Mostrando postagens com marcador Aculturação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aculturação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

O Mal Existe – Cinema, Infortúnio & Dramas Independentes.

                                                 Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. Sigmund Freud                  

                    

         Aculturação refere-se à transformação social, cultural e psicológica que ocorre por meio do contato social direto entre duas culturas, em que uma ou ambas se adaptam às influências culturais dominantes sem comprometer suas características distintivas essenciais. Ocorre quando um indivíduo adquire, adota ou se ajusta a um novo ambiente cultural como resultado de ser inserido em outra cultura ou quando entra em contato com outra cultura. Esse processo de equilíbrio pode resultar em uma sociedade mista com características predominantes e combinadas ou com mudanças culturais fragmentadas, dependendo do contexto sociopolítico. Indivíduos de outras culturas buscam se integrar a cultura mais prevalente, incorporando seletivamente aspectos da cultura dominante, como seus traços culturais e normas sociais, enquanto ainda mantêm seus valores e tradições culturais originais. Os impactos sociais da aculturação são vivenciados de forma diferente em vários níveis, tanto pelos adotados da cultura dominante quanto pelos anfitriões da cultura de origem. Os resultados podem incluir marginalização, coexistência respeitosa, tensões destrutivas, integração e evolução cultural. Em nível de grupo, a aculturação resulta em mudanças na cultura, nas práticas religiosas, nos cuidados de saúde e per se em outras instituições sociais. Há também implicações significativas na alimentação, no vestuário e na língua daqueles que são introduzidos à cultura dominante.

Em nível de análise individual, o processo de aculturação refere-se ao processo de socialização pelo qual indivíduos nascidos no exterior incorporam os valores, costumes, normas, atitudes culturais e comportamentos da cultura anfitriã predominante. Esse processo tem sido associado a mudanças no comportamento diário, bem como a inúmeras alterações no bem-estar psicológico e físico. Assim como o termo enculturação é usado para descrever o processo de aprendizagem da primeira cultura, a aculturação pode ser entendida como a aprendizagem da segunda cultura. Em circunstâncias naturais comuns no cotidiano atual, a aculturação ocorre naturalmente ao longo de várias gerações. A força física pode acelerar o processo em alguns casos, mas não é um componente principal. Mais comumente, a aculturação se dá por meio de pressão constante e exposição consistente à cultura dominante. Estudiosos de diferentes disciplinas desenvolveram mais de sessenta teorias sobre aculturação, embora muitas careçam de rigor acadêmico em suas propostas. O escopo acadêmico ativo no conceito de aculturação começou em 1918. Como foi abordado pelos campos da psicologia, antropologia e sociologia em diferentes épocas, inúmeras teorias e definições surgiram para descrever elementos do processo aculturativo. Apesar das definições (teorias sociais) e evidências (empiria) de que a aculturação é um processo de mudança bidirecional, a teoria e a pesquisa têm se concentrado principalmente nas adaptações e mudanças das minorias, como imigrantes, refugiados e povos indígenas, em resposta ao seu contato com a maioria dominante. 

A pesquisa contemporânea, entretanto, tem se concentrado principalmente nas várias estratégias de aculturação dentro das sociedades, nos fatores que influenciam o processo de aculturação e nos indivíduos envolvidos, e no desenvolvimento de intervenções destinadas a facilitar transições mais suaves. A história da civilização ocidental, e em particular as histórias da Europa e dos Estados Unidos, são amplamente definidas por padrões de aculturação. Uma das formas mais notáveis ​​de aculturação é o imperialismo, o progenitor mais comum da mudança cultural direta. Embora essas mudanças culturais possam parecer simples, os resultados combinados são robustos e complexos, impactando tanto grupos e indivíduos da cultura de origem quanto da cultura anfitriã. A aculturação com dominância tem sido pesquisada por sociólogos, antropólogos e historiadores praticamente apenas, e principalmente, em um contexto colonial, devido à dispersão dos povos da Europa Ocidental por todo o mundo nos últimos cinco séculos. A primeira teoria psicológica da aculturação foi proposta no estudo de W.I. Thomas e Florian Znaniecki, de 1918, intitulado: “O Camponês Polonês na Europa e na América”. A partir do estudo de imigrantes poloneses na cidade de Chicago, Estados Unidos, eles ilustraram três formas de aculturação correspondentes a três tipos de personalidade: boêmio, adotando a cultura anfitriã e abandonando sua cultura de origem, filisteu, não conseguindo adotar a cultura anfitriã, mas preservando sua cultura de origem e criativo, capaz de se adaptar à cultura anfitriã, preservando a cultura de origem.                                        


Escólio: Na filosofia da religião, o problema do mal é a questão de como conciliar a existência do mal com o de uma divindade que é, tanto em termos absolutos ou relativos, onipotente, onisciente e benevolente. Um "argumento do mal" tenta mostrar que a coexistência do mal e tal divindade é improvável ou impossível se colocado em termos absolutos. As tentativas de demonstrar o contrário tradicionalmente têm sido discutidas sob o título de teodiceia. Uma ampla gama de respostas foi dada para o problema do mal na teologia. Há também muitas discussões de problemas mal e associados em outros campos filosóficos, tais como ética secular, e disciplinas científicas, tais como ética evolucionista. Mas, como normalmente entendido, o "problema do mal" é colocado em um contexto teológico. A existência do mal parece ser contraditória a com a existência de um Deus bondoso e poderoso, mas alguns religiosos argumentam que, para o homem ser feliz, ele necessita executar ações, atos de caridade e de heroísmo, que não seriam possíveis se não existisse o mal. Entretanto, a maioria dos teístas responde que um deus perfeito pode ainda permitir um certo mal, insistindo que a concessão de um bem maior, como o livre arbítrio, não pode ser alcançada sem alguns males. Uma defesa contra o problema do mal é estabelecer que os atributos divinos são logicamente consistentes com a existência do mal, mas que isso não significa que o mal derive deles, ou que deles se possa retirar uma explicação quanto as razões pelas quais o mal existe ou ocorre. 

Uma teodiceia, por outro lado é uma tentativa de fornecer tais justificativas para a existência do mal. Richard Swinburne sustenta que não faz sentido assumir que existe esse bem maior, a não ser que se saiba o que ele é, ou seja, até que tenhamos uma boa teodiceia. Muitos filósofos contemporâneos discordam. O ceticismo teísta, que se baseia na posição de que seres humanos nunca podem esperar entender o divino, é talvez a mais popular resposta ao problema do mal entre os filósofos da religião contemporâneos. Em 1936, Robert Redfield, Ralph Linton e Melville J. Herskovits forneceram a primeira definição amplamente utilizada de aculturação como esses fenômenos que resultam quando grupos de indivíduos com culturas diferentes entram em contato direto contínuo, com mudanças subsequentes nos padrões culturais originais de um ou ambos os grupos... sob esta definição, a aculturação deve ser distinguida da... assimilação, que às vezes é uma fase da aculturação. Muito antes de surgirem os esforços em prol da integração racial e cultural nos Estados Unidos, o processo comum era a assimilação. Em 1964, o livro de Milton Gordon, Assimilação na Vida Americana, delineou sete estágios do processo assimilativo, preparando o terreno para a literatura sobre o tema. Posteriormente, Young Yun Kim reiterou o trabalho de Gordon, mas argumentou que a adaptação intercultural é um processo de múltiplos estágios. A teoria de Kim focava na natureza unitária dos processos psicológicos e sociais e na interdependência recíproca funcional do ambiente pessoal. Embora tenha sido a primeira a fundir fatores micropsicológicos e macrossociais em uma teoria integrada, ela estava claramente centrada na assimilação, e não na integração racial ou étnica

Na abordagem de Kim, a assimilação é unilinear e o imigrante deve se conformar à cultura do grupo para ser “comunicativamente competente”. De acordo com Gudykunst e Kim (2003), o “processo de adaptação intercultural envolve uma interação contínua de desculturação e aculturação que provoca mudanças em estrangeiros na direção da assimilação, o mais alto grau de adaptação teoricamente concebível”. Esta visão tem sido fortemente criticada, uma vez que a definição de adaptação na ciência biológica se refere à mutação aleatória de novas formas de vida, não à convergência de uma monocultura (Kramer, 2003). Em oposição ao desenvolvimento adaptativo de Gudykunst e Kim, Eric M. Kramer desenvolveu sua teoria da fusão cultural, mantendo distinções conceituais claras entre assimilação, adaptação e integração. De acordo com Kramer, a assimilação envolve a conformidade a uma forma preexistente. A teoria da Fusão Cultural de Kramer, baseada na teoria dos sistemas e na hermenêutica, argumenta que é impossível para uma pessoa desaprender a si mesma e que, por definição, o “crescimento” não é um processo de soma zero que exige a desilusão de uma forma para que outra surja, mas sim um processo de aprendizagem de novas línguas e repertórios culturais: formas de pensar, cozinhar, brincar, trabalhar, cultuar, etc. Ou seja, na interpretação psicodinâmica de Kramer, não é necessário desaprender uma língua para aprender outra, nem desaprender quem se é para aprender novos padrões de dança, culinária, fala, etc. Kramer discorda de Gudykunst e Kim (2003), respectivamente, ao afirmarem que essa mistura de língua e cultura gera complexidade cognitiva, a capacidade de alternar entre repertórios culturais. Kramer afirma que aprender é expandir, não desaprender.             

