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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Ilha Fantasma – Iluminismo Escocês & Ruptura, Experiência de Sonhos.

           Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. Sigmund Freud

         Escócia é um dos países do Reino Unido e cobre o terço Norte da ilha da Grã-Bretanha. Ele compartilha uma fronteira com a Inglaterra ao sul e outra, formada pelo oceano Atlântico, com o mar do Norte a Leste e com o canal do Norte e o mar da Irlanda a Sudeste. Scotland vem de Scoti, o nome latino para os gaels. A palavra latina Scotia` (“terra dos gaels”) era utilizada para se referir à Irlanda (cf. Dorneles, 2015). Até o século XI, o termo Scotia foi usado para se referir a Escócia ao norte do rio Forth, juntamente com os termos Albania ou Albany, ambas derivadas do gaélico Alba. O uso das palavras Escócia para se referir a tudo o que é agora o território escocês tornou-se comum durante a Idade Média. Além do continente, o país é composto por mais de 790 ilhas, incluindo as Ilhas do Norte e as Hébridas. Edimburgo, a capital e segunda maior cidade do país, foi o centro do Iluminismo Escocês do século XVIII, que transformou a Escócia em uma das potências comerciais, intelectuais e industriais da Europa. Glasgow, maior cidade, já foi um dos polos industriais mais importantes do mundo. As águas territoriais escocesas consistem em um grande setor do Atlântico Norte e do mar do Norte, região que contém as maiores reservas de petróleo da União Europeia. Isso tem dado a Aberdeen, a terceira maior cidade do país, o título de capital do petróleo da Europa. O Reino da Escócia emergiu como um Estado na Alta Idade Média a existir até 1707. Por herança, em 1603, o rei James VI da Escócia se tornou rei da Inglaterra e da Irlanda, com a delicada união pessoal entre os três reinos.  O Iluminismo Escocês (Scottish Enlightenment) refere-se ao período de transição, no século XVIII, na Escócia, caracterizado por um extraordinário aparecimento de intelectuais e obras científicas, rivalizando com qualquer outra nação, em qualquer momento sendo uma base economicista fundante deste pensamento. 

         O que tornou ainda mais notável foi que ela teve lugar num país que estava entre os mais pobres e era considerado um dos mais atrasados da Europa Ocidental, antes dessa data. Na Weltanschauung de Hugo Cerqueira (2004), o cenário escocês no período histórico de transição entre a pré-modernidade e o mundo moderno carregou suas particularidades. Na Escócia, segundo as análises kantianas, o Iluminismo trouxe características como a autonomia do sujeito, a preocupação com o esclarecimento e a educação. O autor compreende que não há ruptura do Iluminismo inglês, não sendo prudente “desconsiderar a presença de particularidades significativas, seja no que diz respeito às origens do movimento, seja no que tange a seu significado, sua motivação e suas características”. Diferente da esfera continental, contradictio sine qua non a versão escocesa, não se opunha aos valores do cristianismo e à religiosidade como um todo. A Igreja Católica na Escócia é parte da Igreja Católica universal, sob a liderança do Papa e da Santa Sé. Apesar de existirem outras denominações cristãs na Escócia, como a Igreja da Escócia (presbiteriana), a Igreja Católica na Escócia mantém sua identidade como parte da Igreja Católica Romana. A história da igreja na Escócia tem suas particularidades, incluindo períodos de influência e conflitos com outras tradições religiosas, mas a ligação com a Igreja Católica universal sempre foi mantida, com exceção de alguns períodos em que houve rompimento com Roma. Estabelecida na Escócia por quase um milênio, a Igreja Católica foi banida após a Reforma Escocesa em 1560. Em 1° de janeiro de 1801, os reinos da Grã-Bretanha e da Irlanda uniram-se para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Em 1922, o Estado Livre retirou-se, por meio de secessão, do Reino Unido, forçando a renomeação deste para Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em 1927.

         A Emancipação Católica, em 1793 ajudou católicos a recuperar os direitos civis, que eram negados a eles pelo governo protestante. Em 1878, ocorreu a restauração da hierarquia católica escocesa. Ao longo dessas mudanças, vários bolsões na Escócia mantiveram uma população católica anterior à Reforma, incluindo partes de Banffshire, Hébridas e partes ao Norte das Terras Altas da Escócia. Em 1716, o Seminário de Scalan foi estabelecido nas Terras Altas e reconstruído na década de 1760 pelo bispo John Geddes (1735-1799), uma figura popular em Edimburgo no período do iluminismo. Quando Robert Burns escreveu a um correspondente que “o primeiro [isto é, o melhor] personagem clérigo que eu já vi era um católico romano”, ele estava se referindo a Geddes. O Gàidhealtachd tem sido católico e protestante nos tempos modernos. Um número de áreas gaélico-escocesas na atualidade é principalmente católico, incluindo Barra, South Uist e Moidart. O poeta e romancista Angus Peter Campbell, um premiado poeta, romancista, jornalista, radialista e ator escocês escreve frequentemente sobre a Igreja Católica em seus trabalhos. Para alguns pensadores sociais, como Hugh Trevor-Hoper (1914-2003) e John Robertson (1768-1843), as reflexões do esclarecimento escocês, centradas nas atividades de intelectuais, estariam ligadas às temáticas pertinentes à filosofia moral, à história, à economia política,  afastando-se das discussões temática em torno das ciências sociais com as ciências naturais, per se direcionando o pensamento para a defesa do progresso social.      

Por outro lado, como nas concepções de Nicholas Phillipson (1836-1916), Roger Emerson (1934-2025) e Paul Wood, a física, a química e a medicina também teriam feito parte das discussões centrais de formação ilustrada da Escócia. Mais do que isso, alertam para a importância das características, do método e dos conceitos das ciências naturais para refletir sobre o comportamento social humano. O caráter de florescimento intelectual escocês, em áreas como a economia, a história, a filosofia moral, a geologia, a astronomia, a química, a arquitetura e as artes acontecem como uma reação à crise econômica e ao novo quadro de dependência política com a Inglaterra. O esclarecimento surge para os escoceses como parte de uma forma de superação do novo caráter sujeito do Estado. Além das reformulações curriculares feitas nas universidades escocesas a partir da Revolução Gloriosa, um evento ocorrido na Inglaterra entre 1688 e 1689, que resultou na deposição do rei Jaime II e na ascensão de Guilherme de Orange e Maria II ao trono, sem grande derramamento de sangue. Este acontecimento marcou o fim do absolutismo na Inglaterra e o início de uma monarquia constitucional, onde o poder do monarca era limitado pelo Parlamento, o que é importante na medida em que no final do setecentos, quando passa a ser adotada uma postura educacional voltada a constituição de valores sociais julgados como mais benéficos à formação humana.

E nesse sentido, “a rejeição dos padrões e modelos adotados pelo aristotelismo e pela escolástica abriu espaço para uma nova compreensão do papel e do sentido da busca do conhecimento”. Importantes intelectuais associados ao Iluminismo Escocês foram, entre outros: Francis Hutcheson (1694-1746), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), Thomas Reid (1710-1796), Robert Burns (1759-1796), Adam Ferguson (1723-1816), e James Hutton (1726-1797). Os Atos de União de 1707 com a Inglaterra significou o fim do Parlamento da Escócia e o autogoverno autônomo. Os parlamentares, políticos e aristocratas se mudaram para Londres. A lei escocesa, no entanto, foi totalmente separada da lei inglesa, de modo que as cortes de direito civil, advogados e juristas ficaram para trás, em Edimburgo. A sede e a liderança da Igreja Presbiteriana também se mantiveram, assim como as universidades e os estabelecimentos médicos. Os advogados e os teólogos, em conjunto com os professores, intelectuais, os médicos, cientistas e arquitetos formaram uma nova elite de classe média que dominou Escócia urbana e facilitou o Iluminismo Escocês. A Escócia entrou numa união política com a Inglaterra em 1° de maio de 1707 para criar o novo Reino Unido da Grã-Bretanha.

A união também criou o novo Parlamento da Grã-Bretanha, que sucedeu ao Parlamento da Escócia e o Parlamento de Inglaterra. O Tratado de União foi acordado em 1706, promulgado pelo Tratado de União de 1707, tendo sido aprovados pelos parlamentos de ambos os países, apesar de algumas revoltas populares e da oposição Antiunionista em Edimburgo, Glasgow e em outros lugares. A Grã-Bretanha posteriormente entrou em uma união política com a Irlanda em 1° de janeiro de 1801, para criar o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. O sistema jurídico escocês manteve-se separado da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte, sendo que “a Escócia constitui uma jurisdição distinta no direito público e privado dentro do reino”. A existência de instituições jurídicas, educacionais e religiosas distintas das do resto do Reino Unido têm contribuído para a sobrevivência da cultura e da identidade nacional escocesa desde a união em 1707. Dois séculos depois, após um referendo em 1997, um Parlamento Escocês foi restabelecido, desta vez como uma legislatura devolvida com autoridade sobre muitos temas internos. O Partido Nacional Escocês, que apoia a independência do país, ganhou uma maioria absoluta nas eleições gerais de 2011. Um referendo realizado em 18 de setembro de 2014 rejeitou a separação do país do Reino Unido por uma maioria de 55% dos votos, com um comparecimento às urnas de 85%.

