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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Invenção da Evasão Escolar, Classe, Estatuto & Avaliação no Brasil.

                                   Quem ensina aprende ao ensinar. E quem aprende ensina ao aprender”. Paulo Freire                                             

          Paulo Reglus Neves Freire ingressou para a Universidade do Recife (PE) em 1943, para cursar a Faculdade de Direito, mas também se dedicou aos estudos de Filosofia da Linguagem. Apesar disso, nunca exerceu a profissão e preferiu trabalhar como professor numa escola de 2º grau lecionando Língua Portuguesa. Em 1946, Paulo Freire foi indicado ao cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social no Estado de Pernambuco, onde iniciou o trabalho com analfabetos pobres, fato social e político que levou para o resto de sua vida. Em 1961 tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e, no mesmo ano, realizou junto com sua equipe as primeiras experiências da chamada “alfabetização popular” que levariam à constituição do Método Paulo Freire. Seu grupo de trabalho foi responsável pela alfabetização de 300 cortadores de cana num tempo recorde de apenas 45 dias, pois resgatava neles a coragem, a vontade e a capacidade intelectual transformadora para participarem do mundo de forma crítica e conscientemente. Esse brasileiro foi Paulo Freire (1921-1997), educador pernambucano, filósofo, escritor, político e militante de causas sociais. - “Ele elaborou uma teoria do conhecimento e procurou o sentido da educação, centrando suas análises na relação social entre educação e vida, reagindo às pedagogias tecnicistas. A educação precisa estar centrada na vida. Em resposta aos eficazes resultados, o governo brasileiro que, sob a popularidade do presidente João Goulart (1919-1976), empenhava-se na realização das reformas de base aprovou a multiplicação de experiências através do Plano Nacional de Alfabetização, que previa a formação de educadores em massa e a implantação de 20 mil núcleos, reconhecidos como os “círculos de cultura”.

Em 1964, meses depois de iniciada a implantação do Plano Nacional de Alfabetização, ocorre a reação elitista de modernização conservadora através do golpe político-militar de 1° de abril de 1964 que extinguiu essa iniciativa democrático-popular. O educador Paulo Freire foi “encarcerado como traidor da nação por 70 dias”. Em seguida passou por um breve exílio na Bolívia e trabalhou no Chile por cinco anos para o “Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã” e para a “Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação”. Em 1967, durante o exílio chileno, publicou no Brasil seu primeiro livro: “Educação como Prática da Liberdade”, baseado fundamentalmente na tese “Educação e Atualidade Brasileira”, com a qual concorrera, em 1959, à cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, capital de Pernambuco.  O seu livro foi bem recebido, e Paulo Freire foi convidado para ser professor Visitante da Universidade de Harvard em 1969. No ano anterior, ele havia concluído a redação de seu mais famoso livro: “Pedagogia do Oprimido”, que foi publicado em várias línguas como o espanhol, o inglês (em 1970), inclusive em hebraico (em 1981). Em razão do preconceito político entre o pensamento obscuro da ditadura militar e o socialismo cristão de Paulo Freire, sua publicação foi postergada no Brasil até 1974, quando o general Geisel assumiu a presidência do país e iniciou o lento processo de abertura política. Depois de um ano em Cambridge, Freire mudou-se para Genebra, na Suíça, trabalhando como consultor educacional do Conselho Mundial de Igrejas. Historicamente, atuou como consultor em reforma educacional em diversas colônias portuguesas na África, particularmente na Guiné-Bissau e em Moçambique. 

A Guerra Ultramar tornou-se reconhecida como o conflito pró-Independência entre as colônias portuguesas Angola, Guiné-Bissau e Moçambique e a metrópole Portugal. Após a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, as colônias passaram a reivindicar a independência política e econômica dos seus países. A partir da década de 1960, ocorreram movimentos sociais a favor da Independência das colônias. Criaram-se em Angola três grupos armados que lutariam para libertar o país da exploração capitalista colonial. Cada grupo mantinha diferentes posições políticas entre eles, porém todos tinham em comum a luta pela Independência de Angola e as divergências quanto a qual dos três grupos iria assumir o poder. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) constituiu um desses grupos. A proposta política do grupo era de orientação marxista e a luta armada era o único meio para abolir os laços coloniais de Angola. O segundo grupo era União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita): liderada por Jonas Savimbi (1934-2002), o grupo tinha uma proposta política anticomunista. Em 1972, surgiu o terceiro grupo chamado de Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA): com Holden Roberto como principal líder, este grupo tinha o apoio financeiro dos Estados Unidos da América (EUA). No ano de 1965, Guiné-Bissau  iniciou o processo de luta contra a colonização portuguesa. Surgiu o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), liderado por Amílcar Cabral (1924-1973). Em Moçambique, no ano de 1962, a Frente de Libertação de Moçambique iniciou a luta política pela Independência concretamente do país.           

          Os movimentos de Independência das colônias africanas ganharam força a partir do fim da ditadura Salazarista (1932-1968), que mantinha uma forte política colonial. Com a Revolução dos Cravos e a derrubada da ditadura Salazarista (1933-1974), a política colonial portuguesa tomou outros rumos e Guiné-Bissau conquistou sua Independência em 1974. Moçambique se tornou independente em 1975. Com a Anistia em 1979, Paulo Freire pôde retornar ao Brasil, mas só o fez em 1980. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade de São Paulo, e atuou como supervisor para o programa do partido para alfabetização de adultos de 1980 até 1986. Quando o Partido dos Trabalhadores venceu as eleições municipais de 1988, iniciando-se a gestão de Luiza Erundina (1989-1993), nascida na cidade de Uiraúna, Paraíba, Freire foi nomeado secretário de Educação da cidade de São Paulo. Exerceu esse cargo de 1989 a 1991. Dentre as marcas positivas de sua passagem e administração pela secretaria municipal de Educação está a criação do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), um modelo democrático de programa público de apoio comunitário de Educação de Jovens e Adultos adotado por prefeituras e instâncias de governos regionais no Brasil.  Paulo Freire foi um dos mais completos e célebres educadores brasileiros de todos os tempos, mormente o antropólogo marxista Darcy Ribeiro (1922-1997), ambos com atuação e reconhecimento internacionais pelo conjunto globalizado de sua extraordinária obra. Reconhecido principalmente pelo método de reflexão para a alfabetização de adultos, ele desenvolveu e dissimulou um pensamento pedagógico per se político.  

