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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

007 - Sem Tempo para Morrer – Praxeologia & Espionagem Britânica.

                                                                       “Há um grande silêncio que está sempre à escuta”. Mario Quintana                         

           

         Praxeologia ou praxiologia do grego antigo πρᾶξις, praxis, ação, prática + -λογία, -logia, estudo, é uma teoria que tenta explicar a estrutura lógica da ação humana, baseada na noção de que os humanos se envolvem no comportamento proposital, ao contrário do comportamento reflexivo e outro comportamento não intencional. Comumente se relaciona com a obra do economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973) e seus seguidores da Escola Austríaca. Para Mises, praxeologia é o estudo dos fatores que levam as pessoas a atingirem seus propósitos. Para a praxeologia a Ação humana é todo comportamento propositado, aquele que busca atingir um dado fim, de longo alcance. Comportamento propositado é consciente, o oposto de comportamento inconsciente, isto é, do comportamento social realizado por atos reflexos, respostas involuntárias das células e nervos do corpo aos estímulos. Para Ludwig von Mises, a praxeologia é uma ciência formal: “O conhecimento humano é condicionado pela estrutura da mente humana. O conteúdo do pensamento do homem primitivo difere do conteúdo do nosso pensamento, mas a estrutura formal e lógica é comum a ambos. A praxeologia é neutra em relação a todos os julgamentos de valor e à escolha de objetivos finais. Sua tarefa não é a de aprovar ou desaprovar, mas a de descrever o que é”.  Mises define ação como “uma manifestação da vontade humana”; ação como sendo um “comportamento propositado”. Para ele, um homem em estado de contentamento ou de satisfação não busca realizar ações. O homem busca sempre substituir um estado menos satisfatório por outro mais satisfatório. Sua mente imagina situações que lhe são mais propícias (planejamento) e sua ação procura realizar esta situação desejada.

A força que impele o homem à ação é sempre um desconforto com seu estado atual ou sua situação no mundo. O homem perfeitamente satisfeito com a sua situação não teria incentivo para mudar seu estado de vida. Mises diz: “Não teria nem aspirações nem desejos; seria perfeitamente feliz. Não agiria; viveria simplesmente livre de preocupações”. Além do desconforto e da imagem mental de uma situação melhor, há a condição de que o homem espere – isto é, tenha a expectativa - de que seu comportamento propositado tenha o poder de afastar ou pelo menos aliviar o seu desconforto. Se não existir esta expectativa, não se dá a ação e o homem passa a ser um conformista. Se por outro lado, o homem consegue atingir seus fins, dizemos que é “feliz”. Ou melhor, dizemos que “está mais feliz do que estava antes”. Para Mises, o homem realiza a ação em busca de sua felicidade. O objetivo final da ação humana é, sempre, a satisfação do desejo do agente homem. Não há outra medida de maior ou menor satisfação, a não ser o julgamento individual de valor, diferente de uma pessoa para outra, e para a mesma pessoa em diferentes momentos. O que faz uma pessoa sentir-se desconfortável, ou menos confortável, deriva de critérios decorrentes de sua própria vontade e julgamento, de sua avaliação pessoal e subjetiva. Assim, nenhuma pessoa tem condições de determinar o que faz outra pessoa feliz.

 Mas a busca da ação não pode ser identificada com as antíteses egoísmo e altruísmo, materialismo e idealismo, ateísmo e religião. Há pessoas cujo único propósito é desenvolver as potencialidades de seu ego. Há outras para as quais ter consciência dos problemas de seus semelhantes lhes causa tanto desconforto ou até mesmo mais desconforto do que suas próprias carências. Uns desejam apenas a satisfação de seus apetites para a relação sexual, comida, bebida, boas casas e outros bens materiais. Todas estas insatisfações podem ser a causa de uma ação. Depende da pessoa. Thomas Mayer (1927-2015) acredita que a rejeição da escola austríaca do método científico, que emprega positivismo e empirismo no desenvolvimento de teorias, invalida sua metodologia. Os autores da escola austríaca acreditam que o positivismo lógico não é capaz de explicar ou prever as ações humanas e que dados empíricos por si só são insuficientes para descrever a economia, pois estes dados seriam incapazes de falsear teorias econômicas, fazendo com que o positivismo lógico não se torne um método apropriado para conduzir os estudos da ciência econômica. O economista Mark Blaug (1927-2011) também criticou o apoio extremo ao individualismo metodológico, pois este acabaria por criar proposições macroeconômicas impossíveis de serem aplicadas na microeconomia, rejeitando sua contribuição macroeconômica. O individualismo metodológico é um método de análise social que explica fenômenos sociais através das ações e decisões de indivíduos, e não de grupos ou classes.

                                    


No Time to Die tem como representação social um filme de ação e espionagem britano-estadunidense, dirigido por Cary Joji Fukunaga e escrito em colaboração com Scott Z. Burns e Phoebe Waller-Bridge, a partir de uma história de Neal Purvis e Robert Wade, baseado no personagem James Bond de Ian Fleming, sendo a sequência de Spectre, de 2015, e o vigésimo quinto filme da franquia 007. Produzido pela Eon Productions, Metro-Goldwyn-Mayer e Universal Pictures e distribuído pela Universal Pictures, mundialmente, e United Artists Releasing, nos Estados Unidos da América, foi lançado nos cinemas em 8 de outubro de 2021. Daniel Craig é ex-aluno da National Youth Theatre e se formou na Guildhall School of Music and Drama em Londres e começou sua carreira como ator de teatro. É estrelado por Daniel Craig, que reprisa o papel do espião britânico do MI6 pela quinta e última vez, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Rami Malek, Léa Seydoux, Ben Whishaw e Jeffrey Wright. O desenvolvimento de um novo título da franquia começou no primeiro semestre de 2016. O contrato entre a Eon Productions e Metro-Goldwyn-Mayer com a Sony Pictures Entertainment, que coproduzia e distribuía os filmes da nova safra, havia encerrado após o lançamento do filme Spectre. Em abril de 2017, iniciou-se uma disputa pelos direitos com grandes estúdios, incluindo a própria Sony, Warner Bros. Pictures, 20th Century Fox, Universal Pictures e Annapurna Pictures.

A Universal ganhou a disputa, ficando com a distribuição internacional e home vídeo, incluindo Estados Unidos da América e Canadá. Em comemoração aos 100 anos de existência da United Artists, a MGM, juntamente com a Orion Pictures, através de uma joint venture com a Annapurna, formou a United Artists Releasing, selo responsável pela distribuição doméstica teatral de Bond 25. A transmissão digital e direitos televisivos mundiais também estão asseguradas a MGM. Em maio de 2018, Danny Boyle foi confirmado como diretor do longa-metragem, com as filmagens tendo início em dezembro do mesmo ano. Três meses após o anúncio oficial, Boyle deixou a produção devido a divergências criativas. Em setembro de 2018, Cary Joji Fukunaga foi anunciado como novo diretor, tornando-se o primeiro estadunidense a dirigir um filme da franquia 007. Em 20 de agosto de 2019, foi divulgado que o título oficial do filme seria No Time to Die. Após James Bond (Daniel Craig) deixar o MI6 e mudar-se para a Jamaica, Felix Leiter, amigo de Bond e agente da CIA, pede sua ajuda na busca por um cientista desaparecido. Ao perceber que o cientista foi raptado, o ex-agente 007 percebe que a simples busca é na verdade uma corrida para salvar o mundo.  As filmagens programadas para 2018 no Pinewood Studios, no Reino Unido, foram adiadas para abril de 2019 após a saída de Boyle. A filmagem principal teve início no dia 28 de abril de 2019 em Port Antonio, na Jamaica. Outros locais de filmagens incluem Nittedal, na Noruega, e Matera, na Itália, e a cidade de Aviemore, na Escócia.      

O desenvolvimento de um novo título da franquia começou sua démarche no primeiro semestre de 2016. O contrato social entre a Eon Productions e Metro-Goldwyn-Mayer com a Sony Pictures Entertainment, que coproduzia e distribuía os filmes da nova safra cinematográfica, havia encerrado após o lançamento de Spectre. Em abril de 2017, iniciou-se uma disputa pelos direitos autorais com outros grandes estúdios, incluindo a própria Sony, Warner Bros. Pictures, 20th Century Fox, Universal Pictures e Annapurna Pictures. A Universal ganhou a disputa, ficando com a distribuição internacional e home vídeo, incluindo Estados Unidos e Canadá. Em comemoração aos 100 anos de existência da United Artists, a Metro-Goldwyn-Mayer, juntamente com a Orion Pictures, através de uma joint venture com a Annapurna, formou a United Artists Releasing, selo responsável pela distribuição doméstica teatral de No Time to Die. A transmissão digital e direitos televisivos mundiais também estão asseguradas a MGM. Em março de 2017, Neal Purvis e Robert Wade, que co-escreveram as histórias sociais dos filmes da série 007 desde The World Is Not Enough, de 1999, iniciaram os trabalhos no roteiro. Mesmo com a aclamação da crítica especializada e do sucesso comercial de Skyfall, incluindo Spectre, as maiores bilheterias da franquia, Sam Mendes declarou que não iria dirigir uma nova parcela do espião britânico.

Vários diretores estavam na mira da Eon e MGM, incluindo Yann Demange, David Mackenzie, Denis Villeneuve e Christopher Nolan, este último sendo o preferido para assumir a produção. Mais tarde, Nolan disse que, além de ser fã de James Bond, adoraria dirigir um filme da série 007 e só se envolveria com a franquia se fosse para trazer “algo completamente novo”, mas que ainda não era o momento. Em dezembro de 2017, Villeneuve se retirou do projeto para se dedicar totalmente ao seu novo filme de ficção científica, a segunda adaptação de Duna. Em maio de 2018, Danny Boyle foi anunciado como diretor do longa-metragem, com as filmagens previstas para iniciarem em dezembro do mesmo ano. Boyle tinha uma "ideia específica" para o filme, e por isso necessitaria do roteirista John Hodge, que trabalhara com Boyle em diversos projetos. Michael G. Wilson e Barbara Broccoli, responsáveis pelas produções da franquia 007, além da palavra final em cada filme, ficaram empolgados com a ideia. Ambos deixaram claro que se o roteiro de Hodge não estivesse dentro das expectativas, voltariam ao plano original, usando a história da dupla Neal Purvis e Robert Wade. Três meses após o anúncio oficial, Boyle deixou a produção devido a divergências criativas na arte cinematográfica. Com a saída de Boyle, John Hodge também abandonou o projeto. Após a especulação de vários nomes, Cary Joji Fukunaga foi anunciado como novo diretor em setembro de 2018, tornando-se o primeiro estadunidense da história dirigir um filme da franquia 007.

Foi anunciado também a contratação de Linus Sandgren, como diretor de fotografia, e Dan Romer, para compor a trilha sonora. Purvis e Wade retornaram para refazer o roteiro. Em novembro de 2018, Paul Haggis, corroteirista de Casino Royale, foi contratado para reescrever o roteiro de Purvis e Wade. Em fevereiro de 2019, Scott Z. Burns, que contribuiu para filmes como The Bourne Ultimatum (2007) e Contágio (2011), foi contratado para também trabalhar em cima do roteiro da dupla. A pedido de Daniel Craig, a escritora e criadora das séries Fleabag (2013) e Killing Eve (2018), Phoebe Waller-Bridge, foi contratada em abril de 2019 para adicionar “mais humor” ao roteiro. Waller-Bridge é a segunda roteirista feminina da história da série James Bond a ser creditada depois de Johanna Harwoodco, que co-escreveu Dr. No e From Russia with Love. Em resposta ao Movimento Me Too, a produtora Barbara Broccoli disse que as atitudes de Bond às mulheres seria totalmente outro em No Time to Die, o que também foi endossado ela roteirista Waller-Bridge. O movimento Me Too (ou movimento #MeToo), com grande variedade de nomes alternativos e internacionais, é um movimento contra o assédio sexual e a agressão sexual.