Assombrado pela morte recente de sua esposa grávida, Eric se muda para uma ilha remota escocesa, completamente sozinho, com exceção de seu cão dedicado. No entanto, um espectro malévolo e visões cada vez mais violentas logo o levam à beira da loucura. O filme Ilha Fantasma (2021) foi filmado em várias locações na Escócia, com destaque para a região marítima de Argyll e Bute, a segunda maior Council Area da Escócia, perdendo apenas para Highland. O filme explora a jornada de Eric Black, que, após a morte trágica de sua esposa grávida, Rachel, busca refúgio e respostas em paisagens remotas e desafiadoras, onde a atmosfera sombria e misteriosa da história se intensifica. Além de Mull, outras locações na região de Argyll e Bute também foram utilizadas, como a costa e áreas rurais, que oferecem cenários variados para a narrativa. A escolha dessas locações contribuiu para a atmosfera sombria e isolada do filme, refletindo o estado emocional do protagonista e a busca por respostas em um ambiente selvagem e misterioso. Junto com suas ilhas, cobre uma área de mais de 4800 km de costa e tem como sede/capital a cidade de Lochgilphead. A cidade foi criada em 1790, como uma etapa na estrada recentemente aberta entre Inveraray e Campbeltown. A abertura do canal de Crinan tem permitido a Lochgilphead de resultar uma vila de entidade radiante em toda a península do Kintyre. A Council Area foi criada em 1996 quando esta pertencia à antiga região de Strathclyde, criada em 1975 e abolida em 1996, que estava subdividida em dezenove distritos ou mesmo condados. Era parte das áreas geográficas dos distritos/condados de Argyll, menos a área de Morvern que desmembrada é parte de Highland, de Bute e parte de Dunbartonshire.  

            O sentimento de culpa tem como representação psicologicamente o sofrimento humano obtido após reavaliação de um comportamento passado tido como reprovável por si mesmo. A base deste sentimento, do ponto de vista psicanalítico, é a frustração causada pela distância entre o que não fomos e a imagem criada pelo superego daquilo que achamos que deveríamos ter sido. Há também outra definição para “sentimento de culpa”, quando se viola a consciência moral pessoal, ou seja, quando pecamos e erramos, surge o sentimento de culpa. Para a psicologia humanista-existencial, especialmente a da linha de pesquisa rogeriana, a culpa é um sentimento como outro qualquer e que pode ser “trabalhado” terapeuticamente ao se abordar este sentimento com aquele que sofre. Para esta linha de raciocínio um sentimento como esse, quando chega a ser considerado um obstáculo por aquele que o sente, é resultado de um inadequado crescimento pessoal, mas não é considerado uma psicopatologia. Para os teóricos rogerianos, todas as pessoas têm uma tendência a atualização que se dirige para a plena auto realização; o sentimento de culpa pode ser apenas limitação no processo de auto realização. É bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal, mas que em grande parte permaneça inconsciente, ou apareça como uma espécie de mal-estar, uma insatisfação, para a qual as pessoas buscam outras maneiras de motivações.

As religiões comparativamente na história as ideias na filosofia política tão antigas como na formação dos Estado, não desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa.  Quer dizer, o sentimento de culpa, a severidade do superego, é, portanto, o mesmo que a severidade da consciência. É a percepção que o ego tem de estar sendo assim vigiado, a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego. É o ponto-chave do ensaio “Mal-estar na Civilização” de Sigmund Freud, um médico neurologista criador da psicanálise. Freud, como se tornara reconhecido, nasceu em uma família judaica, em Freiberg in Mähren, pertencente ao Império Austríaco, atualmente, a localidade é denominada Příbor, e pertence à República Tcheca. Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose no tratamento de pacientes com histeria, como forma de acesso aos seus conteúdos mentais. Frigidez ou anafrodisia é progressiva a falta de desejo sexual tanto em homens quanto em mulheres. Mas a frigidez deve ser diferenciada da anorgasmia, condição em que ocorre a falta do orgasmo, mas na qual há o desejo sexual. 

Na quase absoluta maioria dos casos, o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos ou sociais, sendo um dos mais frequentes determinantes a monotonia conjugal com o social irradiado através dos condicionamentos cotidianos da velhice. Também a educação que se recebeu, a falta de diálogo entre os parceiros, as práticas sexuais pouco gratificantes e até a resistência disciplinar em inovar, sobretudo em torno do corpo, acabam por minar o relacionamento e facilitam o desinteresse. O próprio fato de envelhecer e as dificuldades do cotidiano podem interferir na satisfação sexual. A grande maioria é causada por vivências sexuais destrutivas, culturas empíricas ou religiosas fortemente baseados no costume. Frigidez pode ser causada, segundo seus especialistas, por traumas de infância, como por exemplo abuso domiciliar e algum tipo de violência simbólica sexual paterna, medo de engravidar, ansiedade, experiências obstétricas traumáticas e na maioria das vezes relações didáticas inadequadas através das medições complexificadas pela falta de diálogo no convívio. Junto com a frigidez, vem uma série de problemas que podem se tornar agravantes. A determinidade da ansiedade é o primeiro dos sintomas, seguido de desinteresse e falta de apetite sexual. Vale lembrar que o interesse especialmente da paixão é, portanto, inseparavelmente da realização do universal, pois o universal resulta do particular e definido e de sua negação. 

            É o particular que se esgota na luta, onde parte dele é destruída. Não é a ideia geral que se envolve em oposição e luta expondo-se ao perigo, ela permanece no segundo plano, intocada e incólume. Isto pode ser chamado astúcia da razão, porque deixa “as paixões trabalharem por si, enquanto aquilo através do qual ela se desenvolve paga o preço e sofre a perda”. O fenomenal é que em parte é negativo e em parte, positivo. Em geral o particular é muito insignificante em relação ao universal, os indivíduos são sacrificados e abandonados. Ela contraria o tributo da existência e da transitoriedade, não de si mesmo, mas das paixões dos indivíduos. Podemos achar tolerável a ideia de que os indivíduos, seus objetivos e suas satisfações sejam assim sacrificados e sua felicidade entregue ao domínio do acaso, a que ela pertence – e que em geral os indivíduos sejam vistos sob a categoria social de seus recursos. Este é um aspecto dinâmico de representação da individualidade humana que devemos recusar a tomar exclusivamente a esta luz, mesmo em relação ao mais elevado, um elemento que absolutamente não está subordinado, mas que existe nos indivíduos como essencialmente eterno e divino. Estamos falando da moral, da ética e da religião.  Por prosperidade pode-se entender analogicamente muitas coisas – a riqueza, a honra aparente e afins, mas ao falar-se de objetivo em si e por si, o que chamamos de prosperidade ou infelicidade, deste ou daquele indivíduo isolado, não pode ser visto como elemento essencial na ordem racional do universo que vivemos.

          A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade se reinstaurando, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto sua antítese, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim. Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza não seria adequada para conceituar o próprio objeto. O que há de novo é a ntrodução de um sistema de pensamento para compreender a história da filosofia e do mundo chamado geralmente dialética: uma progressão no âmbito da história e sociedade na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. Com mais razão do que a felicidade, comparativamente falando, ou as vezes afortunadas, requer-se do objetivo do mundo que os objetivos bons, morais e corretos encontrem sua satisfação e segurança realizadas de forma plena.

O que faz os homens insatisfeitos moralmente – uma insatisfação de que eles se orgulham – é que não acham o tempo presente adequado à realização de objetivos que em sua opinião são corretos e bons, especialmente os ideais das instituições políticas de nosso tempo. Comparam as coisas como elas são, com seu ideal de como deveriam ser. Neste caso, não é o interesse privado ou a paixão que deseja a satisfação, mas a razão, a justiça, a liberdade. Em seu nome as pessoas pedem o que lhes é devido e geralmente não estão apenas insatisfeitas, mas abertamente revoltadas contra a condição de mundo. Para julgar esses pontos de vista e esses sentimentos, ter-se-ia de examinar as exigências persistentes e as opiniões dogmáticas em questão. Em nenhuma época tanto como na nossa vida privada esse tipo de princípios e ideias gerais se apresentou com tamanha pretensão. Embora as paixões não faltem, a história demonstra uma luta de ideias justificáveis e, em parte, uma luta de paixões e interesses subjetivos sob as pretensões mais elevadas como possíveis que são encaradas como legítimas em nome do suposto destino ou conteúdo de sentido da Razão, têm assim validade como fins absolutos, da mesma maneira que a religião, a moral, a ética. No amor um indivíduo tem a consciência de si na consciência do outro, se considerarmos que ele vive de maneira altruísta.

Nesta renúncia cada um ganha a vida do outro e também a sua, que é uma só com o outro. Contra tal unilateralidade tem a efetividade uma força própria: alia-se à verdade contra à consciência, e lhe mostra enfim o que é a verdade. Mas a consciência ética bebeu, da taça da substância absoluta, o olvido de toda a unilateralidade do ser-para-si, de seus fins e conceitos peculiares; e por isso afogou, ao mesmo tempo, nessa água do Estige toda essencialidade própria e significação independente da efetividade objetiva. É, portanto, seu direito absoluto que, agindo conforme à lei ética, não encontre outra coisa nessa efetivação que o cumprimento dessa lei mesma, e o ato não mostre outra coisa senão o agir ético. O ético, enquanto essência absoluta e ao mesmo tempo potência absoluta, não pode sofrer perversão de seu conteúdo. Fosse apenas a essência absoluta sem a potência, poderia experimentar uma perversão por parte da individualidade, mas essa, como consciência ética, com o abandonar de seu ser-para-si unilateral, renunciou ao perverter. Inversamente, a simples potência seria pervertida pela essência, caso fosse ainda um tal ser-para-si. A individualidade é pura forma da substância, que é o conteúdo; e o agir comunicativo humanamente do pensamento à efetividade, somente como o movimento de uma oposição socialmente carente-de-essência, cujos momentos não possuem conteúdo e essencialidade distintos entre si. O direito absoluto da consciência ética consiste em que a figura de sua efetividade – não seja outro, senão o que ela sabe.

