terça-feira, 15 de agosto de 2017

Avaliação Qualis-periódicos - Razão Técnica & Ilusão Metodológica.

                                                                                                    Ubiracy de Souza Braga

    “Saber do que se fala sempre ajuda” Jürgen Habermas

       
           A história da vida intelectual e artística das sociedades europeias revela-se através da história das transformações da função do sistema de produção de bens simbólicos e da própria estrutura destes bens, transformações correlatas à constituição progressiva de um campo intelectual e artístico, referido à autonomização progressiva do sistema de relações de produção, circulação e consumo de bens simbólicos. De fato, à medida que se constitui um campo intelectual e artístico, definindo-se em oposição ao campo econômico, ao campo político e ao campo religioso, vale dizer, em relação a todas as instâncias com pretensões a legislar na esfera cultural em nome de um poder ou de uma autoridade que não seja propriamente cultural, as funções que cabem aos diferentes grupos de intelectuais ou de artistas, tendem cada vez mais a se tornar o princípio unificador e gerador dos diferentes sistemas de tomadas de posição culturais e, também, o princípio de sua transformação no curso histórico do tempo.  
        Destarte, um processo de autonomização da produção intelectual e artística é correlato à constituição de uma categoria socialmente distinta de artistas ou de intelectuais profissionais, cada vez mais inclinados a levar em conta exclusivamente as regras firmadas pela tradição propriamente intelectual ou artística herdada de seus predecessores, e que lhes fornece um ponto de partida ou um ponto de ruptura, e cada vez mais propensos a liberar sua produção e seus produtos de toda e qualquer dependência social, seja das censuras morais e programas estéticos de uma igreja empenhada em proselitismo, seja dos controles acadêmicos e das encomendas de um poder político propenso a tomar a arte como um instrumento de propaganda. Da mesma forma, o processo conducente à constituição da arte enquanto tal é correlato à transformação da relação que os artistas mantêm com os não-artistas e, com os demais artistas, resultando na constituição de um campo artístico relativamente autônomo e na elaboração concomitante de nova definição em função do artista e da arte.


           O campo de produção erudita somente se constitui como sistema de produção que produz objetivamente apenas para os produtores através de uma ruptura com o público dos não-produtores, ou seja, com as frações não intelectuais das classes dominantes. Podem-se medir os graus de autonomia de um campo de produção erudita com base no pode de que dispões para definir as normas de sua produção, os critérios de avaliação de seus produtos e, portanto, para retraduzir e reinterpretar todas as determinações externas de acordo com seus princípios próprios de funcionamento. Quanto mais o campo estiver em condições de funcionar como a arena fechada da concorrência pela legitimidade cultural; pela consagração propriamente cultural e pelo poder cultural de concedê-la, tanto mais os princípios segundo os quais se realizam as demarcações internas aparecem como irredutíveis a todos os princípios externos de divisão. Por exemplo, os fatores de diferenciação econômica, social ou política, como a origem familiar, a fortuna, o poder, mas neste caso de um poder capaz de exercer sua ação diretamente sobre o campo, bem como às tomadas de posição políticas.   
          Nunca se prestou a devida atenção às consequências metodológicas ligadas ao fato de que o escritor, o artista e mesmo o erudito, escrevem não apenas para um público, mas para um público de pares que são também concorrentes. Vale dizer, quanto mais o campo estiver em condições de funcionar como o campo de uma competição pela legitimidade cultural, tanto mais a produção pode e deve orientar-se para a busca de distinções culturalmente pertinentes em um determinado estágio de um dado campo, isto é, busca de temas, técnicas e estilos que são dotados de valor na economia específica do campo por serem capazes de fazer existir culturalmente os grupos que os produzem, vale dizer, de conferir-lhes um valor propriamente cultural atribuindo-lhes marcas de distinção reconhecidas pelo campo como culturalmente pertinentes e, portanto, suscetíveis de serem reconhecidas enquanto tais, em função das taxionomias culturais disponíveis em um determinado estágio de um dado campo.
        Enfim, a análise estatística pode tornar-se um instrumento eficaz de ruptura se estivermos conscientes de que a aplicação ingenuamente empirista de taxionomias pré-construídas ou formais a esta ou àquela população de escritores ou de artistas neutraliza as relações mais significativas entre as propriedades pertinentes dos indivíduos ou dos grupos. A maioria das análises estatísticas aplica-se a amostras pré-construídas de que são parcial ou totalmente excluídos os escritores “menores” ou marginais, sendo portanto incapazes de detectar os princípios de seleção de que tal população é o produto, ou seja, as leis que regem o acesso a tal êxito no campo intelectual e artístico. Ao mesmo tempo, por serem incapazes de compreender a significação real das regularidades que estabelecem podem acabar dando razão aos defensores mais ingênuos do estudo ideográfico, estando fadadas a captar, no máximo, as leis das tendências mais gerais do campo intelectual em seu conjunto, como por exemplo, a elevação global do nível de formação universitária dos escritores, ou noutro exemplo no caso francês, durante o Segundo Império ou o aumento da parcela de escritores originários das classes médias que ocupavam posições universitárias durante a Terceira República. 
  
