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terça-feira, 30 de setembro de 2025

A Noite Sempre Chega – Despejo, Comunicação & Filosofia do Dinheiro.

                                           Quem acha sem procurar é quem longamente buscou sem encontrar”. Gaston Bachelard                   

           No panorama filosófico do século XX, a obra de Gaston Bachelard tem como representação uma reflexão referencial sobre a ciência e os saberes objetivos em que se revela outra direção fundamental do seu pensamento – a poética. A psicanálise vem em auxílio de uma ideia implícita na obra de Bachelard: o homem é um ser que se percebe na sua relação de habitação e familiaridade inquietante com as coisas do mundo. Essa é a condição do ser que vive num mundo constituído por saberes e verdades que ele próprio inventa. A poesia e a ciência é uma forma de compreender a relação do homem com o seu saber. O nascimento de tal categoria decorre do desdobramento de questões relativas ao tempo incluídas em obras anteriores como: “L´Intuition de l`instant” (1932), e “La Dialéctique de la Durée”, (1936), nas quais a filosofia de Bachelard desenvolve as teses da instantaneidade e da descontinuidade temporais. Neste sentido da durée bergsoniana, Bachelard contrapõe a noção de “descontinuidade temporal”. O tempo e a instantaneidade correspondem, para ele a problemática presente no livro: “L´intuition de l`instant”, é que o tempo é uma realidade fechada sobre o instante e interrompida entre dois nadas. O tempo poderá renascer, mas é necessário primeiro que  morra. Ele não poderá transportar o seu ser de um instante para outro instante para daí fazer uma duração. O autor propõe uma aproximação conceitual – comparativamente na mesma constelação de Roupnel – que os hábitos e o progresso não se dissipam na descontinuidade do tempo; eles ganham força e uma nova dimensão. 

          Em 1930, aos 46 anos, com a obtenção do título de doutor, iniciou sua carreira universitária na Faculdade de Letras, cidade de Dijon, capital da região da Burgúndia no Departamento francês Côte-d`Or, importante centro de comercial, industrial, cultural e universitário da França, permanecendo até novembro de 1940, quando foi nomeado para a Sorbone, onde passa a ministrar cursos muito disputados pelos alunos devido ao espírito livre, original e profundo deste filósofo que foi um professor par excellence. Em 1951, ingressa na legião para a Academia de Ciências Morais e Políticas de Paris, quando posteriormente laureado com o Grande Prêmio Nacional de Letras em 1961,  próximo de sua morte ocorrida em 1962. No auge do prestígio intelectual proferiu a conferência inaugural do 1° colóquio de Les Cahiers Internationaux de Symbolisme, realizado em 1962, em Paris. Em sua memória foi criado o Centre Gaston Bachelard de Recherches sur L`Imaginaire et la Racionalité na Universidade de Borgonha. Em “A Intuição do Instante” o autor desenvolve e amplia a ideia do historiador francês Gaston Roupnel em um de seus mais importantes estudos – chamado Siloë – que propõe o olhar sobre a história numa perspectiva de tempo descontinuada, em instantes. Em Siloë, só o amor faz com que a duração progrida à medida que nos direcionamos à fonte única e misteriosa de seu leito. A partir da demonstração de alguns dos principais conceitos da filosofia bergsoniana – duração, criação, impulso vital – ele desenvolve e alonga a tese de Roupnel refutando que “a duração não passa de um número cuja unidade é o instante”. Segue afirmando que a duração não tem força direta – já que não é em si representativa de um ato – e que o tempo real só existe verdadeiramente pelo instante isolado, esse sim, acontecendo inteiramente no presente, no ato. 

Enfim, após ter lido os “Cantos de Maldoror” de Lautréamont – sua principal obra, escrita originalmente em francês –, o filósofo Gaston Bachelard será um dos primeiros a escrever um livro acerca deste literato em 1939, cuja atualidade da abordagem pode trazer perplexidade para muitos historiadores contemporâneos. Primitividade poética é, para Bachelard, a “agressividade do movimento criativo das imagens poéticas”, isto é, que está em descompasso com as referências intelectuais, com os valores aprendidos pela tradição, em contradição com as interpretações já consolidadas. É no instante da criação poética que é possível apreender-lhe sua primitividade, alheia aos esquemas interpretativos que a tradição intelectualista lhe impõe. É, portanto, a partir de uma filosofia do ato poético – e não da ação poética – que está a riqueza da análise bachelardiana da obra de Lautréamont. Quando põe em contraposição os pensamentos de Henri Bergson e de Gaston Roupnel acerca da natureza do tempo, faz uma constatação: enquanto Bergson admite ser a duração contínua seu princípio, Roupnel afirma ser o instante sua realidade. Bachelard aprofunda esta antinomia, comparando ato e ação citando o livro “Siloë” (1927), de Roupnel, para responder esta questão. Acredita-se que o pseudônimo Lautréamont tenha sido inspirado no nome de um romance de Eugène Sue, “Latréaumont”. Note-se que há uma leve diferença na grafia da palavra. A atribuição do título de Conde poderá ser uma referência ao Marquês de Sade (1740-1814) ou uma forma de destacar-se da nascente burguesia urbana, ainda que não existam quaisquer provas destas duas teses.

                                        


Mais robustas são as hipóteses apresentadas pelo romancista, dramaturgo e poeta pernambucano Ruy Câmara, no seu belíssimo livro: “Cantos de Outono - O Romance da vida de Lautréamont”. Segundo Ruy Câmara, o codinome sugere a junção de duas palavras de grande relevância na vida de Isidore Ducasse. A primeira palavra seria “lauréat”, que significa laureado ou premiado em concurso acadêmico, deslocando-se o “t” final para o meio teremos “lautréa”, que acrescida de “mont”, raiz da palavra “Montevidéu”, cidade natal do poeta, tem como resultado “Lautréamont”, denotando “o laureado de Montevidéu”. A terceira possibilidade, mais rigorosa que as duas anteriores, trabalha com a associação da palavra “l`autre”, “o outro”, mais a preposição “a” que indica lugar, a raiz “mont”, de Montevidéu, dando Lautréamont, cujo sentido único, exato e incontestável na semiologia representa “o outro de Montevidéu”, já que o primeiro é ele próprio. O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão.

Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. Tais são, de fato, as classificações mais profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso ou da imaginação de modo geral literária. No prolongamento dos esquemas explicativos, arquétipos e simples símbolos modernos podem-se considerar o mito. Lembramos, todavia, que não estamos tomando este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritual. Entendemos por mito, “um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a compor-se na narrativa”. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a ideia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem observou Bréhier, a narrativa histórica e lendária. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo na constelação e no mito. Este isomorfismo dos esquemas, arquétipos e símbolos no seio dos sistemas míticos ou de constelações estáticas pode levar-nos a verificar a existência de protocolos normativos das representações imaginárias, bem definidos e relativamente estáveis, agrupados em torno dos esquemas originais e que per se a literatura se refere como estruturas. 

Uma parte de sua obra, incluindo seus livros mais representativos sobre a tópica da intuição trabalhada como: A Poética do Espaço, A Poética do Devaneio, A Água e os Sonhos e O Ar e os Sonhos, é permeada por categorias e conceitos que fogem ao lugar comum de análise e, sobretudo, do debate contemporâneo da ciência institucionalizada: sonho, devaneio, poética, alquimia, tempo, imaginação. A riqueza de Bachelard consiste fundamentalmente do ponto de vista do processo de criação em trazer para sua produção intelectual um duplo projeto: o aspecto diurno da sua obra – onde se inscrevem os conceitos mais ligados à formação da epistemologia – e o aspecto noturno – onde aparece a complementaridade dos sinais da poesia e do sonho – e posteriormente do devaneio e da ciência. Ao aproximar os dois aspectos, a sua concepção de história e filosofia demonstra que a cisão entre razão e imaginação fica bem clara se utilizarmos a via racional; se usarmos a via onírica, a razão e a imaginação se articulam, se interpenetram e se tornam complementares. A atividade dialética surge esboçada e a partir da análise da noção de “corpúsculo”. Tendo como certo que o filósofo deve tentar compreender a novidade da linguagem e ao mesmo tempo aprender a formar noções e conceitos completamente novos para resistir aos conhecimentos comuns e à memória cultural, Bachelard, tentando precisar a noção de “corpúsculo”, rememora uma sequência de teses: o corpúsculo não é um pequeno corpo. Não é fragmento de substância. O corpúsculo não tem dimensões absolutas definidas. Só existe nos limites do espaço em que atua.

 Correlativamente, se o corpúsculo não tem dimensões definidas, não tem, portanto, forma reconhecida. O elemento não tem geometria. E, ipso facto, não se lhe pode atribuir um lugar muito preciso em virtude do princípio da indeterminação na Física de Heisenberg, a sua localização é submetida a tais restrições que a função de existência situada não tem mais valor absoluto. Em várias circunstâncias, a microfísica põe como um verdadeiro princípio a perda da individualidade do corpúsculo. Enfim, uma última tese que contradiz o axioma fundamental do atomismo filosófico. Complementarmente com as suas reflexões acerca da imaginação criadora e da poética, Bachelard infere que os corpúsculos, não sendo dados dos sentidos, “nem de perto nem de longe”, também não são dados escondidos. No entanto, apenas é possível conhecê-los, descobrindo-os, ou melhor, inventando-os, porque eles são a prova de que algo está no limite da invenção e da descoberta. Admirável é, então, a referência que Bachelard faz à noção de intuição trabalhada. Em Études, no ensaio “Idealismo discursivo” ele sublinha que tem alguma confiança na intuição para descrever positivamente o seu ser íntimo. Diz mesmo que o fato de exercermos uma preparação discursiva dá à intuição uma nova Jeunesse. De maneira que aconselha a fecharmos os olhos como uma forma de nos prepararmos para termos uma visão do ser. A intuição será a via refletida de renunciar aos acidentes na história e significa um recurso metafísico de compreensão “de si”. Interessa, então, entendermos, comparativamente, a distinção entre a intuição trabalhada e não a intuição imediata, a intuição que permite uma espécie de “repouso”, mesmo sabendo que na ciência, esse “repouso” na intuição pode ser “quebrado” pela dialética da necessidade de rigor metafísico e pela necessidade de encadear mais forte as teorias sociais.

Em A Noite Sempre Chega, uma mulher enfrenta o risco iminente de despejo em meio à crescente especulação imobiliária de sua cidade. Com apenas uma noite para agir, ela precisa reunir 25 mil dólares a qualquer custo para salvar sua casa e garantir o sustento da família. A Noite Sempre Vem é um filme de suspense policial estadunidense de 2025, dirigido por Benjamin Caron a partir de um roteiro de Sarah Conradt, adaptando o romance de 2021, A Noite Sempre Vem, de Willy Vlautin. É estrelado por Vanessa Kirby, Jennifer Jason Leigh, Zack Gottsagen, Stephen James, Randall Park, Julia Fox, Michael Kelly e Eli Roth. Night Always Comes foi lançado na Netflix em 15 de agosto de 2025. Lynette, uma mulher com múltiplos empregos, incluindo acompanhante, tenta manter a casa onde passou a infância em Portland para si, sua mãe, Doreen, e seu irmão mais velho, Kenny, que tem síndrome de Down. No dia em que Lynette e Doreen devem assinar o contrato para garantir a casa no banco, Doreen não aparece. Ao chegar em casa, Lynette descobre que Doreen gastou os US$ 25.000 destinados à entrada em um carro novo. Atormentada e desesperada, Lynette contata seu ex-cliente Scott, faltando ao trabalho no bar para encontrá-lo. Ele se recusa a lhe emprestar o dinheiro, mas ela dorme com ele mesmo assim. Depois, Scott dobra seus US$ 500 habituais como despedida definitiva.