            Algumas cenas de Ilha Fantasma, foram gravadas cenograficamente na ilha de Mull, reconhecida por suas paisagens deslumbrantes e terrenos acidentados. A Ilha de Mull é a segunda maior ilha do arquipélago das Hébridas Interiores, na costa ocidental da Escócia. É a quarta maior ilha da Escócia e é a quarta maior ilha que rodeia a Grã-Bretanha, excluindo a Irlanda. Tem área de 875 km². A maioria dos seus quase 2700 habitantes vive em Tobermory, a vila principal, onde fica a única destilaria. O seu relevo foi determinado pelas glaciações. Em Ilha Fantasma, Eric Black se vê assombrado por sonhos intranquilos e sombrios após a recente e misteriosa morte de sua esposa grávida Rachel. Perdido e em luto, Eric começa a contemplar uma vida distante das memórias e do passado. É assim que, após encontrar um anúncio no jornal, ele se muda para uma ilha remota escocesa completamente sozinho, apenas na companhia de seu cachorro, para trabalhar como pastor. A solitária, fria e chuvosa ilha, porém, esconde um segredo e rapidamente Eric mergulha nos mistérios do lugar. O que parecia a “fuga perfeita” se transforma na prática, numa corrida para salvar sua vida e sua sanidade. Ao se acomodar numa cabana “caindo aos pedaços e mal iluminada”, Eric encontra vestígios de antigos pastores. Coisas estranhas começam a acontecer ao seu redor, e o jovem viúvo entra numa espiral de pânico, ou provavelmente de loucura quando uma espécie de força sobrenatural malévola começa a enlouquecê-lo com visões cada vez mais violentas.

Uma corrida de exploração marítima pelos europeus nos anos 1500 desencadeou um boom na cartografia, gerando mais expedições, cujos relatos aumentaram ainda mais os atlas. O primeiro trabalho que continha mapas sistematicamente organizados de tamanho uniforme representando o primeiro atlas moderno foi preparado pelo cartógrafo italiano Pietro Coppo (1469/70-1555/56) no início do século XVI; no entanto, não foi publicado naquela época, por isso não é convencionalmente considerado o primeiro atlas. Em vez disso, esse título é concedido à coleção de mapas Theatrum Orbis Terrarum do cartógrafo brabantiano Abraham Ortelius (1527-1598) impresso em 1570. Os atlas publicados atualmente são bem diferentes daqueles publicados nos séculos XVI e XIX. Ao contrário de hoje, a maioria dos atlas não estava encadernada e pronta para o cliente comprar, mas seus possíveis componentes foram arquivados separadamente. O cliente pode selecionar o conteúdo ao seu gosto e ter os mapas coloridos/dourados ou não. O atlas foi então encadernado. Assim, os primeiros atlas impressos com a mesma página de título podem ser diferentes em conteúdo. O uso da palavra “atlas” em um contexto geográfico data de 1595, quando o geógrafo germano-flamengo Gerardus Mercator (1512-1594) publicou Atlas Sive Cosmographicae Meditationes de Fabrica Mundi et Fabricati Figura. Este título fornece a definição de Mercator da palavra como uma descrição da criação e forma de todo o universo, não simplesmente como uma coleção de mapas. O volume que foi publicado um ano após sua morte é um texto abrangente, mas, à medida que as edições evoluíram, tornou-se uma simples coleção de mapas e é nesse sentido que a palavra foi usada a partir de meados do século XVII. 

O neologismo cunhado por Mercator era uma marca in statu nascendi de seu respeito pelo Titã Atlas, o “Rei da Mauritânia”, a quem ele considerava tecnologicamente o primeiro grande geógrafo. Para Edward Brooke-Hitching, autor do livro The Phantom Atlas (2016), a bendita geografia fantasma começou a florescer na página. Rumores e avistamentos não confirmados, cálculos equivocados – antes da longitude, as localizações das ilhas foram registradas usando cálculos mortos, o que era essencialmente adivinhação – e até mitologia foram incorporados pelo cartógrafo para publicar a imagem mais completa do mundo recém-revelado.” Uma vez que uma ilha fantasma nasceu, era difícil banir. Elas só foram removidas dos mapas depois que um navio visitou o local listado da ilha e confirmou sua inexistência, esclarece Brooke-Hitching. Essa tarefa foi complicada por ilusões de ótica causadas por refrações de luz, incluindo a infame “fata morgana”, que “apresenta-se como uma faixa distante, que fica tentadoramente perto, mas sempre fora de alcance”. Essas ilhas fantasmas geraram muitos problemas estratégicos para os marinheiros que perseguiam essas massas de terra sombrias. Kevin Wittmann, pesquisador da Universidad de La Laguna, que concluiu sua tese sobre mapas antigos: “essas expedições eram caras e, em alguns casos, perigosas. Descobrir que estavam navegando para um lugar que não existe não era bom”. 

No início de 1900, o explorador alemão barão Eduard Vasilyevich Toll (1858-1902) liderou uma missão à Terra de Sannikov, relatada pela primeira vez por um navio russo em 1810, cerca de 690 km ao Norte da Sibéria continental. Depois que o navio de Toll ficou preso no gelo nas Ilhas da Nova Sibéria, ele e vários colegas usaram trenós e caiaques para seguir para a Ilha Bennett, que os turistas agora podem ver em cruzeiros de lazer no Oceano Ártico. Esses exploradores desapareceram, assim como a Terra Sannikov, que provavelmente era apenas uma miragem causada pela fata morgana, de acordo com Brooke-Hitching (1858-1926). Curiosamente, algumas ilhas fantasmas causaram tensões diplomáticas, observa Wittmann. A mais famosa foi a Ilha Bermeja, a Oeste da península mexicana de Yucatán, que se tornou central para uma disputa territorial nos anos 2000 entre os Estados Unidos da América e o México sobre a exploração de petróleo. Pesquisas em 1997 e 2009 concluíram que ela não existia. Bermeja residiu em mapas por mais de 400 anos até sua recente expurgação. Ainda pode ser real, diz Wittman, mas escondida pelo aumento do nível do mar. Outras ilhas fantasmas evoluíram no sentido inverso, de acordo com Malachy Tallack, autor do livro The Un-Discovered Islands, de 2016. Os turistas agora podem embarcar em cruzeiros na Antártica que visitam a antiga ilha fantasma de Bouvet. Esta massa de terra extremamente gelada e aparentemente desabitada, localizada a 2400 km a Sudoeste da África, foi considerada mito, antropologicamente falando, por muitos anos depois que foi descoberta pela primeira vez em 1739 por um navegador francês.

       No horizonte da concepção social e metafísica moderna, estão as outras três características que exprimem desdobramentos no campo da experiência moderna na arte, na cultura e na religião. A arte se desloca para o âmbito da estética, e o fazer humano se transforma em cultura, no sentido de que a cultura é a realização dos valores supremos do homem e o cultivo dos mesmos. Por fim, apresenta-se a desdivinização, que não deve ser simplesmente entendida como a tese “sobre a morte de Deus”, mas no sentido que emprega Nietzsche per se como um provável “afastamento humano do elemento divino”, pressupondo um ateísmo, e sim como a cristianização da imagem do mundo, tornada infinita. O próprio Cristianismo torna-se uma imagem de mundo, dentre outras. A perspectiva do pensamento que, simultaneamente, pressupõe uma existência, um ser, permite o destaque da categoria da representação, que exprime a projeção do homem como pensamento diante dos entes. A representação não significa simplesmente pôr algo diante do homem, numa atitude quase passiva de que algo que ainda não existe é então representado pelo homem e se torna um objeto. O representar tem o caráter do coagitatio, de que comporta um representar que é, ao mesmo tempo, um determinado projetar humano e uma pretensão de controle desse projetar. O representar é uma apreensão do que está à frente e que se orienta por algo que vem à frente, à presença. 

        A certeza sensível, observou Friedrich Hegel, não se apossa do verdadeiro, já que a verdade dela é o universal, mas a certeza sensível de captar o isto. A percepção, ao contrário, toma como universal o que para ela é o essente. Como a universalidade é seu princípio em geral, assim também são universais seus momentos, que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um universal, e o objeto é um universal. O princípio do objeto – o universal – é em sua simplicidade um mediatizado; assim tem de exprimir isso nele, como sua natureza: por conseguinte se mostra como a coisa de muitas propriedades. Pertence à percepção a riqueza do saber sensível, e não à certeza imediata, na qual só estava presente como algo em-jogo-ao-lado. Com efeito, só a percepção tem a negação, a diferença, ou a múltipla variedade em sua essência. À medida que exprime isso em sua imediatez, é uma propriedade distinta determinada. Dessa sorte estão postas ao mesmo tempo muitas propriedades desse tipo, sendo uma o negativo da outra. Enquanto expressas na simplicidade universal, essas determinidades, que só são a rigor propriedades por meio de uma determinação ulterior que lhes advém, relacionam-se consigo mesmas, são indiferentes umas em relação às outras: cada uma é para si, livre da outra. Mas a universalidade simples, igual a si mesma, é de novo distinta e livre dessas determinidades: é o puro relacionar-se-consigo ou o meio, onde são todas. Interpenetram-se nela, como uma unidade bem simples, mas sem se tocarem; porque são indiferentes para si, justamente por meio da participação per se nessa universalidade. Esse meio universal abstrato, decerto que pode chamar-se essencialmente coisidade, não é outra forma que a representação perene do aqui e agora. A consciência, para a qual existe agora um ser sensível, dialeticamente, é somente um visar, isto é, saiu totalmente para fora do perceber, e regressou a si mesma.

