida”, interiorizando o policiamento. O político petista também vem reiterando que vai
atuar “de forma integrada, com as demais políticas públicas, atuando de forma sistêmica
no território, criando nos locais mais vulneráveis ações relacionadas a
segurança, saúde, educação, emprego e infraestrutura pública, envolvendo as
secretarias de governo”. Igualmente na economia de renda e empregos, o governador eleito
fala em interiorizar as oportunidades e fazer o Estado crescer de forma “mais
equitativa, do ponto de vista geográfico”.
O governador tem afirmado que vai “ampliar e fortalecer as ações
articuladas com o governo federal, governos estaduais e governos municipais,
visando a consolidação de programas e projetos estratégicos para a economia e o
desenvolvimento regional e local”.
Desnecessário
dizer, que o filósofo Benedito de Espinoza, também chamado Bento de Espinoza, foi o primeiro em todos os tempos a
suscitar o problema do ler, e, por conseguinte do escrever, tenha sido também o
primeiro no mundo a propor simultaneamente uma teoria da história e uma filosofia
da opacidade do imediato. Que temos nele pela primeira vez no mundo que um
homem tenha ligado a essência do ler e a essência da história numa teoria da
diferença entre o imaginário e o verdadeiro - eis o que nos faz compreender por
que é por uma razão necessária que Marx só pôde se tornar Marx fundando uma
teoria da história e uma filosofia da distinção histórica entre a ideologia e a
ciência e que em última análise essa fundação se tenha consumado na dissipação
do que se chama “mito religioso da leitura”. Por mais paradoxal que possa parecer
a expressão “o que é ler”, é possível afirmar que na cultura ocidentalizada da história humana
nosso presente corre o risco de aparecer um dia como que assinalado pela
provação mais dramática e mais laboriosa possível.
A descoberta e o aprendizado
do sentido dos atos mais “simples” da existência: ver, escutar, falar, ler. Não
é à psicologia
que devemos estes conceitos perturbadores, mas a homens como Marx, Nietzsche e
Freud. Depois de Freud é que começamos a suspeitar do quer-dizer o escutar, e,
portanto o falar (e o calar) e o que quer-dizer do falar e do escutar revela,
sob a inocência do falar e do escutar, a profundidade de uma fala inteiramente
diversa, a fala do inconsciente. Para
Louis Althusser, ou Michel Foucault, deveríamos começar a suspeitar do que,
pelo menos em teoria, ler e, portanto escrever “quer dizer” (“veut-dire”). Isto
porque podemos justamente apreender nele, não somente no que ele diz, mas no
que faz a própria passagem de uma primeira ideia e prática de leitura a uma
nova prática de leitura e a uma teoria da história capaz de nos fornecer uma
nova teoria do ler. E melhor, “deixar que se diga” implica que se renunciou ao
projeto de deter, em qualquer nível que seja, o que o enunciado do texto “quer
dizer” ou “queria dizer”. Melhor dizendo
enquanto a Representação acredita “falar-sobre”, essa fala sempre é
situável no desenvolvimento daquilo “que se fala”. Ou noutra possibilidade do
que é que se dizia, portanto, no que era dito? Ou ainda a possibilidade do
dito: no que é que
aquilo que era dito, era portanto, fatalmente (mal)dito, pelo fato de que ele
era expresso?
Daí, toda a fragilidade no sistema de
interpretação de categorias e conceitos, que constitui o conhecimento,
reduzir-se à fraqueza psicológica do
“ver”. São as omissões do ver que explicam as suas equívocos, do mesmo modo,
por uma necessidade peculiar, será a acuidade do “ver” o que há a explicar suas
visões: de todos os conhecimentos reconhecidos. Atingimos assim a compreensão
da determinação do visível como visível, e conjuntamente do invisível como
invisível, e do vínculo orgânico que une o invisível ao visível concreto.
Assim, é visível todo objeto ou problema que se situa no terreno, e no
horizonte, isto é, no campo estruturado definido da problemática teórica de
determinada disciplina teórica. Impõe-se-nos tomar essas palavras ao pé da
letra. Alguns autores ajudam-nos a elucidar esses termos. A
visão já não é então o fato de uma pessoa individual, dotada da faculdade de
“ver” a qual é exercida quer da atenção, quer da distração. A vista é o fato imediato de suas condições
estruturais. A vista é a relação de reflexão imanente do campo da problemática
sobre seus objetos e seus problemas. A visão perde então seus privilégios religiosos
da “leitura sagrada”. Nada mais é que a reflexão da necessidade imanente que
liga o objeto ou o problema às suas condições de existência, que têm a ver com
as condições de sua produção. Não é mais o olho do espírito que vê o que existe no campo definido por uma problemática teórica. E
esse próprio campo que se vê nos objetos, ou nos problemas que ele define, sendo
a visão apenas a reflexão necessária do campo de análise em seus objetos.
