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sábado, 25 de agosto de 2018

Classe Média - Egoísmo, Trabalho & Vontade de Poder-Saber.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga
 
           O dinheiro não traz felicidade - para quem não sabe o que fazer com ele”. Machado de Assis 

                
           A classe média brasileira, criada pela expansão do emprego público e pela criação de empregos privados em geral, tem sido representada pelos trabalhadores que prestam serviços diretamente aos grupos empresariais e por extensão das elites econômicas e elites políticas, como os profissionais com ensino superior empregado em funções medianas em empresas. Os profissionais com ensino superior, funcionários públicos em empregos bem situados, composto por médicos do sistema público, advogados e profissionais liberais concursados. Os funcionários de escritório mais requalificados, de empresas privadas ou estatais, composto por diretores e supervisores de colégios privados e escolas públicas, bancários de postos intermediários, delegados de polícia em início de carreira, enfermeiras experientes, etc. Enfim, inclusive pelos trabalhadores manuais de maior requalificação, os operários especializados e semiespecializados de indústrias públicas e privadas, composto por mecânicos, eletricistas, encanadores, metalúrgicos, fresadores, instrumentistas, inspetores de qualidade, torneiros mecânicos e de cargos recém-criados de inovação.
             Na esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a dialética entre capital e trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade intelectual. O sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares, sua e dos outros  para agir. A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política (ou na universidade) evitam a opção por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença. São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.        
        As três dimensões da atividade acadêmica, ensino, pesquisa e extensão, vêm se tornando dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra.   
                                                                          
Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de nós atuou. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A sociedade brasileira rejeita a avaliação e a universidade padece com ela, geralmente vista como algo negativo, como representação simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo encontra-se ausente. Tendo em vista que, na universidade não há “premiação” para o bom professor em nenhum aspecto, mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos, fazem porque querem fazer, porque podem fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica.  
Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a askesis necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo. Mas essa soberania amplia-se numa experiência onde a relação assume a forma, não somente de uma dominação, mas de um gozo sem desejo e sem perturbação. É possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Mas uma espécie de idade de ouro na chamada “cultura de si”, sendo subentendido com isso, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais. Ou seja, aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar. Ademais, é conhecida a amplitude ética tomada em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de um vocabulário para designar as diferentes formas que o “cuidado de si” deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. Apressa-te, pois para o objetivo: - “dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível”.     
Pode-se também interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Caio Musônio Rufo, célebre filósofo estoico do primeiro século e professor de Epiteto, dentre outros, recomendava vivamente: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no trabalho filosófico ou, como referia Spurrima, na calma de uma existência agradável, “à posse de si próprio”. Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas em seu dia a dia. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, sem os excessos da chamada “corpolatria”, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão certamente relidas, a rememoração das verdades que se sabe, mas que convém apropriar-se melhor.
       Marco Aurélio nos dá um exemplo de anacorese em si próprio, de reativação de princípios e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Esse tempo não é vazio, ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros, ensaios ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros, nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo. Ela não constitui um exercício comumente visto da solidão.  Em verdade, o exercício da leitura, da reflexão e da escrita se tratava de uma verdadeira prática. E isso, em vários e múltiplos sentidos.
Toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino técnico e dos profissionais da direção da alma. Ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do “cuidado de si”, faz-se apelo ao outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito através do hábito, da cultura, da formação. E é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda ao outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode lhe dar. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova “coloração” e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de serviço da alma que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas, de interpretação e de camaradagem, de conflito e sociabilidade.
A mobilidade é mais frequentemente medida de forma quantitativa em termos de mudança de mobilidade econômica, tais como mudanças na renda ou riqueza. A ocupação é outra medida utilizada na pesquisa de mobilidade, o que geralmente envolve tanto a análise quantitativa quanto qualitativa dos dados. No entanto, outros estudos podem concentrar-se na classe social. A mobilidade pode ser intrageracional, dentro da mesma geração ou entre gerações, entre uma ou mais gerações. Vale lembrar que a classe média brasileira está plenamente integrada nos modernos padrões de consumo de massas. Todavia, estatisticamente a distribuição das classes sociais no Brasil é distorcida pela desigualdade social e econômica, na medida em que os 10 % mais ricos da população nacional, quase toda parcela da classe alta chegavam, em 1980, a controlar 50,9% de toda a renda disponível no país. Se somarmos a esse contingente a parte mais rica da classe média brasileira, ou seja, outros 10 % da população nacional, notaremos que essa parcela de apenas 20% controlaria quase 67% de toda a renda nacional.
            A mobilidade social é dependente da estrutura de status sociais e ocupações em uma dada sociedade. A extensão de diferentes posições sociais e a maneira pela qual elas são interdependentes e se relacionam fornecem a estrutura social global de tais posições. Estas dimensões diferentes de mobilidade social podem ser classificadas em termos de tipos de “capital” que contribuem para mudanças na mobilidade diferentes. Adicionando-se a isso as diferentes dimensões da estrutura econômica, as formas de prestígio e poder temos o potencial de complexidade de determinado sistema de estratificação social. Além disso, em que sociedade pode ser vista como variáveis independentes que podem explicar diferenças na mobilidade social, em diferentes tempos sociais e lugares, em diferentes sistemas de estratificação. A tese central do nacionalismo desenvolvimentista  tem como representação social o desenvolvimento econômico e a consolidação da nacionalidade constituindo dois aspectos do mesmo processo emancipatório. O desenvolvimento dependeria, assim, de uma consciência nacional mobilizada em torno de uma vontade no plano global de desenvolvimento. Na esfera cultural, a retórica do início dos anos 1960, tanto de “direita” como de “esquerda”, para lembrarmo-nos da ciosa interpretação de Norberto Bobbio, foi demarcada pelo uso corrente das categorias sociais “povo” e “nação”, ou nacional- popular. Os movimentos sociais no caso emblemático do Centro Popular de Cultura (CPC), além do discurso anti-imperialista adotaram uma postura vanguardista, de que a autêntica cultura popular é aquela produzida por artistas e intelectuais que optaram por ser povo - enquanto a cultura do povo era considerada arcaica e atrasada.
               Neste sentido é que compreendemos as variáveis que contribuem como intervenientes para a avaliação do rendimento, ou riqueza, e quando afetam o status, classe social e a desigualdade  no âmbito da mobilidade social. Estes incluem sexo ou gênero, raça ou etnia e idade. Na modernidade o “capital cultural” representa o processo de distinção entre os aspectos econômicos da classe e bens culturais poderosos, descritos por P. Bourdieu  três tipos que situam uma pessoa em uma determinada categoria social: o capital econômico; o capital social e o capital cultural. O capital econômico inclui recursos econômicos, tais como dinheiro, crédito e outros bens materiais. O capital social inclui recursos que se alcançam com base nos membros do grupo, redes de influência, relações e apoio de outras pessoas. O capital cultural é uma vantagem que uma pessoa tem que lhes dá um status mais elevado na sociedade, como a educação, as habilidades, ou qualquer outra forma de reconhecimento. Normalmente, as pessoas com todos os três tipos de capital têm um status elevado na sociedade, tendo em vista que a cultura da classe social superior é mais orientada para o raciocínio formal e o pensamento abstrato. Ele também descobriu que o ambiente em que a pessoa se desenvolve tem um grande efeito político sobre os recursos culturais que uma pessoa vai ter a seu dispor.  
A desigualdade social reproduzida através da classe social está relacionada ao poder aquisitivo, ao acesso à renda, à posição social, ao nível de escolaridade e ao padrão de vida existente entre as frações da classe dominante que controlam direta ou indiretamente o Estado, através de efeitos de poder político, na educação e trabalho, reproduzindo inexoravelmente uma estrutura social implantada e difundida pelos métodos de trabalho e de produção no âmbito das esferas sociais e de poder dominante. A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, ocupado por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no processo de produção e que têm afinidades eletivas políticas e ideológicas.
E esse problema não estava relacionado exclusivamente ao trabalho manual e às classes trabalhadoras. Basta pensarmos na referência ao capitão Hawdon, ou Nemo, de A casa abandonada, de Charles Dickens. O personagem era um ex-oficial do Exército que ganhava a vida fazendo trabalhos temporários como jurista. Mas no caso de Marx, lembra Jones (2017: 357), não se tratava de pobreza no sentido comum da palavra. Em 1862, sugestão de Lassale de que a de Marx trabalhasse para ganhar dinheiro com a condessa Von Hatzfeldt, sua companheira, foi recebida como um indizível desrespeito ao status social deles e provocou um dos mais repulsivos insultos de Marx. – “Imagine só! Esse sujeito, sabendo do caso americano etc. [a perda dos rendimentos do Tribune], e portanto da situação de crise em que me encontro, teve a insolência de perguntar se eu cederia uma das minhas fihas à la Hatzfeldt como “dama de companhia”. Uma justificativa para o comportamento  era que isso seria determinado pela necessidade de garantir o futuro das filhas. Em julho de 1865, admitiu: - “É verdade que minha casa está acima de meus meios, e que temos, além disso, vivido melhor este ano do que foi o caso antes. Mas é o único jeito de as meninas se estabelecerem socialmente, com vistas a assegurar o seu futuro”.   
            As novas abordagens sociológicas em termos de classe “c” em seguida de “nova classe média” constitui a pauta do debate, pós-governos Lula-Dilma pelo volume dos trabalhos analíticos e estatísticos realizados e pelo impacto de sua linha interpretativa. Não se trata apenas de uma linha de estudo e de transformação brasileira, mas de algo que diz respeito as dinâmicas globais. No Brasil, desde 2001, a desigualdade em termos de renda diminuiu regularmente. A renda per capita dos 10% mais ricos da população aumentou em média de 1,49% ao passo que a dos mais pobres tem aumentado 6,79%. Isso num movimento oposto ao que caracterizou o Brasil, Rússia, Índia e China  (BRIC), que juntos formam um grupo político de cooperação intercontinental. Em 14 de abril de 2011, o “S” foi oficialmente adicionado à sigla para formar o BRICS, após a admissão da África do Sul. Em consequência, a pobreza diminuiu constantemente desde 2003. - “Estimamos que, entre 1993 e 2011, 59,8 milhões de brasileiros (o equivalente a uma République française) chegaram à condição social de nova classe média”. Mas a mobilidade chegou mesmo a ritmos consistentes no período conjuntural de 2003 a 2011, quando 40 milhões de brasileiros entraram para a classe média que passou assim de 65,9 a 105,5 milhões de pessoas, ou seja, um aumento de 60%. Segundo as previsões estatísticas, até 2014, mais 12 milhões migrariam para a classe “C” e 7,7 milhões irão para a as classes “B” e “A”. Com exceção do Nordeste, as classes A, B e C serãode 75% da população. - “A nova classe média brasileira é filha da combinação do crescimento com a equidade, que difere de nossa história pregressa e daquilo que ocorre nas últimas décadas em países emergentes e desenvolvidos onde a concentração de renda sobe”.

