terça-feira, 4 de agosto de 2026

Uma Visão Pálida das Colinas – Crise Identitária & Semelhanças da Representação.

                                            A arte evoca o mistério sem o qual o mundo não existiria”. René Magritte                                     


            René François Ghislain Magritte (1898-1967) foi um dos principais artistas surrealistas belgas, ao lado de Paul Delvaux (1897-1994). Magritte nasceu em Lessines, Bélgica, no dia 21 de novembro de 1898, filho caçula de Léopold Magritte. Em 1912, a sua mãe, Régina, cometeu suicídio por afogamento no rio Sambre. Em 1916, ingressou na Academia Real de Belas-Artes, em Bruxelas, onde estudou por dois anos. Foi durante esse período que conheceu Georgette Berger (1901-1986), com quem se casou em 1922. Trabalhou em uma fábrica de papel de Parede, e foi designer de cartazes e anúncios até 1926, quando um contrato com a Galerie la Centaure, na capital belga, fez da pintura a sua principal atividade. Nesse mesmo ano, Magritte produziu a sua primeira pintura surrealista, Le Jockey Perdu (1947-1948) tendo a primeira exposição apresentada no ano seguinte. René Magritte praticava tanto o surrealismo realista, como o realismo mágico. Começou a imitar a vanguarda, mas precisava realmente de uma linguagem mais poética e viu-se influenciado pela pintura metafísica de Giorgio de Chirico (1888-1978). Magritte tinha espírito travesso, e, em A Queda (1953), os seus bizarros homens de chapéu-coco despencam do céu absolutamente serenos, expressando algo da vida como conhecemos.

A sua arte, pintada com tal nitidez que parece muitíssimo realista, caracteriza o amor surrealista aos paradoxos visuais: embora as coisas possam dar a impressão de serem normais, existem anomalias por toda a parte: A Queda tem uma estranha exatidão, e o surrealismo atrai justamente porque explora a nossa compreensão oculta da esquisitice terrena. Mudou-se para Paris em 1927, onde começou a envolver-se nas atividades do grupo surrealista, tornando-se grande amigo dos poetas André Breton e Paul Éluard e do pintor Marcel Duchamp. Quando a Galerie la Centaure fechou e seu contrato encerrou, Magritte retornou a Bruxelas. Permaneceu na cidade mesmo durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. O seu trabalho foi exposto em 1936 na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos, e em mais duas exposições retrospectivas nessa mesma cidade, uma no Museu de Arte Moderna, em 1965, e outra no Metropolitan Museum of Art, em 1992. Magritte morreu de câncer em 1967 e foi enterrado no Cemitério do Schaerbeek. Pintor de imagens insólitas, às quais deu tratamento rigorosamente realista, utilizou-se de processos ilusionistas, sempre à procura do contraste entre o tratamento realista dos objetos e a atmosfera irreal dos conjuntos. Suas obras são metáforas que se apresentam como representações realistas, através da justaposição de objetos comuns, e símbolos recorrentes em sua obra, tais como o torso feminino, o chapéu coco, o castelo, a rocha e a janela, entre outros mais, porém de um modo impossível de ser encontrado na vida real.

O pintor surrealista René Magritte fazia parte de um extraordinário movimento artístico denominado surrealismo, o nome diz respeito ao desejo de muitos jovens pintores, em meados da década de 1920, em criar uma realidade por meio das pinturas que transcendessem a própria realidade. Em outras palavras, os artistas criaram per se um movimento artístico que retratava uma realidade mais real qual eles estavam inseridos. Isso ocorreu porque os artistas da época estavam com um sentimento de que havia algo errado nos pedidos que a academia clássica de pintura fazia para que os artistas pintassem exatamente o que estava sendo visto diante dos seus olhos. Uma das obras do pintor belga em que é possível perceber a realidade sendo criada é a obra “Tentando o impossível” (óleo sobre tela -1928). Nessa obra, um artista está fazendo a pintura de uma mulher. Sempre parecido com o próprio pintor, ou seja, Magritte. Na obra, o artista pinta no “ar”, criando assim, usando um pincel e uma paleta de cores, uma mulher de três dimensões. A criação dessa mulher é totalmente ilusória porque o quadro permanece em dois planos. Essa obra dialoga com o movimento surrealista a qual o artista pertence por se utilizar se uma auto metalinguagem, em que o pintor (Magritte) pinta si próprio retratando uma pintura. Cria, assim, na pintura, uma realidade tão real quanto a própria.  