Existem, contudo, armadilhas mais sutis e a análise sociológica corre sempre o risco de sucumbir aos erros impecáveis de uma sociografia hipermpirista quando se deixa levar pela preocupação de escapar à acusação de “reducionista”, passando então a competir com a historiografia tradicional em seu próprio terreno e a procurar na multiplicação das características sociologicamente pertinentes que seleciona o sistema explicativo capaz de elucidar cada obra em sua singularidade, ao invés de construir a hierarquia dos sistemas de fatores pertinentes quando se trata de dar conta do campo ideológico que corresponde a um determinado estado da estrutura do campo intelectual. A figura do tutor de significado em geral “protetor” está presente em universidades ou colégios e consiste numa pessoa envolvida na gestão do conhecimento e formação técnica e científica. Esta forma especial preparatória é também chamada “tutoria”, “tutoriat” ou “tutorial”, onde o tutor observa empiricamente os problemas dos estudantes, prestando assistência de forma mais célere, eficaz e imediata. O tutor pode ser, ainda um estudante. Este fato tem a vantagem de propiciar um contato menos formal junto do aluno tutorado de forma a que a mensagem transmitida pelo tutor seja mais rapidamente compreendida e assimilada o que facilita o acesso ao conhecimento, e que numa relação demasiado formal poderia ser dificultada ou mesmo impedida.
      A tutoria, também chamada de “mentoring”, é um método (cf. Bruce, 1995; Bozeman e Feeney, 2007), geralmente muito utilizado para efetivar uma relação de interação social e pedagógica. Os tutores acompanham e se comunicam com seus pares de forma sistemática, planejando, dentre outras atividades, o seu desenvolvimento e avaliando a eficiência de suas orientações de modo a resolver problemas que possam ocorrer durante o processo. Uma de suas aplicações, por exemplo, pode ser dentro do processo pedagógico aplicado em instituições educacionais, onde exista a tendência de desistência do aluno frente aos desafios encontrados. Neste caso, o contato com o aluno começa pelo conhecimento global de toda a estrutura do curso e é necessário que o acompanhamento ocorra com frequência regular, de forma rápida, densa e eficaz.
        Neste sentido o tutor guia o tutorado, de acordo com a sua formação, mas tem como pressuposto o auxílio como um fio condutor que atravessa uma grande parte das disciplinas. O tutor conhece as necessidades e soluções, pelo fato de ter vivenciado semelhantes dificuldades e por conhecer formas de superá-las. Ele pode ser um ersatz para o aluno em todo o momento em que o aluno tutorado estiver sobrecarregado, intervindo e auxiliando-o. Esta estratégia de condução da aprendizagem agrada muitos alunos, porque a compreendem pouco restritiva, pouco limitadora, simplesmente porque acabam por aprender a dominar disciplinas de maneira muito eficiente, e por ser-lhes, também, dada uma série de dicas sobre métodos de estudo e formas de apreensão das matérias. Representantes diversos do construtivismo, porém, rejeitam esta estratégia e concentram-se na aprendizagem, para o que o “treinador” será mais qualificado.
            As estratégias são ações que graças ao postulado de um lugar de poder, elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos outros. Privilegiam, portanto, as relações espaciais. Ao menos procuram elas reduzir a esse tipo as relações temporais pela atribuição analítica de um lugar próprio a cada elemento particular e pela organização combinatória dos movimentos específicos a unidades ou a conjuntos de unidades. O modelo para isso foi antes o militar que o científico. As táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo - às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, ás relações entre momentos sucessivos de um golpe, como na política, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos. As estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo; as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões de um poder. Os métodos praticados pela arte da guerra cotidiana jamais se apresentam sob uma forma nítida, nem por isso - last but not least - menos certo que apostas feitas no lugar ou no tempo distinguem as maneiras estruturantes de sentir, pensar e agir.   
            A razão instrumental é um termo usado provavelmente por Max Horkheimer no contexto social do debate da teoria tradicional “versus” teoria crítica, escrito no exílio, nos Estados Unidos da América (EUA), em 1937, em que o autor prefere utilizar essa expressão para designar correntemente o estado em que os processos racionais são plenamente operacionalizados. A razão instrumental nasce, desde Francis Bacon, quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a natureza e os seres humanos. A razão ocidental, caracterizada pela sua elaboração dos meios de trabalho para obtenção dos fins, se hipertrofia em sua função de tratamentos dos meios, e não na reflexão objetiva dos fins. Na medida em que razão se torna instrumental, a ciência vai deixando de ser uma forma de acesso aos conhecimentos para tornar-se um instrumento de dominação, poder e exploração. Sendo sustentada pelos processos sociais de aquisição da ideologia cientificista, da educação através da escola e dos processos de comunicação de massa, engendra uma mitologia - a religião da ciência - contrária ao espírito iluminista e à emancipação da humanidade.
       Desnecessário dizer que a razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas. É, entre outros, um dos meios pelo qual os seres racionais propõem razões ou explicações para relação causa e efeito. A razão é particularmente associada à natureza humana, ao que é único e definidor do ser humano. A razão permite identificar e operar conceitos abstratamente, resolver problemas, encontrar coerência ou contradição entre eles e, assim, descartar ou formar novos conceitos, de uma forma ordenada e, geralmente, orientada para objetivos. Inclui raciocinar, apreender, compreender, ponderar e julgar, por vezes usada como sinónimo de inteligência. A principal diferença entre a razão e outras formas de consciência decorre na forma de explicação que é tanto mais racional quanto mais conscientemente for pensado de forma que possa ser expressa numa linguagem histórica e determinada.
            A maioria dos chamados “periódicos” nacionais está vinculado aos programas de pós-graduação (M/D), isso porque as revistas surgiram próximas aos cursos de pós-graduação como estratégia de dar vazão e comunicar entre pares o que é desenvolvido em termos de Pesquisa & Desenvolvimento nas universidades e demais instituições brasileiras. Esses movimentos foram base para o grande aumento dos títulos de revistas científicas, sendo importante a criação de critérios que indicassem a cada revista para a sociedade científica, tanto para conhecimento dos pesquisadores, quanto para seleção de quais publicações receberiam fundos de fomento para se sustentarem e continuarem ativas. Apesar de muitas agências de fomento manter seus próprios critérios de seleção, a necessidade de um “controle de qualidade” deu origem ao Qualis da Capes, que em sua essência faz parte da avaliação de pós-graduação pela instituição, tendo em vista que grandes partes das revistas científicas estão vinculadas a esse padrão internacional.
Qualis representa um conjunto de procedimentos técnicos utilizados no Brasil pela chamada Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para estratificação técnica da qualidade da produção intelectual dos programas de pós-graduação. A partir desse sistema os principais periódicos são classificados segundo estratos indicativos da qualidade: A1 - para periódicos de excelência internacionais reconhecidos como relevantes no Brasil (pode haver periódicos nacionais na lista desde que tenham alcance internacional); A2- para periódicos de excelência reconhecidos como relevantes no Brasil (é um nível realmente muito bom para se publicar); B1 - B2 - B3 = em ordem decrescente de qualidade para o restante dos periódicos. Neste sentido B4 e B5 = periódicos bem mais inferiores no sistema de avaliação. Enfim, C = é periódico só na definição técnica, mas tem por atribuição avaliativa valor=zero. Os indicadores variam de A1 – o nível mais elevado, até C– o nível mais baixo da qualidade da produção. Qualis é definido pela CAPES como uma lista agenciada de veículos utilizados para a divulgação internacional da produção intelectual dos programas de pós-graduação de M/D. Serve para fundamentar os processos seletivos de avaliação do sistema nacional de pós-graduação da CAPES.          
O sistema Qualis-periódicos é usado para classificar a produção científica dos programas de pós-graduação no que se refere aos artigos publicados em periódicos científicos. Tal processo foi concebido para atender as necessidades específicas do sistema de avaliação e é baseado empiricamente “nas informações fornecidas por meio do aplicativo coleta de dados”. Como resultado, disponibiliza uma lista com a classificação dos veículos utilizados pelos programas de pós-graduação para a divulgação da sua produção. A classificação é realizada pelos comitês de consultores de cada área de avaliação seguindo critérios previamente definidos pela área de conhecimento e aprovados pelo Conselho Técnico-Científico da Educação Superior - CTC-ES, que procuram refletir a importância relativa dos diferentes periódicos para uma determinada área. Os critérios gerais e os específicos utilizados em cada área de avaliação estão disponibilizados nos respectivos documentos de área. A estratificação da qualidade dessa produção é realizada de forma indireta. Do ponto de vista técnico o Qualis afere a qualidade dos artigos e de outros tipos de produção, a partir da análise da qualidade dos veículos de divulgação, ou seja, periódicos científicos. A classificação de periódicos é realizada pelas áreas de avaliação e passa por processo de série anual de atualização. Esses veículos são enquadrados em estratos indicativos da qualidade.           
As premissas em que se baseiam são três. A primeira é que a relação da distribuição de frequência de conceitos dos programas brasileiros de pós-graduação deve ser “normal”, ou Gaussiana. Em probabilidade e estatística, a distribuição normal é uma das distribuições de probabilidade mais utilizada para modelar fenômenos naturais. A distribuição normal é ligada aos vários conceitos matemáticos como movimento browniano, ruído branco, entre outros. A distribuição normal também é chamada distribuição gaussiana, distribuição de Gauss ou distribuição de Laplace-Gauss, em referência aos matemáticos, físicos e astrônomo francês Pierre-Simon Laplace e o alemão Carl Friedrich Gauss. Poder-se-ia aqui indagar como foi que se chegou à conclusão de que essa distribuição é naturalmente normal. A segunda premissa estabelece que apenas 25% dos programas podem ter conceito máximo 6 ou 7 em qualquer área de avaliação. Caso o número de programas merecedores de conceito máximo supere o limite, as normas de avaliação serão automaticamente “apertadas” para manter o limite. Igualmente, pode-se perguntar se não é absurdo mudar as regras do jogo no meio da partida para rebaixar o conceito de programas que à primeira vista pareciam excelentes. A terceira premissa diz respeito à nova tabela Qualis para periódicos, que passa a ter sete (7) níveis. Esta vale para quase todas as áreas do conhecimento, devendo cada área estabelecer os níveis específicos de corte de tal modo a assegurar que apenas 25% dos periódicos estejam no nível aparentemente mais alto (Qualis A) e que haja maior número de periódicos A2 que A1. Embora isso não seja explícito, mas per se parece evidente que estes 25% derivam diretamente dos 25% do conceito anterior.   
Curiosamente nas Normas para Defesa Pública de Provas e Títulos do curso de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará determina que o candidato (a) só poderá defender a Dissertação o mestrando que tiver um (01) artigo enviado para um periódico classificado no Qualis/CAPES como B3 (ou superior) na área de Medicina Veterinária ou afins. Quanto à nota após a defesa de Dissertação: a) Só poderá obter nota 9,0 (nove) ou superior o mestrando que no dia de sua defesa tenha um artigo aceito em periódico classificado no Qualis/CAPES como B3 (ou superior) na área de Medicina Veterinária ou afins; b) Só poderá obter nota 10,0 (dez) o mestrando que no dia da sua defesa tenha um artigo aceito em periódico classificado no Qualis/CAPES como B1 (ou superior) na área de Medicina Veterinária ou afins; c) Só poderá obter Louvor o mestrando que no dia da sua defesa tenha um artigo aceito em periódico classificado Qualis/CAPES como na área de Medicina Veterinária ou afins.
Só poderá defender a Tese o doutorando que tiver um artigo enviado e outro aceito em um periódico classificado no Qualis/CAPES como B1 como (ou superior) na área de Medicina Veterinária ou afins. Quanto à nota após a defesa da Tese: a) Só poderá obter a nota 9,0 (nove) ou superior o doutorando que no dia da sua defesa tenha um artigo enviado e outro aceito em periódico classificado no Qualis/CAPES como A na área de Medicina Veterinária ou afins; b) Só poderá obter nota 10, 0 (dez) o doutorando que no dia da sua defesa tenha dois artigos aceitos em periódico classificado no Qualis/CAPES como A na área de Medicina Veterinária ou afins; c) só poderá obter Louvor o doutorando que no dia de sua defesa tenha dois artigos aceitos em periódico classificado no Qualis/CAPES como A1 na área de Medicina Veterinária ou afins.
A verdadeira figura em que a verdade existe só pode ser o sistema científico dela. Somente Hegel, insistimos neste aspecto, definiu o princípio da realidade como uma Ideia lógica, fazendo, portanto, do ser das coisas um ser puramente lógico e chegando assim a um panlogismo consequente que apresenta ainda, um elemento dinâmico-irracional, existente no método dialético. Nisto se distingue o panlogismo hegeliano do neokantismo, que eliminou este elemento e instituiu assim um puro panlogismo. O idealismo apresenta-se, para sermos breves, em duas formas principais: como idealismo subjetivo ou psicológico e como idealismo objetivo e lógico. Mas estas diversidades no plano analítico movimentam-se no âmbito de uma concepção fundamental. Esta é justamente a tese idealista de que o objeto do conhecimento não é “menos que nada”, mas algo ideal, para concordarmos com Slavoj Žižek (2013). A ideia de um objeto independente da consciência é contraditória, pois, no momento em que pensamos num objeto, como no amor, por exemplo, fazemos dele um conteúdo de nossa consciência. Se ao afirmarmos simultaneamente que o objeto existe fora da nossa consciência, contradizemo-nos com isso a nós próprios; portanto não há objetos reais “extra conscientes”, mas a realidade enquanto alusão acha-se contida na consciência.
Atualmente, a gestão administrativa do CNPq é de responsabilidade de uma Diretoria Executiva, enquanto o conselho deliberativo é responsável pela política institucional. Por meio de “Comitês de Assessoramento”, a comunidade científica e tecnológica contribui na gestão e na política do CNPq que oferece “bolsas” e auxilio à pesquisa em diferentes modalidades. As “bolsas” são destinadas a pesquisadores experientes, a indivíduos recém-doutorados, a alunos de pós-graduação, graduação e ensino médio. Os valores econômicos das bolsas são variados. Existem duas categorias de bolsas: bolsas individuais no Brasil ou no exterior, ou bolsa por “quotas”. As bolsas individuais, tanto no país, como no exterior, são de fomento científico ou tecnológico. O auxilio oferecido pelo CNPq pode ser destinado a instituições, a cursos de pós-graduação de Mestrado e Doutorado, a pesquisadores e a Fundações de apoio à pesquisa. São várias modalidades de auxílio, como financiamento para publicação científica, promoção de congressos, intercâmbios científicos para capacitação de pesquisadores e projetos de pesquisa. O relatório de “prestação de contas” é obrigatório para bolsistas de A1, o mais elevado; A2; B1; B2; B3; B4; B5; C - com peso zero.
Contraditoriamente o anúncio foi feito no início de agosto, com a divulgação, pelo CNPq, do resultado das Chamadas 2016-2018 das bolsas de Iniciação Científica. Serão 26.169 bolsas concedidas neste ano - 20% a menos do que em 2015. A Iniciação Científica (IC) é importante para despertar o interesse dos alunos para a ciência. Trata-se, nas palavras do CNPq, de uma forma de “integração do aluno de graduação à cultura científica e/ou tecnológica, por meio do desenvolvimento de atividades de pesquisa sob a supervisão de um orientador qualificado”. O “orientador qualificado”, que trabalha com o jovem estudante em uma pesquisa de Iniciação Científica, acaba fazendo também um trabalho de supervisão e de mentoria, atividade que tem ganhado cada vez mais espaço nas instituições de ensino superior de ponta no mundo. Aqui, entende-se como “mentor” um professor com o qual o aluno trabalhou de maneira bem próxima durante a graduação, que auxiliou nos estudos, na definição de quais disciplinas cursarem e que deu alguma orientação em termos de carreira. No cenário acadêmico, reduzir o número de bolsas no começo da carreira científica pode significar menos cientistas qualificados no país no futuro. - “O problema é que sem ciência não dá para fazer nada, nem exportar soja”, diz Nader, da SBPC. Ligado ao MCTIC, “o CNPq tem sofrido cortes juntamente com a pasta de ciência, que deve receber cerca de R$3,5 bilhões neste ano”. Para se ter uma ideia do que isso significa, “o orçamento do ex-MCTI em 2014 tinha mais do que o dobro desse valor  - antes de todas as pastas começarem a sofrer cortes”.
Uma organização observa Marilena Chauí (2003), difere de uma instituição por definir-se por uma prática social determinada de acordo com sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios (administrativos) particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às ideias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas ideias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. Por ser uma administração, é regida pelas ideias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe.
Do ponto de vista do trabalho a gestão de carreira envolve duas partes principais: a da organização e a concepção do indivíduo. Diferentemente de décadas passadas, quando as organizações definiam as carreiras de seus empregados, na modernidade o papel do indivíduo na gestão da carreira se torna relevante e assume um papel progressivamente mais atípico. Os empregados assumem, na atualidade, o papel de planejar sua própria carreira, sendo estimulados a acumular conhecimentos científicos e administrar suas carreiras para garantir mobilidade no mercado de trabalho. No início  indivíduos buscam desafios, salários atrativos e responsabilidades, após amadurecerem, passam a se interessar por trabalhos que demandem autonomia e independência, segurança e estabilidade, competência técnica e funcional, competência gerencial, criatividade intelectual, serviço e dedicação a uma causa, desafio político, estilo de vida.
A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e pretende definir uma universalidade (imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições, impostas pela divisão. Ao contrário, a organização busca gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos polos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais. A questão nevrálgica refere-se à pergunta: Como foi possível passar da ideia da universidade como instituição à definição como organização prestadora de serviços?
Em primeiro lugar através da passagem da produção de massa e da economia de mercado para as sociedades de conhecimento baseadas na informação e comunicação. Na esfera de ação política é regulação da existência coletiva, poder decisório, luta entre interesses contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos mil entre forças sociais, violência em última análise. Só que a produção dos processos políticos, baseados em instituições sociais como esfera de poder, em segundo lugar, se diferencia radicalmente da produção econômica porque usam eventualmente suportes materiais, como armas, livros, processos, papéis onde se inscrevem as ordens, os atos de gestão, as sentenças ou as leis, mas não é uma produção material no sentido marxista do termo. É assim porque consistem em decisões imperativas, decisões que podem mudar o plano de vida individual (os sonhos) e da coletividade (os mitos, os ritos, os símbolos). É também diferente da produção simbólica porque se exercita sobre o interesse dos agentes sociais, quando não sobre os próprios tabus do corpo. Corresponde a atos de vontade que regulam atividades coletivas; disciplina práticas sociais. Não produzem mensagens, discursos; produzem obediências, obrigações, submissões, direitos, deveres, controles. Poder, para sermos breves, é uma relação social que se constitui através de mando e obediência. As decisões tomadas politicamente se impõem a todos num dado território ou numa dada unidade social. Convertem-se em atividades coercitivas (esfera da segurança), administrativas (esfera da administração), jurídico-judiciárias (esfera da justiça) e legislativas (esfera da deliberação). Simplificadamente, processo político diz respeito à pergunta: Quem pode o quê sobre quem? Eis a grande questão do processo político, do confronto entre forças sociais, da sujeição de vontades a outras vontades.
Bibliografia geral consultada.
APPLE, Michael, Ideology and Curriculum. New York: Routledge & Kegan Paul Editors, 1979; HABERMAS, Jürgen, Teoría de la Acción Comunicativa. Madrid: Ediciones Taurus, 1987; ALBAGLI, Sarita, Ciência e Estado no Brasil Moderno: Um Estudo sobre o CNPq. Dissertação de Mestrado em Ciências. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 1988; BRUCE, Mary Alice, “Mentoring Women in Doctoral Students: What Counselor Educators and Supervisors Can Do”. In: Counselor Education and Supervision, 35 (2), 139-149; 1995; CHAUÍ, Marilena, “La Universidad en Liquidación”. In: Revista de Critica Política y Cultural. Buenos Aires, Volume 14, pp. 59-61, 1999; CABRAL, Carla, O conhecimento Dialogicamente Situado: Histórias de Vida, Valores Humanistas e Consciência Crítica de Professoras do Centro Tecnológico da UFSC. Tese de Doutorado em Educação Científica e Tecnológica. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2006; JACON, Maria do Carmo Moreira, Base Qualis: Uso e Qualidade dos Periódicos Científicos no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1997-2002). Campinas: Pontificia Universidade Católica de Campinas, 2006; BOZEMAN, Barry and FEENEY, Mary Kay, “Toward a Useful Theory of Mentoring: A Conceptual Analysis and Critique”. In: Administrative and Society, 39 (6),719 - 739; 2007; ROCHA E SILVA, Mauricio, “O Novo Qualis, ou A Tragédia Anunciada”. In: Clinics vol.64 n°.1. São Paulo, janeiro de 2009; MOROSINI, Marília Costa “et al”, “A Evasão na Educação Superior no Brasil: Uma Análise da Produção de Conhecimento nos Periódicos Qualis entre 2000-2011”. Disponível em: http://revistas.utp.ac.pa/index.2011; GONTIJO, Aldriana Azevedo, O Lugar do Currículo no Conselho de Classe. Dissertação de Mestrado em Educação. Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE-UnB). Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), 2015; BOURDIEU, Pierre, A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 2015; VOGEL, Michely Jabala Mamede, Avaliação da Pós-Graduação Brasileira: Análise dos Quesitos Utilizados pela CAPES e das Críticas da Comunidade Acadêmica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Univcersidade de são Paulo, 2015;  BODART, Cristiano das Neves; SOUZA, Ewerton Diego de “Configurações do Ensino de Sociologia como um Subcampo de Pesquisa: Análise dos Dossiês Publicados em Periódicos Acadêmicos”. In: https://www.redalyc.org/journal/13/11/2017entre outros.

