sábado, 10 de março de 2018

Para Onde Vamos? - Indisciplina, Poder & Accountability na Vida Social.

                                                                                         Ubiracy de Souza Braga

                                  “Papel do juiz é resolver conflitos, e não criá-los”. Teori Zavascki (1948-2017)
             

O magistrado origina-se do latim magistratus, derivado de magister “chefe, superintendente” que designa, em tempos passados, lato sensu, “um funcionário do poder público investido de autoridade”. Desta forma um Presidente da República, por exemplo, receberia o título de primeiro magistrado. A palavra latina magistratus tanto significa a função de governar (magistratura) como a pessoa que governa (magistrado). Na terminologia do Império Romano, “magistrado” compreendia todos os detentores de cargos políticos de consulado para baixo. De tal modo, os magistrados teriam poderes derivados do imperium, interpretado como um poder de soberania de caráter absoluto, derivado de fatores reais de poder, como a confiança de exércitos e/ou de soberanos vizinhos. O magistrado exercia sua autoridade nos limites de uma determinada atribuição, com poderes decorrentes de sua função, como os juízes, os prefeitos, os governadores e presidentes. Na Antiguidade havia diversos tipos de magistrados, como os cônsules, os pretores, os meirinhos-mor (maiorinus-mor), os censores, considerados magistrados maiores, e os edis e questores, os magistrados menores. No mundo contemporâneo a palavra magistrado normalmente remete ao exercício do poder judiciário. A noção de magistratura, que em alguns países, comparativamente, inclui juízes e procuradores, é desconhecida nos países que adotam a common law como ocorre com o Reino Unido, os Estados Unidos da América (EUA) ou o Canadá, que estendem as garantias sociais constitucionais somente aos seus juízes, em senso estrito. 

Também no Brasil, os magistrados são tão somente os juízes, membros do Poder Judiciário, apesar de ambas as categorias (magistrados e membros do Ministério Público) gozarem das garantias constitucionais de vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos (subsídios). Por sua vez, alguns países cuja estrutura legal está baseada no Direito Romano (países como Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal) têm no seu corpo de magistrados juízes e procuradores (ou promotores públicos). Magistrado ordinário (Magistratus ordinarii e magistrado extraordinário (magistratus extraordinarii) eram duas categorias de políticos, militares e em alguns casos, de poder religioso. Os magistrados ordinários eram eleitos anualmente (exceto os censores) para servir um ano. Os Magistrados Extraordinários eram eleitos só em circunstâncias especiais. A administração se define programaticamente através de um âmbito institucional-legal, baseada na Constituição, leis e regulamentos. Originou-se na França, no fim do século XVIII, mas só se consagrou como ramo autônomo do direito com o desenvolvimento do Estado de Direito. Teve como base os conceitos de serviço público, autoridade, poder público e especialidade de jurisdição. O gestor tem como função gerir, administrar de forma ética, técnica e transparente a administração pública, quer sejam órgãos, departamentos ou políticas públicas visando o bem da comunidade a que se destina e em consonância com as normas legais e administrativas vigentes. 

Na Europa, existem basicamente quatro modelos constitucionais de gestão da administração pública, o modelo nórdico (Dinamarca, Finlândia, Suécia e Países Baixos), o modelo anglo-saxão (Reino Unido e Irlanda), o modelo renano ou continental (Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Luxemburgo) e o modelo mediterrâneo (Grécia, Itália, Portugal e Espanha). Na América Latina a preferência é o modelo mediterrâneo, a exemplo do Brasil. Vale lembrar que a nação é um produto cultural, político e social que surge na Europa a partir do fim do século XVIII e que se constitui efetivamente em uma “comunidade política imaginada”. Nesse processo de construção histórica, a relação entre o velho e o novo, o passado e o presente, a tradição e a modernidade é uma constante e se reveste de importância fundamental, pois, a nação é uma comunidade de sentimento que normalmente tende a produzir um Estado próprio, é preciso invocar antigas tradições (reais ou inventadas) como fundamento natural da identidade nacional que está sendo criada. Isso tende a obscurecer o caráter histórico e relativamente recente dos Estados nacionais. Assim, como Estado-nação procura delimitar e zelar por suas fronteiras geopolíticas, ele também se empenha em demarcar suas fronteiras culturais, estabelecendo o que faz e o que não faz parte da nação. Através desse processo se constrói uma identidade nacional que procura dar uma imagem à comunidade abrangida por ela. Nesse sentido o processo de consolidação dos Estados-nações é extremamente recente. Mesmo em sociedades que atualmente parecem ser bem integradas. 
Esta exploração humana dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento desse fato não constitui, para Sérgio Buarque, menoscabo à grandeza do esforço português. Isto porque existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro – audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o ideal do trabalhador.                              
Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao “trabalhador”, papel muito limitado, quase nulo. Historicamente predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os melhores homens de grandes voos. E não foi fortuita a circunstância de se terem encontrado neste continente, empenhados nessa obra, principalmente as nações onde o tipo ideal do trabalhador, encontrou ambiente menos propício. Essa pouca disposição para o trabalho, ao menos para o trabalho sem compensação próxima, essa indolência, como diz o deão Inge, não sendo evidentemente um estímulo às ações aventurosas, não deixa de constituir, com notável frequência, o aspecto negativo do ânimo quer gera as grandes empresas. Como explicar, sem isso, que os povos ibéricos mostrassem tanta aptidão para a caça aos bens materiais em fins do século XVIII? “Um português” comentava certo viajante em fins do século XVIII, “pode fretar um navio para o Brasil com menos dificuldade do que lhe é preciso para ir de cavalo de Lisboa ao Porto”. E essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura?
Nesse ponto, precisamente, os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexcedíveis. Procurando recriar aqui o meio de sua origem, fizeram-no com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na história. Aos portugueses e, em menor grau, aos castelhanos, coube, sem dúvida, a primazia no emprego do regime que iria servir de modelo à exploração latifundiária e monocultora adotada depois por outros povos. E a boa qualidade das terras do Nordeste brasileiro para a lavoura altamente lucrativa de cana-de-açúcar fez com que essas terras se tornassem o cenário onde, por muito tempo, se elaboraria em seus traços mais nítidos o tipo de organização agrária mais tarde característico das colônias europeias situadas na zona tórrida. E verificou-se, frustradas as tentativas de emprego do braço indígena, que o recurso mais fácil estaria na introdução de escravos africanos.
                       