Evil Does Not Exist (“Hepburn: Aku wa Sonzai Shinai”) tem como representação social um filme dramático japonês de 2023 escrito e dirigido por Ryusuke Hamaguchi. Com um elenco de atores não profissionais, o filme acompanha a relação social de “um pai solteiro que vive em uma vila afetada por um projeto imobiliário e as consequências que seu desenvolvimento trará para o meio ambiente local”. Nascido em 16 de dezembro de 1978, é cineasta e roteirista ex-aluno da Universidade de Tóquio e da Universidade Nacional de Belas Artes e Música de Tóquio, o qual ganhou reconhecimento internacional com o filme Happy Hour (2015), Asako I & II (2018) e Wheel of Fortune and Fantasy (2021), que estrearam nas competições de Locarno, Cannes e Berlim, respectivamente. Por Drive My Car (2021), Hamaguchi foi indicado ao 94º Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado, o filme representou a primeira produção japonesa a ser indicada a Melhor Filme e ganhou o prêmio de Melhor Filme Internacional. Ele seguiu com Evil Does Not Exist (2023), que também recebeu ampla aclamação da crítica, e do mercado cinematográfico ganhando o Grande Prêmio do Júri em Veneza. Após se formar na Universidade de Tóquio, Hamaguchi trabalhou na indústria cultural de filmes comerciais por alguns anos antes de ingressar no programa de pós-graduação em cinema na Universidade de Artes de Tóquio, foi influenciado por Kiyoshi Kurosawa, diretor, roteirista, crítico e professor de cinema na Universidade de Artes de Tóquio. Por mais que ele tenha trabalhado em vários gêneros, é mais reconhecido pelas suas contribuições ao gênero terror japonês.

O filme começa com uma extensa paisagem de floresta invernal. O viúvo Takumi vive com sua filha de oito anos, Hana, na pacata vila montanhosa japonesa de Mizubiki. Ele corta lenha, fuma um cigarro, recolhe jarras de água do riacho da floresta e, ocasionalmente, ouve tiros, presumivelmente de caçadores de veados. Em uma reunião comunitária, os moradores são confrontados com uma proposta para a construção de um “acampamento de luxo” (glamping). Takahashi e Mayuzumi, dois representantes da construtora, apresentam o projeto. No entanto, os moradores expressam unanimemente sérias preocupações sobre as consequências que o empreendimento terá em seus frágeis sistemas de água e criticam as táticas de relações públicas dos representantes. Takumi e outros informam que a capacidade de tratamento do esgoto da fossa séptica não é suficiente para o empreendimento planejado e que o esgoto “irá contaminar o lençol freático proveniente de poços”. A empresa é acusada de se preocupar apenas com o lucro como um fim em si e de querer agir de “forma imprudente e rápida para se aproveitar dos subsídios temporários concedidos durante a pandemia.          

Takahashi e Mayuzumi mudam de atitude enquanto ouvem, mas depois de relatarem o resultado da reunião ao chefe, são rejeitados e instruídos a não mexerem no sistema séptico, mas sim a seduzir Takumi com presentes e contratá-lo como zelador do acampamento. A dupla volta para a vila enquanto conversa sobre suas experiências com encontros online e a desilusão com seus empregos. Eles cortam lenha e almoçam com Takumi. Takahashi decide ficar na vila para morar lá e aprender o que puder com Takumi. Durante a viagem, Takumi menciona que, embora cervos selvagens normalmente não sejam agressivos, um cervo atingido no abdômen ou seus pais podem atacar se não conseguirem fugir. Outro tiro é ouvido à distância. A filha de Takumi, Hana, desaparece e a comunidade da vila a procura noite adentro. Takumi e Takahashi se aventuram na floresta em busca dela e eventualmente chegam a um campo aberto. Hana é mostrada no campo se aproximando de uma corça e seu filhote, este último atingido por um tiro no abdômen. Antes que Takahashi possa correr até ela, Takumi o derruba no chão e o estrangula até que ele desmaie. Hana é vista deitada imóvel no campo com o nariz sangrando antes de Takumi pegá-la no colo e correr para a floresta. Takahashi acorda, tenta se levantar, mas cai novamente. O som de passos e respiração ofegante é ouvido fracamente sobre a imagem da floresta enquanto ela desaparece na escuridão.

Hamaguchi começou a trabalhar no filme em janeiro de 2023, com a intenção de que fosse um curta-metragem de 30 minutos acompanhado por uma trilha sonora ao vivo composta por Eiko Ishibashi, a produção acabou ficando mais longa à medida que as filmagens avançavam e Hamaguchi decidiu transformá-la em um longa-metragem com diálogos. Hamaguchi foi influenciado pela obra de Jean-Luc Godard, que havia falecido recentemente. Ele e Ishibashi se aproximaram por meio da “linguagem comum” que encontraram em Godard, cuja obra admiravam por suas qualidades musicais. Hamaguchi disse: “De certa forma, era uma dimensão que realmente nos propusemos a buscar. Eu estava pensando em como ele usava som e imagens juntos. Há também algumas referências visuais a alguns de seus trabalhos. Dito isso, felizmente ou infelizmente, acho que, no fim das contas, O Mal Não Existe é um filme muito diferente dos que Godard fez”. A tipografia nos créditos iniciais lembra a obra de Godard, uma decisão que Hamaguchi tomou no processo de edição. Metodologicamente a cidade fictícia do filme é uma composição de várias aldeias que Hamaguchi visitou durante um extenso período de pesquisa para reunir ideias para o roteiro. Ele atribui essa pesquisa à sua capacidade de escrever o roteiro rapidamente em cerca de uma semana. A produção durou de novembro de 2022 até “por volta do início de 2023”. O filme Evil Does Not Exist foi filmado nas regiões fronteiriças entre as prefeituras de Yamanashi e Nagano. O filme foi dirigido por Yoshio Kitagawa e teve a correção de cor realizada por Ryota Kobayashi. Kitagawa utilizou uma Blackmagic Pocket Cinema Camera 6K G2 com lentes Nikon mais antigas que introduziram alguma granulação que Kobayashi considerou agradável. As cenas foram iluminadas principalmente por luz natural, o que ajudou a simular a aparência desejada do filme Kodak Portra 400. 

