“O dinheiro não traz felicidade - para quem não sabe o que fazer com ele”. Machado de Assis
A classe média brasileira, criada pela expansão do emprego público e pela criação de empregos privados em geral, tem sido representada pelos trabalhadores que prestam serviços diretamente aos grupos empresariais e por extensão das elites econômicas e elites políticas, como os profissionais com ensino superior empregado em funções medianas em empresas. Os profissionais com ensino superior, funcionários públicos em empregos bem situados, composto por médicos do sistema público, advogados e profissionais liberais concursados. Os funcionários de escritório mais requalificados, de empresas privadas ou estatais, composto por diretores e supervisores de colégios privados e escolas públicas, bancários de postos intermediários, delegados de polícia em início de carreira, enfermeiras experientes, etc. Enfim, inclusive pelos trabalhadores manuais de maior requalificação, os operários especializados e semiespecializados de indústrias públicas e privadas, composto por mecânicos, eletricistas, encanadores, metalúrgicos, fresadores, instrumentistas, inspetores de qualidade, torneiros mecânicos e de cargos recém-criados de inovação.
Na esfera da vida social a luta
política é uma das questões que sempre marcaram a dialética entre capital e
trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente
seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade intelectual. O
sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o quadro em que age; que
quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um
sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares, sua e dos
outros para agir. A política é levada,
assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da
universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações
particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política (ou na
universidade) evitam a opção por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo,
o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença.
São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados
em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação
hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também
pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social
aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.
As três dimensões da atividade
acadêmica, ensino, pesquisa e extensão, vêm se tornando
dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e
dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de
pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos
docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os
ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa
atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um
órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em
núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as
agências de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de
funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional,
individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade
meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas,
regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra.
Não
raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma
indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida de atribuições e
responsabilidades. A forma de comportamento na dinâmica burocrática,
administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às
competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os
conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade
com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e
leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada
um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de
nós atuou. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída
a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A
sociedade brasileira rejeita a avaliação
e a universidade padece com ela, geralmente vista como algo negativo, como representação
simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e
saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente
negativo encontra-se ausente. Tendo em vista que, na universidade não há
“premiação” para o bom professor em nenhum aspecto, mas aqueles que
fazem pesquisa e orientam alunos, fazem porque querem fazer, porque podem
fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica.
Isto
quer dizer que através dos exercícios de abstinência e de domínio que
constituem a askesis necessária, o
lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se
pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem
definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz
e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. E,
finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela
soberania do indivíduo sobre si mesmo. Mas essa soberania amplia-se numa
experiência onde a relação assume a forma, não somente de uma dominação, mas de
um gozo sem desejo e sem perturbação. É possível dizer que não há idade para se
ocupar consigo. Mas uma espécie de idade de ouro na chamada “cultura de si”,
sendo subentendido com isso, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos
grupos sociais. Ou seja, aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se
sem cessar. Ademais, é conhecida a amplitude ética tomada em Sêneca pelo tema
da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar
às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si
próprio. Sêneca dispõe de um vocabulário para designar as diferentes formas que
o “cuidado de si” deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si
mesmo. Apressa-te, pois para o objetivo: - “dize adeus às esperanças vãs,
acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é
possível”.
Pode-se
também interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer
um desses retiros que Caio Musônio Rufo, célebre filósofo estoico do primeiro
século e professor de Epiteto, dentre outros, recomendava vivamente: eles
permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar
diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da
leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar,
graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional.
É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas
diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos
ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no
trabalho filosófico ou, como referia Spurrima, na calma de uma existência
agradável, “à posse de si próprio”. Esse tempo não é vazio: ele é povoado por
exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas em seu dia a dia. Ocupar-se de si não é
uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, sem os excessos da chamada “corpolatria”, os regimes de saúde, os
exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as
necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão certamente relidas, a
rememoração das verdades que se sabe, mas que convém apropriar-se melhor. Marco Aurélio nos dá um exemplo de anacorese em si próprio, de reativação
de princípios e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar
com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas.Esse
tempo não é vazio, ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas,
atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados
com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a
satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações,
as leituras, as anotações que se toma sobre livros, ensaios ou conversações
ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se
sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece,
assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um longo trabalho
de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a
não deixar-se irritar com os outros, nem com os acidentes, nem tampouco com as
coisas. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a
si mesmo. Ela não constitui um exercício comumente visto da solidão. Em verdade, o exercício da
leitura, da reflexão e da escrita se tratava de uma verdadeira prática. E isso, em vários e múltiplos sentidos.
Toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das
escolas, do ensino técnico e dos profissionais da direção da alma. Ela encontrava,
facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de
amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do “cuidado de si”, faz-se apelo
ao outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar,
faz-se uso de um direito através do hábito, da cultura, da formação. E é um
dever que se realiza quando se proporciona ajuda ao outro ou quando se recebe
com gratidão as lições que ele pode lhe dar. Acontece também do jogo entre os
cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais
ele dá uma nova “coloração” e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados
que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então
como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua
mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar
essa infelicidade atual e, talvez,
mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente
ligado a uma espécie de serviço da alma que comporta a possibilidade de um jogo
de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas, de
interpretação e de camaradagem, de conflito e sociabilidade.
A
mobilidade é mais frequentemente medida de forma quantitativa em termos de
mudança de mobilidade econômica, tais como mudanças na renda ou riqueza. A
ocupação é outra medida utilizada na pesquisa de mobilidade, o que geralmente
envolve tanto a análise quantitativa quanto qualitativa dos dados. No entanto,
outros estudos podem concentrar-se na classe social. A mobilidade pode ser
intrageracional, dentro da mesma geração ou entre gerações, entre uma ou mais
gerações. Vale lembrar que a classe média brasileira está plenamente integrada
nos modernos padrões de consumo de massas. Todavia, estatisticamente a
distribuição das classes sociais no Brasil é distorcida pela desigualdade
social e econômica, na medida em que os 10 % mais ricos da população nacional,
quase toda parcela da classe alta chegavam, em 1980, a controlar 50,9% de toda
a renda disponível no país. Se somarmos a esse contingente a parte mais rica da
classe média brasileira, ou seja, outros 10 % da população nacional, notaremos
que essa parcela de apenas 20% controlaria quase 67% de toda a renda nacional.
A mobilidade social é dependente da
estrutura de status sociais e
ocupações em uma dada sociedade. A extensão de diferentes posições sociais e a
maneira pela qual elas são interdependentes e se relacionam fornecem a
estrutura social global de tais posições. Estas dimensões diferentes de
mobilidade social podem ser classificadas em termos de tipos de “capital” que
contribuem para mudanças na mobilidade diferentes. Adicionando-se a isso as
diferentes dimensões da estrutura econômica, as formas de prestígio e poder
temos o potencial de complexidade de determinado sistema de estratificação
social. Além disso, em que sociedade pode ser vista como variáveis
independentes que podem explicar diferenças na mobilidade social, em diferentes
tempos sociais e lugares, em diferentes sistemas de estratificação. A tese central do nacionalismo desenvolvimentista tem como representação social o desenvolvimento econômico e a consolidação da nacionalidade constituindo dois aspectos do mesmo processo emancipatório. O desenvolvimento dependeria, assim, de uma consciência nacional mobilizada em torno de uma vontade no plano global de desenvolvimento. Na esfera cultural, a retórica do início dos anos 1960, tanto de “direita” como de “esquerda”, para lembrarmo-nos da ciosa interpretação de Norberto Bobbio, foi demarcada pelo uso corrente das categorias sociais “povo” e “nação”, ou nacional- popular. Os movimentos sociais no caso emblemático do Centro Popular deCultura (CPC), além do discurso anti-imperialista adotaram uma postura vanguardista, de que a autêntica cultura popular é aquela produzida por artistas e intelectuais que optaram por ser povo - enquanto a cultura do povo era considerada arcaica e atrasada. Neste
sentido é que compreendemos as variáveis que contribuem como intervenientes
para a avaliação do rendimento, ou riqueza, e quando afetam o status, classe social e a
desigualdadeno âmbito da mobilidade
social. Estes incluem sexo ou gênero, raça ou etnia e idade. Na modernidade o “capital cultural”
representa o processo de distinção entre os aspectos econômicos da classe e
bens culturais poderosos, descritos por P. Bourdieutrês tipos que situam uma pessoa em uma
determinada categoria social: o capital econômico; o capital social e o capital
cultural. O capital econômico inclui recursos econômicos, tais como dinheiro,
crédito e outros bens materiais. O capital social inclui recursos que se
alcançam com base nos membros do grupo, redes de influência, relações e apoio
de outras pessoas. O capital cultural é uma vantagem que uma pessoa tem que
lhes dá um status mais elevado na
sociedade, como a educação, as habilidades, ou qualquer outra forma de
reconhecimento. Normalmente, as pessoas com todos os três tipos de capital têm
um status elevado na sociedade, tendo em vista que a cultura da classe social
superior é mais orientada para o raciocínio formal e o pensamento abstrato. Ele
também descobriu que o ambiente em que a pessoa se desenvolve tem um grande
efeito político sobre os recursos culturais que uma pessoa vai ter a seu
dispor.
