LEFORT, Claude, Éléments d`une Critique de la Burocratie. Paris: Éditios Gallimard, 1979; CASTORIADIS, Cornelius, Socialismo ou Barbárie: O Conteúdo do Socialismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983; Idem, L`Enigma del Soggetto: L`Immaginario e Le Istituzioni. Itália: Edizione Dédalo, 1998; TRAGTENBERG, Maurício, Burocracia e Ideologia. São Paulo: Editora Ática, 1974; Idem, “Max Weber e a Revolução Russa”. In: Estudos Cebrap, n° 18, pp. 45-70, out./nov./dez. 1976; Idem, Administração, Poder e Ideologia. São Paulo: Moraes Editora, 1980; Idem, Marxismo Heterodoxo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981; MORIN, Edgar, “Un Aristote en Chaleur”. In: BUSINO, Giovanni, (Org.), Autonomie et Autotransformation de la Société: La Philosophie Militante de Cornelius Castoriadis. Genebra: Éditions Droz, 1989; SILVA, Dóris Accioly e MARRACH, Sonia Alem (Orgs.), Maurício Tragtenberg: Uma Vida Para as Ciências Humanas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 2001; SILVA, Antônio Ozaí da, Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária. Tese Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2004; SELL, Carlos Eduardo, “Max Weber: Democracia Parlamenar ou Plebiscitária?. In: Rev. Sociol. Polit. 18 (37) - Out. 2010; SILVEIRA, Stefane Carlan da, A Cultura da Convergência e os Fãs de Star Wars: Um Estudo sobre o Conselho Jedi Rs. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação. Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2010; VALVERDE, Antônio, Maurício Tragtenberg: 10 Anos de Encantamento. São Paulo: EDUC/FAPESP, 2011; VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto, “Leon Trotsky e as Ciências Sociais”. In: Libertas: R. Fac. Serv. Soc. Juiz de Fora, vol.14, nº1, pp. 11-18, jan./jun. 2014; SILVA, Custódio Gonçalves da, A Concepção de Educação em Maurício Tragtenberg. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016; SOUZA, Erisvaldo Pereira de, A Trajetória Intelectual e Política de Maurício Tragtenberg. Tese de Doutorado em Sociologia. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2017; entre outros.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Maurício Tragtenberg - Pluralismo, Método & Soberania da Vontade.
Ubiracy de Souza Braga
“Ele falava muito,
citava bastante gente e não seguia ordem cronológica nas explicações”. Silva
e Marrach (2001)
Guerra Fria é a designação atribuída
ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os
Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), compreendendo o período entre o final da 2ª guerra mundial
(1939-1945) e a extinção da União Soviética (1991), um conflito de ordem
política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas
nações e suas zonas de influência. É chamada “fria” porque não houve uma guerra
direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma
batalha nuclear. A corrida armamentista pela construção de um grande arsenal de
armas nucleares foi objetivo durante a primeira metade da “Guerra Fria”,
estabilizando-se na década de 1960-1970 e sendo reativado nos anos 1980 com o
projeto político-ideológico do norte-americano Ronald Reagan chamado de “Guerra
nas Estrelas”. Representou um programa militar do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, em 1983. Oficialmente chamado de SDI (sigla em inglês para “Iniciativa de Defesa Estratégica”), ele pretendia criar um sistema de satélites equipados com canhões a laser para destruir mísseis enviados contra o país.
É neste âmbito que Socialisme ou Barbarie representou um
grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. Seu nome vem
de uma frase de Rosa Luxemburgo usada em um ensaio de 1916, “The Junius
Pamphlet”. O grupo existiu durante os seguidos anos de 1948 a 1965. A
personalidade que o animava era Cornelius Castoriadis, também conhecido como
Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. O grupo se originou na trotskista Quarta Internacional, onde Castoriadis e
Claude Lefort constituíram a “Tendência Chaulieu-Montal” no Partido Comunista
Internacionalista francês, em 1946. Eles experimentaram, em 1948, o seu
“desencanto final com o trotskismo”, levando-os a romperem com os trotskistas
para formar o Socialisme ou Barbarie,
cujo jornal apareceu em março de 1949. Castoriadis mais tarde disse a respeito
desse período: a principal audiência do grupo e do jornal era formada pela esquerda
radical: bordigistas, comunistas de conselho, alguns anarquistas e órfãos da
esquerda alemã dos anos 1920. Eles foram vinculados à tendência Johnson-Forest,
que se desenvolveu com idéias dentro das organizações trotskistas americanas.
Uma facção desse grupo formou mais tarde o grupo Facing Reality. Os primeiros tempos também trouxeram debates com
Anton Pannekoek e um influxo de ex-bordigistas para o grupo.
O grupo Socialismo ou Barbárie fará ruptura com a IV Internacional - ruptura esta marcada por uma dupla originalidade. De modo diferente das inumeráveis cisões anteriores do movimento trotskista, ela não se dá à moda de uma pequena capela que muda de chefe sem transformar em nada a doutrina. Ao contrário de outras dissensões que igualmente rejeitam a organização de tipo leninista, “ela não joga fora o bebê” (Marx) “junto com a água do banho” (Lênin-centralismo-stalinismo). Ao romper com os heterodoxos ortodoxos - IV Internacional e dissidências da IV Internacional - em nome do marxismo, Socialismo ou Barbárie emerge como a “heresia de uma heresia” (cf. Morin, 1989). O Socialisme ou Barbarie era crítico do leninismo, rejeitando a ideia de um partido revolucionário e colocando ênfase nos conselhos de trabalhadores. Enquanto alguns membros partiram para formarem outros grupos, aqueles que permaneceram se tornaram mais e mais críticos do marxismo ao longo do tempo. Jean Laplanche, um dos membros-fundadores do grupo, recorda os primeiros dias da organização.
O grupo era composto tanto de intelectuais quanto de trabalhadores e concordavam com a ideia singular de que os principais inimigos da sociedade eram as burocracias que governavam o capitalismo.
Eles documentaram e analisaram a luta contra a burocracia no jornal do grupo. A edição de número 13 referente a janeiro-março de 1954, por exemplo, era dedicada à interpretação da Revolta de 1953 na Alemanha do Leste e às greves em vários setores de trabalhadores franceses naquele verão. Seguindo a ideologia política de que o que a luta diária que a classe trabalhadora encarava representava o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem cada aspecto social da vida cotidiana no trabalho. Em 1958 desentendimentos quanto ao papel político do grupo levou à saída de membros importantes.
Claude Lefort e Henri Simon deixaram o grupo para se engajar no Informations et Liaison Ouvrières. Em 1960, o grupo tinha crescido para ao redor de 100 membros e tinha desenvolvido novas ligações internacionais, primariamente na emergência de uma organização irmã na Grã-Bretanha chamada Solidarity. Disputas dentro do grupo sobre a crescente rejeição do marxismo por Castoriadis levou à saída do grupo ao redor do jornal Pouvoir Ouvrier. O principal jornal Socialisme ou Barbarie continuou a ser publicado até a edição final em 1965, depois da qual o grupo permaneceu dormente e foi então dissolvido. Uma tentativa de Castoriadis para reviver o grupo durante os nichos através da ressonância dos eventos de Maio de 1968 fracassou. A Internacional Situacionista foi associada ao grupo e influenciada através de Guy Debord, que era membro de ambos. O movimento social italiano Autonomia também acabou sendo influenciado, embora de forma menos diretamente.
A busca de uma argumentação que vise à universalidade (a própria filosofia) não se originaria na racionalidade humana, mas na imaginação intelectual criadora e/ou “imaginária radical”.
