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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Marta Vieira da Silva - Futebolista, Mito & Vontade de Saber.

                                                                                                    Ubiracy de Souza Braga

     O futebol feminino caminha a passos bem curtinhos e lentos”. Marta Vieira da Silva

                        
As mulheres tem sido importantes para o desempenho e desenvolvimento do futebol. Há outros relatos que indicam que, no décimo quinto século, era usual que as mulheres desempenham jogos de bola, especialmente na França e na Escócia. Em 1863, foram definidas regras para prevenir a violência no jogo, conquanto fosse socialmente aceitável para a formação das mulheres. Segundo dados estatísticos da Fédération Internationale de Football Association (FIFA), a primeira partida oficial entre mulheres foi disputada no dia 23 de março de 1885, em Crouch End, Londres, Inglaterra. Há relatos etnográficos, de disputas anteriores, como, por exemplo, uma competição anual, em Lothian, Escócia em 1790. O documento reconhecido sobre o início do futebol feminino remonta a 1894 quando Nettie Honeyball, um ativista dos direitos da mulher, fundou o primeiro clube desportivo britânico chamado Ladies Football Club. Honeyball, convicta de sua causa feminista declarou que pretendia demonstrar que as mulheres poderiam alcançar a emancipação social e ter um lugar importante na sociedade.
Historicamente a 1ª grande guerra (1914-18) foi chave para a superlotação de futebol feminino na Inglaterra. Em consequência da guerra muitos homens foram para o front, e a mulher conquista espaço na força trabalhadora de muitas fábricas. Lá formaram suas próprias equipes de futebol que até então era privilégio de homens. A mais exitosa destas equipes existente foi Dick, Kerr`s Ladies of Preston, Inglaterra. A equipe foi bem sucedida num jogo contra equipe escocesa que levou um “chocolate” de-0. No entanto, no final da guerra, a Football Association (FA) da Inglaterra não reconheceu o futebol feminino, apesar do sucesso e popularidade. Isto levou à formação da English Ladies Football Association cujo início foi difícil devido ao boicote da FA que levou mesmo a mulheres a jogarem em estádios de Rúgbi. Contudo, após a Copa do Mundo 1966, o interesse dos amadores levou a FA a voltar atrás, decidindo em 1969 criar o ramo feminino da Football Association. Em 1971, a Union of European Football Associations (UEFA) instruiu seus parceiros no âmbito da profissionalização do futebol a gerir e promover o futebol feminino e na Europa ele foi consolidado nos anos seguintes. Assim, países como a Itália, EUA e o Japão têm ligas profissionais cuja popularidade não inveja o que foi conquistado pelos seus similares do sexo masculino.

           
Os primeiros registros de partidas mistas brasileiras, com homens e mulheres juntos datam de 1908 e 1909. Em 1913, houve um evento beneficente, que foi considerado por muitos anos como a primeira partida de futebol feminino no Brasil. Em 1941, aconteceu o primeiro jogo masculino apitado por uma mulher, num amistoso entre o Serrano da cidade de Petrópolis contra o clube América do Rio de Janeiro. Na ocasião, o árbitro passou mal e uma atleta da partida preliminar ao amistoso assumiu a arbitragem do jogo apitando-o.  Em 14 de abril de 1941, durante a presidência autoritária de Getúlio Dornelles Vargas, foi criado o Decreto-Lei 3199, proibindo a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, entre eles o futebol. A ditadura estadonovista postergou seu reconhecimento social e político. Este decreto-lei só seria revogado em 1979. Contudo, o Araguari Atlético Clube é considerado o primeiro do Brasil a formar um time feminino. Em meados de 1958 selecionou 22 meninas para um jogo beneficente em dezembro daquele ano. O sucesso desta partida de futebol foi tão grande que a revista “O Cruzeiro” fez matéria de capa sobre a partida.
Vale lembrar que o Artigo 54 do Decreto Lei 3199, apontava incompatibilidade a “natureza feminina” com alguns esportes, proibindo, assim, a prática dos mesmos pelas mulheres. Assim dizia este artigo: - “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Em 2 de agosto de 1965, durante a ditadura militar castellista, a Deliberação n° 7, assinada pelo general Eloy Massey Oliveira de Menezes, Presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND), delimitou a linha que segregava o esporte feminino brasileiro: - “Não é permitida [à mulher] a prática de lutas de qualquer natureza, do futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rúgbi, halterofilismo e baseball”, dizia a deliberação nº 7 do conselho. Segundo a pesquisadora Katia Rubio, da Universidade de São Paulo, a proibição da prática desportiva feminina no Brasil deixou graves consequências, que atrasaram a história social olímpica do país, mesmo depois que deixou de vigorar o decreto discricionário da chamada Era de Getúlio Vargas. 

