segunda-feira, 7 de outubro de 2024

O Mal Existe – Cinema, Infortúnio & Dramas Independentes.

                                                 “Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. Sigmund Freud                  

                    

         Aculturação refere-se à transformação social, cultural e psicológica que ocorre por meio do contato social direto entre duas culturas, em que uma ou ambas se adaptam às influências culturais dominantes sem comprometer suas características distintivas essenciais. Ocorre quando um indivíduo adquire, adota ou se ajusta a um novo ambiente cultural como resultado de ser inserido em outra cultura ou quando entra em contato com outra cultura. Esse processo de equilíbrio pode resultar em uma sociedade mista com características predominantes e combinadas ou com mudanças culturais fragmentadas, dependendo do contexto sociopolítico. Indivíduos de outras culturas buscam se integrar a cultura mais prevalente, incorporando seletivamente aspectos da cultura dominante, como seus traços culturais e normas sociais, enquanto ainda mantêm seus valores e tradições culturais originais. Os impactos sociais da aculturação são vivenciados de forma diferente em vários níveis, tanto pelos adotados da cultura dominante quanto pelos anfitriões da cultura de origem. Os resultados podem incluir marginalização, coexistência respeitosa, tensões destrutivas, integração e evolução cultural. Em nível de grupo, a aculturação resulta em mudanças na cultura, nas práticas religiosas, nos cuidados de saúde e per se em outras instituições sociais. Há também implicações significativas na alimentação, no vestuário e na língua daqueles que são introduzidos à cultura dominante.

Em nível de análise individual, o processo de aculturação refere-se ao processo de socialização pelo qual indivíduos nascidos no exterior incorporam os valores, costumes, normas, atitudes culturais e comportamentos da cultura anfitriã predominante. Esse processo tem sido associado a mudanças no comportamento diário, bem como a inúmeras alterações no bem-estar psicológico e físico. Assim como o termo enculturação é usado para descrever o processo de aprendizagem da primeira cultura, a aculturação pode ser entendida como a aprendizagem da segunda cultura. Em circunstâncias naturais comuns no cotidiano atual, a aculturação ocorre naturalmente ao longo de várias gerações. A força física pode acelerar o processo em alguns casos, mas não é um componente principal. Mais comumente, a aculturação se dá por meio de pressão constante e exposição consistente à cultura dominante. Estudiosos de diferentes disciplinas desenvolveram mais de sessenta teorias sobre aculturação, embora muitas careçam de rigor acadêmico em suas propostas. O escopo acadêmico ativo no conceito de aculturação começou em 1918. Como foi abordado pelos campos da psicologia, antropologia e sociologia em diferentes épocas, inúmeras teorias e definições surgiram para descrever elementos do processo aculturativo. Apesar das definições (teorias sociais) e evidências (empiria) de que a aculturação é um processo de mudança bidirecional, a teoria e a pesquisa têm se concentrado principalmente nas adaptações e mudanças das minorias, como imigrantes, refugiados e povos indígenas, em resposta ao seu contato com a maioria dominante. 

A pesquisa contemporânea, entretanto, tem se concentrado principalmente nas várias estratégias de aculturação dentro das sociedades, nos fatores que influenciam o processo de aculturação e nos indivíduos envolvidos, e no desenvolvimento de intervenções destinadas a facilitar transições mais suaves. A história da civilização ocidental, e em particular as histórias da Europa e dos Estados Unidos, são amplamente definidas por padrões de aculturação. Uma das formas mais notáveis ​​de aculturação é o imperialismo, o progenitor mais comum da mudança cultural direta. Embora essas mudanças culturais possam parecer simples, os resultados combinados são robustos e complexos, impactando tanto grupos e indivíduos da cultura de origem quanto da cultura anfitriã. A aculturação com dominância tem sido pesquisada por sociólogos, antropólogos e historiadores praticamente apenas, e principalmente, em um contexto colonial, devido à dispersão dos povos da Europa Ocidental por todo o mundo nos últimos cinco séculos. A primeira teoria psicológica da aculturação foi proposta no estudo de W.I. Thomas e Florian Znaniecki, de 1918, intitulado: “O Camponês Polonês na Europa e na América”. A partir do estudo de imigrantes poloneses na cidade de Chicago, Estados Unidos, eles ilustraram três formas de aculturação correspondentes a três tipos de personalidade: boêmio, adotando a cultura anfitriã e abandonando sua cultura de origem, filisteu, não conseguindo adotar a cultura anfitriã, mas preservando sua cultura de origem e criativo, capaz de se adaptar à cultura anfitriã, preservando a cultura de origem.                                        


Escólio: Na filosofia da religião, o problema do mal é a questão de como conciliar a existência do mal com o de uma divindade que é, tanto em termos absolutos ou relativos, onipotente, onisciente e benevolente. Um "argumento do mal" tenta mostrar que a coexistência do mal e tal divindade é improvável ou impossível se colocado em termos absolutos. As tentativas de demonstrar o contrário tradicionalmente têm sido discutidas sob o título de teodiceia. Uma ampla gama de respostas foi dada para o problema do mal na teologia. Há também muitas discussões de problemas mal e associados em outros campos filosóficos, tais como ética secular, e disciplinas científicas, tais como ética evolucionista. Mas, como normalmente entendido, o "problema do mal" é colocado em um contexto teológico. A existência do mal parece ser contraditória a com a existência de um Deus bondoso e poderoso, mas alguns religiosos argumentam que, para o homem ser feliz, ele necessita executar ações, atos de caridade e de heroísmo, que não seriam possíveis se não existisse o mal. Entretanto, a maioria dos teístas responde que um deus perfeito pode ainda permitir um certo mal, insistindo que a concessão de um bem maior, como o livre arbítrio, não pode ser alcançada sem alguns males. Uma defesa contra o problema do mal é estabelecer que os atributos divinos são logicamente consistentes com a existência do mal, mas que isso não significa que o mal derive deles, ou que deles se possa retirar uma explicação quanto as razões pelas quais o mal existe ou ocorre. 

Uma teodiceia, por outro lado é uma tentativa de fornecer tais justificativas para a existência do mal. Richard Swinburne sustenta que não faz sentido assumir que existe esse bem maior, a não ser que se saiba o que ele é, ou seja, até que tenhamos uma boa teodiceia. Muitos filósofos contemporâneos discordam. O ceticismo teísta, que se baseia na posição de que seres humanos nunca podem esperar entender o divino, é talvez a mais popular resposta ao problema do mal entre os filósofos da religião contemporâneos. Em 1936, Robert Redfield, Ralph Linton e Melville J. Herskovits forneceram a primeira definição amplamente utilizada de aculturação como esses fenômenos que resultam quando grupos de indivíduos com culturas diferentes entram em contato direto contínuo, com mudanças subsequentes nos padrões culturais originais de um ou ambos os grupos... sob esta definição, a aculturação deve ser distinguida da... assimilação, que às vezes é uma fase da aculturação. Muito antes de surgirem os esforços em prol da integração racial e cultural nos Estados Unidos, o processo comum era a assimilação. Em 1964, o livro de Milton Gordon, Assimilação na Vida Americana, delineou sete estágios do processo assimilativo, preparando o terreno para a literatura sobre o tema. Posteriormente, Young Yun Kim reiterou o trabalho de Gordon, mas argumentou que a adaptação intercultural é um processo de múltiplos estágios. A teoria de Kim focava na natureza unitária dos processos psicológicos e sociais e na interdependência recíproca funcional do ambiente pessoal. Embora tenha sido a primeira a fundir fatores micropsicológicos e macrossociais em uma teoria integrada, ela estava claramente centrada na assimilação, e não na integração racial ou étnica. 

