sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Córsega – História Política, Memória & Coletividade Territorial Única.

          A guerra, que desenvolve a força do corpo, simultaneamente tempera a alma”. Pasquale Paoli                                    

        

        Sambucucciu d`Àlandu é uma das figuras importantes na história da Córsega na Idade Média. Entretanto, não se sabe nem a data nem o local de seu nascimento. Ele não é mais mencionado nas fontes depois de 1370; possivelmente morreu de peste ou de causas naturais naquele ano. Acredita-se que ele tenha vindo da vila de Alando, na paróquia de Bozio. Graças aos cronistas corsos da Idade Média, Giovanni della Grossa e Petrus Cyrnæus, sabemos que d`Alandu liderou a revolta antifeudal de 1357 ao lado de outras figuras notáveis. Durante esses levantes populares, todos os senhores foram caçados e seus castelos destruídos, pelo menos temporariamente. Os Corporales (capurali em corso) substituíram os nobres da ilha como a nova aristocracia. Contudo, os senhorios foram restabelecidos no Sul da Córsega, na Terra dos Senhores (A Terra di i Signori) e em Cap Corse. É uma península com aproximadamente 400 km² de área, localizada no Nordeste da ilha da Córsega. Estendendo-se para o Norte em direção à Ligúria, fica a 33 km de Capraia, 83 km de Piombino, 96 km de Livorno, 160 km de Gênova e a menos de 175 km da costa francesa. A ponta Norte do Cabo situa-se ao Sul de uma linha Leste-Oeste que passa por Toulon e um pouco mais ao Sul do que a ilha de Porquerolles, colocando o Norte da Córsega na mesma latitude da parte mais meridional da França continental (Pyrénées-Orientales, ao Sul de Perpignan). Na Antiguidade, o país era chamado de Sacrum Promontorium

         Na Idade Média, tornou-se território de senhorios (San Colombano, Avogari,  etc.). Foi dividido em cantões durante a Revolução. O centro da ilha era chamado de Terra di Comune, ou Terra del Comune, em referência à comuna de Gênova, cujos apoiadores politicamente na revolta se colocaram sob sua proteção. É apropriado traduzir essa expressão como “Terra da Comuna (de Gênova)” e não “Terra do Povo Comum”, como era o caso na historiografia próxima passada da Córsega. Sambucucciu d`Alando tinha um sobrinho com o mesmo nome, que foi nomeado tenente do povo em 1466 pelos habitantes de “En-Deçà-des-Monts”. Colonna de Cesari Rocca, em sua História da Córsega publicada em 1916, relata uma infeliz interpretação dos cadernos de Cirno por Limperani que deu origem ideológica ao mais grosseiro anacronismo que a historiografia registrou e que muitos escritores contemporâneos hic et nunc ainda persistem em reproduzir. “Assim, Limperani datou a existência de Sambucucciu d`Alandu e do movimento popular do qual essa figura era líder (1359) no século XI. Então, incapaz de conter sua imaginação, ele inventou do zero um Sambocuccio, senhor de Alando, que expulsou os Cinarchesi da Córsega (numa época em que sua presença lá é incerta), destruiu as fortalezas dos barões e então, como Licurgo e Sólon, dotou a Terra da Comuna de uma constituição adequada às suas necessidades, provando ser um legislador tão judicioso quanto havia sido um capitão corajoso”.

 Embora Giovanni della Grossa e Cyrnæus concordassem que o movimento de Sambocuccio culminou na ocupação genovesa e no governo de Giovanni Boccanegra, Limperani, cujo texto é repleto de referências, baseou sua nova teoria na autoridade desses dois cronistas. No entanto, seria em vão procurar em suas obras uma palavra sequer sobre Sambocuccio no ano 1000, bem como sobre Sambocuccio o legislador. Limperani tinha “uma mania de corrigir a história, e nota-se, em seus dois volumes, vários exemplos da obliteração de sua previsão”. Cego por uma teoria que atribuía uma constituição comunal à Córsega no século XI, ele encontrou um pretexto para aplicá-la na desordem dos Cadernos de Cirno. A pega de Sambocuccio precedia a de Giudice ali, e isso foi um golpe de gênio de Limperani: ele não considerou que Sambocuccio estava solicitando a intervenção do governador Boccanegra (1359) e que ele próprio iria a Gênova para solicitar o envio de Tridano della Torre (1362). Ele se recusou a notar que o Cirno estava atribuindo a biografia do primeiro (século XIII) ao segundo Giudice (século XV) e que essas transposições poderiam simplesmente ter se originado da transposição das páginas do manuscrito original! “Foi por isso que, sob a influência de Limperani, os historiadores corsos acreditavam com sabedoria adotar de “boa fé” o que consideravam ser a cronologia de Cirneu: Entre Giovanni e Pietro, declara o Abade Galletti, não hesitamos em favorecer este último’. Durante o século XIX, apenas Renucci e Robiquet se conformaram ao texto de Giovanni, que, sendo quase contemporâneo histórico de Sambocuccio, não merecia ser questionado nesse ponto. Todos os outros seguiram o sistema de Limperani.

                                    

Gregori, em sua nova edição de Filippini, inseriu uma cronologia da Córsega que consagrou o mito de Sambocuccio como legislador do ano 1000; encontramos essa cronologia reproduzida em Jacobi, Friess, Gregorovius, Galletti, Mattei, Monti, Girolami-Cortona, todos autores de histórias gerais da Córsega; também no Grand Dictionnaire Larousse e na Grande Enciclopédia, para não mencionar obras de menor importância. O Inventário dos Arquivos Departamentais da Córsega (1906) ainda mantém essa cronologia errônea. Além disso, o mais importante e consciencioso historiador da Córsega, o Abade Rossi, confiando em Limperani, aceitou sem questionar a história de Sambocuccio assim modificada. Em seus Anais da Córsega (1873), o doutor Mattei coletou e classificou cronologicamente um número significativo de registros; em sua obra, Sambocuccio, duplicado, aparece no século XI e no século XIV. Colonna de Cesari Rocca afirma que o papel de Sambucucciu foi ampliado por historiadores modernos que o consideram o libertador do povo e o legislador da Córsega, e conclui: “Não há tradição nem documento que sustente essa opinião, que surgiu no século XVIII, nas condições que descrevemos no início desta obra. O povo o escolheu para liderá-lo contra os senhores feudais; em duas ocasiões, Sambucucciu negociou com a República o envio de um governador e, muito provavelmente, representou o partido popular em Gênova, onde atos notariais atestam sua presença. Na Córsega, ele parece ter servido apenas como conselheiro do governador, cargo que dividiu com outros seis habitantes da ilha”. Sua estátua, criada por Noël Bonardi (1934-20212), fica na saída da vila de Alando, perto do antigo Convento de Alando. Esta obra monumental em granito rosa, pesando 18 toneladas e com 6 metros de altura, foi inaugurada recentemente em 1994.

A Córsega é a quarta maior ilha do mar Mediterrâneo por extensão depois da Sicília, Sardenha e Chipre e a maior ilha da França. Localiza-se a Oeste da Itália, na zona geográfica italiana, constituindo uma coletividade territorial única. É dividida em dois departamentos: Alta Córsega e Córsega do Sul. Separada da Sardenha por um curto trecho do Estreito de Bonifácio, emerge como uma enorme cadeia de montanhas rica em florestas do Mar Mediterrâneo, marcando a fronteira entre a parte ocidental do mar Tirreno e o mar Lígure. É universalmente reconhecida como o berço de Napoleão Bonaparte (1769-1821), que nasceu em Ajaccio, um ano após a ilha ser ocupada pelo Reino da França. Também é o berço de Pascal Paoli (1725-1807), lutador e revolucionário corso. Pasquale Paoli: “Nós nascemos italianos pelo sentimento, mas, em primeiro lugar, nos sentimos italianos pelo idioma, pelas raízes, pelas tradições. Todos os italianos são irmãos para a História e para Deus... Como corsos, nós não queremos ser escravos, nem rebeldes e, como italianos, nós temos o direito de ser tratados como todos os outros irmãos italianos... Nós ganharemos ou nós morreremos (contra os franceses) com nossas armas em nossas mãos... A guerra contra a França há pouco é santa porque o nome de Deus é santo e justo. Aqui em nossas montanhas aparecerá para toda a Itália o sol da liberdade”.

