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sábado, 10 de março de 2018

Para Onde Vamos? - Indisciplina, Poder & Accountability na Vida Social.

                                                                                         Ubiracy de Souza Braga

                                  Papel do juiz é resolver conflitos, e não criá-los”. Teori Zavascki (1948-2017)
             

O magistrado origina-se do latim magistratus, derivado de magister “chefe, superintendente” que designa, em tempos passados, lato sensu, “um funcionário do poder público investido de autoridade”. Desta forma um Presidente da República, por exemplo, receberia o título de primeiro magistrado. A palavra latina magistratus tanto significa a função de governar (magistratura) como a pessoa que governa (magistrado). Na terminologia do Império Romano, “magistrado” compreendia todos os detentores de cargos políticos de consulado para baixo. De tal modo, os magistrados teriam poderes derivados do imperium, interpretado como um poder de soberania de caráter absoluto, derivado de fatores reais de poder, como a confiança de exércitos e/ou de soberanos vizinhos. O magistrado exercia sua autoridade nos limites de uma determinada atribuição, com poderes decorrentes de sua função, como os juízes, os prefeitos, os governadores e presidentes. Na Antiguidade havia diversos tipos de magistrados, como os cônsules, os pretores, os meirinhos-mor (maiorinus-mor), os censores, considerados magistrados maiores, e os edis e questores, os magistrados menores. No mundo contemporâneo a palavra magistrado normalmente remete ao exercício do poder judiciário. A noção de magistratura, que em alguns países, comparativamente, inclui juízes e procuradores, é desconhecida nos países que adotam a common law como ocorre com o Reino Unido, os Estados Unidos da América (EUA) ou o Canadá, que estendem as garantias sociais constitucionais somente aos seus juízes, em senso estrito

Também no Brasil, os magistrados são tão somente os juízes, membros do Poder Judiciário, apesar de ambas as categorias (magistrados e membros do Ministério Público) gozarem das garantias constitucionais de vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos (subsídios). Por sua vez, alguns países cuja estrutura legal está baseada no Direito Romano (países como Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal) têm no seu corpo de magistrados juízes e procuradores (ou promotores públicos). Magistrado ordinário (Magistratus ordinarii e magistrado extraordinário (magistratus extraordinarii) eram duas categorias de políticos, militares e em alguns casos, de poder religioso. Os magistrados ordinários eram eleitos anualmente (exceto os censores) para servir um ano. Os Magistrados Extraordinários eram eleitos só em circunstâncias especiais. A administração se define programaticamente através de um âmbito institucional-legal, baseada na Constituição, leis e regulamentos. Originou-se na França, no fim do século XVIII, mas só se consagrou como ramo autônomo do direito com o desenvolvimento do Estado de Direito. Teve como base os conceitos de serviço público, autoridade, poder público e especialidade de jurisdição. O gestor tem como função gerir, administrar de forma ética, técnica e transparente a administração pública, quer sejam órgãos, departamentos ou políticas públicas visando o bem da comunidade a que se destina e em consonância com as normas legais e administrativas vigentes. 

Na Europa, existem basicamente quatro modelos constitucionais de gestão da administração pública, o modelo nórdico (Dinamarca, Finlândia, Suécia e Países Baixos), o modelo anglo-saxão (Reino Unido e Irlanda), o modelo renano ou continental (Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Luxemburgo) e o modelo mediterrâneo (Grécia, Itália, Portugal e Espanha). Na América Latina a preferência é o modelo mediterrâneo, a exemplo do Brasil. Vale lembrar que a nação é um produto cultural, político e social que surge na Europa a partir do fim do século XVIII e que se constitui efetivamente em uma “comunidade política imaginada”. Nesse processo de construção histórica, a relação entre o velho e o novo, o passado e o presente, a tradição e a modernidade é uma constante e se reveste de importância fundamental, pois, a nação é uma comunidade de sentimento que normalmente tende a produzir um Estado próprio, é preciso invocar antigas tradições (reais ou inventadas) como fundamento natural da identidade nacional que está sendo criada. Isso tende a obscurecer o caráter histórico e relativamente recente dos Estados nacionais. Assim, como Estado-nação procura delimitar e zelar por suas fronteiras geopolíticas, ele também se empenha em demarcar suas fronteiras culturais, estabelecendo o que faz e o que não faz parte da nação. Através desse processo se constrói uma identidade nacional que procura dar uma imagem à comunidade abrangida por ela. Nesse sentido o processo de consolidação dos Estados-nações é extremamente recente. Mesmo em sociedades que atualmente parecem ser bem integradas. 
Esta exploração humana dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento desse fato não constitui, para Sérgio Buarque, menoscabo à grandeza do esforço português. Isto porque existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro – audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o ideal do trabalhador.                              
Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao “trabalhador”, papel muito limitado, quase nulo. Historicamente predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os melhores homens de grandes voos. E não foi fortuita a circunstância de se terem encontrado neste continente, empenhados nessa obra, principalmente as nações onde o tipo ideal do trabalhador, encontrou ambiente menos propício. Essa pouca disposição para o trabalho, ao menos para o trabalho sem compensação próxima, essa indolência, como diz o deão Inge, não sendo evidentemente um estímulo às ações aventurosas, não deixa de constituir, com notável frequência, o aspecto negativo do ânimo quer gera as grandes empresas. Como explicar, sem isso, que os povos ibéricos mostrassem tanta aptidão para a caça aos bens materiais em fins do século XVIII? “Um português” comentava certo viajante em fins do século XVIII, “pode fretar um navio para o Brasil com menos dificuldade do que lhe é preciso para ir de cavalo de Lisboa ao Porto”. E essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura?
Nesse ponto, precisamente, os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexcedíveis. Procurando recriar aqui o meio de sua origem, fizeram-no com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na história. Aos portugueses e, em menor grau, aos castelhanos, coube, sem dúvida, a primazia no emprego do regime que iria servir de modelo à exploração latifundiária e monocultora adotada depois por outros povos. E a boa qualidade das terras do Nordeste brasileiro para a lavoura altamente lucrativa de cana-de-açúcar fez com que essas terras se tornassem o cenário onde, por muito tempo, se elaboraria em seus traços mais nítidos o tipo de organização agrária mais tarde característico das colônias europeias situadas na zona tórrida. E verificou-se, frustradas as tentativas de emprego do braço indígena, que o recurso mais fácil estaria na introdução de escravos africanos.