O movimento começou a se espalhar “viralmente” em outubro de 2017 como uma hashtag nas mídias sociais, na tentativa de demonstrar a prevalência generalizada de agressão sexual e assédio, especialmente no local de trabalho. Este movimento corretamente levou às acusações de abuso sexual contra Harvey Weinstein. Logo após a notícia, Weinstein foi demitido da The Weinstein Company e expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e outras associações profissionais. Investigações criminais sobre as queixas de pelo menos seis mulheres estão em andamento em Los Angeles, Nova Iorque e Londres. Tarana Burke, uma ativista social estadunidense e organizadora comunitária, começou a usar a frase “Eu também” (“Me too”) em 2006 e a frase mais tarde popularizada pela atriz estadunidense Alyssa Milano, no Twitter em 2017. Milano encorajou as vítimas de assédio sexual a twittar sobre e “dar às pessoas uma noção da magnitude do problema”. Uma série de mensagens de alto nível e respostas das celebridades estadunidenses Gwyneth Paltrow, Ashley Judd, Jennifer Lawrence e Uma Thurman, entre outras, logo a seguiram. Especulações davam conta que Daniel Craig não retornaria para um próximo filme. O próprio ator disse em uma entrevista de 2015 que “preferia cortar os pulsos” do que viver o papel de interpretação de James Bond novamente no cinema de ação.

Antoine Lilti, nascido em 1972, é um historiador francês especializado na representação da Era Moderna e no Iluminismo. É diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) desde 2011. Formou-se na École Normale Supérieure, que frequentou entre 1991 e 1995. Foi aprovado na agregação em história em 1994. Defendeu sua dissertação de mestrado em história na Universidade de Paris 1 em 1993 sob a orientação de Antoine Prost, intitulada: Le PSU et la gauche (1960-1968). Em 2003, Antoine Lilti defendeu uma tese em história na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne intitulada: “O Mundo dos Salões: Sociabilidade Mundana em Paris na Segunda Metade do século XVIII” sob a direção de Daniel Roche. Entre 2005 e 2011 lecionou na École Normale Supérieure como conferencista. Ele então se tornou diretor de estudos na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Desde 2006, é membro do conselho editorial da revista Annales Histoire, Sciences Sociales, da qual foi editor entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011. Dirigiu a redação dos Annales entre 2006 e 2011. 

Seu trabalho mais recente enfoca a recepção atual do período do Iluminismo e seu legado no mundo político de hoje. As primeiras obras de Antoine Lilti centraram-se nos salões do século XVIII, verdadeiras instituições, em Paris, das elites intelectuais. Lilti os apresenta na encruzilhada da sociedade da corte e da vida intelectual, ao mesmo tempo em que enfatiza seu papel fundamental no início da Revolução Francesa. Por exemplo, o salão Choiseul em Chanteloup é objeto, no Le Monde des Salons, de um estudo aprofundado de Lilti. Este é descrito como um “nó onde se cruzam os fluxos de informação do tribunal, do mundo literário, dos cafés e dos jornalistas” (Éric Saunier) 10e um pool de oponentes e oposições. Além disso, Lilti quer contradizer uma visão excessivamente idealizada – às vezes tingida de nostalgia – de salões onde estes são considerados apenas pelo seu aspecto filosófico e intelectual. Ele enfatiza as dimensões mundanas e triviais (jogos, refeições, shows): Roger Chartier explica que Antoine Lilti, os salões “não são tanto lugares para exercícios filosóficos, mas oportunidades para compartilhar os prazeres e jogos do mundanismo”. Seu livro Le Monde des Salons (2005) foi traduzido para o inglês por Lydia Cochrane em 2015, sob o título “O mundo dos salões: sociabilidade e mundanismo na Paris do século XVIII”, na imprensa da Oxford Universidade. Ainda ligada ao ideário do Iluminismo e à clássica Revolução Francesa, Lilti estudou, em Public Figures (2014), o nascimento e a relação de poder histórico do conceito moderno de celebridade que tem como primícias ou in statu nascendi no século XVIII como ponto de partida da análise. Neste livro, o historiador se propõe a estudar “as figuras públicas que desde a década de 1750 até cerca de 1850 marcaram a opinião europeia e americana”. 

Analisa as celebridades de Rousseau transportado pelo sucesso de La Nouvelle Héloïse, de Voltaire (Lilti retorna à sua “coroação” na Comédie-Française em março de 1778) do comediante Janot. Lilti explica que alguns autores contemporâneos à Voltaire e Janot lamentaram que um filósofo e um ator de boulevard pudessem ter uma celebridade equivalente. Assim, a fama é vista “como uma força que 'nivela', que apaga as distinções legítimas entre esferas de atividade”. Uma ligação com sua obra sobre o mundo dos salões seria a da distinção entre as noções de público e privado, e do comentário à obra do teórico Jürgen Habermas sobre esses conceitos. Na introdução Lilti propõe diferenciar entre glória, reputação e celebridade. As duas primeiras são as características do tradicional latim fama. Enquanto o terceiro é mais moderno. Ele detalha que a glória se refere aos heróis antigos e à comemoração dos gloriosos mortos e que a reputação é “em grande parte independente” da celebridade. Para descrever a celebridade, cita uma velha fórmula: “uma pessoa famosa é conhecida por pessoas que não têm motivos para opinar sobre ela”. A celebridade diz respeito então a um público mais amplo, variado, contemporâneo à pessoa. Esse público costuma estar ávido por detalhes sobre a vida privada dessas celebridades e busca construir um vínculo afetivo com elas. Ele propõe a compreender a notoriedade do ator François-Joseph Talma (1763-1826) com esta chave de leitura. Mas também David Garrick e Sarah Siddons na Inglaterra, ou mesmo Miss Clairon na França.                            

Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma  distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1972; 1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos mesmos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso a elas exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos. 

Que os rostos dos atores sociais célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem. Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em close ou de fato com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes, outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação era sobre social e cultural. Nos grandes centros urbanos, os retratos eram cada vez mais visíveis, em todas as formas de suporte e sentido dos retratos pintados, expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana que se tornaram na moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos comerciantes. 

Mas a celebridade não se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII. O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes, a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam, a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou no século das Luzes. Quando Immanuel Kant, em O Que é o Iluminismo?  descreve a Auflarklärung como um processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se prevalentmente aos leitores de jornais.

Em agosto de 2017, durante o late-night talk show da CBS, The Late Show with Stephen Colbert, Craig anunciou que reprisaria o papel do espião britânico pela última vez. Após a estreia de Spectre, boatos indicavam que Christoph Waltz havia assinado o contrato para retornar como o vilão Ernst Stavro Blofeld, mas sob a condição de que Craig retornasse como Bond. Em outubro de 2017, Waltz informou que não voltaria como Blofeld. Porém após negociações Christoph Waltz resolveu retornar a franquia reprisando seu papel de Blofeld para o encerramento da Era Craig e o desfecho do arque inimigo de Bond. Em uma entrevista no final 2018, Fukunaga revelou que Ben Whishaw, Naomie Harris, Rory Kinnear, Jeffrey Wright e Ralph Fiennes assinaram contrato para reviverem seus papéis dos filmes anteriores. Fukunaga também revelou que Léa Seydoux estaria reprisando seu papel como Madeleine Swann, sendo a terceira atriz a interpretar uma Bond girl em mais de um filme da franquia, se igualando a Eunice Gayson, a primeira Bond girl da história, que interpretara Sylvia Trench em Dr. No e From Russia With Love e Maud Adams, atriz sueca, que foi a segunda atriz a interpretar duas Bond girls diferentes em filmes de James Bond, a saber: Andrea Anders em 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro e Octopussy (o papel-título) em 007 contra Octopussy.Ana de Armas, Dalis Benssalah, David Dencik, Lashana Lynch, Billy Magnussen e Rami Malek foram anunciados como parte do elenco em uma transmissão ao vivo, na propriedade GoldenEye, do romancista Ian Fleming, criador de James Bond, na Jamaica. Malek, ganhador do Oscar de melhor ator por Bohemian Rhapsody, foi anunciado como o antagonista de No Time to Die, sendo seu primeiro filme após viver Freddie Mercury.

As filmagens, antes programadas para dezembro de 2018 no Pinewood Studios, no Reino Unido, foram adiadas para abril de 2019 após a saída de Danny Boyle. A filmagem principal teve início no dia 28 de abril de 2019 em Port Antonio, na Jamaica. No mês seguinte, enquanto filmava no país, Daniel Craig sofreu uma lesão no tornozelo e precisou passar por uma cirurgia. Em junho, uma explosão controlada durante as filmagens causou danos ao 007 Stage, estúdio do Pinewood Studios onde são gravados os filmes da franquia, o que acabou paralisando novamente a produção. Um membro da equipe teve ferimentos leves. Cenas também foram gravadas em Londres. Outros locais de filmagens incluem a comuna Nittedal, na Noruega, e a cidade de Aviemore, na Escócia. Cenas da sequência de abertura dos pré-credito foram filmadas em Matera, na Itália. Aston Martin DB5, carro mais conhecido e que mais apareceu na franquia 007, marcará presença em No Time to Die. Marca registrada dos filmes de James Bond, a fabricante de carros desportivos de luxo Aston Martin confirmou que os modelos V8 Vantage, DB5 e Valhalla estarão no longa-metragem. Dan Romer, que trabalhou com Fukunaga em Beasts of No Nation e Maniac, era o compositor original, antes de deixar por diferenças criativas no meio da produção e substituído por Hans Zimmer, a primeira troca desse tipo da série.

Zimmer contou com o produtor Steve Mazzaro e o guitarrista Johnny Marr. Billie Eilish se tornou a cantora mais jovem a fazer uma música-tema da série com “No Time to Die”, escrita em dupla por ela e seu irmão Finneas O`Connell. No Time to Die estava originalmente programado para estrear em 8 de novembro de 2019. Com a saída de Boyle, foi adiado para fevereiro de 2020 e, em seguida, para 3 de abril de 2020 no Reino Unido. A estreia na China e uma turnê de publicidade em todo o país, planejada para abril de 2020. A carta pedia o adiamento do lançamento para minimizar o risco de disseminação da doença e garantir o sucesso comercial do filme. Em 4 de março de 2020, a MGM e a Eon Productions anunciaram que, após uma “avaliação completa do mercado teatral global”, o lançamento do filme foi adiado para 12 de novembro de 2020 no Reino Unido e 25 de novembro de 2020 nos Estados Unidos. No Time to Die foi o primeiro grande filme afetado pela pandemia. De acordo com o Deadline Hollywood, que citou fontes internas, o atraso não estava diretamente relacionado ao coronavírus; mudar o filme para novembro combinaria com a janela tradicional de lançamento de filmes de James Bond e a MGM e a Universal precisavam garantir um forte desempenho em todos os mercados internacionais ou enfrentariam a perda da franquia. A reprogramação garantiria que todos os cinemas, principalmente os da China, Coréia do Sul, Japão, Itália e França que foram fechados devido à pandemia, estivessem abertos e operacionais. Estima-se que 70.000 cinemas na China tenham fechado, e países como Austrália e Grã-Bretanha fecharam cinemas para minimizar a propagação do vírus.       