Na abordagem de Kim, a assimilação é unilinear e o imigrante deve se conformar à cultura do grupo para ser “comunicativamente competente”. De acordo com Gudykunst e Kim (2003), o “processo de adaptação intercultural envolve uma interação contínua de desculturação e aculturação que provoca mudanças em estrangeiros na direção da assimilação, o mais alto grau de adaptação teoricamente concebível”. Esta visão tem sido fortemente criticada, uma vez que a definição de adaptação na ciência biológica se refere à mutação aleatória de novas formas de vida, não à convergência de uma monocultura (Kramer, 2003). Em oposição ao desenvolvimento adaptativo de Gudykunst e Kim, Eric M. Kramer desenvolveu sua teoria da fusão cultural, mantendo distinções conceituais claras entre assimilação, adaptação e integração. De acordo com Kramer, a assimilação envolve a conformidade a uma forma preexistente. A teoria da Fusão Cultural de Kramer, baseada na teoria dos sistemas e na hermenêutica, argumenta que é impossível para uma pessoa desaprender a si mesma e que, por definição, o “crescimento” não é um processo de soma zero que exige a desilusão de uma forma para que outra surja, mas sim um processo de aprendizagem de novas línguas e repertórios culturais: formas de pensar, cozinhar, brincar, trabalhar, cultuar, etc. Ou seja, na interpretação psicodinâmica de Kramer, não é necessário desaprender uma língua para aprender outra, nem desaprender quem se é para aprender novos padrões de dança, culinária, fala, etc. Kramer discorda de Gudykunst e Kim (2003), respectivamente, ao afirmarem que essa “mistura de língua e cultura” gera complexidade cognitiva, a capacidade de alternar entre repertórios culturais. Kramer afirma que aprender é expandir, não desaprender.             

Evil Does Not Exist (“Hepburn: Aku wa Sonzai Shinai”) tem como representação social um filme dramático japonês de 2023 escrito e dirigido por Ryusuke Hamaguchi. Com um elenco de atores não profissionais, o filme acompanha a relação social de “um pai solteiro que vive em uma vila afetada por um projeto imobiliário e as consequências que seu desenvolvimento trará para o meio ambiente local”. Nascido em 16 de dezembro de 1978, é cineasta e roteirista ex-aluno da Universidade de Tóquio e da Universidade Nacional de Belas Artes e Música de Tóquio, o qual ganhou reconhecimento internacional com o filme Happy Hour (2015), Asako I & II (2018) e Wheel of Fortune and Fantasy (2021), que estrearam nas competições de Locarno, Cannes e Berlim, respectivamente. Por Drive My Car (2021), Hamaguchi foi indicado ao 94º Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado, o filme representou a primeira produção japonesa a ser indicada a Melhor Filme e ganhou o prêmio de Melhor Filme Internacional. Ele seguiu com Evil Does Not Exist (2023), que também recebeu ampla aclamação da crítica, e do mercado cinematográfico ganhando o Grande Prêmio do Júri em Veneza. Após se formar na Universidade de Tóquio, Hamaguchi trabalhou na indústria cultural de filmes comerciais por alguns anos antes de ingressar no programa de pós-graduação em cinema na Universidade de Artes de Tóquio, foi influenciado por Kiyoshi Kurosawa, diretor, roteirista, crítico e professor de cinema na Universidade de Artes de Tóquio. Por mais que ele tenha trabalhado em vários gêneros, é mais reconhecido pelas suas contribuições ao gênero terror japonês.

O filme começa com uma extensa paisagem de floresta invernal. O viúvo Takumi vive com sua filha de oito anos, Hana, na pacata vila montanhosa japonesa de Mizubiki. Ele corta lenha, fuma um cigarro, recolhe jarras de água do riacho da floresta e, ocasionalmente, ouve tiros, presumivelmente de caçadores de veados. Em uma reunião comunitária, os moradores são confrontados com uma proposta para a construção de um “acampamento de luxo” (glamping). Takahashi e Mayuzumi, dois representantes da construtora, apresentam o projeto. No entanto, os moradores expressam unanimemente sérias preocupações sobre as consequências que o empreendimento terá em seus frágeis sistemas de água e criticam as táticas de relações públicas dos representantes. Takumi e outros informam que a capacidade de tratamento do esgoto da fossa séptica não é suficiente para o empreendimento planejado e que o esgoto “irá contaminar o lençol freático proveniente de poços”. A empresa é acusada de se preocupar apenas com o lucro como um fim em si e de querer agir de “forma imprudente e rápida para se aproveitar dos subsídios temporários concedidos durante a pandemia.          

Takahashi e Mayuzumi mudam de atitude enquanto ouvem, mas depois de relatarem o resultado da reunião ao chefe, são rejeitados e instruídos a não mexerem no sistema séptico, mas sim a seduzir Takumi com presentes e contratá-lo como zelador do acampamento. A dupla volta para a vila enquanto conversa sobre suas experiências com encontros online e a desilusão com seus empregos. Eles cortam lenha e almoçam com Takumi. Takahashi decide ficar na vila para morar lá e aprender o que puder com Takumi. Durante a viagem, Takumi menciona que, embora cervos selvagens normalmente não sejam agressivos, um cervo atingido no abdômen ou seus pais podem atacar se não conseguirem fugir. Outro tiro é ouvido à distância. A filha de Takumi, Hana, desaparece e a comunidade da vila a procura noite adentro. Takumi e Takahashi se aventuram na floresta em busca dela e eventualmente chegam a um campo aberto. Hana é mostrada no campo se aproximando de uma corça e seu filhote, este último atingido por um tiro no abdômen. Antes que Takahashi possa correr até ela, Takumi o derruba no chão e o estrangula até que ele desmaie. Hana é vista deitada imóvel no campo com o nariz sangrando antes de Takumi pegá-la no colo e correr para a floresta. Takahashi acorda, tenta se levantar, mas cai novamente. O som de passos e respiração ofegante é ouvido fracamente sobre a imagem da floresta enquanto ela desaparece na escuridão.

Hamaguchi começou a trabalhar no filme em janeiro de 2023, com a intenção de que fosse um curta-metragem de 30 minutos acompanhado por uma trilha sonora ao vivo composta por Eiko Ishibashi, a produção acabou ficando mais longa à medida que as filmagens avançavam e Hamaguchi decidiu transformá-la em um longa-metragem com diálogos. Hamaguchi foi influenciado pela obra de Jean-Luc Godard, que havia falecido recentemente. Ele e Ishibashi se aproximaram por meio da “linguagem comum” que encontraram em Godard, cuja obra admiravam por suas qualidades musicais. Hamaguchi disse: “De certa forma, era uma dimensão que realmente nos propusemos a buscar. Eu estava pensando em como ele usava som e imagens juntos. Há também algumas referências visuais a alguns de seus trabalhos. Dito isso, felizmente ou infelizmente, acho que, no fim das contas, O Mal Não Existe é um filme muito diferente dos que Godard fez”. A tipografia nos créditos iniciais lembra a obra de Godard, uma decisão que Hamaguchi tomou no processo de edição. Metodologicamente a cidade fictícia do filme é uma composição de várias aldeias que Hamaguchi visitou durante um extenso período de pesquisa para reunir ideias para o roteiro. Ele atribui essa pesquisa à sua capacidade de escrever o roteiro rapidamente em cerca de uma semana. A produção durou de novembro de 2022 até “por volta do início de 2023”. O filme Evil Does Not Exist foi filmado nas regiões fronteiriças entre as prefeituras de Yamanashi e Nagano. O filme foi dirigido por Yoshio Kitagawa e teve a correção de cor realizada por Ryota Kobayashi. Kitagawa utilizou uma Blackmagic Pocket Cinema Camera 6K G2 com lentes Nikon mais antigas que introduziram alguma granulação que Kobayashi considerou agradável. As cenas foram iluminadas principalmente por luz natural, o que ajudou a simular a aparência desejada do filme Kodak Portra 400. 