domingo, 13 de agosto de 2017

Porteiro Predial - Trabalho, Rotinização & Adoção Social de Domótica.

                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

Não adianta ir à igreja, fazer yoga e não cumprimentar o porteiro”. Osvaldo Daibert


Severino Florença, porteiro no prédio Chopin & quentinha da Maitê Proença.

            A alguns quarteirões, na portaria do n° 194 da rua Barata Ribeiro, no bairro Copacabana, um minuto parece comportar mais “boa tardes” do que os 60 segundos dos ponteiros de um relógio de ponto. O vaivém é incessante no edifício que fez fama com o seu número original, o 200, e traça novos rumos. Porteiro há 31 anos ali, o paraibano Luiz Domingues, de 69 anos, conta que o movimento só diminui depois da meia-noite, quando seis dos sete elevadores são desligados. - Aqui é como em qualquer outro prédio. Não vejo nada demais. Briga de vizinho, suicídio. Mas tudo muito raro. O gigante de 45 apartamentos por andar foi habitado por 2 mil pessoas no auge das manchetes policiais, nos anos 1970. Hoje, são cerca de 700. - O máximo que acontece é cair uma cobra da mata atrás do prédio - garante o síndico Benedito Rodrigues, no cargo há 11 anos. - A maioria dos apartamentos naquela época era alugada. Hoje, a situação inverteu-se e o prédio melhorou. Enquanto o condomínio mudava de perfil, a vida de Domingues também. Um segundo casamento aumentou o número de filhos de quatro para oito. O endereço mudou de Copacabana para Vila Isabel. O que se manteve igual mesmo foi o trabalho.

             O síndico do n°180 me chamou para trabalhar lá, mas não quis. Aqui conheço o pessoal e o trabalho. Conheço bem o prédio e até tenho um projeto de reforma com cozinha americana que já fiz em vários apartamentos. Deixo tipo casinha de boneca - narra, acrescentando criticamente. – “Mas para trabalhar aqui tem que ter paciência”. A concepção de Axel Honneth (2004; 2006) problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada por formas intencionais de tornar pessoas invisíveis. De forma semelhante à interpretação da análise da reificação, a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral, a partir da teoria do reconhecimento. Para Honneth, um ato de reconhecimento pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha.