A
desigualdade social reproduzida através da classe social está relacionada ao
poder aquisitivo, ao acesso à renda, à posição social, ao nível de escolaridade
e ao padrão de vida existente entre as frações da classe dominante que controlam
direta ou indiretamente o Estado, através de efeitos de poder político, na
educação e trabalho, reproduzindo inexoravelmente uma estrutura social implantada
e difundida pelos métodos de trabalho e de produção no âmbito das esferas sociais
e de poder dominante. A divisão da sociedade em classes é consequência dos
diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, ocupado
por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de
vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe
social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no
processo de produção e que têm afinidades eletivas políticas e ideológicas.
E
esse problema não estava relacionado exclusivamente ao trabalho manual e às
classes trabalhadoras. Basta pensarmos na referência ao capitão Hawdon, ou
Nemo, de A casa abandonada, de Charles
Dickens. O personagem era um ex-oficial do Exército que ganhava a vida fazendo
trabalhos temporários como jurista. Mas no caso de Marx, lembra Jones (2017:
357), não se tratava de pobreza no sentido comum da palavra. Em 1862, sugestão de Lassale de que a de Marx trabalhasse para ganhar
dinheiro com a condessa Von Hatzfeldt, sua companheira, foi recebida como um indizível
desrespeito ao status social deles e provocou um dos mais repulsivos insultos
de Marx. – “Imagine só! Esse sujeito, sabendo do caso americano etc. [a perda
dos rendimentos do Tribune], e
portanto da situação de crise em que me encontro, teve a insolência de
perguntar se eu cederia uma das minhas fihas à la Hatzfeldt como “dama de
companhia”. Uma justificativa para o comportamento era que isso seria determinado pela
necessidade de garantir o futuro das filhas. Em julho de 1865, admitiu: - “É
verdade que minha casa está acima de meus meios, e que temos, além disso,
vivido melhor este ano do que foi o caso antes. Mas é o único jeito de as
meninas se estabelecerem socialmente, com vistas a assegurar o seu futuro”.
As novas abordagens sociológicas em
termos de classe “c” em seguida de “nova classe média” constitui a pauta do
debate, pós-governos Lula-Dilma pelo volume dos trabalhos analíticos e estatísticos
realizados e pelo impacto de sua linha interpretativa. Não se trata apenas de
uma linha de estudo e de transformação brasileira, mas de algo que diz respeito
as dinâmicas globais. No Brasil, desde 2001, a desigualdade em termos de renda
diminuiu regularmente. A renda per capita
dos 10% mais ricos da população aumentou em média de 1,49% ao passo que a dos
mais pobres tem aumentado 6,79%. Isso num movimento oposto ao que caracterizou
o Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), que juntos formam um grupo
político de cooperação intercontinental. Em 14 de abril de 2011, o “S” foi oficialmente
adicionado à sigla para formar o BRICS, após a admissão da África do Sul. Em consequência,
a pobreza diminuiu constantemente desde 2003. - “Estimamos que, entre 1993 e
2011, 59,8 milhões de brasileiros (o equivalente a uma République française) chegaram à condição
social de nova classe média”. Mas a mobilidade chegou mesmo a ritmos consistentes no
período conjuntural de 2003 a 2011, quando 40 milhões de brasileiros entraram
para a classe média que passou assim de 65,9 a 105,5 milhões de pessoas, ou
seja, um aumento de 60%. Segundo as previsões estatísticas, até 2014, mais 12
milhões migrariam para a classe “C” e 7,7 milhões irão para a as classes “B” e
“A”. Com exceção do Nordeste, as classes A, B e C serãode 75% da população.
- “A nova classe média brasileira é filha da combinação do crescimento com a
equidade, que difere de nossa história pregressa e daquilo que ocorre nas
últimas décadas em países emergentes e desenvolvidos onde a concentração de
renda sobe”.
Mudanças na composição orgânica da
sociedade brasileira desestabilizaram crenças e ideologias arraigadas sobre “desigualdade
social, a pobreza e a mobilidade”. De acordo com Kopper e Damo (2018), a
linguagem da “nova classe média” articulou, simultaneamente, diferentes
acepções da mobilidade econômica, refletindo-se ainda como um índice de
desigualdade social e de distribuição de renda. Neste debate, Nova Classe Média
difere em espírito da expressão “nouveau riche”, que acima de tudo discrimina a
origem das pessoas. Nova classe média não é definida pelo ter, mas pela
dialética entre ser e estar olhando para a posse de ativos e para decisões de
escolha entre o hoje e o amanhã. Eles informariam as necessidades e valores desse
novo segmento de pessoas, e sua focalização em subpopulações como um todo e da
“nova classe média” em particular: os negros, as mulheres e os jovens. A
possibilidade de proclamar o Brasil um país de “classe média” chamou a atenção
do governo federal. Foi formulado um novo de estratificação que buscava mapear
e sistematizar conceitos de classe média com vistas à sua aplicação à realidade
brasileira. A iniciativa desembocou no projeto social intitulado: Vozes da Classe Média, que
perdurou até 2015, procurando decifrar as expectativas e desejos dessa
população urbana para aperfeiçoar a formulação de políticas econômicas do Estado.
A tese da “nova classe média”
conduziu Marcelo Neri (2010) a uma rápida ascensão e queda política. Na
transição do governo Lula para o governo Dilma Rousseff, a partir de 2011, o
economista passou a participar de avaliações de programas sociais e de reuniões
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Em 2012,
assumiu a presidência do IPEA e, em março de 2013, com a saída de Moreira
Franco para a Secretaria de Aviação Civil (SAC), tornou- se ministro interino
da SAE, sendo oficializado no ano seguinte no mesmo cargo, onde deu
continuidade à agenda de pesquisas sobre classe média e introduziu novas
metodologias, como o índice de satisfação com a vida, mensurado pelo Gallup World Poll. Nesse mesmo período,
Neri foi escolhido como um dos cem brasileiros mais influentes, segundo
pesquisa anual realizada pela revista Época.
Tomando como ponto de partida o trabalho seminal de Marcelo Neri (2010), as páginas
dos jornais, dentro e fora do país passaram a escrever a crônica da “nova classe
média”. Em novembro de 2009, a revista The
Economist publicou uma reportagem de capa intitulada “Brazil takes off ”, à
luz da imagem do Cristo Redentor decolando. Imagens que antes clamavam pelo
combate à pobreza eram agora substituídas por comportadas famílias de classe
média sorridentes posando em ambientes domésticos com objetos de consumo. Outras
procuravam acentuar os contrastes e ambivalências que ainda existiam, à frente muitas
vezes de suas precárias habitações em “zonas periféricas” de cidades. Embora
não fosse unanimidade, a tese da “nova classe média” expandiu-se no circuito
midiático, político e científico.
Bibliografia
geral consultada.
MARX, Karl, O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1969; AMORA, Zenilde
Baima, Recherche sur la Classe Moyènne à Fortaleza. Doutorado em
Geographie et Amenagement du Territoire. Université de Toulouse II - Le Mirail,
França, 1984; BONELLI, Maria da Gloria, A Classe Media do Milagre a Recessão: Mobilidade Social, Expectativas e Identidade Coletiva. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997; BOITO JR. Armando, Classe Média e Sindicalismo. Col. Primeira Versão. Campinas, vol.
123, pp. 1-40, 2004; GAGGI, Massimo; NARDUZZI, Edoardo, El Fin de la Clase Media y el Nacimiento de la Sociedad de Bajo Coste. Madri: Editor Lengua de Trapo, 2007; SOUZA, Amaury; LAMOUNIER,
Bolívar, A Classe Média Brasileira:
Ambições, Valores e Projetos de Sociedade. Rio de Janeiro: Editor Elsevie;
Distrito Federal: Confederação Nacional da Indústria, 2010; NERI, Marcelo, A
Nova Classe Média: O Lado Brilhante dos Pobres. Rio de Janeiro: Centro de Políticas
Sociais/Fundação Getúlio Vargas, 2010; GARCIA,
Maria Teresa, O Crescimento da Classe C
no Brasil e as Mudanças na Narrativa dos Telejornais. Dissertação de
Mestrado em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, 2015; LAVAL, Christian, “et alii”, Marx & Foucault. Lectures, Usages, Confrontations.