Seu cliente acidentalmente deixa as chaves do carro para trás, então Lynette impulsivamente pega sua Mercedes. Ele liga e deixa mensagens de voz cada vez mais irritadas. Ela estaciona o carro dele debaixo de uma ponte em pânico, deixando-o lá com uma porta aberta e, em seguida, volta para o carro. Lynette então pede, sem sucesso, à sua amiga Gloria, acompanhante e amante do senador, os US$ 3.000 que lhe devem. Gloria, relutante, dá a Lynette US$ 500 de um cofre. Ao encontrar Cody, um ex-presidiário e colega de trabalho do bar, Lynette o convence a dar uma olhada no cofre e pegar US$ 400. Insistindo que o cofre deve ser aberto fora do local, Cody pede o dobro. Depois de atravessar a cidade, o contato de Cody usa uma marreta para destruí-lo. Dentro, há dinheiro, relógios Rolex e pacotes de cocaína. Ele ameaça Lynette, que acaba confessando que o cofre pertence à amiga. Como o contato se recusa a deixá-la sair, ela o fere gravemente com uma de suas ferramentas. Cody e Lynette fogem para uma lanchonete e contam o dinheiro, que acaba ficando US$ 6.000 a menos do que ela precisa. Ela decide vender a Mercedes de Scott e buscar Kenny no caminho. Ao localizar o carro, Cody se vira para Lynette, pegando a bolsa com tudo e as chaves da Mercedes.

Perdendo o controle, ela impulsivamente o atropela com o carro, pegando a bolsa, mas deixando as chaves para ele. Kenny fica chateado, mas Lynette o convence a mudar de ideia depois de lhe trazer panquecas e falar sobre como eles precisam se manter unidos como família. Lynette acorda seu ex, Tommy, no meio da noite para tentar vender o que puder do saco para ele. Ele diz a Lynette que não tem dinheiro para pagá-la naquela noite, mas tem um contato que poderia comprar a cocaína por US$ 3.000. Lynette o confronta sobre tê-la forçado a se prostituir aos 16 anos, e Tommy diz a ela para nunca mais entrar em contato com ele. O comprador, Blake, mora no subúrbio e está dando uma festa até altas horas da noite. Quando ele tenta forçar Lynette a fazer sexo por parte do dinheiro, ela lhe dá um tapa na cabeça e procura Kenny freneticamente por todos os lados. Ela o encontra, mas todos tentam segurá-la quando Blake, ferido, a acusa de roubá-lo. Lynette cai através de uma mesa de vidro e é jogada para fora. Lynette e Kenny chegam em casa antes do nascer do Sol. Quando Doreen a confronta, ela explica que passou a noite toda repondo os US$ 25.000 que sua mãe havia gasto no dia anterior. Enquanto tira o vidro das costas da filha, Doreen não quer a casa, preferindo vê-la queimar. Lynette a confronta, chateada por ela ter trabalhado tanto por uma casa que sua mãe não quis manter. Doreen, por sua vez, lista os erros de Lynette, incluindo seu relacionamento anterior com Tommy aos 16 anos. Lynette, em lágrimas, pergunta por que ela não a protegeu contra o abuso dele, quando ela mais precisava dela. 

Doreen informa friamente que está se mudando com Kenny para a casa de Mona. David liga para Lynette para contar que foi com outro comprador que ofereceu mais pela casa, pois havia dado chances demais à família dela. Ela se deita na cama com Kenny, dizendo que precisa se ausentar por um tempo, mas que o visitará mais tarde. Eles declaram seu amor um pelo outro, e ela vai. Lynette deixa algum dinheiro e um bilhete para Doreen, dizendo que lutou muito pela família, pedindo que ela cuide de Kenny e que ela continuará lutando. Antropologicamente a humanidade sempre atravessa estágios em que: a) opressão da individualidade é o ponto de passagem obrigatório de seu livre desabrochar superior, em que a pura exterioridade das condições de vida se torna a escola da interioridade, b) em que a violência da modelagem produz uma acumulação de energia, destinada, em seguida, a gerar toda a especificidade pessoal. Do alto desse ideal é que, c) a individualidade plenamente desenvolvida, tais períodos parecerão, é claro, grosseiros e indignos. Mas, para dizer a verdade, além de semear os germes positivos do progresso vindouro, já é em si uma manifestação do espírito exercendo uma dominação organizadora sobre a matéria-prima das impressões flutuantes, uma aplicação das personalidades especificamente humanas, procurando-as fixar suas normas de vida - do modo mais brutal, exterior ou, mesmo, estúpido que seja -, em vez de recebê-las das simples forças da natureza.  A horda, uma estrutura social e militar histórica encontrada na estepe eurasiática “não protege mais a moça e rompe suas relações com ela, porque nenhuma contrapartida foi obtida por sua pessoa”.

Para Simmel diante do “conflito” (“Kampf”) os indivíduos vivem em relações sociais de cooperação, mas também de oposição, portanto, os conflitos são parte mesma da constituição da sociedade. É neste sentido que formam momentos de crise, um intervalo entre dois momentos de harmonia, vistos numa função positiva de superação das divergências. Fundamenta uma episteme em torno da ideia de movimento, da relação, da pluralidade, da inexorabilidade do conhecimento, de seu caráter construtivista, cuja dimensão central realça o fugidio, o fragmento e o imprevisto. Por isso, seu panteísmo estético, ancorado sob forma paradoxais de interpretação real, como episteme, no qual se entende que cada ponto, cada fragmento superficial e, portanto, fugaz é passível de significado estético absoluto, de compreender o sentido total, os traços significativos, do fragmento à totalidade. O significado sociológico do “conflito”, em princípio, nunca foi contestado. Conflito é admitido por causar ou modificar grupos de interesse, unificações, organizações. Por outro lado, pode parecer paradoxal na visão do senso comum se alguém pergunta se independentemente de quaisquer fenômenos que resultam de condenar ou que a acompanha, o conflito é uma forma de “sociação”. 

À primeira vista, isso soa como uma pergunta retórica. Se todas as interações entre os homens é uma sociação, o conflito, - afinal uma das interações mais vivas, que, além disso, não pode ser exercida por um indivíduo sozinho, - deve certamente ser considerado como “sociação”. E, de fato, os fatores de dissociação, tais como ódio, inveja, necessidade, desejo, são as causas da condenação, que irrompe em função deles. Conflito é, portanto, destinado a resolver dualismos divergentes, é a maneira de conseguir algum tipo de unidade, que seja através da aniquilação de uma das partes em litígio. A imagem está associada a conhecimentos pretéritos adquiridos e concernentes ao objeto que ela de fato representa. Ela não apreende nada além daquilo que nós podemos extrair da realidade durante o trabalho de percepção. A imagem não se relaciona com o mundo em si, filosoficamente falando, ela só depende do processo de como podemos descobrir algo sobre ela. Portanto, se existe uma possibilidade de se observar o objeto através da imaginação, mesmo assim essa possibilidade ainda não nos permite apreender nada de novo em relação ao objeto. A imagem, ato da consciência imaginante, é um elemento, identificado como o primeiro e incomunicável, como produto de uma atividade consciente atravessada de um extremo ao outro por uma corrente de “vontade criadora”. Trata-se, de dar-lhe à sua própria consciência um conteúdo de sentido imaginante, próximo da analogia weberiana da interpretação da ciência que recria para si os objetos afetivos espontaneamente ao seu redor: ela é criativa.  

Daí a importância de se compreender no campo da imagem, de sua produção, recepção, influência, de sua relação com o sonho, o devaneio, a criação e a ficção, a substituição das mediações pelos meios de comunicação, posto que contenha em si uma possibilidade de violência, a partir da constituição do novo regime de ficção que hoje afeta, contamina e penetra a vida social. Ipso facto temos a sensação de sermos colonizados, mas sem saber precisamente por quem. Não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela. O etnólogo Marc Augé reitera que as “etnociências” se atribuem sempre dois objetivos, proposto por ele ao final em seu opúsculo “La Guerre des Rêves” (1997). Usado como prefixo, “etno” relativiza o termo que o segue e o faz depender da “etnia” ou da “cultura” que supõe ter práticas análogas às que chamamos “ciências”: medicina, botânica, zoologia etc. Desse ponto de vista, a etnociência tenta reconstituir o que serve de ciência aos outros, suas práticas sanitárias e do corpo, seus conhecimentos botânicos, mas também suas modalidades de classificação, de relacionamento etc. É claro que, a partir do momento em que se generaliza a etnociência muda de ponto de vista. Ela tenta emitir uma apreciação sobre os modelos locais, indígenas, e compará-los a outros e propor uma análise dos procedimentos cognitivos em ação num certo número de experiências. Ela leva então às vezes o nome de antropologia: fala-se assim em antropologia médica ou em uma antropologia  cognitiva. 

Em verdade, quando Augé recoloca a questão: “que é nosso imaginário, hoje?”, por outro lado, ele se indaga se nestes dias não estamos assistindo a uma generalização do fenômeno de fascínio da consciência que nos pareceu característico da situação colonial e de seus diferentes avatares? Trata-se de “exercícios de etnoficção”, em analisar o estatuto da ficção ou as condições etnológicas de seu surgimento numa sociedade, e ipso facto num momento histórico particular, em analisar os diferentes gêneros que se irradiam sob formas ficcionais, sua relação com o imaginário individual e coletivo, as representações da morte etc., em diferentes sociedades ou conjunturas. Temos o que fica reservado como lugar de representação do conhecimento, posto que bem entendido o nível ao qual se aplica a pesquisa antropológica, ela tem por objeto interpretar a interpretação que os outros fazem da categoria do outro, nos diferentes níveis que situam o lugar dele e impõem sua necessidade. Melhor dizendo, tendo como representação social etnia, tribo, aldeia, linhagem ou outro modo de agrupamento até o átomo elementar de parentesco, do qual se sabe que submete a identidade da filiação à necessidade da aliança, o individualismo, enfim; que todos os sistemas rituais definem como compósito e pleno de alteridade, figura literalmente impensável, como o são, em modalidades opostas, a do rei e a do feiticeiro. O fato social é que deste ângulo há um princípio abrangente e primordial, porque norteador, analiticamente, pois “toda antropologia é antropologia da antropologia dos outros, além disso, que neste âmbito, o lugar antropológico, é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem o observa”.

Essa inteligibilidade, ao que nos parece antever, fornece e propõe no âmbito de apropriação dos saberes que as condições de uma antropologia da contemporaneidade devem ser deslocadas do método para o objeto. E além disso, que se deve estar atento às mudanças que afetaram as grandes categorias por meio das quais os homens pensam sua identidade e suas relações recíprocas em termos espaciais. Assim, se um lugar de análise pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um na etnologia da solidão de Marc Augé, o que ele denominou analiticamente de “não-lugar”. A hipótese adjudicada na teoria, e, portanto, no pensamento, é o que o autor chama de surmodernité conquanto produtora de não-lugares, de espaços que não são em si lugares (tradicionais) antropológicos. Isto é importante. Estas características comuns podem ser aplicadas a dispositivos institucionais diferentes e que constituem, de certo modo, as formas elementares de compreensão do espaço social. Trata-se de aspectos gerais e que se identificam enquanto itinerários ou eixos ou caminhos que, do ponto de vista etnológico conduzem de um lugar a outro. Mas em cruzamentos e praças, que satisfazem por assim dizer esferas de ação social, que nos mercados definem necessidades do intercâmbio econômico e, nesta progressão, centros mais ou menos monumentais. Sejam eles religiosos ou políticos construídos por certos homens e mulheres e que definem como outros, em relação a outros centros e espaços sociais.      

