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domingo, 14 de janeiro de 2024

Mário Jorge Lobo Zagallo - Único Tetracampeão Global de Futebol.

                                                                       “Vocês vão ter que me engolir”. Mário Jorge Lobo Zagallo

       Todas as religiões, sem exceção, empregam utensílios culinários para os ritos sacrificiais, geralmente nas cerimônias de refeições sagradas ou de comunhão. Taça do Culto de Cibele, caldeirões hindus e chineses, caldeirão de prata dos celtas, “caldeirão da regeneração” do Museu Nacional de Copenhague, antepassado provável do Graal, antepassado certo do cálice cristão, “vasilha triunfal” a que assimilado o mandala nas cerimônias tântricas, caldeirões que, no Edda, que foi recompilada e escrita por eruditos que preservaram uma parte dessas histórias contêm os alimentos para os guerreiros bem-aventurados, todos tornam inesgotável a lista dos vasos sagrados. Um simbolismo completo será assim apanágio de um utensílio tão universalmente utilizado e tão universalmente valorizado. As imagens da casca de noz, tão frequentes nos nossos contos e nas fantasias liliputianas, correspondem mais ou menos às do geme fechado, do ovo. A retorta química, o atanor, são marcas indispensáveis à fantasia do vaso estomacal ou uterino. O vaso situa-se a meio caminho entre as imagens do ventre digestivo ou sexual e as do líquido nutritivo, do elixir da vida e de juventude. Pouco importa o que o recipiente seja de cavidade profunda, caldeirão, tacho ou tigela, ou de cavidade pequena, cuveta, gamela, taça ou colher. Pelo jogo confuso do sentido passivo e do sentido ativo o interesse arquetípico desliza pouco a pouco passando do continente para o conteúdo.

         A noção de continente é solidária de conteúdo. Compreende Gilbert Durand (1993: 257) que este último, é geralmente um fluido, o que junta os simbolismos aquáticos, os da intimidade, ao esquema do trajeto alimentar, do engolimento. É que o gesto alimentar e o mito da comunhão alimentar são os protótipos naturais do processo de dupla negação que estudamos a propósito do engolimento: a manducação é negação agressiva do alimento vegetal ou animal, em vista não de uma destruição, mas de uma transubstanciação. A alquimia compreendeu-o muito bem, tal como as religiões que utilizam a comunhão alimentar e os seus símbolos. Toda alimentação é transubstanciação. É por essa razão que Gaston Bachelard pode muito profundamente afirmar que “o real é antes de tudo um alimento”. E que além disso, que o ato alimentar confirma a realidade das substâncias. Porque a “interiorização ajuda a postular uma interioridade”. A afirmação da substância, da sua indestrutível intimidade subsistindo para além dos acidentes, só pode ser feita por esta tomada de consciência da assimilação digestiva. O “suco”, o “sal”, encontra-se no trajeto metafísico da essência, e os processos de gulliverização não passam de representações por imagens do íntimo, do princípio ativo que subsiste na intimidade das coisas. O atomismo – essa gulliverização com pretensões objetivas – reaparece sempre, mais cedo ou mais tarde, no panorama substancialista, ou melhor, enquanto produção de uma teoria dos “fluidos”, das “ondas” escondidas e constitutivas da própria eficácia das substâncias.

       A gulodice representa uma aplicação do princípio de identidade. Melhor: o princípio de identidade, de perpetuação das virtudes substanciais, recebe o seu primeiro impulso da meditação da assimilação sobredeterminada pelo caráter secreto, íntimo de uma operação que se efetua integralmente nas trevas viscerais. Porque é a interioridade “superlativa” que constitui a noção de substância. Esta é uma consequência do esquema psíquico da inversão: a intimidade é inversora. Todo invólucro, todo continente, aparece com efeito menos como menos preciso, menos substancial que a matéria envolvida. A qualidade profunda, o termo substancial não é o que contém, mas o que é contido. Bem vistas as coisas, não é a casca que conta, mas a amêndoa. Não é o frasco que importa, mas sim a embriaguez. É esse voltar do avesso do continente que quer a alquimia de Boerhave quer a de Jacob Polemann revelam, tal como o antigo Zimmermann da Grande Encyclopédie consagrado á “pedra”.  O alimento primordial, o arquétipo alimentar é, de fato, socialmente a produção do leite, isto é: “toda bebida feliz é um leite materno”. E quando esta euforia alimentar é desastrosamente interrompida pela analista social, a paciente é submersa por uma catastrófica crise esquizofrênica. A doente recupera, à beira da cura, a linguagem erótica dos místicos.     

         A primeira estrutura que a imaginação dos símbolos da inversão e da intimidade evidencia é a que os psicólogos denominam redobramento e perseverança.  A intimidade não é no fundo mais que uma conclusão normal das fantasias encaixadoras do Jonas. Há na profundidade da fantasia noturna uma espécie de fidelidade fundamental, uma recusa de sair das imagens familiares e aconchegantes. É esta estrutura que Strömgren mostrara já no tipo caracterial ixomítico ao ver na perseverança um dos seus traços típicos fundamentais. Para Rorschach, a perseveração das partes apreendidas é um sintoma central da ixotimia. Uma parte do cartão do teste é retomada três ou quatro vezes e interpretada apesar da mudança de posição do cartão. Frequentemente, o ixotímico é do tipo repetidor. Esta simetria já não é a simetria na antítese, mas sim a simetria na semelhança: passa-se imperceptivelmente do “do mesmo modo que... tal como” ao “não... não”. Nas ixoidias mais caracterizadas encontra-se uma estereotipia muito desenvolvida de certos elementos do teste: quer, por exemplo, estereotipias de respostas anatômicas, quer a estereotipia das respostas forma-cor, quer ainda, nos casos francamente epileptóides, a perseveração dos grandes detalhes. Há neste fenômeno perseveração perceptiva e infidelidade expressiva. Pode-se igualmente encontrar nos epilépticos casos de perseveração simultaneamente na percepção e na interpretação.

          A segunda estrutura, que é corolário da primeira, é a viscosidade, a adesividade do estilo de representação noturna. Foi, aliás, esta característica que chamou em primeiro lugar a atenção dos psicólogos quando designaram certos tipos psicológicos com nomes tirados das raízes que significam viscosidade, suco glutinoso, cola. Essa viscosidade manifesta-se em múltiplos domínios: social, afetivo, perceptivo, representativo. Durand (1997) admite como a viscosidade do tema era importante, dado que ela dita um pensamento que deixa de ser feito de distinção e passa a sê-lo de variações confusas sobre um único tema. O isotímico dá sempre mostras de “muito poucas dissociações”. Essa viscosidade isotímica manifestar-se-ia igualmente no plano social. Kretschmer pode falar, a esse propósito, de uma “síndrome hiper social” do isotímico, e no teste de Rorschach a grande quantidade de respostas “forma-cor” seria o indício de viscosidade afetiva. Em Van Gogh encontramos essa preocupação constante me fazer amizades, de construir uma comunidade quase religiosa na “casa dos amigos”, de construir uma “cooperativa de pintores”. Mas é  na estrutura da expressão que a viscosidade aparece.

        A terceira estrutura mítica parece-nos residir no realismo sensorial das representações ou ainda na vivacidade das imagens. É essa característica que muitas vezes mergulhou os caracterologistas e os tipologistas em consideráveis dificuldades. Com efeito, segundo a terminologia junguiana, tudo leva a considerar à primeira vista as duas primeiras estruturas como tendo traços introversivos marcados. Em particular a viscosidade e a religiosidade que lhe está ligada pode levar a pensar que a mística é, de fato, introversão. Mas então esta terceira estrutura que parece aparentar a imaginação mística ao thoug-minded de James ou à Einfühblung do estético Worringer contradiz as definições junguianas da introversão. Não é intenção proporcionada pela análise insistir nas dificuldades e nas querelas da tipologia, mas podemos ver que em arquetipologia as estruturas míticas constelam sem dificuldade com as características da Einfühblung, com o aspecto de vivacidade concreta, tanto sensorial como imaginária, da fantasia mística. O Rorschach confirma esta estrutura mostrando em todas as consciências gliscromorfas um tipo de ressonância íntimo “extratensivo e ambiequal”, quer dizer, oferecendo um protocolo com uma relação de respostas quinésicas e de respostas cor muito elevadas.  

          Em síntese, a quarta estrutura, estreitamente ligada às três precedentes, parece-nos consistir nessa propensão para a “miniaturização”, para a gulliverização da representação do Regime Noturno. Os psicólogos insistiram todos na “minúcia”, na “meticulosidade” dos caracteres ixotímico. Os atrasos intelectuais deste tipo agarram-se ao detalhe, perdem de vista o conjunto, mostram uma pedanteria muito característica que insiste no detalhe, mostra-o e comenta-o com mesquinhez. Nas respostas ao teste de Rorschach, o escrúpulo e a rotina do ixotímico manifestam-se de muitas maneiras: antes de mais, pelo número de respostas superior à média corrente. O ixotímico parece que receia sempre deixar escapar um detalhe. A minúcia descritiva da ixoidia manifestar-se-á igualmente na frequência das respostas anatômicas, e neste caso a minúcia da descrição anatômica alia-se à estereotipia da perseveração. Por fim, e sobretudo, o que chama a atenção no protocolo gliscróide é o número considerável de respostas “globais” ou “grande detalhe” induzidas a partir de um detalhe menor, de um elemento minúsculo da figura. Guirdham nota mesmo que a perseveração do conteúdo global de uma resposta é confabulada a partir de um ínfimo detalhe de uma resposta dada, e geralmente a partir de um detalhe anatômico. Ela completa a cosmização inerente à viscosidade da representação por uma verdadeira “microcosmização”. É a dinâmica do detalhe que se torna representativo e produtivo do conjunto, ou seja, há uma reviravolta completa dos valores: o que é inferior toma o lugar do superior, os primeiros tornam-se os últimos, o poderio do polegar vem escarnecer a força expressiva do gigante e do ogro.    