           Mudanças na composição orgânica da sociedade brasileira desestabilizaram crenças e ideologias arraigadas sobre “desigualdade social, a pobreza e a mobilidade”. De acordo com Kopper e Damo (2018), a linguagem da “nova classe média” articulou, simultaneamente, diferentes acepções da mobilidade econômica, refletindo-se ainda como um índice de desigualdade social e de distribuição de renda. Neste debate, Nova Classe Média difere em espírito da expressão “nouveau riche”, que acima de tudo discrimina a origem das pessoas. Nova classe média não é definida pelo ter, mas pela dialética entre ser e estar olhando para a posse de ativos e para decisões de escolha entre o hoje e o amanhã. Eles informariam as necessidades e valores desse novo segmento de pessoas, e sua focalização em subpopulações como um todo e da “nova classe média” em particular: os negros, as mulheres e os jovens. A possibilidade de proclamar o Brasil um país de “classe média” chamou a atenção do governo federal. Foi formulado um novo de estratificação que buscava mapear e sistematizar conceitos de classe média com vistas à sua aplicação à realidade brasileira. A iniciativa desembocou no projeto social intitulado: Vozes da Classe Média, que perdurou até 2015, procurando decifrar as expectativas e desejos dessa população urbana para aperfeiçoar a formulação de políticas econômicas do Estado.
            A tese da “nova classe média” conduziu Marcelo Neri (2010) a uma rápida ascensão e queda política. Na transição do governo Lula para o governo Dilma Rousseff, a partir de 2011, o economista passou a participar de avaliações de programas sociais e de reuniões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Em 2012, assumiu a presidência do IPEA e, em março de 2013, com a saída de Moreira Franco para a Secretaria de Aviação Civil (SAC), tornou- se ministro interino da SAE, sendo oficializado no ano seguinte no mesmo cargo, onde deu continuidade à agenda de pesquisas sobre classe média e introduziu novas metodologias, como o índice de satisfação com a vida, mensurado pelo Gallup World Poll. Nesse mesmo período, Neri foi escolhido como um dos cem brasileiros mais influentes, segundo pesquisa anual realizada pela revista Época. Tomando como ponto de partida o trabalho seminal de Marcelo Neri (2010), as páginas dos jornais, dentro e fora do país passaram a escrever a crônica da “nova classe média”. Em novembro de 2009, a revista The Economist publicou uma reportagem de capa intitulada “Brazil takes off ”, à luz da imagem do Cristo Redentor decolando. Imagens que antes clamavam pelo combate à pobreza eram agora substituídas por comportadas famílias de classe média sorridentes posando em ambientes domésticos com objetos de consumo. Outras procuravam acentuar os contrastes e ambivalências que ainda existiam, à frente muitas vezes de suas precárias habitações em “zonas periféricas” de cidades. Embora não fosse unanimidade, a tese da “nova classe média” expandiu-se no circuito midiático, político e científico.
Bibliografia geral consultada.
MARX, Karl, O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1969; AMORA, Zenilde Baima, Recherche sur la Classe Moyènne à Fortaleza. Doutorado em Geographie et Amenagement du Territoire. Université de Toulouse II - Le Mirail, França, 1984; BONELLI, Maria da Gloria, A Classe Media do Milagre a Recessão: Mobilidade Social, Expectativas e Identidade Coletiva. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997; BOITO JR. Armando, Classe Média e Sindicalismo. Col. Primeira Versão. Campinas, vol. 123, pp. 1-40, 2004; GAGGI, Massimo; NARDUZZI, Edoardo, El Fin de la Clase Media y el Nacimiento de la Sociedad de Bajo Coste. Madri: Editor Lengua de Trapo, 2007; SOUZA, Amaury; LAMOUNIER, Bolívar, A Classe Média Brasileira: Ambições, Valores e Projetos de Sociedade. Rio de Janeiro: Editor Elsevie; Distrito Federal: Confederação Nacional da Indústria, 2010; NERI, Marcelo, A Nova Classe Média: O Lado Brilhante dos Pobres. Rio de Janeiro: Centro de Políticas Sociais/Fundação Getúlio Vargas, 2010; GARCIA, Maria Teresa, O Crescimento da Classe C no Brasil e as Mudanças na Narrativa dos Telejornais. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015; LAVAL, Christian, “et alii”, Marx & Foucault. Lectures, Usages, Confrontations. Paris: Éditions La Découverte, 2015; DÓRIA, Kim Wilheim, O Horror não Está no Horror: Cinema de Gênero, Anos Lula e Luta de Classes no Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; GROHMANN, Rafael do Nascimento, As Classes Sociais na Comunicação: Sentidos Teóricos do Conceito. Tese de Doutorado. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; KOPPER, Moisés; DAMO, Arlei Sander, “A Emergência e Evanescência da Nova Classe Média Brasileira”. In: Horiz. Antropol. Porto Alegre, ano 24, n° 50, pp. 335-376, jan./abr. 2018; GREENE, Joshua, Tribos Morais: A Tragédia da Moralidade do Senso Comum.edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018; entre outros.  

terça-feira, 6 de março de 2018

Rua Augusta - Corpos, Prazeres & Vida Noturna Metropolitana.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

                               Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade”. Michel de Certeau 

       
          A Rua Augusta é uma via arterial da cidade de São Paulo que liga o bairro dos Jardins a região do Centro Histórico de São Paulo. A rua é reconhecida por suas lojas, boutiques e estabelecimentos de luxo na região dos Jardins e por suas boates, casas noturnas, bares e vida noturna na região que parte da Avenida Paulista em direção ao Centro, passando pela região reconhecida como Baixo Augusta. A rua segue em subida a partir de seu início no entroncamento das ruas Martins Fontes, Martinho Prado e a Praça Franklin Roosevelt, até o cruzamento com a Avenida Paulista. Após cruzar a Paulista, ela se torna uma descida seguindo em direção à Rua Colômbia, no Jardim Europa. A Rua Augusta é reconhecida principalmente por sua vida noturna de bares, baladas e casas de shows variadas, mas também por algumas casas de prostituição, saunas e boates adultas. As primeiras referências dela datam de 1875, chamando-se primeiramente Rua Maria Augusta; em 1897 já aparece como Rua Augusta. Foi parte das terras do português Mariano António Vieira, dono da Chácara do Capão desde 1880, quando abriu várias ruas no Bairro da Bela Sintra, inclusive a Rua da Real Grandeza, atual Avenida Paulista. Resolveu abrir uma trilha, pois os caminhos eram íngremes, para posteriormente serem instalados bondes puxados por burros, em 1890.