Por outro lado, no estudo da relação entre genealogia e poder, observava Michel Foucault que a primeira característica do que ocorria de forma nebulosa dizia respeito ao caráter local da crítica, uma espécie de produção teórica autônoma, não centralizada, isto é, que não tem necessidade, para estabelecer sua validade, da concordância de um sistema comum. Esta crítica local se efetuou através do que se poderia chamar de “retorno do saber”. Em um caso como no outro, no saber da erudição como naquele desqualificado, nestas duas formas de saber sepultado ou dominado, se tratava na realidade de saber histórico da luta. Nos domínios especializados da erudição como nos saberes desqualificados das pessoas jazia a memória dos combates, exatamente aquela que até então havia sido subordinada. Delineou-se o que se poderia chamar uma genealogia, ou, pesquisas genealógicas múltiplas: a redescoberta exata das lutas e memória bruta dos combates. E esta genealogia, como acoplamento do saber acadêmico e do saber das pessoas, só será possível se for eliminada a tirania dos colegiados (cf. Mitzman, 1976), com suas hierarquias e os privilégios de sua posição que permeia o discurso religioso/científico em saberes regionais.  Trata-se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia depurá-los, hierarquiza-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos da concepção de ciência detida por alguns.

Trata-se da insurreição dos saberes não tanto contra os conteúdos, os métodos e os conceitos de uma ciência, mas de uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os efeitos de poder centralizadores que estão ligados à instituição e ao funcionamento de um discurso científico organizado no interior da sociedade. Não se trata de estudos de caso, mas com a pesquisa efetiva, torna-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico, unitário, formal e científico. Poderíamos lançar o desafio: - “Tentem colonizar-nos”. A burocracia engendrou o intelectual específico nas universidades públicas, através das atividades regulares necessárias aos objetivos da estrutura governada burocraticamente, que por sua vez são distribuídas de forma fixa como deveres oficiais que contém uma orientação, mas podem mudar de forma e sentido. A autoridade de dar ordens necessárias à execução desses deveres oficiais se distribui de forma estável, sendo rigorosamente delimitada pelas normas relacionadas com os meios de trabalho e de coerção, físicos, sacerdotais ou outros, que possam ser colocados à disposição dos funcionários ou autoridades. O princípio da autoridade hierárquica de cargo encontra-se em todas as organizações burocráticas. Não importa, para o caráter da burocracia, que sua autoridade seja compreendida como privada ou pública. É o que tenta demonstrar, de forma hilária, o escritor Luís Fernando Veríssimo em uma série de ensaios temáticos. Quando o cargo está desenvolvido, a atividade oficial exige a plena capacidade de trabalho, a despeito do fato de ser rigoroso, delimitado o tempo de permanência na repartição, que lhe é exigido. O desempenho do cargo segue regras gerais, mais ou menos estáveis, mais ou menos exaustivas, e que podem ser apreendidas.

O conhecimento dessas regras representa um aprendizado técnico especial, a que se submetem esses funcionários. Envolve jurisprudência, ou administração pública e privada. A redução do cargo a regras está profundamente arraigada à sua própria natureza. A teoria da moderna administração pública, sustenta que a autoridade para ordenar certos assuntos através decretos não dá à repartição o direito de regular o assunto através de normas expelidas em cada caso, mas na prática, converte-se em relações através dos privilégios individuais e concessão de favores, que domina de forma absoluta as relações entre indivíduos no âmbito do patrimonialismo.  A ocupação de um cargo é considerada uma profissionalização, com a exigência de um treinamento rígido, que demanda toda a capacidade de trabalho durante um longo período de tempo e nos exames especiais que, em geral, são pré-requisitos para o emprego. A posição de um funcionário tem a natureza de um dever, sendo a lealdade dedicada a finalidades impessoais e funcionais. Sua posição social é assegurada pelas normas que se referem à hierarquia ocupada. A posse de diplomas educacionais está habitualmente ligada à qualificação técnica para o cargo. O tipo puro sociológico de funcionário burocrático é nomeado por uma autoridade superior. Mas uma autoridade eleita pelos governados não é como tal, uma figura exclusivamente burocrática. A nomeação independe dos estatutos legais, mas da forma pela qual funciona o sistema. Em todas as circunstâncias, a designação de funcionários por meio de uma eleição entre os governados modifica o rigor da subordinação hierárquica.

O funcionário se prepara para uma carreira por concurso público, o que não impede que ocorra por determinado tempo a vigilância hierárquica para o cargo no serviço público. Foi esse tipo específico de poder que Michel Foucault chamou de “disciplina” ou “poder disciplinar”. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestra-lo. O que lhe interessa não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controla-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. É um objetivo ao mesmo tempo econômico e político: principalmente a partir de seu aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos sociais de contrapoder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir expressivamente a sua força política. Situemos as suas características básicas. Em primeiro lugar, a disciplina é um tipo de organização do espaço. É uma técnica metodológica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório.  

Isola em um espaço fechado, portanto, esquadrinhado, hierarquizado, capaz de desempenhar funções diferentes segundo o objetivo específico que deles se exige. Mas, como relações de poder disciplinar não necessitam de espaço fechado para se realizar, é essa sua característica menos importante. Em segundo lugar, e mais fundamentalmente, a disciplina é um controle do tempo. Isto é, ela estabelece uma sujeição do corpo ao tempo, com o objetivo de produzir o máximo de rapidez e o máximo de eficácia. Em terceiro lugar, a vigilância é um dos seus principais instrumentos de controle. Não uma vigilância que reconhecidamente se exerce de modo fragmentar e descontínuo; mas que é ou precisa ser vista pelos indivíduos que a ela estão expostos como forma contínua, perpétua, permanente; que não tenha limites, penetre nos lugares mais recônditos, esteja presente em toda extensão do espaço. Olhar invisível que permite impregnar quem é vigiado de tal modo que este adquira de si mesmo a visão panóptica de quem o olha. A disciplina, de fato, implica um registro contínuo de conhecimento. O olhar que observa para controlar não é o mesmo que transfere as informações para os pontos mais altos da hierarquia do poder? Seu objetivo econômico e político é tornar o homem útil e dócil.

Basta lembrarmos a importância estratégica que as relações de poder disciplinar desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX, vem justamente do fato delas não serem negativas. Mas positivas, quando tiramos desses termos qualquer juízo de valor moral ou político e pensarmos unicamente na tecnologia empregada. É então, que, segundo Foucault, surge uma das teses fundamentais da genealogia: “o poder é produtor de individualidade”. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. Atuando sobre uma massa confusa, desordenada e desordeira, o esquadrinhamento disciplinar faz nascer uma multiplicidade ordenada no seio da qual o indivíduo emerge como alvo do poder. Michel Foucault entende que nascimento da prisão em fins do século XVIII, não representou a massificação com relação ao modo como anteriormente se era encarcerado. O nascimento do hospício não destruiu a especificidade da loucura. É o hospício, ao contrário, que produz o louco como doente mental. Um personagem individualizado a partir da instauração de relações disciplinares. E antes da constituição das ciências humanas, no século XIX, a organização das paróquias, a institucionalização do exame de consciência e da direção espiritual e a reorganização do sacramento da confissão, que aparecem como importantes dispositivos de individualização. Em suma, o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importes efeitos.                  

O objetivo é neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações reais ou imaginárias de suas condições particulares de existência instalando-se na neutralidade objetiva do universal e da ideologia um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições reais de existência. Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios do saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria a sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise teórica é que saber e poder se implicam mutuamente; não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. 

Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e intelectual específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder.  Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. 

Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade analítica de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. É preciso repensar os problemas políticos dos intelectuais não mais em termos exclusivos da relação entre ciência e ideologia, mas sem abandoná-la, tendo em vista que a universidade pública é um domínio de casta, a forma natural pela qual costumam socializarem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com os membros de comunidades exteriores e o relacionamento social. Essa situação de casta é parte do fenômeno de povos párias e se encontra em todo o mundo, a análise pode ser religada na medida em que a questão da profissionalização, da divisão entre trabalho manual e intelectual, na esfera pública pode ser retomada. A verdade está circularmente ligada a sistemas de poder que a produzem e apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e a reproduzem. Ipso facto, o problema político essencial para o intelectual não é apenas criticar os conteúdos ideológicos que privilegiam grupos no sistema educacional que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por métodos de inclusão democráticos. O que está em jogo num sistema de castas, que tomou o poder na universidade pública nos últimos 20 anos, é se podemos constituir uma nova arena política da verdade. Mas não se trata de libertar a verdade do sistema de poder, mas de desvincular o poder da verdade das formas com as quais ele legitima suas formas de saber. A genealogia analogamente exige a minúcia do saber, evidenciando um grande número de materiais acumulados. 

Na universidade estes materiais se esgueiram como sombras. Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca do que lhe é originário, mas ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos projetos interrompidos pelos predecessores, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro, num trabalho de escavação incessante no campus, nos arquivos, sem deixar-lhes o tempo emascular o labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob a guarda. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas que dão conta dos atavismos e hereditariedades, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos, suas grandes agitações febris como suas síncopes, é o próprio corpo do devir. É preciso ter um espírito metafísico para encontrar na alma a idealidade distinta. A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Façamos a análise genealógica dos reitores universitários em sua atenção “desinteressada”, em sua ligação à objetividade. Longe de ser uma categoria de semelhança, tal origem permite ordenar, para coloca-las a parte, todas as marcas diferentes. O genealogista parte em busca do começo, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissocia o Eu e fazer pulular lugares e recantos de sua síntese vazia, entre acontecimentos aparentemente perdidos. A proveniência permite também reencontrar sob o aspecto único de um caráter ou de um conceito a proliferação através dos quais eles se formaram. 

Metodologicamente a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando-o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios, os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz do que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente do que ficou do passado para compreendermos o presente. Na vã política em geral e particularmente na gestão acadêmica o passado nos condena.  A cena pública da verdade é sempre a mesma em que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença de valores; classes dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade, homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma relação, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. Universo de regras que não é destinado a adoçar, mas ao contrário a satisfazer a violência.  A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. A humanidade em geral não progride lenta de combate em combate, ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim num processo ad infinitum de dominação em dominação. 