O homem é criação propiciada por uma formação exagerada da “faculdade da imaginação” que faz a essência do homem, precisamente criadora. Para que a espécie humana pudesse sobreviver, a psique precisou ser socializada e dar sentido a um mundo social positivista globalizado aparentemente sem-sentido natural-biológico. Ao criar as significações, institui-se a sociedade que é a origem de si mesma. Não se poderia pensar a humanidade fora do mundo de significações, ou a subjetividade, a partir do termo “para si”, das representações das instituições sociais. O “para si” é inferido a partir das instancias, interdependentes, em que existem, mas não se mantém sem a outra, numa completa relação de atividade e reciprocidade representando a totalidade do sujeito. Metodologicamente Cornelius Castoriadis admite que é impossível fazer filosofia sem uma ontologia, isto é, sem uma interrogação sobre o ser, mas, ao contrário do que possa pensar aquele para quem ontologia soa como “palavra proibida”, sua reflexão é inteiramente articulada à questão política. Não sendo, pois, uma idealização, mas um pensamento radical sobre a possibilidade de uma sociedade na qual os homens tenham consciência de seu poder. Por sua vez, o “imaginário radical” enquanto imaginário social aparece como corrente do coletivo anônimo, traduzindo-se na sociedade e no que para o social-histórico é posição, criação e fazer ser. Duas dimensões não incomunicáveis nem estáticas, embora a dimensão psíquica tenha a sua participação oculta na criação.
Maurício Tragtenberg iniciou sua aprendizagem de português, espanhol, esperanto e russo, além das leituras de clássicos anarquistas russos Piotr Alexeyevich Kropotkin, Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, Liev Nikoláievich Tolstói por influência de seus avós, imigrantes judeus, que se instalaram no interior do Rio Grande do Sul numa unidade familiar de agricultura de subsistência. Foi lá que Tragtenberg frequentou o grupo escolar, em Porto Alegre, mas não foi além da terceira série do então curso primário. Após a morte precoce do pai, transferiu-se com sua mãe para São Paulo, onde ainda jovem começou a trabalhar. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido expulso com base em um artigo que proibia ao militante contato com membros trotskistas ou com a obra teórica de Leon Trotsky, autor por ele lido e relido de forma contumaz. Torna-se dirigente do recém-fundado Partido Socialista Revolucionário (PSR), através da seção brasileira da IV Internacional fundada por Leon Trotsky com os camaradas Hermínio Sacchetta, Febus Gikovate, Alberto da Rocha Barros, Vítor Azevedo, Patrícia Galvão (Pagu), o sociólogo Florestan Fernandes, entre outros.
Trabalhou, mormente, no Departamento das Águas de São Paulo, obtendo a sua experiência prática decisiva com a burocracia, posteriormente criticada em seu livro: Burocracia e Ideologia (1974), que retoma as ideias expostas na sua tese de doutoramento, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1973.
Tragtenberg “procurou analisar, sobretudo, a Teoria Geral da Administração como ideologia, observando que ela se liga às determinações reais enquanto técnica (pela mediação do trabalho) e, ao mesmo tempo, ambiguamente, se afasta dessas determinações e reflete a realidade de maneira deformada, compondo um universo que é organizado mas... falseado”. Neste período frequentava a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, onde foi possível ler e discutir assuntos e temas diversos com intelectuais que também frequentavam a biblioteca, entre eles Antônio Cândido, que o convenceu a prestar o exame vestibular para a Universidade de São Paulo. Aprovado, começa a frequentar o curso de Ciências Sociais. Um ano depois prestou novamente vestibular - desta vez para o curso de História, que concluiu. Durante a ditadura militar (1964-1985) escreveu sua tese de doutorado em Política, também pela Universidade de São Paulo (USP).
Começou então a se dedicar à carreira de professor, lecionando na graduação e pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Universidade de São Paulo, Universidade de Campinas e na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (EAESP-FGV). No meio acadêmico, Tragtenberg ficou reconhecido como um autodidata, o que era uma boutade, pois ele próprio costumava provocativamente, afirmar o seu curso primário incompleto.
O autodidata não encontra barreiras pela falta de títulos. Politicamente preferia definir-se como um socialista libertário, ao contrário de anarquista, e radical. Irreverente com relação aos símbolos e às artimanhas do poder, foi um intelectual independente e crítico em relação à burocracia acadêmica, que desprezava. Suas classes eram frequentadas não só por alunos regulares, mas também pelos chamados “ouvintes” ou simpatizantes não matriculados, por seu espírito rebelde e senso de humor sarcástico, mas, sobretudo por sua generosidade intelectual. A compulsão pela palavra escrita somada à facilidade de guardar nomes e citações fez-no ser lembrado por constituir um “saber enciclopédico”.
Autodidatas famosos, podem ser o 16º presidente dos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln, o extraordinário guitarrista Jimi Hendrix, os escritores Ray Bradbury, Machado de Assis, José Saramago e o polímata Leonardo da Vinci. Autodidata com a capacidade de aprender algo sem ter um professor ou mestre lhe ensinando ou ministrando aulas, o próprio indivíduo, com seu esforço particular intui, busca e pesquisa o material necessário para sua aprendizagem. O “autodidatismo” é alvo de diversos estudos acadêmicos, devido especialmente a expansão de sistemas educacionais on-line.
Estes estudos visam a compreensão das práticas pedagógicas, a relação entre o uso de tecnologia e a concepção de conhecimento e educação envolvidas no processo. A educação independente é um meio de liberar-se das limitações institucionais. O mitólogo e estudioso das religiões Joseph Campbell formou-se no bacharelado e mestrado em artes liberais na Universidade Colúmbia. Porém, quando quis estudar o doutorado enfocando a singular combinação de sânscrito, arte moderna e literatura medieval, o departamento de pós-graduação não aprovou.
Campbell deixou o doutorado e retirou-se para uma cabana no campo onde por cinco anos seguiu um programa rigoroso de leitura que tomava doze horas de seu dia. À parte de seus livros densos, o renomado Campbell formulou a teoria do monomito que descreve a jornada do herói arquetípico, a qual ainda guia a escrita de best-sellers e filmes hollywoodianos. A vedação do acesso das mulheres às universidade não impediram Virginia Woolf e Marie Curie de terem brilhantes carreiras. Do pai Sir Leslie Stephen Virgínia herdou livros, uma tutela doméstica e a paixão pela educação. Woolf lia e escrevia ensaios para fixar seu aprendizado, vindo a ser umas das escritoras mais marcantes da literatura contemporânea inglesa. Em seu ensaio Um quarto para si, Virginia Woolf retrata a educação que deveria ser seu direito. Se a universidade foi impedida a Woolf, Curie superou essa aparente barreira, mas ainda assim com duras penas e disciplinar autodidatismo. Marie Curie não tinha nem dinheiro ou possibilidades de fazer faculdade na Polônia. Estudou por conta própria e foi trabalhar de governanta em Paris. Completando sua educação independente, tomou algumas aulas na Sorbonne.
Aos 26 anos graduou-se no curso de mestrado em física e em segundo mestrado em química no ano seguinte. Depois conseguiu seu doutorado e seria a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel em 1903; aliás, dois prêmios Nobel, o segundo em 1911. Para a Prof. Doutora Dóris Accioly e Silva, da Universidade Estadual Paulista, campus de Marília, e coorganizadora da biografia de Maurício Tragtenberg, o vasto conhecimento do pensador era presenciado em sala de aula. Como ela dizia: - “Ele não era popular entre os alunos. Falava muito, citava bastante gente e não seguia ordem cronológica nas explicações”. Era casado com a atriz Beatriz Tragtenberg e foi pai do compositor Lívio Tragtenberg. Deixou publicados 8 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas de grande circulação no país, abrangendo temas como educação, política, sociologia, história e administração. Através da crítica analítica ao modelo pedagógico burocrático, Tragtenberg chega à teoria da pedagogia libertária, que se expressa pelo questionamento das relações de poder nas instituições e de toda e qualquer relação de poder estabelecida no processo educativo e das estruturas que proporcionam as condições para que essas relações se reproduzam no cotidiano das instituições escolares. Critica duramente a realidade das universidades, antevista na tese que propugna como “a delinquência acadêmica”, que a seu modo de ver, acabam exprimindo uma concepção capitalista do saber através da busca desenfreada por titulações, publicações, pontos. Se paga para apresentar trabalhos “a si mesmo” ou aos poucos amigos que se revezam entre falantes e ouvintes, não interessando o conteúdo e a qualidade do que se publica, mas quantos pontos valem.
