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terça-feira, 15 de maio de 2018

Helena Hirata - Solidariedade & Aspectos do Feminismo Materialista.

                                                                                                     
Ubiracy de Souza Braga
 
                     “O pássaro na gaiola, a parede das prisões, é ainda mais penoso viver nos dormitórios”. Helena Hirata

                        
               A sociologia francesa do trabalho como disciplina científica teve como objeto central o operário do sexo masculino da empresa industrial, como figura arquetípica considerada universal. Com o crescimento do mercado feminino e o desenvolvimento do terciário, setor majoritariamente feminino. As pesquisas sobre divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo/ gênero demonstraram que uma análise de gênero muda quase que radicalmente as condições de produção dos conhecimentos sobre o trabalho. Os trabalhos masculino e feminino são comparáveis se partimos do conceito marxista de trabalho, enquanto trabalho formal e informal, profissional e doméstico, remunerado e não-remunerado. A introdução do conceito de gênero nas análises da sociologia clássica do trabalho, como o emprego, o desemprego, a qualificação, os movimentos sociais, os modelos produtivos ou a “especialização flexível”, desloca a ordem tradicional masculina e produz novos conhecimentos. Qualificação do trabalho não tem a mesma significação conjugada no masculino ou no feminino. O desemprego tem implicações contrastadas para homens e mulheres. Os processos de “requalificação” atingem os homens e muito pouco as mulheres na produção.
              O trabalho não representa apenas a produção de objetos-mercadoria, a força de trabalho não é mais apenas sujeita à inércia das coisas, o trabalho não é mais apenas o instrumento da sociedade procurando organizar a sobrevivência. Trabalho, força de trabalho, capacidade de trabalho e trabalhador tendem a unificar-se em pessoas que se produzem reproduzindo o mundo. E essa produção ocorre igualmente nos locais de trabalho, escolas, bares, estádios, viagens, teatros, concertos, jornais, livros, exposições, comunas, bairros, grupos de discussão e de luta, em suma em todos os lugares onde os indivíduos relacionam-se uns com os outros e produzem o universo das relações humanas. Cada vez mais, essa produção tende a fazer parte integrante não somente da produção do homem, mas da reprodução – necessariamente ampliada – da própria força de trabalho. O desenvolvimento internacional e intercontinental das trocas; a divisão do trabalho em escala de espaços econômicos cada vez mais vastos; a tendência às especializações regionais e nacionais; a rapidez das comunicações massivas, põem cada atividade produtiva, através do jogo das mediações, cada vez mais numerosas com o universo inteiro e tendem à sua unificação prática.

 