                                        


Em outras palavras, ao retratar o que está sendo visto, o artista acaba criando uma própria realidade que é feita baseada nos traços e impressões do artista que está retratando o corpo humano. O pintor, em outras palavras, não está copiando uma realidade e sim criando uma nova, da mesma maneira que acontece com os sonhos dos homens, em que a realidade criada nos sonhos é, por um determinado momento enquanto se sonha, mais real que a própria realidade. Por conta da onda de obras clássicas que estavam ocorrendo no mundo, os pintores e artistas do século XX precisaram inventar novas formas de fazer arte. Para ter a chance de chamar a atenção da academia e dos críticos, os artistas precisavam ser grandes inventores, tanto da forma quanto do conteúdo, para se distanciar dos pintores e escultores do Renascimento, que o mundo e a academia passaram a admirar e seguir como padrão de arte. Qualquer distanciamento da tradição renascentista que simultaneamente despertasse o interesse dos críticos de arte e atraísse seguidores era ovacionado. O século XX nas artes foi marcada por uma constante experimentação incansável, por parte dos artistas, na forma de pintar visando gerar uma nova arte.          

Uma colina tem copmo representação social uma formação geográfica que se eleva acima do terreno circundante. Frequentemente possui um cume distinto e, geralmente, o termo se aplica a picos que se encontram acima da elevação relativa da massa terrestre, embora não sejam tão proeminentes quanto montanhas. As colinas se enquadram na categoria de formas de relevo de encosta. A distinção entre uma colina e uma montanha é imprecisa e em grande parte subjetiva, mas uma colina é universalmente considerada como não sendo tão alta ou tão íngreme quanto uma montanha. As colinas originalmente podem se formar por meio de fenômenos caracterizados como geomórficos: falhas geológicas, erosão de grandes formações terrestres, como montanhas, e movimento e deposição de sedimentos por geleiras notadamente morenas e drumlins ou por erosão que expõe rochas sólidas que, posteriormente, se desgastam e formam uma colina. Os picos arredondados das colinas resultam do movimento difuso do solo e do regolito que cobrem a colina, um processo conhecido como deslizamento de encosta. Diversos nomes podem ser usados ​​para descrever tipos associados de colinas, com base na aparência e no método de formação. Muitos desses nomes se originaram em uma região geográfica específica para descrever um tipo de formação de colina particular daquela região, embora os nomes sejam frequentemente adotados por geólogos e usados ​​em um contexto geográfico mais amplo.

            Muitos assentamentos foram originalmente construídos em colinas, seja para evitar inundações, principalmente se estivessem perto de um grande corpo d`água, para defesa que ofereciam uma boa visão do terreno circundante e obrigavam os potenciais atacantes a lutar em terrenos mais altos, ou para evitar áreas densamente florestadas. Por exemplo, a Roma Antiga foi construída sobre sete colinas, o que ajudava a protegê-la de invasores. Alguns assentamentos, particularmente no Oriente Médio, estão localizados em colinas artificiais constituídas de detritos particularmente tijolos de barro que se acumularam ao longo de muitas gerações. Tal local é conhecido como tell. No Norte da Europa, muitos monumentos antigos estão situados em aglomerados. Alguns deles são estruturas defensivas, como os castros da Idade do Ferro, mas outros parecem não ter praticamente nenhuma importância. Na Grã-Bretanha, acredita-se que muitas igrejas no topo de colinas tenham sido construídas sobre antigos locais sagrados pagãos. A Catedral Nacional de Washington, seguiu essa tradição e foi construída na colina mais alta da cidade.  As colinas de algumas cidades são culturalmente significativas em sua fundação, defesa e história. Além de Roma, elas desempenharam um papel proeminente na história de São Francisco, sendo centrais para a neblina da cidade e projetos de engenharia civil hoje famosos como atrações turísticas, como os bondes e a Lombard Street.

As colinas oferecem vantagens importantes para um exército que controla suas elevações, proporcionando-lhes uma visão privilegiada e uma posição de tiro elevada, além de forçar o exército inimigo a avançar morro acima para atacar um forte ou outra posição. Elas também podem ocultar tropas atrás de suas encostas, permitindo que uma força de guerra militar fique à espreita no topo de uma colina, usando-o como cobertura e abrindo fogo contra atacantes desprevenidos assim que estes se aproximarem do cume. Consequentemente, as estratégias militares convencionais frequentemente exigem a posse de terreno elevado. Devido ao seu valor tático, as colinas foram palco de muitas batalhas notáveis, como a Batalha de Alésia e o primeiro conflito militar registrado na Escócia, a Batalha de Mons Graupius. Conflitos da Era Moderna incluem a Batalha de Bunker Hill em 1775 que na verdade foi travada em Breed`s Hill, na Guerra da Independência Americana; e Cemetery Hill e Culp`s Hill na Batalha de Gettysburg em 1863, o ponto de virada da Guerra Civil Americana. A Batalha de San Juan Hill na Guerra Hispano-Americana de 1898 garantiu aos norte-americanos o controle de Santiago de Cuba, mas somente após sofrerem pesadas baixas infligidas por uma força muito menor entrincheirada de guerrilheiros no topo da colina. As batalhas pela posse de terrenos elevados resultaram em baixas para ambos, como a Batalha de Hamburger Hill em 1969 durante a Guerra do Vietnã, a Batalha de Stalingrado e a Batalha de Peleliu durante a 2ª guerra mundial e a Guerra de Kargil em 1969 entre a Índia e o Paquistão.             