Bola de futebol é usada para a prática do futebol nas suas diversas variações, fabricada em couro sintético, e consiste de várias camadas que são revestidas com uma cobertura à prova d’água. É um dos principais ícones do esporte, sendo universalmente reconhecida como seu símbolo. Estima-se que sejam produzidas anualmente 40 milhões de bolas de futebol no mundo, número que sobe para 60 milhões em anos de Copa do Mundo de futebol. Em 1863, as primeiras especificações para a bola de futebol foram estabelecidas pela The Football Association. Antes disso, as bolas eram feitas de couro inflado, com revestimentos de couro inseridos mais tarde para ajudar a manter as suas formas. Em 1872, as especificações técnicas foram revistas, e essas regras permaneceram praticamente inalteradas, tal como definidos pela International Football Association Board. As diferenças das bolas criadas desde que esta regra social entrou em vigor têm sido a de fazê-la “com materiais diferentes, bem como das estampas impressas em sua superfície”. As bolas passaram por uma mudança dramática ao longo do tempo e do espaço geográfico. Durante a longa época medieval, com a sensibilidade, as bolas eram feitas normalmente de um invólucro exterior de couro cheia de aparas de cortiça.  

Outro método de produção com utilidade de uso era usar bexigas de animais para a parte interior da bola tornando-a inflável. No entanto, estes dois estilos deixavam as bolas mais fáceis de furar, além de não serem muito adequadas para chutar, permanecendo assim até o decorrer do século XIX, momento onde as bolas foram aprimoradas com o processo da mass production tornando-se mais parecidas hoje com as bolas de futebol. Em 1838, Charles Goodyear (1800-1860), um inventor norte-americano, reconhecido por ter descoberto a vulcanização da borracha, introduziu a utilidade de uso de borracha em suas descobertas sobre a vulcanização. A aplicação desta inovação às bolas melhorou consideravelmente as mesmas. É o tratamento de vulcanização da borracha que confere à bola certas qualidades como resistência, elasticidade e resistência aos solventes, além de ajudar a resistir ao denso calor e frio moderados. A vulcanização ajudou a criar bexigas infláveis que pressionavam o painel externo de couro das bolas. A inovação técnica de Charles Goodyear aumentou as possibilidades de uso ao facilitar o ato de chutar a bola.

O casamento de Zagallo ocorreu em 13 de janeiro de 1955, quando o jogador passou a adotar o número de vez. Ao longo da carreira e também na vida pessoal, Zagallo usou o número nas camisas como um símbolo da sorte. Ele também tentava encontrar o valor em palavras, como a frase “Brasil campeão”, que tem 13 letras. A superstição de Mário Jorge Lobo Zagallo com o número 13 começou com sua esposa, Alcina de Castro Zagallo, com quem foi casado durante 57 anos e o Botafogo Futebol e Regatas. Ela era devota de Santo Antônio e gostava do número 13. Ele foi campeão em 1958: 5 + 8 = 13 e começou em 1967 no Botafogo como treinador e foi campeão: 6 + 7 = 13. Depois foi campeão como auxiliar em 1994: 9 + 4 = 13, que revelou mais um motivo para que ele acreditasse no número, já que o jogador Roberto Baggio errou o pênalti em 1994. Na época em que Zagallo e Parreira trabalharam juntos os patrocinadores da seleção brasileira eram Umbro e Coca-Cola, as duas juntas têm 13 letras. O número de Copas do Mundo vencidas foram: Tetracampeões tem 13 letras também. Em entrevista concedida na final da Copa América, no Maracanã, o técnico da seleção Brasileira, Adenor Leonardo Bachi, mais reconhecido como Tite, citou Zagallo, para chegar iluminado à decisão da competição.

O treinador lembrou a superstição de Mário Jorge Lobo Zagallo: - “Oito mais cinco dá 13, 58 anos que tenho, tomara que eu tenha luz do Zagallo. Um mestre, cara iluminado, exemplo”. -, disse o técnico Zagallo, na ocasião. O problema é que no caso de Tite, a superstição não deu resultados já que a seleção brasileira perdeu a decisão da Copa América deste ano para a Argentina por 1 a 0, em pleno estádio Maracanã. A Copa América, reconhecida até 1975 como Campeonato Sul-Americano de Futebol, é a principal competição entre as seleções de futebol das nações da Confederação Sul-Americana de Futebol. Este torneio tornou-se o mais antigo do mundo, entre seleções, após a ocorrência dos Jogos Olímpicos de Londres de 1948, já que após esta edição as Olimpíadas começaram a ser disputadas por seleções que não são consideradas as principais competitivamente, e também quando em 1984 o British Home Championship foi abolido. A competição determina o campeão continental da América do Sul. Desde a edição de 1993, equipes da América do Norte e da Ásia foram convidadas a participar.

Sociologicamente produção em massa é o termo que designa a produção em larga escala de produtos padronizados através de linhas de montagem. Este modo de produção foi popularizado por Henry Ford (1863-1947) no início do século XX, particularmente na produção do modelo Ford T. A produção em massa se tornou um modo de produção muito difundido, pois permite altas taxas de produção por trabalhador, e ao mesmo tempo disponibiliza produtos a preços baixos. A produção em massa faz uso intensivo de capital, ou utiliza uma alta proporção de máquinas em relação ao número de trabalhadores. Com o custo do trabalho mais baixo e alta taxa de produção, a proporção de capital aumenta enquanto as despesas correntes diminuem, com outros modos de produção. Porém, o montante capital necessário para montar o parque de máquinas de uma fábrica é tão alto, que é necessário um certo grau de segurança, melhor dizendo, é preciso que o retorno do investimento seja garantido, para que o risco seja assumido pelo capitalista. A produção em massa prosperou principalmente nos Estados Unidos da América, porque havia abundância de recursos e um mercado pouco competitivo e certamente ainda inexplorado.

A arte de jogar está irremediavelmente vinculada, em cada instante do jogo, as regras e métodos constituindo princípios básicos do desporto, cabendo ao árbitro em sua esfera de competência a sua preservação. Toda vez que a ordem é (des) afiada compete a ele, somente a ele, restabelecê-la. Os elementos mais representativos do sistema esportivo são inúmeros, mas destacam-se mormente os comentaristas de carreira ou jornalistas especialistas esportivos, os dirigentes, os atletas, e torcedores que se tornam instrumentos geridos por influências valorativas que decorrem do poder político, econômico, midiático e outros. Para estes quesitos desportivos, o árbitro, em geral, só é julgado pelos erros que comete ou julgam que ele próprio os cometeu. Dentre esses elementos de poder, o aspecto econômico é condicionante em que o árbitro tem que administrar, pois, analogamente, o teto salarial de árbitro permanece extremamente inferior ao reconhecimento do jogador, mesmo que se torne um árbitro internacional. Para um jogador de destaque, a valorização financeira pode chegar a cifras altas no mercado europeu. O investimento de entidades patrocinadoras visa simultaneamente para o clube e o jogador, e em somas cada vez mais elevadas de acordo com o êxito da equipe ou do atleta. Uma contradição interessante no meio desportivo, e, portanto, liberal, é que o jogador é profissional e o árbitro é amador.

        Nas últimas cinco ou seis décadas do século XX, os intelectuais  estabelecidos profissionais se intimidaram em admitir a essência de classe em suas teorias e posturas ideológicas. Na verdade, a ideologia não é ilusão, nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, ancorada e bem sustentada. Como tal, a ideologia em termos persuasivos não pode ser superada exclusivamente nas sociedades de classes. Sua persistência decorre dela ser constituída objetivamente e reconstituída como consciência inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o “metabolismo social”, lembrava Marx, em seus principais aspectos. Mas que se entrelaçam conflituosamente e se manifestam no plano da consciência tardia, conquanto seja na diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos, que exercem influência nítida sobre os processos materiais mais tangíveis. O metabolismo social é um dado utilizado para a compreensão dos processos sociais e se nesse determinado momento pode haver a existência de sustentabilidade. Do ponto de vista analítico a longa e boa maré de prosperidade que caracterizou as economias capitalistas desenvolvidas, após a 2ª guerra mundial (1939-1945), somente foi perturbada por algumas recessões menores como as de 1949-1950 e de 1957-1958.

Aparentemente, a lição de depressão da década de 1930, a maior participação e intervenção do Estado na economia e o aperfeiçoamento da política neokeynesiana davam seus frutos. Em consequência, houve demasiado otimismo quanto à capacidade do Estado para controlar os ciclos da economia capitalista. Nesse ínterim, o primeiro golpe sério foi-lhes desfechado pela crise do dólar, no fim da década de 1960, que forçou o governo dos Estados Unidos da América a desvalorizá-lo duas vezes seguidas no breve período de 14 meses. Os principais países capitalistas da Europa e Japão, embora obviamente não por motivos desinteressantes, puseram-se de acordo, segundo Michelena (1977: 104) para tomar medidas extraordinárias que mantivesse o dólar à tona. Assim, em 1971, Alemanha Federal, Suíça, Japão e países de moedas fortes decidiram-se revalorizá-las.  A queda do dólar prosseguia, contribuindo para aprofundar os conflitos entre os países capitalistas, a tal ponto que uma revista tão conservadora como a Time se viu na necessidade de tecer o comentário:  - Se o ressentimento em relação aos Estados Unidos se disfarçar as políticas monetárias e comerciais europeias, é provável que o dólar caia ainda mais. Tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos isso seria sinal do início de uma guerra econômica na qual nenhum dos dois lados pode esperar mais do que uma vitória de Pirro”, como esta, e estamos acabados.   Em outras palavras, tratava-se de uma crise de acumulação de capital que, como todas as crises, tem suas peculiaridades, mas é análoga as anteriores.

Quer dizer, isso implica numa operação para que o sistema capitalista possa efetivamente superá-la, com a necessidade de introduzirem-se inovações tecnológicas significativas, transformações das formas de acumulação e a implantação de mudanças substanciais na divisão internacional do trabalho. O que poderia ser conseguido mediante o desenvolvimento de novas fontes de energia em torno de fusão nuclear, solar etc., a exploração dos solos oceânicos, tanto para obter produtos minerais quanto agrícolas, e o desenvolvimento bioquímico e genético ou, em outros campos sui generis, em que a pesquisa científica esteja bastante avançada. Segundo este ponto de vista, fenômenos como a crise monetária internacional, a chamada “estagflação”, a crescente concorrência internacional, o acirramento da luta de classes nos Estados Unidos da América e na Europa, os realinhamentos políticos mundiais e as importantes mudanças sociais que estão ocorrendo nas relações internacionais são considerados manifestações da crise geral da acumulação. Para melhor especificar a interconexão de todos esses fenômenos e deles deduzir algumas de suas consequências políticas internacionais é necessário examinar cuidadosamente, embora de modo breve, a natureza da crise. 