A revista Variety disse que o estúdio já gastou $ 66 milhões na promoção do filme, enquanto o The Hollywood Reporter escreveu que o atraso custou à MGM entre $ 30-50 milhões em custos de marketing desperdiçados e estimou que as perdas de bilheteria globais poderiam ter ultrapassado $ 300 milhões se o filme tivesse permanecido em seu slot de abril de 2020. Em outubro de 2020, depois que se tornou aparente que os cinemas, especialmente nos EUA, não veriam a demanda total, No Time to Die foi adiado novamente para 2 de abril de 2021 nos Estados Unidos. Depois que o adiamento foi anunciado, a rede de cinemas britânica Cineworld, a segunda maior rede de cinemas do mundo, fechou seus cinemas por tempo indeterminado. O presidente-executivo Mooky Greidinger disse que o atraso foi a “gota d`água” para a Cineworld, após uma série de atrasos e cancelamentos de outros filmes. Em comemoração aos 100 anos de existência da United Artists, a Metro-Goldwyn-Mayer, juntamente com a Orion Pictures, através de uma joint venture com a Annapurna Pictures, formou a United Artists Releasing, selo responsável pela distribuição doméstica teatral de No Time to Die. A transmissão digital e direitos televisivos mundiais também estão asseguradas a MGM. A Universal Pictures ficou responsável pela distribuição internacional nos cinemas e home vídeo doméstico. Antes chamado apenas de Bond 25, da divulgação do filme até as filmagens, No Time to Die foi anunciado como o título oficial da produção em 20 de agosto de 2019 através das redes sociais da franquia. O Metacritic atribuiu ao filme uma pontuação média ponderada de 70 de 100 com base em 39 críticos, indicando “críticas geralmente favoráveis”.

Bibliografia Geral Consultada.

HALBWACHS, Maurice, La Mémoire Collective. 2ª éditions. Paris: Presses Universitaires de France, 1968; THOMPSON, Edward Palmer, Tradición, Revuelta y Consciencia de Clase: Estudios sobre la Crisis de la Sociedad Preindustrial. Barcelona: Editorial Crítica, 1979; CAMPBELL, Joseph, O Herói de Mil Faces. SãoPaulo: Editora Cultrix, 1992;  MORIN, Edgar, As Estrelas. Mito e Sedução no Cinema. 1ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1972; Idem, Introducción al Pensamiento Complejo. Barcelona: Editorial Gedisa, 1998; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000; LUHMANN, Niklas, Risk: A Sociological Theory. New Brunswick; New Jersey: Translation Publishers, 2009; COMETTI, Jean-Pierre, Qu`est-ce Que Le Pragmatisme? Paris: Éditions Gallimard, 2010; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; BURKE, Peter, O Que é História Cultural? Rio de Janeiro: Editor Zahar, 2014; MOREIRA, Filipa Dias Duarte, 007 - A Marca que Nunca Morre. Dissertação de Mestrado. Departamento de História. Lisboa: Instituto Universitário de Lisboa, 2015; HIDALGO, Yaremis da Trinidade; CRUZ, Yenisey López, “La Hermenéutica en el Pensamiento de Wilhelm Dilthey”. In: Griot - Revista de Filosofia. Santiago de Cuba.  Volume 11, n°1, junho de 2015; LIMA, Humberto Alves de Vasconcelos, Entre o Saber e o Segredo: Uma Leitura Realista da Tolerância da Espionagem Internacional na Era do Medo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017; LILTI, Antoine, A Invenção da Celebridade (1750-1850). 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018; MOREIRA NETO, Euclides, J’accuse! Análise das Representações Textual-discursivas de Dreyfus e de Esterhazy. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2018; OLIVEIRA, Juliana Michelli da Silva, A Vida das Máquinas: O Imaginário dos Autômatos em O Método de Edgar Morin. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; ABERS, Rebecca, O Papel da Burocracia na Construção das Políticas Públicas. Brasília: Enap Cadernos, 2021; entre outros. 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Bagdad Café - Cinema & Crítica da Trivialização da Conduta.

              “A trivialização do conhecimento não faz do conhecimento apenas um produto determinado”. Edgar Morin

          Além da própria historiografia, o conhecimento a história tem sido uma tarefa ímpar de todas as ciências sociais. A sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a psicologia, trabalham com questões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, militares, demográficas e outras, que correspondem a ações, relações, processo e estruturas tomados em algum nível da historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpretações, em temos de indução quantitativa ou construção de modelos, mesmo nesses casos onde a pesquisa produz alguma explicação nova, reavalia ou reafirma explicações vigentes, sobre os modos e os tempos da história. Também há aqueles que formalizam e fetichizam as categorias dialéticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das ações, relações, processos e estruturas que expressam movimentos e as modificações das gentes, grupos, classes e nações. Uns e outros constroem mitos. Em todos os casos, no entanto, a história aparece de alguma forma, como história real ou invenção, drama ou epopeia, elegia ou profecia. A multiplicidade de ciências e teorias relativas ao nível social, tem dado origem a distintas interpretações como se escreve ou produz a história. São distintas e heterogêneas do capitalismo que aparecem nas análises de Ricardo, Marx, Tocqueville, Durkheim, Weber, Keynes, Parsons, Hobsbawm e outros.

            Não só na sociologia, mas no conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se da a mudança, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é o resultado da “criatividade empresarial”. Toda mudança, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus discípulos e continuadores no século XIX e XX. Os valores relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso capitalista.  

         A segunda interpretação, reconhecida como “teoria das elites”, está relacionada com a anterior. Recebeu contribuições de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. E tem sido retomada, em diferentes linguagens, por outros cientistas sociais e escritores, como James Burnham, Samuel P. Huntington, Clark Keer, David E. Apter, John Kenneth Galbraith e outros. É uma corrente de pensamento que propõe o funcionamento da sociedade e a mudança social em termos de elites empresariais, gerenciais, militares, intelectuais e outras. Desde o término da 2ª guerra mundial, essa teoria tem sido a base de programas organizados pelo imperialismo norte-americano, no treinamento de quadros de intelectuais, tecnocratas, militares, gerenciais, empresariais e outros, para soluções golpistas ou não em países dependentes e coloniais. Em terceiro lugar, há a intepretação que atribui importância especial à divisão social do trabalho. Toma-se o meio de trabalho como o processo social, de âmbito estrutural, que comanda o funcionamento, as combinações e as transformações das elações sociais e instituições, em níveis econômico, político e outros. Adam Smith e Émile Durkheim são autores importantes nessa corrente de pensamento. Boa parte do pensamento liberal apoia-se nessa ideia. A divisão internacional do trabalho foi apresentada durante o século XIX e até a década de 1930, como a base da prosperidade econômica e social das pessoas, de grupos sociais e das nações. As teorias sobre a democracia liberal, o pluralismo democrático e a cidadania apoia-se implicitamente na ideia de que a divisão social do trabalho, em sentido amplo, é o processo estrutural, mas que historicamente é o que fundamenta e dinamiza a melhor expressão e articulação de pessoas e grupamentos sociais, atividades e instituições políticas e econômicas de setores produtivos e países.    

           A quarta intepretação considera que o fundamento último da mudança, progresso ou desenvolvimento econômico e social é a “tecnologia”. O progresso técnico comandaria as possibilidades de articulação e dinamização dos fatores produtivos principalmente capital e força de trabalho. As possibilidades de poupança e investimento, bem como desenvolvimento e diferenciação dos sistemas econômico e social estriam na dependência das inovações e aplicações da tecnologia, inovações essas originadas das ciências da natureza e da sociedade. Essa interpretação tem várias formulações. No entanto, apoiam-se na ideia de que ciência, tecnologia e desenvolvimento, ou pesquisa e desenvolvimento em geral relacionam-se positivamente. A quinta interpretação confere papel especial ao Estado. Depois da crise liberal do poder político-econômico e da história, generalizou-se cada vez mais a intepretação que vê na ação estatal a base da organização e mudanças de relações e organizações econômicas e sociais. É claro que esta ideia já está presente, implícita ou explícita, no pensamento científico e filosófico dos séculos XVIII e XIX. Ela aparece em escritos de Hegel, Marx, Engels e Lenin, além de Keynes, Myrdal, Baran e ouros. Depois da criação do regime socialista em vários países, por um lado, e da crise econômica mundial iniciada em outubro de 1929, por outro, os governos capitalistas, dominantes e dependentes, passaram a intervir de forma cada vez mais ampla e profunda na economia.

       A sexta e última interpretação busca as razões dos movimentos e transformações sociais, político-econômicas e culturais nas relações e contradições de classes. De acordo com essa intepretação, as forças produtivas, a atuação estatal e outros aspectos político-econômicos, sociais e culturais são articulados e desarticulados em conformidade com os movimento e desenvolvimentos das relações e contradições das classes sociais: burguesia, classe média, campesinato, proletariado e suas subdivisões estruturais e de ocasião. Dentre os autores que se situam nessa orientação, ou contribuíram para o seu desenvolvimento, destacam-se Marx, Engels, Lenin, Bukharin, Trostski, Lukács, Gramsci e Mao-Tsé-tung, além de José Carlos Mariátegui, Maurice Dobb, Paul A. Baran, Paul M. Sweezy, Frantz Fannon e alguns outros. Essa interpretação se funda na análise do processo de trabalho produtivo, processo esse que produz a mercadoria, a mais-valia de que o burguês se apropria e a alienação econômica e política do trabalhador. O principal conteúdo e resultado desse processo produtivo, ou dessas relações de produção, é o antagonismo entre o operário e o burguês. O golpe de Estado, a greve e a revolução produzem-se neste contexto. Numa formulação breve, essa interpretação engloba relações, processos e estruturas básicos e intermediários da sociedade. Enfim, cada uma dessas interpretações implica uma forma peculiar de compreender as relações entre biografia e história, conjuntura e estrutura, sincronia e diacronia, ou entre as ações, as relações, os processos e estruturas sociais, em seus perfis e movimentos. 

   Outras interpretações situam-se neste contexto problemático, paradoxal. São interpretações sobre as condições e possibilidades de produção da história, em forma cômica ou trágica, dramática ou épica. As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos aptos a enfraquecerem o imprinting, segundo Morin (2008), e a normalização permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e intolerâncias sociais e religiosas, o que resulta no próprio crescimento. Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito social, moral e político, entre ideias, concepções e visões de mundo.

         A trivialização do conhecimento não faz produto do conhecimento apenas um produto determinado, faz também dele um produto qualquer. Mas as ideias podem tornar-se ideológicas na medida em que sua estrutura socialmente obedece às estruturas socioprofissionais, sua produção integra-se entre os outros processos de produção e a cultura torna-se cognoscível a partir das categorias econômicas do capital e do mercado. Mas nem a informação, nem a teoria, nem o pensamento abstrato, nem a cultura são produtos triviais, ainda que mais não seja pelo fato de serem, ao mesmo tempo, produtos/produtores e, mesmo comportando hologramaticamente a dimensão socioeconômica, não poderiam ser reduzidas a isso. A redução trivializante não teme exercer-se como sujeito sobre o conhecimento científico. Este nível abstrato como qualquer outro é apropriado pelo pensamento, como a religião e através da ciência, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e sua estratégias, seus interesses e seus ganhos. Mas, por seu lado, os estudos de etnografias dos laboratórios, estes que parecem ter dinamismo, demonstram-nos como se estabelecem essas mediações dos pesquisadores, em função de posições, ou status, as lutas e a utilização de alguns truques diabólicos pelo reconhecimento per se, pelo prestígio ou pela glória, com as negociações necessárias ao estabelecimento de uma prova, os ritos de passagem na pesquisa e na universidade. A motivação primeira do cientista é a notoriedade. 

        Mas não se pode reduzir o interesse científico ao interesse econômico, a vontade de pesquisar ao desejo de prestígio, a sede de conhecimento à sede de poder, em alguns casos terrenos sim. A sociologia não pode ser considerada uma concepção que exclui o indivíduo ou que, no máximo, o tolera. É uma concepção humanista, mas que deve implicá-lo e explicitá-lo. Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de determinações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Edgar Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar, princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma visão de mundo e das coisas que se governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias. Ao organizar os paradigmas e modelos explicativos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu. As doutrinas e ideologias dominantes nas sociedades dispõem também da força imperativa e coercitiva que evidencia aos convictos e o temor inibitório aos desalmados.