A concepção sociológica de Axel Honneth, por exemplo, problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada por formas intencionais de tornar pessoas invisíveis. De forma semelhante à interpretação da análise da reificação, de arl Marx à Georg Lukács, a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral, a partir da teoria do reconhecimento. Um ato de reconhecimento pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha. É importante mencionar do ponto de vista técnico-metodológico na análise uma distinção muito sofisticada entre invisibilidade e visibilidade, de modo que, embora ambas as ideias sejam aparentemente espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente diferentes, mas associados.
No conceito negativo (“invisibilidade”) as pessoas afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é invisibilizado socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo neste sentido o sentimento de que não é identificado ou conhecido. A discrepância conceitual que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade é devido ao fato de que, com a transição para o conceito positivo, as condições governando a sua aplicabilidade são mais exigentes: enquanto a invisibilidade significa apenas o fato de que um objeto não está presente como um objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes.  
Segundo a concepção do “jogar à brasileira”, com amplificação principalmente no âmbito dos torcedores, domínio no qual se valoriza a emoção, a brincadeira, a festa, o confronto, mas que está no lado oposto de uma concepção técnica, racional e moderna de futebol que marca cada vez mais o nível dos profissionais. Essa concepção se baseia na definição de uma continuidade estrita entre treino e jogo – “treino é treino, jogo é jogo”, com a adoção de esquemas táticos - a arte do fraco - e disciplinares padronizando as equipes, na valorização da rotina como fator decisivo na preparação competitiva de um time, na defesa de padrões gerenciais de administração dos clubes, na cuidadosa e gradativa produção de bons jogadores através das escolinhas de futebol e das categorias de base e assim por diante. Ipso facto, até então, partidas de futebol feminino só ocorriam em circos, em quadras de futsal. Vários jogos do Araguari ocorreram em cidades de Minas Gerais, inclusive na capital, em Goiânia e Salvador. 
Em 1959 a equipe foi desfeita, por pressão dos religiosos conservadores de Minas Gerais. Em 1967, Asaléa de Campos Micheli, mais conhecida por Léa Campos, foi a primeira mulher a diplomar-se em curso de arbitragem. O Decreto-Lei 3199 proibia as mulheres apenas de jogarem, mas não faziam menção sobre arbitragem. Essa brecha garantiu a Léa o direito de participar do curso de árbitros em Minas Gerais, feito no Departamento de Futebol Amador da Federação Estadual. Em entrevista ao popular programa Esporte Espetacular, da Rede Globo de televisão, desde 1973 apresenta entrevistas, reportagens sobre ciência esportiva, personagens históricos e a relação social do esporte. Em 2007, ela informou que não pode participar sequer da formatura do curso, por represálias em torno de um grupo autoritário de machistas. A primeira seleção de futebol feminino, entretanto, foi convocada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1988, para disputar e vencer o “Women’s Cup of Spain”, primeira divisão da Liga de Futebol Feminino. Do ponto de vista competitivo o acesso à Liga dos Campeões da Union des Associations Européennes de Football (UEFA) de futebol feminino ocorre através da posição do país no ranking da UEFA. No final da temporada 2016-17, fruto do 27º lugar no ranking, o campeão tem acesso à fase de qualificação no âmbito da competição internacional.
 A UEFA foi fundada a 15 de junho de 1954 em Basileia, na Suíça como consequência de discussões entre as federações da França, Itália e Bélgica. A sede ficou instalada em Paris até 1959, ano em que acabou por mudar-se para a capital suíça Berna. Henri Delaunay foi o primeiro secretário-geral e Ebbe Shwartz o presidente. O seu centro administrativo desde 1995 é em Nyon, Suíça. Era inicialmente composta por 25 federações, mas atualmente representam 55 em sua forma de organização. A Liga dos Campeões é o seu torneio de clubes mais importante. A Liga dos Campeões da União das Associações Europeias de Futebol, originalmente conhecido como a Liga dos Clubes Campeões Europeus é a principal competição interclube da Europa. Participam nela os campeões nacionais dos países filiados à instituição e alguns outros clubes. Acontece paralelamente às competições nacionais, tendo início na segunda metade do ano e terminando no final da primeira metade do ano seguinte. A Liga Europa é a segunda maior competição da Europa. Participam as equipas que ficaram no meio da tabela em campeonatos e equipes que foram terceiras em grupos da champions e as que foram eliminadas das play-offs da champions.
Enfim, a Supercopa da UEFA é a 3ª competição mais importante de futebol da Europa, que se realiza anualmente entre as equipas vencedoras da 1ª e da 2ª competições mais importantes da Europa ao nível de clubes, respectivamente a Liga dos Campeões da UEFA e a Liga Europa da UEFA. A competição realiza-se no início das temporadas nacionais, em Agosto e tem o status de abertura oficial da temporada europeia para os clubes, mesmo com campeonatos e outros certames já iniciados. O Campeonato Europeu é a 2ª competição de seleções mais importante do mundo, e a 3ª competição geral mais bem organizada a perder apenas para Campeonato do mundo e para Liga dos Campeões, a competição foi idealizada no ano de 1927 antes mesmo da UEFA ser criada, mas ela só foi concretizada 10 anos após a criação da UEFA. No inicio a competição tinha apenas 4 seleções representantes no período de 1960 até 1980 quanto o numero de seleções passou a ser 8, dobrando em 1996 quando a competição passou a ter 16 seleções e a partir de 2016 o número de seleções aumentou para 24.
Mesmo com este decreto-lei em vigor, há notícias de algumas práticas do desporto feminino, como, por exemplo, o caso do Araguari Atlético Clube, considerado o primeiro clube do Brasil a formar um time de futebol feminino. Em meados de 1958, este clube selecionou 22 meninas para um jogo beneficente, a ser disputado em dezembro deste mesmo ano. O sucesso desta partida foi tão grande, que a espetacular revista “O Cruzeiro” fez matéria de capa sobre o acontecimento, pois até aqueles dias, partidas femininas de futebol só ocorriam em geral em circos ou quadras de futsal. Com esta divulgação, nos meses seguintes, vários jogos do time feminino do Araguari em cidades de Minas Gerais, Belo Horizonte inclusive, e também em Goiânia e Salvador. Em meados de 1959 a equipe feminina do Araguari foi desfeita, por pressão dos religiosos ultraconservadores de Minas Gerais. Em 1967, Asaléa de Campos Micheli, reconhecida por Léa Campos, foi a primeira mulher a concluir curso de arbitragem. O Decreto-Lei 3199 proibia as mulheres de jogarem, mas não mencionavam arbitragem. Essa brecha na Lei garantiu a Léa participar do Curso de Árbitros em Minas Gerais, realizado no Departamento de Futebol Amador da Federação Estadual. Em entrevista ao Esporte Espetacular, da Rede Globo, em 2007, ela informou que “não pode participar sequer da formatura do curso, por represálias machistas”.
Marta Vieira da Silva, reconhecida como Marta, nasceu em Dois Riachos, no estado de Alagoas, em 19 de fevereiro de 1986. Após atuar no juvenil no Centro Sportivo Alagoano (CSA), Marta iniciou a carreira profissional no Vasco da Gama em 2000 aos 14 anos e também jogou na Associação Atlética Light. Após dois anos no time cruzmaltino, transferiu-se para o mineiro Santa Cruz, onde jogaria por mais duas temporadas, antes de defender o Umeå IK, da Suécia. Por este clube, tornou-se reconhecida na Europa e veio se destacando cada vez mais, até ser considerada a melhor jogadora do mundo. Conquistou, com a seleção brasileira, a medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de 2003 e 2007, liderando a artilharia da competição com 12 gols. Fora do Brasil desde 2004 defendeu as cores dos times de futebol feminino do Umeã Ik e Rosengard, da Suécia, do Los Angeles Sol e Western New York Flash, dos Estados Unidos. Marta se consagrou por seu ótimo futebol, sendo eleitas cinco vezes consecutivas a melhor jogadora do mundo, entre os anos de 2006 e 2010. Ganhou o prêmio Bola de Ouro em 2004, 2007 e 2010 e o troféu Chuteira de Ouro em 2007.
Foi ainda medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008. Em 27 de setembro de 2007, durante a partida de semifinal na Copa do Mundo de Futebol Feminino, realizada na China, contra os EUA, marcou o gol mais bonito da competição e, para alguns, o gol mais bonito marcado durante existência deste torneio e neste ínterim o Brasil a chegar pela primeira vez em sua história social do desporto feminino à final dessa competição. De acordo com Castro (2011) apesar das regras, métodos e do conceito puramente masculino, o futebol desenvolvido através das mulheres surgiu buscando certo grau de independência e identidade próprias. Infelizmente, por conta da alienação a uma sociedade amplamente machista, onde mulheres rotulam mulheres que ousam, o ímpeto de jogar futebol tornou-se um problema, havendo uma relevante melhora no modo como o futebol feminino foi entendido a partir de 2007. Do ponto de vista da análise crítica a modalidade não é reconhecida profissionalmente, goza de pouco prestígio junto aos meios de comunicação massivos, além de ser avaliada no sentido darwinista-evolucionista por falta da perspectiva “bio” e “fisiológica feminina”, que torna o jogo cadenciado e não menos veloz. A necessidade de mudança, se deu  nos anos em que a modalidade titubeava entre a falta de políticas e investimento econômico.
A situação mudou significativamente nos últimos anos, após iniciativa da ex-diretoria do Santos F. C., agremiação tradicional do estado de São Paulo, ao trazer para a equipe, Marta Vieira da Silva. Tal fato social mudou a precária visibilidade do futebol feminino no país. Alguns clubes ressignificaram seu olhar, seus métodos e postura sobre a modalidade feminina. O futebol feminino dos clubes, quando os tem, é vinculado ao Departamento de Esportes Olímpicos, o que implica ainda em parco investimento profissional. Na referida competição Brasil ficou em 2º lugar e Marta foi escolhida a melhor jogadora da Copa recebendo o prêmio Bola de Ouro e também artilheira da competição com 7 gols. Em 12 de janeiro de 2009, durante a coletiva de imprensa que antecedeu a premiação dos melhores jogadores do mundo de 2008, Marta anunciou sua transferência para o Los Angeles Sol dos Estados Unidos. No clube norte-americano, foi artilheira da liga nacional, levando a equipe ao vice-campeonato.
O condado de Los Angeles, incorporado como County of Los Angeles, é o mais populoso dos 58 condados do estado americano da Califórnia e o mais populoso de todo o país, tendo, inclusive, mais habitantes do que 41 estados. Foi incorporado em 18 de fevereiro de 1850, como um dos 27 condados originais. Fato que ocorreu alguns meses antes da Califórnia ser admitida à União, em 9 de setembro de 1850. A sede e cidade mais populosa do condado é Los Angeles. O condado de Los Angeles representou um dos condados importantes e originais da Califórnia, criado no mesmo ano da incorporação do estado que ocorreu em 9 de setembro de 1850. O condado foi incorporado em 18 de fevereiro do mesmo ano. A área do condado incluía grandes partes do que é agora o Condado de Kern, o Condado de San Bernardino, o Condado de Riverside e o Condado de Orange. Estas partes do território foram cedidas ao Condado de San Bernardino (1853), ao Condado de Kern (1866) e ao Condado de Orange (1889). Em 1893, parte do Condado de San Bernardino se tornou parte do Condado de Riverside. Possui 88 cidades incorporadas e muitas áreas não-incorporadas que correspondem a mais de 65% do condado. A parte mais ao sul do condado é a área mais intensamente urbanizada e abriga a maioria da população que vive ao longo da costa do Sul da Califórnia e do interior das bacias e vales. 