Também não importa se alguém lerá o artigo ou que seja de publicação em algum país, pois as publicações internacionais “valem mais pontos”.
O fim do idealismo alemão, o aparecimento do materialismo, o pensamento de Friedrich Nietzsche e as teorias de Freud pareciam unir-se na luta contra a filosofia positivista que ganhava força com a industrialização: ordem e progresso unidos sob a batuta da ciência. Recorde-se que o anarquismo tinha ganhado raízes em Ascona, desde que em 1869, o célebre anarquista Mikhail Bakunin tinha vindo residir como refugiado político. Pouco tempo depois começaram a chegar outros refugiados com projetos distintos, como o de fundar um convento laico com o nome de Fraternitas, por iniciativa de teósofos como: Alfredo Pioda e Franz Hartmann, justamente nas montanhas de Ascona, que receberiam então, mais tarde, o nome de Monte Verità: - “Il Monte Verità si erge sulle colline che sovrastano Ascona ed il Lago Maggiore, e rappresenta da sempre un polo magnetico di convergenza di idee, tendenze, sperimentazioni e personaggi storici presentati oggi nell`offerta di un progetto moderno di rilanci”. É somente depois desta fase transitória que a produção sociológica de Max Weber começa a delinear-se.
A aproximação com os temas sociais está ligada à pesquisa empírica na região do Leste do rio Elba. Analisando o processo migratório de poloneses na fronteira da Alemanha, Weber destacou as tendências da introdução do capitalismo no campo e deu especial atenção às consequências políticas e sociais daquele processo. Aplicando diversos questionários, levantando os inúmeros dados ele concluiu que o acelerado processo de modernização econômica da Alemanha estava minando a estrutura de poder da “classe dirigente”, a aristocracia agrária: Junker.
Tal visão foi especialmente apresentada em uma Aula Inaugural, questão tópica desprezada entre nós, que serve mais como “palanque” ou uma maneira de satisfação aos novos “burocratas da cultura”, para lembramos do filósofo José Arthur Giannotti, mas pronunciada em 1895, e, denominada: Der Nationalstaat und Wirtschaftspolitik. Um lendário personagem do Monte Verità foi o médico anarquista Dr. Raphael Friedeberg, que atraiu, desde 1905, uma colônia de anarquistas. Tinha sido militante do Deutsch Sozialdemokratischen Partei, e pensou em Ascona como o local ideal para criar uma comunidade anarco-reformista baseada no conceito criado por ele mesmo: “o psiquismo histórico”.
Esta ideia postulava que a libertação do indivíduo podia dar-se a partir de uma educação não coerciva, livre do dogmatismo sócio religioso da burguesia. Friedeberg desenvolveu a medicina natural ao longo de 35 anos, e nunca deixou de polemizar com a medicina, apesar da fama e do prestígio desta. Outros anarquistas ligados ao Monte Verità foram: Erich Musham, Fritz Brupbacher, Kropotkine, Ernst Frick, o boêmio psicanalista Johanes Nohl, o psicanalista austríaco Otto Gross, que procurou fundar no Monte Verità “um matriarcado naturista e comunista”. Avesso à burocracia da academia e questionador das regras burocráticas que direcionam o ensino, não se importava com as disputas de “quantificação curricular”, com os títulos acadêmicos.
É um intelectual “diferenciado”, segundo Meneghetti, (2013). Sem se apegar ao mainstream acadêmico ou ser um acadêmico programado, como ocorre nos dias de hoje, Maurício Tragtenberg é, portanto, um intelectual radical. Ipso facto, teve posicionamento político claro e objetivo até mesmo quando defendia a classe trabalhadora contra as investidas do poder das elites capitalistas sempre compromissados com suas próprias convicções. Falava para a classe trabalhadora, seja pessoalmente ou por meio de colunas de jornais, de tal forma que suas falas estão sempre associadas a sua história de vida.
A forma como cresceu e aprendeu cotidianamente influencia diretamente na sua visão de educação, em cujo potencial de emancipação sempre acreditou, apesar de ser um crítico dela. As três dimensões da atividade acadêmica universitária, ensino, pesquisa e extensão, vêm se tornando dependentes de um processo burocrático incontrolável, submetido a normas e dependências que conduz a distorções com a plena identidade da atividade de pesquisa em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino e de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático e corporativo por excelência, organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria.
O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição representativa da sociedade, em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades à medida de atribuições e responsabilidades.
A forma de comportamento na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um atuou. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um do ponto de vista institucional no caso das universidades. A sociedade brasileira não rejeita a avaliação, mas a universidade padece com ela, geralmente vista como algo negativo, como representação simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo encontra-se ausente. Tendo em vista que, na universidade não há “premiação” para o bom professor em nenhum aspecto, mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos, fazem porque querem fazer, porque podem fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica.
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Ubiracy de Souza Braga,
Vontade
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Robert Merton - Sociologia Made in USA & Estruturas de Oportunidades.
Ubiracy de Souza Braga
“As teorias de médio alcance tratam
de aspectos limitados dos fenômenos sociais”. Robert Merton
Filho de imigrantes de origem judaica
supostamente emigrada da Ucrânia no ano de 1904, antes dos múltiplos ataques
antissemitas no país, apesar da infância humilde vivida no sul da Filadélfia,
Meyer R. Schkolnick considerava que lhe fora oferecido um amplo leque de
possibilidades. Dentre elas estava a escola local de ensino médio na qual estudou
bem como a biblioteca Canergie, localizada nas proximidades da casa de seus
pais, da qual foi assíduo frequentador. Para além de sua paixão pela leitura,
Merton descobriu cedo uma segunda paixão, a mágica, que o levou a alterar seu
nome, primeiro para Robert Merlin aos catorze anos, e depois para Robert King
Merton aos dezenove. Concluiu seus estudos na South Philadelphia High School e recebeu uma bolsa de
estudos para a universidade pública Temple University, na Filadélfia, onde se
tornou um aluno de destaque, passando a ser tutorado pelo sociólogo George E.
Simpson. Foi fundada originalmente em 1884 pelo Dr. Russell Conwell. Atualmente
possui mais de 38 mil alunos entre estudantes de graduação e pós-graduação além
de doutorandos. Com mais de 300 programas acadêmicos distribuídos entre sete
campus no estado da Pensilvânia e nos campus internacionais de Roma, Tóquio,
Singapura e Londres onde está presente. É considerada uma das melhores
universidades daquele estado e nos Estados Unidos da América.
Nesse
contexto, Merton passa a se interessar pela tradição sociológica europeia e a
participar como auxiliar em seu projeto de pesquisa intitulado: “The Negro in
the Philadelphia Press”, sendo posteriormente por este apresentado a Pitirim
Sorokin, fundador do recém-criado Departamento de Sociologia da Universidade de
Harvard. Encorajado por Sorokin, Merton se candidata para uma bolsa de estudos
em Harvard, onde consegue uma vaga logo após o término de seu curso em Temple
University para trabalhar como aluno Assistente deste. Durante sua estada em Harvard, como
sabemos, apesar de tutorado por seu mentor Sorokin, Merton começa a se interessar pelo
trabalho acadêmico de Talcott Parsons, um jovem, ainda desconhecido professor do novo
Departamento de Sociologia. Foi a partir de seu pensamento que Robert Merton
teve o primeiro contato com ideia que influenciou posteriormente sua obra: “The
Structure of Social Action” (1937). À
semelhança de Pitirim Sorokin, Talcott Parsons era um estudioso da escola europeia da
sociologia. Mas buscava inferir estes
ensinamentos ao invés de resumi-los, utilizando-os para sua constituição
de um novo conhecimento. Merton trata das ações individuais a partir da
perspectiva das pressões estruturais onde o indivíduo teria alternativas
condicionadas pelo sistema, as quais suas escolhas se restringiriam.
