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sábado, 2 de novembro de 2019

Madre Pascalina, Papa Pio XII & Viés do Fascismo Clerical.


                                O pecado do século é a perda do sentido do pecado”. Papa Pio XII


No mundo visível e inteligível da Igreja Católica, existem muitas histórias de indivíduos notáveis ​​cujas contribuições deixaram um impacto duradouro na fé. Uma dessas pessoas foi Madre Pascalina Lehnert (1894-1983), que serviu como secretária pessoal do Papa Pio XII durante anos. Embora o seu nome possa não ser tão conhecido como o de outras figuras-chave na história da Igreja, a sua história é ao mesmo tempo notável. Desde os seus primeiros dias como jovem freira até à sua ascensão para se tornar uma das confidentes mais confiáveis​​do Papa, a jornada de Madre Pascalina tornou-se um testemunho do efeito de poder da fé e da expressão de uma serva dedicada. No mundo da Igreja Católica, existem muitas histórias de indivíduos notáveis ​​cujas contribuições deixaram um impacto duradouro na fé. Uma dessas pessoas foi Madre Pascalina Lehnert, que serviu como secretária pessoal do Papa Pio XII durante anos. Embora o seu nome possa não ser tão conhecido como o de outras figuras-chave na história da Igreja, a sua história é ao mesmo tempo notável. Desde os seus primeiros dias como jovem freira até à sua ascensão para se tornar uma das confidentes mais confiáveis ​​do Papa, a jornada de Madre Pascalina tornou-se testemunho do poder da fé e de uma serva dedicada. Josefina Lehnert nasceu em 1894 na Baviera, Alemanha.

Ela foi a sétima menina de doze filhos de George e Maria Lehnert, que eram agricultores. Aos 15 anos ingressou no convento das Irmãs da Santa Cruz Menzingen, assumindo o nome de Irmã Pascalina. Em 1930, Irmã Pascalina foi enviada a Roma para trabalhar para o Cardeal Eugenio Pacelli (1875-1958), então Secretário de Estado do Vaticano; ela reconheceu o homem que posteriormente se tornaria o extraordinário Papa Pio XII. Pacelli ficou impressionado com as habilidades organizacionais, sua inteligência e sua lealdade pertinente à Igreja católica. Ele se tornaria Papa Pio XII, e Irmã Pascalina primus inter pares serviria como secretária pessoal até a morte do Pontífice. Pio XII foi eleito Papa em 1939 e, em poucos meses, nomeou Irmã Pascalina como sua secretária pessoal. Ela foi a primeira mulher a ocupar este cargo e a sua nomeação causou alguma controvérsia conservadora no Vaticano. No entanto, o Papa Pio XII estava convencido das suas capacidades e que precisava de alguém em quem pudesse confiar quase completamente neste importante papel. Irmã Pascalina era responsável por administrar a agenda do Papa, responder a correspondência e até preparar suas refeições. Ela se tornou um membro absolutamente indispensável do círculo íntimo do Papa, e ele confiava totalmente nela.              

Pio XII, nascido Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, em Roma, em 2 de março de 1876, foi eleito Papa no dia 2 de março de 1939 até a data da sua morte em 1958. Foi o primeiro Papa Romano desde 1724. O único do século XX a exercer o Magistério Extraordinário da Infalibilidade papal, invocado por Pio IX, quando definiu o dogma da Assunção de Maria em 1950 na sua encíclica Munificentissimus Deus. Ao todo criou 57 cardeais em dois consistórios. Foi educado no Liceu Visconti, uma instituição pública. Em 1894 começou a estudar teologia na Universidade Gregoriana, como pensionista do Colégio Capranica, e um ano de filosofia na Universidade La Sapienza de Roma (1895-96). O Almo Collegio Capranica é o mais antigo colégio romano, fundado em 1457 pelo cardeal Domenico Capranica em seu próprio palácio para 30 jovens clérigos, incialmente, que receberam uma educação adequada para a formação ao sacerdócio. Em 1899, ingressa no Instituto Apollinare da Pontifícia Universidade Lateranense, onde obteve três licenças, uma de teologia e outro in utroque jure (direito civil e direito canônico). No Seminare, por motivos de saúde é autorizado a pernoitar na casa dos pais. Iniciou os trabalhos apostólicos na igreja de Santa Maria Vallicella integrando um grupo de jovens. Foi ordenado sacerdote em 2 de abril de 1899 pelo bispo Monsenhor Francesco di Paola Cassetta, um amigo da família.  
A Questão Romana tinha causado problemas históricos para os líderes do país desde que o Reino da Itália formado das cinzas dos Estados papais em 1861, engolira Roma, em seu ersatz nove anos mais tarde. Durante um milênio, os papas haviam governado uma larga faixa da península italiana, na conjuntura política da unificação do país, estendendo-se de Roma para o norte, passando pela Úmbria e Ferrara, até à Bolonha. Em 1860 quando os Estados Papais desmoronavam, Pio IX excomungara o rei da Itália e anunciara que “nenhum católico poderia reconhecer o governo”. Durante as três décadas seguintes, Pio IX e seu sucessor Leão XIII, tinham procurado uma maneira de recuperar a Cidade Eterna, uma ideia expressa por poetas escritores da Roma Antiga. No mundo antigo, foi sucessivamente a capital do Reino de Roma, da República Romana e do Império Romano e é considerada um dos berços da civilização ocidental. Desde o século I, a cidade é a sede do papado e no século VIII a cidade tornou-se a capital dos Estados Pontifícios, que duraram até 1870. Em 1871, Roma se tornou a capital do Reino da Itália e em 1946 da República Italiana. O conflito contínuo criava complicações nas relações internacionais para o novo Estado italiano, pois líderes dos países católicos relutavam conditio sine qua non em visitar sua capital. O papa não os receberia se eles visitassem autoridades do governo italiano, mas ir a Roma e não prestar homenagem ao Santo Padre significava correr o risco de sofrer consequências morais desagradáveis. Na virada do século, as questões sociais começaram a mudar. Alarmado com o rápido crescimento do movimento socialista europeu, Pio X, revogou a norma que proibia os católicos de votarem e concorrerem a cargos públicos nacionais.


                   
O sacerdócio ministerial de sacerdotes e bispos católicos tem uma história social distinta. Este sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio de todos os crentes e envolve a consagração direta de um homem a Cristo através do sacramento da ordem, para que ele possa agir na pessoa de Cristo para o bem dos fiéis, sobretudo na dispensação dos sacramentos. Entende-se ter começado na Última Ceia, quando Jesus Cristo instituiu a Eucaristia na presença dos Doze Apóstolos, ordenando-lhes, “fazei isto em memória de mim”. O sacerdócio católico é uma representação da participação no sacerdócio de Cristo e delineia as suas origens históricas para os Doze Apóstolos nomeados por Cristo. Os apóstolos, por sua vez, selecionaram outros homens para sucedê-los, como os bispos das comunidades cristãs, com os quais foram associados presbíteros e diáconos. Como as comunidades se multiplicaram e cresceram em tamanho, os bispos nomeavam mais presbíteros para presidir à Eucaristia em seus lugares nas comunidades em cada região. Os diáconos evoluíram como os assistentes litúrgicos do bispo e de seus representantes, para a administração dos fundos da Igreja e programas de auxílio aos pobres, como verdadeiros discípulos daquele que não veio para ser servido, mas dialeticamente para servir, e viveu no meio de seus discípulos com quem serve. Segundo Tornielli (2007), existe um vínculo entre Eugenio Pacelli e o mistério da Virgem Maria.
          Desde criança, sugerindo ideias que vão além de seu sentido usual, Eugenio Pacelli era devoto e estava inscrito na Congregação da Assunção, que tinha a capela perto da Igreja do Jesus. Uma devoção que parecia profética, já que foi precisamente ele quem declarou o dogma da Assunção em 1950. O futuro Papa celebrou sua primeira Missa como sacerdote em 3 de abril de 1899, no altar do ícone de Maria Salus Populi Romani, na capela Borguese, da Basílica de Santa Maria a Maior. Eugenio Pacelli recebeu a ordenação episcopal do Papa Bento XV que, “apesar de ser um homem baixo, frágil e que mancava desde criança – os mexeriqueiros do Vaticano chamavam-no de o pequeno -, não era velho e gozara de boa saúde durante os sete anos em que ocupara o trono de São Pedro” (cf. Kertzer, 2017: 34),  na capela Sistina, em 13 de maio de 1917, dia da primeira aparição da Virgem em Fátima. Em 1940, na qualidade de pontífice, reconheceu definitivamente as aparições de Fátima, e em 1942 consagrou o Coração Imaculado de Maria. Encontrou-se muitas vezes com Irmã Lúcia, e lhe solicitou que transcrevesse as mensagens recebidas de Nossa Senhora, convertendo-se, no primeiro pontífice em reconhecer, com sabedoria, aquilo que durante anos foi conhecido como o “terceiro segredo”, e que João Paulo II divulgou. Em 1º de novembro de 1950, com a Bula Munificentissimus Deus, Pio XII proclamou o dogma da Assunção, como cumprimento do dogma da Imaculada Conceição. Pio XII, herói ou vilão? Papa Francisco promete abrir os arquivos do Vaticano.
 

