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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Upgrade: As Cores do Amor – Economia & Sociologia da Celebridade.

                  “Não se pode amar ou odiar quem não se conhece ainda”. Leonardo da Vinci

            

       Upgrade: As Cores do Amor (2024) representa um filme norte-americano de comédia romântica dirigido por Carlson Young e estrelado por Camila Mendes, Archie Renaux, Thomas Kretschmann, Grégory Montel, Lena Olin e Marisa Tomei. Em agosto de 2022, foi anunciado que Camila Mendes e Archie Renaux iriam estrelar o filme, que começou a ser produzido no Reino Unido. No mês seguinte, foi anunciado que Marisa Tomei e Lena Olin também foram escaladas para compor o elenco. É uma releitura moderna do clássico conto de fadas Cinderela e foi lançado no Amazon Prime Vídeo em 9 de fevereiro de 2024. Não queremos perder de vista que Cinderela é um dos contos de fadas mais populares da Humanidade. Sua origem tem diferentes versões teatrais. A versão mais reconhecida é a do escritor francês Charles Perrault, de 1697, baseada num conto italiano popular chamado La Gatta Cenerentola (“A gata borralheira”). A mais antiga é originária da China, por volta de 860. Semelhante à versão de Charles Perrault e a versão dos Irmãos Grimm. Nesta, porém, não há a figura da “fada-madrinha” e quem favorece a realização do desejo de ir ao baile são os pombos e a árvore que crescem no túmulo de sua mãe. Neste caso, Cinderela sabe palavras mágicas, usadas no imperativo, que auxiliam na transformação maravilhosa de seu pedido em realidade. 

          No final, as irmãs malvadas ficam cegas quando são atacadas por pombos que lhes furam os olhos. Segundo outras versões a figura da fada-madrinha na verdade é o espírito da falecida mãe da própria protagonista que trazia um vestido do céu para Cinderela usar no baile. Historicamente entre o liberalismo de David Hume e o dos Fisiocratas, encontra-se a distância socialmente que separa paradoxalmente a invenção da conformidade. Hume de um lado, os Fisiocratas de outro. Fisiocratas que viam a produção de bens e serviços como consumo do excedente agrícola, uma vez que a principal fonte de energia era o músculo humano ou animal e toda a energia derivada do excedente de produção agrícola. A unidade própria do nascente liberalismo econômico se tornaria essencialmente problemática. Apesar da relativa uniformidade das reivindicações, parece que o fosso se escava entre uma metafísica da ordem que impõe respeito a uma norma natural, limitadora por essência e instruída pela providência regida, em última instância, pela cumplicidade secreta entre finalismo e mecanicismo, e, de outro, a marcha hesitante de uma espontaneidade quase cega em seu princípio, e anônima em seus efeitos sociais, que exige que a norma, em sua variedade e contingência, seja construída, isto é, inventada, em função das circunstâncias historicamente condicionadas. Assim, a política econômica nacional é constituída sobre o modelo da gestão privada, historicamente, sendo que a representação da economia do universo é, do mesmo modo, construída na realidade a partir do modelo tecnológico da ação sobre a apropriação da natureza.

          Fisiocracia tem como representação uma teoria econômica desenvolvida por um grupo de economistas franceses do século XVIII, que acreditavam que a riqueza das nações era derivada unicamente do valor de “terras agrícolas” ou do “desenvolvimento da terra” e que produtos agrícolas deveriam ter preços elevados na economia. Suas teorias surgiram na França e foram mais populares durante a segunda metade do século XVIII. A fisiocracia talvez seja a primeira teoria bem desenvolvida da economia. A fisiocracia foi formada por filósofos, negociantes, médicos, editores e intelectuais franceses que, sobretudo durante a década de 1760, buscavam realizar um sistema de filosofia fundado na noção de ordem naturalizada e no chamado jusnaturalismo, isto é a existência de leis naturais. No sistema filosófico moderno elaborado pelos fisiocratas, a compreensão dos fenômenos econômicos e sua explicação passa a assumir um papel invariavelmente preponderante. O movimento foi liderado por François Quesnay (1694-1774), mas contava com figuras importantes como Victor Riquetti de Mirabeau (1715-1789), Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781), Nicolas Baudeau, Pierre Samuel Du Pont de Nemours e Le Mercier de la Rivière. Esse movimento imediatamente precedeu a primeira escola moderna, a economia clássica, que se iniciou com a publicação da “mão invisível” de Adam Smith (1793-1790), em seu livro clássico, intitulado: A Riqueza das Nações, em 1776, um filósofo e economista escocês, que teve como cenário da modernidade para a sua vida o atribulado no chamado Século das Luzes, o século XVIII. A contribuição mais significativa dos fisiocratas tinha per se como primícias a sua ênfase humanamente possibilitada no trabalho produtivo como fonte de riqueza nacional.

                                                

Esse pensamento econômico é contrastante comparativamente em relação ao das escolas anteriores, em particular o mercantilismo, que muitas vezes focava na riqueza do governante, no acúmulo de ouro, ou no saldo da balança comercial. Enquanto a escola Mercantilista de economia dizia que o valor dos produtos da sociedade era criado seu ponto de venda, com o vendedor vendendo seus produtos por mais dinheiro do que estes tinham originalmente valido, a escola Fisiocrática de economia foi a primeira a ver o trabalho como a única fonte de valor. No entanto, para os fisiocratas, apenas o trabalho agrícola criava este valor nos produtos da sociedade. Todo o trabalho incipiente industrial e não agrícola eram, por assim dizer, “apêndices improdutivos” para o trabalho agrícola. Na época historicamente em que fisiocratas estavam formulando suas ideias sociais e econômicas, a economia era quase totalmente agrária. Esse talvez seja o motivo pelo qual realmente a teoria tenha considerado apenas o trabalho agrícola como sendo valioso. Fisiocratas viam a produção de bens e serviços como consumo do excedente agrícola, uma vez que a principal fonte de energia era o músculo humano ou animal, e toda a energia era derivada a partir do excedente de produção agrícola. O lucro na produção pré-capitalista representava apenas o contrato socialmente referente ao aluguel obtido pelo proprietário em que a produção agrícola estava ocorrendo como trabalho.

A percepção do reconhecimento dos Fisiocratas da importância fundamental do terreno foi reforçada no meio século seguinte, quando os combustíveis fósseis foram aproveitados pelo meio de trabalho e utilidade de uso da máquina a vapor. A produtividade aumentou consideravelmente. Ferrovias, e sistemas de abastecimento de água e saneamento a vapor, possíveis cidades de vários milhões de pessoas com valores da terra muitas vezes maior do que as terras produtivas agrícolas. Assim, enquanto os economistas modernos também reconhecem manufatura e serviços como produtivos e geradores de riqueza, os princípios econômicos estabelecidos pelos fisiocratas permanecem válidos. A Fisiocracia tem uma relevância importante em que toda a vida permanece dependente da produtividade do solo bruto e a capacidade do meio ambiente natural se renovar. O historiador David B. Danbom, autor e professor de história agrícola, na Universidade Estadual de Dakota do Norte por mais de quarenta anos explica: “Os fisiocratas condenavam as cidades pela sua artificialidade e elogiavam estilos mais naturais de vida. Eles celebravam os agricultores”. Eles se chamavam économistes, mas são geralmente referidos como fisiocratas para distingui-los das muitas escolas do pensamento econômico que os seguia. O Confucionismo, sistema desenvolvido a partir das ideais de Confúcio, foi adotado por fisiocratas como Quesnay. A Fisiocracia é uma filosofia de caráter agrário. No final da República Romana, a classe senatorial dominante não era autorizada a participar do setor bancário ou do comércio, mas dependia de seus latifúndios, grandes plantações, para a renda. 

Eles contornaram esta regra socialmente estabelecida por meio de procurações dos chamados “homens livres” que vendiam bens agrícolas excedentes. Após o declínio do Império Romano, a desurbanização levou à cessação do comércio e ao declínio da comercialização de produtos agrícolas na maior parte da Europa Ocidental. As economias centraram-se nas casas senhoriais agrícolas onde guerreiros-proprietários, a nobreza medieval, coletavam alugueis de seus servos na forma exploratória de parte da produção. Este foi o sistema econômico dominante até que o comércio começou a ser revivido no final da Idade Média, promovendo a ascensão da classe mercantil. Outra inspiração veio do sistema econômico da China, considerado o maior do mundo. A sociedade chinesa amplamente distinguiu quatro ocupações, com bolsas de estudo burocratas, que também eram proprietários agrários, na parte superior e na parte inferior comerciantes, porque eles não produziam bens, apenas distribuíam os produtos fabricados por terceiros. Líderes como François Quesnay (1664-1774) eram confucionistas ávidos que defendiam as políticas agrárias da China, uma nação muito populosa da Ásia Oriental cuja ampla paisagem abrange pradarias, desertos, montanhas, lagos, rios e mais de 14.000 km de litoral. A capital Pequim combina a arquitetura moderna com locais históricos, como o complexo de palácios da Cidade Proibida e a Praça da Paz Celestial. Xangai é um centro financeiro global repleto de arranha-céus. A emblemática Muralha da China corta a região norte do país de leste a Oeste. Alguns estudiosos têm defendido ligações concretamente com a escola agriculturalista, que promoveu o “comunismo utópico”. Quesnay defendia que a terra era a única fonte de riqueza, considerando a agricultura como fonte principal da riqueza do Estado.