Paris: Éditions La Découverte, 2015; DÓRIA, Kim Wilheim,
O Horror não Está no Horror: Cinema de Gênero, Anos Lula e Luta de Classes
no Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Meios e
Processos Audiovisuais. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; GROHMANN, Rafael do Nascimento, As Classes Sociais na Comunicação: Sentidos Teóricos do Conceito. Tese de Doutorado. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; KOPPER,
Moisés; DAMO, Arlei Sander, “A Emergência e Evanescência da Nova Classe Média Brasileira”. In: Horiz. Antropol. Porto Alegre, ano
24, n° 50, pp. 335-376, jan./abr. 2018; GREENE, Joshua, Tribos Morais: A Tragédia da Moralidade do Senso Comum.1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018; entre outros.
“Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade”.
Michel de Certeau
A
Rua Augusta é uma via arterial da cidade de São Paulo que liga o bairro dos
Jardins a região do Centro Histórico de São Paulo. A rua é reconhecida por suas
lojas, boutiques e estabelecimentos de luxo na região dos Jardins e por suas
boates, casas noturnas, bares e vida noturna na região que parte da Avenida
Paulista em direção ao Centro, passando pela região reconhecida como Baixo
Augusta. A rua segue em subida a partir de seu início no entroncamento das ruas
Martins Fontes, Martinho Prado e a Praça Franklin Roosevelt, até o cruzamento
com a Avenida Paulista. Após cruzar a Paulista, ela se torna uma descida
seguindo em direção à Rua Colômbia, no Jardim Europa. A Rua Augusta é
reconhecida principalmente por sua vida noturna de bares, baladas e casas de
shows variadas, mas também por algumas casas de prostituição, saunas e boates
adultas. As primeiras referências dela datam de 1875, chamando-se primeiramente
Rua Maria Augusta; em 1897 já aparece como Rua Augusta. Foi parte das terras do
português Mariano António Vieira, dono da Chácara do Capão desde 1880, quando
abriu várias ruas no Bairro da Bela Sintra, inclusive a Rua da Real Grandeza,
atual Avenida Paulista. Resolveu abrir uma trilha, pois os caminhos eram íngremes, para posteriormente serem instalados bondes puxados por burros, em
1890.
Apenas em 1891 com a inauguração da
luz elétrica, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi
estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, ficando oficial em 1927. Até 1942, a
Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande
ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada (Decreto Lei N.º 153). Do
lado oposto, em direção aos "Jardins", o seu prolongamento até a Rua
Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome Augusta: tudo leva a crer que o
responsável pela sua abertura, o português Mariano Antônio Vieira, não quis
homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou
adjetivo) ao chamá-la de Rua Augusta. Colabora para esta versão o fato de que o
mesmo Mariano, ao abrir uma “picada” no alto do Morro do Caaguaçu, chamou este
logradouro de “Rua da Real Grandeza”. Historicamente vieram os loteamentos,
quando surgiram confortáveis residências e comércio para servi-las.
Gradativamente começaram a surgir edifícios de moradia. Grande parte de comércio
fino de decoração se instalou na região central-ascendente, a partir da Rua
Marquês de Paranaguá. As casas residenciais deram lugar ao comércio de rua.
Shoppings Centers e Cinemas de categoria social se instalaram frequentados
pelas famílias e mais tarde pelos jovens que buscavam distração. Caminho certo
rumo aos bairros dos Jardins e seus clubes, como o Club Athletico Paulistano, a
Sociedade Harmonia de Tênis e o Esporte Clube Pinheiros.
A
Rua Augusta representou para os jovens paulistanos na década de 1960, glamour e
diversão. A canção Rua Augusta, de Ronnie Cord, lançada em 1964 foi uma espécie
de hino da juventude paulistana que frequentava o logradouro nesta época. A
partir da década de 1970, começou a adaptar-se às mudanças, dado o pesado
tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros
comerciais, aliado à falta de estacionamento. Mesmo assim, os jovens
continuaram a estar por lá com suas motos, carros envenenados e muito
congestionamento, principalmente, entre as décadas de1970 e 1980. Haviam muitas
discotecas e casas de danças para acompanhar os “embalos de sábado à noite”,
pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Está
sempre sendo atualizada desde aquela época de grande urbanismo e de seu
radiante desenvolvimento, com a reforma do calçamento, decoração com vasos,
retirada de uma parte dos postes de iluminação pública obsoletos, colocação de
carpete, estacionamento para automóveis na Zona Azul, subterrâneo, construção
de boulevard e o desligamento do
trafego dos ônibus elétricos com as novas calçadas. Na década de 1970 a rua
Augusta perdeu seu prestígio e comércio, provavelmente, por conta da abertura de grandes Shoppings Centers na cidade de São Paulo. Nessa época também foram abertos diversos
prostíbulos em seu entorno.
A rua modernizou-se em 1993 com a abertura e
desenvolvimento do projeto social do cinema Espaço Unibanco. A partir da década
de 2000, a Rua Augusta voltou a ser parte e principalmente a rememorar da vida
noturna dentre os jovens. A Augusta abriu o Vegas Club, The Pub,
Club Noir, o Comedy Club Comedians, considerado o primeiro de comédias do
Brasil, YO restaurante, e outros. Seu entorno é ambientado por bares,
restaurantes, casas noturnas, lojas e antigos prostíbulos. Na perspectiva de democratização, condição para uma nova estética urbana, duas redes retêm
particularmente a atenção sociológica: os gestos
e os relatos. Ambos se caracterizam
como cadeias de operações feitas
sobre e com o léxico das coisas. De dois modos distintos, um tático e outro
linguístico, os gestos e os relatos manipulam e deslocam objetos,
modificando-lhe as repartições e os empregos. São “bricolagens”, de acordo com
o modelo reconhecido ao mito por Claude Lévi-Strauss. Inventam colagens casando
citações de passados com extratos de presentes para fazer deles séries
(processos gestuais, itinerários narrativos) onde os contrários simbolizam. Os
gestos são verdadeiros arquivos da cidade, se entendermos “arquivos” o passado
selecionado e reempregado em função de usos presentes.
Refazem diariamente a
paisagem urbana. Esculpem nele mil passados que talvez já sejam inomináveis e
que menos ainda estruturam a experiência da cidade. As histórias sem palavras
do andar, do vestir-se, de morar ou do cozinhar trabalham os bairros com
ausências; traçam aí memórias que não têm mais lugar – infâncias, tradições
genealógicas, eventos sem data. Este é também o “trabalho” dos relatos urbanos.
Nos cafés, nos escritórios, nos imóveis eles insinuam espaços diferentes.
Acrescentam à cidade visível as “cidades invisíveis” de Calvino. Eles
criam outra dimensão, sempre mais fantástica e delinquente, terrível ou
legitimadora. Por isso, tornam a cidade “confiável”, atribuindo-lhe uma profundidade
ignorada a inventariar e abrindo-a a viagens do olhar. São as chaves da cidade:
elas dão acesso ao que ela é, mítica. Habitar é narrativizar. Fomentar ou
restaurar esta narratividade é, portanto também uma tarefa de restauração. É
preciso despertar as histórias que dormem nas ruas que jazem de vez em quando
num simples nome, dobradas neste dedal como as sedas da feiticeira. Jamais
talvez uma sociedade se tenha beneficiado de uma mitologia tão rica. Mas a
cidade é o teatro de uma guerra dos relatos, como a cidade grega era o campo
fechado de guerras contra os deuses. Entre nós, os grandes relatos da televisão
ou da publicidade esmagam ou atomizam os pequenos relatos de rua ou de bairro.
É urgente que a restauração venha em socorro desses últimos,
registrando e difundindo as que se contam no padeiro, no café ou em casa. Mas
isto é feito arrancando-as de seus lugares, relatos de palavras nos bairros ou
imóveis restituiriam aos relatos os solos onde podem desabrochar.
O bairro se define sociologicamente como uma
organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida
cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos,
cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo
vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o
ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele
espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de
“se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um
“engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos,
comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da
proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois
sistemas com o auxílio do conceito de conveniência,
que surge no nível dos comportamentos. Representa um compromisso pelo qual
cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a
vida coletiva,retirando daí benefícios
simbólicos protelados.
Pela relação “saber comportar-se”, o
usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana. A
contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser
reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar
assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que
percorre. O bairro é por definição, segundo a fenomenologia de de
Certeau (2000), “um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma
parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se
sente reconhecido”. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente,
como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço
privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social
integrado. A fixidez do habitat dos
usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento
que se estabelecem graças á coexistência concreta num mesmo território
urbano, constituindo um lugar praticado, de elementos práticos se nos
oferecem como imensos campos de exploração a compreender um pouco melhor esta
grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.
