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sábado, 6 de setembro de 2025

Bolsa Preta – História, Verdade & Efeitos de Poder na Cinematografia.

 A liberdade de consciência traz mais perigos do que a autoridade e o despotismo”. Michel Foucault

            

         O Big Ben é o nome dado etnograficamente de um grande sino instalado na torre Noroeste do Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, localizado em Londres, no Reino Unido. O nome oficial da torre em que o Big Ben está localizado era originalmente Clock Tower, mas ela foi renomeada como Elizabeth Tower em 2012 para marcar o Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II (1952-2022). A torre foi inaugurada durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Estado da Inglaterra, em 1859. A torre foi construída em estilo neogótico e tem 96 metros de altura, tendo sido concluída em 1858 e iniciado suas atividades em 7 de setembro de 1859. A Torre do Big Ben é um ícone cultural britânico, um dos símbolos mais proeminentes na história social do Reino Unido e frequentemente em cenas de filmes, séries de televisão, programas ou documentários ambientados em Londres. Em 15 de fevereiro de 1952 tocou 56 vezes, todos os minutos durante o funeral do rei Jorge VI, falecido com 56 anos de idade. Em 27 de julho de 2012 tocou durante 3 minutos de forma programada das 8 horas e 12 minutos às 8horas e 15 minutos para anunciar a Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. Foi a primeira vez que o sino tocou fora de sua programação normal desde o funeral do Rei Jorge VI, em 1952. A torre abriga o maior relógio composto de quatro lados do mundo e é considerada a décima quarta torre de relógio mais alta do mundo contemporâneo. O funcionamento do relógio é famoso por sua confiabilidade. Os designers foram o advogado e horologista amador Edmund Beckett Denison e George Airy, o Astrônomo Real. A construção foi confiada ao relojoeiro Edward John Dent (1790-1853); após sua morte em 1853, seu enteado Frederick Dent concluiu o trabalho, em 1854. 

        Como a torre não estava completa até 1859, Denison teve tempo para experimentar: em vez de usar o especificamente o escapamento deadbeat e remontoire como originalmente projetado, Denison inventou tecnologicamente o escapamento gravitacional duplo de três pernas que fornece a melhor separação entre o pêndulo e o mecanismo do relógio. O pêndulo é instalado dentro da caixa à prova de vento fechada sob a sala do relógio. Tem 13 pés (4,0 m) de comprimento, pesa 660 libras (300 kg), é suspenso em tira de aço para molas de 1⁄64 polegadas (0,40 mm) de espessura e bate a cada 2 segundos. O mecanismo de relógio em sala abaixo pesa cinco toneladas. No topo do pêndulo está uma pequena pilha de moedas antigas; estes são para ajustar a hora do relógio. Adicionar uma moeda tem o efeito de levantar minuciosamente a posição do centro de massa do pêndulo, reduzindo o comprimento efetivo da haste do pêndulo e, portanto, aumentando a taxa de oscilação do pêndulo. Adicionar ou remover um centavo mudará a velocidade do relógio em 0,4 segundos por dia. O relógio tem corda manual, levando cerca de 1,5 horas três vezes por semana. Em 10 de maio de 1941, um bombardeio alemão danificou duas faces do relógio e seções do telhado da torre e destruiu a Câmara dos Comuns. O arquiteto Sir Giles Gilbert Scott (1880-1960) projetou um novo bloco de cinco andares. Dois andares são ocupados pela câmara usada pela primeira vez em 26 de outubro de 1950. 

       O relógio funcionou com precisão e soou durante toda a Blitz. Antes de 1878 o relógio parou pela primeira vez em sua história, “devido a uma forte queda de neve” nos ponteiros de um relógio. Entre 21 de agosto de 1877 e janeiro de 1878 o relógio foi parado por três semanas para permitir que a torre e o mecanismo fossem limpos e reparados. A velha roda de escape foi substituída. A tarefa de descrever os nexos do agir comunicativo não consiste simplesmente em explanação o mais precisa possível do sentido das exteriorizações simbólicas que compõem a sequência observada? Certamente precisamos distinguir entre as realizações interpretativas de um observador que tenha a intenção de entender o sentido de uma exteriorização simbólica, de um lado, e as realizações interpretativas dos participantes da interação, de outro, os quais coordenam suas ações socialmente por meio do mecanismo de entendimento. Diversamente dos que têm envolvimento direto, o intérprete não está empenhado em chegar a uma interpretação passível de consenso, para que possa conciliar seus planos de ação com os dos outros atores. Mas talvez as realizações interpretativas de observador e participante se distingam somente em sua função e não em sua estrutura. Jürgen Habermas, um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt (cf. Jay, 2008), sustenta a seguinte tese acadêmica: ações comunicativas não podem ser interpretadas de outro modo senão de um modo racional. A sociologia tem de procurar um acesso compreensivo a seu campo objetal porque encontra nele processos de entendimento pelos quais e nos quais o campo objetal já se havia constituído de antemão, antes de qualquer intervenção teorética.                         


            O campo de objetos das Ciências Sociais abrange tudo a que se a descrição “parte constituinte de sua vida”. O que significa essa expressão pode ser aclarado intuitivamente por meios de remissões aos objetos simbólicos que criamos ao falar e agir: a começar por exteriorizações imediatas, como atos da fala, atividades voltadas a um fim, cooperações, passando por sedimentos dessas exteriorizações, como textos, transmissões orais, documentos, obras de arte, teorias, objetos da cultura material, bens, técnicas, etc., até construtos criados por via indireta, aptos a organizar-se, que se estabilizam por si mesmos tais como instituições, sistemas sociais e estruturas de personalidades. Falar e agir são conceitos fundamentais inexplicados, aos quais recorremos quando queremos aclarar, mesmo de maneira provisória, o pertencer a um mundo da vida sociocultural, o ser-parte de um mundo como esse. O problema do “compreender” nas ciências humanas e sociais ganhou importância metodológica sobretudo porque o cientista não consegue acesso à realidade simbolicamente pré-estruturada somente por meio da observação, e porque a compreensão de sentido não se deixa controlar metodicamente da mesma maneira que a observação em experimentos científicos. O cientista social não tem acesso diverso ao mundo a vida do que tem o leigo em ciência sociais. De certa maneira, ele já tem de fazer parte do mundo da via cujas partes constituintes pretende descrever e explicar.   

