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sábado, 6 de setembro de 2025

Bolsa Preta – História, Verdade & Efeitos de Poder na Cinematografia.

 A liberdade de consciência traz mais perigos do que a autoridade e o despotismo”. Michel Foucault

            

         O Big Ben é o nome dado etnograficamente de um grande sino instalado na torre Noroeste do Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, localizado em Londres, no Reino Unido. O nome oficial da torre em que o Big Ben está localizado era originalmente Clock Tower, mas ela foi renomeada como Elizabeth Tower em 2012 para marcar o Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II (1952-2022). A torre foi inaugurada durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Estado da Inglaterra, em 1859. A torre foi construída em estilo neogótico e tem 96 metros de altura, tendo sido concluída em 1858 e iniciado suas atividades em 7 de setembro de 1859. A Torre do Big Ben é um ícone cultural britânico, um dos símbolos mais proeminentes na história social do Reino Unido e frequentemente em cenas de filmes, séries de televisão, programas ou documentários ambientados em Londres. Em 15 de fevereiro de 1952 tocou 56 vezes, todos os minutos durante o funeral do rei Jorge VI, falecido com 56 anos de idade. Em 27 de julho de 2012 tocou durante 3 minutos de forma programada das 8 horas e 12 minutos às 8horas e 15 minutos para anunciar a Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. Foi a primeira vez que o sino tocou fora de sua programação normal desde o funeral do Rei Jorge VI, em 1952. A torre abriga o maior relógio composto de quatro lados do mundo e é considerada a décima quarta torre de relógio mais alta do mundo contemporâneo. O funcionamento do relógio é famoso por sua confiabilidade. Os designers foram o advogado e horologista amador Edmund Beckett Denison e George Airy, o Astrônomo Real. A construção foi confiada ao relojoeiro Edward John Dent (1790-1853); após sua morte em 1853, seu enteado Frederick Dent concluiu o trabalho, em 1854. 

        Como a torre não estava completa até 1859, Denison teve tempo para experimentar: em vez de usar o especificamente o escapamento deadbeat e remontoire como originalmente projetado, Denison inventou tecnologicamente o escapamento gravitacional duplo de três pernas que fornece a melhor separação entre o pêndulo e o mecanismo do relógio. O pêndulo é instalado dentro da caixa à prova de vento fechada sob a sala do relógio. Tem 13 pés (4,0 m) de comprimento, pesa 660 libras (300 kg), é suspenso em tira de aço para molas de 1⁄64 polegadas (0,40 mm) de espessura e bate a cada 2 segundos. O mecanismo de relógio em sala abaixo pesa cinco toneladas. No topo do pêndulo está uma pequena pilha de moedas antigas; estes são para ajustar a hora do relógio. Adicionar uma moeda tem o efeito de levantar minuciosamente a posição do centro de massa do pêndulo, reduzindo o comprimento efetivo da haste do pêndulo e, portanto, aumentando a taxa de oscilação do pêndulo. Adicionar ou remover um centavo mudará a velocidade do relógio em 0,4 segundos por dia. O relógio tem corda manual, levando cerca de 1,5 horas três vezes por semana. Em 10 de maio de 1941, um bombardeio alemão danificou duas faces do relógio e seções do telhado da torre e destruiu a Câmara dos Comuns. O arquiteto Sir Giles Gilbert Scott (1880-1960) projetou um novo bloco de cinco andares. Dois andares são ocupados pela câmara usada pela primeira vez em 26 de outubro de 1950. 

       O relógio funcionou com precisão e soou durante toda a Blitz. Antes de 1878 o relógio parou pela primeira vez em sua história, “devido a uma forte queda de neve” nos ponteiros de um relógio. Entre 21 de agosto de 1877 e janeiro de 1878 o relógio foi parado por três semanas para permitir que a torre e o mecanismo fossem limpos e reparados. A velha roda de escape foi substituída. A tarefa de descrever os nexos do agir comunicativo não consiste simplesmente em explanação o mais precisa possível do sentido das exteriorizações simbólicas que compõem a sequência observada? Certamente precisamos distinguir entre as realizações interpretativas de um observador que tenha a intenção de entender o sentido de uma exteriorização simbólica, de um lado, e as realizações interpretativas dos participantes da interação, de outro, os quais coordenam suas ações socialmente por meio do mecanismo de entendimento. Diversamente dos que têm envolvimento direto, o intérprete não está empenhado em chegar a uma interpretação passível de consenso, para que possa conciliar seus planos de ação com os dos outros atores. Mas talvez as realizações interpretativas de observador e participante se distingam somente em sua função e não em sua estrutura. Jürgen Habermas, um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt (cf. Jay, 2008), sustenta a seguinte tese acadêmica: ações comunicativas não podem ser interpretadas de outro modo senão de um modo racional. A sociologia tem de procurar um acesso compreensivo a seu campo objetal porque encontra nele processos de entendimento pelos quais e nos quais o campo objetal já se havia constituído de antemão, antes de qualquer intervenção teorética.                         


            O campo de objetos das Ciências Sociais abrange tudo a que se a descrição “parte constituinte de sua vida”. O que significa essa expressão pode ser aclarado intuitivamente por meios de remissões aos objetos simbólicos que criamos ao falar e agir: a começar por exteriorizações imediatas, como atos da fala, atividades voltadas a um fim, cooperações, passando por sedimentos dessas exteriorizações, como textos, transmissões orais, documentos, obras de arte, teorias, objetos da cultura material, bens, técnicas, etc., até construtos criados por via indireta, aptos a organizar-se, que se estabilizam por si mesmos tais como instituições, sistemas sociais e estruturas de personalidades. Falar e agir são conceitos fundamentais inexplicados, aos quais recorremos quando queremos aclarar, mesmo de maneira provisória, o pertencer a um mundo da vida sociocultural, o ser-parte de um mundo como esse. O problema do “compreender” nas ciências humanas e sociais ganhou importância metodológica sobretudo porque o cientista não consegue acesso à realidade simbolicamente pré-estruturada somente por meio da observação, e porque a compreensão de sentido não se deixa controlar metodicamente da mesma maneira que a observação em experimentos científicos. O cientista social não tem acesso diverso ao mundo a vida do que tem o leigo em ciência sociais. De certa maneira, ele já tem de fazer parte do mundo da via cujas partes constituintes pretende descrever e explicar.   

Nas ciências humanas e sociais, segundo Habermas (2012: 202), sem temor a erro, os procedimentos de interpretação racional contam com uma reputação questionável, apenas crítica. Originalmente no âmbito filosófico a crítica ao platonismo modelar vinculado às ciências econômicas demonstra que alguns intérpretes contestam o teor empírico e a fertilidade elucidativa dos modelos racionais de decisão; restrições às abordagens cognitivistas da ética filosófica e reparos à crítica da ideologia formada principalmente na tradição hegeliano-marxista revelam que outros, por sua vez, duvidam da possibilidade de uma fundamentação prático-moral de normas coercitivas de ação social e da compensação entre interesses particulares e interesses passíveis de generalização; e a difundida crítica à cientificidade da psicanálise revela que muitos já consideram problemática a concepção do inconsciente e o conceito do significado duplo e potencialmente manifesto, que se considera próprio às exteriorizações de vivências. São restrições que se baseiam em assunções fundamentais empiristas questionáveis. Ações comunicativas sempre exigem uma interpretação que seja racional desde o início. No agir comunicativo o ponto de partida da interação torna-se dependente de que os envolvidos tenham sido capazes de acordo sobre um julgamento intersubjetivamente válido de suas referências ao mundo.   Segundo esse modelo de ação, uma interação só pode lograr êxito à medida em que os envolvidos cheguem a um consenso uns com os outros; e esse consenso, por sua vez, depende de posicionamentos do tipo sim/não em face de preensões potencialmente baseadas em razões.

            Black Bag tem como representação social um filme de suspense e espionagem norte-americano de 2025, dirigido por Steven Soderbergh e escrito por David Koepp, o nono roteirista mais bem sucedido de todos os tempos em termos de bilheteria nos Estados Unidos, com um ganho comercial total de 2,3 bilhões de dólares. Soderbergh também foi, eventualmente, freelance como editor de filmes. Tornou-se famoso por executar várias funções policompetentes, segundo E. Morin, dentro de um mesmo filme, como direção de fotografia, edição, direção e roteiro. Writers Guild of America (WGA) é um esforço conjunto de dois diferentes sindicatos dos Estados Unidos que representam os roteiristas da televisão e cinema: O Writers Guild of America, East com sede em Nova Iorque e o Writers Guild of America, West com sede em Los Angeles. Como a WGA proíbe que o cineasta exerça múltiplas funções dentro de um filme, ele assina sua obra sob diferentes pseudônimos. É estrelado por Cate Blanchett, Michael Fassbender, Marisa Abela, Tom Burke, Naomie Harris, Regé-Jean Page e Pierce Brosnan. No filme, o oficial de inteligência britânico George Woodhouse (Fassbender) é “designado para investigar uma lista de suspeitos de traição, um dos quais é sua esposa, Kathryn (Blanchett)”. O filme foi anunciado em janeiro de 2024, após a confirmação das participações de Soderbergh, Blanchett e Fassbender. O restante do elenco foi formado em março e as filmagens começaram em maio, com filmagens em Londres e no Pinewood Studios. Black Bag foi lançado nos cinemas primeiro na França em 12 de março de 2025, pela Universal Pictures, e nos Estados Unidos da América sendo dois dias depois, pela Focus Features. Recebeu críticas positivas e arrecadou comercialmente US$ 43,4 milhões em todo o mundo.