Para Freire, o objetivo primacial da educação é de fato poder conscientizar o aluno. Daí seu significado em relação às grandes parcelas de homens e mulheres desfavorecidas da sociedade. Poder levá-las a compreender, sentir e revelar sua situação política de oprimidas e agir em favor da sua libertação. O principal livro de Freire intitula-se justamente “Pedagogia do Oprimido”. Ipso facto para o leitor atento suas categorias e conceitos sustentam o conjunto de sua obra. Na “Pedagogia do Oprimido” encontramos hic et nunc vários aspectos que remetem diretamente à Phänomenologie des Geistes (1807), de Friedrich Hegel, na homologia representada pela relação dialética entre senhor e escravo exposta no âmbito do desenvolvimento fenomenológico. É comum associar três aspectos no âmbito da formação de Paulo Freire. Foi influenciado por três correntes de pensamento contemporâneo: o personalismo, o marxismo e o catolicismo. Inicialmente ele adota um pensamento personalista até uma proposição que dialoga com o marxismo. Sob a influência personalista, a liberdade para Freire é definida como “o ligar-se ao Criador”. Todavia, o exílio aproxima Paulo Freire do marxismo ocidental, e sua ideia tradicional de ligação-individual com o Criador é substituída pela ideia de que a ligação indivíduo-Criador tem que ser necessariamente mediatizada pelo coletivo dos homens. No livro: “Pedagogia do Oprimido”, propõe um método de alfabetização dialético, se diferenciando do chamado “vanguardismo” na esfera de influência dos intelectuais tradicionais da educação da década de 1950. Sempre defendeu o diálogo com os mais simples, não só como método. Como um modo de ser e pensar realmente democrático. Sua prática e didática fundamentavam-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à por ele denominada “educação bancária”', tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes.  

O educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado, mas reconhecido como “Método Paulo Freire”, que aproxima o aluno do conteúdo, pela utilização de palavras conhecidas pelo mesmo. Propõe e estimula a inserção do adulto iletrado no seu contexto social e político, na sua realidade, promovendo o despertar para a cidadania plena e transformação social. É a leitura da palavra, proporcionando a leitura do mundo. Suas ideias nasceram no contexto do nordeste brasileiro a partir da década de 1950, onde metade dos seus 30 milhões de habitantes eram analfabetos, com predomínio do colonialismo e todas as vivências impostas por uma realidade de opressão, imposição, limitações e muitas necessidades. Inicialmente o método só era usado na alfabetização, mas logo se estendeu para outras áreas. Avalia-se que o método exprimia ideais cristãos. Foi o brasileiro mais homenageado da história social e política: obteve 29 títulos de doutor honoris causa de universidades da Europa e América; e recebeu diversos galardões como o prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura de Educação para a Paz em 1986.  Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a lei 12.612 do educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira.

O Ensino Médio é um nível de ensino com características diferentes conforme o país. Em muitos países, corresponde à totalidade ou a parte do ensino secundário ministrado a adolescentes com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos. Em outros países, contudo, pode corresponder a um nível de ensino pré-secundário ou pós-secundário. O Ensino Médio no Brasil corresponde desde 1996 à etapa do sistema de ensino equivalente à última fase da educação básica, cuja finalidade é o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, bem como a formação do cidadão para etapas posteriores da vida. A Lei nº 9394, de 31 de dezembro de 1996, denominada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, estabelece sua regulamentação específica e uma composição curricular mínima obrigatória. Os estudantes devem ter concluído o Ensino Fundamental antes de serem autorizados a inscrever-se no ensino médio. O Ensino Médio dura três anos. O mínimo é de 2200 horas de aula durante três anos. A grade curricular do ensino médio compreende as disciplinas de português, incluindo o idioma português e as literaturas portuguesa e brasileira, língua estrangeira, geralmente inglês e uma língua opcional, história, geografia, arte, matemática, física, química, educação física e biologia. Filosofia e sociologia proibidos com a ditadura militar (1964-1985) tornaram-se obrigatórios.

         O governo de FHC teve início com a posse da presidência em 1° de janeiro de 1995, e terminado em 1° de janeiro de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência. FHC foi presidente por dois mandatos consecutivos de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002. Suas principais marcas foram manutenção da estabilidade econômica com a consolidação do Plano Real, iniciado no governo de seu antecessor, o presidente Itamar Franco, a reforma do Estado brasileiro, com a privatização de empresas estatais, a criação das agências regulatórias e a mudança da legislação que rege o funcionalismo público, bem como a introdução de programas de transferência de renda como o Bolsa Escola. Seu governo registrou crescimento de 19,39% do PIB (média de 2,42%) e 6.99% da renda per capita (média de 0,87%). FHC assumiu com a inflação em 22,41% e entregou a 12,53%. A política de estabilidade financeira do país e da continuidade do Plano Real foi a principal bandeira da campanha eleitoral de 1998 para a reeleição de FHC. Ele foi reeleito já no primeiro turno. Durante seu mandato presidencial, a economia brasileira se manteve estável, em consequência do controle da inflação conseguido com o Plano Real. A taxa de inflação média anual, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, foi de 9,71% no primeiro mandato e 8,77% no segundo. O Ministério de Administração e Reforma do Estado, comandado pelo economista e empresário Bresser Pereira, elaborou o Plano Diretor da Reforma do Estado, de acordo com o qual “procurava criar condições para a reconstrução da administração pública em bases modernas e racionais”. Em seu primeiro discurso inaugural, declarou: - “Eu acredito firmemente que o autoritarismo é uma página virada na história do Brasil. Resta, um pedaço do nosso passado político que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas, de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista”. 

Durante a gestão econômica do Plano Real e sucessivamente, houve um maciço ingresso de investimentos externos na área produtiva, sendo essa entrada de dólares uma das âncoras do plano. Só na área da indústria de automóveis, entraram com fabricação no país durante o governo de Fernando Henrique nada menos que onze marcas (Peugeot, Renault, Citroën, Audi, Mitsubishi, Nissan, Land Rover, Toyota - até então uma pequena fábrica artesanal de jipes, Honda, Mercedes-Benz automóveis, Dodge-Chrysler, fora a (na época) brasileira Troller). Ainda no setor de caminhões a Volkswagem implantou fábrica em Resende-RJ, a Iveco em Minas e a Internacional/Agrale no Rio Grande do Sul. Entraram em atividade também montadoras de motocicletas como Kasinski e Sundown em Manaus. A produção de veículos no país cresceu expressivamente chegando perto da produção de 2 milhões/ano. Investimentos perderam fôlego por causa das crises em vários países emergentes que ainda afetavam o Brasil. Nesse período o país começava a viver uma expansão econômica, depois de sofrer os efeitos de várias crises internacionais nos anos anteriores. A expansão econômica embrionária, no entanto, trouxe efeitos colaterais sérios, gerados pela ausência de investimento e planejamento em produção de energia no Brasil, que não se organizara para seu crescimento. Em 1999 foi implementado o “tripé macroeconômico”, que formou a base da política econômica a partir de então e cujos pilares eram: política de câmbio flutuante, metas fiscais e metas de inflação. Promoveu inúmeras privatizações em setores considerados deficitários, tais como telecomunicações, distribuição de energia elétrica, mineração e financeiro. Essas privatizações foram contestadas pela oposição, principalmente do Partido dos Trabalhadores (PT).