O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho. Não foi, por conseguinte, uma civilização tipicamente agrícola o que instauraram os portugueses no Brasil com a lavoura açucareira. Não o foi, em primeiro lugar, porque a tanto não conduzia o o gênio aventureiro que os trouxe á América; em seguida, por causa da escassez da população do reino, que permitisse emigração em larga escala de trabalhadores rurais, e finalmente pela circunstância de a atividade agrícola não ocupar então, em Portugal, posição de primeira grandeza. Poucos indivíduos sabiam dedicar-se a vida inteira a um só mister sem se deixaram atrair por outro negócio aparentemente lucrativo. E ainda mais raros seriam os casos em que um mesmo ofício perdurava na mesma família por mais de uma geração, como acontecia normalmente em terras onde a estratificação social alcançara maior grau de estabilidade. Da tradição portuguesa, pouca coisa se conservou entre nós que não tivesse sido modificada ou relaxada pelas condições adversas do meio.
Accountability é um termo da língua inglesa que pode ser traduzido para o português como “responsabilidade com ética” e remete à obrigação, à transparência, de membros de um órgão administrativo ou representativo de prestar contas a instâncias controladoras ou a seus representados. Também traduzida como prestação de contas, significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por qual motivo faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. A obrigação de prestar contas, neste sentido amplo, é tanto maior quanto a função do cargo é pública, ou seja, quando se trata do desempenho de cargos pagos pelo dinheiro dos contribuintes. Melhor dizendo, accountability é um conceito da esfera de ação social ética com significados variados dependendo de quem delega poder numa situação de sujeito. Frequentemente é usado em circunstâncias que denotam responsabilidade civil, imputabilidade, obrigações e prestação de contas.                          
 As teorias sociais que envolvem as especulações em torno da morte do ministro Teori Zavascki ganham força na história com fatos recentes vividos por ele e sua família. Em março de 2016, antes da farsa do “impeachment” da presidente Dilma Rousseff (PT), Zavascki foi hostilizado por manifestantes “anti-PT” depois de contestar uma decisão do juiz federal Sergio Moro. Naquela conjuntura política o ministro decidiu que a investigação política de escutas telefônicas que envolviam Dilma e o ex-presidente Lula deveria ser enviada ao Supremo. Na noite de 22 de março, um grupo foi à casa de Zavascki em Porto Alegre e pendurou na fachada do prédio uma faixa de “Teori traidor”. Em maio, Francisco Prehn Zavascki, filho do ministro, “escreveu no Facebook que sua família estava sofrendo ameaças”. No mês seguinte ao post do filho na rede social Facebook, o ministro confirmou a ameaça durante um evento no Rio de Janeiro, mas minimizou seu conteúdo afirmando: - “Não tenho recebido nada sério”. Zavascki ocupava a função de ministro do STF desde 29 de novembro de 2012 e, desde 19 de março de 2016, também atuava como ministro substituto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele era o relator da Operação Lava Jato no STF e seria o responsável por decidir se a corte vai homologar ou não o acordo de delação premiada de 77 executivos da Odebrecht, esperada para fevereiro. A ex-presidente Dilma Rousseff afirmou em nota que “perdemos um grande brasileiro”. Ela citou que teve “o privilégio de indicá-lo para ministro do STF, com ampla aprovação do Senado”, e disse que Zavascki: - “desempenhou esta função com destemor como um homem sério e íntegro”.
O perfil reservado do ministro, avesso a holofotes, foi tema de conversa entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Nessa conversa, frequentemente lembrada em discussões “conspiratórias” nas redes sociais, gravada em março e divulgada em maio de 2016, Jucá sugere que apenas uma “mudança” no governo federal – que, segundo ele, seria resultado de “pacto” nacional, “com o Supremo, com tudo” - poderia “estancar essa sangria” provocada pela Operação Lava Jato. Em outro momento da conversa, Sérgio Machado afirma que o ideal seria buscar um elo com Zavascki. - “Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém”, ao que Jucá responde: - “Não tem. É um cara fechado, foi ela (Dilma) que botou. Um cara... burocrata. Da... ex-ministro do STJ”. Com a morte inusitada de Zavascki, a relatoria da Lava-Jato pode ser designada ao ministro que o substituirá na Corte, ser escolhido pelo golpista Michel Temer, citado nas investigações. A presidenta do STF ministra Cármen Lúcia pode abrir uma exceção.
Neste sentido, aproxima-se do conceito analítico descrito por Benedict Anderson, “imagined communities” inicialmente publicado em 1983 e reeditado em 1991, com diversas correções e adição de capítulos, embora tenha sido cunhado especificamente para tratar do âmbito conceitual do nacionalismo, ele passou a ser generalizado, no nível de análise teórica quase como um sinônimo político de “comunidade de interesse”. Ele pode ser utilizado, por exemplo, para se referir a uma comunidade baseada em orientação sexual, ou consciência de fatores de risco global. Mas metodologicamente, uma “comunidade imaginada” difere de uma comunidade real, pois não se baseia em interação social de seus membros, e por razões práticas não pode fazê-lo: Anderson chega a mencionar que nada maior que um vilarejo pode ser uma “comunidade real”, já que é impossível que todos seus membros se conheçam. Nação é um exemplo de comunidade socialmente construída, imaginada por pessoas com interesses políticos que percebem a si próprias como parte de um grupo. 
Como Anderson afirma, essa comunidade tem como representação a ideia de que é “imaginada”, pois os membros de uma nação, mesmo da menor delas, nunca conhecerão a maioria de seus conterrâneos, nunca os encontrarão ou, até mesmo, ouvirão a seu respeito. Ainda assim, eles terão em suas mentes a imagem de sua comunhão. Membros de uma comunidade, apesar da potencial impossibilidade de interação real uns com os outros, não deixam de compartilhar interesses ou aspectos identitários comuns. A mídia, por exemplo, cria e mantém comunidades imaginadas, embora geralmente o faça voltando à sua interação através dos meios que proporcionam a imaginação, como se estivesse referindo à totalidade de cidadãos de um país. A origem significativa do conceito de nação para Anderson e historiadores opostos como Eric Hobsbawm e Ernest Gellner, ambos analisados em “Imagined Communities”, é uma representação da Modernidade. De acordo com Anderson, para que a concepção  de nação e nacionalismo surgisse, foram necessárias três mudanças históricas centrais.         
Em junho de 2016, Teori Zavascki anulou a validade jurídica da escuta telefônica que interceptou conversa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a  presidente Dilma Rousseff.  Na decisão em que anulou a validade da interceptação da conversa entre Lula e Dilma, Teori considerou que “Sérgio Moro não tinha competência para analisar o material, por envolver a presidente da República, que só pode ser investigada pelo Supremo”. Além disso, o ministro considerou irregular a divulgação das conversas. O ministro da Suprema Corte, no mesmo despacho, enviou para S. Moro, em sigilo, as investigações relativas ao sítio em Atibaia (SP) e ao triplex em Guarujá (SP) os quais Lula é acusado de ser o verdadeiro proprietário. Ainda sobre o ex-presidente Lula, Teori Zavascki, em outubro de 2015, incluiu o petista no inquérito principal da Lava Jato. Em outubro de 2016, o magistrado suspendeu a “Operação Métis”, que apurou a suposta tentativa de policiais do Senado de obstruir investigações de parlamentares na Lava Jato. Na decisão, ele afirmou que a intenção da Métis era investigar parlamentares, que só pode ser feito com aval do Supremo Tribunal Federal.