A trilha sonora foi lançada em 28 de junho de 2024 pela Drag City. Foi mixada e masterizada pelo parceiro de Ishibashi, Jim O`Rourke, com formação musical que também toca guitarra na trilha sonora. Yamanashi é uma prefeitura do Japão localizada região na Chūbu na principal ilha de Honshu. A sua capital é Kōfu. A prefeitura de Yamanashi localiza-se próximo ao centro da ilha de Honshu, a principal do Japão, e faz divisa com Tóquio, Kanagawa, Saitama, Shizuoka e Nagano e tem uma extensão territorial de 4.463 km². Sua capital Kōfu localiza-se a cerca de 1h30 de Tóquio, utilizando a linha Chuo da JR (Japan Railway Company), partindo da Estação de “Kōfu” até à Estação de “Shinjū” em Tóquio. De carro, a viagem demora cerca de 2 horas pela Chuo Expressway. De ônibus, 2 horas e 10 minutos, utilizando a Chuo Highway Bus partindo da saída Oeste da Estação de Shinjuku. É cercada por montanhas com 2000 a 3000 metros de altitude. Aproximadamente 78% do seu território é coberto por florestas e áreas verdes, incluindo quatro parques nacionais, dentre eles, o Parque Nacional de Fuji Hakone Izu. Yamanashi tem uma base industrial sustentada em torno da cidade de Kōfu, a região tem muitas fazendas, caracterizando-se como uma prefeitura rural. Yamanashi tem uma razoável quantidade de indústrias nos arredores da cidade de Kōfu, destacando-se o manuseio de joias e a indústria robótica. Nas áreas vizinhas há várias propriedades rurais, destacando-se as plantações de uva. É um dos maiores produtores de frutas do país, sendo o principal produtor interno de uvas, cerejas, pêssegos, ameixas e vinho. É responsável também por cerca de 40% da produção nacional de água mineral engarrafada, sendo a maior parte proveniente das regiões próximas dos Alpes do Sul, Monte Fuji e Mitsutōge.

Em 1877, Masanari Takano e Tatsunori Tsuchiya que aprenderam o ofício e a arte da vinicultura na França, deram início à produção de vinhos na região de Katsunuma na cidade de Koshu. A Katsunuma, acomoda aproximadamente 80 vinícolas cuja produção corresponde a cerca de 30% da produção nacional. No Centro “Budo no oka”, em Katsunuma, há uma exposição permanente da história e documentos que registram a história da produção de vinhos na Prefeitura de Yamanashi. Os vinhos produzidos no Japão têm um sabor peculiar, que os diferencia de outros tipos de vinho. Estes vinhos combinam com pratos japoneses, o que não acontece com a maioria dos vinhos de outros países. Em 1834, um sacerdote xintoísta aprendeu as técnicas de fabricação de bolas de cristais em Kyoto, e trouxe a Yamanashi. Hoje, Kofu, a capital de Yamanashi, é reconhecida internacionalmente por suas técnicas de lapidação e polimento de pedras preciosas, assim como a manufatura de joias. Os artefatos produzidos com pedras semipreciosas e preciosas como cristais, ágata, jade, opala, dentre outros estão sendo amplamente exportados. O Museu de Pedras Preciosas (Houseki Hakubutsukan) que se localiza próximo à Estação JR de Kofu, é o orgulho da cidade. São artefatos feito em couro de veado, estampados com laca (resina de sumagre) que são produzidos exclusivamente em Yamanashi. No início da Era Edo, muitos acessórios feitos em couro eram importados da Índia. No final da Era Edo, porta-níqueis e porta-cigarros já eram produzidos com a técnica “inden”. Atualmente bolsas, carteiras, porta cartão-de-visitas são produzidas em Yamanashi de maneira tradicional, utilizando as técnicas centenárias tanto na produção como na laqueação dos produtos.

Um modo de produção pré-capitalista só pode ser definido por via das suas superestruturas políticas, jurídicas e ideológicas, uma vez que são estas que condicionam o tipo social de coerção extraeconômica que lhes é específico. As formas jurídicas exatas de dependência, de propriedade e de soberania que caracterizam uma formação social pré-capitalista, longe de serem apenas epifenômenos acessórios ou contingentes, constituem pelo contrário os índices principais do modo de produção determinado que nelas domina. Uma taxonomia escrupulosa e exata é um pressuposto para a elaboração de uma exaustiva tipologia dos modos de produção pré-capitalista. É evidente que a complexa imbricação de exploração econômica com instituições e ideologias extraeconômicas cria modos de produção possíveis antes do capitalismo do que pode deduzir-se da generalidade relativamente simples e massiva do próprio modo de produção capitalista, que acabou por ser, com a época do imperialismo industrial, o seu terminus ad quem comum e involuntário. Neste sentido, as condições e possibilidades de uma pluralidade de modos de produção pré-capitalistas posteriores ao tribalismo e ao escravagismo é inerente ao seu mecanismo de extração de excedentes. Não é por acaso, afirma Anderson (1984: 474), a uma profunda análise das formas de propriedade agrária em modos de produção na Europa, na Ásia e na América refere-se a mudança social no caráter e na posição de propriedade e as suas relações interligadas com os sistemas políticos, do tribalismo primitivo ao capitalismo. 

Como categoria analítica social e histórica, o feudalismo foi cunhado pelas Luzes. Mas não restam dúvidas que Montesquieu, dotado de um sentido histórico muito mais profundo, andava mais perto da verdade. A investigação moderna descobriu apenas uma grande região do mundo onde vingou inegavelmente um modo de produção comparável ao da Europa. No outro extremo da massa continental eurasiana, para além dos impérios orientais familiares ao Iluminismo, as ilhas do Japão haviam de revelar um panorama social vivamente evocador do passado medieval para os viajantes e observadores europeus do final do século XIX, depois que a chegada do comodoro Perry à baía de Yokoama, em 853, por fim ao seu longo isolamento do mundo exterior. Pouco mais de uma década passada, é o próprio Marx que comenta em O Capital, publicado ante da restauração Meiji: - “O Japão, com sua organização puramente feudal de propriedade fundiária, e a sua petite culture desenvolvida, dá-nos um retrato mais fiel da Idade Média europeia do que todos os nossos livros de história”. A opinião sociológica dos teóricos concorda quase que unanimemente em considerar que o Japão foi lugar histórico de um autêntico feudalismo. O interesse feudal do Extremo Oriente reside na análise comparativa desde a sua distinta combinação de similaridades estruturais e divergências relativamente à evolução em conjunto da sociedade europeia.