           Apenas em 1891 com a inauguração da luz elétrica, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, ficando oficial em 1927. Até 1942, a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada (Decreto Lei N.º 153). Do lado oposto, em direção aos "Jardins", o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome Augusta: tudo leva a crer que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antônio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou adjetivo) ao chamá-la de Rua Augusta. Colabora para esta versão o fato de que o mesmo Mariano, ao abrir uma “picada” no alto do Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. Historicamente vieram os loteamentos, quando surgiram confortáveis residências e comércio para servi-las. Gradativamente começaram a surgir edifícios de moradia. Grande parte de comércio fino de decoração se instalou na região central-ascendente, a partir da Rua Marquês de Paranaguá. As casas residenciais deram lugar ao comércio de rua. Shoppings Centers e Cinemas de categoria social se instalaram frequentados pelas famílias e mais tarde pelos jovens que buscavam distração. Caminho certo rumo aos bairros dos Jardins e seus clubes, como o Club Athletico Paulistano, a Sociedade Harmonia de Tênis e o Esporte Clube Pinheiros.

A Rua Augusta representou para os jovens paulistanos na década de 1960, glamour e diversão. A canção Rua Augusta, de Ronnie Cord, lançada em 1964 foi uma espécie de hino da juventude paulistana que frequentava o logradouro nesta época. A partir da década de 1970, começou a adaptar-se às mudanças, dado o pesado tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Mesmo assim, os jovens continuaram a estar por lá com suas motos, carros envenenados e muito congestionamento, principalmente, entre as décadas de1970 e 1980. Haviam muitas discotecas e casas de danças para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Está sempre sendo atualizada desde aquela época de grande urbanismo e de seu radiante desenvolvimento, com a reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte dos postes de iluminação pública obsoletos, colocação de carpete, estacionamento para automóveis na Zona Azul, subterrâneo, construção de boulevard e  o desligamento do trafego dos ônibus elétricos com as novas calçadas. Na década de 1970 a rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio, provavelmente, por conta da abertura de grandes Shoppings Centers na cidade de São Paulo. Nessa época também foram abertos diversos prostíbulos em seu entorno. 

                              

A rua modernizou-se em 1993 com a abertura e desenvolvimento do projeto social do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, a Rua Augusta voltou a ser parte e principalmente a rememorar da vida noturna dentre os jovens. A Augusta abriu o Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, considerado o primeiro de comédias do Brasil, YO restaurante, e outros. Seu entorno é ambientado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e antigos prostíbulosNa perspectiva de democratização, condição para uma nova estética urbana, duas redes retêm particularmente a atenção sociológica: os gestos e os relatos. Ambos se caracterizam como cadeias de operações feitas sobre e com o léxico das coisas. De dois modos distintos, um tático e outro linguístico, os gestos e os relatos manipulam e deslocam objetos, modificando-lhe as repartições e os empregos. São “bricolagens”, de acordo com o modelo reconhecido ao mito por Claude Lévi-Strauss. Inventam colagens casando citações de passados com extratos de presentes para fazer deles séries (processos gestuais, itinerários narrativos) onde os contrários simbolizam. Os gestos são verdadeiros arquivos da cidade, se entendermos “arquivos” o passado selecionado e reempregado em função de usos presentes. 

Refazem diariamente a paisagem urbana. Esculpem nele mil passados que talvez já sejam inomináveis e que menos ainda estruturam a experiência da cidade. As histórias sem palavras do andar, do vestir-se, de morar ou do cozinhar trabalham os bairros com ausências; traçam aí memórias que não têm mais lugar – infâncias, tradições genealógicas, eventos sem data. Este é também o “trabalho” dos relatos urbanos. Nos cafés, nos escritórios, nos imóveis eles insinuam espaços diferentes. Acrescentam à cidade visível as “cidades invisíveis” de Calvino.  Eles criam outra dimensão, sempre mais fantástica e delinquente, terrível ou legitimadora. Por isso, tornam a cidade “confiável”, atribuindo-lhe uma profundidade ignorada a inventariar e abrindo-a a viagens do olhar. São as chaves da cidade: elas dão acesso ao que ela é, mítica. Habitar é narrativizar. Fomentar ou restaurar esta narratividade é, portanto também uma tarefa de restauração. É preciso despertar as histórias que dormem nas ruas que jazem de vez em quando num simples nome, dobradas neste dedal como as sedas da feiticeira. Jamais talvez uma sociedade se tenha beneficiado de uma mitologia tão rica. Mas a cidade é o teatro de uma guerra dos relatos, como a cidade grega era o campo fechado de guerras contra os deuses. Entre nós, os grandes relatos da televisão ou da publicidade esmagam ou atomizam os pequenos relatos de rua ou de bairro. É urgente que a restauração venha em socorro desses últimos, registrando e difundindo as que se contam no padeiro, no café ou em casa. Mas isto é feito arrancando-as de seus lugares, relatos de palavras nos bairros ou imóveis restituiriam aos relatos os solos onde podem desabrochar.   

    O bairro se define sociologicamente como uma organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos. Representa um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos protelados. 
        Pela relação “saber comportar-se”, o usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidianaA contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, segundo a fenomenologia de de Certeau (2000), “um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido”. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta num mesmo território urbano, constituindo um lugar praticado, de elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração a compreender um pouco melhor esta grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.
É o que ocorreu com “O Artista de Rua” Ricardo Corrêa da Silva que morreu na tarde de sexta-feira do dia 15 de dezembro de/2017 em São Paulo aos 60 anos de idade. De acordo com a família, ele estava internado na ala psiquiátrica do Complexo Hospitalar do Mandaqui, na zona norte da cidade de São Paulo, sofreu um ataque cardíaco e foi transferido para o pronto-socorro, mas não resistiu. Ainda não há informações sobre a causa exata da morte. Personagem famoso ena cidade de São Paulo, Ricardo viu sua história de vida ganhar visibilidade após uma reportagem publicada no site Buzzfeed. Popularmente reconhecido como “Fofão da Augusta”, por causa de um preenchimento de silicone que tinha nas bochechas, Ricardo, que sofria de esquizofrenia, trilhou uma bem-sucedida carreira como cabeleireiro e se tornou sócio de um salão de beleza. No entanto, após sofrer golpes e ver sua saúde mental se deteriorar, foi morar na rua e passou a distribuir panfletos de teatro e pedir dinheiro fantasiado de palhaço na região central de São Paulo. - “Ao longo da vida fomos percebendo que o Ricardo realmente tinha uma questão de saúde mental, o que deu a ele uma personalidade exuberante e sucesso em São Paulo, embora tenha vivido essa vida intensa e com tanto sofrimento. Pelo menos nos conformamos com o fato de ele ter descansado”, afirmou seu irmão Marcelo Corrêa da Silva. 