No julgamento em que a Segunda Turma do Supremo negou pedido da defesa de Lula para tirar de Moro às investigações sobre suposto recebimento de propina pelo petista, Teori criticou em seu voto a atuação dos integrantes do Ministério Público Federal do Paraná na entrevista em que havia sido anunciado que o petista seria denunciado. Na ocasião, os procuradores da República acusaram o ex-presidente da República de ser o “comandante máximo da propinocracia brasileira”, em referência comparativamente aos fatos investigados na operação Lava Jato. O relator da Lava Jato no Supremo chamou de “espetáculo midiático” a entrevista do MPF paranaense. Um despacho em ação de sigilo na Corte, determinando uma diligência investigativa, por exemplo, foi assinado no último dia 10/10/2017. Atualmente, há no gabinete do ministro um acervo de 7.566 processos, sendo 12 ações penais. Responsável pelos processos da Operação Lava Jato em andamento na Corte, Zavascki estava prestes a homologar a delação premiada dos 77 ex-executivos da Odebrecht enviados pela PGR no dia 19 de dezembro de 2016. Embora o poder Judiciário estivesse em recesso, o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki vinha despachando normalmente desde o início deste mês e estava prestes a homologar  as delações premiadas de ex-executivos da Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato. Ainda que à distância, o magistrado se comunicava com a equipe de gabinete dele, concentrada no 3° andar do anexo 2 da Corte, para emitir ordens judiciais em processos sob sua responsabilidade.    
O primeiro deles decorreu da ideia de que uma particular linguagem de escrita oferecia acesso privilegiado à verdade “ontologicamente situada”, precisamente por que tal linguagem era uma parcela inseparável desta verdade. O segundo desses conceitos decorreu da crença que a sociedade seria “naturalmente organizada” ao redor e sob potestades, isto é, sob monarcas que eram pessoas à parte de outros seres humanos e que governavam por alguma forma de deliberação cosmológica (divina). O terceiro decorreu de uma concepção de temporalidade em que a cosmologia e a história eram indistinguíveis, e a origem tanto do mundo quanto dos homens era essencialmente idêntica. Combinadas, essas ideias enraizaram firmemente as vidas dos homens na natureza das coisas, dando significado para as fatalidades cotidianas da existência, sobretudo, a morte, a perda e a servidão, oferecendo de diversas formas redenção delas. A tópica da descritibilidade pode ser vista no filme dirigido por Kore-Eda Hirokazu, “Nossa Irmã Mais Nova” (2015), de título original: “Umimachi Diary”, em que Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) são irmãs e vivem juntas em uma casa que pertence à família há tempos. Apesar de não verem o pai há 15 anos, elas resolvem ir “ao rito de passagem de seu enterro” (cf. Koury, 2009).
Lá, elas conhecem a adolescente Suzu Asano (Suzu Hirose), a meia irmã mais nova que aos poucos entende como é a vida. Mesmo tão nova, possui vasta experiência em superar dificuldades. É ótima jogadora de futebol, comunicativa e sincera. Logo as três irmãs convidam Suzu para que more com elas. O convite é aceito e, a partir de então, elas passam a conviver juntas e aprendem os pontos sensíveis numa “comunidade imaginada” relacionada à memória ao pai em comum. Hirokazu Kore-Eda analisa a valorização da vida como uma experiência baseada na relação dialética entre alegria e sofrimento, representados por momentos de felicidade e dor não só inevitáveis como parte fundamental de nossa existência sobre o “cotidiano” (cf. Heller, 1975), na medida em que o dia-a-dia desconstrua o estereótipo, retratando-o com uma visão poética, plena da beleza dos detalhes, como o flanelódromo surge diante de nós e que marca o nascimento das irmãs e vinda da “irmã mais nova”, pois é ao mesmo tempo sutil, fascinante e melancólico, mas por vezes turbulento e trágico no sentido nietzschiano. 
O modelo mediterrâneo é mais direcionado ao sistema de carreira, se caracteriza pelo baixo status do funcionalismo, forte intervenção da política na administração e níveis elevados de proteção ao emprego. Entre o pessoal da administração pública há diferenças importantes relativamente ao direito pertinaz ao exercício da função, diferenças estas que variam em razão do regime jurídico no qual se insere o agente público. Denomina-se regime estatutário o do exercente de cargo público, e as bases deste regime são as mesmas do regime jurídico-administrativo comum. O servidor público é a denominação concedida ao ocupante de cargo público, logo submetido a regime estatutário, mas que se distingue do empregado público, que, apesar de também ser espécie do gênero agente público, é regido pela legislação contratual trabalhista, por exemplo, onde o empregado público concursado mantém suas relações jurídicas com base na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) - daí o neologismo celetista.
Do ponto de vista histórico e pontual o conceito de “carreira” deriva da palavra latina “carraria” e passou por diversas transformações no decorrer de sua aplicabilidade teórica e historicamente determinada. Por volta de 1530, no período renascentista, simplificadamente, “carreira” identificava um caminho, ou o “curso do sol através dos céus”. Nas disputas de Justa, em 1590, a palavra “carreira” estava inserida no seguinte contexto: o cavalo que, durante o combate, passava uma “carreira” em seu oponente. A partir de 1803, o significado contemporâneo da palavra “carreira” passou a se relacionar ao mundo perigoso dos negócios, quando o termo foi associado à ideia de “caminho na vida profissional”. Presentemente entende-se “carreira” como a soma de todos os cargos ou posições ocupadas por uma pessoa durante o decorrer de sua vida profissional. Este entendimento, curiosamente, é conditio sine qua non a raiz etimológica do termo e impede que o conceito real da palavra seja plenamente assimilado no mercado, inclusive por alguns profissionais de renome em nível globalizado. Ipso facto não está associado a restrições temporais, mas de espaço e lugar. Não revela um histórico profissional, propriamente dito, mas um caminho particular rumo a um objetivo institucional.
Os mais recentes balanços críticos da sociologia das profissões põem em relevo seu viés ideológico e o erro de perspectiva por ele condicionado, a saber: a) ao endossar a premissa de que a organização profissional das ocupações significa a superação de interesses privados individuais ou grupais em nome de nobres interesses coletivos, os sociólogos estariam reafirmando o discurso ideológico dos próprios profissionais, que nada mais é do que a ideologia de classe média que se assume acima das classes sociais e de seus conflitos identitários necessários; b) ao entender a organização profissional como comunidade de interesses e âmbito de socialização, esta sociologia, de inspiração funcionalista, não estaria levando em conta o movimento simultâneo e correlato de “desprofissionalização”, definido pelo aumento do número de profissionais assalariados (isto é, pela difusão da relação de assalariamento), pela emergência (entre os quadros médios e mesmo superiores) da organização sindical e da prática de greve a que apelam as frações da classe operária e, finalmente, pela redução do diferencial de salário, de prestígio e de controle do processo de trabalho do trabalhador “não-manual” qualificado em relação às demais categorias de trabalhadores não-manuais e operárias em geral.
A denúncia dos limites interpretativos da sociologia das profissões se põe, assim, em termos de uma perspectiva que busca reintegrar as frações dos trabalhadores técnico-científicos na lógica do sistema de relações de classe, perspectiva que, mais recentemente, ressurge nos debates em torno da tecnocracia. Aliás, a familiaridade é grande entre as formulações que entendem os estratos ocupacionais como comunidades potenciais ou efetivas a serviço da coletividade e as concepções que admitem a transição do poder fundado na propriedade ao poder elevado na ciência e na técnica. Todavia, são ainda incipientes os estudos a respeito das práticas monopolistas das profissões estabelecidas e mesmo as muitas formas de dependência e/ou de pertinência da categoria ocupacional às formas de dominação burocrática da classe dominante. O caminho que parece ser seguido é o de explorar a extensão das relações de trabalho no setor de prestação de serviços, de modo a evidenciar como subjacentemente ao movimento de profissionalização e de desprofissionalização, operam processos de divisão social e técnica do trabalho na acumulação de capital através do Estado.
 Fica nítido o encobrimento ideológico que concebe automático o nexo entre a diferenciação do sistema educacional, o surgimento da ocupação e a existência de necessidades sociais efetivas quando não atendidas, comprometem no sentido ético de realização profissional, entendendo a ciência como vocação e o destino da coletividade dos praticantes inseridos nas instituições e em seus postos de pesquisa. A importância da questão está em que sua resposta reporta-se à noção de delegação, não da delegação estatal, via regulamentação jurídica, mas da delegação cultural implícita na partilha de componentes da estrutura a dominante, vale dizer, legítima. A intenção de caucionar o desempenho de métier sociológico na razão científica, por oposição ao senso comum (ou à magia), significa não a extensão irresistível no sentido de imperativo da razão absoluta do ethos científico a mais uma esfera da prática, mas a eficácia simbólica de um modelo cultural valorizado, capaz de reduzir à indignidade práticas concorrentes, mas distantes do arbitrário cultural dominante e hegemônico.
Bibliografia geral consultada.
HOLANDA, Sérgio Buarque de, Raízes do Brasil. 1ª edição. São Paulo: Livraria José Olympio Editores, 1936; HELLER, Agnes, Sociologia della vita quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; DURAND, José Carlos Garcia, “A Serviço da Coletividade - Crítica à Sociologia das Profissões”. In: Rev. Adm. Empresas. Vol.15, n°6. São Paulo, nov./dec. 1975; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Editore Einaudi, 1986; ANDERSON, Benedict Ruth, Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Revised and extended. 2ª edition. London: Verso Editor, 1991; COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1995; KUNDERA, Milan, La Identidad. Traducido del original francês por Beatriz de Moura. Barcelona: Tusquets Editores, 1998; PIRIOU, Odile, “La Sociologie: Métier ou Profession? Quand les sociologues prennent position sur l`exercice de la sociologie”. In: Homme et la Societé, n° 131, janvier-mars, 1999; HENNING, Paula Corrêa, Efeitos de Sentido em Discursos Educacionais Contemporâneos: Produção de Saber e Moral nas Ciências Humanas. Tese Doutorado em Educação. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2008; KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Emoções, Sociedade e Cultura: A Categoria de Análise Emoções como objeto de Investigação na Sociologia. Curitiba: Editora CRV, 2009; ZAVASCKI, Teori Albino, Eficácia das Sentenças na Jurisdição Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012; DIAS, Taisa, Governança Pública: Uma Concepção Teórico-analítica Aplicada no Governo do Estado de Santa Catarina a Partir da Implantação das Secretarias de Desenvolvimento Regional. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Administração. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2012; Artigo: “Sociólogo Michael Löwy Lamenta Golpe de Estado no Brasil”. Disponível em: http://www.ocafezinho.com/2016/05/30; GESSER, Graziele Alano, Accountability e Transparência como Elementos de Governança nas Universidades Públicas Brasileiras. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária. Centro Socioeconômico. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2018; entre outros.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Rosetta Tharpe - Talento, Igreja & Rock`n Roll Americano.