FHC enfrentou diversas crises mundiais durante seu governo, como a crise do México em 1995, a crise asiática em 1997-98, a crise russa em 1998-99 e, em 2001, a crise argentina, os atentados terroristas nos Estados Unidos da América em 11 de setembro de 2001, a falsificação de balanços da Enron/Arthur Andersen. Internamente, enfrentou uma crise em 1999, quando houve uma forte desvalorização do real, depois de o Banco Central abandonar o regime de Câmbio fixo e passar a operar em regime de câmbio flutuante. Em 2002, a própria eleição presidencial no Brasil, em que se previa a vitória de Lula, causou mais uma vez a fuga de hot-money, elevando o preço do dólar a quase R$ 4,00. Opositores de seu governo afirmam entretanto que tendo Fernando Henrique incentivado o fluxo de capitais externos especulativos de curto prazo no Brasil (hot-money) - que supostamente inundariam o país para equilibrar o balanço de dólares, exatamente o oposto do desejado se deu: a cada crise que surgia em outros países, a economia brasileira sofria uma retirada abrupta desses capitais internacionais especulativos, o que obrigava FHC a pedir socorro ao FMI, o que fez três vezes, sendo a última já com concordância de Lula, recém-eleito. Seus defensores lembram que FHC pegou o país falido, praticamente sem divisas em dólar e com uma hiperinflação que chegou a mais 70% em um único mês, tendo que abrir mão de diversas frentes para estabilizar o país e entregá-lo ao seu sucessor com as finanças devidamente organizadas.

As principais marcas positivas do governo FHC foram a continuidade do Plano Real, iniciado por Itamar Franco que tinha o próprio Cardoso como Ministro da Fazenda; o fim da hiperinflação, e a criação de programas sociais pioneiros, como o bolsa-escola, o vale-gás e o bolsa-alimentação. Além de mudanças amplas no Estado brasileiro, com a implementação da Advocacia Geral da União, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do Ministério da Defesa e a implantação do PROER - programa de restruturação do sistema financeiro brasileiro - concentrando e transformando os bancos brasileiros em instituições fortemente fiscalizadas, o que rendeu elogios do próprio presidente Lula na ocasião da crise econômica mundial de 2008. Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República, a dívida pública federal interna e externa somavam cerca de R$ 153 bilhões e as dívidas de estados e municípios permaneciam descontrolados. No seu governo, a dívida pública do Brasil, que era de US$ 60 bilhões em julho de 1994, saltou para US$ 245 bilhões em novembro de 2002, principalmente devido as altas taxas de juros e pela absorção das dívidas dos estados da federação com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Com as privatizações de empresas estatais conseguiu gerar para o Tesouro Nacional uma receita de US$ 78,61 bilhões, sendo 95% em moeda corrente.

A Lei de Responsabilidade Fiscal provocou uma mudança substancial na maneira como é conduzida a gestão financeira dos três níveis de governo. Até então, o governo federal não tinha mecanismos para medir o endividamento total do país. Como medida de contingenciamento para a implantação da LRF, o governo tomou para si as dívidas públicas estaduais e municipais, tornando-se credor dos estados e municípios altamente endividados. Com a LRF, impediu que os prefeitos e governadores endividassem novamente os estados e municípios além da capacidade de pagamento. O programa de combate à AIDS foi copiado por outros países e apontado como melhor programa de combate à Aids pela Organização das Nações Unidas. No período, foi criada também a lei de incentivo aos medicamentos genéricos, o que possibilitou a queda do preço dos medicamentos no Brasil. Eliminou os impostos federais dos medicamentos de uso continuado. Foi regulamentada ainda a lei de patentes, com resolução encaminhada à Organização Mundial do Comércio (OMC) para licenciamento compulsório de fármacos em caso de interesse no âmbito da saúde pública. Foi organizado clinicamente também o Sistema Nacional de Transplantes e a Central Nacional de Transplantes. 

Durante o Governo FHC, foi sancionado a Lei nº 10.167, de 2000 que tornou mais rigorosa a política antitabagista no Brasil, com a proibição da publicidade e a introdução das imagens de impacto em embalagens de cigarro. Também foi introduzida a vacinação dos idosos contra a gripe e criada a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Também tinha os “Mutirões da Saúde”. Em fevereiro de 1998, Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei de Crimes Ambientais, que estabeleceu sanções penais e administrativas para crimes ambientais. Em julho de 2000, sancionou a lei 9.685, que institui politicamene o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), responsável pela gestão das unidades nacionais de conservação. Uma das propostas de suas campanhas presidenciais em 1994 e 1998 foi executar as obras de transposição do Rio São Francisco. No entanto, o governo desistiu da obra em 2001, alegando que não havia água no São Francisco, substituindo-a por um plano de incentivo à agricultura familiar e ao plantio de árvores nas margens do rio. Em julho de 2002, FHC assinou o Protocolo de Kyoto, ratificado pelo Congresso Nacional Brasileiro. No mesmo mês, lançou oficialmente a Agenda 21 Brasileira e ativou o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Em agosto, anunciou uma série de decretos, que criaram a Política Nacional de Biodiversidade, regulamentaram o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e criaram o Parque Nacional do Tumucumaque no Amapá.