Ricardo Corrêa da Silva sonhava em ver seu nome nos letreiros do teatro. Nos anos 1970, saiu da cidade de Araraquara a 273 km de São Paulo, para trabalhar com artes cênicas. Acabou enveredando pelo “visagismo”, em que se demonstrou um talento nato. Penteou e maquiou artistas como Tônia Carrero na época em que despontou em alguns dos maiores salões da capital. Investia o dinheiro que ganhava em um ideal de beleza: queria ser igual a uma boneca chinesa de porcelana. Para isso, injetou mais de meio litro de silicone nas maçãs do rosto, nas bochechas e na testa. Fez plástica. No fim dos anos 1980, a esquizofrenia e um golpe de que foi vítima tiraram o que havia conquistado. Acabou sem casa. Passou a se apresentar nos semáforos da Rua Augusta. E seu espetáculo ficou em cartaz por décadas. Ficou conhecido como “Fofão da Augusta”, apelido em que não se reconhecia. – “Mas deixa chamarem assim, coisa boba”. Ele morou na última década sozinho numa pensão, na chamada “cracolândia”, no centro, pela qual pagava diária de R$ 30, e trabalhava distribuindo panfletos de peças de teatro na Av. Paulista. Ricardo foi vítima de embolia pulmonar, menos de uma semana depois de completar seu aniversário de 60 anos.
            O bairro surge como o domínio onde a relação de domínio espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo dinamismo do urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano pleno dos usuários da cidade. 
 
         Mas quem é, afinal, o Fofão da Rua Augusta, que depois da publicação do perfil escrito por Chico Felitti tornou-se, para muitos e para muitas, o Ricardo Corrêa? Segundo Figueiredo (2018: 226 e ss.), o perfil só foi possível, então, quando ficou sabendo, por uma conhecida das redes sociais, que Ricardo estava num hospital e decidiu ir visitá-lo. Após a primeira visita e depois de algum tempo de recuperação de Ricardo, quando estava melhor de saúde, conseguindo falar sobre sua vida e com a esquizofrenia mais controlada, o repórter disse que gostaria de contar a sua história e queria que as pessoas soubessem quem ele realmente era. No hospital, como indigente, ele não tinha direito a um nome, conta Felitti, assim como ele não tinha direito a um nome na cidade, as pessoas chamavam ele de Fofão da Augusta, ninguém sabia o nome dele. O perfil, dessa forma, também foi um processo de busca de identidade. O afeto, além de mover a pesquisa do jornalista, também está presente na sua capacidade de emocionar e comover as pessoas; o que só foi possível porque, para escrever o perfil, o repórter acompanhou a vida de seu personagem durante quatro meses – mas, no total, a convivência durou um semestre inteiro. O exaustivo trabalho de apuração, a curiosidade, uma atitude dialógica e de afeto, fez com que o repórter buscasse o Ricardo herdeiro de 35 mil reais e o Ricardo pobre que pedia dinheiro na rua para sobreviver; o homem que estava internado como indigente no Hospital das Clínicas, mas que era reconhecido pelas pessoas na cidade como o Fofão da Augusta; conhecido de todas e de todos que passavam pela região da Avenida Paulista, mas que, na verdade, era um completo desconhecido para elas; o homem que não gostava de aparecer, mas que dizia “eu não sou desconhecido. Eu sou muito popular”. Ricardo Corrêa não é uma dessas coisas ou outra: Felitti faz com que conheçamos um Ricardo que é uma dessas coisas e as outras também, contraditório e complementaridade de opostos.

           O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro que efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. A relação entrada ou saída, dentro ou fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa ou trabalho, representando uma relação entre pessoa e mundo, condicionado por uma dialética da autoconsciência que vai haurir, de forma humana, socialmente íntima.                                        
             A inauguração da luz elétrica, em 1891, foram movidos com eletricidade. Entre 1910 e 1912 ela foi estendida até a Rua Álvaro de Carvalho, tornando-se oficial em 1927. Mas até 1942 a Rua Martins Fontes fazia parte da Rua Augusta. Ela aos poucos virou um grande ponto de prostituição, ocasião em que foi desmembrada, por motivos de “higienização”. Do lado oposto, em direção aos “Jardins”, o seu prolongamento até a Rua Estados Unidos foi oficializado em 1914. O nome “Augusta” tudo leva a crer, de acordo com reminiscências, que o responsável pela sua abertura, o português Mariano Antonio Vieira, não quis homenagear uma pessoa e sim aplicar algo como um título de nobreza (ou ideológico) ao chamá-la de “Rua Augusta”. Colabora para esta ideia o fato social de que o mesmo Mariano, ao abrir uma picada no Morro do Caaguaçu, chamou este logradouro de “Rua da Real Grandeza”. As frações da classe dominante econômica e politicamente os empresários do café responsável pelas principais atividades do complexo cafeeiro e compondo as oligarquias, possuíam vínculos comerciais com a Europa, mas também culturais, sobretudo com a França. Paris, a metrópole por excelência do século XIX, era a Meca para todos os povos, tendo sido, por conseguinte, alvo dos paulistas enriquecidos. Era a capital da moda, do luxo, do consumo, dos museus, dos teatros, dos esportes e dos demais tipos de lazer de massa. Nela também aconteciam as grandes exposições internacionais. O francês era a principal língua da ciência e da literatura, sendo falada nas cortes que ainda persistiam na Europa como o fora, havia pouco tempo atrás, na do Reinado do Brasil, com sede no Rio de Janeiro. 

Com o tempo, tornaram-se áreas exclusivas de palacetes, graças a uma legislação específica. Em 1894, Joaquim Eugênio de Lima, um dos promotores da abertura da Avenida Paulista conseguiu efetivar junto à Prefeitura uma lei que obrigava as futuras construções a respeitarem um recuo de 10 metros com relação ao alinhamento das calçadas, bem como de 2 metros lateralmente. Etnograficamente, segundo Homem (1994), quatro anos depois, surgiram os recuos obrigatórios para jardins e arvoredo e um espaço de pelo menos 2 metros de cada lado para as residências a serem edificadas nas avenidas Higienópolis e Itatiaia, atual Avenida Angélica. Os bairros dos Campos Elíseos, da Consolação, da Liberdade e de Santa Cecília permaneceram como áreas mistas. Modificou-se a noção de morar da classe dominante. A casa individualizou-se, passando a expressar o êxito econômico e profissional do proprietário, bem como o seu grau de cosmopolitismo. Ela tornou-se o refúgio das lutas pela vida e local de privacidade, ao mesmo tempo em que devia proporcionar afastamento físico daquelas áreas e certa alienação quanto às tensões e aos conflitos sociais. As camadas mais ricas procuraram viver isoladamente. Em São Paulo, historicamente, as vilas foram as que mais disseram respeito à tradição paulistana de auto-abastecimento, recém-saída do mercado da escravidão. Com o Ecletismo, houve uma racionalização do espaço existente ao redor da casa, no sentido de se definir uma posição para cada um dos complementos da construção principal. Os parques e os jardins,  utilizados para o lazer familiar, ficavam sempre em posição fronteira ou lateral, relegando-se aos fundos, os elementos sociais que diziam respeito aos serviços.   

Numa palavra, camuflou-se o trabalho manual, apartando-o da zona destinada ao uso social. Os jardins do art nouveau transformaram-se em moldura do palacete, compondo ambos um conjunto harmonioso. Figuras sinuosas inspiradas no reino vegetal e mineral, tais como: gotas, folhas e flores envolviam a construção principal que passou a ser o centro da composição. Contudo, as áreas exclusivas de palacetes, complementadas pela arborização das avenidas e demais vias que as recortavam, constituíram importante “mancha verde”, apenas interrompida pela gama vermelha dos telhados, dos belvederes e de torres esporádicas, a ponto de se tornarem a principal característica dos bairros das elites paulistanas. Essa notável massa homogênea assinalou a paisagem da cidade, tendo sido “independente do ecletismo de suas edificações” a ponto de podermos defini-los como “verdadeiros marcos referenciais urbanos” conforme observou o arquiteto Silvio Soares Macedo ao se referir ao bairro de Higienópolis. Incluídos nos roteiros turísticos da cidade, tais marcos atraíam a população de outros bairros que neles vinham passear nos fins de semana. Da mesma forma, chamaram a atenção dos viajantes que estiveram na capital paulista nesse período, os quais não deixaram de mencioná-los em seus apontamentos de viagem.                      
        A “Rua Augusta representou para jovens paulistanos na década de 1960 glamour e diversão. Rua Augusta" é uma canção, composta pelo maestro brasileiro Hervé Cordovil e gravada pelo cantor brasileiro Ronnie Cord, sendo seu maior sucesso, e lançada pela gravadora RCA Victor em 1964. Rua Augusta foi a primeira música de rock brasileiro a ter problemas com a censura. Sua terceira estrofe, - “Comigo não tem mais esse negócio de farda/ não paro o meu carro nem se for na esquina/ tirei a 130 a maior fina do guarda...” - foi cortada pela censura, tendo que ser substituída. Sua letra captura o espírito da juventude roqueira do começo dos anos 1960, que tinham suas motos e carros embalados na velocidade das mudanças de costumes trazidos com o rock e o movimento da jovem guarda, na mesma época em que a Rua Augusta, da cidade de São Paulo, era um local progressista do Brasil. A canção também seria regravada pelos Mutantes, no disco “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets” e por Raul Seixas, que deixou uma das versões mais conhecidas do público. A partir da década de 1970, começou a se adaptar às mudanças, dado o tráfego de automóveis e ônibus e a criação de inúmeras galerias e centros comerciais, aliado à falta de estacionamento. Na badalada década a Rua Augusta perdeu seu prestígio e comércio por conta da febril concorrência imobiliária com a abertura de shoppings centers em inúmeros pontos comerciais de São Paulo. 

