“Há
mais pessoas que desistem, do que pessoas que fracassam!”. Henry Ford
Foram os índios centro-americanos
os primeiros a descobrir e fazer uso das propriedades singulares da borracha
natural. Entretanto, foi na floresta amazônica que de fato se desenvolveu a
atividade da extração da borracha, a partir da seringueira (“Hevea brasiliensis”),
uma árvore que pertence à família das Euphorbiaceae,
também reconhecida como “árvore da fortuna”. Do caule da seringueira é extraído
um líquido branco, denso, chamado látex, uma substância praticamente neutra.
Mas, quando exposta ao ar por um período de 12 a 24 horas, sofre coagulação
espontânea, formando o polímero que é a típica representação da borracha. Através de um
tratamento industrial, eliminam-se do coágulo as impurezas e submete-se a
borracha resultante a um processo denominado vulcanização, resultando a
eliminação das propriedades indesejáveis. Torna-se assim imperecível,
resistente a solventes e a variações de temperatura, adquirindo excelentes
propriedades mecânicas e perdendo o carácter pegajoso. A semente da seringueira
é rica em óleo e, por ser rica em nutrientes é usada na fabricação de
suplementos alimentares. Os grupamentos indígenas ainda utilizam as sementes da
seringueira como alimento.
O desenvolvimento tecnológico e a Revolução Industrial, na Europa, foi
o estopim que fizeram da borracha natural, até então um produto exclusivo da
Amazônia, um produto muito procurado e valorizado, gerando lucros e dividendos
a quem quer que se aventurasse neste comércio. Desde o início da segunda metade
do século XIX, a borracha passou a exercer forte atração sobre empreendedores
visionários. A atividade extrativista do látex na Amazônia revelou-se de
imediato lucrativa. A borracha natural logo conquistou um lugar de destaque nas
indústrias da Europa e da América do Norte, alcançando elevado preço no mercado.
Daí a diversidade de pessoas vindas ao Brasil na intenção de conhecer a
seringueira e os métodos de trabalho e processos de extração, a fim de também lucrar
de alguma forma com esta riqueza. A partir da extração da borracha surgiram várias
vilas e povoados, que depois foram transformados em radiantes cidades. As cidades de Belém e Manaus, passaram então por importante processo desenvolvimento e transformação social e arquitetônica de urbanização.
O ciclo da borracha representou um
momento da história econômica e social do Brasil, relacionado à exploração do
trabalho na Amazônia, com a extração de látex da seringueira e comercialização
da borracha. Teve o seu centro na região amazônica, e proporcionou expansão da
colonização, atração de riqueza, transformações culturais, sociais,
arquitetônicas, e impulso ao crescimento de Manaus, Porto Velho e Belém, até
hoje capitais e maiores centros de desenvolvimento de seus respectivos Estados,
Amazonas, Rondônia e Pará. Manaus do ponto de vista econômico foi a segunda
cidade do Brasil, depois de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, a
introduzir a eletricidade na iluminação pública, criando viabilidade para a
comunicação, o bonde elétrico. No mesmo período, foi criado o território
federal do Acre, atual Estado do Acre, cuja área foi adquirida da Bolívia, por
meio da compra no valor de 2 milhões de libras esterlinas, em 1903. O ciclo da
borracha ocorreu entre 1879-1912, com sobrevida entre 1942 e 1945, durante a formação do mercado bélico globalizado da 2ª guerra mundial.
A ideia de construir uma ferrovia
nas margens dos rios Madeira e Mamoré surgiu na Bolívia, em 1846. Inicialmente
optava pela via da navegação fluvial, subindo o rio Mamoré em território
boliviano e depois pelo rio Madeira, no Brasil. Mas o percurso fluvial tinha
grandes obstáculos naturais, como vinte belas cachoeiras que impediam a
navegação. assim se cogitou a construção de estrada de ferro que cobrisse por
terra o trecho topográfico. Em 1867, no Brasil, também visando encontrar algum
meio de comunicação que favorecesse o transporte da borracha, os engenheiros
José e Francisco Keller organizaram expedição, explorando a região das
cachoeiras do rio Madeira para delimitar o melhor traçado, visando também à
instalação de uma ferrovia. Em 1869, o engenheiro estadunidense George Earl
Church obteve do governo da Bolívia a concessão para criar e explorar uma
empresa de navegação que ligasse os rios Mamoré e Madeira. Mas, vendo as
dificuldades reais desta empreitada, os planos foram definitivamente mudados
para a construção de uma ferrovia. As negociações avançaram e, ainda em 1870, o
mesmo George Church recebe do governo brasileiro a permissão para construir uma
ferrovia ao longo do percurso das cachoeiras do Rio Madeira.
Em 1927, quando Henry Ford anuncia
que sua empresa tinha adquirido, na Amazônia brasileira, uma concessão do
tamanho de Connecticut para cultivar borracha e construir uma cidade em plena
selva, a imprensa norte-americana celebrou o evento como o encontro de duas
forças paralelas irresistíveis: a invenção do trabalho em cadeia e o triunfo de
novas normas de produção, e o processo civilizatório da maior bacia fluvial do
planeta, irrigando nove países com um terço do continente sul-americano, uma
zona selvagem e plena de vida que as águas que margeiam o território comprado
por Ford continham mais espécies de peixes que todos os rios da Europa
reunidos. Para a revista Time (1927),
não havia dúvida que o sistema de produção de Ford aperfeiçoaria a produção de borracha a
cada ano “até a completa industrialização de toda a floresta”. Segundo o Washington Post, Ford levaria à floresta
“a magia do homem branco”, isto é a ideologia do trabalho (cf. Braga, 1988; Braga Neto, 2002), e não somente “a borracha, mas os
seringueiros em si mesmos” (1931).