Tais alternativas sofrem impacto da estrutura
de poder, prestígio e influência, e a elas seria inerente o conflito e a ambivalência
devido à mudança estrutural. Tais padrões apresentariam constantemente níveis
de incidência de comportamento desviante. A estrutura social para Merton é
composta dos valores e normas, papéis e instituições, e finalmente conjuntos
desses papéis, ou status. Ganhou o
mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia, que foi
posteriormente revisto e transformado pelo autor em sua obra clássica Teoria e Estruturas Sociais. Por um
lado, os valores descrevem os objetivos vislumbrados como legítimos para a ação
pela sociedade, e por outro, as normas representam os caminhos pré-determinados
e esperados por esta para a consecução destes fins de forma legítima. Enquanto nível
de representações os papéis são uma fusão das normas e valores, estipulando um
comportamento específico esperado dos indivíduos. Em relação à instituição, sua
definição a considera como um conjunto de ideais e valores que orienta o
comportamento de uma determinada entidade: a ciência.
Os fatores descritos atuam sobre as expectativas que os atores sociais têm uns sobre os outros. A estrutura de
oportunidades, sob a perspectiva comparada dessa análise, restringe as
ações e oportunidades de vida profissional dos indivíduos.
Metodologicamente a teoria sociológica mertoniana se caracteriza então pela
observação de regularidades empíricas na relação entre duas ou mais variáveis,
da qual derivam afirmações generalizadas que são estruturadas de forma
sistemática. Em contraposição, a influência da pesquisa empírica sobre a
teoria, para além da crença popular tout
court de que se restringiria ao teste e verificação de hipóteses, demonstra
em quatro funções principais que contribuem para modelar seu desenvolvimento; melhor
dizendo, ela inicia, reformula, redireciona e esclarece a concepção de teoria. Após
a conclusão de sua dissertação, Merton permanece em Harvard se tornando
professor Associado do Departamento de Sociologia. Matinha uma visão
humanista sobre a função social da ciência, sendo claramente influenciado pela
teoria social de Max Weber, um giant
que soube compreender o socialismo, por exemplo, dentre uma plêiade de amigos do seleto grupo de intelectuais que frequentavam sua casa, sem ser um socialista ou anarquista engajado. Deste ponto de vista soube analisar o
capitalismo, percebendo o problema da ética protestante e o espírito do capitalismo.
A lista de cargos e posições, titulações de doutor honoris causa e prêmios conferidos a Merton é impressionante. Apenas para citar algumas das mais relevantes, Merton foi presidente da Associação Americana de Sociologia (1956-1957), da Associação de Pesquisa em Sociologia (1968), e da Sociedade para Estudos Sociais da Ciência (1975-1976). A ele foram conferidos mais de 20 títulos doutor honoris causa, entre eles de renomadas universidades como Oxford, Yale, Chicago, Harvard, Columbia, Leiden, entre outras. Merton foi membro da fundação Guggenheim (1962-1963), e do Centro para Estudos Avançados em Ciências do Comportamento. Conquistou o prêmio Talcott Parsons de Ciências Sociais, o “American Academy of Arts and Sciences”, bem como o “MacArthur Prize Fellow Award” (1983-88). Merton às vezes fora chamado “Sr. Sociologia”, e Jonathan R. Cole, ex-aluno e diretor da Universidade de Columbia, disse certa vez: - “Se houvesse Prêmio Nobel de Sociologia, não há dúvida alguma de que ele o teria ganho”. Não por acaso, notadamente o reconhecimento de seu filho, Robert Carhart Merton, ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 1997.

Contudo, do ponto de vista heterodoxo aproximou-se dos
anarquistas, tendo vivido a experiência singular, de Ascona, envolvendo-se com
as irmãs Richtoffen, antecipando algumas teses de Freud, sem ser anarquista, tal
como Simone de Beauvoir. Herdou com estes, a sabedoria de ser acadêmico
na universidade, político nos gabinetes e mundano nos salões. Com Weber
o motivo que levou ao reconhecimento
em graus diferentes de contribuições de mesma importância, ou até mesmo menor
reconhecimento de contribuições de relevância maior. A existência de grandes
premiações, como o prêmio Nobel, estabelece para Merton uma fronteira
qualitativa absoluta, entre aqueles considerados protagonistas do progresso
científico e a chamada “arraia miúda”. Tal fronteira cria a expectativa de que
os vencedores de tal premiação sempre trariam contribuições grandiosas enquanto
os demais estariam sempre obrigados a se reafirmar. A valorização social das contribuições de cientistas reputados em seus campos de
conhecimentos. Ipso facto seria desproporcionalmente elevada enquanto a valorização social dos “ilustres desconhecidos”, na falta de melhor expressão, tenderia a ser desproporcionalmente diminuta comparativamente. Foi a essa
observação, no âmbito dessa lógica que Merton nomeou o “Efeito Mateus”, devido ao reconhecido
trecho do evangelho homônimo: - “porque a todo o que tem dar-se-lhe-á, e terá
em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado”.
O
efeito Mateus é usado comumente na sociologia da
ciência, numa alusão ao evangelho, para enfatizar vantagens e prestígio que
adquirem certos pesquisadores no meio acadêmico, sempre em favor de quem
possui. - “A todo aquele
que acredita mais fé lhe será dada em abundância; e daquele que não crê lhe
será tirado”. Merton quis demonstrar como ocorre o aparecimento de
estratificação social no sistema científico, seja ela através de reconhecimento
in statu nascendi de conteúdo de sentido honorífico, de premiação através de recursos financeiros, todos de comunicação social
da ciência. Por ser uma estratificação social, evidentemente marginaliza a massa de cientistas que mesmo
produtivos não recebem as benesses em detrimento do outro, também produtivo,
que pertença a uma universidade dita de prestígio. Esse efeito social específico teria consequências disfuncionais sobre o papel do cientista na sociedade, tanto individualmente, a partir de diversas contribuições não reconhecidas, ou que tiveram sua importância menosprezada, quanto para a crença na justiça de tal sistema. Apesar disso, para Merton, existiriam concomitantemente funções positivas no sistema de comunicação social científico. Isto porque a atenção diferenciada conferida aos trabalhos de cientistas renomados possibilita a ampla difusão de novas descobertas, que poderiam ser ignoradas em circunstâncias normais.
Mas também através do “efeito Mateus”, é conferido crédito a novas
descobertas ao invés de haver uma recusa inicial pelo abalo que representam
para o conhecimento existente. O efeito Mateus pode ser vislumbrado como
disfuncional da perspectiva dos
sistemas, e simultaneamente funcional para o sistema de comunicação da ciência.
Com o processo político de globalização a disfunção ocupacional representa uma incapacidade
temporária ou crônica de desempenhar papéis, ocupações e relacionamentos
esperados para realizar suas
atividades sociais na vida cotidiana. Mutatis mutandis, no governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ele reinventou a categoria frankfurtiana da substituibilidade abrindo vagas de professores nas universidades. Com
o reconhecimento, o cientista ganha confiança (cf. Luhmann, 2005) aprofundada
em seu próprio julgamento. A confiança é também a característica comum dos
cientistas aparentemente renomados. Outros fatores psicológicos importantes são
a paciência e a força de vontade em perseverar na dura atividade de
reconhecimento que decorre da pesquisa científica. Apesar de atentos às
possíveis dicas oriundas de pesquisas diversas em sua área de interesse, eles
são auto-orientados e capazes de, por sua grande convicção, procurar métodos
alternativos de pesquisa com a constatação de lacunas no método adotado. O
fator psicológico cumpre papel fundamental para a criação da
presunção que perpetua o efeito Mateus na comunidade científica.
Os cientistas relativamente importantes tendem
a controlar a sua produção acadêmica, a abster-se de publicar tudo o que
produzem, a menos que estes textos alcancem seus próprios padrões de qualidade.
