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sábado, 6 de setembro de 2025

Bolsa Preta – História, Verdade & Efeitos de Poder na Cinematografia.

 A liberdade de consciência traz mais perigos do que a autoridade e o despotismo”. Michel Foucault

            

         O Big Ben é o nome dado etnograficamente de um grande sino instalado na torre Noroeste do Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, localizado em Londres, no Reino Unido. O nome oficial da torre em que o Big Ben está localizado era originalmente Clock Tower, mas ela foi renomeada como Elizabeth Tower em 2012 para marcar o Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II (1952-2022). A torre foi inaugurada durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Estado da Inglaterra, em 1859. A torre foi construída em estilo neogótico e tem 96 metros de altura, tendo sido concluída em 1858 e iniciado suas atividades em 7 de setembro de 1859. A Torre do Big Ben é um ícone cultural britânico, um dos símbolos mais proeminentes na história social do Reino Unido e frequentemente em cenas de filmes, séries de televisão, programas ou documentários ambientados em Londres. Em 15 de fevereiro de 1952 tocou 56 vezes, todos os minutos durante o funeral do rei Jorge VI, falecido com 56 anos de idade. Em 27 de julho de 2012 tocou durante 3 minutos de forma programada das 8 horas e 12 minutos às 8horas e 15 minutos para anunciar a Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. Foi a primeira vez que o sino tocou fora de sua programação normal desde o funeral do Rei Jorge VI, em 1952. A torre abriga o maior relógio composto de quatro lados do mundo e é considerada a décima quarta torre de relógio mais alta do mundo contemporâneo. O funcionamento do relógio é famoso por sua confiabilidade. Os designers foram o advogado e horologista amador Edmund Beckett Denison e George Airy, o Astrônomo Real. A construção foi confiada ao relojoeiro Edward John Dent (1790-1853); após sua morte em 1853, seu enteado Frederick Dent concluiu o trabalho, em 1854. 

        Como a torre não estava completa até 1859, Denison teve tempo para experimentar: em vez de usar o especificamente o escapamento deadbeat e remontoire como originalmente projetado, Denison inventou tecnologicamente o escapamento gravitacional duplo de três pernas que fornece a melhor separação entre o pêndulo e o mecanismo do relógio. O pêndulo é instalado dentro da caixa à prova de vento fechada sob a sala do relógio. Tem 13 pés (4,0 m) de comprimento, pesa 660 libras (300 kg), é suspenso em tira de aço para molas de 1⁄64 polegadas (0,40 mm) de espessura e bate a cada 2 segundos. O mecanismo de relógio em sala abaixo pesa cinco toneladas. No topo do pêndulo está uma pequena pilha de moedas antigas; estes são para ajustar a hora do relógio. Adicionar uma moeda tem o efeito de levantar minuciosamente a posição do centro de massa do pêndulo, reduzindo o comprimento efetivo da haste do pêndulo e, portanto, aumentando a taxa de oscilação do pêndulo. Adicionar ou remover um centavo mudará a velocidade do relógio em 0,4 segundos por dia. O relógio tem corda manual, levando cerca de 1,5 horas três vezes por semana. Em 10 de maio de 1941, um bombardeio alemão danificou duas faces do relógio e seções do telhado da torre e destruiu a Câmara dos Comuns. O arquiteto Sir Giles Gilbert Scott (1880-1960) projetou um novo bloco de cinco andares. Dois andares são ocupados pela câmara usada pela primeira vez em 26 de outubro de 1950. 

       O relógio funcionou com precisão e soou durante toda a Blitz. Antes de 1878 o relógio parou pela primeira vez em sua história, “devido a uma forte queda de neve” nos ponteiros de um relógio. Entre 21 de agosto de 1877 e janeiro de 1878 o relógio foi parado por três semanas para permitir que a torre e o mecanismo fossem limpos e reparados. A velha roda de escape foi substituída. A tarefa de descrever os nexos do agir comunicativo não consiste simplesmente em explanação o mais precisa possível do sentido das exteriorizações simbólicas que compõem a sequência observada? Certamente precisamos distinguir entre as realizações interpretativas de um observador que tenha a intenção de entender o sentido de uma exteriorização simbólica, de um lado, e as realizações interpretativas dos participantes da interação, de outro, os quais coordenam suas ações socialmente por meio do mecanismo de entendimento. Diversamente dos que têm envolvimento direto, o intérprete não está empenhado em chegar a uma interpretação passível de consenso, para que possa conciliar seus planos de ação com os dos outros atores. Mas talvez as realizações interpretativas de observador e participante se distingam somente em sua função e não em sua estrutura. Jürgen Habermas, um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt (cf. Jay, 2008), sustenta a seguinte tese acadêmica: ações comunicativas não podem ser interpretadas de outro modo senão de um modo racional. A sociologia tem de procurar um acesso compreensivo a seu campo objetal porque encontra nele processos de entendimento pelos quais e nos quais o campo objetal já se havia constituído de antemão, antes de qualquer intervenção teorética.                         


            O campo de objetos das Ciências Sociais abrange tudo a que se a descrição “parte constituinte de sua vida”. O que significa essa expressão pode ser aclarado intuitivamente por meios de remissões aos objetos simbólicos que criamos ao falar e agir: a começar por exteriorizações imediatas, como atos da fala, atividades voltadas a um fim, cooperações, passando por sedimentos dessas exteriorizações, como textos, transmissões orais, documentos, obras de arte, teorias, objetos da cultura material, bens, técnicas, etc., até construtos criados por via indireta, aptos a organizar-se, que se estabilizam por si mesmos tais como instituições, sistemas sociais e estruturas de personalidades. Falar e agir são conceitos fundamentais inexplicados, aos quais recorremos quando queremos aclarar, mesmo de maneira provisória, o pertencer a um mundo da vida sociocultural, o ser-parte de um mundo como esse. O problema do “compreender” nas ciências humanas e sociais ganhou importância metodológica sobretudo porque o cientista não consegue acesso à realidade simbolicamente pré-estruturada somente por meio da observação, e porque a compreensão de sentido não se deixa controlar metodicamente da mesma maneira que a observação em experimentos científicos. O cientista social não tem acesso diverso ao mundo a vida do que tem o leigo em ciência sociais. De certa maneira, ele já tem de fazer parte do mundo da via cujas partes constituintes pretende descrever e explicar.   

Nas ciências humanas e sociais, segundo Habermas (2012: 202), sem temor a erro, os procedimentos de interpretação racional contam com uma reputação questionável, apenas crítica. Originalmente no âmbito filosófico a crítica ao platonismo modelar vinculado às ciências econômicas demonstra que alguns intérpretes contestam o teor empírico e a fertilidade elucidativa dos modelos racionais de decisão; restrições às abordagens cognitivistas da ética filosófica e reparos à crítica da ideologia formada principalmente na tradição hegeliano-marxista revelam que outros, por sua vez, duvidam da possibilidade de uma fundamentação prático-moral de normas coercitivas de ação social e da compensação entre interesses particulares e interesses passíveis de generalização; e a difundida crítica à cientificidade da psicanálise revela que muitos já consideram problemática a concepção do inconsciente e o conceito do significado duplo e potencialmente manifesto, que se considera próprio às exteriorizações de vivências. São restrições que se baseiam em assunções fundamentais empiristas questionáveis. Ações comunicativas sempre exigem uma interpretação que seja racional desde o início. No agir comunicativo o ponto de partida da interação torna-se dependente de que os envolvidos tenham sido capazes de acordo sobre um julgamento intersubjetivamente válido de suas referências ao mundo.   Segundo esse modelo de ação, uma interação só pode lograr êxito à medida em que os envolvidos cheguem a um consenso uns com os outros; e esse consenso, por sua vez, depende de posicionamentos do tipo sim/não em face de preensões potencialmente baseadas em razões.