De 1927 a 1945, quando cedeu sua
parcela ao governo brasileiro, o industrialista Henry Ford gastou dezenas de milhões de dólares para
construir duas cidades norte-americanas em plena selva amazônica; a primeira foi
abandonada depois da destruição de uma plantação por um parasita vegetal. Seus
habitantes gozavam de todas as vantagens da civilização: praças, calçadas,
saneamento, hospitais, gramados, cinemas, piscinas, terrenos de golfe e, claro,
carros da Ford para passear nas ruas pavimentadas. Em dezembro de 1930, dois
meses depois da radicalização política que tinha levado Getúlio Vargas ao
poder, uma revolta explode em Fordlândia, sob o slogan “O Brasil para os brasileiros. Morte aos norte-americanos”,
os trabalhadores saquearam parte das instalações e fizeram valer suas
reivindicações. Os executivos estadunidenses não ignoram que, para seu
empregador, a organização dos trabalhadores constituía “o maior flagelo que o
planeta sofreu”. Eles obtiveram o apoio das forças armadas brasileiras, e como
resultado da ação os manifestantes foram demitidos, os pequenos comércios vizinhos
foram fechados. Depois, a vez da natureza se revoltar. A Fordlândia parecia
amaldiçoada, não somente em razão do desastre dos primeiros anos, mas também,
uma vez que a ordem foi mais ou menos assegurada, em razão da recusa obstinada
imposta pela natureza da vegetação à economia com a transplantação da brigada corporativa e militarizada fordista.
Henry
Ford (1863-1947) foi empresário e engenheiro mecânico norte-americano,
fundador da Ford Motor Company, autor dos livros Minha Filosofia de Indústria
e Minha Vida e Minha Obra, e o primeiro empresário a aplicar a montagem
em série de forma a produzir em massa automóveis em menos tempo e a um menor
custo. A introdução do modelo Ford T revolucionou os transportes e a indústria
dos Estados Unidos da América. Ford foi um inventor prolífico e registrou 161
patentes nos Estados Unidos. Como único dono da Ford Company, ele se tornou um
dos homens mais ricos e reconhecidos do mundo ocidental. No dia 16 de junho de
1903, dia da fundação da Ford Motor Company, foi investido um capital de US$
150 000, de 12 sócios, sendo que US$ 28 000 foram investidos pelo próprio Ford,
com então 40 anos de idade. A ele é atribuído o “fordismo”, isto é, a produção
em grande quantidade de automóveis a baixo custo por meio da utilização do
artifício reconhecido como “linha de montagem”, o qual tinha condições de
fabricar um carro a cada 98 minutos, além dos “altos salários” oferecidos a
seus operários — notavelmente o valor de 5 dólares por dia, adotado em 1914.
O
intenso empenho de Henry Ford para baixar os custos resultou em muitas
inovações técnicas e de negócios, incluindo um sistema de franquias que
instalou uma concessionária em cada cidade da América do Norte, e nas maiores
cidades em seis continentes. Ford deixou a maior parte de sua grande riqueza
para a Fundação Ford, mas providenciou para que sua família pudesse controlar a
companhia permanentemente. Ford foi resguardado como um pacifista durante boa
parte da Primeira Guerra Mundial (1914-18) e na década seguinte ficou conhecido
como notório antissemita, publicando uma série de quatro livros chamados The
International Jew. Ford criou um sólido sistema de publicidade em Detroit
para garantir que cada jornal transmitisse notícias e anúncios sobre o novo
produto. A rede de concessionários locais de Ford tornou o carro onipresente em
praticamente todas as cidades da América do Norte. Como revendedores
independentes, as franquias enriqueceram e fizeram a propaganda não apenas de
Ford, mas também do próprio conceito de automobilismo; clubes locais de
automóveis surgiram para ajudar novos motoristas e para explorar o campo.
Ford
foi sempre ávido para vender aos fazendeiros, que viram no veículo um
dispositivo comercial para ajudar em seus negócios. As vendas subiram
rapidamente - vários anos tiveram 100% de lucros em relação ao ano anterior.
Sempre na busca de maior eficiência e menores custos, em 1913 Ford introduziu a
montagem em esteiras em movimento nas suas instalações, o que permitiu um
enorme aumento da produção. As vendas ultrapassaram 250 000 unidades em 1914.
Por volta de 1916, tendo o preço baixado para US$ 360,00 para os carros de
passeio básicos, as vendas atingiram 472 000 unidades. Em 1918, metade dos
carros na América do Norte eram Modelos T. A alta produção conseguida pelo
sistema de montagem da Ford tem como característica marcante a escolha de uma única
cor de veículo, que era preta. Desta forma, ele conseguia montar os veículos
sem ter que diferenciar o processo de pintura. Existe uma frase famosa que Ford
escreveu em sua autobiografia sobre a escolha da cor do veículo: “O cliente
pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto”.
Antes
do desenvolvimento da linha de montagem, que exigia a cor preta por sua secagem
mais rápida, o Modelo T era disponível em outras cores, incluindo o vermelho.
Esse esquema era veementemente defendido por Henry Ford, e a produção continuou
até 1927; a produção final total foi de 15 007 034 unidades. Esse foi um
recorde que permaneceu por 45 anos. Em 1918, o presidente Woodrow Wilson (1856-1924)
pediu pessoalmente a Ford para que se candidatasse ao Senado dos Estados
Unidos, de Michigan, como um democrata. Embora a nação estivesse na guerra,
Ford concorreu como um candidato pacífico e um forte apoiador da proposta Liga
das Nações. Em dezembro de 1918, Henry Ford transferiu a presidência da Ford
Motor Company para seu filho Edsel Ford. Henry, entretanto, retinha a
autoridade de decisão final e algumas vezes revogou as decisões de seu filho.