         A introdução do conceito de gênero na sociologia do trabalho renovou os conceitos e os paradigmas sociológicos. Mas a questão ideológica presente na disciplina ainda são se constituem através dos gender-blinded e não normatizam os resultados das pesquisas que são realizadas. Em primeiro lugar porque o marxismo influenciou historicamente correntes feministas como o “feminismo operário” e o “feminismo materialista”. No primeiro caso a greve de fome de Domitila Barrios, na Bolívia, junto aos mineiros e ao Comitê de Donas de Casa do Distrito Mineiro, é um dos exemplos mais conhecidos. Também existe uma tradição de comitês de apoio de mulheres nos Estados Unidos da América (EUA), desde a mítica greve do Pan y Rosas de 1912, aonde se organizaram reuniões de crianças dentro do sindicato, para do ponto de vista da formação da consciência lhes explicar por que suas mães e seus pais estavam lutando, combatendo assim a propaganda anti-operária nas escolas e na imprensa classista. Nesta luta também se destacou uma grande organização de famílias solidárias, o que permitiu que enviassem suas próprias crianças para distintas cidades, enquanto se desenvolvia o conflito de classes, para que fossem cuidadas por outras pessoas, e para que os grevistas tivessem a tranquilidade para prosseguirem em sua luta.    
              Domitila Barrios de Chungara foi uma líder operária. De família humilde deu numerosos depoimentos a respeito do sofrimento que tinham os mineiros de seu país. Tornou-se famosa por sua luta “pela via pacífica” contra as ditaduras de René Barrientos Ortuño e de Hugo Banzer Suárez. Domitila Barrios Chungara nasceu no dia 7 de maio de 1937 na comunidade Catavi, dentro da mina Siglo XX. Quando tinha dez anos, os rigores da vida do povo mineiro acabaram com a vida de sua mãe; teve então que cuidar das suas cinco irmãs menores, pois seu pai passava todo o dia trabalhando. Com o passar dos anos, deixou de ser uma mera vítima das circunstâncias convertendo-se em dona de seu próprio destino. Em 1952, como esposa de um trabalhador mineiro, fez parte do Comité de Amas de Casa del Distrito Minero Siglo XX, “um centro mineiro boliviano, produtor de estanho, pertencente ao Estado e administrado pela Corporación Minera de Bolívia (COMIBOL) desde 1952, quando as minas foram nacionalizadas. Antes, pertencia aos assim chamados “barões do estanho”: Patiño, Hoscild e Aramayo. É um centro mineiro famoso, não somente pela quantidade de mineral extraído da mina, senão por ser o maior do país, e pelo espírito de luta que tem caracterizado os trabalhadores, através da organização e de líderes conscientes (cf. Viezzer, 1977).
               Sua liderança já era evidente, o que a levou a ser designada Secretária Geral dessa importante organização. O último teve grande êxito na França, onde se desenvolveram conceitos em torno das relações sociais de sexo pelo fato de partirem da premissa da articulação com as relações sociais de gênero, raça e classe que por regra foram tomadas como similares ou intercambiáveis sociologicamente. No âmbito da modernidade o “trabalho de cuidado” (“care work”) representa uma atividade profissional em plena expansão na economia de serviços em escala internacionalmente globalizada. Às mulheres tem sido confiado o encargo do cuidado domiciliar estratificadamente das pessoas idosas, das crianças, dos portadores de deficiência e dos doentes. Elas enfrentam dificuldades crescentes para cuidar dos membros dependentes da família uma vez que estão inseridas no mercado de trabalho como assalariadas. As profissões relacionadas ao “care” e, em geral no setor de serviços nos países recém-industrializados, se explica pela conjunção desses fatores sociais e políticos do mundo contemporâneo.
       A observação empírica demonstra que, pelo contrário, ao aumento do nível de vida pode ir junto com uma exacerbação das necessidades fundamentais. Na França principalmente, o grau de insatisfação destas (a pobreza como realidade ressentida) não diminuiu de 1950 a 1960, enquanto a produção quase duplicou. O desenvolvimento das necessidades foi tão rápido (algumas vezes mais rápido) quanto o desenvolvimento do produto social: o sentimento de pobreza em anda foi afetado pela multiplicação das riquezas. Do ponto de vista disciplinar embora a divisão sexual do trabalho tenha sido objeto de trabalhos precursores em diversos países, foi na França, no início dos anos 1970, sob o impulso do movimento feminista, que surgiu uma onda de trabalhos que rapidamente assentariam as bases teóricas desse conceito. Primeiro na Etnologia, depois na Sociologia e na História. Assim, inicialmente, a divisão sexual do trabalho tinha o estatuto de articulação de duas esferas. Porém, essa noção de articulação logo se mostra insuficiente, o que nos levou a um segundo nível de análise: a conceptualização dessa relação social recorrente entre o grupo dos homens e o das mulheres. Essa foi a origem do que na França passou a se chamar de “relações sociais de sexo”. Além disso, que ela passou a ser indissociável da teorização em termos de divisão sexual do trabalho.        
        A abordagem através da divisão sexual do trabalho, segundo Helena Hirata, deveria permitir o rompimento das categorias tradicionais da sociologia industrial e de uma das concepções marxistas da separação – demasiado simplista – entre a esfera produtiva (produção de valor) e a esfera reprodutiva (produção de valores de uso não mercantis), com vistas à elaboração de novos conceitos que superem de um lado, a universalidade apenas aparente das categorias da economia política, muito frequentemente calcadas num modelo masculino, e que rompam com a divisão rígida das disciplinas, que caracterizam atualmente as ciências sociais. Nosso objeto de estudo – a divisão sexual do trabalho na reprodução das relações mercantis no Japão – convém melhor do que qualquer outro para tal posicionamento, na medida em que o caso japonês é particularmente exemplar: fluidez da linha de demarcação entre tempo de trabalho e tempo de extratrabalho, atividade profissional e pessoal, pública e privada; fluidez  na qual desempenha um papel decisivo o lugar primitivo atribuído às mulheres no seio da sociedade capitalista desenvolvida. A primeira marca histórica do patriarcado na divisão do trabalho segundo os sexos aparece no nível da linguagem.   
             Essa divisão do trabalho segundo os sexos, indicada no nível da linguagem, é praticada desde o nascimento, pontuada por ritos e marcada por inumeráveis símbolos. Com efeito, a aceitação e a interiorização da divisão sexual do trabalho tanto entre trabalho doméstico e trabalho assalariado quanto no interior mesmo do trabalho assalariado são o objetivo da socialização inicial das crianças. Essa educação é condição prévia da aceitação e interiorização mesmas da autoridade mediante aprendizado, na escola, das formas de linguagem diferenciadas de acordo com o estatuto social do emissor e do receptor. Assim, desde o nascimento, a menina será educada dentro do respeito pelos homens, que serão os primeiros (contrariamente ao Ladies first da etiqueta ocidental) a ser servidos à mesa e a ter os melhores pedaços; os primeiros a entrar no banho; o que consagra e reproduza o preceito feudal das mulheres dentro e dos homens fora (“oto wa sotomawari, tsuma wa utimawari”) e a regra de obediência em ordem: quando jovem, ao pai; casada, ao marido, e idosa, ao primogênito.
             Esse duplo movimento impulsionou em vários países a abordagem da divisão sexual do trabalho para repensar a questão tópica do trabalho e suas categorias. Essas reflexões levaram a mudança de simbólica da sociologia da família e do paradigma funcionalista que lhe servia de base. No que se referem à sociologia do trabalho, elas permitiram retomar noções e conceitos como de qualificação, produtividade, mobilidade social e abriram novos campos de pesquisa: relação de serviço, trabalhos de cuidado pessoal, mixidade no trabalho, ingresso das mulheres às profissões de nível superior, temporalidades sexuadas, vínculos entre políticas de emprego e políticas para família etc. Tal literatura tinha como escopo aspectos sociais comparativos como o crescimento das taxas de desempenho de atividade no trabalho, o perfil etário da mulher na composição da força de trabalho e as transformações sociais no padrão de mixidade em setores e ocupações enquanto tendências que também se verificavam em outros países.                                    
               A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). Sobre essa definição, todo mundo, ou quase, está de acordo. Contudo, do nosso ponto de vista, era necessário ir mais longe ao plano conceitual. Por isso, propusemos distinguir claramente os princípios da divisão sexual do trabalho e suas modalidades. Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios organizadores: o de separação existente entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e o princípio hierárquico, segundo o qual, um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher. Esses princípios são válidos tanto no plano teórico como empírico para todas as sociedades no tempo e no espaço.                         
           Portanto, pode ser aplicada mediante um processo específico de legitimação, a chamada ideologia naturalista. Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie. Com essa perspectiva naturalista e manipuladora da realidade, a ideologia naturalista dificulta a consciência de que a desigualdade entre os sexos é determinada por interesses socialmente construídos. Se os dois princípios (de separação e hierárquico) encontram-se em todas as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não significa, no entanto, que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável. Ao contrário, ela tem inclusive uma incrível plasticidade: suas modalidades concretas variam grandemente no tempo e no espaço, como demonstraram fartamente antropólogos e historiadores (as). O que é estável não são as situações (que evoluem sempre), e sim a distância entre os grupos de sexo. Portanto, esta análise deve tratar dessa distância, assim como das “condições”, pois, se é inegável que a condição feminina melhorou, pelo menos na sociedade francesa, a distância continua insuperável.
              Trata-se antes de tudo da aparição e do desenvolvimento, com a precarização e a flexibilização do emprego, de “nomadismos sexuados”, segundo Kergoat (1998): nomadismo no tempo, para as mulheres (é a explosão do trabalho em tempo parcial, geralmente associado a períodos de trabalho dispersos no dia e na semana); nomadismo no espaço, para homens com provisórios canteiros do BTP (Banque du Bâtiment et Travaux Publics) e do setor nuclear para os operários, banalização e aumento dos deslocamentos profissionais na Europa e em todo o mundo para executivos). Constata-se que a divisão sexual do trabalho molda as formas do trabalho e de emprego e, que a bendita “flexibilização” reforça as formas mais estereotipadas das relações sociais de sexo.
              O segundo exemplo é o da priorização do emprego feminino, que ilustra bem o cruzamento das relações sociais. Desde a década de 1980, o número de mulheres contabilizadas pelo Institut National de la Statistique et des Études Économiques - Insee como “funcionários e profissões executivas de nível superior” mais do que dobrou; eles destacam que cerca de 10% das mulheres ativas são classificadas nessa categoria. Simultaneamente à precarização e à pobreza de um número crescente de mulheres, observa-se, portanto, o aumento dos capitais econômicos, culturais e sociais de uma proporção não desprezível de mulheres ativas no trabalho. Assiste-se também ao aparecimento, pela primeira vez na história social do capitalismo, de uma camada de mulheres cujos interesses diretos, isto é, não mediados como antes pelos homens: pai, esposo, amante, opõem-se frontalmente aos interesses daquelas que foram atingidas pela generalização do tempo parcial, pelos empregos em serviços muito mal remunerados e não reconhecidos socialmente e, de maneira mais geral, pela precariedade.
            Enfim, as mulheres das sociedades do Norte trabalham cada vez mais e, com uma frequência cada vez maior, são funcionárias e investem em suas carreiras. Como o trabalho doméstico nem sempre é levado em conta nas sociedades mercantis, e o envolvimento pessoal é cada vez mais solicitado, quando não exigido pelas novas formas de gestão de empresas, essas mulheres para realizar seu trabalho profissional precisam externalizar o trabalho doméstico. Para isso, podem recorrer à enorme reserva de mulheres em situação precária, sejam francesas ou imigrantes. Essa demanda, maciça no âmbito europeu, criou um imenso alento para as mulheres migrantes que chegam aos países do Norte com a esperança de conseguir um emprego de serviço, neste caso, particularmente no cuidado de crianças e idosos, no em prego doméstico e assim por diante. Essas mulheres, muitas vezes diplomadas, entram em concorrência direta com as dos países de origem, que têm situação precária e pouco estudo. Duas relações sociais entre mulheres, inéditas historicamente, estabelecem-se dessa maneira: uma relação de classe entre as mulheres do Norte, empregadoras, e essa nova classe servil; uma relação de concorrência entre mulheres, todas precárias, mas precárias de maneira diferente, dos países do Norte e dos países do Sul e, logo também, de etnias diferentes com a chegada e a esse mercado globalizado em movimento de mulheres dos países do Leste.
              As relações étnicas começam assim a ser remodeladas através das migrações femininas e da explosão dos serviços a particulares. As relações de gênero também se apresentam de uma forma inédita: a externalização do trabalho doméstico tem uma função de apaziguamento das tensões nos casais burgueses dos países do Norte (e em inúmeros países urbanos do Sul, mas, nesse caso, trata-se de movimentos migratórios internos no país em questão) e permite igualmente maior flexibilidade das mulheres em relação à demanda de envolvimento das empresas. A reorganização simultânea do método e processo de trabalho no campo assalariado da oficina, da fábrica, e no campo doméstico da casa. O que remete, no que diz respeito a este último, à externalização do trabalho doméstico, mas também à nova divisão do trabalho doméstico, o maior envolvimento de certos pais é acompanhado de um envolvimento quase exclusivo no trabalho parental; duplo movimento de mascaramento, de atenuação das tensões nos casais, de um lado, e a acentuação das clivagens objetivas entre mulheres, de outro: ao mesmo tempo em que aumenta o número de mulheres em profissões de nível superior, cresce o de mulheres em situação precária de desemprego, flexibilidade, feminização das correntes migratórias.
           Esses movimentos desenvolvem-se em um nível material, a externalização, mas, evidentemente, estendem-se às representações ad hoc (os “novos pais”, o casal visto como lugar de negociação entre dois indivíduos iguais de direito e de fato). Contudo, é preciso rever agora a outra modalidade de teorização, a da divisão sexual do trabalho como vínculo social, pois é ela que fundamenta a tese, que hoje adquiriu o estatuto de política – e de política europeia a partir da cúpula de Luxemburgo em 1997 -, da conciliação vida familiar/vida profissional – política fortemente sexuada, visto que define implicitamente um único ator dessa conciliação: as mulheres, e consagra o statu quo segundo o qual homens e mulheres não são iguais perante o trabalho profissional. A ideia de uma complementaridade entre os sexos está inserida na tradição funcionalista da complementaridade de papéis. Remete a uma conceptualização em termos de vínculo social pelos conteúdos de sentido de suas noções como solidariedade orgânica, conciliação, coordenação, parceria, especialização e divisão de tarefas etc. A abordagem em termos de complementaridade é coerente com a ideia de uma divisão entre mulheres e homens do trabalho profissional e doméstico e, dentro do trabalho profissional, a divisão entre tipos e modalidades de empregos que possibilitam a reprodução dos papéis sexuados. É essa expansão dos empregos em serviços nos países capitalistas ocidentais, tanto desenvolvidos como em vias de desenvolvimento, como o Brasil, que oferecem novas “soluções” para o antagonismo entre responsabilidades familiares e profissionais.
              Enfim, para Hirata, os estudos de gênero têm, sobretudo, contribuído para ampliar o conceito de trabalho para além do trabalho profissional, restituindo a importância devida ao trabalho doméstico e ao trabalho exercido pelas mulheres no interior da família. A gratuidade dessa modalidade de trabalho repercute sobre o trabalho profissional das mulheres, que é constantemente desvalorizado e não reconhecido. Pensamos - afirma - que o debate marxista sobre trabalho produtivo e improdutivo, que dominou a polêmica sobre o trabalho doméstico nos anos 1970, foi suplantado pelo estudo empírico das características constitutivas do trabalho doméstico, como relação de "disponibilidade permanente" aos filhos, ao marido, ao companheiro, etc. Essas análises apontam hoje para outra dimensão específica do trabalho, a dimensão da afetividade, do amor, que está no cerne do exercício do “care” no interior da família. A dificuldade em lutar contra a divisão sexual do trabalho doméstico, que aloca à mulher as tarefas relacionadas ao ambiente da casa e às crianças, liberando o homem para as responsabilidades na esfera profissional, está nessa dimensão de afetividade, que cria uma relação precisa nesta perspectiva crítica de “servidão voluntária” das mulheres.
Bibliografia geral consultada.