Os centros comerciais de médio e grande porte funcionam como pequenas cidades, possuindo uma estrutura governamental (a administração) e seus serviços de polícia e bombeiros (segurança), de limpeza (sanitário), de abastecimento de água, de manutenção de infraestruturas etc. Trata-se de um espaço de poder, planejado para estimular a economia urbana e facilitar o consumo. A administração é centralizada, e as lojas são alugadas, para a exploração comercial calculada e a prestação de serviços, sendo sujeitas a normas contratuais padronizadas. Muitas vezes, um supermercado ou grande estabelecimento de varejo funciona como “âncora” do empreendimento. A administração tende a procurar manter o equilíbrio da oferta e uma certa diversificação ou complementaridade entre os diferentes tipos de estabelecimentos e de produtos oferecidos. Os locatários pagam um valor em conformidade com um percentual do faturamento (de 5 a 9%) ou um valor mínimo básico estabelecido em contrato - o que for maior. Os centros comerciais, na maior parte das vezes, cobram por muitos serviços. Nos centros comerciais de maiores dimensões, com vários andares, a circulação se dá, habitualmente, através de escadas rolantes, para facilitar o movimento de pessoas de um andar para outro. O maior shopping center do mundo é o Dubai Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes, que conta com 1 200 lojas, 22 salas de cinema, um estacionamento com 14 000 vagas, além de abrigar o maior aquário do mundo, com 33 000 animais marinhos expostos. O título de melhor centro do é atribuído em Cannes, na França, e pertence ao Europa Passage, na Alemanha.

A atriz Fiorella Mattheis é a protagonista da série “Rua Augusta”, que a O2 realiza para a TNT, abreviação para Turner Network Television,  canal de televisão por assinatura especializado em filmes e séries. O canal original foi criado pelo magnata da mídia Ted Turner em 1988 nos Estados Unidos da américa. A programação do canal é em áudio dublado, já em outros momentos, a atração pode ser exibido legendado em horário nobre. O canal chegou ao Brasil na década de 1990. Exibe sucessos do cinema com falas em português e está presente em praticamente todos os pacotes de TV por assinatura do Brasil. Ela representa sua personagem Mika. A série tem direção-geral de Pedro Morelli que divide a direção dos episódios com Fábio Mendonça. A direção de fotografia é de Rodrigo Carvalho e Dante Belluti e a direção de arte de Fabio Goldfarb. “Rua Augusta” é adaptação da série israelense “Allenby Street”. Durante o dia, a Rua Allenby, localizada em Tel Aviv, Israel, é o espaço de atividades comerciais. Quando a noite chega, a via é agitada pelos bares e casas de show da região. E é lá que Mika (Moran Atias) realiza a vida. Trabalhando como prostituta, a jovem divide seu tempo entre o trabalho e os prazeres da vida noturna, até que ela se envolve em caso amoroso.

A série televisiva “Rua Augusta” foi filmada em diversas locações em São Paulo, especialmente na região da Rua Augusta. Mika (Fiorella Mattheis) é uma stripper que reconstrói sua vida após um passado conturbado e misterioso. Ela passa a trabalhar na agitada Rua Augusta, em São Paulo, onde é dançarina na Boate Love e se diverte na boate Hell. Numa noitada, o destino da jovem se cruza com o do filho de um empresário e muda sua vida para sempre. Isto não impediu como alternativa aos usuários que também houvesse abertos diversos prostíbulos em seu entorno. Mas a rua se modernizou em 1993, com a abertura do cinema Espaço Unibanco. A partir da década de 2000, voltou a ser parte da vida noturna dos jovens. Abriu os espaços: Vegas Club, The Pub, Club Noir, o Comedy Club Comedians, primeiro clube de comédias do Brasil, YO restaurante, entre outros. Seu entorno está movimentado por bares, restaurantes, casas noturnas, lojas e o gosto por antigos prostíbulos. Os jovens consumidores prestigiam a rua com carros e suas motos, e muito congestionamento. Havia muitas discotecas para acompanhar os “embalos de sábado à noite”, pistas de esqui no gelo, doceiras, academias de musculação e aeróbicas. Sempre sendo atualizado desde a década de 1970, com reforma do calçamento, decoração com vasos, retirada de uma parte inútil dos postes de iluminação pública que estavam obsoletos, colocação de carpete, estacionamento pago Zona Azul e subterrâneo e a construção de um bulevar e por fim, a eliminação dos úteis e vistosos ônibus elétricos com as novas calçadas.

Bibliografia geral consultada.

BRUNO, Ernani Silva, História e Tradições da Cidade de São Paulo. 2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1954; CORREA, Mariza et alii, Colcha de Retalhos. Estudos sobre a Família no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; FREITAS, Maria Luiza de, O Lar Conveniente: Os Engenheiros e Arquitetos e as Inovações Espaciais e Tecnológicas nas Habitações Populares de São Paulo (1916-1931). Dissertação de Mestrado. São Carlos: Instituto de Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2005; PIMENTEL, Lídia Valesca Bonfim, Vidas nas Ruas, Corpos em Percurso no Cotidiano da Cidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2005; JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto, Calçadões: A Revitalização Urbana e a Valorização das Estruturas Comerciais em Áreas Centrais. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006;  VEGA, Alexandre Paulino, Estilos e Marcadores Sociais da Diferença em Contexto Urbano: Uma Análise da Descontração de Diferenças entre Jovens em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; PISSARDO, Felipe Melo, A Rua Apropriada: Estudo sobre as Transformações e Usos Urbanos na Rua Augusta (São Paulo, 1891-2012). Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2013; BASTOS, Bruna Freire, Construindo Identidades, Espaços e Sentido: O Consumo Cotidiano na Cidade de São Paulo. Um Olhar sobre a Rua Augusta. Dissertação de Mestrado em Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo. São Paulo: Associação Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2016; ARRUDA, Marina Almeida Ferraz, A Memória no Resgate do Passado - A Rua Augusta em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Cultura e Comunicação. Lisboa: Faculdade de Letras. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2016; FIGUEIREDO, Carolina Moura Klautau de Araújo, Jornalismo, Incerteza e Complementaridade de Opostos: Um Diálogo Compreensivo. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado em Comunicação. São Paulo: Faculdade Cásper Libero, 2018; entre outros.  

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Oracy Nogueira - Integração, Ascensão & Preconceito de Marca.