Depois de dois anos como cura da Chiesa Nuova, onde fora sacristão, em 1901, ingressou na Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, responsável pelas relações internacionais do Vaticano, por recomendação do cardeal Vincenzo Vannutelli. Durante o conclave de agosto de 1903, Eugenio Pacelli assiste o Imperador, Francisco José I da Áustria, opor pela última vez um veto à eleição de um cardeal a papa, ocorrido contra o Cardeal Rampolla. Em 1904, foi nomeado pelo Cardeal Pietro Gasparri secretário da Comissão para a codificação do direito canônico, e por sinal de confiança do papa, tornou-se também camareiro de Sua Santidade. Publicou um estudo sobre “A Personalidade e territorialidade das leis, especialmente no direito canónico”, em seguida, publicou um “Livro Branco” sobre “A separação entre Igreja e Estado na França”. Entretanto, Pacelli declina do convite para lecionar em inúmeras cadeiras de Direito Canônico, como no “Apollinaire” e na Universidade Católica de Washington. Aceita, não ensinar na Pontifícia Academia Eclesiástica, sementeira da Cúria Romana, que se dedica ao apoio logístico à ação papal, à diplomacia e à gestão política. Em 1905, foi promovido por reconhecimento, a prelado doméstico de Sua Santidade. Neste ano a separação entre a igreja e o Estado é aprovada pelo Senado francês como consequência da resposta às críticas do papa Pio X. 
Foi escolhido pelo papa Leão XIII para apresentar as condolências em nome do Vaticano a Eduardo VII do Reino Unido (1841-1910) pela morte da Rainha Vitória. Em 1908 representou o Vaticano no Congresso Eucarístico Internacional em Londres onde esteve com Winston Churchill. Em 1911, representou a Santa Sé nas cerimônias de coroação de George V e foi nomeado Subsecretário para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários. Em 1912, foi nomeado Secretário-Adjunto e em seguida Secretário em 1° de fevereiro de 1914, sucedendo ao Cardeal Pietro Gasparri que fora secretário da Comissão para a edificação do direito canônico e nomeado Secretário de Estado. É mantido neste posto durante todo pontificado de Bento XV (1854-1922) nascido Giacomo Paolo Giovanni Battista della Chiesa. Como secretário conclui a concordata com governo da Sérvia, quatro dias antes (24 de junho de 1914) do assassinato do Arquiduque da Áustria Francisco Ferdinando, em Sarajevo, assumindo a missão de promover a política papal durante a 1ª grande guerra (1914-18), em particular, tendo como escopo dissuadir a Itália para ir à guerra. Em 1915, trabalha em colaboração com Monsenhor Scapinelli di Leguigno, núncio apostólico em Viena, para convencer o Imperador Francisco José a ser mais paciente nas relações com a Itália. Desta forma, a Itália, não faria guerra contra os Impérios Centrais da Áustria-Hungria e Alemanha.
Foi nomeado Núncio Apostólico na Baviera pelo Papa Bento XV em 20 de abril de 1917, três dias depois é nomeado arcebispo in partibus de Sardes, uma antiga cidade localizada na Lídia, sobre a qual está edificado o vilarejo turco de Sart, a sua ordenação se dá na Capela Sistina, pessoalmente pelo próprio papa, no dia 13 de maio de 1917, data das aparições da Virgem de Fátima, em plena guerra mundial. Começa o trabalho no momento da recepção da nota de 1° de agosto de 1917, de Bento XV, trabalhará tendo a paz e o auxílio às vítimas do conflito social como principal objetivo, mas só obtém resultados decepcionantes. Esforça-se por reconhecer a Igreja Católica na Alemanha, visita as dioceses e concomitantemente frequenta os principais eventos católicos como o representativo Katholikentag, jornada dos fiéis católicos alemães. Tomou ao seu serviço a irmã Pasqualina, que se tornou governanta até o final da vida. 
Madre Pasqualina Lehnert nasceu na Baviera em 1894 e faleceu em Viena em 1983. Foi em 1917, durante férias em Menzingen, na Suíça, que o arcebispo Pacelli ficou conhecendo-a. Quando ele foi nomeado núncio apostólico na Baviera a chamou para ser sua governanta. A convivência do arcebispo de pouco mais de 40 anos e da jovem freira de 23 foi motivo de muitos rumores. Pasqualina tornou-se conhecida por organizar a vida de Pacelli e durante o período que viveu em Munique transformou a nunciatura em um local elegante de reuniões aristocráticas da alta sociedade da Baviera, incluindo algumas vezes a presença do presidente von Hindenburg. Quando em 1930 o cardeal Pacelli foi convocado para voltar a Roma e assumir o cargo de secretário de Estado, madre Pasqualina foi com ele como governanta, sendo acompanhadas por outras duas freiras também alemãs. Segundo Elisabetta Sana, uma católica romana italiana da província de Codrongianos de Sassari, membro ativo da Ordem Franciscana Secular e da União do Apostolado Católico, a irmã do cardeal Pacelli que a detestava, ela foi sem ser convidada e ardilosamente assumiu a gestão da residência.
Em 1939 no conclave que elegeu o cardeal Pacelli Papa quando ela e as duas freiras eram as únicas mulheres presentes no recinto. Os rumores continuavam com mais veemência e a irmã Elisabetta e um sobrinho do papa eleito insistiram para removê-la de sua nomeação.  Ele levou a decisão para a administração do Vaticano e em 2 de março de 1939, os cardeais votaram por unanimidade em defesa da inocência do relacionamento de Pio XII com a madre Pasqualina, permitindo a continuação de sua “maneira peculiar de viver”. Ela era poderosa e com isso ganhou a antipatia de monsenhor Montini, nascido Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana e Soberano da Cidade do Vaticano.  Sucedeu ao Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, e decidiu continuar os trabalhos do predecessor. Promoveu melhorias nas relações ecumênicas com os Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes, o que resultou em diversos encontros e acordos históricos. Giovanni Montini serviu no Departamento de Estado do Vaticano de 1922 a 1954. No Departamento de Estado, Montini e Domenico Tardini foram considerados os colaboradores mais próximos e influentes do Papa Pio XII, que o nomeou, em 1954, arcebispo da Arquidiocese de Milão, que fez dele automaticamente Secretário da Conferência de Bispos Italianos. João XXIII elevou-o ao Colégio de Cardeais em 1958, e após a morte de João XXIII, foi um dos mais prováveis sucessores. 
         Pragmática, madre Pascalina Lehnert muitas vezes decidia quem poderia ter uma audiência e quais documentos secretos do Vaticano ele poderia ver. Era chamada pelos ideólogos conservadores como “La Popessa” (cf. Murphy, 1983). Foi escolhida por Pio XII, juntamente com três religiosos para dirigir a Pontificia Commissione di Assistenza, órgão de caridade do Vaticano, subordinado ao monsenhor Giovanni Montini, que preconceituoso, não tinha simpatia por ela. Foi então destacada pelo papa para organizar e chefiar o Magazzino, outra instituição de caridade papal, que tinha 40 funcionários, continuando nessa função até 1959, mesmo depois da morte de Pio XII. Organizava carregamentos com medicamentos, roupas, calçados e alimentos para atender os que viviam em acampamentos e hospitais da cidade, muitos deles feridos nos bombardeios. O papa Francisco renovou os estatutos do Instituto para as Obras de Religião (IOR), reconhecido como Banco do Vaticano, introduzindo a figura um auditores externos de contas, dentro das normas internacionais.
            No Natal de 1944, organizou no palácio papal de Castel Gandolfo uma reunião para 15.000 refugiados da invasão nazista. No Vaticano tornou-se responsável pelo fornecimento de moradia, roupas e alimentação para muitos refugiados judeus que conseguiu amparar até o final da guerra. Calcula-se que cerca de 200.000 judeus foram abrigados e alimentados em Roma com a sua ajuda, assim como também 12.000 crianças. Em 1958 foi agraciada com a Ordem Pro Ecclesia e Pontifice pelo papa João XXIII, em 1969 com a Bundesverdienstkreuz pela República Federal da Alemanha, em 1980 pela Ordem de Mérito da Baviera, e em 1981 pelo governo austríaco com a Goldenes Ehrenzeichen für Verdienste um die Republik Österreich. Madre Pasqualina escreveu sua autobiografia em 1959, porém as autoridades do Vaticano só permitiram sua publicação em 1982. São cerca de 200 páginas onde descreve o papa como humano com qualidades, defeitos e senso de humor e os eventos históricos em torno da igreja, o conclave, as ocorrências da guerra e, finalmente a doença e morte do papa.