É importante mencionar que Honneth faz uma distinção muito sofisticada entre invisibilidade e visibilidade, de modo que, embora ambas as ideias sejam aparentemente espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente diferentes. No conceito negativo (invisibilidade), as pessoas afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é invisibilizado socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo o sentimento de que não é identificado ou reconhecido. A discrepância conceitual que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade ocorre com a transição para o conceito positivo, as condições governando a sua aplicabilidade são mais exigentes.
       Enquanto a invisibilidade no sentido visual significa apenas o fato de que um objeto não está presente como um objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes. A qualidade de vida é um tema que merece destaque pelo fato de se tratar de questões sociais e políticas relacionadas diretamente com a maneira com que os indivíduos conduzem sua forma de vida. A qualidade de vida no trabalho pode ser definida como o conjunto das ações dentro da empresa que envolve a implantação e manutenção de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho. Representa, portanto, como a gestão e a educação para o bem-estar no trabalho, com decisões e escolhas baseadas na cultura organizacional e no estilo de vida dos diferentes segmentos ocupacionais. Apesar de ser uma linha de estudo recente e necessitar de detalhamento de situações concretas para melhor compreensão do tema, a qualidade de vida no ambiente de trabalho com diversas concepções e teorias, que trouxeram à tona fatores preponderantes  para o desenvolvimento da atividade administrativa em função das condições adequadas de trabalho, incentivos e recompensas salariais oportunas, cuidados com a saúde do trabalhador etc.                       
Ironicamente, o setor da construção civil brasileira, construído artesanalmente pelas mãos de operários majoritariamente analfabetos e sem qualificação técnica, paga o preço de anos sem investimentos em formação de pessoal. E agora, quando, finalmente, depois de quase três décadas de estagnação, o segmento retoma o ciclo de crescimento consistente e demanda um contingente de mão-de- obra expressiva para dar conta do aumento do volume de obras falta trabalhadores habilitados. Carpinteiros de formas, armadores e profissionais de escoramento já são figuras raras no mercado. E se nem mesmo aqueles que já atuam no setor respondem às necessidades do novo paradigma da construção, o que dizer dos mais de 20 milhões de desempregados do Brasil afora, que em outros tempos seriam aqueles que poderiam abastecer a demanda da construção, historicamente receptiva à mão-de-obra desqualificada e conhecida como a porta de entrada do trabalho? A questão é quem vai assumir a responsabilidade social e de mercado pela qualificação e formação de todo esse contingente de trabalhadores? A construção não apenas deixou de investir no aprimoramento de seus funcionários como também atrai mão-de-obra gradativamente menos qualificada, perdendo seus profissionais para as indústrias metalúrgica, têxtil e automobilística, mais atrativas. 


Porteiros são substituídos por equipamentos eletrônicos ou virtual.

A divisão do trabalho proposta por Adam Smith acabou resultando na concentração dos trabalhadores em centros produtivos, destinados à realização de operações mais ou menos similares e, simultaneamente, na organização dos diversos centros produtivos ao longo de certa cadeia de produção. Além disso, os trabalhadores não tinham ideia do processo produtivo como um todo, pois eram especialistas numa única tarefa. Por isso, tornava-se necessário controlar a sua atividade especializada, já que um erro nas múltiplas operações poderia ter consequências inesperadas nas tarefas subsequentes e nos produtos finais. Na fábrica, a divisão do trabalho em tarefas cada vez menores exige do trabalhador especialidade, domínio específico sobre determinada atividade. O trabalho, tecnicamente dividido em parcelas cada vez menores, implica na desqualificação do trabalhador. A parcelarização da atividade de trabalho corresponde à pulverização do saber científico e técnico do trabalhador, predominante ao longo de quase todo o século XX, pois a extração e o fracionamento do saber do trabalhador conheceram a sua forma mais aperfeiçoada desde o taylorismo e o toyotismo e o fracionamento na execução do trabalho tornou-se rotina com o modelo anterior adotado pelo fordismo e toyotismo em suas fábricas automobilísticas.                  
O toyotismo enquanto ideologia do mais trabalhorepresenta um sistema de organização voltado para a produção de mercadorias. Criado no Japão após a 2ª guerra mundial pelo engenheiro japonês Taiichi Ohno, o sistema foi aplicado na fábrica da Toyota originando o nome do sistema.  O Toyotismo espalhou-se a partir da década de 1960 por várias regiões do mundo e até hoje é aplicado em muitas empresas. Nesse sistema os trabalhadores se tornaram “corpos dóceis”, bem educados, treinados e qualificados para conhecer todos os processos de produção, podendo atuar em várias áreas do sistema produtivo da empresa. É um sistema flexível de mecanização, voltado para a produção “somente do necessário”, evitando ao máximo o excedente. A produção deve ser ajustada a demanda do mercado, com o uso aparente de controle visual em todas as etapas de produção como forma de acompanhar e controlar o processo produtivo, com a chamada implantação do “sistema de qualidade total” nas etapas de produção. Além da alta qualidade dos produtos, busca-se evitar ao máximo o desperdício de matérias-primas e tempo. É reconhecido pela aplicação do sistema Just in Time, ou seja, produzir somente o necessário, no tempo necessário e na quantidade necessária, utilizando a técnica da técnica de marketing de mercado para adaptar os produtos às exigências dos clientes.
Porteiro, também encarregado de portaria, é a designação da profissão onde o trabalhador deve ficar na porta da entrada de um estabelecimento para proteger a entrada indevida de estranhos. Este local é designado como portaria. Este profissional vigia dependências, áreas públicas e privadas, com a finalidade de prevenir, controlar e combater delitos do dia-a-dia como roubo, porte ilícito de armas e munições, e outras irregularidades. Estes trabalhadores zelam pela segurança das pessoas, do patrimônio e pelo cumprimento das leis e regulamentos; recepcionam e controlam a movimentação de pessoas em áreas de acesso livre e restrito; fiscalizam pessoas, cargas e patrimônio; escoltam pessoas e mercadorias. Controlam objetos e cargas, vigiam parques e reservas florestais, combatendo inclusive focos de incêndio. Comunicam-se via rádio, telefone fixo, celular ou interfone e prestam informações ao público e aos órgãos competentes. São condições de trabalho para inexperientes e de faixa etária diversificada. 