                                                                                                      Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra”. Bob Marley


Oracy Nogueira nasceu em Cunha em 17 de novembro de 1917, onde viveu até os dez anos de idade. A família se muda para Catanduva em 1928, e logo para Botucatu em 1931/32, onde Oracy completa o ginásio. Em 1932, com quatorze anos, participa como membro voluntário da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Em 1933/34, trabalha como repórter e redator no jornal Correio de Botucatu, filia-se então ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual permaneceria vinculado até meados dos anos 1960. Ingressa em 1940, no curso de bacharelado da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em São Paulo, como estudante-bolsista de Donald Pierson, e lá conhece Lisette Toledo Ribeiro que viria a tornar-se sua esposa, colaboradora e mãe de seus quatro filhos. Donald Pierson era professor de Sociologia e Antropologia, obtivera seu doutoramento em Chicago, sob a orientação de Robert Ezra Park. Pierson passou dezesseis anos em São Paulo como docente, e na opinião de Oracy, representou um “verdadeiro diretor acadêmico da ELSP”. Na Escola, Oracy Nogueira foi aluno de Radcliffe-Brown, Herbert Baldus, Sérgio Milliet e Emilio Willems, entre outros de sua geração, permanecendo estreitamente vinculado à instituição e a Donald Pierson, até o ano do retorno deste aos Estados Unidos da América (EUA) em torno do ano de 1952.                       
Em 1942, Oracy conclui o bacharelado. Em 1945, o mestrado com a dissertação “Vozes de Campos de Jordão. Experiências sociais e psíquicas do tuberculoso pulmonar no Estado de São Paulo”, publicada em 1950. Ainda em 1945, por meio de um convênio firmado entre a Escola Livre de Sociologia e Política - ELSP e a Universidade de Chicago viaja para os Estados Unidos da América (EUA) para a realização do doutoramento naquela Universidade. Lá permanece sob a orientação de Everett Hughes, cumprindo créditos nos Departamentos de Sociologia e de Antropologia até 1947, tendo sido aluno de W. L. Warner, Robert Redfield, Louis Wirth, o próprio Hughes, entre outros. Retorna ao Brasil para redação da tese, que, entretanto não chega a ser defendida: sendo filiado ao Partido Comunista Brasileiro, em 1952, em pleno macarthismo, seu visto para retorno aos Estados Unidos é negado. Na ELSP, Oracy Nogueira ensina no curso de graduação desde 1943 e, a partir de 1947, no de pós-graduação, desenvolvendo simultaneamente atividades de ensino e pesquisa. Integra também a direção da Revista Sociologia (1948-1958), e também sua colaboração com a Comissão Paulista de Folclore, liderada por Rossini Tavares Lima e sua participação nos debates pontuais e conceituais então travados pelo Movimento Folclórico que abrange uma série de empreendimentos destes intelectuais que almejava, entre outras coisas, “o reconhecimento do folclore como saber científico”. Organizados em 1947 na Comissão Nacional de Folclore (CNFL), eles ramificaram o movimento em comissões estaduais, promoveram congressos e viabilizaram a criação, em 1958, da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, órgão executivo ligado ao Ministério da Educação. 