A metade norte é uma grande extensão de deserto, menos povoada, que inclui o Vale de Santa Clarita e o Vale Antelope. Esse último abrange a região nordeste do condado e é adjacente ao Condado de Kern. Entre essas duas áreas do condado estão as Montanhas de San Gabriel e o mais vasto deserto conhecido como Floresta Nacional Angeles. Contém mais de um quarto dos habitantes da Califórnia. É um dos condados do país mais diversificados, que detém a maioria das principais cidades que engloba a Grande Los Angeles e é o centro dos cinco condados que compõem essa área. O condado possui uma população de 10. 014. 009 habitantes e uma densidade populacional de 952,5 hab./km², segundo o censo nacional de 2020 realizado pelo Departamento do Censo dos Estados Unidos da América. Em 1° de agosto de 2009 o Santos anunciou sua contratação, por empréstimo de três meses, até o final de 2009, mas sua apresentação só ocorreu após o término da Liga de Futebol Feminino dos Estados Unidos de 2009. Após o período no Santos Futebol Clube, onde disputou e venceu a Copa Libertadores Feminina e a Copa do Brasil, ela retornou ao Los Angeles Sol. Em 10 de setembro foi apresentada e a estreia ocorreu em 16 de setembro, em um amistoso contra o Comercial-MS em Campo Grande, centro-oeste brasileiro. Após o encerramento das atividades do Los Angeles Sol, ficou disponível para o draft, onde os clubes escolhem para contratação as jogadoras deste clube que encerrou suas atividades.

O clube estreante na Liga, Atlanta Beat, após acordo com o St. Louis Athletica trocou sua posição recebendo por isso algumas jogadoras. Por sua vez, o St. Louis Athletica selecionou Shannon Boxx, meia da Seleção dos Estados Unidos. Em seguida, o Philadelphia Independence selecionou a goleira Karina LeBlanc. A seguir, o FC Gold Pride escolheu Marta Vieira da Silva para sua equipe de futebol. Na temporada 2010, ela foi pela segunda vez consecutiva artilheira da liga, e dessa vez, consequentemente como líder levando seu time ao título.  Em 26 de janeiro de 2011, como nova contratada do Western New York Flash para a temporada da Liga de futebol dos Estados Unidos de 2011. Ela foi apresentada dia 25 de fevereiro de 2011. Em 22 de fevereiro de 2012, foi apresentada novamente como jogadora do Tyresö FF participando atualmente no Damallsvenskan - a reconhecida divisão principal do Campeonato Sueco de Futebol Feminino, com contrato social na temporada de dois anos e onde jogara com a camisa 10. Entrou na Calçada da Fama do estádio Maracanã (RJ), sendo a primeira e, até agora, a única mulher a deixar a marca dos pés neste prestigiado local. Homenageada pelo Museu do Futebol em 2015 no projeto “Visibilidade para o Futebol Feminino”. 

Apesar de já fazer parte do acervo do museu desde sua abertura, em 2008, na Sala das Copas do Mundo, e na Sala Números e Curiosidades, Marta foi a primeira jogadora, junto com Formiga, a integrar a Sala Anjos Barrocos, que até então era exclusiva de jogadores masculinos. Após a falência do Tyresö em 2014, Marta foi contratada pelo FC Rosengård, por seis meses, e possibilidade de prorrogação. – “Recebi várias ofertas da Europa e dos Estados Unidos, mas ainda tenho fome de títulos, especialmente a Liga dos Campeões”, disse na entrevista. – “Vejo um grande potencial no Rosengard, uma equipe forte, e vou fazer todo o possível para que se transforme na melhor da Europa”. Com a equipe bem entrosada ela foi bicampeã da Liga da Suécia de Futebol Feminino em 2014 e 2015, além de acabar obtendo o vice-campeonato em 2016. Aliás, lugar de vice só é perigoso  na política brasileira, mas em futebol é muito honroso. Desde 2016, a equipe compete na National Women`s Soccer League, a primeira divisão do futebol feminino nos Estados Unidos da América. O Pride foi o décimo clube a se juntar à liga e é afiliado ao Orlando City SC da Major League Soccer. A equipe manda seus jogos no Orlando City Stadium. Recebeu o maior público da história da NWSL, quando em 23 de abril de 2016, 23. 403 pessoas assistiram a primeira partida do Pride com a derrota do Houston Dash por 3-1. Em 7 de abril de 2017, Marta foi oficialmente anunciada como nova jogadora do Orlando Pride, dos Estados Unidos.

A National Women`s Soccer League é uma liga profissional de futebol feminino dos Estados Unidos. Organizada pela Federação de Futebol dos Estados Unidos é considerada a principal e mais importante liga de futebol feminino do país. A NWSL foi criada em 2012 como uma sucessora da Women`s Professional Soccer (WPS) (2007-2012), que foi ela própria sucessora da Women`s United Soccer Association (WUSA) (2001-2003), a primeira liga de futebol feminino criada no país em 2001. A liga começou seus jogos em 2013 com 8 times, 4 dos quais eram ex-membros da Women`s Professional Soccer. Com a adição de mais dois times em Houston e Orlando e com a saída do Boston Breakers, a liga conta hoje com um total de nove times.  Desde sua temporada inaugural em 2013, quatro times diferentes foram campeões da liga e quatro foram campeões da temporada regular. O atual campeão da liga é o North Carolina Courage, que também é o campeão da temporada regular (NWSL Shield). O Courage foi o primeiro time na história da liga a ganhar ambos os títulos em 2018 e repetida em 2019.