A trilha sonora foi lançada em 28 de junho de 2024 pela Drag City. Foi mixada e masterizada pelo parceiro de Ishibashi, Jim O`Rourke, com formação musical que também toca guitarra na trilha sonora. Yamanashi é uma prefeitura do Japão localizada região na Chūbu na principal ilha de Honshu. A sua capital é Kōfu. A prefeitura de Yamanashi localiza-se próximo ao centro da ilha de Honshu, a principal do Japão, e faz divisa com Tóquio, Kanagawa, Saitama, Shizuoka e Nagano e tem uma extensão territorial de 4.463 km². Sua capital Kōfu localiza-se a cerca de 1h30 de Tóquio, utilizando a linha Chuo da JR (Japan Railway Company), partindo da Estação de “Kōfu” até à Estação de “Shinjū” em Tóquio. De carro, a viagem demora cerca de 2 horas pela Chuo Expressway. De ônibus, 2 horas e 10 minutos, utilizando a Chuo Highway Bus partindo da saída Oeste da Estação de Shinjuku. É cercada por montanhas com 2000 a 3000 metros de altitude. Aproximadamente 78% do seu território é coberto por florestas e áreas verdes, incluindo quatro parques nacionais, dentre eles, o Parque Nacional de Fuji Hakone Izu. Yamanashi tem uma base industrial sustentada em torno da cidade de Kōfu, a região tem muitas fazendas, caracterizando-se como uma prefeitura rural. Yamanashi tem uma razoável quantidade de indústrias nos arredores da cidade de Kōfu, destacando-se o manuseio de joias e a indústria robótica. Nas áreas vizinhas há várias propriedades rurais, destacando-se as plantações de uva. É um dos maiores produtores de frutas do país, sendo o principal produtor interno de uvas, cerejas, pêssegos, ameixas e vinho. É responsável também por cerca de 40% da produção nacional de água mineral engarrafada, sendo a maior parte proveniente das regiões próximas dos Alpes do Sul, Monte Fuji e Mitsutōge.

Em 1877, Masanari Takano e Tatsunori Tsuchiya que aprenderam o ofício e a arte da vinicultura na França, deram início à produção de vinhos na região de Katsunuma na cidade de Koshu. A Katsunuma, acomoda aproximadamente 80 vinícolas cuja produção corresponde a cerca de 30% da produção nacional. No Centro “Budo no oka”, em Katsunuma, há uma exposição permanente da história e documentos que registram a história da produção de vinhos na Prefeitura de Yamanashi. Os vinhos produzidos no Japão têm um sabor peculiar, que os diferencia de outros tipos de vinho. Estes vinhos combinam com pratos japoneses, o que não acontece com a maioria dos vinhos de outros países. Em 1834, um sacerdote xintoísta aprendeu as técnicas de fabricação de bolas de cristais em Kyoto, e trouxe a Yamanashi. Hoje, Kofu, a capital de Yamanashi, é reconhecida internacionalmente por suas técnicas de lapidação e polimento de pedras preciosas, assim como a manufatura de joias. Os artefatos produzidos com pedras semipreciosas e preciosas como cristais, ágata, jade, opala, dentre outros estão sendo amplamente exportados. O Museu de Pedras Preciosas (Houseki Hakubutsukan) que se localiza próximo à Estação JR de Kofu, é o orgulho da cidade. São artefatos feito em couro de veado, estampados com laca (resina de sumagre) que são produzidos exclusivamente em Yamanashi. No início da Era Edo, muitos acessórios feitos em couro eram importados da Índia. No final da Era Edo, porta-níqueis e porta-cigarros já eram produzidos com a técnica “inden”. Atualmente bolsas, carteiras, porta cartão-de-visitas são produzidas em Yamanashi de maneira tradicional, utilizando as técnicas centenárias tanto na produção como na laqueação dos produtos.

Um modo de produção pré-capitalista só pode ser definido por via das suas superestruturas políticas, jurídicas e ideológicas, uma vez que são estas que condicionam o tipo social de coerção extraeconômica que lhes é específico. As formas jurídicas exatas de dependência, de propriedade e de soberania que caracterizam uma formação social pré-capitalista, longe de serem apenas epifenômenos acessórios ou contingentes, constituem pelo contrário os índices principais do modo de produção determinado que nelas domina. Uma taxonomia escrupulosa e exata é um pressuposto para a elaboração de uma exaustiva tipologia dos modos de produção pré-capitalista. É evidente que a complexa imbricação de exploração econômica com instituições e ideologias extraeconômicas cria modos de produção possíveis antes do capitalismo do que pode deduzir-se da generalidade relativamente simples e massiva do próprio modo de produção capitalista, que acabou por ser, com a época do imperialismo industrial, o seu terminus ad quem comum e involuntário. Neste sentido, as condições e possibilidades de uma pluralidade de modos de produção pré-capitalistas posteriores ao tribalismo e ao escravagismo é inerente ao seu mecanismo de extração de excedentes. Não é por acaso, afirma Anderson (1984: 474), a uma profunda análise das formas de propriedade agrária em modos de produção na Europa, na Ásia e na América refere-se a mudança social no caráter e na posição de propriedade e as suas relações interligadas com os sistemas políticos, do tribalismo primitivo ao capitalismo. 

Como categoria analítica social e histórica, o feudalismo foi cunhado pelas Luzes. Mas não restam dúvidas que Montesquieu, dotado de um sentido histórico muito mais profundo, andava mais perto da verdade. A investigação moderna descobriu apenas uma grande região do mundo onde vingou inegavelmente um modo de produção comparável ao da Europa. No outro extremo da massa continental eurasiana, para além dos impérios orientais familiares ao Iluminismo, as ilhas do Japão haviam de revelar um panorama social vivamente evocador do passado medieval para os viajantes e observadores europeus do final do século XIX, depois que a chegada do comodoro Perry à baía de Yokoama, em 853, por fim ao seu longo isolamento do mundo exterior. Pouco mais de uma década passada, é o próprio Marx que comenta em O Capital, publicado ante da restauração Meiji: - “O Japão, com sua organização puramente feudal de propriedade fundiária, e a sua petite culture desenvolvida, dá-nos um retrato mais fiel da Idade Média europeia do que todos os nossos livros de história”. A opinião sociológica dos teóricos concorda quase que unanimemente em considerar que o Japão foi lugar histórico de um autêntico feudalismo. O interesse feudal do Extremo Oriente reside na análise comparativa desde a sua distinta combinação de similaridades estruturais e divergências relativamente à evolução em conjunto da sociedade europeia.

O feudalismo japonês, que surgiu como um modo de produção desenvolvido a partir do século XIX-XV e após um longo período de incubação, caracterizava-se essencialmente pela mesma conexão fundamental do feudalismo europeu: a fusão de vassalagem, benfeitoria e imunidade num sistema de feudo que constituía a estrutura político-jurídica de base que permitia a extração ao produtor direto de um sobre-trabalho. As relações sociais entre serviço militar, propriedade fundiária condicional e jurisdicional senhorial reproduziram-se fielmente no Japão. Igualmente perante a hierarquia escalonada entre senhor, vassalo e sub-vassalo, constituindo uma cadeia de suserania e dependência. A classe dirigente hereditária, era formada por uma aristocracia de cavaleiros; o campesinato encontrava-se juridicamente vinculado ao solo, numa réplica próxima da servidão da gleba. Naturalmente, o feudalismo japonês possuía também características próprias locais, que contrastavam com o feudalismo europeu. As condições técnicas da cultura do arroz ditavam uma estrutura diferente das aldeias, de que era ausente o sistema se assolamento trienal. Por sua vez, o domínio senhorial japonês raramente continha uma reserva ou residência. O pacto feudal era menos contratual e específico do que na Europa: os deveres do vassalo eram mais imperativos.

Dentro do peculiar equilíbrio entre honra e subordinação, reciprocidade e desigualdade, que marcava a ligação feudal, a variante japonesa pendia acentuadamente para o segundo termo. Embora a organização clânica estivesse ultrapassada, como em todas as verdadeiras formações sociais feudais, o expressivo “código” da relação senhor-vassalo era ditado pela linguagem de parentesco, mais do que por elementos da lei: a autoridade do senhor sobre o seu subalterno era mais patriarcal e indiscutível do que na Europa. Era-lhe estranho o conceito de felonia senhorial; não havia tribunais de vassalos; e o sistema jurídico manteve-se de uma maneira geral, muito limitado. A mais importante das consequências gerais do maior autoritarismo e do conteúdo assimétrico das relações hierárquicas entre os senhores no Japão foi a ausência de um sistema de cortes, quer a nível regional, que a nível nacional. É esta, sem dúvida, a mais importante linha divisória ente os feudalismos japonês e europeus, considerados enquanto estruturas fechadas. Na realidade, essa parcelarização da soberania atingiu no Japão Tokugawa uma forma mais organizada, estável e sistemática do que jamais conheceu qualquer país da Europa; e a propriedade privada escalonada da terra foi universal no Japão do que na Europa medieval, já que o Japão rural desconhecia os alódios. O paralelismo de base entre as duas grandes experiências, nos extremos opostos do continente eurasiano, havia de receber a confirmação mais convincente do destino de cada uma delas. Os caracteres históricos e sociais que compõem o nome Japão significam “Origem do Sol”, razão pela qual o Japão é muitas vezes identificado como a “Terra do Sol Nascente”. O nome japonês Nippon é usado de forma oficial tradicional, inclusive no dinheiro japonês, selos postais e para muitos eventos esportivos internacionais. Nihon é um termo percebido mais casual e mais frequentemente utilizados no discurso contemporâneo.