A sua capital e maior cidade é Ajaccio, que também é a capital da Córsega do Sul, enquanto a Bastia geograficamente, a segunda mais populosa cidade da ilha, é a capital da Alta Córsega. Outras localidades importantes são Porto-Vecchio, Borgo, Corte e Calvi. Seu ponto mais alto é o Monte Cinto, com 2.706 metros de altitude. Com cerca de um terço do território protegido como parque nacional, e muito do belo litoral continuando imune do cimento que mudou grande parte da costa mediterrânica, a Córsega, quase despovoada (31 hab./km²), com base da sua economia em boa parte no turismo, pode praticamente duplicar a sua população no verão. A relação não resolvida entre a Córsega e a França, que a governa há 258 anos, manifesta-se não só a partir do apego de seu povo às suas tradições e sua língua (u Corsu, “linguagem poderosa, e o mais italiano entre os dialetos da Itália”, segundo Niccolò Tommaseo), mas por indicadores estatísticos que revelam a crise econômica e social (perene último colocado do país francês por nascimento e emprego) e por seus fortes sociais impulsos de autonomia e Independência, representados pelo nacionalismo corso, que colidem com a constituição francesa.

Na história de Córsega, a geografia e orografia tiveram consequências maiores que em outros lugares. A grande ilha mediterrânea é uma “montanha no meio do mar”, atravessada de noroeste a sudeste por um formidável relevo cujas montanhas superam por vezes os 2,5 km de altitude. O ponto mais alto da ilha alcança os 2706 m no Monte Cinto, cujo pico fica somente a 28 km do mar, mostrando o grande declive da ilha. Esse relevo sempre dividiu Córsega em duas partes à nordeste e sudoeste da ilha: a Alta Córsega, chamada historicamente de “Banda de dentro” pois se encontra antes das montanhas pegando como referência a Itália ou Cismonte, e a Corse-du-Sud, chamada historicamente de “Banda de fora”, além das montanhas ou Pumonte. Os vilarejos que se dispersam pelas montanhas, muitos acima dos 1000 metros de altitude, ficavam no inverno sem ligações com o resto da ilha por conta de nevascas que podem durar até semanas. Isto causava uma barreira que dividia as duas regiões. Além disto, os íngremes vales eram por vezes sem estradas de ligação com outros vales dentro da própria Banda, o que deixava o interior corso com pouca influência com o restante do mundo. 

Se por um lado estas características do terreno deixaram mais difícil o trabalho dos invasores, deixaram bastante lenta a penetração e acostumando os corsos a fazer pequenas guerrilhas para resistir por séculos, contribuíram a deixar baixa a densidade de população e a separar os corsos entre eles. A Alta Córsega, virada para a Península Itálica, sofreu maior influência italiana, que no plano político-social e linguístico, enquanto a parte sudoeste manteve uma originalidade maior, mas tendo um menor progresso político, pelo menos até a invasão francesa. Enquanto as áreas de montanhas tinham uma maior tendência a conservar as tradições locais, as cidades costeiras foram fundadas por invasores. Ocasionando a criação do anarquismo nas aldeias e empurrando a população do interior a fazer “justiça com as próprias mãos”, e a difundir o fenômeno do banditismo (cf. Hobsbawm, 1971). A grande divisão orográfica acabou por criar na ilha fronteiras sociais, linguísticas e de ideais políticos. Tais fronteiras ao longo da história social e política, mesmo com poucas variações, acabaram criando as subdivisões administrativas que permanecem. A grandes dimensões da ilha (quase 8800 km²) mesmo não garantindo autonomia, foi suficiente para criar um desejo de independência nos corsos. Localizada em uma posição estratégica no Mediterrâneo acabou atraindo o interesse em outros povos que chegariam à ilha como comerciantes ou conquistadores. Os fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, pisanos, aragoneses, genoveses e, last but not least, os franceses com o Tratado de Versalhes de 1768 sorrateiramente obrigaram os genoveses a ceder a ilha, e foram os dominadores da ilha, deixando ao povo local poucos períodos de Independência.

Escólio: Devido às glaciações, o nível médio do Mediterrâneo se abaixou e se criaram diversas pontes naturais permitiram a passagem da fauna (e talvez do homem) da península Itálica ao arquipélago sardo-corso, passando pelas ilhas toscanas e atravessando um pequeno trecho de mar. Entre 12 e 14 mil anos atrás, o clima começou a sua evolução e levou o Mediterrâneo à sua forma atual, e a Córsega assumiu o aspecto atual insular. Remontam aproximadamente de 9000 anos as primeiras localidades paleolíticas de pedras e esboços de escultura achadas na Córsega, na região de Porto-Vecchio. Um esqueleto feminino chamado a dame de Bonifácio datado do VII milênio foi achado perto da cidade homônima. O neolítico se concluiu por volta de 1800 na Córsega. Neste período se desenvolveu uma civilização megalítica da que ficam menires. A localidade de Filitosa é reconhecida como patrimônio mundial, se encontra perto de Sollacaro, próximo da foz do rio Taravo. Sempre no Sul, se desenvolveu com a chegada da Idade do Bronze, a civilização Torreana, ligada com a Nurágica na ilha vizinha, a Sardenha. Desta cultura restam numerosas torres com estrutura parecida com as dos nuragues sardos, ainda que menos imponentes. Pela natureza dos achados, da época e da localização destas, acredita-se que tal civilização seria da extensão da desenvolvida na Sardenha.

Melhor organizados e armados, os Torreanos que alguns acreditam ser o antigo povo do mar dos Shardana, ganham dos megalíticos e mandam estes para o Centro e o Norte da ilha. Na mesma localidade de Filitosa restam os traços da destruição cruel do assentamento precedente e um assentamento Torreano no lugar deste. Na Idade do Ferro parece que aconteceu uma progressiva fusão entre os herdeiros das duas civilizações: começa a nascer o povo que os gregos chamarão de Κὁρυιοι, corsos. Também são achadas algumas inscrições fenícias do século IX a.C. que citam o povo do mar chamado krsym, que habitavam a Córsega e parte da Sardenha assentado em Kition (Chipre). Neste período, cada novo invasor expulsa o precedente. Chegam à ilha iberos, lígures, fenícios e gregos, enquanto os indígenas negligenciados na literatura se refugiam nos montes.

Durante as convulsões que acompanharam o fim do Império Romano do Ocidente, a Córsega foi disputada entre vândalos e godos, aliados dos últimos imperadores romanos, até que Genserico assegurou o controle em 469. Durante os 65 anos de dominação, os vândalos desfrutaram do patrimônio florestal da ilha para os estaleiros, e tiveram uma frota que aterrorizou o Mediterrâneo ocidental. A potência vândala na África foi destruída por Belisário, enquanto seu general Cirilo conquista a Córsega em 534, que foi unida ao Império Romano do Oriente. Segundo Procópio, na Córsega restavam menos de 30 000 habitantes. No período sucessivo, godos e longobardos saqueiam a ilha, deixada indefesa pelos Bizantinos, os quais após empobrecerem a ilha devido a um excessivo peso fiscal, não a tinham protegido devidamente. Por outro lado, os próprios Bizantinos tiveram problemas na África com a invasão árabe e, em 713, os árabes realizam as primeiras incursões contra a Córsega. Nesta conjuntura ocorre notável processo de despovoamento da ilha e a formação, perto de Roma, de uma colônia corsa em Porto (Óstia). A Córsega continua ligada nominalmente ao Império romano do oriente até que, em 774, Carlos Magno vence os Longobardos na Itália e conquista a ilha, que passa assim sob a jurisdição dos Francos. Porém, em 806 há novas incursões de mouros, desta vez provenientes da Península Ibérica; mesmo vencidos várias vezes por tropas de Carlos Magno (748-814), estes conseguem estrategicamente tomar o controle por breve tempo em 810.

