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domingo, 14 de janeiro de 2024

Mário Jorge Lobo Zagallo - Único Tetracampeão Global de Futebol.

                                                                       “Vocês vão ter que me engolir”. Mário Jorge Lobo Zagallo

       Todas as religiões, sem exceção, empregam utensílios culinários para os ritos sacrificiais, geralmente nas cerimônias de refeições sagradas ou de comunhão. Taça do Culto de Cibele, caldeirões hindus e chineses, caldeirão de prata dos celtas, “caldeirão da regeneração” do Museu Nacional de Copenhague, antepassado provável do Graal, antepassado certo do cálice cristão, “vasilha triunfal” a que assimilado o mandala nas cerimônias tântricas, caldeirões que, no Edda, que foi recompilada e escrita por eruditos que preservaram uma parte dessas histórias contêm os alimentos para os guerreiros bem-aventurados, todos tornam inesgotável a lista dos vasos sagrados. Um simbolismo completo será assim apanágio de um utensílio tão universalmente utilizado e tão universalmente valorizado. As imagens da casca de noz, tão frequentes nos nossos contos e nas fantasias liliputianas, correspondem mais ou menos às do geme fechado, do ovo. A retorta química, o atanor, são marcas indispensáveis à fantasia do vaso estomacal ou uterino. O vaso situa-se a meio caminho entre as imagens do ventre digestivo ou sexual e as do líquido nutritivo, do elixir da vida e de juventude. Pouco importa o que o recipiente seja de cavidade profunda, caldeirão, tacho ou tigela, ou de cavidade pequena, cuveta, gamela, taça ou colher. Pelo jogo confuso do sentido passivo e do sentido ativo o interesse arquetípico desliza pouco a pouco passando do continente para o conteúdo.

         A noção de continente é solidária de conteúdo. Compreende Gilbert Durand (1993: 257) que este último, é geralmente um fluido, o que junta os simbolismos aquáticos, os da intimidade, ao esquema do trajeto alimentar, do engolimento. É que o gesto alimentar e o mito da comunhão alimentar são os protótipos naturais do processo de dupla negação que estudamos a propósito do engolimento: a manducação é negação agressiva do alimento vegetal ou animal, em vista não de uma destruição, mas de uma transubstanciação. A alquimia compreendeu-o muito bem, tal como as religiões que utilizam a comunhão alimentar e os seus símbolos. Toda alimentação é transubstanciação. É por essa razão que Gaston Bachelard pode muito profundamente afirmar que “o real é antes de tudo um alimento”. E que além disso, que o ato alimentar confirma a realidade das substâncias. Porque a “interiorização ajuda a postular uma interioridade”. A afirmação da substância, da sua indestrutível intimidade subsistindo para além dos acidentes, só pode ser feita por esta tomada de consciência da assimilação digestiva. O “suco”, o “sal”, encontra-se no trajeto metafísico da essência, e os processos de gulliverização não passam de representações por imagens do íntimo, do princípio ativo que subsiste na intimidade das coisas. O atomismo – essa gulliverização com pretensões objetivas – reaparece sempre, mais cedo ou mais tarde, no panorama substancialista, ou melhor, enquanto produção de uma teoria dos “fluidos”, das “ondas” escondidas e constitutivas da própria eficácia das substâncias.

       A gulodice representa uma aplicação do princípio de identidade. Melhor: o princípio de identidade, de perpetuação das virtudes substanciais, recebe o seu primeiro impulso da meditação da assimilação sobredeterminada pelo caráter secreto, íntimo de uma operação que se efetua integralmente nas trevas viscerais. Porque é a interioridade “superlativa” que constitui a noção de substância. Esta é uma consequência do esquema psíquico da inversão: a intimidade é inversora. Todo invólucro, todo continente, aparece com efeito menos como menos preciso, menos substancial que a matéria envolvida. A qualidade profunda, o termo substancial não é o que contém, mas o que é contido. Bem vistas as coisas, não é a casca que conta, mas a amêndoa. Não é o frasco que importa, mas sim a embriaguez. É esse voltar do avesso do continente que quer a alquimia de Boerhave quer a de Jacob Polemann revelam, tal como o antigo Zimmermann da Grande Encyclopédie consagrado á “pedra”.  O alimento primordial, o arquétipo alimentar é, de fato, socialmente a produção do leite, isto é: “toda bebida feliz é um leite materno”. E quando esta euforia alimentar é desastrosamente interrompida pela analista social, a paciente é submersa por uma catastrófica crise esquizofrênica. A doente recupera, à beira da cura, a linguagem erótica dos místicos.     

         A primeira estrutura que a imaginação dos símbolos da inversão e da intimidade evidencia é a que os psicólogos denominam redobramento e perseverança.  A intimidade não é no fundo mais que uma conclusão normal das fantasias encaixadoras do Jonas. Há na profundidade da fantasia noturna uma espécie de fidelidade fundamental, uma recusa de sair das imagens familiares e aconchegantes. É esta estrutura que Strömgren mostrara já no tipo caracterial ixomítico ao ver na perseverança um dos seus traços típicos fundamentais. Para Rorschach, a perseveração das partes apreendidas é um sintoma central da ixotimia. Uma parte do cartão do teste é retomada três ou quatro vezes e interpretada apesar da mudança de posição do cartão. Frequentemente, o ixotímico é do tipo repetidor. Esta simetria já não é a simetria na antítese, mas sim a simetria na semelhança: passa-se imperceptivelmente do “do mesmo modo que... tal como” ao “não... não”. Nas ixoidias mais caracterizadas encontra-se uma estereotipia muito desenvolvida de certos elementos do teste: quer, por exemplo, estereotipias de respostas anatômicas, quer a estereotipia das respostas forma-cor, quer ainda, nos casos francamente epileptóides, a perseveração dos grandes detalhes. Há neste fenômeno perseveração perceptiva e infidelidade expressiva. Pode-se igualmente encontrar nos epilépticos casos de perseveração simultaneamente na percepção e na interpretação.