A temporada da NWSL ocorre de abril à setembro, onde cada time joga 24 partidas, sendo 12 em casa e 12 fora. Ao final da temporada regular, o time com o maior número de pontos é reconhecido com o título da temporada regular. Os quatro clubes com mais pontos se classificam para os playoffs da NSWL, que consistem em duas semifinais de jogos únicos em “mata-mata” quando o 1º enfrenta o 4º; o 2º enfrenta o 3º), com o ganhador de cada semifinal indo para a decisão do torneio em uma final na casa do time com mais pontos na temporada regular. Depois que a Women`s Professional Soccer (WPS) cessou suas atividades em abril de 2012, a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF) anunciou uma mesa apara discutir o futuro do futebol feminino profissional nos Estados Unidos. A reunião, que contou com a presença de representantes da USSF, dos times da WPS, da W-League (que acabou também deixando de existir em 2015) e da Women`s Premier Soccer League (WPSL), aconteceu em junho e resultou no planejamento para o lançamento de uma nova liga em 2013 com 12-16 times, tirados de cada uma das três ligas. Comparado com a WPS, os times teriam um orçamento salarial relativamente baixo de $500,000, valor que foi rebaixado ainda mais para $200,000.

Em novembro de 2012, foi anunciado que haveria oito times na nova liga e que a competição seria subsidiada pela USSF, pela Federação Canadense de Futebol (CSA) e pela Federação Mexicana de Futebol (FMF). As três federações pagariam os salários das jogadoras de suas respectivas seleções (24 dos EUA, 16 do Canadá e entre 12 e 16 do México), ajudando assim os times a criarem elencos de alta classe sem que tivessem que ultrapassar seus orçamentos salariais. As jogadoras seriam distribuídas de forma o mais igualitariamente possível entre os oito times em um processo de alocação. A Federação Americana cuidaria da organização do evento e do calendário de partidas. Em 29 de novembro de 2012, foi anunciado que Cheryl Bailey havia sido nomeada Diretora Executiva da nova liga. Bailey havia sido Diretora Geral da Seleção de Futebol Feminino dos Estados Unidos entre 2007 e 2011, liderando todo o staff de suporte a seleção durante as Copas do Mundo de 2007 e 2011 e durante os Jogos Olímpicos de Verão de 2008. Durante seu tempo como Diretora Geral da seleção americana, ela foi responsável por todas as áreas da administração, incluindo pagamentos, planejamento das viagens do time e relação com a CONCACAF, FIFA e outras federações.  

O primeiro jogo da NWSL aconteceu em 13 de abril de 2013, quando o Portland Thorns visitou o FC Kansas City, em um jogo que terminou empatado em 1 a 1 e foi assistido por 6,784 no Shawnee Mission District Stadium. A atacante méxico-americana Renae Cuéllar marcou o primeiro gol da história da liga. A temporada de 2013 teve uma média de público de 4,270 pessoas com um pico de 17,619 presentes para assistir a revanche entre Kansas City e Portland em Portland em 4 de agosto. A NWSL se tornou a primeira liga profissional de futebol feminino da história dos Estados Unidos a chegar a nove times com a adição do Houston Dash em 2014. O aparecimento de grupos interessados em ter um time na NWSL continuou, principalmente com times da Major League Soccer (MLS) interessados em também ter um time na NWSL. A temporada de 2015, teve um calendário mais enxuto e alguma instabilidade no início da temporada devido a programação da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2015 no Canadá. Contudo, a competição trouxe também mais exposição na mídia para a NWSL, o que causou um aumento significativo no público frequentando os jogos da liga.

Em 2016, a NWSL se tornou também a primeira liga profissional de futebol feminino da história dos Estados Unidos a existir por mais de três temporadas. Dez equipes participam da liga, todas elas baseadas nos Estados Unidos. Cada clube pode ter um mínimo de 18 e um máximo de 20 jogadoras no elenco a qualquer momento na temporada. Originalmente, cada elenco da liga incluía até três jogadoras da seleção americana, até duas jogadoras da seleção mexicana e até duas jogadoras da seleção canadense. Os times podem também contar com até quatro jogadoras internacionais. As outras vagas no elenco devem ser preenchidas por jogadoras americanas. Os clubes também preenchem seus elencos usando um número de drafts. Após 2017, a Federação Mexicana não aloca mais jogadoras para a NWSL, já que os mexicanos criaram sua própria liga de futebol feminino e o número de jogadoras alocadas e jogadoras internacionais em cada time varia devido a evidente troca de jogadoras entre os times. O condado possui uma extensa rede de via expressa de lendário tamanho e complexidade, que é mantida pelo Caltrans e patrulhada pela Patrulha Rodoviária da Califórnia.

Possui também uma vasta rede de ruas urbanas e suburbanas, a maioria das quais é mantida pelas prefeituras. O condado e a maioria das cidades geralmente fazem um trabalho decente de manutenção e limpeza das ruas. Ambas as estradas e as ruas são conhecidas pelos congestionamentos de tráfego severos. Além do serviço de ônibus metropolitano, inúmeras cidades do condado também operam suas próprias empresas de ônibus e linhas de transporte. O principal aeroporto comercial do condado é o Aeroporto Internacional de Los Angeles (LAX), em Los Angeles. Outros aeroportos importantes incluem o Aeroporto de Long Beach, em Long Beach e o Aeroporto Bob Hope em Burbank. O Aeroporto Regional Los Aangeles/Palmdale está previsto para expandir o serviço comercial. Há também outros aeroportos de aviação geral em Los Angeles, incluindo aeroportos em Van Nuys e Pacoima. Outros aeroportos existem em Santa Mônica, Compton, Torrance, El Monte, Lancaster, La Verne e Hawthorne. Los Angeles é um importante centro de transporte ferroviário de mercadorias, principalmente devido aos grandes volumes de mercadorias que entram e saem das instalações portuárias do condado. Os portos estão ligados à pátios ferroviários e as principais linhas da Union Pacific e da Burlington Northern Santa Fe que conduzem ao leste através de um corredor ferroviário conhecido como o Corredor Alameda. Serviço ferroviário de passageiros é prestado no condado pela Amtrak, pelo Metrô de Los Angeles e pela Metrolink.

Os dois principais portos do condado são o Porto de Los Angeles e o Porto de Long Beach. Juntos, eles controlam mais de um quarto de todo o tráfego de contêiner que entra nos Estados Unidos, tornando o complexo o maior e mais importante do país, e o terceiro maior porto do mundo em volume de transporte marítimo. O Porto de Los Angeles é o maior centro de navios de cruzeiro na costa oeste, por onde passam mais de 1 milhão de passageiros anualmente. Los Angeles é comumente associada com a indústria do entretenimento; todos os seis grandes estúdios: Paramount Pictures, 20th Century Fox, Sony, Warner Bros., Universal Pictures e Walt Disney Studios, estão localizadas dentro do condado. Além do cinema e produção de programas de televisão, outras grandes indústrias do Condado de Los Angeles são o comércio internacional apoiado pelo Porto de Los Angeles e pelo Porto de Long Beach, gravação e produção musical, aeroespacial e de serviços profissionais, tais como direito e medicina. O parque mais visitado do condado é o Parque Griffith, propriedade da cidade de Los Angeles. O condado é também conhecido pelo anual Rose Parade em Pasadena, o anual Los Angeles County Fair em Pomona, o Museu de Arte do Condado de Los Angeles, o Zoológico de Los Angeles, o Museu de História Natural do Condado de Los Angeles, o La Brea, o Jardim Botânico do Condado de Los Angeles, duas pistas de corrida de cavalo e duas pistas de corrida de carro, a Pomona Raceway e a Irwindale Speedway, o RMS Queen Mary localizado em Long Beach, e o Grand Prix of Long Beach, além de quilômetros de praias de Zuma a Cabrillo. 