Só que o ser sensível e o visar passam, eles mesmos, para o perceber: sou relançado ao ponto inicial na interpretação, e de novo arrastado no mesmo circuito – o qual se suprassume em cada momento e como um todo. Qualquer consciência suprassume de novo uma verdade do tipo: o aqui é uma árvore ou: o agora é meio-dia, e enuncia o contrário: o aqui não é nenhuma árvore, mas uma casa. A consciência também suprassume logo o que é afirmação de um isto sensível, nessa firmação que suprassume a primeira. Assim, em toda certeza sensível só se experimenta, em verdade, o que já vimos: a saber, o isto como um universal – o contrário do que aquela afirmação garante ser a experiência universal.  A consciência, portanto, percorre necessariamente esse círculo, mas ao mesmo tempo não é do mesmo modo que na primeira vez. Ela fez, justamente, sobre o perceber a experiência de que o resultado e o verdadeiro dele é sua dissolução ou a reflexão sobre si mesma, a partir do verdadeiro. Sendo assim, ficou determinado para a consciência como é que seu perceber está constituído, isto é: não consiste em ser um puro apreender simples, mas em ser seu apreender ao mesmo tempo refletido em si a partir do verdadeiro. Esse retorno da consciência a si mesma, se insere imediatamente no puro apreender, altera o verdadeiro.  A consciência reconhece esse aspecto historicamente como o seu, e o toma sobre si; e assim fazendo, manterá puro o objeto verdadeiro. Na relação dialética de Hegel temos a passagem da representação abstrata, para o conceito concreto através do acúmulo de determinações.

Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. A determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na concreta apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade. 

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; e pensando assim, uma vez que eu existo e ele está na minha frente diante de mim. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Em primeiro lugar, não se pode perder de vista que ele é real. Sem esse entendimento, e isto é decisivo, a razão, a liberdade não são nada.

O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história da humanidade para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade sensível humana, como o trabalho, o pensar, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença se quisermos inferir seu lugar na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade.       

Permitir que algo, segundo o seu próprio modo de ser, venha para junto de nós; isto é, resguardar insistentemente tal permissão. Sempre podemos somente isso para o qual temos gosto – isso a que se é mormente afeiçoado, à medida que o acolhemos. Verdadeiramente só gostamos do que, previamente e a partir de si mesmo, dá gosto. E nos dá gosto em nosso próprio ser à medida que tende para isso. Através desta tendência, reivindica-se nosso próprio modo de ser. A tendência quase sempre conselheira. A fala do aconselhamento dirige-se ao nosso modo próprio de ser, para ele nos conclama e, assim, nos atem. Na verdade, ater significa: cuidar, guardar. Nós o guardamos se nós não o deixamos fugir da memória, representante que é da concentração do pensamento. Portanto, a palavra é conselheira de nosso modo próprio modo de pensar. Em relação a que? Em relação a isso que nos atém ao modo próprio de ser, à medida que, ao mesmo tempo, o pensamos cuidadosamente junto de nós. Em que medida isso que nos atém precisa ser cuidadosamente? À medida que, por si mesmo, é o que cabe pensar cuidadosamente. Se isso é assim pensado, então é presenteado com o pensar da lembrança, da memória. Nós lhe presenteamos o pensamento que recorda porque dele gostamos como sendo a palavra conselheira de nosso modo próprio de ser, de pensar e de agir e o que cabe pensar. Verdadeiramente só gostamos do que, previamente e a partir de si mesmo, dá gosto. É gosto/gozo em nosso próprio ser à medida que tende para isso. 

Através desta tendência social reivindica-se nosso próprio modo de ser, de sentir e de pensar. A fala do aconselhamento dirige-se ao nosso modo próprio de ser, para ele nos conclama e, assim, nos atem. Ater significa: cuidar, guardar. Nós o guardamos se nós não o deixamos fugir da memória, quer dizer, sendo representante que é da concentração do pensamento. É o que cabe pensar com zelo, sendo a palavra conselheira de nosso modo de pensar, agir e sentir. Arquétipos junguianos são um conceito da psicologia que se refere a uma ideia, padrão de pensamento ou imagem universal e inata presente no inconsciente coletivo de todos os seres humanos. O correspondente psíquico do Instinto, os arquétipos são considerados a base de muitos dos temas e símbolos comuns que surgem em contos, mitos e sonhos em diversas culturas e sociedades. Alguns exemplos de arquétipos incluem os da mãe, da criança, do trapaceiro e do dilúvio, entre outros. O conceito de inconsciente coletivo foi proposto inicialmente por Carl Jung (1875-1961), um psiquiatra suíço e psicanalista. Os arquétipos são padrões inatos de pensamento e comportamento que buscam a realização no ambiente do indivíduo. Esse processo de atualização influencia o grau de individuação – isto é, o desenvolvimento da identidade única do indivíduo. A presença de uma figura materna que se aproxima do conceito idealizado de mãe pela criança pode evocar expectativas inatas e ativar o arquétipo materno na mente infantil.

 Esse arquétipo é incorporado ao inconsciente pessoal da criança como um “complexo materno”, funcionando como uma unidade funcional análoga a um arquétipo do inconsciente coletivo. Os assuntos com os quais Jung ocupou-se surgiram em parte do seu fundo pessoal, que é vividamente descrito em sua aparente autobiografia, Memórias, Sonhos, Reflexões (1961). Em boa parte de sua vida experimentou sonhos periódicos e visões com notáveis características mitológicas e religiosas, os quais despertaram o seu interesse por mitos, sonhos e a psicologia da religião. Ao lado destas experiências, certos fenômenos parapsicológicos emergiam, sempre para lhe redobrar o espanto e a dúvida. Por muitos anos, Jung sentiu possuir duas personalidades separadas: um ego público, exterior, que era envolvido com o mundo familiar, e um eu interno, secreto, que tinha uma proximidade especial para com Deus. Ele reconhecia ter herdado isso de sua mãe, que tinha a notável capacidade de “ver homens e coisas tais como são”. A interação entre esses egos foi o tema central da sua vida pessoal e contribuiu mais tarde para a sua ênfase no esforço do indivíduo para integração e inteireza. 

Seis meses após seu nascimento, os pais de Jung mudaram-se de Kesswill (cantão da Turgóvia), à beira do lago de Constança, e foram morar no presbitério do castelo de Laufen, que domina as quedas do Reno. O pai, um reverendo, deixou-lhe, como herança, uma fé cega que se mantinha a muito custo com o sacrifício da compreensão. A tarefa do filho seria responder a ele com uma fé renovada, baseada justamente no conhecimento tão rejeitado. Além disso, Jung viria a usar as escrituras como referência para a experiência interior de Deus, não como dogmas estáticos à espera de devoção muda, castradores do desenvolvimento pessoal. Ele lamentava que, à religião, faltasse o empirismo, o que alimentaria a sede da personalidade, e que, às ciências naturais, que também tanto o fascinavam devido ao envolvimento com a realidade concreta, faltasse o significado, que saciaria a personalidade. Os dois aspectos, socialmente relevantes, por um lado a religião e por outro, a ciência, não se tocavam, daí sua constante insatisfação, devido ao desencontro das duas instâncias interiores. E foi dessa tentativa de saciar tanto um aspecto quanto o outro, de fazer justiça ao ser como um todo, que decidiu formar-se em psiquiatria: “Lá estava o campo comum da experiência dos dados biológicos e dados espirituais, que até então eu buscara inutilmente. Tratava-se, enfim, do lugar em que o encontro da natureza e do espírito se torna realidade”.  É um grande exemplo de vida. 

 Anthony Giddens (2009) observa, que a rotinização é vital para os mecanismos psicológicos por meio dos quais um senso de confiança ou de segurança ontológica é sustentado nas atividades cotidianas da vida social. Contida primordialmente na consciência prática, a rotina introduz uma cunha entre o conteúdo potencialmente explosivo do inconsciente e a monitoração reflexiva da ação que os agentes exigem. O caráter situado da ação no tempo-espaço, a rotinização da atividade a natureza repetitiva da vida cotidiana – são esses fenômenos que articulam a discussão do inconsciente com as análises de co-presença de Erving Goffman.  Apesar de seu manifesto brilhantismo, os escritores de Goffman são usualmente considerados, talvez, um tanto limitados, no que se refere a seu conteúdo teórico ou por ser ele visto, sobretudo, como uma espécie de raconteur sociológico – o equivalente de um mexeriqueiro sociológico, cujas observações entretêm, divertem e excitam, mas são, no entanto, superficiais e essencialmente triviais – ou então por retratar coisas específicas da vida social, na moderna sociedade de classe média, uma sociedade cínica de protagonistas amorais. Isso pode ser deveras instrutivo, mas não é o modo mais útil de relacionar sua obra com problemas da teoria social, porque não preenche as lacunas certas que ele tem a dizer, é a ausência de uma discussão da motivação, a principal razão de seus escritos serem passíveis da segunda interpretação.