Henry e Edsel compraram todas as ações restantes de outros investidores, dando
deste modo à família exclusivo domínio sobre a companhia. Em meados da década
de 1920, as vendas do Modelo T começaram a declinar devido à concorrência
crescente. Outros fabricantes de automóveis ofereciam planos de pagamentos
pelos quais os clientes podiam comprar seus carros, que comumente incluíam características
mecânicas mais modernas e estilos não disponíveis no Modelo T. Apesar dos
estímulos de Edsel, Henry recusava-se firmemente a incorporar novas
características ou a criar um plano de crédito para os compradores.
A história social do Exército da Borracha
começou oficialmente em 1942. O ataque japonês à base militar de Pearl Harbor,
no final de 1941, fez com que os Estados Unidos (EUA) entrassem definitivamente
na 2ª guerra mundial . Mas um insumo importante para a indústria bélica e
comercial dos norte-americanos, o látex, estava sob poder nipônico e a produção
inglesa na Malásia estava comprometida. Foi neste ponto que o Brasil ganhou
importância, já que o país possuía um estoque de 300 mil árvores seringueiras
prontas para produzir. Em março, o presidente Getúlio Vargas finalmente
escolheu sua posição no campo de batalha e firmou um acordo com o presidente
dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, para fornecimento de borracha aos
Países Aliados. Só faltava a mão de obra. Para reunir e redirecionar estes
trabalhadores aos seus postos no “front” amazônico, o governo criou o Serviço
de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia e a Comissão Administrativa
de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia. O cartunista suíço
Jean-Pierre Chabloz foi contratado para desenvolver imagens através de cartazes e folhetos que
seriam usados com o objetivo de persuasão ideológica econômica no recrutamento dos trabalhadores.
O extrativismo descontrolado da
borracha alimentada pelo “aquecimento”, na falta de melhor expressão, da
indústria automobilística dos Estados Unidos da América estava em vias de
provocar um conflito internacional, onde os trabalhadores brasileiros cada vez
mais adentravam nas florestas do território da Bolívia em busca de novas
seringueiras, gerando conflitos e lutas por questões da fronteira no final do
século XIX. Sendo chamados de Questão doAcre, exigiram a presença do exército
liderado pelo militar José Plácido de Castro. Então houve a intervenção do
diplomata Barão do Rio Branco e do embaixador Assis Brasil, em parte
financiados pelos barões da borracha, que culminou na assinatura do Tratado de
Petrópolis em novembro de 1903. Com o fim da contenda com a Bolívia, efetivado com
a compra do território, garantiu-se o efetivo controle e a posse das terras e
florestas do Acre do Brasil, em troca das terras de Mato Grosso e do
compromisso de construir uma ferrovia que superasse o trecho encachoeirado do
rio Madeira possibilitando o acesso das mercadorias e da borracha bolivianas,
aos portos brasileiros do Atlântico, inicialmente Belém do Pará, na foz do rio
Amazonas.As cidades deste novo Estado
se transformaram de forma simbiótica nos personagens centrais da Questão
Acre: a capital, Rio Branco, e dos municípios Assis Brasil e Plácido de
Castro.
O que viria a ser constituído como
Estado do Acre era parte integrante do território boliviano desde 1750. A
partir do início ciclo da borracha, em 1879, deu-se nessa região a mobilização
e a busca intensa por látex e isto fez com que os seringueiros do Brasil
subissem o rio Purus, iniciando, então, o processo de povoamento do Acre. No
ano de 1898 o Brasil reconheceu que o atual estado do Acre pertencia à Bolívia,
porém os bolivianos eram considerados incapazes de povoá-lo dado o seu difícil
acesso. Foi naquele mesmo ano que a Bolívia enviou uma missão de ocupação ao
Acre, causando, um ano depois, uma revolta armada dos colonos brasileiros que
ali estavam em um grande número. Essa rebelião contou com o apoio do Estado do
Amazonas. Após esse episódio, a Bolívia organizou uma missão militar de
ocupação da região, mas foram impedidos pelos brasileiros que ainda se
encontravam no local. A Revolução Acreana teve como representação uma revolta
popular contra a Bolívia, quando o território é proclamado República do Acre,
com Luís Gálvez Rodríguez de Arias, finalizando em 1903, com a assinatura do
Tratado de Petrópolis, com anexação da região ao Brasil.
Os bolivianos que ocupavam a
região foram expulsos e o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, organizou uma
invasão do território liderada pelo espanhol Luiz Gálvez Rodríguez de Arias. A
expedição de Gálvez declarou o Acre como uma República independente em 1899.
Mas o Brasil reconhecia o Acre como território boliviano, enviou então uma
tropa para dissolver a Revolução Acreana. A Bolívia decidiu reagir, organizou
também uma expedição militar para conquistar o território. Foram, no entanto,
os seringueiros que trabalhavam no local que impediram o avanço dos bolivianos.
Para completar, o governador Silvério Néri, do Amazonas, enviou outra expedição
de defesa que declarou pela segunda vez o Acre como uma República independente,
em 1900. Rodrigo Carvalho assumiu o cargo de presidente. Antes das batalhas,
representantes dos governos do Brasil e da Bolívia se reuniram para assinar no
dia 21 de março de 1903 um tratado de paz inicial. Ao final do mesmo ano, em 17
de novembro, o tratado definitivo foi assinado. O Tratado de Petrópolis
estabeleceu o fim do confronto por terras entre brasileiros e bolivianos pelo
território do Acre.
A negociação de paz foi muito
bem conduzida pelo ministro Barão do Rio Branco e resultou na concessão, por
parte da Bolívia, da região acreana. Em troca, o Brasil cedeu com o acordo
firmado, uma parcela do território do Mato Grosso e ainda pagou dois milhões de
libras esterlinas. A Bolívia ainda requisitou a construção da ferrovia
Madeira-Mamoré para permitir o escoamento da produção, especialmente marcada
pelo extraordinário boom da borracha.