Bibliografia geral consultada.

GADAMER, Hans-Georg, A Atualidade do Belo: A Arte como Jogo, Símbolo e Festa. Rio de Janeiro: Editor Tempo Brasileiro, 1985; DEJOURS, Christophe, O Corpo entre a Biologia e a Psicanálise. São Paulo: Editora Artes Médicas, 1988; RUBIO, Kátia, “A Psicologia do Esporte: Histórico e Áreas de Atuação e Pesquisa”. In: Psicol. cienc. prof. Vol.19 n°3. Brasília, 1999; DECLOS, Marie-Laurence (dir.), Le Rire des Grecs. Grenoble: Éditions Jérôme Million, 2000;  TOLEDO, Luiz Henrique de,  Lógicas do Futebol. Dimensões Simbólicas de um Esporte Nacional. Tese de Doutorado. Departamento de Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2000; MOURA, Eriberto José Lessa de, Relações entre Lazer, Futebol e Gênero. Dissertação de Mestrado em Educação Física. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2003; CICERO, Sulla Natura degli Dei. Milano: Oscar Mandadori Editore, 2004; GOELNER, Silvana Vilodre, “Mulheres e Futebol no Brasil: Entre Sombras e Visibilidades”. In: Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. Vol. 19, n° 2, pp. 143-151, 2005; GARRIGA ZUCAL, José, Nosotros nos peleamos: violência e identidad de una hinchada de fútbal. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2010; AGUIAR, Leonel Azevedo de; PROCHNIK, Luisa, Quanto Vale uma Partida de Futebol? A Relação entre Televisão e Futebol no Cenário Midiático Contemporâneo. In: Revista Logos. Rio de Janeiro. Comunicação e Esporte. Volume 17, nº 02, 2º semestre de 2010; CASTRO, Luciane de, “Brasilien: Frauenfußball zwischen Aufstieg und Machismo in Brasilien”. In:  https://www.boell.de/de/20mai2011PISANI, Mariane da Silva, Poderosas do Foz: Trajetórias, Migrações e Profissionalização de Mulheres que Praticam Futebol. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2012; SALVIANI, Leila; MARCHI JÚNIOR, Wanderley, “O Futebol de Marta na Revista Placar: Recortes de uma História”. In: Espaço Plural. Ano XIV, n° 29, 2° semestre 2013, pp. 298-313; SILVA, Giovana Capucim e, Narrativas sobre o Futebol Feminino na Imprensa Paulista entre a Proibição e a Regulamentação (1941-1983). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; PEREIRA, Marcela Caroline, Às Margens de uma Revista Esportiva: A Seleção Brasileira de Futebol Feminina nas Páginas da Placar (1991 – 2015). Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2018; entre outros.

domingo, 2 de setembro de 2018

Conceição Evaristo - Mulheres Negras na Academia Brasileira de Letras?

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

 Das lágrimas em meus olhos secos, basta o meio tom do soluço para  pranto inteiro”.  Conceição Evaristo

                                            
Academia Brasileira de Letras (ABL) representa uma instituição brasileira fundada na cidade do Rio de Janeiro em 20 de julho de 1897 pelos escritores Machado de Assis, Lúcio de Mendonça, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, Afonso Celso, Graça Aranha, Medeiros e Albuquerque, Joaquim Nabuco, Teixeira de Melo, Visconde de Taunay e Ruy Barbosa. É composta por quarenta membros efetivos e perpétuos, por isso alcunhado imortal, e por vinte sócios estrangeiros. A língua portuguesa, também designada português, é uma língua românica flexiva ocidental originada no galego-português falado no Reino da Galiza e no norte de Portugal. Com a criação do Reino de Portugal em 1139 e no processo civilizatório para o sul como parte da Reconquista, deu-se a difusão da língua pelas terras conquistadas e mais tarde, com os chamados descobrimentos, para o Brasil, África e outras partes do mundo. Tem por objetivo o cultivo da língua portuguesa e da literatura brasileira. É-lhe reconhecido o mérito por reconhecimento em prol da unificação do idioma brasileiro e português europeu. Nomeadamente, teve  importância no Acordo Ortográfico de 1945, conseguido em conjunto com a Academia das Ciências de Lisboa, assim como foi de novo interlocutora quanto ao ainda polêmico Acordo Ortográfico de 1990.
A iniciativa foi tomada por Lúcio de Mendonça, concretizada em reuniões preparatórias que se iniciaram em 15 de dezembro de 1896 sob a presidência de Machado de Assis, eleito por aclamação na redação da Revista Brasileira. Nessas reuniões, foram aprovados os estatutos da Academia Brasileira de Letras (ABL) a 28 de janeiro de 1897, compondo-se o seu quadro de quarenta membros fundadores. A 20 de julho desse ano, era realizada a sessão inaugural, nas instalações do Pedagogium, prédio fronteiro ao Passeio Público, no centro do Rio. Sem possuir sede própria nem recursos financeiros, as reuniões da Academia eram realizadas nas dependências do antigo Ginásio Nacional, no Salão Nobre do Ministério do Interior, no salão do Real Gabinete Português de Leitura, sobretudo para as sessões solenes. As sessões comuns sucediam-se no escritório de advocacia do Primeiro Secretário, Rodrigo Octávio, à Rua da Quitanda, 47, no centro da Província do Rio de Janeiro. A partir de 1904, a Academia Brasileira de Letras (ABL) obteve a ala esquerda do Silogeu Brasileiro, por abrigar, além do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a Academia de Medicina, o Instituto dos Advogados do Brasil, e a Academia Brasileira de Letras (ABL) um prédio governamental de instituições culturais, onde se manteve até a conquista e consagração da sua sede própria.