Analogamente, também Florestan Fernandes realizou entre 1942 e 1945 vários pequenos levantamentos, como o estudo sobre as manifestações do preconceito de cor em Sorocaba e do culto a João de Camargo; uma análise quantitativa da competição entre profissionais liberais em São Paulo, com base em identificações extraídas dos volumes das “listas telefônicas”; uma sondagem, através de questionários, da população rural de Poá, na qual tive a colaboração de Oswaldo Elias Xidieh; certa participação na pesquisa do prof. Dr. Willems, sobre Cunha, na qual ele se encarregou de estudar determinados aspectos do folclore ou da vida sexual da comunidade, assim como ajudou na coleta de dados antropométricos; uma exploração dos dados quinhentistas sobre os contatos dos Tupi com os brancos, na cidade de São Paulo, uma pesquisa que deveria fazer com o prof. Dr. Donald Pierson mas que interrompemos de modo prematuro, um balanço crítico das contribuições que Gabriel Soares e Hans Staden poderiam dar para o estudo da vida social dos Tupinambá e seus contatos com os brancos. E em 1944 iniciara “graças ao empenho e à colaboração desinteressada” de Jamil Safady, uma pesquisa sobre a aculturação de sírios e libaneses em São Paulo. Essa experiência extensiva - afirma o talentoso sociólogo - não diz tudo. A pesquisa de 1941, complementada parcialmente em 1944, como já nos referimos, sobre o folclore, e o levantamento sistemático dos dados conhecidos sobre os índios Tupinambá, iniciado em 1945 e completado em 1946, constituem um marco em sua preparação sociológica. 
Queremos dizer com isso que, para Florestan Fernandes no início da década de 1950, o período de formação chegava ao fim e, simultaneamente, revelava os seus frutos maduros. Ele já havia terminado a redação de A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá e dispunha de condições não só para colaborar com Roger Bastide em outra pesquisa complexa que realizaram, posteriormente, sobre a Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964), tendo como escopo a cidade de São Paulo. Graças à transferência para a Cadeira de Sociologia I, oficializada em 1952 e, em seguida, ao contrato como professor em substituição a Roger Bastide, ele viu-se diante da oportunidade de contar com uma posição institucional para por em prática as concepções que formara a respeito do ensino da sociologia e da investigação etnológica. Florestan pretendia implantar e firmar padrões de trabalho que nos permitissem alcançar o nosso modo de pensar sociologicamente e a contribuição à sociologia.      
Em 1952, no mesmo ano em que Donald Pierson deixou o Brasil, Oracy Nogueira aceita o convite para coordenar a cadeira de Ciência da Administração na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (USP) e para o Instituto de Administração anexo. Em 1955, ele se efetiva como técnico do Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, então dirigido por Mário Wagner Vieira da Cunha, que também passara pela ELSP, logo se tornando chefe do Setor de Pesquisas Sociais.  Em 1957, vai para o Rio de Janeiro, trabalhar no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos do Ministério da Educação, a convite de Darcy Ribeiro, seu ex-aluno na ELSP. Nesse contexto, publica: Família e Comunidade: Um Estudo Sociológico de Itapetininga (1962). Resultado de pesquisa de 10 anos (1947-1956), o livro é um clássico na área dos estudos sobre família demonstrando a importância sociológica da organização familiar, uma vez que a história da comunidade se entrelaça com a de certas famílias. Oracy volta a São Paulo em 1961, como técnico do Instituto de Administração, desligando-se finalmente da ELSP. Em 1967, defende junto à cadeira de Sociologia II da Faculdade Municipal de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco sua tese de Livre Docência, um estudo também pioneiro: Contribuição ao Estudo das Profissões de Nível Universitário no Estado de São Paulo.
  O sociólogo e antropólogo Oracy Nogueira compõe uma geração de intelectuais cuja démarche está vinculada ao processo de institucionalização das ciências sociais no Brasil. Mas tornou-se internacionalmente conhecido por um trabalho apresentado no XXXI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em São Paulo, em agosto de 1954: “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem - sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil”. O Congresso Internacional de Americanistas é uma atividade cientifica de ampla tradição, que vem celebrando-se, ininterruptamente, desde 1875, data do primeiro congresso na cidade de Nancy, convocado pela Société Américaine de France. Em suas dez primeiras versões, teve o Congresso de Americanistas sedes europeias; sendo o México, em 1895, sua primeira sede norte-americana. Desde então se procura alternar o local de celebração, não só quanto aos países, mas também quanto aos continentes, de tal forma que a um congresso realizado na Europa suceda-se outro na América do Norte. Seu trabalho transformou-se, rapidamente, numa referência quase obrigatória para os estudos de relações raciais, servindo também de síntese erudita da dicotomia entre o Brasil e os Estados Unidos, em termos das relações entre brancos e negros. Era o ingrato destino de uma reflexão, que fora apropriada por uma política identitária nacionalista que buscava firmar o caráter democrático e brando das relações raciais, em contraste vis-à-vis com o mundo, notadamente os Estados Unidos da América.
No caso brasileiro, no limite as relações irão desembocar no racismo de cátedra como marca. As três dimensões da atividade acadêmica universitária - ensino, pesquisa e extensão - vêm se tornando dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de pesquisa de Tese de Titular que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de financiamento públicas.
Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que devem ser cumpridos. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades à medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento dos atores sociais envolvidos na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta, em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade como forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis.
Do ponto de vista psicológico a cor preferida remete-nos a um perfil básico das características da personalidade; a segunda cor que dá preferência indica os seus objetivos ou metas básicas na vida. A rejeição ou aversão a uma cor é altamente significativa, pois indica uma necessidade básica insatisfeita, não atendida, na sua personalidade, e que, portanto, gera tensão ou ansiedade. Se você não gosta ou tem aversão ao vermelho, indica que você se sente derrotado e frustrado. Apesar de um “gigantesco” esforço da sua parte, você sente que a vida não tem recompensado a sua luta. Você anseia por paz e segurança, porém por algum motivo não consegue encontrá-las. Você se sente ameaçado pelo ambiente intenso e agressivo que o cerca, porém não encontra saída. Em decorrência, você padece de uma sensação terrível de desamparo. Você deve de começar a usar o vermelho, mesmo que não goste. Com a continuação começará a gostá-lo. É a cor da vitória, por isso, é indicado para os frustrados.
Desde a Antiguidade já era dado ao vermelho atributo de poder, tanto na religião quanto na guerra. O deus Marte, os centuriões romanos e mesmo certos sacerdotes se vestiam nesta cor. Obviamente desde cedo se relacionava o vermelho com o sangue e com o fogo. Desde os princípios do cristianismo, o fogo vermelho era símbolo de vida, e um dos exemplos mais conhecidos dessa simbologia são as línguas de fogo que descem sobre as cabeças dos apóstolos no dia de Pentecostes. O sangue vermelho de Cristo é símbolo de salvação. Mas o vermelho contrariamente também tem outro sentido simbólico: é também a morte, o inferno, as chamas de Satã, a carne impura, os crimes, o pecado e todas as impurezas. Na Roma antiga, também se produzia um tipo de vermelho a partir de uma concha encontrada no Mar Mediterrâneo, a “murex”. Como era uma concha rara, obviamente só eram tingidas com esse pigmento as roupas do imperador e dos chefes de guerra. Mas na Idade Média já não era mais possível encontrar essa concha e os tintureiros descobriram  outra fonte para fabricar um belo pigmento vermelho: os ovos de um inseto conhecido como “cochonilha”, que é parasita de muitas árvores e do qual se extrai o “carmim”, uma variante do vermelho.                   
Contudo, é fácil entendê-lo no âmbito da política, com o golpe de Estado de 17 de abril de 2016 no Brasil, a ideia veiculada por Oracy Nogueira quando o preconceito é de marca. Neste caso, a probabilidade de ascensão social é inversamente proporcional à intensidade das características físicas do indivíduo negro o que disfarça o preconceito de raça pelo preconceito de classe social. Em entrevista ao site “Poder 360”, dirigido por Fernando Rodrigues, editado por Teles Faria, o ex-secretário executivo da comissão de curadoria do palácio do Planalto e Palácio da Alvorada, Claudio Rocha, afirmou que o político Michel Temer (PMDB) e a “dama do golpe” Marcela Temer estão mudando “todo o palácio”, com a exceção da biblioteca e do salão de banquete. – “Tapetes foram substituídos, por uma questão de gosto pessoal, porque não gostam de tapete vermelho, os sofás têm sido substituídos, porque não gostam de sofá preto, ou porque não gostam do sofá cor de telha, apesar de essas cores terem sido escolhidas pela própria Anna Maria Niemeyer e Oscar Niemeyer na década de 1960”. Segundo Claudio Rocha, os carpetes vermelhos da rampa de acesso ao Planalto, das escadarias e do elevador foram trocados, sempre a pedido de Marcela Temer. As mudanças são comandadas pela chefia de gabinete de Marcela Temer. – “O problema é que o palácio é um espaço público, é um prédio tombado e não faz nenhum sentido esse tipo de interferência”.            
As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. A forma como grupos de uma mesma “conexão geracional” lidam com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto da sociedade. Karl Mannheim não esconde sua preferência pela abordagem histórico-romântica alemã e destaca ainda que este é um exemplo bastante claro de como a forma de se colocar uma questão pode variar de país para país, assim como de uma época para outra.
Ao invés de associar as gerações a um conceito de tempo externalizado e mecanicista, pautado por um princípio de linearidade, o pensamento histórico-romântico alemão se esforça por buscar no problema geracional uma contraproposta diante da linearidade do fluxo temporal da história. O problema geracional se torna um problema de existência de um tempo interior não mensurável e que só pode ser apreendido qualitativamente. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas diferentes em relação a um mesmo problema dado. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades sociais nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo meio social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. Estes, de acordo com Mannheim, foram produtos específicos - capazes de produzir mudanças sociais - da colisão entre o tempo biográfico e o tempo histórico. Ao mesmo tempo, as gerações podem ser consideradas o resultado de descontinuidades históricas e, portanto, de mudanças sociais. Em outras palavras: o que forma uma geração não é uma data de nascimento comum - a “demarcação geracional” é algo apenas potencial - mas é a parte do processo histórico que jovens da mesma idade-classe de fato compartilham em vista do vínculo com a geração atual.
Roger Bastide entrevista (1944) com Margarida Izar.
Interessante notar comparativamente que também neste período se dava o importante capítulo brasileiro na vida de Fernand Braudel, iniciado em 1935, quando o historiador aceitou um repentino convite para se incorporar à Missão Francesa que, a partir de 1934, ajudou a fundar e construir a Universidade de São Paulo. Esta permanência no Brasil, que se prolongou por três anos consecutivos, e que se repetirá por sete meses em 1947, foi, contudo, apenas o ponto de partida de uma relação social e uma experiência mais geral que Braudel entabulará com a América Latina, e que absorverá parte considerável de sua atividade intelectual, de 1935 até aproximadamente os anos de 1953. Desse modo, o trabalho como Titular da cátedra de História das Civilizações da Universidade de São Paulo representa pari passu a origem de um interesse que Fernand Braudel desenvolverá com respeito à história social e à civilização latino-americanas. Culminará no fato de que uma parte substancial de sua atividade acadêmica e intelectual, desenvolvida entre 1946 e 1953, terá como parâmetro essa história e vida latino-americanas que, entre os anos de 1935 e 1953 estará voltado para seu interesse mediado em ambos os períodos por um terceiro, cujo centro de gravidade será o tema global de seu Mediterrâneo (cf. Aguirre Rojas, 1986).