Foram enfim expulsos por uma Expedição guiada pelo filho de Carlos Magno, porém os mouros não se dão por vencidos e continuam a fazer incursões na ilha. Para tentar acabar com esta situação, em 828 a defesa da ilha foi entregue ao Marquês Bonifácio II da Toscânia (791-838), que conduziu expedições punitivas contra os portos norte-africanos de onde saíram incursões árabes contra o litoral do mar Tirreno; na via de volta Bonifácio construiu uma fortaleza perto da ponta sul da Córsega, fundando o núcleo fortificado da cidade de Bonifácio. A guerra contra os sarracenos, que voltaram bem cedo a fazer ataques, foi continuada pelo filho de Bonifácio, Adalberto, que herdou o compromisso em 846. Os sarracenos permaneceram donos de algumas bases na ilha pelo menos até 930. A Córsega, que nesta altura era unida ao reino de Berengário II, rei da Itália, virou refúgio de seu filho Adalberto em 962, depois que Berengário perdeu o reino para Otão I, o Grande, coroado Rei de Itália em Pavia, em 951. Adalberto conseguiu manter o controle da Córsega e passou-a para o seu filho homônimo, que foi vencido pelas forças de Otão II. Determinou-se então a entrega da ilha à marca da Toscana, ficando o último Adalberto responsável pela Córsega. Nesta época surgiu uma anarquia feudal que viu explodir uma luta entre pequenos senhores locais ansiosos de expandir seus pequenos domínios. Entre estes aparecem os Condes de Cinarca, que se pretendem descendentes diretos de Adalberto e procuram expandir o domínio à ilha inteira. Tal vontade deu origem a batalhas que duraram por séculos: para pôr contraste às ambições dos feudatários, ainda no século XIV Sambuccio d`Alando se colocou à frente de uma Dieta que se opôs às pretensões deles, confinando os senhores na porção Sudoeste da ilha.

Esta receberá o nome de “Terra dos Senhores” (Pomonte) enquanto no restante da ilha se afirma definitivamente um regime que liga entre eles comuns autônomos (ao exemplo do modelo análogo que se aconteceu na Itália desde o século XI). Tal território receberá o nome de “Terra de Comuns” (Cismonte). A divisão durará até ao século XVIII e marcará significativas diferenças no desenvolvimento social, econômico e até linguístico entre as duas partes da ilha, com o Norte mais ligado à Itália e com uma língua mais parecida com a da Toscana. Do ponto de vista de organização, na Terra de Comuns, cada qual dos comuns mais importantes chefiando uma Piave (a paróquia principal) nomeavam através de sufrágio universal, incluindo as mulheres, os representantes chamados “Pais dos comuns”, responsáveis pela administração da justiça e da eleição dos presidentes deles, chamado podestà, que coordenava a operação. Os podestàs das várias Piaves, por sua vez, escolhiam os membros de um conselho superior, chamado “Conselho dos Doze”, responsável das leis e regulamentos estabelecidos na Terra de Comuns. Os “Pais dos comuns”, além disso, elegiam para cada Piave um Chefe, um magistrado responsável pela proteção e pela segurança da população, encarregado de garantir que os mais desfavorecidos não fossem explorados e que fosse mantida justiça para eles. Grande parte das terras dessa região eram consideradas de propriedade da coletividade comunal.

 A total abolição das propriedades comuns, promovida na segunda metade do século XIX pela França, trouxe consequências graves para a economia da Córsega. Em Cinarca (Terra dos Senhores), os barões feudais mantinham as suas prerrogativas, assim como aqueles que controlavam o Capo Corso, e juntos constituíam uma ameaça para o sistema em vigor na “Terra de Comuns. Para fazer frente, em 1020 os magistrados desta última pediram ajuda de Guglielmo Marquês de Massa (1160-1214) da família Malaspina, o qual, descendo na ilha, reduziu a ordem dos barões do Conde de Cinarca e estabeleceu na Córsega um próprio protetorado, para transmitir depois ao próprio filho. Em torno da metade do século XI, todavia, o Papado levantou, na base de documentos falsificados, uma doação por obra de Carlos Magno, o qual havia estabelecido ama reversibilidade do próprio domínio a favor da Santa Sede, a questão da própria soberania na Córsega.

Tal reivindicação achou grande consentimento na ilha, a começar pelo seu clero, e em 1077 os corsos se declararam súbditos de Roma. O papa Gregório VII (1073-1085), em auge da questão das investiduras com o Imperador Henrique IV, não tomou diretamente o controle da ilha, mas passou ao bispo de Pisa, Landolfo, que o encarregou de legado pontifício pela Córsega. Em seguida, o titular da cátedra arcebispal pisana passou a ser também Primado da Córsega (e da Sardenha). Catorze anos depois, o Papa Urbano II (1088-1099) confirmou as concessões do seu predecessor através da bula Nos Igitur. O título de legado pontifício passou então a Daiberto, instalado na cátedra de Landolfo. A assinação como sufragânea dos bispados corsos fez com que o bispo de Pisa assumisse o título de arcebispo. Pisa, com o seu porto, mantinha por séculos (desde a época romana) estreitos ligações com a ilha, expandindo - ao mesmo tempo que a própria potência marítima crescia - a própria influência política, cultural e econômica. Durante a administração episcopal seguiu inevitavelmente a autoridade política dos Juízes da República toscana, destinada em breve tempo a fazer reflorescer a Córsega e marcar profundamente também depois de substancial perda de controle da ilha em seguida a desastrosa derrota sofrida pelos pisanos nas mãos dos genoveses, na Batalha da Meloria em (1284). Apesar de que na atualidade em geral se julgue positivamente o governo da República de Pisa, não faltaram na Córsega motivos de descontentamento.

Parte do clero e dos bispos da ilha não suportava a submissão ao arcebispo de Pisa, ao mesmo tempo que o poder crescente da República de Génova, rival tradicional de Pisa, sabendo do valor estratégico da Córsega, apoiou às reclamações dos corsos no tribunal papal de Roma para obter a ilha em próprio favor. Deste modo, depois de um período durante o qual o papado não adotou uma posição clara, em 1138 Papa Inocêncio II estabeleceu uma solução de compromisso e dividiu a jurisdição eclesiástica da ilha entre os arcebispos de Pisa e de Gênova, assinando o começo da influência lígure na Córsega, sendo ainda mais forte depois de 1195 com a ocupação genovesa de Bonifácio. Os pisanos tentaram por vinte anos, sem sucesso, de recapturar a cidade, até que em 1217 o Papa Honório III tomou o controle da ilha. Porém, a mediação papal não serviu para cessar a briga entre Pisa e Gênova, e com a influência deles, fez repercutir durante todo o século XIII também na ilha a briga entre guelfos e gibelinos que estava acontecendo em toda a Itália. No ambiente desta briga e que já tinha acontecido e que se repetiria muitas vezes mais tarde favorecendo os domínios, os maiorais da Terra de Comuns invocaram a intervenção do marquês Isnardo Malaspina. Os pisanos reagiram estabelecendo um novo conte de Cinarca, e a guerra invadiu a ilha sem que nem o partido genovês nem o pisano puderam ser impostos definitivamente até a batalha de Meloria 1284, inclinado a balança a favor de Gênova que, a partir daquele momento, estendeu a sua influência na Córsega.