A presunção de qualidade ou de importância de reconhecimento social que se dá
aos trabalhos de “men of science” lembra-nos que não são os únicos que
contribuem para o reconhecimento científico. Americanas é uma
varejista brasileira com sede na cidade do Rio de Janeiro e centros de
distribuição posicionados estrategicamente no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio
Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Pará, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco. A
empresa foi fundada em 1929, pelos americanos John Lee, Glen Matson, James
Marshall e Batson Borger que partiram dos Estados Unidos em direção a Buenos
Aires com o objetivo de abrir uma loja no estilo Five and Ten Cents, lojas
que vendiam mercadorias a 5 e 10 centavos, na moeda americana. A ideia era
lançar uma loja com preços baixos, no modelo que já fazia sucesso nos Estados
Unidos e na Europa no início do século. No navio em que viajavam, conheceram os
brasileiros Aquino Sales e Max Landesman que os convidaram para conhecer o Rio
de Janeiro. Na visita ao Rio de Janeiro, os norte-americanos perceberam que
havia muitos funcionários públicos e militares com renda estável, porém com
salários modestos, e a maioria das lojas não eram destinadas a esse público. As
lojas existentes, em geral, vendiam mercadorias caras e especializadas, o que
obrigava uma dona de casa ir a diferentes estabelecimentos para fazer as
compras.
Foi assim que decidiram que o Rio de Janeiro era a cidade perfeita
para lançar o sonhado empreendimento – uma loja de preços baixos para atender
àquela população “esquecida” e que vendesse vários tipos de mercadorias. Eles
desejavam oferecer uma maior variedade de produtos a preços mais acessíveis. Assim,
no ano de 1929, inauguraram a primeira Americanas, em Niterói com o slogan
“Nada além de 2 mil réis”. No fim do primeiro ano,
já eram quatro lojas: três no Rio e uma em São Paulo. Em 1940, a Americanas
tornou-se uma sociedade anônima, abrindo seu capital. Em 1982, os principais
acionistas do Banco Garantia, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos
Alberto Sicupira, entraram na composição acionária de Americanas como
controladores. No primeiro semestre de 1994, concretizou a formação de uma
joint venture com o nome de Wal Mart Brasil, com participação de 40% da
Americanas, e 60% por parte da Wal Mart Store na composição do capital. Em
dezembro de 1997, por decisão do Conselho de Administração da empresa, foi
aprovada a venda total da participação de 40% na joint venture para o
Walmart Inc. Essa decisão foi tomada após a conclusão de que seria necessário a
total concentração de recursos no próprio negócio da companhia. Em agosto de
1998, o Conselho de Administração aprovou a venda total da participação
acionária da Americanas na empresa 5239 Comércio e Participações, subsidiária
que detinha o controle acionário de suas 23 lojas de supermercado, para a
empresa francesa Comptoirs Modernes, pertencente ao Grupo Carrefour. A
decisão pela saída do segmento supermercadista deveu-se ao processo de
consolidação pelo qual passa este setor comercial no Brasil com a entrada de
grandes concorrentes internacionais, o que exigiria expressivos investimentos
para a manutenção da posição de mercado da Companhia.
Desta forma, a Americanas decidiu novamente
focar em seu principal negócio: lojas de descontos. Em julho de 1999, a
companhia decidiu pela segregação de seu negócio imobiliário, tendo o seu
capital social reduzido em R$ 493.387 mil, valor correspondente ao investimento
possuído pela São Carlos Empreendimentos e Participações. O ano de 2003 teve
como principal característica a aceleração do programa de expansão. Com o
objetivo de expandir a rede de lojas, foram inauguradas 13 lojas convencionais,
fortalecendo a presença da companhia em mercados importantes das regiões
Sudeste e Sul do país. Duas outras lojas foram reformadas para possibilitar um
melhor atendimento aos clientes. O conjunto de inaugurações contemplou também a
abertura das três primeiras lojas “Americanas Express”, concebidas segundo o “conceito
de vizinhança” no Rio de Janeiro. Em 2004, deram continuidade ao processo de
expansão através da abertura de 35 lojas e da conclusão do novo Centro de
distribuição em Barueri, na grande São Paulo, visando suportar numa primeira
fase, o crescimento orgânico da companhia, tanto das lojas físicas como da loja
virtual. O ano de 2005 foi um ano de importantes realizações para maximizar o
valor de Americanas: foram inauguradas 37 lojas, foi adquirido o canal de TV e
site de comércio Shoptime e foi realizada uma joint venture com o Banco
Itaú, criando a Financeira Americanas Itaú, ou Americanas Taií.
Em 2006, prosseguiram
com a expansão inaugurando 45 novas lojas e criaram uma nova empresa, a B2W, representando
a companhia Global de Varejo, produto da fusão Americanas.com e do Submarino. A
nova empresa tinha valor de mercado de cerca de 6,5 bilhões de reais,
tornando-se a terceira maior do setor no mundo. A B2W Digital é líder em
comércio eletrônico na América Latina. A Companhia opera por meio de uma
plataforma digital, com negócios que apresentam forte sinergia e um modelo
único, multicanal, multimarca e multinegócios. A B2W Digital possuía um
portfólio com as marcas Americanas Empresas, Americanas.com, Submarino,
Shoptime, Submarino Finance, Sou Barato e Supermercado Now que oferecem mais de
38 categorias de produtos e serviços, por meio dos canais de distribuição
internet, televendas, catálogos, TV e quiosques. Em janeiro de 2007 as lojas Americanas
anunciaram a aquisição da BWU, empresa detentora da marca Blockbuster Inc. no
Brasil por R$ 186,2 milhões e adaptou as lojas ao modelo Americanas Express,
somando assim mais 127 lojas à sua rede. Filial em Tangará da Serra, no
interior de Mato Grosso, inaugurada em novembro de 2011, consolidando a
expansão da rede no Brasil. No ano de 2013, a B2W realizou a aquisição de três
empresas de tecnologia especializadas em desenvolvimento de sistemas e soluções
para comércio eletrônico e criou o BIT - B2W Inovação em Ciência & Tecnologia.
Com isso, a Companhia
dobrou seu time de tecnologia/internet, que é o maior da América Latina e conta
atualmente com mais de 600 engenheiros em escritórios em São Paulo, Rio de
Janeiro e Recife. Foram adquiridas as empresas Uniconsult, especializada em
otimização de controle de pedidos (expedição e reversa), de sistemas para
operação de múltiplos centros de distribuição e desenvolvimento de sistemas
específicos para operação de marketplace, em maio de 2013; Ideais Tecnologia,
voltada para desenvolvimento e otimização das plataformas de venda online,
B2B/B2B2C e sistemas mobile, e Tarkena, com escopo em otimização de sistemas de
busca e algoritmos para gerenciamento de frete, ambas em outubro de 2013. Em
setembro de 2013, a rede Americanas foi condenada a pagar 250 mil reais para
entidades assistenciais sem fins lucrativos devido ao uso de mão-de-obra em
condições trabalhistas análogas às de escravidão. A fiscalização ocorreu em
janeiro de 2013 na empresa BASIC+ que vende sua mercadoria para a Americanas e
encontrou nessa situação um grupo de bolivianos na cidade de Americana que
fornecia roupas infantis para a Americanas.
Em janeiro de 2014, a B2W Digital anunciou um
aumento de capital no valor de R$ 2,38 bilhões que tem por objetivo melhorar a
estrutura de capital da Companhia, utilizando os recursos para amortizar parte
da dívida, permitindo que a empresa siga investindo nos pilares do seu negócio,
acelerando o seu crescimento e consolidando sua posição de liderança no
mercado. A operação contou ainda com a participação do investidor de
tecnologia/internet Tiger Global, que entre outras possui participação na
Amazon. A B2W anunciou em 14 de junho de 2014 a aquisição da Direct, maior
operadora logística de e-commerce no Brasil, especializada em entregas de itens
pequenos. Em 2013, a Companhia já havia realizado a aquisição da Click – Rodo,
operadora logística também especializada em entregas para o comércio
eletrônico, com foco em itens grandes. Em junho de 2015, a B2W comprou o Sieve
Group, grupo de empresas especializadas na prestação de serviços para o
e-commerce, entre elas a Sieve, especializada em monitoramento e inteligência
de preços online, a InfoPrice centrada em monitoramento e inteligência no
mercado offline (varejo físico), a Admatic, de gerenciamento de mídias
digitais, Skyhub, integradora de Marketplace e o Site Blindado, em soluções de
segurança. Em setembro de 2015 a companhia vende a Ingresso.com por 280 milhões
de reais e também finaliza a venda do Submarino Viagens para a CVC.