            Black Bag tem como representação social um filme de suspense e espionagem norte-americano de 2025, dirigido por Steven Soderbergh e escrito por David Koepp, o nono roteirista mais bem sucedido de todos os tempos em termos de bilheteria nos Estados Unidos, com um ganho comercial total de 2,3 bilhões de dólares. Soderbergh também foi, eventualmente, freelance como editor de filmes. Tornou-se famoso por executar várias funções policompetentes, segundo E. Morin, dentro de um mesmo filme, como direção de fotografia, edição, direção e roteiro. Writers Guild of America (WGA) é um esforço conjunto de dois diferentes sindicatos dos Estados Unidos que representam os roteiristas da televisão e cinema: O Writers Guild of America, East com sede em Nova Iorque e o Writers Guild of America, West com sede em Los Angeles. Como a WGA proíbe que o cineasta exerça múltiplas funções dentro de um filme, ele assina sua obra sob diferentes pseudônimos. É estrelado por Cate Blanchett, Michael Fassbender, Marisa Abela, Tom Burke, Naomie Harris, Regé-Jean Page e Pierce Brosnan. No filme, o oficial de inteligência britânico George Woodhouse (Fassbender) é “designado para investigar uma lista de suspeitos de traição, um dos quais é sua esposa, Kathryn (Blanchett)”. O filme foi anunciado em janeiro de 2024, após a confirmação das participações de Soderbergh, Blanchett e Fassbender. O restante do elenco foi formado em março e as filmagens começaram em maio, com filmagens em Londres e no Pinewood Studios. Black Bag foi lançado nos cinemas primeiro na França em 12 de março de 2025, pela Universal Pictures, e nos Estados Unidos da América sendo dois dias depois, pela Focus Features. Recebeu críticas positivas e arrecadou comercialmente US$ 43,4 milhões em todo o mundo.

      Desnecessário dizer que o auge da popularidade dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da chamada Guerra Fria se misturaram ao desejo notável do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense. O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa época. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a série Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton, nascido em Marylebone, Londres, em 18 de fevereiro de 1929, é um escritor britânico, de história, culinária e romances. Seu pai era um motorista e mecânico, e sua mãe era uma cozinheira. Depois de deixar a escola, trabalhou como balconista de trem, antes de executar seu serviço nacional, passou como fotógrafo especial Investigation Branch (ramo investigativo) da Força Aérea Real. Após a alta da RAF, ele estudou na Escola de St. Martin of Art, em Londres, em 1949, e em 1952 ganhou uma bolsa de estudos para o Royal College of Art, graduando-se em 1955. Sociologicamente a chamada Guerra Fria representa a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, compreendendo o período entre o final da 2ª guerra Mundial (1940-1945) e a dissolução da União Soviética correu em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a Independência das antigas repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

A conjuntura anterior representou um conflito extraordinário de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações, no plano das relações políticas e econômicas e suas zonas conflitantes de influência político-militar. É chamada guerra “fria” porque não houve guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de armas nucleares foi o objetivo central durante a primeira metade da chamada “Guerra Fria”, estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativada nos anos 1980 com o projeto do presidente dos Ronald Reagan chamado de “Guerra nas Estrelas”. Ronald Wilson Reagan foi um ator e político norte-americano, o 40.º presidente dos Estados Unidos e o 33º governador da Califórnia. Nascido e criado em pequenas cidades de Illinois, formou-se em economia e sociologia no Eureka College e em seguida trabalhou como radialista esportivo. A corrida espacial foi um dos episódios que marcaram a segunda metade do século XX e foi resultado direto da Guerra Fria. Ocorrida especificamente entre os anos de 1957 e 1975, a corrida espacial ficou caracterizada pela intensa exploração no espaço realizada por americanos e soviéticos. Um dos episódios geopolíticos de maior relevância da corrida espacial foi a estratégia global ocorrida com a chegada do homem à Lua. É neste âmbito de transformações sociais e políticas globais polarizadas que emerge na esfera política o Socialisme ou Barbarie representando um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem de uma frase da economista marxista e dialética de Rosa Luxemburgo usada em um ensaio de 1916, The Junius Pamphlet.             

O funcionário se prepara para uma carreira por concurso público, o que não impede que ocorra por determinado tempo a vigilância hierárquica para o cargo no serviço público. Foi esse tipo específico de poder que Michel Foucault chamou de “disciplina” ou “poder disciplinar”. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestra-lo. O que lhe interessa não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controla-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. É um objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos sociais de contrapoder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir expressivamente a sua força política. Situemos as suas características básicas. 

Em primeiro lugar, a disciplina é um tipo de organização do espaço. É uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. Isola praticamente em um espaço fechado, esquadrinhado, hierarquizado, capaz de desempenhar funções diferentes segundo o objetivo específico que deles se exige. Mas, como relações de poder disciplinar não necessitam de espaço fechado para se realizar, é essa sua característica menos importante. Em segundo lugar, e mais fundamentalmente, a disciplina é um controle do tempo. Isto é, ela estabelece uma sujeição do corpo ao tempo, com o objetivo de produzir o máximo de rapidez e o máximo de eficácia. Em terceiro lugar, a vigilância é um dos seus principais instrumentos de controle. Não uma vigilância que reconhecidamente se exerce de modo fragmentar e descontínuo; mas que é ou precisa ser vista pelos indivíduos que a ela estão expostos como forma contínua, perpétua, permanente; que não tenha limites, penetre nos lugares mais recônditos, esteja presente em toda extensão do espaço. Olhar invisível que permite impregnar quem é vigiado de tal modo que este adquira de si mesmo a visão panóptica de quem o olha. A disciplina implica um registro contínuo de conhecimento. O olhar que observa para controlar não é o mesmo que transfere as informações para os pontos mais altos da hierarquia do poder? Seu objetivo econômico e político é tornar o homem útil e dócil. A grande importância estratégica que as relações de poder disciplinar desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX, vem do fato delas não serem negativas.