A confiança de Erving Goffman na confiança e no tato ecoa, de maneira flagrante, temas encontrados na psicologia do ego e gera uma compreensão analiticamente poderosa da monitoração reflexiva do fluxo socialmente de encontros envolvidos na vida cotidiana. Fundamental para a vida social é o posicionamento do corpo em encontros sociais. “Posicionamento” é aqui ipso facto um termo muito rico. O corpo está posicionado nas circunstâncias imediatas de co-presença em relação aos outros: Goffman fornece um conjunto extraordinariamente sutil, mas revelador de observações sobre face work, sobre gestos e controle reflexo do movimento corporal como inerentes na continuidade da vida social. Entretanto, o posicionamento deve também ser estendido em relação com a serialidade de encontros no tempo-espaço. Todo e qualquer indivíduo está imediatamente posicionado no fluxo da vida cotidiana; no tempo de vida que é a duração de sua existência; e na duração do “tempo institucional”, a estruturação “supra-individual” de instituições sociais. Finalmente, cada pessoa está posicionada, de um modo “múltiplo”, dentro de relações sociais conferidas por identidades sociais específicas; essa é a principal esfera de aplicação do conceito de papel social. As modalidades da co-presença, mediadas diretamente pelas propriedades sensoriais do corpo, são claramente distintas dos vínculos sociais e das formas de interação social estabelecidas com outros ausentes no tempo ou no espaço. Não são apenas os indivíduos que estão “posicionados” em relação uns aos outros; os contextos de interação social também estão.

No exame dessas conexões, relacionadas com a contextualidade da interação social, as técnicas e a abordagem de tempo-geografia, conforme desenvolvidas por Hägerstrand, são esclarecedoras. O tempo-geografia também tem como seu principal interesse a localização de indivíduos no tempo-espaço, mas confere especial atenção às restrições à atividade decorrentes de propriedades físicas do corpo e dos ambientes em que os agentes se movimentam. O que faz os homens insatisfeitos moralmente – uma insatisfação de que eles se orgulham – é que não acham o tempo presente adequado à realização de objetivos que em sua opinião são corretos e bons, especialmente os ideais das instituições políticas de nosso tempo. Comparam as coisas como elas são, com seu ideal de como deveriam ser. Neste caso, não é o interesse privado ou a paixão que deseja a satisfação, mas a razão, a justiça, a liberdade. Em seu nome as pessoas pedem o que lhes é devido e geralmente não estão apenas insatisfeitas, mas abertamente revoltadas contra a condição de mundo. Para julgar esses pontos de vista e esses sentimentos, ter-se-ia de examinar as exigências persistentes e as opiniões dogmáticas em questão. Em nenhuma época tanto como na nossa vida privada esse tipo de princípios e ideias gerais se apresentou com tamanha pretensão. Embora as paixões não faltem, a história demonstra uma luta de ideias justificáveis e, em parte, uma luta de paixões e interesses subjetivos sob as pretensões mais elevadas como possíveis que são encaradas como legítimas em nome do suposto destino ou conteúdo de sentido da Razão, têm assim validade como fins absolutos, da mesma maneira que a religião, a moral, a ética.

No amor um indivíduo tem a consciência de si na consciência do outro, se considerarmos que ele vive de maneira altruísta. Nesta renúncia cada um ganha a vida do outro e também a sua, que é uma só com o outro. Contra tal unilateralidade tem a efetividade uma força própria: alia-se à verdade contra à consciência, e lhe mostra enfim o que é a verdade. Mas a consciência ética bebeu, da taça da substância absoluta, o olvido de toda a unilateralidade do ser-para-si, de seus fins e conceitos peculiares; e por isso afogou, ao mesmo tempo, nessa água do Estige toda essencialidade própria e significação independente da efetividade objetiva. É, portanto, seu direito absoluto que, agindo conforme à lei ética, não encontre outra coisa nessa efetivação que o cumprimento dessa lei mesma, e o ato não mostre outra coisa senão o agir ético. O ético, enquanto essência absoluta e ao mesmo tempo potência absoluta, não pode sofrer perversão de seu conteúdo. Fosse apenas a essência absoluta sem a potência, poderia experimentar uma perversão por parte da individualidade, mas essa, como consciência ética, com o abandonar de seu ser-para-si unilateral, renunciou ao perverter. Inversamente, a simples potência seria pervertida pela essência, caso fosse ainda um tal ser-para-si. A individualidade é pura forma da substância, que é o conteúdo; e o agir comunicativo humanamente do pensamento à efetividade, somente como o movimento de uma oposição socialmente carente-de-essência, cujos momentos não possuem conteúdo e essencialidade distintos entre si. O direito absoluto da consciência ética consiste em que a figura de sua efetividade – não seja outro, senão o que ela sabe.   

Bibliografia Geral Consultada.

LASKI, Harold, O Liberalismo Europeu. São Paulo: Editor Mestre Jou, 1973; SCHORSKE, Carl, A Life on the Left. By Isaac Kramnick & Barry Sherman editors. Londres: The Penguin Press, 1993; BAUDRILLARD, Jean, Da Sedução. Rio de Janeiro: Editora Papirus, 1992; LINTON, Ralph, Cultura y Personalidad. México: Fondo de Cultura Económica, 1992; ZUSMAN, Waldemar, Os Filmes Que Eu Vi Com Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994; JOHNSON, Donald, Phantom Islands of the Atlantic: The Legends of Seven Lands That Never Were. New York: Walker Publishing, 1996; HARRISON, Charles; WOOD, Paul, Art in Theory 1900 - 2000: An Anthology of Changing Ideas. Nova York: Editor John Wiley & Sons, 2002; VIVENZA, J.-M., “Joseph de Maistre e o Rito Escocês Retificado”, in Dossiê H, a Idade do Homem, 2005; BAPTISTA, Mauro Rocha, As Múltiplas Religiosidades na Literatura de Franz Kafka. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2009; GIDDENS, Anthony, A Constituição da Sociedade. 3ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009; PEREIRA, Luciano, Depressão: Mobilização e Sofrimento Social. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010; FREUD, Sigmund, O Mal-estar na Civilização. 1ª edição. São Paulo: Editor Penguin Classics Companhia das Letras, 2011; DORNELES, Giele Rocha, Melancolia, Memória e Subjetividade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras. Instituto de Letras. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015; BROOKE-HITCHING, The Phantom Atlas: The Greatest Myths, Lies and Blunders on Maps. London: Editor Simon & Schuster UK, 2016; LIESEMER, Dirk, Lexikon der Phantominseln. Hamburg: Editor Mareverlag, 2016; LE BRETON, André, Antropologia das Emoções. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2019; ARAUJO, Arthur, “Memory From a Pragmatic Point of View: Intersections of Merleau-Ponty and Francisco Varela”. In: Cognitio, 21 (2) 2020; O` CONNELL, Ronan, “Conheça Estas Ilhas Fantasmas que Existem Apenas nos Mapas”. Disponível em: https://nationalgeographicbrasil.com/2022/09/; AZEVEDO, Jessica Santos, A Experiência da Perda e Luto Vivenciado por Colaboradores: Estudo Exploratório. Dissertação de Mestrado em Gestão de Recursos Humanos. Escola de Economia e Gesta. Minho: Universidade do Minho, 2025; entre outros.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Copycat – Agorafobia & Angústia de Perturbação Psicológica.

 Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra”. William Shakespeare

          O ponto de partida para a constituição do sujeito é o desejo, mas não um desejo dirigido a uma coisa ou mercadoria no mundo consumista. O homem se torna humano quando “deseja outro desejo”. Abre-se assim, ao homem, um novo espaço de liberdade, que se manifesta antes de tudo como um desejo de reconhecimento e produz uma luta de morte por puro prestígio – o ato fundante da história, o ato antropogênico por excelência. Mas para que haja história, é preciso que haja relação social entre homens vivos. A luta não pode terminar com a aniquilação de um dos lados. Um deles deve abdicar do combate, colocar a liberdade acima de sua vida, fora da relação entre “senhor-escravo”. Nela se concentrando outra atividade essencial ao projeto do homem: o trabalho intelectual como princípio de liberdade. A dialeticidade que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do pensamento humano em todas as épocas, e sua conclusão é surpreendente e magistral: o homem integral, livre, satisfeito com o que é; o homem que se aperfeiçoa, não é o senhor nem o escravo, mas o que consegue suprimir sua sujeição. Na linguagem teórica, abstrata acadêmica, entendemos que as palavras e expressões, ou as palavras e as coisas, funcionam como representação de conceitos teóricos, mas em sua periodização histórica as palavras e expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem a concepção pontual de formação de uma teoria da história. 

          A dificuldade própria da terminologia teórica consiste, pois, neste sentido em que, por detrás do significado usual da palavra, é preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual empírico e casual contido na representação das fontes, nas atas, nos documentos oficiais etc. Na sua significação mais geral deve nos permitir a compreensão histórica e sociológica que tem por efeito social o conhecimento de um objeto: a narrativa da história. É assim que a história abstrata ou a história em geral não existem, no sentido exato do termo, mas apenas a história real, ou “como efetivamente ocorreu, desses objetos que enformam a experiência acumulada da humanidade. A determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade, idealização, precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, isto é, como seu princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta.