A Grande Muralha da China é um exemplo duradouro de fortificação no topo de colinas. Ela foi construída para ajudar na defesa contra invasores vindos do Norte, como os mongóis. Hillwalking é um termo do inglês britânico para uma forma de caminhada que envolve a subida de colinas. A atividade geralmente se distingue do montanhismo por não envolver cordas ou escalada em rocha tecnicamente difícil, embora os termos montanha e colina sejam frequentemente usados ​​como sinônimos na Grã-Bretanha. O hillwalking é popular em áreas montanhosas como o Peak District inglês e as Terras Altas escocesas. Muitas colinas são categorizadas geograficamente de acordo com a altura relativa, comparativamente, ou outros critérios sociológicos e figuram em listas com nomes de montanhistas, como Munros (Escócia) e Wainwrights (Inglaterra). Atividades específicas como “peak bagging” (ou “Munro bagging”) envolvem a escalada de colinas nessas listas com o objetivo de eventualmente escalar todas as colinas da lista. A Corrida do Queijo e Despertar de Cooper`s Hill, é um evento anual no oeste da Inglaterra last but not least, que consiste em rolar uma roda de queijo ladeira abaixo. Os competidores ficam no topo e perseguem a roda de queijo até a base. O vencedor, aquele que alcançar o queijo, fica com a roda de queijo como prêmio. Os percursos de corrida cross-country podem incluir colinas, o que pode adicionar diversidade e desafio a esses percursos.

Durante muito tempo pensou-se que a Grande Muralha (1368–1644) fora construída para proteger o Império Chinês contra a ameaça de invasão por tribos vizinhas. Na verdade, porém, o Império Qin não corria qualquer perigo em relação às tribos do Norte quando a muralha começou a ser construída. Apenas os Hsiung-nu se haviam fixado significativamente no território chinês, e mesmo estes pouco resistiram quando o exército de Meng T’ien os expulsou da região de Ordos. A muralha seria uma defesa contra ataques futuros, mas o custo em vidas humanas parece excessivo para uma estrutura que não era uma necessidade imediata. A ideia da muralha pode ter nascido da obsessão de Shi Huang Di, foi rei do Estado chinês de Qin de 247 a.C. a 221 a.C., e posteriormente tornou-se o primeiro imperador de uma China unificada, de 221 a.C. a 210 a.C., reinando sob a alcunha de Primeiro Imperador, pela segurança e da sua paixão por grandes projetos. Porém, pode ter havido razões mais pragmáticas: a muralha seria um local conveniente para onde enviar os desordeiros e fazê-los trabalhar. A construção da muralha também dava emprego aos milhares de soldados sem trabalho, depois que a formação do império pôs fim à guerra entre os estados. Além disso, logo que a muralha ficasse terminada, teriam de ser colocados soldados em toda a sua extensão, assegurando-se assim que grande parte do exército seria mantida bem longe da capital. As primeiras construções surgiram antes da unificação do império, em 221 a.C. Ao unir sete reinos em um país, o imperador Qin Shihuang (259-210 a.C.) começou a unificar a muralha, aproveitando as inúmeras fortificações construídas por reinos atuais. Com três mil quilômetros de extensão à época, foi ampliada nas dinastias seguintes.

Com a morte do imperador Qin Shihuang, iniciou-se na China um período de agitações políticas e de revoltas, durante o qual os trabalhos na Grande Muralha ficaram paralisados. Com a ascensão da Dinastia Han ao poder, por volta de 206 a.C., reiniciou-se o crescimento chinês e os trabalhos na muralha foram retomados ao longo dos séculos até o seu esplendor na Dinastia Ming, por volta do século XV, quando adquiriu os atuais aspectos e uma extensão de cerca de sete mil quilômetros. Acredita-se que os trabalhos na muralha ocuparam a mão de obra de cerca de um milhão de operários (até 80% teriam perecido durante a sua construção, por causa da má alimentação e do frio), entre soldados, camponeses e prisioneiros. A magnitude da obra, entretanto, não impediu as incursões de mongóis, xiambeis e outros povos, que ameaçaram o império chinês ao longo de sua história. Por volta do século XVI perdeu a sua função estratégica, vindo a ser abandonada a partir de 1664, com a expansão chinesa na direção norte na Dinastia Qing. No século XX, na década de 1980, Deng Xiaoping deu prioridade à Grande Muralha como símbolo da China, estimulando uma grande campanha de restauração de diversos trechos. Porém, a requalificação do monumento como atração turística sem normas para a sua utilização adequada, aliada à falta de critérios técnicos para a restauração de alguns trechos como o próximo a Jiayuguan, no Oeste do país, onde foi empregado cimento moderno sobre uma estrutura de pedra argamassada, que levou ao desabamento de uma torre de seiscentos e trinta anos, geraram várias críticas especializadas por parte dos preservacionistas, que estimam que cerca de dois terços do total do monumento estejam em ruínas.           