A sociologia francesa do trabalho como disciplina científica teve como objeto central o operário do sexo masculino da empresa industrial, como figura arquetípica considerada universal. Com o crescimento do mercado feminino e o desenvolvimento do terciário, setor majoritariamente feminino. As pesquisas sobre divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo, relações sociais de gênero demonstraram que uma análise de gênero muda quase que radicalmente as condições de produção dos conhecimentos sobre o trabalho. Os trabalhos masculino e feminino são comparáveis se partimos do conceito marxista de trabalho, enquanto trabalho formal e informal, profissional e doméstico, remunerado e não-remunerado. A introdução do conceito de gênero nas análises da sociologia clássica do trabalho, como o emprego, o desemprego, a qualificação, os movimentos sociais, os modelos produtivos ou a “especialização flexível”, desloca a ordem tradicional masculina e produz novos conhecimentos. Qualificação do trabalho não tem a mesma significação conjugada no masculino ou no feminino. O desemprego tem implicações contrastadas para homens e mulheres. Os processos de “requalificação” atingem os homens e muito pouco as mulheres na produção. O trabalho não representa apenas a produção de objetos-mercadoria, a força de trabalho não é mais apenas sujeita à inércia das coisas, o trabalho não é mais apenas o instrumento da sociedade procurando organizar a sobrevivência. Trabalho, força de trabalho, capacidade de trabalho e trabalhador tendem a unificar-se em pessoas que se produzem reproduzindo o mundo. E essa produção ocorre igualmente nos locais de trabalho, escolas, bares, estádios, viagens, teatros, concertos, jornais, livros, exposições, comunas, bairros, grupos de discussão e de luta, em suma em todos os lugares onde os indivíduos relacionam-se uns com os outros e produzem o universo das relações humanas. 

Cada vez mais, essa produção tende a fazer parte integrante não somente da produção do homem, mas da reprodução necessariamente ampliada da própria força de trabalho. O desenvolvimento internacional e intercontinental das trocas; a divisão do trabalho em escala de espaços econômicos cada vez mais vastos; a tendência às especializações regionais e nacionais; a rapidez das comunicações massivas, põem cada atividade produtiva, através do jogo das mediações, cada vez mais numerosas com o universo inteiro e tendem à sua unificação prática.  Não queremos perder de vista que a disciplina é, antes de tudo, a análise do espaço. É a individualização pelo espaço, a inserção dos corpos em um espaço individual classificatório e combinatório. A disciplina exerce seu controle, não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. No século XVII, nas oficinas de tipo corporativo, o que se exigia do companheiro ou do mestre era que fabricasse um produto com determinadas qualidades. A maneira de fabricá-lo dependia da transmissão em geração. Se ensinava o soldado a lutar, a ser mais forte do que o adversário na luta individual da batalha. A partir do século XVIII, se desenvolve uma arte do corpo humano. Observa-se de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. Nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do contramestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser mais rapidamente realizado e com gestos melhor adaptados. O famoso Regulamento da Infantaria Prussiana, que assegurou as vitórias de Frederico da Prússia, consiste em mecanismos de gestão disciplinar dos corpos.  

A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que o que fizeram é conforme à regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua “pirâmide de olhares”. Mas a disciplina implica um registro contínuo. Anotação do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar escape a esse saber. No sistema clássico o exercício do poder era confuso, global e descontínuo, do soberano sobre grupos constituídos por famílias, cidades, paróquias, isto é, por unidades globais, e não um poder contínuo atuando sobre o indivíduo. A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo.  Através do exame, a individualidade torna-se um elemento de uso pertinente para o exercício do poder. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um presunçoso método geral. Não se trata de fazer aqui a história das diversas instituições disciplinares no que podem ter cada uma de singular: 1) ambas, neste caso, são instituições públicas gerenciadas por uma casta no poder; 2) Existe uma série de exemplos de algumas das técnicas essenciais empregadas que, de uma à outra, se generalizaram mais facilmente. 

Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, são dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza (assédio moral), são eles, entretanto que levaram à mutação do regime punitivo contemporâneo; 3) Descrevê-los metodicamente, nominalmente, implicará a demora sobre o detalhe da corrupção do pensamento e a atenção às minúcias: sob as mínimas figuras, procurar não um sentido, mas uma precaução; recoloca-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática; 4) Astúcias, não tanto de grande razão que trabalha até durante o sono, no sentido freudiano, e dá coerência ao insignificante quando da atenta malevolência que de tudo alimenta. A disciplina é uma anatomia política do detalhe. O que nos interessa é a racionalização utilitária do detalhe na contabilidade moral e no controle político. A regra das localizações funcionais no tempo e no espaço,  vai pouco a pouco codificar um espaço que a arquitetura, lembra Foucault, deixava geralmente livre e pronto para vários usos. Lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil. Temos assim, um dispositivo que asfixia e quadricula; tem que realizar uma apropriação sobre toda essa mobilidade e esse formigar humano, decompondo a confusão da ilegalidade e do mal. 

Essa gente, através do impedimento de elementos intercambiáveis, conquistados a duras penas, quer através da vigilância e punição, da prevaricação e do ressentimento acadêmico, quer individualizar corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa série de relações. O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e a sua combinação num procedimento que lhe é específico. A vigilância se torna um operador decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem especial do poder disciplinar.  A arte de punir, no regime de poder disciplinar, não visa nem a expiação, nem mesmo exatamente a repressão. Põe em funcionamento cinco operações bem distintas: relacionar os atos, os desempenhos, os comportamentos singulares a um conjunto de práticas e saberes sociais, que é ao mesmo tempo campos de comparação, espaço de diferenciação e princípio de uma regra a seguir. Diferenciar os indivíduos em relação uns aos outros e em função dessa regra de conjunto – que se deve fazer funcionar como base mínima, como média a respeitar ou como o ótimo de que se deve chegar perto. Medir em termos quantitativos e hierarquizar em termos de valor as capacidades, o nível, a natureza humana dos indivíduos em sociedade. Fazer funcionar, através dessa medida valorizadora negativamente, a coação de uma conformidade a realizar. E por último, traçar o limite que definirá a diferença em relação a todas as diferenças, a fronteira externa do “anormal”. A penalidade que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, homogeneíza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza. 

Bibliografia Geral Consultada.

CAMEROTTO, Alberto, Le Metamorfosi della Parola. Pisa/Roma: Intituti Editoriali e Poligrafici Internazionale, 1998; SIMMEL, Georg, “O Papel do Dinheiro nas Relações entre os Sexos - Fragmento de uma Filosofia do Dinheiro”. In: Filosofia do Amor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; pp. 41-65; Idem, La Tragédie de la Culture. Paris: Petite Bibliothèque Rivages, 1988; Idem, El Individuo y la Libertad: Ensayos de Crítica de la Cultura. Barcelona: Ediciones Península, 2001; TAVARES, Ana Maria, Armadilhas para os Sentidos: Uma Experiência no Espaço-Tempo da Arte. Tese de Doutorado em Artes. Departamento de Artes Plásticas. Escola de Comunicações e Artes. Universidade de São Paulo, 2000; BOTTON, Alain de, Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho. São Paulo: Editora Rocco, 2009; AUGÉ, Marc, Non-Lieux. Introduction à une Anthropologie de la Surmodernité. Paris: Éditions du Seuil, 1992; Idem, La Guerre des Rêves. Exercices d’Ethno-Fiction. Paris: Éditions du Seuil, 1997; Idem, El Antropólogo y el Mundo Global. México: Siglo Veintiuno Editores, 2014; Idem, O Duplo da Vida: Etnologia, Viagem, Escrita. Maceió: Editora da Universidade Federal de Alagoas, 2014; MEDEIROS, Adriana Silva, Liderança Feminina nas Organizações: Discursos sobre a Trajetória de Vida e de Carreira de Executivos. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Gestão e Negócios. Porto Alegre: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2014; JESUS, Carolina Maria de, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. São Paulo: Editora Ática, 2020; RIBEIRO, Ulisses Alves Maciel, Não-lugar: Um Olhar sobre as Metrópoles Contemporâneas. Dissertação de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2015; AMORIM, Lidiane Ramirez de, Em Busca de uma Cartografia dos (Não/Entre) Lugares da Comunicação em Multinacionais. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Faculdade de Comunicação Social. Porto Alegre: Madrid: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; 2015; COURTINE, Jean-Jacques; HAROCHE, Claudine, História do Rosto. Exprimir e Calar as Emoções (Do século 16 ao começo do século 19). Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; FISCHER, Rosa Maria Bueno; ALMANSA, Sandra Espinosa, “Cinema, Escrita de Si e Alteridade: Experimentações com Jovens Universitários”. In: Educação: Teoria e Prática, vol. 34, n° 68, pp. E 55, 2024; VILASBÔAS, Kleyde Jomara Lessa, “Considerações Sobre o Dispositivo de Autoria, Segundo Michel Foucault”. In: Polymatheia – Volume 18 – Número 1 – 2025; entre outros.

domingo, 17 de dezembro de 2023

A Questão do Sal-gema – Patentes & Desastre Ecológico em Maceió (AL).

                           Só quem assume a história de sua vida pode ver nela a realização de si mesmo”. Jurgen Habermas

           O afundamento do solo de Maceió é um processo geológico de subsidência do solo em vários bairros da cidade Maceió, capital do estado de Alagoas, de natureza antropogênica, causado pela exploração inadequada e consequente colapso das minas de sal-gema da mineradora brasileira Braskem. A cidade sofre com um lento processo de afundamento do solo que causa desgastes em diversas estruturas, como ruas, casas e infraestruturas urbanas. Cerca de 60 mil pessoas foram obrigadas a abandonar suas residências e propriedades. Bairros inteiros estão sob ameaça de destruição, por exemplo, os bairros de Pinheiro, Bom Parto, Mutange, Bebedouro e em parte do Farol. No dia 10 de dezembro de 2023, a mina 18 da Braskem na área se rompeu. A Braskem é uma empresa petroquímica de atuação global nas indústrias da química e do plástico.  Atualmente, detém a 18ª posição entre as 50 maiores empresas químicas e a 9ª posição entra as maiores empresas petroquímicas do mundo globalizado e a liderança econômica na produção de resinas termoplásticas e a liderança nas Américas, tendo atingido a marca de 15 milhões de toneladas em 2020, além de ser líder de mercado global e pioneira na produção de biopolímero em escala industrial. Têm ações negociadas na B3 (Brasil), uma das principais empresas de mercado financeiro no mundo, com atuação em ambiente de bolsa e de balcão, Bolsa de Valores de Nova Iorque (EUA) e no Latibex, da Bolsa de Madri (Espanha).

 A empresa conta com 48 unidades industriais, das quais 25 em território brasileiro, nos estados de Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Foi removida do índice de sustentabilidade da B3 após a crise do iminente colapso de uma mina de sal-gema em Maceió. Os principais produtos da Braskem são resinas polietileno (PE), polipropileno (PP), policloreto de vinila (PVC), eteno, propeno, butadieno, benzeno, tolueno, cloro, soda e solvente.  Sua atuação na extração de sal-gema é responsável pelo afundamento do solo de Maceió, capital do estado brasileiro do Alagoas, há anos; o fato ecologicamente obteve repercussão nacional em dezembro de 2023. Historicamente a multinacional brasileira Odebrecht, que atuava no segmento da construção civil, em 1979, começou a atuar no setor petroquímico ao comprar 33% da Companhia Petroquímica de Camaçari (CPC), produtora de PVC.  Em 1987, é criada a Odebrecht Química para administrar os investimentos do grupo no setor. Que tinha participações nas empresas Salgema, produtora de cloro soda; Poliolefinas, produtora de polietilenos; PPH, fabricante de polipropileno; e Unipar, holding de empresas petroquímicas. Com o processo de privatização do setor petroquímico, a Odebrecht assume o controle de PPH e se torna uma das controladoras da Copesul - Central de Matérias-Primas do Polo Petroquímico do Rio Grande do Sul, em 1992. Em 1995, é criada a empresa OPP Petroquímica e adquirido o controle administrativo da Salgema, da CPC e de sua subsidiária Companhia Química do Recôncavo (CQR). 