                       
O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho. Não foi, por conseguinte, uma civilização tipicamente agrícola o que instauraram os portugueses no Brasil com a lavoura açucareira. Não o foi, em primeiro lugar, porque a tanto não conduzia o o gênio aventureiro que os trouxe á América; em seguida, por causa da escassez da população do reino, que permitisse emigração em larga escala de trabalhadores rurais, e finalmente pela circunstância de a atividade agrícola não ocupar então, em Portugal, posição de primeira grandeza. Poucos indivíduos sabiam dedicar-se a vida inteira a um só mister sem se deixaram atrair por outro negócio aparentemente lucrativo. E ainda mais raros seriam os casos em que um mesmo ofício perdurava na mesma família por mais de uma geração, como acontecia normalmente em terras onde a estratificação social alcançara maior grau de estabilidade. Da tradição portuguesa, pouca coisa se conservou entre nós que não tivesse sido modificada ou relaxada pelas condições adversas do meio.
Accountability é um termo da língua inglesa que pode ser traduzido para o português como “responsabilidade com ética” e remete à obrigação, à transparência, de membros de um órgão administrativo ou representativo de prestar contas a instâncias controladoras ou a seus representados. Também traduzida como prestação de contas, significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por qual motivo faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. A obrigação de prestar contas, neste sentido amplo, é tanto maior quanto a função do cargo é pública, ou seja, quando se trata do desempenho de cargos pagos pelo dinheiro dos contribuintes. Melhor dizendo, accountability é um conceito da esfera de ação social ética com significados variados dependendo de quem delega poder numa situação de sujeito. Frequentemente é usado em circunstâncias que denotam responsabilidade civil, imputabilidade, obrigações e prestação de contas.                          
 As teorias sociais que envolvem as especulações em torno da morte do ministro Teori Zavascki ganham força na história com fatos recentes vividos por ele e sua família. Em março de 2016, antes da farsa do “impeachment” da presidente Dilma Rousseff (PT), Zavascki foi hostilizado por manifestantes “anti-PT” depois de contestar uma decisão do juiz federal Sergio Moro. Naquela conjuntura política o ministro decidiu que a investigação política de escutas telefônicas que envolviam Dilma e o ex-presidente Lula deveria ser enviada ao Supremo. Na noite de 22 de março, um grupo foi à casa de Zavascki em Porto Alegre e pendurou na fachada do prédio uma faixa de “Teori traidor”. Em maio, Francisco Prehn Zavascki, filho do ministro, “escreveu no Facebook que sua família estava sofrendo ameaças”. No mês seguinte ao post do filho na rede social Facebook, o ministro confirmou a ameaça durante um evento no Rio de Janeiro, mas minimizou seu conteúdo afirmando: - “Não tenho recebido nada sério”. Zavascki ocupava a função de ministro do STF desde 29 de novembro de 2012 e, desde 19 de março de 2016, também atuava como ministro substituto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele era o relator da Operação Lava Jato no STF e seria o responsável por decidir se a corte vai homologar ou não o acordo de delação premiada de 77 executivos da Odebrecht, esperada para fevereiro. A ex-presidente Dilma Rousseff afirmou em nota que “perdemos um grande brasileiro”. Ela citou que teve “o privilégio de indicá-lo para ministro do STF, com ampla aprovação do Senado”, e disse que Zavascki: - “desempenhou esta função com destemor como um homem sério e íntegro”.
O perfil reservado do ministro, avesso a holofotes, foi tema de conversa entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Nessa conversa, frequentemente lembrada em discussões “conspiratórias” nas redes sociais, gravada em março e divulgada em maio de 2016, Jucá sugere que apenas uma “mudança” no governo federal – que, segundo ele, seria resultado de “pacto” nacional, “com o Supremo, com tudo” - poderia “estancar essa sangria” provocada pela Operação Lava Jato. Em outro momento da conversa, Sérgio Machado afirma que o ideal seria buscar um elo com Zavascki. - “Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém”, ao que Jucá responde: - “Não tem. É um cara fechado, foi ela (Dilma) que botou. Um cara... burocrata. Da... ex-ministro do STJ”. Com a morte inusitada de Zavascki, a relatoria da Lava-Jato pode ser designada ao ministro que o substituirá na Corte, ser escolhido pelo golpista Michel Temer, citado nas investigações. A presidenta do STF ministra Cármen Lúcia pode abrir uma exceção.
Neste sentido, aproxima-se do conceito analítico descrito por Benedict Anderson, “imagined communities” inicialmente publicado em 1983 e reeditado em 1991, com diversas correções e adição de capítulos, embora tenha sido cunhado especificamente para tratar do âmbito conceitual do nacionalismo, ele passou a ser generalizado, no nível de análise teórica quase como um sinônimo político de “comunidade de interesse”. Ele pode ser utilizado, por exemplo, para se referir a uma comunidade baseada em orientação sexual, ou consciência de fatores de risco global. Mas metodologicamente, uma “comunidade imaginada” difere de uma comunidade real, pois não se baseia em interação social de seus membros, e por razões práticas não pode fazê-lo: Anderson chega a mencionar que nada maior que um vilarejo pode ser uma “comunidade real”, já que é impossível que todos seus membros se conheçam. Nação é um exemplo de comunidade socialmente construída, imaginada por pessoas com interesses políticos que percebem a si próprias como parte de um grupo. 
Como Anderson afirma, essa comunidade tem como representação a ideia de que é “imaginada”, pois os membros de uma nação, mesmo da menor delas, nunca conhecerão a maioria de seus conterrâneos, nunca os encontrarão ou, até mesmo, ouvirão a seu respeito. Ainda assim, eles terão em suas mentes a imagem de sua comunhão. Membros de uma comunidade, apesar da potencial impossibilidade de interação real uns com os outros, não deixam de compartilhar interesses ou aspectos identitários comuns. A mídia, por exemplo, cria e mantém comunidades imaginadas, embora geralmente o faça voltando à sua interação através dos meios que proporcionam a imaginação, como se estivesse referindo à totalidade de cidadãos de um país. A origem significativa do conceito de nação para Anderson e historiadores opostos como Eric Hobsbawm e Ernest Gellner, ambos analisados em “Imagined Communities”, é uma representação da Modernidade. De acordo com Anderson, para que a concepção  de nação e nacionalismo surgisse, foram necessárias três mudanças históricas centrais.         