O feudalismo japonês, que surgiu como um modo de produção desenvolvido a partir do século XIX-XV e após um longo período de incubação, caracterizava-se essencialmente pela mesma conexão fundamental do feudalismo europeu: a fusão de vassalagem, benfeitoria e imunidade num sistema de feudo que constituía a estrutura político-jurídica de base que permitia a extração ao produtor direto de um sobre-trabalho. As relações sociais entre serviço militar, propriedade fundiária condicional e jurisdicional senhorial reproduziram-se fielmente no Japão. Igualmente perante a hierarquia escalonada entre senhor, vassalo e sub-vassalo, constituindo uma cadeia de suserania e dependência. A classe dirigente hereditária, era formada por uma aristocracia de cavaleiros; o campesinato encontrava-se juridicamente vinculado ao solo, numa réplica próxima da servidão da gleba. Naturalmente, o feudalismo japonês possuía também características próprias locais, que contrastavam com o feudalismo europeu. As condições técnicas da cultura do arroz ditavam uma estrutura diferente das aldeias, de que era ausente o sistema se assolamento trienal. Por sua vez, o domínio senhorial japonês raramente continha uma reserva ou residência. O pacto feudal era menos contratual e específico do que na Europa: os deveres do vassalo eram mais imperativos.

Dentro do peculiar equilíbrio entre honra e subordinação, reciprocidade e desigualdade, que marcava a ligação feudal, a variante japonesa pendia acentuadamente para o segundo termo. Embora a organização clânica estivesse ultrapassada, como em todas as verdadeiras formações sociais feudais, o expressivo “código” da relação senhor-vassalo era ditado pela linguagem de parentesco, mais do que por elementos da lei: a autoridade do senhor sobre o seu subalterno era mais patriarcal e indiscutível do que na Europa. Era-lhe estranho o conceito de felonia senhorial; não havia tribunais de vassalos; e o sistema jurídico manteve-se de uma maneira geral, muito limitado. A mais importante das consequências gerais do maior autoritarismo e do conteúdo assimétrico das relações hierárquicas entre os senhores no Japão foi a ausência de um sistema de cortes, quer a nível regional, que a nível nacional. É esta, sem dúvida, a mais importante linha divisória ente os feudalismos japonês e europeus, considerados enquanto estruturas fechadas. Na realidade, essa parcelarização da soberania atingiu no Japão Tokugawa uma forma mais organizada, estável e sistemática do que jamais conheceu qualquer país da Europa; e a propriedade privada escalonada da terra foi universal no Japão do que na Europa medieval, já que o Japão rural desconhecia os alódios. O paralelismo de base entre as duas grandes experiências, nos extremos opostos do continente eurasiano, havia de receber a confirmação mais convincente do destino de cada uma delas. Os caracteres históricos e sociais que compõem o nome Japão significam “Origem do Sol”, razão pela qual o Japão é muitas vezes identificado como a “Terra do Sol Nascente”. O nome japonês Nippon é usado de forma oficial tradicional, inclusive no dinheiro japonês, selos postais e para muitos eventos esportivos internacionais. Nihon é um termo percebido mais casual e mais frequentemente utilizados no discurso contemporâneo.

Tanto Nippon quanto Nihon, significam “origem do Sol” e muitas vezes são traduzidos como a “Terra do Sol Nascente”. Esta nomenclatura vem das missões do Império com a dinastia chinesa Sui e refere-se à posição a Leste do Japão em relação à China. Foi durante o século XVI que comerciantes e missionários portugueses chegaram ao Japão pela primeira vez, dando início a um intenso período de trocas linguísticas, culturais e comerciais. No Japão, os portugueses praticaram pari passu o comércio e a evangelização. Os missionários, principalmente os sacerdotes da Companhia de Jesus, levaram a cabo um intenso trabalho disciplinar de missão em cerca de 100 anos de presença portuguesa no Japão. Em 1582 a comunidade cristã no país chegou a ascender a 150 mil cristãos no Japão e 200 igrejas. Toyotomi Hideyoshi deu continuidade ao governo de Oda Nobunaga e unificou o país em 1590. Depois da morte de Hideyoshi, o regente Tokugawa Ieyasu aproveitou-se de sua posição para ganhar apoio político e militar. Quando a oposição deu início a uma guerra, ele a venceu em 1603 na Batalha de Sekigahara. Tokugawa fundou um novo xogunato, um sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, com capital em Edo e expulsou os portugueses e restantes estrangeiros, dando início à perseguição dos católicos no país, tidos como subversivos, com uma política reconhecida como sakoku, a política externa isolacionista japonesa. A perseguição aos cristãos japoneses fez parte desta política, levando esta comunidade à conversão forçada ou mesmo à morte, como é o caso dos 26 Mártires do Japão.

Neste período o Japão era uma sociedade feudal bem desenvolvida com tecnologia pré-industrial. Era mais povoado do que qualquer país ocidental e tinha no século XVI  26 milhões de habitantes. Um fato social ainda mais revelador, é que o Japão do fim do feudalismo reconheceu um nível de urbanização sem equivalente, exceto na Europa contemporânea: no princípio do século XVIII, a sua capital, Edo, era maior do que Londres ou Paris, e talvez um em cada dez japoneses vivia em cidades de mais de 10 mil habitantes. E há que notar também que o esforço educacional do país suportava bem a comparação com as mais desenvolvidas nações da Europa ocidental: no limiar da “abertura” japonesa ao Ocidente, cerca de 40% a 50% da população masculina adulta estava alfabetizada. O êxito e a rapidez impressionantes com que o capitalismo industrial foi implantado no Japão pela restauração Meiji tiveram os seus pressupostos históricos determinados no avanço ímpar da sociedade que foi herdeira do feudalismo de Tokugawa. Quando a esquadra da Perry aportou a Yokohama, em, 1853, o fosso histórico entre o Japão e as potências euro-americanas que o ameaçavam era, apesar de tudo, enorme. A agricultura japonesa encontrava-se notavelmente comercializada ao nível da distribuição, mas muito menos ao nível da própria produção. Os tributos feudais, coletados em espécie, contavam ainda para o total do sobre-produto, embora acabassem por ser convertidos em moeda: a produção agrícola direta para o mercado era subsidiária dentro da economia. sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, baseado na crescente autoridade do xógum, supremo líder militar, que terminaria por submeter até a autoridade do imperador. A retomada do poder imperial determinou o encerramento do feudalismo baseado no xogunato, a abertura do país ao exterior e o início de sua ocidentalização.

Em outras palavras, nada de comparável ao Renascimento tocar em terra japonesa. É lógico que a estrutura do Estado tivesse uma forma rígida e fragmentária. O Japão teve uma longa e rica experiência de feudalismo, mas nunca produziu um absolutismo no sentido conceitual. O shogunato Tokugawa, que governou as ilhas durante os últimos duzentos e cinquenta anos da sua existência, até a intrusão do ocidente industrializado, assegurou uma paz prolongada e manteve uma ordem disciplinar rigorosa: o seu regime era, porém, a negação do Estado absolutista. O shogunato não mantinha monopólios coercivos no Japão: os senhores regionais mantinham os seus próprios exércitos, cujo total era superior aos das tropas da casa Tokugawa. Não impunha uma legislação uniforme, os seus decretos cobriam apenas um quinto ou um quarto do território. Não possuía uma administração competente para o total da sua área de suserania: todos os feudos importantes tinham as suas próprias administrações separadas e autônomas. Não coletava impostos nacionais, estando três quartos do território fora do seu alcance fiscal. Não tinha diplomacia, pois o isolamento oficial e social impedia o estabelecimento de relações com o mundo exterior. Exército, fisco, administração, direito, diplomacia, comparados, faltavam no Japão todos esses complexos institucionais que são chave explicativa e processual do contexto do absolutismo europeu. A distância política neste aspecto histórico e social entre o Japão e o continente europeu as duas pátrias do feudalismo, manifestava e simbolizava a profunda divergência nas suas evoluções históricas. Torna-se necessária e instrutiva uma comparação teórica e histórica não da “natureza”, mas da “posição” do feudalismo nestas trajetórias sociais e políticas. 