Entende-se por posto de trabalho ao “lugar praticado” por uma pessoa em uma empresa, instituição ou entidade qualquer que desenvolva algum tipo de atividade ou emprego para poder ganhar a vida e receber um salário determinado. O posto de trabalho é um conceito abstrato que significa que a atividade pela qual uma pessoa é contratada, recebe um salário devido ao seu esforço, à quantidade de horas trabalhadas, à necessidade de conhecimentos, ao perigo que o trabalho pode oferecer etc. 
        De qualquer forma, há muitos postos de trabalho que devido a suas implicações de tempo/espaço, não permitem à pessoa estabelecer laços sociais, pois são trabalhos solitários ou de serviço temporário. Quem é esse profissional de quem você recebe o primeiro bom dia quando chega ao trabalho e tem uma grande carga de vigilância e preconceito social? Ele não é uma figura muito presente nas pequenas cidades do interior brasileiro, mas nos grandes centros econômicos e políticos é muito comum encontrá-lo cuidando de portarias de prédios residenciais ou comerciais. Esse profissional é visto literalmente como porteiro, posto que represente “o cuidador de portas”, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, versão original que resultou do trabalho de pesquisa de mais de três décadas do reconhecido lexicógrafo, o Imortal Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. No programa Sai de Baixo, Ribamar era o porteiro do edifício Arouche Towers. O personagem se popularizou extrapolando as fronteiras de marca do programa, projetando seu personagem nordestino ao humorístico Zorra Total e se tornou uma das maiores figuras humorísticas de Tom Cavalcante.
A confecção do léxico teve início ainda nos anos 1950, quando o poeta Manuel Bandeira convidou o então professor da Fundação Getúlio Vargas, Aurélio Buarque, para auxiliar na redação do “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, da Civilização Brasileira. Da equipe formada então faziam parte Joaquim Campelo Marques e Marina Baird Ferreira (esposa de Aurélio) a que se juntaram mais tarde Margarida dos Anjos, Stella Rodrigo Otávio Moutinho e Elza Tavares Ferreira que, junto ao próprio Aurélio, foram os autores da primeira edição. A intenção inicial era sua publicação em suplementos da revista O Cruzeiro, o que não ocorreu, e em 1966 a equipe foi contratada, sob a condição de concluir o trabalho em dois anos, pelo editor Abraham Koogan. A nova iniciativa também fracassa, fazendo com que os próprios colaboradores fundassem uma editora - a JEMM - com o fim específico de publicar o dicionário. Após sucessivos atrasos, disputas entre os dicionaristas, a iniciativa também não vingou, sendo então procurados outros parceiros capazes de custear a iniciativa. Instituições públicas e privadas negaram-se a participar da edição, como o editor José Olympio ou o Banco Itaú, além de instituições estatais. Com a cassação do político Carlos Lacerda, este se voltara para sua editora Nova Fronteira. Através da mediação do cronista Rubem Braga, Lacerda se interessa em publicar o dicionário. Com os lucros da venda do romance O Exorcista, de Peter Blatty, finalmente teve o capital necessário para custear a primeira tiragem da obra, que se revelou um sucesso editorial.
Em tempos da monarquia entre Portugal e Brasil, comparativamente durante o processo de colonização chegaram a existir despachos públicos dos reis para louvar esta função quanto ao serviço prestado da Casa Real. Mas, eles e os contadores também desempenhavam as funções de contabilistas da mesma casa régia. O trabalho de porteiro em Portugal é uma profissão regulamentada. Na França é muito usado o termo concièrge “para designar uma pessoa responsável por uma casa, o que corresponderia antes ao zelador”. A designação também é usada para uma pessoa, “encarregada de orientar os hóspedes de um hotel e também prestar informações sobre os mais variados aspectos da cidade que está sendo visitada pelos hóspedes”. A função do concièrge é justamente “orientar os hóspedes para lhes proporcionar uma estada agradável e bem sucedidos na cidade visitada”. Em 2008 existiram no Brasil aproximadamente 414 mil pessoas exercendo a função de porteiro. O dia 9 de junho foi declarado o Dia do Porteiro. O porteiro pertence simultaneamente a posto e função da classe 5174 correlata aos porteiros e vigias segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).
“Sai de Baixo” (Rede Globo).
De acordo com a legislação do Ministério do Trabalho e Previdência Social referente ao emprego de portaria, (inc. II, parágrafo único, art. 87 CF/88), estão dispostas na Portaria nº 397, de 09 de outubro de 2002: CBO - 5174 - Porteiros e Vigias, 5174-05 – Porteiro (hotel) Atendente de portaria de hotel, Capitão porteiro; 5174-10 – Porteiro de edifícios – Guariteiro, Porteiro, Porteiro industrial; 5174-15 – Porteiros de locais de diversão – Agente de portaria. Descrição sumária: Zelam pela guarda do patrimônio de fábricas, armazéns, residências, estacionamentos, edifícios públicos, privados e outros estabelecimentos, entrada de pessoas estranhas e outras anormalidades. Controla o fluxo de pessoas, identificando, orientando e encaminhando-as para os lugares desejados, recebem hospedes em hotéis e fazem manutenções simples nos locais de trabalho na portaria em que exercem as suas funções regulares. Funções do Porteiro: 1º - Atendimento aos funcionários; 2º - Controle de entrada e saída de pessoas; 3º - Controle de entrada e saída de veículos; 4º - Controle de entrada e saída de mercadorias; 5º - Recebimentos e encaminhamento de documentos / correspondências; 6º - Identificação de cargas, embalagens e documentos; 7º - À circulação (entrada e saída) de mercadorias com a documentação fiscal em ordem; 8º - Encaminhamento de autoridades: Policiais / Judiciária; 9º - Atendimento e uso de telefones da empresa; 10º - Relação de telefone na portaria; 11º - Transmissão de recados urgentes ou não.
A tabela de Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) foi atualizada com 21 novas profissões registradas. Na lista, entraram as funções de sanitarista, técnico em espirometria (exame que mede velocidade de entrada e saída de ar dos pulmões), estoquista e monitor de ressocialização prisional. Agora, o Brasil possui 2.638 profissões reconhecidas. Os dados da CBO alimentam as bases estatísticas de trabalho e servem de subsídio para a formulação de políticas públicas de emprego. A atualização é feita levando em conta mudanças nos cenários tecnológico, cultural, econômico e social do País, que provocam alterações na dinâmica do mercado de trabalho brasileiro. O reconhecimento de uma ocupação é feito após um estudo das atividades e do perfil da categoria. São levadas em consideração informações descritas através da Relação Anual Informações Sociais (RAIS), demandas geradas pelo Sistema Nacional de Emprego (SINE), pelas associações e sindicatos tanto trabalhistas quanto patronais e por profissionais autônomos. No decorrer do processo social, são realizadas entrevistas em imersão com trabalhadores nos setores indicados. A chefa de Divisão da CBO, Cláudia Maria Virgílio de Carvalho, destaca a importância de ouvir todos os envolvidos. “Quem melhor pode falar sobre uma ocupação é quem desempenha a função”. A CBO é o documento que reconhece a existência de determinada ocupação, e não a sua regulamentação, que deve ser feita por lei e sancionada pela Presidência da República.
É a partir desta representação material entre coisas é que se configura o processo social de alienação do trabalho na portaria. O Capital mercantiliza as relações sociais, as pessoas enredadas em seu trabalho e as coisas. Ao mesmo tempo, pois, mercantiliza a força de trabalho, a energia humana que produz valor, transforma as pessoas em mercadorias, tornando-as adjetivas de sua força de trabalho. A mais-valia e a mercadoria são a condição e o produto das relações de dependência, alienação e antagonismo do operário e do capitalista, um em face do outro. A mais-valia e a mercadoria não podem ser compreendidas em si, mas como produto das relações de produção que reproduzem as relações de produção na sociedade global. Na análise dialética, elas surgem como realmente são, isto é, como propriedades naturalizadas a essas coisas e, por isso, ofuscam também a relação social com o trabalho total como uma relação social entre objetos, existentes à margem dos produtores. Marx utiliza a noção de fetichismo da mercadoria posto que é inseparável da produção.   

 
Francisco Evandro é cearense, porteiro e optou pela moradia no local de trabalho.A questão pode ser posta da seguinte forma: por que o trabalhador encarregado de uma portaria é visto pela sociedade brasileira do ponto de vista do preconceito e do desprezo social? A rotinização pode ser considerada uma variante da racionalização da tarefa e do cargo, mas quando utilizada integralmente um de seus princípios, modifica outro princípio e descarta outros. Assim é que, a rotinização do trabalho de porteiro não permite a formação de grupos. Separa o planejamento da execução da tarefa até um nível conveniente, sem estabelecer a maneira ótima de desempenho. Não procede ao selecionamento e desenvolvimento científico do trabalhador, mas através de relações pessoais. Não usa recompensas monetárias como fator motivacional para aumentar a produtividade no ambiente de trabalho. Na medida em que os princípios utilizados pelos métodos de racionalização do trabalho se justificam, em seu conjunto, em termos de busca de máxima produtividade, esta lógica é derivada de uma determinada concepção quanto ao trabalhador, sua função e ao mercado de mão-de-obra de uma forma geral.
Conforme dados da RAIS, existem no Brasil 413,7mil porteiros. O estado de São Paulo concentra o maior número: mais de 149 mil. A seguir vem o Rio de Janeiro com 55,6 mil e a terra de Tancredo Neves com 34,5mil. No Acre constam registrados apenas 204 porteiros. O Brasil vive uma conjuntura degradada de desvalorização da mão de obra. A insatisfação com o trabalho é um problema que a cada dia afetam profissionais, principalmente em ocupações com pouca exigência de qualificação de mão-de-obra. Falta de concentração, produção reduzida e distração são algumas das características de profissionais insatisfeitos. Pesquisa da ISMA Brasil (International Stress Management Association) demonstrou segundo amostragem que 72% das pessoas não estão insatisfeitas com o trabalho. Segundo a pesquisa, a insatisfação em 89% dos casos tem a ver com reconhecimento, em 78% com excesso de tarefas e em 63% com problemas de relacionamento. A pesquisa foi realizada nas três capitais mais representativas do Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre com amostragem de 1.034 profissionais no mercado de trabalho em 2014. O perfil profissional mais recorrente é o de um trabalhador com 33 anos, Ensino Médio incompleto, do sexo masculino que trabalha 44h semanais em grandes empresas do segmento de Serviços combinados para apoio a edifícios. A faixa salarial do Porteiro CBO 5174-10 é equiparada entre R$ 1.235,56 (média do piso salarial 2020 de acordos, convenções coletivas e dissídios), R$ 1.348,00 (salário da pesquisa) e o teto salarial de R$ 2.145,21, levando em conta carteira assinada em regime da Consolidação das Leis de Trabalho no Brasil.
Bibliografia geral consultada. 
RODRIGUES, José Honório, História, Corpo do Tempo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización: Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas. 2ª edicíon. México: Fondo de Cultura Económica, 1989; LIMONGI-FRANÇA, Ana Cristina, Indicadores Empresariais de Qualidade de Vida no Trabalho: Esforço Empresarial e Satisfação dos Empregados no Ambiente de Manufaturas com Certificação ISO 9000. Tese de Doutorado em Administração. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1996; GAVILÁN, Mirta, “La desvalorización del rol docente”. In: Revista Iberoamericana de Educación. La Plata, nº 19, pp. 211-227, 1999; FLOTTES, Anne, “La subjectivité dans le travail; est-elle vendable? À quel prix?”. In: Revue Travailler. Paris, nº4, pp.73-92, dec. 2000; DEL MAESTRO FILHO, Antônio, Modelo Relacional entre Modernização Organizacional, Práticas Inovadoras de Treinamento e Satisfação no Trabalho. Tese de Doutorado em administração. Faculdade de Ciências Econômicas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2004; SGARBI, Julio André, Domótica Inteligente: Automação Residencial Baseada em Comportamento. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica. São Bernardo do Campo: Centro Universitário da FEI, 2007; HONNETH, Axel, Luta por Reconhecimento. A Gramática Moral dos Conflitos Sociais. São Paulo: Editora 34, 2009; MENEZES, Luciane Sant`Anna de, Um Olhar Psicanalítico sobre a Precarização do Trabalho: Desamparo, Pulsão de Domínio de Servidão. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010; DOMINGUES, Ricardo Gil, A Domótica como Tendência na Habitação: Aplicação em Habitações de Interesse Social com Suporte aos Idosos e Incapacitados. Dissertação de Mestrado. Programa de Engenharia Urbana. Escola Politécnica. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013; SILVA NETO, Francisco Secundo da, A Gênese da Cultura Moleque Cearense: Análise Sociológica da Interpretação e Produção Culturais. Tese de Doutorado em Sociologia. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Ceará, 2015; NOGUEIRA, Mariana Lima, O Processo Histórico da Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde: Trabalho, Educação e Consciência Política Coletiva. Tese de Doutorado. Programa de Políticas Públicas e Formação Humana. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017; entre outros.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Luiz Melodia - Artista Popular & Tipógrafo da Pérola Negra.