Em junho de 2016, Teori Zavascki anulou a validade jurídica da escuta telefônica que interceptou conversa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a  presidente Dilma Rousseff.  Na decisão em que anulou a validade da interceptação da conversa entre Lula e Dilma, Teori considerou que “Sérgio Moro não tinha competência para analisar o material, por envolver a presidente da República, que só pode ser investigada pelo Supremo”. Além disso, o ministro considerou irregular a divulgação das conversas. O ministro da Suprema Corte, no mesmo despacho, enviou para S. Moro, em sigilo, as investigações relativas ao sítio em Atibaia (SP) e ao triplex em Guarujá (SP) os quais Lula é acusado de ser o verdadeiro proprietário. Ainda sobre o ex-presidente Lula, Teori Zavascki, em outubro de 2015, incluiu o petista no inquérito principal da Lava Jato. Em outubro de 2016, o magistrado suspendeu a “Operação Métis”, que apurou a suposta tentativa de policiais do Senado de obstruir investigações de parlamentares na Lava Jato. Na decisão, ele afirmou que a intenção da Métis era investigar parlamentares, que só pode ser feito com aval do Supremo Tribunal Federal.

No julgamento em que a Segunda Turma do Supremo negou pedido da defesa de Lula para tirar de Moro às investigações sobre suposto recebimento de propina pelo petista, Teori criticou em seu voto a atuação dos integrantes do Ministério Público Federal do Paraná na entrevista em que havia sido anunciado que o petista seria denunciado. Na ocasião, os procuradores da República acusaram o ex-presidente da República de ser o “comandante máximo da propinocracia brasileira”, em referência comparativamente aos fatos investigados na operação Lava Jato. O relator da Lava Jato no Supremo chamou de “espetáculo midiático” a entrevista do MPF paranaense. Um despacho em ação de sigilo na Corte, determinando uma diligência investigativa, por exemplo, foi assinado no último dia 10/10/2017. Atualmente, há no gabinete do ministro um acervo de 7.566 processos, sendo 12 ações penais. Responsável pelos processos da Operação Lava Jato em andamento na Corte, Zavascki estava prestes a homologar a delação premiada dos 77 ex-executivos da Odebrecht enviados pela PGR no dia 19 de dezembro de 2016. Embora o poder Judiciário estivesse em recesso, o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki vinha despachando normalmente desde o início deste mês e estava prestes a homologar  as delações premiadas de ex-executivos da Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato. Ainda que à distância, o magistrado se comunicava com a equipe de gabinete dele, concentrada no 3° andar do anexo 2 da Corte, para emitir ordens judiciais em processos sob sua responsabilidade.    
O primeiro deles decorreu da ideia de que uma particular linguagem de escrita oferecia acesso privilegiado à verdade “ontologicamente situada”, precisamente por que tal linguagem era uma parcela inseparável desta verdade. O segundo desses conceitos decorreu da crença que a sociedade seria “naturalmente organizada” ao redor e sob potestades, isto é, sob monarcas que eram pessoas à parte de outros seres humanos e que governavam por alguma forma de deliberação cosmológica (divina). O terceiro decorreu de uma concepção de temporalidade em que a cosmologia e a história eram indistinguíveis, e a origem tanto do mundo quanto dos homens era essencialmente idêntica. Combinadas, essas ideias enraizaram firmemente as vidas dos homens na natureza das coisas, dando significado para as fatalidades cotidianas da existência, sobretudo, a morte, a perda e a servidão, oferecendo de diversas formas redenção delas. A tópica da descritibilidade pode ser vista no filme dirigido por Kore-Eda Hirokazu, “Nossa Irmã Mais Nova” (2015), de título original: “Umimachi Diary”, em que Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) são irmãs e vivem juntas em uma casa que pertence à família há tempos. Apesar de não verem o pai há 15 anos, elas resolvem ir “ao rito de passagem de seu enterro” (cf. Koury, 2009).
Lá, elas conhecem a adolescente Suzu Asano (Suzu Hirose), a meia irmã mais nova que aos poucos entende como é a vida. Mesmo tão nova, possui vasta experiência em superar dificuldades. É ótima jogadora de futebol, comunicativa e sincera. Logo as três irmãs convidam Suzu para que more com elas. O convite é aceito e, a partir de então, elas passam a conviver juntas e aprendem os pontos sensíveis numa “comunidade imaginada” relacionada à memória ao pai em comum. Hirokazu Kore-Eda analisa a valorização da vida como uma experiência baseada na relação dialética entre alegria e sofrimento, representados por momentos de felicidade e dor não só inevitáveis como parte fundamental de nossa existência sobre o “cotidiano” (cf. Heller, 1975), na medida em que o dia-a-dia desconstrua o estereótipo, retratando-o com uma visão poética, plena da beleza dos detalhes, como o flanelódromo surge diante de nós e que marca o nascimento das irmãs e vinda da “irmã mais nova”, pois é ao mesmo tempo sutil, fascinante e melancólico, mas por vezes turbulento e trágico no sentido nietzschiano. 
O modelo mediterrâneo é mais direcionado ao sistema de carreira, se caracteriza pelo baixo status do funcionalismo, forte intervenção da política na administração e níveis elevados de proteção ao emprego. Entre o pessoal da administração pública há diferenças importantes relativamente ao direito pertinaz ao exercício da função, diferenças estas que variam em razão do regime jurídico no qual se insere o agente público. Denomina-se regime estatutário o do exercente de cargo público, e as bases deste regime são as mesmas do regime jurídico-administrativo comum. O servidor público é a denominação concedida ao ocupante de cargo público, logo submetido a regime estatutário, mas que se distingue do empregado público, que, apesar de também ser espécie do gênero agente público, é regido pela legislação contratual trabalhista, por exemplo, onde o empregado público concursado mantém suas relações jurídicas com base na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) - daí o neologismo celetista.