No ano de 1904 o Tratado de Petrópolis foi regulamentado por lei federal e o
Acre passou a fazer parte oficialmente do território brasileiro, mas somente em
1962 é que o Acre foi considerado Estado brasileiro. Somente em 1962, durante o
governo do Presidente João Goulart, é que o Acre foi elevado à condição de
Estado, em razão da região ter atingido o nível de
arrecadação fiscal exigido pela constituição de 1946. As cores da bandeira do
Acre são, o verde, que representa as matas, o amarelo, das riquezas minerais, e
o vermelho, como homenagem aos mortos nos confrontos com os bolivianos pela
disputa da área.
Luís Galvez que, trabalhando então
para o cônsul boliviano em Manaus, descobriu que os bolivianos estavam em
tratativas de passar o controle do território do Acre para o Anglo-Bolivian Syndicate de Nova York,
que tinha o milionário Withridge como seu acionista principal. Era um contrato
do tipo conhecido como chartered companies, em voga na África naquela época,
pelo qual uma empresa concessionária qualquer, européia ou americana,
praticamente assumia as funções soberanas sobre certa área que ela desejava
explorar economicamente. Detinha não só o monopólio sobre a produção e
exportação como também auferia os direitos fiscais, mantendo ainda as tarefas
de polícia local. Concretizado o contrato, o Bolivian Syndicate associado a U.S. Rubber Co., que compraria toda
a produção da borracha atrairia para a região amazônica o poder dos Estados
Unidos que, em última instância, assumiriam, ainda que indiretamente, a
proteção dos interesses de uma empresa norte-americana no Acre que gozaria de
privilégios. Portanto, qualquer desavença que ocorresse entre os seringueiros e
os interesses do Bolivian Syndicate,
oporia o Brasil aos Estados Unidos da América. Dois acontecimentos vieram então
atrapalhar aqueles planos dos bolivianos: a rebelião acreana de Plácido de
Castro e a ação diplomática do barão de Rio Branco, que considerou a concessão
boliviana ao Syndicate como uma “monstruosidade legal”.
Neste período, uma série de
conflitos fez com que esta região fosse proclamada autônoma por três vezes como
Estado Independente, embora apenas reconhecida pelo governo brasileiro. Como na
primeira vez, os revoltosos ainda contaram com o apoio do governador do
Amazonas, Silvério Neri, que enviou uma nova expedição para a ocupação, que foi
denominada como a Expedição dos Poetas,
onde proclamaram a Segunda República do Acre em novembro de 1900. Porém, desta
vez, quem reagiu foi a própria tropa militar boliviana, que colocou fim à República
um mês depois. Em 6 de agosto de 1902, no entanto, o militar brasileiro Plácido
de Castro foi enviado para o Acre pelo governador do Estado do Amazonas e
iniciou a Revolução Acreana. Os rebeldes tomaram toda a região e implantaram a
Terceira República do Acre, agora com o apoio do presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) que governou São Paulo
por três mandatos entre 1887 e 1888, como presidente da província, como quinto
presidente do estado de 1900 a 1902 e como nono presidente do estado de 1912 a
1916. Elegeu-se duas vezes presidente da República, cumprindo integralmente o
primeiro mandato (1902 a 1906), mas faleceu antes de assumir o segundo mandato que deveria se estender de 1918 a 1922, e do ministro do exterior, Barão do Rio Branco (1845-1912). A Bolívia
tentou reagir novamente, mas antes que ocorresse alguma batalha, o Barão do
Rio Branco intermediou diplomaticamente propondo um acordo entre o Brasil e a
Bolívia, que ficou reconhecido como o Tratado de Petrópolis.
A rápida revolução dos transportes
nos países Europeus e nos Estados Unidos da América, paralela à expansão da eletricidade, tinha
necessidade de borracha, que naquela época saía hegemônica da Amazônia, sendo
que 60% eram extraídas do território acreano. Obviamente que o governo andino não
via com bons olhos aquela competitividade dos brasileiros. Para os bolivianos,
a situação praticamente repetia o que ocorrera, analogamente na década de 1870
com a penetração de trabalhadores chilenos na área do Atacama atrás do salitre.
O que provocara a Guerra do Pacífico
(1879-1883), que fez com que a Bolívia, derrotada, perdesse a sua saída para o
oceano Pacífico, tendo que o isolamento de comunicação dos oceanos do mundo.
José Paravicini, o embaixador boliviano no Rio de Janeiro, determinou que fosse
fundado, em 3 de novembro de 1899, um posto alfandegário em Puerto Alonso, para
se fazer presente na área. Ato de soberania nacional que, se bem que legítimo,
irritou profundamente os seringueiros brasileiros que cercaram o posto e
expulsaram os funcionários dali. Neste entremeio, chega ao Acre o aventureiro
Luís Galvez, dito “o Imperador do Acre”, apoiado por Ramalho Júnior, o governador
do Estado do Amazonas, que decidiu proclamar um Estado independente do Acre no
dia 14 de julho de 1901. Cada vez ficava mais evidente de que a Questão do Acre repetia politicamente o ocorrido com Atacama. A capital La Paz
precisava agir para manter o território em mãos nacionais. Enviando uma força
para lá, engendraram outro caminho.