Uma questão muito importante foi levantada a respeito das ideias abstratas, ou gerais, a saber, se são concebidas pela mente como gerais ou particulares. É evidente que, ao formar a maior parte de nossas ideias gerais, se não todas elas, fazemos abstração de todo e qualquer grau particular de quantidade e qualidade; e que um objeto não deixa de pertencer a uma espécie particular cada vez que ocorre uma pequena alteração em sua extensão, duração ou outras propriedades. Pode-se pensar, portanto, em tese que existe um claro dilema, decisivo para a determinação da natureza das ideias abstratas, a qual tem sido motivo de tanta especulação por parte dos filósofos. Como a ideia abstrata de Hume (2009) de homem de todos os tamanhos e todas as qualidades, conclui-se que ela só será capaz de fazer isso, se de fato poder representar ao mesmo tempo, abstratamente, todos os tamanhos e todas as qualidades possíveis, ou então se não representar nenhum tamanho ou qualidade particular. A primeira proposição tendo sido considerada absurda, porque implicaria uma capacidade infinita da mente, costumou-se inferir que a segunda seria a correta – e por isso se supôs que nossas ideias abstratas não representam nenhum grau particular de quantidade ou qualidade. A confusão que por vezes envolve as impressões procede somente de sua fraqueza e instabilidade, e não de uma capacidade que teria a mente de receber uma impressão que, em sua existência real, não possua um grau ou proporção particulares. Isso seria uma contradição em termos, e implicaria mesmo a mais absoluta das contradições, a saber, que é possível que uma mesma coisa seja e não seja.

           Pois uma das circunstâncias mais extraordinárias da presente questão é o fato de que, se por acaso formamos um raciocínio que não concorda com uma ideia individual produzida pela mente, e acerca da qual raciocinamos, o costume que a acompanha, reanimado pelo termo geral ou abstrato, sugere imediatamente qualquer outro indivíduo. Assim, se mencionamos a palavra triângulo e formamos a ideia de um triângulo equilátero particular que lhe corresponda, e se depois afirmamos que os três ângulos de um triângulo são iguais entre si, os outros casos individuais de triângulos escalenos e isósceles, que a princípio negligenciamos, imediatamente se amontoam à nossa frente, fazendo-nos perceber a falsidade dessa proposição, que, entretanto, é verdadeira em relação à ideia que havíamos formado. Se a mente nem sempre sugere tais ideias na ocasião apropriada, isso se deve a alguma imperfeição de suas faculdades, imperfeição esta que frequentemente gera raciocínios falsos e sofismas. Mas tal fato socialmente interpretado ocorre, sobretudo, no caso das ideias abstrusas (cf. Braga, 2020) e compostas. O costume é mais perfeito, e é raro cometermos esse tipo de erro. O costume, aliás, é tão perfeito nesses casos que se pode vincular a mesma ideia a diversas palavras diferentes, e emprega-la em diferentes raciocínios, sem qualquer perigo de erro. A ideia de um triângulo equilátero pode servir para uma figura regular, de um triângulo e de um triângulo equilátero. Uma ideia particular se torna geral quando a vinculamos a um termo que, por conjunção habitual, relaciona-se a outras ideias particulares, evocando-as na imaginação. Ao rejeitar a capacidade infinita da mente, supomos que ela pode atingir na divisão de suas ideias. Não há como fugir à evidência dessa conclusão.   

            A divisibilidade infinita do espaço implica a do tempo, como fica evidente pela natureza do movimento. Mas podemos aqui observar, seguindo a trilha aberta por David Hume (2009), que nada pode ser mais absurdo que “esse costume arraigado de atribuir uma dificuldade aquilo que pretende ser uma demonstração”. As demonstrações não são como as probabilidades, quer dizer, em que podem ocorrer dificuldades, e um argumento pode contrabalançar outro, diminuindo sua autoridade. Uma demonstração ou é irresistível, ou não tem força alguma no pensamento. Portanto, falar em objeções e respostas, em contraposição de argumentos numa questão como essa, é o mesmo que confessar que a razão humana é um simples jogo de palavras, ou que a pessoa que assim se exprime não está à altura desses assuntos. Há demonstrações difíceis de compreender, por causa do caráter abstrato de seu tema; nenhuma demonstração, porém, uma vez compreendida, pode conter dificuldades que enfraqueçam sua autoridade. É uma máxima estabelecida da metafísica que tudo que a mente concebe claramente inclui a ideia da existência possível, ou, em outras palavras, que anda que imaginamos é absolutamente impossível. Não poderia haver descoberta mais feliz na vida para a solução de todas as controvérsias em torno das ideias que as impressões sempre precedem as ideias, e que toda ideia contida na imaginação apareceu primeiro em uma impressão correspondente. As percepções deste tipo são todas tão claras e evidentes que não admitem discussão, ao passo que muitas ideias são tão obscuras que é quase impossível, mesmo para a mente que as forma, dizer qual é exatamente sua natureza e composição. Uma aplicação desse princípio, revela per ser algo mais sobre a natureza de nossas ideias de espaço e tempo. 

             O arquiteto divino aparece também como uma derivação conceitual do artesão. Em todo lugar em que surge uma vontade capaz de dar forma ao projeto que ela mesma concebeu, o arranjo mecânico dos elementos, sustentado pelo decreto inicial, compõe uma totalidade externa cuja finalidade escapa por natureza aos componentes para se transportar inteira para a mente do organizador. O lucro do negociante sugere o lucro da nação. A balança é sua imagem obrigatória. O produto artesanal sugere o produto divino: o relógio, divisor do tempo, a máquina se torna sua representação privilegiada. Equilíbrio, ajuste e adaptação dos meios aos fins se unem no trabalho de montagem que supõe ao mesmo tempo um projeto humano, um plano, um construtor, condicionando uma escolha entre as diferentes séries de objetos manufaturados. Sem dúvida, é por ter apreendido nessas falências a lógica da argumentação, que Hume sugere nos Diálogos, a “fábula de uma repartição de tarefas”. Seus personagens debatem uma série de ideias e argumentos cujos proponentes acreditam que através do qual poderemos vir a conhecer a natureza de Deus. Os artesãos divinos contra os que persistem em considerar a questão da divisão do trabalho como conveniência comandada pela providência divina, mais do que a solução do problema que tem sido colocado como sobrevivência para a espécie.

        Reconhecido pelo padrão demonstrado de que não há ideias inatas na vida e que todo o conhecimento vem da experiência rigorosamente ao nexo de causalidade e necessidade, David Hume em vez de tomar a noção de causalidade, como concedido, desafia-nos a considerar o que a experiência nos permite saber sobre a relação estabelecida entre causa e efeito, pois nada é mais usual e natural, para aqueles que pretendem oferecer ao mundo novas descobertas filosóficas e científicas que insinuar elogios ao seu próprio sistema de pensamento. O homem de discernimento e de saber percebe facilmente a fragilidade do fundamento, até mesmo daqueles sistemas bem aceitos e com maiores pretensões de conter raciocínios precisos e profundos. Isto é, alguns princípios acolhidos da confiança; consequências deles deduzidas de maneira defeituosa; falta de coerência entre as partes, e de evidência no todo – tudo isso se pode encontrar nos sistemas dos mais eminentes filósofos, e parece cobrir de opróbrio a própria filosofia, pois mesmo “a plebe lá fora é capaz de julgar, pelo barulho e vozerio que ouve, que nem tudo vai bem aqui dentro”.      Neste âmbito tampouco é necessário um conhecimento muito profundo para se descobrir a distância e imperfeição na sociedade moderna e contemporânea e que de fato, não há nada que não seja objeto de discussão e sobre o qual os estudiosos não manifestam opiniões contrárias. Se por um lado multiplicam-se as disputas, como se tudo fora incerto; e essas disputas são conduzidas da maneira mais acalorada, como se tudo fora certo na vida cotidiana.

        É daí que surge na opinião de David Hume, o preconceito comum contra todo tipo de raciocínio metafísico. Mesmo por parte daqueles que são doutos e que costumam avaliar de maneira justa todos os outros gêneros da literatura. E realmente nada, a não ser o mais determinado ceticismo, juntamente como um elevado grau de indolência, pode justificar tal aversão à metafísica. Pois se a verdade está ao alcance da capacidade humana, é certo que ela deva esconder em algum lugar muito profundo e abstruso. Não por acaso, devemos reunir nossos experimentos mediante a observação cuidadosa concernente da vida. Tomando-os tais aspectos como aparecem no curso habitual do mundo vivido, no comportamento dos homens em suas ocupações e prazeres. E criteriosamente reunidos e comparados, podemos estabelecer, com base neles, uma ciência, que não será inferior em certeza, mas superior em utilidade, a qualquer outra que esteja ao alcance da compreensão humana. Assim Hume sustenta que nossas ideias são imagens de nossas impressões, assim também podemos formar ideias secundárias, que são imagens das ideias primárias.  

Não se trata de uma exceção à regra, mas de uma explicação. As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas como supomos que as primeiras são derivadas de impressões, continua sendo verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, de suas impressões correspondentes. Esse é o primeiro princípio que Hume estabelece na ciência da natureza humana. Pois cabe notar que a presente questão, a respeito da anterioridade de nossas impressões ou ideias, é a mesma que produziu tanto barulho sob outra formulação, quando se discutiu se haveria ideias inatas, ou se todas as ideias derivam da sensação e da reflexão. A fim de provar que as ideias de extensão e de cor não são inatas, os filósofos nada mais fazem que mostrar que elas são transmitidas por nossos sentidos. Para provar que as ideias de paixão e desejo são inatas, eles observam que experimentamos previamente em nós mesmos essas emoções. A faculdade pela qual repetimos nossas impressões da primeira maneira se chama memória, e a outra, imaginação. Mas se examinarmos cuidadosamente esses argumentos, veremos que eles nada provam, senão que as ideias são precedidas por outras percepções mais vívidas, das quais derivam e as quais elas representam a existência.