FOA, Vittorio, “I Socialisti e il Sindicato”. In: Problemi del Socialismo, junho de 1963; VIEZZER, Moema, “El Comité de Amas de Casa del Siglo XXI, una experiência política boliviana”. In: Nueva Antropología, vol. II, núm. 8, abril de 1977, pp. 29-46; KARTCHEVSKY, Andrée, O Sexo do Trabalho. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1986; SANTOS, João Bosco Feitosa dos, O Avesso da Maldição do Gênesis: A Saga de Quem Não Tem Trabalho. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 1997; HIRATA, Helena e KERGOAT, Daniele, “A Classe Operária tem Dois Sexos”. In: Revista de Estudos Feministas, Ano 2, 1º semestre, 1994; Idem, “Reestruturação Produtiva e Relações de Gênero”. In: Revista Latinoamericana de Estudos do Trabalho, ano 4, n° 7, 1998; HIRATA, Helena; MARUANI, Margaret (Org.), Novas Fronteiras da Desigualdade: Homens e Mulheres no Mercado de Trabalho. 1ª edição São Paulo: Editora SENAC, 2003; MARTINS, Alexandre; CARDOSO, Iuri; MELO, Jéssica e CRUZ, João Filipe, “Les Paradigmes Sociologiques à l’Épreuve des Catégories de Sexe: Quel Renouvellement de l’Épistémologie du Travail?” In: DURAND, Jean-Pierre; LINHART, Danièle (Coord.) Les Ressorts de la Mobilisation au Travail. Toulouse: Éditions Octarès, 2005, pp. 263-272; HIRATA, Helena; DEMAZIERE, Didier, The Unemployed and Unemployment in an International Perspective. Comparative Studies of Japan, France and Brazil. 1ª ed. Tokyo: Institut of Social Sciences (ISS) of the University of Tokyo, 2006; HIRATA, Helena; SENOTIER, Daniele (Org.), Femmes et Partage du Travail. Paris: Les Éditions Syros, 1996; HIRATA, Helena (Org.), Dicionário Critico do Feminismo. 1ª edição. São Paulo: Editora da UNESP, 2009; HIRATA, Helena (Org.); GUIMARAES, Nadya Araújo (Org.), Cuidado e Cuidadoras. As Várias Faces do Trabalho do Care. 1ª edição São Paulo: Editora Atlas, 2012; BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Exegese da Arte, o Amarelo”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 21/02/2015; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo: WMF/Martins Fontes, 2015; ABREU, Alice Rangel de Paiva; HIRATA, Helena; LOMBARDI, Maria Rosa (Org.), Gênero e Trabalho no Brasil e na França: Perspectivas Interseccionais. São Paulo: Editorial Boitempo, 2016; entre outros.

terça-feira, 1 de maio de 2018

1º de Maio de 1886 - O Dia do Trabalho de Todos os Tempos.

                                                                                             Giuliane de Alencar & Ubiracy de Souza Braga

A República livre executou cinco pessoas por suas convicções”. William Dean Howells

                         

William Dean Howells (1837-1920) foi um romancista realista norte-americano, crítico literário e dramaturgo, apelidado de The Dean of American Letters. Ele era particularmente conhecido por seu mandato como editor do The Atlantic Monthly, bem como por seus próprios escritos prolíficos, incluindo a história de Natal: Christmas Every Day e os romances The Rise of Silas Lapham e A Traveler from Altruria. Howells nasceu em 1º de março de 1837, em Martinsville, Ohio (hoje como Martins Ferry, Ohio), filho de William Cooper Howells e Mary Dean Howells, o segundo de oito filhos. Seu pai era um editor de jornal e impressor que se mudava com frequência para Ohio. Em 1840, a família se estabeleceu em Hamilton, Ohio, onde seu pai supervisionava um jornal Whig e seguia o Swedenborgianismo. Seus nove anos foram o período mais longo em que permaneceram em um só lugar. A família tinha que viver frugalmente, embora o jovem Howells fosse encorajado por seus pais em seus interesses literários. Ele começou cedo a ajudar seu pai com trabalhos tipográficos e de impressão, um trabalho conhecido como o diabo da impressora. Em 1852, seu pai conseguiu que um de seus poemas fosse publicado no Ohio State Journal sem avisá-lo.