                                                                                              Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

                                     Poucos sabem, mas ela é a verdadeira mãe do Rock and Roll. (cf. Roncolato, 2018) 

            

            A palavra rock representa uma longa história de vida no idioma inglês como uma metáfora para to “shake up, to disturb or to incite”. Em 1937, Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram “Rock It for Me”, que incluía na letra o verso “So won't you satisfy my soul with the rock and roll”. Já o termo “Rocking” era usado por cantores negros gospel no sul dos Estados Unidos da América para dizer algo semelhante ao êxtase espiritual. Pela década de 1940, no entanto, o termo foi usado como um duplo sentido, referindo-se pretensamente a dançar e ao ato sexual, como em “Good Rocking Tonight”, de Roy Brown. O verbo “roll” era uma metáfora medieval que significava “ter relações sexuais”. Durante centenas de anos, escritores têm utilizado expressões como “They had a roll in the hay” (Eles tinham um rolo no feno) ou “I rolled her in the clover” (Eu transei com ela no trevo). Os termos eram muitas vezes utilizados em conjunto (“rocking-and-rolling”) para descrever o movimento de um navio no mar, por exemplo, como na canção “Rock and Roll”, das Irmãs Boswell, em 1934, que apareceu no filme: “Transatlantic Merry-Go-Round”, naquele mesmo ano, e na canção “Rockin ´Rollin` Mama”, de Buddy Jones em 1939. O cantor country Tommy Scott se referia ao movimento de um trem na ferrovia em “Rockin e Rollin”, de 1951.
Durante as décadas de 1930 e 1940, o cinema norte-americano viveu sua chamada “Era de Ouro”. O país se recuperava da Grande Depressão ocasionada pela primeira grande crise do capitalismo, e o cinema era uma forma de incentivo para a reconstituição moral da população. O rock and roll, conhecido também como rock`n`roll, é um estilo musical que surgiu nos Estados Unidos no final dos anos 1940 e início dos anos 1950, com raízes nos estilos musicais norte-americanos, como: country, blues, R&B e gospel, e que rapidamente se espalhou para o resto do mundo ocidental. O instrumento comum neste estilo é guitarra, sempre presente nas bandas, podendo possuir um único instrumentista, ou dois com funções diferenciadas de guitarrista base e solo. Na origem e significado do “rock and roll”, também se utilizava o piano ou o saxofone frequentemente como instrumentos bases, mas estes foram substituídos ou suplantados geralmente pela guitarra a partir da metade dos anos 1950. A batida é essencialmente um blues com country com contratempo acentuado, este último quase fornecido pelo recurso utilizado por uma caixa-clara. A enorme popularidade e eventual visão no mundo inteiro do rock and roll deu-lhe um impacto social único. Muito além de ser um gênero musical, como visto pela epifania dos filmes e na televisão e de acordo com a mídia que se desenvolvia comercialmente influenciou estilos de vida, moda, atitudes e linguagem.
            Poucos músicos negros de rhythm and blues, notadamente Louis Jordan, The Mills Brothers e The Ink Spots, alcançaram algum sucesso, embora em alguns casos, como o da canção “Choo Choo Ch`Boogie”, de Jordan, este êxito tenha sido alcançado com canções escritas por compositores de origem branca. O gênero “western swing” da década de 1930, geralmente tocado por músicos brancos, também seduziu o blues e diretamente influenciou o “rockabilly” e o “rock and roll”, como pode ser ouvido, por exemplo, na canção “Jailhouse Rock”, de Elvis Presley, de 1957. Vale lembrar que o desenvolvimento do rock and roll foi um processo evolutivo, em que não há um registro etnográfico único que pode ser identificado como inequivocamente “o primeiro” disco de rock and roll. Candidatos para o título de “primeiro disco de rock and roll” incluem “Strange Things Happening Everyday” de Rosetta Tharpe (1944); “Rock Awhile” de Goree Carter (1949); “Rock the Joint” de Jimmy Preston (1949), que mais tarde foi regravado por Bill Haley & His Comets, em 1952; “Rocket 88” de Jackie Brenston and his Delta Cats, na verdade, Ike Turner e sua banda The Kings of Rhythm, gravada na Sun Records de Sam Phillips em março de 1951, em termos de seu grande impacto cultural norte-americano e em outros lugares do mundo, “Rock Around the Clock” de Bill Haley, gravada em 1954, não foi um sucesso comercial até o ano seguinte. É  reconhecido como um marco, mas foi precedida de muitas gravações das décadas anteriores em que seus elementos  podem ser claramente detectados.
                                              

Neste caso, faz-se necessário relacionar a música influenciada pelo sistema doutrinário que é pensado à distância se considerarmos que os sinais ou frutos da religião existem apenas no homem. Portanto, não há motivo para duvidar de que só no homem a semente da religião, consiste numa qualidade que lhe é peculiar, pelo menos num grau que não existe em qualquer outro ser vivente. A teologia de uma organização religiosa funciona como máquina abstrata da religião em que os homens de saber designam a rota dos rebanhos e os burocratas do pão celeste fazem a distribuição. A metáfora do rebanho sustenta a maior organização burocrática do planeta – a igreja. A palavra igreja, “ecclesia” ou “casa de Deus” tem diversos significados nos livros das Sagradas Escrituras, onde os cristãos se reúnem para cumprir seus deveres religiosos. O templo de Jerusalém era a casa de Deus e a casa de oração. O edifício dedicado pelos cristãos ao culto de Cristo, que os sacerdotes gregos chamavam Kyriaké, “a casa do senhor”, em inglês veio mais tarde a se chamar “Kirk” e “church”.
       Em Roma, essa assembleia denominada Concio, é aquela que falava Ecclesiastes e Concionator. No Novo Testamento, uma igreja é simplesmente um grupo de cristãos que seguem a Cristo. A palavra pode ser usada para falar de todos aqueles que servem ao Senhor, não importa onde estejam (Hebreus 12: 22-23). É frequentemente usada para descrever grupos locais de discípulos que se encontram para adorarem, para edificarem uns aos outros e para proclamarem o evangelho de Jesus. Os sistemas comuns de superestruturas de denominações, de ligas internacionais de igrejas e de hierarquias que ligam e governam milhares de igrejas locais, são invenções do homem. Não há modelo bíblico de tais arranjos, conquanto no Novo Testamento, cristãos serviam juntos em congregações locais. Eles eram gratos pelos seus irmãos em outros lugares. Mas não tentavam criar algum laço de organização onde de um lugar pudessem dirigir ou governar o trabalho de discípulos de outro lugar. Este modelo mais claramente se espraia se considerado o ensinamento específico sobre a organização da igreja local.   

É neste sentido que não há na Terra, portanto, qualquer Igreja universal à qual todos os cristãos devam obedecer, uma vez que não há nenhum poder aos quais todos os outros Estados estejam sujeitos. Nos domínios dos diversos príncipes e estados, existem cristãos, mas cada um deles se sujeita ao Estado do qual é membro, não podendo, por conseguinte, sujeitar-se às ordens de qualquer outra pessoa. Assim, uma Igreja capaz de mandar, julgar, absolver, condenar ou praticar qualquer outro ato é o mesmo que um Estado civil formado por homens cristãos; o Estado civil tem esse nome por serem seus súditos os homens, enquanto a Igreja é assim denominada pelo fato de seus súditos serem os cristãos. Governo espiritual e temporal são apenas palavras trazidas ao mundo ocidental para confundir os homens, enganando-os quanto a seu soberano legítimo. No âmbito religioso, a soberania de Deus tem como representação o seu poder máximo e absoluto sobre todas as coisas existentes na Terra, de acordo com a maioria das crenças religiosas em torno da Bíblia. É preciso haver um único governante, do contrário se origina a facção e a guerra civil, entre a Igreja e o Estado, entre os espiritualistas e os temporalistas, entre a espada da justiça e o escudo da fé, e, o que é pior ainda, no próprio coração de cada cristão, entre o cristão e o homem. Chamam-se pastores os doutores da igreja, bem como os soberanos civis. Entretanto, se entre os pastores não houver alguma subordinação, de forma que haja apenas um chefe dos pastores, serão ministrados aos homens doutrinas contrárias, que poderão ser falsas, e uma delas necessariamente o será. O soberano civil é o chefe dos pastores, segundo a lei natural. Embora o poder tanto do Estado quanto da religião estivesse nas mãos dos reis, nenhum deles deixou de ser fiscalizado em seu uso, a não ser quando eram bem quistos por suas capacidades naturais ou por sua fortuna.
            Nascida Rosetta Nubin em Cotton Plant, Arkansas, ela começou a se apresentar quando tinha apenas quatro anos. Era chamada “Little Rosetta Nubin, the singing and guitar playing miracle”, acompanhando sua mãe Katie Bell Nubin que tocava mandolin na Igreja de Deus em Cristo pelo sul dos Estados Unidos da América. Influenciada pelo blues e country music durante a infância, quando sua família se mudou para Chicago, Illinois no final da década de 1920, seu extraordinário talento para a guitarra  tornaram-na bastante popular. A forma como Rosetta tocava era claramente a do estilo blues e impressionava seu público.  Em suas primeiras manifestações individuais e coletivas, o chamado “rhythm and blues” representava a versão negra predecessora do rock. Em seu conjunto foi influenciado pela tradição do jazz, pelo “jump blues”, precisamente o “boogie woogie”, por big bands, especificamente o swing, assim como pela ética protestante a qual vinha se constituindo de forma disciplinar nos cânticos gospel.
            O jazz influenciou muitos artistas de todos os principais estilos das posteriores músicas populares, ainda que o próprio jazz nunca mais tenha sido uma parte maior da música popular americana como durante a era swing. A cena do jazz americano do final do século XX, entretanto, produziu algumas estrelas populares, como Miles Davis. Na metade do século XX, o jazz se dividiu em vários subgêneros, começando com o “bebop”, uma forma de jazz caracterizado por tempos rápidos, improvisação baseada em estrutura harmônica ao invés de melodia, e o uso do trítono. O “bebop” foi desenvolvido no início e metade dos anos 1940, depois se desenvolvendo em estilos como o “bop hard” e “free jazz”. Inovadores no estilo incluem Charlie Parker e Dizzy Gillespie, que surgiram por intermédio de pequenos clubes de jazz em Nova York. 