É
o que ocorreu com “O Artista de Rua” Ricardo Corrêa da Silva que morreu na
tarde de sexta-feira do dia 15 de dezembro de/2017 em São Paulo aos 60 anos de idade. De acordo com a
família, ele estava internado na ala psiquiátrica do Complexo Hospitalar do
Mandaqui, na zona norte da cidade de São Paulo, sofreu um ataque cardíaco e foi
transferido para o pronto-socorro, mas não resistiu. Ainda não há informações
sobre a causa exata da morte. Personagem famoso ena cidade de São Paulo, Ricardo viu sua
história de vida ganhar visibilidade após uma reportagem publicada no site Buzzfeed. Popularmente reconhecido como “Fofão
da Augusta”, por causa de um preenchimento de silicone que tinha nas bochechas,
Ricardo, que sofria de esquizofrenia, trilhou uma bem-sucedida carreira como
cabeleireiro e se tornou sócio de um salão de beleza. No entanto, após sofrer
golpes e ver sua saúde mental se deteriorar, foi morar na rua e passou a
distribuir panfletos de teatro e pedir dinheiro fantasiado de palhaço na região
central de São Paulo. - “Ao longo da vida fomos percebendo que o Ricardo
realmente tinha uma questão de saúde mental, o que deu a ele uma personalidade
exuberante e sucesso em São Paulo, embora tenha vivido essa vida intensa e com
tanto sofrimento. Pelo menos nos conformamos com o fato de ele ter descansado”,
afirmou seu irmão Marcelo Corrêa da Silva.
Ricardo
Corrêa da Silva sonhava em ver seu nome nos letreiros do teatro. Nos anos 1970,
saiu da cidade de Araraquara a 273 km de São Paulo, para trabalhar com artes
cênicas. Acabou enveredando pelo “visagismo”, em que se demonstrou um talento
nato. Penteou e maquiou artistas como Tônia Carrero na época em que despontou
em alguns dos maiores salões da capital. Investia o dinheiro que ganhava em um
ideal de beleza: queria ser igual a uma boneca chinesa de porcelana. Para isso,
injetou mais de meio litro de silicone nas maçãs do rosto, nas bochechas e na
testa. Fez plástica. No fim dos anos 1980, a esquizofrenia e um golpe de que
foi vítima tiraram o que havia conquistado. Acabou sem casa. Passou a se
apresentar nos semáforos da Rua Augusta. E seu espetáculo ficou em cartaz por
décadas. Ficou conhecido como “Fofão da Augusta”, apelido em que não se reconhecia.
– “Mas deixa chamarem assim, coisa boba”. Ele morou na última década sozinho
numa pensão, na chamada “cracolândia”, no centro, pela qual pagava diária de R$
30, e trabalhava distribuindo panfletos de peças de teatro na Av. Paulista.
Ricardo foi vítima de embolia pulmonar, menos de uma
semana depois de completar seu aniversário de 60 anos.
O bairro surge como o domínio onde a
relação de domínio espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja
deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da
cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço
público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada,
pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do
conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que
deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares
impostos pelo dinamismo do urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço
urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego,
itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por
si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção
dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a
repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma
apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna
inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para
satisfazer o desejo urbano pleno dos usuários da cidade.
Mas quem é, afinal, o Fofão da Rua Augusta, que depois da publicação do perfil escrito por Chico Felitti
tornou-se, para muitos e para muitas, o Ricardo Corrêa? Segundo Figueiredo
(2018: 226 e ss.), o perfil só foi possível, então, quando ficou sabendo, por uma
conhecida das redes sociais, que Ricardo estava num hospital e decidiu ir
visitá-lo. Após a primeira visita e depois de algum tempo de recuperação de
Ricardo, quando estava melhor de saúde, conseguindo falar sobre sua vida e com
a esquizofrenia mais controlada, o repórter disse que gostaria de contar a sua
história e queria que as pessoas soubessem quem ele realmente era. No hospital,
como indigente, ele não tinha direito a um nome, conta Felitti, assim como ele
não tinha direito a um nome na cidade, as pessoas chamavam ele de Fofão da
Augusta, ninguém sabia o nome dele. O perfil, dessa forma, também foi um
processo de busca de identidade. O afeto, além de mover a pesquisa do
jornalista, também está presente na sua capacidade de emocionar e comover as pessoas;
o que só foi possível porque, para escrever o perfil, o repórter acompanhou a
vida de seu personagem durante quatro meses – mas, no total, a convivência
durou um semestre inteiro. O exaustivo trabalho de apuração, a curiosidade, uma
atitude dialógica e de afeto, fez com que o repórter buscasse o Ricardo
herdeiro de 35 mil reais e o Ricardo pobre que pedia dinheiro na rua para
sobreviver; o homem que estava internado como indigente no Hospital das
Clínicas, mas que era reconhecido pelas pessoas na cidade como o Fofão da
Augusta; conhecido de todas e de todos que passavam pela região da Avenida
Paulista, mas que, na verdade, era um completo desconhecido para elas; o homem
que não gostava de aparecer, mas que dizia “eu não sou desconhecido. Eu sou
muito popular”. Ricardo Corrêa não é uma dessas coisas ou outra: Felitti faz
com que conheçamos um Ricardo que é uma dessas coisas e as outras também,
contraditório e complementaridade de opostos.
O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro que efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. A relação entrada ou saída, dentro ou fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa ou trabalho, representando uma relação entre pessoa e mundo, condicionado por uma dialética da autoconsciência que vai haurir, de forma humana, socialmente íntima.
A inauguração da luz elétrica, em 1891, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, tornando-se oficial em 1927. Mas até 1942 a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada, por motivos de “higienização”. Do lado oposto, em direção aos “Jardins”, o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome “Augusta” tudo leva a crer, de acordo com reminiscências, que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antonio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou ideológico) ao chamá-la de “Rua Augusta”. Colabora para esta ideia o fato social de que o mesmo Mariano, ao abrir uma picada no Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. As frações da classe dominante econômica e politicamente os empresários do café responsável pelas principais atividades do complexo cafeeiro e compondo as oligarquias, possuíam vínculos comerciais com a Europa, mas também culturais, sobretudo com a França.Paris, a
metrópole por excelência do século XIX, era a Meca para todos os povos, tendo
sido, por conseguinte, alvo dos paulistas enriquecidos. Era a capital da moda,
do luxo, do consumo, dos museus, dos teatros, dos esportes e dos demais tipos
de lazer de massa. Nela também aconteciam as grandes exposições internacionais.
O francês era a principal língua da ciência e da literatura, sendo falada nas
cortes que ainda persistiam na Europa como o fora, havia pouco tempo atrás, na
do Reinado do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.
Com o tempo, tornaram-se
áreas exclusivas de palacetes, graças a uma legislação específica. Em 1894,
Joaquim Eugênio de Lima, um dos promotores da abertura da Avenida Paulista
conseguiu efetivar junto à Prefeitura uma lei que obrigava as futuras
construções a respeitarem um recuo de 10 metros com relação ao alinhamento das
calçadas, bem como de 2 metros lateralmente. Etnograficamente,
segundo Homem (1994), quatro anos depois, surgiram os recuos obrigatórios para
jardins e arvoredo e um espaço de pelo menos 2 metros de cada lado para as
residências a serem edificadas nas avenidas Higienópolis e Itatiaia, atual Avenida
Angélica. Os bairros dos Campos Elíseos, da Consolação, da Liberdade e de Santa
Cecília permaneceram como áreas mistas. Modificou-se a noção de morar da classe
dominante. A casa individualizou-se, passando a expressar o êxito econômico e
profissional do proprietário, bem como o seu grau de cosmopolitismo. Ela
tornou-se o refúgio das lutas pela vida e local de privacidade, ao mesmo tempo em
que devia proporcionar afastamento físico daquelas áreas e certa alienação
quanto às tensões e aos conflitos sociais. As camadas mais ricas procuraram viver
isoladamente. Em São Paulo, historicamente, as vilas foram as que mais disseram
respeito à tradição paulistana de auto-abastecimento, recém-saída do mercado da
escravidão. Com o Ecletismo, houve uma racionalização do espaço existente ao
redor da casa, no sentido de se definir uma posição para cada um dos
complementos da construção principal. Os parques e os jardins, utilizados para o lazer familiar, ficavam
sempre em posição fronteira ou lateral, relegando-se aos fundos, os elementos sociais
que diziam respeito aos serviços.
Numa
palavra, camuflou-se o trabalho manual, apartando-o da zona destinada ao uso
social. Os jardins do art nouveau
transformaram-se em moldura do palacete, compondo ambos um conjunto harmonioso.
Figuras sinuosas inspiradas no reino vegetal e mineral, tais como: gotas,
folhas e flores envolviam a construção principal que passou a ser o centro da
composição. Contudo, as áreas exclusivas de palacetes, complementadas pela
arborização das avenidas e demais vias que as recortavam, constituíram
importante “mancha verde”, apenas interrompida pela gama vermelha dos telhados,
dos belvederes e de torres esporádicas, a ponto de se tornarem a principal
característica dos bairros das elites paulistanas. Essa notável massa homogênea
assinalou a paisagem da cidade, tendo sido “independente do ecletismo de suas
edificações” a ponto de podermos defini-los como “verdadeiros marcos
referenciais urbanos” conforme observou o arquiteto Silvio Soares Macedo ao se
referir ao bairro de Higienópolis. Incluídos nos roteiros turísticos da cidade,
tais marcos atraíam a população de outros bairros que neles vinham passear nos fins
de semana. Da mesma forma, chamaram a atenção dos viajantes que estiveram na capital
paulista nesse período, os quais não deixaram de mencioná-los em seus
apontamentos de viagem. A
“Rua Augusta representou para jovens paulistanos na década de 1960 glamour e diversão. Rua Augusta" é uma
canção, composta pelo maestro brasileiro Hervé Cordovil e gravada pelo cantor
brasileiro Ronnie Cord, sendo seu maior sucesso, e lançada pela gravadora RCA
Victor em 1964. Rua Augusta foi a primeira música de rock brasileiro a ter
problemas com a censura. Sua terceira estrofe, - “Comigo não tem mais esse
negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a
maior fina do guarda...” - foi cortada pela censura, tendo que ser substituída.