Em 1856, Howells foi eleito secretário da Câmara dos Representantes do Estado. Em 1858, ele começou a trabalhar no Ohio State Journal, onde escreveu poesia e contos, e também traduziu peças do francês, espanhol e alemão. Ele estudou avidamente alemão e outras línguas e estava muito interessado em Heinrich Heine. Em 1860, ele visitou Boston e se encontrou com os escritores James T. Fields, James Russell Lowell, Oliver Wendell Holmes, Sr., Nathaniel Hawthorne, Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson. Ele se tornou amigo pessoal de muitos deles, incluindo Henry Adams, William James, Henry James e Oliver Wendell Holmes Jr. A William Dean Howells House em Cambridge, MA foi projetada por sua esposa Elinor Mead, e foi ocupada por Howells e sua família de 1873 a 1878. Em 1860, Howells escreveu a biografia de campanha de Abraham Lincoln, Life of Abraham Lincoln, e posteriormente ganhou um consulado em Veneza. Ele se casou com Elinor Mead na véspera de Natal de 1862 na embaixada norte-americana em Paris. Ela era irmã do escultor Larkin Goldsmith Mead e do arquiteto William Rutherford Mead, da firma McKim, Mead e White. Entre seus filhos estava o arquiteto John Mead Howells.

Os Howells voltaram para a América em 1865 e se estabeleceram em Cambridge, Massachusetts. Ele escreveu para várias revistas, incluindo The Atlantic Monthly e Harper`s Magazine. Em janeiro de 1866, James Fields ofereceu-lhe o cargo de editor assistente no The Atlantic Monthly; ele aceitou depois de negociar com sucesso por um salário mais alto, embora tenha ficado frustrado com a supervisão de Fields. Howells foi nomeado editor em 1871, após cinco anos como editor assistente, e permaneceu nesse cargo até 1881. Em 1869, conheceu Mark Twain, com quem formou uma amizade de longa data. Mas seu relacionamento com o jornalista Jonathan Baxter Harrison foi mais importante para o desenvolvimento de seu estilo literário e sua defesa do realismo. Harrison escreveu uma série de artigos para o The Atlantic Monthly durante a década de 1870 sobre a vida dos americanos comuns. Howells deu uma série de doze palestras sobre “poetas italianos do nosso século” para o Instituto Lowell durante sua temporada de 1870-1871. Ele publicou seu primeiro romance Their Wedding Journey em 1872, mas sua reputação literária disparou com o romance realista A Modern Instance (1882), que descrevia a decadência de um casamento. Seu romance de 1885, The Rise of Silas Lapham, tornou-se seu trabalho mais conhecido, descrevendo a ascensão e queda de um empresário americano do ramo de tintas. Suas visões sociais também foram fortemente representadas nos romances Annie Kilburn (1888), A Hazard of New Fortunes (1890) e An Imperative Duty (1891).

Ele ficou particularmente indignado com os julgamentos resultantes do motim de Haymarket, o que o levou a retratar um motim semelhante em A Hazard of New Fortunes e a escrever publicamente para protestar contra os julgamentos dos homens supostamente envolvidos no caso de Haymarket. Em sua escrita pública e em seus romances, ele chamou a atenção para as questões sociais prementes da época. Ele se juntou à Liga Anti-Imperialista em 1898, em oposição à anexação das Filipinas pelos Estados Unidos. Seus poemas foram coletados em 1873 e 1886, e um volume foi publicado em 1895 sob o título Stops of Various Quills. Ele foi o iniciador da escola de realistas americanos e tinha pouca simpatia por qualquer outro tipo de ficção. No entanto, ele frequentemente encorajava novos escritores nos quais descobria novas ideias ou novas técnicas ficcionais, como Stephen Crane, Frank Norris, Hamlin Garland, Harold Frederic, Abraham Cahan, Sarah Orne Jewett e Paul Laurence Dunbar.

Em 1902, Howells publicou The Flight of Pony Baker, um livro para crianças parcialmente inspirado em sua própria infância. Nesse mesmo ano, ele comprou uma casa de verão com vista para o rio Piscataqua em Kittery Point, Maine. Ele voltou para lá anualmente até a morte de Elinor, quando deixou a casa para seu filho e família e se mudou para uma casa em York Harbor. Seu neto, John Noyes Mead Howells, doou a propriedade para a Universidade de Harvard como um memorial em 1979. Em 1904, ele foi uma das primeiras sete pessoas escolhidas para membro da Academia Americana de Artes e Letras, da qual se tornou presidente. Em fevereiro de 1910, Elinor Howells começou a usar morfina para tratar o agravamento de sua neurite. Ela morreu em 6 de maio, alguns dias após seu aniversário, e apenas duas semanas após a morte do amigo de Howells, Mark Twain. Henry James ofereceu suas condolências, escrevendo: - “Penso nesta laceração de sua vida com um senso infinito de tudo que isso significará para você”. Howells e sua filha Mildred decidiram passar parte do ano em sua casa em Cambridge, na Concord Avenue; embora, sem Elinor, eles o achassem “terrível em sua fantasmagórica e horripilante”. Howells morreu durante o sono pouco depois da meia-noite de 11 de maio de 1920, e foi enterrado em Cambridge, Massachusetts. Oito anos depois, sua filha publicou sua correspondência como a biografia de sua vida literária.  

                               

Na década de 1880, os Estados Unidos da América atravessavam uma crise de superprodução. Essa crise gerou uma legião de centenas de milhares de desempregados e uma série de mazelas para a classe operária. Seu custo de vida se elevou enormemente e a mortalidade avançou um alto nível principalmente entre as crianças. Os baixos salários faziam com que suas mulheres e filhos trabalhassem para receber o equivalente a 33% do orçamento familiar. Os avanços técnicos, ao invés de diminuir, intensificavam o trabalho, a jornada era geralmente de dez a doze horas, sendo frequentemente necessário trabalhar quinze horas e até aos domingos e feriados. Fruto dessa conjuntura de crise econômica, o movimento operário teve um forte desenvolvimento, expresso na agregação de setores mais atrasados com elementos mais antigos e conscientes da classe operária e na heterogeneidade da sua composição. Grandes sindicatos foram formados nos anos da crise (1882-1885) nos maiores centros industriais do país, como nas cidades de Nova Iorque, Detroit, Chicago, Cincinnati. Nesse período de grande efervescência política, aumentaram consideravelmente os órgãos de imprensa operária.                    