      Desnecessário dizer que o auge da popularidade dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da chamada Guerra Fria se misturaram ao desejo notável do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense. O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa época. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a série Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton, nascido em Marylebone, Londres, em 18 de fevereiro de 1929, é um escritor britânico, de história, culinária e romances. Seu pai era um motorista e mecânico, e sua mãe era uma cozinheira. Depois de deixar a escola, trabalhou como balconista de trem, antes de executar seu serviço nacional, passou como fotógrafo especial Investigation Branch (ramo investigativo) da Força Aérea Real. Após a alta da RAF, ele estudou na Escola de St. Martin of Art, em Londres, em 1949, e em 1952 ganhou uma bolsa de estudos para o Royal College of Art, graduando-se em 1955. Sociologicamente a chamada Guerra Fria representa a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, compreendendo o período entre o final da 2ª guerra Mundial (1940-1945) e a dissolução da União Soviética correu em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a Independência das antigas repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

A conjuntura anterior representou um conflito extraordinário de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações, no plano das relações políticas e econômicas e suas zonas conflitantes de influência político-militar. É chamada guerra “fria” porque não houve guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de armas nucleares foi o objetivo central durante a primeira metade da chamada “Guerra Fria”, estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativada nos anos 1980 com o projeto do presidente dos Ronald Reagan chamado de “Guerra nas Estrelas”. Ronald Wilson Reagan foi um ator e político norte-americano, o 40.º presidente dos Estados Unidos e o 33º governador da Califórnia. Nascido e criado em pequenas cidades de Illinois, formou-se em economia e sociologia no Eureka College e em seguida trabalhou como radialista esportivo. A corrida espacial foi um dos episódios que marcaram a segunda metade do século XX e foi resultado direto da Guerra Fria. Ocorrida especificamente entre os anos de 1957 e 1975, a corrida espacial ficou caracterizada pela intensa exploração no espaço realizada por americanos e soviéticos. Um dos episódios geopolíticos de maior relevância da corrida espacial foi a estratégia global ocorrida com a chegada do homem à Lua. É neste âmbito de transformações sociais e políticas globais polarizadas que emerge na esfera política o Socialisme ou Barbarie representando um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem de uma frase da economista marxista e dialética de Rosa Luxemburgo usada em um ensaio de 1916, The Junius Pamphlet.             

O funcionário se prepara para uma carreira por concurso público, o que não impede que ocorra por determinado tempo a vigilância hierárquica para o cargo no serviço público. Foi esse tipo específico de poder que Michel Foucault chamou de “disciplina” ou “poder disciplinar”. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestra-lo. O que lhe interessa não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controla-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. É um objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos sociais de contrapoder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir expressivamente a sua força política. Situemos as suas características básicas. 

Em primeiro lugar, a disciplina é um tipo de organização do espaço. É uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. Isola praticamente em um espaço fechado, esquadrinhado, hierarquizado, capaz de desempenhar funções diferentes segundo o objetivo específico que deles se exige. Mas, como relações de poder disciplinar não necessitam de espaço fechado para se realizar, é essa sua característica menos importante. Em segundo lugar, e mais fundamentalmente, a disciplina é um controle do tempo. Isto é, ela estabelece uma sujeição do corpo ao tempo, com o objetivo de produzir o máximo de rapidez e o máximo de eficácia. Em terceiro lugar, a vigilância é um dos seus principais instrumentos de controle. Não uma vigilância que reconhecidamente se exerce de modo fragmentar e descontínuo; mas que é ou precisa ser vista pelos indivíduos que a ela estão expostos como forma contínua, perpétua, permanente; que não tenha limites, penetre nos lugares mais recônditos, esteja presente em toda extensão do espaço. Olhar invisível que permite impregnar quem é vigiado de tal modo que este adquira de si mesmo a visão panóptica de quem o olha. A disciplina implica um registro contínuo de conhecimento. O olhar que observa para controlar não é o mesmo que transfere as informações para os pontos mais altos da hierarquia do poder? Seu objetivo econômico e político é tornar o homem útil e dócil. A grande importância estratégica que as relações de poder disciplinar desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX, vem do fato delas não serem negativas.

Mas positivas, quando tiramos desses termos qualquer juízo de valor moral ou político e pensarmos unicamente na tecnologia empregada. É então, que, segundo Foucault, surge uma das teses fundamentais da genealogia: “o poder é produtor de individualidade”. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. Atuando sobre uma massa confusa, desordenada e desordeira, o esquadrinhamento disciplinar faz nascer uma multiplicidade ordenada no seio da qual o indivíduo emerge como alvo do poder. O nascimento da prisão em fins do século XVIII, não representou uma massificação com relação ao modo como anteriormente se era encarcerado. O nascimento do hospício não destruiu a especificidade da loucura. É o hospício, ao contrário, que produz o louco como doente mental. Um personagem individualizado a partir da instauração de relações disciplinares. E antes da constituição das ciências humanas, no século XIX, a organização das paróquias, a institucionalização do exame de consciência e da direção espiritual e a reorganização do sacramento da confissão, que aparecem como importantes dispositivos de individualização. Em suma, o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importes efeitos. O objetivo é neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações reais ou imaginárias de suas condições particulares de existência, instalando-se na neutralidade objetiva no âmbito do universal e da ideologia originalmente e um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições reais de existência.

Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios do saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria a sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise teórica é que saber e poder se implicam mutuamente; não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo comparativamente falando, que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. 

A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e intelectual específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. 

            Historicamente o gênero de filmes de espionagem começou na Era do Cinema Mudo, com a paranoia da literatura de invasão e o início da 1ª grande guerra (1914-1918). Esses medos produziram o britânico The German Spy Peril, de 1914, concentrado em uma conspiração para explodir o Parlamento, e o OHMS, de 1913, que significa “Our Helpless Millions Saved” (Nossos Milhões Desamparados Salvos), bem como On His Majesty`s Service e apresentando pela primeira vez uma personagem feminina forte que ajuda o herói). Em 1928, Fritz Lang dirigiu o filme Espiões, que continha muitos tropos que se tornariam populares em dramas de espionagem posteriores, incluindo quartéis-generais secretos, um agente reconhecido por um número e a bela agente estrangeira que se apaixona pelo herói. Os filmes de Dr. Mabuse de Lang, também contêm elementos de thrillers de espionagem, embora o personagem central seja “um gênio do crime interessado apenas em espionagem para fins lucrativos”. Além disso, vários filmes norte-americanos de Lang, como “Os Carrascos Também Morrem” abordam espiões durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Por outro lado, Alfred Hitchcock contribuiu significativamente para a popularização do cinema de espionagem na década de 1930 com seus influentes thrillers “O Homem Que Sabia Demais” (1934), “Os 39 Degraus” (1935), “Sabotagem” (1937) e “A Dama Oculta” (1938). Estes filmes frequentemente envolviam civis inocentes envolvidos em conspirações internacionais ou redes de sabotadores no front doméstico, como em “Sabotador” (1942).

Alguns, no entanto, tratavam de espiões profissionais, como em “O Agente Secreto” (1936), de Hitchcock, baseado nas histórias de Ashenden, de W. Somerset Maugham, ou na série “Mr. Moto”, baseada nos livros de John P. Marquand. Nas décadas de 1940 e início de 1950, diversos filmes foram produzidos sobre as façanhas de agentes aliados na Europa ocupada, o que poderia ser considerado um subgênero. 13 Rue Madeleine e OSS eram histórias fictícias sobre agentes americanos na França ocupada pelos alemães. Houve vários filmes baseados em histórias reais de agentes britânicos do Serviço de Energia Atômica (S.O.E.), incluindo Odette e Carve Her Name With Pride. Um exemplo ficcional mais recente é Charlotte Gray – Paixão sem Fronteiras (2001), baseado no romance de Sebastian Faulks. Também durante o período, houve muitos filmes de detetive, The Thin Man Goes Home e Charlie Chan em Serviço Secreto, por exemplo, em que o mistério envolvia a estratégia de quem provavelmente roubou os projetos secretos ou quem sequestrou o famoso cientista. Em meados da década de 1950, Alfred Hitchcock retornou ao gênero de espionagem com O Homem Que Sabia Demais (1956), representando um remake de seu filme de 1934. Ele seguiu em 1959 com Intriga Internacional (1959), amplamente considerado uma das obras mais influentes do gênero de espionagem. O auge da popularidade comercial dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da Guerra Fria se misturaram ao desejo do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense.