A palavra tem origem durante a crise econômica que assolou o mundo globalizado durante a década de 1970, de um lado pelo superaquecimento das economias dos chamados “países desenvolvidos”, a partir da excessiva expansão de procura agregada, o que levou a pressões inflacionistas; do outro lado, pela redução da oferta agregada, a partir das restrições impostas pelos países produtores de petróleo, perdas de safras e redução das atividades em sectores que dependem do petróleo como matéria-prima, ou complemento, levando ao desemprego, ou ainda, provocando a depreciação das moedas fortes pelos “desinvestimentos” e “deseconomias de escala”, patrocinada pelos grupos econômicos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que estavam acima dos domínios operacionais dos Estados nacionais contemporâneos. Em economia, estagflação define-se como uma situação simultânea de estagnação econômica, ou até mesmo recessão econômica, e altas taxas de inflação. Tal fenômeno é uma situação atípica do funcionamento regular da economia, o baixo nível de atividade econômica costuma vir acompanhado de uma queda na inflação devido a diminuição da demanda agregada. Obviamente, os ciclos econômicos não derivam apenas de uma só causa.

São, antes, a representação do resultado do processo contraditório e peculiar modo de desenvolvimento do sistema capitalista, cuja expressão é resultado “o movimento cíclico da taxa de lucros que, afinal, resume o desenvolvimento contraditório de todos os momentos do processo de produção e reprodução”. Porém, quais são essas contradições?  Alguns autores marxistas assinalam duas como principais. A primeira é de caráter geral – no sentido de que é aplicável a todos os modos de produção: é a contradição entre o nível de desenvolvimento das forças produtivas e as finalidades limitadas da produção, que se origina na natureza das relações de produção. A revolução técnico científica avançou de tal modo a automatização dos processos que não apenas afetou consideravelmente todos os aspectos da produção como está chegando ao ponto em que os aspectos subjetivos do processo de trabalho começaram a ter mais importância claramente do que os objetivos. Ela também está modificando a significação das matérias-primas, não só na medida em que estas são cada vez mais produto do homem, e não da natureza, mas porque elas desempenham um papel ativo na automatização, como objetos de trabalho. Obviamente os processos produtivos e de consumo das sociedades capitalistas globalizadas e, portanto, mais desenvolvidas em economia, ainda estão longe do ponto em que se possa dizer que uma tal evolução das forças produtivas seja uma característica geral do sistema.

Entretanto, há certos setores e ramos da produção em que a aplicação da ciência e da tecnologia atingiu o ponto dinâmico e estável em que se pode afirmar que o processo de produção deixa de ser, de modo significativo, uma interrelação que ocorre no processo de cooperação entre trabalho vivo e trabalho acumulado; isto é, um estágio em que se alcançou a automatização “quase total”, no sentido em que as máquinas produtoras são controladas por outras máquinas, reduzindo-se o papel do trabalho sem cair, entretanto, na mera supervisão humana produtivista.  No âmbito da guerra fria o bloco político-ideológico “comunismo” versus “capitalismo” mantém a circuncisão nevrálgica postergando a queda do Muro de Berlim havia 28 anos, um panóptico para designar uma penitenciária ideal, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros. Uma geração inteira não conhecia o mundo sem ele. Havia quase três décadas, ele mantinha separados famílias e amigos. A Alemanha eram duas, ocidental (capitalista) e oriental (comunista). A cortina de ferro deixou de ser figurativa para ganhar uma metáfora visível e palpável quando o Muro de Berlim foi erguido, do dia para a noite, em 13 de agosto de 1961. Eram 3,5 metros de altura, mais de 100 km de placas de concreto, cabos de aço, cercas elétricas, torres de observação, que cercavam inteiramente Berlim Ocidental para impedir a fuga dos alemães orientais, pois, estatisticamente sabemos que centenas entre homens e mulheres morreram tentando, e a circulação de espiões ocidentais.

A abertura política da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas reconhecida como Glasnost gerou uma onda de liberdade e mudanças no bloco comunista da Europa. Protestos abalaram o governo da Alemanha Oriental, que foi obrigado a anunciar a permissão de viagens para o lado ocidental. Esse anúncio levou milhares de pessoas à fronteira dos dois lados da cidade. Os guardas não atiraram. As pessoas começaram a atravessar para o outro lado. E a população começou a destruir, com as próprias mãos, o Muro de Berlim. Segundo Renato Félix, do Jornal Correio (2019) lembra a data com uma seleção de filmes sobre o muro e a Alemanha Oriental. E lembra que este muro caiu, mas há outros que se ergueram: na Palestina, na Hungria, na fronteira dos Estados Unidos da América com o México. O Muro de Berlim, oficialmente reconhecido como “Muro de Proteção Antifascista” (Antifaschistischer Schuzwal), representou uma barreira física construída pela Alemanha Oriental durante a chamada Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental. Sociologicamente representou um período de tensão geopolítica entre a União Soviética e EUA e seus respetivos aliados. Considera-se geralmente que o período abrange a Doutrina Truman de 1947 até a dissolução da União Soviética em 1991. Era parte na realidade existente da fronteira interna alemã.

Além de dividir a cidade de Berlim, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países imperialistas encabeçados pelos Estados Unidos; e a República Democrática Alemã (RDA), constituído pelos países socialistas favoráveis ao regime soviético. Construído na madrugada de 13 de agosto de 1961, dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Este muro era patrulhado por militares da Alemanha Oriental Socialista com ordens de atirar para matar: a célebre Schießbefehl, ou “Ordem 101” os que tentassem escapar, o que provocou a separação de dezenas de milhares de famílias berlinenses. A distinta e muito mais longa fronteira interna alemã demarcava a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental. Ambas as fronteiras passaram a simbolizar a chamada “cortina de ferro” entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste. Antes da construção do Muro, 3,5 milhões de alemães orientais tinham evitado as restrições de emigração do Leste socialista e fugiram para a Alemanha Ocidental, muitos ao longo da fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. A existência, entre 1961 e 1989, o Muro quase parou todos os movimentos de emigração e separou a Alemanha Oriental de Berlim Ocidental por mais de um quarto de século.

Durante uma onda revolucionária de libertação ao comando de Moscou que varreu o Bloco de Leste, o governo da Alemanha Oriental anunciou em 9 de novembro de 1989, após várias semanas de distúrbios civis, que todos os cidadãos da RDA poderiam visitar a Alemanha Ocidental capitalista e Berlim Ocidental. Ocorrera uma mobilidade social de alemães orientais que subiram e atravessaram o muro juntando-se aos alemães ocidentais do outro lado, em uma atmosfera social de celebração de consanguinidade. Ao longo das semanas seguintes, partes do Muro foram destruídas por um público quase eufórico e por caçadores de souvenirs. Mais tarde, equipamentos industriais foram usados para remover quase o todo da estrutura. A queda do Muro de Berlim abriu o caminho para a reunificação alemã que foi formalmente celebrada em 3 de outubro de 1990. Muitos apontam este momento como fim da chamada Guerra Fria. Berlim incentiva a visita do muro derrubado, tendo preparado a reconstrução de trechos do muro. A reconstrução de trechos, está marcado no chão o percurso ideográfico que o muro fazia quando ainda estava erguido.

            Neste aspecto social o trivial não é mais o Outro, é a experiência que constata uma diferença aparentemente fraca e, no entanto, fundamental que distingue seu resultado das trivialidades distribuídas pelos especialistas da cultura do futebol, não mais designando o objeto do discurso, mas lugar praticado. Este é o ponto de chegada de uma trajetória. Não é um estado, tara ou graça inicial, mas algo que veio a ser efeito de poder do processo de afastamento em relação a práticas reguladas e falsificáveis, uma ultrapassagem do comum numa posição particular. Bem longe de se dar arbitrariamente o privilégio de falar em nome do ordinário (ele é indizível), ou de pretender estar neste lugar geral, ou, de oferecer à edificação uma cotidianidade hagiográfica, trata-se de atribuir à sua historicidade o movimento que reconduz os procedimentos de análise para suas fronteiras, até o ponto em que se mudam, ou mesmo se perturbam, pela irônica e louca banalidade que falava, mas que desenha o ordinário em um corpo de técnicas de análise, para indicar os deslocamentos que levam a interpretação para o lugar-comum.

            Além da própria historiografia, o conhecimento a história tem sido uma tarefa ímpar de todas as ciências sociais. A sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a psicologia, trabalham com questões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, militares, demográficas e outras, que correspondem a ações, relações, processo e estruturas tomados em algum nível da historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpretações, em temos de indução quantitativa ou construção de modelos, mesmo nesses casos onde a pesquisa produz alguma explicação nova, reavalia ou reafirma explicações vigentes, sobre os modos e os tempos da história. Também há aqueles que formalizam e fetichizam as categorias dialéticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das ações, relações, processos e estruturas que expressam movimentos e as modificações das gentes, grupos, classes e nações. Uns e outros constroem mitos. Em todos os casos, a história aparece de alguma forma, como história real ou invenção, drama ou epopeia, elegia ou profecia. A multiplicidade de ciências e teorias relativas ao nível social, tem dado origem a distintas interpretações como se escreve ou produz a história. São distintas e heterogêneas a histórias do capitalismo que aparecem nas análises de David Ricardo, Karl Marx, Florestan Fernandes, Alexis de Tocqueville, Gilberto Freyre, Émile Durkheim, Max Weber, John Maynard Keynes, Talcott Parsons, Eric Hobsbawm e outros.

            Não só na sociologia, mas no conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se dá a mudança social, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições sociais de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise cíclica do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é muito mais que o resultado da “criatividade empresarial”. Isto é, toda mudança, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus pródigos discípulos e continuadores no século XIX e XX. Os valores relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso social e humano capitalista.