         Rosetta Tharpe situa-se entre poucas mulheres negras tocando guitarra na década de 1920, amplificava influências antigas, e sua popularidade se constrói quando tocava notas como jazzistas o faziam, além de dedilhar a guitarra como Memphis Minnie.  Depois de se casar com o pastor Thomas Thorpe, da Igreja de Deus em Cristo, Rosetta ganhou o nome “Tharpe” por erros de grafia. Em 1934, eles se mudaram para Nova Iorque, e em outubro de 1938 ela gravou pela primeira vez, quatro faixas, com a Decca Records, acompanhada pela orquestra de Lucky Millinder. Suas gravações causaram um furor imediato, quando inúmeros frequentadores da igreja estavam aparentemente chocados com a mistura de música sacra e outros ritmos, mas outras plateias também adoraram essa mistura. Um número grande de músicos conhecidos, incluindo Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Isaac Hayes e Aretha Franklin reconheceu o estilo de cantar e tocar e o modo de se apresentar como uma grande influência. Little Richard 8º maior artista da música de todos os tempos em sua infância, na Geórgia, cresceu ouvindo cantores arrebatados de gospel nas igrejas negras e isto influenciou seu modo de cantar. Aprendeu a tocar piano na adolescência e se tornaria um dos desbravadores do rock, misturando boogie-woogie, rhythm & blues e música gospel, criando um estilo único: uma música agressiva, vibrante, intensa, tocada acelerada ao piano, aos estridentes vocais sempre gritados e altos da música gospel como seu tipo de música favorito durante a infância.
         A música se relaciona com vários aspectos sociais e culturais dos Estados Unidos, a saber: a estrutura social norte-americana, aspectos étnicos e raciais, religiosos, linguísticos, de gênero, assim como aspectos sexuais. Este relativismo permitiu a Lévi-Strauss criticar não só o pensamento evolutivo mal elaborado do século XIX, mas também versões mais sofisticadas de neoevolucionistas como o antropólogo norte-americano Leslie White. Este havia tentado restabelecer o evolucionismo isento de juízos de valor estabelecendo uma linha de progresso a partir de critérios mais objetivos, como a capacidade de utilizar e armazenar energia. Claude Lévi-Strauss aceita a possibilidade de em tese colocarmos as sociedades em uma sequência deste tipo, mas adverte que ainda está se usando uma das obsessões da nossa civilização - a energia - para julgar outras sociedades, para as quais este não é um valor importante. No século XIX, um grande avivamento de fervor religioso ecoou entre as pessoas no país, especialmente no sul. Hinos protestantes escritos na maior parte por pregadores da Nova Inglaterra tornaram-se parte dos encontros campestres entre cristãos devotos do sul.
Ipso facto comparativamente o desenvolvimento da música negra nos Estados Unidos da América, independentemente da África e da Europa, tem sido um tema constante no estudo da história da música americana. Existem poucos registros da era colonial, quando estilos, canções e instrumentos da África ocidental se mesclaram no caldeirão da escravidão. Os Estados Unidos da América é bem conhecido por ser um “caldeirão” de músicas, com influência de várias partes do mundo e criando novos estilos culturais distintos dos outros. Embora os aspectos da música americana terem uma origem específicas, a origem de culturas particulares de músicas é problemática, devido à constante evolução da música americana de transplantar técnicas, instrumentos e gêneros. Elementos de músicas estrangeiras chegaram aos Estados Unidos tanto pelos canais formais de patrocínio de eventos educacionais e de evangelismo por indivíduos e grupos, quanto por processos formais, como no incidente de transplante da música africana através da escravidão, e da música irlandesa, pela imigração. As músicas americanas mais distintas são resultado das misturas culturais de contatos. A escravidão aculturou inúmeras tribos resultando em uma tradição musical partilhada que foi enriquecida com elementos de músicas e técnicas indígenas, latinas e europeias.           
A ética disciplinar, a religião e raças diversificadas produziram vários gêneros de francês-africano, como Louisiana creoles; nativas, como as músicas europeias e mexicanas unidas, e outros estilos como as músicas havaianas. Os ancestrais da população afro-americana foram traficados aos Estados Unidos como escravos, trabalhando primariamente nas plantações do sul. Eles pertenceram às centenas de tribos através do oeste da África, e trouxeram certos traços da música do oeste africano incluindo vocais chamadas e resposta e música rítmica complexa, como também a batidas síncope e acentos variáveis. A música da África tem como escopo canto e danças rítmicos trazidos para o chamado Novo Mundo, e aonde se tornou parte de uma cultura “folk” distinta que ajudou os africanos a “reter a continuidade com seu passado através da música”. Os primeiros escravos afro-americanos (afrodescendentes) cantavam músicas de trabalho, “gritos de campo” em louvor ao senhor, seguindo os rituais da cristianização, hinos. Quando negros começaram a cantar adaptações destes hinos, foram chamados de “espirituais negros”. E desta raiz, de mimetismo sociológico originam-se um processo social e comunicativo em que músicas espirituais, músicas de trabalho e cantos de campo, que o blues, jazz e o gospel se desenvolveram. No dia 13 de junho é celebrado do Dia Mundial do Rock, e imediatamente nos surge à mente ícones pop do ritmo. 

Uma das precursoras deste estilo musical é uma mulher, negra como vemos, e do interior dos Estados Unidos. Nada de jaquetas de couro, coturnos, jeans rasgados, gel no cabelo, pois, Rosetta Tharpe foi essencialmente uma guitarrista de rock nos sentidos possíveis desta nomenclatura, e das melhores. Sua música era pungente e de estilo vigoroso. O curioso é que se tornou popular nos EUA nos anos 1940 - quase 20 anos antes do surgimento hegemônico do rock. Ela continha “para si” todos os elementos: a potência na voz, atitude nos movimentos, interpretação, ritmo sincopado, veloz e dançante, mistura de estilos, solos estalados, sonoridade de guitarra, “riffs” intermináveis e, sobretudo a estética dos instrumentos era  “rock’n’roll”. Queremos dizer com isso que não se trata apenas uma “precursora do rock”. Ela é uma das figuras mais notáveis da música do século 20, apesar de ser pouco lembrada pela ideologia de “brancos para brancos”, e quando muito como a “madrinha do rock”. Mas apesar da qualidade de suas músicas e inovação no estilo, da representação de um grito de alerta, ipso facto era uma mulher nos anos 1940 nos Estados Unidos. Mas ao ouvir a música de Rosetta Tharpe, porém, é evidente que o que reconhecemos como as grandes criações do rock, certamente representam ecos amplificados do trabalho dela.
Foi com o aparecimento de jovens vindos do delta do Mississippi que surgiu o estilo e o movimento social “rock and roll”, e Elvis Presley “coroado” rei desse gênero musical. Rosetta Tharpe, a mulher que vinte anos antes começara a divulgar esses ritmos, mantem-se fiel a si mesma, mas sua popularidade e seu brilho são pouco a pouco ofuscados pelos novos artistas homens. Até que um dia ela recebe uma chamada de Chris Barber, que a convida a embarcar numa aventura sociológica, desta vez no Reino Unido. Para um público que não tinha visto ao vivo uma verdadeira artista gospel, Rosetta Tharpe apareceu como algo vindo de outro mundo de raízes musicais. Ela era diferente, cativante, fervilhava energia e grandeza de alma. Ela e a guitarra se fundiam simbioticamente e se tornavam apenas uma. A atuação de 1964 em Manchester, gravada num dia frio e chuvoso na estação de comboios, é a prova disso.  Reconhecida como Sister Rosetta estava de regresso e conquista o público europeu. Em 1968, sua mãe Katie Bell falece e a perda marcou muito a cantora. Logo após Rosetta foi diagnosticada como diabética, e atuou pela última vez na Europa em Copenhague, em 1970. Pouco tempo depois teve que amputar uma perna, vindo a falecer em 1973. Rosetta Tharpe foi a grande fonte de inspiração de Etta Jones, Johnny Cash, Little Richard, e outros. Seu legado marcou a história étnica da música, marcou gerações da igreja gospel e aqueles que a ouvem tocar e cantar.