Sua letra captura o espírito da juventude roqueira do começo dos anos 1960, que
tinham suas motos e carros embalados na velocidade das mudanças de costumes
trazidos com o rock e o movimento da jovem guarda, na mesma época em que a Rua
Augusta, da cidade de São Paulo, era um local progressista do Brasil. A canção
também seria regravada pelos Mutantes, no disco “Mutantes e Seus Cometas no
País do Baurets” e por Raul Seixas, que deixou uma das versões mais conhecidas
do público. A partir da década de 1970, começou a se adaptar às mudanças, dado
o tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros
comerciais, aliado à falta de estacionamento. Na badalada década a Rua Augusta
perdeu seu prestígio e comércio por conta da febril concorrência
imobiliária com a abertura de shoppings centers em inúmeros pontos comerciais de São Paulo.
Os
centros comerciais de médio e grande porte funcionam como pequenas cidades, possuindo
uma estrutura governamental (a administração) e seus serviços de polícia e
bombeiros (segurança), de limpeza (sanitário), de abastecimento de água, de manutenção
de infraestruturas etc. Trata-se de um espaço de poder, planejado para
estimular a economia urbana e facilitar o consumo. A administração é
centralizada, e as lojas são alugadas, para a exploração comercial calculada e
a prestação de serviços, sendo sujeitas a normas contratuais padronizadas.
Muitas vezes, um supermercado ou grande estabelecimento de varejo funciona como
“âncora” do empreendimento. A administração tende a procurar manter o
equilíbrio da oferta e uma certa diversificação ou complementaridade entre os
diferentes tipos de estabelecimentos e de produtos oferecidos. Os locatários
pagam um valor em conformidade com um percentual do faturamento (de 5 a 9%) ou
um valor mínimo básico estabelecido em contrato - o que for maior. Os centros comerciais, na maior parte das vezes, cobram por muitos serviços. Nos centros comerciais de maiores dimensões, com vários
andares, a circulação se dá, habitualmente, através de escadas rolantes, para
facilitar o movimento de pessoas de um andar para outro. O maior shopping
center do mundo é o Dubai Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes, que conta com 1
200 lojas, 22 salas de cinema, um estacionamento com 14 000 vagas, além de
abrigar o maior aquário do mundo, com 33 000 animais marinhos expostos. O
título de melhor centro do é atribuído em Cannes, na França, e
pertence ao Europa Passage, na Alemanha.
A
atriz Fiorella Mattheis é a protagonista da série “Rua Augusta”, que a O2
realiza para a TNT, abreviação para Turner
Network Television, canal de
televisão por assinatura especializado em filmes e séries. O canal original foi
criado pelo magnata da mídia Ted Turner em 1988 nos Estados Unidos da américa.
A programação do canal é em áudio dublado, já em outros momentos, a atração
pode ser exibido legendado em horário nobre. O canal chegou ao Brasil na década
de 1990. Exibe sucessos do cinema com falas em português e está presente em
praticamente todos os pacotes de TV por assinatura do Brasil. Ela representa
sua personagem Mika. A série tem direção-geral de Pedro Morelli que divide a
direção dos episódios com Fábio Mendonça. A direção de fotografia é de Rodrigo
Carvalho e Dante Belluti e a direção de arte de Fabio Goldfarb. “Rua Augusta” é
adaptação da série israelense “Allenby Street”. Durante o dia,
a Rua Allenby, localizada em Tel Aviv, Israel, é o espaço de
atividades comerciais. Quando a noite chega, a via é agitada pelos
bares e casas de show da região. E é lá que Mika (Moran Atias) realiza a
vida. Trabalhando como prostituta, a jovem divide seu tempo entre o trabalho e
os prazeres da vida noturna, até que ela se envolve em caso amoroso.
A série televisiva “Rua Augusta” foi filmada em diversas locações em São Paulo, especialmente na região da
Rua Augusta. Mika (Fiorella Mattheis) é uma stripper que reconstrói sua
vida após um passado conturbado e misterioso. Ela passa a trabalhar na agitada
Rua Augusta, em São Paulo, onde é dançarina na Boate Love e se diverte na boate
Hell. Numa noitada, o destino da jovem se cruza com o do filho de um
empresário e muda sua vida para sempre. Isto não impediu como alternativa aos usuários que também houvesse abertos
diversos prostíbulos em seu entorno. Mas a rua se modernizou em 1993, com a
abertura do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, voltou a ser
parte da vida noturna dos jovens. Abriu os espaços: Vegas Club, The Pub, Club
Noir, o Comedy Club Comedians, primeiro clube de comédias do Brasil, YO
restaurante, entre outros. Seu entorno está movimentado por bares,
restaurantes, casas noturnas, lojas e o gosto por antigos prostíbulos. Os jovens consumidores
prestigiam a rua com carros e suas motos, e muito congestionamento. Havia
muitas discotecas para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de
esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Sempre sendo atualizado
desde a década de 1970, com reforma do calçamento, decoração com vasos,
retirada de uma parte inútil dos postes de iluminação pública que estavam obsoletos,
colocação de carpete, estacionamento pago Zona Azul e subterrâneo e a
construção de um bulevar e por fim, a
eliminação dos úteis e vistosos ônibus elétricos com as novas calçadas.
Bibliografia geral consultada.
BRUNO, Ernani Silva, História e Tradições da Cidade de São Paulo.2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1954; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; FREITAS, Maria Luiza de, O Lar Conveniente: Os Engenheiros e Arquitetos e as
Inovações Espaciais e Tecnológicas nas Habitações Populares de São Paulo
(1916-1931). Dissertação de Mestrado. São Carlos: Instituto de Arquitetura
e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2005; PIMENTEL, Lídia
Valesca Bonfim, Vidas nas Ruas, Corpos em Percurso no Cotidiano da Cidade.
Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de
Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2005; JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto, Calçadões: A Revitalização Urbana e a Valorização das Estruturas Comerciais em Áreas Centrais. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006; VEGA, Alexandre Paulino, Estilos
e Marcadores Sociais da Diferença em Contexto Urbano: Uma Análise da
Descontração de Diferenças entre Jovens em São Paulo. Dissertação de
Mestrado em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; PISSARDO, Felipe Melo, A Rua
Apropriada: Estudo sobre as Transformações e Usos Urbanos na Rua Augusta (São
Paulo, 1891-2012). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2013; BASTOS, Bruna
Freire, Construindo Identidades, Espaços e Sentido: O Consumo Cotidiano na
Cidade de São Paulo. Um Olhar sobre a Rua Augusta. Dissertação de Mestrado
em Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo.
São Paulo: Associação Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2016; ARRUDA,
Marina Almeida Ferraz, A Memória no Resgate do Passado - A Rua Augusta em
São Paulo. Dissertação de Mestrado em Cultura e Comunicação. Lisboa:
Faculdade de Letras. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; FIGUEIREDO, Carolina
Moura Klautau de Araújo, Jornalismo, Incerteza e Complementaridade de
Opostos: Um Diálogo Compreensivo. Dissertação de Mestrado. Programa de
Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Libero, 2018; entre
outros.
“Enquanto a cor da pele for mais importante que
o brilho dos olhos haverá guerra”. Bob Marley
Oracy
Nogueira nasceu em Cunha em 17 de novembro de 1917, onde viveu até os dez anos
de idade. A família se muda para Catanduva em 1928, e logo para Botucatu em
1931/32, onde Oracy completa o ginásio. Em 1932, com quatorze anos, participa
como membro voluntário da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Em
1933/34, trabalha como repórter e redator no jornal Correio de Botucatu,
filia-se então ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual permaneceria
vinculado até meados dos anos 1960. Ingressa em 1940, no curso de bacharelado
da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em São Paulo, como
estudante-bolsista de Donald Pierson, e lá conhece Lisette Toledo Ribeiro que
viria a tornar-se sua esposa, colaboradora e mãe de seus quatro filhos. Donald
Pierson era professor de Sociologia e Antropologia, obtivera seu doutoramento
em Chicago, sob a orientação de Robert Ezra Park. Pierson passou dezesseis anos
em São Paulo como docente, e na opinião de Oracy, representou um “verdadeiro
diretor acadêmico da ELSP”. Na Escola, Oracy Nogueira foi aluno de
Radcliffe-Brown, Herbert Baldus, Sérgio Milliet e Emilio Willems, entre outros
de sua geração, permanecendo estreitamente vinculado à instituição e a Donald Pierson,
até o ano do retorno deste aos Estados Unidos da América (EUA) em torno do ano de
1952.