Esta
renovação na explicação marxista dos processos sociais “superou” efetivamente
os extremismos de se imputar invariavelmente a “causa econômica” a todos os
acontecimentos sociais e políticos, negando-se a realidade dos fatos sociais ou
invertendo-se a sua lógica. A rejeição da totalidade expressiva hegeliana, que nos
marxistas anteriores significava “determinação e dominância” só do econômico,
ganha assim estatuto teórico e respeitabilidade na análise social. Althusser interpreta
o político dominando historicamente sobre (às vezes até contra) o econômico na
sociedade. Isto é importante do ponto de vista analítico e opera uma distinção
no âmbito da formação de uma Teoria das Ideologias. Seu ensaio mais conhecido é
“Idéologie et appareils idéologiques d'état”(1970), onde precisa: a) o conceito
de ideologia, e, b) relaciona o marxismo com a psicanálise. A ideologia, deriva
dos conceitos do inconsciente e da “fase do espelho” de Freud e Lacan,
respectivamente, e, c) descrevendo as estruturas e sistemas sociais que
permitem um conceito significativo do Eu. Estas estruturas são tanto agentes de
repressão quanto são inevitáveis - é impossível escapar das ideologias ou não
ser-lhes subjugado: a) pela interpelação, b) o reconhecimento, c) a sujeição e
d) os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), são quatro categorias básicas.
Bibliografia
geral consultada.
_________________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais.Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Estado Democrático - Costumes & Oligarquia em Ritmo de Barbárie.
Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga
“ Os costumes presentes serão
chamados bárbaros quando forem costumes passados”. Anatole France
Aparentemente os bárbaros só existem
por oposição à civilização, e por não compreendê-la, simplesmente a destroem e
saqueiam. A disposição diametralmente oposta entre estes dois conceitos/categorias
constitui-se num duplo somente explicável individualmente por oposição plena ao
outro. Contudo, a barbárie não é algo externo que se afronta ao civilizado e
que este deve dissipá-la para, dialeticamente, produzir um processo de
emancipação daquele. Mas sim uma face da mesma moeda, a civilização, que vem à
tona no momento em que ela se torna arrogante de si própria como espelho.
Assim, a tese pascalina do homo duplex,
admite a interioridade da barbárie na civilização, em oposição ao racionalismo
crítico de Max Horkheimer e Theodor Adorno, veem no homem um ser racional
submetido à tempestade da barbárie. A crítica analítica a toda pilhagem, destruição,
saques e mortes que resultaram de um processo quer opor à barbárie o projeto
moderno. A civilização e barbárie representam as duas máscaras, em complementariedade
de uma mesma e única humanidade globalizada.
No
Brasil, país onde as desigualdades sociais no campo estão entre as maiores do
mundo, 1% de proprietários detém cerca de 50% das terras, em diversos momentos
históricos do século XX, quando os movimentos campesinos defenderam a tese da
revolução agrária. O primeiro se deu entre os anos de 1920 e 1930, com a Coluna
Prestes e a criação do PCB. Outro momento se deu na década de 1960, com a
criação das Ligas Camponesas com o lema “Reforma Agrária na lei ou na marra” e
no episódio contundente da Guerrilha do Araguaia. Existem vários movimentos sociais
organizados por camponeses, com maior destaque o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, cuja proposta refere-se
à melhor divisão das terras brasileiras, exigindo que o governo federal
propicie medidas complementares ao simples assentamento. Como por exemplo, a
eletrificação e irrigação do campo, concessão de créditos rurais e execução de
programas que visem estimular a atividade agrária e a subsistência do agricultor
e de sua família. Podemos citar igualmente o MLT - Movimento de Luta pela Terra, que vem ganhando mais dinamismo e radicalização
na luta pela reforma agrária.
O
Estado do Ceará afirma-se como uma poliarquia.