O filme de formatura, de Ryusuke Hamaguchi, Passion, foi selecionado para a competição do Tokyo Filmex de 2008. Com Kō Sakai, ele fez um documentário em três partes sobre sobreviventes do terremoto e tsunami de Tōhoku de 2011, com Voices from the Waves sendo selecionado para a competição no Festival Internacional de Cinema Documentário de Yamagata de 2013, e Storytellers ganhando o Prêmio Sky Perfect IDEHA, também reconhecido como Prêmio IDEHA, é concedido no âmbito de festivais de cinema, notavelmente o Festival Internacional de Documentários de Yamagata (Yamagata International Documentary Film Festival), no Japão. O prêmio é patrocinado pela SKY Perfect JSAT Corporation, uma grande empresa japonesa de comunicações via satélite e televisão por assinatura, que está envolvida em várias iniciativas culturais e de negócios de mídia. Seu próximo filme, Happy Hour, foi desenvolvido inicialmente enquanto Hamaguchi era artista residente no KIITO Design and Creative Center Kobe em 2013. Surgiu de uma oficina de improvisação de atuação que ele ministrou para não profissionais, com muitos dos atores do filme tendo participado da oficina. As quatro atrizes principais dividiram o prêmio de melhor atriz e o filme recebeu uma menção especial por seu roteiro no Festival de Cinema de Locarno de 2015.

Hamaguchi também recebeu um prêmio especial do júri no Japan Movie Critic Awards de 2016, bem como um prêmio de melhor estreante na categoria de cinema do Geijutsu Sensho Awards da Agência de Assuntos Culturais naquele ano. Seu filme Asako I & II foi selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2018. Em 2021, Hamaguchi ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim com seu filme “Wheel of Fortune and Fantasy”. No mesmo ano, “Drive My Car” conquistou os prêmios de Melhor Filme do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York, da Sociedade de Críticos de Cinema de Boston e da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles, além do prêmio de “Melhor Filme em Língua Não Inglesa” no Globo de Ouro. Hamaguchi foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor por “Drive My Car”, tornando-se o terceiro diretor japonês a alcançar tal feito. Em 2023, seu filme Evil Does Not Exist recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo ano, ele lançou o filme Gift, que usa as mesmas filmagens de Evil Does Not Exist, embora com uma história social diferente e é acompanhado por uma trilha sonora ao vivo. O filme foi selecionado para competir pelo Leão de Ouro no 80º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde pari passu ganhou o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio FIPRESCI da Federação Internacional de Críticos de Cinema. Foi premiado ipso facto como Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres do BFI de 2023. O cinema de Londres refere-se principalmente ao BFI Southbank, o principal cinema de repertório do Reino Unido na margem Sul de Londres, e ao grande BFI London Film Festival (LFF), um evento anual em outubro que celebra o cinema mundial, organizados pelo British Film Institute (BFI).

Vale lembrar que o epicentro do terremoto e tsunami de Tōhoku de 2011, ocorreu a 130 km da costa Leste da península de Oshika, na região de Tohoku, com o hipocentro situado a uma profundidade de 24,4 km. O sismo atingiu o grau 7, a magnitude máxima da escala de intensidade sísmica da Agência Meteorológica do Japão, ao Norte da Prefeitura de Miyagi, grau 6 em outras prefeituras e 5 em Tóquio. O sismo provocou alertas de tsunâmi e evacuações na linha costeira japonesa do Pacífico e ao menos 20 países, incluindo a costa do Pacífico da América do Norte e América do Sul. Provocou também ondas de tsunâmi de mais de 10 m de altura, que atingiram o Japão e outros países. No Japão, as ondas percorreram mais de 10 km de terra. Para as autoridades, houve 19 759 mortes confirmadas e mais de 2 500 pessoas ainda desaparecidos. O sismo causou danos substanciais ao Japão, incluindo a destruição de rodovias e linhas ferroviárias, assim como incêndios em várias regiões, e o rompimento de uma barragem. Aproximadamente 4,4 milhões de habitantes no Nordeste do Japão ficaram sem energia elétrica, e 1,4 milhão sem água. Muitos geradores deixaram de funcionar e dois reatores nucleares foram danificados, o que levou à evacuação imediata das regiões atingidas enquanto um estado de emergência era estabelecido. A Central Nuclear de Fukushima I sofreu uma explosão 24 horas depois do primeiro sismo, e apesar do colapso da contenção de concreto da construção, a integridade do núcleo interno não teria sido comprometida. Terremotos ocorrem quase que diariamente no Japão, que se localiza na junção de várias placas tectônicas em constante movimentoː do Pacífico, norte-americana, eurasiática e das Filipinas. Estima-se que a magnitude do sismo de Sendai faça deste o maior sismo já registrado no Japão e um dos sete maiores do mundo desde que os registros modernos começaram a ser compilados. Hamaguchi se referiu a si mesmo como “puramente um cinéfilo” e “convencionalmente apaixonado por filmes de Hollywood” e influenciado pelas obras de John Cassavetes.           

John Nicholas Cassavetes (1929-1989) foi um cineasta e ator norte-americano. Ele começou como ator no cinema e na televisão antes de ajudar o pioneirismo do cinema independente americano moderno como roteirista e diretor, muitas vezes autofinanciando, produzindo e distribuindo seus próprios filmes. Ele recebeu indicações para três Oscars, dois BAFTA Awards, quatro Globos de Ouro e um Emmy Award. Após estudar na American Academy of Dramatic Arts, Cassavetes iniciou sua carreira na televisão atuando em diversos dramas de emissoras locais. De 1959 a 1960, interpretou o papel principal na série policial da NBC, Johnny Staccato. Atuou em filmes notáveis, como o filme noir de Martin Ritt, Edge of the City (1957), o filme de guerra de Robert Aldrich, The Dirty Dozen (1967), o filme clássico de terror de Roman Polanski, Rosemary`s Baby (1968), e o drama policial de Elaine May, Mikey and Nicky (1976). Por The Dirty Dozen, recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Como diretor, Cassavetes ficou reconhecido por uma série extraordinária de dramas independentes aclamados pela crítica, incluindo Sombras (1959), Faces (1968), Maridos (1970), Uma Mulher Sob Influência (1974), Noite de Estreia (1977) e Correntes de Amor (1984). Seus filmes empregavam uma abordagem centrada no ator, que priorizava as relações cruas entre os personagens e os “sentimentos sutis”, rejeitando a narrativa tradicional de Hollywood, o método de atuação e a estilização. Seus filmes ficaram associados a uma estética de improvisação e a um estilo de “cinema verdade”. Ele recebeu indicações ao Oscar de Melhor Roteiro Original (Faces) e Melhor Diretor (Uma Mulher Sob Influência). Foi dito que o cerne de seus filmes contém “angústia confusa [que] santifica”.

Bibliografia Geral Consultada.