No ano seguinte, é criada a empresa Trikem, atuando de forma integrada à OPP Petroquímica, e a Odebrecht se associa ao Grupo Mariani para criar a Proppet. A Trikem se funde com outras empresas do setor e daí surge a Braskem, que incorporou as operações existentes em Maceió (AL). Em 2001, a Odebrecht adquire o controle da Central Petroquímica de Camaçari (Copene) em parceria com o Grupo Mariani, e da Polialden.  Em 2002, a Braskem é criada a partir da integração econômica das empresas Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden, se tornando a petroquímica líder na América Latina e tem suas ações listadas nas B3 e na NYSE. No ano seguinte, ingressa na Bolsa de Madri.  Em 2006, a Braskem adquiriu a Politeno. No ano seguinte, Petrobras, Grupo Ultra e Braskem fecham acordo para adquirir o Grupo Ipiranga. Em 2010, a Quattor é adquirida pela Braskem. A empresa conta com quarenta unidades industriais, das quais vinte e oito em território brasileiro, nos estados de Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. A expansão das operações para o exterior levou a Braskem a adquirir uma unidade industrial na Filadélfia nos Estados Unidos em 2010, a comprar fábricas da Dow Chemical na Alemanha e nos Estados Unidos em 2011 e a formação em 2012 da joint-venture Braskem-Idesa no México para a construção e operação de um complexo petroquímico. Atualmente as unidades industriais no exterior estão distribuídas da seguinte forma: Seis unidades nos Estados Unidos da América, duas unidades na Alemanha e quatro unidades no México, empregando cerca de 8 mil trabalhadores em 11 países. A empresa conta com 14 escritórios comerciais, 6 centros de inovação, além de clientes em mais de 71 países. Esta fortaleza, lembra-nos William Shakespeare quando afirma: “As juras mais fortes consomem-se no fogo da paixão como a mais simples palha”.


As primeiras patentes de que se tem notícia datam de 1421 em Florença, na Itália, com Felippo Brunelleschi (1337-1446) arquiteto e escultor e seu dispositivo para transportar mármore, e na Inglaterra com John de Utynam ganhando em 1449 o monopólio de 20 anos sobre um processo de produção de vitrais dos recém-inaugurados Eton e King’s Colleges de Cambridge, e também ensinasse jovens aprendizes ingleses, disseminando assim o conhecimento. Embora não tivesse inventado os vitrais, Utynam foi o primeiro a solicitar uma carta patente, ou litterae patentes, por assumir ter elaborado uma nova técnica de fabricação de vidros coloridos. O termo patente provém da palavra latina patere, “aberto, amplo, visível”; e do verbo pateo, que significa, “descobrir, abrir, expor” – daí a origem da palavra pátio. É, portanto, um título temporário de propriedade outorgado pelo Estado ao inventor ou à pessoa legitimada. A primeira lei de patentes do mundo é então promulgada em 1474 em Veneza, já com a visão de proteger com exclusividade o invento e o inventor, concedendo licença para a exploração, reconhecendo os direitos autorais e sugerindo regras para a aplicação no âmbito industrial. Segundo os estudos clássicos sobre o sistema de patentes, foram quatro as teses que justificaram a criação do privilégio, sendo a mais antiga a do direito natural; mas a concepção dominante sempre foi e é a de que monopólio legal, com a obrigação de publicar expositivamente o objeto de pensamento protegido, induz simultaneamente ao investimento criativo e à divulgação do conhecimento. A definição de invento ou invenção é vaga para abarcar uma variedade de objetos. Uma invenção, para ser patenteada, tem que apresentar os três requisitos de patenteabilidade: novidade, atividade inventiva e aplicação industrial.

Isto é, ser substancialmente diferente de qualquer coisa que já esteja patenteada, que já esteja no mercado de consumo, ou que já tenha sido escrito numa publicação, ou qualquer apresentação oral ou escrita. Há uma exceção para a publicação que for originada do próprio inventor ou de terceiros que tenham adquirido a informação a partir do próprio inventor antes do depósito do pedido de patente. Este período é chamado de “período de graça” e evita que o inventor perca o direito de patentear por ter publicado um artigo científico ou apresentado o seu trabalho em uma feira científica ou congresso. Tem de ser não óbvio, o que quer dizer que uma pessoa com capacidade intelectual normalizada, reconhecida, naquele assunto não teria a mesma ideia após examinar as invenções já existentes. Uma pessoa não pode patentear um “rebuçado de limão” em que se mistura polpa de limão com açúcar se já existe publicado o “rebuçado de laranja” em que se mistura a polpa da laranja com açúcar e a polpa do limão, pois o “técnico no assunto” juntaria facilmente a polpa de limão na receita de rebuçado de laranja para fazer um rebuçado de limão e então a invenção “rebuçado de limão” é considerada óbvia. Significa que a invenção terá de servir em algum ramo industrial, como a agricultura, a farmacêutica, a mecânica, a engenharia genética, a química, etc. Trabalho de fechamento de minas pela Braskem foi suspenso por questões de segurança. 

A causa do afundamento é atribuída ao impacto de quatro décadas de mineração do solo para extração do sal-gema, minério usado para fabricação de itens como soda cáustica e PVC, pela empresa Braskem. As primeiras rachaduras do solo foram identificadas no bairro do Pinheiro, em fevereiro de 2018, após fortes chuvas. Duas semanas depois, o asfalto de algumas ruas cedeu e as rachaduras de imóveis aumentaram na sequência de um tremor de terra. Pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) vêm apontando o risco de afundamento do solo em Maceió devido às atividades mineradoras desde pelo menos 2010, sendo que alertas foram emitidos trinta anos antes, na década de 1980, por dois professores da Universidade. Foi apenas um ano depois desses episódios, em maio de 2019, que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), órgão de pesquisa ligado ao Ministério de Minas e Energia, confirmou a relação entre o afundamento do solo e as atividades de mineração da empresa, em Relatório apresentado na sede da Justiça Federal em Alagoas. Ao longo de todo o período de exploração, a empresa explorou 35 minas, e, com o tempo, algumas delas acabaram por se fundir em cavidades de mais de 100 metros de largura. De acordo com o estudo, a exploração do sal-gema foi feita de maneira inadequada, desestabilizando as cavernas subterrâneas preexistentes e provocando as fissuras. Naquele momento, a área de risco, que até então era considerada concentrada no bairro do Pinheiro, foi ampliada para os bairros de Mutange e Bebedouro. Novas áreas seriam identificadas posteriormente. Em 30 de novembro de 2023, a prefeitura de Maceió decretou situação de emergência no município por 180 dias correntes devido ao “iminente colapso” de uma mina pertencente à Braskem na região da Lagoa Mundaú, no bairro Mutange, estado de Alagoas.

          Todas as invenções serão efeito e causa de uma nova ordem social, de tipo urbano e estatal, com suas leis e seus costumes, suas hierarquias, suas classes, suas servidões, seus conflitos e instituições. Quer dizer, as vantagens diretas e as transformações induzidas pela metalurgia são enormes: a maleabilidade do cobre, do bronze e das ligas metálicas permite a construção de objetos mais funcionais e mais bonitos; a complexidade do trabalho metalúrgico requer a sua própria especialização profissional de artistas-cientistas depositários de misteriosos segredo de fabricação, do mesmo modo que os sacerdotes-magos eram depositários de misteriosos segredos do exorcismo e da evocação; a vida itinerante, indo de um país a outro, desses mestres da metalurgia confere uma dimensão transnacional à ciência que possuíam, assim como uma organização corporativa da classe que representavam; os departamentos de recursos humanos, a necessidade de sustentar mineiros, os fundidores e os forjadores subtraídos das atividades agrícolas, de pastoreio e caça determina a exigência de um excedente de produção a ser destinado à metalurgia, como ocorre com o pessoal do setor terciário postulando um maior excedente por parte dos setores da indústria; a construção técnica e a utilização de arados metálicos liberam muitas mulheres do trabalho árduo nos campos; o rebaixamento das mulheres a papéis secundários agrícola reduz o status e marca, per se o primado do sistema patriarcal, caso se admita que o matriarcal tenha  existido.

          No âmbito da globalização vivida, modificam-se mais ou menos radicalmente as condições sob as quais se desenvolvem a teoria e a prática da política. Alteram-se as formas de sociabilidade e os jogos das forças sociais, no âmbito de uma vasta, complexa e contraditória sociedade civil mundial em formação. Desde Maquiavel, o príncipe é representado por uma pessoa, uma figura política, o líder ou condottiere, capaz de articular inteligentemente as suas qualidades de atuação e liderança (virtù) e as condições sociopolíticas (fortuna) nas quais deve atuar soberanamente. A virtù é essencial, mas defronta-se todo o tempo com a fortuna, que pode ser ou não favorável, podendo ser tão adversa que a virtù não encontra possibilidades de realizar-se. Mas a fortuna pode ser influenciada pelo descortino, a atividade e a diligência do príncipe. Ocorre pari passu a todos os sentidos de desenvolvimentos, nexos, contradições e transformações em curso, desenvolvem-se uma nova configuração histórico-social de vida, trabalho e cultura, desenhando uma totalidade geo-histórica de alcance global, compreendendo indivíduos e coletividades, povos, nações e nacionalidades, culturais e civilizações. Esse é o novo e imenso palco da história, no qual se alteram mais ou menos radicalmente os quadros sociais e mentais de referência de uns e outros, em todo o mundo. É o imenso, complexo e difícil palco e teatro da política, como teoria e prática.

A noção filosófica e sociológica de desenvolvimento, nas pegadas da história de Hegel a Marx,  passa a ser central depois dessa concepção e, para o bem ou para o mal sobretudo no mundo contemporâneo. Mesmo a ideia de progresso, que implicava que o depois pudesse ser explicado em função do antes, encalhou, de certo modo nos recifes do século XX, ao sair das esperanças ou das ilusões que acompanharam a travessia do mar aberto pelo século XIX. Esse questionamento refere-se a várias ocorrências distintas entre si que não atestam um progresso moral da humanidade, e sim, uma dúvida sobre a história como portadora de sentido, dúvida renovada, essencialmente no que se refere ao seu método, objeto e fundamentalmente nas grandes dificuldades não só em fazer do tempo um princípio de inteligibilidade, como ainda em inserir aí um princípio de identidade. A história: isto é, uma série de acontecimentos reconhecidos como acontecimentos por muitos, acontecimentos que podemos pensar que importarão aos olhos dos historiadores de amanhã e, ao qual cada um de nós, por mais consciente que seja de nada representar nesse caso pode vincular algumas circunstâncias ou imagens particulares, como se fosse a cada dia menos verdadeiro que os homens, que fazem a história sob condições determinadas (pois, senão, quem mais?), não sabem que a fazem. Um discurso político, no âmbito da consciência, tem uma estrutura e finalidade muito diferente do discurso econômico, mas politicamente pode operar no nível da análise a dimensão econômica produzindo efeitos específicos em termos de persuasão.