O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa conjuntura histórica nacionalista. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a serie Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton. Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com Sean Connery como a estrela. Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. A televisão também entrou em ação com séries como The Man from UNCLE e I Spy nos EUA, e Danger Man e The Avengers, na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até os dias atuais com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo renascimento no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com o extraordinário Sean Connery (1930-2020) como a estrela (cf. Morin, 1993). Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria “um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960”. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint (1966) estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. É um personagem de ficção criado pelo escritor norte-americano Donald Hamilton em 1960. Um agente secreto especializado em contraespionagem, diferente do espião relativamente comum, para ser diferenciado de James Bond, criado em 1953 por Ian Fleming, por seu autor, apareceu em 27 livros escritos entre 1960 e 1993. A televisão também entrou em ação com séries competitivamente no mercado como The Man from UNCLE e I Spy nos Estados Unidos da América, e Danger Man e The Avengers na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até hoje com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo “renascimento” no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e o específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. 

A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade analítica de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. É preciso repensar os problemas políticos dos intelectuais não mais em termos exclusivos da relação entre ciência e ideologia, mas sem abandoná-la, tendo em vista que a universidade pública é um domínio de casta, “a forma natural pela qual costumam socializarem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com os membros de comunidades exteriores e o relacionamento social. Essa situação de casta é parte do fenômeno de povos párias e se encontra em todo o mundo” (cf. Weber, 1982), a análise pode ser religada na medida em que a questão da profissionalização do intelectual, da divisão entre trabalho intelectual, na esfera pública pode ser retomada. A verdade está ligada a sistemas de poder que a produzem e apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e a reproduzem. Ipso facto, o problema político essencial para o intelectual não é apenas criticar os conteúdos ideológicos que privilegiam grupos no sistema educacional que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por métodos de inclusão democráticos. O que está em jogo num sistema de castas, que tomou o poder na universidade pública  nos últimos 20 anos, é se podemos constituir uma nova arena política da verdade. Mas não se trata de libertar a verdade do sistema de poder, mas de desvincular o poder da verdade das formas com as quais ele legitima suas formas de saber. A genealogia exige a minúcia do saber, evidenciando um grande número de materiais acumulados. 

Na universidade estes materiais se esgueiram como sombras. Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca do que lhe é originário, mas ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos projetos interrompidos pelos predecessores, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro, num trabalho de escavação incessante no campus, nos arquivos, sem deixar-lhes o tempo emascular o labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob a guarda. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas que dão conta dos atavismos e das hereditariedades. A história, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos, suas grandes agitações febris como suas síncopes, é o próprio corpo do devir. É preciso ter um espírito metafísico para encontrar na alma a idealidade distinta. A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Bastam para tanto que façamos a análise genealógica em sua atenção “desinteressada”, em sua ligação à objetividade.

Longe de ser uma categoria de semelhança, tal origem permite ordenar, para coloca-las a parte, todas as marcas diferentes. O genealogista parte em busca do começo, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissocia o Eu e fazer pulular lugares e recantos de sua síntese vazia, entre acontecimentos aparentemente perdidos. A proveniência permite também reencontrar sob o aspecto único de um caráter ou de um conceito a proliferação dos acontecimentos através dos quais eles se formaram. Metodologicamente a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando-o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios, os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente. Na universidade basta o que ficou da gestão passada para compreendermos o presente. Na vã política em geral e particularmente na gestão acadêmica o passado nos condena.

A cena pública da verdade é sempre a mesma em que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença de valores; classes dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade, homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma relação, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. Universo de regras que não é destinado a adoçar, mas ao contrário a satisfazer a violência. A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. A humanidade não progride lenta de combate em combate, ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim num processo ad infinitum de dominação em dominação. É justamente a regra que permite que seja feita a violência à violência e que uma outra dominação possa dobrar aqueles que dominam. 

Em si mesmas as regras são vazias, violentas, não finalizadas; elas são feitas para servir a isto ou aquilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns e outros. O grande jogo da história será, segundo Foucault, de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para perverte-las, utilizá-las ao inverso e volta-las contra aqueles  que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. As diferenças emergenciais que se podem demarcar não são figuras sucessivas de uma mesma significação; são efeitos de substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas. Se interpretar eras colocar lentamente em foco uma significação oculta na origem, apenas a metafísica poderia interpretar o devir da humanidade. Mas se interpretar é se apoderar por violência ou sub-repção, de um sistema de regras que não tem em si significado essencial, e lhe impor uma direção, dobrá-lo a uma nova vontade, fazê-lo entrar noutro jogo e submetê-lo a novas regras, então o devir da humanidade é uma série de interpretações. E a genealogia dever ser a sua história: história das morais, dos ideais (uma universidade de verdade), dos conceitos metafísicos, história do conceito de liberdade ou da vida ascética, como emergências de interpretações diferentes. Trata-se de fazê-las aparecer como acontecimentos reais no teatro dos procedimentos. O genealogista sabe o que é necessário pensar. 

Não que ele a rechace por espírito de seriedade; ele quer leva-la ao extremo: porque quer por em cena um grande carnaval (cf. DaMatta, 1981) do tempo em que as máscaras reapareçam incessantemente. Não queremos perder de vista que a disciplina é, antes de tudo, a análise do espaço. É a individualização pelo espaço, a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. A disciplina exerce seu controle, não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. No século XVII, nas oficinas de tipo corporativo, o que se exigia do companheiro ou do mestre era que fabricasse um produto com determinadas qualidades. A maneira de fabricá-lo dependia da transmissão de geração em geração. Do mesmo modo, se ensinava o soldado a lutar, a ser mais forte do que o adversário na luta individual da batalha. A partir do século XVIII, se desenvolve uma arte do corpo humano. Observa-se de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. Nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do contramestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser mais rapidamente realizado e com gestos humanos melhor adaptados. O famoso Regulamento da Infantaria Prussiana, que assegurou as vitórias de Frederico da Prússia (1712-1786), consiste em mecanismos de gestão disciplinar dos corpos. A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. 

Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que o que fizeram é conforme à regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua “pirâmide de olhares”. Mas a disciplina implica um registro contínuo. Anotação do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar escape a esse saber. No sistema clássico o exercício do poder era confuso, global e descontínuo, do soberano sobre grupos constituídos por famílias, cidades, paróquias, isto é, por unidades globais, e não um poder contínuo atuando sobre o indivíduo. A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por isso, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento para o exercício do poder. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um presunçoso método geral. 

Não se trata de fazer aqui a história das diversas instituições disciplinares no que podem ter cada uma de singular: 1) ambas, neste caso, são instituições públicas gerenciadas por uma casta no poder (cf. Weber, 1982; Dumont, 1992); 2) Existe uma série de exemplos de algumas das técnicas essenciais empregadas que, de uma a outra, se generalizaram mais facilmente. Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, são dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza (assédio moral), são eles, entretanto que levaram à mutação do regime punitivo contemporâneo; 3) Descrevê-los metodicamente, nominalmente, implicará a demora sobre o detalhe da corrupção do pensamento e a atenção às minúcias: sob as mínimas figuras, procurar não um sentido, mas uma precaução; recoloca-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática; 4) Astúcias, não tanto de grande razão que trabalha até durante o sono, no sentido analítico freudiano, e dá coerência ao insignificante quando da atenta malevolência que de tudo alimenta. Nunca é demais repetir, a disciplina é uma anatomia política do detalhe. O que nos interessa, sociologicamente, é a racionalização utilitária do detalhe na contabilidade moral e no controle político. A regra das localizações funcionais vai pouco a pouco codificar um espaço que a arquitetura deixava livre e pronto para vários usos.

Bibliografia Geral Consultada.