Tanto Nippon quanto Nihon, significam “origem do Sol” e muitas vezes são traduzidos como a “Terra do Sol Nascente”. Esta nomenclatura vem das missões do Império com a dinastia chinesa Sui e refere-se à posição a Leste do Japão em relação à China. Foi durante o século XVI que comerciantes e missionários portugueses chegaram ao Japão pela primeira vez, dando início a um intenso período de trocas linguísticas, culturais e comerciais. No Japão, os portugueses praticaram pari passu o comércio e a evangelização. Os missionários, principalmente os sacerdotes da Companhia de Jesus, levaram a cabo um intenso trabalho disciplinar de missão em cerca de 100 anos de presença portuguesa no Japão. Em 1582 a comunidade cristã no país chegou a ascender a 150 mil cristãos no Japão e 200 igrejas. Toyotomi Hideyoshi deu continuidade ao governo de Oda Nobunaga e unificou o país em 1590. Depois da morte de Hideyoshi, o regente Tokugawa Ieyasu aproveitou-se de sua posição para ganhar apoio político e militar. Quando a oposição deu início a uma guerra, ele a venceu em 1603 na Batalha de Sekigahara. Tokugawa fundou um novo xogunato, um sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, com capital em Edo e expulsou os portugueses e restantes estrangeiros, dando início à perseguição dos católicos no país, tidos como subversivos, com uma política reconhecida como sakoku, a política externa isolacionista japonesa. A perseguição aos cristãos japoneses fez parte desta política, levando esta comunidade à conversão forçada ou mesmo à morte, como é o caso dos 26 Mártires do Japão.

Neste período o Japão era uma sociedade feudal bem desenvolvida com tecnologia pré-industrial. Era mais povoado do que qualquer país ocidental e tinha no século XVI  26 milhões de habitantes. Um fato social ainda mais revelador, é que o Japão do fim do feudalismo reconheceu um nível de urbanização sem equivalente, exceto na Europa contemporânea: no princípio do século XVIII, a sua capital, Edo, era maior do que Londres ou Paris, e talvez um em cada dez japoneses vivia em cidades de mais de 10 mil habitantes. E há que notar também que o esforço educacional do país suportava bem a comparação com as mais desenvolvidas nações da Europa ocidental: no limiar da “abertura” japonesa ao Ocidente, cerca de 40% a 50% da população masculina adulta estava alfabetizada. O êxito e a rapidez impressionantes com que o capitalismo industrial foi implantado no Japão pela restauração Meiji tiveram os seus pressupostos históricos determinados no avanço ímpar da sociedade que foi herdeira do feudalismo de Tokugawa. Quando a esquadra da Perry aportou a Yokohama, em, 1853, o fosso histórico entre o Japão e as potências euro-americanas que o ameaçavam era, apesar de tudo, enorme. A agricultura japonesa encontrava-se notavelmente comercializada ao nível da distribuição, mas muito menos ao nível da própria produção. Os tributos feudais, coletados em espécie, contavam ainda para o total do sobre-produto, embora acabassem por ser convertidos em moeda: a produção agrícola direta para o mercado era subsidiária dentro da economia. sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, baseado na crescente autoridade do xógum, supremo líder militar, que terminaria por submeter até a autoridade do imperador. A retomada do poder imperial determinou o encerramento do feudalismo baseado no xogunato, a abertura do país ao exterior e o início de sua ocidentalização.

Em outras palavras, nada de comparável ao Renascimento tocar em terra japonesa. É lógico que a estrutura do Estado tivesse uma forma rígida e fragmentária. O Japão teve uma longa e rica experiência de feudalismo, mas nunca produziu um absolutismo no sentido conceitual. O shogunato Tokugawa, que governou as ilhas durante os últimos duzentos e cinquenta anos da sua existência, até a intrusão do ocidente industrializado, assegurou uma paz prolongada e manteve uma ordem disciplinar rigorosa: o seu regime era, porém, a negação do Estado absolutista. O shogunato não mantinha monopólios coercivos no Japão: os senhores regionais mantinham os seus próprios exércitos, cujo total era superior aos das tropas da casa Tokugawa. Não impunha uma legislação uniforme, os seus decretos cobriam apenas um quinto ou um quarto do território. Não possuía uma administração competente para o total da sua área de suserania: todos os feudos importantes tinham as suas próprias administrações separadas e autônomas. Não coletava impostos nacionais, estando três quartos do território fora do seu alcance fiscal. Não tinha diplomacia, pois o isolamento oficial e social impedia o estabelecimento de relações com o mundo exterior. Exército, fisco, administração, direito, diplomacia, comparados, faltavam no Japão todos esses complexos institucionais que são chave explicativa e processual do contexto do absolutismo europeu. A distância política neste aspecto histórico e social entre o Japão e o continente europeu as duas pátrias do feudalismo, manifestava e simbolizava a profunda divergência nas suas evoluções históricas. Torna-se necessária e instrutiva uma comparação teórica e histórica não da “natureza”, mas da “posição” do feudalismo nestas trajetórias sociais e políticas. 

O filme de formatura, de Ryusuke Hamaguchi, Passion, foi selecionado para a competição do Tokyo Filmex de 2008. Com Kō Sakai, ele fez um documentário em três partes sobre sobreviventes do terremoto e tsunami de Tōhoku de 2011, com Voices from the Waves sendo selecionado para a competição no Festival Internacional de Cinema Documentário de Yamagata de 2013, e Storytellers ganhando o Prêmio Sky Perfect IDEHA, também reconhecido como Prêmio IDEHA, é concedido no âmbito de festivais de cinema, notavelmente o Festival Internacional de Documentários de Yamagata (Yamagata International Documentary Film Festival), no Japão. O prêmio é patrocinado pela SKY Perfect JSAT Corporation, uma grande empresa japonesa de comunicações via satélite e televisão por assinatura, que está envolvida em várias iniciativas culturais e de negócios de mídia. Seu próximo filme, Happy Hour, foi desenvolvido inicialmente enquanto Hamaguchi era artista residente no KIITO Design and Creative Center Kobe em 2013. Surgiu de uma oficina de improvisação de atuação que ele ministrou para não profissionais, com muitos dos atores do filme tendo participado da oficina. As quatro atrizes principais dividiram o prêmio de melhor atriz e o filme recebeu uma menção especial por seu roteiro no Festival de Cinema de Locarno de 2015.

Hamaguchi também recebeu um prêmio especial do júri no Japan Movie Critic Awards de 2016, bem como um prêmio de melhor estreante na categoria de cinema do Geijutsu Sensho Awards da Agência de Assuntos Culturais naquele ano. Seu filme Asako I & II foi selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2018. Em 2021, Hamaguchi ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim com seu filme “Wheel of Fortune and Fantasy”. No mesmo ano, “Drive My Car” conquistou os prêmios de Melhor Filme do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York, da Sociedade de Críticos de Cinema de Boston e da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles, além do prêmio de “Melhor Filme em Língua Não Inglesa” no Globo de Ouro. Hamaguchi foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor por “Drive My Car”, tornando-se o terceiro diretor japonês a alcançar tal feito. Em 2023, seu filme Evil Does Not Exist recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo ano, ele lançou o filme Gift, que usa as mesmas filmagens de Evil Does Not Exist, embora com uma história social diferente e é acompanhado por uma trilha sonora ao vivo. O filme foi selecionado para competir pelo Leão de Ouro no 80º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde pari passu ganhou o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio FIPRESCI da Federação Internacional de Críticos de Cinema. Foi premiado ipso facto como Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres do BFI de 2023. O cinema de Londres refere-se principalmente ao BFI Southbank, o principal cinema de repertório do Reino Unido na margem Sul de Londres, e ao grande BFI London Film Festival (LFF), um evento anual em outubro que celebra o cinema mundial, organizados pelo British Film Institute (BFI).