Suas inquietações no plano intelectual e metodológico de pesquisa apresentam como fio condutor e boutade o estigma e suas consequências sociais, percebidos a partir de diversos ângulos, mas sua principal temática de investigação é de fato a questão racial. Vale lembrar que autor publicou em sua progênie, “Atitude Desfavorável de Alguns Anunciantes de São Paulo em Relação aos Empregados de Cor” (1942) e “Preconceito de Marca: As Relações Raciais em Itapetininga” (1955) e também “Negro político, político negro”, seu último trabalho. Todos eles versam sobre as distintas formas e condicionamentos sociais sobre os quais de constituem as manifestações de preconceito, aspecto que organiza o entendimento da questão racial brasileira. Após anos de estudos e pesquisas de Oracy Nogueira chegou-se a conclusão que o estilo de racismo à brasileira caracteriza-se pelo “preconceito de marca”. Assim, o preconceito de marca se estabeleceria em relação às aparências. Quando toma por pretexto para as suas manifestações de vida, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gostos, o sotaque, caracterizando a marca. Mas basta a suposição de que o indivíduo descende de grupo étnico, para que supra as consequências do preconceito: diz-se que é de origem. O impacto desses estudos foi assimilado de modo traumático porque havia na ideologia brasileira e na academia, como ambiente cultural, certo compromisso com a tese sociológica da democracia racial. Com os trabalhos de Roger Bastide e Florestan Fernandes, em “Negros e brancos em São Paulo”, é que foi revelada, por trás das relações, a realidade do preconceito racial de par em par com o preconceito de classe e, portanto, o preconceito racial constitutivo da sociabilidade na sociedade brasileira. 
Oracy Nogueira compreende que os estudos que tratam da “situação racial” brasileira, no que se refere ao negro (e ao mestiço de negro), podem ser divididos em três correntes: 1) a corrente afro-brasileira, a que deram impulso Nina Rodrigues e Arthur Ramos, e os estudiosos que mais diretamente foram influenciados por ambos; e que, sob a influência de Herskovits, prossegue, sob uma forma renovada, com os trabalhos de René Ribeiro, Roger Bastide e outros, podendo ser caracterizada como aquela corrente que dá ênfase ao estudo do processo de aculturação, preocupada em determinar a contribuição das culturas africanas à formação da cultura brasileira; 2) a dos estudos históricos, em que se procura mostrar como ingressou o negro na sociedade brasileira, a receptividade que encontrou e o destino que nela tem tido, corrente esta de que Gilberto Freyre é o principal representante; e 3) a corrente sociológica que, sem desconhecer a importância das duas perspectivas já mencionada, se orienta no sentido de desvendar o estado atual das relações entre os componentes brancos e de cor (seja qual for o grau de mestiçagem com o negro ou o índio) da população brasileira.
Em termos metodológicos, o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de Chicago, fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer e de seu mestre Donald Pierson, teorizava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: - Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o “preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências sociais do preconceito, pois se diz que é de origem histórica e socialmente determinada.
O primeiro aspecto, no plano de análise identifica a distinção entre preconceito de marca (aparência) e preconceito de origem (ascendência), que historicamente tem o intuito de qualificar a situação racial brasileira vis-à-vis aos condicionamentos histórico- raciais na sociedade norte-americana. Tratava-se de estabelecer uma crítica às análises que diferenciavam o preconceito racial brasileiro daquele das demais sociedades (em especial a norte-americana) apenas em termos de intensidade, sem qualificá-lo. Essa abordagem significou o ponto de partida de sua contribuição sociológica ao tema na medida em que o autor, ao analisar o preconceito, além de reconhecê-lo, situa-o como um problema central nos estudos das relações raciais no Brasil. Sua perspectiva acerca da sociedade norte-americana foi desenvolvida durante sua estadia naquele país, posteriormente à passagem de Gilberto Freyre na University of Columbia, entre os anos de 1945 e 1947, na Universidade de Chicago, para a realização do doutorado. Ao longo do texto, ele fornece relatos etnográficos de situações cotidianas que vivenciou nos Estados Unidos e cujo impacto social proporcionou o insight para a criação do quadro teórico-metodológico de referência para compreender a situação racial brasileira. Os Estados Unidos e o Brasil constituem exemplos de dois tipos de “situações raciais”: um em que o preconceito racial é manifesto e insofismável e outro em que o próprio reconhecimento do preconceito tem dado margem a uma controvérsia de não se superar.
O ponto central da reflexão de da sociologia de Oracy Nogueira é a permanência, o desenvolvimento e a especificidade do preconceito racial no Brasil, que ele chama de “preconceito de cor”, ou “preconceito de marca”. Preconceito que facilitou a integração e a ascensão social dos imigrantes europeus e retardou e impediu a ascensão dos negros. Primeiro, porque os brasileiros natos, seja no cotidiano, seja em sua ideologia política ou literária, sempre viram no imigrante branco um elemento de melhoramento ou a ideologia de branqueamento da raça. Segundo, “enquanto a ascensão de descendentes de imigrantes tanto se pode dar com o cruzamento como sem o cruzamento com descendentes de antigos colonizadores portugueses, a ascensão de elementos de cor ou pressupõe ou se faz acompanhar do cruzamento com elementos brancos, seja qual for a origem deles”. Em consequência, cada conquista do negro ou do mulato que logra vencer econômica, profissional ou intelectualmente tende a ser absorvida, em uma ou duas gerações, pelo grupo branco, através do branqueamento progressivo e da progressiva incorporação dos descendentes a esse grupo. O negro, a cada geração, teria, portanto, de começar, de novo, lutando contra o preconceito e sem a solidariedade de um grupo identitário. Sim, porque Oracy confirma o que já se sabia antes dele, e será reafirmado depois: não há, no Brasil, grupo racial qua grupo. A diferença, para Oracy, é que, existindo o grupo para os outros, ainda que não para si, torna-se objeto de discriminação, mas não cria laços de solidariedade que possam fortalecê-lo em sua luta contra o preconceito.
O objeto teorizado por Oracy Nogueira é justamente essa complexa constelação de preconceitos baseados em marcas (1998), afastados de origens geográficas ou culturais, resguardados por ideologias “assimilacionistas”, que impedem o cultivo de diferenças identitárias pelos setores já discriminados. Muitos desses decadentes foram carreados a cargos burocráticos, quando não, a ofícios manuais, considerados menos prestigiosos na localidade. Já as violações ao “intra-casamento” alimentaram as formas em que se dá a miscigenação. Neste caso foram recolhidos casos frequentes de “uniões pré-maritais” – duradouras ou ocasionais – de homens brancos de projeção, com “mulheres de cor”, prática que chegou até as primeiras décadas deste século. Isso, em detrimento da salvaguarda das famílias brancas, que detinham status social superior e concentravam poder econômico e político. Mestiços resultantes dessas uniões (ostentando alguns deles nome de família tradicional), quando instruídos e dotados de traços negroides pouco acentuados, beneficiaram-se desse conjunto de circunstâncias para atingir posto em atividades menos desvalorizadas, podendo até conquistar destaque político.
De qualquer modo, no entanto, o apelo a atitudes e práticas simulatórias, dissimulatórias ou elusivas, correntes na localidade, indicavam o mal-estar provocado por tais fatos sociais, em razão do preconceito aí vigente. Servem de exemplos: o uso de termos imprecisos, como “pardo”, “mestiço” para designações mais embaraçosas; e a dissimulação social em reconhecer o status social como de negros (as), a despeito dos traços étnicos denunciadores, identificados pelo pesquisador, fotografia(s) de pessoa(s) socialmente aceita(s) como integrante(s) do segmento branco. Oracy Nogueira rememora que outro recurso esclarecedor da chamada resistência local às oportunidades, acessíveis a negros e negroides, encontram-se no paralelo entre a efetiva ascensão social no quadro de estrangeiros (principalmente italianos), portadores de conhecimentos técnicos, e a de negros e seus mestiços, mesmo quando, porventura, também portadores desses conhecimentos. A estes últimos o casamento com brancas representou sempre condição indispensável, mas não àqueles outros. Já aposentado o etnólogo ainda escreveria, entre outras coisas, a expressiva Introdução a seu livro Tanto preto quanto branco (1985), que re-edita seus artigos sobre relações raciais e a original biografia Negro político, político negro (1992) que mistura ficção à pesquisa histórica e sociológica na narrativa da trajetória pessoal e política do Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, prefeito de Cunha na República Velha, caso singular de ascensão social e política de um homem negro no Brasil recém-saído do regime escravocrata é o objeto de estudo de Oracy Nogueira neste livro, que alia reflexão sociológica a relato biográfico ao analisar a vida desse médico negro que teve intensa atividade política no interior de São Paulo e chegou inclusive a ocupar cadeira de Senador da República. 
Bibliografia geral consultada.
BRAUDEL, Fernand, A Longa Duração. In: História e Ciências Sociais2ª edição. Lisboa: Editorial Presença, 1976; GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo, “A Marca da Cor”. In: Rev. Bras. Cien. Soc. vol.14, n°41. São Paulo, outubro de 1999; CAMPOS, Maria José, Arthur Ramos: Luz e Sombra na Antropologia Brasileira: Uma Versão da Democracia Racial no Brasil nas Décadas de 1930 e 1940. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004; LIMA, Marcia, “O Legado de Oracy Nogueira ao Estudo das Relações Raciais”. In: Tempo Soc. vol.19 n°1. São Paulo, junho de 2007; SANTOS, Risomar Alves dos, Racismo, Preconceito e Discriminação: Concepções de Professores. Tese de Doutorado em Educação. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; MAIO, Marcos Chor, “O Racismo no Microscópio: Oracy Nogueira e o Projeto UNESCO”. In: Estudios Interdisciplinarios de América Latina e Caribe, Vol. 19, n°1, 2008; PACHECO, Ana Cláudia Lemos, Branca para Casar, Mulata para f... e Negra para Trabalhar; Escolhas Afetivas e Significados de Solidão entre Mulheres Negras em Salvador. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas, 2008; GOMES, Janaína Damasceno, Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes Raciais em São Paulo (1945-1955). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013; BOKANY, Vilma Luiza, Do Preconceito aos Crimes de Ódio: As Marcas da Intolerância na Metrópole Paulista. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; NOGUEIRA, Oracy, Contribuição ao Estudo das Profissões de Nível Universitário no Estado de São Paulo. Tese de Livre-Docência. Osasco (SP): Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco, 1967; Idem, Preconceito de Marca: As Relações Raciais em Itapetininga. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998; Idem, Pretos (Blacks) and Mulatos (Mulattos) Among the Middle Classes. São Paulo, 1983-1984. Disponível em: Vibrant, Virtual Braz. Anthr. Vol.12 n°2. Brasília, julho-Dezembro, 2015; VANINI, Eduardo, “Barreiras da Discriminação Impedem Ascensão dos Negros no Mercado”. Disponível em: https://oglobo.globo.com/30/07/2017; BARRETO, Robenilson Moura, Contribuições Psicanalíticas para a Compreensão do Preconceito Racial: Um Estudo de Caso. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Belém: Universidade Federal do Pará, 2017; entre outros.