          A segunda estrutura, que é corolário da primeira, é a viscosidade, a adesividade do estilo de representação noturna. Foi, aliás, esta característica que chamou em primeiro lugar a atenção dos psicólogos quando designaram certos tipos psicológicos com nomes tirados das raízes que significam viscosidade, suco glutinoso, cola. Essa viscosidade manifesta-se em múltiplos domínios: social, afetivo, perceptivo, representativo. Durand (1997) admite como a viscosidade do tema era importante, dado que ela dita um pensamento que deixa de ser feito de distinção e passa a sê-lo de variações confusas sobre um único tema. O isotímico dá sempre mostras de “muito poucas dissociações”. Essa viscosidade isotímica manifestar-se-ia igualmente no plano social. Kretschmer pode falar, a esse propósito, de uma “síndrome hiper social” do isotímico, e no teste de Rorschach a grande quantidade de respostas “forma-cor” seria o indício de viscosidade afetiva. Em Van Gogh encontramos essa preocupação constante me fazer amizades, de construir uma comunidade quase religiosa na “casa dos amigos”, de construir uma “cooperativa de pintores”. Mas é  na estrutura da expressão que a viscosidade aparece.

        A terceira estrutura mítica parece-nos residir no realismo sensorial das representações ou ainda na vivacidade das imagens. É essa característica que muitas vezes mergulhou os caracterologistas e os tipologistas em consideráveis dificuldades. Com efeito, segundo a terminologia junguiana, tudo leva a considerar à primeira vista as duas primeiras estruturas como tendo traços introversivos marcados. Em particular a viscosidade e a religiosidade que lhe está ligada pode levar a pensar que a mística é, de fato, introversão. Mas então esta terceira estrutura que parece aparentar a imaginação mística ao thoug-minded de James ou à Einfühblung do estético Worringer contradiz as definições junguianas da introversão. Não é intenção proporcionada pela análise insistir nas dificuldades e nas querelas da tipologia, mas podemos ver que em arquetipologia as estruturas míticas constelam sem dificuldade com as características da Einfühblung, com o aspecto de vivacidade concreta, tanto sensorial como imaginária, da fantasia mística. O Rorschach confirma esta estrutura mostrando em todas as consciências gliscromorfas um tipo de ressonância íntimo “extratensivo e ambiequal”, quer dizer, oferecendo um protocolo com uma relação de respostas quinésicas e de respostas cor muito elevadas.  

          Em síntese, a quarta estrutura, estreitamente ligada às três precedentes, parece-nos consistir nessa propensão para a “miniaturização”, para a gulliverização da representação do Regime Noturno. Os psicólogos insistiram todos na “minúcia”, na “meticulosidade” dos caracteres ixotímico. Os atrasos intelectuais deste tipo agarram-se ao detalhe, perdem de vista o conjunto, mostram uma pedanteria muito característica que insiste no detalhe, mostra-o e comenta-o com mesquinhez. Nas respostas ao teste de Rorschach, o escrúpulo e a rotina do ixotímico manifestam-se de muitas maneiras: antes de mais, pelo número de respostas superior à média corrente. O ixotímico parece que receia sempre deixar escapar um detalhe. A minúcia descritiva da ixoidia manifestar-se-á igualmente na frequência das respostas anatômicas, e neste caso a minúcia da descrição anatômica alia-se à estereotipia da perseveração. Por fim, e sobretudo, o que chama a atenção no protocolo gliscróide é o número considerável de respostas “globais” ou “grande detalhe” induzidas a partir de um detalhe menor, de um elemento minúsculo da figura. Guirdham nota mesmo que a perseveração do conteúdo global de uma resposta é confabulada a partir de um ínfimo detalhe de uma resposta dada, e geralmente a partir de um detalhe anatômico. Ela completa a cosmização inerente à viscosidade da representação por uma verdadeira “microcosmização”. É a dinâmica do detalhe que se torna representativo e produtivo do conjunto, ou seja, há uma reviravolta completa dos valores: o que é inferior toma o lugar do superior, os primeiros tornam-se os últimos, o poderio do polegar vem escarnecer a força expressiva do gigante e do ogro.    

Bola de futebol é usada para a prática do futebol nas suas diversas variações, fabricada em couro sintético, e consiste de várias camadas que são revestidas com uma cobertura à prova d’água. É um dos principais ícones do esporte, sendo universalmente reconhecida como seu símbolo. Estima-se que sejam produzidas anualmente 40 milhões de bolas de futebol no mundo, número que sobe para 60 milhões em anos de Copa do Mundo de futebol. Em 1863, as primeiras especificações para a bola de futebol foram estabelecidas pela The Football Association. Antes disso, as bolas eram feitas de couro inflado, com revestimentos de couro inseridos mais tarde para ajudar a manter as suas formas. Em 1872, as especificações técnicas foram revistas, e essas regras permaneceram praticamente inalteradas, tal como definidos pela International Football Association Board. As diferenças das bolas criadas desde que esta regra social entrou em vigor têm sido a de fazê-la “com materiais diferentes, bem como das estampas impressas em sua superfície”. As bolas passaram por uma mudança dramática ao longo do tempo e do espaço geográfico. Durante a longa época medieval, com a sensibilidade, as bolas eram feitas normalmente de um invólucro exterior de couro cheia de aparas de cortiça.  

Outro método de produção com utilidade de uso era usar bexigas de animais para a parte interior da bola tornando-a inflável. No entanto, estes dois estilos deixavam as bolas mais fáceis de furar, além de não serem muito adequadas para chutar, permanecendo assim até o decorrer do século XIX, momento onde as bolas foram aprimoradas com o processo da mass production tornando-se mais parecidas hoje com as bolas de futebol. Em 1838, Charles Goodyear (1800-1860), um inventor norte-americano, reconhecido por ter descoberto a vulcanização da borracha, introduziu a utilidade de uso de borracha em suas descobertas sobre a vulcanização. A aplicação desta inovação às bolas melhorou consideravelmente as mesmas. É o tratamento de vulcanização da borracha que confere à bola certas qualidades como resistência, elasticidade e resistência aos solventes, além de ajudar a resistir ao denso calor e frio moderados. A vulcanização ajudou a criar bexigas infláveis que pressionavam o painel externo de couro das bolas. A inovação técnica de Charles Goodyear aumentou as possibilidades de uso ao facilitar o ato de chutar a bola.