            A expressão fascismo clerical surgiu no Reino de Itália no início da década de 1920 para se referir à facção católica do Partido Popular Italiana (PPI) que apoiava o regime de Benito Mussolini. O termo terá sido cunhado por Don Luigi Sturzo, um padre e líder democrata cristão que se opunha a Mussolini e que se viria a exilar em 1924. No entanto, foi usado anteriormente à Marca sobre Roma, em 1922, para se referir aos católicos do Norte de Itália que defendiam uma síntese entre catolicismo e fascismo. Sturzo distinguia entre os “folofascistas”, que abandonaram o PPI entre 1921 e 1922, e os “fascistas clericais”, que permanecera no partido após a Marcha sobre Roma e que defendiam a colaboração com o governo fascista. Posteriormente, este último grupo viria a convergir com Mussolini, abandonando o PPI em 1923 e criando o Centro Nazionale Italiano. O PPI viria a ser extinto pelo regime fascista em 1926.  Pio XII foi o estrategista, em 1933, de um pacto entre a Santa Sé e a Alemanha nazista. Naquela conjuntura, ele era um diplomata do Vaticano com indisfarçável ambição de se tornar papa, enquanto o líder nazista erguia um regime totalitário (cf. Deschener, 1995). Pelo acordo, todos os alemães ficaram sujeitos às leis canônicas. Isso garantia maior autoridade ao papa, cargo que o próprio Pacelli assumiria em 1939. Em troca, a Santa Sé aceitou o fim do Partido do Centro Católico, última instituição democrática que havia restado na Alemanha. Isso não significa que o papa simpatizasse com o regime. Pio XII condenava o racismo nazista do 3º Reich representando ameaça à fé católica.
            O Tratado de Latrão de 1929 representou uma tentativa de acabar com um conflito que existia entre 1870-71 com o Estado italiano e a Igreja Católica Romana. A hierarquia da Igreja dividida entre “católicos sociais” se opunham ao fascismo, e os conservadores e pragmáticos que aceitavam o governo de Mussolini como desejável. A maioria dos católicos italianos não era antifascista, pois o nacionalismo os empurrou para o fascismo. Outros viam em Mussolini o menor dos males, preferível à anarquia ou ao marxismo. Achille Ratti, Cardeal Arcebispo de Milão, tornou-se o Papa Pio XI em 1922. Ele havia testemunhado a luta dos comunistas e também dos anarco-sindicalistas na área industrial milanesa. Ele também testemunhou a ascensão do fascismo. Milão foi um dos principais centros de atividade fascista, e enquanto fura-greves espancavam adversários e envolviam-se em brigas de rua com os comunistas. Mesmo assim, Pio XI,  estava convencido que “o fascismo era uma força menos destrutiva do que o comunismo” e que Mussolini “seria um líder responsável”. Depois de se tornar Papa, promoveu uma frente política contra a Esquerda, repreendendo o Partito Popolari que queria se aliar com os grupos socialistas, contra a rápida ascensão do partido fascista.
  Versões do texto Papa Pio XII, Memorial
     do Holocausto. Foto: M. Kahana/AFP.
            Eugenio Pacelli exerce a nunciatura na Alemanha até ser criado cardeal em 16 de dezembro de 1929 pelo Pio XI, com o título de Cardeal-presbítero de “São João e São Paulo”. Em 8 de fevereiro de 1930 é nomeado Secretário de Estado - por coincidência no mesmo dia que, em 1901, sem ter completado ainda vinte e cinco anos, atravessou pela primeira vez os umbrais da Secretaria de Estado - o cardeal Pacelli recebeu da Bulgária votos especiais, formulados por um idoso monge que invocava para ele a docilidade de David e a sabedoria de Salomão, quem escrevia ao futuro Papa Pio XII era aquele que lhe sucederia com o nome de João XXIII. Por nove anos foi fiel e principal colaborador de Pio XI, numa época marcada historicamente pelo radicalismo: os fascistas, nazistas e os comunistas soviéticos foram condenados, respectivamente, nas encíclicas Non abbiamo bisogno, Mit Brennender Sorge e Divini Redemptoris e pela encíclica Firmissimam constantiam criticou as sangrentas perseguições do laicismo maçônico contra os católicos do México. Juntamente com os Cardeais alemães Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte e os dois bispos alemães mais contrários ao regime, Clemens von Gallen e Konrad von Preysing e com a intervenção decidida do Cardeal Pacelli e dos seus auxiliares alemães Monsenhor Ludwig Kaas e dos jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea chegou-se à encíclica Mit brennender Sorge que, ainda em 1937, condenou os erros do nazismo e sua ideologia racista e pagã. De 1924 a 1929, foi conselheiro de Eugenio Pacelli enquanto era núncio em Munique e em Berlim. Depois que Pacelli foi eleito para o papado como Papa Pio XII em 1939, Leiber o ajudou e aconselhou até a morte do papa em 9 de outubro de 1958. Leiber é descrito, sociologicamente, como o “assessor mais confiável de Pio XII”.  
            Quando, em 10 de setembro de 1943 os nazistas invadiram Roma, o Papa abriu a Santa Sé aos refugiados, estimando-se que tenha concedido cidadania do Vaticano entre 800.000 e 1.500.000 de pessoas, e nos meses em que Roma se encontrava sob a ocupação alemã, Pio XII instruiu o clero italiano sobre “como salvar vidas usando de todos os meios possíveis”. Cento e cinquenta e cinco conventos e mosteiros em Roma deram asilo a aproximadamente cinco mil judeus. Três mil encontraram refúgio na residência de verão do pontífice, em Castel Gandolfo, conhecida por ser a residência de Verão do Papa (residenza papale), um edifício do século XVII do arquiteto Carlo Maderno para o Papa Urbano VIII. Sessenta judeus viveram por nove meses dentro da Universidade Gregoriana e outros escondidos no subsolo do Pontifício Instituto Bíblico. Padres, monges, freiras, cardeais e bispos italianos empenharam-se para salvar milhares de vidas judias. O movimento é seguido pelo cardeal Boetto, de Gênova, salvando pelo menos oitocentas vidas. O bispo de Assis manteve em segredo trezentos judeus por mais de dois anos. O bispo de Campagna e dois parentes salvaram outros 961 em Fiume, que existiu como entidade autônoma com elementos de um Estado.   
            O espaço é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que aí se desdobram. Espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais. O espaço estaria para o lugar como a palavra quando falada, isto é, quando é percebida na ambiguidade de uma efetuação, mudada em um termo que depende de múltiplas convenções, colocada como o ato humano de um presente (ou de um tempo), e modificado pelas transformações devidas a proximidades sucessivas. Diversamente do lugar, não tem, portanto nem univocidade nem a estabilidade própria. É um lugar praticado. Num exame das práticas do dia a dia que articulam essa experiência, a oposição entre lugar e espaço há de remeter, sobretudo, nos relatos, a duas espécies de determinações: uma, por objetos que seriam no fim das contas reduzível ao estar-aí de um morto, lei de um “lugar”, da pedra ao cadáver, um corpo inerte parece sempre, no Ocidente, fundar um lugar e dele fazer a figura de um túmulo; a outra, por operações que, atribuídas a uma pedra, a uma árvore ou a um ser humano, especificam “espaço” pelas ações de sujeitos históricos, pois condiciona a produção de um espaço e o associa a uma história. Os nazistas haviam começado a podar o ensino católico, demitindo professores e fechando escolas ligadas à religião. Imagem de Mother Pascalina, Sisters Maria Corrada and Erwaldis, praying before Pope Pius XII`s. 