A partir deste fundamento, compreendemos que ordem, desordem e organização são elementos essenciais para o entendimento da questão da complexidade, pois se desintegram e se desorganizam ao mesmo tempo. Nesse entendimento, constata-se que o sentido da realidade se dá por meio da relação do todo com as partes e vice e versa em uma análise integradora em que não é pertinente examinar o fenômeno a partir de uma única matriz de racionalidade. A desordem torna-se indispensável para a organização social da vida humana, pois a sociedade é dependente de acontecimentos/fatos que possam modificar a ordem já estabelecida para gerar novos meios de organização entre os sujeitos. Há um imprinting cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o impõe. O imprinting é um termo que Konrad Lorentz propôs para dar conta da marca incontornável pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu alcance. Há um imprinting cultural que marcam os humanos, desde o nascimento, com o selo da cultura, primeiro familiar e depois da escola, prosseguindo na universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas da sociedade. Os subcultivados sofrem um imprinting e uma normalização atenuados e há mais opiniões pessoais diante do balcão de café do que num coquetel literário.

Embora contrariados em contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que permite a expressão de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting e a normalização crescem paralelamente com a aquisição real da cultura. O imprinting cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório, que nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda objeção vinda de fonte técnica considerada ruim. A normalização manifesta-se de maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a tentação de duvidar ou de contestar. A normalização, portanto, com seus subaspectos de conformismo, exerce uma prevenção contra o desvio e elimina-o, se ele se manifesta. Mantém, impõe a norma do que é importante, válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo, imbecil, perverso. Indica os limites a não ultrapassar. As palavras que não devem proferir. Os conceitos a desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting assimila a perpetuação dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas. Obedece a processos de tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento entre os homens dessa própria cultura. Através do seu modo de conhecimento, reproduzem a legitimidade que produz esse conhecimento. As crenças que se impõem são fortalecidas pela fé que as suscitaram. Então, reproduzem não somente os conhecimentos, mas as  estruturas e os modos reguladores que determinam a invariância desses conhecimentos.                     

É isto exatamente o que ocorre. A prova disso, no entanto, ocorre com as anulações de concursos quando não surge o candidato certo. Mas o inegavelmente ridículo é quando operam um parecer contrário. Sustentando que a carreira do pesquisador não apresenta o desempenho (fálico) estimulado, ultrapassado pela quase “meia verdade”, caraterizada pelo conceito de estigma especificamente propalado por um cientista político estudioso das relações concretas de poder nas instituições. Mas isso não deve mascarar ou anular a originalidade complexa da comunidade/sociedade constituída pela trupe de cientistas, nem as ideias fixas, as obsessões intelectuais, themata, autônomas e dissociadas da estrutura social, que animam ou dispensam a busca específica da verdade objetiva da qual Michel Foucault, com razão, apoiando-se na exterioridade visível que Magritte nomeia seus quadros infere dizendo: “Ceci n`est pas um pipe”, para impor respeito à denominação. Nesse espaço quebrado e à deriva, que exige respeito, estranhas relações se tecem, intrusões se produzem, bruscas invasões destrutoras, quedas de imagens em meios às palavras, fulgores verbais que atravessam os desenhos e fazem-no voar em pedaços. Pacientemente, Paul Klee constrói um espaço sem nome nem geometria, entrecruzando a cadeia dos signos e a trama das figuras. Magritte, quanto a ele, mina em segredo um espaço que parece mante na disposição tradicional. Mas ele o cava com palavras: e a velha pirâmide da perspectiva está carcomida em seu secreto mórbido está aponto de ruir, a sair de si própria e isolar-se. A arte da conversa, segundo Foucault (2016: 49) cotidianamente, “é a gravitação autônoma das coisas que fizeram suas próprias palavras na indiferença dos homens, impondo-a a eles, sem mesmo que eles o saibam, em sua tagarelice cotidiana”.      

De fato, há nas formas sociais de motivação científica, um complexo variável e instável de interesse e desinteresse, do qual as buscas do graal de verdade, objetividade científico-social, elucidação são partes integrantes. Assim, a cegueira sobre tudo o que não é ambição, conhecimento e interesse e vaidade nos esclarece apenas sobre as motivações e os comportamentos dos que semeiam a cegueira. O que ocorre é que à sombra do paradigma dominante, que o jovem Marx insistia em referir-se a ideologia dominante e um intenso cretinismo, coquetel de racionalização delirante, de sofística refinada e de grosseria determinista, trivializou pela força o não-trivial. Ele se manifestou na biologia no determinismo pangenético, na linguística, na antropologia, na psicanálise e, evidentemente, na sociologia, na qual a complexidade das interações sociedade, a cultura e a sociedade e os indivíduos, foi ocultada pela concepção ao mesmo tempo determinista e trivial da sociedade e a organização do conhecimento; pisoteia todo o que deriva da criação intelectual; reduz a teoria e as ideias a puros objetos, produtos, instrumentos. Todas as interpretações deterministas, redutoras, trivializante têm algo em comum, por um lado, a ignorância do complexo das condições negativas ou permissivas favoráveis ao conhecimento e à ideia autônomos e, e por outro lado, uma rejeição extraordinária da ideia de indivíduo, inventor, criador; de resto, é aterrador ver o ódio suscitado entre os autores, os inventores e os criadores dessa desindividualização pela própria ideia de autor, inventor e criador. Percy Adlon é diretor, produtor e roteirista alemão. É considerado como um dos mais respeitados profissionais do cinema alemão, Adlon trabalhou como ator, antes de se tornar reconhecido como produtor de documentários. Em 1981, escreveu e dirigiu sua primeira peça teatral, Celeste, um relato etnográfico dos últimos dias de Marcel Proust, narrado por sua empregada. Um dos principais expoentes do cinema alemão, o filme Estação Doçura (1985), que narra a história social de uma atendente de funerária que seduz um condutor de metrô, o tornou mundialmente reconhecido.

Foi também através deste filme, que a atriz alemã Marianne Sägebrecht, ex-artista de cabaré, fez sua estreia no cinema. A partir daí, ela iria estrelar com destaque absoluto em vários filmes do diretor, entre os quais Bagdad Café (1987), primeiro sucesso de Percy Adlon em língua inglesa. O não-trivial é o que estabelece as relações sociais na esteira de Out of Rosenheim (“Bagdad Café”), um filme alemão de 1987, dirigido por Percy Adlon. O cinema produzido na Alemanha é fortemente marcado por uma influência das tendências artísticas e vanguardas plásticas. O filme tem como representação um drama passado num remoto posto-motel no Deserto de Mojave, de beira de estrada, num deserto árido sendo o mais seco da América do Norte. Está localizado no sudoeste dos Estados Unidos, principalmente no sudeste da Califórnia e no sul de Nevada, e ocupa um total de 124.000 km², mas áreas pequenas também se estendem para pelos parques nacionais de Utah e Arizona. Utah é um dos cinquenta Estados americanos. Localizado na Região dos Estados das Montanhas Rochosas, o mesmo limita-se com os Estados de Nevada a oeste, Colorado a leste, Arizona ao sul e Wyoming e Idaho ao norte. O Arizona, é reconhecido pelo Grand Canyon, uma fenda com quilômetros de profundidade esculpida pelo rio Colorado. Flagstaff, é uma cidade montanhosa coberta de extraordinários pinheiros da espécie pinus ponderosa, e importante acesso ao Grand Canyon. Outro destaque é o Parque Nacional de Saguaro, que protege a paisagem de cactos do Deserto de Sonora. Tucson é da Universidade do Arizona e abriga o Arizona-Sonora Desert Museum.

Seus limites são geralmente observados pela presença de árvores de Josué, que são nativas apenas do deserto e são consideradas uma espécie indicadora. A região abriga de 1.750 a 2.000 espécies de plantas. A parte central do deserto é escassa, enquanto suas periferias apoiam grandes comunidades como San Bernardino, Las Vegas, Lancaster, Palmdale, Victorville e St. George. Esse deserto possui clima hostil e abriga formações geológicas famosas, como o Vale da Morte, desértico localizado no leste da Califórnia, ao norte do deserto de Mojave, na fronteira com o Deserto da Grande Bacia. É um dos lugares mais quentes do mundo no auge do verão, com seus leitos de lagos secos e cheios de sal, juntamente com os desertos no Oriente Médio. Nessa região também está alocado o maior cemitério de aviões do mundo, que consiste em um depósito onde grandes jatos das empresas aéreas de todo o mundo ficam aguardando para serem desmontados para aproveitamento de seus materiais recicláveis. Ganhou notoriedade ao ser citado no clássico filme de Wim Wenders, Paris, Texas (1984).  É provavelmente um de seus trabalhos mais conhecidos e aclamados pela crítica. O roteiro é de L. M. Kit Carson e Sam Shepard; os temas musicais foram compostos por Ry Cooder e a direção de fotografia é de Robby Muller. O filme ocorreu de uma coprodução entre a França e Alemanha, porém as locações para filmagem ocorreram nos Estados Unidos da América.

É no Mojave também que o protagonista, vivido por Harry-Dean-Stanton, perambula no início do filme. Com carreira prolífica, Harry se mantinha atuando no cinema, e também na televisão, desde 1957. Em 1988 fez parte do júri do Festival de Cinema de Veneza. Até 1971 era creditado nos filmes e na televisão apenas como Dean Stanton, para evitar ser confundido com o ator Harry Stanton, com quem atuou em 1969 em episódio do seriado Petticoat Junction. Foi onde a banda de rock Californiana, Red Hot Chili Peppers, formada em Los Angeles, Califórnia, em 13 de fevereiro de 1983, considerada uma das maiores bandas da história do rock, gravou o extraordinário clipe da música “Give It Away”, assim como as Spice girls filmaram o premiado clipe Say You'll Be There, a cantora Madonna gravou o clipe da música “Frozen” nesse deserto norte-americano. Elas assinaram com a Virgin Records e tornaram-se reconhecidas em 1996 com o primeiro single, Wannabe que alcançou o topo das paradas de sucesso em mais de 30 países, fazendo as garotas tornarem-se um fenômeno global em função de três aspectos merceológico pode ser entendido como um estudo que leva em consideração a análise das características técnicas e comerciais de uma determinada mercadoria. Seu álbum de estreia, Spice, vendeu 30 milhões de cópias, tornando-se o álbum mais vendido de todos os tempos por um grupo feminino. O álbum Spiceworld vendeu 25 milhões de cópias no mercado fonográfico em todo mundo globalizado. As Spice Girls venderam 90 milhões de discos, tornando-as o grupo mais vendido de todos os tempos, um dos grupos pop que mais vendeu em todos os tempos, e o maior fenômeno pop britânico desde a démarche de consumo Beatlemania.

O grupo pop global Now United, criado por Simon Fuller e gerenciado pela XIX Entertainment, teve sua primeira formação escolhida mediante processos de seleção. Gravou o videoclipe de “Come Together” também nesse panorâmico deserto. E também a cantora Selena Gomez. Como atriz, estreou na série infantil Barney e seus Amigos, em 1999. Ganhou destaque internacional ao estrelar a série vencedora do Prêmio Emmy, Os Feiticeiros de Waverly Place, exibida pelo Disney Channel, interpretando Alex Russo. Ela formou sua banda Selena Gomez & The Scene, após assinar um contrato com a Hollywood Records em 2008, gravou seu clipe A Year Without Rain neste deserto da trama Bagdad Café. E também é o local onde o jogo se passa da Fallout: New Vegas, produzido pela Obsidian Entertainment. Em 2001, o maratonista Carlos Sposito foi o primeiro brasileiro a correr na região, em um desafio típico-solitário. O filme tem como ponto de partida e contradição dialética quando a turista alemã Jasmin (Sägebrecht) tem uma briga com seu marido e o abandona na estrada. Ela caminha pelo deserto até chegar ao posto-motel Bagdad Café. O posto-motel é frequentado por personagens.           