Vale lembrar que o epicentro do terremoto e tsunami de Tōhoku de 2011, ocorreu a 130 km da costa Leste da península de Oshika, na região de Tohoku, com o hipocentro situado a uma profundidade de 24,4 km. O sismo atingiu o grau 7, a magnitude máxima da escala de intensidade sísmica da Agência Meteorológica do Japão, ao Norte da Prefeitura de Miyagi, grau 6 em outras prefeituras e 5 em Tóquio. O sismo provocou alertas de tsunâmi e evacuações na linha costeira japonesa do Pacífico e ao menos 20 países, incluindo a costa do Pacífico da América do Norte e América do Sul. Provocou também ondas de tsunâmi de mais de 10 m de altura, que atingiram o Japão e outros países. No Japão, as ondas percorreram mais de 10 km de terra. Para as autoridades, houve 19 759 mortes confirmadas e mais de 2 500 pessoas ainda desaparecidos. O sismo causou danos substanciais ao Japão, incluindo a destruição de rodovias e linhas ferroviárias, assim como incêndios em várias regiões, e o rompimento de uma barragem. Aproximadamente 4,4 milhões de habitantes no Nordeste do Japão ficaram sem energia elétrica, e 1,4 milhão sem água. Muitos geradores deixaram de funcionar e dois reatores nucleares foram danificados, o que levou à evacuação imediata das regiões atingidas enquanto um estado de emergência era estabelecido. A Central Nuclear de Fukushima I sofreu uma explosão 24 horas depois do primeiro sismo, e apesar do colapso da contenção de concreto da construção, a integridade do núcleo interno não teria sido comprometida. Terremotos ocorrem quase que diariamente no Japão, que se localiza na junção de várias placas tectônicas em constante movimentoː do Pacífico, norte-americana, eurasiática e das Filipinas. Estima-se que a magnitude do sismo de Sendai faça deste o maior sismo já registrado no Japão e um dos sete maiores do mundo desde que os registros modernos começaram a ser compilados. Hamaguchi se referiu a si mesmo como “puramente um cinéfilo” e “convencionalmente apaixonado por filmes de Hollywood” e influenciado pelas obras de John Cassavetes.           

John Nicholas Cassavetes (1929-1989) foi um cineasta e ator norte-americano. Ele começou como ator no cinema e na televisão antes de ajudar o pioneirismo do cinema independente americano moderno como roteirista e diretor, muitas vezes autofinanciando, produzindo e distribuindo seus próprios filmes. Ele recebeu indicações para três Oscars, dois BAFTA Awards, quatro Globos de Ouro e um Emmy Award. Após estudar na American Academy of Dramatic Arts, Cassavetes iniciou sua carreira na televisão atuando em diversos dramas de emissoras locais. De 1959 a 1960, interpretou o papel principal na série policial da NBC, Johnny Staccato. Atuou em filmes notáveis, como o filme noir de Martin Ritt, Edge of the City (1957), o filme de guerra de Robert Aldrich, The Dirty Dozen (1967), o filme clássico de terror de Roman Polanski, Rosemary`s Baby (1968), e o drama policial de Elaine May, Mikey and Nicky (1976). Por The Dirty Dozen, recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Como diretor, Cassavetes ficou reconhecido por uma série extraordinária de dramas independentes aclamados pela crítica, incluindo Sombras (1959), Faces (1968), Maridos (1970), Uma Mulher Sob Influência (1974), Noite de Estreia (1977) e Correntes de Amor (1984). Seus filmes empregavam uma abordagem centrada no ator, que priorizava as relações cruas entre os personagens e os “sentimentos sutis”, rejeitando a narrativa tradicional de Hollywood, o método de atuação e a estilização. Seus filmes ficaram associados a uma estética de improvisação e a um estilo de “cinema verdade”. Ele recebeu indicações ao Oscar de Melhor Roteiro Original (Faces) e Melhor Diretor (Uma Mulher Sob Influência). Foi dito que o cerne de seus filmes contém “angústia confusa [que] santifica”.

Bibliografia Geral Consultada.

ELIADE, Mircea, “L’Initiation et le Monde Moderne”. In: La Nostalgie des Origines. Paris: Éditions Gallimard, 1971; BENEDICT, Ruth, O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa. Rio de Janeiro: Editora Perspectiva, 1972; ANDERSON, Perry, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto: Edições Afrontamento, 1984; DUBY, Georges, A Idade Média na França: de Hugo Capeto a Joana D’Arc. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1992; AUGÉ, Marc, La Guerre des Rêves. Exercices d`ethno-fiction. Paris: Éditions du Seuil, 1997; WILLIAMS, Michael, Deforesting the Earth. Chicago: Editor University of Chicago Press, 2006; MELL, Julie Lee, Religion and Economy in Pre-Modern Europe: The Medieval Commercial Revolution and the Jews. Thesis PhD. North Carolina: University of North Carolina, 2007; KIKUCHI, Wataru, Relações Hierárquicas do Japão Contemporâneo: Um Estudo da Consciência de Hierarquia na Sociedade Japonesa. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Sociologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; ROCHA, Rafael Machado da, O Processo de Ocidentalização do Estado e do Direito Japonês na Era Meiji: Conflitos e Contradições. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Direito. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2016; RIBEIRO, Jaqueline de Sá, As Transformações Sociopolíticas e Culturais no Japão da Era Meiji (1868-1912) a Partir das Cartas do Japão, de Wenceslau de Moraes. Dissertação de Mestrado em História Política. Programa de Pós-Graduação em História. Centro de Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017; CUNHA, Ester Almeida Carneiro da, Uma Análise do Pensamento Autoritário-Militar Japonês a Partir da Perspectiva de Tojo Hidek. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; IWAMOTO, Vivian, Cultura Nipo-Sul-Mato-Grossense de Dourados. Tese de Doutorado em Educação. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023; GUERRA, Renan, “O Mal Não Existe, de Ryūsuke Hamaguchi, é um Drama Contemplativo e Poderoso”. In: https://screamyell.com.br/site/2024/07/26/entre outros.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Darcy Ribeiro - Deculturação & Aculturação no Processo Civilizatório.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

Ser original es en cierto modo estar poniendo de manifiesto la mediocridad de los demás”. Ernesto Sábato

Oficialmente República Federativa do Brasil é o maior país da América do Sul e da região da América Latina, sendo o quinto maior do mundo em área territorial, com 8 510 417,771 km², e o sétimo em população com 203 milhões de habitantes, em agosto de 2022.  É o único país na América onde se fala majoritariamente a língua portuguesa e o maior país lusófono do planeta Terra, além de ser uma das nações mais multiculturais e etnicamente diversas, em decorrência da imigração oriunda de variados locais do mundo. Sua atual Constituição, promulgada em 1988, concebe o Brasil como uma república federativa presidencialista, formada pela união dos 26 estados, do Distrito Federal e dos 5 571 municípios. Banhado pelo Oceano Atlântico tem um litoral de 7 491 km e faz fronteira com quase todos os outros países sul-americanos, exceto Chile e Equador, sendo limitado a Norte pela Venezuela, Guiana, Suriname e pelo departamento ultramarino francês da Guiana Francesa; a Noroeste pela Colômbia; a Oeste pela Bolívia e Peru; a Sudoeste pela Argentina e Paraguai e ao Sul pelo Uruguai. Vários arquipélagos formam parte do território brasileiro, como o Atol das Rocas, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Fernando de Noronha, sendo o único habitado por civis e Trindade e Martim Vaz. O Brasil é o habitat de uma diversidade de animais selvagens, ecossistemas e de vastos recursos naturais em uma grande variedade de habitats protegidos.