       Externamente na maioria dos países, onde o Ensino Médio existe com esta designação, corresponde ao nível de ensino pré-secundário, correspondente aos 2º e 3º ciclos do ensino básico de Portugal ou aos cinco anos finais do ensino fundamental do Brasil. Localizado na Península Ibérica, que faz fronteira com a Espanha. Sua localização às margens do Oceano Atlântico influenciou muitos aspectos da cultura do país: o bacalhau salgado e as sardinhas assadas são pratos típicos nacionais, as praias do Algarve são destinos muito procurados e boa parte da arquitetura do país data dos séculos XVI a XIX, quando Portugal era um poderoso império marítimo. Normalmente, é ministrado a jovens com idades entre os 10 e os 16 anos. O ensino médio com estas caraterísticas existe em países como Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, Itália, Lituânia, Países Baixos, Reino Unido e Turquia. Em outros países, contudo, o ensino médio corresponde a outros níveis de ensino. Em países como o Chile e a Hungria, o ensino médio corresponde aproximadamente ao ensino médio brasileiro ou ao ensino secundário português. Na Islândia, país insular nórdico, tem uma paisagem exuberante, com vulcões, gêiseres, fontes termais e campos de lava. Suas geleiras estão protegidas nos parques nacionais Vatnajökull e Snæfellsjökull. A maioria na capital, Reykjavik, com uma população de 139.875 (2023), abastecida por energia geotérmica e sede dos museus Nacional e Saga, que rotinizam a história viking da Islândia, o Ensino Médio, comparativamente, tem caraterísticas semelhantes ao antigo ensino médio de Portugal, consistindo numa formação intermediária entre o ensino secundário e o ensino superior.

Evasão escolar é uma “redução sociológica” do termo utilizado para descrever a situação em que um aluno deixa de frequentar a instituição de ensino e interrompe seus estudos antes de completar o ciclo educacional, uma organização do tempo escolar que divide a educação em etapas, de acordo com as fases de crescimento do aluno. Ou seja, a evasão ocorre quando o aluno, em sua ação afetiva que é aquela ditada pelo estado de consciência ou humor do sujeito, é definida por uma reação emocional do ator em determinadas circunstâncias e não em relação a um objetivo ou a um sistema de valor, deixa de frequentar as aulas programadas e abandona o período letivo. A necessidade de trabalhar é o principal motivo esclarecido por jovens de 14 a 29 anos para abandonar os estudos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação, divulgada normalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aproximadamente 4 em cada 10 jovens que não concluíram o Ensino Médio precisaram “deixar as salas de aula para trabalhar”. Ao todo, no Brasil, 20,2% dos jovens de 14 a 29 anos não completaram o Ensino Médio, seja porque abandonaram a escola antes do término dessa etapa, seja porque nunca chegaram a frequentá-la. Isso equivale a 10,1 milhões de jovens. Em 2024, a população brasileira foi estimada em 212,6 milhões de habitantes. A maior parte é homem, o equivalente a 58,3%, e “preta ou parda, a 71,7% de todos que não estavam estudando”. No Brasil, de acordo com a Emenda Constitucional 59/2009, a educação é obrigatória dos 4 aos 17 anos de idade. 

A evasão figura entre as principais atenções do Ministério da Educação (MEC), em quaisquer níveis de ensino. Segundo Coimbra & Barbosa e Silva (2021), toma-se por pressuposto que as políticas de combate à evasão, assim como quaisquer outras políticas públicas, devem partir de um diagnóstico, ou de uma apreciação na qual se consideram os dados e as evidências acerca do problema social. Esteve na mira dos gestores dessas políticas, seguramente, o volume, a natureza, a causalidade referente ao fenômeno do desligamento do ensino superior. Todavia, o levantamento bibliográfico feito para esta pesquisa revelou certo nível de dissonância entre o que se tem nominado, mensurado e explicado. Nesse instante, parecem emergir três perguntas relevantes. A primeira, no campo da definição, inquere o que se chama de evasão no ensino superior federal. A segunda, claramente dependente da primeira, atenta à sua extensão, reclama saber sobre seu tamanho e seus números. E, por fim, a última, já mais avançada e afeita a etapas superiores de formulação, procuraria buscar soluções. O que justifica um artigo dedicar-se à definição da evasão é, justamente, o fato de que a bibliografia e os documentos oficiais têm demonstrado divergência e reunido fenômenos de naturezas diferentes. E, talvez a dimensão mais preocupante, têm assentado a divergência a respeito de critérios que quase nunca se diferenciam pela causalidade ou pela motivação da perda de vínculo com a instituição. Via de regra, são enfatizadas as formas e negligenciadas as razões que animam o desligamento. A razão da evasão, crê-se, só poderia ser extraída de levantamentos com egressos, que quase nunca aparecem para subsidiar as reflexões do campo. O resultado, como se poderia esperar, são definições genéricas, abarcando quase todo tipo de perda de vínculo como evasão. Levando para a mesma conta falecimentos, troca de cursos, expulsões, jubilamentos, saída por ausência de vocação, por problemas financeiros, por problemas curriculares, por adoecimento, entre tantos outros vigentes na sociedade contemporânea massificada. Cada uma dessas razões pode ou não representar um problema, bem como cada uma delas pode exigir um tipo de abordagem, de mensuração e de política pública.

O conceito de figuração distingue-se de outros conceitos teóricos da sociologia por incluir expressamente os seres humanos em sua formação social. Contrasta, portanto, decididamente com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, por tanto por meio do ingresso singular do mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos socialmente apreendidos. Sem sua apropriação, sem, por exemplo, o aprendizado de uma determinada língua especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo nem de se comunicar uns com os outros. Um ser humano adulto, que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo permanece fora das figurações, pois não é um ser humano. As definições de controle social são demasiado amplas e vagas, e, portanto, seria legítimo indagar, escolhendo-as mais ou menos ao acaso, para inferir que resultam em termos de um controle, isto é, qualquer estímulo ou complexo de estímulos que provoca uma determinada reação.         

Assim, pois, todos os estímulos são controles, pois representam a direção do comportamento por influências grupais, estimulando ou inibindo a ação individual ou grupal. O controle social pode ser definido como a soma total ou, antes, o conjunto de padrões culturais, símbolos sociais, signos coletivos, valores culturais, ideias e idealidades, tanto como atos quanto como processos diretamente ligados a eles, pelo qual a sociedade inclusiva, cada grupo particular, e cada membro individual participante superam as tensões e os conflitos entre si, através do equilíbrio temporário, e se dispõem a novos esforços criativos. Ipso facto, em toda a dimensão da vida associativa deverá haver algum ajustamento de relações sociais tendentes a prevenir a interferência de direitos e privilégios entre os indivíduos. De maneira mais específica, são três as funções do estabelecidas pelo controle social: a obtenção e a manutenção da ordem social, da proteção social e da eficiência social. O seu emprego hic et nunc na investigação sociológica contribuiu consideravelmente para produzir uma simplificação ou redução na análise dos problemas sociais, conseguida proporcionalmente, graças à compreensão positiva da integração das contradições correspondentes no sistema de organização das sociedades e da importância relativa de cada um deles, como e enquanto expressão do jogo social.  Embora obscuro e equívoco, em seu significado, o conceito de controle social é necessário à investigação sociológica na modernidade, encontraram um sistema de referências propício à sua crítica científica, seleção lógica e coordenação metódica.  