Mas positivas, quando tiramos desses termos qualquer juízo de valor moral ou político e pensarmos unicamente na tecnologia empregada. É então, que, segundo Foucault, surge uma das teses fundamentais da genealogia: “o poder é produtor de individualidade”. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. Atuando sobre uma massa confusa, desordenada e desordeira, o esquadrinhamento disciplinar faz nascer uma multiplicidade ordenada no seio da qual o indivíduo emerge como alvo do poder. O nascimento da prisão em fins do século XVIII, não representou uma massificação com relação ao modo como anteriormente se era encarcerado. O nascimento do hospício não destruiu a especificidade da loucura. É o hospício, ao contrário, que produz o louco como doente mental. Um personagem individualizado a partir da instauração de relações disciplinares. E antes da constituição das ciências humanas, no século XIX, a organização das paróquias, a institucionalização do exame de consciência e da direção espiritual e a reorganização do sacramento da confissão, que aparecem como importantes dispositivos de individualização. Em suma, o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importes efeitos. O objetivo é neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações reais ou imaginárias de suas condições particulares de existência, instalando-se na neutralidade objetiva no âmbito do universal e da ideologia originalmente e um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições reais de existência.

Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios do saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria a sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise teórica é que saber e poder se implicam mutuamente; não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo comparativamente falando, que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. 

A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e intelectual específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. 

            Historicamente o gênero de filmes de espionagem começou na Era do Cinema Mudo, com a paranoia da literatura de invasão e o início da 1ª grande guerra (1914-1918). Esses medos produziram o britânico The German Spy Peril, de 1914, concentrado em uma conspiração para explodir o Parlamento, e o OHMS, de 1913, que significa “Our Helpless Millions Saved” (Nossos Milhões Desamparados Salvos), bem como On His Majesty`s Service e apresentando pela primeira vez uma personagem feminina forte que ajuda o herói). Em 1928, Fritz Lang dirigiu o filme Espiões, que continha muitos tropos que se tornariam populares em dramas de espionagem posteriores, incluindo quartéis-generais secretos, um agente reconhecido por um número e a bela agente estrangeira que se apaixona pelo herói. Os filmes de Dr. Mabuse de Lang, também contêm elementos de thrillers de espionagem, embora o personagem central seja “um gênio do crime interessado apenas em espionagem para fins lucrativos”. Além disso, vários filmes norte-americanos de Lang, como “Os Carrascos Também Morrem” abordam espiões durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Por outro lado, Alfred Hitchcock contribuiu significativamente para a popularização do cinema de espionagem na década de 1930 com seus influentes thrillers “O Homem Que Sabia Demais” (1934), “Os 39 Degraus” (1935), “Sabotagem” (1937) e “A Dama Oculta” (1938). Estes filmes frequentemente envolviam civis inocentes envolvidos em conspirações internacionais ou redes de sabotadores no front doméstico, como em “Sabotador” (1942).

Alguns, no entanto, tratavam de espiões profissionais, como em “O Agente Secreto” (1936), de Hitchcock, baseado nas histórias de Ashenden, de W. Somerset Maugham, ou na série “Mr. Moto”, baseada nos livros de John P. Marquand. Nas décadas de 1940 e início de 1950, diversos filmes foram produzidos sobre as façanhas de agentes aliados na Europa ocupada, o que poderia ser considerado um subgênero. 13 Rue Madeleine e OSS eram histórias fictícias sobre agentes americanos na França ocupada pelos alemães. Houve vários filmes baseados em histórias reais de agentes britânicos do Serviço de Energia Atômica (S.O.E.), incluindo Odette e Carve Her Name With Pride. Um exemplo ficcional mais recente é Charlotte Gray – Paixão sem Fronteiras (2001), baseado no romance de Sebastian Faulks. Também durante o período, houve muitos filmes de detetive, The Thin Man Goes Home e Charlie Chan em Serviço Secreto, por exemplo, em que o mistério envolvia a estratégia de quem provavelmente roubou os projetos secretos ou quem sequestrou o famoso cientista. Em meados da década de 1950, Alfred Hitchcock retornou ao gênero de espionagem com O Homem Que Sabia Demais (1956), representando um remake de seu filme de 1934. Ele seguiu em 1959 com Intriga Internacional (1959), amplamente considerado uma das obras mais influentes do gênero de espionagem. O auge da popularidade comercial dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da Guerra Fria se misturaram ao desejo do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense.

O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa conjuntura histórica nacionalista. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a serie Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton. Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com Sean Connery como a estrela. Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. A televisão também entrou em ação com séries como The Man from UNCLE e I Spy nos EUA, e Danger Man e The Avengers, na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até os dias atuais com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo renascimento no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com o extraordinário Sean Connery (1930-2020) como a estrela (cf. Morin, 1993). Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria “um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960”. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint (1966) estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. É um personagem de ficção criado pelo escritor norte-americano Donald Hamilton em 1960. Um agente secreto especializado em contraespionagem, diferente do espião relativamente comum, para ser diferenciado de James Bond, criado em 1953 por Ian Fleming, por seu autor, apareceu em 27 livros escritos entre 1960 e 1993. A televisão também entrou em ação com séries competitivamente no mercado como The Man from UNCLE e I Spy nos Estados Unidos da América, e Danger Man e The Avengers na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até hoje com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo “renascimento” no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e o específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. 

A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade analítica de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. É preciso repensar os problemas políticos dos intelectuais não mais em termos exclusivos da relação entre ciência e ideologia, mas sem abandoná-la, tendo em vista que a universidade pública é um domínio de casta, “a forma natural pela qual costumam socializarem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com os membros de comunidades exteriores e o relacionamento social. Essa situação de casta é parte do fenômeno de povos párias e se encontra em todo o mundo” (cf. Weber, 1982), a análise pode ser religada na medida em que a questão da profissionalização do intelectual, da divisão entre trabalho intelectual, na esfera pública pode ser retomada. A verdade está ligada a sistemas de poder que a produzem e apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e a reproduzem. Ipso facto, o problema político essencial para o intelectual não é apenas criticar os conteúdos ideológicos que privilegiam grupos no sistema educacional que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por métodos de inclusão democráticos. O que está em jogo num sistema de castas, que tomou o poder na universidade pública  nos últimos 20 anos, é se podemos constituir uma nova arena política da verdade. Mas não se trata de libertar a verdade do sistema de poder, mas de desvincular o poder da verdade das formas com as quais ele legitima suas formas de saber. A genealogia exige a minúcia do saber, evidenciando um grande número de materiais acumulados. 

Na universidade estes materiais se esgueiram como sombras. Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca do que lhe é originário, mas ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos projetos interrompidos pelos predecessores, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro, num trabalho de escavação incessante no campus, nos arquivos, sem deixar-lhes o tempo emascular o labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob a guarda. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas que dão conta dos atavismos e das hereditariedades. A história, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos, suas grandes agitações febris como suas síncopes, é o próprio corpo do devir. É preciso ter um espírito metafísico para encontrar na alma a idealidade distinta. A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Bastam para tanto que façamos a análise genealógica em sua atenção “desinteressada”, em sua ligação à objetividade.

Longe de ser uma categoria de semelhança, tal origem permite ordenar, para coloca-las a parte, todas as marcas diferentes. O genealogista parte em busca do começo, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissocia o Eu e fazer pulular lugares e recantos de sua síntese vazia, entre acontecimentos aparentemente perdidos. A proveniência permite também reencontrar sob o aspecto único de um caráter ou de um conceito a proliferação dos acontecimentos através dos quais eles se formaram. Metodologicamente a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando-o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios, os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente. Na universidade basta o que ficou da gestão passada para compreendermos o presente. Na vã política em geral e particularmente na gestão acadêmica o passado nos condena.