Psicanalistas veem na história de Cinderela muito mais do que uma simples trama romântica. Por ter origem atemporal e ter surgido em várias civilizações diferentes, historicamente, a trajetória da protagonista traduziria uma espécie de “arquétipo fundamental”, traduzindo o anseio natural da psiquê humana em ser reconhecida de forma especial e elevada a uma existência superior. A literatura e o cinema, cientes disso, utilizaram-se de seu arco dramático para o desenvolvimento de inúmeras outras obras de apelo popular. Além das animações de Walt Disney, não é novidade que seu primeiro longa-metragem de animação foi Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937. A produção, que lançou o legado da animação Disney é, sem dúvidas, um marco estilístico que sempre buscaram inspiração nos contos de fadas e que merece destaque o filme Uma linda mulher, protagonizado por Julia Roberts, e que foi sucesso de bilheteria nos anos 1990. Como vimos, a trama socialmente gira em torno de Ana Santos, uma estagiária ignorada no trabalho. Mas muito predestinada ao redor do mundo da arte de Nova York, Estados Unidos da América, cuja vida social e carreira mudam quando, por acaso, ela é transferida para a primeira classe em um longo voo para Londres. Sociologicamente falando, esta é uma experiência, repentina e de mudança de hábito, mais luxuosa e robusta na oferta de serviços a bordo entre as classes do avião. - Um verdadeiro hotel 5 estrelas no ar. O ponto principal deste tipo de acomodação é a atenção customizada e de alto nível.

Cinderela era filha de um comerciante rico. Depois que seu pai morreu, sua madrasta tomou conta da casa que era de Cinderela. Cinderela então, passou a viver com sua madrasta malvada, junto de suas duas filhas que tinham inveja da beleza de Cinderela e transformaram-na em um serviçal. Ela tinha de fazer todos os serviços domésticos e ainda era alvo de deboches e malvadezas. Seu refúgio era o quarto no sótão da sua própria casa e seus únicos amigos: os animais da floresta. Um belo dia, é anunciado que o Rei realizará um baile para que o príncipe escolha sua esposa dentre todas as moças do reino. No convite, distribuído a todos os cidadãos, havia o aviso de que todas as moças deveriam comparecer ao Baile promovido pelo Rei. A madrasta de Cinderela sabia que ela era realmente a mais bonita da região, então disse que ela não poderia ir porque não tinha um vestido apropriado para a ocasião. Cinderela, então, costurou um vestido com a ajuda de seus amigos da floresta. Passarinhos, ratinhos e esquilos a ajudaram a fazer um vestido de retalhos, mas muito bonito. Porém, a madrasta não queria que Cinderela comparecesse ao baile de forma alguma, pois sua beleza impediria que o príncipe se interessasse por suas duas filhas. Sendo assim, ela e as filhas rasgaram o vestido, dizendo que não tinham autorizado Cinderela a usar os retalhos que estavam sendo jogados no lixo. Entretanto, na narrativa, fizeram isso de última hora, para impedir que a moça tivesse tempo para costurar outro e seguir em frente.

Muito triste, Cinderela foi para seu quarto no sótão e ficou à janela, olhando para o Castelo na colina. Chorou, chorou e rezou muito. De suas orações e lágrimas, surgiu sua Fada-madrinha que confortou a moça e usou de sua mágica para criar um lindo vestido para Cinderela. Também surgiu uma linda carruagem e os amiguinhos da floresta foram transformados em humanos, cocheiro e ajudantes de Cinderela. Antes de sua afilhada sair, a Fada-madrinha lhe deu um aviso: a moça deveria chegar antes da meia-noite, ou toda a mágica iria se desfazer aos olhos de todos. Cinderela chegou à festa como uma princesa. Estava tão bonita, que não foi reconhecida a não ser pela madrasta, que passou a noite inteira dizendo para as filhas que achava conhecer a moça de algum lugar, mas não conseguia dizer de onde. O príncipe, prontamente a viu, aproximando-se a convidou para dançar. Cinderela e o príncipe dançaram e dançaram a noite inteira. Conversaram e riram como duas almas gêmeas e logo se perceberam feitos um para o outro. Acontece que a fada-madrinha tinha avisado que toda a magia só duraria até à meia-noite e um minuto. Quando o relógio badalou as doze batidas e um minuto, Cinderela teve de sair correndo. 

 Foi quando deixou um dos seus sapatinhos brilhantes de cristal na escadaria. O príncipe, muito preocupado por não saber o nome da moça, ou como reencontrá-la, pegou o pequeno sapatinho e saiu percorrendo os caminhos em sua busca no reino e em outras cidades. Muitas moças disseram ser a dona do sapatinho, mas o pé de nenhuma delas se encaixava no objeto. Quando o príncipe bateu à porta da casa de Cinderela, a madrasta trancou a moça no sótão da casa e deixou apenas que suas duas filhas experimentassem o sapatinho. Apesar das feiosas se esforçarem, nada do sapatinho de cristal servir. Foi quando um ajudante do príncipe viu que havia uma moça na janela do sótão da casa. Conquanto sob as ordens do príncipe, a madrasta teve de deixar Cinderela descer. A moça experimentou o sapatinho, mas antes mesmo que ele servisse em seus pés, o príncipe estupefato, já tinha dentro do seu coração a certeza impressionante de que por suposto havia reencontrado para o amor de sua vida. Cinderela e o príncipe se casaram em uma linda cerimônia, e anos depois se tornariam Rei e Rainha, famosos pelo coração e pelo senso de justiça. Cinderela e o príncipe foram felizes para todo o sempre.

Ana é uma estagiária jovem que sonha com uma carreira no mundo das artes enquanto tenta impressionar sua chefe exigente, Claire. Por causa do alto custo de vida em Nova York, Ana acaba morando com sua irmã Vivian e o namorado, Ronnie, egoísta que mormente implora para ela se mudar, ao invés de acolhê-la nessa fase de transição na vida cotidiana e profissional. Durante um leilão de arte no trabalho, Ana percebe um erro grave de digitação no catálogo e avisa Claire antes dele ser vendido. Devido esse feito, Claire convida Ana para uma viagem de trabalho a Londres “para servir como assistente de suas assistentes”. Suzette e Renee, as duas assistentes de Claire, sabotam a viagem de Ana ao esperar que todos embarquem no voo para informá-la de que reservaram para Ana uma passagem de voo econômica, em um voo que sairá quatro horas depois. Entretanto, bilheteira presencia os maus-tratos e faz o upgrade da passagem de Ana para a primeira classe. Enquanto estava na sala da primeira classe, um telefonema faz com que Ana derrame sua bebida em um rapaz rico chamado William. Os dois acabam sentados um ao lado do outro no voo e se dão bem, mas Ana tergiversa para William fazendo-o acreditar que ela é a diretora de arte do escritório de sua empresa em Nova York. Impressionado, ele apresenta Ana à sua mãe, Catherine, uma famosa celebridade britânica.

            O oportunismo crasso é evidente entre Suzette e Renee que continuam a sabotar e perturbar Ana, atribuindo-lhe um escritório em um porão em construção e um quarto em um hotel espelunca e mais barato. Ana recebe uma mensagem de voz informando que ela deixou seu laptop no carro de William. É uma deriva da aglutinação dos termos em inglês “lap” (colo) e “top” (em cima), que tem como significação “em cima do colo”, em contrapartida ao desktop que significa, literalmente, “em cima da mesa”. Naquela noite, ela vai até a casa de Catherine pegar seu laptop e se vê no meio de uma festa in partibus infidelium. Lá ela vê a extensa coleção de arte de Catherine, reconhece um pintor famoso e continua a enganar sobre ser diretora de uma casa de leilões de Nova York. Suzette e Renee têm a tarefa de conseguir ingressos de última hora para uma apresentação do “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare, uma comédia escrita em meados de 1590, enquanto transferem tarefas para Ana. Desesperada para conseguir ingressos para impressionar Claire, Ana visita William, que treina uma liga de futebol em “situação de risco”. Sua carga horária de trabalho faz com que ela recuse um convite para almoçar, mas William lembra a ela que haverá uma festa naquela noite e que sua mãe, Catherine, quer que Ana compareça e que ele gostaria de marcar um Encontro.

Suzette é obrigada a admitir que não conseguiu os ingressos e fica ainda mais constrangida quando Ana aparece e entrega os ingressos para Claire. As tensões no ambiente aumentam à medida que Gerard, o diretor de arte do escritório de Paris, e Claire disputam o cargo de diretor-chefe da empresa. Ana comparece à festa com um vestido de grife que ela pegou “emprestado” de Claire. Quando de repente ela vê Claire chegar com Suzette e Renee, ela fica com medo de que sua mentira seja revelada e tenta fugir. Will vai atrás dela antes que ela vá embora e a leva para dançar em um bar local. No final da noite, Ana, envergonhada com o local onde está hospedada, faz com que William a deixe no hotel chique de Claire. Antes de ir embora, William confessa que está se apaixonando por ela. Na semana seguinte, Ana e William continuam a passar tempo juntos, ficando cada vez mais próximos. Ele diz a ela que sabe que o trabalho dela é importante e que combinou a transferência de seu trabalho para Nova York para que eles possam continuar o relacionamento. No escritório, Claire elogia o trabalho duro de Ana e garante que haverá uma promoção para ela no futuro. Renee interrompe a reunião para revelar que uma grande cliente acaba de desistir do próximo leilão. Quando é revelado que a cliente é Catherine, William, nesse mesmo momento, chega para surpreender Ana no trabalho e levá-la para almoçar. Ela o arrasta para fora do prédio e William desconfia com razão do comportamento dela, dizendo que não teve nada a ver com a decisão de sua mãe.