Em
1942, Oracy conclui o bacharelado. Em 1945, o mestrado com a dissertação “Vozes
de Campos de Jordão. Experiências sociais e psíquicas do tuberculoso pulmonar
no Estado de São Paulo”, publicada em 1950. Ainda em 1945, por meio de um
convênio firmado entre a Escola Livre de Sociologia e Política - ELSP e a
Universidade de Chicago viaja para os Estados Unidos da América (EUA) para a
realização do doutoramento naquela Universidade. Lá permanece sob a orientação
de Everett Hughes, cumprindo créditos nos Departamentos de Sociologia e de
Antropologia até 1947, tendo sido aluno de W. L. Warner, Robert Redfield, Louis
Wirth, o próprio Hughes, entre outros. Retorna ao Brasil para redação da tese,
que, entretanto não chega a ser defendida: sendo filiado ao Partido Comunista
Brasileiro, em 1952, em pleno macarthismo, seu visto para retorno aos Estados
Unidos é negado. Na ELSP, Oracy Nogueira ensina no curso de graduação desde
1943 e, a partir de 1947, no de pós-graduação, desenvolvendo simultaneamente
atividades de ensino e pesquisa. Integra também a direção da Revista Sociologia (1948-1958), e também
sua colaboração com a Comissão Paulista
de Folclore, liderada por Rossini Tavares Lima e sua participação nos
debates pontuais e conceituais então travados pelo Movimento Folclórico que abrange uma série de empreendimentos
destes intelectuais que almejava, entre outras coisas, “o reconhecimento do
folclore como saber científico”. Organizados em 1947 na Comissão Nacional de Folclore (CNFL), eles ramificaram o movimento
em comissões estaduais, promoveram congressos e viabilizaram a criação, em
1958, da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, órgão executivo ligado ao
Ministério da Educação.
Analogamente,
também Florestan Fernandes realizou entre 1942 e 1945 vários pequenos
levantamentos, como o estudo sobre as manifestações do preconceito de cor em Sorocaba e do culto a João de Camargo; uma
análise quantitativa da competição entre profissionais liberais em São Paulo,
com base em identificações extraídas dos volumes das “listas telefônicas”; uma
sondagem, através de questionários, da população rural de Poá, na qual tive a
colaboração de Oswaldo Elias Xidieh; certa participação na pesquisa do prof.
Dr. Willems, sobre Cunha, na qual ele se encarregou de estudar determinados
aspectos do folclore ou da vida sexual da comunidade, assim como ajudou na
coleta de dados antropométricos; uma exploração dos dados quinhentistas sobre
os contatos dos Tupi com os brancos, na cidade de São Paulo, uma pesquisa que
deveria fazer com o prof. Dr. Donald Pierson mas que interrompemos de modo
prematuro, um balanço crítico das contribuições que Gabriel Soares e Hans
Staden poderiam dar para o estudo da vida social dos Tupinambá e seus contatos
com os brancos. E em 1944 iniciara “graças ao empenho e à colaboração
desinteressada” de Jamil Safady, uma pesquisa sobre a aculturação de sírios e
libaneses em São Paulo. Essa experiência extensiva - afirma o talentoso
sociólogo - não diz tudo. A pesquisa de 1941, complementada parcialmente em
1944, como já nos referimos, sobre o folclore, e o levantamento sistemático dos
dados conhecidos sobre os índios Tupinambá, iniciado em 1945 e completado em
1946, constituem um marco em sua preparação sociológica.
Queremos
dizer com isso que, para Florestan Fernandes no início da década de 1950, o
período de formação chegava ao fim e, simultaneamente, revelava os seus frutos
maduros. Ele já havia terminado a redação de A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá e dispunha de
condições não só para colaborar com Roger Bastide em outra pesquisa complexa
que realizaram, posteriormente, sobre a Integração
do Negro na Sociedade de Classes (1964), tendo como escopo a cidade de São
Paulo. Graças à transferência para a Cadeira de Sociologia I, oficializada em
1952 e, em seguida, ao contrato como professor em substituição a Roger Bastide,
ele viu-se diante da oportunidade de contar com uma posição institucional para
por em prática as concepções que formara a respeito do ensino da sociologia e
da investigação etnológica. Florestan pretendia implantar e firmar padrões de
trabalho que nos permitissem alcançar o nosso modo de pensar sociologicamente e
a contribuição à sociologia.
Em
1952, no mesmo ano em que Donald Pierson deixou o Brasil, Oracy Nogueira aceita
o convite para coordenar a cadeira de Ciência da Administração na Faculdade de
Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (USP) e para
o Instituto de Administração anexo. Em 1955, ele se efetiva como técnico do Instituto
de Administração da Universidade de São Paulo, então dirigido por Mário Wagner
Vieira da Cunha, que também passara pela ELSP, logo se tornando chefe do Setor
de Pesquisas Sociais. Em 1957, vai para
o Rio de Janeiro, trabalhar no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais
(CBPE) do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos do Ministério da Educação,
a convite de Darcy Ribeiro, seu ex-aluno na ELSP. Nesse contexto, publica: Família e Comunidade: Um Estudo Sociológico
de Itapetininga (1962). Resultado de pesquisa de 10 anos (1947-1956), o
livro é um clássico na área dos estudos sobre família demonstrando a
importância sociológica da organização familiar, uma vez que a história da
comunidade se entrelaça com a de certas famílias. Oracy volta a São Paulo em
1961, como técnico do Instituto de Administração, desligando-se finalmente da
ELSP. Em 1967, defende junto à cadeira de Sociologia II da Faculdade Municipal
de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco sua tese de Livre Docência,
um estudo também pioneiro: Contribuição
ao Estudo das Profissões de Nível Universitário no Estado de São Paulo.
O sociólogo e antropólogo Oracy
Nogueira compõe uma geração de intelectuais cuja démarche está vinculada
ao processo de institucionalização das ciências sociais no Brasil. Mas
tornou-se internacionalmente conhecido por um trabalho apresentado no XXXI Congresso Internacional de
Americanistas, realizado em São Paulo, em agosto de 1954: “Preconceito
racial de marca e preconceito racial de origem - sugestão de um quadro de
referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil”.
O Congresso Internacional de Americanistas é uma atividade cientifica de ampla
tradição, que vem celebrando-se, ininterruptamente, desde 1875, data do
primeiro congresso na cidade de Nancy, convocado pela SociétéAméricainedeFrance.
Em suas dez primeiras versões, teve o Congresso de Americanistas sedes europeias;
sendo o México, em 1895, sua primeira sede norte-americana. Desde então se
procura alternar o local de celebração, não só quanto aos países, mas também
quanto aos continentes, de tal forma que a um congresso realizado na Europa
suceda-se outro na América do Norte. Seu trabalho transformou-se, rapidamente,
numa referência quase obrigatória para os estudos de relações raciais, servindo
também de síntese erudita da dicotomia entre o Brasil e os Estados Unidos, em
termos das relações entre brancos e negros. Era o ingrato destino de uma
reflexão, que fora apropriada por uma política identitária nacionalista que
buscava firmar o caráter democrático e brando das relações raciais, em
contraste vis-à-vis com o mundo, notadamente os Estados Unidos da América.
No
caso brasileiro, no limite as relações irão desembocar no racismo de cátedra como marca. As três dimensões da atividade
acadêmica universitária - ensino, pesquisa e extensão - vêm se tornando
dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e
dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de
pesquisa de Tese de Titular que se desenvolve por ação complementar dos
docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os
ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa
atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um
órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em
núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as
agências de financiamento públicas.
Nos
órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria.
O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder
público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma
instituição representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma
administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que
devem ser cumpridos. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de
poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades à
medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento dos atores
sociais envolvidos na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das
universidades se reporta, em grande parte, às competências distribuídas e
amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos de competência e desempenho
resultam do confronto da autoridade como forma de comportamento não
desejada, porém amparada em normas, regras e leis.
Do
ponto de vista psicológico a cor preferida remete-nos a um perfil básico das
características da personalidade; a segunda cor que dá preferência indica os
seus objetivos ou metas básicas na vida. A rejeição ou aversão a uma cor é
altamente significativa, pois indica uma necessidade básica insatisfeita, não
atendida, na sua personalidade, e que, portanto, gera tensão ou ansiedade. Se
você não gosta ou tem aversão ao vermelho, indica que você se sente derrotado e
frustrado. Apesar de um “gigantesco” esforço da sua parte, você sente que a
vida não tem recompensado a sua luta. Você anseia por paz e segurança, porém
por algum motivo não consegue encontrá-las. Você se sente ameaçado pelo
ambiente intenso e agressivo que o cerca, porém não encontra saída. Em
decorrência, você padece de uma sensação terrível de desamparo. Você deve de
começar a usar o vermelho, mesmo que não goste. Com a continuação começará a
gostá-lo. É a cor da vitória, por isso, é indicado para os frustrados.