          O espírito finito, dialeticamente, segue um passo a passo e se encontra numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu/subsumiu a oposição e voltou a si mesmo e, per se, o espírito finito é a ideia, que girou sobre si mesma e que existe por si em sua realidade. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade prática, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que “é em si”, no interior, manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem. O europeu sabe de si, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens “falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem”. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) na realidade o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre, hegelianamente, somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Esta é a única diferença da existência (Existenz), a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. O conceito de figuração - mutatis mutandis - distingue-se de outros conceitos teóricos da sociologia por incluir expressamente os seres humanos em sua formação social.    

Contrasta, portanto, com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, por tanto por meio do ingresso singular do mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos socialmente apreendidos. Sem sua apropriação, sem, por exemplo, o aprendizado de uma determinada língua especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo nem de se comunicar uns com os outros. Um ser humano adulto, que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo permanece fora de todas as figurações humanas, pois não é um ser humano. As definições de controle social são demasiado amplas e vagas, e, portanto, seria legítimo indagar, escolhendo-as mais ou menos ao acaso, para inferir que resultam em termos de um controle, isto é, qualquer estímulo ou complexo de estímulos que provoca uma determinada reação na atividade cognitiva humana. Assim, pois, todos os estímulos são controles, pois representam a direção do comportamento por influências grupais, estimulando ou inibindo a ação individual, ou certamente em grupo. 

O controle social pode ser definido como a soma total ou, antes, o conjunto de padrões culturais, símbolos sociais, signos coletivos, valores culturais, ideias e idealidades, tanto como atos quanto como processos diretamente ligados a eles, pelo qual a sociedade inclusiva, cada grupo particular, e cada membro individual participante superam as tensões e os conflitos entre si, através do equilíbrio temporário, e se dispõem a novos esforços criativos. Ipso facto, em toda a dimensão da vida associativa deverá haver algum ajustamento de relações sociais tendentes a prevenir a interferência de direitos e privilégios entre os indivíduos. De maneira mais específica, são três as funções do estabelecidas pelo controle social: a obtenção e a manutenção da ordem social, da proteção social e da eficiência social. O seu emprego hic et nunc na investigação sociológica contribuiu consideravelmente para produzir uma simplificação ou redução na análise dos problemas sociais, conseguida proporcionalmente, graças à compreensão positiva da integração das contradições correspondentes no sistema de organização das sociedades e da importância relativa de cada um deles, como e enquanto expressão do jogo social.  Embora obscuro e equívoco, em sentido corrente, o conceito de controle social é necessário à investigação sociológica na modernidade, encontraram um sistema de referências propício à sua crítica científica, seleção lógica e coordenação metódica.  

O termo “confiança” aflora com muita frequência na linguagem cotidiana. A questão para Giddens é: como estas mudanças afetaram as relações de intimidade pessoal e sexual? Pois estas não são apenas simples extensões da organização da comunidade ou do parentesco. A amizade, por exemplo, desde Simmel ou Nietzsche, foi pouco estudada pelos sociólogos, mesmo se considerarmos a intuição de Alain Touraine a respeito, mas ela proporciona uma pista importante para fatores de amplo alcance que influenciam a vida pessoal. Temos de compreender o caráter da amizade em contextos pré-modernos precisamente em associação com a comunidade local e o parentesco. A confiança nos amigos era frequentemente de importância central. Nas culturas tradicionais, com a exceção parcial de algumas vizinhanças citadinas em Estados agrários, havia uma divisão bem clara entre membros reconhecidos como “os de dentro e os de fora ou estranhos”. As amplas arenas de interação não hostil com outros anônimos, característica da atividade social moderna, não existia. Nestas circunstâncias sociais, a amizade era institucionalizada e vista como meio de criar alianças mais ou menos duradouras com outros contragrupos potencialmente hostis. Amizades institucionalizadas eram formas de camaradagem, assim como mormente ocorrem nas reconhecidas “fraternidades de sangue”, constituídas socialmente ou corporativamente dentre “companheiros de armas”. Institucionalizada ou não, quer dizer, quando a amizade era baseada em valores de sinceridade e honra.

A sinceridade é uma virtude valorizada em circunstâncias onde as divisórias entre “amigo” e “inimigo” eram geralmente distintas e tensas. A vasta extensão de sistemas sociais abstratos associada à modernidade contemporânea transforma a natureza da amizade. Não por acaso o sociólogo inglês percebe que a amizade é com frequência um modo de reencaixe, mas ela não está diretamente envolvida nos próprios sistemas abstratos, que superam explicitamente a dependência ligada a laços pessoais. Acompanhando esta transição, a honra é substituída pela lealdade que não tem outro apoio a não ser o afeto pessoal, e a sinceridade substituída pelo que podemos chamar de autenticidade: a exigência de que o outro seja aberto e bem intencionado. Embora estas conexões sociais possam envolver “intimidade emocional”, isto não é uma condição da manutenção da confiança pessoal. Laços pessoais institucionalizados e códigos de sinceridade e honra informais ou informalizados fornecem estruturas de confiança. É bastante errôneo, contudo, realçar a impessoalidade dos sistemas abstratos contra as intimidades da vida pessoal como a maior parte das explicações sociológicas correntes tendem a fazer. 

A vida pessoal dentro ou fora do trabalho, e os laços sociais que ela envolve estão entrelaçados com os sistemas abstratos de mais longo alcance como ocorre com o partido político. Alguns sentidos do termo, embora partilhem amplas afinidades eletivas, no sentido que Max Weber emprega, no âmbito da literatura e da sociologia, com outras utilidades de usos, são de implicação relativamente desimportante. Quer dizer, alguém que diz: “confio que você esteja bem”, normalmente quer dizer algo mais com esta fórmula de polidez do que “espero que você esteja com boa saúde” – embora mesmo aqui “confio” tenha uma conotação algo mais forte que “espero”, implicando algo mais próximo a “espero não ter motivos para duvidar”. A atitude de crença ou crédito que entra em confiança em alguns contextos mais significativos já se encontra aqui. Quando alguém diz: “confio em que X se comportará desta maneira”, esta implicação social é mais evidente, e não além do nível do “conhecimento indutivo fraco”. É reconhecido que se conta com X para produzir o comportamento em questão, dadas as circunstâncias normais. Eles não se relacionam aos sistemas perpetuadores de confiança, isto é, são designações referentes aos comportamentos; o indivíduo envolvido não é requisitado aquela “fé” religiosa que a confiança envolve em seus significados.  

A principal definição de “confiança” no Oxford English Dictionary é descrita como “crença ou crédito em alguma qualidade ou atributo de uma pessoa ou coisa, ou a verdade de uma afirmação”, e esta definição proporciona um ponto de partida útil. “Crença” e “crédito” estão claramente ligados de alguma forma à “fé”, da qual, seguindo Simmel, mas embora reconhecendo que a fé e confiança são intimamente aliadas, Niklas Luhmann faz uma distinção entre as duas que é a base de sua obra sobre o tema. A confiança, diz ele, deve ser compreendida especificamente em relação ao risco, um termo que passa a existir apenas no período moderno. A noção se originou com a compreensão de que resultados inesperados podem ser uma consequência de nossas próprias atividades ou decisões, ao invés de exprimirem significados ocultos de natureza ou intenções inefáveis da Deidade. Mas “risco”, substitui em grande parte o que antes era pensado como fortuna (fortuna ou destino) e torna-se separado das cosmologias. A confiança pressupõe, segundo Giddens, consciência das circunstâncias de risco, o que não ocorre com a crença. Tanto a confiança como a crença se referem a expectativas que podem ser frustradas ou desencorajadas. A crença, como Niklas Luhmann a emprega, se refere a atitude mais ou menos certa de que as coisas similares permanecerão estáveis.

O crescimento de um jovem convivendo e habitando comum em figurações humanas, como processo social e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação com os seres humanos, é condição indispensável ao desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização de um ser humano, são nomes diferentes para o processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros, e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Quando se fala que uma criança se torna um indivíduo humano por meio da integração em determinadas figurações, como, por exemplo, em famílias, em classes escolares, em comunidades aldeãs ou em Estados, assim como mediante a apropriação e reelaboração de um patrimônio simbólico social, conduz-se o pensamento por entre dois grandes perigos da teoria e das ciências humanas: o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto como que de um agente que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos. Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma outra substância a não ser seres humanos gerados familiarmente por pais e mães, as sociedades humanas não são simplesmente um aglomerado cumulativo dessas pessoas. O convívio dos seres humanos em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na maior desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isso que o conceito de figuração exprime. O termo “agorafobia”, por outro lado, tem origem no grego ἀγορά, ágora, que significa praça pública, com o sufixo -φοβία, que significa “fobia” ou “medo”. Existem persistentes críticas e debates a respeito do DSM.

Há um contínuo debate científico sobre a validade da construção e a confiabilidade prática das categorias diagnósticas e seus critérios, apesar de eles terem sido crescentemente padronizados ao aumento de profissionais em pesquisas controladas. É argumentado, entretanto, que os créditos científicos caraterísticos que foram empiricamente fundados são, em geral, exagerados. Apesar da oposição à introdução desta técnica, foi por muito tempo argumentado que esse sistema de classificação faz distinções categoricamente injustas entre as desordens e entre o normal e o anormal. É argumentado que critérios diagnósticos puramente baseados em sintomas falham em adequar a situação ao contexto em que a pessoa está vivendo, e se há real desordem interna de um indivíduo ou simplesmente uma resposta a uma situação em curso. É dito que o uso de aflição e desabilidade como critério adicional para muitos transtornos não tem resolvido problemas falso-positivos, porque o nível de afecção não é frequentemente correlacionado com sintomas relatados e pode se originar de vários fatores individuais e sociais. O contexto político é um tópico controverso, incluindo per se seu uso por indústrias farmacêuticas e seguradoras. O potencial conflito de interesses tem surgido porque aproximadamente 50% dos autores que previamente selecionaram e definiram as desordens psiquiátricas tiveram ou têm relacionamentos com indústrias farmacêuticas levantando expectativas do ponto de vista da neutralidade axiológica. Alguns argumentam que a “expansão dos transtornos” foi influenciada por motivos financeiros e representa um aumento da medicalização dos seres humanos, enquanto outros argumentam que problemas de saúde mental são subestimadas ou subtratadas.