Do ponto de vista histórico e pontual o conceito de “carreira” deriva da palavra latina “carraria” e passou por diversas transformações no decorrer de sua aplicabilidade teórica e historicamente determinada. Por volta de 1530, no período renascentista, simplificadamente, “carreira” identificava um caminho, ou o “curso do sol através dos céus”. Nas disputas de Justa, em 1590, a palavra “carreira” estava inserida no seguinte contexto: o cavalo que, durante o combate, passava uma “carreira” em seu oponente. A partir de 1803, o significado contemporâneo da palavra “carreira” passou a se relacionar ao mundo perigoso dos negócios, quando o termo foi associado à ideia de “caminho na vida profissional”. Presentemente entende-se “carreira” como a soma de todos os cargos ou posições ocupadas por uma pessoa durante o decorrer de sua vida profissional. Este entendimento, curiosamente, é conditio sine qua non a raiz etimológica do termo e impede que o conceito real da palavra seja plenamente assimilado no mercado, inclusive por alguns profissionais de renome em nível globalizado. Ipso facto não está associado a restrições temporais, mas de espaço e lugar. Não revela um histórico profissional, propriamente dito, mas um caminho particular rumo a um objetivo institucional.
Os mais recentes balanços críticos da sociologia das profissões põem em relevo seu viés ideológico e o erro de perspectiva por ele condicionado, a saber: a) ao endossar a premissa de que a organização profissional das ocupações significa a superação de interesses privados individuais ou grupais em nome de nobres interesses coletivos, os sociólogos estariam reafirmando o discurso ideológico dos próprios profissionais, que nada mais é do que a ideologia de classe média que se assume acima das classes sociais e de seus conflitos identitários necessários; b) ao entender a organização profissional como comunidade de interesses e âmbito de socialização, esta sociologia, de inspiração funcionalista, não estaria levando em conta o movimento simultâneo e correlato de “desprofissionalização”, definido pelo aumento do número de profissionais assalariados (isto é, pela difusão da relação de assalariamento), pela emergência (entre os quadros médios e mesmo superiores) da organização sindical e da prática de greve a que apelam as frações da classe operária e, finalmente, pela redução do diferencial de salário, de prestígio e de controle do processo de trabalho do trabalhador “não-manual” qualificado em relação às demais categorias de trabalhadores não-manuais e operárias em geral.
A denúncia dos limites interpretativos da sociologia das profissões se põe, assim, em termos de uma perspectiva que busca reintegrar as frações dos trabalhadores técnico-científicos na lógica do sistema de relações de classe, perspectiva que, mais recentemente, ressurge nos debates em torno da tecnocracia. Aliás, a familiaridade é grande entre as formulações que entendem os estratos ocupacionais como comunidades potenciais ou efetivas a serviço da coletividade e as concepções que admitem a transição do poder fundado na propriedade ao poder elevado na ciência e na técnica. Todavia, são ainda incipientes os estudos a respeito das práticas monopolistas das profissões estabelecidas e mesmo as muitas formas de dependência e/ou de pertinência da categoria ocupacional às formas de dominação burocrática da classe dominante. O caminho que parece ser seguido é o de explorar a extensão das relações de trabalho no setor de prestação de serviços, de modo a evidenciar como subjacentemente ao movimento de profissionalização e de desprofissionalização, operam processos de divisão social e técnica do trabalho na acumulação de capital através do Estado.
 Fica nítido o encobrimento ideológico que concebe automático o nexo entre a diferenciação do sistema educacional, o surgimento da ocupação e a existência de necessidades sociais efetivas quando não atendidas, comprometem no sentido ético de realização profissional, entendendo a ciência como vocação e o destino da coletividade dos praticantes inseridos nas instituições e em seus postos de pesquisa. A importância da questão está em que sua resposta reporta-se à noção de delegação, não da delegação estatal, via regulamentação jurídica, mas da delegação cultural implícita na partilha de componentes da estrutura a dominante, vale dizer, legítima. A intenção de caucionar o desempenho de métier sociológico na razão científica, por oposição ao senso comum (ou à magia), significa não a extensão irresistível no sentido de imperativo da razão absoluta do ethos científico a mais uma esfera da prática, mas a eficácia simbólica de um modelo cultural valorizado, capaz de reduzir à indignidade práticas concorrentes, mas distantes do arbitrário cultural dominante e hegemônico.
Bibliografia geral consultada.
HOLANDA, Sérgio Buarque de, Raízes do Brasil. 1ª edição. São Paulo: Livraria José Olympio Editores, 1936; HELLER, Agnes, Sociologia della vita quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; DURAND, José Carlos Garcia, “A Serviço da Coletividade - Crítica à Sociologia das Profissões”. In: Rev. Adm. Empresas. Vol.15, n°6. São Paulo, nov./dec. 1975; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Editore Einaudi, 1986; ANDERSON, Benedict Ruth, Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Revised and extended. 2ª edition. London: Verso Editor, 1991; COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1995; KUNDERA, Milan, La Identidad. Traducido del original francês por Beatriz de Moura. Barcelona: Tusquets Editores, 1998; PIRIOU, Odile, “La Sociologie: Métier ou Profession? Quand les sociologues prennent position sur l`exercice de la sociologie”. In: Homme et la Societé, n° 131, janvier-mars, 1999; HENNING, Paula Corrêa, Efeitos de Sentido em Discursos Educacionais Contemporâneos: Produção de Saber e Moral nas Ciências Humanas. Tese Doutorado em Educação. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2008; KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Emoções, Sociedade e Cultura: A Categoria de Análise Emoções como objeto de Investigação na Sociologia. Curitiba: Editora CRV, 2009; ZAVASCKI, Teori Albino, Eficácia das Sentenças na Jurisdição Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012; DIAS, Taisa, Governança Pública: Uma Concepção Teórico-analítica Aplicada no Governo do Estado de Santa Catarina a Partir da Implantação das Secretarias de Desenvolvimento Regional. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Administração. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2012; Artigo: “Sociólogo Michael Löwy Lamenta Golpe de Estado no Brasil”. Disponível em: http://www.ocafezinho.com/2016/05/30GESSER, Graziele Alano, Accountability e Transparência como Elementos de Governança nas Universidades Públicas Brasileiras. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária. Centro Socioeconômico. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2018; entre outros.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Identidade & Legado Bourne - A Globalização Técnica da Genética.