CASTORIADIS, Cornelius, L`Institution Imaginaire de la Société. Paris: Éditions Du Seuil, 1975; GALLIE, Walter Bryce, Os Filósofos da Paz e da Guerra: Kant, Clausewitz, Marx, Engels e Tolstoi. Rio de Janeiro: Editora Artenova; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979; HORKHEIMER, Max, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; BERNSTEIN, Richard; GIDDENS, Anthony; RORTY, Richard, “et al”, Habermas y la Modernidad. Madrid: Catedra Ediciones, 1994; GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991;  DUMONT, Louis, Homo Hierarchicus. O Sistema de Castas e suas Implicações. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992; WEBER, Max, Parlamento e Governo na Alemanha Reordenada: Crítica Política da Burocracia e da Natureza dos Partidos. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1993; GOTTRAUX, Philippe, Socialisme ou Barbarie, un Engagement Politique et Intellectuel dans la France de l`après Guerre. Suisse: Editions Payot Lausanne, 1997; KEHL, Maria Rita, Ressentimento. São Paulo: Editor Casa do Psicólogo, 2007; JAY, Martin, A Imaginação Dialética: História da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisas Sociais, 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2008; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; Idem, Nietzsche, Marx, Freud. Buenos Aires: Ediciones Anagrama, 2010; Idem, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; FERREIRA, Tiago Alfredo da Silva, Entendimento, Conhecimento e Autonomia: Virtudes Intelectuais e o Objetivo do Ensino de Ciências. Tese de Doutorado em Ensino, História e Filosofia das Ciências. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. Racionalidade da Ação e Racionalização Social. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012; Idem, A Nova Obscuridade: Pequenos Escritos Políticos V. 1ª edição. São Paulo: Editora Unesp, 2015; BENZAQUEM, Guilherme Figueredo, “Quando o Indivíduo se Transforma: Reflexões a partir de Mead, Goffman e Garfinkel”. In: Ponto e Vírgula. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nº 24, 2º semestre de 2018; pp. 97-112; Artigo: “Revisão da Bolsa Preta: O Elegante Thriller de Espião de Steven Soderbergh É Um Bom Tempo Inteligente e Escaldante”. Disponível em: https://universocinema.com.br/7/03/2025; entre outros.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Sobre Celebridade, Poder Social & Intelligentsia Pós-Burocrática.

 Eles têm uma existência moral que depende de sua opinião recíproca”. Antoine Lilti

                         

        Antoine Lilti, nascido em 1972, é um historiador francês especializado na Era Moderna e no Iluminismo. É diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) desde 2011. Formou-se na École Normale Supérieure, que frequentou entre 1991 e 1995. Foi aprovado na agregação em história em 1994. Defendeu sua dissertação de mestrado em história na Universidade de Paris 1 em 1993 sob a orientação de Antoine Prost, intitulada: Le PSU et la Gauche (1960-1968). Em 2003, Antoine Lilti defendeu uma tese em história na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne intitulada: “O Mundo dos Salões: Sociabilidade Mundana em Paris na Segunda Metade do século XVIII” sob a direção de Daniel Roche. Entre 2005 e 2011 lecionou na École Normale Supérieure como conferencista . Ele então se tornou diretor de estudos na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Desde 2006, é membro do conselho editorial da revista Annales Histoire, Sciences sociales , da qual foi editor entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011. Dirigiu a redação dos Annales entre 2006 e 2011. Seu trabalho mais recente enfoca a recepção atual do período do Iluminismo e seu legado no mundo político de hoje. As primeiras obras de Antoine Lilti centraram-se nos salões do século XVIII, verdadeiras instituições, em Paris, das elites intelectuais.

Antoine Lilti os apresenta na encruzilhada da sociedade da corte e da vida intelectual, ao mesmo tempo em que enfatiza seu papel fundamental no início da Revolução Francesa . Por exemplo, o salão Choiseul em Chanteloup é objeto, no Le Monde des Salons, de um estudo aprofundado de Lilti. Este é descrito como um “nó onde se cruzam os fluxos de informação do tribunal, do mundo literário, dos cafés e dos jornalistas” (Éric Saunier) 10e um pool de oponentes e oposições. Além disso, Lilti quer contradizer uma visão excessivamente idealizada – às vezes tingida de nostalgia – de salões onde estes são considerados apenas pelo seu aspecto filosófico e intelectual. Ele enfatiza as dimensões mundanas e triviais (jogos, refeições, shows 13 ): Roger Chartier explica que Antoine Lilti, os salões “não são tanto lugares para exercícios filosóficos, mas oportunidades para compartilhar os prazeres e jogos do mundanismo”. Seu livro Le Monde des salons (2005) foi traduzido para o inglês por Lydia Cochrane em 2015, sob o título “O mundo dos salões: sociabilidade e mundanismo na Paris do século XVIII”, na imprensa da Oxford Universidade. Ainda ligada ao ideário do Iluminismo e à clássica Revolução Francesa, Lilti estudou, em Public Figures (2014), o nascimento e a relação de poder histórico do conceito moderno de celebridade que tem como primícias no século XVIII. Neste livro, o historiador se propõe a estudar “as figuras públicas que desde a década de 1750 até cerca de 1850 marcaram a opinião europeia e americana”.  

Analisa as celebridades de Rousseau transportado pelo sucesso de La Nouvelle Héloïse, de Voltaire (Lilti retorna à sua “coroação” na Comédie-Française em março de 1778) do comediante Janot. Lilti explica que alguns autores contemporâneos à Voltaire e Janot lamentaram que um filósofo e um ator de boulevard pudessem ter uma celebridade equivalente. Assim, a fama é vista “como uma força que 'nivela', que apaga as distinções legítimas entre esferas de atividade”. Uma ligação com sua obra sobre o mundo dos salões seria a da distinção entre as noções de público e privado, e do comentário à obra do teórico Jürgen Habermas sobre esses conceitos.Na introdução do livro, Antoine Lilti propõe diferenciar entre glória, reputação e celebridade. As duas primeiras são as características do tradicional latim fama. Enquanto o terceiro é mais moderno. Ele detalha que a glória se refere aos heróis antigos e à comemoração dos gloriosos mortos e que a reputação é “em grande parte independente” da celebridade. Para descrever a celebridade, Lilti cita uma velha fórmula: “uma pessoa famosa é conhecida por pessoas que não têm motivos para opinar sobre ela”. A celebridade é público mais amplo, variado, contemporâneo à pessoa. Esse público costuma estar ávido por detalhes sobre a vida privada dessas celebridades e busca construir um vínculo afetivo com elas. Lilti se propõe a compreender a notoriedade do ator François-Joseph Talma (1763-1826) com esta chave de leitura. Mas também as figuras David Garrick e Sarah Siddons na Inglaterra, ou mesmo Miss Clairon na França.                                 


Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma  distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos mesmos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso a elas exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos.  

Que os rostos dos atores sociais célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem. Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em close ou com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes, outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação era sobre social e cultural. Nos grandes centros urbanos, os retratos eram cada vez mais visíveis, em todas as formas de suporte – dos retratos pintados, expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana que se tornaram na moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos comerciantes.  

Mas a celebridade não se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII. O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes, a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam, a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou no século das Luzes. Quando Kant, em O Que é o Iluminismo?  descreve a Auflarklärung como um processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se aos leitores de jornais.

E foi, em um deles, nomeadamente Berlinische Monatsshcrift, que esse texto famoso apareceu em 1784, no quadro de um debate sobre as questões do casamento religioso. Alguns anos mais tarde, Hegel poderá chegar a escrever que a leitura do jornal da manhã tornou-se “a prece do homem moderno”. Entretanto, ao lado dos homens eruditos e políticos que relatam as notícias diplomáticas e políticas, recenseiam as novidades científicas e literárias ou acolhem debates intelectuais, existem, no século XVIII, outros jornais, cada vez mais numerosos, muitos deles mais interessados na atualidade da alta sociedade e na cultural, no sentido amplo. Eles oferecem a seus leitores as notícias dos espetáculos e dos lançamentos literários, dos principais acontecimentos literários e políticos, mas também os faits divers mais notórios e, cada vez mais, anedotas sobre a vida, pública e privada, das pessoas célebres. Por mais que esses periódicos tenham chamado menos a atenção dos historiadores, eles contribuíram de maneira decisiva para moldar a consciência das camadas médias urbanas de que elas constituíram um público. A atualidade era alimentada tanto por faits divers e escândalos quanto por tratados e batalhas. O conjunto dessas transformações marca a entrada em uma nova era midiática, que, espirituosamente, um historiador propôs chamar de Print 2.0, para indicar que se trata de uma verdadeira guinada na história do impresso, de seus usos e de seus efeitos. A comunicação mediatizada, que difunde textos e imagens para um público indefinido, potencialmente ilimitado, torna-se uma condição ordinária da comunicação e concorre com as formas tradicionais fundadas na oralidade, na copresença e na reciprocidade.