Escólio: Uma visão pálida das colinas recupera a história de duas mulheres em uma Nagasaki destroçada pela guerra e marcada pelas mudanças bruscas da ocupação norte-americana. Etsuko, caracteristicamente figurada dona de casa burguesa, grávida de primeira viagem, aproxima-se de uma mulher peculiar e de sua filha pequena, vivendo solitárias e na penúria numa misteriosa casa abandonada. A partir dessa imprevista amizade, Etsuko projeta seus medos e inseguranças nas atitudes erráticas da amiga, que julga com severidade, ao mesmo tempo em que parece estar fadada a cometer os mesmos erros, transigidos em complexo jogo de espelhos. Em poucas páginas, Ishiguro elabora personagens de vasta densidade emocional e um relato de um país afundado em crise identitária. Uma obra assombrosa e delicada, que sintetiza o talento de um autor que viria a receber o prêmio Nobel. No romance, o escritor nipo-britânico relata o cotidiano no pós-guerra em Nagasaki a partir da vida de Etsuko, a protagonista, e Sachiko, sua vizinha.

Uma pequena vila de pescadores em porto isolado, Nagasaki tinha pouca significância histórica até o contato com os exploradores portugueses em 1543. Um dos primeiros visitantes foi Fernão Mendes Pinto, que veio de Vila do Bispo em uma embarcação portuguesa que atracou próximo a Tanegashima. Pouco depois, embarcações portuguesas começaram a navegar para o Japão como cargueiros regulares, aumentando o contato e as relações comerciais entre o Japão e o resto do mundo, particularmente com a China, com quem o Japão anteriormente havia cortado seus laços comerciais e políticos, principalmente devido a uma série de incidentes envolvendo a pirataria Wokou no Mar do Sul da China, com os portugueses agora servindo como intermediários entre os dois países asiáticos. Após vantagens mútuas derivadas desses contatos comerciais, que logo seria reconhecido por todas as partes envolvidas, a falta de um porto marítimo adequado em Kyushu com o propósito de abrigar navios estrangeiros representou um grande problema tanto para os comerciantes quanto para os daimiôs (senhores feudais) de Kyushu, que esperavam obter grandes vantagens do comércio com os portugueses. Enquanto isso, o missionário jesuíta navarrês São Francisco Xavier chegou à Kagoshima, no Sul de Kyūshū, em 1549, e logo iniciou uma campanha de evangelização pelo Japão, mas foi para a China em 1552 e faleceu pouco depois. Seus seguidores permaneceram convertendo um grande número de daimiôs. O mais notável entre eles era Ōmura Sumitada (1533-1587). Em 1569, Ōmura garantiu uma permissão para o estabelecimento de um porto com o propósito de abrigar embarcações portuguesas, Nagasaki, que foi finalmente criada em 1571, sob a supervisão do missionário jesuíta Gaspar Vilela (1526-1572) e o capitão-major português Tristão Vaz de Veiga (1539), com o auxílio pessoal de Ōmura. A pequena vila portuária rapidamente cresceu para uma cidade portuária diversa, e produtos portugueses importados por Nagasaki como tabaco, pão, têxteis e um pão-de-ló português chamado Castela) foram assimilados à cultura japonesa. O tempura derivado de uma receita originalmente conhecida como “peixinho-da-horta”, e que tem seu nome tirado da palavra portuguesa “tempero”, é exemplo dos efeitos desse intercâmbio cultural. Os portugueses também trouxeram bens da China. 

Devido a instabilidade durante o Período Sengoku Sumitada e o líder jesuíta Alessandro Valignano fizeram um plano para passar o controle para a Companhia de Jesus, em vez de ver a cidade tomada por um daimiô não-católico. E, por um breve período após 1580, a cidade de Nagasaki representou socialmente uma colônia jesuíta, sob seu controle administrativo e militar. Ela foi administrada pelo capitão do “barco negro” português, o mais alto representante da Coroa Portuguesa, quando presente. A cidade se tornou um refúgio para os cristãos que sofriam perseguições em outras partes do Japão. Entretanto, em 1587, a campanha de Toyotomi Hideyoshi para unificar o país chegou à Kyūshū. Preocupado com a grande influência cristã no sul do Japão, assim como o papel ativo dos jesuítas na arena política japonesa, Hideyoshi ordenou a expulsão de todos os missionários e colocou a cidade sob seu controle direto. No entanto, a ordem de expulsão não foi cumprida em grande parte, e a maioria da população de Nagasaki permaneceu abertamente católica praticante. Em 1596, a embarcação espanhola San Felipe foi destruída na costa de Shikoku, e Hideyoshi soube com o capitão de que Franciscanos espanhóis estavam na vanguarda de uma invasão ibérica do Japão. Em resposta, Hideyoshi ordenou a crucificação de vinte e seis católicos em Nagasaki. Os comerciantes portugueses não foram condenados ao ostracismo, e assim a cidade continuou a prosperar. Em 1602, missionários agostinianos também chegaram ao Japão, e quando Tokugawa Ieyasu tomou o poder em 1603, o catolicismo ainda era tolerado. Muitos daimiôs católicos foram importantes aliados na Batalha de Sekigahara, e os Tokugawa ainda não eram fortes o suficiente para ficarem contra eles. Uma vez que o Castelo de Osaka foi tomado e a prole de Toyotomi Hideyoshi foi morta, o domínio Tokugawa foi assegurado. 