                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga*
 
                        Não tenho medo de ser comparado com Matt Damon”. Jeremy Renner


O conceito sociológico de nomeado neutralidade axiológica é ambíguo. A palavra alemã correspondente, Wertfreiheit, significa, literalmente, “liberdade em relação aos valores”. O tradutor francês dos Essais sur la Théorie de la Science, de Max Weber (1965), e grande especialista deste autor, Julien Freund, optou corretamente pela expressão “neutralidade axiológica”. Com o princípio da “neutralidade axiológica”, Max Weber quis demonstrar, por um lado, que a ciência não podia excluir a intervenção dos valores nos seus procedimentos, e, por outro, que estes deviam ficar circunscritos pela utilização exclusiva que ela faz deles e pelo controle exclusivo que o cientista exerce sobre eles, em suma, que ela se devia proteger da intrusão ilegítima de valores, no âmbito da ciência, que implicariam avaliações práticas de ordem política ou moral. No filme a cientista dá conta do recado em cenas aparentemente inexequíveis, mas que fazem parte da mise-en-scène: portando armas, correndo e na garupa de motocicleta. Essa, por sinal, é exagerada, mas não pode ser reduzida sem prejuízo para o longa-metragem, na medida certa, que passa a ganhar ritmo. Outro momento curioso é o que envolve um lobo. Embora tenha rimado aqui no argumento, não desafina na telona.
A neutralidade axiológica significa que o fundamento da ciência não reside numa objetividade pura de ordem ideal, mas que depende sempre das escolhas valorativas do cientista. O apelo aos valores integra plenamente todo o procedimento científico, tendo em vista que a criação de conceitos ou de tipos ideais, assim como o estabelecimento de relações causais, depende de opções subjetivas últimas que refletem as crenças, as convicções ou as ideologias de cada cientista. Os conceitos nunca gozam de uma imparcialidade intrínseca e nunca são neutros no sentido de exprimirem uma relação objetiva válida para todos os lugares e em todos os tempos, mas representam simples pontos de vista cientificamente informados. Estas construções não são, no entanto, arbitrárias e não constituem, de forma nenhuma, a finalidade da ciência. No domínio da economia política, Marx metodologicamente inferia que a livre investigação científica não só se defronta com o mesmo inimigo presente em todos os outros domínios, mas também a natureza peculiar do material com que ela lida convoca ao campo de batalha as paixões mais violentas, mesquinhas e execráveis do coração humano, as fúrias do interesse privado. – Segui il tuo corso, e lascia dir le genti! A inevitável subjetividade que encontramos no princípio de qualquer ciência fica superada se reconhecermos a pluralidade de valores e de centros de interesse que presidem a cada um deles, se aceitarmos a legitimidade dos outros pontos de vista e se, no decurso do nosso estudo, nos mantivermos sempre fiéis aos nossos pressupostos de partida. 
Jeremy Lee Renner é um ator, produtor cinematográfico, maquiador e músico estadunidense, famoso por sua atuação em filmes como Hurt Locker, Dahmer, Mission: Impossible – Ghost Protocol, The Bourne Legacy, The Town e American Hustle. Renner também é reconhecido por interpretar o personagem da Marvel Clint Barton, o herói reconhecido com Gavião Arqueiro nos filmes Thor, The Avengers, Avengers: Age of Ultron, Avengers: Endgame e Hawkeye, todos do Universo Cinematográfico da Marvel. Renner também já foi duas vezes indicado ao Óscar, pelas atuações em The Hurt Locker e The Town. Renner nasceu em Modesto, Califórnia, filho de Valerie Cearley (Tague) e Lee Renner, que gerenciou McHenry Bowl, um boliche de Modesto, na década de 1980. Seus pais casaram-se quando adolescentes e se divorciaram quando ele tinha dez anos. Ele é o mais velho de sete irmãos, sendo duas irmãs e quatro irmãos. Sua ascendência inclui alemão, inglês, escocês, sueco, irlandês e panamenho. Formou-se na Escola Secundária Fred C. Beyer em Modesto em 1989. Ele participou do Modesto Junior College, onde estudou ciências da computação e criminologia, antes de tomar uma aula de teatro como eletivo e decidiu buscar a atuação. A estreia no cinema de Renner ocorreu em 1995, quando ele interpretou um estudante de baixo desempenho na comédia Heróis por Acaso. Embora o filme tenha sido criticado, ele passou a ser ator convidado em dois programas de TV, Deadly Games (1995) e Strange Luck (1996) e teve um papel menor no filme de televisão Juventude Roubada (1996) como amigo do personagem de Brian Austin Green. Nos anos seguintes, Renner teve papéis de convidado em Zoe, Duncan, Jack e Jane (1999), The Net (1999), The Time of Your Life (1999) e Angel (2000). Renner também teve um pequeno papel em um episódio de CSI: Investigação Criminal em 2001. Entre os papéis de atuação também trabalhou como maquiador como uma renda extra.
Rachel Hannah Weisz é uma atriz e modelo britânica. Weisz começou sua carreira no Trinity Hall, Cambridge no início de 1990, em seguida, começou a trabalhar na televisão, aparecendo em Inspector Morse, a minissérie britânica Scarlet and Black, e o filme para televisão Advocates II. Ela fez sua estreia no cinema no filme Death Machine (1994), mas seu primeiro papel de destaque foi no filme Chain Reaction (1996), levando a um papel de alto perfil como Evelyn Carnahan-O`Connell nos filmes de The Mummy (1999) e The Mummy Returns (2001). Outros filmes notáveis ​​apresentando Weisz foram Enemy at the Gates, About a Boy, Constantine, The Fountain e The Constant Gardener, pelo qual recebeu um Oscar, um Globo de Ouro e um prêmio do Screen Actors Guild por seu papel coadjuvante como Tessa Quayle. Ela tem sido rotulada como uma “rosa Inglesa”, desde que seu papel menor em Stealing Beauty (1996). Weisz também trabalha no teatro. Sua fase de descoberta foi na peça teatral Design for Living de Noël Coward, de 1994, o que lhe valeu o London Critics Circle Award para a estreante mais promissora. Performances de Weisz incluem Donmar Warehouse de Tennessee Williams Suddenly, Last Summer, de 1999, e seu renascimento A Streetcar Named Desire, de 2009.