O casamento de Zagallo ocorreu em 13 de janeiro de 1955, quando o jogador passou a adotar o número de vez. Ao longo da carreira e também na vida pessoal, Zagallo usou o número nas camisas como um símbolo da sorte. Ele também tentava encontrar o valor em palavras, como a frase “Brasil campeão”, que tem 13 letras. A superstição de Mário Jorge Lobo Zagallo com o número 13 começou com sua esposa, Alcina de Castro Zagallo, com quem foi casado durante 57 anos e o Botafogo Futebol e Regatas. Ela era devota de Santo Antônio e gostava do número 13. Ele foi campeão em 1958: 5 + 8 = 13 e começou em 1967 no Botafogo como treinador e foi campeão: 6 + 7 = 13. Depois foi campeão como auxiliar em 1994: 9 + 4 = 13, que revelou mais um motivo para que ele acreditasse no número, já que o jogador Roberto Baggio errou o pênalti em 1994. Na época em que Zagallo e Parreira trabalharam juntos os patrocinadores da seleção brasileira eram Umbro e Coca-Cola, as duas juntas têm 13 letras. O número de Copas do Mundo vencidas foram: Tetracampeões tem 13 letras também. Em entrevista concedida na final da Copa América, no Maracanã, o técnico da seleção Brasileira, Adenor Leonardo Bachi, mais reconhecido como Tite, citou Zagallo, para chegar iluminado à decisão da competição.

O treinador lembrou a superstição de Mário Jorge Lobo Zagallo: - “Oito mais cinco dá 13, 58 anos que tenho, tomara que eu tenha luz do Zagallo. Um mestre, cara iluminado, exemplo”. -, disse o técnico Zagallo, na ocasião. O problema é que no caso de Tite, a superstição não deu resultados já que a seleção brasileira perdeu a decisão da Copa América deste ano para a Argentina por 1 a 0, em pleno estádio Maracanã. A Copa América, reconhecida até 1975 como Campeonato Sul-Americano de Futebol, é a principal competição entre as seleções de futebol das nações da Confederação Sul-Americana de Futebol. Este torneio tornou-se o mais antigo do mundo, entre seleções, após a ocorrência dos Jogos Olímpicos de Londres de 1948, já que após esta edição as Olimpíadas começaram a ser disputadas por seleções que não são consideradas as principais competitivamente, e também quando em 1984 o British Home Championship foi abolido. A competição determina o campeão continental da América do Sul. Desde a edição de 1993, equipes da América do Norte e da Ásia foram convidadas a participar.

Sociologicamente produção em massa é o termo que designa a produção em larga escala de produtos padronizados através de linhas de montagem. Este modo de produção foi popularizado por Henry Ford (1863-1947) no início do século XX, particularmente na produção do modelo Ford T. A produção em massa se tornou um modo de produção muito difundido, pois permite altas taxas de produção por trabalhador, e ao mesmo tempo disponibiliza produtos a preços baixos. A produção em massa faz uso intensivo de capital, ou utiliza uma alta proporção de máquinas em relação ao número de trabalhadores. Com o custo do trabalho mais baixo e alta taxa de produção, a proporção de capital aumenta enquanto as despesas correntes diminuem, com outros modos de produção. Porém, o montante capital necessário para montar o parque de máquinas de uma fábrica é tão alto, que é necessário um certo grau de segurança, melhor dizendo, é preciso que o retorno do investimento seja garantido, para que o risco seja assumido pelo capitalista. A produção em massa prosperou principalmente nos Estados Unidos da América, porque havia abundância de recursos e um mercado pouco competitivo e certamente ainda inexplorado.

A arte de jogar está irremediavelmente vinculada, em cada instante do jogo, as regras e métodos constituindo princípios básicos do desporto, cabendo ao árbitro em sua esfera de competência a sua preservação. Toda vez que a ordem é (des) afiada compete a ele, somente a ele, restabelecê-la. Os elementos mais representativos do sistema esportivo são inúmeros, mas destacam-se mormente os comentaristas de carreira ou jornalistas especialistas esportivos, os dirigentes, os atletas, e torcedores que se tornam instrumentos geridos por influências valorativas que decorrem do poder político, econômico, midiático e outros. Para estes quesitos desportivos, o árbitro, em geral, só é julgado pelos erros que comete ou julgam que ele próprio os cometeu. Dentre esses elementos de poder, o aspecto econômico é condicionante em que o árbitro tem que administrar, pois, analogamente, o teto salarial de árbitro permanece extremamente inferior ao reconhecimento do jogador, mesmo que se torne um árbitro internacional. Para um jogador de destaque, a valorização financeira pode chegar a cifras altas no mercado europeu. O investimento de entidades patrocinadoras visa simultaneamente para o clube e o jogador, e em somas cada vez mais elevadas de acordo com o êxito da equipe ou do atleta. Uma contradição interessante no meio desportivo, e, portanto, liberal, é que o jogador é profissional e o árbitro é amador.

        Nas últimas cinco ou seis décadas do século XX, os intelectuais  estabelecidos profissionais se intimidaram em admitir a essência de classe em suas teorias e posturas ideológicas. Na verdade, a ideologia não é ilusão, nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, ancorada e bem sustentada. Como tal, a ideologia em termos persuasivos não pode ser superada exclusivamente nas sociedades de classes. Sua persistência decorre dela ser constituída objetivamente e reconstituída como consciência inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o “metabolismo social”, lembrava Marx, em seus principais aspectos. Mas que se entrelaçam conflituosamente e se manifestam no plano da consciência tardia, conquanto seja na diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos, que exercem influência nítida sobre os processos materiais mais tangíveis. O metabolismo social é um dado utilizado para a compreensão dos processos sociais e se nesse determinado momento pode haver a existência de sustentabilidade. Do ponto de vista analítico a longa e boa maré de prosperidade que caracterizou as economias capitalistas desenvolvidas, após a 2ª guerra mundial (1939-1945), somente foi perturbada por algumas recessões menores como as de 1949-1950 e de 1957-1958.