As próprias condições da celebridade são profundamente transformadas por ela: as cadeias da reputação estendem-se, e ser confrontado com o nome ou a imagem de pessoas que jamais se encontrará em carne e osso torna-se cada vez mais frequente. A notoriedade de alguns indivíduos muito conhecidos emancipa-se dos círculos tradicionais em que circulava o reconhecimento (a corte, os salões, os espectadores de teatro, as academias e as redes eruditas) e, projeta no espaço público um conjunto de representações – de discursos e de imagens – destinadas a um público indefinido e anônimo de leitores e de consumidores, de curiosos e de admiradores. Essa circulação potencialmente ilimitada e incontrolável de representações os constitui como figuras públicas. Mas a questão é: onde se viam retratos de pessoas vivas, antes do século XVIII? Nas moedas em que figurava o rosto do soberano; nos palácios, em que os cortesãos podiam admirar os retratos do rei; nos palacetes aristocráticos em que os donos da casa se faziam voluntariamente retratar ao lado a galeria de seus ancestrais. Tratava-se, antes de tudo, de uma representação de poder, político ou social. O retrato do rei era, um simulacro do poder, e que tinha uma eficácia própria para representar o poder e de ser, de algum modo, o próprio poder, em sua força e em seu prestígio, o mesmo podendo ser dito da força sociopolítica que “emanava” dos retratos aristocráticos.

Seria possível objetar que havia, no século XVII, retratos de alguns escritores, como Corneille ou Molière. Inversamente, pode-se lembrar que não existe nenhum retrato, em vida, de Rabelais. O reinado de Luís XIV já marcara uma clara ascensão do retrato, com a criação da Academia de pintura e de escultura, na qual os retratistas eram admitidos, e o sucesso de Pierre Mignard e, depois, de Hyacinthe Rigaud. No entanto, os retratos permaneceriam essencialmente ligados ao universo da corte e da alta nobreza, na qual tinham uma função política e sentimental. Dificilmente deixava-se que fossem copiados. Até o início do século XVIII, a existência de retratos sinalizava o acesso de algumas raras figuras culturais a um estatuto social excepcional, sobretudo no quadro de instituições a acadêmicas. Eles circulavam unicamente em espaços restritos e estavam quase sempre integrados em uma relação interpessoal. Possuir o retrato de alguém era uma honra calcada na dignidade do modelo, mas também na exibição de um laço direto, familiar ou de amizade. Quando Samuel Sorbière, que admirava Thomas Hobbes e muito contribuiu para a difusão de sua obra na Europa, quis obter seu retrato, teve que lhe pedir autorização pessoalmente para mandar copiar um retrato já existente, que pertencia a Thomas de Martel: “Peço-lhe do modo mais sério do mundo, certo de que examinareis com benevolência meu pedido e desconsiderará obrigatoriamente minha ousadia”. Em 1658, escreve-lhe que seu maior prazer é poder falar dele e de sua obra com seus amigos e contemplar “o retrato na minha coleção”. O retrato substitui o amigo ausente, inscreve-se em um regime de familiaridade, de afeição e de admiração. Sua presença honra Sorbière, pois demonstra que ele mantém laços diretos de amizade com o modelo. Em 1661, Hobbes aceita posar no ateliê de Samuel Cooper para seu grande amigo John Aubrey, afim de agradecer-lhe por tê-lo permitido cair nas graças de Charles II.  

             A clericatura significa na origem o Estado eclesiástico, mas, já no século XV, o clérigo tornou-se a pessoa instruída, o letrado, o sábio e, embora dentro da Igreja, ele se diferencia do padre. Depois, a maior parte do saber moderno escapou à clericatura da Igreja e o termo clérico laicizou-se e profissionalizou-se. À antiga clericatura, sucedeu a intelligentsia, aos clérigos, sucederam os intelectuais. O termo intelligentsia vem-nos da Rússia do século XIX e designa o conjunto de pessoas instruídas, cultivadas, por oposição à massa rural ou urbana que não teve acesso à escola, ou mesmo à escrita. Mais intensivo que o termo “intelectual”, da teoria geral de Antônio Gramsci especifica as duas esferas de ação social, de divisão do trabalho intelectual na luta política de organização da cultura entre letrado (abstrato) da classe dominante e orgânico (concreto) da classe subalterna, para a análise de Edgar Morin, a intelligentsia engloba não apenas letrados e professores, mas, também, funcionários e burgueses educados, abrangendo, assim, um grande número de categorias sociais. Ela compreende as profissões que produzem ou reproduzem saber (professores, pesquisadores), ideias (filósofos), formas (artistas, arquitetos, designers), ou ainda, cuja qualidade do trabalho profissional depende do manejo das ideias (advogados), do saber (experts) ou da concepção (engenheiros). Morin define a intelligentsia em função do caráter intelectual/espiritual dos produtos da atividade social de seus membros (saber, ideias, coisas do espírito) e não pela atividade intelectual/espiritual em si mesma, de que são desprovidos muitos membros da intelligentsia, como práticas manuais, como o artesanato, a caça, a pesca, que demandam inteligência constantemente desperta, de que muitos são desprovidos.  

Isto quer dizer o seguinte: a intelligentsia contemporânea engloba categorias muito diferentes. Ela avoluma-se e diversifica-se com o desenvolvimento, em paralelo à intelligentsia humanista, de uma intelligentsia científica e de uma intelligentsia tecnicista. Mais do que isso, os intelectuais são membros da intelligentsia, mas os membros da intelligentsia não são necessariamente intelectuais. Escritores, artistas, advogados, pesquisadores não são, enquanto tais, “intelectuais”. Para que se tornem intelectuais é necessário que, a partir, mas para além da sua arte e da sua ciência, auto-instituam-se como tais, isto é, autorizem-se a tratar dos problemas gerais/fundamentais de importância moralmente, socialmente, politicamente; assumam-se assim general problems setters/solvers. A noção de intelectual não pode reduzir-se a uma categoria socioprofissional; ao contrário, ela perpassa as categorias: muitos escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados consideram-se e são considerados exclusivamente como escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados; outros, consideram-se e são considerados como intelectuais porque intervêm na vida pública, seja pelo ensaio, pelo artigo de jornal, seja em função de uma tribuna política. Roland Barthes, escritor, crítico literário e filósofo dizia que o escritor (écrivain) escreve para escrever, e que o escritor-intelectual (écrivant) escreve para exprimir propriamente ideias. Os que são écrivains e écrivants são ao mesmo tempo, filósofos, escritores e ensaístas, talvez possam ser considerados os mais representativos dos intelectuais, visto que a atividade social e política de intelectuais em geral, ignoram as categorias especializadas e tratam os problemas ignorados pelas categorias sociais especializadas.  

            A teoria neopragmática de Richard Rorty representa um termo filosófico recente, existente da década de 1960, sendo utilizado para denominar a filosofia que reintroduziu muitos dos conceitos do pragmatismo, sobre a verdade como objetivo de desvencilhar-se das influências dos dualismos metafísicos típicos; as distinções entre essência e acidente, aparência e realidade, sendo tal posição denominada de antiessencialista. Grande parte do que Rorty descreve em seus textos sobre a verdade desenvolve-se através de um diálogo com Donald Davidson (2002) e sua teoria semântica da verdade. Ambos estão de acordo que a noção de verdade não pode ser tida como uma correspondência, como uma representação, mas discordam em alguns pontos quanto à solução que procuram encaminhar para essa questão. Enquanto que para Davidson, os nossos conceitos podem ser verdadeiros e utilmente descrever uma realidade objetiva, para Rorty a verdade não deve ser um objetivo da reflexão filosófica, pois o objetivo da investigação é procurar evidências substantivas para nossas crenças ocidentais, e que não há nada mais que possamos fazer para firmar nossas convicções. Embora seja possível reconhecer que o universalismo liberal tenha sido um instrumento de entendimento da dissolução das diferenças, ele acredita que a associação não é forçosa, mas representação contingente.   

       O pragmatismo que contemporaneamente mais do que nunca e em diferentes variantes técnicas apresenta-se como uma forma de filosofia capaz de enfrentar os desafios próprios de nosso tempo, certamente, pode ser compreendido do ponto de vista de suas raízes, como sendo devedor, in statu nascendi, de um lado, ao pragmatismo clássico recursivo aos pensadores norte-americanos Charles Peirce, John Dewey, James, Schiller, por outro lado, às filosofias que emergiram da reviravolta pragmática do Ludwig Wittgenstein das Investigações Filosóficas. O pragmatismo que segundo Jean-Pierre Cometti (2010), é a filosofia mais solidamente enraizada na cultura norte-americana, desenvolveu-se em torno de uma filosofia do conhecimento, mas, desde o princípio, se afastou de concepções que tendem a privilegiar a busca de um fundamento no Absoluto ou de um modelo da Razão, que determina a priori as possibilidades de busca e de descoberta. Pode-se dizer que o pensamento central da metafísica, é que o conhecimento não se limita ao conhecimento da experiência, mas que é possível chegar a um conhecimento objetivo do mundo através das categorias e dos conceitos. Fundamento da verdade não é, o mundo “material empírico”, mas o “mundo do pensamento”, que apreende a estrutura inteligível do real de análise. O espírito é compreendido ao mundo em que a lógica exprime as leis que estruturam a realidade.