           Além disso, criminalizaram suas organizações, censuram sua imprensa, fecharam seus seminários e confiscaram suas propriedades. O general Karl Otto Wolff recebeu ordem para ocupar o mais rapidamente possível o Vaticano, garantir a segurança dos arquivos e dos “tesouros artísticos”, e “transferir”, melhor dizendo, sequestrar o Papa, juntamente com a Cúria, para que não caíssem nas mãos dos Aliados e exercessem influência política. De acordo com historiadores, Hitler ordenou o sequestro “porque ele tinha medo da possibilidade de Pio XII aumentar e agravar as suas críticas à perseguição judia levada a cabo pelos nazistas”. Também temia que a oposição articulada de Pio XII pudesse inspirar mais resistência organizada politicamente e oposição à ocupação alemã na Itália e em outros países católicos europeus. Nessa eventualidade, o Papa disse à Cúria que a sua captura pelos nazistas implicaria a sua resignação imediata, abrindo caminho à eleição de um sucessor. O atomismo social que durante séculos serviu de postulado na análise da sociedade supõe a unidade elementar, o indivíduo no âmbito do metabolismo social, a partir da qual seriam compostos os grupos e à qual sempre seria possível reduzi-los. Os prelados se refugiariam num país seguro e neutro, com Portugal, para restabelecer a liderança da Igreja Católica Romana e eleger um novo Papa.
Aí se acha, portanto excluída a possibilidade, para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. É uma configuração instantânea de posições que implica uma indicação de estabilidade. Foi com certa surpresa que o mundo viu o Vaticano se demonstrando neutro na 2ª guerra mundial. Ainda que o papa tivesse se posicionado contra a perseguição de judeus na Polônia, exatamente após a invasão nazista havendo pregado sobre unidade da raça humana, numa clara crítica à filosofia nazista, Pio XII poucas vezes se pronunciou ao longo da guerra. Como um estrategista, percebeu que uma luta aberta contra Hitler não seria efetiva, pois a igreja estava fraca e a conquista da Abissínia pela Itália e a anexação da Áustria em 12 de fevereiro de 1938 pela Alemanha, pelo visto tinham exposto divisões profundas entre o Vaticano pacifista e os bispos nacionalistas. Ele percebeu que seu poder sobre as igrejas locais era total na teoria, mas parcial sobre um conjunto de práticas e saberes sociais. Uma posição formal contra o nazismo poderia criar um cisma na Fé, como um ato de força e de coragem, mas é apenas uma forma frágil e assustadora de recuo diante da realidade eclesial. A Áustria passou a ser uma entidade sem nome, ante a inação e o eclipse da razão de aliados de países ocidentais. Pouco tardou para que nazistas iniciassem, com sua típica prática policial vigilante, a perseguição aos dissidentes políticos e às pessoas que o preconceito as via como de inferioridade social.
Bibliografia geral consultada.
SILVA, Roberto Romano da, Le Signe et la Doctrine. Prismes du Discours Theologique dans le Brésil Contemporains. Thése Doctorat. Paris: L´École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1978;  MURPHY, Paul; ARLINGTON, René, La Popessa. Derrière Pie XII, la femme la plus influente de l`histoire du Vatican. Paris: Éditeur Lieu Commun, 1987; DESCHENER, Karlheinz, La Política de los Papas en el Siglo XX: Con Dios e con los Fascistas (1939-1995). Volumen 2. Zaragoza: Editorial Yalde, 1995; ECO, Umberto, Il Fascismo Eterno. Milão: Editora La Nave di Tesco, 1997; LEBEC, Eric, História Secreta da Diplomacia Vaticana. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1999; BLESSMANN, Joaquim, O Holocausto, Pio XII e os Aliados. Porto Alegre: Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2003; KEPEL, Gilles, La Revancha de Dios. Cristianos, Judíos y Musulmanes a la Reconquista del Mundo. Madrid: Alianza Editorial, 2005; DALIN, David, The Mith of Hitler`s Pope: How Pope Puis XII Rescued Jews from the Nazis. Nova York: Editor Regeneris, 2005; TORNIELLI, Andrea, Pio XII. Eugenio Pacelli. Um Uomo sul Trono di Pietro. Milão: Arnoldo Mandadori Editore, 2007; DESCHNER, Karlheinz, La Política dei Papi nel XX Secolo. Tomo I: Da Leone XIII 1878 fino a Pio XI 1939. Milano: Editore Ariele, 2009; BLANCO, Javier Garcia, História Oculta de los Papas. Madrid: Editorial América Ibérica, 2010; BATISTA, Carolina de Almeida, Da Quanta Cura (1864) de Pio IX a Rerum Novarum (1891) de Leão XIII: Relações entre Permanências e Busca por Adaptações. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Assis: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2013; CERTEAU, Michel de, A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de Fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 22ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; KERTZER, David Israel, O Papa e Mussolini. A Conexão Secreta entre Pio XI e a Ascensão do Fascismo na Europa. Tradução de Berilo Vargas. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2017; HENN, Paula Antônia, Tensão entre Política e Fé: A Atuação Internacional de Pio XII entre 1939-1945. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2018; entre outros.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Teorias da Comunicação, Produção e Consumo nos Bairros.