O caminho técnico a percorrer consiste em reconduzir as práticas e as línguas científicas para seu país de origem, a “everyday life”, a vida cotidiana. Este retorno, a cada dia mais insistente, tem o caráter paradoxal de ser também um exílio em relação às disciplinas cujo rigor se mede pela estrita definição de seus limites, pois seus modos de proceder, os seus objetos formais e as condições de sua falsificação, desde que ela se fundou como uma pluralidade de campos limitados e distintos, em suma, desde que não é mais do tipo teológico, a ciência constituiu o todo como o seu resto, e este resto se tornou o que agora denominamos cultura. Esta clivagem organiza a modernidade. Esta linha divisória, aliás, mutável, continua sendo estratégica nos combates para confirmar ou contestar os poderes das técnicas sobre as práticas sociais. Historicamente ela separa as línguas artificiais que articulam os procedimentos do saber e as línguas naturais que organizam a atividade significante comum. Alguns destes debates mais profícuos que dizem precisamente respeito à relação social de institucionalização da ciência com a cultura, precisados, e é possível indicar suas possíveis saídas, através de duas personagens que aí se defrontam, curiosamente próximas e antinômicas: o perito e o filósofo.

Abre a ambos a tarefa de mediadores entre um saber e a sociedade, o primeiro enquanto introduz a sua especialidade técnica de trabalho na área mais vasta e complexa de decisões sociopolíticas, o segundo enquanto reinstaura, relativamente a uma técnica particular a pertinência de interrogações gerais. No perito, uma competência se transmuta em autoridade social; no filósofo, as questões banais se tornam um princípio de suspeita, para lembramos de Michel Foucault, num terreno técnico. É verdade que o perito prolifera na sociedade contemporânea, mais do que outras, comparativamente, para se tornar a sua figura generalizada, tensionada entre a exigência de uma crescente especialização e a de um processo de eficácia comunicativo tanto mais necessário, mas que pode mudar de forma e per se de conteúdo de sentido. Mas o seu sucesso não é assim tão espetacular. A lei produtivista de uma atribuição que é condição de eficácia simbólica e a lei social de uma circulação que reside sob a forma do intercâmbio se contradizem dentro dele.

Mário Jorge Lobo Zagallo é sinônimo de Copa do Mundo. Como jogador ponta-esquerda, foi titular nas campanhas dos títulos da Seleção em 1958 e 1962. Como treinador, guiou com distinção a conquista do tricampeonato em 1970. Em 1994, foi coordenador técnico e conquistou o tetracampeonato com Carlos Alberto Gomes Parreira, um talentoso treinador que participou de Copas do Mundo FIFA por cinco Seleções diferentes, sendo também o técnico brasileiro que mais dirigiu Seleções de outros países: seis ao todo, em dez passagens. Nascido em Atalaia, Alagoas, Zagallo se mudou com a família para o Rio de Janeiro antes mesmo de completar um ano de idade. Na tradicional Tijuca, bairro da Zona Norte, iniciou sua démarche gloriosa nos campos de futebol. Engenhoso com a bola nos pés, garantiu vaga na peneira do time infantil do América F. C. e, também na equipe juvenil. Aos 19 anos quando ainda era soldado da Polícia do Exército, Zagallo iniciava com um gosto amargo da derrota, a relação duradoura que teria com a Seleção Brasileira no Maracanazo da Copa do Mundo de 1950, o Velho Lobo era responsável pela segurança do estádio carioca. E, aos 34 da etapa final, viu o jogador Gigghia coroar a seleção do Uruguai campeão do mundo sobre o fabuloso Brasil.

            Único treinador tetracampeão mundial, Zagallo disputou sete Copas do Mundo. Chegou à final em cinco, sendo vice-campeão diante da França, no fatídico 12 de julho de 1998. - Há uma dificuldade natural para dimensionar o nível de craque que o Zagallo se tornou. O fato de jogar ao lado de Pelé e Garrincha ofuscaria o brilho de qualquer outro que não tivesse a estatura dos gênios. Não seria diferente com Zagallo, relatou Vanderlei Borges, autor da obra Um Vencedor, em parceria com Luiz Augusto Erthal. A FIFA também lançou um documentário em homenagem aos 90 anos de Zagallo. Contando com a presença de Pelé, Parreira, Jairzinho, Rivellino, Dunga, Bebeto, Ronaldo e do técnico português José Mourinho, o primeiro episódio ocorreu no canal da entidade no Youtube. Zagallo possui uma relação íntima com outros dois clubes do Rio de Janeiro, além do América. No Clube de Regatas Flamengo, recebeu sua primeira oportunidade em 1950. Apelidado de “Formiguinha” na passagem pela Gávea, conquistou um tricampeonato carioca nos oito anos que jogou no clube rubro-negro.

Foram 250 jogos e 29 gols marcados. Naquela conjuntura, diferente de nossa contemporaneidade, jogador de futebol era sinônimo de vagabundagem. Talvez por isso Zagallo tenha escondido de Alcina “como realmente ganhava a vida”. Mal sabia que ela seria sua futura mulher e companheira em longa duração dos 57 anos de casamento. São cinco filhos do casal, que comemoram o matrimônio em 13 de janeiro de 1955. O número é uma das marcas de Zagallo em sua passagem no futebol. Alcina morreu aos 80 anos, em 2012, de complicações respiratórias. Três anos após o casamento, Zagallo conheceu seu segundo amor. Convocado pelo técnico Vicente Ítalo Feola (1909-1975), disputou como titular na ponta-esquerda a Copa da Suécia, em 1958. Autor de um gol e uma assistência no 5 a 2 brasileiro sobre os donos da casa, o Velho Lobo também ajudou defensivamente. Impediu o 2 a 0 rival tirando uma bola em cima da linha. No regresso ao Brasil, deixou as cores rubro-negras do Flamengo e vestiu o alvinegro botafoguense. A tentação por jogar com ídolos como Mané Garrincha, Didi e Nilton Santos pesou na decisão. Em General Severiano, no bairro de São Cristóvão conquistou o bicampeonato carioca de 1961-62, o Torneio de Paris e outros títulos. O Estádio de General Severiano foi um estádio de futebol situado no bairro de Botafogo. O estádio pertencia ao Botafogo de Futebol e Regatas e era muito utilizado antes da construção do Maracanã.

O maior artilheiro do estádio é Carvalho Leite, com 101 gols em 90 jogos. O campo foi construído em 1912 e inaugurado em 13 de maio de 1913 em partida válida pelo Campeonato Carioca de Futebol, contra o Clube de Regatas Flamengo. Vitória botafoguense por 1 a 0, gol de Mimi Sodré. Em 1937, quando começou a “Campanha do Cimento”, que consistia num Livro de Ouro para doações de torcedores, a reconstrução foi concluída em 1938 e o antigo uso de campo, ainda com estruturas de madeira foi reinaugurado como estádio, estrutura de cimento, em 28 de agosto do mesmo ano. Na cerimônia realizada antes do primeiro jogo, um mapa do Brasil foi desenhado no centro do gramado com terra originada de cada estado do país. O jogo foi contra o Fluminense e Botafogo venceu por 3 a 2. Neste estádio o Botafogo decidiu o Campeonato Carioca de 1934, contra o Andarahy, vencendo o jogo por 2 a 1. O Botafogo também decidiu o Campeonato Carioca de 1948, contra o Vasco da Gama, vencendo o jogo por 3 a 1, com o estádio lotado por aproximadamente 20.000 pessoas. O estádio foi demolido quando o clube perdeu a posse do terreno na década de 1970. A última partida neste estádio deu-se em 30 de novembro de 1974, empate em 2 a 2 com o Madureira. Em 1975, recebeu a primeira edição do Hollywood Rock, que gerou o documentário Ritmo Alucinante.

Em 1977, a sede foi vendida para a Companhia Vale do Rio Doce; o clube na época era presidido por Charles Macedo Borer. Com a venda da sede, o futebol do Botafogo foi para o subúrbio de Marechal Hermes, e como o antigo estádio foi demolido, lá foi construído um novo. No início da década de 1990, o clube readquiriu o terreno, através de permuta pela área do seu ginásio coberto no Mourisco, na Praia de Botafogo. Com o terreno, retomou posse do casarão que foi sua antiga sede e se encontrava em estado de ruína - um processo de tombamento como patrimônio histórico da cidade impedira a Companhia Vale do Rio Doce de colocá-la abaixo para construir um edifício- sede da companhia. O Botafogo, em parceria com uma empreiteira, recuperou inteiramente o palacete e ergueu no terreno do antigo estádio um shopping center, o atual Casa e Gourmet Rio, antigo Rio Plaza e Rio Off-Price, em cuja cobertura estão o seu campo de treinos que leva o nome do antigo craque Nílton Santos, o moderno Centro de Treinamento João Saldanha, homenagem ao falecido jornalista e treinador que levou o clube ao título de campeão carioca em 1957, a concentração da equipe profissional com uma dúzia de apartamentos, além de um ginásio de basquete e vôlei, três piscinas para sócios, quadras polivalentes, restaurante e outros equipamentos. A reinauguração do novo complexo sócio esportivo, em 22 de janeiro de 1992, marcou um forte revigoramento do Botafogo no cenário nacional e internacional. Em 2003, foi construído o Centro de Treinamentos João Saldanha, para o profissional do estádio.

João Saldanha nasceu no Alegrete, no estado do Rio Grande do Sul, no dia 3 de julho de 1917. Sua família envolveu-se na Revolução de 1923 e Saldanha, aos 6 anos, ajudava no contrabando de munição entre Brasil e Uruguai. No mesmo ano, a família refugiou-se em Rivera. Ao fim do conflito, os Saldanha voltaram para o Rio Grande do Sul e, no ano seguinte, foram para o Paraná. Após percorrer várias cidades do interior, decidiram se instalar em Curitiba. O primeiro grande contato de João Saldanha com o futebol aconteceu ali, pois a casa comprada por Gaspar Saldanha, seu pai, ficava a dois quarteirões do campo do Atlético Paranaense, onde sempre ia assistir aos treinos das divisões de base, permitindo a proximidade do garoto com o futebol. Além disso, a casa da família em Curitiba permitia uma integração com toda a garotada da vizinhança, que organizava times, campeonatos, jogos, enfim, tudo dentro do estilo de vida da expansão urbana e das novas modas citadinas. Ali, João completaria o primário na mesma escola de um garoto que ainda seria importantíssimo personagem na história nacional como presidente da República: Jânio Quadros. Em 1928, a família voltou para o Rio Grande do Sul, com o pai de Saldanha aliando-se a Getúlio Vargas. Quando este tornou-se presidente do Brasil, a família foi para o Rio de Janeiro, onde Gaspar ganhou um cartório.

Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro com pouco tempo estabilizado no Rio e engajou-se em muitas campanhas do partido. Logo mais, se tornaria um dos mais ferrenhos opositores da ditadura militar brasileira e figura de destaque no "Partidão". Tornou-se secretário-geral da União da Juventude Comunista, chegando a ser mantido preso e fichado no DOPS em 1947. Jogou futebol profissionalmente por uns poucos anos no clube carioca do Botafogo. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou Jornalismo tornando-se um dos mais destacados cronistas esportivos brasileiros, começando a carreira em 1960. Incentivado por amigos e por sua esposa, Ruth que era irmã do jornalista Rui Viotti, aceitou o convite para fazer um teste para integrar a equipe da Rádio Guanabara, atual Bandeirantes AM, montada por Édson Leite. A partir daí, acumulou passagens marcantes pelas rádios Nacional, Globo, Tupi e Jornal do Brasil, TVs Rio, Manchete e Globo, onde apresentou seus comentários esportivos no programa Dois Minutos com João Saldanha e assinou colunas nos jornais Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil e revista Placar. Com toda sua experiência vivida no futebol, “não media palavras ao criticar jogadores, treinadores e dirigentes, conquistando fãs e desafetos”. Entre 1939 e 1940, Saldanha foi o intérprete no Botafogo do técnico húngaro Dori Kürschner (1885-1941), com quem aprendeu sobre tática no futebol. Foi diretor de futebol do clube a partir de 1944, com um intervalo entre 1949 e 1956, período em que esteve clandestino engajado dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Saldanha foi contratado em 1957 como técnico do Botafogo, apesar de sua falta de experiência.

O clube conquistou o campeonato estadual daquele ano, em uma final histórica, em que goleou o consagrado Fluminense por 6x2, com um time que contava com extraordinários jogadores Garrincha, Didi e Nílton Santos. Em 4 de fevereiro de 1969, ele foi anunciado como novo treinador da seleção nacional. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, mavioso, alegou que o contratou na esperança de que os jornalistas fizessem menos críticas à seleção nacional, tendo um deles como técnico. Na Copa do Mundo de 1966, uma das principais críticas da imprensa carioca era justificada pela falta de um time-base. Saldanha tentou resolver esse problema, convocando um time formado em sua maioria por jogadores do Santos e do Botafogo, os melhores times competitivos da conjuntura, e os conduziu a 100% de aproveitamento em seis jogos de qualificação (eliminatórias). De uma frase sua, quando teria dito que convocaria somente “feras”, surgiu a expressão As feras do Saldanha, para designar aquela seleção. Graças ao seu trabalho, a seleção brasileira reconquistaria a autoestima e a confiança do torcedor, que tinha perdido depois da pífia campanha de 1966. O time de Saldanha, que se destacou nas eliminatórias, contra Venezuela e Paraguai, com a dupla Tostão e Pelé, estava mesclado com jogadores do Santos, Botafogo e Cruzeiro. Ideia interdisciplinar de João Saldanha, aproveitando o entrosamento dos jogadores em seus respectivos clubes, e que formavam um esquema tático 1-4-2-4 bem estruturado. O time brasileiro de Saldanha era: Felix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel e Rildo; Piazza e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu.

Vicente Feola é o recordista em partidas no comando do São Paulo, com 532 jogos à frente do clube, e o primeiro brasileiro a levar o Brasil ao título da Copa do Mundo, em 1958. Paulistano do Brás e filho de imigrantes italianos de Castellabate, cidade a 126 km ao Sul de Nápoles, foi aluno do Coração de Jesus. Como jogador profissional defendeu os clubes São Paulo, o Auto Sport Club e o Americano, de São Paulo. Iniciou a atividade de treinador na Portuguesa Santista e comandou o São Paulo por diversas vezes desde 1937. Muito ligado ao clube, foi o treinador reconhecido que mais vezes ocupou esse cargo, em oito oportunidades. E permanece como o recordista em número de partidas à frente do Tricolor, em seu comando pela primeira vez em 1937, ficando apenas um ano no clube. Porém, faria realmente história no clube na década de 1940. Foram dois anos em sua passagem mais duradoura pelo São Paulo Futebol Clube, entre 1947 e 1950. Conseguindo convencer o Diamante Negro, o jogador Leônidas da Silva, a ficar no clube e não se aposentar, Feola comandou um timaço, que tinha nomes como Mauro Ramos, Bauer, Rui, Noronha, Remo, Teixeirinha, Friaça à um bicampeonato estadual, numa época onde o campeonato tinha como regra disputar partidas por pontos corridos. Sua última passagem pelo clube seria quando treinou o clube entre 1959 e 1960. Feola esteve à frente do São Paulo por 532 vezes, com 299 vitórias, 106 empates e 127 derrotas.

Em 1954, o São Paulo cedeu-o, por empréstimo, para atuar no Esporte Clube XV de Novembro nas últimas partidas da primeira divisão do Campeonato Paulista, ajudando o XV a permanecer na Série A. Durante o ano de 1961, comandou o Boca Juniors. Deixou o cargo de comandante do time azul e amarelo após 68 partidas disputadas, sendo 30 oficiais e 38 amistosos. Ipso facto, João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBD) é a entidade máxima do futebol no Brasil. Foi fundada em 8 de junho de 1914, sob a denominação Federação Brasileira de Sports, resolveu apostar em um técnico do futebol paulista pela primeira vez. Feola foi escolhido em fevereiro de 1958 como treinador da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo daquele ano. A primeira partida de Vicente Feola no comando da Seleção Brasileira aconteceu no dia 4 de maio de 1958, pouco tempo antes do embarque para a Suécia, onde o Brasil goleou o Paraguai por 5 a 1, em jogo válido pela Taça Oswaldo Cruz. Contrariando a CBD, habilmente bancou a convocação de Pelé, mesmo depois que ele se contundiu em um amistoso contra o Corinthians, antes do embarque para a Suécia. A equipe sagrou-se campeã do torneio pela primeira vez. Feola seria o treinador para a Copa do Mundo de 1962, mas adoeceu e foi substituído por Aymoré Moreira, um treinador e futebolista brasileiro, que atuou como goleiro. Era irmão de Zezé e Ayrton Moreira, também treinadores de futebol.

O International Football Association Board (IFAB), órgão que trata das regras do método de futebol, last but not least, aprovou por unanimidade o uso de árbitros assistentes de vídeo (VARs), na sua 132ª Reunião Geral Anual (AGM), realizada em Zurique. O evento histórico foi liderado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. Giovanni Vincenzo Infantino é um advogado e dirigente desportivo suíço-italiano. Desde 26 de fevereiro de 2016 dirige a entidade máxima do futebol mundial, a FIFA, sucedendo Joseph Blatter. Foi secretário-geral da UEFA de 2009 a 2016. O VAR é composto por um conjunto de câmeras que transmitem comunicativamente as imagens para uma sala isolada do campo, onde assistentes de vídeo podem rever as jogadas. Existem apenas quatro tipos de lances que podem ser revistos. Esta assistência pode ocorrer a pedido do árbitro, em caso de dúvidas em uma das jogadas in loco que podem ser revistas, ou caso os assistentes observem um lance duvidoso e comuniquem o juiz da partida através do fone de ouvido. Neste momento, os assistentes de vídeo reproduzem as imagens em seus monitores e transmitem suas conclusões ao árbitro. É este último que toma a decisão final. Pode fazê-lo depois de também consultar as imagens em um monitor localizado na lateral ou confiar exclusivamente no critério dos assistentes. Os assistentes asseguram que a decisão correta seja tomada. Uma das funções do VAR é, segundo o site da FIFA, “ajudar o árbitro a determinar se houve alguma infração que impeça de validar o gol”.

Inicialmente, pensava-se que o VAR não poderia corrigir o impedimento, porque este não é mencionado nas quatro situações: gols, pênaltis, cartões vermelhos e erros de identidade, mas, na verdade, o sistema está habilitado para reverter qualquer ação técnica que possa ter influenciado um gol. Neste caso, dizem os especialistas, o ritmo do jogo não é atrasado, porque o gol em si já paralisa a partida. Em março de 2015, Serge Aurier, lateral do Paris Saint-Germain Football Club, foi o primeiro jogador punido pela UEFA por comentários feitos nas redes sociais, recebendo três jogos de suspensão. Desfalque por lesão contra o Chelsea, “o lateral marfinense publicou em sua página na rede social Facebook um vídeo em que aparece comemorando a classificação parisiense e xingando o árbitro. Aurier, porém, pediu desculpas pouco após o incidente”. O projeto do árbitro de vídeo é brasileiro e foi criado por Manoel Serapião Filho, com o apoio da Comissão de Arbitragem da CBF e da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol (ENAF).

Sua aprovação pela FIFA representa uma nova era para o futebol, com o uso da tecnologia para árbitros, ajudando a aumentar a integridade e a justiça no jogo. Antes de tomar sua decisão, os membros da International Football Association Board receberam os resultados da análise independente do uso de árbitros assistentes de vídeos, realizados pela Universidade Católica de Lovaina desde seu início em 2016. A filosofia do árbitro de vídeo tem como parti pris “interferência mínima, benefício máximo” e visa à redução da injustiça causada empiricamente por certos “erros claros e óbvios” normalmente nas seguintes situações representadas: Gol/Não gol; Penalidade/Sem penalidade; Cartão vermelho direto; Identificação equivocada. Os princípios de um “Programa de Assistência e Aprovação de Implementação” de arbitro de vídeo (VAR), supervisionados pelo IFAB em conjunto com a FIFA, foram aprovados para assegurar consistência, aprimoramento e qualidade nas competições de futebol que desejam usar o recurso técnico-científico. Foi aprovado um manual para consulta preliminar, contendo protocolo, princípios e requisitos obrigatórios para permitir o rigoroso e legítimo processo de aprovação obrigatória.