As instituições renomadas cujas produções são amplamente reconhecidas, tendem a concentrar maiores
recursos de toda a forma - humanos ou materiais - do que aquelas que ainda não
têm proeminência na produção científica. Por outro lado, as universidades sabidamente
proeminentes em sua tradição acadêmica e consequentemente concentradora de recursos
desigualmente distribuídos (materiais e humanos), não concentrariam toda a produção
acadêmica de ponta como laureados com o prêmio Nobel. Para Merton, ocorre que o
sistema, embora exponencial, atinge um limite. Os alunos não
desejam manter-se sob a sombra de seus próceres renomados, uma barreira de
transposição social, elitista, difícil, pela operação do efeito Mateus em sua forma mais
simples. Os professores podem sentir-se ameaçados com a
manutenção de jovens excessivamente talentosos em seus grupos de pesquisa ou em
grupos adversários, sob o medo de serem substituídos prematuramente. Apartado do
sistema interno de dispersão de “capital humano” há também um sistema externo
de competição por fontes cognitivas em confronto dentre as universidades. Em seu tempo a
ética profissional dos engenheiros, muito parecida com a dos cientistas ou
juízes criminais, descola de sua esfera de preocupação as consequências sociais
e psicológicas de seus atos concorrentes profissionais.
Assim, ficam livres para exercer a função de projeção
esquecendo-se de seus desdobramentos sociais. Em sua análise empírica o trabalho de
engenharia torna-se antiético, dada a
pulverização da responsabilidade. Merton procurava descrever,
definir e fundamentar a tese de que aspectos da ética protestante puritana,
pois aplicada primordialmente sobre a Inglaterra do século XVII, com incursões
sobre a ética pietista alemã, equivalente moral na Europa continental, não só
propiciaram, mas integraram o corpo normativo da ciência, e para tal faz-se
necessária à análise do “ethos” puritano, tal qual o ethos científico, é um complexo de regras mais ou menos explícitas
que convergem numa prática dessa classe corporativa. São pontos da ética
protestante que tangenciam o desenvolvimento da pesquisa científica conforme observada no método empírico e racional. Na Europa Continental, o movimento
puritano inglês encontrou um equivalente cultural no movimento pietista. O último
movimento contribuiu para a crença na ciência racional, empírica e
utilitarista na Alemanha e ainda em outros países europeus, em instituições
como Köninsberg, Halle, Heidelberg e Altdorf.
Bibliografia geral consultada:
HALBWACS, Maurice, La Mémoire Collective. 2 éditions. Paris: Presses Universitaires de France, 1968; DUVIGNAUD, Jean, L`Anomie: Heresie et Subversión. Paris: Éditions Anthropos, 1973; MERTON, Robert King, “The Unanticipated Consequences
of Purposive Social Action”. In: American
Sociological Review (1), 1936; Idem, “Social Structure and Anomie”. In: American Sociological Review (3),
672-682, 1938; Idem, “Discussion: The Position of Sociological Theory”. In:
American Sociological Review (13),
164-168, 1948; Idem, Teoría y Estrutura
Sociales. México: Fondo de Cultura Económica, 1964; Idem, Ciência, Tecnologia y Sociedad en la
Inglaterra del Siglo XVII. Madrid: Alianza Editorial, 1984; MARRA, Realino,
“Merton e la Teoria dell’Anomia”. In: Dei
Delitti e delle Pene. Volume 2, 1987, pp. 207-21; GIDDENS, Anthony, “Funcionalismo, après la lutte”. In: GIDDENS, Anthony, Em Defesa da Sociologia: Ensaios,
Interpretações e Tréplicas. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 2001; LUHMANN,
Niklas, Confianza. Barcelona: Ediciones Anthropos,
2005; BAUDRILLARD, Jean, A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70, 2007; CANCLINI, Néstor García, A Globalziação Imaginada. São Paulo: Editora Iluminuras, 2007; BATISTA, Marcos Antonio Rehder, As
Consequências Previstas e não Antecipadas da Ação na Análise Funcional dos Grupos
de Robert K. Merton. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. Campinas:
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas,
2010; SILVA, Catarina Capella, Ciência Atraente e Recreativa: Revistas Populares de Divulgação Científica, Argentina e Brasil (1928-1960). Tese de Doutorado em Educação. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2013; Artigo: “O Efeito Mateus, Talentos e a Injustiça”. Disponível em: https://institutoparacleto.org/2015/01/14/; PINHEIRO, Bruno Goes, Determinantes
da Estrutura de Capital: Evidências na América Latina. Dissertação de Mestrado.
Programa de Pós-Graduação em Administração e Controladoria. Faculdade de
Economia, Administração, Atuária e Contabilidade. Fortaleza: Universidade
Federal do Ceará, 2017; entre outros.
sábado, 14 de outubro de 2017
Friedrich Engels - Segundo Violino & Amor, Paixão Continuada.
Ubiracy de Souza Braga
“Perto
de Marx nunca passei de um segundo violino”. Friedrich Engels
![]() |
| A view of the factories of Manchester (1870). |
O violino é um instrumento musical
classificado como instrumento de cordas friccionadas. É o menor e mais agudo
dos instrumentos de sua família, com afinação da mais aguda à mais grave: Mi4, Lá3,
Ré2 e Sol1. O timbre do violino é agudo, brilhante e estridente, mas dependendo
do encordamento utilizado e da forma que é tocado, podem-se produzir timbres
mais aveludados. O som geralmente é produzido pela ação de fricção das cerdas
de um arco de madeira sobre as cordas. Também pode ser executado “beliscando”
ou dedilhando as cordas (“pizzicato”), pela fricção da parte de madeira do arco
(“battuto col legno”), ou mesmo por percussão com os dedos ou com a parte de
trás do arco. O primeiro violino da
orquestra, sob a execução do competente violinista, vai encantando a plateia, “enquanto o segundo violino
só entra em cena pausadamente,
conforme a composição musical”. O
violinista do segundo violino tem que esperar paciente e atentamente o seu
tempo chegar, para então, deslizar o arco em uma, duas ou mais cordas. Feito
isto, esperar, continuar atento, de olho na partitura,- como o padre na missa, o
novo momento, peremptoriamente, em que voltará a tocar por um instante.
Na orquestra o líder do naipe de
primeiros-violinos é chamado de spalla.
Depois do maestro, ele é considerado o “comandante” da orquestra. O spalla fica à esquerda do maestro, logo
na primeira estante do naipe dos primeiros-violinos. Comparativamente na teoria
crítica materialista e dialética desenvolvida genialmente por Karl Marx & Friedrich
Engels, este afetivamente tem sido considerado o “segundo violino” (cf.
Coggiola, 1995). Em 1834, Engels entrou para o liceu de Elbervelde. Mas o seu
pai decidiu que o filho mais velho devia enveredar pelo mundo dos negócios; portanto,
Engels teve de abandonar o liceu um ano antes de finalizar o curso e seguir a “carreira”
de comerciante. Prestado o serviço militar, em novembro de 1842, Engels
deslocou-se, por exigência do pai, para Manchester, na Inglaterra, a fim de
trabalhar no escritório da fábrica de papel “Ermen & Engels”. Nas horas
livres, continua com perseverança a sua formação como autodidata, estudando em
profundidade obras filosóficas, históricas e econômicas e revela capacidades
inauditas na aprendizagem de línguas estrangeiras.