A liberdade intelectual não pode ser vista apenas como determinada possibilidade de expressão. É uma noção que se torna necessário sociologizar, culturalizar, complexificar, termodinamizar. Está ligada a um contexto cultural pluralista, dialógico, conflitual agitado. Necessita não apenas das condições que se tornam, de fato, permissivas, mas, também das condições dinâmicas irradiadas pelas crises, turbulências, conflitos nas ideias e visões de mundo. Comparativamente, como ocorre no mundo físico, a termodinâmica do mundo das ideias só é fecunda, produtiva ou criadora entre certos patamares, os quais não podem ser determinados a priori. Aquém desses limiares, não há “efervescência cultural” e, além, a turbulência torna-se dispersiva ou explosiva. Não se pode determinar uma temperatura intelectual ideal, ainda mais que não há nenhum termômetro ad hoc. Mas, para concordarmos com Edgar Morin, assim como a verdadeira vida do pensamento realiza-se na temperatura de sua própria destruição, “a verdadeira vida de uma efervescência cultural desenrola-se quase na temperatura de sua própria ebulição. Neste sentido, se podemos conceber o complexo das liberdades, então podemos compreender que a cultura enquanto representação seja tanto libertação quanto prisão para o conhecimento ou o pensamento. 

 A cultura aprisiona-nos no seu etno-sócio-centrismo, seu hic et nunc, nos seus imperativos categóricos e proibições, nas suas normas e normalizações, nas suas limitações e encobrimentos, nos seus artigos de fé e também de desconfiança, nas suas verdades e nos seus erros. Mas, ao mesmo tempo, a cultura oferece-nos uma linguagem, um saber, uma memória, um processo comunicativo, uma possibilidade de trocas linguísticas, verificações e refutações. Quando comporta em si a pluralidade dialógica e a abertura para as outras culturas e os outros saberes exteriores, oferece-nos as condições e possibilidades de emanciparmos relativamente das suas limitações e dissimulações. Com o desenvolvimento da cultura crescem, naturalmente, o artificial e o frívolo na esfera do pensamento; além de pequenos imprinting locais e sofísticos multiplicam-se em outros tantos diaforismos e trissotinadas; um “alto cretinismo” instala-se nas esferas superiores; a proliferação da abstração e da matematização mascara o real concreto ou mesmo de análise, que deviam traduzir, mas, ao mesmo tempo crescem e multiplicam-se as brechas que permitem as autonomias e as liberdades, as possibilidades de acesso aos problemas essenciais e universais, mesmo se, sob a pressão das frivolidades e dos “altos cretinismos”, inicialmente usado para descrever uma pessoa de muito pouca inteligência e lunática, os problemas decisivos permanecem confinados a uma minoria tola, medíocre, desviante.   

Bibliografia geral consultada.

WATZLAWICK, Paul (Org.), L’Invention de la Réalité. Comment Savons-Nous Ce Que Nous Savons? Contributions au Constructivisme. Paris: Editeur Seuil, 1988; ALLEGRO, Luís Guilherme Vieira, A Reabilitação dos Afetos: Uma Incursão no Pensamento Complexo de Edgar Morin. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007; CARVALHO, Marçal Luis Ribeiro, A Questão Punitiva na Pós-modernidade: Desafios Contemporâneos à Luz da Ética da Alteridade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2010; IANNI, Octavio, A Sociologia e o Mundo Moderno. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2011; MORIN, Edgar, Rumo ao Abismo: Ensaios sobre o Destino da Humanidade. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2011; FREITAS, Francisco Augusto Canal, Habitar o Hábito: Reflexão e Origem da Cidade no Pensamento de Walter Benjamin. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2012; NUNES, Elaine C. Roschel; LORKE, Franziska; JANZEN, Henrique, “Diálogo, Conflito e Movimento Identitário no Encontro de Culturas: Uma Análise do Filme Bagdá Café”. In: Pandaemonium Germanicum, São Paulo, vol. 16, nº 21, pp. 111-127, 2013; JUNQUEIRA, Flávia, A Teatralidade na Vida Cotidiana. Dissertação de Mestrado. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; LELOUP, Jean-Yves, Une Danse Immobile. Paris: Éditions Du Relie, 2015; FOUCAULT, Michel, Isto não é um cachimbo. 7ª edição. Sã Paulo: Editora Paz e Terra, 2016; BACH, Augusto, Michel Foucault e a História Arqueológica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Metodologia das Ciências. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2016; FRAGA, Júlia Massadas Romeiro, Precaução e Direcionamento de Condutas sob Incerteza Científica. Dissertação de Mestrado. Escola de Direito. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2019; AFTEL, Mandy, Essência e Alquimia. Belo Horizonte: Editor Laszlo, 2020; SANTOS, Géssica Brito, “Devir e escrita na filosofia de Deleuze e Guattari”. In: Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 6, edição 1, vol. 5, pp. 191-204, jan. 2021; entre outros. 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Giorgio Rosa - Cinema, Erotismo & Invenção da Comuna Ilha das Rosas.

 

                                   “Regra é, em primeiro lugar, gestão da vida quotidiana”. Max Weber   

            A comuna italiana é a unidade básica de organização territorial da Itália, equivalente ao município no Brasil e em Portugal, onde é também chamado concelho. Sua estrutura é constituída pelo sindaco, equivalente ao prefeito no Brasil e ao presidente da câmara municipal em Portugal; pelo conselho comunal (consiglio comunale) equivalente a Câmara de Vereadores no Brasil, que é composto pelo sindaco e por um número variável de conselheiros comunais eleitos; e pela junta comunal (giunta comunale), um grupo de assessores escolhidos pelo sindaco. A comuna é o ente local fundamental, autônomo e independente, segundo princípios consolidados na Idade Média, que se estendeu do século V ao século XV. Seu início foi marcado pela queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e o fim pela tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 e parcialmente retomados pela Revolução Francesa, disposto no Artigo 114 da Constituição da República Italiana. Cada comuna pertence a uma província, mas o governo provincial não é intermediário nas relações das comunas com as regiões ou com o Estado italiano. Por ter personalidade jurídica, a comuna pode ter relações diretas com a Região e com o Estado e, de fato, sendo as competências da região muito mais amplas do que as de uma província, a comuna mantém mais relações com a região.

A subdivisão em circunscrições territoriais é praticamente obrigatória para comunas maiores, sendo consideradas aquelas que superam os 100 mil habitantes, a fim de proporcionar uma participação social mais direta da população na administração. A cada circunscrição, são delegados poderes previstos em Estatuto. Comunas pequenas e médias, por sua vez, são divididas em frações (frazioni em italiano), equivalentes aos distritos no Brasil. A fração (frazione), todavia, não tem autonomia administrativa, sendo apenas uma divisão geográfico-estatística. Em 2001, havia, na Itália, 8 101 comunas. Posteriormente, foram criados Baranzate e Cavallino-Treporti. Destas 8 103, cem superam os 50 mil habitantes, sendo que 80 são capitais de província. Poucas comunas podem exibir o status de cidade. Esta condição é conferida por um decreto específico do presidente da República Italiana, a partir de sua iniciativa autônoma ou de uma proposta do Governo ou do comune interessado. Aquelas consideradas como cidades possuem um brasão com características heráldicas específicas. O longa-metragem, que é ambientado em Rimini, na Itália dos anos 1960, demonstra a démarche de Giorgio Rosa, “um engenheiro e inventor que tem o talento para construir tudo o que deseja”. Na história política contemporânea a Comuna de Paris representou o primeiro governo operário de homens e mulheres, fundado em 1871 por ocasião da resistência popular ante a invasão por parte do Reino da Prússia. 

A história comparada registra algumas experiências incipientes de regimes comunais, impostos como afirmação revolucionária da autonomia da cidade. A mais importante delas tem como representação a Comuna de Paris que surge no bojo da insurreição popular de 18 de março de 1871. Durante a guerra franco-prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional Francesa uma maioria de deputados monarquistas francamente favoráveis à capitulação ante a Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política. Louis Adolphe Thiers, elevado à chefia do gabinete conservador, tentou esmagar os insurretos. Estes, com o apoio da Guarda Nacional, derrotaram as forças legalistas, obrigando os membros do governo a abandonar Paris, onde o comitê central da Guarda Nacional passou a exercer comando e autoridade. O poder comunal manteve-se durante cerca 72 dias. Seu esmagamento revestiu-se de extrema crueldade letal do Estado francês. De acordo com dados estatísticos mais de 20 000 communards foram executados pelas forças públicas de Thiers. O governo durou oficialmente de 26 de março a 28 de maio, enfrentando não só o invasor alemão como também tropas francesas, pois a Comuna fora um movimento de revolta ante o armistício assinado pelo governo nacional transferido para Versalhes após a derrota na guerra franco-prussiana. Os alemães tiveram que libertar militares franceses vencidos prisioneiros de guerra para auxiliar na tomada de Paris.

Analogamente desde à Comuna de Paris quase sempre em meio a enfrentamentos sangrentos, é uma história política na qual figuram Louise Michel e Rosa Luxemburgo, Walter Benjamin, André Breton e Daniel Guérin, chegando até ao subcomandante Marcos e aos altermundistas. O governo revolucionário foi formado por uma federação de representantes de bairro. Uma das suas primeiras proclamações foi a “abolição do sistema da escravidão do salário de uma vez por todas”. A guarda nacional se misturou aos soldados franceses, que se amotinaram e massacraram seus comandantes. O governo oficial, que ainda existia, covarde, fugiu, junto com suas tropas leais, e Paris ficou sem autoridade. O Comitê Central da federação dos bairros ocupou este vácuo de poder, e se instalou na prefeitura. O comitê era formado por blanquistas, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, proudhonistas e uma miscelânea de indivíduos não afiliados politicamente, a maioria trabalhadora braçal, escritores, simpatizantes e artistas. Eleições foram realizadas em todos os níveis da administração pública. A polícia foi abolida e substituída pela guarda nacional. A educação foi secularizada. A previdência social foi instituída e uma comissão de inquérito sobre o governo anterior. Decidiu-se por trabalhar pela abolição da escravidão do salário: 90 representantes foram eleitos, 25  trabalhadores e a maioria foi constituída de pequeno-burgueses, mas os trabalhadores revolucionários maioria. Vale lembrar que em semanas, a recém-nomeada Comuna de Paris introduziu mais reformas que os governos nos dois séculos anteriores combinados.