Nas ciências humanas e sociais, segundo Habermas (2012: 202), sem temor a erro, os procedimentos de interpretação racional contam com uma reputação questionável, apenas crítica. Originalmente no âmbito filosófico a crítica ao platonismo modelar vinculado às ciências econômicas demonstra que alguns intérpretes contestam o teor empírico e a fertilidade elucidativa dos modelos racionais de decisão; restrições às abordagens cognitivistas da ética filosófica e reparos à crítica da ideologia formada principalmente na tradição hegeliano-marxista revelam que outros, por sua vez, duvidam da possibilidade de uma fundamentação prático-moral de normas coercitivas de ação social e da compensação entre interesses particulares e interesses passíveis de generalização; e a difundida crítica à cientificidade da psicanálise revela que muitos já consideram problemática a concepção do inconsciente e o conceito do significado duplo e potencialmente manifesto, que se considera próprio às exteriorizações de vivências. São restrições que se baseiam em assunções fundamentais empiristas questionáveis. Ações comunicativas sempre exigem uma interpretação que seja racional desde o início. No agir comunicativo o ponto de partida da interação torna-se dependente de que os envolvidos tenham sido capazes de acordo sobre um julgamento intersubjetivamente válido de suas referências ao mundo.   Segundo esse modelo de ação, uma interação só pode lograr êxito à medida em que os envolvidos cheguem a um consenso uns com os outros; e esse consenso, por sua vez, depende de posicionamentos do tipo sim/não em face de preensões potencialmente baseadas em razões.

            Black Bag tem como representação social um filme de suspense e espionagem norte-americano de 2025, dirigido por Steven Soderbergh e escrito por David Koepp, o nono roteirista mais bem sucedido de todos os tempos em termos de bilheteria nos Estados Unidos, com um ganho comercial total de 2,3 bilhões de dólares. Soderbergh também foi, eventualmente, freelance como editor de filmes. Tornou-se famoso por executar várias funções policompetentes, segundo E. Morin, dentro de um mesmo filme, como direção de fotografia, edição, direção e roteiro. Writers Guild of America (WGA) é um esforço conjunto de dois diferentes sindicatos dos Estados Unidos que representam os roteiristas da televisão e cinema: O Writers Guild of America, East com sede em Nova Iorque e o Writers Guild of America, West com sede em Los Angeles. Como a WGA proíbe que o cineasta exerça múltiplas funções dentro de um filme, ele assina sua obra sob diferentes pseudônimos. É estrelado por Cate Blanchett, Michael Fassbender, Marisa Abela, Tom Burke, Naomie Harris, Regé-Jean Page e Pierce Brosnan. No filme, o oficial de inteligência britânico George Woodhouse (Fassbender) é “designado para investigar uma lista de suspeitos de traição, um dos quais é sua esposa, Kathryn (Blanchett)”. O filme foi anunciado em janeiro de 2024, após a confirmação das participações de Soderbergh, Blanchett e Fassbender. O restante do elenco foi formado em março e as filmagens começaram em maio, com filmagens em Londres e no Pinewood Studios. Black Bag foi lançado nos cinemas primeiro na França em 12 de março de 2025, pela Universal Pictures, e nos Estados Unidos da América sendo dois dias depois, pela Focus Features. Recebeu críticas positivas e arrecadou comercialmente US$ 43,4 milhões em todo o mundo.

      Desnecessário dizer que o auge da popularidade dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da chamada Guerra Fria se misturaram ao desejo notável do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense. O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa época. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a série Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton, nascido em Marylebone, Londres, em 18 de fevereiro de 1929, é um escritor britânico, de história, culinária e romances. Seu pai era um motorista e mecânico, e sua mãe era uma cozinheira. Depois de deixar a escola, trabalhou como balconista de trem, antes de executar seu serviço nacional, passou como fotógrafo especial Investigation Branch (ramo investigativo) da Força Aérea Real. Após a alta da RAF, ele estudou na Escola de St. Martin of Art, em Londres, em 1949, e em 1952 ganhou uma bolsa de estudos para o Royal College of Art, graduando-se em 1955. Sociologicamente a chamada Guerra Fria representa a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, compreendendo o período entre o final da 2ª guerra Mundial (1940-1945) e a dissolução da União Soviética correu em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a Independência das antigas repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

A conjuntura anterior representou um conflito extraordinário de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações, no plano das relações políticas e econômicas e suas zonas conflitantes de influência político-militar. É chamada guerra “fria” porque não houve guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de armas nucleares foi o objetivo central durante a primeira metade da chamada “Guerra Fria”, estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativada nos anos 1980 com o projeto do presidente dos Ronald Reagan chamado de “Guerra nas Estrelas”. Ronald Wilson Reagan foi um ator e político norte-americano, o 40.º presidente dos Estados Unidos e o 33º governador da Califórnia. Nascido e criado em pequenas cidades de Illinois, formou-se em economia e sociologia no Eureka College e em seguida trabalhou como radialista esportivo. A corrida espacial foi um dos episódios que marcaram a segunda metade do século XX e foi resultado direto da Guerra Fria. Ocorrida especificamente entre os anos de 1957 e 1975, a corrida espacial ficou caracterizada pela intensa exploração no espaço realizada por americanos e soviéticos. Um dos episódios geopolíticos de maior relevância da corrida espacial foi a estratégia global ocorrida com a chegada do homem à Lua. É neste âmbito de transformações sociais e políticas globais polarizadas que emerge na esfera política o Socialisme ou Barbarie representando um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem de uma frase da economista marxista e dialética de Rosa Luxemburgo usada em um ensaio de 1916, The Junius Pamphlet.             

O funcionário se prepara para uma carreira por concurso público, o que não impede que ocorra por determinado tempo a vigilância hierárquica para o cargo no serviço público. Foi esse tipo específico de poder que Michel Foucault chamou de “disciplina” ou “poder disciplinar”. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestra-lo. O que lhe interessa não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controla-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. É um objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos sociais de contrapoder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir expressivamente a sua força política. Situemos as suas características básicas. 