Sua interpretação de Blanche DuBois na última peça ganhou um Critics` Circle Theatre Award de Melhor Atriz. Ela atuou Evanora em Oz: The Great and Powerful. Seu papel de estreia no teatro foi o de Gilda na peça Design for Living do diretor Sean Mathias, em 1995, no teatro de Gielgud. Tendo já trabalhado para televisão, na sua maioria em séries britânicas como Inspector Morse (1993), Rachel fez a sua introdução no cinema com o filme, de 1995, Chain Reaction e depois no filme de Bernardo Bertolucci, Stealing Beauty. Continuou pelo cinema com Swept from the Sea, The Land Girls, e com o filme de Michael Winterbottom, I Want You. Desde então entrou em numerosos filmes como The Mummy (1999), Enemy at the Gates (2001), About a Boy (filme) (2002), Runaway Jury (2003) e Constantine (2005). Em relação ao teatro, Rachel teve papéis como o de Catherine na produção londrina de Tennessee Williams` Suddenly Last Summer, de Evelyn na peça de Neil LaBute, The Shape of Things no Teatro Almeida e de Blanche DuBois na peça A Streetcar Named Desire também de Tennessee Williams. Em 2005, Rachel Weisz atua no filme The Constant Gardener “O Jardineiro Fiel”, uma adaptação do thriller de John le Carré homônimo cuja ação se passa no Kenya. Por causa deste papel, Rachel ganhou o Óscar em 2006 para Melhor Atriz num papel secundário, o Golden Globe para melhor atriz coadjuvante e o Screen Actors Guild para desempenho extraordinário de uma atriz num papel secundário. No seu país, foi galardoada com uma nomeação para Atriz Principal nos BAFTA e com um London Critics Circle Film Award e um British Independent Film Awards. Em 2006, Rachel Weisz entra no filme The Fountain, escrito e realizado por Darren Aronofsky. No mesmo ano, ela também emprestou sua voz a dragão Saphira, da saga Eragon. Foi garota-propaganda da marca de sabonetes Lux, da companhia aérea British Airways e da famosa marca de cosméticos L`Oréal Paris.
            

Jason Bourne é um filme norte-americano de ação e espionagem, dirigido por Paul Greengrass, que também colaborou no roteiro, ao lado de Matt Damon e Christopher Rouse. É o quinto filme da série de filme “Bourne” e sequência do filme de 2007, O Ultimato Bourne. O retorno de Jason Bourne aos cinemas em 2017, no filme que anteriormente levava seu nome, não deu tão certo nas bilheterias quanto o estúdio esperava: foram US$400 milhões ao redor do mundo. Talvez as conversas em torno da sobrevida da franquia girem mais em torno de uma possível continuação do filme: O Legado Bourne (2012) que trazia Jeremy Renner como protagonista e uma espécie de derivado da franquia. O ator, por sua vez, está disposto a retornar ao papel: - “A vontade da minha parte existe. Eu adoraria fazer esse papel de novo. O ambiente em torno das filmagens de O Legado Bourne foi tão bom, porque era como se estivéssemos filmando um longa-metragem indie, esse era o espírito e essas eram a prioridades”, disse ao Collider. - “Se houver um estúdio que topa bancar essa empreitada, e um público para assisti-la, eu com certeza voltaria. É um personagem complexo”. Após Jason Bourne revelar publicamente o projeto Treadstone, Eric Byer (Edward Norton) é encarregado de apagar os rastros que possam incriminar o governo dos Estados Unidos neste e em outros projetos sigilosos. 
As indústrias químicas envolvem o processamento ou alteração de matérias-primas obtidas por mineração e agricultura, entre outras fontes de abastecimento, formando materiais e substâncias com utilidade imediata ou que são necessários para outras indústrias. Um deles, no caso da representação fílmica chama-se Outcome, “um projeto que pretende suprimir a dor e aumentar a sensibilidade, inteligência e força de seus agentes através de remédios tomados periodicamente”.  Em seu primeiro papel como protagonista desde “Guerra ao Terror”, pelo qual foi indicado ao prêmio Oscar, Renner interpreta Aaron Cross, um dos integrantes da Operação Outcome, experimento para criar “supersoldados” na mesma linha de projeção de Jason Bourne. Por meio do uso constante de medicamentos, os agentes têm força e inteligência ampliadas para encarar missões extraordinárias mundo afora – como gente infiltrada na Coreia de Norte e no programa nuclear iraniano. Com o fim do projeto em torno da indústria farmacêutica Outcome, seus agentes passam a ser eliminados no que se chama em sociologia “crime letal de Estado”. Aaron Cross (Jeremy Renner) é um agente que consegue escapar sem que Byer perceba. Em busca de respostas, ele vai à casa da doutora Martha Shearing (Rachel Weisz) e a salva da morte. Juntos, eles precisam encontrar a sobrevivência ao mesmo tempo em que Aaron, sem seus remédios habituais, começa a sentir os efeitos colaterais da abstinência forçada. 

Será a evocação de Farmacéia (Farmácia), no início do Fedro, escrito por Platão, formulando um diálogo entre o protagonista principal de Platão, Sócrates, e Fedro, um interlocutor em diversos diálogos no mesmo período que A República e O Banquete são casuais?  “Farmacéia” (“pharmákeia”) pode ser a representação de um nome comum para designar “a administração do phármakon, da droga: do remédio e/ou veneno”. Esse phármakon, essa “medicina”, esse filtro, ao mesmo tempo remédio e veneno, já se introduz no corpo do discurso com toda sua ambivalência. O phármakon faz sair dos rumos e das leis gerais, naturais ou habituais. As folhas da escritura agem como um phármakon que expulsa ou atrai para fora da cidade àquele que dela nunca quis sair, mesmo no último momento, para escapar da cicuta. Elas o fazem sair de si e o conduzem por um caminho que é propriamente de êxodo. Quando Sócrates se deitou e Fedro tomou a posição mais cômoda para manejar o texto ou, o phármakon, que tem início a conversação: falas envolvidas, enroladas, reservadas, mas apenas as letras ocultadas poderiam fazer Sócrates caminhar dessa forma, no limite da interpretação se um lógos não diferido fosse possível, ele não seduziria, ele não arrastaria Sócrates como se estivesse sob o efeito específico de um phármakon, fora de seu rumo.                  
Antes mesmo que a apresentação declarada da escritura como um phármakon intervenha no centro do mito de Theuth. Ocorre que os phármaka estão entre as coisas que podem ser ao mesmo tempo boas e penosas, o phármakon é colhido sempre na mistura. Esta dolorosa fruição, ligada tanto à doença quanto ao apaziguamento, é um phármakon em si. Ela participa ao mesmo tempo do bem e do mal, do agradável e do desagradável, ou, antes, é no seu elemento que se desenham essas oposições. A tradução corrente de phármakon por remédio – “droga benéfica” - não é de certa forma inexata. Essa medicina é benéfica, ela produz e repara, acumula e remedia, aumenta o saber e reduz o esquecimento no mundo das coisas. Theuth, por astúcia ou ingenuidade, exibiu o reverso verdadeiro efeito da escritura: para fazer valer sua invenção, Theuth teria, assim, desnaturado phármakon, quer dizer dito o contrário daquilo que a escritura é capaz. A tradução por remédio acusa a ingenuidade ou a artimanha de Theuth. - “Do ponto de vista do sol”, Theuth jogou, sem dúvida, com a palavra, interrompendo a comunicação [social] entre os dois valores opostos: Theuth, o inventor do phármakon, pronunciava em pessoa um longo discurso e apresentava suas letras à aprovação do rei.