Além disso, a presença holandesa e os inglesa permitiu o comércio sem envolvimento religioso. Então, em 1614, o catolicismo foi oficialmente banido e todos os missionários receberam a ordem para irem embora. A maioria dos daimiôs católicos apostataram, e forçaram seus subordinados a fazerem o mesmo, apesar de alguns não renunciarem a religião e partirem para Macau, Luzon e outras cidades com grande número de japoneses no sudeste asiático. Uma brutal campanha de perseguição seguiu-se, com milhares de cristãos em Kyūshū e outras partes do Japão mortos, ou forçados a renunciarem sua religião. O último suspiro do catolicismo como religião aberta e a última grande ação militar no Japão até a Restauração Meiji foi a Rebelião Shimabara de 1637. Enquanto não há evidências de que os europeus incitaram diretamente a rebelião, o Domínio Shimabara foi cristão por décadas, e os rebeldes adotaram muitas ideias portuguesas e ícones cristãos. Consequentemente, na sociedade Tokugawa a palavra “Shimabara” solidificava a conexão entre cristianismo e deslealdade, constantemente usada como propaganda Tokugawa. A Rebelião Shimabara também convenceu muitos legisladores que as influências estrangeiras eram um grande problema, o que levou o Japão a uma política de isolamento. Os portugueses que haviam vivido em uma ilha-prisão no porto de Nagasaki chamada Dejima, foram expulsos do arquipélago, e os holandeses foram movidos de sua base em Hirado para Dejima. Escólio: A trama do ponto de vista histórico e social da dramaturgia enlaça o destino das duas personagens como um espelho da conjuntura política e social do Japão, um país afundado em traumas emocionais e crise identitária. 

As memórias de Etsuko dão o tom específico da narrativa, que transita entre o passado e o presente. Por meio da história da protagonista, o autor apresenta elementos de sua própria biografia, como a migração para a Inglaterra após se deparar com um país devastado pela guerra e pela invasão dos Estados Unidos. Nascido em Nagasaki, Ishiguro chegou aos cinco anos em terras britânicas. O autor recebeu o Nobel de Literatura em 2017, além de ter ganhado o Booker Prize em 1989 por Os Vestígios do Dia, que foi adaptado para o cinema. Durante a visita de sua filha, Niki, Etsuko reflete sobre sua vida como uma jovem no Japão e como deixou o país para viver na Inglaterra. Como ela descreve, ela e seu marido japonês, Jiro, tiveram uma filha, e alguns anos depois Etsuko conheceu um britânico e se mudou com ele para a Inglaterra. E levou sua filha mais velha, Keiko, para morar com ela e o marido. Quando Etsuko e seu novo marido tiveram uma filha, Etsuko queria dar a ela um nome moderno, enquanto seu marido queria um nome com sonoridade oriental, então eles chegaram a acordo com o nome Niki, que para Etsuko parecia perfeitamente britânico, mas para seu marido soava pelo menos um pouco japonês. Na Inglaterra, Keiko torna-se cada vez mais solitária e antissocial. Etsuko recorda como, à medida que Keiko crescia, ela se trancava no quarto e saía apenas para pegar o prato de jantar que sua mãe deixava para ela na cozinha. Esse comportamento perturbador termina, como o leitor já sabe, no suicídio de Keiko. Seu pai, diz Etsuko a Niki, “era bastante idealista às vezes... Ele realmente acreditava que poderíamos dar a ela uma vida feliz aqui (...). Mas veja bem, Niki, eu sempre soube. Eu sempre soube que ela não seria feliz aqui”. Etsuko narra à sua filha, Niki, que tinha uma amiga no Japão chamada Sachiko. Sachiko tinha uma filha chamada Mariko, uma menina que, na memória de Etsuko, era excepcionalmente solitária e antissocial. Sachiko, lembra-se Etsuko, planejava levar Mariko para os Estados Unidos com um soldado americano identificado apenas como Frank. Claramente, a história de Sachiko apresenta semelhanças impressionantes com a de Etsuko. Metodologicamente, vale lembrar, a semelhança serve à representação esteticamente, que reina sobre ela; a similitude serve à repetição, que corre através dela. A semelhança se ordena segundo o modelo que está encarregada de acompanhar e de fazer reconhecer; a similitude faz circular o simulacro como relação indefinida e reversível do simular ao simular.