Quando a extensão ou comunicação da
guerra ao Pacífico e Indico, interrompeu o fornecimento da borracha asiática as
autoridades norte-americanas entraram em pânico. O presidente Franklin Roosevelt
nomeou uma comissão para estudar a situação dos estoques de matérias-primas
essenciais para a guerra. As atenções do governo norte-americano se voltaram
então para a Amazônia, grande reservatório natural de borracha, com seringueiras
prontas para a produção de milhares de toneladas de borracha anuais, mais que as
necessidades bélicas norte-americanas. Entretanto, só havia na região cerca de
35.000 seringueiros em atividade com uma produção fordista de 16.000-17.000
toneladas na safra de 1940-1941. Para alcançar esse objetivo ocorreram intensas
negociações entre brasileiros e norte-americanos que culminaram com a assinatura
dos Acordos de Washington. O governo norte-americano passaria a investir no financiamento
da produção de borracha amazônica, em contrapartida o governo brasileiro
caberia o encaminhamento de milhares de trabalhadores para os seringais, no que
passou a ser tratado como “um heroico esforço de guerra”. Somente no Estado do Ceará cerca de 30.000
flagelados da seca de 1941-42 estavam disponíveis para serem enviados
imediatamente para os seringais. Mesmo que de forma pouco organizada oDepartamento Nacional de Imigração ainda
conseguiu enviar para a Amazônia, durante o ano de 1942, quase 15.000 pessoas,
sendo a metade de homens aptos ao trabalho. Um exército de retirantes convocado
pelo Estado reviveu os tempos de escravidão em plena década de 1940. Enquanto a
2ª guerra mundial espalhava-se pela Europa e Ásia, perto de 55 mil brasileiros
enfrentaram doenças fatais, passaram fome e estavam presos aos domínios dos
coronéis donos dos seringais na região amazônica. Muitos desses “soldados da
borracha” deram a vida, em busca de sonhos e de trabalho para alimentar a indústria
bélica durante o conflito de terras e fornecer insumos para armas e pneus.
Bibliografia
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Reprodução do Trabalho. Dissertação de Mestrado em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio
de Janeiro, 1988; BRUMAT, Cristina, “Quali Interconnessioni Tra Sociologia e Geografia?”. In: Studi di Sociologia, 1994, 32 (2), pp. 177-189; BRAGA NETO, Ruy Gomes, A Nostalgia do Fordismo: Elementos para uma Crítica da Teoria Francesa da Regulação. Tese de Doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade de Campinas, 2002; VERA, Loreto Correa & VERA, Cristián Garay, “Bolivia
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Condicionantes Econômicos e Impactos de Políticas Públicas. Tese de
Doutorado. Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional. Belo
Horizonte: Universidade Federal de Minas
Gerais, 2014;CARVALHO, Terciane
Sabadini; MENDES, Lidiane
Álvares, Na Esteira da Loucura: Colônia de Alienados Eduardo Ribeiro - Práticas
e Representações na Ala Feminina. Dissertação de Mestrado. Programa de
Pós-Graduação em História. Manaus: Universidade
Federal do Amazonas, 2016; SILVA, Maria Liziane Souza, A Batalha da Borracha: Os Migrantes Nordestinos - Memória e Imaginário. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Geografia. Porto Velho: Fundação Universidade Federal de Rondônia, 2018; PARENTE, Izabel Cavalcante Ibiapina, O Amazonismo e as Representações sobre os Seringueiros e a Natureza Amazônica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Instituto de Ciências Sociais. Departamento de Antropologia. Brasília: Universidade de Brasília, 2018; entre outros.
“Não adianta ir à igreja, fazer yoga e não
cumprimentar o porteiro”. Osvaldo Daibert
Severino Florença, porteiro no prédio Chopin &“quentinha” da Maitê Proença.
A alguns quarteirões, na portaria do
n° 194 da rua Barata Ribeiro, no bairro Copacabana, um minuto parece comportar mais “boa tardes” do
que os 60 segundos dos ponteiros de um relógio de ponto. O vaivém é incessante no edifício que fez
fama com o seu número original, o 200, e traça novos rumos. Porteiro há 31 anos
ali, o paraibano Luiz Domingues, de 69 anos, conta que o movimento só diminui
depois da meia-noite, quando seis dos sete elevadores são desligados. - Aqui é
como em qualquer outro prédio. Não vejo nada demais. Briga de vizinho, suicídio.
Mas tudo muito raro. O gigante de 45 apartamentos por andar foi habitado por 2
mil pessoas no auge das manchetes policiais, nos anos 1970. Hoje, são cerca de
700. - O máximo que acontece é cair uma cobra da mata atrás do prédio - garante
o síndico Benedito Rodrigues, no cargo há 11 anos. - A maioria dos apartamentos
naquela época era alugada. Hoje, a situação inverteu-se e o prédio melhorou. Enquanto
o condomínio mudava de perfil, a vida de Domingues também. Um segundo casamento
aumentou o número de filhos de quatro para oito. O endereço mudou de Copacabana
para Vila Isabel. O que se manteve igual mesmo foi o trabalho. O síndico do n°180
me chamou para trabalhar lá, mas não quis. Aqui conheço o pessoal e o trabalho. Conheço bem o prédio e até tenho um
projeto de reforma com cozinha americana que já fiz em vários apartamentos.
Deixo tipo casinha de boneca - narra, acrescentando criticamente. – “Mas para
trabalhar aqui tem que ter paciência”. A concepção de Axel Honneth (2004;
2006) problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada
por formas intencionais de tornar pessoas invisíveis. De forma semelhante à
interpretação da análise da reificação,
a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral,
a partir da teoria do reconhecimento. Para Honneth, um ato de reconhecimento
pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como
dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a
confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de
características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais
positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado,
significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em
expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do
ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação
da visão de quem olha.