A memória da influência pisana permaneceu na toponímia e na onomástica ainda são muito difundidos na Córsega sobrenomes de origem toscana, no idioma local bem toscano principalmente na região de Bastia e de Capo corso e em alguns dos exemplos mais notáveis de arquitetura românica que permaneceu na ilha, igrejas e edifícios públicos: em todas as catedrais de Nebbio, Mariana, San Michele di Murato, San Giovanni di Carbini, Santa Maria Maggiore di Bonifacio, San Nicola di Pieve e de infraestruturas de rodovias, pontes, fortificações e torres. Contudo, até mesmo depois do começo do domínio genovês, Pisa manteve intensas relações com a Córsega, como é demonstrado empiricamente no corpus documental abundante relativo à Córsega que está na Cúria de Pisa, a qual anexara uma escola para seminaristas corsos durante muito tempo. Pouco conhecido, embora significante, é o fato de o Nielluccio, um dos vinhedos mais difundido na ilha semelhante ao Sangiovese da Toscana, a base do vinho corso Patrimônio, ter sido importado pelos pisanos no século XII. Durante aquele tempo ganha também prestígio na Córsega o toscano vulgar, que passa a ser a língua oficial. Pisa também será a primeira da sede universitária seguida por Roma e Nápoles frequentada por corsos. 

Estudaram em Pisa Carlo e Giuseppe Bonaparte, Antonmarchi, médico em Santa Helena de Napoleão, o poeta Salvatore Viale, o higienista Pietrasanta, o doutor de Napoleão III vindo a ser, nos casos de Angeli, Farinola, Pozzo di Borgo e outros a formar parte do corpo educacional e reitoral da extraordinária Universidade de Pisa. Em 12 de junho de 1295, para complicar ainda mais a situação na Córsega, depois da derrota dos pisanos na batalha de Meloria que fez estes perderem o controle da ilha, interveio o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), investindo em favor do rei Jaime II de Aragão (insinuado na briga pela Reconquista) e soberano do novo Reino de Sardenha e Córsega (Tratado de Anagni). Porém, os aragoneses não decidiram atacar a Sardenha até 1324, acabando assim com qualquer desejo dos pisanos de controlar o norte de Sardenha e da Córsega. Durante aquele tempo a Córsega continuou em uma situação de anarquia até 1347, tempo em qual foi convocada uma grande assembleia de Líderes e Barões que, guiada por Sambucuccio de Alando, decidiu-se ficar sob a proteção de Génova e oferecer à república lígure a soberania total na ilha que seria exercitada por meio de um governador. De acordo com esta oferta, a Córsega pagaria tributos regulares a Génova, que em troca ficaria com o custo de proteger a ilha dos ataques repetidos de piratas que continuarão de um modo descontínuo até o século XVIII e garantiria a manutenção das leis corsas e de suas estruturas e alfândegas de governo autônomo local que foi regulado pelo Conselho dos Doze em Cismonte, e para o Conselho dos Seis em Pumonte. Os interesses insulares seriam representados por Génova através de um Oratore.

Naquele tempo toda a Europa estava sendo afetada pela Peste negra que também chegou na Córsega e causou numerosas vítimas no mesmo momento no qual a supremacia genovesa foi afirmada. O acordo entre os Líderes e Barões foi violado e tanto uns como os outros mantiveram conflitos que afetaram a colocação efetiva do domínio genovês na Córsega. Nesta situação o rei Pedro IV de Aragão reivindicou os direitos de soberania da ilha. Então, o Barão Arrigo della Rocca, Conde de Cinarca, aparece em cena, e com o apoio das tropas aragonesas em 1372 assume o controle quase total da ilha, deixando apenas o extremo norte e algumas fortificações marinhas sob controle genovês. Esta vitória levou os Barões do Capo corso a pedir ajuda novamente a Génova, que pensou resolver o problema investindo na ilha uma companhia comercial chamada Maona, formada por cinco pessoas com tentativa de subornar Arrigo, ainda que sem resultados. A Maona especialmente era um consórcio de comerciantes por vezes de caráter familiar que Gênova usou entre os séculos XIII e o século XV, com as funções de governo também nas colônias orientais. Entre as primeiras Maonas esteve a da ilha de Quios, no Egeu, instituída em 1347 e entre os sócios originou a família nobre famosa genovesa dos Giustiniani. Ao continuar as tensões, em 1380, quatro dos cinco sócios da Maona resignaram a Gênova os cargos, deixando Leonello Lomellino a exercitar a função de governador. Com tal cargo, Lomellino fundou, em 1383, a cidade de Bastia, dedicado a transformar o núcleo mais importante do domínio genovês e capital da ilha até a mudança para Ajaccio, depois da invasão francesa no século XVIII.

  

Foi somente em 1401, depois da morte de Arrigo, que a autoridade genovesa foi formalmente restabelecida na ilha, embora Génova naquela época tenha caído nas mãos dos franceses: entre 1396 e 1409, Carlos VI da França foi senhor da República de Génova, que administrou por meio do governador Jean II Le Meingre (1366-1421) chamado Boucicault. Sob o governo destes, em 1407, foi fundado o Banco di San Giorgio, um consórcio potente de credores privados os quais foi dada a administração das rendas do Estado e o governo de numerosas terras e colônias, entre elas a Córsega. Então, Lomellino foi reenviado a Córsega em 1407 como governador por conta de Carlos VI da França e teve que enfrentar Vincentello d`Istria que, depois que obter privilégios da Coroa de Aragão, tinha sido declarado Senhor de Cinarca e tinha contido ao redor sim a Terra de Comuns Bastia incluída, se proclamou Conde da Córsega em 1405. Os esforços de Lomellino não tinham êxito e em 1410 Gênova que tinha recuperado a Independência só controlava Bonifácio e Calvi. Uma revolta interna acabou com a Independência virtual da Córsega: a revolta de um feudatário e do bispo de Mariana fez Vincentello perder o controle da Terra de Comuns e, enquanto ele foi para Aragão para pedir ajuda, os genoveses poderiam completar a reconquista da ilha inteira. 

Porém, o jogo complexo de alianças e inimizades locais não permitiu que esta reconquista fosse durável. A colocar a situação novamente em movimento foi o Cisma do Ocidente e a briga para a investidura papal que acontece em torno ao último papa de Avinhão, Bento XIII, apoiado pelos bispos corsos favoráveis a Génova por um lado, e pelo antipapa João XXIII, apoiado por aqueles favoráveis a Pisa. Vincentello que conseguiu desembarcar na ilha com uma força militar aragonesa, não acha grandes obstáculos e tira proveito das rivalidades cruzadas para assumir o controle facilmente de Cinarca e de Ajaccio. Depois de se aliar com os bispos a favor dos pisanos, aumentou sua influência na Terra de Comuns e construiu o castelo de Corte: em 1419 a influência genovesa na ilha tinha sido novamente reduzida aos núcleos de Calvi e Bonifácio, enquanto Vincentello, com o título de Vice-rei da Córsega, estabelecia a partir de 1420 a sede de seu governo em Biguglia. Nestas circunstâncias, Afonso V de Aragão apresentou-se com uma grande frota no mar da Córsega, com o objetivo de tomar posse pessoalmente da ilha para que passasse a fazer parte do Reino de Sardenha e Córsega. Depois da queda de Calvi, Bonifácio, cidade que sempre teve grande influência genovesa seguiu resistindo animada pelas intrigas dos partidários de Gênova. Durante esse período de tempo, a resistência de Bonifácio fez com que os sitiadores acabassem com o bloqueio da cidade, que, uma vez obteve a confirmação de seus privilégios, se tornou de facto numa espécie de microrrepública independente sob proteção dos genoveses. Pouco depois, o descontentamento devido aos elevados impostos fez estourar uma revolta geral contra Vincentello, que, numa tentativa de se dirigir à Sicília, acabou restando prisioneiro e, conduzido a Gênova como rebelde e traidor, foi decapitado em 27 de abril de 1434.