    
A Academia tem por fim, segundo os seus estatutos, a “cultura da língua nacional”, sendo composta por quarenta membros efetivos e perpétuos, conhecidos como "imortais", escolhidos entre os cidadãos brasileiros que tenham publicado obras de reconhecido mérito ou livros de valor literário, e vinte sócios correspondentes estrangeiros. À semelhança da Academia francesa, o cargo de "imortal" é vitalício, o que é expresso pelo lema “Ad immortalitem”, e a sucessão dá-se apenas pela morte do ocupante da cadeira. Formalizadas as candidaturas, os acadêmicos, em sessão ordinária, manifestam a vontade de receber o novo confrade, através do voto secreto. Os eleitos tomam posse em sessão solene, quando todos os membros vestem o fardão da Academia, de cor verde-escura com bordados de ouro que representam os louros, complementado por chapéu de veludo preto com plumas brancas. Nesse momento, o novo membro pronuncia um discurso, onde tradicionalmente se evoca o seu antecessor e os demais ocupantes da cadeira para a qual foi eleito. Etnograficamente, assina o Livro de posse e recebe das mãos de dois outros imortais o Colar e o Diploma. A Espada é entregue pelo decano, o acadêmico mais antigo. A cerimônia prossegue com um discurso de recepção, proferido por um confrade, referindo os méritos do novo membro. Instituição majoritária masculina, a partir de 4 de novembro de 1977, recepcionou a cearense Rachel de Queiroz, com o molde de uma versão feminina do tradicional fardão, um vestido longo de crepe francês verde-escuro, com folhas de louro bordadas em fio de ouro. 
Com isso, o tema da ideologia sofria uma desdramatização. Se o nível de análise ideológico, afinal não passava de uma consequência pura e simples de um processo prático, material, que importância maior poderia ter, na sua esfera social de ação, as controvérsias que lançavam, uns contra os outros, os sujeitos históricos? Historicamente durante a colonização, marinheiros portugueses levaram o seu idioma para terras distantes, por tentativas de colonizar novas terras e, como resultado, o português dispersou-se pelo mundo. Brasil e Portugal são os dois únicos países cuja língua é o português, língua oficial em antigas colônias, nomeadamente, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, todas na África. Por razões etno-históricas, falantes do português, ou de crioulos portugueses, são encontrados também em Macau (China), Timor-Leste, em Damão e Diu e no Estado de Goa (Índia), Malaca (Malásia), em enclaves na ilha das Flores (Indonésia), Batticaloa no (Sri Lanka) e nas ilhas Aruba, Bonaire e Curaçao  no Caribe. É uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos (OEA), União Africana e dos Países Lusófonos. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português representa a 5ª língua mais falada no mundo globalizado, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta. É reconhecido como “a língua de Camões”, autor de Os Lusíadas, e “a última flor do Lácio”, expressão de Olavo Bilac. Miguel de Cervantes considera o idioma “doce e agradável”. Em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, foi criado em São Paulo, a cidade de maior número de falantes do português no mundo. 

O Museu da Língua Portuguesa ou Estação Luz da Nossa Língua é um museu interativo sobre a língua portuguesa localizado na cidade de São Paulo, Brasil, no histórico edifício Estação da Luz, no Bairro da Luz, região central da cidade. Foi concebido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo em conjunto com a Fundação Roberto Marinho, tendo um investimento de cerca de 37 milhões de reais. O objetivo da instituição é criar um espaço vivo sobre a língua portuguesa, considerada como base da cultura do Brasil, onde seja possível causar surpresa nos visitantes com os aspectos inusitados e, muitas vezes, desconhecidos de sua língua materna. Segundo os organizadores do museu, “deseja-se que, no museu, esse público tenha acesso a novos conhecimentos e reflexões, de maneira intensa e prazerosa”. O museu tem como alvo principal a média da população brasileira, composta de pessoas provenientes das mais variadas regiões e faixas sociais do país, mas que ainda não tiveram a oportunidade de obter uma ideia mais precisa e clara sobre as origens, a história e a evolução contínua da língua. De sua inauguração até o final de 2012, mais de 2,9 milhões de pessoas já haviam visitado o espaço, consolidando-o como um dos museus mais visitados do Brasil e da América do Sul. Em 21 de dezembro de 2015, o museu foi atingido por um incêndio que destruiu dois andares de sua estrutura. Seu acervo, contudo, não se perdeu, por ser virtual, sendo recuperado a partir de backups. Depois de passar por uma restauração, o museu foi reinaugurado. Por ocasião da cerimônia, a instituição foi agraciada com a Ordem de Camões, pelos relevantes serviços prestados à língua portuguesa.

Após a Independência das antigas colônias africanas, o português padrão de Portugal tem sido o escolhido pelos países africanos de língua portuguesa. Logo, o português tem apenas dois dialetos de aprendizagem, o europeu e o brasileiro. Note-se que na língua portuguesa europeia há uma variedade prestigiada que deu origem à norma-padrão: a variedade de Lisboa. No Brasil, comparativamente, a maior quantidade de falantes se encontra na região sudeste, por ter sido alvo de intensas migrações internas, graças ao seu poder econômico. O Distrito Federal apresenta um destaque devido ao seu dialeto próprio, pelas várias hordas de migração interna. Os dialetos europeus e americanos do português apresentam problemas de inteligibilidade mútua, dentro dos dois países, devido, sobretudo, a diferenças culturais, fonéticas, lexicais. Nenhum pode ser considerado como intrinsecamente melhor ou perfeito. Algumas comunidades cristãs na Índia, Sri Lanka, Malásia e Indonésia preservaram sua língua depois de se isolarem de Portugal. A língua foi alterada nessas comunidades e, em muitas, nasceram crioulos de base portuguesa, que ainda persistem, após séculos de isolamento. Também é perceptível uma variedade de palavras originadas do português no tétum. Palavras de origem portuguesa entraram no léxico de várias outras línguas, como o japonês, o suaíli, o indonésio e o malaio. 

Não queremos perder de vista que a concepção sociológica de Axel Honneth (2004) problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada por “formas intencionais de tornar pessoas invisíveis”. De forma semelhante à interpretação da análise da reificação marxista, a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral, a partir da teoria do reconhecimento. Para Honneth, um ato de reconhecimento pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha. É importante mencionar que faz distinção precisa, sofisticada entre invisibilidade e visibilidade, na sociedade contemporânea, de modo que, embora ambas as ideias sejam aparentemente espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente diferentes.
No conceito negativo (“invisibilidade”), as pessoas afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é invisibilizado socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo neste sentido o sentimento de que não é identificado ou conhecido. A discrepância conceitual que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade é devido ao fato de que, com a transição para o conceito positivo, as condições governando a sua aplicabilidade são mais exigentes. Enquanto a invisibilidade visual significa que um objeto não está presente como um objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes.