Como Louise Michel construiu sua imagem? Através do que os historiadores denominam erroneamente o espontaneismo pelo seu romantismo, ou seja, seu gosto pela desmedida, seu gosto pela erudição e pela aventura. Jules Michelet testemunha o que as mulheres, no “imaginário feminino”, representaram ao espírito da luta do século XIX. Louise Michel ganhou sua grandeza enquanto mulher por encarnar tão bem o século XIX. Seus companheiros e suas companheiras históricas nela se reconheciam, e ela não desmereceu suas amizades. Pagou um preço alto pela sua vida de mulher: um celibato ostentado como arma de liberação, que relegou Louise Michel durante um bom tempo às lembranças acadêmicas empoeiradas do passado. Nossa juventude turbulenta era pouco inclinada a entusiasmar-se por esse gênero de modelo. Aliás, ainda hoje apenas os anarquistas federados a celebram. Numerosos são os que preferem a marxista Rosa Luxemburgo, talvez em função de sua afirmação interpretada e compreendida do ponto de vista da política e da sexualidade. O que determina a escolha de um ponto de vista sobre o sujeito e o mundo são os objetivos pragmáticos. Deixamos de lado a posse de uma teoria fundada em exigências lógicas ou achados empíricos incontestáveis. Poder, interesse, dominação, realidade material, são indispensáveis à análise que nos habituaram a aceitar como verdadeira, pela força ou pela persuasão dos costumes. Para efeitos da ação, só existem eventos descritivos. A descrição preferida do intérprete será a mais adequada às suas convicções morais e não a mais iluminada pela Razão. Política é regulação da existência coletiva, poder decisório, disputa por posições de mando no mundo, confrontos entre formas. Violência em última análise         

Assim, é também diferente da produção simbólica porque se exercita sobre o interesse dos agentes sociais, quando não sobre o seu próprio corpo. Não produz mensagens, discursos cotidianos, produz obediências, obrigações, submissões, controles. Poder, na modernidade, é uma relação social de mando e obediência. São decisões tomadas politicamente que se impõe a todos num determinado território ou unidade social. Todavia, convertem-se em atividades coercitivas, administrativas, jurídico-judiciárias e deliberativas. Eis a grande questão: o processo político diz respeito a pergunta: "Quem pode o quê sobre quem"? A mesma pulsão escópica frequenta a ficção que cria leitores, que muda de legibilidade a complexidade urbana. Não é mais suficiente para compreender as estruturas de poder deslocar para os dispositivos e os procedimentos técnicos uma multiplicidade humana, capaz de transformar, disciplinar e depois gerir, classificar e hierarquizar todos os desvios concernentes à aprendizagem, saúde, justiça, forças armadas ou trabalho. Na política, lembra Certeau (2018), o que faz andar são relíquias de sentido e às vezes seus detritos, os restos invertidos de grandes ambições. Nome que no sentido preciso da memória deixaram de ser próprios. Nesses núcleos simbolizadores se esboçam e talvez se fundem três funcionamentos distintos (mas conjugados) das relações políticas entre práticas espaciais e significantes: o crível, o memorável e o primitivo.           

Historicamente em 1956, Jacques Cousteau lançou seu primeiro documentário em cores, chamado como seu livro anterior, The Silent World. Este filme mudou para sempre a ideia das pessoas sobre os oceanos e a magia da vida que contêm. O documentário fundamenta um método de trabalho e processo de comunicação tornando-se no primeiro documentário submarino produzido na França. Anteriormente, no ano de 1943, Cousteau produziu outro documentário, Épaves (Naufrágios), onde utilizou os dois primeiros protótipos do Scaphandre Autonomo CG45, ou simplesmente Aqualung, tecnicamente o primeiro protótipo do que se tornaria o equipamento de mergulho autônomo que reconhecemos pelo nome de SCUBA criado pelo engenheiro Émile Gagnan. Em 1947 o suboficial Maurice Farques pode ser considerado em acidente de trabalho  (cf. Kawamura, 1979), o primeiro mergulhador a morrer utilizando o Aqualung. Em 1948 Cousteau transforma o seu documentário no seu primeiro livro que levou o mesmo nome do documentário. Em 1948 Cousteau à bordo da corveta Élie Monnier com Philipper Tailliez, Frédéric Dumas, Jean Alinart e Michel Ichac empreendeu a primeira campanha e técnica de exploração submarina envolvendo testes físicos e científicos. Nesta campanha realizaram-se a primeira exploração arqueológica com mergulho autônomo quando descobriram o naufrágio do barco romano em Mahdía na Tunísia. O antigo barco naufragado foi encontrado próximo à praia de S`Arenal, na ilha de Maiorca, na Espanha. Em meio aos destroços, foram descobertas 93 ânforas de estilo greco-romano. A técnica de interpretação sobre a embarcação remonta ao período do Império Romano e tem aproximadamente em torno de 1,8 mil anos. Esta operação técnica é reconhecida socialmente como “o primeiro mergulho científico da história”. 

Em 1949 Cousteau deixa a Marinha e funda a Campanha Oceanográfica Francesa. Em 1950 o filantropo inglês Thomas Loel Evelyn Bulkeley Guinnes arrendou para Cousteau, pela quantia simbólica de 1 franco ano, o caça minas inglês HMS J-026 então convertido em um navio oceanográfico e rebatizado com o nome de Calypso. 2Historicamente os primeiros relatos de mergulho vêm na antiguidade, quando usavam a técnica para o resgate de armamentos e alimentos. No Japão e na Coréia, há mais de 4 mil anos a. C, já existiam mergulhadores especializados “em caçar pérolas no fundo do mar”. A tecnologia foi se desenvolvendo e a principal responsável pelo desenvolvimento das técnicas de mergulho foram as guerras, já que para resgatar armamentos e atacar o inimigo foram criados novos métodos de trabalho para mergulhar. No século XX houve um desenvolvimento espetacular na parte dos equipamentos. Tecidos pesados foram trocados por roupas de borracha. Não se pode deixar de mencionar o francês Jacques- Yves Cousteau, que no ano de 1943, em plena ocupação nazista alemã, mergulhou pela primeira vez na Costa Provençal, tendo até 20 metros com auxílio de um aparelho que ele mesmo inventou: o Aqualung, “um composto híbrido que se traduz por pulmão aquático”, que abriu caminho para novos e modernos equipamentos de mergulho. 

O mergulho nasceu da questão da vontade humana desde Aristóteles, Cícero, Santo Tomás de Aquino, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, a sociedade seria fruto de um impulso associativo natural do homem aliado à vontade e desejo de explorar tecnicamente o mundo submarino. Apesar de estar tão presente em nossa vida, o mar ainda é o maior, mais intrigante e desconhecido habitat terrestre. Milhares de descobertas realizadas através dos séculos por mergulhadores, além de ajudarem a narrar a história do homem, criaram um tipo de esporte que é muito praticado no mundo todo. Das técnicas milenares, utilizadas para a busca comercial de alimentos e armamentos, até as modernas tecnologias empregadas em mergulhos cada vez mais ousados e profundos, vidas ficaram pelo caminho. Mas, certamente o sonho desses mergulhadores não foi certamente em vão. A “modernidade vagueia” livre para quem quiser se arriscar no mergulho, sob certas condições normais de temperatura e pressão, dispõe das condições sociais e técnicas de explorar a vida marinha com grande margem de  erro e segurança. Para a atleta de mergulho livre com 4 recordes mundiais e 8 latino-americanos, Karol Mariechen Meyer, praticante de mergulho em apneia. É a recordista em número de recordes mundiais para o Brasil, em toda a história social do esporte, o mergulho é um esporte possível de atualização como qualquer outro. - “Para mergulhar não precisamos ser um Pelizari, uma Tanya Streeter, basta termos vontade de estarmos na água, alguns minutos a mais sem respirar para podermos descer nas profundezas, ficar mais tempo na piscina, ou então, percorrer uma grande distância submersa”.  Os primeiros relatos etnográficos da história do mergulho são do Japão e da Coréia cerca de 4 mil anos antes dos relatos bíblicos de Cristo.         

A Ilha da República da Rosa (Respubliko de la Insulo de la Rozoj) representou uma micronação de curta duração em uma plataforma feita pelo homem no Mar Adriático, a 11 quilômetros (6,8 mi) do mar costa da província de Rimini, Itália. Foi construída pelo engenheiro italiano Giorgio Rosa, que se autoproclamou seu presidente e a declarou Estado independente em 1º de maio de 1968. A Ilha Rose tinha seu próprio governo, moeda, correio e estabelecimentos comerciais, e a língua oficial era o esperanto. No entanto, nunca foi formalmente reconhecido como um Estado soberano por nenhum país do mundo. Vista pelo governo italiano como uma manobra persuasiva de Rosa para arrecadar dinheiro dos turistas e ao mesmo tempo evitar a tributação nacional, a Ilha Rose foi ocupada pelas forças policiais italianas em 26 de junho de 1968, sujeita ao bloqueio naval e, finalmente, demolida em fevereiro de 1969. A entidade que se instalaria na plataforma artificial recebeu o nome, em esperanto, de Libera Teritorio de la Insulo de la Rozoj, que mais tarde se tornou Esperanta Respubliko de la Insulo de la Rozoj (República Esperanto da Ilha de Roses). Seu periódico oficial intitulava-se Osservatore Domenicano, publicado em colaboração com os padres dominicanos de Bolonha, uma ordem religiosa católica que tem como objetivo a pregação da palavra e mensagem de Jesus Cristo e a conversão ao cristianismo. Fundada em Toulouse, França, em 22 de dezembro de 1216 por São Domingos de Gusmão, um sacerdote castelhano, o qual era originário de Caleruega, e confirmada pelo Papa Honório III. Os dominicanos não são monges, mas sim frades: Professam voto de obediência a Deus, à Bem-Aventurada Virgem Maria, a São Domingos, ao Mestre Geral e às leis dos irmãos pregadores,  aos quais Rosa estava intimamente ligado. Acredita-se que o termo em esperanto Rozoj foi emprestado do sobrenome de Giorgio Rosa, projetista e construtor da plataforma artificial, bem como o criador e inspirador da entidade estatal, como de seu desejo de “ver as rosas desabrocharem no mar”.

O mar Adriático é uma parte do mar Mediterrâneo, um golfo muito alongado fechado ao norte. Ele banha o norte e o leste da Itália e o oeste dos Bálcãs. Os países banhados pelo mar são a Itália, a Eslovênia, a Croácia, a Bósnia e Herzegovina, o Montenegro e a Albânia, possuindo diversos portos importantes, destacando-se Veneza (Mestre) e Trieste, que foi por muito tempo a saída marítima do Império Austro-Húngaro para o mar Mediterrâneo. Certo dia, ele resolve construir por si mesmo uma ilha no Mar Adriático, que acabou ganhando o nome de “Ilha das Rosas”. – L’incredibile storia dell’isola delle rose (Itália, 2020) é o tipo de história em Rimini que os avós contam aos filhos e netos”, explica o produtor do filme, Matteo Rovere à BBC. - “É uma história muito famosa, mas apenas em Rimini. Achamos que era uma história incrível, e muito estranho que não soubéssemos dela”. Ou seja, “85% do que o filme mostra aconteceu de fato, e apenas 15% foi alterado ou incluído na história original, porque ela já era, por si só, fantástica”, diz o produtor do filme. A história começa em 1967, quando Giorgio Rosa se propôs a construir uma micronação, que pretendia ser um símbolo de liberdade. Como seu filho ressalta também à British Broadcasting Corporation (BBC), a construção de L’Isola delle Rose exigiu conhecimento técnico. Entre os personagens do filme estão: Elio Germano como Giorgio Rosa, além de Matilda de Angelis, Fabrizio Bentivoglio, Luca Zingaretti, François Cluzet, Thomas Wlaschiha, Leonardo Lidi, Alberto Astorri e Violetta Zironi.

Em 1968, o engenheiro italiano Giorgio Rosa não apenas projetou, ou como inventor social, como também financiou a construção de uma plataforma de 400 m² suspensa por pilares de aço. A estrutura foi construída na costa de Rimini, um pouco além das águas territoriais italianas, “o que significava que estava fora do controle das autoridades”. Giorgio se autoproclamou presidente e o declarou Estado independente – a República da Ilha Rosa. As autoridades jurídicas ficaram insatisfeitas com o fato de a Ilha das Rosas ter sido construída “sem permissão e estar se beneficiando do turismo enquanto evitava as leis fiscais”. Além de alegar que a ilha “estava sendo usada para bebida e jogos de azar”, alguns políticos até sugeriram que a ilha representava uma ameaça à ideologia de segurança nacional e poderia fornecer “cobertura para submarinos nucleares soviéticos, em um esforço para prejudicar sua reputação”. Apenas 55 dias após a Declaração de Independência da ilha em 24 de junho de 1968, os italianos enviaram forças militares para assumir o controle com a força bruta da política. Eles intimidaram com os canhões de navios de guerra em 11 de fevereiro de 1969 e também com dinamite. Dias depois, uma tempestade submergiu totalmente a estrutura.