Em primeiro lugar, a disciplina é um tipo de organização do espaço. É uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. Isola praticamente em um espaço fechado, esquadrinhado, hierarquizado, capaz de desempenhar funções diferentes segundo o objetivo específico que deles se exige. Mas, como relações de poder disciplinar não necessitam de espaço fechado para se realizar, é essa sua característica menos importante. Em segundo lugar, e mais fundamentalmente, a disciplina é um controle do tempo. Isto é, ela estabelece uma sujeição do corpo ao tempo, com o objetivo de produzir o máximo de rapidez e o máximo de eficácia. Em terceiro lugar, a vigilância é um dos seus principais instrumentos de controle. Não uma vigilância que reconhecidamente se exerce de modo fragmentar e descontínuo; mas que é ou precisa ser vista pelos indivíduos que a ela estão expostos como forma contínua, perpétua, permanente; que não tenha limites, penetre nos lugares mais recônditos, esteja presente em toda extensão do espaço. Olhar invisível que permite impregnar quem é vigiado de tal modo que este adquira de si mesmo a visão panóptica de quem o olha. A disciplina implica um registro contínuo de conhecimento. O olhar que observa para controlar não é o mesmo que transfere as informações para os pontos mais altos da hierarquia do poder? Seu objetivo econômico e político é tornar o homem útil e dócil. A grande importância estratégica que as relações de poder disciplinar desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX, vem do fato delas não serem negativas.

Mas positivas, quando tiramos desses termos qualquer juízo de valor moral ou político e pensarmos unicamente na tecnologia empregada. É então, que, segundo Foucault, surge uma das teses fundamentais da genealogia: “o poder é produtor de individualidade”. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. Atuando sobre uma massa confusa, desordenada e desordeira, o esquadrinhamento disciplinar faz nascer uma multiplicidade ordenada no seio da qual o indivíduo emerge como alvo do poder. O nascimento da prisão em fins do século XVIII, não representou uma massificação com relação ao modo como anteriormente se era encarcerado. O nascimento do hospício não destruiu a especificidade da loucura. É o hospício, ao contrário, que produz o louco como doente mental. Um personagem individualizado a partir da instauração de relações disciplinares. E antes da constituição das ciências humanas, no século XIX, a organização das paróquias, a institucionalização do exame de consciência e da direção espiritual e a reorganização do sacramento da confissão, que aparecem como importantes dispositivos de individualização. Em suma, o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importes efeitos. O objetivo é neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações reais ou imaginárias de suas condições particulares de existência, instalando-se na neutralidade objetiva no âmbito do universal e da ideologia originalmente e um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições reais de existência.

Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios do saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria a sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise teórica é que saber e poder se implicam mutuamente; não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo comparativamente falando, que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. 

A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e intelectual específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. 

            Historicamente o gênero de filmes de espionagem começou na Era do Cinema Mudo, com a paranoia da literatura de invasão e o início da 1ª grande guerra (1914-1918). Esses medos produziram o britânico The German Spy Peril, de 1914, concentrado em uma conspiração para explodir o Parlamento, e o OHMS, de 1913, que significa “Our Helpless Millions Saved” (Nossos Milhões Desamparados Salvos), bem como On His Majesty`s Service e apresentando pela primeira vez uma personagem feminina forte que ajuda o herói). Em 1928, Fritz Lang dirigiu o filme Espiões, que continha muitos tropos que se tornariam populares em dramas de espionagem posteriores, incluindo quartéis-generais secretos, um agente reconhecido por um número e a bela agente estrangeira que se apaixona pelo herói. Os filmes de Dr. Mabuse de Lang, também contêm elementos de thrillers de espionagem, embora o personagem central seja “um gênio do crime interessado apenas em espionagem para fins lucrativos”. Além disso, vários filmes norte-americanos de Lang, como “Os Carrascos Também Morrem” abordam espiões durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Por outro lado, Alfred Hitchcock contribuiu significativamente para a popularização do cinema de espionagem na década de 1930 com seus influentes thrillers “O Homem Que Sabia Demais” (1934), “Os 39 Degraus” (1935), “Sabotagem” (1937) e “A Dama Oculta” (1938). Estes filmes frequentemente envolviam civis inocentes envolvidos em conspirações internacionais ou redes de sabotadores no front doméstico, como em “Sabotador” (1942).

Alguns, no entanto, tratavam de espiões profissionais, como em “O Agente Secreto” (1936), de Hitchcock, baseado nas histórias de Ashenden, de W. Somerset Maugham, ou na série “Mr. Moto”, baseada nos livros de John P. Marquand. Nas décadas de 1940 e início de 1950, diversos filmes foram produzidos sobre as façanhas de agentes aliados na Europa ocupada, o que poderia ser considerado um subgênero. 13 Rue Madeleine e OSS eram histórias fictícias sobre agentes americanos na França ocupada pelos alemães. Houve vários filmes baseados em histórias reais de agentes britânicos do Serviço de Energia Atômica (S.O.E.), incluindo Odette e Carve Her Name With Pride. Um exemplo ficcional mais recente é Charlotte Gray – Paixão sem Fronteiras (2001), baseado no romance de Sebastian Faulks. Também durante o período, houve muitos filmes de detetive, The Thin Man Goes Home e Charlie Chan em Serviço Secreto, por exemplo, em que o mistério envolvia a estratégia de quem provavelmente roubou os projetos secretos ou quem sequestrou o famoso cientista. Em meados da década de 1950, Alfred Hitchcock retornou ao gênero de espionagem com O Homem Que Sabia Demais (1956), representando um remake de seu filme de 1934. Ele seguiu em 1959 com Intriga Internacional (1959), amplamente considerado uma das obras mais influentes do gênero de espionagem. O auge da popularidade comercial dos filmes de espionagem é frequentemente considerado a década de 1960, quando os medos da Guerra Fria se misturaram ao desejo do público de ver filmes emocionantes e cheios de suspense.