O território que forma o Brasil foi oficialmente “descoberto” pelos portugueses em 22 de abril de 1500, em expedição liderada por Pedro Álvares Cabral. Segundo alguns historiadores como Antonio de Herrera e Pietro d`Anghiera, o encontro do território teria sido três meses antes, em 26 de janeiro, pelo navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, durante uma expedição. A região, então habitada por indígenas ameríndios divididos entre milhares de grupos étnicos e linguísticos diferentes, cabia a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, e tornou-se uma colônia do Império Português. O vínculo colonial foi rompido, de fato, quando em 1808 a capital do reino, expulso, foi transferida de Lisboa para a cidade do Rio de Janeiro, depois de tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte invadirem o território português. Em 1815, o Brasil se torna parte de um reino unido com Portugal. Dom Pedro I, o primeiro imperador, proclamou a Independência política do país em 1822. Inicialmente “independente” como um império, período no qual foi uma monarquia constitucional parlamentarista, o Brasil tornou-se uma República em 1889, em razão de um golpe de Estado, político-militar chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente, embora uma legislatura bicameral, agora chamada de Congresso Nacional, já existisse desde a ratificação da primeira Constituição, em 1824.

Desde o início do período republicano, a governança foi interrompida por longos períodos de regimes autoritários, e particularmente até um governo civil e eleito assumir o poder em 1985, com o fim da ditadura civil-militar (1964-1984). Como potência regional e média, a nação tem reconhecimento e influência internacional, que também é classificada como uma “potência global emergente” e como potencial “superpotência” por vários analistas sociais. O Produto Interno Bruto nominal brasileiro é o nono maior do mundo globalizado e o oitavo por paridade do poder de compra (PPC), sendo, em ambos, o maior da América Latina e do Hemisfério Sul. É um dos principais “celeiros” do planeta, o maior produtor de café dos últimos 150 anos, além de ser classificado como uma “economia de renda média-alta” pelo poderoso Banco Mundial e país recentemente industrializado, que detém a maior parcela de riqueza global da América do Sul. No entanto, o país ainda mantém níveis notáveis de corrupção, criminalidade e desigualdade social. É membro fundador da Organização das Nações Unidas, G20, ou Grupo dos 20, representando um grupo formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos das 19 maiores economias mais a União Africana e União Europeia.

Foi criado em 1999, após as sucessivas crises financeiras da década de 1990, BRICS. O agrupamento começou com quatro países sob o nome BRIC, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China, até que, em 14 de abril de 2011, o “S” acrescido resultou da admissão da África do Sul ao grupo, um país situado na extremidade sul do continente africano e marcado por vários ecossistemas diferentes. Em 1° de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aderiram ao bloco como membros plenos, e assim mudando o nome de “BRICS” para “BRICS+”. O grupo “não é um bloco econômico” ou uma associação de comércio formal, como no caso da União Europeia. Diferentemente disso, os quatro países fundadores procuraram formar um “clube político” ou uma “aliança”, e assim converter “seu crescente poder econômico em uma maior influência geopolítica”. Desde 2009, os líderes do grupo realizam cúpulas anuais. Historicamente, a mídia tem classificado os BRICS como uma alternativa geopolítica em relação ao G7, comparativamente, visto que o grupo buscou criar alternativas em relação aos métodos utilizados por algumas nações ocidentais, a exemplo do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas. As relações bilaterais entre os países dos BRICS têm sido conduzidas principalmente com base nos princípios de não-interferência, igualdade e benefício mútuo. Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), União Latina, Organização dos Estados Americanos (OEA), Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e Mercado Comum do Sul (Mercosul).

                                           
O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não - afirmava Darcy Ribeiro -, não vou me resignar nunca. Portanto, urge preveni-los do muito que se poderia fazer, com apoio no saber científico, e do descalabro e pequenez do que se está fazendo. Mas as vicissitudes do saber e o testemunho dado pelos autores, dos quais deriva a sua autoridade e que ao mesmo tempo a transmite como tradição de geração em geração, dizem a respeito da causa da visão, que a coisa vista envia em todas as direções  uma exibição, ou aspecto visível, ou um ser visto, cuja recepção nos olhos é a visão. O antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos de antropologia da civilização mais contribuiu, nestes dias para precisar o conceito de “processo civilizatório”, fazendo com que a antropologia brasileira obtenha status de categoria mundial, no âmbito simultaneamente da etnologia & história intervindo na elucidação dos grandes problemas da evolução das sociedades humanas. 
Em sua trajetória intelectual transita à vontade tanto pelos “caminhos ocidentais” como pelas veredas do mundo tribal amazônico, onde soma uma experiência e vivência de campo junto a tribos indígenas, que atravessam o difícil caminho do contato e ajustamento com as “frentes de expansão nacional”, em seu processo de avanço e conquista de territórios tribais ou pelos corredores de mais de dois “palácios de governo”. Darcy Ribeiro como antropólogo fora uma “pessoa”, o que deriva de per-sonare, uma voz que “soa através” de uma máscara pública. Irreversível esse caminho tribal e ipso facto acelerado pela abertura de novas estradas como vias de comunicação, como a Transamazônica, a Santarém-Cuiabá, a Perimetral Norte, que atingiram tribos, que até pouco tempo ocupavam os últimos territórios de refúgio, como consta na etnografia em Uirá sai à Procura de Deus - Ensaios de Etnologia e Indigenismo (Ribeiro: 1974), outras no período recente. Seu compromisso é vital, não setorial; produz-se na cátedra, na prolongada e boa convivência com os índios, na criação de universidades, dentro e fora do Brasil, como ministro da Educação ou como chefe da Casa Civil, como preso político, nas peregrinações do exílio, finalmente como romancista, com “Maíra” (Ribeiro, 1975).
No dia 20 de janeiro de 1958, o antropólogo Darcy Ribeiro pronunciou emocionado discurso, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, diante do corpo do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon com as seguintes palavras. O primeiro princípio de Rondon, “morrer, se preciso for, matar nunca”, foi formulado no começo deste século quando, devassando os sertões impenetrados de Mato Grosso ia de encontro às tribos mais aguerridas, com palavras e gestos de paz, negando-se a revidar seus ataques, por entender que ele e sua tropa eram os invasores e, como tal, se fariam criminosos se de sua ação resultasse a morte de um índio. O segundo princípio é o do respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de serem eles próprios, de viver suas vidas. O terceiro princípio de Rondon é o do garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência. O quarto princípio de Rondon é assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território.     
Em verdade, um fragmento importante nas páginas da vida latino-americana narradas da década de 1950 até os dias de hoje, pode se documentar seguindo-se o rastro aberto na pena da Antropologia das Civilizações de Darcy Ribeiro.  Traçou o plano de uma obra que incluiu, entre outros aspectos, a chamada “revolução humana”; as experiências junto às “formações pré-agrícolas”; um estudo sobre a “revolução agrícola” e sobre as “aldeias agrícolas indiferenciadas”; as “sociedades pastoris”; a “revolução urbana” e os “Estados rurais artesanais” e principalmente, para ermos breves, o lugar da “revolução do regadio” e os “Impérios teocráticos de regadio”, assim como a “revolução metalúrgica” e os “Impérios mercantil-escravistas” que têm como consequência, grosso modo, a “revolução mercantil”. Metodologicamente examina os efeitos diferenciais das diversas fronteiras de expansão econômica perante os grupos que classifica segundo a intensidade de sua relação com a sociedade nacional. Este modelo de análise do ponto de vista técnico-metodológico será desenvolvido anos depois pelos projetos de investigação e pesquisa mais avançados da antropologia.
        Por volta de 1957 - assinala Darcy Ribeiro - “haviam sido extintos só no Brasil, 87 grupos [indígenas], dos 230 registrados em 1900”. Impávido, admite, o processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer, porque foi traduzida para as línguas de nosso circuito ocidental, editada e reeditada muitas vezes e é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever “um livro tão ambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isso não fez dano porque ele acabou sendo mais editado e mais lido do que qualquer outro livro recente sobre o mesmo tema”. Além disso, na medida em que, comparativamente, teve acesso a obras que em sua maioria estavam sendo publicadas quase que imediatamente “sobre o estudo das revoluções tecnológicas e na fixação dos modelos teóricos das formações socioculturais”.  Contou também com suas próprias experiências concretas como antropólogo junto a grupos indígenas como os Guajá e os Xokléng, os índios Kadiuéu (1950) e a Arte Plumária dos Índios Kaapor (1957) e, da mesma forma, sobre os índios Urubus-Kaapor (1957b) e as tribos do Xingu, entre outras pesquisas originalmente realizadas sobre os índios no Brasil.
 