                                                                                        Ubiracy de Souza Braga
O bairro é uma porta de entrada e de saída entre espaços qualificados e o espaço quantificado”. Henri Lefebvre

                         
O bairro se define como uma organização coletiva de trajetórias individuais. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos, representando um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos necessariamente protelados. Pela relação “saber comportar-se”, o usuário se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana.  
   A contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco do fato da vizinhança, os processos de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta em um mesmo território urbano, todos esses elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração em vista de compreender um pouco melhor esta grande desconhecida que é a nossa vida cotidiana.

 
A história social do bairro Benfica origina-se no período compreendido entre o final do século XIX até o início da década de 1950. A “Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios”, projetada por Adolfho Herbster em 1875, a área espacial do futuro bairro já tinha sido anexada à área urbana (cf. Vasconcelos, 2015: 42). Portanto, a parte do bairro denominada Gentilândia, surgiu nos últimos anos do século XIX, quando o coronel e banqueiro José Gentil Alves de Carvalho, nascido em Sobral em 11 de setembro de 1866, transferiu-se para Fortaleza em 1893 onde com outros parentes, fundou a firma Frota e Gentil. Dedicando-se principalmente ao ramo de tecidos a firma prosperou com muitas representações. Casou-se em 1866 com Maria Amélia Tome da Silva Frota, também de Sobral com quem teve 15 filhos. Adquiriu de João Antonio Garcia a área onde é a Reitoria da Universidade Federal do Ceará. A Chácara Garcia passava a ser Chácara Gentil e, remodelada em 1918, perdeu as feições rurais para virar palacete.
Na década de 1920 o destaque era a presença das chácaras de duas famílias ilustres. Os Manços Valente com residência nas proximidades das caixas d’água de ferro que possuíam como casa principal uma mansão de três andares de frente para a Avenida Visconde do Cauípe, atual avenida da universidade, e duas casas menores direcionadas para a Rua Tristão Gonçalves pertencentes aos herdeiros da família. E a família Gentil que possuía a chácara de maior dimensão na qual se localizava quatro mansões cuja principal era residência do patriarca, o Cel. José Gentil Alves de Carvalho, localizada de frente para a Av. Treze de Maio onde adentrava o bonde vindo do Centro que ia para o Prado. Vizinhas a essa, na direção da estrada de Arroches, estava a residência de sua filha Beatriz Gentil Campos, um bangalô de aluguel onde residiu Aziz Kalil e próximo ao final da linha de bondes do Benfica estava a residência de seu filho João Gentil, considerada a mansão mais moderna da cidade, tanto que o presidente Getúlio Dornelles Vargas hospedou-se nela em sua visita ao Ceará em 1935. O empresário dos Bancos Frota e Gentil, do Centro de Fortaleza construíram “uma cidade dentro do bairro em formação”. Ipso facto, a história de José Gentil se confunde com a do bairro Benfica. A maior parte da Chácara Gentil foi desmembrada durante sua vida, para compor os quarteirões, as ruas e as praças do pequeno bairro da Gentilândia implantado na década de 1930. Da área construída parte foi reservada para a família Gentil e o restante foi alugado para famílias da emergente classe média.
 O bairro surge como o domínio onde a relação espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano dos usuários da cidade.    
 


            
A expansão da Vila Gentil foi planejada por seu proprietário praticamente em todos os detalhes. As residências projetadas por ele para as famílias de maior poder aquisitivo não possuíam garagem porque havia um quarteirão destinado a elas na própria Gentilândia para que a entrada de carros na frente das residências não prejudicasse a beleza arquitetônica do conjunto. A preservação das frondosas mangueiras que compunham sua chácara quando da construção da vila é outro fator apontado como diferencial desse espaço no Benfica. O periódico O Povo, na capital ao noticiar o falecimento do comerciante, em 12 de março de 1941 destaca a Vila Gentil e as preocupações urbanísticas de seu idealizador: - “Amigo de Fortaleza construiu dentro da capital uma cidade moderna, higiênica e aprazível, aquela que lhe tem o nome. Encantado pela paisagem, perdia horas noturnas diante de uma planta de construção, dedicado a estudar o meio de poupar as árvores” (cf. Pereira, 2008: 67).
Pelo fato do seu uso habitual, o bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro, que se efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe, além disso, a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles como esta são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser. O limite público/privado, que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a prática de um usuário, não é apenas uma separação, mas dialeticamente constitui uma separação que une.
A relação entrada/saída, dentro/fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa/trabalho, conhecido/desconhecido e assim por diante, mas representa sempre uma relação social entre uma pessoa e o mundo material e social, condicionado por uma dialética constitutiva da autoconsciência que vai haurir, nesse movimento de ir e vir, de mistura social e de recolhimento íntimo, a certeza de si mesma enquanto imediatamente social. Essa diferença entre a essência e o exemplo, entre a imediatez e a mediação, quem faz não somos nós apenas, mas a encontramos na própria certeza sensível; e deve ser tomada na forma em que nela se encontra, e não como nós acabamos de determina-la. Na certeza sensível, por exemplo, um momento é oposto como o essente simples e imediato, ou como a essência: o objeto. O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio do Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto faz que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não souber que pode ser. Trata-se assim da singularidade imediata de apreensão do objeto.

O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio de Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não é. O objeto, portanto deve ser examinado, para vermos se é de fato, na certeza sensível mesma, aquela essência que ela lhe atribui; e se esse seu conceito – de ser uma essência – corresponde ao modo imediato como se encontra na certeza sensível. Enfim, nós não temos, para esse fim, de refletir sobre o objeto, nem indagar o que possa ser em verdade; mas apenas no âmbito da filosofia de Hegel através da ideia de formação em “considerá-lo como a certeza sensível o tem nela”.
Para sermos breves, pensamento social e particularmente a Antropologia tem por tradição hic et nunc desvalorizar ontologicamente a imaginação, e sociologicamente sua função fomentadora de erros e falsidades. No limite, a “imaginação sociológica”, para lembrarmo-nos de Wright Mills, é reduzida pelos clássicos e contemporâneos àquela concepção de sensação de uma imagem remanescente ou repetida e consecutiva do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos). Desvalorizado para explicar “conexões imaginativas”, capaz de estimular a criatividade no âmbito da teoria social, sem perder a conexão de sentido com o imaginário social, que pode cometer o erro de reduzir a imaginação a um puzzle técnico-metodológico. A teoria produz significados reflexivamente de um ponto de vista sobre um ponto de vista.
Assim, a análise reproduz um “recorte” empírico a meio caminho entre a solidez da sensação e a pureza da ideia correlata ao associacionismo psicológico ao abrir dimensões novas no continuum de elucidação da consciência. Associar a questão da consciência à formação e significado nas relações de poder oligárquico, tolda as organizações populares que enquadram a chamada “opinião pública” inexistente. As comissões oficiais funcionam segundo uma lógica para criar um grupo com todos os elementos exteriores necessários para formar uma opinião digna de ser expressa. De acordo com determinados padrões nas democracias modernas porque representam conquistar o poder, mas, sobretudo saber exercê-lo através das mediações da autoridade na sociedade contemporânea. Temos assim a formação publicitária da informação.    
Enfim, a prática do bairro introduz um pouco de gratuidade no lugar da necessidade; ela favorece uma utilização do espaço urbano não finalizado pelo seu uso somente funcional. No limite, visa conceder o máximo de tempo a um mínimo de espaço para liberar possibilidades de deambulação. A cidade é, em seu sentido característico, “poetizada” pelo sujeito: este a “refabricou” para o seu uso próprio desmontando as correntes do aparelho urbano: ele impõe à ordem externa da cidade a sua lei de consumo do espaço. O bairro é, por conseguinte, no sentido econômico do termo, um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do espaço público. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse exercício: conhecimento dos lugares, trajetos cotidianos, relações de vizinhança (política), relações como os comerciantes (economia), sentimentos difusos de estar no próprio território (etologia), tudo isso como indícios cuja acumulação e combinação produzem, e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural segundo o qual o espaço urbano se torna não somente o objeto de um conhecimento, mas o lugar de um reconhecimento. 
A conveniência se impõe em primeiro à análise pelo seu papel negativo. Ela se encontra no lugar da lei, aquela que torna heterogêneo o campo social proibindo que aí se distribua em qualquer ordem e a qualquer momento não importa que comportamento social. Isto quer dizer que a conveniência mantém relações muito estreitas com os processos de educação implícitos a todo grupo social: ela se encarrega de promulgar as “regras” do uso social, enquanto o social é o espaço do outro, e o ponto médio da posição da pessoa enquanto ser público. A conveniência é o gerenciamento simbólico da face pública de cada um de nós desde que nos achamos na rua. A conveniência é simultaneamente o modo pelo qual se é percebido e o meio obrigatório de se permanecer submisso a ela. No fundo, ela exige que se evite toda dissonância no jogo dos comportamentos, e toda ruptura qualitativa na percepção do meio social. Por isso é que produz comportamentos estereotipados, “prêt-à-porter” sociais, que têm por função possibilitar o reconhecimento “de não importa quem em não importa que lugar”.  