Do ponto de vista do capital, a saída para sua própria crise não pode ser dada pelo Estado. Financiar com recursos públicos a imensa montanha de dívidas e créditos impagáveis sobre a qual está assentada a economia global é apenas uma condição preliminar para que o capital possa retomar, em patamares mais elevados, sua taxa de lucro. Não basta, portanto, fazer do Tesouro dos Estados Nacionais o meio pelo qual toda a sociedade é compulsoriamente chamada a financiar as rendas, lucros e prejuízos dos capitalistas: é preciso recuperar a lucratividade do próprio capital no processo social de sua produção, no processo de produção do valor e da mais-valia, o que só pode ser obtido por um aumento ainda maior da superexploração do trabalho, num ambiente marcado pelo acirramento inevitável das contradições, antagonismos e limites do capital e pela retomada histórica das grandes lutas e mobilizações de massa da classe trabalhadora. A rigor, desde as análises de Karl Marx, o capital não resolve suas crises cíclicas, que fazem parte de seu funcionamento e do próprio processo de sua reprodução ampliada. Ele apenas as desloca, conjunturalmente no tempo e no espaço, com o único objetivo de restabelecer sua taxa de lucro em níveis quase sempre mais elevados. 
Os maiores sindicatos, de gráficos, mineiros, carpinteiros e muitos outros tinham um jornal próprio. Apareceram por todo o país mais de quatrocentos jornais periódicos simpatizantes das organizações operárias, como o diário: Laborer em Massachusetts, o semanário Craftsman em Washington e o Labor Tribune em Pittsburg. Havia ainda os jornais dos grupos socialistas e anarco-sindicalistas, como o New-Ypor Volks-Zeitung, o Der Sozialist, o Alarm e o Arbeiter-Zeitung. Os mais ativos eram os semanários Alarm, dirigidos por Albert Parsons e escrito em inglês, e Arbeiter-Zeitung, em alemão, dirigido por August Spies. Com o aprofundamento da crise e o agravamento da situação dos operários, o movimento se amplia, tendo como reivindicação central a redução da jornada de trabalho. Essa reivindicação é importante tanto do ponto de vista econômico, quanto político. Do primeiro, porque é uma reivindicação que vai contra a tentativa da burguesia de aumentar a exploração dos operários através da extração da mais-valia absoluta. Do ponto de vista político, porque a jornada de trabalho exaustiva coloca também enormes dificuldades para a organização dos trabalhadores, tanto sindical, quanto em partidos políticos. É necessário ter certo tempo livre para a atividade política. Nesse sentido, os capitalistas são enormemente privilegiados também pelo enorme tempo livre de que dispõe para se dedicar a essa atividade, além dos seus políticos profissionais, comparativamente que gozam tanto de uma situação financeira favorável, quanto de agenciamento e financiamento do ponto de vista estatal.
O filme: Le Jeune Karl Marx, dirigido pelo haitiano Raoul Peck, narra o percurso das ideias revolucionárias que se forma no jovem Marx, ao longo dos anos de 1843 a fevereiro de 1848, quando da publicação do programa da Liga Comunista, conhecido como Manifesto do Partido Comunista. Em fins de 1843, Marx casa-se com Jenny e ambos deixam a Alemanha rumo à França, onde passam a residir em Paris até 1845, quando é expulso para Bruxelas e, posteriormente, dirige-se a Londres onde irá residir até a sua morte. O “clima de comunicação” intelectual do Liceu onde Marx estudou até 1835, como podemos imaginar, não era diferente. Aí também o espírito liberal da Ilustração fora introduzido, de modo que Marx recebeu uma educação tipicamente humanista do ponto de vista da sociedade liberal. O próprio reitor do Liceu, Johann Hugo Wyttenbach, havia contribuído para que aí reinasse um espírito liberal e racionalista. Wyttenbach havia participado da fundação do “Trier Cassino Club”, era amigo íntimo da família Marx e professor de história de Karl. Nesse mesmo Liceu do qual ele era reitor, o professor de matemática foi acusado de materialismo e ateísmo, e o professor de hebraico de ter se juntado “às cantorias revolucionárias” por influência francesa. Por tudo isso, e logo após a polícia ter encontrado sátiras antigovernamentais em posse de alunos envolvidos no debate sobre filosofia, Wyttenbach foi obrigado a receber Loehrs, tido por reacionário, como co-Reitor. Marx expressou seu repúdio a Loehrs despedindo-se de todos os professores menos dele ao sair do Liceu.

Marx tornou-se reconhecido como crítico sagaz da religião devido a sentença filosófica que profere em um manuscrito intitulado: Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843): - “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo”. Em verdade, Marx se ocupou muito pouco em criticar sistematicamente a atividade religiosa, mas o fez de maneira singular, evidenciando sua formação ideológica no limite da consciência. Nesse quesito ele basicamente seguiu as opiniões de Ludwig Feuerbach, para quem a religião não expressa a vontade de nenhum Deus ou outro ser metafísico: é criada pela fabulação dos homens. Ao integrar a Filosofia alemã, do socialismo utópico e da economia política clássica, Marx elaborou, simultaneamente, o método de análise e a interpretação do capitalismo como um modo fundamentalmente antagônico de desenvolvimento histórico. Em essência, o capitalismo é um modo de produção e de reconhecimento da produção-consumo e extração de mais-valia.

         Marx foi o terceiro de nove filhos, de uma família de origem judaica de classe média da cidade de Tréveris, na época no Reino da Prússia. Sua mãe, Henriette Pressburg (1788-1863), era judia holandesa e seu pai, Herschel Marx (1777-1838), um advogado e conselheiro de Justiça. Herschel descende de uma família de rabinos, mas se converteu ao cristianismo luterano em função das restrições impostas à presença de membros de etnia judaica no serviço público, quando Marx ainda tinha seis anos. Johanna Bertha Julie von Westphalen, conhecida como Jenny von Westphalen ou Jenny Marx (1814-1881), foi esposa de Karl Marx, filha de Johann Ludwig (1770-1842), Barão von Westphalen, professor na Friedrich-Wilhelm-Universität de Berlim. Em 1830, Marx iniciou seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm, em Tréveris, ano em que eclodiram revoluções em diversos países europeus. Ingressou mais tarde na Universidade de Bonn para estudar Direito, transferindo-se no ano seguinte para a Universidade de Berlim, onde o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, cuja obra exerceu grande influência sobre Marx, foi professor e reitor. Em Berlim, Marx ingressou no Clube dos Doutores, que era liderado pelo hegeliano de esquerda Bruno Bauer. Ali perdeu interesse pelo Direito em seu conservadorismo e se voltou para a Filosofia, tendo participado ativamente do movimento dos chamados jovens hegelianos. 

Seu pai faleceu neste mesmo ano. Em 1841, obteve o título de doutor em Filosofia com uma tese materialista sobre a Diferença da Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro. Impedido de seguir uma carreira acadêmica tornou-se, em 1842, redator-chefe da Rheinische Zeitung (“Gazeta Renana”), um jornal da província de Colônia, onde conheceu Friedrich Engels neste mesmo ano, durante visita deste a redação do jornal. Karl Marx é um nome fundamental para compreender o desenvolvimento político do mundo moderno e a crítica ideológica desde a metade do século XIX, tendo ecos até os dias de hoje. Marx nasceu em uma rica família de classe média em Tréveris, na Renânia prussiana, e estudou nas universidades de Bonn e Berlim, onde ficou interessado pelas ideias filosóficas dos jovens hegelianos. Depois dos estudos, ele escreveu para Rheinische Zeitung, um jornal radical publicado em Colônia, e começou a trabalhar na teoria da concepção materialista da história. Ele se mudou para Paris em 1843, onde começou a escrever para outros jornais radicais e conheceu Friedrich Engels, que se tornaria seu amigo de longa data e colaborador. É curioso como mesmo atestando sua importância, o que se vê é um distanciamento em relação a seus pensamentos por parte de quem é a favor e de quem é contra o que obviamente deturpa o que o pensador escreveu há tempos atrás.

Talvez seja esse o pensamento para a realização do longa-metragem O Jovem Karl Marx, uma típica cinebiografia revolucionária da agonia à glória em 120 minutos, individualizando pensamentos e fazendo da narrativa audiovisual um amontoado de ações para reconstituir uma epopeia de um homem, no caso um teórico, transformando-se em algo muito maior que sua própria individualidade, ou sem ter a consciência de seu trabalho e de suas ideias. É o que mais parece problemático em O Jovem Karl Marx, um filme que individualiza referências em torno de glórias de um pensador que propunha coletivizações das relações políticas em primeira instância. Dirigido por Raoul Peck, que também escreve o roteiro junto com Pascal Bonitzer demonstra que sua principal dificuldade é a representação digna do valor histórico daqueles personagens. Ao final, tudo que a família tinha eram precisamente as ideias de Marx, que durante a maior parte da vida deles só existiram como uma tempestade se preparando dentro do cérebro disciplinado, turbulento, epigramático e conciso do pai, e que aparentemente quase ninguém mais reconhecia ou mesmo compreendia em sua globalidade. Por improvável que fosse Marx fez o que se havia proposto a fazer: ele mudou o mundo.