Aparentemente, a lição de depressão da década de 1930, a maior participação e intervenção do Estado na economia e o aperfeiçoamento da política neokeynesiana davam seus frutos. Em consequência, houve demasiado otimismo quanto à capacidade do Estado para controlar os ciclos da economia capitalista. Nesse ínterim, o primeiro golpe sério foi-lhes desfechado pela crise do dólar, no fim da década de 1960, que forçou o governo dos Estados Unidos da América a desvalorizá-lo duas vezes seguidas no breve período de 14 meses. Os principais países capitalistas da Europa e Japão, embora obviamente não por motivos desinteressantes, puseram-se de acordo, segundo Michelena (1977: 104) para tomar medidas extraordinárias que mantivesse o dólar à tona. Assim, em 1971, Alemanha Federal, Suíça, Japão e países de moedas fortes decidiram-se revalorizá-las.  A queda do dólar prosseguia, contribuindo para aprofundar os conflitos entre os países capitalistas, a tal ponto que uma revista tão conservadora como a Time se viu na necessidade de tecer o comentário:  - Se o ressentimento em relação aos Estados Unidos se disfarçar as políticas monetárias e comerciais europeias, é provável que o dólar caia ainda mais. Tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos isso seria sinal do início de uma guerra econômica na qual nenhum dos dois lados pode esperar mais do que uma vitória de Pirro”, como esta, e estamos acabados.   Em outras palavras, tratava-se de uma crise de acumulação de capital que, como todas as crises, tem suas peculiaridades, mas é análoga as anteriores.

Quer dizer, isso implica numa operação para que o sistema capitalista possa efetivamente superá-la, com a necessidade de introduzirem-se inovações tecnológicas significativas, transformações das formas de acumulação e a implantação de mudanças substanciais na divisão internacional do trabalho. O que poderia ser conseguido mediante o desenvolvimento de novas fontes de energia em torno de fusão nuclear, solar etc., a exploração dos solos oceânicos, tanto para obter produtos minerais quanto agrícolas, e o desenvolvimento bioquímico e genético ou, em outros campos sui generis, em que a pesquisa científica esteja bastante avançada. Segundo este ponto de vista, fenômenos como a crise monetária internacional, a chamada “estagflação”, a crescente concorrência internacional, o acirramento da luta de classes nos Estados Unidos da América e na Europa, os realinhamentos políticos mundiais e as importantes mudanças sociais que estão ocorrendo nas relações internacionais são considerados manifestações da crise geral da acumulação. Para melhor especificar a interconexão de todos esses fenômenos e deles deduzir algumas de suas consequências políticas internacionais é necessário examinar cuidadosamente, embora de modo breve, a natureza da crise. 

A palavra tem origem durante a crise econômica que assolou o mundo globalizado durante a década de 1970, de um lado pelo superaquecimento das economias dos chamados “países desenvolvidos”, a partir da excessiva expansão de procura agregada, o que levou a pressões inflacionistas; do outro lado, pela redução da oferta agregada, a partir das restrições impostas pelos países produtores de petróleo, perdas de safras e redução das atividades em sectores que dependem do petróleo como matéria-prima, ou complemento, levando ao desemprego, ou ainda, provocando a depreciação das moedas fortes pelos “desinvestimentos” e “deseconomias de escala”, patrocinada pelos grupos econômicos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que estavam acima dos domínios operacionais dos Estados nacionais contemporâneos. Em economia, estagflação define-se como uma situação simultânea de estagnação econômica, ou até mesmo recessão econômica, e altas taxas de inflação. Tal fenômeno é uma situação atípica do funcionamento regular da economia, o baixo nível de atividade econômica costuma vir acompanhado de uma queda na inflação devido a diminuição da demanda agregada. Obviamente, os ciclos econômicos não derivam apenas de uma só causa.

São, antes, a representação do resultado do processo contraditório e peculiar modo de desenvolvimento do sistema capitalista, cuja expressão é resultado “o movimento cíclico da taxa de lucros que, afinal, resume o desenvolvimento contraditório de todos os momentos do processo de produção e reprodução”. Porém, quais são essas contradições?  Alguns autores marxistas assinalam duas como principais. A primeira é de caráter geral – no sentido de que é aplicável a todos os modos de produção: é a contradição entre o nível de desenvolvimento das forças produtivas e as finalidades limitadas da produção, que se origina na natureza das relações de produção. A revolução técnico científica avançou de tal modo a automatização dos processos que não apenas afetou consideravelmente todos os aspectos da produção como está chegando ao ponto em que os aspectos subjetivos do processo de trabalho começaram a ter mais importância claramente do que os objetivos. Ela também está modificando a significação das matérias-primas, não só na medida em que estas são cada vez mais produto do homem, e não da natureza, mas porque elas desempenham um papel ativo na automatização, como objetos de trabalho. Obviamente os processos produtivos e de consumo das sociedades capitalistas globalizadas e, portanto, mais desenvolvidas em economia, ainda estão longe do ponto em que se possa dizer que uma tal evolução das forças produtivas seja uma característica geral do sistema.

Entretanto, há certos setores e ramos da produção em que a aplicação da ciência e da tecnologia atingiu o ponto dinâmico e estável em que se pode afirmar que o processo de produção deixa de ser, de modo significativo, uma interrelação que ocorre no processo de cooperação entre trabalho vivo e trabalho acumulado; isto é, um estágio em que se alcançou a automatização “quase total”, no sentido em que as máquinas produtoras são controladas por outras máquinas, reduzindo-se o papel do trabalho sem cair, entretanto, na mera supervisão humana produtivista.  No âmbito da guerra fria o bloco político-ideológico “comunismo” versus “capitalismo” mantém a circuncisão nevrálgica postergando a queda do Muro de Berlim havia 28 anos, um panóptico para designar uma penitenciária ideal, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros. Uma geração inteira não conhecia o mundo sem ele. Havia quase três décadas, ele mantinha separados famílias e amigos. A Alemanha eram duas, ocidental (capitalista) e oriental (comunista). A cortina de ferro deixou de ser figurativa para ganhar uma metáfora visível e palpável quando o Muro de Berlim foi erguido, do dia para a noite, em 13 de agosto de 1961. Eram 3,5 metros de altura, mais de 100 km de placas de concreto, cabos de aço, cercas elétricas, torres de observação, que cercavam inteiramente Berlim Ocidental para impedir a fuga dos alemães orientais, pois, estatisticamente sabemos que centenas entre homens e mulheres morreram tentando, e a circulação de espiões ocidentais.