Bibliografia geral consultada.
TOCQUEVILLE, Alexis, De la Democratie en Amerique. Paris: Éditions Gallimard, 1951; FAULKNER, Harold Underwood, História Económica de los Estados Unidos. Buenos Aires: Editorial Nova, 1956; WEBER, Max, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism. New York: Editor Charles Scribner’s Sons, 1958; STAMPP, Kenneth Milton, La Esclavitud en los Estados Unidos (la ´Instituición Peculair`). Barcelona: Ediciones Oikos Tau, 1966; EMERY, Lynne Fauley, Black Dance in the United States from 1619 to 1970. Califórnia: National Press Books, 1972; CLAGHORN, Charles Eugene, Biographical Dictionary of American Music. EUA: Parker Publishing Company, 1973; TOURAINE, Alain, La Voix et le Regard. Paris: Éditions du Seuil, 1978; WILLIAMS, Eric, Capitalismo e Escravidão. Rio de Janeiro: Editores Palas, 1978; MENEZES BASTOS, Rafael José de, “Esboço de uma Teoria da Música: Para Além de uma Antropologia sem Música e de uma Musicologia sem Homem”. Disponível em: Anuário Antropológico 95, 1994; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Einaudi Editore, 1986; Idem, Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di Arezzo, la Flagellazione di Urbino. Torino: Einaudi Editore, 2001; WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição. São Paulo: Pioneira Editora, 2003; GOMES, Rita Helena, A Desobediência em Hobbes. Tese de doutorado em Filosofia. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2007; HOBSBAWM, Eric, História Social do Jazz. 5ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007; HOBBES, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. 1ª edição. São Paulo: Editora Martin Claret, 2014; MENDONÇA, Luiz Fellype Gois de, Realidade das Guitarristas de Rock: Uma Entrevista com Quatro Mulheres Guitarristas do Distrito Federal. Trabalho de Conclusão de Curso. Licenciatura em Música. Brasília: Universidade de Brasília, 2016; OLIVEIRA, Heitor Coelho Franca de, Marx na Transição: Sobre a Relação entre Teoria e Práxis n`A Ideologia Alemã. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; DAVIS, Ângela, Mulheres, Classe e Raça. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017; PERDIGÃO, Gabriel Andrade, Lentes Coloridas: Direito e Religião. As Concepções de Mundo e a Questão da Igualdade em F. Engels. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito e Ciências do Estado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2018; entre outros.

terça-feira, 6 de março de 2018

Rua Augusta - Corpos, Prazeres & Vida Noturna Metropolitana.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

                               “Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade”. Michel de Certeau 

       
          A Rua Augusta é uma via arterial da cidade de São Paulo que liga o bairro dos Jardins a região do Centro Histórico de São Paulo. A rua é reconhecida por suas lojas, boutiques e estabelecimentos de luxo na região dos Jardins e por suas boates, casas noturnas, bares e vida noturna na região que parte da Avenida Paulista em direção ao Centro, passando pela região reconhecida como Baixo Augusta. A rua segue em subida a partir de seu início no entroncamento das ruas Martins Fontes, Martinho Prado e a Praça Franklin Roosevelt, até o cruzamento com a Avenida Paulista. Após cruzar a Paulista, ela se torna uma descida seguindo em direção à Rua Colômbia, no Jardim Europa. A Rua Augusta é reconhecida principalmente por sua vida noturna de bares, baladas e casas de shows variadas, mas também por algumas casas de prostituição, saunas e boates adultas. As primeiras referências dela datam de 1875, chamando-se primeiramente Rua Maria Augusta; em 1897 já aparece como Rua Augusta. Foi parte das terras do português Mariano António Vieira, dono da Chácara do Capão desde 1880, quando abriu várias ruas no Bairro da Bela Sintra, inclusive a Rua da Real Grandeza, atual Avenida Paulista. Resolveu abrir uma trilha, pois os caminhos eram íngremes, para posteriormente serem instalados bondes puxados por burros, em 1890.

           Apenas em 1891 com a inauguração da luz elétrica, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, ficando oficial em 1927. Até 1942, a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada (Decreto Lei N.º 153). Do lado oposto, em direção aos "Jardins", o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome Augusta: tudo leva a crer que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antônio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou adjetivo) ao chamá-la de Rua Augusta. Colabora para esta versão o fato de que o mesmo Mariano, ao abrir uma “picada” no alto do Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. Historicamente vieram os loteamentos, quando surgiram confortáveis residências e comércio para servi-las. Gradativamente começaram a surgir edifícios de moradia. Grande parte de comércio fino de decoração se instalou na região central-ascendente, a partir da Rua Marquês de Paranaguá. As casas residenciais deram lugar ao comércio de rua. Shoppings Centers e Cinemas de categoria social se instalaram frequentados pelas famílias e mais tarde pelos jovens que buscavam distração. Caminho certo rumo aos bairros dos Jardins e seus clubes, como o Club Athletico Paulistano, a Sociedade Harmonia de Tênis e o Esporte Clube Pinheiros.

A Rua Augusta representou para os jovens paulistanos na década de 1960, glamour e diversão. A canção Rua Augusta, de Ronnie Cord, lançada em 1964 foi uma espécie de hino da juventude paulistana que frequentava o logradouro nesta época. A partir da década de 1970, começou a adaptar-se às mudanças, dado o pesado tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Mesmo assim, os jovens continuaram a estar por lá com suas motos, carros envenenados e muito congestionamento, principalmente, entre as décadas de1970 e 1980. Haviam muitas discotecas e casas de danças para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Está sempre sendo atualizada desde aquela época de grande urbanismo e de seu radiante desenvolvimento, com a reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte dos postes de iluminação pública obsoletos, colocação de carpete, estacionamento para automóveis na Zona Azul, subterrâneo, construção de boulevard e  o desligamento do trafego dos ônibus elétricos com as novas calçadas. Na década de 1970 a rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio, provavelmente, por conta da abertura de grandes Shoppings Centers na cidade de São Paulo. Nessa época também foram abertos diversos prostíbulos em seu entorno. 

                              

A rua modernizou-se em 1993 com a abertura e desenvolvimento do projeto social do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, a Rua Augusta voltou a ser parte e principalmente a rememorar da vida noturna dentre os jovens. A Augusta abriu o Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, considerado o primeiro de comédias do Brasil, YO restaurante, e outros. Seu entorno é ambientado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e antigos prostíbulos. Na perspectiva de democratização, condição para uma nova estética urbana, duas redes retêm particularmente a atenção sociológica: os gestos e os relatos. Ambos se caracterizam como cadeias de operações feitas sobre e com o léxico das coisas. De dois modos distintos, um tático e outro linguístico, os gestos e os relatos manipulam e deslocam objetos, modificando-lhe as repartições e os empregos. São “bricolagens”, de acordo com o modelo reconhecido ao mito por Claude Lévi-Strauss. Inventam colagens casando citações de passados com extratos de presentes para fazer deles séries (processos gestuais, itinerários narrativos) onde os contrários simbolizam. Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade, se entendermos “arquivos” o passado selecionado e reempregado em função de usos presentes. 

Refazem diariamente a paisagem urbana. Esculpem nele mil passados que talvez já sejam inomináveis e que menos ainda estruturam a experiência da cidade. As histórias sem palavras do andar, do vestir-se, de morar ou do cozinhar trabalham os bairros com ausências; traçam aí memórias que não têm mais lugar – infâncias, tradições genealógicas, eventos sem data. Este é também o “trabalho” dos relatos urbanos. Nos cafés, nos escritórios, nos imóveis eles insinuam espaços diferentes. Acrescentam à cidade visível as “cidades invisíveis” de Calvino.  Eles criam outra dimensão, sempre mais fantástica e delinquente, terrível ou legitimadora. Por isso, tornam a cidade “confiável”, atribuindo-lhe uma profundidade ignorada a inventariar e abrindo-a a viagens do olhar. São as chaves da cidade: elas dão acesso ao que ela é, mítica. Habitar é narrativizar. Fomentar ou restaurar esta narratividade é, portanto também uma tarefa de restauração. É preciso despertar as histórias que dormem nas ruas que jazem de vez em quando num simples nome, dobradas neste dedal como as sedas da feiticeira. Jamais talvez uma sociedade se tenha beneficiado de uma mitologia tão rica. Mas a cidade é o teatro de uma guerra dos relatos, como a cidade grega era o campo fechado de guerras contra os deuses. Entre nós, os grandes relatos da televisão ou da publicidade esmagam ou atomizam os pequenos relatos de rua ou de bairro. É urgente que a restauração venha em socorro desses últimos, registrando e difundindo as que se contam no padeiro, no café ou em casa. Mas isto é feito arrancando-as de seus lugares, relatos de palavras nos bairros ou imóveis restituiriam aos relatos os solos onde podem desabrochar.   