Desde
a Antiguidade já era dado ao vermelho atributo de poder, tanto na religião
quanto na guerra. O deus Marte, os centuriões romanos e mesmo certos sacerdotes
se vestiam nesta cor. Obviamente desde cedo se relacionava o vermelho com o
sangue e com o fogo. Desde os princípios do cristianismo, o fogo vermelho era
símbolo de vida, e um dos exemplos mais conhecidos dessa simbologia são as
línguas de fogo que descem sobre as cabeças dos apóstolos no dia de
Pentecostes. O sangue vermelho de Cristo é símbolo de salvação. Mas o vermelho
contrariamente também tem outro sentido simbólico: é também a morte, o inferno,
as chamas de Satã, a carne impura, os crimes, o pecado e todas as impurezas. Na
Roma antiga, também se produzia um tipo de vermelho a partir de uma concha
encontrada no Mar Mediterrâneo, a “murex”. Como era uma concha rara, obviamente
só eram tingidas com esse pigmento as roupas do imperador e dos chefes de guerra.
Mas na Idade Média já não era mais possível encontrar essa concha e os
tintureiros descobriram outra fonte para
fabricar um belo pigmento vermelho: os ovos de um inseto conhecido como
“cochonilha”, que é parasita de muitas árvores e do qual se extrai o “carmim”,
uma variante do vermelho.
Contudo,
é fácil entendê-lo no âmbito da política, com o golpe de Estado de 17 de abril
de 2016 no Brasil, a ideia veiculada por Oracy Nogueira quando o preconceito é
de marca. Neste caso, a probabilidade
de ascensão social é inversamente proporcional à intensidade das
características físicas do indivíduo negro o que disfarça o preconceito de raça
pelo preconceito de classe social. Em entrevista ao site “Poder 360”, dirigido por Fernando Rodrigues, editado por
Teles Faria, o ex-secretário executivo da comissão de curadoria do palácio do
Planalto e Palácio da Alvorada, Claudio Rocha, afirmou que o político Michel
Temer (PMDB) e a “dama do golpe” Marcela Temer estão mudando “todo o palácio”,
com a exceção da biblioteca e do salão de banquete. – “Tapetes foram
substituídos, por uma questão de gosto pessoal, porque não gostam de tapete
vermelho, os sofás têm sido substituídos, porque não gostam de sofá preto, ou
porque não gostam do sofá cor de telha, apesar de essas cores terem sido
escolhidas pela própria Anna Maria Niemeyer e Oscar Niemeyer na década de
1960”. Segundo Claudio Rocha, os carpetes vermelhos da rampa de acesso ao
Planalto, das escadarias e do elevador foram trocados, sempre a pedido de
Marcela Temer. As mudanças são comandadas pela chefia de gabinete de Marcela
Temer. – “O problema é que o palácio é um espaço público, é um prédio tombado e
não faz nenhum sentido esse tipo de interferência”.
As
unidades de geração desenvolvem
perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a
um mesmo dado problema. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um
período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra
característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos
indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo âmbito social. Em outras palavras: a
unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela
estabelecida pela conexão geracional. A forma como grupos de uma mesma “conexão
geracional” lidam com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir
distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no
conjunto da sociedade. Karl Mannheim não esconde sua preferência pela abordagem
histórico-romântica alemã e destaca ainda que este é um exemplo bastante claro
de como a forma de se colocar uma questão pode variar de país para país, assim
como de uma época para outra.
Ao
invés de associar as gerações a um conceito de tempo externalizado e
mecanicista, pautado por um princípio de linearidade, o pensamento
histórico-romântico alemão se esforça por buscar no problema geracional uma
contraproposta diante da linearidade do fluxo temporal da história. O problema
geracional se torna um problema de existência
de um tempo interior não mensurável e que só pode ser apreendido
qualitativamente. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e
posições políticas diferentes em relação a um mesmo problema dado. O nascimento
em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem
diversidades sociais nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou
criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um
mesmo meio social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma
adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. Estes,
de acordo com Mannheim, foram produtos específicos - capazes de produzir
mudanças sociais - da colisão entre o tempo biográfico e o tempo histórico. Ao
mesmo tempo, as gerações podem ser consideradas o resultado de descontinuidades
históricas e, portanto, de mudanças sociais. Em outras palavras: o que forma
uma geração não é uma data de nascimento comum - a “demarcação geracional” é
algo apenas potencial - mas é a parte do processo histórico que jovens da mesma
idade-classe de fato compartilham em vista do vínculo com a geração atual.
Roger Bastide entrevista (1944) com Margarida Izar.
Interessante notar comparativamente que também neste período se dava o importante capítulo
brasileiro na vida de Fernand Braudel, iniciado em 1935, quando o historiador
aceitou um repentino convite para se incorporar à Missão Francesa que, a partir de 1934, ajudou a fundar e construir
a Universidade de São Paulo. Esta permanência no Brasil, que se prolongou por
três anos consecutivos, e que se repetirá por sete meses em 1947, foi, contudo,
apenas o ponto de partida de uma relação social e uma experiência mais geral
que Braudel entabulará com a América Latina, e que absorverá parte considerável
de sua atividade intelectual, de 1935 até aproximadamente os anos de 1953.
Desse modo, o trabalho como Titular da cátedra de História das Civilizações da
Universidade de São Paulo representa pari
passu a origem de um interesse que Fernand Braudel desenvolverá com
respeito à história social e à civilização latino-americanas. Culminará no fato
de que uma parte substancial de sua atividade acadêmica e intelectual, desenvolvida
entre 1946 e 1953, terá como parâmetro essa história e vida latino-americanas que,
entre os anos de 1935 e 1953 estará voltado para seu interesse mediado em ambos
os períodos por um terceiro, cujo centro de gravidade será o tema global de seu
Mediterrâneo (cf. Aguirre Rojas, 1986).
Suas
inquietações no plano intelectual e metodológico de pesquisa apresentam como
fio condutor e boutade o estigma e
suas consequências sociais, percebidos a partir de diversos ângulos, mas sua
principal temática de investigação é de fato a questão racial. Vale lembrar que
autor publicou em sua progênie, “Atitude Desfavorável de Alguns Anunciantes de
São Paulo em Relação aos Empregados de Cor” (1942) e “Preconceito de Marca: As
Relações Raciais em Itapetininga” (1955) e também “Negro político, político
negro”, seu último trabalho. Todos eles versam sobre as distintas formas e
condicionamentos sociais sobre os quais de constituem as manifestações de
preconceito, aspecto que organiza o entendimento da questão racial brasileira. Após
anos de estudos e pesquisas de Oracy Nogueira chegou-se a conclusão que o
estilo de racismo à brasileira caracteriza-se pelo “preconceito de marca”. Assim,
o preconceito de marca se estabeleceria em relação às aparências. Quando toma
por pretexto para as suas manifestações de vida, os traços físicos do
indivíduo, a fisionomia, os gostos, o sotaque, caracterizando a marca. Mas
basta a suposição de que o indivíduo descende
de grupo étnico, para que supra as consequências do preconceito: diz-se que é
de origem. O impacto desses estudos foi assimilado de modo traumático porque
havia na ideologia brasileira e na academia, como ambiente cultural, certo
compromisso com a tese sociológica da democracia racial. Com os trabalhos de
Roger Bastide e Florestan Fernandes, em “Negros e brancos em São Paulo”, é que
foi revelada, por trás das relações, a realidade do preconceito racial de par
em par com o preconceito de classe e, portanto, o preconceito racial
constitutivo da sociabilidade na sociedade brasileira.
Oracy
Nogueira compreende que os estudos que tratam da “situação racial” brasileira,
no que se refere ao negro (e ao mestiço de negro), podem ser divididos em três
correntes: 1) a corrente afro-brasileira, a que deram impulso Nina Rodrigues e
Arthur Ramos, e os estudiosos que mais diretamente foram influenciados por
ambos; e que, sob a influência de Herskovits, prossegue, sob uma forma
renovada, com os trabalhos de René Ribeiro, Roger Bastide e outros, podendo ser
caracterizada como aquela corrente que dá ênfase ao estudo do processo de
aculturação, preocupada em determinar a contribuição das culturas africanas à
formação da cultura brasileira; 2) a dos estudos históricos, em que se procura
mostrar como ingressou o negro na sociedade brasileira, a receptividade que
encontrou e o destino que nela tem tido, corrente esta de que Gilberto Freyre é
o principal representante; e 3) a corrente sociológica que, sem desconhecer a
importância das duas perspectivas já mencionada, se orienta no sentido de
desvendar o estado atual das relações entre os componentes brancos e de cor
(seja qual for o grau de mestiçagem com o negro ou o índio) da população
brasileira.