Richard Rorty interpreta esta postura clássica como sendo a pretensão de captar, pela mediação do conceito, a forma e o movimento da natureza e da história o que, em última instância, desembocou na ideia de que o ser humano é capaz, tanto de descobrir como reparar a injustiça da história humana. Há cerca de duzentos anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta começou a tomar conta do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos) europeu. O precedente estabelecido pelos românticos conferiu a seu pleito uma plausibilidade inicial. O papel efetivo de romances, poemas, peças teatrais, quadros, estátuas e prédios no movimento social dos últimos 150 anos deu-lhe uma plausibilidade ainda maior, obtendo legitimidade, já que as ideias adquirem  força na história. Alguns filósofos inclinaram-se ao iluminismo e continuaram a se identificar com a ciência. Eles veem a antiga luta entre a ciência e a religião, a razão e a irracionalidade, como um processo ainda em andamento que assumiu a forma de uma luta entre a razão e todas as mediações complexas intraculturais que pensam na verdade como algo constituído e não de fato encontrado. Esses filósofos consideram que a ciência é a atividade paradigmática e insistem que a ciência natural descobre a verdade, ao invés de cria-la de acordo com os instrumentos da razão. Encaram a expressão “criar a verdade” como meramente metafórica e totalmente enganosa. Pensam na perspectiva comparada entre a política e a arte como esferas de ação social em que a ideia de “verdade” fica deslocada. 

O idealismo metafísico alemão, porém, representou uma solução de compromisso pouco duradoura e insatisfatória. É que Immanuel Kant e Georg Hegel fizeram apenas concessões parciais em seu repúdio à ideia de que a verdade está “dada”. Dispusera-se a ver o mundo da ciência empírica como um mundo “fabricado” – a ver a matéria como algo construído pela mente, ou como feita de uma mente insuficientemente cônscia de seu próprio caráter mental -, mas persistiram em ver a mente, o espírito, as profundezas do eu como dotados de uma natureza intrínseca – uma natureza que se poderia conhecer por uma espécie de “superciência” não empírica, chamada de filosofia. Isso significava que apenas metade da verdade – a metade científica inferior – era produzida. A verdade superior, a verdade sobre a mente, seara da filosofia, ainda era uma questão de descoberta, não de criação. Ipso facto admitimos que Richard Rorty precisa sua tese de distinção entre a afirmação de que o mundo está dado e a de que a verdade dada, equivale a dizer, com bom senso, que a maioria das coisas no espaço e no tempo, é efeito de causas que não incluem os estados mentais humanos. Dizer que a verdade não está dada é dizer que, onde não há frases, não há verdade. E que as frases são componentes das línguas humanas, e que as línguas humanas são criações humanas. Só as descrições podem ser “verdadeiras” ou “falsas” - sem o auxílio das atividades descritivas dos seres humanos - não pode sê-lo.       

Neste âmbito peculiar da concepção de teoria e da história, assim como da filosofia, recorda-nos Edgar Morin que foi no século XVIII que se autointitularam, com o nome de “filósofos” os intelectuais modernos. São, não somente filósofos, mas também escritores e cientistas que decidem exprimir as verdades universais da Razão e combater superstições e o obscurantismo. Lutando contra a religião, retomam, no entanto, a missão dos clérigos, cujo sentido invertem e revolucionam. Quando, no século seguinte, a filosofia universitária, dividida, erudita, a palavra “filósofo” perde o significado missionário, militante, divulgador (e reduz-se à profissão de “professor de filosofia”). Ipso facto, é o termo “intelectual” que, no começo do século XX, restaurará e ampliará o senso perdido pela palavra “filósofo”. É certo que, no século XIX, os Hugo, Lamartine, Michelet, Quinet, transcendiam as categorias da literatura e da universidade e eram assim superintelectuais; mas, por isso mesmo, foram considerados como magos ou sábios. Para que sejam vistos como intelectuais, é necessário que constituam um conjunto de indivíduos, pela “massa crítica”, representativos de uma coletividade, justamente a dos intelectuais. Assim, foi necessário esperar o Eu Acuso, de Émile Zola para que o caso Dreyfus catalizasse, a partir de diferentes categorias de intelligentsia, o processo de auto-instituição dos intelectuais. J’accuse é o título do artigo redigido por Émile Zola quando ocorrido o “Affaire Dreyfus”. Publicado no L`Aurore de 13 de janeiro de 1898 sob a forma de carta ao presidente da República Francesa, Félix Faure.

Émile Zola inspirou-se num dossiê fornecido em 1896, pelo escritor Bernard Lazare. Publicado três dias após Esterhazy ter sido inocentado pelo Conselho de Guerra, o que parece acabar com toda esperança dos que contavam com uma revisão do processo que condenara Dreyfus. Nele, Zola ataca nominalmente os generais e outros oficiais responsáveis do erro judicial que levou ao processo e à condenação, e os especialistas em grafologia culpados de “relatórios mentirosos e fraudulentos”. Ele ainda acusa o exército, de uma campanha de imprensa mentirosa, bem como os dois Conselhos de Guerra. Um tendo condenado Dreyfus baseado em uma peça mantida em segredo, enquanto o segundo inocentou sabidamente um culpado. Mas, acima de tudo, ele proclama desde o início a inocência do citoyen Dreyfus: - “Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. Mes nuits seraient hantées par le spectre de l`innocent qui expie là-bas, dans la plus affreuse des tortures, un crime qu`il n`a pas commis”. Estes estabeleceram-se duas alas inimigas dos intelectuais ditos de esquerda, continuadores da missão universalista das Luzes, e a dos intelectuais ditos de direita, defensores dos valores singulares do Estado e da nação.  Edgar Morin está preparando o terreno para introduzir o que denomina “sociologia da intelligentsia e dos intelectuais” de forma previsível, como observou Karl Mannheim que nenhuma sociologia do conhecimento pode ignorar.

            No filme Mr. Holland (EUA, 1995), com direção de Stephen Herek, em 1964 o músico Richard Dreyfuss, coincidentemente como caso francês, decide começar a lecionar, para obter mais dinheiro e assim se dedicar a compor uma obra sinfônica. Inicialmente ele sente grande dificuldade em fazer com que seus alunos se interessem pela música e as coisas se complicam ainda mais quando sua mulher (Glenne Headly) dá luz a um filho, que o casal vem a descobrir mais tarde que é surdo. Para poder financiar os estudos especiais e o tratamento do filho, ele se envolve cada vez mais com a escola e seus alunos. Deixando de lado aparentemente seu sonho de tornar-se um grande compositor. Passados trinta anos lecionando no mesmo colégio, após todo este tempo uma grande recepção o aguarda. A grande lição deste professor diz respeito ao aprendizado, o saber e a compreensão do oralismo, que entende a surdez como uma deficiência e visa à integração da criança com surdez com os ouvintes. Acreditam que para a criança surda se comunicar é necessário que ela saiba de fato oralizar. Não queremos perder de vista que em nível de análise social dos motivos e ideias, o declínio da eficácia do saber e aprendizado teórico podem ser descritos como uma das contradições e perplexidade da modernidade no mundo contemporâneo, com uma nova ambivalência da razão humana. Em nível das forças sociais e políticas, o novo conflito, que até agora se encontra pouco refletido e, sobretudo pensado, principalmente em regiões fora do grande circuito de proliferação de saberes sociais.