        Em 1843, a Gazeta Renana foi fechada após publicar uma série de críticas ao governo prussiano. Tendo perdido o seu emprego de redator-chefe, Marx mudou-se para Paris. Lá assumiu a direção da publicação Deutsch-Französische Jahrbücher (“Anais Franco-Alemães”) e foi apresentado a diversas sociedades secretas de socialistas. Antes ainda da sua mudança para Paris, Marx casou-se, no dia 19 de junho de 1843, com Jenny von Westphalen, a filha de um barão da Prússia com a qual mantinha noivado desde o início dos seus estudos universitários. Noivado que foi mantido em sigilo durante anos, pois as famílias Marx e Westphalen não concordavam com a união. De Paris, Marx ajudou a editar uma publicação de pequena circulação chamada Vorwärts! que contestava o regime político alemão da época. Por conta disto, Marx foi expulso da França em 1845 a pedido do governo prussiano. Migrou então para Bruxelas, para onde Engels também viajou. Entre outros escritos, a dupla redigiu na Bélgica o Manifesto do Partido Comunista. Em 1848, Marx foi expulso de Bruxelas pelo governo reacionário. Com Friedrich Engels, mudou-se para Colônia, onde fundam o jornal Nova Gazeta Renana. Após análises publicados no jornal, Marx foi expulso de Colônia em 1849.

Até meados de 1848, Marx viveu confortavelmente com a renda oriunda de seus trabalhos, seu salário e presentes de amigos e aliados políticos, além da herança legada por seu pai. Entretanto, em 1849 Marx e sua família enfrentaram grave crise financeira; após superarem dificuldades conseguiram chegar a Paris, mas o governo francês proibiu-os de fixar residência em seu território. Graças, então, a uma campanha de arrecadação de donativos promovida por Ferdinand Lassalle na Alemanha, Marx e família conseguem migrar para Londres, onde fixaram residência definitiva para trabalhar como correspondente em Londres para o New York Tribune onde declarou seu notório apoio público ao governo de Abraham Lincoln durante a Guerra da Secessão. Do casamento de Marx com Jenny von Westphalen, nasceram sete filhos, mas devido às más condições sanitárias e de subsistência que foram forçados a viver no exílio em Londres, apenas três sobreviveram à idade adulta. As crianças eram: Jenny Caroline (1844-1883), Jenny Laura (1845-1911), Edgar (1847-1855), Henry Edward Guy (“Guido”; 1849-1850), Jenny Eveline Frances (“Franziska”; 1851-52), Jenny Julia Eleanor (1855-1898) e mais um que morreu antes de ter recebido seu nome, ocorrido em julho de 1857.

Uma carta de Marx a Jenny, escrita em 21 de junho de 1856, quando ele estava  em Manchester é particularmente expressiva. Nela afirma o filósofo marxista Leandro Konder, vemos o viço do amor, sua impetuosidade, 20 anos depois de sua primeira aparição. Marx começa dizendo: - “Amadinha do meu coração, torno a te escrever porque estou sozinho e porque me cansa ficar dialogando contigo na minha cabeça o tempo todo, sem que tomes conhecimento disso, sem que possas me ouvir e responder”. Conta em seguida que beija sempre o retrato dela e que sonha com ela: - “Beijo dos pés à cabeça, caio de joelhos diante de ti e gemo: ´Amo-a, minha senhora`. De fato, eu te amo. E te amo mais do que o mouro de Veneza jamais amou” (a comparação com Otelo se devia ao fato de o apelido de Marx em família ser ´mouro`). Adiante, Marx escreve: - “Quem, entre os meus numerosos caluniadores, quem, entre os meus inimigos maledicentes, já me acusou de ter vocação para desempenhar o papel de apaixonado num teatro de segunda categoria? Nenhum. No entanto, essa acusação seria verdadeira”.