A luta entre as facções pró-genovesas e pró-aragonesas prosseguiu na ilha, e o Doge genovês Giano di Campofregoso recuperou o controle da Córsega, apoiando-se na maior capacidade artilheira (1441). Com motivo de dita reconquista funda-se e fortifica a cidade de San Fiorenzo (1440). A reação aragonesa levou a luta ao seu ponto culminante. Em 1444 desembarcou na ilha um exército pontifício de 14 000 homens, enviada pelo papa Eugênio IV. Este exército, no entanto, foi derrotado pelas milícias corsas controladas por Rinuccio da Leca, encabeçando uma união que reunia quase todos os Chefes e Barões locais. No entanto, uma segunda expedição saiu vitoriosa, e o próprio Rinuccio morreu em batalha na frente de Biguglia. O ano de 1447 pode considerar-se crucial para o controle genovês da Córsega. Neste ano acede à cadeira papal Nicolau V, natural de Sarzana, na região lígure, e por isso ligado à República de Gênova. De modo imediato fez valer os direitos papais sobre a ilha (cujas principais praças estavam sob controle das tropas pontifícias) e cedeu-os a Gênova. Assim passou-se a um período em que a ilha passa a estar controlada amplamente pela República genovesa excetuando Cinarca, sob controle nominal dos aragoneses mediante o domínio mais concreto dos Senhores locais, e da Terra de Comunas, que mediante uma assembleia de seus chefes, em 1453 decidiu oferecer o governo de toda a ilha ao Banco de San Giorgio, a potente companhia comercial e financeira estabelecida em Gênova em 1407, que o aceita.

Uma vez expulsos os aragoneses de cujo passo pela Córsega ficará o emblema da Cabeça Moura, o Banco de San Giorgio começou uma autêntica guerra de extermínio contra os Barões insulares, cuja resistência organizada termina em 1460, quando os líderes são detentos e mandados ao exílio na Toscana. Ainda teriam de decorrer dois anos de lutas para conseguir submeter por completo a ilha, até 1462, em que o capitão genovês Tommasino da Campofregoso, de mãe corsa, fez valer com sucesso seus direitos familiares para reafirmar o controle total da República também no interior da ilha. Apenas dois anos depois, em 1464, Gênova, e com a Córsega, cai em mãos de Francisco I Sforza, duque de Milão. A sua morte, em 1466, a autoridade milanesa na ilha desvaneceu-se pelas habituais turbulências internas e, uma vez apenas as cidades costeiras permaneceram de modo efetivo sob a tutela das potências continentais. Em 1484 Tommasino da Campofregoso convenceu aos duques Sforza para que lhe confiassem o governo da ilha, conseguindo o controle das fortificações. 

Nesse tempo consegue consolidar o poder interno, aliando-se com Gian Paolo da Leca, o mais poderoso dos Barões insulares. Três anos depois a situação voltava-se a mover. Um descendente dos Malaspina, que já tinham tido relação com Córsega no século XI, Jacopo IV de Appiano, príncipe de Piombino, foi chamado para que interviesse em favor daqueles que se opunham a Tommasino, e assim o irmão do príncipe, Gerardo conde de Montagnano, se proclamou conde da Córsega e, depois de desembarcar na ilha, se apoderou de Biguglia e de San Fiorenzo. Mais que se opor a Gerardo, Tommasino restituiu discretamente as prerrogativas em favor do Banco de San Giorgio, que durante esse tempo refundou e fortificou Ajaccio (1492) perto do lugar da antiga Aiacium romana. A decisão de Tommasino foi criticada por outros membros de sua família e por Gian Paolo da Leca, com razão, já que em quanto o banco terminou com Gerardo, apontou suas armas contra os belicosos barões corsos, aos que não conseguiu submeter até 1511, e isto depois de longa e sangrenta luta. Durante seu governo, o Banco de San Giorgio demonstrou escassa visão política, optando por uma busca do benefício mais imediato em lugar de uma estratégia de integração, e instaurando desse modo um regime colonial.

Aumentou-se o desenvolvimento dos bosques, mas os principais benefícios eram para o Banco, que impunha à ilha umas taxas de tal magnitude que de fato impedia qualquer possibilidade de desenvolvimento local. Ao longo de toda a costa da ilha se reconstruíram e em grande parte se construíram ex novo torres de vigilância e defesa (muitas delas ainda existem hoje em dia) para dispor de um sistema de alerta contra as incursões dos piratas berberiscos, unido às patrulhas marítimas. Apesar de que não se eliminará do todo (permanecerá até o século XVIII), esta praga se controlou, ainda que mais para proteger os interesses econômicos coloniais que para brindar proteção à população corsa, que seguirá sofrendo as sangrentas incursões dos piratas, virtualmente impunes quando atuavam nas zonas de costa, que o banco considerava sem interesse estratégico e econômico. Em grande parte, as instituições locais (entre as que se distinguia por seu realmente avançado conceito político a organização da Terra de Comunas) foram abolidas ou esvaziadas de conteúdo e concorrências concretas. Os notáveis corsos nem sequer puderam gozar por completo dos direitos de cidadania, sem falar de aceder à oligarquia republicana genovesa, que por definição lhes estava fechada. As tentativas de rebelião foram geralmente reprimidas com grande dureza, utilizando com frequência o recurso à pena de morte; ou alternativamente aplicando o princípio de “divide et impera”, manejou habilmente, incitando-as quando era necessário batalhas ou inícios de guerra civil, utilizando esses desencontros para debilitar as forças e o moral dos senhores da ilha e, portanto, prevenir contra alianças que pudessem ocasionar um levantamento geral.

Desenvolveu-se a cultura da vendetta e do banditismo, que cresceram ao invés de acabarem. Tudo isto enquanto em Europa, e especialmente na vizinha Itália peninsular, florescia o Renascimento. Às desgraças políticas uniram-se epidemias de peste e o encarecimento do custo da vida que serviram para que o processo de empobrecimento e “embarbaramento” da ilha, além de exacerbar o ódio dos corsos para o domínio genovês. Durante a primeira metade do século XVI França, que se estava desenvolvendo como estado e potência europeia, começa a colocar os seus peões no Mediterrâneo pelo que manifesta interesse pela Córsega e por Itália. Neste quadro, Henrique II da França concebe um projeto para apoderar-se da ilha, aproveitando a torpeza da política dos genoveses e o ressentimento dos corsos enrolados nos exércitos franceses como mercenários. Depois de assinar em 1553 um tratado de cooperação com o sultão otomano Solimão, o Magnífico, o rei da França garantiu-se não só a neutralidade, senão também a colaboração da frota turca no Mediterrâneo. Só 18 anos depois, em 1571, o avanço turco para Europa deter-se-á na batalha de Lepanto com uma frota multinacional, ainda que dirigida principalmente por Espanha e Veneza, e na que França não participa.

Pouco depois da assinatura do tratado entre Francisco I da França e Solimão, a frota franco-turca apresentou-se ante a costa da ilha e atacou-a, sitiando ao mesmo tempo todas as fortalezas costeiras. Bastia caiu quase sem lutar, enquanto Bonifacio resistiu muito tempo e só cedeu ante a promessa à guarnição de respeitar a vida dos sitiados, promessa que os turcos incumpriram, já que uma vez a cidadela se rendeu toda a guarnição foi massacrada e a cidade saqueada. Cedo caiu toda a ilha, salvo Calvi que seguiu resistindo. Preocupado pela ação francesa, que abria decididamente as portas aos otomanos em pleno coração do Mediterrâneo ocidental, interveio o rei de Espanha e imperador de Alemanha, Carlos V, que a sua vez invadiu a ilha à cabeça de suas tropas e as de Gênova. Nos anos seguintes (os Turcos tinham desembarcado brevemente só em Bonifacio), alemães, espanhóis, genoveses, franceses e corsos lutaram ferozmente pelas fortalezas da ilha. Em 1556, data em que ocorre uma trégua, que deixava momentaneamente a França o controle de toda a ilha, salvo Bastia que, anteriormente tinha voltado a ser conquistada por genoveses e espanhóis. O governo francês conseguiu simpatias entre a população, também graças à ação dos corsos ao serviço da França, entre os que estava, com o grau de coronel, o mercenário Sampiero di Bastelica (1498-1567).