Bibliografia Geral Consultada.

MICHELENA, José Augustín Silva, Crise no Sistema Mundial: Política e Blocos de Poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1977; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; TOLEDO, Luiz Henrique de, Lógicas do Futebol. Dimensões Simbólicas de um Esporte Nacional. Tese de Doutorado. Departamento de Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2000; ANDREWS, David; JACKSON, Steven, Sports Stars: The Cultural Politcs of Sporting Celebrity. Londres: Routledge, 2001; SODRÉ, Muniz, Mandinga Cuerpo. Colômbia: Ediciones Manati, 2002; VALENTE FILHO, Jayme Pimenta, Mario Jorge Lobo Zagallo: Uma História de Vida. Tese de Doutorado. Faculdade do Porto. Universidade do Porto, 2006; COUTO, Euclides de Freitas, Jogo de Extremos: Futebol, Cultura e Política no Brasil (1930-1978). Tese de Doutorado em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2009; REIS, Pedro Henrique Baptista, The Twilight Zone, Utopia e Construção da Identidade: Em Outros Mundos Seremos Outros Homens? Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Faculdade de Comunicação Social. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2014; LELOUP, Jean-Yves, Une Danse Immobile. Paris: Éditions Du Relie, 2015; SWIFT, Jonathan, Viagens de Gulliver. 20ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2018; FIDALGO, Gabriel; GURGEL, Anderson, “Talvez o maior legado da Copa do Mundo foi criar uma Consciência”. In: Communicare. São Paulo, Vol. 18.1, pp. 14-32, 2018; SWIFT, Jonathan, Viagens de Gulliver. 20ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2018; PITTA, Danielle Perin Rocha, “Imaginário Derivações de Métodos no Brasil”. In: Téssera. Uberlândia, MG, vol.1, n°1, pp.154-172, jul./dez. 2018; CARVALHO, José Murilo de, Cidadania no Brasil: O Longo Caminho. 27ª edição ampliada. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2021; MARKOVSKY, Barry, “Como número 13 se tornou símbolo de má sorte na cultura ocidental”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/14/12/2022; LIMA, Felipe Benicio de, O Neodistópico: Metamorfoses da Distopia no Século XXI. Tese de Doutorado. Programa de Pós- Graduação em Linguística e Literatura. Faculdade de Letras. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2022; entre outros. 

sábado, 10 de agosto de 2019

Walter Casagrande - Futebol, Sociedade & Democracia Corinthiana.


                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga

“Foi sensacional ter vivido a Democracia Corintiana e participado da fundação do PT”. Walter Casagrande

                                                 
               Em 1° de setembro de 1910, um grupo de cinco operários: Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correa e Carlos Silva do bairro paulistano Bom Retiro, sob a luz de um lampião, às oito e meia da noite, decidiram criar um novo time de futebol, além de mais oito pessoas que contribuíram com 20 mil réis e também foram considerados sócio-fundadores. A ideia surgiu depois de assistirem à atuação do Corinthian FC, equipe inglesa de futebol fundada em 1882, que excursionava pelo Brasil. O Corinthian nasceu numa época em que a Escócia tinha grande expressão no futebol. Os clubes mais tradicionais da Escócia são o Celtic Football Club e o Rangers Football Club, ambos da cidade de Glasgow. O derby entre eles, um dos clássicos de maior rivalidade no mundo, é conhecido como Old Firm. Surgiu para competir com os escoceses. Curiosamente seus atletas vestiam-se inteirinho de branco. O nome Corinthian tem como representação social e significado sociológico “o homem da moda e do prazer”, que capta toda a essência dos membros de jogo e sua ideologia desportiva.  
             Na sétima divisão inglesa, o clube que inspirou o nome do Timão em 1910 é formado por jogadores amadores, que além de jogarem futebol possuem outros empregos. Mesmo assim, o crescimento foi tão grande que, em apenas 4 anos, 9 jogadores do Corinthian foram convocados pela seleção inglesa inclusive um incrível jogador chamado Luke Daves, meio campo com muita agilidade raciocínio rápido e dribles desconcertantes. Eram ingleses chamados pela imprensa social de “Corinthian`s Team”, mas o time brasileiro só seria batizado “Sport Club Corinthians Paulista” depois de discussões e algumas reuniões. O presidente escolhido foi o alfaiate Miguel Battaglia, que já no primeiro momento afirmou: “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”. Da primeira arrecadação de recursos à compra da primeira bola se passou apenas uma semana. Um terreno no subúrbio paulista foi alugado na Rua José Paulino, aplainado e virou campo de futebol. Foi lá que, no dia 14 de setembro, o primeiro treino foi realizado diante de uma plateia que garantiu: - “Este veio para ficar”. O time foi se tornando famoso, mas era ainda um time de várzea, quer dizer, por serem terrenos cultiváveis junto aos rios e ribeirões.



                Em 1913, uma dissidência entre três clubes que disputavam o Campeonato Paulista abriu a oportunidade para que clubes de origem popular, reconhecidos como “varzeanos”, disputassem a competição organizada pela Liga Paulista de Futebol, e o Corinthians ganhou o direito de disputar pela primeira vez essa competição após vencer uma seletiva contra o rival, Minas Gerais, representante do bairro do Brás, e o Futebol Clube São Paulo, no bairro central do Bixiga. A temporada seguinte seria marcante para a história Corinthiana. Com apenas quatro anos de existência, o time conquistou seu primeiro título, o Campeonato Paulista de 1914 organizado pela Liga Paulista de Futebol - LPF. O Corinthians sagrou-se campeão sensacionalmente de forma invicta, com 10 vitórias em 10 partidas, 37 gols marcados e 9 gols tomados. Com 12 gols, Neco foi o artilheiro da competição. A equipe Corinthiana que conquistou o 1° título era representada pelos craques: Sebastião, Fúlvio, Casimiro II, Police, Bianco, César, Américo, Peres, Amílcar, Aparício, Neco, e outros. Naquele ano, o Corinthians realizou sua primeira partida contra estrangeiros, o Torino Football Club, com sede em Turim, capital do Piemonte. Os italianos venceram pelo escore de 3 x 0.
            Fausto Silva iniciou sua carreira aos 14 anos, como repórter da rádio Centenário de Araras, no interior de São Paulo. Logo depois, mudou-se para Campinas e trabalhou durante cinco anos na Rádio Cultura, na qual comandou o musical New Pop International. Em 1970, foi contratado pela Rádio Record, na capital paulista, para apresentar o jornal da noite, do qual era também redator, e se iniciou no mundo do esporte, passando a trabalhar como repórter de campo na Jovem Pan - Rádio Panamericana. Além do rádio, Faustão também se dedicou ao jornalismo, tendo sido contratado pelo jornal O Estado de S. Paulo, como repórter esportivo. Foi nessa função que foi levado para a Rádio Globo em 1977, convidado por Osmar Santos que estava cursando a faculdade de Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e tinha aulas com nomes destacados da política como Eduardo Matarazzo Suplicy, professor universitário, administrador de empresas e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), do qual é um dos fundadores. Foi Senador pelo estado de São Paulo durante longos 24 anos.  Atualmente é vereador do Município de São Paulo. E André Franco Montoro, um jurista e político brasileiro. Entre outros cargos, foi governador de São Paulo, senador, deputado federal e ministro do Trabalho. Publicou diversas obras jurídicas e de teoria política, voltadas principalmente ao tema caro entre nós da concepção de “justiça social”.
             Naquela mesma noite, haveria um show do Corinthians, denominado Estrelas no parque, com a participação de diversos artistas para levantar fundos para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo de São Paulo. Noutro documento preparado pelo famigerado Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), estiveram presentes Raimundo Fagner, considerado um dos maiores astros da música popular brasileira (MPB), o cartunista Henfil que em 1981 ganhou o Prêmio Vladimir Herzog na categoria Artes,  Antônio Carlos Belchior, Tetê Spindola, uma das mais belas e exóticas vozes nacionais, Beth Mendes e Gonzaguinha, além dos jogadores Sócrates, Wladimir e Casagrande. – “Elis Regina foi muito lembrada pelos presentes, que inúmeras vezes gritavam euforicamente o  nome do Partido e de seu candidato ao governo de São Paulo”, relatou o agente da repressão. O centroavante acabou aceitando a tarefa. Depois de subir ao palco para anunciar Fagner, o primeiro astro a se apresentar naquela noite no ginásio do parque São Jorge, ele partiu sozinho em direção ao Tuca – “Cheguei a tempo de pegar a última música do show. Em seguida fui ao camarim. Como já sabia, Gonzaguinha tentou resistir à ideia. Não queria se vincular a qualquer partido político. Mas argumentei que vivíamos um momento de transição política e seu apoio a um partido novo, com princípios democráticos, seria muito importante. Ele acabou concordando e fomos rapidamente para o Corinthians” (cf. Casagrande & Ribeiro, 2013: 153).