A cena pública da verdade é sempre a mesma em que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença de valores; classes dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade, homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma relação, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. Universo de regras que não é destinado a adoçar, mas ao contrário a satisfazer a violência. A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. A humanidade não progride lenta de combate em combate, ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim num processo ad infinitum de dominação em dominação. É justamente a regra que permite que seja feita a violência à violência e que uma outra dominação possa dobrar aqueles que dominam. 

Em si mesmas as regras são vazias, violentas, não finalizadas; elas são feitas para servir a isto ou aquilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns e outros. O grande jogo da história será, segundo Foucault, de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para perverte-las, utilizá-las ao inverso e volta-las contra aqueles  que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. As diferenças emergenciais que se podem demarcar não são figuras sucessivas de uma mesma significação; são efeitos de substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas. Se interpretar eras colocar lentamente em foco uma significação oculta na origem, apenas a metafísica poderia interpretar o devir da humanidade. Mas se interpretar é se apoderar por violência ou sub-repção, de um sistema de regras que não tem em si significado essencial, e lhe impor uma direção, dobrá-lo a uma nova vontade, fazê-lo entrar noutro jogo e submetê-lo a novas regras, então o devir da humanidade é uma série de interpretações. E a genealogia dever ser a sua história: história das morais, dos ideais (uma universidade de verdade), dos conceitos metafísicos, história do conceito de liberdade ou da vida ascética, como emergências de interpretações diferentes. Trata-se de fazê-las aparecer como acontecimentos reais no teatro dos procedimentos. O genealogista sabe o que é necessário pensar. 

Não que ele a rechace por espírito de seriedade; ele quer leva-la ao extremo: porque quer por em cena um grande carnaval (cf. DaMatta, 1981) do tempo em que as máscaras reapareçam incessantemente. Não queremos perder de vista que a disciplina é, antes de tudo, a análise do espaço. É a individualização pelo espaço, a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. A disciplina exerce seu controle, não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. No século XVII, nas oficinas de tipo corporativo, o que se exigia do companheiro ou do mestre era que fabricasse um produto com determinadas qualidades. A maneira de fabricá-lo dependia da transmissão de geração em geração. Do mesmo modo, se ensinava o soldado a lutar, a ser mais forte do que o adversário na luta individual da batalha. A partir do século XVIII, se desenvolve uma arte do corpo humano. Observa-se de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. Nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do contramestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser mais rapidamente realizado e com gestos humanos melhor adaptados. O famoso Regulamento da Infantaria Prussiana, que assegurou as vitórias de Frederico da Prússia (1712-1786), consiste em mecanismos de gestão disciplinar dos corpos. A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. 

Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que o que fizeram é conforme à regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua “pirâmide de olhares”. Mas a disciplina implica um registro contínuo. Anotação do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar escape a esse saber. No sistema clássico o exercício do poder era confuso, global e descontínuo, do soberano sobre grupos constituídos por famílias, cidades, paróquias, isto é, por unidades globais, e não um poder contínuo atuando sobre o indivíduo. A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por isso, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento para o exercício do poder. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um presunçoso método geral. 

Não se trata de fazer aqui a história das diversas instituições disciplinares no que podem ter cada uma de singular: 1) ambas, neste caso, são instituições públicas gerenciadas por uma casta no poder (cf. Weber, 1982; Dumont, 1992); 2) Existe uma série de exemplos de algumas das técnicas essenciais empregadas que, de uma a outra, se generalizaram mais facilmente. Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, são dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza (assédio moral), são eles, entretanto que levaram à mutação do regime punitivo contemporâneo; 3) Descrevê-los metodicamente, nominalmente, implicará a demora sobre o detalhe da corrupção do pensamento e a atenção às minúcias: sob as mínimas figuras, procurar não um sentido, mas uma precaução; recoloca-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática; 4) Astúcias, não tanto de grande razão que trabalha até durante o sono, no sentido analítico freudiano, e dá coerência ao insignificante quando da atenta malevolência que de tudo alimenta. Nunca é demais repetir, a disciplina é uma anatomia política do detalhe. O que nos interessa, sociologicamente, é a racionalização utilitária do detalhe na contabilidade moral e no controle político. A regra das localizações funcionais vai pouco a pouco codificar um espaço que a arquitetura deixava livre e pronto para vários usos.

Bibliografia Geral Consultada.

CASTORIADIS, Cornelius, L`Institution Imaginaire de la Société. Paris: Éditions Du Seuil, 1975; GALLIE, Walter Bryce, Os Filósofos da Paz e da Guerra: Kant, Clausewitz, Marx, Engels e Tolstoi. Rio de Janeiro: Editora Artenova; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979; HORKHEIMER, Max, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; BERNSTEIN, Richard; GIDDENS, Anthony; RORTY, Richard, “et al”, Habermas y la Modernidad. Madrid: Catedra Ediciones, 1994; GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991;  DUMONT, Louis, Homo Hierarchicus. O Sistema de Castas e suas Implicações. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992; WEBER, Max, Parlamento e Governo na Alemanha Reordenada: Crítica Política da Burocracia e da Natureza dos Partidos. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1993; GOTTRAUX, Philippe, Socialisme ou Barbarie, un Engagement Politique et Intellectuel dans la France de l`après Guerre. Suisse: Editions Payot Lausanne, 1997; KEHL, Maria Rita, Ressentimento. São Paulo: Editor Casa do Psicólogo, 2007; JAY, Martin, A Imaginação Dialética: História da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisas Sociais, 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2008; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; Idem, Nietzsche, Marx, Freud. Buenos Aires: Ediciones Anagrama, 2010; Idem, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; FERREIRA, Tiago Alfredo da Silva, Entendimento, Conhecimento e Autonomia: Virtudes Intelectuais e o Objetivo do Ensino de Ciências. Tese de Doutorado em Ensino, História e Filosofia das Ciências. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. Racionalidade da Ação e Racionalização Social. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012; Idem, A Nova Obscuridade: Pequenos Escritos Políticos V. 1ª edição. São Paulo: Editora Unesp, 2015; BENZAQUEM, Guilherme Figueredo, “Quando o Indivíduo se Transforma: Reflexões a partir de Mead, Goffman e Garfinkel”. In: Ponto e Vírgula. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nº 24, 2º semestre de 2018; pp. 97-112; Artigo: “Revisão da Bolsa Preta: O Elegante Thriller de Espião de Steven Soderbergh É Um Bom Tempo Inteligente e Escaldante”. Disponível em: https://universocinema.com.br/7/03/2025; entre outros.

sábado, 29 de outubro de 2022

Charles Cullen – Medicina, Cinema & Instabilidade Emocional.