No entanto, em 1559, as conclusões da Paz de Cateau-Cambrésis dispuseram a restituição da Córsega ao Banco de San Giorgio. Os responsáveis do banco procederam imediatamente a impor duros impostos para tratar de ressarcir-se dos gastos de guerra, impostos que grande parte dos corsos se negaram ou estiveram em medida de pagar e, violando o tratado, que previa uma anistia general, procederam a confiscar todos os bens de Sampiero, de sua esposa Vannina d`Ornano (1527-1563), e de outros corsos que tinham servido ao lado da França. Sampiero, estabelecido em Provença, não se deu por vencido e começou a trabalhar para agrupar meio a ele uma parte significativa dos notáveis da ilha enfrentados a Gênova, enquanto paralelamente buscava apoios para seu projeto de separar a ilha da República de Gênova. Dirigiu-se com esse objetivo a Catarina de Médicis, então rainha regente da França depois da morte de seu marido durante os festejos de celebração da Paz de Cateau-Cambrésis (1559). Catarina negou-se a apoiar Sampiero, não querendo se implicar numa operação que reabrisse a longa guerra que acabara de terminar. Não teve mais sorte uma tentativa com Cosme I de Médicis, que queria apropriar-se da Córsega, mas pretendia fazer com ela só mediante tratados com as potências europeias, já que sabia que Toscana não estava em condições de desafiar abertamente aos genoveses.

Fracassada uma posterior tentativa de conseguir o apoio dos Farnésio de Parma, Sampiero, que tinha conseguido credenciais diplomáticas francesas, conseguiu ir pessoalmente ao Norte da África e Constantinopla para suplicar ao Sultão que interviesse para converter a Córsega em província otomana, o que demonstra bem até que ponto Gênova era odiada entre os corsos agrupados ao redor do antigo coronel dos franceses. A missão de Sampiero em Oriente terminou frustrada porque enquanto Cosme I, conhecedor dos projetos do corso para instalar à potência otomana justo em frente à costa toscanas, tinha advertido da iniciativa aos genoveses, cujos embaixadores se tinham adiantado a Sampiero e convencido aos ministros turcos para que recusassem a proposta. Enquanto Sampiero estava em Oriente, sua mulher, Vannina d`Ornano (1527-1563), dona de feudos confiscados por Gênova, tinha de recuperá-los buscando pessoalmente um acordo com a Serenísima República de Gênova. Ao ficar a saber Sampiero destas gestões ao regressar à França, não hesitou em reagir ante o que considerava uma sangrenta traição, matando a um amigo corso que tinha permanecido para cuidar a sua esposa e estrangulando pessoalmente a esposa e às duas damas de companhia que a cuidavam em sua ausência.

Sampiero reivindicou os homicídios como delito de honra debochando deste modo à justiça francesa. Levado por um grande entusiasmo e uma dose de desespero unida às suas vivências pessoais, desembarcou em julho de 1563 com um punhado de seguidores em Propriano, no golfo de Valinco, com o desejo de expulsar aos genoveses da ilha. Enquanto os genoveses uma vez conscientes do nefasto papel político desempenhado pelo Banco de San Giorgio na administração da Córsega, tinham decidido assumir o controle direto a partir de 1562, instalando um governador na ilha. Em muito pouco tempo Sampiero consolidou as alianças antes preparada consolidando um exército de 8000 homens, com o que levou a cabo uma sangrenta série de golpes de mão aos que o governo genovês se opôs tanto pelas armas como animando as rivalidades entre os notáveis ilhéus. Depois de anos de uma guerra caracterizada por uma extrema ferocidade por ambas partes, por matanças, saques, incêndios de colheitas e de populações, os genoveses explodindo o ódio dos familiares de Vannina conseguiram recrutar entre eles sicários que, em 1567 mataram Sampiero pelas costas e levaram sua cabeça ao governador de Gênova. O suposto nome do assassino de Sampiero, Vittolo passou assim a se converter em paradigma do traidor na fantasia corsa popular e ainda hoje guarda esse significado.

A luta prosseguiu durante algum tempo encabeçada por um juveníssimo filho de Sampiero, Afonso, mas os rebeldes corsos, sem a experiente liderança de Sampiero e sem recursos militares, se desanimaram e buscaram a paz, à que se chegou em 1569 com o pacto entre Afonso e o genovês Giorgio Doria. Se chegou também ao final da guerra graças a que, já nos últimos momentos da luta, Gênova parecia ter compreendido que a excessiva dureza mostrada na administração e na exploração da Córsega incitava seus habitantes a se rebelar ante as misérias infligidas, e tinha preparado uma política mais moderada e equilibrada para recuperar o apoio da população. O dispositivo de paz previa uma anistia e a libertação de reféns e prisioneiros, a concessão aos corsos de liberdade de movimento de e para Itália e liberdade para dispor diretamente seus bens, remissão e prorrogação fiscal de cinco anos. Ofereceu-se a Alfonso a restituição dos feudos de Ornano que, confiscados, estavam na origem da tragédia familiar, sempre que ele, junto a seus mais próximos colaboradores, se exilasse, como fez trasladando-se a França. Com intenção de pacificar a ilha de modo duradouro e reconhecer, além dos direitos mais básicos, elementos de autogoverno local significativos, em 1571 Gênova que se tinha voltado a ocupar diretamente da Córsega desde o final da administração do Banco de San Giorgio em 1562, instituiu os Estatutos Civis e Militares que, desde esse momento em adiante, regulariam, ao menos sobre o papel, o direito e a administração na ilha.

Sucessivamente emendados e ampliados, os Estatutos resultaram ser um bom instrumento institucional e, nas partes trasladadas à Constituição Paolina de 1755, seguirão parcialmente em vigor até a conquista francesa (1769). Desde o ponto de vista administrativo Córsega passou a depender a partir desse momento, de uma espécie de ministério especial com sede em Gênova, o Magistrado da Córsega, que rendia contas de suas atuações ante os máximos órgãos da República, a saber: o Maggior Consiglio e o Minor Consiglio. Na ilha residia um governador genovês, ajudado por um Vicário e pelo Conselho dos Doze Nobres, inspirado na instituição similar da Terra de Comunas. O território subdividiu-se em províncias, cada uma das quais chefiada por um comissário com sede em Bonifacio, Ajaccio e Calvi, ou um lugar tenente com sede em Corte ou Aleria, Rogliano, Algaiola, Sartena e Vico. As fortalezas nuns casos consertaram-se e em outros se consolidaram e ampliaram, além de dispor nelas guarnições mais sólidas que no passado. 