 Medalha Pedro Ernesto, das mãos de Marielle Franco.
Conceição Evaristo é Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de romances como “Ponçá Vivêncio” (2003) e “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” (2011). A escolha do curso de Letras decorre da paixão que, desde cedo, dedica à literatura engajada: na adolescência, Jorge Amado, José Lins, Carolina Maria de Jesus e  outros; mais tarde, Graciliano, Rosa, Drummond, Bandeira e, também, Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Adão Ventura. Conceição nasceu em 29 de novembro de 1946 na favela do Pendura Saia, na zona sul de Belo Horizonte (MG), onde cresceu com sua mãe e seus 9 irmãos. De família pobre, teve que conciliar os estudos com o trabalho de empregada doméstica, até concluir o curso normal, em 1971. Mudou-se nesta ocasião para a cidade do Rio de Janeiro, estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi aprovada num concurso público para o magistério. Sua estreia na literatura se deu em 1990, com textos publicados na série Cadernos Negros, do coletivo Quilombhoje. Uma das principais expoentes da literatura brasileira, Conceição Evaristo é militante do movimento negro, com grande atuação, da literatura, na esfera político-social.
Nos anos 1980, a autora toma conhecimento das atividades do Grupo Quilombhoje e da publicação, em São Paulo, da série singular Cadernos Negros. Esse é um momento de efervescência dos movimentos pela igualdade racial, com mobilizações nas principais capitais brasileiras. É também tempo de redescoberta da escrita literária como trabalho de processamento e depuração, com rascunhos e mais rascunhos recheando suas gavetas. Em 1990, o número 13 de Cadernos Negros traz impressos os primeiros poemas de Conceição Evaristo, entre eles, o conhecido “Vozes-mulheres”, que figura até hoje como espécie de “manifesto-síntese” de sua poética. De acordo com Eduardo de Assis Duarte, os versos enfatizam a necessidade do “eu poético” de falar por si e pelos seus remanescentes. Esse sujeito de enunciação, ao mesmo tempo individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos e os símbolos), caracteriza não apenas os escritos de  Conceição Evaristo, como escritora engajada, “mas da grande maioria dos autores afro-brasileiros, voltados para a construção de uma imagem do povo negro infensa aos estereótipos e empenhada em não deixar esquecer o passado de sofrimentos, mas, igualmente, de resistência à opressão. Essa presença do passado como referência para as demandas do presente confere à escrita dos afrodescendentes uma dimensão histórica e política específica, que a distingue da literatura brasileira tout court” (cf. Duarte, 2006).
O interesse da narrativa cresce justamente nos gestos de inconformismo a esse processo de espoliação. Herdeira da memória familiar, Ponciá Vicêncio segue os passos de Conceição Evaristo, também esta herdeira de uma forte linhagem memorialística existente na literatura afro-brasileira. Como Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus, Conceição traz a narrativa dos despojados da liberdade, mas não da consciência. Isto porque, para Duarte, A fala “diaspórica” desses condenados da terra se articula de forma sincrônica e a posteriori, desconhecendo a encarnação do espírito de nacionalidade que marca boa parte da literatura canônica. Exemplo de romance afro-brasileiro, Ponciá Vicêncio polemiza através da tese segundo a qual a escrita dos descendentes de escravos estaria restrita ao conto e à poesia. Em que consistiria esse romance? Se entendido como texto de autoria afrodescendente, tratando de tema vinculado à presença desse segmento nas relações sociais vividas. Isto é, a partir de uma perspectiva identificada politicamente com as demandas e com o universo cultural afro-brasileiro que destaca o protagonismo negro nas ações. Em especial aquelas em que se defronta com os donos do poder, não há dúvida de que Ponciá Vicêncio não só preenche tais requisitos, “como ocupa o lugar supostamente vazio do romance afro-brasileiro”.
É neste sentido que a análise de Duarte (2006) percebe que o texto de Conceição Evaristo não é exemplo único e tem, sim, seus precursores na literatura nacional ao estabelecer um saudável contraponto com o “abolicionismo branco” do século XIX, de Joaquim Nabuco (1999), que a historiadora Gizlene Neder (1986) com razão chama de “abolicionismo de brancos para brancos” e com o negrismo modernista de Jorge Amado, José Lins do Rego ou Josué Montello, a narrativa de Ponciá Vicêncio remete ao Isaías Caminha, de Lima Barreto; em menor escala, ao Brás Cubas, de Machado de Assis; e, com certeza, ao memorialismo de Carolina Maria de Jesus e ao “Ai de vós”, de Francisca Souza da Silva, entre outros. Conceição Evaristo filia-se a esse veio de análise histórica de matriz afrodescendente que mescla história não oficial, memória individual (sonho) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos) com invenção literária, iniciado com a publicação de Úrsula, em 1859.

Tá faltando preto na Casa de Machado de Assis!
O texto de Maria Firmina dos Reis destoa cabalmente do projeto literário romântico, das narrativas e conceitos de nação e de identidade nacional. O texto de Úrsula, ao contrário das ficções de fundação, recusa-se a propagar a ideologia de identidade nacional una e coesa, que apaga as diferenças e naturaliza hierarquias. Enfatiza a diferença transformada em desigualdade social e subalternizada pelo escravismo. Ao colocar o negro como valor para personagens e leitores brancos e inscrever senhores e escravos como “filhos de Deus” e “irmãos”, a escritora maranhense apropria-se da moral para desmascarar o rebaixamento ideológico dos afrodescendentes. Ipso facto, irmanado a essa vertente “afro”, o texto de Ponciá Vicêncio destaca-se feminino onde um olhar do outro e outras discursividades específico, marcado pela etnicidade que provém à voz e as vozes-ecos das correntes arrastadas.
Politicamente o grande silêncio das coisas muda-se no seu contrário através da mídia. Ontem constituído em segredo, observa Michel de Certeau, “agora o real tagarela”. Só se veem por todo o lado notícias, informações, estatísticas e sondagens. Jamais houve uma história que tivesse falado ou mostrado tanto. Jamais, com efeito, os ministros dos deuses os fizeram falar de uma maneira tão contínua, tão pormenorizada e tão injuntiva como o fazem hoje os produtores de revelações e regras em nome da atualidade. Os relatos do-que-está-acontecendo constitui a nossa ortodoxia. Os debates de números são as nossas guerras teológicas. Os combatentes não carregam mais as armas de ideias ofensivas ou defensivas. Avançam camuflados em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como os mensageiros de um “real”. Sua atitude assume a cor do terreno econômico e social. Quando avançam, o próprio terreno parece que também avança. Mas, de fato, eles o fabricam, simulam-no, usam-no como máscara, e atribuem a si o crédito dele, criam o que se diagnostica como a lei férrea.   
A pessoa tem que se inclinar, e obedecer aquilo que significam, como oráculo de Delfos. A fabricação de simulacros fornece assim o meio de produzir crentes e, portanto praticantes. Esta instituição do real é a forma mais visível da dogmática contemporânea. É também a mais disputada entre partidos e instituições. Ela não comporta mais um lugar próprio, nem cátedra ou magistério. Código anônimo, a informação inerva e satura o corpo social. Desde a manhã até a noite, sem pausa, histórias povoam as ruas e os prédios. Articulam nossas existências ensinando-nos o que elas devem ser. Cobrem o acontecimento, fazem deles as nossas legendas daquilo que se deve ler e dizer. Apanhado desde o momento em que acorda pelo jornal, rádio ou televisão, a voz é a lei, pois o ouvinte anda o dia inteiro pela floresta de narratividades jornalísticas, publicitárias, televisionadas à noite ainda sob as portas do sono. Esses relatos etnográficos têm o duplo, singular e estranho poder de mudar de forma o ver num crer, e de fabricar o real com aparências. É dupla a inversão.
De um lado, a modernidade, outrora nascida de uma vontade observadora que lutava contra a credulidade e se fundava num contrato entre a vista e o real, transforma alhures essa relação social e deixa ver precisamente o que se deve acreditar. A ficção define o campo, o estatuto social e os objetos da visão. Assim funcionam os “mass media”, a publicidade ou a representação política. Hoje, a ficção pretende presentificar o real, falar em nome dos fatos e, portanto, fazer assumir como referencial a semelhança que produz. Essa reviravolta do terreno onde se desenvolvem as crenças resulta de uma mutação nos paradigmas do saber: a invisibilidade do real, postulado antigo, cedeu o lugar à sua visibilidade. A cena sociocultural da modernidade remete a imensidão de um  mito”. Define o referente social por sua visibilidade, e, portanto, por sua representatividade científica ou política; articula-se em cima deste novo postulado (crer real e visível) a possibilidade de nossos saberes, de nossas observações, de nossas provas e nossas práticas. Nesta nova cena, campo indefinidamente extensível das investigações óticas e de uma pulsão escópica, subsiste ainda a estranha coalizão entre o crer e a questão do real, do visto, do observado ou do demonstrado através de estratégia.     
Academia Brasileira de Letras elegeu Cacá Diegues para a Cadeira Número 7. Cacá vai substituir o cineasta Nelson Pereira dos Santos e derrotaram outros dez candidatos, entre eles a escritora Conceição Evaristo, uma negra que decidiu desafiar a instituição. Aos 71 anos, a mineira optou por uma espécie de anticandidatura e causou incômodo ao dispensar a bajulação habitual para ganhar votos dos imortais que frequentam o “clube de amigos”. Sua derrota era esperada: Conceição Evaristo entrou na disputa para expor exatamente a falta de representatividade negra e feminina na centenária academia. Recebeu apenas um voto. Cacá Diegues, 22, e Pedro Corrêa do Lago, neto de Oswaldo Aranha, outros 11 votos. A candidatura da escritora, que publicou seis livros e já venceu o prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio da literatura brasileira, surgiu após uma provocação da jornalista carioca Flávia Oliveira. - “Eu voto em Nei Lopes ou Martinho da Vila. Sem falar na Conceição Evaristo. - ‘Tá’ faltando preto na Casa de Machado de Assis”, declarou ao famoso colunista Ancelmo Gois no jornal O Globo em 25 de abril, ao lembrar que há espaço considerado vago na Academia Brasileira de Letras. No quadro atual da Academia, o mais antigo dos sócios correspondentes é José Carlos de Vasconcelos, eleito em 1981, e o mais novo é americanista Berthold Zilly, eleito em 2018.