Ele questiona se Ana o estava usando apenas para garantir a venda da mãe e termina com ela. Quando Ana volta para o prédio, acaba sendo confrontada por Claire, que descobriu suas mentiras e seu relacionamento com a família de William. Ela é demitida e escoltada para fora do prédio. Ana visita Catherine e confessa a verdade. Em vez de ficar chateada, Catherine se orgulha de Ana por sua honestidade e boa atuação, e concorda em voltar ao leilão com a questão incondicional de que Ana seja quem cuidará da venda. Ana é recontratada e consegue vender a arte de Catherine por muito mais valor do que o esperado. Ela volta ao campo de futebol e pede desculpas a William, que diz que não gostava dela porque ela era rica, mas porque a achava uma pessoa honesta. Ana volta para Nova York e passados seis meses depois desta série de coincidências não tem mais notícias de William, mas, o melhor de tudo é que está prosperando. Ana dá uma festa para comemorar a inauguração de sua própria galeria de arte. No final da noite, depois que todos saíram, William chega com a mala e a surpreende dizendo que sentiu saudades e que irá ficar em Nova York. Os dois se beijam e acabam dormindo juntos.

Assim Hume sustenta que nossas ideias são imagens de nossas impressões, assim também podemos formar ideias secundárias, que são imagens das primárias. Não se trata de uma exceção à regra, mas de uma explicação. As ideias produzem as imagens de si mesmas que se reproduzem em novas ideias; mas como supomos que as primeiras são derivadas de impressões, continua sendo verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, de suas impressões correspondentes. Esse é o primeiro princípio que Hume estabelece na ciência da natureza humana. Pois cabe notar que a presente questão, a respeito da anterioridade de nossas impressões ou ideias, é a mesma que produziu tanto barulho sob outra formulação, quando se discutiu se haveria ideias inatas, ou se todas as ideias derivam da sensação e da reflexão. A fim de provar que as ideias de extensão e de cor não são inatas, os filósofos nada mais fazem que mostrar que elas são transmitidas por nossos sentidos. Para provar que as ideias de paixão e desejo são inatas, eles observam que experimentamos previamente em nós mesmos essas emoções. A faculdade pela qual repetimos nossas impressões da primeira maneira se chama memória, e a outra, mormente imaginação. Mas se examinarmos cuidadosamente esses argumentos, veremos que eles nada provam, senão que as ideias são precedidas por outras percepções mais vívidas, das quais derivam e as quais elas representam.

Melhor dizendo, que as ideias da memória são muito mais vivas e fortes que as da imaginação, e que a primeira faculdade pinta seus objetos em cores mais distintas que todas as que possam ser usadas pela última. Ao nos lembrarmos de um acontecimento passado, sua ideia invade nossa mente com força de uma expressão, ao passo que, na imaginação, a percepção humana é fraca e lânguida, e apenas com muita dificuldade pode ser conservada firme e uniforme pela mente durante todo o período considerável de tempo. Temos aqui uma diferença sensível entre as duas espécies de ideias. Mas há uma outra diferença, não menos evidente, entre esses dois tipos de ideias. Embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vívidas nem as fracas possam surgir na mente antes que impressões correspondentes tenham vindo abrir-lhes o caminho, a imaginação não se restringe à mesma ordem na forma das impressões originais, ao passo que a memória está de certa maneira amarrada quanto a esse aspecto, sem nenhum poder de variação. É evidente que a memória preserva a forma original sob a qual seus objetos se apresentaram. A principal função da memória não é preservar as ideias simples, mas precisamente sua ordem e posição. Esse princípio se apoia em aspectos comuns e vulgares do dia a dia que podemos nos poupar o trabalho de continuar insistindo nele. 

Como a imaginação pode separar todas as ideias simples, e uni-las novamente da forma que bem lhe aprouver, nada seria mais inexplicável que as operações dessa faculdade, se ela não fosse guiada por alguns princípios universais, que a tornam, em certa medida, uniforme em todos os momentos e lugares. Fossem as ideias inteiramente soltas e desconexas, apenas o acaso as ajuntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se reunissem de maneira regular em ideias complexas se não houvesse algum laço de união entre elas, alguma qualidade associativa, pela qual uma ideia naturalmente introduz outra. Esse princípio de união entre as ideias não deve ser considerado uma conexão inseparável, tampouco devemos concluir que, sem ele a mente não poderia juntar duas ideias – pois nada é mais livre que essa faculdade. Devemos vê-lo apenas como uma força suave, que comumente prevalece, e que é a causa pela qual, entre outras coisas, as línguas se correspondem de modo tão estreito umas às outras: pois a natureza de alguma forma aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideia complexa. As qualidades não dão origem a tal associação, e que levam a mente, dessa maneira, de uma ideia a outra, são três, a saber: semelhança, contiguidade no tempo e espaço, e causa e efeito. Dois objetos podem ser considerados como estando inseridos nessa relação, seja quando um deles é a causa de qualquer ação ou movimento do outro, seja quando o primeiro é a causa da existência do segundo.

Pois como essa ação ou movimento não é senão o próprio objeto, considerado sob um certo ângulo, e como o objeto continua o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil imaginar de que forma tal influência dos objetos uns sobre os outros pode conectá-los na imaginação. Podemos prosseguir com esse raciocínio, observando que dois objetos estão conectados pela relação causa e efeito não apenas quando produz um movimento ou uma ação qualquer no outro, no outro, mas também quando tem o poder de os produzir. Notemos que essa é a fonte de todas as relações de interesse e dever através dos quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade que se ligam pelos laços de governo e subordinação. Um senhor é aquele que, por sua situação, decorrente quer da força quer de um acordo, tem o poder de dirigir, sob alguns aspectos particulares, as ações de outro homem. Um juiz é aquele que, em todos os casos litigiosos entre membros da sociedade, é capaz de decidir, com sua opinião a quem cabe a posse ou a propriedade de determinado objeto. Quando uma pessoa possui certo poder, nada mais é necessário para convertê-lo em ação que o exercício da vontade; e isso, em todos os casos, é considerável possível, e em muitos, provável – especialmente no caso da autoridade, em qua a obediência do súdito é um prazer e uma vantagem para seu superior. Está claro que, no curso de nosso pensamento socialmente e na constante circulação de nossas ideias, a imaginação individual e coletiva passa facilmente de uma ideia a qualquer outra que seja, por conseguinte semelhante a ela.

Assim como existe o nascimento de uma semiologia e sociologia da celebridade e até mesmo mais recentemente, uma economia da celebridade e tal qualidade, por si só, constitui um vínculo afetivo e uma associação suficiente para a fantasia. É também evidente que, com os sentidos, ao passarem de um objeto a outro, precisam fazê-lo de modo regular, tomando-os sua contiguidade uns em relação aos outros, a imaginação adquire, por um longo costume, o mesmo método de pensamento, e percorre as partes do espaço e do tempo ao conceber seus objetos. Quanto à conexão realizada pela relação de causa e efeito, basta observar que nenhuma relação produz uma conexão mais forte na fantasia e faz com que uma ideia evoque mais prontamente outra ideia que a relação de causa e efeito entre seus objetos. Para compreender toda a extensão dessas relações sociais, devemos considerar que dois objetos coincidentemente estão conectados na imaginação humana. Não somente quando um deles é imediatamente semelhante ou contíguo ao outro, ou quando é a representação da causa. Mas quando entre eles encontra-se inserido um terceiro objeto, que mantém com ambos alguma dessas notáveis relações. Dentre as três relações mencionadas, a de causalidade é a de maior extensão.

Considerados em si mesmos, todos os objetos que Hume chama de causas e efeitos são tão distintos e separados uns dos outros quanto de qualquer outra coisa na natureza. Assim, somente pela experiência e observação de sua união constante somos capazes de fazer essa inferência. E, assim mesmo, a inferência não passa de um efeito do costume sobre a imaginação. Portanto, sempre que observamos a mesma união, e sempre que a união age da mesma maneira sobre a crença e a opinião, temos a ideia de causas e de necessidade, ainda que às vezes possamos evitar essas expressões. Dessa união constante, ela forma a ideia de causa e também de efeito e, por sua influência, sente a necessidade. De fato, quando consideramos quão adequadamente as evidências naturais e morais se aglutinam, formando uma cadeia única de argumentação, não hesitaremos em admitir que têm a mesma natureza e derivam dos mesmos princípios. A experiência da mesma união tem o mesmo efeito produzido sobre a mente, quer os objetos unidos sejam motivos, volições e ações praticamente, quer sejam figuras e movimentos. Podemos mudar os nomes das coisas, mas sua natureza e sua operação sobre o entendimento nunca mudam.

O entendimento se exerce de dois modos diferentes, conforme julgue por demonstração ou por probabilidade; isto é, conforme considere as relações abstratas entre nossas ideias ou as relações entre os objetos, que só conhecemos pela experiência. Como o seu domínio próprio é o mundo das ideias, e como a vontade sempre nos põe no mundo das realidades, a demonstração e a volição parecem estar, por esse motivo, inteiramente separadas uma da outra. O raciocínio abstrato ou demonstrativo, portanto, só influencia nossas ações enquanto dirige nosso juízo sobre causas e efeitos. É evidente que, quando temos a perspectiva de vir a sentir dou ou prazer por causa de um objeto, sentimos, em consequência disso, uma emoção de aversão ou de propensão, e somos levados a evitar ou abraçar aquilo que nos proporcionará esses desprazeres ou essa satisfação. Também é evidente que tal emoção não se limita a isso; ao contrário, faz que olhemos para todos os lados, abrangendo qualquer objeto que esteja conectado como o originalmente pela relação de causa e efeito. É que o raciocínio tem lugar para descobrir essa relação, e conforme nossos raciocínios variam, nossas ações sofrem uma variação subsequente. É a propensão de dor ou prazer que gera a aversão ou propensão ao objeto.