        Isto quer dizer o seguinte: a noção de intelligentsia apresenta dificuldades de definição sociológica. É “classe” social pelo seu modo de produção original que diz respeito às coisas do espírito, mas as fronteiras dessa classe são mesmo difusas. Essa classe, em pleno crescimento no século XX, comporta esferas cada vez mais diferenciadas e cada vez menos comunicativas como ocorre na esfera humanista e a científica. A intelligentsia moderna enfrenta um crescimento e uma diferenciação internos extremamente rápidos. É também uma classe social cujas relações com as demais classes e com o poder político são ambivalentes, logo instáveis e variáveis. A maior parte dos membros da intelligentsia saem com frequência das classes superiores ou classes médias, daí uma dupla filiação virtual, à classe de origem e à própria intelligentsia. Um segundo tipo de dupla filiação aparece quando os intelectuais se dedicam ao povo, como se tornou frequente a partir do século XIX, o narodnikismo, ou “populismo russo”. Desde então, pode haver tripla filiação: à classe de origem, à classe de inserção e à classe de dedicação. É no topo que pode haver duplo ou triplo jogo de identidade social. Assim, os Aragon e os Neruda tiveram uma vida elitista de classe superior, integraram a alta intelligentsia enquanto poetas e escritores dedicaram ou acreditaram dedicar a vida ao proletariado. Enfim, o desvio no interior da intelligentsia pode parecer neurose, delírio ou decadência. Ele começa a ser admitido, ou admirado, logo que aparece como criação, inovação ou avant-garde

A própria palavra célébrité, comparativamente, não é totalmente nova e ocorre em meados do século XVIII, mas somente então ela começa a assumir o sentido que conhecemos. No século anterior, seu emprego era raro e designava exclusivamente o caráter solene de uma cerimônia oficial. Antoine Furetière, que lhe dá esta definição: “pompa, magnificência, cerimônia que torna uma ação célebre, propõe o seguinte exemplo: “A entrada dos legados faz-se com uma grande celebridade”, e acrescenta: - “Essa palavra é obsoleta”. É com esse sentido de cerimônia solene que La Bruyère a emprega: - “Ele zomba da piedade daqueles que enviam suas oferendas aos templos em dias de grande celebridade”. A ironia da formulação assenta na etimologia da palavra, que implica a ideia de um lugar muito frequentado e dá a entender que essa piedade é mais ostentatória que sincera. Em latim clássico, celebritas designa tanto a presença de inúmeras pessoas em um lugar quanto o caráter solene de uma festa à qual assiste uma multidão, portanto a ideia de afluência e de profusão. O termo, por outro lado, designa apenas raramente reputação ampliada, e unicamente na fórmula celebritas famae. Somente alguns autores muito isolados (Aulo Gélio e Boécio) tentam, tardiamente, e em vão, conferir-lhe esse sentido em uso absoluto. Na Idade Média, ela nunca possui esse sentido, com algumas raras exceções. Quando a palavra aparece em francês, ela designa, portanto, unicamente o caráter solene de uma festa. O adjetivo celeber designava em latim um lugar, um fato ou um indivíduo conhecido. Em francês, célébe assume esse sentido bem cedo, em concorrência com ilustre e fameux.  O emprego de célébrité para designar a grande notoriedade de um indivíduo aparece timidamente nos anos 1720. 

Encontra-se em uma ocorrência nas Cartas Persas, em que a palavra designa uma reputação ampliada, e unicamente na fórmula celebritas fumae. O termo aparece na pena de Pierre de Marivaux e Prosper de Crébillon, mas é ainda recente em 1751, quando Charles Duclos colaborador da Encyclopédie o emprega. Duclos tornou-se membro da Academia das Inscrições em 1739 e da Académie française em 1747, sendo nomeado secretário perpétuo. Em 1747, ambas as academias estavam em dívida com ele não apenas por muitas contribuições valiosas, mas também por vários regulamentos e melhorias úteis. A partir da década 1750-1760, as ocorrências aumentaram regularmente e conhecem um pico, em frequência relativa, de 1770 a 1790. Em termos de frequência relativa, o período 1750-1850 marca claramente o apogeu da presença do termo celebridade nas publicações em francês. Nos anos 1750-1760, o temo permanece ainda muito próximo de reputação”, parece designar uma notoriedade rápida, ampla, sobre a qual pesa uma suspeita.  Os adversários dos filósofos iluministas, por exemplo, utilizam a palavra para denunciar a reputação, julgada excessiva, de seus rivais. Em seu Lettres sur de grands philosophes, Charles Palissot ridiculariza o refrão de louvores que esses senhores fazem uns dos outros como figuração de fato de um debate e a esses certificados de celebridade que se oferecem, um após o outro, em suas obras. No mesmo momento, François Antoine Chevrier denuncia as damas que recebem livremente todos aqueles que se apresentam à sua porta: - “É em suas casas que os autores que desejam uma celebridade passageira devem ir ler suas produções efêmeras”.  

A celebridade conotada negativamente, remete a formas de auto-promoção, a publicidade, orquestrada artificialmente, de grupos de intelectuais que estão na moda. A celebridade não é somente um atributo, ela é uma condição, modifica o modo de vida, quase o estatuto social, de uma pessoa. Tornar-se uma figura pública, ser o objeto da curiosidade por conta de seus talentos, é uma prova que pode ser enaltecedora, mas também dolorosa, e que transforma o “destino” de um indivíduo.  Na pesquisa abstrata de qualquer problema da história universal, um produto da civilização sempre estará sujeito à indagação sobre qual combinação de fatores sociais a que se pode atribuir o fato de na civilização ocidental, e somente nela, tenha surgido fenômenos culturais dotados de desenvolvimento universal em seu valor e significado. Os conhecimentos empíricos, as reflexões sobre os problemas do mundo social e da vida, a sabedoria filosófica e teológica mais profunda não se restringem à ciência. Conhecimento e observação de grande acuidade também existiram noutras civilizações. Igualmente ocorre com a força social mais significativa de nossa vida moderna global: o capitalismo. O “impulso para a aquisição”, a “ânsia do lucro”, o “quanto mais dinheiro melhor” não tem mais a ver em si com o capitalismo. A superação dessa noção ingênua pertence ao ensino do jardim da infância da história. Dentro da ordem capitalista, uma empresa que não aproveitasse das oportunidades que visam ao lucro estaria falida, e per se, condenada ao desaparecimento.

O que nos interessa sociologicamente na história universal da cultura, analisado por Max Weber, mesmo do ponto de vista puramente econômico, em última análise, não é tanto o desenvolvimento da atividade capitalista como tal, diferindo nas várias culturas apenas na forma do tipo aventureiro, ou o capitalismo no comércio, na guerra, na política ou na administração como fonte de lucro. São antes, as origens desse sóbrio capitalismo burguês, com sua organização racional do trabalho livre. Noutras palavras, do ponto de vista da história da cultura, a origem da classe burguesa ocidental e de suas peculiaridades é um problema teórico que certamente está relacionado com a origem da organização capitalista do trabalho, não sendo, entretanto, o mesmo. Não estamos longe de admitir que os burgueses já existiam antes do desenvolvimento da forma peculiar do capitalismo moderno. Mas é verdade que existiam apenas no hemisfério ocidental. A chave para explicar historicamente o ressurgimento da escravidão nas empresas colonialistas açucareiras, segundo Franco (1978: 30), está na organização social destas últimas, determinada pela estrutura dos mercados capitalistas globalizados, que já envolviam a difusão e a interferência merceológica nos centros produtores.  

É a isso que se deve a configuração do latifúndio, das grandes unidades de produção para a obtenção regular quantitativamente do produto, mediante trabalhadores numerosos, conjugados e controlados por sujeitos que detinham a propriedade do trabalho. Trata-se de uma situação social em que se opera a dissociação radical entre o produtor direto, os meios de produção e o produto do trabalho. Significava isto que se determinava historicamente a constituição de uma categoria de homens expropriados dos meios de produção e postos a serviço de outros. O recurso ao trabalho escravo poderia ser explicado erroneamente com o argumento de que na colônia seria impossível a preservação de homens livres, na condição de expropriados, dada a abundância de terras, onde todos poderiam encontrar meios de subsistência. O entrosamento entre produção colonial e comércio capitalista, levou à organização das grandes propriedades latifundiárias, numa época histórica em que jamais poderiam ter sido utilizados homens livres, pela simples e forte razão crível de que o sujeito expropriado obrigado a vender sua força de trabalho não existia como categoria social, mas noutra condição capaz de preencher as necessidades de mão-de-obra requeridas pela produção colonial, 

       Ipso facto, a formação dos empreendimentos açucareiros não só implicou a exploração sistemática e maciça de homens expropriados, mas seu próprio crescimento, integrado aos mercados em expansão, estava condicionado a um crescimento regular de mão-de-obra. Inscrita no movimento de expansão do setor açucareiro, a escravidão moderna representa um momento importante na organização social do trabalho, em vista de objetivos econômicos. Desse modo, impõe-se a necessidade de uma massa de homens disponíveis, prontos para serem incorporados ao processo de produção. A escravidão representa, face à exigência, do ponto de vista da análise comparada, a possibilidade de mobilização social rápida e plástica de mão-de-obra, adequando-a às necessidades da produção crescente de produção social. Correspondendo a essas exigências, a empresa açucareira assume a forma de grande unidade de produção, assentada numa base técnica simples, necessária e estável e cuja via de crescimento dependia da extensão, em termos absolutos, da exploração dos fatores de produção. A grande propriedade colonial sintetizou dois princípios reguladores da vida econômica: produção direta dos meios de existência e produção de lucro, que são essencialmente contraditórios.