Partindo da afirmação que nenhum regime pode ser plenamente democrático
formalmente, Robert Dahl (1997) propõe o método procedimental para obter uma
sociedade mais próxima da democracia nas medidas possíveis, que ele chama
sociedade poliárquica. Dahl formula algumas teorias de como uma sociedade pode
caminhar para o sistema poliárquico. Segundo ele, quando a disputa política
precede a inclusão política, como ocorre no caso cearense, a sociedade está no
caminho certo para a poliarquia. Portanto, uma sociedade com vasta gama de
candidatos disputando as eleições é considerada mais democrática que uma com
ampla participação popular, porém com número bastante limitado de políticos
disputando as eleições. Este fato político é explicado por Dahl pelo fato de
uma sociedade com ampla gama de políticos constituírem-se como uma sociedade
com diversidade de partidos políticos. Então uma que têm governistas e uma
oposição nítida, por conseguinte evitaria todo o poder político na mão de uma
maioria governista, sem oposição notória, o que tenderia na prática política à
ditadura militar ou civil.
O
regionalismo é um discurso apoiado numa aliança de forças e grupos sociais que
forja uma identidade referida a um espaço; forja uma ideia de história e de
práticas comuns; apresenta uma leitura do passado, do presente e projeta um
futuro em cima de interesses gerais remetidos a uma circunscrição territorial.
Ele legitima a hegemonia sócio-política na formação de um determinado “bloco de
poder”. Ipso facto, evidencia o seu monopólio da representação dos interesses gerais numa
determinada região. Outorgando autoridade no sentido que Max Weber emprega aos
seus membros de porta-vozes para exercer essa representação articulada. Esse “grupo
dominante”, enquanto fração das classes através da reivindicação de um
tratamento diferenciado por parte das diversas escalas de “poder supralocais”. Objetiva monopolizar a interlocução e exercer o controle político sobre os recursos
fundamentais que interferem na reprodução das condições locais de desenvolvimento econômico e social.
Ao
mesmo tempo em que era severo crítico da corrupção eleitoral e da exclusão
política, Getúlio Dornelles Vargas empreendeu manobras políticas que, nos
quinze anos subsequentes, cristalizaram o seu nome no poder. Somente em 1945,
após ter lutado contra os regimes totalitários europeus, foi que Vargas deixou
o posto presidencial para que as eleições ocorressem mediante o exercício de
cidadania de milhares de brasileiros. Entre os anos de 1945 e 1964, observamos
o desenvolvimento das instituições democráticas em uma fase na qual o
desenvolvimento econômico nacional caminhava ao lado do agravamento das
questões sociais. O aumento de nossa dívida externa e a demanda de nossas
classes trabalhadoras entrava em choque com o tom populista dos governantes da
república populista. Dessa forma, os movimentos sociais e partidos de esquerda
passaram a reivindicar transformações mais significativas na política nacional.
Foi
então que, em 1964, os militares organizaram um golpe político-militar no dia
1° de abril que estabeleceu a drástica redução das liberdades democráticas no
país. Alegando ao nível ideológico ameaça de uma revolução social do tipo
comunista, como na U.R.S.S. e em Cuba, por exemplo, o regime golpista militar
se instalou promovendo a extinção do pluripartidarismo e a instalação do
bipartidarismo que quase não abria brecha a uma oposição sistemática ao
governo. Passados vinte e um anos, os militares saíram do poder com as
conquistas democráticas das eleições diretas e a livre organização partidária
em 1985. Partidos políticos se formaram numa época em que as demandas da
população se avolumavam em um período marcado pela instabilidade econômica e os
terríveis índices inflacionários. De tal modo, experimentávamos o retorno da
democracia sem ainda reconhecer sua importância e significado midiático.
Atualmente, milhões de brasileiros
exercem a sua cidadania através do voto. Entre a descrença e o ceticismo de
alguns, questiona-se frequentemente a existência do voto obrigatório para
grande parte da população. Ao mesmo tempo, observamos que a crença nas
ideologias e partidos políticos perdem espaço para o fácil elogio a figuras
políticas que se valem mais do carisma no meio urbano e da figura do coronel
que de uma convicção e credibilidade para angariar o eleitorado brasileiro. A
Constituição Federal brasileira assegura aos cidadãos um amplo acesso à
informação a partir de diferentes e variadas fontes, dentro de um ambiente
democrático, que garantem as liberdades de expressão e de imprensa. A realidade demonstra que o país tem ainda um longo caminho pela frente nesta
relação para diversificar suas fontes de informação, o que poderia incluir, por
exemplo, canais governamentais e comunitários.