O filme de espionagem desenvolveu-se em duas direções nessa conjuntura histórica nacionalista. Por um lado, os romances realistas de espionagem de Len Deighton e John le Carré foram adaptados para thrillers relativamente sérios da Guerra Fria que lidavam com algumas das realidades do mundo da espionagem. Alguns desses filmes incluem The Spy Who Came in from the Cold (1965), The Deadly Affair (1966), Torn Curtain (1966) e a serie Harry Palmer, baseada nos romances de Len Deighton. Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com Sean Connery como a estrela. Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. A televisão também entrou em ação com séries como The Man from UNCLE e I Spy nos EUA, e Danger Man e The Avengers, na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até os dias atuais com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo renascimento no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Em outra direção, os romances de James Bond de Ian Fleming foram adaptados em uma série cada vez mais fantástica de filmes de aventura irônicos pelos produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, com o extraordinário Sean Connery (1930-2020) como a estrela (cf. Morin, 1993). Eles apresentavam supervilões secretos e extravagantes, um arquétipo que mais tarde se tornaria “um grampo da explosão de filmes de espionagem em meados do final da década de 1960”. O sucesso fenomenal da série Bond leva a uma enxurrada de imitadores, como o gênero eurospy e vários da América. Exemplos notáveis ​​incluem os dois filmes de Derek Flint (1966) estrelados por James Coburn, The Quiller Memorandum (1966) com George Segal, e a série Matt Helm com Dean Martin. É um personagem de ficção criado pelo escritor norte-americano Donald Hamilton em 1960. Um agente secreto especializado em contraespionagem, diferente do espião relativamente comum, para ser diferenciado de James Bond, criado em 1953 por Ian Fleming, por seu autor, apareceu em 27 livros escritos entre 1960 e 1993. A televisão também entrou em ação com séries competitivamente no mercado como The Man from UNCLE e I Spy nos Estados Unidos da América, e Danger Man e The Avengers na Grã-Bretanha. Os espiões permaneceram populares na TV até hoje com séries como Callan, Alias ​​e Spooks. Os filmes de espionagem também tiveram um certo “renascimento” no final da década de 1990, embora frequentemente fossem filmes de ação com elementos de espionagem ou comédias como Austin Powers. Alguns críticos identificam uma tendência de afastamento da fantasia em favor do realismo, como observado em Syriana, na série de filmes Bourne e nos filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig desde Cassino Royale (2006).

Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e o específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. O importante é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. 

A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade analítica de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro. É preciso repensar os problemas políticos dos intelectuais não mais em termos exclusivos da relação entre ciência e ideologia, mas sem abandoná-la, tendo em vista que a universidade pública é um domínio de casta, “a forma natural pela qual costumam socializarem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com os membros de comunidades exteriores e o relacionamento social. Essa situação de casta é parte do fenômeno de povos párias e se encontra em todo o mundo” (cf. Weber, 1982), a análise pode ser religada na medida em que a questão da profissionalização do intelectual, da divisão entre trabalho intelectual, na esfera pública pode ser retomada. A verdade está ligada a sistemas de poder que a produzem e apoiam, e a efeitos de poder que ela induz e a reproduzem. Ipso facto, o problema político essencial para o intelectual não é apenas criticar os conteúdos ideológicos que privilegiam grupos no sistema educacional que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por métodos de inclusão democráticos. O que está em jogo num sistema de castas, que tomou o poder na universidade pública  nos últimos 20 anos, é se podemos constituir uma nova arena política da verdade. Mas não se trata de libertar a verdade do sistema de poder, mas de desvincular o poder da verdade das formas com as quais ele legitima suas formas de saber. A genealogia exige a minúcia do saber, evidenciando um grande número de materiais acumulados. 

Na universidade estes materiais se esgueiram como sombras. Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca do que lhe é originário, mas ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos projetos interrompidos pelos predecessores, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro, num trabalho de escavação incessante no campus, nos arquivos, sem deixar-lhes o tempo emascular o labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob a guarda. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas que dão conta dos atavismos e das hereditariedades. A história, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos, suas grandes agitações febris como suas síncopes, é o próprio corpo do devir. É preciso ter um espírito metafísico para encontrar na alma a idealidade distinta. A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Bastam para tanto que façamos a análise genealógica em sua atenção “desinteressada”, em sua ligação à objetividade.

Longe de ser uma categoria de semelhança, tal origem permite ordenar, para coloca-las a parte, todas as marcas diferentes. O genealogista parte em busca do começo, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissocia o Eu e fazer pulular lugares e recantos de sua síntese vazia, entre acontecimentos aparentemente perdidos. A proveniência permite também reencontrar sob o aspecto único de um caráter ou de um conceito a proliferação dos acontecimentos através dos quais eles se formaram. Metodologicamente a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando-o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios, os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente. Na universidade basta o que ficou da gestão passada para compreendermos o presente. Na vã política em geral e particularmente na gestão acadêmica o passado nos condena.

A cena pública da verdade é sempre a mesma em que repetem indefinidamente os dominadores e os dominados. Homens dominam outros homens e é assim que nasce a diferença de valores; classes dominam classes e é assim que nasce a ideia de liberdade, homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força – e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma relação, nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. Universo de regras que não é destinado a adoçar, mas ao contrário a satisfazer a violência. A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. A humanidade não progride lenta de combate em combate, ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim num processo ad infinitum de dominação em dominação. É justamente a regra que permite que seja feita a violência à violência e que uma outra dominação possa dobrar aqueles que dominam. 

Em si mesmas as regras são vazias, violentas, não finalizadas; elas são feitas para servir a isto ou aquilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns e outros. O grande jogo da história será, segundo Foucault, de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para perverte-las, utilizá-las ao inverso e volta-las contra aqueles  que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. As diferenças emergenciais que se podem demarcar não são figuras sucessivas de uma mesma significação; são efeitos de substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas. Se interpretar eras colocar lentamente em foco uma significação oculta na origem, apenas a metafísica poderia interpretar o devir da humanidade. Mas se interpretar é se apoderar por violência ou sub-repção, de um sistema de regras que não tem em si significado essencial, e lhe impor uma direção, dobrá-lo a uma nova vontade, fazê-lo entrar noutro jogo e submetê-lo a novas regras, então o devir da humanidade é uma série de interpretações. E a genealogia dever ser a sua história: história das morais, dos ideais (uma universidade de verdade), dos conceitos metafísicos, história do conceito de liberdade ou da vida ascética, como emergências de interpretações diferentes. Trata-se de fazê-las aparecer como acontecimentos reais no teatro dos procedimentos. O genealogista sabe o que é necessário pensar. 

Não que ele a rechace por espírito de seriedade; ele quer leva-la ao extremo: porque quer por em cena um grande carnaval (cf. DaMatta, 1981) do tempo em que as máscaras reapareçam incessantemente. Não queremos perder de vista que a disciplina é, antes de tudo, a análise do espaço. É a individualização pelo espaço, a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. A disciplina exerce seu controle, não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. No século XVII, nas oficinas de tipo corporativo, o que se exigia do companheiro ou do mestre era que fabricasse um produto com determinadas qualidades. A maneira de fabricá-lo dependia da transmissão de geração em geração. Do mesmo modo, se ensinava o soldado a lutar, a ser mais forte do que o adversário na luta individual da batalha. A partir do século XVIII, se desenvolve uma arte do corpo humano. Observa-se de que maneira os gestos são feitos, qual o mais eficaz, rápido e melhor ajustado. Nas oficinas aparece o famoso e sinistro personagem do contramestre, destinado não só a observar se o trabalho foi feito, mas como é feito, como pode ser mais rapidamente realizado e com gestos humanos melhor adaptados. O famoso Regulamento da Infantaria Prussiana, que assegurou as vitórias de Frederico da Prússia (1712-1786), consiste em mecanismos de gestão disciplinar dos corpos. A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. 

Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que o que fizeram é conforme à regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua “pirâmide de olhares”. Mas a disciplina implica um registro contínuo. Anotação do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume da pirâmide disciplinar escape a esse saber. No sistema clássico o exercício do poder era confuso, global e descontínuo, do soberano sobre grupos constituídos por famílias, cidades, paróquias, isto é, por unidades globais, e não um poder contínuo atuando sobre o indivíduo. A disciplina é o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por isso, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento para o exercício do poder. A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um presunçoso método geral. 

Não se trata de fazer aqui a história das diversas instituições disciplinares no que podem ter cada uma de singular: 1) ambas, neste caso, são instituições públicas gerenciadas por uma casta no poder (cf. Weber, 1982; Dumont, 1992); 2) Existe uma série de exemplos de algumas das técnicas essenciais empregadas que, de uma a outra, se generalizaram mais facilmente. Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, são dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza (assédio moral), são eles, entretanto que levaram à mutação do regime punitivo contemporâneo; 3) Descrevê-los metodicamente, nominalmente, implicará a demora sobre o detalhe da corrupção do pensamento e a atenção às minúcias: sob as mínimas figuras, procurar não um sentido, mas uma precaução; recoloca-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática; 4) Astúcias, não tanto de grande razão que trabalha até durante o sono, no sentido analítico freudiano, e dá coerência ao insignificante quando da atenta malevolência que de tudo alimenta. Nunca é demais repetir, a disciplina é uma anatomia política do detalhe. O que nos interessa, sociologicamente, é a racionalização utilitária do detalhe na contabilidade moral e no controle político. A regra das localizações funcionais vai pouco a pouco codificar um espaço que a arquitetura deixava livre e pronto para vários usos.

Bibliografia Geral Consultada.

CASTORIADIS, Cornelius, L`Institution Imaginaire de la Société. Paris: Éditions Du Seuil, 1975; GALLIE, Walter Bryce, Os Filósofos da Paz e da Guerra: Kant, Clausewitz, Marx, Engels e Tolstoi. Rio de Janeiro: Editora Artenova; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979; HORKHEIMER, Max, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; BERNSTEIN, Richard; GIDDENS, Anthony; RORTY, Richard, “et al”, Habermas y la Modernidad. Madrid: Catedra Ediciones, 1994; GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991;  DUMONT, Louis, Homo Hierarchicus. O Sistema de Castas e suas Implicações. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992; WEBER, Max, Parlamento e Governo na Alemanha Reordenada: Crítica Política da Burocracia e da Natureza dos Partidos. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1993; GOTTRAUX, Philippe, Socialisme ou Barbarie, un Engagement Politique et Intellectuel dans la France de l`après Guerre. Suisse: Editions Payot Lausanne, 1997; KEHL, Maria Rita, Ressentimento. São Paulo: Editor Casa do Psicólogo, 2007; JAY, Martin, A Imaginação Dialética: História da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisas Sociais, 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2008; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; Idem, Nietzsche, Marx, Freud. Buenos Aires: Ediciones Anagrama, 2010; Idem, Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; FERREIRA, Tiago Alfredo da Silva, Entendimento, Conhecimento e Autonomia: Virtudes Intelectuais e o Objetivo do Ensino de Ciências. Tese de Doutorado em Ensino, História e Filosofia das Ciências. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. Racionalidade da Ação e Racionalização Social. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012; Idem, A Nova Obscuridade: Pequenos Escritos Políticos V. 1ª edição. São Paulo: Editora Unesp, 2015; BENZAQUEM, Guilherme Figueredo, “Quando o Indivíduo se Transforma: Reflexões a partir de Mead, Goffman e Garfinkel”. In: Ponto e Vírgula. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nº 24, 2º semestre de 2018; pp. 97-112; Artigo: “Revisão da Bolsa Preta: O Elegante Thriller de Espião de Steven Soderbergh É Um Bom Tempo Inteligente e Escaldante”. Disponível em: https://universocinema.com.br/7/03/2025; entre outros.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Lulu Santos – Amor & Axiologia, Sinfonia de Silêncios e de Luz.

                                               Nada é mais triste que um amor racional”. Michael Löwy

          A velha tradição anticapitalista da Igreja, lembra-nos Michael Löwy (2014), entra assim em relação de afinidade eletiva com a análise marxista da exploração capitalista e com a crítica dos marxistas latino-americanos, originária da esxtraordinária Teoria da Dependência, ao capitalismo dependente como fundamento estrutural do “subdesenvolvimento”, da miséria e do autoritarismo militar. A solidariedade com o pobre é o ponto de partida deste processo social de elaboração teológica. A grande diferença, a novidade decisiva, o salto qualitativo em relação à concepção católica tradicional do pobre, é que este já não é considerado como “vítima passiva, objeto de caridade e assistência, mas sim como sujeito de sua própria libertação”. Graças a esta ruptura - fruto da experiência prática dos cristãos comprometidos no curso das conjunturas históricas dos anos 1960 e 1970, que tem como primícias a problemática de a interpelação da Teologia da Libertação vai convergir com o princípio político fundamental do marxismo: a emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Enfim, a opção prioritária pelos pobres, aprovada pela Conferência dos Bispos Latino-Americanos de Puebla (1979) é, na realidade, uma fórmula de compromisso, interpretada num sentido tradicional e assistencialista pelas correntes mais moderadas ou conservadoras da Igreja católica, e num sentido radical pelos teólogos da libertação e as correntes mais avançadas do clero: como um engajamento na organização e na luta dos pobres e despossuídos por sua própria libertação. A luta de classes - não só como método de análise da realidade, mas também como guia para a ação - se torna assim um elemento central (implícito ou explícito) na nova teologia. Como escreveu Gustavo Gutierrez Merino: “negar o fato da luta de classes é, na realidade, tomar partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade neste assunto é impossível”. De qualquer forma, para o método marxista, o essencial é o que se passa na realidade.