Na história de acumulação do capital, a particularidade brasileira, as duas práticas são constitutivas uma da outra. A produção e o consumo diretos encontram sua razão de ser na atividade mercantil, como meios determinado juntamente com a extensão das terras apropriadas, a tecnologia rudimentar, a escravaria. A combinação colonial dos fatores de produção assentou, em larga medida, na possibilidade do latifúndio auto-suprir-se, concebendo desse modo o vínculo entre a produção direta dos meios de vida e a produção mercantil, como práticas que se engam e se determinam, não correrá o risco de perder o significado histórico da economia e da sociedade coloniais. Para compreender o curso da história colonial, é preciso acentuar que a produção de gêneros tropicais fez parte desse movimento civilizatório, em que se generalizam as relações de troca. Contudo, com o latifúndio e a escravaria se instala um modo de produção presidido pelo capital, vale dizer, um sistema particular de dominação social.

           O trabalho escravo inscrito na modalidade particular de produção definida na Colônia, configura-se como contrapartida necessária do trabalho livre na Europa. O desenvolvimento de ambos e o crescimento dos mercados, na Europa e na Colônia, formaram uma rede unitária de determinações. Também entrelaçado nessa rede, está o destino do homem livre e pobre no Brasil, com sua existência quase dispensável, mas que por longo tempo o colocou a salvo de transformar-se num assalariado. A contradição não antagônica é que o trabalho livre na Europa e na Colônia se negam e se determinam através da mediação da escravidão. A modalidade de dominação que se desenvolveu na sociedade colonial apresenta regularidades, embora esteja marcada pelas diferenças existentes entre o estatuto do escravo e do homem livre. Em seu sentido mais profundo e mais amplo, nunca é demais repetir, essa dominação social tem suas raízes engendradas no regime de produção estabelecida, e mais especificamente, na estrutura das propriedades agrícolas. A escravidão, que nelas concentrou pessoal numeroso, e o caráter extraordinário de latifúndio, que as manteve isoladas umas das outras e distantes dos povoados, tornaram necessária uma complexa diferenciação de funções internas relativas ao cultivo de gêneros alimentares, indústria doméstica, oficinas de manutenção, serviços religiosos etc., lhes conferiu o cunho que chama atenção: a aparência de uma unidade autônoma de produção e consumo.

        Neste sentido, o capitalismo e as empresas capitalistas, inclusive com uma considerável racionalização do cálculo capitalista, existiram em todos os países civilizados na Terra como podemos julgar pelos documentos econômicos. Existiram na Índia, na Babilônia, no Egito, na Antiguidade Mediterrânea e na Idade Média, tanto quanto na Idade Moderna. Não eram apenas empreendimentos isolados, em sua aparência, mas empresas econômicas, que dependiam inteiramente da constante renovação de empreendimentos capitalistas, e até de “operações” contínuas, embora o comércio não fosse por muito tempo ininterrupto como no caso ocidental, constituindo-se antes uma série de empreendimentos individuais. Só aos poucos tardiamente as atividades mesmo dos grandes comerciantes, adquiriram coesão interna. De qualquer forma, a empresa capitalista e o empreendimento capitalista, não como empreendedores ocasionais, mas como empresas regulares, existem de longa data e estão em toda parte. No entanto, Max Weber observa, que o Ocidente desenvolveu o capitalismo tanto na quantidade como nos tipos, formas e direções, nunca antes observados. Foram feitos empréstimos de todo tipo, e criados bancos com funções diversificadas, pelo menos comparáveis aos que ocorrem no século XVI. Onde sempre existiam moedas financeiras de instituições públicas, também aparecia a figura do agiota  que financiaram guerras e piratarias diversas, em contratos sociais e construções civis de toda espécie.

Na política de ultramar, atuaram como empreendedores coloniais, fazendeiros com escravos, mão-de-obra direta ou indiretamente sendo escravizada – arrendaram territórios repartições, e acima de tudo, impostos. Financiaram festas de políticos nas eleições e os condottieri na guerra civil. Foram os líderes políticos “especuladores” nas ocasiões do lucro monetário de todos os tipos. Essa espécie de empreendedor, o capitalista aventureiro, existiu em todo o mundo. Suas atividades, exceto a comercial, creditício ou bancário, eram puramente irracionais e especulativas, ou orientadas para a apropriação pela força, principalmente do butim obtido na guerra ou mediante a contínua exploração fiscal dos súditos. O capitalismo de empresários, de especuladores em larga escala, de colonizadores, e boa parte do capitalismo financeiro considerado mesmo em tempo de paz, mas, acima de tudo, o capitalismo voltado para a exploração das guerras, possui essas características nos países ocidentais modernos, e uma parte (apenas uma), partes do comércio internacional de larga escala ainda estão presas a ela atualmente como desde sempre. 

O Ocidente desenvolveu um tipo diverso de capitalismo nunca antes encontrado: a organização capitalista racional do trabalho livre. A organização industrial racional, orientada para o mercado regular, e não para oportunidades políticas ou especulativas de lucro, não é a única criação do capitalismo ocidental. A moderna organização racional da empresa capitalista não teria sido viável sem a presença de dois importantes fatores no seu desenvolvimento: a separação da empresa do trabalho doméstico, que domina por completo a vida econômica moderna, e, associada a esta, a criação de uma contabilidade racional. Há uma separação especial dos locais de trabalho daqueles da residência, como no bazar oriental e na ergasteria de outras culturas. O surgimento de associações capitalistas financeiramente independentes é encontrado no Oriente Médio, no Extremo Oriente e na Antiguidade, mas, comparadas às modernas empresas comerciais independentes, apenas constituem modestos primórdios. O motivo, segundo Weber (2003), era a falta de requisitos indispensáveis para esta independência, nossa contabilidade racional e nossa separação jurídica dos bens da empresa dos do indivíduo ou que eram completamente desprovidos ou que davam apenas os primeiros passos. A tendência geral era as empresas lucrativas como partes de um trabalho doméstico real ou feudal, do oikos, o que constitui, como já percebeu Karl Rodbertus, com toda a sua semelhança superficial, um desenvolvimento fundamentalmente diverso e até oposto. Seu significado atual, entretanto, só foi alcançado pelo capitalismo ocidental, com sua associação à organização capitalista do trabalho. 

Até o que se costuma chamar de comercialização – ou seja, o desenvolvimento dos valores mobiliários negociáveis e a racionalização da especulação, a Bolsa de Valores etc. – depende dela. De fato, sem a organização capitalista racional do trabalho, até onde foi racionalmente possível, não teria seu significado atual, no que diz respeito à estrutura social e aos problemas específicos do Ocidente deles decorrentes. O cálculo exato, a base de todos os demais, só é possível na base do trabalho livre. Assim como o mundo não conheceu uma organização racional do trabalho fora do Ocidente moderno, não existiu nenhum socialismo racional. Existiram instituições como a economia urbana, a política de abastecimento civil, o mercantilismo e a política de bem-estar dos príncipes, o racionamento, a regulamentação da economia, teorias de protecionismo e laissez-faire (como na China). O mundo conhecia um grande número de experiências comunistas e socialistas: familiares, religiosas ou militares, socialismo de Estado (Egito), cartéis monopolistas e organizações de consumidores. Apesar de ter havido em toda parte privilégios civis de mercado, corporações e toda espécie de diferenças legais entre a cidade e o campo, não havia o conceito de cidadão fora do Ocidente, assim como o de “burguesia” não existia fora do Ocidente moderno. Desta forma, o “proletariado” como classe produtora da existência material não poderia mesmo existir, porque não havia o trabalho livre institucionalizado. Lutas de classe entre frações de classe credoras e devedoras, latifundiários e os sem-terra, servos ou meeiros; interesses comerciais e consumidores ou proprietários de terra existem em toda parte e em diversas formas. 

Houve indícios de lutas no Ocidente, na Idade Média, entre empresários e empregados, inexistindo por completo o atual conflito capital versus trabalho na relação social estabelecida entre o empresário industrial e o operário livre assalariado. Não podia haver problemas reais semelhantes ao do socialismo. A queda do Muro de Berlim deu-se na passagem do dia 9 de novembro de 1989. Esse acontecimento social e político é marcante. Representou o prenúncio da queda da República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental, e da reunificação da Alemanha, separada em duas nações desde a Segunda Guerra Mundial, um conflito burocrático-militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo ocidental globalizado incluindo todas as grandes potências organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Foi a guerra mais abrangente e violenta da história política, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Em estado de guerra total, os principais envolvidos dedicaram toda sua capacidade econômica, industrial e científica a serviço dos esforços de guerra, deixando de lado a distinção entre recursos civis e militares. Marcado por um número significante de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas decsivamente em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 a mais de 70 milhões de mortes. 

Bibliografia geral consultada.

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