Em
termos metodológicos, o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia
nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de
Chicago, fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre
brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque
Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer e de seu mestre Donald
Pierson, teorizava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades
como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: -
Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável,
culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais
se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou
parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o
“preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por
pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a
fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a
suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as
consequências sociais do preconceito, pois se diz que é de origem histórica e
socialmente determinada.
O
primeiro aspecto, no plano de análise identifica a distinção entre preconceito
de marca (aparência) e preconceito de origem (ascendência), que historicamente tem
o intuito de qualificar a situação racial brasileira vis-à-vis aos condicionamentos histórico- raciais na sociedade norte-americana.
Tratava-se de estabelecer uma crítica às análises que diferenciavam o preconceito
racial brasileiro daquele das demais sociedades (em especial a norte-americana)
apenas em termos de intensidade, sem qualificá-lo. Essa abordagem significou o
ponto de partida de sua contribuição sociológica ao tema na medida em que o
autor, ao analisar o preconceito, além de reconhecê-lo, situa-o como um
problema central nos estudos das relações raciais no Brasil. Sua perspectiva
acerca da sociedade norte-americana foi desenvolvida durante sua estadia
naquele país, posteriormente à passagem de Gilberto Freyre na University of
Columbia, entre os anos de 1945 e 1947, na Universidade de Chicago, para a
realização do doutorado. Ao longo do texto, ele fornece relatos etnográficos de
situações cotidianas que vivenciou nos Estados Unidos e cujo impacto social proporcionou
o insight para a criação do quadro teórico-metodológico
de referência para compreender a situação racial brasileira. Os Estados Unidos
e o Brasil constituem exemplos de dois tipos de “situações raciais”: um em que
o preconceito racial é manifesto e insofismável e outro em que o próprio
reconhecimento do preconceito tem dado margem a uma controvérsia de não se
superar.
O
ponto central da reflexão de da sociologia de Oracy Nogueira é a permanência, o desenvolvimento e a
especificidade do preconceito racial
no Brasil, que ele chama de “preconceito de cor”, ou “preconceito de marca”. Preconceito
que facilitou a integração e a ascensão social dos imigrantes europeus e
retardou e impediu a ascensão dos negros. Primeiro, porque os brasileiros
natos, seja no cotidiano, seja em sua ideologia política ou literária, sempre
viram no imigrante branco um elemento de melhoramento ou a ideologia de
branqueamento da raça. Segundo, “enquanto a ascensão de descendentes de
imigrantes tanto se pode dar com o cruzamento como sem o cruzamento com descendentes
de antigos colonizadores portugueses, a ascensão de elementos de cor ou
pressupõe ou se faz acompanhar do cruzamento com elementos brancos, seja qual
for a origem deles”. Em consequência, cada conquista do negro ou do mulato que
logra vencer econômica, profissional ou intelectualmente tende a ser absorvida,
em uma ou duas gerações, pelo grupo branco, através do branqueamento
progressivo e da progressiva incorporação dos descendentes a esse grupo. O
negro, a cada geração, teria,
portanto, de começar, de novo, lutando contra o preconceito e sem a
solidariedade de um grupo identitário. Sim, porque Oracy confirma o que já se
sabia antes dele, e será reafirmado depois: não há, no Brasil, grupo racial qua grupo. A diferença, para Oracy, é
que, existindo o grupo para os outros, ainda que não para si, torna-se objeto
de discriminação, mas não cria laços de solidariedade que possam fortalecê-lo
em sua luta contra o preconceito.
O
objeto teorizado por Oracy Nogueira é justamente essa complexa constelação de preconceitos
baseados em marcas (1998), afastados de origens geográficas ou culturais, resguardados
por ideologias “assimilacionistas”, que impedem o cultivo de diferenças
identitárias pelos setores já discriminados. Muitos desses decadentes foram
carreados a cargos burocráticos, quando não, a ofícios manuais, considerados
menos prestigiosos na localidade. Já as violações ao “intra-casamento” alimentaram
as formas em que se dá a miscigenação. Neste caso foram recolhidos casos
frequentes de “uniões pré-maritais” – duradouras ou ocasionais – de homens
brancos de projeção, com “mulheres de cor”, prática que chegou até as primeiras
décadas deste século. Isso, em detrimento da salvaguarda das famílias brancas,
que detinham status social superior e
concentravam poder econômico e político. Mestiços resultantes dessas uniões
(ostentando alguns deles nome de família tradicional), quando instruídos e
dotados de traços negroides pouco
acentuados, beneficiaram-se desse conjunto de circunstâncias para atingir posto
em atividades menos desvalorizadas, podendo até conquistar destaque político.
De
qualquer modo, no entanto, o apelo a atitudes e práticas simulatórias, dissimulatórias ou elusivas, correntes na localidade, indicavam o mal-estar provocado por tais fatos sociais, em
razão do preconceito aí vigente. Servem de exemplos: o uso de termos
imprecisos, como “pardo”, “mestiço” para designações mais embaraçosas; e a
dissimulação social em reconhecer o status social como de negros (as), a despeito dos traços
étnicos denunciadores, identificados pelo pesquisador, fotografia(s) de pessoa(s)
socialmente aceita(s) como integrante(s) do segmento branco. Oracy Nogueira
rememora que outro recurso esclarecedor da chamada resistência local às oportunidades,
acessíveis a negros e negroides,
encontram-se no paralelo entre a efetiva ascensão
social no quadro de estrangeiros (principalmente italianos), portadores de
conhecimentos técnicos, e a de negros e seus mestiços, mesmo quando,
porventura, também portadores desses conhecimentos. A estes últimos o casamento
com brancas representou sempre condição indispensável, mas não àqueles outros. Já aposentado o etnólogo ainda escreveria, entre outras coisas, a expressiva Introdução a seu livro Tanto preto quanto branco (1985), que re-edita seus artigos sobre relações raciais e a original biografia Negro político, político negro (1992) que mistura ficção à pesquisa histórica e sociológica na narrativa da trajetória pessoal e política do Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, prefeito de Cunha na República Velha, caso singular de ascensão social e política de um homem negro no Brasil recém-saído do regime escravocrata é o objeto de estudo de Oracy Nogueira neste livro, que alia reflexão sociológica a relato biográfico ao analisar a vida desse médico negro que teve intensa atividade política no interior de São Paulo e chegou inclusive a ocupar cadeira de Senador da República.
Bibliografia geral consultada.
BRAUDEL, Fernand, “A Longa Duração”. In: História e Ciências Sociais. 2ª edição. Lisboa: Editorial Presença, 1976; GUIMARÃES,
Antônio Sérgio Alfredo, “A Marca da Cor”. In: Rev. Bras. Cien. Soc. vol.14, n°41. São Paulo,
outubro de 1999; CAMPOS, Maria José, Arthur Ramos: Luz e Sombra na Antropologia Brasileira: Uma Versão da Democracia Racial no
Brasil nas Décadas de 1930 e 1940. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004; LIMA, Marcia, “O Legado de Oracy Nogueira ao Estudo das
Relações Raciais”. In: Tempo Soc.
vol.19 n°1. São Paulo, junho de 2007; SANTOS, Risomar Alves dos, Racismo, Preconceito e Discriminação: Concepções de Professores. Tese de Doutorado em Educação. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; MAIO, Marcos Chor, “O Racismo no Microscópio: Oracy Nogueira e o Projeto UNESCO”. In: Estudios Interdisciplinarios de América Latina e Caribe, Vol. 19, n°1, 2008; PACHECO, Ana Cláudia Lemos, Branca para Casar, Mulata para f... e Negra para Trabalhar; Escolhas Afetivas e Significados de Solidão entre Mulheres Negras em Salvador. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas, 2008; GOMES, Janaína Damasceno, Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes Raciais em São Paulo (1945-1955). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013; BOKANY, Vilma Luiza, Do Preconceito aos Crimes de Ódio: As Marcas da Intolerância na Metrópole Paulista. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; NOGUEIRA, Oracy, Contribuição ao Estudo das Profissões de
Nível Universitário no Estado de São Paulo. Tese de Livre-Docência. Osasco
(SP): Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco, 1967; Idem, Preconceito de Marca: As Relações Raciais em
Itapetininga. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998; Idem,
Pretos (Blacks) and Mulatos (Mulattos)
Among the Middle Classes. São Paulo,
1983-1984.
Disponível em: Vibrant, Virtual Braz. Anthr.
Vol.12 n°2. Brasília, julho-Dezembro, 2015; VANINI, Eduardo, “Barreiras da Discriminação Impedem Ascensão dos Negros no Mercado”. Disponível em: https://oglobo.globo.com/30/07/2017; BARRETO, Robenilson Moura, Contribuições Psicanalíticas para a Compreensão do Preconceito Racial: Um Estudo de Caso. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Belém: Universidade Federal do Pará, 2017; entre outros.