A cultura fornece ao pensamento as suas condições de formação, de concepção, de conceitualização. Impregna, modela e eventualmente governa os conhecimentos individuais. Trata-se não tanto de um determinismo acadêmico, mas sociológico dos colegiados exteriores quanto de uma estruturação interna. A cultura e, via cultura, a sociedade estão no interior do conhecimento humano. Edgar Morin (2008) foi quem precisou a tese segundo a qual “o conhecimento está na cultura e a cultura está no conhecimento”. Um ato cognitivo individual é, ipso facto, um fenômeno cultural e todo elemento do complexo cultural coletivo atualiza-se em uma to cognitivo individual. Assim como os seres vivos tiram sua possibilidade de vida do seu ecossistema, o qual existe a partir de inter-retroações entre seres vivos, os indivíduos só podem formar e desenvolver o seu conhecimento no seio de uma cultura, a qual só ganha vida a partir das inter-retroações cognitivas entre os indivíduos: as interações cognitivas dos indivíduos regeneram a cultura que as regenera. Tal concepção torna inseparáveis cultura e  individuo, mas permite também conceber, segundo a concepção de autonomia/dependência, a autonomia relativa dos indivíduos como conhecimento. As nossas percepções estão sob controle, não apenas de constantes fisiológicas e psicológicas, mas, também, de variáveis culturais e históricas. A percepção visual é submetida a categorizações, conceitualizações, taxionomias, que influenciarão o reconhecimento e a identificação das cores, formas, objetos. 

            Para o que nos interessa, nunca é demais repetir que o conhecimento intelectual se organiza em função de paradigmas que selecionam, hierarquizam, rejeitam as ideias e as informações, bem como em função de significações mitológicas e de projeções imaginárias individual (sonho) e coletivas (mitos, ritos, símbolos). Assim se opera a chamada “construção social da realidade”, para lembramos de Peter Berger & Thomas Luckmann, mas, digamos antes a co-construção social da realidade, visto que a realidade se constrói também a partir de dispositivos cerebrais, em que o real se substancializa e se dissocia do irreal em que se arquiteta a visão de mundo, em que se concretizam a verdade, o erro, a mentira. Para conceber a sociologia, em particular, do conhecimento, é necessário, portanto, conceber não apenas o enraizamento do conhecimento na sociedade e a interação conhecimento/sociedade, mas, sobretudo, o anel recursivo no qual o conhecimento é produto/produtor de uma realidade sociocultural que comporta intrinsecamente uma dimensão cognitiva. Os homens de uma cultura, pelo seu modo de conhecimento, produzem a cultura que produz o seu modo de conhecimento. A cultura gera os conhecimentos que regeneram a cultura. O conhecimento depende de múltiplas condições socioculturais, as quais, em retorno, condiciona. Ao considerar-se o conhecimento é produzido por uma cultura, dependente de uma cultura, integrado a uma cultura, pode-se ter a impressão de que nada seria capaz de libertá-lo. Mas isso seria capaz de ignorar as potencialidades de autonomia relativa, no interior de todas as culturas, dos espíritos individuais, como na invenção de Giorgio Rosa.

            Os indivíduos, afirma Morin, não são todos, e nem sempre, mesmo nas condições culturais mais fechadas, máquinas triviais obedecendo impecavelmente à ordem social e às injunções culturais. Isso seria ignorar que toda cultura está vitalmente aberta ao mundo exterior, de onde tira conhecimentos objetivos e que conhecimentos e ideias migram entre culturas. Seria ignorar que a aquisição de uma informação, a descoberta de um saber, a invenção de uma ideia, podem modificar uma cultura, transformar uma sociedade, mudar o curso da história. Hoje, o conhecimento genético e o conhecimento nuclear dependem e concretizam o poder de vida e de morte em germe no princípio do conhecimento. Pensando assim, o conhecimento está ligado, por todos os lados, à estrutura da cultura, à organização da social, à práxis teórica e histórica. Ele não é apenas condicionado, determinado e produzido, mas é também condicionante, determinante e produtor, o que demonstra de maneira evidente a aventura do conhecimento. E, sempre e por toda parte, o conhecimento transita pelos espíritos individuais, que dispõem de autonomia potencial, a qual pode, em certas condições, atualizar-se e tornar-se um pensamento pessoal. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas inferiores da sociedade.  As sociedades culturalmente liberais não utilizam mais esse modo de repressão, embora persistam nelas várias intimidações desviantes de formação, de atualização disciplinar, de conceitos e categorias, com seus subaspectos de conformismo, exercendo uma prevenção contra o desvio e aos limites aos quais não deve ultrapassar, as palavras a não proferir, os conceitos a desdenhar, as teorias a não desprezar.

São os desafios de sua vida pessoal que o inspiram a criar “o seu próprio país em alto mar”. Ao expressar sua criatividade por meio de invenções na Itália dos anos 1960, o engenheiro só consegue se envolver em problemas com a lei. Fica claro que toda sua “improvisação” também causa o fim de seu relacionamento com Gabriella (Matilda de Angelis), que ainda gosta dele, mas que não consegue lidar com sua instabilidade. Frustrado, Rosa resolve fugir do mundo real e criar um lugar onde ele e pessoas como ele poderiam viver, se divertir e se expressar socialmente como bem entendessem. Depois de construir a comunidade/plataforma denominada Ilha das Rosas, com ajuda de seu amigo Maurizio (Leonardo Lidi) e de atrair turistas com ajuda do Club promoter Wolfgang Rudy Neumann (Tom Wlaschiha), o sonho de Giorgio Rosa parece estar, na realidade, se concretizando. Porém, ao solicitar o reconhecimento do país pela Organização das Nações Unidas, o mundo real novamente se torna um problema. O governo italiano vê a empreitada como uma afronta ao país e emprega diversos métodos para demover Rosa e os quatro outros cidadãos da República da Ilha de Rosa de montarem um país de fato. A questão é que, de um jeito ou de outro, a ideia não estava fadada ao fracasso. Se não fosse a Itália, algum outro país acabaria tendo motivos para ir contra a Ilha de Rosa. A Itália o fez por motivos geopolíticos e para evitar a criação de um perigoso precedente, mas as possibilidades de problemas são infinitas. Na prática, a pesca, o petróleo, os custos e a burocracia para se manter a ilha iriam rapidamente viabilizá-la como país.  O termo burocracia surgiu na segunda metade do século XVIII. Inicialmente empregado para designar a estrutura administrativa estatal, formada pelos funcionários públicos no âmbito de formação dos Estados nacionais. Eram responsáveis por áreas relacionadas aos interesses coletivos da sociedade, como as universidades, as forças armadas, a polícia e a justiça.

A burocracia moderna não representa apenas uma forma avançada de organização administrativa, com base no método racional e científico, mas uma forma de dominação legítima que regem o funcionamento da burocracia e sintetizam as formas de relações de poder contemporaneamente. Em sua essência burocracia e burocratização são processos inexoráveis, inevitáveis e crescentes, institucionalizados e presentes em qualquer tipo de organização de natureza pública ou privada. Além disso, a organização burocrática no sentido político é condição sine qua non para o desenvolvimento de uma nação ou Estado. Por ser indispensável ao seu funcionamento - gestor dos serviços públicos - e de todas as atividades econômicas e políticas particulares no âmbito técnico e social da divisão do trabalho. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria. O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que devem ser cumpridos. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida que influencia negativa ou positivamente atribuições e responsabilidades sociais. A organização do serviço público separa a repartição do domínio privado do funcionário e, em geral a burocracia segrega a atividade oficial como algo distinto da esfera da vida privada. Os conflitos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. - “quando se estabelece plenamente, a burocracia está entre as estruturas sociais mais difíceis de se destruir”.

Neste sentido, para Michel de Certeau a Cidade-conceito se degrada. E isto significa que a enfermidade de que afeta a razão que a instaurou e seus profissionais é igualmente a das populações urbanas? Talvez as cidades se estejam deteriorando ao mesmo tempo que os procedimentos que as organizaram. Mas é necessário desconfiar dessas análises. Os ministros do saber sempre supuseram o universo ameaçado pelas mudanças que abalam as suas ideologias e os seus lugares. Mudam a infelicidade ou a ruína de suas teorias em teorias da ruína. Quando transformam em “catástrofes” os seus erros e extravios, quando querem aprisionar o povo no “pânico” de seus discursos, será necessário, mais uma vez, que tenham razão? Ao invés de permanecer no terreno de um discurso que mantém o seu privilégio invertendo o seu conteúdo, pode-se enveredar por outro caminho: analisar as práticas microbianas, singulares e plurais, que em um sistema urbanístico deveria administrar ou suprimir e que sobrevivem a seu perecimento; seguir o pulular desses procedimentos que, muito longe de ser controlados ou eliminados pela administração panóptica se reforçaram em uma proliferação ilegitimada, desenvolvidos e insinuados nas redes de vigilância, combinados segundo táticas ilegíveis, mas estáveis a tal ponto de que constituem regulações cotidianas e criatividades sub-reptícias que se ocultam somente graças aos dispositivos e aos discursos. Nessa conjuntura da década de 1960 presente de uma contradição entre o modo coletivo da gestão e o modo individual de uma reapropriação, nem por isso essa pergunta deixa de ser essencial, caso se admita que as práticas de espaço tecem como efeito as condições determinantes da vida social. A racionalização da cidade acarreta a sua mitificação nos discursos estratégicos, cálculos baseados na hipótese ou na necessidade de sua destruição por uma decisão final. Assim funciona a Cidade-conceito, lugar de transformações e apropriações, objeto de intervenções, mas sujeito sem cessar enriquecido com novos atributos: ela é ao mesmo tempo a maquinaria e o herói da modernidade, sob os discursos que a ideologizam, proliferam as astúcias e as combinações de poderes de fato sem identidade, legível, sem tomadas apreensíveis, sem transparência racional tornando-a impossíveis de gerir. 

Além disso, o Giorgio Rosa da vida real escondia outras características. Sua ilha artificial já foi considerada uma espécie de paraíso hippie, mas ela também tinha o papel de paraíso fiscal para seu proprietário, que arrecadava dinheiro com as atividades turísticas. Além disso, Rosa já foi descrito pelo jornal conservador Il Foglio como “um ex-fascista com impulsos anarco-libertários; um cara que, depois de ter sido um soldado em Salò, foi condenado como desertor” e que fugia das opressões do paternalismo da Igreja Católica, do maternalismo do partido Democracia Cristã e do anticapitalismo dos comunistas. Entretanto, as afiliações políticas de Rosa jamais são abordadas em A Incrível História da Ilha das Rosas, que apresenta suas motivações como resultado de um pueril desejo de liberdade. Dado que suas liberdades como cidadão italiano eram plenamente garantidas, esse era talvez mais um desejo de não se responsabilizar pelas consequências de seus próprios atos, como Maurizio fazia ao roubar dinheiro de seu pai e culpar os trabalhadores pobres que vinham de outra parte da Itália. É por isso que a versão narrada em A Incrível História da Ilha das Rosas é muito mais sobre amadurecimento do que sobre aspirações políticas e econômicas. O resultado é uma comédia, cujo aspecto dramático funciona muito bem, apesar de seu caráter utópico ser nada muito profundo ou inesquecível. O que temos como background é a revelação fílmica de um debate político que inicia sua história em torno de 268 a. C., na foz do rio Arímino, constituindo uma área que havia sido habitada pelos etruscos, os úmbrios, os gregos e os gauleses.