Se reorganizaram as Cortes de Justiça e foram dotadas de um complexo aparelho burocrático. A vida pública se reorganização sobre uma cuidada redefinição das comunidades rurais que passaram a ser o núcleo básico do território desde o ponto de vista institucional, fiscal e religioso, integrando a antiga rede das Pievi. Os povos, reunidos em parlamentos, elegiam periodicamente seus Podestás ou Pais do município, responsáveis das funções administrativas e de polícia local, mediante o cargo, também eletivo, de capitão da milícia. As comunidades governavam-se, pois, de modo bastante autônomo, sem intervenção da República, salvo casos excepcionais. Nos povos do interior da ilha esta liberdade de desenvolvimento foi tal que se criou uma classe de notáveis aos que se chamou Principais. Os atos, tanto privados como públicos, isto é, as eleições locais e Grida do governador, se transcreviam nos registros notariais, que eram remetidos de forma regular ao Cancelliere da sede provincial competente e durante um verdadeiro período as autoridades locais puderam enviar representantes próprios ao Governador ou, inclusive, às autoridades centrais em Gênova, para expressar exigências particulares, denúncias por abusos graves ou petições de ajuda em caso de calamidades como a seca. Subdividiu-se o território, desde o ponto de vista fiscal e produtivo, em círculos destinados a frutais e vinhas, tomadas, destinadas a semeia-as, e terras comuns, patrimônio coletivo das comunidades, destinadas a pastos, a cultivos de temporada e hortos, enfim, à coleta de frutos do bosque e da madeira.

Guardas florestais e juízes especializados preocupavam-se de velar por que se respeitassem os Estatutos no tratamento das terras. Definiram-se as leis civis e criminosas, bem como os impostos, que foram bem mais eficientes, apesar de seguir se baseando na talha (imposição direta) e na gabela como o escudo por bota para o vinho, as mermas para outros produtos, o boatico, venda forçada a preço reduzido de cevada e grão às guarnições estabelecidas na ilha e diversos monopólios (o mais importante o da saia) no que diz respeito à imposição indireta. As cidades costeiras, algumas das quais estavam povoadas em sua grande maioria por gente originaria de Liguria em especial Calvi, Bastia e Bonifacio, tinham diversos privilégios com respeito às localidades do interior como isenções fiscais, imunidades especiais), pelo que constituíam um mundo à parte. Sede dos governos provinciais, estas pequenas capitais desenvolveram um patriciado similar ao que se estava desenvolvendo nesse momento em Itália, se enriquecendo tanto com o comércio marítimo e com os benefícios derivados do exercício de funções administrativas unidas ao governo, como mediante os labores de exploração agrícola desenvolvidas nas zonas do interior mais próximas. A classe do patriciado, chamados os Nobres, ainda que em realidade tratava-se de uma burguesia urbana, controlava o mercado do cereal é, o da pesca, o dos empréstimos e o dos artesãos e manufaturas locais.  

Serão precisamente os membros desta classe estamental os que, sempre desejosos de ter maior prestígio e riquezas, encabeçarão no século XVIII a rebelião popular e constituirão a fonte da Córsega independente de Pasquale Paoli (1725-1807), e a seguir o primeiro elemento de legitimação local dos governos franceses. A República, tanto durante o século XVII como no XVIII, recuperou as melhores ideias do Banco de San Giorgio para melhorar o cultivo de cereais nas regiões litorais, o cultivo da oliveira, especialmente em Balagna e o aproveitamento florestal em especial os castanheiros de Castagniccia. A rede de estradas da ilha ampliou-se e melhorou alguns das pontes genoveses ainda seguem em uso, ao mesmo tempo que especialmente no Cismonte e em todas as cidades da costa teve lugar uma intensa atividade de urbanização e reestruturação de edifícios que caracterizou muitos centros históricos cujo aspecto hoje segue marcado pela forte influência do estilo lígure e barroco deste período. Na costa reforçou-se o dispositivo das torres de vigilância e defesa, devido ao recrudescimento das incursões berberiscas, que foram especialmente frequentes e destrutivas nas duas décadas que seguiram à derrota dos turcos em Lepanto em 1571. Isto é normal, já que a pirataria vinha a encher o vazio deixado pela impossibilidade de aceder de outro modo às riquezas que antes dispunham através do comércio e não era acessível devido à derrota de sua frota.

As consequências destas duas décadas de ataques, muito bem documentados e distribuídos ao longo da costa da ilha, foram desastrosas e ocasionaram o despovoamento de muitas zonas nas planícies, num êxodo que não se conhecia desde séculos antes. Como exemplo pode-se citar o caso de Sartena. Em 1540 esta região tinha onze centros maiores que no final de século ficaram abandonados em sua totalidade, se exceptuamos a própria Sartena, que teve que se fortificar e constituiu assim refúgio para toda a população circundante até o século XVIII em que, uma vez passado o perigo, puderam ressurgir os centros menores. Nesse mesmo período a ilha padeceu duas epidemias de peste que constituíram mais adiante um grave obstáculo para poder levar a cabo os planos de desenvolvimento preparados pela República, que apesar de estar bem concebidos sobre o papel não tiveram o sucesso realmente esperado. As dificuldades econômicas mantiveram a emigração dos corsos, que buscaram politicamente falando fortuna no continente, quando muitos servindo como militares ao serviço das potências estrangeiras, desafiando a proibição que nessa linha emitia Gênova, preocupada por esta sangria que dificultava seus planos de desenvolvimento e despovoava os campos. Ademais, dita preocupação estava justificada pela diminuição de erário dos rendimentos fiscais devido à falta de desenvolvimento. Esta míngua nos rendimentos era muito preocupante devido aos problemas financeiros da República, que se tinha arriscado a financiar à coroa da Espanha que, durante o século XVII, deixou de pagar os importantes empréstimos concedidos pelos genoveses nos prazos estipulados, chegando inclusive a se declarar insolventes.

Estas dificuldades minguaram a capacidade econômica de uma República genovesa, já diminuída pela progressiva perda de todas suas colônias orientais a mãos dos turcos e da diminuição do volume de seu comércio com o Levante, devido à concorrência dos franceses, que se uniu a partir do século XVI, à já tradicional concorrência exercida pela República de Veneza. Além de restabelecer a proibição formal de emigrar, imposta de novo aos corsos apesar do que se estabelecia nos Estatutos, Gênova tratou de todos os modos possíveis de impulsionar a revalorização das terras da ilha, instituindo também com esse objetivo a figuração do Magistrado do cultivo e elaborando planos de desenvolvimento que no entanto resultaram ineficazes em sua maior parte, mas de cuja qualidade geral dá depoimento o fato de que bem mais tarde serão copiados pelos franceses em planos similares por outra parte, também ineficazes durante muito tempo. Um dos pontos débeis desses planos se devia ao fato de que se baseavam, mais que sobre a questão da atuação na esfera do Estado que, em contrapartida, tinha dificuldades por seus problemas econômicos, sobre a iniciativa privada mediante um complexo sistema de feudos e enfiteuse que longe de iniciar uma dinâmica positiva acabou erodindo as terras comuns impedindo a disponibilidade plena às comunidades locais e favorecendo o lucro de alguns Principais e Nobres sem que a coletividade tivesse vantagem alguma.

Este fenômeno de expropriação e empobrecimento das comunidades corsas em benefício dos terratenentes ricos se acelerará quando este esquema seja proposto de novo pelos franceses, e acabará ocasionando danos sociais enormes e que desencadearão das rebeliões que, durante meio século, se deram na Córsega depois da ocupação francesa, e que ocasionarão o fenômeno que passará à história social como Banditismo. Neste quadro se implanta a chegada de algumas centenas de gregos originários da Lacônia a região meridional do Peloponeso fugindo do domínio otomano. Depois de dar, com problemas, o consentimento do primado pontifício estes prófugos instalaram-se em 1676 nas terras costeiras a uns 50 km ao Norte de Ajaccio. Na região, telefonema Paomia, os gregos fundaram uma colônia em Cargese que, depois da ocupação francesa, manteve quase até nossos dias seu idioma e algumas tradições originarias, incluindo o rito religioso oriental. O sucesso frustrado dos planos genoveses de desenvolvimento, que acabou por propor a questão agrícola cujas consequências se fazem sentir até nossos dias, no contexto de uma economia ainda marcada por uma exploração substancialmente colonial e de restrição progressiva na prática das escassas liberdades de que gozavam os corsos, considerados de fato súbditos e não cidadãos da República, acabou ocasionando uma crise que se parecia levar a Córsega à ruptura definitiva com Gênova, primeiro de modo gradual e imperceptível, e finalmente com a explosão da revolta a partir de 1729. A longa história dos conflitos e violências que caracterizou a Córsega a partir ao menos da queda do Império Romano, tinha acostumado a seus habitantes a considerar a guerra algo habitual e tinha fato do oficio das armas uma das principais atividades exercidas pelos corsos expatriados para os estados italianos e em muita menor medida para França desde a Idade Média até a Idade Moderna. Percorrendo atenciosamente a lista de nomes dos capitães mercenários italianos, pode-se observar que muitos deles eram originários da Córsega e que, em alguns casos, contavam com batalhões inteiros de corsos.