 

Édipo não se cegou por culpa, mas por excesso de informação”. Michel Foucault

Charles Edmund Cullen nasceu em West Orange, New Jersey, e representava o caçula de oito filhos. Seu pai, um motorista de ônibus, tinha 58 anos de idade na época do seu nascimento e morreu quando Cullen tinha sete meses de idade. Cullen descreveu sua infância como infeliz. Ele primeiro tentou suicídio aos 9 anos por produtos químicos que ingeriu em uma loja de produtos químicos. Esta seria a primeira de muitas tentativas de suicídio no decorrer de sua vida. Mais tarde, trabalhando como enfermeiro, Cullen afirmou ter fantasiado roubar drogas do hospital onde trabalhava e usá-las para acabar com sua vida. Em 6 de dezembro de 1977, sua mãe morreu em um acidente de automóvel em um carro que sua irmã estava dirigindo. Em abril de 1978, devastado pela morte da mãe abandonou a escola e se alistou na Marinha, sendo designado para o serviço num submarino USS Woodrow Wilson (SSBN-624). Os suboficiais dividem-se em duas subcategorias: suboficiais superiores e suboficiais subalternos. A categoria de suboficial abrange os vários postos de sargento, furriel e subsargento. Cullen subiu para o posto de suboficial de terceira classe, como parte da equipe que operou o navio mísseis Poseidon. Neste posto começou a demonstrar sinais de doença mental, tendo sido transferido para o navio de abastecimento USS Canopus. Matou pacientes invadindo o protocolo de drogas dos hospitais. Lá encontrou e manipulou suas “armas do crime” da Pyxis MedStation, um sistema automatizado de distribuição de medicamentos que é usado para rastrear e distribuir drogas. Cullen tentou acabar com sua vida sete vezes ao longo dos anos seguintes e recebeu alta médica da Marinha em 30 março de 1984.

Naquele mesmo mês, Cullen se matriculou no Mountainside Hospital School of Nursing em Montclair, New Jersey, onde ele “era o único estudante do sexo masculino. Cullen foi mais tarde eleito presidente da sua turma de enfermagem”. Ele se formou em 1987 e começou a trabalhar na unidade de St. Barnabas Medical Center em Livingston, Nova Jersey. Fez sua primeira vítima enquanto trabalhava no St. Barnabas Medical Center. Em 11 de junho de 1988 ele administrou uma overdose letal de medicação intravenosa no juiz John W. Yengo, que tinha sido internado no hospital sofrendo de uma reação fotoalérgica a um medicamento para melhorar a circulação sanguínea. Cullen admitiu ter matado vários outros pacientes no St. Barnabas, incluindo um paciente de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) que morreu após uma dose excessiva de insulina. Charles Cullen deixou o St. Barnabas em janeiro de 1992, quando autoridades do hospital começaram a investigar quem havia contaminado bolsas de soro. Uma investigação determinou que Cullen era provavelmente responsável pela contaminação, resultando em dezenas de mortes de pacientes no hospital. Um mês depois de deixar o St. Barnabas Medical Center, conseguiu um emprego no Warren Hospital em Phillipsburg, New Jersey. Ele assassinou três mulheres idosas nesse hospital, dando-lhes overdoses da digoxina, um medicamento para o coração. Sua última vítima disse que um “enfermeiro sorrateiro” tinha injetado a droga enquanto ela dormia, mas seus familiares e os profissionais de saúde do hospital consideraram seus comentários infundados.

No ano seguinte, Cullen se mudou para um apartamento na Shaffer Avenue, em Phillipsburg, na sequência de um divórcio litigioso de sua esposa, ficando acertado que ele dividiria a custódia das filhas. Ele viria a afirmar que queria deixar a enfermagem em 1993, mas os pagamentos de pensão às crianças ordenado pelo tribunal obrigou-o a continuar a trabalhar. Em março de 1993, Charles Cullen invadiu a casa de uma colega de trabalho, enquanto ela e seu filho dormiam, mas deixou o local sem acordá-los. Em seguida, começou a perseguir a mulher, que entrou registrou um boletim de ocorrência na polícia. Cullen, posteriormente, declarou-se culpado de invasão e recebeu a pena de liberdade condicional de um ano. Dias depois, Cullen tentou suicídio novamente. Ele ficou dois meses fora do trabalho devido à depressão, que tratou em duas instituições psiquiátricas. Depois tentou suicídio outras duas vezes no final de 1993, período em que deixou seu emprego no Warren Hospital. Ipso facto, começou um período de três anos na unidade de terapia intensiva de pacientes em tratamento cardíaco no Hunterdon Medical Center de Flemington. Ele alegou que não atacou ninguém durante os dois primeiros anos. Os registros hospitalares haviam sido destruídos em 2003, quando ele foi preso. Ele admitiu ter assassinado cinco pacientes entre janeiro e setembro de 1996, novamente aplicando uma overdose de digoxina.


Em seguida encontrou condições de trabalho no Morristown Memorial Hospital, em Morristown, New Jersey, mas tendo sido “logo demitido por mau desempenho”. Ficou desempregado por seis meses no final de 1997 e parou de fazer o pagamento da pensão e mais uma vez procurou tratamento para depressão na sala de emergência do Hospital Warren. Ele foi internado em uma clínica psiquiátrica, mas saiu pouco tempo depois. Em fevereiro de 1998 foi contratado pela Liberty Nursing e Rehabilitation Center, em Allentown, Pensilvânia, onde foi colocado em uma ala de pacientes dependentes de respiradores. Neste centro, Charles Cullen “foi acusado de drogar pacientes e acabou por ser demitido depois que foi visto entrando no quarto de um paciente com seringas na mão”. O paciente acabou com um braço quebrado, mas aparentemente não recebeu as injeções. Charles Cullen causou a morte de um paciente no Liberty, óbito que foi atribuído a outra enfermeira. Depois de deixar o Liberty Center, foi contratado pelo Hospital Easton, em Easton, Pennsylvania, onde trabalhou de novembro de 1998 a março de 1999. Em 30 de dezembro de 1998 ele assassinou ainda um outro paciente com digoxina. Um exame de sangue do legista mostrou quantidades letais de digoxina no sangue da vítima, mas um inquérito interno do hospital foi inconclusivo e nada apontou, definitivamente, Cullen como o responsável pela morte. Depois trabalho no Somerset Medical Center em Somerville, onde em 13 meses matou 13 pessoas sendo demitido após investigações. Foi a enfermeira Ann Ridgway, ex-colega que “o convenceu a confessar os crimes”.

Édipo nasceu príncipe da cidade de Tebas, filho do rei Laio e da rainha Jocasta. Ao nascer, foi levado ao oráculo de Delfos onde foi profetizado que Édipo se tornaria um herói, após matar o pai e desposar a mãe, desencadeando uma cadeia de desgraças, que causariam a ruína da Casa Real. Segundo as versões de Ésquilo e Eurípedes, no entanto, o oráculo antecedeu a concepção, para impedir que Laio tivesse um filho; Laio desconsiderou o aviso, e Édipo nasceu. Aterrorizados e querendo frustrar a profecia, Laio e Jocasta resolveram encarregar um servo de deixar o filho na encosta da montanha de Cinterão, com os pés amarrados e trespassados por uma correia na altura dos tornozelos, para ser devorado pelos lobos. O servo, no entanto, apiedou-se do bebê e o entregou a um pastor que levou a criança para a cidade de Corinto. Ao chegar, Édipo foi adotado pelo rei Pólibo, pois a rainha Mérope havia gerado um filho natimorto. Édipo cresce como príncipe em Corinto, acreditando ser filho legítimo.