A estratégia do passado recente que visava organizar novos espaços urbanos transformou-se meramente em artifícios políticos e muito pouco em torno de reabilitação de patrimônios. Depois de haver inconscientemente projetado a cidade futura, torna-se uma cidade frequentada por sua estranheza, muito mais elevada aos excessos que reduzem o presente, a nada mais que simples escombros como caixas d`água que deixam escapar seu domínio do tempo. Mas os técnicos se denunciam já no quadriculamento que atrapalhavam os planejadores funcionalistas que deviam fazer tábula rasa das opacidades contidas nos projetos de cidades transparentes. Afinal qual o urbanismo que não descontroem mais do que uma guerra a questão da memória e da história aldeã, operária, com casas desfiguradas, fábricas desativadas, universidades sem vida, cacos de histórias naufragadas que hoje formam as ruínas de uma cidade fantasma ou fantasmas da cidade, antes modernista, cidade de massa, homogênea, como os lapsos de uma linguagem que se desconhece, quem sabe inconsciente. Mas elas surpreendem. O imaginário individual (sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos), em primeiro lugar, são as coisas que o soletram. Eles têm uma função social que consiste em abrir uma profundidade no presente, mas não têm mais o conteúdo que provê de sentido a estranheza do passado. Suas histórias deixam de ser o que são para um final trágico. 

O Estado se constitui, portanto, em relação à forma de governo um duplo contexto:  de um lado, efeitos de poder político em relação a outros Estados, atuais ou potenciais, isto é, os princípios concorrentes – portanto, precisa concentrar “capital de força física” para travar a guerra pela terra, pelos territórios; de outro lado, em relação a um contexto interno, a contrapoderes, isto é, príncipes concorrentes ou classes dominadas que resistem à arrecadação do imposto ou ao recrutamento de soldados. Esses dois fatores favorecem a criação de exércitos poderosos dentro dos quais se distinguem progressivamente forças propriamente militares e forças propriamente policiais destinadas à manutenção da ordem interna. Essa distinção exército/polícia, evidente hoje, tem uma genealogia extremamente lenta, as duas forças têm sido por muito tempo confundido. O desenvolvimento do imposto está ligado às despesas de guerra. O nascimento do imposto é simultâneo a uma acumulação extraordinária de capital detido pelos profissionais da gestão burocrática e à cumulação de um imenso capital informacional. É o vínculo institucional entre Estado e estatística: o Estado está associado a um conhecimento racional do mundo social e governamental. A estatística em como representação o campo da matemática que relaciona fatos sociais e números em que há um conjunto de métodos que nos possibilita coletar dados e analisá-los, assim sendo possível realizar alguma interpretação deles.

Agorafobia tem como representação social comumente uma perturbação psíquica de ansiedade caracterizada por sintomas em resposta a situações que a pessoa percepciona como inseguras ou das quais é difícil escapar. Entre estas situações estão espaços abertos, tráfego rodoviário, centros comerciais ou qualquer outra situação social em que a pessoa se encontre fora do local próprio de sua residência. Quando a pessoa se depara com uma destas situações, o sintoma “mais comum é um ataque de pânico”. Para que seja diagnosticada agorafobia, os sintomas devem-se manifestar praticamente sempre que a pessoa se depara com a situação e os sintomas devem estar presentes durante pelo menos seis meses. As pessoas afetadas geralmente dão-se a um esforço significativo para evitar as situações. Nos casos mais graves, as pessoas sentem-se incapazes de sair da própria residência. Acredita-se que a agorafobia seja causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Em muitos casos, a condição agorafóbica é comum na família. A agorafobia pode ter origem em acontecimentos como a morte de um pai ou um ataque violento. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais foi publicado em 1952 pela Associação Americana de Psiquiatria (APA). Ele foi desenvolvido a partir do antigo sistema de classificação adotado em 1918 para reunir a necessidade do Departamento de Censo norte-americano de uniformizar estatísticas vindas pevalentemente de hospitais psiquiátricos; vindas de sistemas de categorização técnica usados pela disciplinarização técnica exército norte-americano; e vindas dos levantamentos dos pontos de vista de 10% dos membros da APA. 

O manual contém 130 páginas, que mostram 106 categorias de desordens mentais. O DSM-II foi publicado em 1968, listando 182 desordens em 134 páginas. Esses manuais refletiam a predominância da “psicodinâmica psiquiátrica”. Sintomas não eram especificados com detalhes em desordens específicas, mas eram vistos como reflexos de grandes conflitos subjacentes ou reações de má adaptação aos problemas da vida, enraizados em uma distinção entre neurose e psicose, ou seja, ansiedade/depressão largamente associadas à realidade concreta, ou alucinações/desilusões aparentemente desconectadas da realidade. O conhecimento biológico e sociológico também foi incorporado, em um modelo que “não enfatizava um claro limite entre normalidade e anormalidade”. Em 1974, a decisão de se criar uma nova revisão do DSM se fez, e Robert Spitzer (1932-2015) foi selecionado dentre especialistas como chefe da força tarefa.  O ímpeto inicial foi fazer uma nomenclatura consistente com a CID, publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A revisão assumiu uma forma muito mais ampla de termos sob a influência e controle de Spitzer e seus membros escolhidos. Uma das metas era aumentar o leque de diagnósticos psiquiátricos. As práticas de profissionais em saúde mental, especialmente em diferentes países, não era uniforme. O estabelecimento de critérios específicos era também uma tentativa técnico-metodológica de facilitar a pesquisa em torno da saúde mental. O sistema multiaxial tenta mostrar um mais completo quadro do paciente, ao invés de apenas fornecer um simples diagnóstico.

O conceito sociológico de nomeado neutralidade axiológica é ambíguo. A palavra alemã correspondente, Wertfreiheit, significa, literalmente, “liberdade em relação aos valores”. O tradutor francês dos Essais Sur la Théorie de la Science, de Max Weber (1965), e especialista deste autor, Julien Freund, optou corretamente pela expressão “neutralidade axiológica”. Com o princípio da “neutralidade axiológica”, Max Weber quis demonstrar, por um lado, que a ciência não podia excluir a intervenção dos valores nos seus procedimentos, e, por outro, que estes deviam ficar circunscritos pela utilização exclusiva que ela faz deles e pelo controle exclusivo que o cientista exerce sobre eles, em suma, que ela se devia proteger da intrusão ilegítima de valores, no âmbito da ciência, que implicariam avaliações práticas de ordem política ou moral. No filme a cientista dá conta do recado em cenas aparentemente inexequíveis, mas que fazem parte da mise-en-scène: portando armas, correndo e na garupa de motocicleta. Essa, por sinal, é exagerada, mas não pode ser reduzida sem prejuízo para o longa-metragem, na medida certa, que passa a ganhar ritmo cinematográfico. Outro momento curioso é o que envolve um lobo. Embora tenha rimado aqui no argumento, não desafina na telona.

A neutralidade axiológica significa que o fundamento da ciência não reside numa objetividade pura de ordem ideal, mas que depende sempre das escolhas valorativas do cientista. O apelo aos valores integra plenamente todo o procedimento científico, tendo em vista que a criação de conceitos ou de tipos ideais, assim como o estabelecimento de relações causais, depende de opções subjetivas últimas que refletem as crenças, as convicções ou as ideologias de cada cientista. Os conceitos nunca gozam de uma imparcialidade intrínseca e nunca são neutros no sentido de exprimirem uma relação objetiva válida para todos os lugares e em todos os tempos, mas representam simples pontos de vista cientificamente informados. Estas construções não são, no entanto, arbitrárias e não constituem, de forma nenhuma, a finalidade da ciência. No domínio da economia política, Marx metodologicamente inferia que a livre investigação científica não só se defronta com o mesmo inimigo presente em todos os outros domínios, mas também a natureza peculiar do material com que ela lida convoca ao campo de batalha as paixões mais violentas, mesquinhas e execráveis do coração humano, as fúrias do interesse privado. – Segui il tuo corso, e lascia dir le genti! A inevitável subjetividade cultural que encontramos no princípio de qualquer ciência fica superada se reconhecermos a pluralidade de valores e de centros de interesse que presidem a cada um deles, se aceitarmos a legitimidade dos outros pontos de vista e se, no decurso do nosso estudo, nos mantivermos sempre fiéis aos nossos pressupostos de partida. 