É
importante mencionar que Honneth faz uma distinção muito sofisticada entre
invisibilidade e visibilidade, de modo que, embora ambas as ideias sejam
aparentemente espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento
fundamentalmente diferentes. No conceito negativo (invisibilidade), as pessoas
afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade
corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do
que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação
individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a
invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou
vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a
ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que
vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da
visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é invisibilizado
socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo o
sentimento de que não é identificado ou reconhecido. A discrepância conceitual
que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade ocorre com a transição para o conceito positivo, as condições governando
a sua aplicabilidade são mais exigentes. Enquanto a invisibilidade no sentido
visual significa apenas o fato de que um objeto não está presente como um
objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós
assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura
espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes. A
qualidade de vida é um tema que merece destaque pelo fato de se tratar de
questões sociais e políticas relacionadas diretamente com a maneira com que os
indivíduos conduzem sua forma de vida. A qualidade de vida no trabalho pode ser
definida como o conjunto das ações dentro da empresa que envolve a implantação
e manutenção de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no
ambiente de trabalho. Representa, portanto, como a gestão e a educação para o bem-estar
no trabalho, com decisões e escolhas baseadas na cultura organizacional e no
estilo de vida dos diferentes segmentos ocupacionais. Apesar de ser uma linha
de estudo recente e necessitar de detalhamento de situações concretas para
melhor compreensão do tema, a qualidade de vida no ambiente de trabalho com diversas concepções e teorias, que trouxeram à tona fatores
preponderantes para o desenvolvimento da atividade administrativa
em função das condições adequadas de trabalho, incentivos e recompensas
salariais oportunas, cuidados com a saúde do trabalhador etc.
Ironicamente,
o setor da construção civil brasileira, construído artesanalmente pelas mãos de
operários majoritariamente analfabetos e sem qualificação técnica, paga o preço
de anos sem investimentos em formação de pessoal. E agora, quando, finalmente,
depois de quase três décadas de estagnação, o segmento retoma o ciclo de
crescimento consistente e demanda um contingente de mão-de- obra expressiva
para dar conta do aumento do volume de obras falta trabalhadores habilitados. Carpinteiros de formas,
armadores e profissionais de escoramento já são figuras raras no mercado. E se
nem mesmo aqueles que já atuam no setor respondem às necessidades do novo
paradigma da construção, o que dizer dos mais de 20 milhões de desempregados do
Brasil afora, que em outros tempos seriam aqueles que poderiam abastecer a
demanda da construção, historicamente receptiva à mão-de-obra desqualificada e
conhecida como a porta de entrada do
trabalho? A questão é quem vai assumir a responsabilidade social e de mercado pela
qualificação e formação de todo esse contingente de trabalhadores? A construção
não apenas deixou de investir no aprimoramento
de seus funcionários como também atrai mão-de-obra gradativamente menos
qualificada, perdendo seus profissionais para as indústrias metalúrgica, têxtil
e automobilística, mais atrativas.
Porteiros são substituídos por equipamentos eletrônicos ou virtual.
A
divisão do trabalho proposta por Adam Smith acabou resultando na concentração
dos trabalhadores em centros produtivos, destinados à realização de operações
mais ou menos similares e, simultaneamente, na organização dos diversos centros
produtivos ao longo de certa cadeia de produção. Além disso, os trabalhadores
não tinham ideia do processo produtivo como um todo, pois eram especialistas
numa única tarefa. Por isso, tornava-se necessário controlar a sua atividade
especializada, já que um erro nas múltiplas operações poderia ter consequências
inesperadas nas tarefas subsequentes e nos produtos finais. Na fábrica, a divisão do trabalho em
tarefas cada vez menores exige do trabalhador especialidade, domínio específico
sobre determinada atividade. O trabalho, tecnicamente dividido em parcelas cada
vez menores, implica na desqualificação do trabalhador. A parcelarização da
atividade de trabalho corresponde à pulverização
do saber científico e técnico do trabalhador, predominante ao longo de quase
todo o século XX, pois a extração e o fracionamento do saber do trabalhador
conheceram a sua forma mais aperfeiçoada desde o
taylorismo e o toyotismo e o fracionamento na execução do trabalho tornou-se
rotina com o modelo anterior adotado pelo fordismo e toyotismo em suas fábricas
automobilísticas.
O toyotismo enquanto ideologia do mais trabalhorepresenta um sistema de organização voltado para a produção de mercadorias.
Criado no Japão após a 2ª guerra mundial pelo engenheiro japonês Taiichi Ohno,
o sistema foi aplicado na fábrica da Toyota originando o nome do sistema. O Toyotismo
espalhou-se a partir da década de 1960 por várias regiões do mundo e até hoje é
aplicado em muitas empresas. Nesse sistema os trabalhadores se tornaram “corpos
dóceis”, bem educados, treinados e qualificados para conhecer todos os
processos de produção, podendo atuar em várias áreas do sistema produtivo da
empresa. É um sistema flexível de mecanização, voltado para a produção “somente
do necessário”, evitando ao máximo o excedente. A produção deve ser ajustada a
demanda do mercado, com o uso aparente de controle visual em todas as etapas de
produção como forma de acompanhar e controlar o processo produtivo, com a
chamada implantação do “sistema de qualidade total” nas etapas de produção.
Além da alta qualidade dos produtos, busca-se evitar ao máximo o desperdício de
matérias-primas e tempo. É reconhecido pela aplicação do sistema Just in Time, ou seja, produzir somente
o necessário, no tempo necessário e na quantidade necessária, utilizando a
técnica da técnica de marketing de
mercado para adaptar os produtos às exigências dos clientes.
Porteiro,
também encarregado de portaria, é a designação
da profissão onde o trabalhador deve ficar na porta da entrada de um estabelecimento para proteger a entrada
indevida de estranhos. Este local é
designado como portaria. Este profissional vigia dependências, áreas públicas e
privadas, com a finalidade de prevenir, controlar e combater delitos do
dia-a-dia como roubo, porte ilícito de armas e munições, e outras
irregularidades. Estes trabalhadores zelam pela segurança das pessoas, do patrimônio
e pelo cumprimento das leis e regulamentos; recepcionam e controlam a
movimentação de pessoas em áreas de acesso livre e restrito; fiscalizam
pessoas, cargas e patrimônio; escoltam pessoas e mercadorias. Controlam objetos
e cargas, vigiam parques e reservas florestais, combatendo inclusive focos de
incêndio. Comunicam-se via rádio, telefone fixo, celular ou interfone e prestam
informações ao público e aos órgãos competentes. São condições de trabalho para inexperientes e de faixa etária diversificada.