    O bairro se define sociologicamente como uma organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos. Representa um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos protelados. 
        Pela relação “saber comportar-se”, o usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana. A contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, segundo a fenomenologia de de Certeau (2000), “um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido”. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta num mesmo território urbano, constituindo um lugar praticado, de elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração a compreender um pouco melhor esta grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.
É o que ocorreu com “O Artista de Rua” Ricardo Corrêa da Silva que morreu na tarde de sexta-feira do dia 15 de dezembro de/2017 em São Paulo aos 60 anos de idade. De acordo com a família, ele estava internado na ala psiquiátrica do Complexo Hospitalar do Mandaqui, na zona norte da cidade de São Paulo, sofreu um ataque cardíaco e foi transferido para o pronto-socorro, mas não resistiu. Ainda não há informações sobre a causa exata da morte. Personagem famoso ena cidade de São Paulo, Ricardo viu sua história de vida ganhar visibilidade após uma reportagem publicada no site Buzzfeed. Popularmente reconhecido como “Fofão da Augusta”, por causa de um preenchimento de silicone que tinha nas bochechas, Ricardo, que sofria de esquizofrenia, trilhou uma bem-sucedida carreira como cabeleireiro e se tornou sócio de um salão de beleza. No entanto, após sofrer golpes e ver sua saúde mental se deteriorar, foi morar na rua e passou a distribuir panfletos de teatro e pedir dinheiro fantasiado de palhaço na região central de São Paulo. - “Ao longo da vida fomos percebendo que o Ricardo realmente tinha uma questão de saúde mental, o que deu a ele uma personalidade exuberante e sucesso em São Paulo, embora tenha vivido essa vida intensa e com tanto sofrimento. Pelo menos nos conformamos com o fato de ele ter descansado”, afirmou seu irmão Marcelo Corrêa da Silva. 

Ricardo Corrêa da Silva sonhava em ver seu nome nos letreiros do teatro. Nos anos 1970, saiu da cidade de Araraquara a 273 km de São Paulo, para trabalhar com artes cênicas. Acabou enveredando pelo “visagismo”, em que se demonstrou um talento nato. Penteou e maquiou artistas como Tônia Carrero na época em que despontou em alguns dos maiores salões da capital. Investia o dinheiro que ganhava em um ideal de beleza: queria ser igual a uma boneca chinesa de porcelana. Para isso, injetou mais de meio litro de silicone nas maçãs do rosto, nas bochechas e na testa. Fez plástica. No fim dos anos 1980, a esquizofrenia e um golpe de que foi vítima tiraram o que havia conquistado. Acabou sem casa. Passou a se apresentar nos semáforos da Rua Augusta. E seu espetáculo ficou em cartaz por décadas. Ficou conhecido como “Fofão da Augusta”, apelido em que não se reconhecia. – “Mas deixa chamarem assim, coisa boba”. Ele morou na última década sozinho numa pensão, na chamada “cracolândia”, no centro, pela qual pagava diária de R$ 30, e trabalhava distribuindo panfletos de peças de teatro na Av. Paulista. Ricardo foi vítima de embolia pulmonar, menos de uma semana depois de completar seu aniversário de 60 anos.
            O bairro surge como o domínio onde a relação de domínio espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo dinamismo do urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano pleno dos usuários da cidade. 
 
         Mas quem é, afinal, o Fofão da Rua Augusta, que depois da publicação do perfil escrito por Chico Felitti tornou-se, para muitos e para muitas, o Ricardo Corrêa? Segundo Figueiredo (2018: 226 e ss.), o perfil só foi possível, então, quando ficou sabendo, por uma conhecida das redes sociais, que Ricardo estava num hospital e decidiu ir visitá-lo. Após a primeira visita e depois de algum tempo de recuperação de Ricardo, quando estava melhor de saúde, conseguindo falar sobre sua vida e com a esquizofrenia mais controlada, o repórter disse que gostaria de contar a sua história e queria que as pessoas soubessem quem ele realmente era. No hospital, como indigente, ele não tinha direito a um nome, conta Felitti, assim como ele não tinha direito a um nome na cidade, as pessoas chamavam ele de Fofão da Augusta, ninguém sabia o nome dele. O perfil, dessa forma, também foi um processo de busca de identidade. O afeto, além de mover a pesquisa do jornalista, também está presente na sua capacidade de emocionar e comover as pessoas; o que só foi possível porque, para escrever o perfil, o repórter acompanhou a vida de seu personagem durante quatro meses – mas, no total, a convivência durou um semestre inteiro. O exaustivo trabalho de apuração, a curiosidade, uma atitude dialógica e de afeto, fez com que o repórter buscasse o Ricardo herdeiro de 35 mil reais e o Ricardo pobre que pedia dinheiro na rua para sobreviver; o homem que estava internado como indigente no Hospital das Clínicas, mas que era reconhecido pelas pessoas na cidade como o Fofão da Augusta; conhecido de todas e de todos que passavam pela região da Avenida Paulista, mas que, na verdade, era um completo desconhecido para elas; o homem que não gostava de aparecer, mas que dizia “eu não sou desconhecido. Eu sou muito popular”. Ricardo Corrêa não é uma dessas coisas ou outra: Felitti faz com que conheçamos um Ricardo que é uma dessas coisas e as outras também, contraditório e complementaridade de opostos.

           O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro que efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. A relação entrada ou saída, dentro ou fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa ou trabalho, representando uma relação entre pessoa e mundo, condicionado por uma dialética da autoconsciência que vai haurir, de forma humana, socialmente íntima.                                        
             A inauguração da luz elétrica, em 1891, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, tornando-se oficial em 1927. Mas até 1942 a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada, por motivos de “higienização”. Do lado oposto, em direção aos “Jardins”, o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome “Augusta” tudo leva a crer, de acordo com reminiscências, que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antonio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou ideológico) ao chamá-la de “Rua Augusta”. Colabora para esta ideia o fato social de que o mesmo Mariano, ao abrir uma picada no Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. As frações da classe dominante econômica e politicamente os empresários do café responsável pelas principais atividades do complexo cafeeiro e compondo as oligarquias, possuíam vínculos comerciais com a Europa, mas também culturais, sobretudo com a França. Paris, a metrópole por excelência do século XIX, era a Meca para todos os povos, tendo sido, por conseguinte, alvo dos paulistas enriquecidos. Era a capital da moda, do luxo, do consumo, dos museus, dos teatros, dos esportes e dos demais tipos de lazer de massa. Nela também aconteciam as grandes exposições internacionais. O francês era a principal língua da ciência e da literatura, sendo falada nas cortes que ainda persistiam na Europa como o fora, havia pouco tempo atrás, na do Reinado do Brasil, com sede no Rio de Janeiro. 

Com o tempo, tornaram-se áreas exclusivas de palacetes, graças a uma legislação específica. Em 1894, Joaquim Eugênio de Lima, um dos promotores da abertura da Avenida Paulista conseguiu efetivar junto à Prefeitura uma lei que obrigava as futuras construções a respeitarem um recuo de 10 metros com relação ao alinhamento das calçadas, bem como de 2 metros lateralmente. Etnograficamente, segundo Homem (1994), quatro anos depois, surgiram os recuos obrigatórios para jardins e arvoredo e um espaço de pelo menos 2 metros de cada lado para as residências a serem edificadas nas avenidas Higienópolis e Itatiaia, atual Avenida Angélica. Os bairros dos Campos Elíseos, da Consolação, da Liberdade e de Santa Cecília permaneceram como áreas mistas. Modificou-se a noção de morar da classe dominante. A casa individualizou-se, passando a expressar o êxito econômico e profissional do proprietário, bem como o seu grau de cosmopolitismo. Ela tornou-se o refúgio das lutas pela vida e local de privacidade, ao mesmo tempo em que devia proporcionar afastamento físico daquelas áreas e certa alienação quanto às tensões e aos conflitos sociais. As camadas mais ricas procuraram viver isoladamente. Em São Paulo, historicamente, as vilas foram as que mais disseram respeito à tradição paulistana de auto-abastecimento, recém-saída do mercado da escravidão. Com o Ecletismo, houve uma racionalização do espaço existente ao redor da casa, no sentido de se definir uma posição para cada um dos complementos da construção principal. Os parques e os jardins,  utilizados para o lazer familiar, ficavam sempre em posição fronteira ou lateral, relegando-se aos fundos, os elementos sociais que diziam respeito aos serviços.   