Em 1886 o número de participantes nas manifestações  aumenta  doze vezes. Daí resulta que 320 mil trabalhadores aderem à greve geral de maio deste ano pela jornada de oito horas. Esta foi a primeira intervenção de massa do proletariado industrial enquanto classe na história dos Estados Unidos. No dia 1° de maio de 1886 os principais centros industriais norte-americanos foram paralisados por uma greve geral, que assustou os capitalistas da indústria norte-americana. Nesse dia os grevistas organizados de Chicago se reuniram em uma grande assembleia na Praça Haymarket, reivindicando redução da jornada de trabalho para oito horas e melhoria nas condições de trabalho. Preocupadas com a amplitude que o movimento adquiria, as autoridades armaram uma provocação, e numa manifestação chamada para o dia 4, por ocasião do assassinato de grevistas pela polícia que havia ocorrido no dia anterior, lançaram uma bomba no meio da multidão. Policiais e soldados de guarnições especializadas “aguardavam esse sinal para abrir fogo contra a os operários grevistas”.
Em Outubro de 1884, uma convenção presidida pela Federação de Ofícios e Sindicatos Organizados decidiu por unanimidade que o dia 1º de Maio de 1886 seria a data em que a jornada de 8 horas diárias se tornaria padrão. Com a proximidade da data escolhida, os sindicatos estadunidenses organizaram uma greve geral em apoio à causa. A história política do dia do trabalho remonta o ano de 1886 na industrializada cidade de Chicago nos Estados Unidos da América. No dia 1º de maio deste ano, milhares de trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, entre elas, a redução da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. Neste mesmo dia ocorreu nos Estados Unidos uma grande greve geral dos trabalhadores. Dois dias após os acontecimentos, um conflito envolvendo policiais e trabalhadores provocou a morte de alguns manifestantes. Chicago se tornou um dos principais centros de protestos e uma das manifestações na cidade terminou em tragédia. A polícia reprimiu o movimento de forma violenta, com a morte de quatro operários. Esses fatos ocorreram no dia 1º de maio de 1886, passando essa data a simbolizar a luta dos trabalhadores.
Após a Guerra de Secessão, mais especificamente após a Depressão de 1873, houve uma rápida expansão da produção industrial nos Estados Unidos. Chicago era um importante centro industrial e centenas de emigrantes germânicos foram empregados ganhando $1,50 dólares por dia. Trabalhadores norte-americanos tinham uma jornada de pouco mais de 60 horas semanais, trabalhando 6 dias por semana. A cidade tornou-se palco para várias tentativas de organização sindical, exigindo melhorias nas condições de trabalho. Empregadores reagiam com medidas antisíndicas, demitindo e marcando participantes, “bloqueando empregado” que representavam séries de táticas que consistiam praticamente em “trancar trabalhadores do lado de fora do local de trabalho”, impedindo-os de trabalhar, “recrutando fura-greves”; “contratando espiões”, criminosos e segurança privada e principalmente com o objetivo de desestabilizar o movimento trabalhista incitando conflitos étnicos numa tentativa de desunir os trabalhadores.
Os jornais locais apoiavam os interesses dos capitalistas e habitualmente se opunham à mídia sindical e imigrante. Durante o abrandamento econômico entre 1882 e 1886, organizações anarquistas e socialistas estiveram preponderantemente ativas. A organização sindical “Knights of Labor” rejeitava o socialismo e radicalismo, mas apoiava a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias, teve um aumento de 70.000 associados em 1884 para mais de 700.000 em 1886. O movimento anarquista em Chicago, composto por milhares de trabalhadores na sua maioria imigrante, centrava-se sobre o jornal de língua alemã “Arbeiter-Zeitung” (“Times Workers”), editado por August Vincent Theodore Spies (1855-1887) um ativista anarquista nascido na Alemanha, que lutou em defesa dos direitos básicos aos trabalhadores nos Estados Unidos, país para o qual imigrou. Foi julgado e considerado culpado de conspiração e enforcado, juntamente com Albert Parsons, Adolph Fischer e George Engel, em consequência de um ataque a bomba à polícia durante a revolta de Haymarket. Entre os anarquistas sindicalistas do mundo, Spies é lembrado como um dos cinco mártires de Haymarket. Outros anarquistas construíam uma militância revolucionária armada.
 É no âmbito desse contexto social e político que se dá o movimento reivindicativo que marcou na história essa importante data do Primeiro de Maio. Há anos, existia a ideia de que o dia dos trabalhadores e das trabalhadoras deveria ser dividido em três partes: oito horas para o trabalho, oito horas de sono e oito horas para o lazer e o estudo. No ano de 1884, a Federação dos Sindicatos Organizados dos Estados Unidos e do Canadá, precursora da Federação Americana do Trabalho - AFL declarou que a partir do dia 1º de maio de 1886 a jornada de oito horas de trabalho passaria a vigorar, apesar dos capitalistas afirmarem que isso era impossível. Esse movimento, na realidade, refletia uma das reivindicações centrais dos movimentos operários, e continuava a mobilização já iniciada anteriormente em países como Inglaterra, França e Austrália. As adesões para o movimento foram muito grandes, já que a reivindicação central era comum a todos os trabalhadores. Um pouco antes do tão esperado Primeiro de Maio de 1886, milhares de trabalhadores e trabalhadoras havia aderido à luta pela redução da jornada. - “Brancos e negros, homens e mulheres, nativos e imigrantes, todos estavam envolvidos”.
Especificamente nos Estados Unidos da América, o anarquismo, força protagonista deste movimento social, vinha crescendo desde o Congresso de Pittsburgh, em 1883, e com a fundação da International Working People’s Association (IWPA), expressão de massas anarquista que, em 1886, chegou a ter 2500 militantes e 10 mil colaboradores. Entre seus fundadores, podemos destacar Lucy Parsons – mulher, negra e ex-escrava –, que teve um papel decisivo na organização operária de Chicago, incorporando a pauta das mulheres negras e dos negros. Vale lembrar que a IWPA, entendendo as condições especificas de mulheres e negras/os na sociedade, defendeu a pauta das opressões, denunciando a forma como o chamado “mundo do trabalho” se utiliza dessas condições sociais e políticas para promover uma maior precarização e exploração do trabalho, explorando ainda mais. Em um de seus inúmeros discursos ela atentava para que a crítica, enquanto trabalhadores pudessem ir além da figura dos patrões, que refletissem também sobre o mundo do trabalho: - “Então você não pode ver que entre a imagem do ‘bom chefe’ e a do ‘mau patrão’ tanto faz? E, que, você é a presa comum de ambos, e que a função dele é simplesmente explorar? Você não pode ver que é o sistema industrial e não o ‘chefe’ que deve ser mudado?”. Outro marco significativo foi o jornal diário Chicagoer Arbeiter Zeitung e a fundação, em 1884, da Central Labor Union (CLU), que chegaram a 28 mil trabalhadores, somente em Chicago, em 1886.
No dia 1º de maio de 1886 as ruas da cidade de Chicago foram tomadas pelos trabalhadores, em protestos e greves, cujo objetivo central estava na redução da jornada de trabalho. Chicago, desse tempo, era o principal centro de agitação política dos EUA e os anarquistas exerciam a maior influência no movimento. De acordo com o relato de um jornal popular, “não saía qualquer fumaça das altas chaminés das fábricas e dos engenhos, e as coisas assumiam uma aparência de sabá (o sábado judeu)”. Entre 80 e 90 mil pessoas saíram às ruas em apoio ao crescente movimento somente na cidade de Chicago. Grandes manifestações com mais de 10 mil pessoas também aconteceram em Nova York e Detroit. Aconteceram reuniões e comícios em Louisville, Kentucky, Baltimore e Maryland. Estima-se que por volta de meio milhão de pessoas tenha tomado parte nas manifestações do Primeiro de Maio nos EUA. Estima-se também que por volta de 1200 fábricas entraram em greve em todo o país em apoio ao movimento.                  
 A posição dos líderes capitalistas era claramente refletida com apoio na imprensa conservadora que nomeava preconceituosamente os manifestantes de “cafajestes, preguiçosos, e canalhas que buscavam criar desordens”. Outro veículo da imprensa afirmava que “esses brutos [os/as operários/as] só compreendem a força, uma força que possam recordar durante várias gerações”. Os capitalistas compravam armas de fogo para a polícia local. Esses são apenas alguns exemplos da “rede de apoio” de interesses que se formou entre patrões e a mídia, todos em defesa do Capital e da ordem estabelecida. No dia 03 de maio as manifestações e greves continuavam. August Spies, um tipógrafo anarquista e editor do periódico Arbeiter-Zeitung, discursou para 6 mil trabalhadores e trabalhadoras. Ainda enquanto ele falava, os fura-greves da fábrica Mc Cormick Harvester estavam saindo, e parte dos manifestantes deslocou-se para frente da fábrica, com o objetivo de contestar os fura-greves. Isso aconteceu, pois o local em que falava August Spies ficava a um quarteirão da fábrica. Os manifestantes desceram a rua e fizeram com que os fura-greves voltassem para dentro da fábrica. Foi então que chegou a polícia. Eram em torno de 200 policiais que, ao reprimir os manifestantes, acabaram matando seis pessoas, mas outras fontes dizem quatro ou sete, ferindo e prendendo muitas outras. Spies, vendo o resultado brutal da repressão policial, dirigiu-se ao escritório do Arbeiter-Zeitung e fez uma circular, convocando os trabalhadores e as trabalhadoras para outra manifestação no início da noite do dia seguinte.