A
candidatura do coronel (cf. Leal, 1975) Camilo Sobreira Santana contou apoio em sua coligação
político-partidária com as seguintes siglas de representação: PRB, PP, PDT, PT,
PTB, PSL, PRTB, PHS, PMN, PTC, PV, PEN, PPL, PSD, PC, PC do B, PT do B, SD e
PROS. Contudo, no quadro político geral do Estado temos a seguinte
configuração: 11 coligações e partidos políticos isolados decidiram lançar
candidatos a cargos proporcionais nas eleições deste ano. Para deputado
estadual, o PSC, que decidiu marchar sozinho, é quem lançará mais candidatos –
62 ao todo para disputar vagas na Assembleia Legislativa. A maior coligação,
que reúne nove partidos, tem o oligarca PROS, PT, PRB, PTB, PSL, PHS, PV, PSD e
SD, com 112 candidatos. A coligação com PMDB, PR, DEM, PRP e PSDB lançou 81
candidatos. Já a Frente de Esquerda (Psol, PSTU e PCB) totalizou 39 postulantes.
PEN, PRTB e PPL se reuniram para lançar 60 candidatos. Já PP, PT do B e PMN
tiveram representação de 45 candidatos.
Já
no final da década de 1980, de outra parte, o caudilhismo há muito deixou de ser
um método político de obtenção e manutenção do poder no Brasil pelos coronéis.
Porém o coronelismo perdura nos municípios e regiões mais afastadas no
interior, promovendo ainda assassinatos e terrorismo entre a população menos
favorecida. Apesar disso, os mecanismos de proteção institucional começaram a
se formar com a queda da ditadura militar que havia sido imposta ao país pelo
golpe político- militar de 1964. Em 1988, com a promulgação da “Constituição
Cidadã”, o povo brasileiro passou a ter reconhecida sua cidadania de forma mais
plena. As denúncias de desmandos, corrupção, roubos e crimes de “colarinho
branco” começaram a ser divulgadas pela mídia nacional e internacional. Os
detentores do poder econômico, os grandes oligarcas ou coronéis tornaram-se
figuras com uma nova roupagem - são os caciques.
Camilo
Santana, do PT, foi eleito governador do Ceará para os próximos quatro pesados
anos, a partir de 1º de janeiro de 2014. Com 100% das urnas apuradas por volta
das 21 h (horário local), o petista teve 2.417.668 votos, o que corresponde a
53,35% dos votos válidos, contra 46,65% de Eunício Oliveira (PMDB), que obteve
2.113.940 votos totais. A vice-governadora Izolda Cela, foi secretária de
educação em Sobral e, até ir para a disputa como vice, secretária estadual da
Educação. A eleição de Camilo Santana ao governo do Ceará teve apoio do
governador Cid Gomes (Pros), há oito anos no comando do estado diante de
intensas manifestações grevistas. Eunício Oliveira fazia parte das alianças da
oligarquia Ferreira Gomes até decidir ser candidato ao governo.
Em
entrevista, depois da mise-en-scène o
então governador Cid Ferreira Gomes reconheceu que um dos motivos que
contribuíram para a escolha do nome de Camilo Santana como candidato a
governador decorreu da possibilidade do ex-presidente Lula apoiar a candidatura
que faria oposição ao governo estadual. No caso, Eunício Oliveira. “Não foi uma
decisão unilateral, foi coletiva. Precedeu uma conversa com todos os
pré-candidatos e com o Partido dos Trabalhadores”, alega, ressaltando que
Camilo Santana é “sensível” e tem “carisma”. O coronel aproveitou o ensejo e criticou
o PMDB, cogitando a criação de outro partido para se contrapor à legenda em
âmbito nacional. – “O PMDB é um mal terrível nesse país e tem que ser combatido
(...) porque é um ajuntamento de seções regionais sem nenhuma identificação
entre eles, mas tem um interesse comum, que é chantagear o governo para ocupar
espaços nos governos”.
O
resultado da votação no Ceará, também consagrou a presidente Dilma Rousseff
(PT). Ela conseguiu mais de 2/3 dos votos no Estado, deixando o candidato Aécio
Neves (PSDB) com apenas 23,25% da votação. Os números alcançados naquele
domingo foram maiores, para Dilma, que o resultado do 1° turno. No dia 5 de
outubro, quando ficou concluída a primeira etapa da disputa, foram eleitos um
senador da República, Tasso Jereissati (PSDB), 22 deputados federais e 46
deputados estaduais, a maioria, tanto na Câmara, quanto na Assembleia, é de
parlamentares ligados ao Governo. Eleito Senador da República pelo PSDB, em
outubro de 2002, com 1.915.781 votos, Tasso Jereissati exerceu o mandato no
período de 2003 a 2011. Na condição de uma das principais lideranças nacionais
do PSDB, Tasso Jereissati foi presidente nacional do partido em duas
oportunidades: 1991 a 1993 e 2005 a 2007. Em 2014, decidiu voltar à política
como candidato a senador pelo Ceará, numa aliança ultraconservadora com Eunício
Oliveira (PMDB), mas foi candidato da oposição!