A abertura política da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas reconhecida como Glasnost gerou uma onda de liberdade e mudanças no bloco comunista da Europa. Protestos abalaram o governo da Alemanha Oriental, que foi obrigado a anunciar a permissão de viagens para o lado ocidental. Esse anúncio levou milhares de pessoas à fronteira dos dois lados da cidade. Os guardas não atiraram. As pessoas começaram a atravessar para o outro lado. E a população começou a destruir, com as próprias mãos, o Muro de Berlim. Segundo Renato Félix, do Jornal Correio (2019) lembra a data com uma seleção de filmes sobre o muro e a Alemanha Oriental. E lembra que este muro caiu, mas há outros que se ergueram: na Palestina, na Hungria, na fronteira dos Estados Unidos da América com o México. O Muro de Berlim, oficialmente reconhecido como “Muro de Proteção Antifascista” (Antifaschistischer Schuzwal), representou uma barreira física construída pela Alemanha Oriental durante a chamada Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental. Sociologicamente representou um período de tensão geopolítica entre a União Soviética e EUA e seus respetivos aliados. Considera-se geralmente que o período abrange a Doutrina Truman de 1947 até a dissolução da União Soviética em 1991. Era parte na realidade existente da fronteira interna alemã.

Além de dividir a cidade de Berlim, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países imperialistas encabeçados pelos Estados Unidos; e a República Democrática Alemã (RDA), constituído pelos países socialistas favoráveis ao regime soviético. Construído na madrugada de 13 de agosto de 1961, dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Este muro era patrulhado por militares da Alemanha Oriental Socialista com ordens de atirar para matar: a célebre Schießbefehl, ou “Ordem 101” os que tentassem escapar, o que provocou a separação de dezenas de milhares de famílias berlinenses. A distinta e muito mais longa fronteira interna alemã demarcava a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental. Ambas as fronteiras passaram a simbolizar a chamada “cortina de ferro” entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste. Antes da construção do Muro, 3,5 milhões de alemães orientais tinham evitado as restrições de emigração do Leste socialista e fugiram para a Alemanha Ocidental, muitos ao longo da fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. A existência, entre 1961 e 1989, o Muro quase parou todos os movimentos de emigração e separou a Alemanha Oriental de Berlim Ocidental por mais de um quarto de século.

Durante uma onda revolucionária de libertação ao comando de Moscou que varreu o Bloco de Leste, o governo da Alemanha Oriental anunciou em 9 de novembro de 1989, após várias semanas de distúrbios civis, que todos os cidadãos da RDA poderiam visitar a Alemanha Ocidental capitalista e Berlim Ocidental. Ocorrera uma mobilidade social de alemães orientais que subiram e atravessaram o muro juntando-se aos alemães ocidentais do outro lado, em uma atmosfera social de celebração de consanguinidade. Ao longo das semanas seguintes, partes do Muro foram destruídas por um público quase eufórico e por caçadores de souvenirs. Mais tarde, equipamentos industriais foram usados para remover quase o todo da estrutura. A queda do Muro de Berlim abriu o caminho para a reunificação alemã que foi formalmente celebrada em 3 de outubro de 1990. Muitos apontam este momento como fim da chamada Guerra Fria. Berlim incentiva a visita do muro derrubado, tendo preparado a reconstrução de trechos do muro. A reconstrução de trechos, está marcado no chão o percurso ideográfico que o muro fazia quando ainda estava erguido.

            Neste aspecto social o trivial não é mais o Outro, é a experiência que constata uma diferença aparentemente fraca e, no entanto, fundamental que distingue seu resultado das trivialidades distribuídas pelos especialistas da cultura do futebol, não mais designando o objeto do discurso, mas lugar praticado. Este é o ponto de chegada de uma trajetória. Não é um estado, tara ou graça inicial, mas algo que veio a ser efeito de poder do processo de afastamento em relação a práticas reguladas e falsificáveis, uma ultrapassagem do comum numa posição particular. Bem longe de se dar arbitrariamente o privilégio de falar em nome do ordinário (ele é indizível), ou de pretender estar neste lugar geral, ou, de oferecer à edificação uma cotidianidade hagiográfica, trata-se de atribuir à sua historicidade o movimento que reconduz os procedimentos de análise para suas fronteiras, até o ponto em que se mudam, ou mesmo se perturbam, pela irônica e louca banalidade que falava, mas que desenha o ordinário em um corpo de técnicas de análise, para indicar os deslocamentos que levam a interpretação para o lugar-comum.

            Além da própria historiografia, o conhecimento a história tem sido uma tarefa ímpar de todas as ciências sociais. A sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a psicologia, trabalham com questões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, militares, demográficas e outras, que correspondem a ações, relações, processo e estruturas tomados em algum nível da historicidade. Mesmo as correntes de pensamento orientadas no sentido de formalizar as interpretações, em temos de indução quantitativa ou construção de modelos, mesmo nesses casos onde a pesquisa produz alguma explicação nova, reavalia ou reafirma explicações vigentes, sobre os modos e os tempos da história. Também há aqueles que formalizam e fetichizam as categorias dialéticas de pensamento, perdendo de vista o fluxo real das ações, relações, processos e estruturas que expressam movimentos e as modificações das gentes, grupos, classes e nações. Uns e outros constroem mitos. Em todos os casos, a história aparece de alguma forma, como história real ou invenção, drama ou epopeia, elegia ou profecia. A multiplicidade de ciências e teorias relativas ao nível social, tem dado origem a distintas interpretações como se escreve ou produz a história. São distintas e heterogêneas a histórias do capitalismo que aparecem nas análises de David Ricardo, Karl Marx, Florestan Fernandes, Alexis de Tocqueville, Gilberto Freyre, Émile Durkheim, Max Weber, John Maynard Keynes, Talcott Parsons, Eric Hobsbawm e outros.