Entende-se
por posto de trabalho ao “lugar praticado” por uma pessoa em uma empresa,
instituição ou entidade qualquer que desenvolva algum tipo de atividade ou
emprego para poder ganhar a vida e receber um salário determinado. O posto de
trabalho é um conceito abstrato que significa que a atividade pela qual uma
pessoa é contratada, recebe um salário devido ao seu esforço, à quantidade de
horas trabalhadas, à necessidade de conhecimentos, ao perigo que o trabalho
pode oferecer etc. De qualquer forma, há muitos postos de trabalho que devido a
suas implicações de tempo/espaço, não permitem à pessoa estabelecer laços
sociais, pois são trabalhos solitários ou de serviço temporário. Quem é esse
profissional de quem você recebe o primeiro bom dia quando chega ao trabalho e
tem uma grande carga de vigilância e preconceito social? Ele não é uma figura
muito presente nas pequenas cidades do interior brasileiro, mas nos grandes
centros econômicos e políticos é muito comum encontrá-lo cuidando de portarias
de prédios residenciais ou comerciais. Esse profissional é visto literalmente
como porteiro, posto que represente “o cuidador de portas”, segundo o
dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, versão original que resultou do
trabalho de pesquisa de mais de três décadas do reconhecido lexicógrafo, o
Imortal Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. No programa Sai de Baixo, Ribamar era o porteiro do edifício Arouche Towers. O personagem se
popularizou extrapolando as fronteiras de marca do programa, projetando seu
personagem nordestino ao humorístico Zorra
Total e se tornou uma das maiores figuras humorísticas de Tom Cavalcante.
A
confecção do léxico teve início ainda nos anos 1950, quando o poeta Manuel
Bandeira convidou o então professor da Fundação Getúlio Vargas, Aurélio
Buarque, para auxiliar na redação do “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua
Portuguesa”, da Civilização Brasileira. Da equipe formada então faziam parte
Joaquim Campelo Marques e Marina Baird Ferreira (esposa de Aurélio) a que se
juntaram mais tarde Margarida dos Anjos, Stella Rodrigo Otávio Moutinho e Elza
Tavares Ferreira que, junto ao próprio Aurélio, foram os autores da primeira
edição. A intenção inicial era sua publicação em suplementos da revista O Cruzeiro, o que não ocorreu, e em 1966
a equipe foi contratada, sob a condição de concluir o trabalho em dois anos,
pelo editor Abraham Koogan. A nova iniciativa também fracassa, fazendo com que
os próprios colaboradores fundassem uma editora - a JEMM - com o fim específico
de publicar o dicionário. Após sucessivos atrasos, disputas entre os
dicionaristas, a iniciativa também não vingou, sendo então procurados outros
parceiros capazes de custear a iniciativa. Instituições públicas e privadas
negaram-se a participar da edição, como o editor José Olympio ou o Banco Itaú,
além de instituições estatais. Com a cassação do político Carlos Lacerda, este
se voltara para sua editora Nova Fronteira. Através da mediação do cronista
Rubem Braga, Lacerda se interessa em publicar o dicionário. Com os lucros da
venda do romance O Exorcista, de
Peter Blatty, finalmente teve o capital necessário para custear a primeira
tiragem da obra, que se revelou um sucesso editorial.
Em
tempos da monarquia entre Portugal e Brasil, comparativamente durante o processo
de colonização chegaram a existir despachos públicos dos reis para louvar esta
função quanto ao serviço prestado da Casa Real. Mas, eles e os contadores
também desempenhavam as funções de contabilistas da mesma casa régia. O trabalho de porteiro em Portugal é uma
profissão regulamentada. Na França é muito usado o termo concièrge “para designar uma pessoa responsável por uma casa, o que
corresponderia antes ao zelador”. A designação também é usada para uma pessoa, “encarregada de orientar os
hóspedes de um hotel e também prestar informações sobre os mais variados
aspectos da cidade que está sendo visitada pelos hóspedes”. A função do concièrge é justamente “orientar os
hóspedes para lhes proporcionar uma estada agradável e bem sucedidos na cidade
visitada”. Em 2008 existiram no Brasil aproximadamente 414 mil pessoas exercendo a função de porteiro.
O dia 9 de junho foi declarado o Dia do Porteiro. O porteiro pertence simultaneamente
a posto e função da classe 5174 correlata aos porteiros e vigias segundo a Classificação Brasileira de Ocupações
(CBO).
“Sai de Baixo” (Rede Globo).
De
acordo com a legislação do Ministério do Trabalho e Previdência Social
referente ao emprego de portaria, (inc. II, parágrafo único, art. 87 CF/88), estão
dispostas na Portaria nº 397, de 09 de outubro de 2002: CBO - 5174 - Porteiros
e Vigias, 5174-05 – Porteiro (hotel) Atendente de portaria de hotel, Capitão
porteiro; 5174-10 – Porteiro de edifícios – Guariteiro, Porteiro, Porteiro
industrial; 5174-15 – Porteiros de locais de diversão – Agente de portaria.
Descrição sumária: Zelam pela guarda do patrimônio de fábricas, armazéns,
residências, estacionamentos, edifícios públicos, privados e outros
estabelecimentos, entrada de pessoas estranhas e outras anormalidades. Controla
o fluxo de pessoas, identificando, orientando e encaminhando-as para os lugares
desejados, recebem hospedes em hotéis e fazem manutenções simples nos locais de
trabalho na portaria em que exercem as suas funções regulares. Funções do
Porteiro: 1º - Atendimento aos funcionários; 2º - Controle de entrada e saída
de pessoas; 3º - Controle de entrada e saída de veículos; 4º - Controle de entrada
e saída de mercadorias; 5º - Recebimentos e encaminhamento de documentos /
correspondências; 6º - Identificação de cargas, embalagens e documentos; 7º - À
circulação (entrada e saída) de mercadorias com a documentação fiscal em ordem;
8º - Encaminhamento de autoridades: Policiais / Judiciária; 9º - Atendimento e
uso de telefones da empresa; 10º - Relação de telefone na portaria; 11º -
Transmissão de recados urgentes ou não.