Na Décalcomanie (1966), uma cortina vermelha de largas dobras que ocupa dois terços do quadro subtrai ao olhar uma paisagem do céu, do mar e de areia. Ao lado da cortina, dando como de costume, as costas ao espectador, o homem com chapéu-coco olha para o perigo. A cortina se encontra recortada com uma forma que é exatamente a do homem: como se fosse ele próprio um pedaço de cortina cortado com a tesoura. Nessa larga abertura, vê-se a praia. O que se deve compreender? É o homem destacado da cortina e, ao se deslocar permite ver o que ele estava olhando quando se misturava com a dobra da cortina? Decalcomania? Deslocamento e mudança de elementos similares, mas de modo alguma reprodução semelhante: “corpo=cortina”, diz representação semelhante. A semelhança comporta uma única asserção, sempre a mesma. A similitude as afirmações diferentes, que dançam juntas, apoiando-se e caindo umas em cima das outras. Expulsa do espaço do quadro, excluída da relação entre as coisas que reenviam uma à outa, a semelhança desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar, onde estaria liberta do jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança ser a soberania que faz surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das coisas, não é própria ao pensamento? 

- “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado ser semelhante; ele assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o mundo oferece”. O pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio essas coisas cuja similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse ponto onde está na vertical um pensamento que está sob o modo da semelhança e das coisas que estão nas relações de similitude. Isto não é um cachimbo é suficiente para a questão: quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os elementos dispostos, seja deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura um jogo de transferências que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no plano do quadro sem nada afirmar, nem representar nesses jogos da similitude. Em Les Liaisons Dangereuses (1782) uma mulher nua mantém diante de si um espelho que a esconde quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados, baixa a cabeça, que volta para a esquerda como se quisesse não ser vista e não ver que é vista.  Esse espelho, que se encontra no plano do quadro e de frente para o espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega esconde. O espelho funciona  ao modo de uma tela radioscópica. Mas com todo um jogo de diferenças. A mulher é ali vista de perfil, voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço não estendido para carregar o espelho, mas dobrado sobre os seios; a cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na imagem do espelho, à esquerda, interrompida pela moldura, no momento desse ângulo.       

A imagem é notavelmente menor do que a própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar; translações sem ponto de partida nem suporte. Dia virá no qual a própria imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto de pensamento abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em circulação.  A razão disto é que toda lei é universal, mas a respeito de certas coisas não é possível fazer uma afirmação universal que seja correta. O controle disciplinar não consiste simplesmente em ensinar ou impor através de um mecanismo uma série de gestos definidos; impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso ou inútil: tudo deve ser chamado a formar parte do ato requerido. 

Um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização mínimo do gesto. Uma boa caligrafia, por exemplo, supõe uma ginástica – uma rotina cujo rigoroso código abrange o corpo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador. Um corpo disciplinado é a base do gesto eficiente. Segundo Foucault (2016: 150 e ss.), a articulação corpo-objeto a disciplina define cada uma das relações que o corpo deve manter com o objeto que manipula. Ela estabelece cuidadosa engrenagem entre um e outro. Temos aí um exemplo de double face do que é “codificação instrumental” do corpo. Isto é, consiste em uma decomposição do gesto global em duas séries paralelas, significativamente: a dos elementos do corpo que serão postos em jogo: mão direita, mão esquerda, diversos dedos da mão, joelho, olho, cotovelo etc., a dos elementos do objeto manipulado: cano, alça de mira, cão, parafuso etc.; coloca-os depois em correlação uns com os outros, analogamente, segundo um certo número de gestos simples (apoiar, dobrar); finalmente fixa a ordem canônica em que cada uma dessas relações ocupa um lugar determinado. Diante de tal raciocínio, é possível constatar que para Aristóteles, a lei não é totalmente plena, no sentido de abranger todas as situações e problemas jurídicos aos quais a sociedade possa estar sujeita, ou seja, existe uma determinada lei, entretanto, podem existir situações que não foram pensadas pelo legislador e consequentemente não estão abrangidas por esta lei, mas que também necessitam de amparo legal. Desse modo, não seria justo que tal situação ou caso fosse ignorado por uma “falha” do legislador, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para permitir que aquele caso seja conhecido e apreciado quanto ao seu mérito de maneira justa, levando-se em consideração as peculiaridades do caso concreto. Aristóteles menciona ainda que “essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”, sendo que é justamente essa correção que torna justa a resolução do caso concreto. 

Desse modo é possível depreender por meio de um raciocínio lógico que toda lei é justa, mas nem tudo que é justo é abarcado pela lei, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para que aquela situação que não foi abrangida pela lei tenha seu mérito analisado de maneira justa. E é justamente por ter esse caráter corretivo e, diga-se também, complementarmente, que para Aristóteles, o equitativo é espécie superior de justiça: por se amoldar as diversas situações existentes no mundo fático é claro e notório que a sociedade tem uma mutação/mudança muito mais acelerada do que a legislação posta para a regular, até mesmo porque são as próprias mudanças da sociedade que vão embasar alterações na legislação. Da perspectiva da teoria da ação social, é só de maneira insatisfatória que as atividades do espírito humano podem ser restritas à confrontação cognitivo-instrumental, segundo Habermas (2012) com a natureza exterior; ações sociais orientam-se por valores culturais. Estes últimos, porém, não contam com um referencial de verdade. Assim, coloca-se a seguinte alternativa: ou negamos aos componentes “não cognitivos” da tradição cultural o status assumido pelas entidades do terceiro mundo graças à alojação delas em uma esfera de nexos de validade, e então nivelamos esses mesmos componentes de maneira empirista, como formas enunciativas do espírito subjetivo; ou procuramos equivalentes para o referencial de verdade que está ausente. Essa segunda via, como veremos, é escolhida por Max Weber. Ele distingue diversas esferas culturais de valor – ciência e técnica, direito e moral, bem como arte e crítica. E também as esferas de valor não cognitivas constituem esferas de validade. Noções jurídicas e morais podem ser criticadas e analisadas sob o ponto de vista da correção normativa; obras de arte, sob o ponto de vista da autenticidade (ou beleza). 