 Para que a escritura produza o efeito ‘inverso’ daquele que se poderia esperar, ora, essa ambiguidade, Platão, pela boca do rei, quer dominar sua definição na oposição simples e nítida: do bem e do mal, do dentro e do fora, do verdadeiro e do falso, da essência e da aparência. É em aparência que a escritura é benéfica para a memória, mas, na verdade, a escritura é essencialmente nociva: o phármakon produz o jogo da aparência a favor do qual ele se faz passar pela verdade – o caso da escritura é grave. Se a escritura produz, segundo o rei e sob o sol, o efeito inverso daquele que lhe atribuímos, se o phármakon é nefasto, é que ele não é daqui: ele é exterior ou estrangeiro ao ser vivo que é o aqui-mesmo de dentro, que ele pretende socorrer ou suprir. A escritura anunciada por Theuth como um remédio, como uma droga benéfica, é em seguida devolvida e denunciada pelo rei, depois, no lugar do rei, por Sócrates, como substância maléfica e filtro do esquecimento. A escritura é dada como suplente sensível, visível, espacial da mnéme; ela se verifica em seguida nociva e entorpecente para o dentro invisível da alma, da memória e da verdade. Inversamente, a cicuta é dada como um veneno nocivo e entorpecente para o corpo, mas se verifica benéfica para a alma, que libera do corpo e desperta para a verdade do eidos. A cicuta, essa poção que nunca teve outro nome no Fédon senão o de phármakon apresentada a Sócrates como um veneno, ela se transforma, pelo efeito do lógos socrático, em meio de libertação, possibilidade de salvação e virtude catártica.
          A cicuta tem um efeito ontológico – iniciar à contemplação do eidos e à imortalidade da alma: Sócrates a toma como tal. Nos últimos anos, a indústria química mundial vem passando por diversas transformações, motivadas principalmente pelo processo de globalização, concentração, a especialização e a descentralização geográfica. A globalização é condicionada pela revolução nas comunicações e da abertura de mercados. Como consequência, a indústria padronizou seus produtos fazendo com que não ocorra uma relação direta entre o cliente e o fornecedor. A concentração refere-se ao processo de criação de empresas de grande porte, já a especialização são indústrias de grande porte que resolvem se especializar em algum setor, como na produção de resinas plásticas. A descentralização geográfica refere-se às transformações de espaço e lugar. É um fenômeno que não é novo para a indústria, como exemplo, temos a produção de derivados de gás natural. Atualmente, sua produção é realizada em países em que este insumo é excedente e, portanto, de baixo custo, anteriormente ele era deslocado para beneficiamento em outras indústrias.
A indústria química abrange a produção de petroquímicos, agroquímicos, produtos farmacêuticos, tintas, polímeros dentre outros. Para ser caracterizado como um produto de origem da indústria química o mesmo deve passar por processos químicos (reações químicas) que formam novas substâncias com características físico-químicas diferentes das substâncias iniciais. O processamento de matérias-primas também está incluso neste segmento da indústria. É importante lembrar que as indústrias de processamento de alimentos não são, em geral, incluídas no termo “indústria química”. O surgimento da indústria química se dá pela necessidade de complementação das atividades básicas ligadas à preservação e melhoria das condições da vida humana. Como a química é uma ciência extremamente experimental, demorou certo tempo para dispor de recursos teóricos que permitissem realizar as previsões dos resultados e as condições necessárias para que as reações ocorressem como feedback. A partir daí a indústria química teve como iniciar suas atividades. O histórico da indústria química mundial corresponde à análise das vantagens, do sistema financeiro e da política de patentes e incentivos governamentais, além é claro, dos avanços tecnológicos.  
A indústria farmacêutica tem atividade a produção de medicamentos, utilizados pela sociedade no tratamento de doenças ou outras indicações médicas. A produção de medicamentos envolve em seu processo de trabalho quatro estágios principais: pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos; produção industrial de fármacos; formulação e processamento final de medicamentos; e finalmente, comercialização e distribuição por intermédio de farmácias e outros varejistas, e das unidades prestadoras de serviços de saúde. É um segmento da indústria química, concentrado em grandes empresas transnacionais que ocupam posições de lideranças globais. É fortemente caracterizada pela necessidade contínua de pesquisas de novos insumos e introdução de inovações em suas linhas de produtos como forma de diminuição de custos e/ou acesso a produtos com significativo diferencial competitivo, representando um dos setores industriais mais fortemente vinculados a atividades acadêmicas de pesquisa. A indústria farmacêutica pode ser analisada do ponto de vista político como um “oligopólio diferenciado baseado nas ciências”.  No caso da indústria farmacêutica, inovar significa disponibilizar comercialmente para o consumo humano um novo medicamento para o tratamento de doenças que ocorrem numa velocidade maior do que o tempo socialmente necessário para o desenvolvimento de pesquisas.  
O aprimoramento genético tem a função de adequar determinado alimento às necessidades do homem moderno, facilitando a sua produção, possibilitando maior número de safras anuais, tornando-o mais resistente às pragas, enriquecendo-o no aspecto nutricional, etc. É o que acontece com o milho híbrido, o trigo e a soja entre outros. Sobre os alimentos geneticamente modificados, os transgênicos, há uma grande polêmica; pois de um lado encontram-se os cientistas, alterando um determinado alimento a fim de adequá-lo às necessidades socioeconômicas, enquanto do outro estão os ambientalistas, que acreditam que este produto não deve ser consumido, pois não se sabe ao certo o que pode ocasionar em nossa saúde, em longo prazo. Descobrir um novo princípio ativo, ou uma nova molécula, é uma invenção de uma nova entidade química, mas somente será uma inovação quando tiver sua eficácia simbólica comprovada no combate a uma doença, testada no mercado pelo binômio: produção-consumo e seu consumo forem viabilizados através de um novo medicamento colocado no mercado.    