Anos mais tarde, já adulto, Édipo procurou o oráculo de Delfos para saber mais a respeito do seu parentesco. O oráculo repetiu a profecia, de que viria a matar seu pai e casar-se com sua mãe. Sem conhecer sua verdadeira filiação, Édipo acreditou que estava destinado a assassinar Pólibo e se casar com Mérope. Procurando evitar seu destino, Édipo deixou Corinto e partiu em direção a Tebas. Num trecho estreito da estrada, encontrou o rei Laio, que estava indo a Delfos consultar novamente o oráculo, pois havia sentido presságios de que seu filho estava retornando para matá-lo. Os lacaios de Laio ordenaram que Édipo abrisse passagem à carruagem do rei. Como Édipo se recusou, Laio bateu-lhe com seu chicote. Tomado pela fúria, Édipo matou Laio e todos os seus homens, exceto um, acreditando serem um bando de malfeitores. Ao chegar a Tebas, Édipo soube que o rei da cidade havia sido morto e que a cidade estava à mercê da Esfinge, um monstro que devorava os que não resolvessem seu enigma.

Quando a desgraça recai sobre Tebas, cabe a Édipo que já a tinha libertado das ameaças da Divina Cantora e que por isso agindo, tornou-se seu tirano para novamente restabelecer a ordem. O primeiro passo para o restabelecimento da ordem e, por conseguinte, da salvação de Tebas contra a peste, é a consulta ao oráculo de Delfos, que responde em tom profético/divino, que a fonte de todo o mal é o assassinato do rei Laio. É mister, portanto, para a salvação de Tebas, que se descubra o assassino, o autor de ignóbil crime, e que se faça a justiça; e novamente o oráculo responde: Édipo é o assassino. Toda a verdade já está dita aí no discurso prescritivo e profético do oráculo. Como tal enunciação profética da verdade não basta, far-se-á necessário que se descubra a verdade por outros meios; por isso, se impõe um mecanismo de obtenção e constituição da verdade que Foucault nomeou de “jogo das metades” que metodologicamente consiste basicamente na reconstituição da verdade, isto é, da reconstituição discursiva do fato causador dos males de Tebas, a partir da coleta e de um intricado jogo de discursos obtidos ou por profecia, ou por inquérito e testemunho no caso dos escravos e reis.

O ajustamento de parte dos discursos obtidos (daí a ideia de metades) é feito pelo rei-juiz (Édipo) mediante a consulta ao oráculo e à rainha (Jocasta) este obtido espontaneamente e de modo casual, isto é, não previsto no jogo de metades bem como pelo inquérito aos escravos sob ameaça de tortura. Nas falas, isto é, nos discursos dos escravos, um confirma a versão do outro encaixando-se perfeitamente, a confirmação se obtém não pelo julgamento recíproco do discurso de um escravo sobre o do outro, mas porque a versão de um encaixa como a metade perfeita da versão do outro, sem que, necessariamente, um saiba da versão do outro, a não ser o próprio rei-juiz. Édipo respondeu corretamente às duas questões propostas pela Esfinge e assim a derrotou. Por esse feito, conquistou o trono do rei morto, fazendo jus a casar-se com sua viúva. Anos depois, para acabar com uma praga em Tebas, Édipo procurou investigar quem havia matado Laio e acabou descobrindo, por intermédio do adivinho Tirésias, que era o responsável. Jocasta, ao perceber que havia se casado com o próprio filho, se enforcou.

Em desespero, Édipo retirou dois alfinetes de vestido da mãe e com eles perfurou os próprios olhos, afirmando ter sido cego “por não reconhecer o verdadeiro presságio anunciado pelo oráculo”. Esta passagem marcante do mito é o mais reconhecido, mas a vida de Édipo segue em frente, com ele tornando-se um mendigo e esmolando por Tebas, guiado por sua filha Antígona. Mais tarde o cego assiste os filhos Etéocles e Polinices brigarem pelo trono das duas cidades, Tebas e Corinto. A história de Tebas começa ao mesmo tempo que tem lugar, na Antiguidade, o despovoamento das aldeias e das zonas rurais. Deste modo, vão-se consolidando núcleos urbanos de população denominados “polis”. Terão as suas próprias e exclusivas leis, ditadas pelo seu legendário deus mítico e pelo seu herói local, o qual redundará em benefício da comunidade grega dado que cada “polis” procurará, não só o incremento da sua plena determinação até chegar à total independência política efetiva como cidade, mas também pretenderá ultrapassar, social e comercialmente, o restante no processo formativo das cidades-Estado.

Em primeiro lugar o enfermeiro é um profissional preparado para atuar em todas as áreas dinâmicas da saúde: assistencial, administrativa e gerencial. Na área assistencial esses profissionais estão habilitados a diversos tipos de intervenções técnicas de média e alta complexidade, situações que exigem conhecimento científico e capacidade de tomar decisões imediatas. Lideram e gerenciam unidades hospitalares e colaboradores, assim como prescrevem a assistência de enfermagem para que colaboradores executem as ações pertinentes. Particularmente a enfermagem norte-americana é dividida em três categorias: Registered Nurse (RN):  Eles têm bacharelado em Enfermagem e precisam passar por vários exames antes de obterem as certificações necessárias para exercer a profissão. Estes profissionais estão habilitados a diversos tipos de intervenções de média e alta complexidade, realizam diagnóstico, prescrevem medicamentos e solicitam exames. Também trabalham na área gerencial e administrativa. Licensed Practice Nurse (LPN). São os profissionais que estudam mais que os CNAs e podem ser mais independentes na execução de tarefas. Executam outros tipos de tarefas, como primeiros socorros, aplicação de soro e remédios, realização de análises básicas de laboratório, supervisão e organização dos serviços do CNA. Estes trabalhadores de Certified Nurse Assistant, executam tarefas básicas, como limpar e desinfetar ferramentas, ajudar pacientes a subir e descer de camas, vesti-los e, se necessário, ajudá-los com higiene pessoal e alimentação.

Em segundo lugar Charles Cullen é um reconhecido assassino nascido em Nova Jersey, que teve uma infância conturbada. Quando era bebê, perdeu o pai por causa de infarto. Aos nove, tentou-se matar ingerindo produtos de um “kit de química para crianças”. Aos 17, sua mãe e sua irmã morreram num acidente de carro. Depois de tudo isso, ele abandonou a escola, com a cabeça inquieta e os pés na rua. Em 1978, Cullen se alistou na Marinha para operar mísseis balísticos de submarinos. Nas Forças Armadas, começou a apresentar sinais de instabilidade emocional e mental. Após algumas crises e tentativas de suicídio, foi internado num hospital psiquiátrico até 1984. No mesmo ano, ele passou a cursar enfermagem. Queria reaver a vida. Era um excelente aluno, conseguindo uma disputada vaga de emprego por suas notas. Em 1987, se casou.  Mas começou a furtar medicamentos para se drogar e tentar se suicidar. Também foi nesse hospital que começou a sua carreira de crimes. De 1988 a 1992, ele realizou eutanásia e causou overdoses de insulina em dezenas de pacientes. Ao mesmo tempo, contaminava sacos intravenosos e soros, causando mais óbitos. Uma investigação inicial foi realizada.