            Não só na sociologia, mas no conjunto das ciências socais, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se dá a mudança social, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições sociais de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise cíclica do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é muito mais que o resultado da “criatividade empresarial”. Isto é, toda mudança, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus pródigos discípulos e continuadores no século XIX e XX. Os valores relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso social e humano capitalista.

O caminho técnico a percorrer consiste em reconduzir as práticas e as línguas científicas para seu país de origem, a “everyday life”, a vida cotidiana. Este retorno, a cada dia mais insistente, tem o caráter paradoxal de ser também um exílio em relação às disciplinas cujo rigor se mede pela estrita definição de seus limites, pois seus modos de proceder, os seus objetos formais e as condições de sua falsificação, desde que ela se fundou como uma pluralidade de campos limitados e distintos, em suma, desde que não é mais do tipo teológico, a ciência constituiu o todo como o seu resto, e este resto se tornou o que agora denominamos cultura. Esta clivagem organiza a modernidade. Esta linha divisória, aliás, mutável, continua sendo estratégica nos combates para confirmar ou contestar os poderes das técnicas sobre as práticas sociais. Historicamente ela separa as línguas artificiais que articulam os procedimentos do saber e as línguas naturais que organizam a atividade significante comum. Alguns destes debates mais profícuos que dizem precisamente respeito à relação social de institucionalização da ciência com a cultura, precisados, e é possível indicar suas possíveis saídas, através de duas personagens que aí se defrontam, curiosamente próximas e antinômicas: o perito e o filósofo.

Abre a ambos a tarefa de mediadores entre um saber e a sociedade, o primeiro enquanto introduz a sua especialidade técnica de trabalho na área mais vasta e complexa de decisões sociopolíticas, o segundo enquanto reinstaura, relativamente a uma técnica particular a pertinência de interrogações gerais. No perito, uma competência se transmuta em autoridade social; no filósofo, as questões banais se tornam um princípio de suspeita, para lembramos de Michel Foucault, num terreno técnico. É verdade que o perito prolifera na sociedade contemporânea, mais do que outras, comparativamente, para se tornar a sua figura generalizada, tensionada entre a exigência de uma crescente especialização e a de um processo de eficácia comunicativo tanto mais necessário, mas que pode mudar de forma e per se de conteúdo de sentido. Mas o seu sucesso não é assim tão espetacular. A lei produtivista de uma atribuição que é condição de eficácia simbólica e a lei social de uma circulação que reside sob a forma do intercâmbio se contradizem dentro dele.

Mário Jorge Lobo Zagallo é sinônimo de Copa do Mundo. Como jogador ponta-esquerda, foi titular nas campanhas dos títulos da Seleção em 1958 e 1962. Como treinador, guiou com distinção a conquista do tricampeonato em 1970. Em 1994, foi coordenador técnico e conquistou o tetracampeonato com Carlos Alberto Gomes Parreira, um talentoso treinador que participou de Copas do Mundo FIFA por cinco Seleções diferentes, sendo também o técnico brasileiro que mais dirigiu Seleções de outros países: seis ao todo, em dez passagens. Nascido em Atalaia, Alagoas, Zagallo se mudou com a família para o Rio de Janeiro antes mesmo de completar um ano de idade. Na tradicional Tijuca, bairro da Zona Norte, iniciou sua démarche gloriosa nos campos de futebol. Engenhoso com a bola nos pés, garantiu vaga na peneira do time infantil do América F. C. e, também na equipe juvenil. Aos 19 anos quando ainda era soldado da Polícia do Exército, Zagallo iniciava com um gosto amargo da derrota, a relação duradoura que teria com a Seleção Brasileira no Maracanazo da Copa do Mundo de 1950, o Velho Lobo era responsável pela segurança do estádio carioca. E, aos 34 da etapa final, viu o jogador Gigghia coroar a seleção do Uruguai campeão do mundo sobre o fabuloso Brasil.

            Único treinador tetracampeão mundial, Zagallo disputou sete Copas do Mundo. Chegou à final em cinco, sendo vice-campeão diante da França, no fatídico 12 de julho de 1998. - Há uma dificuldade natural para dimensionar o nível de craque que o Zagallo se tornou. O fato de jogar ao lado de Pelé e Garrincha ofuscaria o brilho de qualquer outro que não tivesse a estatura dos gênios. Não seria diferente com Zagallo, relatou Vanderlei Borges, autor da obra Um Vencedor, em parceria com Luiz Augusto Erthal. A FIFA também lançou um documentário em homenagem aos 90 anos de Zagallo. Contando com a presença de Pelé, Parreira, Jairzinho, Rivellino, Dunga, Bebeto, Ronaldo e do técnico português José Mourinho, o primeiro episódio ocorreu no canal da entidade no Youtube. Zagallo possui uma relação íntima com outros dois clubes do Rio de Janeiro, além do América. No Clube de Regatas Flamengo, recebeu sua primeira oportunidade em 1950. Apelidado de “Formiguinha” na passagem pela Gávea, conquistou um tricampeonato carioca nos oito anos que jogou no clube rubro-negro.