A
tabela de Classificação Brasileira de
Ocupações (CBO) foi atualizada com 21 novas profissões registradas. Na
lista, entraram as funções de sanitarista, técnico em espirometria (exame que
mede velocidade de entrada e saída de ar dos pulmões), estoquista e monitor de
ressocialização prisional. Agora, o Brasil possui 2.638 profissões reconhecidas.
Os dados da CBO alimentam as bases estatísticas de trabalho e servem de
subsídio para a formulação de políticas públicas de emprego. A atualização é
feita levando em conta mudanças nos cenários tecnológico, cultural, econômico e
social do País, que provocam alterações na dinâmica do mercado de trabalho
brasileiro. O reconhecimento de uma ocupação é feito após um estudo das
atividades e do perfil da categoria. São levadas em consideração informações
descritas através da Relação AnualInformações Sociais (RAIS), demandas geradas
pelo Sistema Nacional de Emprego
(SINE), pelas associações e sindicatos tanto trabalhistas quanto patronais e por
profissionais autônomos. No decorrer do processo social, são realizadas
entrevistas em imersão com trabalhadores nos setores indicados. A chefa de
Divisão da CBO, Cláudia Maria Virgílio de Carvalho, destaca a importância de
ouvir todos os envolvidos. “Quem melhor pode falar sobre uma ocupação é quem
desempenha a função”. A CBO é o documento que reconhece a existência de
determinada ocupação, e não a sua regulamentação, que deve ser feita por lei e
sancionada pela Presidência da República.
É
a partir desta representação material
entre coisas é que se configura o processo social de alienação do trabalho na
portaria. O Capital mercantiliza as
relações sociais, as pessoas enredadas em seu trabalho e as coisas. Ao mesmo
tempo, pois, mercantiliza a força de trabalho, a energia humana que produz
valor, transforma as pessoas em mercadorias, tornando-as adjetivas de sua força
de trabalho. A mais-valia e a mercadoria são a condição e o produto das
relações de dependência, alienação e antagonismo do operário e do capitalista,
um em face do outro. A mais-valia e a mercadoria não podem ser compreendidas em
si, mas como produto das relações de produção que reproduzem as relações de
produção na sociedade global. Na análise dialética, elas surgem como realmente
são, isto é, como propriedades naturalizadas a essas coisas e, por isso,
ofuscam também a relação social com o trabalho total como uma relação social
entre objetos, existentes à margem dos produtores. Marx utiliza a noção
de fetichismo da mercadoria posto que é inseparável da produção.
Francisco Evandro é cearense, porteiro e optou pela moradia no local de trabalho.A
questão pode ser posta da seguinte forma: por que o trabalhador encarregado de
uma portaria é visto pela sociedade brasileira do ponto de vista do preconceito
e do desprezo social? A rotinização pode ser considerada uma variante da
racionalização da tarefa e do cargo, mas quando utilizada integralmente um de
seus princípios, modifica outro princípio e descarta outros. Assim é que, a rotinização do trabalho de porteiro não
permite a formação de grupos. Separa o planejamento da execução da tarefa até
um nível conveniente, sem estabelecer a maneira ótima de desempenho. Não
procede ao selecionamento e desenvolvimento científico do trabalhador, mas
através de relações pessoais. Não usa recompensas monetárias como fator motivacional
para aumentar a produtividade no ambiente de trabalho. Na medida em que os
princípios utilizados pelos métodos de racionalização do trabalho se
justificam, em seu conjunto, em termos de busca de máxima produtividade, esta
lógica é derivada de uma determinada concepção quanto ao trabalhador, sua
função e ao mercado de mão-de-obra de uma forma geral.
Conforme
dados da RAIS, existem no Brasil 413,7mil porteiros. O estado de São Paulo
concentra o maior número: mais de 149 mil. A seguir vem o Rio de Janeiro com
55,6 mil e a terra de Tancredo Neves com 34,5mil. No Acre constam registrados
apenas 204 porteiros. O Brasil vive uma conjuntura degradada de desvalorização
da mão de obra. A insatisfação com o trabalho é um problema que a cada dia afetam
profissionais, principalmente em ocupações com pouca exigência de qualificação
de mão-de-obra. Falta de concentração, produção reduzida e distração são
algumas das características de profissionais insatisfeitos. Pesquisa da ISMA
Brasil (International Stress Management
Association) demonstrou segundo amostragem que 72% das pessoas não estão
insatisfeitas com o trabalho. Segundo a pesquisa, a insatisfação em 89% dos
casos tem a ver com reconhecimento,
em 78% com excesso de tarefas e em
63% com problemas de relacionamento. A
pesquisa foi realizada nas três capitais mais representativas do Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre com
amostragem de 1.034 profissionais no mercado de trabalho em 2014. O perfil profissional mais recorrente é o de um trabalhador com 33 anos, Ensino Médio incompleto, do sexo masculino que trabalha 44h semanais em grandes empresas do segmento de Serviços combinados para apoio a edifícios. A faixa salarial do Porteiro CBO 5174-10 é equiparada entre R$ 1.235,56 (média do piso salarial 2020 de acordos, convenções coletivas e dissídios), R$ 1.348,00 (salário da pesquisa) e o teto salarial de R$ 2.145,21, levando em conta carteira assinada em regime da Consolidação das Leis de Trabalho no Brasil.
Bibliografia
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