Enfim,
o terceiro mandato do grupo político que comanda o Ceará a oito anos foi
conquistado de forma diferente das eleições anteriores, nas quais Cid Ferreira
Gomes (Pros) foi vitorioso. O contexto político, a situação crítica do Estado e
o perfil do governador eleito Camilo Santana (PT) apontam para uma gestão que
representa a continuidade do modelo político coronelista. Camilo S. Santana ideologicamente
se referiu a Cid F. Gomes como “maior governador da história”. - “Mas vamos fazer
um governo novo”. Mantra repetido ao longo da campanha, já que a ideologia
interpela o indivíduo constituindo-o em sujeito, praticamente ele reforçou que
irá à política para “garantir tudo de bom que conquistamos corrigir o que não
está bom, e apresentar novos projetos”. Perguntado sobre o que não estaria
funcionando, preferiu apontar os maiores “desafios”: - “Segurança e saúde, dois
segmentos que vêm preocupando o cearense”, conforme disse naquela tarde de
eleições, ao chegar a Fortaleza antes da apuração.
É neste sentido que a própria história pessoal
de Camilo Santana não se confunde com a de seu partido no Estado. A
autenticidade do Partido dos Trabalhadores refere-se às lutas históricas do PT
na cidade com a eleição de Maria Luíza Menezes Fontenele. Ela foi de fato e de
direito a 1ª mulher a ser eleita prefeita de uma capital de estado brasileiro,
e particularmente ser a 1ª prefeita de capital eleita pelo Partido dos
Trabalhadores (PT). Em 1967, ingressou no magistério e depois se tornou
professora da Universidade Federal do Ceará. Concluiu seu curso de mestrado em
Sociologia, na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos da América em 1973.
Como deputada estadual eleita pelo extinto Movimento Democrático Brasileiro –
MDB (1979-1982), reeleita posteriormente, pelo Partido do Movimento Democrático
Brasileiro – PMDB (1983-1986), e ainda relatora do Estatuto do Magistério.
Participou da oposição à ditadura militar golpista e do “Movimento Feminino
pela Anistia” aos que foram presos e perseguidos pelos chamados crimes
políticos. Em 1986, concorrendo pelo Partido dos Trabalhadores, de oposição ao establishment e que dava os seus primeiros
passos, foi a 1ª mulher a ser eleita prefeita de capital no Brasil.
Bibliografia
geral consultada.
MÔNICA BERGAMO, Mônica, “Banco Estatal
Favoreceu Tasso, diz auditoria”. In: https://www1.folha.uol.com.br/02/05/1999; BOBBIO, Norberto, Ni con Marx ni contra Marx. 1ª edição. Espanha: Fondo de Cultura, 1999; Idem, O Filósofo e a Política. 1ª edição. São Paulo: Contraponto Editor, 2003; Idem, Il Futuro della Democrazia. 1ª edizione. Itália: Einaudi Editore, 2005; ALENCAR, Maria Emília da Silva, À Sombra das Palavras: A Oligarquia Acciolina e a Imprensa (1896-1912). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Departamento de História. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2008; MICHELS, Robert, Los Partidos Políticos. Un Estudio Sociológico de las Tendencias Oligárquicas de la
Democracia Moderna. 2ª edición. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2008; CAREY, John, “Ingeniería Electoral: Qué nos Muestran las Investigaciones Académicas sobre los Efectos Anticipados de las Reformas Electorales?”. In: Arturo Fontaine; Cristián Larroulet; Jorge Navarrete e Ignácio Walker (Orgs.), Reforma del Sistema Electoral Chileno. 1ª edição. Santiago: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2009; PRATES, Francisco de Castilho, As Fronteiras da Liberdade de Expressão no Estado Democrático de Direito: O Desafio de Falas que Oprimem, de Discursos que Silenciam. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2015; OLIVEIRA, Emerson Ademir Borges de, Democracia como “Ídolo”? Ensaios sobre um Projeto de Democracia Possível. Tese de Doutorado. Faculdade de Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; OLIVEIRA, Maria Rita de Holanda Silva, A Autonomia Parental e os Limites do Planejamento Familiar no Sistema Jurídico Brasileiro. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito do Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2016; entre outros.
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