                                                                                                    Ubiracy de Souza Braga

Carnaval, carnaval, carnaval, eu fico triste quando chega o carnaval”. Luiz Melodia

Como “arte do efêmero”, a música não pode ser completamente reconhecida e por isso é tão difícil enquadrá-la inicialmente em sua dinâmica social, com a formação das cidades, em um conceito simples no âmbito da formação cultural. A música também pode ser definida como uma forma de linguagem que se utiliza da voz, instrumentos musicais e outros artifícios, para expressar algo a alguém. Um dos poucos consensos é que ela consiste em uma combinação de sons e de silêncios, numa sequência simultânea ou em sequências sucessivas e simultâneas que se desenvolvem ao longo do tempo social. Neste sentido, engloba toda combinação de elementos sonoros destinados a serem percebidos pela audição. Isso inclui variações nas características do som, caracterizados pela altura, duração, intensidade e timbre, sendo ainda que podem ocorrer sequencialmente o ritmo e a melodia, ou simultaneamente a harmonia. Ritmo, melodia e harmonia são entendidos aqui apenas em seu sentido de organização temporal, pois a música pode conter propositalmente harmonias ruidosas, que contém ruídos ou sons externos ao tradicional e arritmias com ausência de ritmo formal ou desvios rítmicos.

A música representa uma forma de arte que se constitui na combinação de vários sons e ritmos, seguindo uma pré-organização historicamente. É considerada por diversos autores como uma prática cultural e humana. Não se conhece nenhuma civilização ou agrupamento que não possua manifestações musicais próprias. Embora nem sempre seja feita com esse objetivo, a música pode ser considerada como uma forma de arte, considerada por muitos como sua principal função. A criação, a performance, o significado e até mesmo a definição de música variam de acordo com a cultura e o contexto social. A música vai desde composições fortemente organizadas e a sua recriação na performance, música improvisada até formas aleatórias. Pode ser dividida em gêneros e subgêneros, contudo as linhas divisórias e as relações entre gêneros musicais são muitas vezes sutis, algumas vezes abertas à interpretação socialmente do tipo individual e ocasionalmente controversas. Dentro das artes em geral, a música pode ser classificada como uma arte de representação social, uma arte sublime, uma arte de espetáculo. Definir a música sociologicamente, não é tarefa fácil porque apesar de ser intuitivamente reconhecida por qualquer pessoa, no âmbito histórico da sociologia é difícil encontrar um conceito que abarque todos os significados dessa prática.

Mais do que qualquer outra manifestação humana, a música contém e manipula o som e o organiza no tempo. Talvez por essa razão ela esteja sempre fugindo a qualquer definição, pois ao buscá-la, a música já se modificou, já evoluiu. E esse jogo do tempo é simultaneamente físico e emocional. E é nesse ponto que o consenso deixa de existir. As perguntas que decorrem desta simples constatação encontram diferentes respostas, se encaradas do ponto de vista social do criador (compositor), do executante (músico), do historiador, do filósofo, do antropólogo, do linguista ou do amador. Para indivíduos de muitas culturas, a música está extremamente ligada à sua vida. A música expandiu-se ao longo dos anos, e atualmente se encontra em diversas utilidades não só como arte, mas também como a militar, educacional ou terapêutica (musicoterapia). Além disso, tem presença central em diversas atividades coletivas, como os rituais religiosos, festas e funerais. Há evidências de que a música é reconhecida e praticada desde a pré-história. Provavelmente a observação dos sons da natureza tenha despertado no ser humano, através do sentido auditivo, a necessidade ou vontade de uma atividade que se baseasse na organização de sons. Embora nenhum critério científico permita estabelecer seu desenvolvimento de forma precisa, a história da música confunde-se com a própria história do desenvolvimento da inteligência e da cultura humana.   

                   

 Vale lembrar que o termo específico “música popular brasileira” (MPB) já era historicamente utilizado na vida cotidiana no início do século XX, sem, entretanto, definir um “movimento social” ou grupo de artistas e da popularidade de um gênero musical organizadamente determinado pelo processo de miscigenação na cidade. No ano de final da segunda guerra mundial (1945), o livro: “Música Popular Brasileira”, de Oneyda Alvarenga, relaciona o termo a “manifestações populares, como o bumba-meu-boi”. Somente duas décadas depois ganharia também a sigla Música Popular Brasileira e a concepção que se tem atual do termo. A música popular brasileira surgiu exatamente em um momento de declínio da Bossa Nova, gênero renovador na música brasileira, surgido na segunda metade da década de 1950, considerado um processo simultaneamente industrialista e desenvolvimentista do eixo urbano do Rio de Janeiro-São Paulo. Influenciado pelo jazz norte-americano, a a invenção da Bossa Nova deu novas marcas simbólicas ao samba tradicional. Mas na primeira metade da década de 1960, a Bossa Nova passaria por evidentes transformações culturais e, a partir de uma nova geração de compositores, o movimento chegaria ao fim já na segunda metade daquela década. Ipso facto, se as portas da percepção sobre o samba estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.

Inicialmente, o estilo que seria conhecido como MPB era denominado como Música Popular Moderna (MPM), terminologia utilizada pela primeira vez em 1965, para identificar: a) canções que já se diferenciavam da bossa nova, b) que não eram samba, nem moda ou marchinha, c) mas, que aproveitavam simultaneamente a suavidade do repertório da bossa nova, d) o carisma das tradições regionais e o cosmopolitismo de canções norte-americanas, que se tornaram conhecidas do público brasileiro por meio do cinema. Um dos primeiros exemplos de canção rotulada como Música Popular Moderna foi “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, que em 1965, interpretada por Elis Regina, venceu o 1º Festival de Música Popular da TV Excelsior. Em 1966, o samba “Pedro Pedreiro”, de Chico Buarque, também foi classificado como MPM, pois não era bossa nova, nem jovem guarda e nem música de protesto. Também em 1966, um conjunto vocal de Niterói, até então conhecido como “Quarteto do CPC”, sigla do Centro Popular de Cultura, adotou o nome “MPB 4”. Na virada da década de 1960 para a de 1970, deixou-se de adotar a sigla MPM que foi substituída pela sigla MPB – Música Popular Brasileira.              

A Música Popular Brasileira, não por acaso que é vagamente entendida como um estilo musical que iniciou-se em meados dos anos 1960, a tipos de música que surgiram, comparativamente após o início, origem e evolução da Bossa Nova. Todavia ideia do gênero musical “bossa negra” é antiga. - “Ela surgiu em Miami (Estados Unidos da América), em cima do palco, enquanto eu dava uma canja no show do Hamilton. Foi um “jam” que aconteceu sem ensaio. O repertório foi escolhido na hora e incluiu canções de artistas que admiramos - como Baden Powell e Vinícius de Moraes, e outros. O resultado foi ótimo e no camarim decidimos que tínhamos que levar a parceria adiante”, lembra Diogo Nogueira. Durante cinco anos os artistas mantiveram contato social e em 2014 conseguiram afinar as agendas de trabalho para a concretização da Bossa Negra. – “Começamos a montar o repertório e o processo todo, incluindo a produção do álbum, levou cerca de seis meses”, completa Hamilton de Holanda.
Nascido em 1951 no morro do Estácio, no Rio de Janeiro, Luiz Melodia bebeu do samba direto da fonte: o bairro é central na gênese do ritmo. Mas gostava também das guitarras da Jovem Guarda. Luiz Melodia iniciou sua carreira musical em 1963 com o cantor   Mizinho, ao mesmo tempo em que trabalhava como tipógrafo e músico em bares noturnos. Em 1964 formou o conjunto musical “Os Instantâneos”, com Manoel, Nazareno e Mizinho, tocando sucessos da chamada Jovem Guarda, um movimento cultural brasileiro surgido em meados da década de 1960, que mesclava música, comportamento e moda e no estilo musical da bossa nova, com o referido grupo formado com amigos. Essa experiência e a atmosfera lúdica em que vivia do tradicional samba dos morros cariocas resultaram em uma mescla de influências e de sentido de coisas e pessoas que proporcionaram a Luiz Melodia um estilo único de representação da música brasileira. Chamou à atenção de um frequentador do morro do Estácio, o poeta Wally Salomão e de Torquato Neto (1944-1972). Através de Wally, Gal Costa acabou reconhecendo um de seus compositores prediletos, resultando na gravação de “Pérola negra” no disco “Gal a todo vapor” (1972). Pouco depois era vez de “Estácio, Holly Estácio”, ganhar sua interpretação na voz grave da extraordinária Maria Bethânia. 