Na
Inglaterra imperialista, Engels era filho de um proeminente industrial têxtil, fabricante
de algodão, que também era um convicto pietista, da área de Barmen, na
Renânia. Barmen era um dos principais
centros do pietismo na Alemanha, e Engels teve uma criação estritamente
pietista. Historicamente, a doutrina da predestinação é também o ponto de
partida do movimento ascético conhecido como pietismo. Na medida em que o
movimento permaneceu dentro da igreja reformada, é quase impossível traçar a
linha entre os calvinistas pietistas e os não-pietistas. Quase todos os
principais representantes do puritanismo são às vezes classificados como pietistas.
A ocorrência de revivências ascéticas dentro da igreja Reformada, em especial na
Holanda, foi regularmente acompanhada por uma regeneração da doutrina da
predestinação temporariamente esquecida, ou não estritamente conservada. Daí,
não ser costumeiro na Inglaterra a ênfase na praxis pietatis que o uso do termo pietismo perde em intensidade.
Ateu
e hegeliano em 1839 foram parar na Universidade de Berlim e na direção dos
debates da juventude hegeliana em 1841, em seguida passando a frequentar os
mesmos círculos de Marx, de quem ele rapidamente se tornou amigo em 1844, mas
que viu no seu dia a dia de trabalho ao que levava o alto nível de
desenvolvimento capitalista: luxo ostentoso e lucros cada vez mais avultados,
por um lado, e exploração cada vez mais intensa, por outro. Os contrastes sociais
de Manchester elucidavam o olhar crítico de Engels. Mas, ao mesmo tempo, a
estadia na Inglaterra possibilitou-lhe fazer outra descoberta: o proletariado
não era só uma classe que sofre, mas também uma classe em luta, combatente.
Engels acompanha com atenção o desenrolar do movimento cartista e entra em
contato com muitos dos seus dirigentes. Os primeiros artigos escritos na
Inglaterra, e que foram publicados historicamente na Gazela Renana, criticamente
evidenciam o processo de formação das convicções socialistas do bravo pensador.
O
cartismo sociologicamente caracteriza-se
como um movimento social inglês que se iniciou na década de 1830 do século XIX.
Inicialmente fundou-se na luta pela inclusão política da classe operária
representada pela London Working Men`s
Association. Teve como principal base a carta escrita pelos radicais William
Lovett e Feargus O'Connor intitulada Carta
do Povo, e enviada ao Parlamento Inglês. Inicialmente as exigências não
foram aceitas pelo Parlamento e um movimento rebelde teve início, através de
comícios, abaixo-assinados e manifestações. Gradualmente as propostas da carta
foram sendo incorporadas e o movimento foi se enfraquecendo até sua
desintegração. É preciso ter em mente, no entanto, que o programa democrático
radical do Cartismo não foi aceito pelos governantes e, num certo sentido,
pode-se dizer que ele foi politicamente derrotado. Apesar disso, os cartistas
conseguiram mudanças efetivas, como a primeira lei de proteção ao trabalho
infantil (1833), a lei de imprensa (1836), a reforma do Código Penal (1837), a
regulamentação do trabalho feminino e infantil, a lei de supressão dos direitos
sobre os cereais, a lei permitindo as associações políticas e a lei da jornada
de trabalho de 10 horas. No final de 1860 as reivindicações pleiteadas pelo
cartismo acabariam sendo incorporadas à legislação trabalhista inglesa.
Em
1865, quando Marx e Engels estavam em disputa contra o sucessor de Ferdinand Lassalle,
John Baptist von Schweitzer, Engels advertiu Marx de que os correligionários de
Schweitzer diziam: “O que deseja aquele Engels, o que ele tem feito todos esses
anos, como pode falar em nosso nome e nos dizer o que devemos fazer, quando o
sujeito se estabelece em Manchester e explora os trabalhadores” etc. As reações
previstas por Engels parecem pouco prováveis, já que envolviam os seguidores de
Lassalle, que, com seus robes de seda
vermelha, sua dúbia relação com uma condessa e as frequentes viagens aos balneários
da Suíça não era exatamente a imagem de probidade proletária. Muito ao
contrário, esses traços refletiam o sentimento de culpa de Engels em virtude de
seu envolvimento com um capitalismo que ele odiava e desejava aniquilar. Um dos
grandes sacrifícios que Engels fez por Marx, aceitando tomar parte no negócio
têxtil de sua família, foi renunciar à consciência limpa quanto á sua forma de
ganhar a vida. Um aspecto enfatizado em estudos recentes sobre a burguesia
alemã do século XIX – não esquecendo a notória dificuldade em se encontrar uma
tradução exata para a expressão alemã Bürgertum
– diz respeito à influência das convenções culturais na formação daquele grupo
social. Tais convenções incluíam o compromisso com a dedicação e o esforço
permanente, além de uma vida familiar pautada pelo decoro e provida dos amis
avançados instrumentos da cultura. O respeito a essas convenções caracterizou a
vida privada de Marx, embora algumas vezes de um modo diferente.
Curiosamente
a concepção de vida e teorética de Marx tem sido objeto de ridículas análises
jornalísticas no Brasil. Este é o caso primus
inter pares do recente artigo de Fernando Duarte, intitulado: “A vida
íntima de Karl Marx” (2017) onde afirma o seguinte: - “Embora não tenha fundado
formalmente uma religião ou existam registros de milagres e afins, Marx foi
catapultado ao posto de Messias em cujo nome se lutaram guerras e se
construíram impérios num espaço de tempo bem menor que o usado pelo cristianismo
– e os inevitáveis deslizes do pai do comunismo não estão disponíveis
facilmente. Para os guardiões da antiga União Soviética, homem e regime se
confundiam. Passados 131 anos de sua morte, Marx permanece uma figura
mitológica. Se o desmoronamento dos regimes socialistas da Europa Oriental
causou abalos em sua reputação, o filósofo que misturava pensamento e ação e criou
o conceito de ditadura do proletariado tampouco foi esquecido: em 2005, quase
20 anos depois da queda do Muro de Berlim, foi ele quem venceu uma enquete da
BBC para eleger o maior filósofo de todos os tempos. Isso mesmo, no Reino
Unido, em que o Partido Trabalhista precisou varrer o viés socialista de seus
estatutos e de suas políticas para retomar o poder com Tony Blair, em 1997, o
criador do comunismo ainda conserva sua popularidade. Na década passada, Marx
já tinha levado safanões em sua auréola vermelha. Na primeira biografia de
destaque publicada após o fim da Guerra Fria, o jornalista britânico Francis
Wheen expôs um Karl Marx que estava bem longe da figura magnânima imortalizada
em estátuas e estandartes em Moscou, Pequim ou Havana. Ele foi apresentado como
bêbado, parasita e adúltero, e o pior de tudo ignorando as análises jornalísticas
entre 1853-54 no New York Tribune,
posteriormente vertidas em dois volumes em português.
Mary
Burns foi uma irlandesa, analfabeta, operária da fábrica têxtil Ermen &
Engels, em Manchester, Inglaterra, de que a família de Friedrich Engels era
sócia. Foi ela quem o conduziu pelos
cortiços de Manchester onde viviam miseravelmente os trabalhadores irlandeses e
onde ele, provavelmente nunca conseguiria entrar, dada a hostilidade dos
trabalhadores aos patrões e aos não imigrantes irlandeses. Foi ela quem, ao
longo da vida e na condição de classe, revelou-lhe com os detalhes da
mentalidade e do modo de vida dos operários, a miséria material e moral de sua
vida cotidiana. Era o ano de 1843. A exploração da produção social da Irlanda e
da mão de obra irlandesa era a base da riqueza inglesa. O nacional sim tinha a
ver com o económico e, naturalmente, com
o político. O Friedrich chegou a descobrir ao lado da Mary que aquela estranha
ideia das nações tinha a ver até com o pessoal. Ela introduziu-o nos ambientes
populares e mostrou-lhe as condições de vida dos operários irlandeses,
confrontando-as com os salários e trabalhos mais dignos dos ingleses. Engels
publicaria no ano a seguir o seu ensaio sobre a situação da classe trabalhadora
na Inglaterra. A participação de Mary Burns na vida intelectual de Friedrich Engels
foi decisiva para a elaboração do seu livro sobre “A Condição da Classe
Trabalhadora na Inglaterra”. Seria neste contexto que em 1845 aos 25 anos de
idade Engels publicaria sua primeira obra teórica e histórica de fôlego, quando
Engels viveu em Bruxelas e Paris, dedicando-se ao estudo e à militância.