 O crescimento de um jovem convivendo e habitando comum em figurações humanas, como processo social e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação com os seres humanos, é condição indispensável ao desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização de um ser humano, são nomes diferentes para o processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros, e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Quando se fala que uma criança se torna um indivíduo humano por meio da integração em determinadas figurações, como, por exemplo, em famílias, em classes escolares, em comunidades aldeãs ou em Estados, assim como mediante a apropriação e reelaboração de um patrimônio simbólico social, conduz-se o pensamento por entre dois grandes perigos da teoria e das ciências humanas: o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto como que de um agente que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos. Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma outra substância a não ser seres humanos gerados familiarmente por pais e mães, as sociedades humanas não são simplesmente um aglomerado cumulativo dessas pessoas, do ponto de vista positivista-funcionalista. O convívio dos seres humanos em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na maior desordem socialmente, uma forma absolutamente determinada. 

É isso que o conceito de figuração exprime. O processo de concentração física de força pública se acompanhada de uma desmobilização da violência ordinária. A violência física só pode ser aplicada por um agrupamento especializado, especialmente mandatado para esse fim, claramente identificado no seio da sociedade pelo uniforme, portanto um agrupamento simbólico, centralizado e disciplinado. A noção de disciplina, sobre a qual Max Weber escreveu páginas magníficas, é capital: não se pode concentrar a força física sem, ao mesmo tempo, controla-la, do contrário é o desvio da violência física, e o desvio da violência física está para a violência física assim como o desvio de capitais está para a dimensão econômica: é o equivalente da concussão. A violência física pode ser concentrada num corpo formado para esse fim, claramente identificado em nome da sociedade pelo uniforme simbólico, especializado e disciplinado, isto é, capaz de obedecer como um só homem a uma ordem central que, em si mesma, não é geradora de nenhuma ordem. O conjunto das instituições mandatadas para garantir a ordem, as forças públicas e de justiça, são separadas pouco a pouco do mundo social. Essa concentração do capital físico se realiza num duplo contexto. Para uns, o desenvolvimento do exército profissional está ligado à guerra, como imposto; mas há a guerra interior, a civil, a arrecadação do imposto como uma espécie de guerra civil. 

Um diagnóstico inédito sobre dados específicos da empregabilidade de jovens no Brasil realizado pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, revela que, dos 207 milhões de habitantes do Brasil, 17% são jovens de 14 a 24 anos, e desses, 5,2 milhões estão desempregados, o que corresponde a 55% das pessoas nessa situação no país, que, no total, chegam a 9,4 milhões. Entre os jovens “desocupados”, 52% são mulheres e 66% são pretos e pardos. Aqueles que nem trabalham nem estudam - os preconceituosamente chamados nem-nem - somam 7,1 milhões, sendo que 60% são mulheres, a maioria com filhos pequenos, e 68% são pretos e pardos. Segundo a pesquisa Empregabilidade Jovem Brasil, apresentada nesta sexta-feira (26), em um encontro no Centro de Integração Empresa-Escola, em São Paulo, no primeiro trimestre de 2023, 23% das jovens mulheres ocupadas e 37% dos jovens homens ocupados não tinham concluído o ensino médio e 38% das desocupadas e 46% dos desocupados não concluíram o ensino médio. Apenas 9% das jovens ocupadas e 5% dos jovens ocupados têm ensino superior. Quando consideradas as ocupações, a pesquisa revela que 86% tinham ocupações pouco desafiadoras e 14% dos jovens ocupados (2,2 milhões) tinham ocupações que envolviam atividades técnicas, da cultura ou da informática e comunicações em geral. O ponto em comum foi a informalidade, com 51% das mulheres e 56% dos pretos e pardos na informalidade. Os dados estatísticos demonstram, ainda, que as 15 ocupações mais frequentes envolvem 1,3 milhão de jovens que trabalham como vendedores por telefone, vendedores, operários da construção, condutores de motocicletas, cuidadores de animais e ajudantes de cozinha, entre outros. Outras 15 ocupações com variação superior a 60% entre 2020 e 2022, isto é, presentemente, englobam cerca de 300 mil jovens, que atuam trabalhando em atividades técnicas, da cultura ou da informática e comunicações, entre outras.

Segundo o levantamento, em 2022, os aprendizes de 14 a 24 anos somavam cerca de 500 mil; 57% estavam na faixa etária de 14 a 17 anos completos e 42% tinham entre 18 e 24 anos e 86% desses aprendizes atuavam nas 15 ocupações mais frequentes. Os estagiários eram 642 mil, dos quais 70% nos órgãos do Executivo e Legislativo de estados e municípios. De acordo com a Subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, Paula Montagner, há no Brasil 35 milhões de jovens de 14 a 24 anos, mas o que se observa experimentalmente é que, principalmente entre ocupados e desempregados, aqueles que entraram para o mundo do trabalho, ainda há muitas pessoas que não completaram o nível médio. - “E essa credencial é a mínima para conseguir postos de trabalho de melhor qualidade ou para conseguir se inserir em cursos que tragam mais densidade de conhecimento e mais habilidades para obter um posto de trabalho melhor. Essa pesquisa mostrou que só 14% das ocupações em que os jovens estão são ocupações com essas características, que também ajudam o jovem a transitar para ocupações melhores e ter uma perspectiva de futuro”. Para ela, um dos objetivos do estudo é o de contribuir para incentivar toda a sociedade, professores e empregadores, além do próprio jovem, a compreender essa dinâmica e a importância da escolaridade. - “Além de compreender a importância da capacitação no nível médio para que ele possa, se achar que não é o caso de trabalhar, é procurar no mundo do trabalho ocupações que lhe deem perspectiva e que garantam uma vida digna com salário adequado”. Para o diretor executivo do CIEE, Humberto Casagrande, o levantamento ressaltou, de forma incontestável, uma série de desigualdades que existem no Brasil entre a mulher negra, o jovem adolescente, o jovem adulto e o trabalho informal. - “E a partir dessa pesquisa podemos discutir caminhos, como podemos transformar esse quadro estatístico. E aí são vários caminhos na linha do jovem aprendiz, do ensino técnico e várias outras coisas”.         