Uma vez que a razão sozinha não pode produzir nenhuma ação nem gerar volição, inferimos que essa mesma faculdade é igualmente incapaz de impedir uma volição ou de disputar nossa preferência com qualquer paixão ou emoção. Essa é uma consequência exatamente necessária. A única possibilidade de a razão ter esse efeito de impedir a volição seria conferido um impulso em direção contrária à de nossa paixão; e esse impulso, se operasse isoladamente, teria sido capaz de produzir a volição. Nada pode se opor ao impulso da paixão, ou retardá-lo, senão um impulso contrário; e para que esse impulso contrário pudesse alguma vez resultar da razão, esta última faculdade teria de exercer uma influência original sobre a vontade e ser capaz de causar, bem como de impedir, qualquer ato volitivo. Mas se a razão não possui influência original, é impossível que possa fazer frente a um princípio dessa eficácia (simbólica) ou que possa manter a mente em suspenso (abstrata) por um instante sequer. Quando nos referimos ao combate entre paixão e razão, lembra Hume, “a razão é e deve ser, apenas a escrava das paixões, e não pode aspirar a outra função além de servir e obedecer a elas”. A razão, querendo extinguir as paixões, torna-se per se, singularmente a paixão de si própria.

Uma paixão é uma existência original ou, uma modificação de existência; não contém nenhuma qualidade representativa que a torne cópia de outra existência ou modificação. A princípio o que pode se pensar sobre esse ponto é que, uma vez que nada pode ser contrário à verdade ou à razão exceto o que se refira a ela de alguma maneira, e uma vez que somente os juízos de nosso entendimento o fazem, deve-se seguir que as paixões só podem ser contrárias à razão enquanto estiverem acompanhadas de algum juízo ou opinião. De acordo com esse princípio, que é tão evidente e natural, um afeto só pode ser dito contrário á razão em dois sentidos. Primeiro, quando uma paixão, como a esperança ou o medo, a tristeza ou a alegria, o desespero ou a confiança, está fundada na suposição da existência de objetos que existem realmente. Segundo, quando, ao agirmos movidos por uma paixão, escolhemos meios insuficientes para o fim pretendido, e nos enganamos em juízos de causas e efeitos. Quando uma paixão não está fundada em falsas suposições, nem escolhe meios insuficientes para sua finalidade objetivamente, o entendimento não pode justifica-la, e muito menos nem condená-la. Não é contrário à razão, diz Hume, eu preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão em meu dedo.

Não é contrário à razão que eu escolha minha total destruição só para evitar o menor desconforto de um índio ou de uma pessoa que me inteiramente desconhecida. Tampouco é contrário à razão eu preferir aquilo que reconheço ser para mim um bem menor a um bem maior, ou sentir uma afeição mais forte pelo primeiro que pelo segundo. Um bem trivial imaterial pode, graças a certas circunstâncias, produzir um desejo superior ao que resulta do prazer mais intenso e valioso. Uma paixão tem de ser acompanhada de algum juízo falso para ser contrária à razão; e de fato, não é propriamente a paixão que é contrária à razão, mas o juízo. As consequências disso são evidentes, pois é impossível que razão e paixão possam se opor mutuamente ou disputar o controle da vontade e das ações. Assim que percebemos a falsidade de uma suposição ou a insuficiência de certos meios, nossas paixões cedem à nossa razão e sem nenhuma oposição. Enfim, é por isso que toda ação da mente que opera com a mesma calma e tranquilidade é confundida com a razão por todos aqueles que julgam as coisas por seu primeiro aspecto e aparência. Quando alguma dessas paixões é calma e não causa nenhuma desordem na alma, é facilmente confundida com as determinações da razão, e supomos que procede da mesma faculdade que a que julga sobre a verdade a falsidade. Supomos que sua natureza e princípios são os mesmos porque suas sensações não são evidentemente diferentes.

Bibliografia Geral Consultada.

BAECHLER, Jean, Qu`est-ce que L’Idéologie? Paris: Collection de Poche de Idées Gallimard, 1976; BAUDRILLARD, Jean, Da Sedução. Rio de Janeiro: Editora papirus, 1992; ROMANO, Vicente, Desarrollo y Progreso: Por una Ecología de la Comunicación. Barcelona: Editorial Teide, 1993; WEBER, Max, Ensaios de Sociologia. Org. e Introdução de Hans Gerth e Charles Wright Mills. Revisão Técnica de Fernando Henrique Cardoso. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974; Idem, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição revista. São Paulo: Editora Pioneira, 2003; ARON, Raymond, L`Opium des Intellectuelles. Paris: Editeur Hachette, 1991; Idem, O Marxismo de Marx. São Paulo: Editor Arx, 2005; HUME, David, Tratado da Natureza Humana. Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais. 2ª edição revista e ampliada. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 2009; BALIEIRO, Marcos Ribeiro, Essa Mistura Terrena Grosseira: Filosofia e Vida Comum em David Hume. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009; KIRALY, Cesar, Os Limites da Representação: Um Ensaio desde a Filosofia de David Hume. São Paulo: Giz Editorial, 2010; COMETTI, Jean-Pierre, Qu`est-ce que le Pragmatisme? Paris: Éditions Gallimard, 2010; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; LILTI, Antoine, A Invenção da Celebridade (1750-1850). 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018; OLIVEIRA, Juliana Michelli da Silva, A Vida das Máquinas: O Imaginário dos Autômatos em O Método de Edgar Morin. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; BRAGA, Ubiracy de Souza, “O Raciocínio Abstruso”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 11 de agosto de 2020; AZEVEDO, Thiago Vargas Escobar, As Sociedades e as Trocas. Rousseau, a Economia Política e os Fundamentos Filosóficos do Liberalismo. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2020; VARGAS, Thiago, A Filosofia da Fisiocracia. Metafísica, Política, Economia. São Paulo: Discurso Editorial, 2021; ELLWOOD-HUGHES, Pip, “Upgraded Review: Camila Mendes Leads a New Take on Cinderella”. Disponível em:  https://entertainment-focus.com/2024/02/08/; entre outros.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

História - Políticas Públicas & Imagem da Transparência Global.

                                                                                                    Ubiracy de Souza Braga*

                “Falar é uma necessidade, escutar é uma arte”. Johann Wolfgang von Goethe

            
            O pensamento grego dividiu o tempo da memória de seu passado, sobre o tempo da era heróica, durante o qual a tradição oral grega foi criada e mantida tendo como  resultado a criação de um passado mítico baseado em elementos que diferiam em caráter e precisão, cuja origem remontava a períodos de tempos esparsos. Essa tradição  transmitia e simultaneamente criava o passado. O principal objeto ocorreu com a formação e manutenção da identidade grega realizada pela criação da consciência e do orgulho pan-helênicos em que emerge um governo aristocrático e especialmente o direito da aristocracia de governar enfatizando às suas notáveis qualificações e virtudes. Trata-se de um processo de criação mítica que não termina no século VIII a. C., final do chamado período Homérico e quando se tem historicamente a formação da polis.  Ele continua presente na mitificação de indivíduos combinando elementos antigos com novas formas, adaptando-se às mudanças religiosas e políticas. A era pós-heróica é demarcada pelo interesse na preservação do passado remoto e mítico, todavia totalmente vivo na consciência grega e expressou-se pela conservação e repetição do mapa mítico. O passado heroico era alvo de uma atenção passiva que assegurava a sua manutenção na lembrança social, na versão aceita e perpetua-se nas gerações futuras por meio da preservação desse conhecimento e da sua permanente utilização.
Primeiro, o registro desse passado não dispunha de documentos nem arquivos de onde retirá-los, por essa razão foi preservado por meio da oralidade. No segundo momento, da oralidade à prática cultural, incluindo-se o registro etnográfico, tem-se a elaboração do universo ritual que fiel às origens da tradição, acaba por consolidar a relação fala-ação que consagra o princípio de que o mito é o principal veículo de comunicação da memória na sociedade grega. A condição significativa da mensagem criou a necessidade de comunicar-se. E assim funcionou como motor de todo tipo de codificações expressivas, sendo a linguagem e a escrita instrumentos de comunicação oral e escrita sujeitos as limitações de espaço e lugar e a sua transmissão através da distância entre o emissor e o receptor. Etnograficamente pode-se dividir em quatro fases a história da codificação de signos e fonemas aos serviços da relação inter-humana: mnemônica, pictórica, ideográfica e fonética. A primeira periodização se caracterizou pelo emprego de objetos reais como dados ou mensagens entre pessoas que viviam aparentemente alheios e não pertenciam ao mesmo sistema convencional de comunicação. Os antigos chineses, escreve Albert A. Sutton, e inclusivamente outras tribos primitivas mais recentes, utilizaram com muita frequência o quipo, cada um dos cordões nodosos uados pelos peruanos, no tempo da monarquia dos Incas, que formavam um método de análise mnemônico, fundado nas cores e ordem dos cordões, número e disposição dos nós, etc., para presentificar dias felizes, para servir como instrumentos de cálculo, ou guardas de recordações da memória dos mortos das tribos.
Na segunda, a comunicação se transmite mediante a pintura, a representação dos objetos. Estas gravuras aparecem não só na pintura rupestre, e também sobre objetos variados, tais como utensílios, armas ou artigos de valor empregados para o intercâmbio comercial. Na terceira, resulta de uma associação de símbolos pictográficos como objetos e ideias. Nesta fase, os signos se empregam cada vez mais na representação de ideias, numa progressiva separação da estrutura do objeto a comunicar e uma modelação cada vez mais simbólica que aproximará no signo alfabético, na escritura. A expressão ideográfica serviu para as formas primitivas de “relatos”, tal como podemos valorar na escritura ideográfica das culturas pré-colombianas ou mesopotâmicas, ainda que o máximo tipo cultural deste sistema de comunicação representou a escrita hieroglífica dos egípcios. A última se estabelece quando o signo representa um som, fora das palavras inteiras, de sílabas ou do que chamamos letras, como unidade fonética. A invenção cultural do alfabeto representou o ponto máximo da codificação da comunicação, propiciada precisamente por aqueles povos de maior desenvolvimento social e de maior interrrelação comercial com outros povos.