Foi nesta época historicamente que assumiu o nome de Luiz Melodia - apropriando o sobrenome artístico de seu pai Oswaldo -, e lançou em 1973 seu primeiro e antológico disco “Pérola negra”. Foi casado com a produtora e cantora Jane Reis, com quem tem o filho Mahal, também cantor/compositor, e integrante da dupla de hip hop Aliança 21 com/ Tigrão. Estácio é um bairro da Zona Central da cidade do Rio de Janeiro. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no ano 2000, era de 0,829, o 70º melhor da cidade do Rio de Janeiro. O seu nome é uma homenagem ao fundador da cidade, o invasor Estácio de Sá. A tradicional Igreja do Divino Espírito Santo remonta ao século XVIII. Abriga ainda a sede da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. O local onde se situa o atualmente o bairro do Estácio (RJ) já foi reconhecido pelo nome de Mata Porcos, devido ao fato de existir nas redondezas uma mata para onde fugiam alguns porcos de um matadouro situado no local. Posteriormente, como acesso ao bairro, foi aberto o Caminho de Mata-Porcos, depois renomeado para Rua Nova do Conde da Cunha, Rua da Sentinela e finalmente Rua Frei Caneca. Bairro inicialmente proletário, na gestão de Pereira Passos foi erguido uma vila operária ao longo da Av. Salvador de Sá, perto de onde se instalou a fábrica da cervejaria Brahma que posteriormente, em 1985, abasteceu o evento Rock`in Rio.   
Erguido com o nome de Casa de Correção da Corte, na época do imperador Pedro II, o Complexo Penitenciário Frei Caneca, um prédio que começou a ser erguido em 1850 no Centro do Rio de janeiro e que se transformou durante 150 anos em oito pavilhões – onde estiveram encarcerados presos políticos famosos internacionalmente, como o escritor Graciliano Ramos, que a publicação, naqueles anos, dos romances Caetés e São Bernardo, já tornara uma celebridade, foi preso em 3 de março de 1936, sem acusação formal, como ocorrera comparativamente com Luís Inácio da Silva, nestes dias, interrogatório ou processo mas suspeito de envolvimento com a Aliança Nacional Libertadora - ANL. Seu fim começou com a demolição, em 2003, do presídio feminino Nelson Hungria, transferido para o complexo de Bangu e da escola de gestão penitenciária. Em novembro de 2006, sua memória fora apagada, com a demolição da penitenciária Milton Dias Ferreira, assim como a de Lemos de Brito e Romero Neto.   
Machado de Assis era morador do bairro do Catete, na segunda metade do século XIX, a música que existia no Brasil estava dividida entre a popular, as polcas, por exemplo, e aquela apreciada pela elite social: a música clássica europeia e as óperas. Bellini, Donizetti e Rosini eram populares nos subúrbios dos bairros das principais cidades entre os brasileiros. O povo tocava violão, nos morros, nos subúrbios através dos fazia batuques enquanto cantava músicas com inspiração africana, influenciadas pelas polcas e valsas que vinham da Europa colonizadora. Conjuntos formados por brancos e mestiços de classe média tocavam em festas familiares, onde não havia piano. Os teatros de revista da Praça Tiradentes apresentavam tangos, maxixes e habaneras. A polca surgiu na Brasil em 1845 e fez extraordinário sucesso. Nos bailes de carnaval e nos clubes, tocavam polcas, maxixes, valsas e choros. Os seresteiros cantavam modinhas e lundus e se apresentavam, muitas vezes, em casas ricas com seu violão, escandalizando com seus temas sensuais e levando a música popular para os salões. 

Machado de Assis pôde assistir, no decorrer do século XIX e no começo do século XX, as alterações amplas e decisivas no cenário social e político internacional e nacional, nos costumes, nas ciências da natureza e da sociedade, nas técnicas e em quase tudo o que entende no âmbito do progresso material. Alguns estudiosos supõem, no entanto, erroneamente que as crenças antropológicas atribuídas a Machado de Assis como um escritor engajado são falsas e que ele não esperava nada ou quase nada da história e da política. Afrodescendente, testemunhou a tardia Abolição da Escravatura e a mudança política no país quando a República substituiu o Reinado, e foi grande comentador e relator dos eventos político-sociais. Suas crônicas estão repletas destes comentários. Em 1868, por exemplo, D. Pedro II demitiu o gabinete liberal de Zacarias de Góis e substitui-o pelo gabinete conservador de Itaboraí. Grêmios e jornais liberais acusaram a atitude do imperador de bonapartista. Machado de Assis testemunhou com simpatia aos liberais. Em 1895 com a morte de Joaquim Saldanha Marinho, liberal, maçom e republicano escreveu: - “Os liberais voltaram mais tarde, tornaram a sair e a voltar, até que se foram de vez, como os conservadores, e com uns e outros o Império”. Machado de Assis como afrodescendente e liberal não estava só, e era fervorosamente contrário à escravidão.

  Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros. Para a as frações da classe dominante o óbice maior não vinha do nosso Estado constitucional, que representava o latifúndio e dele se servia: o obstáculo era interposto pela nova matriz internacional, a Inglaterra. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade no exterior em função da divisão internacional do trabalho. Contudo, na modernidade tendo em vista sua inovação, imaginação e audácia em temas precoces e paradoxais, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção intelectual sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos literários, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.  Entende-se a reivindicação do mais desenfreado laissez-faire, contrapondo-se no plano pragmático ou das ideias a hostilidade que despertava entre os proprietários o controle social da sua nação por um Estado-nação estrangeiro.

Mas como o denominador ideológico comum era o liberalismo econômico, que conhece na época a sua fase áurea, só restava à retórica escravista uma saída para o impasse. Demonstrar que as ideias mestras da doutrina clássica, porque justas deveriam aplicar-se com justeza às circunstâncias, tanto quanto às peculiaridades nacionais. A atenção e o respeito ostensivo ao particular, tão insistentes nos escritos conservadores de Edmund Burke, permeiam a ideologia romântico-nacional que vai de Francisco de Varnhagen a José de Alencar, de Vasconcelos a Olinda, de Paraná a Itaboraí. Será o topo maior da argumentação de cunho protelatório: dar tempo ao tempo, já que o Brasil colonizado e periférico não é a Europa, e é preciso respeitar as diferenças, que na interpretação de literária de Alfredo Bosi (1992: 195) tem como escopo analítico crítico a filtragem ideológica e contemporização. As estratégias do nosso liberalismo intra-oligárquico em todo o período em que se constituía o Estado nacional.

  Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no centro do Rio de Janeiro, então capital do Império, em pleno Período Regencial. Seu pai  Francisco José de Assis, foi um mulato que pintava paredes, filho de Francisco de Assis e Inácia Maria Rosa, ambos pardos e escravos alforriados. A mãe foi a lavadeira Maria Leopoldina da Câmara Machado, portuguesa e branca, filha de Estevão José Machado e Ana Rosa. Consta que a família Machado de Assis imigrara para o Brasil em 1815, oriunda da Ilha de São Miguel, no arquipélago português dos Açores. Os pais de Joaquim Maria Machado de Assis sabiam ler e escrever, fato quase incomum naquele tempo e estratificação social. Ambos eram agregados da Dona Maria José de Mendonça Barrozo Pereira, esposa do falecido senador Bento Barroso Pereira, que abrigou seus pais permitindo morar com ela. As terras do Livramento eram ocupadas pela chácara da família de Maria José e já em 1818 o terreno começou a ser loteado de tão imenso que era dando origem à Rua Nova do Livramento. Maria José tornou-se madrinha do bebê e Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, seu cunhado, tornou-se o padrinho, de modo que os pais de Machado resolveram homenagear os dois nomeando-o com seus nomes. 

Nascera junto a ele uma irmã, que morreu jovem, em seus 4 anos, em 1845. Iniciou seus estudos numa escola pública da região, mas aparentemente não se demonstrou interessado por ela. Ocupava-se também em celebrar missas, o que lhe fez conhecer o Padre Silveira Sarmento, que de acordo com certos biógrafos, se tornou seu mentor de latim e amigo. Os biógrafos notam hic et nunc que, interessado pela boemia e pela Corte, imiscuiu-se para subir socialmente abastecendo-se de superioridade e domínio intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos técnicos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras. Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Fundou o periódico: “O Jequitinhonha”, com o seu cunhado Josefino Vieira em 1860, por meio do qual teria difundido o ideal republicano. No entanto, a República lhe trouxe muitos desagrados econômicos e políticos, mas como letrado percebeu um mundo em agonia, sendo “uma voz inquietante que fala baixo, mas provoca sempre”. 