O bairro representa um universo social que não aprecia muito a transgressão; esta é incompatível com a suposta transparência da vida cotidiana, com sua imediata legibilidade. Esta se deve efetuar, aliás, esconder-se nas trevas dos “lugares reprováveis”, fugir para os refolhos privados do domicílio. O bairro é um palco “diurno” cujos personagens são, a cada instante, identificáveis no papel que a conveniência lhes atribui: a criança, o pequeno comerciante, a mãe de família, o jovem, o aposentado, o padre, o médico, máscaras e máscaras por trás das quais o usuário do bairro é “obrigado” a se refugiar para continuar usufruindo dos benefícios simbólicos com os quais pode contar. A conveniência tende sempre a elucidar os bolsões noturnos do bairro, o incansável trabalho de curiosidade que, como um inseto de imensas antenas, explora com paciência todos os cantinhos do espaço público, sonda os comportamentos, interpreta os acontecimentos e produz sem cessar um rumor questionante incoercível: Quem é quem e faz o quê? De onde vem este novo freguês?
Quem é o novo locatário? A tagarelice e a curiosidade são as pulsões interiores absolutamente fundamentais na prática cotidiana do bairro que procura uma “razão para tudo”, mede tudo pela régua da conveniência. Enfim, se é possível dizer que todo rito é a assunção ordenada de uma desordem pulsional inicial, o seu “trancafiamento” simbólico no campo social, então a conveniência é o rito do bairro. A conveniência subtrai à troca social os ruídos que poderiam alterar a imagem do reconhecimento; é ela que filtra tudo o que não visa a clareza. Mas, e esta é a sua face positiva, se ela impõe a sua coerção, o faz em vista de um benefício simbólico que se há de adquirir ou preservar. O conceito de conveniência ganha particular pertinência no registro do consumo. Como relação cotidiana com a busca dos alimentos e dos serviços. Comprar não é trocar dinheiro por alimentos (mercadoria), mas, além disso, ser bem servido quando se é bom freguês. O ato da compra vem “aureolado” por uma “motivação” que, poder-se-ia dizer, o precede antes de sua efetividade: a fidelidade. Esse algo mais, não contabilizável na lógica estrita da troca de bens e serviços, é diretamente simbólico: é o efeito do consenso, de um acordo tácito. É o fruto de um longo costume recíproco pelo qual um sabe o que pode pedir ou dar ao outro, em vista de melhorar a relação com os objetos desejantes da troca.
Bibliografia geral consultada. 
LIPOVETSKY, Gilles, O Crepúsculo do Dever: A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004; PEREIRA, Ilaina Damasceno, Lugares no Bairro: Uma Etnografia no Benfica. Fortaleza: Dissertação de Mestrado em Geografia. Universidade Federal do Ceará, 2008; CAMPOS, Ricardo Marnoto de Oliveira, Pintando a Cidade: Uma Abordagem Antropológica ao Graffiti Urbano. Tese de Doutorado em Antropologia Visual. Lisboa: Universidade Aberta, 2007; LASSALA, Gustavo, Pichação não é Pixação. São Paulo: Altamira Editorial, 2010; CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre, A Invenção do Cotidiano. 2. Morar, cozinhar. 12ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2013; pp. 46 e ss.; DEJOURS, Christophe, Le Choix - Souffrir au Travail n`est pas une Fatalité. Paris: Bayard Éditions, 2015; RODOLFO, Renato Mesquita, A Universidade (Federal) do Ceará entre o Benfica e a Gentilândia: Espaços, Lugares e Memórias (1956-1967). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em História. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará. 2015; CHAGAS, Juliana Almeida, Pixação e as Linguagens Visuais no Bairro Benfica: Uma Análise dos Modos de Ocupação de Pixos e Graffiti e de Suas Relações Entre Si. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2015; VASCONCELOS, Monica Monteiro da Costa, A Cidade em Movimento: Práticas Educativas do Morar e Conviver no Bairro Benfica. Dissertação de Mestrado.  Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Educação, 2017; entre outros.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Atiradores Sociais– Cinema, Estados Unidos, Arte & Técnica Militar.


                                                                                                          Ubiracy de Souza Braga*

A guerra é a continuação da política por outros meios”. Carl Phillip  von Clausewitz

                         
Atirador, “Shooter”, no original inglês, é um filme que tem como escopo uma conspiração militar, dirigido por Antoine Fuqua baseado no livro: “Point of Impact”, de Stephen Hunter. Trata de um atirador de elite do corpo de fuzileiros navais dos Estados Unidos da América, Bob Lee Swagger (Mark Wahlberg) que está enquadrado em homicídio por uma unidade corrupta da Central Intelligence Agency, agência de inteligência civil do governo responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para os senadores daquele país. A CIA  se engaja em atividades secretas, a pedido do presidente dos Estados Unidos.  O filme: “Atirador” foi rodado quase que totalmente na Colúmbia Britânica, no Canadá. Bob Lee Swagger é um exímio soldado, que pertencia ao exército norte-americano. Ele decide se isolar nas florestas do Arkansas depois da morte de seu amigo, ao serem abandonados no território inimigo. Ele retorna ao serviço quando toma consciência de uma tentativa de assassinato do presidente norte-americano. Mas é uma estratégia, quando é acusado de planejar crime letal contra o Estado e Swagger se vê obrigado a encontrar o verdadeiro assassino, e assim desmascarar a farsa em torno de um golpe de Estado.                
            Historicamente os Estados Unidos da América (EUA) tem uma macabra tradição de “atiradores solitários”. Em alguns casos já se registrou a ação de duplas ou grupos de atiradores nos últimos anos todos os ataques ou a maioria deles foram realizados em escolas e universidades norte-americanas. Há muito tempo algo do gênero não acontecia no interior de um cinema. O “Massacre de Virginia Tech” representou sociologicamente um assassinato em massa em ambiente escolar que ocorreu em 16 de Abril de 2007 no Instituto Politécnico da Universidade Estadual da Virgínia, conhecida como Virginia Tech, em Blacksburg, Virginia, Estados Unidos da América. Morreram 33 pessoas, incluindo o “solitário atirador”, e sendo que 21 pessoas ficaram feridas. É o mais mortífero ataque a uma universidade na história dos Estados Unidos da América. 
                                                
 