O
livro é basicamente o resultado das observações de Engels a partir de sua
vivência direta como gerente da “Ermen & Engels” em Manchester. A
observação direta envolve a pesquisa das condições de vida, de habitação, de
higiene, as formas de contratação, a resistência e luta dos operários fabris e
agrícolas, bem como as formas como o Estado e especificamente o Direito e os
juízes de paz se somam em defesa dos interesses dos capitalistas. Mesmo aos 25
anos e sendo filho de industrial, Engels, ele próprio um capitalista, já aqui
se opõe diametralmente à sua classe: descreve a burguesia inglesa como a mais
avarenta do mundo e o faz com números e documentos oficiais. Trata-se pois de
uma pesquisa de fôlego que tem como ponto de partida a revolução industrial na
Inglaterra, a introdução de tecnologias na produção que alteraram radicalmente
os meios de produção, a organização e disposição do trabalho e foram
conformando a proletarização das massas. A máquina de fiar e novos arranjos que
envolvem o uso do vapor e do ferro na produção destroem as antigas manufaturas
de tipo medievais, implicam na extinção da figura do artesão e do mestre – há a
concentração do trabalho na fábrica e o trabalho dá-se de forma assalariada e
contratual.
Só
tardiamente, em 1893, é que surgiu um partido socialista, o Independent Labour Party, que, em 1900,
fundiu-se com as Trade Unions, os
sindicatos, formando o atual Partido Trabalhista ou simplesmente Labour Party.
Nele, sempre predominou a moderação sobre os arroubos revolucionários. Em
geral, orientaram-se pelos socialistas “fabianos”, um grupo de intelectuais
excêntricos, entre os quais o teatrólogo Bernard Shaw e o casal Webb, Sidney e
Beatrice, que pregavam um “socialismo evolutivo”, baseado no convencimento (“permeation”) e não na
revolução. Foi deles a iniciativa de fundar a London School of Economics, a
principal instituição geradora dos cérebros responsável por fornecer os quadros
intelectuais e técnicos que ajudaram a transformar a Grã-Bretanha, ao longo do
século XX, até então uma de uma sociedade aristocrática, extremamente
hierarquizada, na moderna sociedade democrática que se tem hoje.
Gradativamente,
tal política, baseada no coletivismo, na planificação econômica centralizada e
no distributivismo tributário, consolidou-se como a afirmação do chamado “socialismo
burocrático” na Grã-Bretanha. Como não poderia deixar de ser, ela alimentou
reações hostis seja do sindicalismo, seja do partido trabalhista. Curiosamente
de posições ideológicas díspares: foi contra o mundo gerado por tal programa
que Orwell, então um socialista desiludido que publicou em 1948 a sua sufocante
anti-utopia “1984”, descrição “do dia-a-dia num Estado totalitário governado
pelo Grande Irmão, que tudo vê e que tudo provê”, e, contra quem Hayek, um dos
patronos do neoliberalismo, bem antes de todos, lançou o The roots of serfdom, ainda em 1944, que viu no Welfare State, um freio à prosperidade
empresarial e uma ameaça às liberdades. Desde que apeados do poder em 1951, os
trabalhistas meio que haviam perdido o fôlego, como se houvessem aplicado o
programa inteiro de uma vez só. Nas outras oportunidades que formaram um
gabinete (Harold Wilson: 1964-70; 1974-6, e James Callaghan: 1976-9)
limitaram-se a clamar por mais impostos e mais gastos, além de serem coniventes
com uma anarquia sindical e um alucinado grevismo que tomou conta do país e fez
com que os “politicamente indiferentes” passassem a votar nos seus opositores:
os conservadores de Tatcher, que se mantiveram por 18 anos no governo.
Mary
Burns sabia, pela experiência da nação sem Estado, que uma democracia
encabeçada pela classe trabalhadora acentuaria ainda mais as diferenças
nacionais porque, se bem corrigiria os abusos autoritários dos governos
supremacistas, ao tempo estimularia os elementos nacionais próprios e,
portanto, de interesse comum como a língua, os costumes, as artes, que são
protagonistas da vida das pessoas de qualquer nação. É notória a mudança de
opinião de Marx a respeito da situação colonial da Irlanda. Informado por
Engels durante décadas, só em 1867 concluiu que as relações económicas entre a
Inglaterra e a Irlanda tinham uma forte componente de supremacia nacional que
era preciso desfazer para atingir a soberania da classe trabalhadora. Marx
escreve esta hipótese numa carta ao seu amigo: Ou confederação ou, se isso não
for efetivo, separação definitiva. Por desgraça, Mary Burns finara em 1863, ano
da publicação dos nossos Cantares Galegos,
e por isso não sentiu a alegria desta mudança propiciada por ela com o seu
trabalho na fábrica e ativismo.
Solteira, por negar-se a cumprir os costumes idiotizados religioso-burgueses. Sem filhos, por
dedicar-se a melhorar as condições sociais das gerações futuras. Sem textos
escritos, talvez por não ter aprendido como outros operários a escrever. Mas
intensamente amada, como poucas mulheres por um nobre comunista, pelo seu marido e a virada de rumo do pensamento dialético socialista
e comunista que viria atravessar um século.
Mary
Burns foi durante vinte anos companheira, confidente e professora do seu
namorado Friedrich Engels. Ele, chefe na fábrica de algodão e amante confesso,
nunca conseguiu convencê-la para ela deixar de trabalhar. Operária, ativista,
provavelmente oradora, com certeza conspiradora, amante e revolucionária,
mostrou-lhe o caminho da democracia através da compreensão das realidades
nacionais, mais além da ideologia totalitária dos estados em formação. A irmã
Lizzy presenciou por ela a mudança de Marx e acompanhou Engels depois da morte
da Mary, até à sua própria morte em 1878, dando um exemplo de ancestral união
por sororato em que a irmã mais nova releva a finada em todas as suas funções
políticas, sociais e familiares. No último dia da vida de Lizzy Burns, ela
formalizou o casamento com Engels reconhecendo assim a ligação, não aceite pela
sociedade, entre o rico proprietário e as proletárias Burns num exercício único
de ativismo contra as convenções burguesas de seu tempo. Por fortuna, graças às
irmãs Burns, Marx e Engels revisaram esse tema aparentemente sem importância
que, ao fim e ao cabo, desembocou mais tarde na Independência da Irlanda.
Passados
100 anos a Irlanda aderiu à União Europeia (então CE), em 1973, ao abrigo de um
tratado redigido em várias línguas, incluindo o irlandês e o inglês. Desde
então, os seus dois nomes foram oficiais na UE. O irlandês tornou-se língua
oficial de trabalho da União Europeia em 1° de janeiro de 2007. Ambos os nomes
são agora usados em documentos ou na identificação dos membros que representam
o Estado irlandês. Isto não muda o nome da Irlanda na legislação da União
Europeia. Nas últimas três décadas as ações do grupo separatista IRA e dos
grupos paramilitares “protestantes” intensificaram suas ações e foi responsável
por vários atentados na Irlanda do Norte, principalmente na capital, Belfast. A
ascensão do Partido Trabalhista ao poder em 1997, a criação do Euro e a “nova
ordem” criaram condições de negociação política, tendo de um lado a Inglaterra
uma nova preocupação, em fortalecer-se dentro da Europa e a própria elite irlandesa
católica, em aproveitar as novas condições de desenvolvimento. A suspensão dos
atentados por ambos os lados foi fundamental para que as negociações pudessem
existir, criando condições concretas para a pacificação da região.
Bibliografia
Geral Consultada.
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outros.
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