Enquanto processo de convergência por afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores (comunitários), a certas opções ético-políticas (a solidariedade com os pobres), a utopias do futuro (uma sociedade sem exploração nem opressão). E na medida em que a teologia da libertação é a expressão de uma práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead (1901-1978). Em The Causes of World War Three (1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e intelectuais. Fidel Castro teria então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha.  Mills acreditara que os revolucionários cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes. Durante sua estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination, apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague.

A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. 


No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014). No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas.

Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”. A contribuição social é a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992).

O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o título de Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788). Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens. O termo se torna uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas.

Essa transposição de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado de  metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem-se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês. Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de um tipo de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha que ele passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer. O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante, precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material. 

A afinidade eletiva é talvez um meio para uma busca causal “num segundo momento”, mas isso não significa que ela própria seja uma relação causal. As formulações de Max Weber são suficientemente flexíveis para podemos admitir diferentes leituras de interpretação. Neste ano, Mills mencionou, numa carta a um amigo, que os manuscritos incluíam “uma [versão] completamente reescrita e, acredito de primeira linha, de um ensaio inédito Sobre o Artesanato Intelectual” (“On Intellectual Craftsmanship”). A primeira versão do texto foi escrita em abril de 1952, segundo anotação de Mills no manuscrito, e distribuída para uso em sala de aula em 1955. O texto completo foi publicado em Society, vol.17, n° 2, janeiro 1980, pp.63-70. O texto acabou sendo publicado como apêndice de The Sociological Imagination e tornou-se a parte mais universalmente conhecida e elogiada do livro. Metodologicamente é em torno da ideia de “artesanato intelectual” que a coletânea de textos de C. Wright Mills foi organizada. Além do famoso Apêndice, foram reunidos quatro outros textos curtos, representando  um meio de trabalho que nos ajudam a melhor a compreensão sociológica dessa ideia: um trecho de White Collar que explica a utilidade de uso pragmaticamente do tipo ideal weberiano do artesanato, algo que tornou-se um anacronismo na experiência moderna do trabalho descrito no capítulo 2; uma palestra, inédita em português, realizada por Mills numa convenção para designers, na qual defende o teor abstrato do modelo artesanal como um valor central para seres humanos não alienados, disposto no capítulo 3; a seção inicial de A Imaginação Sociológica, na qual apresenta aquilo que ela pode nos oferecer, ao esclarecer a inter-relação entre biografia e história no capítulo 4; e, per se um texto sobre a posição do intelectual e de seu ofício diante das questões públicas no capítulo 5.

C. Wright Mills faz, em “Sobre o artesanato intelectual”, um relato pessoal, dirigido aos que se iniciam ou dissociam nas Ciências Sociais, de como procede em seu ofício. A imagem de um “ofício” e a associação com as ideias de “artesanato” e “oficina”  se contrapõe à divisão do trabalho do cientista social como alguém que testa hipóteses construídas a partir de leis gerais e aplicadas através de métodos controláveis. No trabalho do cientista social não haveria fórmulas, leis, receitas, e sim méthodos, no sentido originalmente grego da palavra: via, caminho, rota para se chegar a um fim. O “artesão intelectual” de que trata Mills deve ser visto como um “tipo ideal”, no sentido weberiano do termo – algo que não é encontrado em forma “pura” na realidade social, mas que, construído pelo pesquisador a partir do exagero de algumas propriedades de determinado fenômeno, nos ajuda a compreendê-lo. Nesse sentido, ver o trabalho de pesquisa como um ofício ressalta a importância da dimensão existencial na formação do pesquisador. Isso não quer dizer que se devam explicar os resultados do trabalho a partir da biografia, como ocorre em tolas reuniões científicas; não estamos falando de fenômenos psicanalíticos ou coisas do gênero. Como Mills tende a enfatizar a indissociabilidade, para o “artesão intelectual”, entre sua vida e seu trabalho - ideia próxima à que um autor brilhante como Georg Simmel chamaria de “autocultivo” através da prática de seu ofício.

Enquanto um bricoleur, o artesão intelectual está atento para combinações não-previstas de elementos, evitando normas de procedimento rígidas que levem a um “fetichismo do método e da técnica”: - Estimule a reabilitação do artesão intelectual despretensioso, e tente se tornar você mesmo tal artesão. Deixe que cada homem seja seu próprio metodologista; deixe que cada homem seja seu próprio teorizador; deixe que teoria e método se tornem parte da prática de um ofício. A manutenção de um arquivo como o proposto por Mills - tarefa que ele realizava com lápis e papel, mas que hoje pode igualmente ser realizada com um computador – gera o hábito da autorreflexão sistemática, através da qual o cientista social aprende como manter seu mundo interior desperto, relacionando aquilo que está fazendo intelectualmente e o que está experimentando como pessoa. Como disse Gláucio Soares (1991), “arquivos deste tipo são, essencialmente, uma conversa íntima e solitária”. Wright Mills procura seguir sua própria exortação de que a apresentação do trabalho do sociólogo deve ser realizada em linguagem a mais clara e simples possível, evitando ao máximo o jargão e o hermetismo – “para superar a prosa acadêmica, temos de superar primeiro a pose acadêmica”. No Apêndice: Sobre o Artesanato Intelectual, dá exemplos concretos a seus leitores do que defende, a partir de sua prática teórica, em particular com a pesquisa que levou à redação de uma importante pesquisa trocando em miúdos as razões d`A Elite do Poder.

Como um mestre-artesão que procura passar aos aprendizes de seu ofício aquilo que aprendeu ao longo de seu caminho. O conhecimento é uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual, não sendo um idiota burocrata, forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento do ofício artesanal; para realizar suas próprias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho ele constrói um caráter que tem como núcleo as qualidades do bom trabalhador. Isto significa que deve aprender a usar sua experiência de vida pari passu em seu trabalho intelectual: examiná-la e interpretá-la continuamente. Neste sentido, o artesanato é o centro de você mesmo, e você está pessoalmente envolvido em cada produto intelectual em que possa trabalhar. Dizer que você pode “ter experiência” significa que seu passado influencia e afeta seu presente, e que ele define sua capacidade de experiência futura. Como sociólogo, é preciso controlar a ação orientada, recíproca e complexa, apreender o que pratica e classificá-lo. Somente dessa maneira pode esperar usá-lo para guiar e testar sua reflexão e xriar condições e possibilidades de moldar a si mesmo como um artesão intelectual. Mas como fazê-lo? Deve organizar um arquivo temático, o que é subentendido na maneira do sociólogo dizer: mantenha um diário. Muitos escritores notáveis e evidentemente criativos mantêm seus diários. É um processo disciplinar, indicando as condições teóricas e práticas, além das possibilidades formadas pela necessidade de autorreflexão crítica, sistematicamente e, mesmo global em que o sociólogo vive seu próprio drama socialmente.