      Vejamos a cronologia de ataques nos Estados Unidos da América (EUA) apenas durante o expressivo anos de 2012. Em 11 de dezembro ao menos duas pessoas morreram e uma ficou ferida após um homem não identificado atirar em um shopping Center no estado do Oregon, noroeste dos Estados Unidos. O incidente ocorreu no centro comercial Clackamas Town Center, perto da cidade de Happy Valley, nos arredores de Portland. Em 6 de novembro pelo menos um pessoa morreu após um atirador abrir fogo em uma fábrica de Fresno, na Califórnia, no mesmo dia em que o país decide pelo seu novo presidente. O incidente ocorreu dentro da fábrica de processamento de frangos Valley Protein Farms, em uma área industrial existente na periferia da cidade, quando um homem invadiu a empresa e disparou contra os funcionários. Em 1° de outubro a polícia encontrou o corpo do suspeito pelo tiroteio num SPA e salão de beleza de Milwaukee no meio-oeste dos Estados Unidos da América em que três pessoas morreram e quatro ficaram feridas.                       
Autoridades acreditam que a tragédia está relacionada com “problemas domésticos”. O homem foi identificado como Radcliffe Franklin Haughton, 45, que tinha uma ordem de restrição contra ele. O tiroteio ocorreu no Azana Day Spa, no maior shopping Center de Brookfield, um distrito de classe média próximo de Milwaukee. Em 27 de setembro pelo menos seis pessoas morreram, além do atirador, e outras duas ficaram feridas em um tiroteio registrado em Mineápolis (Minnesota, EUA), informou a imprensa. Um homem armado entrou no escritório de uma empresa e abriu fogo contra vários funcionários antes de se suicidar. Em 31 de agosto três pessoas - incluindo o atirador - morreram após um tiroteio em um supermercado de Old Bridge, em Nova Jersey. Em 24 de agosto um homem abriu fogo num ponto próximo do Empire State Building (NY), matando um ex-colega de trabalho antes de ser morto. Outras nove pessoas ficaram feridas por disparos da polícia.

Em 14 de agosto um homem matou duas pessoas no Texas ao resistir a uma ordem de despejo. De acordo com a polícia, Thomas Alton Caffall, 35, abriu fogo contra o policial Brian Bachmann no momento em que ele entregava a notificação. O ataque aconteceu em um ponto próximo do campus da universidade Texas A&M, em College Station . O policial, o atirador e uma terceira pessoa morreram. Em 5 de agosto um atirador entrou em um templo sikh, da religião monoteísta indiana nas cercanias de Milwaukee, no estado de Wisconsin, e matou seis fiéis antes de se suicidar. O ataque ocorreu na manhã de um domingo, durante uma cerimônia religiosa. Segundo o FBI, o ex-militar Wade Michael Page disparou contra si mesmo na cabeça após um policial de Oak Creek ter atirado em sua barriga para evitar que ele continuasse a matar os fieis. Em 20 de julho o ex-estudante James Holmes, 24, entrou armado em um cinema de Aurora, subúrbio da cidade de Denver (Colorado), e disparou contra a plateia, matando 12 pessoas e ferindo 58 durante a pré-estreia do filme: “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. E para sermos breves, em 2 de abril um coreano de 43 anos mata sete pessoas na Universidade Religiosa de Oikos (Califórnia), antes de se entregar à polícia. O atirador assassinou metodicamente suas vítimas depois de alinhá-las contra um muro.

            O estudante-assassino utilizou bombas de gás lacrimogêneo antes de abrir fogo contra a plateia, que assistia a uma sessão especial de estreia do novo filme do Batman, e afirmou categoricamente “ser o Coringa, arqui-inimigo do herói”. A polícia de Aurora confirmou os tipos e calibres das quatro armas utilizadas por James Holmes: um fuzil AR-15, uma escopeta 12 e duas pistolas calibre. 40. O esquadrão antibomba do FBI - Federal Bureau of Investigation, é a unidade primária do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (EUA), servindo tanto como um organismo investigativo de auxílio de polícia criminal de âmbito federal como serviço de inteligência doméstico. O FBI tem jurisdição investigativa sobre as violações de mais de 200 categorias de crimes federais. Seu lema é: “Fidelity, Bravery, Integrity”, correspondente às iniciais FBI. Eles conseguiram desfazer as principais armadilhas usadas com explosivos montados por Holmes no apartamento onde morava. Os agentes retiraram uma rede de fios e um artefato incendiário, diz o sargento Casidee Carlson.   
              Em 19 de agosto de 2009, o jornal New York Times revelou que a Central Intelligence Agency (CIA) contratou a firma Blackwater USA para realizar o programa secreto de assassinatos que a CIA seria legalmente impedida de realizar. Grande parte dos detalhes sobre os acordos da CIA com a empresa Blackwater não foi revelada. A Senadora Dianne Feinstein, Democrata da Califórnia e que preside o Comitê de Inteligência no Senado, em 20 de Agosto de 2009 se recusou a dar detalhes sobre o programa secreto, mas afirmou: - "É fácil contratar terceiros para realizar o serviço pelos quais não se deseja aceitar responsabilidade". No livro: “Blackwater - A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo”, o pesquisador Jeremy Scahill apresenta fatos detalhados das relações da CIA com a empresa de mercenários.
A tática é a arte do fraco. Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz, militar do Reino da Prússia que ocupou o posto de general é considerado um grande estrategista militar e teórico da guerra por sua obra “Da Guerra” (“Vom Kriege”). Foi diretor da Escola Militar de Berlim nos últimos treze anos de sua vida, período em que escreveu a obra “Vom Kriege”, publicada postumamente. Nela ficou conhecida a tese materialista em que ele define a associação entre guerra e política: - "A guerra é a continuação da política por outros meios". Especificamente, Clausewitz considerava fundamental que a guerra estivesse sempre submetida à política. Isso porque nenhuma guerra pode ser vencida sem a compreensão precisa dos objetivos e da disponibilidade de meios¸ em primeiro lugar, ou sem o cálculo racional das capacidades e das oportunidades, assim como o estabelecimento dos limites éticos ao uso da força - sempre submetida aos objetivos políticos estabelecidos. Suas lições de tática e estratégia vão, porém, além dos exercícios militares propriamente ditos, para se constituírem, inclusive, numa profunda reflexão sobre a filosofia da guerra e da paz.
Produtores desconhecidos, poetas de seus negócios, inventores de trilhas nas selvas da racionalidade funcionalista, consumidores produzem algo que se assemelha às “linhas de erre”, traçando trajetórias indeterminadas, aparentemente desprovidas de sentido porque não são coerentes com o espaço constituído, escrito e pré-fabricado onde se movimentam. São frases imprevisíveis num lugar ordenado pelas técnicas organizadoras dos sistemas. Não queremos perder de vista que estratégias referem-se ao cálculo ou a manipulação das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças. Gesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um próprio num mundo enfeitiçado pelos poderes invisíveis do Outro. Mas que também pode ser interpretado analiticamente como gesto da modernidade científica, política ou militar. Mas é preciso recorrer a outro modelo quando interpretamos as imagens.
            Segundo o analista de roteiros William Goldman, o Bob Lee Swagger do livro foi criado como um veterano da Guerra do Vietnã, nos anos 70, e ator não poderia ser jovem. Para assimilar esta questão, o roteiro apresentou Swagger como um veterano dos conflitos na África nos anos 1990. Swagger usa no pulso um Suunto Vector, relógio Finlandês que funciona também como altímetro, barômetro e bússola. O rifle de grosso calibre que Swagger possui é um Cheyenne Tactical M200 Intervention, capaz de acertar um algo a 2 KM de distância. O endereço em Athens, Tennessee, onde os personagens Swagger e Nick visitam um especialista em armamentos, é o local onde - realmente - foram confinados corruptos do governo local por cidadãos armados até que o acontecimento das eleições livres. O livro que Bob Lee Swagger lê em sua casa é "9/11 Commission Report". Enfim, “O Atirador” é o último filme a utilizar o tradicional Mann National Theater, em Westwood, na Califórnia, como locação para as filmagens. O lugar historicamente determinado é fechado em 2007.
O grande silêncio das coisas muda-se no seu contrário através da mídia. Ontem constituído em segredo, observa Michel de Certeau, agora o real tagarela. Só se veem por todo o lado notícias, informações, estatísticas e sondagens. Jamais houve uma história que tivesse falado ou mostrado tanto. Jamais, com efeito, os ministros dos deuses os fizeram falar de uma maneira tão contínua, tão pormenorizada e tão injuntiva como o fazem hoje os produtores de revelações e regras em nome da atualidade. Os relatos do-que-está-acontecendo constituem a nossa ortodoxia. Os debates de números são as nossas guerras teológicas. Os combatentes não carregam mais as armas de ideias ofensivas ou defensivas. Avançam camuflados em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como os mensageiros de um “real”. Sua atitude assume a cor do terreno econômico e social. Quando avançam, o próprio terreno parece que também avança. Mas, de fato, eles o fabricam, simulam-no, usam-no como máscara, e atribuem a si o crédito dele, criam assim o que se diagnostica como a lei. 
            A pessoa tem que se inclinar, e obedecer aquilo que significam, como oráculo de Delfos. A fabricação de simulacros fornece assim o meio de produzir crentes e, portanto praticantes. Esta instituição do real é a forma mais visível de nossa dogmática contemporânea. É também a mais disputada entre partidos. Ela não comporta mais um lugar próprio, nem cátedra ou magistério. Código anônimo, a informação inerva e satura o corpo social. Desde a manhã até a noite, sem pausa, histórias povoam as ruas e os prédios. Articulam nossas existências ensinando-nos o que elas devem ser. Cobrem o acontecimento, fazem deles as nossas legendas daquilo que se deve ler e dizer. Apanhado desde o momento em que acorda pelo jornal, rádio ou TV, a voz é a lei, pois o ouvinte anda o dia inteiro pela floresta de narratividades jornalísticas, publicitárias, televisionadas à noite ainda sob as portas do sono.
            