ELIADE, Mircea, “L’Initiation et le Monde Moderne”. In: La Nostalgie des Origines. Paris: Éditions Gallimard, 1971; BENEDICT, Ruth, O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa. Rio de Janeiro: Editora Perspectiva, 1972; ANDERSON, Perry, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto: Edições Afrontamento, 1984; DUBY, Georges, A Idade Média na França: de Hugo Capeto a Joana D’Arc. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1992; AUGÉ, Marc, La Guerre des Rêves. Exercices d`ethno-fiction. Paris: Éditions du Seuil, 1997; WILLIAMS, Michael, Deforesting the Earth. Chicago: Editor University of Chicago Press, 2006; MELL, Julie Lee, Religion and Economy in Pre-Modern Europe: The Medieval Commercial Revolution and the Jews. Thesis PhD. North Carolina: University of North Carolina, 2007; KIKUCHI, Wataru, Relações Hierárquicas do Japão Contemporâneo: Um Estudo da Consciência de Hierarquia na Sociedade Japonesa. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Sociologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; ROCHA, Rafael Machado da, O Processo de Ocidentalização do Estado e do Direito Japonês na Era Meiji: Conflitos e Contradições. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Direito. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2016; RIBEIRO, Jaqueline de Sá, As Transformações Sociopolíticas e Culturais no Japão da Era Meiji (1868-1912) a Partir das Cartas do Japão, de Wenceslau de Moraes. Dissertação de Mestrado em História Política. Programa de Pós-Graduação em História. Centro de Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017; CUNHA, Ester Almeida Carneiro da, Uma Análise do Pensamento Autoritário-Militar Japonês a Partir da Perspectiva de Tojo Hidek. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; IWAMOTO, Vivian, Cultura Nipo-Sul-Mato-Grossense de Dourados. Tese de Doutorado em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023; GUERRA, Renan, “O Mal Não Existe, de Ryūsuke Hamaguchi, é um Drama Contemplativo e Poderoso”. In: https://screamyell.com.br/site/2024/07/26/; entre outros.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Lulu Santos – Amor & Axiologia, Sinfonia de Silêncios e de Luz.

                                               “Nada é mais triste que um amor racional”. Michael Löwy

          A velha tradição anticapitalista da Igreja, lembra-nos Michael Löwy (2014), entra assim em relação de afinidade eletiva com a análise marxista da exploração capitalista e com a crítica dos marxistas latino-americanos, originária da esxtraordinária Teoria da Dependência, ao capitalismo dependente como fundamento estrutural do “subdesenvolvimento”, da miséria e do autoritarismo militar. A solidariedade com o pobre é o ponto de partida deste processo social de elaboração teológica. A grande diferença, a novidade decisiva, o salto qualitativo em relação à concepção católica tradicional do pobre, é que este já não é considerado como “vítima passiva, objeto de caridade e assistência, mas sim como sujeito de sua própria libertação”. Graças a esta ruptura - fruto da experiência prática dos cristãos comprometidos no curso das conjunturas históricas dos anos 1960 e 1970, que tem como primícias a problemática de a interpelação da Teologia da Libertação vai convergir com o princípio político fundamental do marxismo: a emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Enfim, a opção prioritária pelos pobres, aprovada pela Conferência dos Bispos Latino-Americanos de Puebla (1979) é, na realidade, uma fórmula de compromisso, interpretada num sentido tradicional e assistencialista pelas correntes mais moderadas ou conservadoras da Igreja católica, e num sentido radical pelos teólogos da libertação e as correntes mais avançadas do clero: como um engajamento na organização e na luta dos pobres e despossuídos por sua própria libertação. A luta de classes - não só como método de análise da realidade, mas também como guia para a ação - se torna assim um elemento central (implícito ou explícito) na nova teologia. Como escreveu Gustavo Gutierrez Merino: “negar o fato da luta de classes é, na realidade, tomar partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade neste assunto é impossível”. De qualquer forma, para o método marxista, o essencial é o que se passa na realidade.

Enquanto processo de convergência por afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores (comunitários), a certas opções ético-políticas (a solidariedade com os pobres), a utopias do futuro (uma sociedade sem exploração nem opressão). E na medida em que a teologia da libertação é a expressão de uma práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead (1901-1978). Em The Causes of World War Three (1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e intelectuais. Fidel Castro teria então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha.  Mills acreditara que os revolucionários cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes. Durante sua estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination, apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague.

A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. 


No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014). No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas.

Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”. A contribuição social é a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992).

O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o título de Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788). Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens. O termo se torna uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas.

Essa transposição de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado de  metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem-se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês. Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de um tipo de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha que ele passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer. O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante, precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material. 

A afinidade eletiva é talvez um meio para uma busca causal “num segundo momento”, mas isso não significa que ela própria seja uma relação causal. As formulações de Max Weber são suficientemente flexíveis para podemos admitir diferentes leituras de interpretação. Neste ano, Mills mencionou, numa carta a um amigo, que os manuscritos incluíam “uma [versão] completamente reescrita e, acredito de primeira linha, de um ensaio inédito Sobre o Artesanato Intelectual” (“On Intellectual Craftsmanship”). A primeira versão do texto foi escrita em abril de 1952, segundo anotação de Mills no manuscrito, e distribuída para uso em sala de aula em 1955. O texto completo foi publicado em Society, vol.17, n° 2, janeiro 1980, pp.63-70. O texto acabou sendo publicado como apêndice de The Sociological Imagination e tornou-se a parte mais universalmente conhecida e elogiada do livro. Metodologicamente é em torno da ideia de “artesanato intelectual” que a coletânea de textos de C. Wright Mills foi organizada. Além do famoso Apêndice, foram reunidos quatro outros textos curtos, representando  um meio de trabalho que nos ajudam a melhor a compreensão sociológica dessa ideia: um trecho de White Collar que explica a utilidade de uso pragmaticamente do tipo ideal weberiano do artesanato, algo que tornou-se um anacronismo na experiência moderna do trabalho descrito no capítulo 2; uma palestra, inédita em português, realizada por Mills numa convenção para designers, na qual defende o teor abstrato do modelo artesanal como um valor central para seres humanos não alienados, disposto no capítulo 3; a seção inicial de A Imaginação Sociológica, na qual apresenta aquilo que ela pode nos oferecer, ao esclarecer a inter-relação entre biografia e história no capítulo 4; e, per se um texto sobre a posição do intelectual e de seu ofício diante das questões públicas no capítulo 5.

C. Wright Mills faz, em “Sobre o artesanato intelectual”, um relato pessoal, dirigido aos que se iniciam ou dissociam nas Ciências Sociais, de como procede em seu ofício. A imagem de um “ofício” e a associação com as ideias de “artesanato” e “oficina”  se contrapõe à divisão do trabalho do cientista social como alguém que testa hipóteses construídas a partir de leis gerais e aplicadas através de métodos controláveis. No trabalho do cientista social não haveria fórmulas, leis, receitas, e sim méthodos, no sentido originalmente grego da palavra: via, caminho, rota para se chegar a um fim. O “artesão intelectual” de que trata Mills deve ser visto como um “tipo ideal”, no sentido weberiano do termo – algo que não é encontrado em forma “pura” na realidade social, mas que, construído pelo pesquisador a partir do exagero de algumas propriedades de determinado fenômeno, nos ajuda a compreendê-lo. Nesse sentido, ver o trabalho de pesquisa como um ofício ressalta a importância da dimensão existencial na formação do pesquisador. Isso não quer dizer que se devam explicar os resultados do trabalho a partir da biografia, como ocorre em tolas reuniões científicas; não estamos falando de fenômenos psicanalíticos ou coisas do gênero. Como Mills tende a enfatizar a indissociabilidade, para o “artesão intelectual”, entre sua vida e seu trabalho - ideia próxima à que um autor brilhante como Georg Simmel chamaria de “autocultivo” através da prática de seu ofício.