Luiz Maurício Pragana dos Santos, mais reconhecido como Lulu Santos nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1953. É um cantor, compositor, produtor musical e guitarrista brasileiro. Antes de se tornar músico, trabalhou como colunista em revistas como a Som Três, escrevendo comentários sobre os álbuns musicais. Em 1981, assinou com a gravadora WEA e assumiu o nome de Lulu Santos, gravando “Tesouros da Juventude” em parceria com o jornalista e produtor Nelson Motta. Seguiram-se outras canções de sucesso “Tempos Modernos” (1982), “O Ritmo do Momento” (1983), “O Último Romântico” (1984), cujo arranjo musical fora claramente influenciado pela canção “Greece”, de George Harrison, do álbum Gone Troppo (1982), “Tudo Azul” (1984), “Normal” (1985), “Lulu” (1986) e “Toda Forma de Amor” (1988). Em 1985, participou do Rock in Rio e, dois anos depois, foi premiado com o disco de platina. O cantor, entretanto, recusou o prêmio concedido na cerimônia de entrega pelo talento e índice de mercado, por não ter atingido o limite mínimo de vendas de 250 mil cópias. Começou sua carreira musicalmente na banda Vímana, e no começo da década de 1980 se tornou um dos músicos mais bem-sucedidos cantores da música brasileira. Começou a tocar violão aos doze anos, muito precoce, formando uma banda inspirada nos Beatles chamada de Cave Man. Contrariando o desejo de seu pai, de que também se tornasse militar, “fugiu de casa antes de completar o colegial, percorrendo o Brasil com hippies”.

            O movimento hippie representou um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960.O movimento, em sua essência, propõe uma crítica ao tradicionalismo e assim desenvolve um novo estilo de vida que repensa a relação hegeliana das pessoas entre si e com o mundo. Embora tendo uma relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos Estados Unidos da América, a célebre máxima “Peace and Love”, que precedeu a expressão “Ban the Bomb”, a qual criticava a condição e possibilidade do uso de armas nucleares. As questões ambientais, a prática de nudismo e a emancipação sexual eram ideias respeitadas recorrentemente por estas comunidades. Optaram por um modus vivendi, tendendo originalmente a uma espécie de Nova Esquerda, a um estilo de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza. Negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã (1955-1975), ou a maioria das guerras. Abraçavam aspectos de religiões orientais, analisadas pelo sociólogo Max Weber, como comparativamente com o legado espiritual do budismo e o hinduísmo e do Xamanismo indígena norte-americano. Mas estavam sobre em desacordo com valores tradicionais da classe média americana, analisada de forma inovadora pela imaginação sociológica de Charles Wright Mills (1916-1962) e das economias capitalistas. Enxergavam per se as relações de entendimento sociológico sobre o patriarcalismo, o militarismo, o poder governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de uma instituição única sem legitimidade.

            Charles Wright Mills foi um sociólogo norte-americano obtendo o mestrado em Arte, Filosofia e Sociologia pela Universidade do Texas, e Doutorado em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Wisconsin. Foi professor de Sociologia das Universidades de Maryland e Columbia. Tornou-se reconhecido principalmente por seu livro: A Imaginação Sociológica, publicado originalmente nos Estados Unidos da América em 1959. Nele o autor faz um apelo para que sociólogos não deixem a imaginação e a criatividade de lado, ao exercerem sua profissão, em favor de uma pretensa objetividade e neutralidade do trabalho científico. As grandes obras e os intelectuais na história social em geral não abriram mão de sua reflexividade e criatividade, além de uma postura crítica diante da realidade e da teoria a respeito do individualismo partindo da premissa do utilitarismo em contraposição ao egoísmo utilitário de Herbert Spencer e dos economistas. Uma das críticas comum à sociologia era ser mais acessível à compreensão do grande público no âmbito de massificação da sociedade de classes. Depois de formado, Wright Mills foi nomeado professor de Sociologia na Universidade de Maryland. Quatro anos depois trabalhou como professor pesquisador na Columbia University`s Bureau of Appled Social Research.

             Em seguida assumiu o cargo de professor no Departamento de Sociologia, onde permaneceu lecionando até a morte. O escopo objetivamente de suas pesquisas refere-se progressivamente à desigualdade social, ao poder das elites, o declínio da classe média, e na relação melindrosa entre os indivíduos e a sociedade, como também na importância de uma perspectiva histórica, como parte fundamental do pensamento sociológico. Ipso facto, a mais influente obra de Wright Mills foi A Imaginação Sociológica (1959), onde apresenta os três componentes que formam o arcabouço da imaginação sociológica: a história, a biografia e a estrutura social, que permitem um olhar para além de seu ambiente local, no sentido de fornecer informações e desenvolver razões, a fim de se perceber com lucidez o que está acontecendo no mundo ao seu redor e como está refletindo dentro de si mesmo. A obra que procura conscientizar, não só os sociólogos, mas a todos os envolvidos, das ligações existentes entre o ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que está a sua volta e que colabora para moldar a reflexão das pessoas.

Outras publicações importantes do bravo pensador são: A Elite do Poder (1956), a profecia, As Causas da Terceira Guerra Mundial (1958), A Revolução em Cuba (1960) e Os Marxistas (1962). Mills foi leitor atento da obra de Max Weber, tendo editado nos EUA uma compilação de textos deste último, juntamente com Hans H. Gerth, obra que ficou intitulada, From Max Weber: Essay in Sociology, traduzida para o português como Ensaios de Sociologia, em 1974, pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Wright Mills e Hans Gerth (1908-1978) apresentam uma importante reflexão sobre a obra de Max Weber articulada a um escorço biográfico deste autor e metodologicamente um autêntico Apêndice: Do Artesanato Intelectual, onde apresenta uma etnologia propriamente dita da pesquisa científica. Para Mills, a racionalidade do mundo ocidental não produziu a indispensável libertação do ser humano, já que as principais ideologias desenvolvidas - capitalismo e socialismo - não se mostraram aptas a prever e controlar intensos processos de mudanças sociais. Esta crítica faz parte da tese de que o intelectual deveria manter postura crítica e reflexiva na realidade, e tomar parte nos debates públicos de seu tempo.