Ele era o caçula de uma família católica profundamente religiosa. Seu pai era motorista de ônibus e sua mãe ficava em casa para criar seus filhos. O seu pai morreu quando ainda era criança. Em vida, Meme Cullen estuprou o filho. Charles tentou o suicídio pela primeira vez aos nove anos de idade, bebendo produtos químicos. Esta seria a primeira de 20 tentativas de suicídio ao longo de sua vida. A sua mãe morreu quando ele tinha 17 anos. Isso o fez desistir do ensino médio e se alistar na Marinha dos Estados Unidos da América, em 1978, até ser dispensado em 1984. Depois de deixar a Marinha, ele fez um curso de enfermaria e conseguiu um emprego no hospital St. Barnabas Medical Center em Livingston, Nova Jersey. Historicamente Charles Cullen “cometeu seu primeiro assassinato em 11 de junho de 1988”. O juiz John W. Yengo (1916-1988) havia sido internado no St. Barnabas por conta de uma reação alérgica a uma droga para afinar o sangue. Cullen administrou uma overdose letal de medicação por via intravenosa. Ele admitiu ter matado 11 pacientes em St. Barnabas, incluindo um paciente de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) é causada pelo Vírus da Imunodeficiência Humana, que foi reconhecido em meados de 1981, e que morreu após receber uma overdose de insulina. O vírus pode ser transmitido pelo contato com sangue, sêmen ou fluidos vaginais infectados.

Apesar de médicos terem apontado Charles Cullen como responsável pelos homicídios, “não foi possível reunir provas o suficiente para uma sentença”. Ele, então, foi demitido. Pouco tempo depois, entrou em outro centro médico, onde matou três idosas por overdose de um medicamento cardiovascular. Uma das senhoras até denunciou Cullen, mas a família achou que tinha sido um delírio da hospitalizada. Em 1993, se divorciou e perdeu a guarda das filhas, o que desencadeou um surto no rapaz, que invadiu a casa de uma colega e tentou molestar mãe e filho. Após o ocorrido, ele foi internado compulsoriamente pela Justiça, para que tratasse sua depressão. Após receber alta, ele voltou a trabalhar em hospitais pelo noroeste dos Estados Unidos da América (EUA) que, por falta de profissionais, não buscavam os históricos dos médicos. Porém, em 2002, Cullen foi flagrado ao consumir medicamentos do estoque, o que gerou um inquérito e a sua demissão. Na sequência, ex-colegas alertaram “a polícia sobre suspeitas de que Cullen aplicava drogas para matar pacientes, o que nunca foi provado. Cullen admitiu seus crimes e foi preso em 2003, e desde então cumpre prisão perpétua por 40 homicídios”. No entanto, análises precisas estimam que o enfermeiro matou ao menos 400 pacientes.

Falar em objeções e respostas, em contraposição de argumentos numa questão como essa, é o mesmo que confessar que a razão humana é um simples jogo de palavras, ou que a pessoa que assim se exprime não está à altura desses assuntos. Há demonstrações difíceis de compreender socialmente, por causa do caráter abstrato de seu tema; nenhuma demonstração, porém, uma vez compreendida, pode conter dificuldades que enfraqueçam sua autoridade. É uma máxima estabelecida da metafísica que tudo que a mente concebe claramente inclui a ideia da existência possível, ou, em outras palavras, que nada que imaginamos é absolutamente impossível. Não poderia haver descoberta mais feliz para a solução de todas as controvérsias em torno das ideias, que compreendemos, as impressões sempre precedem as ideias, e que toda ideia contida na imaginação apareceu primeiro em uma impressão correspondente. As percepções deste último tipo são todas tão claras e evidentes que não admitem discussão, ao passo que muitas de nossas ideias são tão obscuras que é quase impossível, mesmo para a mente humana que as forma, dizer qual é exatamente sua natureza e composição. Façamos uma aplicação desse princípio, a fim de descobrir algo mais sobre a natureza de nossas ideias de espaço e tempo.   

Melhor dizendo, que as ideias da memória são mais vivas e fortes que as da imaginação, e que a primeira faculdade pinta seus objetos em cores mais distintas que as que possam ser usadas pela última. Ao nos lembrarmos de um acontecimento passado, sua ideia invade nossa mente com força, ao passo que, na imaginação, a percepção é fraca e lânguida, e apenas com muita dificuldade pode ser conservada firme e uniforme pela mente durante todo o período considerável de tempo. Temos aqui uma diferença sensível entre as duas espécies de ideias. Mas há uma outra diferença, não menos evidente, entre esses dois tipos de ideias. Embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vívidas nem as fracas possam surgir na mente antes que impressões correspondentes tenham vindo abrir-lhes o caminho, a imaginação não se restringe à ordem das impressões originais, ao passo que a memória está amarrada a esse aspecto, sem nenhum poder de variação. É evidente que a memória preserva a forma original sob a qual seus objetos se apresentaram. A principal função da memória não é preservar as ideias simples, mas sua ordem e posição. Esse princípio se apoia em aspectos comuns e vulgares do dia a dia que podemos nos poupar o trabalho de continuar insistindo nele. 

Como a imaginação pode separar todas as ideias simples, e uni-las novamente da forma que bem lhe aprouver, nada seria mais inexplicável que as operações dessa faculdade, se ela não fosse guiada por alguns princípios universais, que a tornam, em certa medida, uniforme em todos os momentos e vivência e lugares praticados. Fossem as ideias inteiramente soltas e desconexas, apenas o acaso as ajuntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se reunissem de maneira regular em ideias complexas se não houvesse algum laço de união entre elas, alguma qualidade associativa, pela qual uma ideia naturalmente introduz outra. Esse princípio de união entre as ideias não deve ser considerado uma conexão inseparável, tampouco devemos concluir que, sem ele a mente não poderia juntar duas ideias – pois nada é mais livre que essa faculdade. Devemos vê-lo apenas como uma força suave, que comumente prevalece, e que é a causa pela qual, entre outras coisas, as línguas se correspondem de modo tão estreito umas às outras: pois a natureza aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideia complexa. As qualidades não dão origem a tal associação, e que levam a mente, dessa maneira, de uma ideia a outra, são três, a saber: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço, e causa e efeito. Dois objetos podem ser considerados como estando inseridos nessa relação, seja quando um deles é a causa de qualquer ação ou movimento do outro, seja quando o primeiro é a causa da existência do segundo.

A ação ou movimento não é senão o próprio objeto, considerado sob um certo ângulo, e como o objeto continua o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil imaginar de que forma tal influência dos objetos uns sobre os outros pode conectá-los na imaginação. Podemos prosseguir com esse raciocínio, observando que dois objetos estão conectados pela relação causa e efeito não apenas quando produz um movimento ou uma ação qualquer no outro, no outro, mas também quando tem o poder de os produzir. Essa é a fonte das relações de interesse e dever através dos quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade que se ligam pelos laços de governo e subordinação. Um senhor é aquele que, por sua situação, decorrente da força ou acordo, tem o poder de dirigir, sob alguns aspectos particulares, as ações de outro homem. Um juiz de direito é aquele que, em todos os casos litigiosos entre a figuração dentre os membros que formam os grupos da sociedade, é capaz de decidir, com sua opinião a quem cabe à posse ou a propriedade de determinado objeto. Quando uma pessoa possui certo poder, nada mais é necessário para convertê-lo em ação social que o exercício da vontade; e isso, em todos os casos, é considerável possível, e em muitos, provável – especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súdito é um prazer e uma vantagem para seu superior.