Numa palavra, camuflou-se o trabalho manual, apartando-o da zona destinada ao uso social. Os jardins do art nouveau transformaram-se em moldura do palacete, compondo ambos um conjunto harmonioso. Figuras sinuosas inspiradas no reino vegetal e mineral, tais como: gotas, folhas e flores envolviam a construção principal que passou a ser o centro da composição. Contudo, as áreas exclusivas de palacetes, complementadas pela arborização das avenidas e demais vias que as recortavam, constituíram importante “mancha verde”, apenas interrompida pela gama vermelha dos telhados, dos belvederes e de torres esporádicas, a ponto de se tornarem a principal característica dos bairros das elites paulistanas. Essa notável massa homogênea assinalou a paisagem da cidade, tendo sido “independente do ecletismo de suas edificações” a ponto de podermos defini-los como “verdadeiros marcos referenciais urbanos” conforme observou o arquiteto Silvio Soares Macedo ao se referir ao bairro de Higienópolis. Incluídos nos roteiros turísticos da cidade, tais marcos atraíam a população de outros bairros que neles vinham passear nos fins de semana. Da mesma forma, chamaram a atenção dos viajantes que estiveram na capital paulista nesse período, os quais não deixaram de mencioná-los em seus apontamentos de viagem.                      
        A “Rua Augusta representou para jovens paulistanos na década de 1960 glamour e diversão. Rua Augusta" é uma canção, composta pelo maestro brasileiro Hervé Cordovil e gravada pelo cantor brasileiro Ronnie Cord, sendo seu maior sucesso, e lançada pela gravadora RCA Victor em 1964. Rua Augusta foi a primeira música de rock brasileiro a ter problemas com a censura. Sua terceira estrofe, - “Comigo não tem mais esse negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a maior fina do guarda...” - foi cortada pela censura, tendo que ser substituída. Sua letra captura o espírito da juventude roqueira do começo dos anos 1960, que tinham suas motos e carros embalados na velocidade das mudanças de costumes trazidos com o rock e o movimento da jovem guarda, na mesma época em que a Rua Augusta, da cidade de São Paulo, era um local progressista do Brasil. A canção também seria regravada pelos Mutantes, no disco “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets” e por Raul Seixas, que deixou uma das versões mais conhecidas do público. A partir da década de 1970, começou a se adaptar às mudanças, dado o tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Na badalada década a Rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio por conta da febril concorrência imobiliária com a abertura de shoppings centers em inúmeros pontos comerciais de São Paulo. 

Os centros comerciais de médio e grande porte funcionam como pequenas cidades, possuindo uma estrutura governamental (a administração) e seus serviços de polícia e bombeiros (segurança), de limpeza (sanitário), de abastecimento de água, de manutenção de infraestruturas etc. Trata-se de um espaço de poder, planejado para estimular a economia urbana e facilitar o consumo. A administração é centralizada, e as lojas são alugadas, para a exploração comercial calculada e a prestação de serviços, sendo sujeitas a normas contratuais padronizadas. Muitas vezes, um supermercado ou grande estabelecimento de varejo funciona como “âncora” do empreendimento. A administração tende a procurar manter o equilíbrio da oferta e uma certa diversificação ou complementaridade entre os diferentes tipos de estabelecimentos e de produtos oferecidos. Os locatários pagam um valor em conformidade com um percentual do faturamento (de 5 a 9%) ou um valor mínimo básico estabelecido em contrato - o que for maior. Os centros comerciais, na maior parte das vezes, cobram por muitos serviços. Nos centros comerciais de maiores dimensões, com vários andares, a circulação se dá, habitualmente, através de escadas rolantes, para facilitar o movimento de pessoas de um andar para outro. O maior shopping center do mundo é o Dubai Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes, que conta com 1 200 lojas, 22 salas de cinema, um estacionamento com 14 000 vagas, além de abrigar o maior aquário do mundo, com 33 000 animais marinhos expostos. O título de melhor centro do é atribuído em Cannes, na França, e pertence ao Europa Passage, na Alemanha.

A atriz Fiorella Mattheis é a protagonista da série “Rua Augusta”, que a O2 realiza para a TNT, abreviação para Turner Network Television,  canal de televisão por assinatura especializado em filmes e séries. O canal original foi criado pelo magnata da mídia Ted Turner em 1988 nos Estados Unidos da américa. A programação do canal é em áudio dublado, já em outros momentos, a atração pode ser exibido legendado em horário nobre. O canal chegou ao Brasil na década de 1990. Exibe sucessos do cinema com falas em português e está presente em praticamente todos os pacotes de TV por assinatura do Brasil. Ela representa sua personagem Mika. A série tem direção-geral de Pedro Morelli que divide a direção dos episódios com Fábio Mendonça. A direção de fotografia é de Rodrigo Carvalho e Dante Belluti e a direção de arte de Fabio Goldfarb. “Rua Augusta” é adaptação da série israelense “Allenby Street”. Durante o dia, a Rua Allenby, localizada em Tel Aviv, Israel, é o espaço de atividades comerciais. Quando a noite chega, a via é agitada pelos bares e casas de show da região. E é lá que Mika (Moran Atias) realiza a vida. Trabalhando como prostituta, a jovem divide seu tempo entre o trabalho e os prazeres da vida noturna, até que ela se envolve em caso amoroso.

A série televisiva “Rua Augusta” foi filmada em diversas locações em São Paulo, especialmente na região da Rua Augusta. Mika (Fiorella Mattheis) é uma stripper que reconstrói sua vida após um passado conturbado e misterioso. Ela passa a trabalhar na agitada Rua Augusta, em São Paulo, onde é dançarina na Boate Love e se diverte na boate Hell. Numa noitada, o destino da jovem se cruza com o do filho de um empresário e muda sua vida para sempre. Isto não impediu como alternativa aos usuários que também houvesse abertos diversos prostíbulos em seu entorno. Mas a rua se modernizou em 1993, com a abertura do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, voltou a ser parte da vida noturna dos jovens. Abriu os espaços: Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, primeiro clube de comédias do Brasil, YO restaurante, entre outros. Seu entorno está movimentado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e o gosto por antigos prostíbulos. Os jovens consumidores prestigiam a rua com carros e suas motos, e muito congestionamento. Havia muitas discotecas para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Sempre sendo atualizado desde a década de 1970, com reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte inútil dos postes de iluminação pública que estavam obsoletos, colocação de carpete, estacionamento pago Zona Azul e subterrâneo e a construção de um bulevar e por fim, a eliminação dos úteis e vistosos ônibus elétricos com as novas calçadas.

Bibliografia geral consultada.

BRUNO, Ernani Silva, História e Tradições da Cidade de São Paulo. 2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1954; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; FREITAS, Maria Luiza de, O Lar Conveniente: Os Engenheiros e Arquitetos e as Inovações Espaciais e Tecnológicas nas Habitações Populares de São Paulo (1916-1931). Dissertação de Mestrado. São Carlos: Instituto de Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2005; PIMENTEL, Lídia Valesca Bonfim, Vidas nas Ruas, Corpos em Percurso no Cotidiano da Cidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2005; JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto, Calçadões: A Revitalização Urbana e a Valorização das Estruturas Comerciais em Áreas Centrais. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006;  VEGA, Alexandre Paulino, Estilos e Marcadores Sociais da Diferença em Contexto Urbano: Uma Análise da Descontração de Diferenças entre Jovens em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; PISSARDO, Felipe Melo, A Rua Apropriada: Estudo sobre as Transformações e Usos Urbanos na Rua Augusta (São Paulo, 1891-2012). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2013; BASTOS, Bruna Freire, Construindo Identidades, Espaços e Sentido: O Consumo Cotidiano na Cidade de São Paulo. Um Olhar sobre a Rua Augusta. Dissertação de Mestrado em Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo. São Paulo: Associação Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2016; ARRUDA, Marina Almeida Ferraz, A Memória no Resgate do Passado - A Rua Augusta em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Cultura e Comunicação. Lisboa: Faculdade de Letras. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; FIGUEIREDO, Carolina Moura Klautau de Araújo, Jornalismo, Incerteza e Complementaridade de Opostos: Um Diálogo Compreensivo. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Libero, 2018; entre outros.