Mesmo o livro de Stanley J. Stein e Barbara H. Stein, The Colonial Heritage of Latin America, (Oxford University Press, 1970) publicado dois anos depois do clássico Processo Civilizatório (1968) onde inclui fontes bibliográficas importantes sobre a Península Ibérica (1580-1800), sobre as colônias ibero-americanas com a projeção da América Latina em sua fase neocolonial no século XIX, desconhece o “Diagrama do Processo Civilizatório. Principais Focos de Irradiação, suas Interpenetrações e Projeções sobre os Povos contemporâneos” (Ribeiro, 1968:53), considerando a importância do estudo de Darcy Ribeiro sobre antropologia das civilizações. Repetem algumas de suas fontes e referências bibliográficas.    
Darcy Ribeiro (1968) compreendeu que alguns processos civilizatórios brotaram de gestação autóctone, cumpridas passo a passo, como parece ter ocorrido analogamente na Mesopotâmia e nas Américas. Outros podem ter surgido da fecundação de um velho contexto cultural originalmente desenvolvida em diferentes lugares. Mas o fundamental é que todos se configuram como formações socioculturais “tão radicalmente diferenciadas das anteriores e das posteriores” que só podem ser compreendidas “como uma nova etapa da evolução humana ou como fruto amadurecido de uma nova revolução tecnológica, a do regadio”. Isto o levou em “busca de explicações terra-a-terra” (sic) para reconstituir a formação dos povos americanos, com uma profunda reflexão teórica e metodológica para explicar as causas do seu desenvolvimento. - “Salto, assim, da escala de 10 mil anos de história geral para os quinhentos anos da história americana com um novo livro: As Américas e a Civilização”, ou seja, com a referência ao diagrama do processo civilizatório. A abordagem consistiu na metodologia própria e original que permitiu reunir os povos americanos em três categorias gerais explicativas do seu modo de ser e elucidativas de suas perspectivas de desenvolvimento.
         Essa nova tipologia “possibilitou superar o nível de análise meramente histórico, incapaz de generalizações, e focalizar cada povo de forma mais ampla e compreensível do que seria praticável com as categorias antropológicas e sociológicas habituais”. Darcy Ribeiro observa ainda que a análise de cada situação concreta exigisse dos clássicos do marxismo a elaboração de diferentes tipologias que, retratando para cada momento histórico as configurações discerníveis da estratificação social, permitisse diagnosticar as oposições e complementaridades de interesses que nela se apresentavam. O que estes e outros esquemas marxistas têm de comum é a noção de componentes contrapostos dentro das classes dominantes e classes subordinadas bem como a divisão de umas e outras em diversos segmentos; e a existência de uma classe oprimida, cuja libertação pressupõe uma revolução social. Em qualquer caso trazem implícita a necessidade, metodologicamente falando, de “um estudo fatual das estratificações de classe que se cristalizam historicamente em cada situação concreta”. A tipologia utilizada por Darcy Ribeiro foi elaborada, como ele dizia, “com esse espírito”.                       

CIEPs criados por Darcy Ribeiro.
O que nos faz depreender em sua etnologia o seguinte: - Em lugar de transpor à América Latina esquemas desenvolvidos pela análise de distintas situações históricas, procuramos elaborar uma tipologia fundada na observação da realidade presente e na análise da formação das classes da América Latina, a partir da estratificação social registrada nas metrópoles ibéricas e do estudo de suas transformações posteriores. Nossa tipologia aqui apresentada de forma sumária nada mais é, na verdade, do que um esquema de posições correntes, e também mais fiel ao verdadeiro significado da teoria marxista de classes sociais. Esta tipologia é de caráter étnico-nacional e enquanto povos extra-europeus do mundo moderno podem ser classificados em quatro grandes configurações, sendo que cada uma delas engloba populações muito diferenciadas, mas também suficientemente homogêneas quanto às suas características básicas e quanto aos problemas de desenvolvimento com que se defrontam, para serem legitimamente tratadas como categorias distintas. Tais são os “Povos-Testemunho”, os meso-americanos que integram o México Asteca-Náhuatl os “Povos-Novos”, os brasileiros, os grã-colombianos, os antilhanos, os chilenos; os “Povos-Transplantados”, os anglo-americanos, os rio-platenses, e os “Povos-Emergentes”, africanos e asiáticos.                       
Os primeiros etnograficamente são constituídos pelos representantes modernos das velhas civilizações autônomas sob as quais se abateu a expansão europeia. O segundo bloco é representado pelos povos americanos plasmados nos últimos séculos como um subproduto da expansão europeia pela fusão e aculturação de matrizes indígenas, negras e europeias. O terceiro é integrado pelas nações constituídas pela implantação de populações europeias no ultramar com a preservação do perfil étnico, da língua e da cultura originais. Finalmente, os últimos, representam as nações novas da África e da Ásia cujas populações ascendem de um nível tribal, onde a constatação poética ou, mais tarde, psicológica da pluralidade da pessoa (“eu é um outro”), pode ser interpretada, de um ponto de vista antropológico como expressão de um continuun intangível, ou da constatação da condição de meras “feitorias coloniais” para a de “etnias nacionais”. A Antropologia reconhece o valor no fato de pertencermos ao grupo.
A primeira destas configurações designada como “Povos-Testemunho” é integrada pelos sobreviventes de altas civilizações autônomas que sofreram o impacto da expansão europeia. São resultantes da ação violenta e traumatizadora daquela expansão e dos seus esforços de reconstituição étnica como sociedades nacionais modernas. Reintegradas em sua independência, não voltam a ser o que eram antes, porque se haviam transfigurado profundamente. Mais do que povos considerados atrasados na história, eles são os povos espoliados da história. Contando originalmente com enormes riquezas acumuladas, que poderiam ser agora utilizadas, para custear sua integração nos sistemas industriais de produção, as viram saqueadas pelo europeu. Séculos de subjugação ou de dominação direta ou indireta impuseram-lhes profundas deformações que não só depauperaram seus povos como também traumatizaram toda a sua vida cultural. Como problema básico, enfrenta a integração dentro de si mesmo das duas tradições culturais de que se fizeram herdeiros, não apenas diversas, mas, em muitos aspectos, contrapostas.  Atraídos ainda simultaneamente pelas duas tradições, mas incapazes de fundi-las numa síntese cultural e política significativa para toda a população, conduzem dentro de si o conflito do processo civilizatório imanente entre a cultura original e a civilização europeia.
Neste bloco, encontram-se a Índia, a China, o Japão, a então Coréia unificada, a Indochina, os países islâmicos e alguns outros. Nas Américas, são representados pelo México, pela Guatemala, bem como pelos povos do Altiplano Andino, sobreviventes das populações Asteca e Maia, os primeiros, e da civilização Incaica, os últimos. Dentre estes povos apenas o Japão e, mais recentemente a China conseguiram incorporar às respectivas economias a tecnologia industrial moderna e reestruturar suas próprias sociedades em novas bases. Os dois núcleos de povos das Américas, como povos conquistados e subjugados, sofreram um processo de compulsão europeizadora muito mais violento do que resultou sua complexa transfiguração étnica. Seus perfis étnicos nacionais conformam perfis neo-hispânicos metidos nos descendentes da antiga sociedade, mestiçados com europeus e negros. Enquanto que os demais povos extra-europeus apenas coloriram sua figura étnico-cultural original com influências européias, nas Américas, “a etnia neo-européia é que se tinge com as cores das antigas tradições culturais, tirando delas características que as singularizam”(Ribeiro, 1983: 91).
A segunda configuração, os “Povos-Novos” constituíram-se pela confluência de contingentes díspares em suas características raciais, culturais e linguísticas. Reunindo negros, brancos e índios para abrir grandes plantações de produtos tropicais ou para a exploração mineira, visando tão-somente atender aos mercados europeus e gerar lucros, as nações colonizadoras acabaram por plasmar povos profundamente diferenciados de si mesmas e de todas as outras matrizes formadoras. Estes contingentes básicos, embora exercendo papéis distintos, entraram a mesclar-se e a fundir-se culturalmente com maior intensidade do que em qualquer outro tipo de conjunção. Assim, ao lado do branco, “chamado a exercer os papéis de chefia na empresa”, por força das condições de dominação impostas aos demais; do negro, nela “engajado como escravo”; do índio, “também escravizado ou tratado como mero obstáculo a erradicar”, foi surgindo uma população mestiça que fundia aquelas matrizes nas mais variadas proporções.  