Pode-se trabalhá-las como campo autônomos de problemas. Entende que a tradição cultural no todo como uma provisão de saber, a partir da qual se podem formar “esferas especiais de valor” e “sistemas especiais de validade distintas”. Por isso ele atribuiria ao terceiro mundo tanto os componentes culturais avaliativos e expressivos quanto os cognitivos-instrumentais. Quando se escolhe essa alternativa, é preciso esclarecer o que podem significar “validade” e “saber” dos componentes “não cognitivos” da cultura. Este aspecto é muito importante na análise. Estes últimos, diversamente de teorias e enunciados, não podem ser ordenados a entidades do primeiro mundo. Valores culturais não cumprem uma função representativa. Segundo Habermas, comparativamente, desde Aristóteles, o conceito de agir teleológico está no centro da teoria filosófica da ação. O ator realiza um propósito ou ocasiona o início de um estado almejado, à medida que escolhe em dada situação meios auspiciosos, para então empregá-los de modo adequado. O conceito central é o da decisão entre diversas alternativas, voltada à realização de um propósito, derivada de máximas e apoiada em uma interpretação. O modelo teleológico do agir comunicativo é ampliado a modelo estratégico quando pelo menos um ator social que atua orientado a determinados fins revela-se capaz de integrar ao cálculo do êxito a expectativa de decisões. Esse modelo de ação é interpretado de maneira utilitarista; aí se supõe que o ator escolhe e calcula as relações comportamentais entre os meios e fins, provavelmente no trabalho, segundo aspectos da maximização do proveito ou das expectativas de proveito. 

Esse modelo de ação, em economia, sociologia e psicologia social, está subjacente às abordagens vinculadas à decisão ou à teoria lúdica. O conceito de agir regulado por normas não se refere ao comportamento de um ator, que encontra outros no entorno, mas a membros de um grupo social, que orientam seu agir segundo valores em comum. O ator individual segue uma norma (ou colide com ela), tão logo as condições se apresentem em uma dada situação na qual se possa emprega-las. As normas expressam o comum acordo subsistente em um grupo social. Todos os membros de um grupo social em que vale determinada norma podem esperar uns dos outros que cada um execute ou omita as ações preceituadas de acordo com determinadas situações. O conceito central de cumprimento da norma significa a satisfação de uma expectativa de comportamento generalizada. A expectativa de comportamento não tem o sentido cognitivo da expectativa de um acontecimento prognosticado, mas o sentido normativo de que o partícipe goze do direito à expectativa de um comportamento. Esse modelo normativo de ação subjaz à teoria dos papéis. O conceito do “agir dramatúrgico” não se refere primeiramente ao ator solitário, nem ao membro de um grupo social, mas aos participantes de uma interação que constituem uns para os outros um público a cujos olhos eles se apresentam. O ator suscita determinada imagem, uma impressão de si mesmo, ao desvelar sua subjetividade em maior ou menor medida. Todo aquele que age pode controlar o acesso público à esfera de suas próprias intenções, pensamentos, posicionamentos, desejos, sentimentos, etc., à qual somente ele mesmo tem acesso.

No “agir dramatúrgico”, os partícipes usam essa circunstância e monitoram sua interação social por meio da regulação do acesso recíproco à subjetividade própria. Portanto, filosoficamente o conceito central de autorrepresentação não significa um comportamento expressivo espontâneo, mas per se a “estilização da expressão de vivências próprias endereçadas a expetadores”. Esse modelo dramatúrgico de ação serve em primeira linha a descrições da interação fenomenologicamente orientadas; até o momento, porém, ele não foi elaborado a ponto de construir uma abordagem teoricamente generalizante. Enfim, para sermos breves, o conceito do agir comunicativo, refere-se à interação de pelo menos dois sujeitos capazes de falar e agir que estabeleçam uma relação interpessoal seja com meios verbais ou extraverbais. Os atores buscam um entendimento sobre a situação da ação para, de maneira concordante, coordenar seus planos de ação e, com isso, suas ações. O conceito central de interpretação refere-se em primeira linha à negociação de definições situacionais passíveis de consenso. Nesse modelo de ação a linguagem assume uma posição proeminente. O conceito de ação teleológico tornou-se produtivo pelas mãos dos fundadores do neoclassicismo, isto é, para uma teoria econômica das ações eletivas, e por John von Neumann (1903-1957) e Oskar Morgenstern (1902-1977) para a representação da teoria dos jogos estratégicos. Para a formação de teorias nas ciências sociais, isto é o “conceito de agir regulado” por normas alcançou importância paradigmática por meio de Émile Durkheim e Talcott Parsons; o conceito de agir dramatúrgico por meios de Erving Goffman; e o de agir comunicativo por meio de George Herbert Mead (1863-1931) e, mais tarde, Harold Garfinkel (1917-2011). 