                          
O alfabeto era uma chave de intercomunicação e ao mesmo tempo um aríete de penetração cultural em mãos dos povos da antiguidade criadores das primeiras rotas de comércio marítimo e terrestres. A relação binômica entre comércio e comunicação social é delimitada por Gordon Childe (cf. Faulkner, 2007) nas civilizações orientais. Os artesãos livres podiam viajar com as caravanas buscando um mercado para seu ofício enquanto que os escravos formavam parte da mercadoria. Os forasteiros em um país estranho pediam os conselhos da religião. Uma cena esculpida em um jarro por um artista sumério descreve um culto índio que se celebrava em templo de Arrad. A descoberta de um templo monumental datado do final do século X e início do século IX a. C. surpreendeu arqueólogos em Israel. A existência do complexo religioso, situado onde ficava a antiga cidade de Moza, contradiz textos bíblicos que abordam aquele período da história da religião. Se os cultos se transmitiam, as artes e os ofícios úteis podiam difundir-se com análoga facilidade. O intercâmbio promoveu a mancomunada experiência humana.  
Fosse qual fosse o sistema de signos empregados para a comunicação social necessitavam de um suporte material onde inscrever-se e a possibilidade de criar um âmbito de emissão e recepção. Desenvolveram-se sistemas paralelos de comunicação mediante escritura em todas as civilizações que haviam alcançado um parecido sistema de organização social e desenvolvimento cultural. Estes sistemas ajudam já a um forcejo tecnológico para melhorar os suportes essenciais dos materiais da escritura. Os egípcios empregaram o papiro a partir de uma matéria-prima de que dispunham abundantemente nas margens do fabuloso Nilo: a medula de velhos, que podia prensar-se, laminar-se e conservar os seus gravados durante muito tempo. Para começar, intercomunicar-se Alfabetos, tecnologia de escritura e os materiais para fazê-la possível. Os gregos aceitaram o alfabeto Fenício e na impossibilidade de dispor de pairos empregaram tabuletas de madeira coberta de cera. Os romanos adotaram novos suportes de escritura como o pergaminho ou a vitela. O (des)cobrimento do papel tardaria a chegar à Europa, mesmo com evidências que a China dispunha dele no ano 105. Ts`ai Lun comunicou ao imperador “um novo material sobre o qual era uma delícia escrever”.
O sistema social condiciona o sistema de comunicação. A comunicação sempre vem unida à existência da mudança de mercadoria e à busca de matérias-primas que já mobilizou aos antigos. As rotas comerciais e de expansão imperial depredatória da antiguidade foram autênticos canais informativos, lentos e precários, que abasteceram aos homens de um conhecimento aproximado dos limites do mundo reconhecido e das tentações dos outros considerados desde cada especial forma de etnocentria. Os sistemas de correio e a comunicação ligada a sociedades em processos de mudança social formam os primeiros instrumentos de comunicação internacional. Os editos e decretos, os primeiros instrumentos de comunicação intracomunitária. Uns e outros instrumentos nasceram com a associação humana e só foram qualitativamente modificados quando apareceu a imprensa. Todo processo de trabalho é um processo de comunicação, embora nem toda comunicação represente trabalho social. A impressão de regressão que suscita o trânsito do Império Romano e a fragmentação política seguinte se vê alimentada, sobretudo pelo evidente obstáculo cultural. Contudo, ainda que no marco político e econômico da evolução histórica, sua queda é consequência do enfraquecimento entre a organização do Estado e as necessidades objetivas (materiais) dos homens e das comunidades societárias submetidas à superestrutura jurídico-política imperial.   
A comunicação com o Oriente e a própria dinâmica da produção e o comércio empurraram a Europa da Baixa Idade Média a uma série de descobrimentos técnicos que afetaram o sistema de comunicação social global. O passo da Idade Média ao Renascimento é uma mera convenção didática, last but not least, sobre a extraordinária produção historiográfica sobre este período histórico-sociológico. Ipso facto, a imprensa nasceu quando um tipo móvel suscetível de alinhar-se para compor palavras, linhas, depois de tingida a composição, se reproduzia sobre o papel mediante pressão. Em todo o século XV ocorreu uma série de acasos tecnológicos ni tipo móvel de Gutemberg. Mas, previamente a aparição da Bíblia impressa por Gutenberg, em 1546, em Manguncia, já se conheciam amostras de impressão baseada na utilização de tipos móveis. Contudo, a imprensa incidiu inicialmente mais no terreno da literatura que da informação propriamente. Quando apareceu a imprensa, a informação escrita tinha certamente relevância história. Toda tecnologia tende a criar um novo mundo. A escritura e o papiro criaram o ambiente para os impérios do mundo antigo. O estudo da Reforma, Contra-Reforma e lutas religiosas, apresentaram grande interesse no processo de comunicação: o rastro de uma e outra intransigência é sangrento. Os católicos mataram Giordano Bruno, e os protestantes via Calvino, mataram Miguel Servet.     
A importância ideológica do Areópago de Milton deve ser medida por sua equidistância com os protestos gregos contra a repressão intelectual e os primeiros teóricos da relação entre o poder e a liberdade de expressão: o Areópago, representa um tribunal de justiça ou conselho, célebre pela honestidade e retidão no juízo, que funcionava a céu aberto no outeiro de Marte, antiga Atenas, desempenhando papel importante em política e assuntos religiosos. O Areópago é uma ilhota teórica em um imenso oceano que tem, de um lado, os sofistas gregos, e de outro, Jefferson e Stuart Mill, do liberalismo burguês. Napoleão compreendeu que devia manietar os meios de comunicação social se quisesse criar uma imagem imaculada do poder pessoal. Visível cabeça dessa nova classe dirigente levou esse medo ao nível característico do terror do ditador à sua própria imagem. O capitalismo em expansão necessitava desenvolvimento tecnológico e científico. Necessitava de mão-de-obra mais culta e especializada para a complexidade do processo industrial. Necessitava, além disso, saltar barreiras de níveis políticos do protecionismo econômico e comercial para sua expansão imperialista.
Todos os colonizadores em todos os tempos sempre tiveram sob seu domínio o controle da informação. Palavra aparentemente vaga, mas que contém o princípio, desde as suas origens, de um conhecimento relativo a um sujeito mais ou menos conhecido. Isto porque concordamos como o fato de que a experiência histórica nos ensina que frequentemente as ideias nascem, e ficam adormecidas durante séculos, para serem renascidas, quando o homem antropologicamente tiver evoluído o suficiente, até obter consciência de sua grandeza ou da utilidade de sua aplicação. A palavra fenomenologia, ao que tudo indica, foi usada pela primeira vez pelo matemático e filósofo suíço-alemão Johann Heinrich Lambert e, posteriormente, com sentido distinto, através da dialética, por G. W. Friedrich Hegel, na sua Fenomenologia do Espírito, de 1807. Dessa forma, a Eileintung (Introdução) à Fenomenologia foi concebida ao mesmo tempo em que a obra e redatada em primeiro termo. Parece, pois, que encerra o primeiro pensamento do que saiu toda a obra.
Verdadeiramente constituem uma Introdução em sentido literal aos três primeiros momentos de toda a obra, isto é: a consciência, a autoconsciência e a razão, enquanto a última parte que contêm os particularmente importantes desenvolvimentos sobre o Espírito e a Religião ultrapassa por seu conteúdo a Fenomenologia tal como é definida stricto sensu na citada introdução. Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não fosse mais que teoria do conhecimento. E não obstante, a Fenomenologia, como tem assinalado alguns de seus melhores comentaristas, marca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Kant e de Fichte. E em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se é um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento, pois, nem o Absoluto poderia ser saber de si, nem o saber poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação.
Se a obra Fenomenologia representa o itinerário da alma que se eleva ao espírito por meio da consciência, fora de dúvida a idéia de semelhante itinerário foi sugerida a Hegel pari passu com a convergência entre as obras literárias, como também aquelas que nos parecem referidas como “novelas de cultura” tendo em vista a leitura feita sobre o Emílio, de Jean-Jacques Rousseau. O campo do possível é constituído historicamente: cada forma de sociabilidade, cada estilo de linguagem, escolhe, por assim dizer, os seus possíveis; a cada abertura, esboçada por uma linguagem particular, corresponde um fechamento que lhe é indissociável. O gênio nada pode contra as regras que secreta cada estrutura histórica. Ou seja, ao formar a coisa, forma-se a si mesmo. Além disso, que a formação prática é posta à prova no fato de que preenchemos as exigências de nossa profissão totalmente e em todas suas facetas. Nisso se inclui, porém, que se supere o estranho, o mito religioso da leitura, que ela apresenta para a particularidade que se é, e inclui fazer esse estranho totalmente seu. Entregar-se ao sentido universal da profissão é, ao mesmo tempo, saber limitar-se, ou seja, fazer de sua profissão uma questão inteiramente sua. Nesse caso, ela não será nenhuma limitação para ele.
O desenvolvimento industrial exigiu uma profunda comoção num sistema de comunicações global ligado a velha economia agrária e artesanal. No século XVIII se haviam lançado agressivas políticas de obras públicas com o objetivo de criar uma infraestrutura de redes viárias que estivessem á alturas das circunstâncias sociais. O interesse pelas ciências geológicas e geográficas nascido no século XVIII, biológicas no século XIX, e tão esplendidamente ultimado neste, era filho da necessidade de criar redes viárias, de converter o conhecimento geográfico em uma plataforma para a busca de fontes de matérias-primas, assim como a possibilidade analógica de um conceito de sociedade. Uma série de inventos e descobertas científicas permitiu dotar os melhores instrumentos, para lutar contra as limitações de tempos e espaço que Marx chama atenção para este fato a serviço da expansão industrial. As conquistas contra essas limitações seriam aproveitadas pelos meios de comunicação de massa, já desde o primeiro quartel do século XIX em condições de abastecer realmente a um público urbano, como demonstraram Friedrich Engels e alguns historiadores vis-à-vis este processo, perfeitamente configurado e o suficientemente culturizado para estar em condições sociais e tecnológicas de receber mensagens produzidas em série.              
As massas de trabalhadores urbanas, conforme acentuam, interessam como chave da opinião pública, como consumidores suscetíveis da persuasão: consumidores de ideias, produtos e projetos nacionais dos grandes líderes da economia e política que protagonizavam a expansão imperialista do século XIX, através de um novo passo no processo de mundialização da ordem capitalista, depois das cruzadas, da expansão ultramarina, da colonização e de outros processos da história. Por isso, a imprensa acaba por superar todas as limitações ao nível ideológico e se faz o impossível para que supere as limitações ao nível de estrutura, relacionadas com o vagar da tecnologia do século XIX, que a  caracterizara desde os grandes inventos do seiscentismo. O industrialismo necessita desenvolvimento tecnológico em suas estruturas comunicacionais para sobreviver e crescer segundo os imperativos de sua própria lógica interna. A interrrelação é clara entre o domínio democrático e transparente sobre o controle da informação na história. Outrossim, quando tomamos como objeto de reflexão o domínio da informação, devemos igualmente levar em conta as práticas sociais representadas na teoria em seus múltiplos efeitos, principalmente os referentes às mudanças ideológicas ou psicológicas, sobre os indivíduos e coletividades, grupamentos e classes sociais.
      Este fato histórico e social relativamente novo põe em jogo sistemas de informação e de manipulações psicológicas em grande escala, por meio dos meios de comunicação de massa, das sondagens, dos sistemas Welfare State que servem basicamente para designar o Estado assistencial. Contudo, pode-se afirmar que o que distingue o Estado do Bem-estar de outros tipos de Estado assistencial não é tanto a intervenção estatal na economia e nas condições sociais com o objetivo de melhorar os padrões de qualidade de vida da população, mas o fato dos serviços prestados serem considerados direitos dos cidadãos. Na universidade pública em geral e naquelas de formação autoritária, a guerra de movimento entre pesquisadores e alunos é tão evidente que tem mudado fundamentalmente as condições sociais de desenvolvimento da pesquisa, predominando o utilitarismo, em detrimento do especulativo e do fundamental. Mesmo Foucault, obcecado, como “confessou” com metáforas espaciais, imagina quando pressionado, quando e por que o espaço foi tratado como morto, o fixo, o não dialético, o imóvel, enquanto o tempo, pelo contrário, era riqueza, fecundidade, vida, dialética. Embora saibamos que estamos longe de qualquer referência às simples formas geométricas. A casa vivida não é uma caixa inerte. O espaço habitado transcende o espaço geométrico.