A República Romana fundou a colônia de Arímino, provavelmente por causa do nome do rio próximo, Arimino. A cidade era tida como um bastião contra os gauleses invasores e também como uma ponta-de-lança para conquistar a planície de Padana. Rimini estava numa junção de estradas conectando a Itália central (Via Flamínia) e o norte da Itália (Via Emília, que levava à Placência e à Via Popília) e ela também permitia o comércio fluvial e marítimo. No século VI a. C., ela foi tomada pelos gauleses. Após a derrota final deles em 283 a.C., ela retornou para os úmbrios e se tornou, em 263 a.C., “uma colônia latina muito útil para os romanos durante a última das guerras gálicas”. A cidade foi envolvida historicamente nas conquistas de guerras civis, mas permaneceu fiel ao partido popular e seus líderes, primeiro Mário e depois Júlio César. Após ter cruzado o Rubicão, este fez seu lendário apelo às legiões no fórum de Rimini. A cidade atraiu a atenção e muito de espetacularização de diversos imperadores romanos, incluindo Augusto, que fez muito pela cidade, e Adriano em particular. Este grandioso período em sua história foi personificado pela construção de prestigiosos monumentos como o Arco de Augusto, a ponte de Tibério, o anfiteatro. A crise no mundo romano foi marcada pela destruição causada pelas estratégias de invasões e pelas guerras, mas também pelo testemunho de palácios de oficiais do império e as primeiras igrejas, o símbolo da difusão do Cristianismo, que realizou um importante Concílio de Rimini em 359 d.C.      

            Na engenharia (cf. Kawamura, 1979; Ramos, 1987) e comparativamente também no caso da construção na arquitetura, a construção civil representa a execução do projeto previamente elaborado, abstratamente, seja de uma edificação (monumento) ou a forma de uma obra de arte, que são obras de maior porte destinadas a infraestrutura como pontes, viadutos ou túneis. É a execução de todas as etapas do projeto da fundação ao acabamento, consistindo em construir o que consta em projeto, respeitando as técnicas construtivas e as normas técnicas vigentes. No Brasil, o termo reforma é o mais utilizado quando se trata de fazer alguma ampliação, inovação, ou restauração, ou apenas uma pintura, ou a troca de um piso cerâmico de um imóvel, seja comercial, industrial ou residencial. Os termos construção e obra também são utilizados. Construção civil é o termo que engloba a confecção de obras como casas, edifícios, pontes, barragens, fundações de máquinas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas, onde participam engenheiros civis e arquitetura em colaboração com técnicos de outras disciplinas. O termo construção civil e engenharia civil são originados de uma época em que só existiam apenas duas classificações para a engenharia civil e militar, cujo conhecimento técnico-científico, por exemplo de engenharia militar, era destinada apenas aos militares de carreira e a engenharia civil destinada aos demais cidadãos. A engenharia civil, que englobava todas as áreas, foi se dividindo em várias compatimetalizações, como exemplo, a engenharia elétrica, mecânica, química, naval, etc. A engenharia naval deu origem à construção naval, ambas eram agrupadas apenas na grande área da civil.

           A Arquitetura compreende uma forma de comunicação de massa que está bastante difundida. É uma operação precisa que se dirige a grupos humanos para satisfazer algumas de suas exigências e convencendo-os a viver de determinado modo. Também em relação a essa problemática sociológica a Arquitetura parece ter as mesmas características. Basta inferirmos, segundo Eco (1976) no ensaio: A Arquitetura: Comunicação de Massa?, também em relação a essa problemática a Arquitetura parece ter as mesmas características das mensagens-massa: 1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso; 2) O discurso arquitetônico é psicacógico: com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, o qual não apenas significa funcionalidade, mas promove e induz, no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica; 3) O discurso arquitetônico é fruído na desatenção, ao contrário se pensarmos de forma comparada como se frui a arte, na ciência, na política que requer absorção, atenção, devoção à obra que interpretar, respeito pelas intenções do remetente); 4) a mensagem arquitetônica pode carregar-se do ponto de vista das relações de comunicação e trabalho de significados sem que o destinatário perceba estar com eles interpretando uma traição. O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso. 

          O discurso arquitetônico é psicacógico: com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, que promove e induz no sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica. Seu discurso é fruído na transformação mágica de desatenção. Analogamente como na produção do discurso fílmico e televisivo, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, ao contrário como se frui na arte, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas formas de criação do autor.  Na esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a dialética entre capital e trabalho. Mas a esfera social onde a ideologia manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo da atividade política. O sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer. Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações particulares - sua e dos outros -  para agir. A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das “motivações particulares”. Os caminhos trilhados pela política evitam uma opção explícita por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa indiferença. São frequentes as combinações desses elementos em termos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. É nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Em termos histórico e político, Microestado é um Estado independente territorialmente pequeno, em sua maioria,  e também são pouco povoados.

 Dentre os 204 países do mundo, 24 se classificam como microestados. Com exceção do poderoso Vaticano, todos os demais encontram-se em regiões exclusivas de montanhas ou ilhas. Sobre o mar houve apenas a tentativa efêmera do Engenheiro Giorgio Rosas em torno do liberal Stato dell`Isola delle Rose (cf. Vaccarezza, 2006; Araújo, 2008)). Com exceção de Singapura, do ponto de vista da análise comparada, todos são Estados territoriais que se caracterizam por ter menos de um (01) milhão de habitantes. Aqueles economicamente mais importantes, em segundo lugar, são respectivamente: Singapura, o microestado mais populoso do mundo constituindo uma pequena ilha ao sul da Malásia com mais de cinco milhões de habitantes; Mônaco, um enorme bairro de 33 mil habitantes, tendo à beira o Mar Mediterrâneo e aos pés dos Alpes, na França; Vaticano, um quarteirão murado de 900 habitantes na cidade de Roma, na Itália, é sede da Igreja Católica Apostólica Romana, é o menor país católico do mundo tanto em área quanto em população; San Marino, um conjunto de pequenas vilas medievais de 30 mil habitantes, no topo do Monte Titano, também na Itália, mas numa área rural, e não encravada em uma cidade, como o Vaticano; Liechtenstein um principado de castelos e vilas medievais de 35 mil habitantes, numa região de difícil acesso dos Alpes, entre a Áustria e a Suíça; e Bahrein, um pequeno sultanato islâmico formado por 33 ilhas situadas no meio do golfo Pérsico. 

Com extensão territorial de 10.365.456 km², a Europa é o segundo menor continente da Terra, superando apenas a Oceania (8,5 milhões de km²). O continente europeu abriga 49 países, que apresentam dimensões bem variadas, como o maior país do mundo (Rússia) e o menor (Vaticano). Na Europa Ocidental estão localizadas seis nações (Mônaco, Andorra, San Marino, Malta, Liechtenstein e Vaticano), cujas dimensões são inferiores à república federativa do Brasil formada pela união de 26 estados federados, 5 568 municípios e do Distrito Federal. Entretanto, esses pequenos países, denominados também miniestados, apresentam elevado padrão socioeconômico, com destaque para o turismo. Os Estados soberanos estão localizados nas seguintes regiões: sete na Oceania, sete na América Central, seis na Europa Ocidental, dois no Oceano Índico, além do Bahrein no Oriente Médio, e Singapura no Sudeste Asiático. Os seis microestados da Europa estão representados por Malta, Andorra, Liechtenstein, San Marino, Mônaco e Vaticano. Com exceção do Bahrein, todos esses países têm sua economia baseada solidamente no turismo, com um pequeno apoio da agricultura e pesca. Também oferecem à sua população um elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 7 a 9 pontos, em uma escala adaptada de 0 a 1, para 0 a 10. A maioria dos microestados constituiu-se por iniciativa e luta entre povos que, no decorrer da história social e política, buscaram o reconhecimento de sua autenticidade culturalmente e a eficácia simbólica de sua soberania, ainda que em reduzido espaço territorial.

Muitas dessas nações conquistaram sua Independência a partir da década de 1960, com o processo de descolonização europeia na África, na Ásia, na Oceania e na América Central. Atualmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a soberania de 24 micropaíses. É possível afirmar que o padrão de vida da população da maioria dos micropaíses é bom, pois em geral apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que varia estatisticamente de médio (0,500 a 0,799) a elevado (0,800 e mais). Vários micropaíses ocupam posição de destaque no cenário político mundial, por sua importância econômica, política, cultural ou ambiental. Singapura, no Sudeste da Ásia, por exemplo, é um país considerado altamente industrializado, produtor de tecnologias avançadas, centro financeiro e portuário e tem PIB maior do que países como Chile e Uruguai. O Baréin é um importante produtor de petróleo na região do Oriente Médio, com grande refinarias e petroquímicas. Mas Andorra, Listenstaine e São Marinho, na Europa, são verdadeiros patrimônios da humanidade porque reúnem construções arquitetônicas da Idade Média de grande valor histórico e artístico. Quiribáti, Palau e Tonga, no Oceano Pacífico, estão assentados sobre atóis coralígenos, cuja preservação é imprescindível para o equilíbrio do ecossistema marinho de todo o planeta.

Bibliografia Geral Consultada.

PAONE, Pasquale, “Il caso dell'Isola delle Rose”. In: Rivista di Diritto Internazionale, 1968;  Artigo: “Nuovo Stato al largo di Rimini su un`isola artificiale. Assediato dalle motovedette della Finanza”. In: Il Messaggero, 26/06/1968; DURAND, Pierre, Louise Michel ou la Révolution Romantique. Paris: Éditeurs Français Réunis, 1971; LYOTARD, Jean-François, Économie Libidinale. Paris: Éditions de Minuit, 1974; ECO, Umberto, A Estrutura Ausente. Introdução à Pesquisa Semiológica. 3ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; KAWAMURA, Lili Katsuco, Engenheiro: Trabalho e Ideologia. 1ª edição. Campinas: Editora da Universidade de Campinas, 1979; COHEN, Anthony Paul, The Symbolic Construction of Community. Londres/Reino Unido: Editor Tavistock, 1985; RAMOS, Marcelo Agra, “A Ideologia dos Engenheiros”. In: Rev. Adm. Empres. vol.27 nº2. São Paulo, Apr./June 1987; SERVIER, Jean, La Utopia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1982; PACCALET, Yves, Jacques-Yves Cousteau: Dans l`Océan de la Vie: Biographie. Paris: Les Éditions Jean-Claude Lattès, 1997; TAYLOR, Charles, As Fontes do Self: A Construção da Identidade Contemporânea. São Paulo: Edições Loyola, 1997; VACCAREZZA, Fabio, “Il Libero Stato dell`Isola delle Rose”. In: Il Collezionista, dicembre 2006; MORIN, Edgar, O Método: A Ideias, Habitat, Vida, Costumes, Organização. 4ª edição. Porto Alegre: Editora Sulina, 2008; ARAUJO, Rogério Bianchi de, Utopia e Antiutopia Contemporânea: A Utopia da Cidadania Planetária e a Antiutopia da Sociedade de Consumo. Tese de Doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008; GOFFMAN, Erving, Estigma: La Identidad Deteriorada. Madrid: Amorrotu Editores, 2009; CERTEAU, Michel de, A Invenção do Cotidiano: (1): Artes de Fazer. 22ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; GORDON, Jill, O Mundo Erótico de Platão: Das Origens Cósmicas à Morte Humana. São Paulo: Edições Loyola, 2015; SAMANTHA, Lodi-Corrêa, Entre a Pena e a Baioneta: Louise Michel e Nadehzda Kruspskaia, Educadoras em Contextos Revolucionários. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas, 2016; PEDROSO, Sandra Pires de Toledo, O Tempo da Utopia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; ROSA, Giorgio, L`Isola delle Rose. La vera storia tra il fulmine e il temporale. Bologna: Persiani Editore, 2020; CORREIA, André Rezende Soares, As Relações entre Soberania e Governo em Jean-Jacques Rousseau. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2021; entre outros.