          A aceleração na transição social para as chamadas “energias limpas” irá demandar cada vez mais recursos minerais imprescindíveis na fabricação de turbinas eólicas, painéis solares, baterias e veículos elétricos. A volatilidade de preços e a alta concentração da produção dessas matérias-primas em poucos países hegemônicos podem colocar um freio no desenvolvimento das energias renováveis. A publicação do Relatório da International Energy Agency demonstra que somente a demanda por lítio, por exemplo, deve crescer mais 40 vezes nas próximas duas décadas. A AIE é uma organização internacional sediada em Paris ligada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Atua como a orientadora política de assuntos energéticos para o conglomerado de 30 países membros. Os seus esforços econômicos e políticos tentam assegurar serem confiáveis, e acessíveis para uma energia limpa para os seus cidadãos. Foi fundada durante a crise mundial do petróleo de 1973-1974. O papel inicial da AIE ocorreu a fim de coordenar as medidas a serem tomadas em tempos da crise do petróleo. Tal como comparativamente os mercados da energia terem sido alterados, de modo a ter AIE como moderador. O seu mandato foi alargado para incorporar o equilíbrio da política energética: segurança energética, o desenvolvimento econômico e a proteção do ambiente. O trabalho corrente tem como escopo as políticas públicas e questões das alterações climáticas, mercado de reformas, tecnologias energéticas e a colaboração e proximidade com o resto do mundo, especialmente grandes consumidores e produtores de energia, tais como as gigantes China, Índia, Rússia e demais países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

     Com uma equipe de 190 colaboradores, dentre especialistas na área da Energia entre os 29 países membros, a AIE realiza um amplo programa de investigação energética, compilação de dados, publicações e divulgação pública da política energética, análises técnicas e recomendações sobre as boas práticas. A deputada federal Aline Sleutjes apresentou projeto de Lei Federal nº 3410/2021 que tem “por objetivo a aplicação de medidas administrativas de prevenção e combate ao roubo, furto e receptação de cabos, fios metálicos, geradores, baterias, transformadores e placas metálicas”. O Projeto de Lei tem a finalidade de quebrar a cadeia ilícita referente à comercialização de cabos, fios e materiais metálicos obtidos por meio ilícito (roubo, furto e receptação) além de impor obrigações adicionais aos comerciantes de sucatas metálicas e sanções para os que as desrespeitem. A pessoa física ou jurídica que armazenar, trocar ou comercializar, esse tipo de fio que sejam comprovadamente produto de crime ou não tenham procedência lícita comprovada, enfrentarão sansões administrativas como multa de no mínimo R$ 5 mil podendo chegar até R$ 50 mil e cancelamento da inscrição no cadastro de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) da pessoa jurídica ou de seu conglomerado econômico, com aplicação de multa aos seus sócios e suspensão da prerrogativa da pessoa física ou pessoa jurídica, bem como seus sócios, envolvidos na atividade ilícita, de constituir empresa para os fins vedados por esta Lei, pelo período mínimo de 05 anos, em todo território. 

       A forma cada vez mais abstrata da simbólica assumida por esses certificados corresponde ao crescimento espiritual do Homo sapiens sapiens, nessa conjuntura capaz de realizar operações mentais sem precedentes na história do planeta e, provavelmente, do universo. Grande parte das invenções humanas mais surpreendentes, de acordo com De Masi (2003: 97 e ss.), do alfabeto ao Estado, dos veleiros às piadas, das festas ao arado, da tesoura à Magna Carta, não possui um “alguém que as imaginou”, pois elas são fruto de progressivos ajustes socais e colaborações coletivas, seja na visão das suas criações, nas suas realizações, nos seus aperfeiçoamentos, na sua difusão, assim como nas suas aplicações. Da mesma forma, salvo raríssimas exceções, uma descoberta ou invenção não acontece repentinamente, nem constitui um mero ponto de partida. Elas constituem um ponto de chegada, e Marx (2013) foi original nesse aspecto, ou uma etapa intermediária de um longo processo, frequentemente interminável. Antes de 1687 muitas maçãs caíram na cabeça de muitas pessoas, mas só Newton soube deduzir a teoria da gravidade, porque há anos atormentava-se com o problema. Os neurologistas, os psicanalistas, os psicólogos e mesmo os sociólogos que se interessaram pela criatividade referiam-se, sobretudo, a personagens criativos singulares, ao artista, ao inventor ou ao descobridor extraordinário, obtendo, a partir das experiências desse gênios isolados, a inspiração para supor algumas etapas canônicas que todo processo criativo tenderia a percorrer, da individualização de um problema à coleta de informações necessárias para analisá-lo, à formulação das hipóteses, à intuição iluminada de uma possível solução e à sua bem-sucedida verificação.

         Para o professor Elcio Verçoza, os primeiros passos desta longa caminhada foram dados em 1902 com a criação da Diocese de Alagoas, instalada provisoriamente no Convento de São Francisco em Marechal Deodoro e responsável pela criação do Seminário Diocesano com os cursos de Filosofia e Teologia. Mesmo fechado para os leigos, os cursos eram promovidos por “uma instituição educacional com características pós-secundária”, afirmou Verçoza. Dois anos depois, o Seminário passou a funcionar em Maceió. Meio século após estas iniciativas da Diocese, surgiu a primeira instituição de ensino superior em Alagoas. A Faculdade Livre de Direito de Alagoas, entrou em funcionamento no dia 24 de maio de 1931. Sua federalização somente aconteceu pela em 24 de dezembro de 1949, por força da Lei nº 1.014. Esta conquista ocorreu graças a mobilização encabeçada por Jayme de Altavila, então diretor da instituição. Nos anos 50 surgiram mais sete instituições de ensino superior. A primeira delas foi a Faculdade de Medicina, em 1950. Sua primeira turma só começou a ter aulas no ano seguinte.

         Em 1952, começaram as aulas da Faculdade de Filosofia de Maceió, criada por um grupo de educadores com o padre Teófanes Augusto de Araújo Barros à frente. Funcionava no mesmo prédio da Escola Industrial de Maceió, na Praça Sinimbu. Quem dirigia a Escola Industrial era Talvanes Augusto de Araújo Barros, irmão do Padre Teófanes. A Faculdade de Ciências Econômicas entrou em funcionamento em 1954 e no ano seguinte foi a vez da Escola de Engenharia de Alagoas, que aguardava autorização desde 1951. Em 1955, o novo arcebispo de Maceió, Dom Adelmo Cavalcanti Machado, propôs a criação da Escola de Serviço Social, entretanto, a Escola de Serviço Social Padre Anchieta só recebeu a autorização do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 18 de março de 1957. As duas últimas faculdades criadas na década de 1950 eram ligadas à Odontologia. A Faculdade de Odontologia de Alagoas foi oficializada em julho de 1955 e, em janeiro de 1956, surgiu a Faculdade de Odontologia de Maceió. As duas foram unificadas em 1961, por exigência do Ministério de Educação e Cultira, para que pudessem compor a Universidade Federal de Alagoas. Em 1961, a Ufal nasceu apoiada nas já existentes faculdades de Filosofia e Ciências, Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Faculdade de Economia, Faculdade de Engenharia Civil e Faculdade de Odontologia. Criação da Universidade Federal de Alagoas (1961). 

          Depois de várias tentativas de federalização da Faculdade de Medicina num movimento liderado pelo médico A. C. Simões, na última delas, em 1960, descobriu-se que era possível fazer aprovar um projeto criando uma universidade pública em Alagoas, em vez de se tentar federalizar apenas uma faculdade. Assim, no dia 11 de agosto de 1960, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina de Alagoas, os diretores de cinco das oito escolas superiores em funcionamento no Estado, além de autoridades públicas, assinaram um memorial redigido pelo estudante Adalberto Câmara e endereçado ao presidente Juscelino Kubitschek, reivindicando a criação de uma universidade em Alagoas. Não assinaram o documento, por razões diversas, os diretores da Escola de Serviço Social, Faculdade de Filosofia e Faculdade de Odontologia. A União Estadual dos Estudantes de Alagoas também não assinou, mas a mobilização para a criação da universidade teve estudantes à frente. O presidente desta entidade estudantil, Adalberto Câmara, foi quem entregou ao presidente da República o memorial com a solicitação.

Porém, a grande maioria das novas ideias não brotou na cabeça de um só: por vezes concorreram um clã inteiro, um povo inteiro, até mesmo todos os povos e por um período de tempo que pode abarcar até mesmo dezenas de milênios. Sobretudo no campo das ciências organizacionais existem percursos criativos que duram ad infinitum, como resultado de progressivos ajustes a situações modificadas ou de progressivos projetos visando a mudanças futuras. Num tal caso, estamos diante de criações sem um criador, ou seja, de “estratégias sem estrategista”, como diria Pierre Bourdieu. É isso que acontece no caso particular do Estado, a maior criação político-social do ser humano, aperfeiçoada gradualmente ao longo de milênios e, em seguida, modificada, conforme as mutáveis instâncias demográficas, militares, econômicas, geográficas e culturais.

Para o sociólogo Domenico De Masi, no decorrer da pré-história e da história há grandes personalidades, de Sargão a Péricles, de Napoleão a Roosevelt, que imprimiram a própria marca na evolução do Estado, mas o peso deles permanece marginal em relação ao papel exercido por obscuros funcionários, por grupos colegiados de pressão, pelas massas e pelas conjunturas imprevistas. O Estado contemporâneo apresenta problemas crescentes, demonstrando-se quase sempre mais inadequado a gerir as situações novas, determinadas pelo progresso tecnológico, pelos fundamentalistas, pelas multinacionais e pelas Bolsas de Valores. Disso deriva a urgência de inovações radicais na disposição da governance, e em tudo que é lugar se procura teorizar, projetar e/ou experimentar alguma intervenção social com a esperança de se chegar a reformulações democraticamente satisfatórias. Para a criação do Estado, os primeiros a contribuir foram a Mesopotâmia e o Egito, a China, o México e o Peru. Ao estudo das suas origens dedicaram-se pensadores ilustres como Thomas Hobbes, John Locke e DAvid Hume, Montesquieu, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau, Tocqueville, Marx & Engels, Spencer & Durkheim, Fustel de Coulanges, com A Cidade Antiga, publicado em 1864.

A noção de causa é, na origem, o caso do litígio, depois a ocorrência em que surge um acontecimento. A coisa, de mesma origem, é a questão a tratar. A palavra “ordem” exprime primeiro a fórmula do comando e o resultado ordenado. O termo “cosmos” designa, primeiro, a organização de um exército, depois da constituição de um Estado, antes de tornar-se a constituição do mundo. A geometria nasceu das necessidades de agrimensura e de irrigação das civilizações agrárias; a aritmética, das necessidades de cálculo das civilizações urbanas. As Leis físicas são uma projeção das Leis jurídicas sobre o Universo. A ideia de um Deus legislador do Universo, em Descartes, desenvolve-se quarenta anos depois da teoria do Soberano Jean Bodin. A Ordem e as Leis da Natureza foram sugeridas à física por Deus, pelo Rei e pelo Estado. Mais recentemente, a energia, conceito-chave da física moderna e de trabalho no momento da primeira revolução industrial. É certo que todos os conceitos científicos extraídos da experiência social se emanciparam e transformaram. Nem por isso se separam totalmente: força, trabalho, energia, ordem, desordem conservam o seu cordão umbilical com a vida comum.  As sociedades científicas multiplicaram-se, depois, no século XIX, a ciência instalou-se na universidade, criando aí os seus departamentos e laboratórios. Em torno de 1840, o termo scientist aparece na Inglaterra, e a ciência profissionaliza-se. No século XX, ela se implantará no coração das empresas industriais e depois no aparelho de Estado. 