Não podemos apresentar aqui em maiores detalhes a explanação analítica desses quatro conceitos. Interessa-nos muito mais as implicações das respectivas estratégias conceituais para a racionalidade. À primeira vista, apenas o conceito teleológico de ação parece colocar à disposição um aspecto da racionalidade da ação; o agir concebido como atividade propositada pode ser considerado sob o aspecto da racionalidade teleológica. Eis um ponto de vista sob o qual as ações podem ser planejadas ou cumpridas de maneira de maneira mais ou menos racional por uma terceira pessoa. Nos casos elementares da atividade propositada, pode-se representar o plano de ação sob a forma de um raciocínio prático. Os três outros modelos de ação aparentemente não posicionam o agir sob o ângulo da racionalidade e da possibilidade da questão em torno da racionalização. Mas bem se vê que essa aparência engana, desde a Antiguidade, quando se têm presentes as pressuposições “ontológicas” em sentido mais amplo que, de maneira conceitual, estão necessariamente ligadas a esses modelos de ação. Nos modelos teleológico, normativo e dramatúrgico, très bien, nessa sequência, as pressuposições tornam-se não apenas mais complexas, mas desvelam do ponto de vista da interpretação ao mesmo tempo implicações para a racionalidade sempre mais intensas. E a essa técnica mesma que era usada nos famosos regulamentos da infantaria prussiana que a Europa inteira imitou depois das vitórias de Frederico II: quanto mais se decompõe o tempo, quanto mais se multiplicaram suas subdivisões, quanto melhor o desarticulamos desdobrando seus elementos internos sob o olhar que os controla, mais então se pode acelerar uma operação, ou pelo menos regulá-la segundo um rendimento ótimo de velocidade.

 Daí que essa regulamentação do tempo da ação que foi tão importante no exército e que devia sê-lo para toda a tecnologia  da atividade humana: o regulamento prussiano de 1743 previa 6 tempos para a arma ao pé, 4 para estendê-la, 13 para colocá-la ao contrário sobre o ombro etc. Por outros meios, a escola mútua também foi disposta como um aparelho para intensificar a utilização do tempo; sua organização permitia desviar o caráter linear e sucessivo do ensino do mestre; regulava o contraponto de operações feitas, ao mesmo tempo, por diversos grupos de alunos sob a direção dos monitores e dos adjuntos, de maneira que cada instante que passava era povoado de atividades múltiplas, mas ordenadas; e por outro lado o ritmo imposto por sinais, apitos, comandos impunha a todos normas socialmente temporais que deviam ao mesmo tempo acelerar o processo de aprendizagem e ensinar a própria rapidez como uma virtude. Finalmente, estabelecer séries; prescrever a cada um, de acordo com seu nível, sua antiguidade, seu posto, os exercícios que lhe convêm; os exercícios comuns têm um papel diferenciador e cada diferença comporta exercícios específicos. Ao termo de cada série, começam outras, formam uma ramificação e se subdividem por sua vez. Uma ponte representa uma construção que permite interligar ao mesmo nível pontos não acessíveis separados por rios, vales, ou outros obstáculos naturais ou artificiais. 

A palavra Ponte provém do latim Pons que por sua vez descende do Etrusco Pont, que significa estrada. Em grego πόντος (Póntos), derive talvez da raiz Pent que significa “uma ação de caminhar”. As pontes são construídas para permitirem a passagem sobre o obstáculo a transpor, de pessoas, automóveis, comboios, canalizações ou condução de água (aquedutos). Quando é construída sobre um curso de água, o seu tabuleiro é frequentemente situado a altura calculada de forma a possibilitar a passagem de embarcações com segurança sob a sua estrutura. Quando construída sobre um meio seco costuma-se chamar as pontes de viadutos, como uma forma de apelidar pontes em meios urbanos. Do contrário não pode ser usado, já que dialeticamente um viaduto é uma ponte que visa não interromper o fluxo rodoviário, mantendo a continuidade da via de comunicação quando se depara e têm que transpor um obstáculo natural constituído por depressão do terreno, cruzamentos e outros sem que este seja obstruído. Viadutos são exemplos muito comuns em grandes metrópoles, bem administradas, onde o intenso tráfego de veículos normalmente de grandes avenidas ou vias expressas não podem ser ligeiramente interrompidos. Além de cidades que possuem muitos acidentes geográficos, onde o viaduto serve para ligar dois pontos mais altos de uma determinada região e relevo.

Bibliografia Geral Consultada.

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