 O protesto do dia 4 de maio ocorreu na famosa Praça Haymarket, e nele discursaram, além de Spies, Albert Parsons, tipógrafo, militante anarquista e companheiro de Lucy Parsons, e Samuel Fielden, imigrante inglês, operário da indústria têxtil e também militante anarquista. Os discursos pediam unidade e continuidade no movimento. Havia aproximadamente 2500 pessoas no local, que até o momento faziam um protesto pacífico, tão pacífico que o prefeito Carter Harrison, presente no início dos discursos, afirmou que “nada do que acontecia dava a impressão de haver necessidade de intervenção da polícia”. Já no final da noite o mau tempo contribuía para que houvesse apenas cerca de 200 pessoas na praça. Com a ordem de dispersar a manifestação imediatamente, um grupo de 180 policiais chegou ao local. Apesar de Spies ter dito que os manifestantes eram pacíficos, a polícia iniciou o processo de dispersar o ato. Foi nesse momento que uma bomba explodiu em meio aos policiais, matando sete e ferindo aproximadamente 70, entre policiais e manifestantes. A polícia abriu fogo contra a multidão, sendo responsável por incontáveis mortes. Alguns relatos falam em 100 mortos e dezenas de presos e feridos. Ninguém nunca soube, de fato, se quem jogou a bomba foram os manifestantes ou a própria polícia, para incriminar o movimento.
Sem possuir prova alguma de que eram culpados da explosão da bomba, e possuindo, ao contrário, provas irrefutáveis de que apenas dois dos dirigentes estavam presentes no momento, num julgamento teatralizado e vergonhoso, sete operários, Albert Parsons, August Spies, Samuel Fielden, Michael Schwab, Adolph Fischer, George Engel, Louis Lingg, foram condenados a morte e um, Oscar Neebe, a quinze anos de prisão. Na escolha do júri, foram rejeitadas todas as pessoas que tivessem relações com organizações operárias ou que manifestassem simpatia por elas. A maior parte dos jurados eram patrões ou pessoas diretamente ligadas a eles, todas abertamente hostis aos operários e às atividades socialistas. Fica absolutamente claro que quando se trata de defender seus interesses, contra a mobilização revolucionária das massas, os capitalistas não se lembram de cumprir a lei, nem de ser uma sociedade democrática, mas depois usam a democracia como farsa para atacar a classe operária, suas organizações, suas reivindicações e suas lutas. Esse ato de absoluta arbitrariedade cumpria uma função política: intimidar e desmobilizar o crescente movimento operário que evoluía cada vez mais para uma via consciente em Chicago e nos Estados Unidos da América.
A despeito desse fato foram feitas numerosas manifestações operárias nos Estados Unidos e na Europa e da opinião progressista norte-americana. Apesar da grande pressão, as penas não foram canceladas. Apenas as de Schwab e Fielden foram substituídas pela de prisão perpétua. Lingg morreu na prisão. Parsons, Spies, Fischer e Engel foram enforcados em 11 de novembro de 1887. Em sua autobiografia, Spies diria algum tempo mais tarde que “o anarquismo não era nem mesmo mencionado. Mas o anarquismo era bom o suficiente para servir como um bode expiatório para Bonfield [chefe de polícia de Chicago]. Esse demônio, com o objetivo de justificar seu ataque assassino à reunião, disse: - “Eram anarquistas. – Anarquistas! Oh, que horror!”. O fato é que o acontecimento político da utilização bomba foi manipulado como motivo generalizado para a perseguição de todo o movimento radical de trabalhadores. A polícia invadiu casas e escritórios de trabalhadores aparentemente suspeitos realizando inúmeras prisões. Muitas pessoas que nem sabiam o que representava as palavras anarquismo ou socialismo foram presas e torturadas. Definitivamente, a polícia primeiro atacava e prendia, para depois averiguar se havia alguma “culpa” dos acusados.
 O resultado desse processo foi a prisão temporária de Rudolph Schnaubelt, acusado de jogar a bomba. Ele foi solto depois de algum tempo sem acusações formais e há quem diga que ele “era um agente pago pelas autoridades para cometer o atentado”. Com Schnaubelt solto, a polícia prendeu Fielden e seis imigrantes anarquistas alemães: Spies, Neebe, Adolph Fischer, tipógrafo, Louis Lingg, carpinteiro, George Engel, tipógrafo e Michael Schwab, encadernador. A polícia também procurava Albert Parsons, já que ele era um importante líder da IWPA em Chicago, mas ele conseguiu se esconder e não ser capturado. Parsons acabou depois se apresentando no dia do julgamento. Apesar de apenas três deles terem estado presentes no dia da explosão da bomba, foram todos incriminados e responsabilizados por ato de motivação política.
 O julgamento teve início em 21 de junho de 1886 com um júri nitidamente manipulado. Ele era composto de empresários, seus funcionários e um parente de um dos policiais mortos. Não houve provas apresentadas contra os anarquistas e nada que levasse a uma conexão clara dos acusados com a explosão da bomba. Não houve, também, quaisquer provas de que eles teriam incitado a violência ou algo do tipo em seus discursos. No entanto, o resultado do julgamento representou um claro medo por parte da sociedade capitalista em relação aos operários organizados e combativos. Numa deliberada tentativa de conter o crescente movimento operário, sete dos acusados foram condenados à morte em 19 de agosto. Neebe foi condenado a 15 anos de prisão. Apesar de insistir não ser culpado, Neebe, em uma demonstração de solidariedade aos seus companheiros, falou ao juiz que sentia não ser enforcado com os outros. A punição aos anarquistas deveria servir como exemplo à sociedade, demonstrando o que aconteceria àqueles que desafiassem o poder do Estado e do Capital.
Enfim, Spies pronunciou-se em sua última defesa falando sobre os enforcamentos: -“Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo”. Importante também a defesa proferida por Albert Parsons: - “A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam elas postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este, e não outro, é o objetivo do socialismo”. Schwab e Fielden tiveram suas penas comutadas para prisão perpétua, depois de uma grande campanha pela liberdade dos acusados. Lingg suicidou-se na prisão um dia antes de ser enforcado. Em 11 de novembro de 1887 Spies, Parsons, Fischer e Engel foram enforcados, e assim ficaram reconhecidos mundialmente como os Mártires de Chicago. Milhares de pessoas tomaram parte na procissão dos funerais e a campanha pela liberdade política de Fielden, Schwab e Neebe continuaram. 
Em 26 de junho de 1893 o governador Altgeld libertou-os, alegando que eram inocentes do crime pelo qual estavam sendo acusados. A universalização da data de 1° de Maio foi estabelecida no ano de 1889, pela Segunda Internacional Socialista, num congresso realizado em Paris que reuniu os principais partidos socialistas e diversos sindicatos representativos da Europa. Para homenagear aqueles que morreram nos conflitos diretos com o aparelho repressivo de Estado, a reunião da Segunda Internacional Socialista, ocorrida na capital francesa em 20 de junho de 1889, criou o Dia Internacional dos Trabalhadores manifestado em 1º de maio de cada ano. Em 1890 as manifestações de Primeiro de Maio se generalizaram nos EUA e Europa, assim como nas Américas ocorressem inclusivamente no Chile, Peru e Cuba. O movimento pela jornada diária de oito horas de trabalho ganhou apoio generalizado e acabou fazendo com que o 1° de Maio se tornasse uma data mundial de organização e mobilização do trabalho, entrando em vigor um projeto de lei que garante para as trabalhadoras domésticas a jornada máxima de 8 horas diárias, o pagamento de horas extras, o direito de se organizarem em um sindicato e outros benefícios conquistados pelas lutas sociais e mobilizações políticas que marcaram definitivamente o Dia dos Trabalhadores mundialmente.  
O escritor William Dean Howells, eminente personalidade norte-americana chegou a declarar: - “A república livre executou cinco pessoas por suas convicções”. Em Chicago os operários erigiram um obelisco em homenagem aos mártires de Haymarket. Esses acontecimentos também tiveram grande repercussão no mundo todo. O 1º Congresso da II Internacional, organização dos partidos operários e socialistas, dirigida pelos revolucionários marxistas, reunido em Paris, tomando por base a luta que estava acontecendo naquele momento, deliberou que todas as organizações operárias e partidos políticos socialistas deveriam trabalhar para que em um dia específico em todos os locais onde houvesse organização operária, fosse realizada uma manifestação pela redução da jornada de trabalho. Em 1890 esse ato foi realizado em vários lugares. A data preferencial era o 1º de maio, mas não foi realizado nessa data em todos os países. Como a manifestação implicava em fazer um chamado geral aos trabalhadores por um dia, era praticamente como uma greve geral de um dia. Portanto, nos países onde a organização operária ainda era aparentemente fraca, o ato foi convocado para o domingo, mas rapidamente, o 1º de maio se transformou na data unificada de luta da classe operária. Nos EUA, curiosamente a burguesia imperialista, para ocultar seu crime monstruoso contra a classe operária estabeleceu um “dia do trabalho” em setembro.
Atualmente o 1° de maio é feriado na maioria dos países reconhecidos pelos estados nacionais. Isso aconteceu porque na prática os trabalhadores transformavam em feriado nacional, o que revela o enorme poder de luta da classe operária internacional. O fato de uma classe social oprimida pelo capital, pobre, em geral inculta, com enormes dificuldades para se organizar, estabeleceu esse dia internacional, é demonstração não só da unidade na divisão internacional do trabalho, como da força expressiva e natureza social internacional da classe trabalhadora. Os capitalistas tentam, sem sucesso, desconstruir esta tradição de luta da classe operária mundial. Na impossibilidade de quebrar a organização política dos operários e abolir o feriado internacional de 1º de maio utilizam-se dos funcionários da superestrutura, no Direito, na Administração, na Antropologia e Planejamento, nas universidades, nas organizações sindicais e políticas ligadas ao proletariado para tentar prostituir sua consciência nesta data e a na memória individual (os sonho) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos) dos trabalhadores que defendem através da emancipação social da vida coletiva sua própria classe. Ipso facto, não por acaso é que sistematicamente os trabalhadores conscientes retomam a bandeira histórica e politico-afetiva do 1º de maio. Este dia marcado para sempre como luta internacionalista, contra os capitalistas e o capitalismo em geral. E de luta afirmativa pelos direitos civis garantidos pelas leis trabalhistas de organização sindical.
Bibliografia geral consultada.

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