      Mas logo ao entrar no palco, Luiz Gonzaga surpreendeu a todos com um discurso: - “Aqui no ginásio há um garoto de 19 anos que está lutando para ser alguma coisa na vida, começando a carreira no futebol, e já se tornou vítima da repressão neste país, disse Gonzagão, referindo-se à prisão de Casagrande no mês anterior, sob a acusação de porte de cocaína. Enquanto isso, um canhão de luz o procurava na plateia. Ao ser localizado, ainda atônito e ofuscado pela luminosidade, Casão tinha os olhos marejados. – “Uma coisa fodida! Não era qualquer um, era o Luiz Gonzaga saindo em minha defesa. Isso ajudou muito a deixar a opinião pública ao meu lado”. Depois disso, seguiram-se muitos outros encontros com Gonzaguinha. Durant a preparação para a Copa do Mundo de 1986, na Toca da Raposa, em Belo Horizonte, o encontro se tornou praticamente diário. – “Ele ia quase todos os dias, de bicicleta, ver o treino. Um cara inteligente prá caralho, gente fina, alegre e divertido. Bem diferente daquela sua imagem pública, mais fechada. O Gonzaguinha se tornou um irmão para mim e  acrescentou muito na minha vida”. O estreito envolvimento com os shows de cunho político realizados no parque São Jorge, assim como seu papel de destaque no  movimento “Democracia Corinthiana”, o levou a ser monitorado pelos órgãos de repressão do Estado autoritário dali em diante. Outros “atos suspeitos” do atacante, como a assinatura de um Manifesto contra o racismo, também foram registrados pelos representantes da ditadura civil-militar.
              Walter Casagrande se filiou ao Partido dos Trabalhadores numa época em que o novo partido simbolizava a esperança de mudança na política do país, e sente grande orgulho por ter ajudado a legenda a se estabelecer como força nacional. – “Naquela época, andava muito com os jornalistas Gilson Ribeiro, então na TV Globo, e Ari Borges, da Folha de S. Paulo, que compartilhavam os mesmos ideais de liberdade. Nós frequentávamos o bar Spazio Pirandello, reduto de intelectuais e artistas de esquerda. Ficava na Rua Augusta, e até algumas reuniões do PT eram feitas lá”. Ele chega a se emocionar toda vez que olha para uma foto histórica, na qual aparece sentado ao lado de Lula, juntamente com Wladimir e Pita, ex-jogadores do Corinthians, em cima de uma mesa na primeira sede da legenda em São Paulo. – “Nunca votei em outro partido e sempre acreditei no Lula. Quando ele virou presidente, me senti orgulhoso, realizado. Afinal, foi uma aposta minha juntamente com muitas outras pessoas, que acabou dando certo. Ele se tornou um dos melhores presidentes da história do país. Entre erros e acertos, o saldo é muito positivo”. Casagrande relativiza as críticas feitas à Lula e ao PT pelas composições com amigos da política nacional. – “A maioria dos políticos, assim que chega lá, no Palácio do Planalto, entra completamente no jogo das velhas raposas”.
Fausto Silva usa camisa com propaganda política.
              Revelado como jogador no Corinthians, Casagrande iniciou sua carreira em 1980. Porém, logo após ter se profissionalizado, o jogador, aos 18 anos, teve um desentendimento com Oswaldo Brandão, então técnico do Corinthians. Por esse motivo, Casagrande foi cedido à Caldense, de Poços de Caldas. A Associação Atlética Caldense é uma agremiação esportiva de Poços de Caldas, no estado de Minas Gerais fundada a 7 de setembro de 1925. O ex-zagueiro do Corinthians na década de 1960 Ditão era um grande amigo da família de Walter Casagrande. Retornou ao Corinthians em 1982 quando fez parte da “Democracia Corintiana”, movimento social que dizia respeito simultâneo tanto ao esporte quanto à política. Sem dúvida, o jogador Sócrates influenciou politicamente Casagrande e outros amigos. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Sócrates nasceu em Belém do Pará a 19 de fevereiro de 1954 e se criou na Ribeirão Preto, onde aos 16 anos atuava no Botafogo Futebol Clube. Mas engana-se quem pensa que esse interesse surgiu por causa exclusiva do amigo. De índole libertária, incomodava-se com a opressão social cotidiana imposta pelos milicos golpistas. Os jogadores se revoltaram e iniciaram uma rebelião no estádio. Walter Casagrande viveu sua melhor fase de atleta, jogando ao lado de craques com o brilho de Zenon, Biro-Biro e Sócrates.
            Todas as decisões do Departamento de Futebol passaram a ser feitas no voto. Os eleitores? Jogadores, integrantes da comissão técnica composta desde técnicos a massagistas, roupeiros e diversos diretores. Por esse colegiado, passavam contratações, dispensas, concentração, premiações. Em 2013, um novo movimento de jogadores, o chamado Bom Senso F. C. é gestado reunindo craques de diversos clubes interessados em organizar melhor o novo calendário. - O grande lance da conjuntura daquilo, que é algo que devia possuir mais valor, “é você botar no mesmo patamar de decisão coletiva pessoas de classes sociais distintas. Auxiliar de roupeiro com o mesmo peso de dirigentes. Isso é o mais belo, o mais bonito e o mais rico” - analisou Sócrates, pouco antes de morrer, em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos. A Democracia Corinthiana começou a ser gestada ainda em 1981, quando se iniciava um processo global de transformações na ordem política, econômica e social, mesmo com as campanhas moderadas da corporação nos campeonatos Paulista e campeonato Brasileiro. A saída de Matheus deu renovação técnica ao grupo. Washington Olivetto, responsável por algumas campanhas mais importantes no país, engendrou uma estratégia ousada e feliz de marketing político: os jogadores passaram a entrar em campo nos grandes estádios de futebol com as seguintes frases políticas: Diretas Já! e Eu quero votar para presidente (cf. Fantinatti, 2004).                                                                          
              O ex-jogador de futebol Sócrates faleceu em consequência a um choque séptico, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Faustão prestou uma homenagem ao vivo ao médico que brilhou nos gramados. - “Convivi muito com o Sócrates, mas sei da ligação dele com Walter Casagrande Jr.”, comentou Faustão, que conversou ao vivo com o comentarista de futebol da TV Globo. - “Estou muito triste, mas o que me conforta é que há um mês tive a oportunidade de falar nos olhos dele tudo que o eu sentia. Hoje não é um dia fácil para ninguém que está envolvido com o futebol”, disse Casagrande. Em nome da equipe do programa, Faustão mandou uma mensagem de carinho para a família e fãs de Sócrates. O eterno craque corintiano morreu aos 57 anos, era casado e tinha seis filhos. Como futebolista, Sócrates é considerado como um dos maiores do futebol brasileiro e, segundo a FIFA, um dos maiores do futebol mundial. Maior ídolo do Corinthians ao lado dos companheiros Luisinho, Cláudio, Roberto Rivellino, Marcelinho Carioca, Neto, Baltazar, Cássio e do Botafogo de Ribeirão Preto, ao lado de seu irmão Raí e Zé Mario. Sócrates notabilizou-se também por sua militância política, particularmente na década de 1980, quando liderou um movimento pela democratização do futebol e participou do reconhecido movimento pelas Diretas Já!
              Historicamente Diretas Já! representou um movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil ocorrido entre 1983 e 1984. A possibilidade de eleições diretas para a Presidência da República no Brasil se concretizaria com a votação da proposta de Emenda Constitucional Dante de Oliveira pelo Congresso. Entretanto, a Proposta de Emenda Constitucional foi rejeitada, frustrando a sociedade brasileira. Ainda assim, os adeptos do movimento conquistaram uma vitória parcial em janeiro do ano seguinte quando Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral. A ideia de criar um movimento social a favor de eleições diretas foi lançada em 1983, pelo então senador alagoano Teotônio Vilela no programa Canal Livre, da Rede TV Bandeirantes. Em 1979, descontente com a lentidão da reabertura política proposta pelo governo e pela Arena, Teotônio Vilela filia-se ao MDB, que viria a se tornar o Partido do Movimento Democrático Brasileiro no ano seguinte. A primeira manifestação a favor de eleições diretas ocorreu no recém-emancipado município de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife, no dia 31 de março de 1983. Organizada por membros do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no município, a manifestação foi noticiada amplamente pelos jornais do estado. Fez-se o chamado social irradiado seguido por manifestações em Goiânia, em 15 de junho de 1983. A repressão militar é contínua, mas o movimento pela liberdade não retrocede e os democratas intensificam as manifestações por eleições diretas.