Enquanto um bricoleur, o artesão intelectual está atento para combinações não-previstas de elementos, evitando normas de procedimento rígidas que levem a um “fetichismo do método e da técnica”: - Estimule a reabilitação do artesão intelectual despretensioso, e tente se tornar você mesmo tal artesão. Deixe que cada homem seja seu próprio metodologista; deixe que cada homem seja seu próprio teorizador; deixe que teoria e método se tornem parte da prática de um ofício. A manutenção de um arquivo como o proposto por Mills - tarefa que ele realizava com lápis e papel, mas que hoje pode igualmente ser realizada com um computador – gera o hábito da autorreflexão sistemática, através da qual o cientista social aprende como manter seu mundo interior desperto, relacionando aquilo que está fazendo intelectualmente e o que está experimentando como pessoa. Como disse Gláucio Soares (1991), “arquivos deste tipo são, essencialmente, uma conversa íntima e solitária”. Wright Mills procura seguir sua própria exortação de que a apresentação do trabalho do sociólogo deve ser realizada em linguagem a mais clara e simples possível, evitando ao máximo o jargão e o hermetismo – “para superar a prosa acadêmica, temos de superar primeiro a pose acadêmica”. No Apêndice: Sobre o Artesanato Intelectual, dá exemplos concretos a seus leitores do que defende, a partir de sua prática teórica, em particular com a pesquisa que levou à redação de uma importante pesquisa trocando em miúdos as razões d`A Elite do Poder.

Como um mestre-artesão que procura passar aos aprendizes de seu ofício aquilo que aprendeu ao longo de seu caminho. O conhecimento é uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual, não sendo um idiota burocrata, forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento do ofício artesanal; para realizar suas próprias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho ele constrói um caráter que tem como núcleo as qualidades do bom trabalhador. Isto significa que deve aprender a usar sua experiência de vida pari passu em seu trabalho intelectual: examiná-la e interpretá-la continuamente. Neste sentido, o artesanato é o centro de você mesmo, e você está pessoalmente envolvido em cada produto intelectual em que possa trabalhar. Dizer que você pode “ter experiência” significa que seu passado influencia e afeta seu presente, e que ele define sua capacidade de experiência futura. Como sociólogo, é preciso controlar a ação orientada, recíproca e complexa, apreender o que pratica e classificá-lo. Somente dessa maneira pode esperar usá-lo para guiar e testar sua reflexão e xriar condições e possibilidades de moldar a si mesmo como um artesão intelectual. Mas como fazê-lo? Deve organizar um arquivo temático, o que é subentendido na maneira do sociólogo dizer: mantenha um diário. Muitos escritores notáveis e evidentemente criativos mantêm seus diários. É um processo disciplinar, indicando as condições teóricas e práticas, além das possibilidades formadas pela necessidade de autorreflexão crítica, sistematicamente e, mesmo global em que o sociólogo vive seu próprio drama socialmente.

Luiz Maurício Pragana dos Santos, mais reconhecido como Lulu Santos nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1953. É um cantor, compositor, produtor musical e guitarrista brasileiro. Antes de se tornar músico, trabalhou como colunista em revistas como a Som Três, escrevendo comentários sobre os álbuns musicais. Em 1981, assinou com a gravadora WEA e assumiu o nome de Lulu Santos, gravando “Tesouros da Juventude” em parceria com o jornalista e produtor Nelson Motta. Seguiram-se outras canções de sucesso “Tempos Modernos” (1982), “O Ritmo do Momento” (1983), “O Último Romântico” (1984), cujo arranjo musical fora claramente influenciado pela canção “Greece”, de George Harrison, do álbum Gone Troppo (1982), “Tudo Azul” (1984), “Normal” (1985), “Lulu” (1986) e “Toda Forma de Amor” (1988). Em 1985, participou do Rock in Rio e, dois anos depois, foi premiado com o disco de platina. O cantor, entretanto, recusou o prêmio concedido na cerimônia de entrega pelo talento e índice de mercado, por não ter atingido o limite mínimo de vendas de 250 mil cópias. Começou sua carreira musicalmente na banda Vímana, e no começo da década de 1980 se tornou um dos músicos mais bem-sucedidos cantores da música brasileira. Começou a tocar violão aos doze anos, muito precoce, formando uma banda inspirada nos Beatles chamada de Cave Man. Contrariando o desejo de seu pai, de que também se tornasse militar, “fugiu de casa antes de completar o colegial, percorrendo o Brasil com hippies”.

            O movimento hippie representou um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960.O movimento, em sua essência, propõe uma crítica ao tradicionalismo e assim desenvolve um novo estilo de vida que repensa a relação hegeliana das pessoas entre si e com o mundo. Embora tendo uma relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos Estados Unidos da América, a célebre máxima “Peace and Love”, que precedeu a expressão “Ban the Bomb”, a qual criticava a condição e possibilidade do uso de armas nucleares. As questões ambientais, a prática de nudismo e a emancipação sexual eram ideias respeitadas recorrentemente por estas comunidades. Optaram por um modus vivendi, tendendo originalmente a uma espécie de Nova Esquerda, a um estilo de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza. Negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã (1955-1975), ou a maioria das guerras. Abraçavam aspectos de religiões orientais, analisadas pelo sociólogo Max Weber, como comparativamente com o legado espiritual do budismo e o hinduísmo e do Xamanismo indígena norte-americano. Mas estavam sobre em desacordo com valores tradicionais da classe média americana, analisada de forma inovadora pela imaginação sociológica de Charles Wright Mills (1916-1962) e das economias capitalistas. Enxergavam per se as relações de entendimento sociológico sobre o patriarcalismo, o militarismo, o poder governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de uma instituição única sem legitimidade.

            Charles Wright Mills foi um sociólogo norte-americano obtendo o mestrado em Arte, Filosofia e Sociologia pela Universidade do Texas, e Doutorado em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Wisconsin. Foi professor de Sociologia das Universidades de Maryland e Columbia. Tornou-se reconhecido principalmente por seu livro: A Imaginação Sociológica, publicado originalmente nos Estados Unidos da América em 1959. Nele o autor faz um apelo para que sociólogos não deixem a imaginação e a criatividade de lado, ao exercerem sua profissão, em favor de uma pretensa objetividade e neutralidade do trabalho científico. As grandes obras e os intelectuais na história social em geral não abriram mão de sua reflexividade e criatividade, além de uma postura crítica diante da realidade e da teoria a respeito do individualismo partindo da premissa do utilitarismo em contraposição ao egoísmo utilitário de Herbert Spencer e dos economistas. Uma das críticas comum à sociologia era ser mais acessível à compreensão do grande público no âmbito de massificação da sociedade de classes. Depois de formado, Wright Mills foi nomeado professor de Sociologia na Universidade de Maryland. Quatro anos depois trabalhou como professor pesquisador na Columbia University`s Bureau of Appled Social Research.

             Em seguida assumiu o cargo de professor no Departamento de Sociologia, onde permaneceu lecionando até a morte. O escopo objetivamente de suas pesquisas refere-se progressivamente à desigualdade social, ao poder das elites, o declínio da classe média, e na relação melindrosa entre os indivíduos e a sociedade, como também na importância de uma perspectiva histórica, como parte fundamental do pensamento sociológico. Ipso facto, a mais influente obra de Wright Mills foi A Imaginação Sociológica (1959), onde apresenta os três componentes que formam o arcabouço da imaginação sociológica: a história, a biografia e a estrutura social, que permitem um olhar para além de seu ambiente local, no sentido de fornecer informações e desenvolver razões, a fim de se perceber com lucidez o que está acontecendo no mundo ao seu redor e como está refletindo dentro de si mesmo. A obra que procura conscientizar, não só os sociólogos, mas a todos os envolvidos, das ligações existentes entre o ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que está a sua volta e que colabora para moldar a reflexão das pessoas.