              Esses relatos têm o duplo e estranho poder de mudar o ver num crer, e de fabricar real com aparências. Dupla inversão. De um alado, a modernidade, outrora nascida de uma vontade observadora que lutava contra a credulidade e se fundava num contrato entre a vista e o real, transforma agora essa relação e deixa ver precisamente o que se deve crer. A ficção define o campo, o estatuto e os objetos da visão. Assim funcionam os “mass media”, a publicidade ou a representação política. Hoje, a ficção pretende presentificar o real, falar em nome dos fatos e, portanto, fazer assumir como referencial a semelhança que produz. Essa reviravolta do terreno onde se desenvolvem as crenças resulta de uma mutação nos paradigmas do saber: a invisibilidade do real, postulado antigo, cedeu o lugar à sua visibilidade. A cena sociocultural da modernidade remete a um “mito”. Define o referente social por sua visibilidade, e, portanto, por sua representatividade científica ou política; articula-se em cima deste novo postulado (crer real e visível) a possibilidade de nossos saberes, de nossas observações, de nossas provas e nossas práticas. Nesta nova cena, campo indefinidamente extensível das investigações óticas e de uma pulsão escópica, subsiste ainda a estranha coalizão entre o crer e a questão do real, do visto, do observado ou do mostrado. 
            Clausewitz compara ainda a astúcia à palavra espirituosa: - “Assim como a palavra espirituosa é uma espécie de prestidigitação em face das ideias e das concepções, a astúcia é uma prestidigitação relativa a atos”. Isto porque o modo pelo qual a tática, verdadeira prestidigitação, se introduz por surpresa numa ordem. A arte de “dar um golpe” é o senso de ocasião. Mediante procedimentos que psicanaliticamente Freud precisa a respeito do chiste, combina elementos audaciosamente reunidos para insinuar o “insight” de uma coisa na linguagem de um lugar para atingir o destinatário. Raios, relâmpagos, fendas e achados no reticulado de um sistema, as maneiras de fazer são os equivalentes práticos dos chistes. Contudo, sem lugar próprio, sem visão globalizante, cega e perspicaz, como se fica no corpo a corpo sem distância, comandada pelos acasos do tempo, a tática é determinada pela ausência de poder, assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder. Deste ponto de vista, a sua dialética poderá ser iluminada pela antiga arte da sofística, de fortificar ao máximo a posição do mais fraco. Mas destaca a relação de forças que está no princípio de uma criatividade intelectual tão tenaz como sutil, incansável, mobilizada à espera da ocasião. 
               As estratégias são, portanto, ações que, graças ao postulado de um lugar de poder, elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos outros. Privilegiam, portanto, as relações espaciais. Ao menos procuram elas reduzir a esse tipo as relações temporais pela atribuição analítica de um lugar próprio a cada elemento particular e pela organização combinatória dos movimentos específicos a unidades ou a conjuntos de unidades. O modelo para isso foi antes o militar que o científico. As táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, ás relações entre momentos sucessivos de um golpe, como na política, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos. As estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo; as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões de um poder. Os métodos praticados pela arte da guerra cotidiana jamais se apresentam sob uma forma nítida, nem por isso – last but not least – menos certo que apostas feitas no lugar ou no tempo distinguem as maneiras estruturantes de sentir, pensar e agir.  
Bibliografia geral consultada.
Sun Tzu, l`Art de la guerre. Oxford: Oxford University Press, 1963. Collection Champs. Traduit de l’Anglais par Francis Wang. Paris: Flammarion Éditeur, 1972;  FREUND, Julien, Sociologie du Conflit. Paris: Presses Universitaires de France, 1983; SIMMEL, Georg, La Tragédie de la Culture. Paris: Petite Bibliothèque Rivages, 1988; CERTEAU, Michel de, L`Invenzione del Quotidiano. Roma: Edizioni Lavoro, 2000; MANSILLA, Armando Borrero, “La Actualidad del Pensamiento de Carl Von Clausewitz”. In: Revista de Estudios Sociales, nº 16, octubre, 2003; pp. 23-28; JUNGER, Ernest, A Guerra como Experiência Interior. Lisboa: Editora Ulisseia, 2004; GIAP, Vo Nguyen, Manual de Estratégia Subversiva. Lisboa: Editora Sílabo, 2005; HARDT, Michael; NEGRI, Antônio, Império. 7ª edição. Rio de Janeiro: Editor Record, 2005; RAUBER, Aurélio Athayde de, Guerra, Atrocidade e Mediação: O Franco-atirador de Bagdá entre Espetáculo e Crítica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2007; MARTIN, Eloy, Los Ojos del Águila Blanca. Robert Adolfo Chodasiewicz. Amazon, 2010; BAPTISTA, Marco Túlio, Análise Espectral da Flutuação de Pontaria e Influência da Oscilação Pontual no Desempenho de Atiradores. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica. Rio de Janeiro: Coordenação do Programas de Pós-Graduação em Engenharia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012; ROQUES, Paul, Le Général de Clausewitz. Sa Vie et sa Théorie de la Guerre, Paris: Éditions Astrée, 2013; GONÇALVES, Leandro José Clemente, A Revolução em Assuntos Militares no Contexto da Guerra de Secessão Americana. Tese de Doutorado em História. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 2015;  CRUZ, Fábio Lucas da, Brasileiros no Exílio: Argel como Local Estratégico para a Militância Política (1965-1979). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filoosfia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016;  SILVA, Cristian Kiefer da, Injustiça Extrema: Uma Investigação a partir do Pensamento de Gustav Radbruch. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade Mineira de Direito. Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2016; entre outros.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza:  Universidade Estadual do Ceará (UECE).