Bibliografia Geral Consultada.

FREIRE, Ana Maria Araújo, Paulo Freire: Uma História de Vida. Indaiatuba: Editora Villa das Letras, 2006; FAVERO, Rute Vera Maria, Dialogar ou Evadir: Eis a Questão! Um Estudo sobre a Permanência e a Evasão na Educação a Distância. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006; FÁVERO, Osmar, Uma Pedagogia da Participação Popular: Análise da Prática Educativa do MEB – Movimento de Educação de Base (1961/1966). Campinas: Autores Associados, 2006; CUNHA, Maria Isabel da, “Docência na Universidade, Cultura e Avaliação Institucional: Saberes Silenciados em Questão”. In: Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, vol. 11, n° 32, pp. 258-371, maio/ago. 2008; BAGGI, Cristiane Aparecida dos Santos; LOPES, Doraci Alves, “Evasão e Avaliação Institucional no Ensino Superior: Uma Discussão Bibliográfica”. In: Avaliação (Campinas) 16 (2) • Jul 2011; BIJAGÓ, Vagner Gomes, Os Golpes de Estado na Guiné Bissau: O Cotidiano do Poder no Contexto da Diversidade Étnica e da Construção Nacional. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Instituto de Ciências Sociais. Maceió: Universidade Federal de Alagoas. Alagoas, 2011;  BRITO, Edson de Sousa, O Emílio e o Pensamento Político Pedagógico de Jean-Jacques Rousseau. Tese de Doutorado em Ciências Humanas. Goiânia: Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2013; AMBIEL, Rodolfo Augusto Matteo, “Construção da Escala de Motivos para Evasão do Ensino Superior”. In: Avaliação Psicológica. Campinas, vol. 14, n° 1, pp. 41-52, 2015; BEZERRA, Leonardo Ferreira; GONÇALVES, Clayton Pereira; CUNHA, Diego de Oliveira da; OLIVEIRA, Francisco Lindoval, “Análise da Correlação entre a Média de Alunos por Turma na Taxa de Rendimento de Alunos nas Escolas Públicas de Ensino Médio no Município do Rio de Janeiro”. In: Revista Educação Pública, vol. 20, nº 36, 22 de setembro de 2020; COIMBRA, Camila Lima; SILVA, Leonardo Barbosa e, “A Evasão na Educação Superior: Definições e Trajetórias”. In: Educ. Pesqui. 47 • 2021; BRITO, Mayara Capella Silva Cruz de; ALVARES, Raquel Pereira; SANTANA, Raquel Soares de Amorim, “Diagnóstico e Monitoramento da Evasão na Educação Profissional: A Experiência do Senac”. In: Revista Brasileira de Avaliação, vol.12, n° 2, 2023; NUNES, Nelson da Silva; ANTONELLI-PONTI, Mayra; PIMENTEL, Fernando Silvio Cavalcante; SILVA, Alan Pedro da, “Uma Proposta de Política Pública para Evasão nos Cursos de Licenciatura de Ciência da Natureza e Matemática”. In: Práxis Educativa vol.19, Ponta Grossa 2024.  Epub 18-Jun-2024; entre outros.  

sábado, 25 de agosto de 2018

Classe Média - Egoísmo, Trabalho & Vontade de Poder-Saber.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga
 
           O dinheiro não traz felicidade - para quem não sabe o que fazer com ele”. Machado de Assis 

                
           A classe média brasileira, criada pela expansão do emprego público e pela criação de empregos privados em geral, tem sido representada pelos trabalhadores que prestam serviços diretamente aos grupos empresariais e por extensão das elites econômicas e elites políticas, como os profissionais com ensino superior empregado em funções medianas em empresas. Os profissionais com ensino superior, funcionários públicos em empregos bem situados, composto por médicos do sistema público, advogados e profissionais liberais concursados. Os funcionários de escritório mais requalificados, de empresas privadas ou estatais, composto por diretores e supervisores de colégios privados e escolas públicas, bancários de postos intermediários, delegados de polícia em início de carreira, enfermeiras experientes, etc. Enfim, inclusive pelos trabalhadores manuais de maior requalificação, os operários especializados e semiespecializados de indústrias públicas e privadas, composto por mecânicos, eletricistas, encanadores, metalúrgicos, fresadores, instrumentistas, inspetores de qualidade, torneiros mecânicos e de cargos recém-criados de inovação.
             Na esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a dialética entre capital e trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade intelectual. O sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares, sua e dos outros  para agir. A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política (ou na universidade) evitam a opção por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença. São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.        
        As três dimensões da atividade acadêmica, ensino, pesquisa e extensão, vêm se tornando dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra.   
                                                                          
Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de nós atuou. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A sociedade brasileira rejeita a avaliação e a universidade padece com ela, geralmente vista como algo negativo, como representação simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo encontra-se ausente. Tendo em vista que, na universidade não há “premiação” para o bom professor em nenhum aspecto, mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos, fazem porque querem fazer, porque podem fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica.  
Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a askesis necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – da verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral. E, finalmente, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo. Mas essa soberania amplia-se numa experiência onde a relação assume a forma, não somente de uma dominação, mas de um gozo sem desejo e sem perturbação. É possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Mas uma espécie de idade de ouro na chamada “cultura de si”, sendo subentendido com isso, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais. Ou seja, aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar. Ademais, é conhecida a amplitude ética tomada em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de um vocabulário para designar as diferentes formas que o “cuidado de si” deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. Apressa-te, pois para o objetivo: - “dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível”.     
Pode-se também interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Caio Musônio Rufo, célebre filósofo estoico do primeiro século e professor de Epiteto, dentre outros, recomendava vivamente: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no trabalho filosófico ou, como referia Spurrima, na calma de uma existência agradável, “à posse de si próprio”. Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas em seu dia a dia. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, sem os excessos da chamada “corpolatria”, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão certamente relidas, a rememoração das verdades que se sabe, mas que convém apropriar-se melhor.
       Marco Aurélio nos dá um exemplo de anacorese em si próprio, de reativação de princípios e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Esse tempo não é vazio, ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros, ensaios ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros, nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo. Ela não constitui um exercício comumente visto da solidão.  Em verdade, o exercício da leitura, da reflexão e da escrita se tratava de uma verdadeira prática. E isso, em vários e múltiplos sentidos.
Toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino técnico e dos profissionais da direção da alma. Ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do “cuidado de si”, faz-se apelo ao outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito através do hábito, da cultura, da formação. E é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda ao outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode lhe dar. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova “coloração” e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de serviço da alma que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas, de interpretação e de camaradagem, de conflito e sociabilidade.
A mobilidade é mais frequentemente medida de forma quantitativa em termos de mudança de mobilidade econômica, tais como mudanças na renda ou riqueza. A ocupação é outra medida utilizada na pesquisa de mobilidade, o que geralmente envolve tanto a análise quantitativa quanto qualitativa dos dados. No entanto, outros estudos podem concentrar-se na classe social. A mobilidade pode ser intrageracional, dentro da mesma geração ou entre gerações, entre uma ou mais gerações. Vale lembrar que a classe média brasileira está plenamente integrada nos modernos padrões de consumo de massas. Todavia, estatisticamente a distribuição das classes sociais no Brasil é distorcida pela desigualdade social e econômica, na medida em que os 10 % mais ricos da população nacional, quase toda parcela da classe alta chegavam, em 1980, a controlar 50,9% de toda a renda disponível no país. Se somarmos a esse contingente a parte mais rica da classe média brasileira, ou seja, outros 10 % da população nacional, notaremos que essa parcela de apenas 20% controlaria quase 67% de toda a renda nacional.
            A mobilidade social é dependente da estrutura de status sociais e ocupações em uma dada sociedade. A extensão de diferentes posições sociais e a maneira pela qual elas são interdependentes e se relacionam fornecem a estrutura social global de tais posições. Estas dimensões diferentes de mobilidade social podem ser classificadas em termos de tipos de “capital” que contribuem para mudanças na mobilidade diferentes. Adicionando-se a isso as diferentes dimensões da estrutura econômica, as formas de prestígio e poder temos o potencial de complexidade de determinado sistema de estratificação social. Além disso, em que sociedade pode ser vista como variáveis independentes que podem explicar diferenças na mobilidade social, em diferentes tempos sociais e lugares, em diferentes sistemas de estratificação. A tese central do nacionalismo desenvolvimentista  tem como representação social o desenvolvimento econômico e a consolidação da nacionalidade constituindo dois aspectos do mesmo processo emancipatório. O desenvolvimento dependeria, assim, de uma consciência nacional mobilizada em torno de uma vontade no plano global de desenvolvimento. Na esfera cultural, a retórica do início dos anos 1960, tanto de “direita” como de “esquerda”, para lembrarmo-nos da ciosa interpretação de Norberto Bobbio, foi demarcada pelo uso corrente das categorias sociais “povo” e “nação”, ou nacional- popular. Os movimentos sociais no caso emblemático do Centro Popular de Cultura (CPC), além do discurso anti-imperialista adotaram uma postura vanguardista, de que a autêntica cultura popular é aquela produzida por artistas e intelectuais que optaram por ser povo - enquanto a cultura do povo era considerada arcaica e atrasada.
               Neste sentido é que compreendemos as variáveis que contribuem como intervenientes para a avaliação do rendimento, ou riqueza, e quando afetam o status, classe social e a desigualdade  no âmbito da mobilidade social. Estes incluem sexo ou gênero, raça ou etnia e idade. Na modernidade o “capital cultural” representa o processo de distinção entre os aspectos econômicos da classe e bens culturais poderosos, descritos por P. Bourdieu  três tipos que situam uma pessoa em uma determinada categoria social: o capital econômico; o capital social e o capital cultural. O capital econômico inclui recursos econômicos, tais como dinheiro, crédito e outros bens materiais. O capital social inclui recursos que se alcançam com base nos membros do grupo, redes de influência, relações e apoio de outras pessoas. O capital cultural é uma vantagem que uma pessoa tem que lhes dá um status mais elevado na sociedade, como a educação, as habilidades, ou qualquer outra forma de reconhecimento. Normalmente, as pessoas com todos os três tipos de capital têm um status elevado na sociedade, tendo em vista que a cultura da classe social superior é mais orientada para o raciocínio formal e o pensamento abstrato. Ele também descobriu que o ambiente em que a pessoa se desenvolve tem um grande efeito político sobre os recursos culturais que uma pessoa vai ter a seu dispor.  
A desigualdade social reproduzida através da classe social está relacionada ao poder aquisitivo, ao acesso à renda, à posição social, ao nível de escolaridade e ao padrão de vida existente entre as frações da classe dominante que controlam direta ou indiretamente o Estado, através de efeitos de poder político, na educação e trabalho, reproduzindo inexoravelmente uma estrutura social implantada e difundida pelos métodos de trabalho e de produção no âmbito das esferas sociais e de poder dominante. A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, ocupado por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no processo de produção e que têm afinidades eletivas políticas e ideológicas.
E esse problema não estava relacionado exclusivamente ao trabalho manual e às classes trabalhadoras. Basta pensarmos na referência ao capitão Hawdon, ou Nemo, de A casa abandonada, de Charles Dickens. O personagem era um ex-oficial do Exército que ganhava a vida fazendo trabalhos temporários como jurista. Mas no caso de Marx, lembra Jones (2017: 357), não se tratava de pobreza no sentido comum da palavra. Em 1862, sugestão de Lassale de que a de Marx trabalhasse para ganhar dinheiro com a condessa Von Hatzfeldt, sua companheira, foi recebida como um indizível desrespeito ao status social deles e provocou um dos mais repulsivos insultos de Marx. – “Imagine só! Esse sujeito, sabendo do caso americano etc. [a perda dos rendimentos do Tribune], e portanto da situação de crise em que me encontro, teve a insolência de perguntar se eu cederia uma das minhas fihas à la Hatzfeldt como “dama de companhia”. Uma justificativa para o comportamento  era que isso seria determinado pela necessidade de garantir o futuro das filhas. Em julho de 1865, admitiu: - “É verdade que minha casa está acima de meus meios, e que temos, além disso, vivido melhor este ano do que foi o caso antes. Mas é o único jeito de as meninas se estabelecerem socialmente, com vistas a assegurar o seu futuro”.   
            As novas abordagens sociológicas em termos de classe “c” em seguida de “nova classe média” constitui a pauta do debate, pós-governos Lula-Dilma pelo volume dos trabalhos analíticos e estatísticos realizados e pelo impacto de sua linha interpretativa. Não se trata apenas de uma linha de estudo e de transformação brasileira, mas de algo que diz respeito as dinâmicas globais. No Brasil, desde 2001, a desigualdade em termos de renda diminuiu regularmente. A renda per capita dos 10% mais ricos da população aumentou em média de 1,49% ao passo que a dos mais pobres tem aumentado 6,79%. Isso num movimento oposto ao que caracterizou o Brasil, Rússia, Índia e China  (BRIC), que juntos formam um grupo político de cooperação intercontinental. Em 14 de abril de 2011, o “S” foi oficialmente adicionado à sigla para formar o BRICS, após a admissão da África do Sul. Em consequência, a pobreza diminuiu constantemente desde 2003. - “Estimamos que, entre 1993 e 2011, 59,8 milhões de brasileiros (o equivalente a uma République française) chegaram à condição social de nova classe média”. Mas a mobilidade chegou mesmo a ritmos consistentes no período conjuntural de 2003 a 2011, quando 40 milhões de brasileiros entraram para a classe média que passou assim de 65,9 a 105,5 milhões de pessoas, ou seja, um aumento de 60%. Segundo as previsões estatísticas, até 2014, mais 12 milhões migrariam para a classe “C” e 7,7 milhões irão para a as classes “B” e “A”. Com exceção do Nordeste, as classes A, B e C serãode 75% da população. - “A nova classe média brasileira é filha da combinação do crescimento com a equidade, que difere de nossa história pregressa e daquilo que ocorre nas últimas décadas em países emergentes e desenvolvidos onde a concentração de renda sobe”.