             

Os “Povos-Novos” surgem hierarquizados, como os “Povos-Testemunho”, pela distância social que separa a sua camada senhorial de fazendeiros, mineradores, comerciantes, funcionários coloniais e clérigos da massa escrava engajada na produção. Constituíam-se de rudes empresários, senhores de suas terras e de seus escravos, forçados a viver junto a seu negócio e a dirigi-lo pessoalmente com a ajuda de uma pequena camada intermédia, de técnicos, capatazes e sacerdotes. Onde a empresa prosperou muito, como nas zonas açucareiras e mineradoras do Brasil e das Antilhas, puderam dar-se ao luxo de residências senhoriais e tiveram de alargar a camada intermédia, tanto dos engenhos como das vilas costeiras, incumbidas do comércio exterior. Vale lembrar que nenhum dos povos deste bloco constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro-etnia diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional.
Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam, por isto, juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos “Povos-Novos”. A composição predominantemente “índio-espanhola” dos Povos-Testemunho se diferencia dessa variante porque suas populações indígenas originais não haviam alcançado um nível de desenvolvimento cultural equiparável ao dos mexicanos ou dos Incas. É o resultado da seleção de qualidades raciais e culturais das matrizes formadoras, que melhor se ajustaram às condições que lhes foram impostas. O papel decisivo em sua formação foi representado pela escravidão que, operando como força distribalizadora, desgarrava as novas criaturas das tradições ancestrais. São produto tanto da deculturação redutora de seus patrimônios tribais indígenas e africanos, quanto da aculturação seletiva desses patrimônios e da própria criatividade face ao novo meio de reprodução da vida.
A terceira configuração histórico-cultural é representada pelos chamados “Povos-Transplantados”, correspondentes às nações modernas criadas pela migração de populações européias para novos espaços mundiais, onde procuram reconstituir formas de vida essencialmente idênticas às de origem. Cada um deles estruturou-se segundo modelos de vida econômica e social da nação de que provinha, levando adiante, nas terras adotivas, processos de renovação que já operavam nos velhos contextos europeus. Suas características referem-se à homogeneidade cultural que mantiveram pela origem comum de sua população, ou que plasmaram pela assimilação dos novos contingentes. A maioria destes contingentes veio ter à América como trabalhadores rurais aliciados mediante contr@tos, que os submetiam a anos de trabalho servil, embora em sua grande parte tenha conseguido, mais tarde, ingressar na categoria de granjeiros livres e de artesãos também independentes. Integram o bloco de “Povos-Transplantados” a Austrália e a Nova Zelândia, formadores dos bolsões neo-europeus de Israel, da União Sul-Africana e da devastada Rodésia.

Nas Américas são representados pelos Estados Unidos, pelo Canadá e também pelo Uruguai e a Argentina. Nos primeiros casos tais povos nascem de projetos de colonização implantados sobre territórios, cujas populações tribais foram dizimadas ou confinadas em reservations para que uma nova sociedade neles se instalasse. No caso dos países rio-platenses, encontramos a resultante de um empreendimento peculiaríssimo de uma “elite crioula” – inteiramente alienada e hostil à sua própria etnia de Povo-Novo – que adota como projeto nacional a substituição de seu próprio povo por europeus brancos e morenos, concebidos como gente com mais peremptória vocação para o progresso. A Argentina e o Uruguai resultam, de um processo de sucessão ecológica deliberadamente desencadeada pelas oligarquias nacionais, através do qual uma configuração de Povo-Novo se transforma em Povo-Transplantado. Neste processo, a população ladina e a gaúcha, originária da boa mestiçagem dos povoadores ibéricos com o indígena, foi tragicamente esmagada e substituída, como contingente básico da nação, por um alude de imigrantes europeus em busca de terra e trabalho. 
O quarto bloco de povos extra-europeus do mundo moderno é constituído pelos “Povos-Emergentes”. São integrados pelas populações africanas que ascendem no processo civilizatório da condição tribal à nacional. Na Ásia encontram-se também alguns casos de “Povos-Emergentes” que transitam da condição tribal à nacional. Esta categoria não surgiu na América, apesar do avultado número de populações tribais que, ao tempo da conquista, contavam com centenas de milhares e com mais de um milhão de habitantes. Este fator, tanto de deculturação como de aculturação, mais do que qualquer outro, exprime a violência da dominação, primeiro europeia que se prolongou por quase quatro séculos, depois nacional, a que estiveram submetidos os povos tribais americanos. Dizimados prontamente alguns deles, outros mais lentamente, somente sobreviveram uns poucos que foram anulados como etnias e como base de novas nacionalidades, enquanto seus equivalentes africanos e asiáticos, apesar da violência do impacto que sofreram, ascendem hoje para a vida nacional. A consciência étnica percorre todo o mundo. Nunca as chamadas “minorias nacionais”, foram tão combativas como hic et nunc. Isto se pode constatar pela luta dos povos Bascos, Catalães, Galegos, Bretões, Flamengos e de outras nacionalidades fanaticamente apegadas a tudo que afirme seu caráter de etnias autônomas imersas em entidades multiétnicas.
Bibliografia geral consultada.

RIBEIRO, Darcy, O Processo Civilizatório. Etapas da Evolução Sociocultural. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968; Idem, Os Índios e a Civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970; STAVENHAGEN, Rodolfo, “Siete Tesis Equivocadas sobre a América Latina”. Disponível em: Desarrollo Indoamericano, 1 (1966); STEIN, Stanley, The Colonial Heritage of Latin America. Essays on Economic Dependence in Perspective. Oxford University Press, 1970; MARIÁTEGUI, José Carlos, Defensa del Marxismo. 6ª edicíon. Lima: Biblioteca Amauta, 1974; MASCARO, Alysson Leandro Barbate, “O sentido jurídico brasileiro - Reflexões para uma teoria política e jurídica a partir de O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro”. In: Revista da Faculdade de Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, vol. 95, pp. 405-414, 2000; SABATO, Ernesto, España en los Diarios de mi Vejez. Barcelona: Editorial Seix Barral, 2004; MATTOS, Andre Luis Lopes Borges de, Darcy Ribeiro: Uma Trajetória (1944-1982).  Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.  Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2007; SOARES, Antonio Aroldo Lins, Avaliação Institucional: O Caso da Faculdade de Tecnologia Darcy Ribeiro. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010; MIGLIEVICH-RIBEIRO, Adelia, “Da Ninguendade ao Povo Brasileiro: Um Ensaio sobre a Antropologia Dialética de Darcy Ribeiro”. In P. E. M. Martins & O. Munteal (Org.), O Brasil em Evidência: a Utopia do Desenvolvimento. PUC-Rio, FGV, 2012; BOMENY, Helena, Darcy Ribeiro: A Sociologia de um Indisciplinado. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2001; Idem, “Em boa Companhia. Relações com Anísio Teixeira e Leonel Brizola fizeram de Darcy Ribeiro um dos Expoentes das Reformas Educacionais no País”. Disponível em: Revista de História. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, vol. 10, p. 3639; 2015; DORIGÃO, Antonio Marcos, Darcy Ribeiro e a Reforma da Universidade: Autonomia, Intencionalidade e Desenvolvimento. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Estadual de Maringá. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, 2015; MIGLIEVICH-RIBEIRO, Adélia, “Darcy Ribeiro e UnB: Intelectuais, Projeto e Missão”. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação. Rio de Janeiro, vol. 25, nº 96, pp. 585-608, jul./set 2017; BRITO, Carolina Arouca Gomes de, Antropologia de um Jovem Disciplinado: A trajetória de Darcy Ribeiro no Serviço de Proteção aos Índios (1947-1956). Tese Doutorado em História das Ciências e da Saúde. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz, 2017; entre outros.