O cenário para seu nascimento não pode ser mais bem escolhido nem mais significativo do que seu apadrinhamento. No primeiro caso, o autoritarismo refere-se  aos regimes e instituições políticas que privilegiam a autoridade governamental e diminuem de forma mais ou menos radical o consenso, concentrando o poder político e colocando em posição secundária as instituições representativas. Assim, em sentido amplo fala-se de regimes autoritários para designar regimes antidemocráticos, a partir de um raciocínio linear onde é dada mais importância à oposição entre autoritarismo e democracia que à própria definição do conceito de autoritarismo. Através desta oposição, afirma Martins (1999), denuncia-se as restrições ao pluralismo partidário, a formação de estamentos burocráticos relativamente distantes das pressões sociais e a extensão exagerada da concepção de territorialidade do Estado com efeitos inibidores sobre a organização espontânea de movimentos sociais e empresariais urbanos no campo da sociedade civil. No debate político brasileiro, as análises sociais sobre personalidades autoritárias são produzidas nos universos de teorias como a concepção weberiana livre de julgamentos de valor e a freudiana, contrariamente,  retida no inconsciente, que permitem uma análise comportamental certamente mais bem detalhada.
A constatação de que as experiências autoritárias possuem certas características comuns, exempli gratia, decorre da centralidade do princípio da autoridade, existência de um comando apodítico e obediência incondicional são insuficientes à medida que podemos argumentar serem essas características compartilhadas por experiências democráticas, desde que haja um acordo político entre os indivíduos-cidadãos. No fundo, a questão é de saber como se dá representação de autoridade no interior dos sistemas de poder. Essas imprecisões reproduzem as próprias limitações do conceito de autoridade tal como é normalmente apresentado pelos cientistas políticos. Por outro lado, vemos que um problemático processo de reativação de certos “conflitos arcaicos” (racistas, étnicos, religiosos, fundamentalistas, corporativistas entre outros) emerge por trás dos signos aparentemente alvissareiros de uma cultura de massa mundial, acompanhando a fragmentação das antigas referências culturais nacionais, regionais e locais. Curiosamente o imaginário clânico tem como símbolo central a figura histórica e polêmica do colonizador e não a do colono. Por conseguinte, a representação imaginária do poder instituinte necessário à organização da política volta-se para o culto da tradição patrimonialista e de uma ancestralidade amplamente confusa. O imaginário moderno brasileiro é, assim, profundamente marcado pelo poder de certas elites que não se comportam propriamente como classes socioeconômicas, mas como oligarquias despóticas, legitimadas a partir da interpretação social de uma multiplicidade de fatores: econômicos, financeiros, políticos, burocráticos, militares e religiosos.
Por outro lado, no contexto comparativo no continente latino-americano, segundo Pagani e Schommer (2017), está a desigualdade social e a tensão decorrente da fragmentação socioeconômica de seus territórios, como na maior cidade brasileira, São Paulo, e na segunda maior cidade argentina, Córdoba, que são expressões dessas características. São também cidades historicamente dinâmicas em termos culturais, econômicos e políticos. Lugares de intensa produção de conhecimentos e de inovações em cidadania e democracia, e endereço de universidades importantes em seus países. Accountability que, no contexto democrático, refere-se, sobretudo “à responsabilização política dos governantes em relação à sociedade”. Ao enfatizar a participação cidadã no processo de accountability, tais iniciativas remetem ao conceito de accountability social. Entre os principais achados, estão os diferentes papéis exercidos pelas universidades diante das iniciativas. Em ambos os casos, verificam-se (i) o apoio institucional e (ii) o aporte de metodologias e conhecimentos especializados, sendo esse apoio e esse aporte mais evidentes, contínuos e institucionalizados em Córdoba do que comparativamente em São Paulo. Em Córdoba, há (iii) contribuição financeira das universidades e (iv) envolvimento direto e continuo de próceres reitores, professores e estudantes das universidades no grupo coordenador e em atividades da rede social comunicativa.
A autonomia conferida às universidades não significa que sejam independentes do contexto cultural em que se inserem. No atual cenário global, particularmente na América Latina, a relação da universidade com a sociedade é fustigada. A formação de uma cidadania responsável e o fortalecimento da esfera pública constituem fatores decisivos na elaboração de pautas sociais e modelos de comprometimento da iniciativa da universidade. Em síntese, o envolvimento das universidades em iniciativas da sociedade civil em cidades latino-americanas, especialmente aquelas voltadas à informação, cidadania e accountability social, pode gerar transformações sociais e institucionais, na medida em que potencializa a produção de conhecimento chamado pluriversitário, interdisciplinar e contextualizado. Interessa, portanto, as autoras da pesquisa, observar como ocorre essa interação em cidades específicas, quais os fatores que explicam as diferenças entre uma e outra, e quais os efeitos da interação entre universidade e iniciativas da sociedade civil na atuação de ambas. A presente pesquisa caracteriza-se como exploratória, descritiva e explicativa, de natureza qualitativa, uma vez que parte da observação dos fenômenos e hipóteses levantadas acerca dos diferentes papéis que podem ser exercidos pelas universidades em iniciativas da sociedade civil.
Os meios para a obtenção de dados técnicos estatísticos foram pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, observação direta não participante e entrevistas semiestruturadas individuais. Foram realizadas 18 entrevistas, no período de 7 a 17 de abril de 2015. Em Córdoba, foram 12 entrevistas e, em São Paulo, seis. Os atores pesquisados foram escolhidos com base em indicações de outros pesquisadores que já tinham envolvimento com as iniciativas estudadas. Optou-se por pessoas ligadas a diferentes instituições, de diferentes segmentos, e com clara atuação nas iniciativas. Quanto aos dados secundários, foram coletados documentos produzidos em meios impresso e digital, como jornais, relatórios técnicos, institucionais e de gestão, folders, cartilhas, apresentações institucionais e vídeos. Esses materiais permitiram obter dados sobre o contexto e características das iniciativas estudadas. Além disso, foram utilizados livros, revistas, anais, teses, dissertações e artigos relativos às iniciativas pesquisadas e outras semelhantes. Em 2015, mais de 700 organizações integravam a rede, que busca expandir-se de maneira horizontal. A iniciativa conta com lideranças comunitárias, entidades da sociedade civil, empresas e cidadãos interessados em participar. Em 2015, a Red Ciudadana Nuestra Córdoba constitui-se como espaço apartidário do qual participam cerca de 200 cidadãos, ligados a aproximadamente 60 organizações sociais.
Outra organização fundamental para a constituição da rede desde seu início é a Fundação Avina, que gera e apoia processos colaborativos que buscam a melhoria na qualidade dos vínculos entre empreendedores, empresas, organizações da sociedade civil, setor acadêmico e instituições governamentais. A fundação é um importante catalisador de informações sobre ações da Red Ciudadana Nuestra Córdoba e outras da América Latina, apoiando-as e fomentando suas iniciativas. Desde a fundação da rede, as universidades, especialmente a Nacional e a Católica, são membros do Grupo Coordenador e atuam intensivamente em várias frentes. Há, também, participação de outras universidades, como a Universidade Tecnológica Nacional, em algumas atividades. Rafael Velasco, Reitor da Universidade Católica de Córdoba - UCC quando da criação da Red Ciudadana Nuestra Córdoba, em entrevista, infere acerca de sua gestão coletiva diante da realidade da cidade de Córdoba. Para ele, o papel social refere-se à habilidade e efetividade de uma universidade responder às necessidades de transformações da sociedade em que está imersa. As funções de docência, investigação, projeção social e gestão interna devem estar alinhadas com a promoção da justiça, da solidariedade e da igualdade social, mediante a construção de respostas exitosas.
Quanto aos papéis exercidos pelas universidades diante das iniciativas, verificam-se, nos dois casos, (i) o apoio institucional e (ii) o aporte de metodologias e conhecimentos especializados, contribuindo para a legitimidade dessas iniciativas e para a produção de informações sobre a cidade. Tais contribuições ocorrem de variadas maneiras e em diferentes graus de intensidade nas duas cidades, sendo mais evidentes contínuas e institucionalizadas em Córdoba do que em São Paulo. Além disso, em Córdoba, há (iii) contribuição financeira das universidades para a Red Ciudadana Nuestra Córdoba e (iv) envolvimento direto e continuado de reitores, professores e estudantes das universidades no grupo coordenador e em atividades da rede, desde seu início até os dias atuais. Projetos e ações relacionados à rede foram institucionalizados nas universidades, que passaram a incentivar, inclusive financeiramente, o desenvolvimento de pesquisas e outras ações relacionadas aos desafios da cidade. Em Córdoba, a presença universitária contribui para a identidade e para a legitimidade da Red Ciudadana Nuestra Córdoba, uma vez que as universidades, que gozam de prestígio e confiabilidade na sociedade e entre os gestores públicos, foram promotoras de sua criação e integram o grupo coordenador. As universidades envolvidas desempenham um papel técnico, mas também político, especialmente por meio de seus reitores, lideranças historicamente reconhecidas na cidade e empenhadas pessoalmente na constituição da Rede Ciudadana Nuestra Córdoba.
          Além disso Córdoba pode ser considerada uma cidade universitária, dada sua relevância social e histórica, o número de instituições na cidade, e o volume de acadêmicos que vivem na mesma. Finalmente, com base na análise comparada nos casos de Córdoba e São Paulo, sintetizam-se alguns efeitos da interação entre universidade e iniciativas voltadas à informação, cidadania e accountability social nas cidades. Nas duas cidades, comparativamente, os entrevistados observam a importância de a universidade abrir suas portas e reconhecer outros saberes existentes na sociedade para alcançar mudanças na própria instituição e na realidade das cidades. Considerando a cidade como construção social coletiva e dinâmica, a articulação de diferentes saberes em cada cidade e as conexões entre elas geram efeitos em três âmbitos: I. Novos espaços institucionalizados de articulação de saberes e formas de produção de conhecimentos na cidade, a exemplo dos grupos de trabalho constituintes das iniciativas, dos fóruns plebiscitários e campanhas promovidas, e das pesquisas inclusivas de percepção cidadã, que geram processos e produtos, como dados relevantes sobre a cidade, indicadores, propostas de políticas, programas e ações sociais efetivas.
      II. Mudanças em instituições tradicionais como a universidade, o que é mais claramente visível no caso de Córdoba. Como exemplo, a Universidade Católica institucionalizou ações voltadas a Red Ciudadana Nuestra Córdoba, gerando mudanças em suas políticas de pesquisa e extensão. Conforme declaração dos entrevistados, especialmente gestores da rede e das universidades, bem como registros em documentos, como boletins e editais, observa-se avanços em interdisciplinaridade, em trabalhos envolvendo diferentes áreas, voltados a problemas da cidade, como o tratamento do lixo, por exemplo. III. Ampliação e reconfiguração de espaços institucionais de articulação entre governos e cidadãos, afetando a governança na cidade e os modos de coordenação social na cidade – as tradições, processos e instituições relativos ao exercício do poder na cidade. Mesmo que não se trate de avaliar impactos, tampouco de atribuir as mudanças em governança nas cidades apenas a essas iniciativas, há evidências de que isso ocorre. Uma das principais conquistas em ambas as cidades, e que se tornou exemplo para as demais, foi a aprovação da Lei do Plano de Metas, que busca garantir o compromisso dos representantes com as questões sociais da cidade.
Outros exemplos são os painéis apresentados com gestores públicos e especialistas em temas desafiadores para a cidade, com participação direta ou indireta das universidades. Criam-se, portanto, novas formas de accountability, todavia lembrando que nem tudo o que conta em educação é mensurável ou comparável, na cidade em função da ação dessas iniciativas voltadas ao engajamento dos cidadãos na solução dos problemas. Lançam-se novas formas de articulação entre democracia representativa e participativa, influenciando a concepção de políticas públicas – o que não significa homogeneidade ou ausência de conflitos. A universidade, como parte dessas iniciativas, contribui para esse processo nas cidades e também se transforma, a depender da intensidade e da natureza de seu envolvimento e interação com outros atores em cada local. O objetivo do trabalho foi identificar os diferentes papéis que a universidade pode desempenhar quando se envolvem em iniciativas da sociedade civil voltada a informação, cidadania e accountability social em cidades latino-americanas, particularmente nas iniciativas das entidades Rede Nossa São Paulo e igualmente da Red Ciudadana Nuestra Córdoba.
O protagonismo das universidades em cada iniciativa e em cada contexto social e político é variado. Os movimentos sociais urbanos por amor às cidades são uma oportunidade de engajamento e articulação entre teoria e prática, entre realidade e pensamento, e de aproximação político-afetiva das universidades em função de sua realidade. Quanto às limitações do trabalho, alguns pontos merecem destaque. Primeiramente, o número de entrevistados em cada cidade foi diferente. Isso se deve, especialmente, ao fato de, em Córdoba, as principais instituições envolvidas, como foi dito, serem as universidades, e, portanto, houve um interesse especial pelo tema por parte dos representantes. Já como ocorreu em São Paulo, encontrou-se dificuldade de contato social com representantes ligados às universidades, ficando limitado a poucos deles. Outra limitação decorreu do número de casos estudados, dadas as limitações de tempo e recursos. Diferentes casos podem vir a ser estudados, abordando-se outros possíveis papéis desempenhados pelas universidades em diferentes contextos.