Robert Leopold Spitzer foi um psiquiatra e professor de psiquiatria na Universidade de Columbia, na cidade de Nova York. Ele foi um pesquisador importante no desenvolvimento do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Spitzer nasceu em White Plains, Nova York, em 1932. Ele recebeu seu diploma de bacharel em psicologia pela Universidade Cornell em 1953 e seu MD pela Escola de Medicina da Universidade de Nova York em 1957. Ele completou sua residência psiquiátrica no Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York em 1961 e se formou no Centro de Treinamento e Pesquisa Psicanalítica da Universidade de Columbia em 1966. Spitzer escreveu um artigo sobre as teorias de Wilhelm Reich em 1953, que o American Journal of Psychiatry se recusou a publicar. Spitzer passou a maior parte de sua carreira na Universidade de Columbia, na cidade de Nova York, como professor de psiquiatria até se aposentar em 2003. Ele fazia parte do corpo docente de pesquisa do Centro de Treinamento e Pesquisa Psicanalítica da Universidade de Columbia, onde se aposentou após 49 anos em dezembro de 2010. Ele foi chamado de um dos psiquiatras mais influentes do século XX. O obituário do The Lancet o descreveu como “teimoso, às vezes abrasivo e sempre ansioso, o trabalho de Spitzer foi guiado por um forte senso de justiça ética”. Um colega da Columbia o descreveu como um “iconoclasta” que “procurava por injustiça”. Spitzer foi um dos principais arquitetos da classificação moderna de transtornos mentais. Em 1968, ele co-desenvolveu um programa de computador, Diagno I, baseado em uma árvore de decisão lógica, que poderia derivar um diagnóstico a partir das pontuações em uma Escala de Status Psiquiátrico que ele co-publicou em 1970 e que o Comitê Diretor dos Estados Unidos para o Projeto de Diagnóstico Estados Unidos-Reino Unido usou para verificar a consistência de seus resultados.  Spitzer foi membro do Comitê Diretor dos Estados Unidos, composto por quatro pessoas, para o Projeto de Diagnóstico Estados Unidos-Reino Unido, que publicou seus resultados em 1972.

Eles descobriram que a diferença mais importante entre os países era que o conceito de esquizofrenia usado em Nova York era muito mais amplo do que o usado em Londres e incluía pacientes que teriam sido denominados maníaco-depressivos ou bipolares. Ele desenvolveu métodos psiquiátricos que se concentravam em fazer perguntas específicas em entrevistas para chegar a um diagnóstico, em oposição ao questionamento aberto da psicanálise, que era a técnica predominante de saúde mental. Ele co-desenvolveu o Questionário de Transtorno de Humor (MDQ), uma técnica de triagem usada para diagnosticar o transtorno bipolar. Ele também co-desenvolveu o Questionário de Saúde do Paciente (PRIME-MD), que pode ser autoadministrado para descobrir se alguém tem uma doença mental. As partes da enquete direcionadas à depressão desde então se tornaram aceitas na medicina de atenção primária para triagem e diagnóstico de depressão grave, bem como para monitorar a resposta ao tratamento. Em 1974, Spitzer tornou-se presidente da força-tarefa da Associação Psiquiátrica Americana da terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o chamado DSM-III, que foi lançado em 1980. Spitzer é um dos principais arquitetos da classificação moderna de transtornos mentais, que envolve a classificação de transtornos mentais em categorias discretas com critérios diagnósticos específicos; no entanto, ele criticou o que viu, como erros e excessos nas versões posteriores do DSM, embora tenha mantido sua posição de que o DSM ainda é melhor do que as alternativas.

Em 2003, Spitzer foi coautor de um artigo de posicionamento com o editor do DSM-IV, Michael First, afirmando que o “DSM é geralmente visto como clinicamente útil” com base em pesquisas de profissionais em atividade e feedback de estudantes de medicina e residentes, mas que os médicos de atenção primária consideram o DSM muito complicado para seu uso. Os autores enfatizaram que, dadas as limitações atuais na compreensão dos transtornos psiquiátricos, uma infinidade de códigos/diagnósticos do DSM possa se aplicar a alguns pacientes, mas que seria uma “especulação total” atribuir um único diagnóstico a um paciente. Os autores rejeitaram os apelos para adotar a CID-9 porque ela não tinha critérios diagnósticos e “[retrocederia] a psiquiatria 30 anos”, enquanto a CID-10 se assemelhava muito à classificação do DSM-III-R. Em 2013, uma autobiografia definitiva de Spitzer, The Making of DSM-III: A Diagnostic Manual`s Conquest of American Psychiatry, foi publicada pela autora e historiadora Hannah S. Decker. Spitzer foi brevemente apresentado na série de TV da BBC de 2007, The Trap, na qual afirmou que o DSM, ao operacionalizar as definições de transtornos mentais enquanto presta pouca atenção ao contexto em que os sintomas ocorrem, pode ter “medicalizado” as experiências humanas normais de um número significativo de pessoas. Em 2008, Spitzer criticou a revisão do DSM-5 por falta de transparência. Ele também criticou propostas específicas, como de introdução da síndrome de risco de psicose para os que apresentam sintomas leves encontrados em transtornos psicóticos. 

Spitzer liderou um esforço bem-sucedido, em 1973, para parar de tratar a homossexualidade como uma doença mental. Foi em parte devido aos esforços de Spitzer que a homossexualidade foi “removida”, ou seja, renomeada como Distúrbio de Orientação Sexual no DSM-II de 1974: - “Ao retirá-la do manual, a homossexualidade foi legitimada como uma diferença normal em vez de um comportamento psiquiátrico. Esta declaração inicial e poderosa da psiquiatria institucional de que isso é normal acelerou a confiança das pessoas no movimento”.  Em 2001, Spitzer apresentou um artigo intitulado: “Alguns homens gays e lésbicas podem mudar sua orientação sexual?” na reunião anual da APA de 2001; ele argumentou que é possível que alguns indivíduos altamente motivados possam mudar com sucesso sua orientação sexual de homossexual para heterossexual. Um artigo do Washington Post indicou que Spitzer realizou entrevistas telefônicas de 45 minutos com 200 pessoas que alegaram que suas respectivas orientações sexuais haviam mudado de homossexual para heterossexual. Spitzer disse que “começou seu estudo como cético”, mas o estudo revelou que “66% dos homens e 44% das mulheres haviam alcançado o que [Spitzer] chamou de bom funcionamento heterossexual”, como “estar em um relacionamento heterossexual duradouro e amoroso no último ano, obter satisfação suficiente no relacionamento emocional com o parceiro para obter uma pontuação de pelo menos sete em uma escala de 10 pontos, ter relações sexuais heterossexuais satisfatórias pelo menos uma vez por mês e nunca ou raramente pensar em alguém do mesmo sexo durante o sexo heterossexual”.

Spitzer também descobriu que “89% dos homens e 95% das mulheres disseram que eram incomodados apenas um pouco, ou nada, por sentimentos homossexuais indesejados”, mas que “apenas 11% dos homens e 37% das mulheres relataram uma ausência completa de indicadores homossexuais, incluindo atração pelo mesmo sexo.  [...] Cerca de 43% da amostra foi encaminhada para Spitzer por 'ministérios ex-gays.  [...] Outros 23% foram encaminhados pela Associação Nacional de Pesquisa e Terapia da Homossexualidade”. Spitzer declarou que sua pesquisa “mostra que algumas pessoas podem mudar de gays para heterossexuais, e devemos reconhecer isso”. Considerando o quão difícil foi encontrar 200 participantes e que eles foram considerados os melhores casos de terapia de conversão, Spitzer concluiu que, embora a mudança pudesse ocorrer, provavelmente era muito rara. A APA emitiu uma rejeição oficial do artigo de Spitzer, observando que ele não havia sido revisado por pares e afirmando: “Não há evidências científicas publicadas que apoiem a eficácia da terapia reparadora como tratamento para mudar a orientação sexual de alguém”. Dois anos depois, o artigo de Spitzer foi publicado no Archives of Sexual Behavior. Dois terços das revisões foram críticas, e a decisão de publicação gerou controvérsia, com um membro da organização de apoio à publicação renunciando em protesto. O artigo foi criticado por seus métodos de amostragem e critérios de sucesso. Em uma entrevista de 2005, Spitzer declarou: - Muitos colegas ficaram indignados” após a publicação do estudo. Spitzer acrescentou: - “Dentro da comunidade gay, inicialmente houve uma tremenda raiva e um sentimento de que eu os havia traído”. Quando questionado se consideraria um estudo de acompanhamento, Spitzer disse que não e acrescentou que sentia “um pouco de fadiga de batalha”.

Embora Spitzer tenha dito que não tinha como saber se os participantes do estudo estavam sendo honestos, ele também indicou que acreditava que os entrevistados estavam sendo francos com ele. O sistema de critério e classificação do DSM-III foi baseado num processo de consultas e reuniões de comitês. Houve uma tentativa de se construir uma base de categorização psicológica e socialmente em descrição ao invés de pressupostos etiológicos, e a psicodinâmica foi facilmente abandonada, talvez em favor do modelo biomédico, com clara distinção entre o normal e o anormal. O DSM-5 classifica a agorafobia como uma fobia pertencente ao grupo das fobias específicas e fobias sociais. Entre outras condições que manifestam sintomas semelhantes estão a perturbação de ansiedade de separação, perturbação de estresse pós-traumático, perturbação depressiva major. As pessoas afetadas apresentam um risco acrescido de depressão e perturbação por abuso de substâncias. É pouco provável que a agorafobia se resolva sem tratamento. O tratamento consiste numa forma de aconselhamento psiquiátrico denominada terapia cognitivo-comportamental. Esta terapia permite resolver cerca de metade dos casos de agorafobia. A condição afeta 1,7% dos adultos. O número de casos em mulheres é o dobro do de homens. A doença é rara em crianças. A maioria dos casos têm origem no início da idade adulta, sendo cada vez menos comum à medida que a idade avança.

Bibliografia Geral Consultada.

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