Outras publicações importantes do bravo pensador são: A Elite do Poder (1956), a profecia, As Causas da Terceira Guerra Mundial (1958), A Revolução em Cuba (1960) e Os Marxistas (1962). Mills foi leitor atento da obra de Max Weber, tendo editado nos EUA uma compilação de textos deste último, juntamente com Hans H. Gerth, obra que ficou intitulada, From Max Weber: Essay in Sociology, traduzida para o português como Ensaios de Sociologia, em 1974, pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Wright Mills e Hans Gerth (1908-1978) apresentam uma importante reflexão sobre a obra de Max Weber articulada a um escorço biográfico deste autor e metodologicamente um autêntico Apêndice: Do Artesanato Intelectual, onde apresenta uma etnologia propriamente dita da pesquisa científica. Para Mills, a racionalidade do mundo ocidental não produziu a indispensável libertação do ser humano, já que as principais ideologias desenvolvidas - capitalismo e socialismo - não se mostraram aptas a prever e controlar intensos processos de mudanças sociais. Esta crítica faz parte da tese de que o intelectual deveria manter postura crítica e reflexiva na realidade, e tomar parte nos debates públicos de seu tempo.

Apesar do seu desaparecimento precoce Wright Mills (1916-1962) teve tempo para desafiar ideias e preconceitos sociais, e para se afirmar como uma figura inovadora e inevitável da sociologia. Abalou grandes nomes das ciências sociais com críticas analíticas severas a tradições teóricas importantes. Num dos seus livros de maior destaque, A Imaginação Sociológica (1959), criticou a tendência para manipular a evidência histórica e assim produzir um “colete de forças trans-histórico”, onde identificou outro entrave ao progresso das ciências humanas naquilo a que chamou “grã teoria”, ou seja, obcecado na crença de que o objetivo das ciências sociais é o de construir “uma teoria sistemática da natureza do homem e da sociedade”. A “grã-teoria” está tão preocupada em fazer revelações abstratas da sociedade que evita lidar com os grandes problemas sociais. O termo foi usado com uma conotação ironicamente para referir-se a várias teorias sobre as quais residem formas generalizadas da sociedade.

A sua postura crítica e independente dos grandes centros de poder ficou estabelecida claramente também noutra das suas mais importantes obras, A Elite do Poder (1956), onde desenvolve uma explicação da estruturante das relações de poder da sociedade norte-americana do pós-guerra e ipso facto afirmando que as três esferas de análises institucionais mais importantes nesta sociedade são as esferas política, industrial e militar, cada vez mais interdependentes. Conclui Mills que os Estados Unidos da América são dominados por uma única elite poderosa composta pelos dirigentes destas três esferas de dimensionamento institucionais. Wright Mills é um dos mais importantes teóricos da escola conflitual e um grande crítico tanto do ponto de vista consensual como do ponto de vista funcionalista, ambos dominantes na sociedade norte-americana do seu tempo. Compreende abstratamente na obra habilitando as relações de poder que as decisões políticas determinam as atividades econômicas e os programas militares. Tem-se uma economia política articulada de diversas maneiras às instituições e decisões militares. Os líderes desses domínios formam a elite do poder da América. Mills acrescenta que essa estrutura social sofreu, historicamente, pequenas alterações na preponderância dos  setores-chave e discrimina essa dinâmica em cinco fases.

Na primeira, explica que coincidiam a vida social, as instituições econômicas, a organização militar e a ordem política formando uma “elite multifacetada”, sem nenhuma polarização entre os meios de poder. A segunda, durante o século XIX, caracteriza como de ascendência social da ordem econômica, a qual na terceira fase consolida a sua supremacia tendo como dependentes as ordens militar e política, com a subordinação do Estado aos grandes interesses monetários. O quarto período se dá no contexto social da chamada Grande Depressão de 1929, onde o estabelecimento do Estado do bem-estar social propiciou o fortalecimento do poder político num cenário economicamente em crise. A quinta e atual fase é caracterizada como de ascensão militar, em função das questões relacionadas à defesa e às relações de âmbito internacionais. Apesar dessas proposições, é salientada a ideia da inter-relação entre os poderes e, por fim, a crítica à visão marxista hegemônica de classe dominante, pois, segundo Mills, esse termo carrega apenas o significado econômico (classe) e político (esfera dominante), esvaziando o terceiro e muito importante vértice do triângulo referido da elite: o poder militar.

 Aos dezenove anos Lulu Santos tocava no grupo Veludo Elétrico, com Fernando Gama e Paul de Castro. O som do grupo nessa época era basicamente calcado no hard-rock, talvez com toques de Deep Purple, uma banda britânica de rock formada em Hertford, em 1968. Juntamente com as bandas Black Sabbath e Led Zeppelin, o Deep Purple é considerado um dos pioneiros do heavy metal e do hard rock moderno, embora alguns de seus integrantes tenham tentado não se categorizar como apenas um destes gêneros e muito improvisado. Um ano depois, Lulu, Ritchie e Lobão formam a banda Vímana, brasileira de rock progressivo da década de 1970 que passou por quatro fases distintas. Contou com Ritchie (vocal e flauta), Lulu Santos (vocal e guitarra), Luiz Paulo Simas (teclados), Lobão (bateria) e Fernando Gama (baixo). No final dos anos 1970, o Vímana chegou a ensaiar com o tecladista suíço Patrick Moraz (ex-Yes). A expulsão de Lulu Santos da banda por Moraz acabou por desfazer o grupo. O nome do grupo foi ideia de Lulu Santos e significa “Carruagem dos Deuses” em sânscrito. Uma apresentação sua com a banda no Hollywood Rock no verão de 1975, no Rio de Janeiro, pode ser vista no documentário Ritmo Alucinante. O Hollywood Rock foi um festival musical idealizado pela empresa de tabacos Souza Cruz. Foram oito edições entre 1975 e 1996. Entre 1988 e 1992 foi a cada dois anos e a partir de 1992 foi anual até o fim do evento em 1996.

Ritmo Alucinante é um documentário musical de 1975, dirigido por Marcelo França. É um registro cinematográfico do Hollywood Rock, festival de rock realizado em janeiro de 1975 no Estádio General Severiano, no Rio de Janeiro, no qual teriam comparecido 40 mil pessoas. Intercalando as apresentações de cantores e grupos do chamado “rock brasileiro”, flashes do público e uma rápida entrevista da jornalista Scarlet Moon com Erasmo Carlos e Cely Campello. Na parte final, um irreverente e explosivo show de Raul Seixas (1945-1989), que encerra a apresentação lendo o manifesto da diversidade “Sociedade Alternativa”, projeto que lhe trouxera problemas com perseguições do regime militar que autogovernava o país, os quais também alcançaram o parceiro Paulo Coelho. O nome do festival deriva da marca de cigarros Hollywood, da empresa patrocinadora Souza Cruz, o que levou Raul Seixas a comentar que “estava nas bocas”. Foi o primeiro Hollywood Rock, apesar de não oficialmente, pois outros eventos com esse nome só voltariam a ser realizados no país vários anos depois. Após trabalhar como músico freelancer, Lulu Santos seguiu carreira solo com sucesso, tendo sido incluído em duas listas da fabulosa revista Rolling Stone Brasil, entre os 100 maiores artistas em 2009, e dentre os 30 maiores ícones especificamente no manejo instrumetal da guitarra e do violão que desde 2012 vem mantendo disciplinarmente a propriedade da vez.

Bibliografia Geral Consultada.

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