Assim, claro está que a ciência se autonomizou, institucionalizando-se, criando as suas sociedades e assembleias, os seus departamentos e os seus laboratórios, depois enormes centros destinados à pesquisa, inclusive espacial, fora do planeta Terra. Mas segundo Edgar Morin (2008), essa autonomia cada vez maior é, ao mesmo tempo, uma dependência sempre crescente. Mas o fator mais evidente e decisivo é que a ciência está integrada ao Estado, à indústria, ao exército. E não por acaso, o conhecimento científico domina cada vez mais o desenvolvimento social, econômico e técnico, mas se torna cada vez mais integrado à política, administrativa, social, econômica e tecnicamente. A ciência não é apenas uma microssociedade original dotada de regras, normas, valores, tendo as suas solidariedades, concorrências, conflitos, e enfrentando somente limitações ou influência sociais externas. É parte da sociedade que carrega hologramaticamente o conjunto próprio do que é absoluto da sociedade. A ciência tornou-se cada vez mais produtora/produto da dinâmica técnico-científica, sendo ela própria cada vez mais produtora e per se produto da dinâmica histórica e social. Difundindo-se na sociedade, na economia e Estado, a ciência livremente socializa-se, industrializa-se e tecnoburocratiza-se. Paradoxalmente, foi autonomizando-se que as ciências naturais se tronaram cada vez mais profundamente interdependentes de um processo que passou a ser científico-técnico-econômico-social. Sua autonomia é uma dependência crescente.

O que representa industrialmente a Braskem na sociedade brasileira? Em 1979, a multinacional brasileira Odebrecht, que atuava no segmento da construção civil, começou a atuar no setor petroquímico ao comprar de 33% da Companhia Petroquímica de Camaçari, produtora de policloreto de vinil, um material leve e resistente às variações climáticas que se adaptam a ambientes quentes, frios, úmidos ou secos. Em 1987, é criada a Odebrecht Química para administrar os investimentos do grupo no setor que tinha participações nas empresas Salgema, produtora de cloro soda; Poliolefinas, produtora de polietilenos; Patent Prosecution Highway (PPH) um acordo de cooperação entre o INPI e alguns Escritórios de patente pelo mundo em mais de 25 países. A finalidade desse acordo é o compartilhamento de informações, com objetivo fazer com que o exame do pedido de patente seja mais célere e eficiente; fabricante de polipropileno; e Unipar, holding de empresas petroquímicas. Com o processo de privatização do setor petroquímico, a Odebrecht assume o controle de PPH e se torna uma das controladoras da Central de Matérias-Primas do Polo Petroquímico do Rio Grande do Sul em 1992.

Em 1995, é criada a OPP Petroquímica e adquirido o controle da Salgema, da CPC e de sua subsidiária Companhia Química do Recôncavo (CQR). No ano seguinte, é criada a Trikem, atuando de forma integrada à OPP Petroquímica, e a Odebrecht se associa ao Grupo Mariani para criar a Proppet. Em 2001, a Odebrecht adquire o controle da Copene Central Petroquímica de Camaçari (Copene) em parceria com o Grupo Mariani, e da Polialden. Em 2002, a Braskem é criada a partir da integração das empresas Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden, se tornando a petroquímica líder na América Latina e tem suas ações listadas nas B3 e na New York Stock Exchange, cuja abreviação oficial é NYSE, é a bolsa de valores de Nova Iorque. No ano seguinte, ingressa na Bolsa de Madri. Em 2006, a Braskem adquiriu a Politeno. No ano seguinte, Petrobras, Grupo Ultra e Braskem fecham acordo para adquirir o Grupo Ipiranga. Em 2010, a Quattor é adquirida pela Braskem. A Bolsa de Valores de Nova Iorque foi oficialmente criada e estabelecida em 8 de março de 1817. Porém, sua precursora foi uma associação nova-iorquina de grandes empresários locais, comerciantes, banqueiros e corretores de ações e outros valores mobiliários, formada mediante um pacto firmado em 17 de maio de 1792, o qual ficou conhecido como Acordo de Buttonwood, que regulamentava as pecuniárias transações de ativos e valores mobiliários praticadas na cidade. A atual sede da NYSE foi instalada e inaugurada em 1903, num prédio enorme de arquitetura clássica localizado em Wall Street, no distrito de Manhattan, Estados Unidos, considerado como o centro financeiro da cidade.

O bairro de Bebedouro, last but not least, um dos atingidos pelo afundamento, é um dos distritos mais antigos de Maceió, com quase 200 anos. Prédios tombados pelos departamentos de patrimônio histórico estadual e municipal estão localizados ali, como: Asylo das Órphans Desvalidas de Nossa Senhora do Bom Conselho, construção de 1877 criada para abrigar órfãs da Guerra do Paraguai e que funcionava como escola pública até o início do processo de afundamento; Igreja de Santo Antônio de Pádua, que tem registros de funcionamento pelo menos desde 1870, e segue aberta, apesar de estar em área de risco. A Prefeitura de Maceió fez um levantamento inicial de 20 endereços com imóveis de interesse histórico e social entre os diferentes bairros afetados, mas ainda não o tornou público. A Braskem também afirma que está realizando estudo sobre a situação do patrimônio histórico afetado. Após a apresentação de relatório do Serviço Geológico Federal, o governo federal reconheceu, em 28 de maio de 2019, o estado de calamidade pública em Maceió, facilitando a possibilidade de apoio financeiro e técnico à região. A Prefeitura já havia decretado a situação de calamidade meses antes, em março de 2019.

Em 30 de dezembro de 2019, um acordo foi firmado entre o Ministério Público Estadual de Alagoas, a Defensoria Pública do Estado de Alagoas, o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e a mineradora Braskem. O documento, chamado “Termo de Acordo para Apoio na Desocupação das Áreas de Risco”, tem como objeto o estabelecimento de parâmetros para a realocação de moradores, além da compensação financeira das pessoas atingidas e proprietários de imóveis nos bairros afetados. A Prefeitura de Maceió criou o Gabinete de Gestão Integrada para a Adoção de Medidas de Enfrentamento aos Impactos do Afundamento dos Bairros (GGI Bairros), por meio do Decreto Nº 9.037 de 6 de janeiro de 2021. O órgão tem, entre outras funções, a atribuição de realizar a escuta e a interlocução com os atores envolvidos no processo e outras autoridades públicas e instituições.  Em outubro de 2019, uma Comissão Externa foi instalada na Câmara dos Deputados para o acompanhamento dos danos causados pelo afundamento e realizou audiências públicas e visitas oficiais à região. A Braskem não admite oficialmente ser causadora do desastre, mas já assinou acordo na Justiça alagoana que prevê o pagamento de mais de 12 bilhões de reais para indenização de moradores e comerciantes, além de realocação de equipamentos públicos como escolas e unidades de saúde. Um grupo de moradores de Maceió, representados por três escritórios de advocacia, moveram ação judicial contra a Braskem na Holanda, mais precisamente na cidade de Roterdã, alegando que as indenizações oferecidas pela empresa não cobrem todos os danos. Em 17 de maio 2022, os moradores das áreas afetadas foram ouvidos pelo Tribunal Distrital de Roterdã. Em 21 de setembro de 2022, o Tribunal decidiu competência para julgar o caso e admitiu a ação contra a petroquímica, pois três de suas filiais operam no território holandês.

Nesta Bolsa de Valores, são transacionadas ações das maiores empresas norte-americanas. Em 2006, a NYSE juntou-se à Euronext, formando assim o primeiro mercado de capitais pan-atlântico. É considerada uma das mais famosas instituições financeiras da Cidade de Nova Iorque. É a maior bolsa de valores dos Estados Unidos da América e, juntamente com a NASDAQ e a American Exchange, uma das representações oligopolista mais influentes do mundo. De 2002 a 2014 foi parte da NYSE Euronext, faz parte da Intercontinental Exchange. Em 2 de junho de 1978, o prédio da NYSE foi inscrito no Registro Nacional de Lugares Históricos, bem como, na mesma data, um Marco Histórico Nacional. Em 24 de outubro de 1929, ocorreu a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, chamada de Quinta-feira negra. O crash desencadeou a mais devastadora crise econômica da história dos Estados Unidos, considerando-se a abrangência e a duração dos seus efeitos perversos. Marca o início dos 12 anos da Grande Depressão, que afetou os países ocidentais industrializados.        

Maceió representa um município litorâneo e capital do estado de Alagoas, na Região Nordeste do Brasil. Ocupa uma área em torno de 509,320 km², estando distante 2 013 km de Brasília, Distrito Federal e capital brasileira. Maceió, é o município mais populoso de Alagoas de acordo com o Censo estatístico e demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com 957 916 habitantes. Integra, territorialmente com outros dez municípios, a Região Metropolitana de Maceió, totalizando 1,3 milhão de habitantes em 2015, sendo o município mais populoso do estado de Alagoas, o 5º maior mais populoso do Nordeste e o 16º de todo o país. A cidade tem uma temperatura média anual de 26 a 30 graus centígrados. Na vegetação original do município, pode-se observar a presença de herbáceas (gramíneas) e arbustivas (poucas árvores e espaçadas). Com uma taxa de urbanização de 99,75%, seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,721%, considerado alto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o primeiro do estado. Faz divisa geográfica com as cidades São Luís do Quitunde, Rio Largo, Satuba, Marechal Deodoro. O primeiro núcleo urbano surge no início do século XVIII a partir do Engenho Massayo, que não se sabe quem era proprietário e nem a sua exata localização topográfica, que pode ter sido na atual Praça D. Pedro II ou em uma área mais próxima do Riacho Massayo, o sofrido Salgadinho.

A população pobre que ali se estabeleceu como povoado andava a pé, só apanhando o bonde de burros em casos de extrema necessidade, ou mesmo por motivo de doença. Nas tardes de domingos e feriados os bondes de burros tinham grande movimentação. Os cidadãos respeitáveis, as senhoras da sociedade, as melindrosas e almofadinhas, que constituíam a geração de seu tempo, na primeira e segunda década do século XIX, utilizavam o bonde para ligeiros passeios, e claro, para ir e vir das matinês dos cinemas Floriano e Capitólio que iniciavam o sistema sonoro com a Melodia da Broadway e a Marcha dos Granadeiros. O Odeon, Delícia e o Ideal continuavam a exibir os filmes mudos, decerto, com orquestras de pianos e violinos tocando nas belas salas de espera dos cinemas. Depois, passando às salas de projeções para execução de partituras musicais, mas adaptadas ao enredo dos filmes em exibição. As famílias utilizavam como transporte o bonde de burros para comparecer às procissões, atos cívicos, comícios políticos e encontros nas casas de chá, sorveterias e restaurantes. A cidade de Maceió vivia um período politicamente atribulado: o prefeito anterior, Lauro de Almeida Lima, fora assassinado a tiros um ano antes, após desentender-se com um fiscal de tributos do estado. Este, por sua vez, foi fuzilado em seguida pelo delegado de polícia. O banho de sangue traumatizou a população urbana da cidade. O vice-prefeito Manuel Sampaio Luz cumpriu o restante do mandato.