           Mudanças na composição orgânica da sociedade brasileira desestabilizaram crenças e ideologias arraigadas sobre “desigualdade social, a pobreza e a mobilidade”. De acordo com Kopper e Damo (2018), a linguagem da “nova classe média” articulou, simultaneamente, diferentes acepções da mobilidade econômica, refletindo-se ainda como um índice de desigualdade social e de distribuição de renda. Neste debate, Nova Classe Média difere em espírito da expressão “nouveau riche”, que acima de tudo discrimina a origem das pessoas. Nova classe média não é definida pelo ter, mas pela dialética entre ser e estar olhando para a posse de ativos e para decisões de escolha entre o hoje e o amanhã. Eles informariam as necessidades e valores desse novo segmento de pessoas, e sua focalização em subpopulações como um todo e da “nova classe média” em particular: os negros, as mulheres e os jovens. A possibilidade de proclamar o Brasil um país de “classe média” chamou a atenção do governo federal. Foi formulado um novo de estratificação que buscava mapear e sistematizar conceitos de classe média com vistas à sua aplicação à realidade brasileira. A iniciativa desembocou no projeto social intitulado: Vozes da Classe Média, que perdurou até 2015, procurando decifrar as expectativas e desejos dessa população urbana para aperfeiçoar a formulação de políticas econômicas do Estado.
            A tese da “nova classe média” conduziu Marcelo Neri (2010) a uma rápida ascensão e queda política. Na transição do governo Lula para o governo Dilma Rousseff, a partir de 2011, o economista passou a participar de avaliações de programas sociais e de reuniões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Em 2012, assumiu a presidência do IPEA e, em março de 2013, com a saída de Moreira Franco para a Secretaria de Aviação Civil (SAC), tornou- se ministro interino da SAE, sendo oficializado no ano seguinte no mesmo cargo, onde deu continuidade à agenda de pesquisas sobre classe média e introduziu novas metodologias, como o índice de satisfação com a vida, mensurado pelo Gallup World Poll. Nesse mesmo período, Neri foi escolhido como um dos cem brasileiros mais influentes, segundo pesquisa anual realizada pela revista Época. Tomando como ponto de partida o trabalho seminal de Marcelo Neri (2010), as páginas dos jornais, dentro e fora do país passaram a escrever a crônica da “nova classe média”. Em novembro de 2009, a revista The Economist publicou uma reportagem de capa intitulada “Brazil takes off ”, à luz da imagem do Cristo Redentor decolando. Imagens que antes clamavam pelo combate à pobreza eram agora substituídas por comportadas famílias de classe média sorridentes posando em ambientes domésticos com objetos de consumo. Outras procuravam acentuar os contrastes e ambivalências que ainda existiam, à frente muitas vezes de suas precárias habitações em “zonas periféricas” de cidades. Embora não fosse unanimidade, a tese da “nova classe média” expandiu-se no circuito midiático, político e científico.
Bibliografia geral consultada.
MARX, Karl, O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1969; AMORA, Zenilde Baima, Recherche sur la Classe Moyènne à Fortaleza. Doutorado em Geographie et Amenagement du Territoire. Université de Toulouse II - Le Mirail, França, 1984; BONELLI, Maria da Gloria, A Classe Media do Milagre a Recessão: Mobilidade Social, Expectativas e Identidade Coletiva. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997; BOITO JR. Armando, Classe Média e Sindicalismo. Col. Primeira Versão. Campinas, vol. 123, pp. 1-40, 2004; GAGGI, Massimo; NARDUZZI, Edoardo, El Fin de la Clase Media y el Nacimiento de la Sociedad de Bajo Coste. Madri: Editor Lengua de Trapo, 2007; SOUZA, Amaury; LAMOUNIER, Bolívar, A Classe Média Brasileira: Ambições, Valores e Projetos de Sociedade. Rio de Janeiro: Editor Elsevie; Distrito Federal: Confederação Nacional da Indústria, 2010; NERI, Marcelo, A Nova Classe Média: O Lado Brilhante dos Pobres. Rio de Janeiro: Centro de Políticas Sociais/Fundação Getúlio Vargas, 2010; GARCIA, Maria Teresa, O Crescimento da Classe C no Brasil e as Mudanças na Narrativa dos Telejornais. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015; LAVAL, Christian, “et alii”, Marx & Foucault. Lectures, Usages, Confrontations. Paris: Éditions La Découverte, 2015; DÓRIA, Kim Wilheim, O Horror não Está no Horror: Cinema de Gênero, Anos Lula e Luta de Classes no Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; GROHMANN, Rafael do Nascimento, As Classes Sociais na Comunicação: Sentidos Teóricos do Conceito. Tese de Doutorado. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; KOPPER, Moisés; DAMO, Arlei Sander, “A Emergência e Evanescência da Nova Classe Média Brasileira”. In: Horiz. Antropol. Porto Alegre, ano 24, n° 50, pp. 335-376, jan./abr. 2018; GREENE, Joshua, Tribos Morais: A Tragédia da Moralidade do Senso Comum.edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2018; entre outros.