Nas redes sociais, de hegemonia da palavra, a ideia se alastrou como fogo agora no Museu da Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, na cidade maravilhosa. Fã da escritora, a pesquisadora Juliana Borges publicou em 30 de abril uma carta-manifesto em apoio à autora. A partir do texto, surgiram dois abaixo-assinados pedindo a entrada de Conceição na ABL. - “A ponta de sua caneta e o texto em dígito de Conceição Evaristo trazem um trajeto de ancestralidade e apontam vislumbres de horizonte. Ora, não é isso que faz um imortal?”, escreveu Borges. Em dois dias, conseguiu mais de 6,5 mil apoios. Hoje com mais de 40 mil assinaturas nas duas petições, há até uma hashtag em prol da candidatura. A possibilidade de concorrer a um dos 40 assentos da ABL já estava no horizonte de Conceição Evaristo há mais tempo. A escritora, no entanto, só se entusiasmou com a ideia quando foi informada por uma jornalista sobre a quantidade de assinaturas que a petição havia recebido. Até então, sequer estava sabendo da mobilização. - “Se eu entrar,  não será porque escrevi um ‘Marimbondo’ do Sarney, não [romance que levou o ex-vice-presidente e presidente da República à ABL, em 1980]. Eu quero entrar porque é um lugar nosso, porque temos direito”, disse em uma palestra no Salão Carioca do Livro, em 19 de maio. Oficialmente, a disputa teve 11 candidatos.
Mas, desde o princípio, apenas dois nomes tiveram chance na eleição de fato. A improvável vitória de Conceição Evaristo sobre o cineasta Cacá Diegues e o colecionador Corrêa do Lago, favoritos desde o princípio, teria um significado histórico só comparável à eleição de Rachel de Queiroz, primeira mulher nordestina, filha do engenho, a integrar a lista de imortais – e isso apenas em 1977, sob uma ditadura militar golpista, quando lembramos que a Academia Brasileira de Letras foi criada em 1896. Historicamente Conceição Evaristo seria a primeira escritora negra a ser recepcionada na casa. Ocuparia ainda a cadeira 7, cujo patrono coincidentemente é o poeta e abolicionista baiano Castro Alves. Atualmente, há cinco mulheres e somente um negro entre os 39 acadêmicos. Uma boa candidatura, dizem os peritos nas engrenagens que movimentam a ABL, “se desenha antes mesmo da morte de algum dos 40 acadêmicos”. Um aspirante que frequenta os colóquios e eventos promovidos pela instituição ortodoxa ao longo dos anos e passa a fazer parte da vida social e de interesses e normas da casa, ganha muitos pontos entre seus eleitores. Também é de suma importância que, antes de entregar a Carta de solicitação de inscrição, o candidato tenha aliados e evidentemente “padrinhos” entre os votantes. Fato que o fundador, Machado de Assis, lembraria na passagem: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Bibliografia geral consultada.

CERTEAU, Michel de, La Prise de Parole. Paris: Éditions du Seuil, 1968; ASSIS, Machado de, Obras Completas. Rio de Janeiro: Editor José Aguilar, 1959; NEDER, Gizlene, Criminalidade, Justiça e Constituição do Mercado de Trabalho no Brasil - 1890-1927. Tese de Doutorado em Ciências Humanas. São Paulo: Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1986; SODRÉ, Muniz, La Città e il Tempi. Roma: Edizioni Settimo Sigillo, 1998; NABUCO, Joaquim, O Abolicionismo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999; DUARTE, Eduardo de Assis, “O Bildungsroman Afro-brasileiro de Conceição Evaristo”. In: Rev. Estud. Fem. vol.14 n°1. Florianópolis Jan./Apr. 2006; MENDES, Ana Cláudia Duarte, “Eco e Memória: Vozes-Mulheres, de Conceição Evaristo”. In: Revista de Estudos Literários - Volume 17-A, dez. 2009; BRITO, Maria da Conceição Evaristo de, Literatura Negra: Uma Poética da nossa Afro-brasilidade.  Dissertação de Mestrado em Letras. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1996; LIMA, Omar da Silva, O Comprometimento Etnográfico Afro-descendente das Escritoras Negras Conceição Evaristo & Geni Guimarães. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação  em Literatura. Instituto de Letras. Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Brasília: Univesidade de Brasília, 2009; BRITO, Maria da Conceição Evaristo de, Poemas Malungos. Cânticos irmãos. Tese de Doutorado em Letras. Niterói: Instituto de Letras. Universidade Federal Fluminense, 2011; MAGALHÃES, Rosânia Alves, A Escrita Feminina Afrodescendente na Obra de Conceição Evaristo. Dissertação de Mestrado em Linguística, Letras e Ares. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2014; BARBEDO, Mariana Gonçalves, A Arte de Carlos Diegues no Projeto Nacional-Popular do Cinema Novo (1962-1969). Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016; COSTA, Eliane; PEREIRA, Flávio; PEREIRA, Márcia Regina Santana, “O Feminino, Tempos e Espaços em As Andorinhas, de Paulina Chiziane, e em Becos da Memória, de Conceição Evaristo”. In: Revista Porto das Letras. Estudos Literários, volume 04, nº 02, 2018; Artigo: “Porque Conceição Evaristo é a grande candidata à Academia Brasileira de Letras”. In: http://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/24entre outros.