Com a proximidade das eleições municipais, os políticos começaram a articulação estrategicamente para escolher o membro sucessor tentando dissipar o clima de comunicação político que beirava de forma sombrio. Era um ambiente inóspito, típico da República das oligarquias quando os partidos interferiam pouco nas eleições. Contudo, o que demandava valor de troca era a representação dos caciques políticos populistas, geralmente reconhecidos fazendeiros. Em Palmeira dos Índios, a política das últimas quatro décadas era dominada pela família Cavalcanti, aliados do governador alagoano Pedro da Costa Rego do Partido Democrata. Após negociações, a cúpula indicou o Graciliano Ramos, que estava com 35 anos de idade, fama de honesto, culto, austero e, principalmente, amigo dos “caciques do partido”. Aliado ao bom trânsito político havia sido bem sucedido como presidente da Junta Escolar na gestão anterior, uma espécie de secretário municipal da educação. Chamado para uma reunião, Graciliano Ramos reagiu bem aprovando o projeto técnico-social objetivando torná-lo prefeito. Pedro da Costa Rego aprendeu as primeiras letras e cursou o primário com sua tia, Ana Oliveira e Silva, que era proprietária de uma escola particular institucionalizada. Em Maceió, frequentou o Liceu Alagoano até a morte do pai ocorrida em 1897.

Após esse curto período em Maceió, Costa Rego e seu irmão Rosalvo foram morar no Rio de Janeiro, na casa do tio e jornalista Antônio José de Oliveira e Silva, que era redator da Gazeta de Notícias publicado no Rio de Janeiro, circulou entre agosto de 1875 e 1942.  Após sete anos de estudos no Mosteiro de São Bento, localizado no Morro de São Bento, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. É um dos principais monumentos de arte colonial da cidade e do país. Costa Rego concluiu o curso ginasial em 1906. Contando com a ajuda do tio, Costa Rego começou a trabalhar no jornalismo. Cumpria uma tradição da família que já tinha na profissão os tios Pedro Amâncio da Costa Rego e Oliveira e Silva, os primos Zadir Índio, Otávio Brandão, Luiz Viveiros Costa (Lucas Viveiros), Rodolpho, Paulo e Pedro Motta Lima. No Correio da Manhã, teve um papel expressivo de trabalho como revisor, repórter-policial, cronista parlamentar e redator-chefe. Com o pseudônimo de Bárbaro Heliodoro, publica na coluna social: “Para ler no bonde”. O reconhecimento dos leitores o colocou dentre os principais jornalistas do país.

        O Gogó da Ema foi plantado entre o fim do século XIX e o ano de 1910 no sítio Ponta Verde, propriedade de Dona Constância Araújo, que futuramente daria origem ao bairro de mesmo nome. Aos poucos ele se tornou alvo da atenção de famílias, casais de namorados e, mais tarde, dos turistas. Com o aumento da busca por petróleo no Brasil nos anos 1930, diversas perfurações foram realizadas em Alagoas entre 1939 e 1942, sendo duas delas instaladas na área ao redor do coqueiro, uma em terra firme e a outra nos arrecifes próximos, esta, inclusive, posteriormente foi aproveitada para a construção do citado farol da Ponta Verde.  Na segunda metade dos anos 1940 o poder municipal local começou a dar alguma atenção ao seu ilustre morador. Em 1946 a prefeitura de Reinaldo Carlos de Carvalho Gama cercou o coqueiro com algumas estacas para protegê-lo, e em 1948 a gestão do prefeito João Teixeira de Vasconcelos construiu no entorno praça com banquinhos (cf. Barros, 2005). No dia 28 de julho de 1955 Maceió acordou com a notícia do tombamento do Gogó da Ema, ocorrido na tarde do dia anterior, 27 de julho do corrente ano.

Segundo a obra Maceió de Outrora, de Félix Lima Júnior, o coqueiro, que teve seu tronco deformado devido a um ataque de pragas sofrido nos primeiros anos, “caiu aos poucos, devagarzinho”, e populares das redondezas, “imediatamente”, “cortavam as palhas e colheram os frutos”.  No dia seguinte foi iniciada uma operação para reerguê-lo. Sob a orientação de especialistas o Gogó da Ema foi recolocado em pé após 2 dias. Resistiu durante todo o segundo semestre, sendo declarado morto em dezembro de 1955, ainda de pé, desabando em definitivo no dia 22 de janeiro de 1956. A morte do coqueiro, segundo os relatos, tem várias causas. Em Maceió de Outrora, Lima Júnior atribui o início do fim à busca por petróleo na região, principalmente às obras realizadas nos arrecifes próximos, que estimularam o avanço do mar sobre a base do coqueiral. O historiador Luís Veras Filho, na série Maceió História - Costumes, aponta para a construção do Porto de Jaraguá em 1940, “que ocasionou mais acentuadamente a invasão marítima”, alterando a dinâmica das correntes oceânicas “quando a Prefeitura construiu o bisonho cais-de-proteção, que não resistiu à fúria do mar”. É o maior produtor brasileiro de sal-gema. Seu setor industrial diversificado é composto de indústrias químicas, açucareiras, de álcool, de cimento e alimentícias. Possui agricultura, pecuária e extração de gás natural e petróleo. Possui o maior produto interno bruto (PIB) do estado, R$ 9 143 488 000 e proporcionalmente o 40º maior PIB do Brasil. As festividades realizadas na cidade anualmente atraem uma enorme quantidade de turistas. Podem ser citados o São João Massayó, antigo Maceió Forró e Folia, Verão Massayó, antigo Maceió Verão e o extinto evento carnavalesco Maceió Fest, além de suas festas de natal e réveillons como o Réveillon Absoluto, o Réveillon Paradise, Allure e o Réveillon Célébrations

Do ponto de vista histórico, antropológico e ecológico, destaca-se culturalmente com a edificação de importantes monumentos, museus, como o Mirante da Sereia (Arte), o Memorial Gogó da Ema (Biologia), o Memorial Teotônio Vilela (Democracia), o Memorial à República e de formação do pensamento político regionalista, o Museu Palácio Floriano Peixoto, o Museu Théo Brandão, o Teatro Deodoro. A cidade foi emancipada em 1839 da Vila de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, atualmente cidade de Marechal Deodoro. Reconhecida como “Cidade-Sorriso” e “Paraíso das Águas”, e comparativamente, em termos ecológicos é considerada o “Caribe brasileiro”, devido às suas belezas naturais, que atraem turistas do mundo. Do ponto de vista político que o anarquismo individualista ou “anarco-individualismo”, representa uma tradição filosófica do anarquismo com ênfase no indivíduo, e sua vontade, no sentido nietzschiano, argumentando sobre a soberania segundo a qual “cada um é seu próprio mestre”, interagindo com os outros através de uma “associação voluntária”. O anarquismo individualista refere-se a algumas tradições de pensamento dentro do movimento anarquista que priorizam o indivíduo sobre todo tipo de determinação externa, que ele é “um fim em si mesmo” e “não um meio para uma causa”, incluindo grupos, “bem-comum”, sociedade, tradições e sistemas ideológicos. O anarquismo individualista não é uma forma simplificada de pensar a filosofia. Mas que se refere modus operandi para designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo sempre os mesmos procedimentos. Desse modus se refere ainda a um conjunto de filosofias individualistas que estão frequentemente em conflito umas com as outras.

          A Instalação do artista Spencer Tunick, nos Alpes Suíços, demonstra condições e possibilidades de vulnerabilidade do homem diante das mudanças climáticas: 600 pessoas tiraram suas roupas na geleira nos Alpes Suíços para pedir ajuda de emergência para todo o planeta, “lutar contra o aquecimento global”. Os voluntários posaram para o Greenpeace na “instalação de nu”, do renomado fotógrafo Spencer Tunick na geleira Aletsch, incrivelmente imensa, incrivelmente bela: a “Grande Geleira de Aletsch” representa o mais poderoso fluxo de gelo dos Alpes. E também o mais popular, pois é facilmente acessível, com a localização ideal para caminhadas extensas, esportes de inverno e passeios especiais na natureza. O aquecimento global está derretendo nossas geleiras e deixando todo o planeta vulnerável a mudanças extremas de clima, formando inundação, elevação do nível do mar, aumentando o número de doenças e deslocamento de populações de seu habitat. Se o aquecimento global continuar nos níveis atuais, a maioria das geleiras na Suíça desaparecerá completamente até 2080. Nos últimos 150 anos, geleiras alpinas tiveram uma redução de aproximadamente 1/3 de sua superfície, cerca de metade de seu volume, com derretimento mais acelerado que tem ocorrido a cada dia.  De acordo com previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o planeta Terra tem apenas 8 anos para tomar alguma atitude para frear uma catástrofe climática. Sem uma mudança de atitude, através dos governos e Organizações Não-Governamentais, os danos podem ser irreversíveis.

        A humanidade ainda não havia enfrentado uma crise ambiental como essa. As mudanças climáticas exigem decisões políticas rápidas e corajosas para radicalmente reduzir as emissões de gases de efeito estufa e estabilizar o aquecimento do planeta. Governos de todo o mundo: uni-vos! Precisamos entender a necessidade de uma atitude política em defesa do ambiente global, da sociedade civil mundial. Conhecido em todo o mundo por suas instalações, Spencer Tunick quer que as pessoas saibam que “aquecimento global” não é um assunto abstrato. Mas uma ameaça real e perigosa que afeta a todos, conforme afirmou: - “Eu quero que as pessoas sintam a vulnerabilidade de sua existência e como isso está diretamente relacionado com a fragilidade das geleiras mundiais” (“I want people to feel the vulnerability of their existence and how it is directly related to the fragility of the world`s glaciers”). Para o professor Pedro Dallari, em comentário ao jornal da Universidade de São Paulo, afirma que a pandemia de coronavírus é algo gravíssimo, mas há outro problema mundial que merece a atenção da comunidade globalizada: a crise ambiental. Em sua coluna desta semana, ele faz essa relação e explica suas razões. - “O ano de 2020 começou sob o signo de uma gravíssima ameaça: a disseminação de doenças causadas pelo coronavírus, com milhares de infectados e muitos mortos. É um quadro que começa a ameaçar a economia mundial, com riscos de paralisação e mesmo recessão. 

       Mas há uma grande mobilização no mundo como um todo, seja de medidas de proteção ou de coordenação feita pela OMS”. - “Essa situação me permite comparar com outra situação, que talvez seja até mais grave, mas que não tem visto a mesma reação, a crise ambiental. Tal qual uma doença silenciosa, a destruição ambiental vai se propagando, sem que se tenha a mesma reação coordenada e de alocação de recursos que temos vistos no caso do coronavírus”. É um desastre ecológico tendo em vista que o estudo do clima e do tempo ocupa uma posição central no campo da ciência ambiental, pois as características do clima e as condições do tempo são determinantes na distribuição das diferentes formas de vida. Enquanto a destruição de um mundo determinava uma crise paradigmática profunda, a ciência nascente elaborava os princípios e métodos que iriam constituir o novo paradigma de um conhecimento doravante e emancipado da política, da religião, da moral e mesmo da filosofia. É nesse vasto e profundo reacomodamento que o novo conhecimento formula as novas regras do jogo no sentido social e político. A primeira libera o saber de todo o juízo de valor e destina-o, exclusivamente à finalidade do conhecimento; seu saber organiza-se com base em uma dialógica empírico-racional; desvia-se das verdades triviais para buscar as verdades escondidas atrás dos fenômenos; estabelece as suas exigências de precisão exatidão e, nesse sentido, ela se matematizará e se formará cada vez mais. Assim procedendo, o conhecimento científico fez o maior esforço jamais tentado para libertar-se das normas e pressões sociais, ao mesmo tempo que do senso e do vivido comuns. E muitos cientistas ainda continuam a crer que o seu conhecimento escapa às determinações e pressões sociais. Os conceitos fundamentais da física foram extraídos da experiência social e carregam ainda a sua marca original. 

Bibliografia Geral Consultada.

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