A história de Jason Bourne era a de um homem em busca do seu passado. Ao final do terceiro filme ele descobre mais do que gostaria e encerra seu ciclo. O que acompanhamos agora é Aaron Cross, interpretado por Jeremy Renner. Aaron não tem amnésia nem está com peso na consciência ou coisa do gênero, a busca dele é para conseguir drogas como sobrevivência de sua alteração psicofísica. Portanto, é uma droga muito melhor que faz com que ele mergulhe nu em lagos congelados no Alaska, atravesse montanhas sem qualquer equipamento e até lute contra uma matilha de lobos durante a noite. Assim como Bourne, Cross é um agente do tal programa da CIA que recruta combatentes. Só que descobrimos agora que o treinamento é muito mais que especial, pois ele envolve também alteração do genoma humano fazendo com que desenvolvam grande agilidade física e uma inteligência acima do normal. O filme gasta uma grande parte do tempo em uma sala de comando e operações da Inteligência, mais especificamente: uma sala de comando do tal do Programa com uma grande tela, muitos computadores e equipamentos de comunicação que fazem com que tenham acesso a qualquer câmera de vigilância de qualquer parte do mundo. É nessa sala que vemos os mentores intelectuais do projeto, que incluem veteranos interpretados por Scott Glenn e Albert Finney e que neste filme está sendo chefiado por Edward Norton.
É nessa sala ainda que eles decidam terminar o programa dando uma pílula amarela letal para os participantes que faz com que todos caiam mortos. Por sorte, Cross não toma a pílula. A estratégia para eliminá-lo é um míssil que ele consegue ludibriar e, depois de lutar com mais lobos, chega até a cientista Marta Shearing, que faz parte da pesquisa de alteração do genoma. Eles unem forças para ir até Manila, onde os remédios são produzidos. Robert Ludlum dedicou boa parte de sua vida ao teatro, como ator e produtor, estreando tardiamente na literatura de ficção, em 1971, com A herança Scarlatti, que fez do escritor um best-seller. Daí em diante, Ludlum passou a se dedicar integralmente à literatura. O escritor morreu em março de 2001 deixando, além da rica herança de sucessos literários, um importante legado no teatro norte-americano.           
Robert Ludlum foi um escritor norte-americano, autor de 27 novelas de suspense e romances de espionagem. Seus livros foram publicados em 50 países e traduzidos para 32 idiomas dando origem a magnífica trilogia cinematográfica de Jason Bourne, um ex-agente da CIA alvejado em uma de suas missões e teve como consequência a perda da memória transitória. Os filmes são respectivamente: A Identidade Bourne (2002), A Supremacia Bourne (2004) e O Ultimato Bourne (2007). Se existe um fator preocupante em sequências cinematográficas, o principal deles é realizar a conexão de sentido, no sentido que o sociólogo Max Weber emprega, correspondente ao sucesso dos filmes anteriores. E uma das razões pode ser a presença de Tony Gilroy, roteirista dos quatro longas-metragens e, agora, também diretor. Mesmo que não seja um “exímio piloto”, Gilroy consegue tocar a produção inspirada na obra de Robert Ludlum, e que traz todos os componentes que conquistaram fãs mundo afora, como operações secretas governamentais e trama com reviravoltas.
Se antes se falava em Treadstone e Blackbriar, a nova operação chama-se Outcome e nela, o agente Aaron Cross (Jeremy Renner) teve sua genética modificada sem saber e dar consentimento. Movido por um grande temor conspiratório, que pode colocar tudo a perder, Eric Byer (Edward Norton) é o chefão da vez e para acabar com a infecção em seus pacientes, precisa eliminá-los. Aaron Cross é um dos alvos. Repleto de sequências espetaculares de tirar o fôlego, com tiros e pancadaria, esse road-movie inspirado no livro: On The Road, de Jack Kerouac, está para literatura “road”, para o movimento beat e para a contracultura norte-americana. Portanto, investe na ação, passa por países, tem imagens impressionantes e repete a bem-vinda fórmula de acrescentar o feminino ágil, inteligente à trama: Rachel Weisz vive o drama axiológico da cientista farmacêutica vis-à-vis a globalização da genética.

            A classificação da indústria química e de seus segmentos já foi motivo de muitas divergências, o que dificultava a comparação e análise dos dados estatísticos referentes ao setor. Em algumas ocasiões, indústrias independentes, como a do refino do petróleo, por exemplo, eram confundidas com a indústria química propriamente dita. Em outras, segmentos tipicamente químicos, como os de resinas termoplásticas e de borracha sintética, não eram incluídos nas análises setoriais. Com o objetivo de eliminar essas divergências, a Organização das Nações Unidas (ONU), há alguns anos, aprovou nova classificação internacional para a indústria química, incluindo-a na Revisão n° 3 da ISIC - International Standard Industry Classification e recentemente na Revisão nº 4. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com o apoio da Abiquim, definiu, com base nos critérios aprovados pela ONU, uma nova Classificação Nacional de Atividades Econômicas e promoveu o enquadramento de todos os produtos químicos nessa classificação.
           A inovação na indústria farmacêutica se expressa através de diversas atividades. Exige um conjunto de práticas e saberes sociais, inevitavelmente complexo e contraditório de atividades que são desenvolvidas simultaneamente em Laboratórios globais e interagem culturalmente entre si. A inovação não é um processo linear, sequencial, embora pressuponha certo ordenamento político-ideológico de controle industrialista. É um processo de trabalho sistêmico, exigindo a concorrência de várias ações multidisciplinares e específicas, para cada componente, tais como competências dos meios de trabalho, organizacionais produtivas e relacionais. A inovação mais importante no setor farmacêutico ocorre no desenvolvimento do produto (mercadoria), para o qual há uma busca permanente por sua eficácia simbólica, comercialização, segurança de uso e redução dos efeitos colaterais. Esse processo sobrevém pela mudança das características do fármaco, para torná-lo mais eficaz e para que provoque menos efeitos adversos ou colaterais; e por mudanças na composição dos outros componentes da formulação, para potencializar a ação do fármaco, tais como alterar a velocidade de sua liberação no organismo. Em termos correntes, a palavra fármaco designa todas as substâncias utilizadas em Farmácia e com ação farmacológica, ou, pelo menos, de interesse médico. Por convenção, substâncias inertes não são considerados fármacos. Esta definição do fármaco designa qualquer composto químico que seja utilizada com fim medicinal, o que torna a sua distinção de medicamento bastante sutil.
Bibliografia geral consultada.
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