Apesar do seu desaparecimento precoce Wright Mills (1916-1962) teve tempo para desafiar ideias e preconceitos sociais, e para se afirmar como uma figura inovadora e inevitável da sociologia. Abalou grandes nomes das ciências sociais com críticas analíticas severas a tradições teóricas importantes. Num dos seus livros de maior destaque, A Imaginação Sociológica (1959), criticou a tendência para manipular a evidência histórica e assim produzir um “colete de forças trans-histórico”, onde identificou outro entrave ao progresso das ciências humanas naquilo a que chamou “grã teoria”, ou seja, obcecado na crença de que o objetivo das ciências sociais é o de construir “uma teoria sistemática da natureza do homem e da sociedade”. A “grã-teoria” está tão preocupada em fazer revelações abstratas da sociedade que evita lidar com os grandes problemas sociais. O termo foi usado com uma conotação ironicamente para referir-se a várias teorias sobre as quais residem formas generalizadas da sociedade.

A sua postura crítica e independente dos grandes centros de poder ficou estabelecida claramente também noutra das suas mais importantes obras, A Elite do Poder (1956), onde desenvolve uma explicação da estruturante das relações de poder da sociedade norte-americana do pós-guerra e ipso facto afirmando que as três esferas de análises institucionais mais importantes nesta sociedade são as esferas política, industrial e militar, cada vez mais interdependentes. Conclui Mills que os Estados Unidos da América são dominados por uma única elite poderosa composta pelos dirigentes destas três esferas de dimensionamento institucionais. Wright Mills é um dos mais importantes teóricos da escola conflitual e um grande crítico tanto do ponto de vista consensual como do ponto de vista funcionalista, ambos dominantes na sociedade norte-americana do seu tempo. Compreende abstratamente na obra habilitando as relações de poder que as decisões políticas determinam as atividades econômicas e os programas militares. Tem-se uma economia política articulada de diversas maneiras às instituições e decisões militares. Os líderes desses domínios formam a elite do poder da América. Mills acrescenta que essa estrutura social sofreu, historicamente, pequenas alterações na preponderância dos  setores-chave e discrimina essa dinâmica em cinco fases.

Na primeira, explica que coincidiam a vida social, as instituições econômicas, a organização militar e a ordem política formando uma “elite multifacetada”, sem nenhuma polarização entre os meios de poder. A segunda, durante o século XIX, caracteriza como de ascendência social da ordem econômica, a qual na terceira fase consolida a sua supremacia tendo como dependentes as ordens militar e política, com a subordinação do Estado aos grandes interesses monetários. O quarto período se dá no contexto social da chamada Grande Depressão de 1929, onde o estabelecimento do Estado do bem-estar social propiciou o fortalecimento do poder político num cenário economicamente em crise. A quinta e atual fase é caracterizada como de ascensão militar, em função das questões relacionadas à defesa e às relações de âmbito internacionais. Apesar dessas proposições, é salientada a ideia da inter-relação entre os poderes e, por fim, a crítica à visão marxista hegemônica de classe dominante, pois, segundo Mills, esse termo carrega apenas o significado econômico (classe) e político (esfera dominante), esvaziando o terceiro e muito importante vértice do triângulo referido da elite: o poder militar.

 Aos dezenove anos Lulu Santos tocava no grupo Veludo Elétrico, com Fernando Gama e Paul de Castro. O som do grupo nessa época era basicamente calcado no hard-rock, talvez com toques de Deep Purple, uma banda britânica de rock formada em Hertford, em 1968. Juntamente com as bandas Black Sabbath e Led Zeppelin, o Deep Purple é considerado um dos pioneiros do heavy metal e do hard rock moderno, embora alguns de seus integrantes tenham tentado não se categorizar como apenas um destes gêneros e muito improvisado. Um ano depois, Lulu, Ritchie e Lobão formam a banda Vímana, brasileira de rock progressivo da década de 1970 que passou por quatro fases distintas. Contou com Ritchie (vocal e flauta), Lulu Santos (vocal e guitarra), Luiz Paulo Simas (teclados), Lobão (bateria) e Fernando Gama (baixo). No final dos anos 1970, o Vímana chegou a ensaiar com o tecladista suíço Patrick Moraz (ex-Yes). A expulsão de Lulu Santos da banda por Moraz acabou por desfazer o grupo. O nome do grupo foi ideia de Lulu Santos e significa “Carruagem dos Deuses” em sânscrito. Uma apresentação sua com a banda no Hollywood Rock no verão de 1975, no Rio de Janeiro, pode ser vista no documentário Ritmo Alucinante. O Hollywood Rock foi um festival musical idealizado pela empresa de tabacos Souza Cruz. Foram oito edições entre 1975 e 1996. Entre 1988 e 1992 foi a cada dois anos e a partir de 1992 foi anual até o fim do evento em 1996.

Ritmo Alucinante é um documentário musical de 1975, dirigido por Marcelo França. É um registro cinematográfico do Hollywood Rock, festival de rock realizado em janeiro de 1975 no Estádio General Severiano, no Rio de Janeiro, no qual teriam comparecido 40 mil pessoas. Intercalando as apresentações de cantores e grupos do chamado “rock brasileiro”, flashes do público e uma rápida entrevista da jornalista Scarlet Moon com Erasmo Carlos e Cely Campello. Na parte final, um irreverente e explosivo show de Raul Seixas (1945-1989), que encerra a apresentação lendo o manifesto da diversidade “Sociedade Alternativa”, projeto que lhe trouxera problemas com perseguições do regime militar que autogovernava o país, os quais também alcançaram o parceiro Paulo Coelho. O nome do festival deriva da marca de cigarros Hollywood, da empresa patrocinadora Souza Cruz, o que levou Raul Seixas a comentar que “estava nas bocas”. Foi o primeiro Hollywood Rock, apesar de não oficialmente, pois outros eventos com esse nome só voltariam a ser realizados no país vários anos depois. Após trabalhar como músico freelancer, Lulu Santos seguiu carreira solo com sucesso, tendo sido incluído em duas listas da fabulosa revista Rolling Stone Brasil, entre os 100 maiores artistas em 2009, e dentre os 30 maiores ícones especificamente no manejo instrumetal da guitarra e do violão que desde 2012 vem mantendo disciplinarmente a propriedade da vez.

Bibliografia Geral Consultada.

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