Historicamente o bairro região abrigou até o final do século XX, a zona do meretrício da cidade que não era o único. O lado trágico dessa história higienista é que o lixo é um indicador curioso de desenvolvimento cultural de um bairro, classe ou nação. O bairro se define como uma organização coletiva de trajetórias individuais: com ele ficam postos à disposição dos seus usuários “lugares” na proximidade dos quais estes se encontram necessariamente para atender as suas necessidades cotidianas. Mas o contato interpessoal que se efetua nesses encontros é, também ele aleatório, não calculado previamente; define-se pelo acaso dos deslocamentos exigidos pelas necessidades da vida cotidiana: no elevador, na mercearia, no supermercado. Passando pelo bairro é impossível não encontrar algum “conhecido”, mas ainda permite dizer de antemão que e onde (na escadaria, na calçada).  Datam desse período as instalações hospitalares para atendimento materno-infantil São Francisco de Assis, junto à Estação Praça Onze do metrô. O bairro possui grande importância cultural por estar associado às origens do samba. Foi cantado nos versos de Noel Rosa e de outros compositores de primeira grandeza da música popular brasileira. É conhecido como o “Berço do Samba”, por ter visto nascer a Primeira Escola de Samba, em 1928, a agremiação “Deixa Falar”, fundada por Ismael Silva. Abriga a Escola de Samba Estácio de Sá, campeã do carnaval carioca dez vezes entre 1965 e 2015. A tradicional Igreja do Divino Espírito Santo remonta ao século XVIII. A Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro (PIBRJ) foi organizada em 24 de agosto de 1884, mas posteriormente foi transferida para o novo templo entre a Cidade Nova e o bairro do Estácio, no centro do Rio de Janeiro.          
O nome “Escola de Samba” foi criado pelo compositor Ismael Silva. De acordo com os registros, perto da sede da “Deixa Falar” havia uma escola normal. Então, os sambistas do bairro do Estácio eram chamados de “mestres” ou “professores”. E foi assim que viraram os verdadeiros mestres das primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro.  A primeira Escola de Samba do Rio de Janeiro segundo historiadores do Carnaval foi a “Deixa Falar”, fundada em 1928 por sambistas do bairro do Estácio, bairro da região Central do Rio de Janeiro. Alguns desses fundadores da cultura popular aparecem misturados às pastoras da escola. Colorida de vermelho e branco, ela fez sucesso e estimulou a criação de outras agremiações. Os fundadores da Escola adaptaram o samba aos desfiles carnavalescos modernos, com a introdução do andamento mais rápido e a criação de novos instrumentos como o surdo de marcação e a cuíca. Foi aí que o samba-enredo começou a nascer. Antes de passar por uma fase de modernização, a festa era celebrada em Cordões Carnavalescos e Ranchos. Em seu livro “Blocos”, o jornalista João Pimentel relembra a importância social do grupo formado por Tião Maria, que inspirou a criação de outras agremiações: - “Talvez por estar localizado em uma região central da cidade, o Bafo da Onça reunia a Zona Norte e a Zona Sul, mas tinha sua base vital na animada população do bairro”.
Em 2003 o bloco desfilou juntamente com o “Bloco Cacique de Ramos” e o “Bloco Boêmio de Irajá”, como “hors concours” na Avenida Rio Branco, no centro da  cidade do Rio de Janeiro. Entre esses blocos e ranchos destacavam-se: “Rancho Carnavalesco União dos Caçadores” (campeão de vários carnavais); “Rancho Carnavalesco Unidos do Cunha”; “Rancho Carnavalesco Inocentes do Catumbi”; “Bloco Carnavalesco Astória Futebol Clube”, tricampeão de “Banho    Fantasia” na orla da praia de Copacabana e o “Bloco Carnavalesco Vai Quem Quer”, que apesar de pertencer ao bairro do Flamengo, portanto nas proximidades do Centro,  também desfilava nas ruas do Catumbi. No ano de 2011 a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contabilizou estatisticamente 420 blocos inscritos para desfile nas ruas do centro da cidade e avenidas e ruas da Zona Sul (praias), dentre os quais o próprio Bafo da Onça, e do subúrbio carioca o Boêmio de Irajá, do subúrbio da Leopoldina o bloco Cacique de Ramos, integrando-se como os mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro. 
Em seu livro “Blocos”, o jornalista João Pimentel relembra a importância do grupo formado por Tião Maria, que inspirou a criação de outras agremiações: - “Talvez por estar localizado em uma região central da cidade, o Bafo da Onça reunia a Zona Norte e a Zona Sul, mas tinha sua base vital na animada população do bairro”. Em 2003 o bloco desfilou juntamente com o “Bloco Cacique de Ramos” e o “Bloco Boêmio de Irajá”, como “hors concours” na Avenida Rio Branco. Entre esses blocos e ranchos destacavam-se: “Rancho Carnavalesco União dos Caçadores” (campeão de vários carnavais); “Rancho Carnavalesco Unidos do Cunha”; “Rancho Carnavalesco Inocentes do Catumbi”; “Bloco Carnavalesco Astória Futebol Clube”, tricampeão de “Banho    Fantasia” na orla da praia de Copacabana e o “Bloco Carnavalesco Vai Quem Quer”, que apesar de pertencer ao bairro do Flamengo, portanto nas proximidades do Centro,  também desfilava nas ruas do Catumbi. No ano de 2011 a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contabilizou estatisticamente 420 blocos inscritos para desfile nas ruas e avenidas e ruas da Zona Sul (praias), dentre o próprio Bafo da Onça, e do subúrbio carioca o Boêmio de Irajá, e da Leopoldina o bloco Cacique de Ramos, integrando-se como os mais tradicionais do Rio de Janeiro. A “Deixa Falar” virou samba de carnaval, influenciando não só sambistas morro do Estácio mas compositores profissionais.                
A Jovelina Pérola Negra, cujo nome de batismo era Jovelina Farias Delford, foi uma cantora e compositora brasileira e uma das grandes damas do samba. Voz rouca, forte, amarfanhada, de tom popular e força batente. Herdeira do estilo de Clementina de Jesus foi, como ela, empregada doméstica antes de fazer sucesso no mundo artístico. Nascida em Botafogo, Jovelina Pérola Negra logo fincou pé na Baixada Fluminense, em Belford Roxo. Apareceu para o grande público ao participar do histórico disco “Raça Brasileira”, em 1985. Pastora do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano  ajudou a consolidar o pagode. Verdadeira tiete do partidário Bezerra da Silva, Jovelina Pérola Negra começou a demonstrar com voz e talento  seus pagodinhos no Vegas Sport Clube, no bairro de Coelho Neto, levada pelo amigo Dejalmir, que também lançou o nome artístico Jovelina Pérola Negra, “homenagem à sua cor reluzente”. Gravou cinco discos individuais conquistando um extraordinário Disco de Platina. Atualmente são encontradas apenas as coletâneas de obras musdicaisi com os grandes sucessos realizados como “Feirinha da Pavuna”, o extraordinário “Bagaço da Laranja”, gravado com Zeca Pagodinho, “Luz do Repente”, “No Mesmo Manto” e “Garota Zona Sul”, e outros. Infelizmente o sucesso chegou tardiamente ao mercado fonográfico e não realizou o sonho de “ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo o que não teve”.  

Sua história social representa um testemunho de sofrimento, luta e superação na vida como mulher e artista. De empregada doméstica a vendedora ambulante de linguiça nunca desistiu do sonho de se tornar cantora. Era fã de Bezerra da Silva, e sob sua inspiração começou a fazer apresentações no Vegas Sport Clube, no bairro Coelho Neto, levada pelo amigo Dejalmir. Vale lembrar que foi o próprio Dejalmir quem escolheu seu nome artístico, Jovelina Pérola Negra, em homenagem a sua cor. De Coelho Neto foi para Belford Roxo e depois para o bairro de Madureira, onde no Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano desfilou anos a fio na ala das Baianas. Na Estrela de Madureira conheceu o cantor e sambista Roberto Ribeiro, Jorginho do Império e outros nomes consagrados da escola de Madureira. Começou a cantar ao lado desses artistas e virou atração no Show Botequim do Império, que acontecia na quadra da escola, durante os ensaios, para aumentar o caixa que financiava desfiles. Não se demorou em que seus fãs a considerassem herdeira naturais de Clementina de Jesus, herança das grandes vozes femininas do samba brasileiro.
Jovelina Pérola Negra, cujo nome de batismo era Jovelina Farias Delford, foi uma cantora e compositora brasileira e uma das grandes damas do samba. Voz rouca, forte, amarfanhada, de tom popular e força batente. Jovelina foi uma das peças mais importantes na condução do samba de fundo de quintal e do pagode para a linha de frente da MPB. A artista estreou na música tardiamente, em 1985, quando já tinha 40 anos, com sua participação em três faixas da coletânea Raça Brasileira. No ano seguinte a cantora gravava seu primeiro disco solo com sambas de sua autoria e de compositores como Nei Lopes e Monarco. Ao todo gravou seis discos, entre eles, “Sorriso Aberto”, em 1988, “Sangue Bom”, em 1991, “Vou da Fé”, em 1993, quando conquistou um disco de platina. Nascida em Botafogo, Jovelina Pérola Negra logo fincou pé na Baixada Fluminense, em Belford Roxo. Apareceu para o grande público ao participar do histórico disco “Raça Brasileira”, em 1985. Pastora do Império Serrano ajudou a consolidar o pagode. Verdadeira tiete do partidário Bezerra da Silva, Jovelina começou a dizer seus pagodinhos no Vegas Sport Clube, em Coelho Neto, levada pelo amigo Dejalmir, que também lançou o nome Jovelina Pérola Negra, “homenagem à sua cor reluzente”. Gravou cinco discos individuais conquistando um Disco de Platina. Atualmente são encontradas as coletâneas com os grandes sucessos como “Feirinha da Pavuna”, o extraordinário “Bagaço da Laranja”, gravado com Zeca Pagodinho, “Luz do Repente”, “No Mesmo Manto” e “Garota Zona Sul”, e outros. O sucesso chegou e não realizou o sonho de “ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo o que não teve”. Jovelina morreu de enfarte, aos 54 anos, dormindo em casa, no bairro da Pechincha, região administrativa de Jacarepaguá, que em Tupi significa: enseada do lugar dos jacarés, através da junção dos termos îakaré (jacaré), paba (lugar) e kûá (enseada). 
Bibliografia geral consultada.
CONTIER, Arnaldo, Música e Ideologia no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Editora Novas Metas, 1978; FAZITO, Dimitri, Transnacionalismo e Etnicidade: Romanesthán, Nação Cigana Imaginada. Belo Horizonte. Dissertação de Mestrado. Departamento de Sociologia e Antropologia. Universidade Federal de Minas Gerais, 2000; Idem, “A Identidade Cigana e o Efeito de Nomeação: Deslocamento das Representações numa Teia de Discursos Mitológico-Científicos e Práticas Sociais”. In: Rev. Antropol. Vol.49 n.°2 São Paulo July/Dec. 2006; GOÉS, Ludenbergue, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar: O Exemplo e as Lições de Vida de 130 Brasileiras Consagradas no Exterior. São Paulo: Ediouro Publicações, 2007; SOUZA, Tárik, Tem Mais Samba: Das Raízes à Eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2008; SANTOS, Michel Rosada dos, Nascentes e Tributários de um Rio Musical - Salve Estácio, Cidade Nova e Praça Onze dos Bambas! E a Vila de Noel...Só quer mostrar que faz samba também.... Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Geografia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de janeiro, 2009; GOMES, Rodrigo, Samba no Feminino: Transformações das Relações de Gênero no Samba Carioca nas Três Primeiras Décadas do Século XX. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Música. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2011; GREGORY, Jonathan Alexander Araújo, Os Carnavais do Monobloco: Um Estudo Etnomusicológico sobre Blocos e Oficinas de Percussão no Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Música.  Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012; SANCHES, Taísa de Oliveira Amendola, Cidade, Segregação Urbana e Política Habitacional no Rio de Janeiro: O Caso do Bairro Carioca. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Departamento de Ciências Sociais. Centro de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015; ERMAKOFF, George; FRAGOSO, dom Mauro, Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, 425 anos. 1590-2015. Rio de Janeiro: Casa Editorial, 2016; Artigo: Poucos Artistas Brasileiros foram tão originais quanto Luiz Melodia. In: https://www.correiobraziliense.com.br/app/2017/08/05/; entre outros.