Bibliografia geral consultada.

MARTINS, Paulo Henrique Novaes, “Cultura Autoritária no Brasil”. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Revista de Ciências Sociais. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza. Volume 30, n°s ½, 1999; LUHMANN, Niklas, Confianza. Barcelona: Ediciones Anthropos, 2005; FAULKNER, Neil, “Gordon Childe and Marxist Archaelogy”. In: http://isj.org.uk/28/09/2007; ALBUQUERQUE, Tiago Paz e, A Representação Social da Perfeição na Memória das Personalidades do Espiritismo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2009; Platão, Apologia de Sócrates. Tradução e apêndice Maria Lacerda de Moura. Rio de Janeiro: Edição Nova Fronteira, 2011; CASTELLS, Manuel, “El Poder de las Redes”. In: Vanguardia Dosier, n° 50, enero-marzo 2014; PAGANI, Camila; BIAVAS, Luisa, “O Papel Social da Universidade: O Caso da Rede Ciudadana Nuestra Córdoba”. In: XVI Coloquio Internacional de Gestión Universitaria, 23, 24 y 25 de noviembre de 2016; RODRIGUES, Karina Furtado, “Desvelando o Mito da Transparência nas Democracias”. In: XL Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração. Costa do Sauipe – BA, de 25 a 28 de setembro de 2016; PAGANI, Camila; SCHOMMER, Paula Chies, “Relação Universidade e Sociedade: Informação, Cidadania e Accountability nas Cidades de Córdoba e São Paulo”. In: Cadernos de Gestão Pública, vol. 22, pp. 103-125; 2017; TROCADO, Luís Freire de Andrade, A Santa da Escuridão. Uma Leitura da Noite Espiritual de Santa Teresa de Calcutá. Dissertação de Mestrado Integrado em Teologia. Faculdade de Teologia. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2019; ANJOS, Silvestre Gomes dos, O PROUNI como Política Pública: Constitucionalismo, Renúncia Tributária e Transparência da Ação Administrativa. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Direito e Políticas Públicas. Faculdade de Direito. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2020; OLIVEIRA, Daniel José Silva, Governo Aberto: Análise de Políticas Públicas sob os Princípios de Transparência, Participação e Colaboração. Tese de Doutorado. Programa ede Pós-Graduação e Pesquisas em Admninistração. Faculdade de Ciências Econômicas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2020; entre outros.