     Na televisão, o general João Batista de Figueiredo classificava como subversivos os protestos que começavam como estopim a acontecer em todo o país. Mas admitia: “É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. Não tenha dúvidas”. No ano seguinte o movimento social reuniu condições políticas para se mobilizar abertamente. E foi em São Paulo que a investida democrática ganhou com a força bruta da política um evento operário organizado e realizado no central parque do Vale do Anhangabaú, na Capital, em pleno aniversário da cidade de São Paulo, dia 25 de janeiro. Mais de 1,5 milhão de trabalhadores se reuniram para declarar apoio ao Movimento das Diretas Já. O ato é liderado por Tancredo Neves, Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva e Pedro Simon, artistas e intelectuais engajados. A perda de prestígio do regime militar junto à população era evidente. Militares da raia miúda, com salários corroídos pela inflação descontrolada começavam a pressionar comandantes que também estavam descontentes com a crise. O movimento agregou amplos setores da sociedade civil. Participaram partidos políticos de oposição ao regime militar, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e jornalísticas.                   
               A cantora paraense Fafá de Belém participou ativamente de todos os 32 comícios realizados no movimento das Diretas Já. Fafá se apresentou gratuitamente em passeatas e comícios, cantando os temas Menestrel das Alagoas, em homenagem a Teotônio Vilela, e de forma magistral e tipicamente muito original, o Hino Nacional Brasileiro. “Menestrel das Alagoas” foi lançado em 1983, no seu álbum intitulado: “Fafá de Belém e o Hino Nacional Brasileiro”, posteriormente em 1985 no álbum Aprendizes da Esperança. A célebre interpretação do hino nacional diante das câmeras para uma multidão que clamava pela redemocratização do país foi ovacionada e aclamada pelo público. Fafá soltava uma pomba branca, gesto que se tornou símbolo do movimento e transformou-a na musa das Diretas Já. A célebre interpretação do hino nacional brasileiro, resgatando para a sociedade a sociologia das emoções, diante das câmeras para uma multidão que clamava pela redemocratização do país foi muito contestada pela Justiça, mas ao mesmo tempo foi ovacionada e aclamada pelo público.
           O Festival Internacional da Canção Popular (FIC) foi um concurso de músicas nacionais e estrangeiras, anual, realizado no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, e transmitido pela TV Rio, na primeira edição e pela TV Globo. A música de abertura era composta por Erlon Chaves e chamava-se Hino do FIC. O apresentador oficial era Hilton Gomes, que imortalizou a frase: Boa sorte, maestro! O prêmio Galo de Ouro foi concebido por Ziraldo e confeccionado pela joalheria H. Stern. Criado por Augusto Marzagão durou de 1966 a 1972, num total de sete edições.  Cada edição do festival tinha duas fases do processo comunicativo: a primeira de representação nacional, para escolher a melhor canção brasileira, e a internacional, para eleger a melhor canção de todos os países participantes: a concorrente brasileira era a vencedora da fase nacional. Apenas duas canções brasileiras foram contempladas com o Galo de Ouro: “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, vencedora em 1968 do III FIC, e “Cantiga por Luciana” de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós interpretada pela Evinha, vencedora em 1969 do IV Festival Internacional.  
             Durante a campanha pelas eleições diretas, no final de suas apresentações, Fafá soltava uma pomba branca, gesto que se tornou símbolo do movimento social e transformou a mesma na musa luso-brasileira das Diretas Já. Numa entrevista dada ao jornal Folha de S. Paulo em 2006, Fafá de Belém declarou que Franco Montoro e outros políticos do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) não queriam sua participação no movimento e que ela só passou a se apresentar por insistência da magnanimidade de Lula. Na mesma entrevista, Fafá declarou ter sido muito próxima a políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), mas que sua relação com estes se definhou após ela ter declarado seu apoio a Tancredo Neves, a cuja candidatura o Partido dos Trabalhadores se opôs com sabedoria. Fafá de Belém foi de suma importância para o comício realizado em 10 de abril de 1984, pois foi ela quem “conseguiu fazer com que Dante de Oliveira subisse ao palco do evento, alegando para os policiais presentes que ele era o percussionista de sua banda”.                 
                O uso de drogas, os cabelos compridos e as roupas de “bicho grilo” não deixavam de serem atos de contestação social e rebeldia naquele ambiente sufocante. Casão acompanhava com atenção as mobilizações de resistência ao autoritarismo, pronto a tomar parte delas. Adolescente engajado fazia questão de comparecer a shows com motivação política. No parque São Jorge, houve alguns eventos desse tipo. Em 1979, ainda juvenil do Corinthians e totalmente desconhecido, assistiu a um show em prol da Anistia de brasileiros exilados perseguidos pelo regime autoritário, como afirma Walter Casagrande. – “Pela primeira vez, tive contato com artista. Os alojamentos localizados atrás do ginásio foram improvisados como camarins e, por ser atleta, conseguiu acesso. Mas só passei rapidamente e dei uma olhada: vi a Elis Regina, o Made in Brasil”. Para não correr risco de apanhar ou ser preso, refugiou-se na galeria do prédio, que pertencia ao então presidente Vicente Matheus, do Corinthians, bem em frente ao próprio clube. – “Eu assisti ao show com Taís, afirma Casagrande, uma amiga quer era moradora desse mesmo prédio, mas ela tinha ido embora quando a polícia apareceu. Então invadi a galeria e dormi ali mesmo, num cantinho”. 
             Pouco anos depois, já famoso continuou indo a shows dessa natureza no parque São Jorge, em defesa de eleições diretas para presidente ou com o propósito de levantar fundos para o recém-nascido Partido dos Trabalhadores (PT). Foi numa ocasião dessas, ocorrida em 24 de outubro de 1982, que Casagrande conheceu um personagem de vital importância em sua vida: o cantor e compositor Gonzaguinha. No fim da manhã daquele dia, o craque participara do Futebol das Estrelas, um jogo cívico pela redemocratização do páis do qual constara jogadores do Corinthians e diversos artistas, como Gonzaguinha, Fagner, Toquinho e até a atriz Bete Mendes, conforme consta do relatório oficial preparado por agentes da Polícia Civil para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Ao final da partida, Casão deixou o campo, casual com Gonzaguinha. Os dois iniciaram conversa enquanto caminhavam e, como houve afinidade imediata, resolveu parar no Bar da Torre, no coração do parque São Jorge, para tomar cerveja e continuar o animado bate-papo. Conversaram entusiasticamente sobre futebol, música e política. Chegaram à confraternização no final, mas com as carnes causada pela ação contínua do sal que pode resultar em um filé esturricado.                    
               Gonzaguinha iria fazer à noite um show no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), que se tornara um símbolo de afirmação contra a ditadura depois de ter sido invadido em 22 de setembro de 1977 pelas forças policiais do regime militar, comandadas pelo coronel Erasmo Dias, com objetivo de reprimir uma manifestação estudantil no local. No dia 26 de setembro de 1977, o então general-presidente Ernesto  Beckmann Geisel (1907- 1996) acertou com o presidente da Arena - partido da ditadura militar -, deputado Francelino Pereira, para agendar data de reunião com o diretório nacional do partido com os presidentes dos diretórios regionais. Em reportagem publicada na data, no jornal Folha de S. Paulo, é dito que Pereira mostraria para Geisel os resultados da reunião, depois de manifestação expressiva em torno da necessidade de reformas constitucionais. A campanha pela Constituinte seria esvaziada. O presidente do Senado, também da Arena, Petrônio Portella disse que o Brasil é “um país independente, com sua política própria e atuando exclusivamente dentro dos seus interesses” em referência à visita do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. Geisel iria analisar a situação política em relação às velhas reformas constitucionais que estavam previstas para o ano seguinte (1978). O ex-presidente tinha determinado a “abertura de um diálogo com o MDB e outros setores da política nacional”. Na ocasião, cerca de 2 mil estudantes se reuniram em frente ao TUCA, quando foram surpreendidos por 3 mil policiais, entre militares e civis.

         A tropa investiu contra os manifestantes com grande violência, explodindo bombas, espancando alunos e professores. Em pânico, parte da multidão buscou refúgio na universidade, invadida  pelo Aparelho Repressivo de Estado (ARE) que sociologicamente compreende o governo, a administração, o exército, a polícia, os tribunais, a prisões, etc. Repressivo porque o Aparelho de Estado em questão funciona através da violência física prevalentemente e secundariamente com a ideologia, como a violência administrativa, através da utilização das leis pelo menos em situações limite, sociologicamente. Móveis foram quebrados e arquivos, destruídos. As paredes pichadas com a representação autoritária: Comando de Caça aos Comunistas. A ação terminou com a detenção de 854 pessoas, das quais 92 foram fichadas no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), criado em 30 de dezembro de 1924, como um órgão do governo brasileiro utilizado principalmente durante o Estado Novo (1937-46) e mais tarde na Ditadura Militar (1964-84). O órgão, que tinha a função de assegurar e disciplinar a ordem militar no país  foi instituído em 17 de abril de 1928 pela lei nº 2304 que tratava de reorganizar a Polícia do Estado. Cinco anos mais tarde, o show de Gonzaguinha no Teatro da Pontifícia Universidade Católica - São Paulo fazia o cantor relembrar, juntamente com Casão, aquele episódio trágico, a sua história.
               O Tuca representava um teatro que trazia lembranças afetivas às pessoas com aspirações democráticas. Tornou-se famoso pelas manifestações políticas que abrigou durante o regime da ditadura militar. O teatro apresenta duas salas principais: o Auditório Tibiriçá e o espaço Tucarena. Na maior sala do local cabem seiscentos e setenta e duas pessoas.  Durante a ditadura, o Teatro da Pontifícia Universidade Católica (TUCA) foi palco de grande importância política. Servindo a todos os tipos de interesses dos universitários e dos paulistanos, o teatro contribuiu ativamente no processo de redemocratização, sendo considerado um espaço de lutas ao regime militar. Em 1961, ganhou a ideia de construção do auditório que tinha como grande objetivo divulgar a arte nos meios universitários e nos bairros de baixa renda. Em 1984, dois incêndios deixaram o teatro destruído, sendo reaberto após dois anos, com poucos recursos, devido à mobilização das pessoas. Com o patrocínio do Ministério da Cultura (MINC) e do Banco Bradesco, o teatro reinaugurou com melhores condições em 2003. Em março de 2016, a Polícia Militar de São Paulo entrou em confronto com estudantes da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) em frente ao teatro da universidade. Ocorria uma manifestação a favor da presidente Dilma Rousseff (PT) e contra o golpe de Estado que, mais tarde, viria com a força bruta da política para recalcar a imagem-mulher da presidência.
Bibliografia geral consultada.
LE GOFF, Jacques, La Naissance du Purgatoire. Paris: Éditions Gallimard, 1981; SODRÉ, Muniz, A Verdade Seduzida: Por um Conceito de Cultura no Brasil. Rio de Janeiro: Editor Francisco Alves, 1983; ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización: Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas. 2ª edicíon. México: Fondo de Cultura Económica, 1989; FLORENZANO, José Paulo, A Democracia Corinthiana: Práticas de Libertação no Futebol Brasileiro. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003; FANTINATTI, Márcia Maria Corsi Moreira, A Nova Rede Globo: Trabalhadores e Movimentos Sociais nas Telenovelas de Benedito Ruy Barbosa. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. São Paulo: Universidade de Campinas, 2004; BERTONCELO, Edison Ricardo Emiliano, “Eu Quero Votar para Presidente: Uma Análise sobre a Campanha das Diretas”. In: Lua Nova, 2009,  n° 76, pp.169-196; ARAUJO FILHO, Wilson Constantino de, Futebol Brasileiro: A Trajetória do Jogador de Futebol Profissional e o Fim da Carreira. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009; MARTINS, Mariana Zuaneti, Democracia Corinthiana: Sentidos e Significados da Participação dos Jogadores. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, 2012; COUTO, Hergos Ritor Froes de, Esporte do Oprimido: Utopia e Desencanto na Formação do Atleta de Futebol. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade Nove de Julho, 2012; ALENCAR, Rodrigo, A Fome da Alma. Tese de Doutorado. Instituto de Psicologia. Universidade de São Paulo, 2016; CASAGRANDE JÚNIOR, Walter, Entrevista concedida a Waldenyr Caldas - Os cartolas são inevitáveis? Disponível em: Lua Nova. Volume 3, n° 2. São Paulo, dezembro de 1986; Idem, Casagrande e seus demônios. São Paulo: Editor Globo, 2013; Idem, “Virei uma página: Casagrande narra como ficou um mês sem beber e sem se drogar na Rússia”. Disponível em: https://epoca.globo.com/19/07/2018; entre outros.