Entre os destacamentos militares integrados em sua totalidade por corsos que operaram fora da ilha destaca a Guarda Corsa papal, que exerceu suas funções durante vários séculos. Apesar da pouca fiabilidade dos documentos, normalmente data-se em 1378, coincidindo com o final do cativeiro de Avinhão, a fundação em Roma de um corpo militar composto exclusivamente por corsos com funções de Guarda Pontifícia e de milícia urbana. Não parece que tenha documentos que certifiquem a criação deste corpo militar antes, apesar da presença de uma significativa colônia corsa em Porto (Fiumicino) e depois no Trastevere quando a igreja de San Crisogono foi basílica sepulcral dos corsos, certificada ao menos desde o século IX e de fato socialmente não se pode excluir uma presença organizada de milícias corsas no seio os exércitos papais inclusive muito antes do século XIV, considerando o importante vínculo extraordinário entre Córsega e Roma, cidade da que dependeu a ilha formalmente a partir do século VIII e até sua definitiva entrada na órbita genovesa. A Guarda Corsa que estará ao serviço do Papa durante quase três séculos e precederá em quase 130 anos à instituição em 1506 da Guarda Suíça. Seu final chega depois de um incidente ocorrido em Roma em 20 de agosto de 1662 e é um dos indícios de que os franceses têm a cada vez mais influência na Itália. Em meados do século XVII a presença em Roma de numerosas delegações diplomáticas dos Estados tinha acabado por criar uma situação paradoxal, com respeito às potências maiores, que abusando do conceito de extraterritorialidade, tinham dotado suas embaixadas de autênticas guarnições militares que se moviam armadas por toda a cidade, e levado à transformação de zonas inteiras do centro da cidade em zonas francas, nas que os delinquentes e assassinos de todo tipo encontravam refúgio e impunidade.

O Papa Alexandre VII tratou de remediar estes excessos. O rei da Espanha e os representantes do Império aceitaram reduzir suas milícias, mas o rei da França Luís XIV, em mudança, mandou a Roma o seu primo Carlos III, duque de Créqui, como embaixador extraordinário com uma escolta militar reforçada, que pouco tempo depois teve um grave confronto perto da Ponte Sixto com alguns membros da Guarda Corsa, que patrulhavam as ruas de Roma, especialmente grave porque, inclusive, os militares sem serviço no quartel tentaram assaltar o vizinho Palácio Farnese, sede da embaixada da França, exigindo a detenção dos militares franceses responsáveis do incidente. Produziram-se disparos, no momento em que regressava ao Palácio Farnesio, a esposa do embaixador com numerosa escolta militar. Um pajem da senhora de Créqui foi ferido de morte e Luís XIV aproveitou-se para explorar ao máximo o conflito com a Santa Sé que se tinha iniciado com o governo do Cardeal Mazarino (1602-1661). O Rei Sol retirou de Roma o seu embaixador, expulsou da França o embaixador do Papa, anexou os territórios pontifícios de Avinhão e ameaçou seriamente com a invasão de Roma se o Papa não lhe apresentasse desculpas e não se submetesse a suas petições, que compreendiam a imediata dissolução da Guarda Corsa, a emissão de um anátema contra seu país, o encarceramento como represália de verdadeiro número de militares e a condenação como galeotes para outros muitos, o cesse do Governador de Roma e a construção cerca do quartel da Guarda de uma coluna de infâmia e maldição para os corsos que se tinham atrevido a desafiar a autoridade francesa. Num primeiro momento, o Papa opôs-se e tratou de ganhar tempo, mas a real possibilidade de uma intervenção do exército francês em Roma fez que cedesse. Dissolveu-se a Guarda Corsa para sempre e se encarcerou a alguns de seus membros, foi erguido o monumento infamante, e se desterrou de Roma ao governador. Em fevereiro de 1664 os franceses restituíram os territórios de Avinhão e em julho, em Fontainebleau, o sobrinho do papa, Flavio Chigi, foi obrigado a humilhar-se e a apresentar desculpas de Roma ao rei da França, que quatro anos depois deu permissão para destruir a coluna infamante. Nas negociações Luis XIV tinha visto como ampliar sua influência em Itália, convertendo-se em protetor de alguns príncipes italianos ao obrigar ao Papa, sempre no contexto dos desagravos pelo assunto da Guarda, a devolver Castro e Ronciglione ao Duque de Parma e a indenizar ao Duque de Modena por seus direitos sobre Comacchio.

Bibliografia Geral consultada.

HOBSBAWM, Eric, I Banditi. Il Banditismo Sociale nell`Età Moderna. Roma: Einaudi Editore, 1971; EMANUELLI, René, Gênes et l`Espagne dans la Guerre de Corse (1559-1569). Paris: Editeur Auguste Picard,1964; CARRINGTON, Dorothy, “The Corsican Constitution of Pasquale Paoli (1755–1769)”. In: The English Historical Review, 1973; ARRIGHI, Paul; POMPONI, Francis, Histoire de la Corse (coll. Que Sais-je? 262). Paris: Presses Universitaires de France,1967; Idem, “Le Gouvernement de Louis XVI offre à la République de Gênes la Rétrocession de la Corse (1790)”. In: Annales Historiques de la Révolution Française, vol. XLVII, 1974; ACQUAVIVA, Sabino, La Corsica: Storia di un Genocidio. Milano: Franco Angeli, 1987; MELLO, José Roberto, O Império de Carlos Magno. São Paulo: Editora Ática, 1990; WEIKART, Richard, Friedrich Engels: Evolution and the Dialectics of Nature. Socialist Darwinism: Evolution in German Socialist Thought from Marx to Bernstein. San Francisco; London: International Scholars Publications, 1999; ROCARD, Michel, “Corse: Jacobins, ne tuez pas la paix!”. In: Le Monde. Paris, 2000; MAZARINO, Giulio, Breviario dei Politici. Torino: Editore Marco Valerio, 2005; SERPENTINI, Antoine-Laurent (dir.), Dictionnaire Historique de la Corse. Paris: Éditeur‎ Albiana, 2006; BASCHET, Jérôme, A Civilização Feudal: do ano 1000 à colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006; HANN, Bertrand, L`Amitié entre Princes: Une Alliance Franco-Españoles au Temps des Guerres de Religion (1560-1570). Paris: Presses Universitaires de France, coll. Le Nœud Gordien, 2010, VI-324; LE CLECH, Sylvie, Femmes de la Renaissance: Elles Ont Lutté Pour Leur Liberté. Paris: Éditeur Tallandier, 2021; COLOMBIANI, Philippe, “La Corse Médiévale - Relations entre les Corses et la Couronne d`Aragon - Intervista”. Disponível em: https://podcast.ausha.co/dinastia-podcast/13/10/2024; CASTILJHO, Fernando Moreno; MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira, “Darwin, a Ascendência do Homem e Suas Relações com os Macacos Antropomórficos”. In: Khronos. Revista de História da Ciência, nº 20, janeiro de 2026; entres outros.

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