Está claro que, no curso de nosso pensamento social e na constante circulação de nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia a qualquer outra que seja semelhante a ela. Assim como existe o nascimento de uma semiologia e sociologia da celebridade, uma economia da celebridade e tal qualidade, por si só, constitui um vínculo afetivo e uma associação suficiente para a fantasia. É também evidente que, com os sentidos, ao passarem de um objeto a outro, precisam fazê-lo de modo regular, tomando-os sua contiguidade uns em relação aos outros, a imaginação adquire, por um longo costume, o mesmo método de pensamento, e percorre as partes do espaço e do tempo ao conceber seus objetos. Quanto à conexão realizada pela relação de causa e efeito, basta observar que nenhuma relação produz uma conexão mais forte na fantasia e faz com que uma ideia evoque mais prontamente outra ideia que a relação de causa e efeito entre seus objetos. Para compreender toda a extensão dessas relações sociais, devemos considerar que dois objetos estão conectados na imaginação. Não somente quando um deles é semelhante ou contíguo ao outro, ou quando é a representação da causa. Mas quando entre eles encontra-se inserido um terceiro objeto, que mantém com ambos alguma dessas notáveis relações. Dentre relações mencionadas, a de causalidade é a de maior extensão.

          O ciclo de 16 anos impune começou a ser quebrado quando um médico legista examinou o caso de Ottomar Schramm (1920-1998), um homem de 78 anos que morreu de uma overdose de dioxina, uma droga que ele não precisava, em dezembro de 1998 no Easton Hospital. O legista afirmou que havia um “anjo da morte” no hospital e colegas de trabalho testemunharam sobre um enfermeiro entrando sorrateiramente nos quartos de pacientes que mais tarde morreram. Em 2002, uma enfermeira do Hospital St. Luke encontrou embalagens descartadas de medicamentos em uma quantidade anormal. A suspeita estava plantada. Uma investigação mais cuidadosa levou outras enfermeiras a observar Cullen e detectar um comportamento estranho, onde ele entrava com seringas nos quartos dos pacientes sem que fosse requisitado. Elas informaram a polícia, alegando junto que encontraram pacotes abertos do medicamento que matou Diane Mackrell (1956-2017) e Esther Stoneback, em cujos quartos haviam visto Charles. A polícia enfim começou a investigar Cullen. Os crimes acabaram apenas em dezembro de 2003, quando as autoridades conseguiram reunir provas suficientes contra ele e prendê-lo pelo assassinato do Reverendo Florian J. Gall (1934-2003) e também pela tentativa de assassinato de Tin Kyushu Han, ambos pacientes do Hospital Somerset. Cullen admitiu seus crimes e foi preso em 2003. Nos anos seguintes, seja por suas próprias confissões ou por investigação policial, 40 vítimas foram encontradas nos hospitais que trabalhou. Mas estimativas de especialistas e investigadores no caso colocam o número total de assassinatos em mais de 400.  

Testemunhar a morte de sua mãe impotente, sem ter nenhum controle para salvá-la, deve tê-lo afetado severamente. A vida de Cullen após a morte de Florence foi miserável. Ele se juntou à Marinha, apenas para ser intimidado, o que também o levou a tentar se matar, conforme “60 Minutes”. O trauma de tal desamparo pode ter se repetido quando a então esposa de Cullen, Adrienne Taub, se separou dele com suas duas filhas. Como o filme demonstra, Charles Cullen e sua ex-esposa tiveram batalhas pela custódia de seus filhos, mas o serial killer não conseguiu vencê-las, deixando-o sem controle sobre a vida de suas filhas como pai. Cullen pode ter tentado ganhar tal senso de controle reescrevendo o destino dos outros. De acordo com Charles Graeber, o autor do texto fonte do filme, ganhar controle e poder foram motivos fundamentais de Cullen. - “Se o resto de sua vida estivesse saindo de seu controle, se ele estivesse perdendo a custódia, se estivesse se sentindo deprimido, se sua vida amorosa estivesse no banheiro, ele poderia envenenar pacientes, ele poderia salvar pacientes, ele poderia tomar decisões, ele tinha uma arena na qual importava e onde suas ações tinham consequências definitivas”, disse o autor a Steve Kroft por “60 Minutes”. Em última análise, Graeber, que entrevistou o serial killer várias vezes para seu livro, acredita que Cullen matou porque podia. - “Nunca foi sobre ninguém além de Charlie Cullen. Ele fez o que fez por causa de suas próprias necessidades, suas próprias compulsões”, disse Graeber na mesma entrevista concedida ao “60 Minutes”. - “Ele se vê como uma vítima. E como vítima, ele tem o direito de atacar da maneira que quiser para consertar as coisas, se isso significa matar vítimas. É apenas – qualquer coisa sua vitimização”, acrescentou. As vítimas de Cullen não eram apenas pacientes terminais, mas também pacientes cujas vidas não estavam ameaçadas ou por um fio. 

Várias de suas vítimas estavam recuperando pacientes que teriam deixado o hospital em breve sem complicações. De acordo com The Good Nurse: A True Story of Medicine, Madness, and Murder, de Charles Graeber, o texto fonte do filme, Cullen afirmou que queria que os pacientes não fossem “codificados” e morressem. Ele também aparentemente queria evitar que o pessoal do hospital “desumanizasse” os pacientes. A explicação não explica por que ele teve que matar Eleanor Stoecker, que estava se recuperando e sem dor, ou Michael Strenko, que sofria de uma doença autoimune e estava se recuperando de uma cirurgia de remoção de baço de rotina. Quando Kroft perguntou a Cullen por que ele matou pacientes que não esperavam a morte, Cullen não teve nenhuma resposta satisfatória. - “Você sabe, de novo, você sabe, quero dizer, meu objetivo aqui não é justificar. Você sabe o que eu fiz, não há justificativa. Hum, eu só acho que a única coisa que posso dizer é que me senti sobrecarregado na época”, disse Cullen a Kroft. - “Foi mais ou menos, sabe, senti que precisava fazer alguma coisa e fiz. Isso não é uma resposta para nada,”. Os então detetives do condado de Somerset, Tim Braun e Daniel Baldwin, que capturaram Cullen, acreditam que ele matou por uma sensação de controle. “Ele poderia salvar uma vida ou tirar uma vida. E em muitos casos, ele escolheu tirar uma vida”, disse Braun ao “60 Minutes”. Olhando para seu passado, Cullen teve que passar por várias experiências em que aparentemente não tinha nenhum tipo de controle sobre sua vida. Quando sua mãe Florence Cullen morreu quando ele tinha 17 anos, de acordo com “60 Minutes”, Cullen tentou se matar.

Bibliografia geral consultada.

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