Foram 250 jogos e 29 gols marcados. Naquela conjuntura, diferente de nossa contemporaneidade, jogador de futebol era sinônimo de vagabundagem. Talvez por isso Zagallo tenha escondido de Alcina “como realmente ganhava a vida”. Mal sabia que ela seria sua futura mulher e companheira em longa duração dos 57 anos de casamento. São cinco filhos do casal, que comemoram o matrimônio em 13 de janeiro de 1955. O número é uma das marcas de Zagallo em sua passagem no futebol. Alcina morreu aos 80 anos, em 2012, de complicações respiratórias. Três anos após o casamento, Zagallo conheceu seu segundo amor. Convocado pelo técnico Vicente Ítalo Feola (1909-1975), disputou como titular na ponta-esquerda a Copa da Suécia, em 1958. Autor de um gol e uma assistência no 5 a 2 brasileiro sobre os donos da casa, o Velho Lobo também ajudou defensivamente. Impediu o 2 a 0 rival tirando uma bola em cima da linha. No regresso ao Brasil, deixou as cores rubro-negras do Flamengo e vestiu o alvinegro botafoguense. A tentação por jogar com ídolos como Mané Garrincha, Didi e Nilton Santos pesou na decisão. Em General Severiano, no bairro de São Cristóvão conquistou o bicampeonato carioca de 1961-62, o Torneio de Paris e outros títulos. O Estádio de General Severiano foi um estádio de futebol situado no bairro de Botafogo. O estádio pertencia ao Botafogo de Futebol e Regatas e era muito utilizado antes da construção do Maracanã.

O maior artilheiro do estádio é Carvalho Leite, com 101 gols em 90 jogos. O campo foi construído em 1912 e inaugurado em 13 de maio de 1913 em partida válida pelo Campeonato Carioca de Futebol, contra o Clube de Regatas Flamengo. Vitória botafoguense por 1 a 0, gol de Mimi Sodré. Em 1937, quando começou a “Campanha do Cimento”, que consistia num Livro de Ouro para doações de torcedores, a reconstrução foi concluída em 1938 e o antigo uso de campo, ainda com estruturas de madeira foi reinaugurado como estádio, estrutura de cimento, em 28 de agosto do mesmo ano. Na cerimônia realizada antes do primeiro jogo, um mapa do Brasil foi desenhado no centro do gramado com terra originada de cada estado do país. O jogo foi contra o Fluminense e Botafogo venceu por 3 a 2. Neste estádio o Botafogo decidiu o Campeonato Carioca de 1934, contra o Andarahy, vencendo o jogo por 2 a 1. O Botafogo também decidiu o Campeonato Carioca de 1948, contra o Vasco da Gama, vencendo o jogo por 3 a 1, com o estádio lotado por aproximadamente 20.000 pessoas. O estádio foi demolido quando o clube perdeu a posse do terreno na década de 1970. A última partida neste estádio deu-se em 30 de novembro de 1974, empate em 2 a 2 com o Madureira. Em 1975, recebeu a primeira edição do Hollywood Rock, que gerou o documentário Ritmo Alucinante.

Em 1977, a sede foi vendida para a Companhia Vale do Rio Doce; o clube na época era presidido por Charles Macedo Borer. Com a venda da sede, o futebol do Botafogo foi para o subúrbio de Marechal Hermes, e como o antigo estádio foi demolido, lá foi construído um novo. No início da década de 1990, o clube readquiriu o terreno, através de permuta pela área do seu ginásio coberto no Mourisco, na Praia de Botafogo. Com o terreno, retomou posse do casarão que foi sua antiga sede e se encontrava em estado de ruína - um processo de tombamento como patrimônio histórico da cidade impedira a Companhia Vale do Rio Doce de colocá-la abaixo para construir um edifício- sede da companhia. O Botafogo, em parceria com uma empreiteira, recuperou inteiramente o palacete e ergueu no terreno do antigo estádio um shopping center, o atual Casa e Gourmet Rio, antigo Rio Plaza e Rio Off-Price, em cuja cobertura estão o seu campo de treinos que leva o nome do antigo craque Nílton Santos, o moderno Centro de Treinamento João Saldanha, homenagem ao falecido jornalista e treinador que levou o clube ao título de campeão carioca em 1957, a concentração da equipe profissional com uma dúzia de apartamentos, além de um ginásio de basquete e vôlei, três piscinas para sócios, quadras polivalentes, restaurante e outros equipamentos. A reinauguração do novo complexo sócio esportivo, em 22 de janeiro de 1992, marcou um forte revigoramento do Botafogo no cenário nacional e internacional. Em 2003, foi construído o Centro de Treinamentos João Saldanha, para o profissional do estádio.

João Saldanha nasceu no Alegrete, no estado do Rio Grande do Sul, no dia 3 de julho de 1917. Sua família envolveu-se na Revolução de 1923 e Saldanha, aos 6 anos, ajudava no contrabando de munição entre Brasil e Uruguai. No mesmo ano, a família refugiou-se em Rivera. Ao fim do conflito, os Saldanha voltaram para o Rio Grande do Sul e, no ano seguinte, foram para o Paraná. Após percorrer várias cidades do interior, decidiram se instalar em Curitiba. O primeiro grande contato de João Saldanha com o futebol aconteceu ali, pois a casa comprada por Gaspar Saldanha, seu pai, ficava a dois quarteirões do campo do Atlético Paranaense, onde sempre ia assistir aos treinos das divisões de base, permitindo a proximidade do garoto com o futebol. Além disso, a casa da família em Curitiba permitia uma integração com toda a garotada da vizinhança, que organizava times, campeonatos, jogos, enfim, tudo dentro do estilo de vida da expansão urbana e das novas modas citadinas. Ali, João completaria o primário na mesma escola de um garoto que ainda seria importantíssimo personagem na história nacional como presidente da República: Jânio Quadros. Em 1928, a família voltou para o Rio Grande do Sul, com o pai de Saldanha aliando-se a Getúlio Vargas. Quando este tornou-se presidente do Brasil, a família foi para o Rio de Janeiro, onde Gaspar ganhou um cartório.

Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro com pouco tempo estabilizado no Rio e engajou-se em muitas campanhas do partido. Logo mais, se tornaria um dos mais ferrenhos opositores da ditadura militar brasileira e figura de destaque no "Partidão". Tornou-se secretário-geral da União da Juventude Comunista, chegando a ser mantido preso e fichado no DOPS em 1947. Jogou futebol profissionalmente por uns poucos anos no clube carioca do Botafogo. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou Jornalismo tornando-se um dos mais destacados cronistas esportivos brasileiros, começando a carreira em 1960. Incentivado por amigos e por sua esposa, Ruth que era irmã do jornalista Rui Viotti, aceitou o convite para fazer um teste para integrar a equipe da Rádio Guanabara, atual Bandeirantes AM, montada por Édson Leite. A partir daí, acumulou passagens marcantes pelas rádios Nacional, Globo, Tupi e Jornal do Brasil, TVs Rio, Manchete e Globo, onde apresentou seus comentários esportivos no programa Dois Minutos com João Saldanha e assinou colunas nos jornais Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil e revista Placar. Com toda sua experiência vivida no futebol, “não media palavras ao criticar jogadores, treinadores e dirigentes, conquistando fãs e desafetos”. Entre 1939 e 1940, Saldanha foi o intérprete no Botafogo do técnico húngaro Dori Kürschner (1885-1941), com quem aprendeu sobre tática no futebol. Foi diretor de futebol do clube a partir de 1944, com um intervalo entre 1949 e 1956, período em que esteve clandestino engajado dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Saldanha foi contratado em 1957 como técnico do Botafogo, apesar de sua falta de experiência.

O clube conquistou o campeonato estadual daquele ano, em uma final histórica, em que goleou o consagrado Fluminense por 6x2, com um time que contava com extraordinários jogadores Garrincha, Didi e Nílton Santos. Em 4 de fevereiro de 1969, ele foi anunciado como novo treinador da seleção nacional. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, mavioso, alegou que o contratou na esperança de que os jornalistas fizessem menos críticas à seleção nacional, tendo um deles como técnico. Na Copa do Mundo de 1966, uma das principais críticas da imprensa carioca era justificada pela falta de um time-base. Saldanha tentou resolver esse problema, convocando um time formado em sua maioria por jogadores do Santos e do Botafogo, os melhores times competitivos da conjuntura, e os conduziu a 100% de aproveitamento em seis jogos de qualificação (eliminatórias). De uma frase sua, quando teria dito que convocaria somente “feras”, surgiu a expressão As feras do Saldanha, para designar aquela seleção. Graças ao seu trabalho, a seleção brasileira reconquistaria a autoestima e a confiança do torcedor, que tinha perdido depois da pífia campanha de 1966. O time de Saldanha, que se destacou nas eliminatórias, contra Venezuela e Paraguai, com a dupla Tostão e Pelé, estava mesclado com jogadores do Santos, Botafogo e Cruzeiro. Ideia interdisciplinar de João Saldanha, aproveitando o entrosamento dos jogadores em seus respectivos clubes, e que formavam um esquema tático 1-4-2-4 bem estruturado. O time brasileiro de Saldanha era: Felix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel e Rildo; Piazza e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu.

Vicente Feola é o recordista em partidas no comando do São Paulo, com 532 jogos à frente do clube, e o primeiro brasileiro a levar o Brasil ao título da Copa do Mundo, em 1958. Paulistano do Brás e filho de imigrantes italianos de Castellabate, cidade a 126 km ao Sul de Nápoles, foi aluno do Coração de Jesus. Como jogador profissional defendeu os clubes São Paulo, o Auto Sport Club e o Americano, de São Paulo. Iniciou a atividade de treinador na Portuguesa Santista e comandou o São Paulo por diversas vezes desde 1937. Muito ligado ao clube, foi o treinador reconhecido que mais vezes ocupou esse cargo, em oito oportunidades. E permanece como o recordista em número de partidas à frente do Tricolor, em seu comando pela primeira vez em 1937, ficando apenas um ano no clube. Porém, faria realmente história no clube na década de 1940. Foram dois anos em sua passagem mais duradoura pelo São Paulo Futebol Clube, entre 1947 e 1950. Conseguindo convencer o Diamante Negro, o jogador Leônidas da Silva, a ficar no clube e não se aposentar, Feola comandou um timaço, que tinha nomes como Mauro Ramos, Bauer, Rui, Noronha, Remo, Teixeirinha, Friaça à um bicampeonato estadual, numa época onde o campeonato tinha como regra disputar partidas por pontos corridos. Sua última passagem pelo clube seria quando treinou o clube entre 1959 e 1960. Feola esteve à frente do São Paulo por 532 vezes, com 299 vitórias, 106 empates e 127 derrotas.

Em 1954, o São Paulo cedeu-o, por empréstimo, para atuar no Esporte Clube XV de Novembro nas últimas partidas da primeira divisão do Campeonato Paulista, ajudando o XV a permanecer na Série A. Durante o ano de 1961, comandou o Boca Juniors. Deixou o cargo de comandante do time azul e amarelo após 68 partidas disputadas, sendo 30 oficiais e 38 amistosos. Ipso facto, João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBD) é a entidade máxima do futebol no Brasil. Foi fundada em 8 de junho de 1914, sob a denominação Federação Brasileira de Sports, resolveu apostar em um técnico do futebol paulista pela primeira vez. Feola foi escolhido em fevereiro de 1958 como treinador da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo daquele ano. A primeira partida de Vicente Feola no comando da Seleção Brasileira aconteceu no dia 4 de maio de 1958, pouco tempo antes do embarque para a Suécia, onde o Brasil goleou o Paraguai por 5 a 1, em jogo válido pela Taça Oswaldo Cruz. Contrariando a CBD, habilmente bancou a convocação de Pelé, mesmo depois que ele se contundiu em um amistoso contra o Corinthians, antes do embarque para a Suécia. A equipe sagrou-se campeã do torneio pela primeira vez. Feola seria o treinador para a Copa do Mundo de 1962, mas adoeceu e foi substituído por Aymoré Moreira, um treinador e futebolista brasileiro, que atuou como goleiro. Era irmão de Zezé e Ayrton Moreira, também treinadores de futebol.

O International Football Association Board (IFAB), órgão que trata das regras do método de futebol, last but not least, aprovou por unanimidade o uso de árbitros assistentes de vídeo (VARs), na sua 132ª Reunião Geral Anual (AGM), realizada em Zurique. O evento histórico foi liderado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. Giovanni Vincenzo Infantino é um advogado e dirigente desportivo suíço-italiano. Desde 26 de fevereiro de 2016 dirige a entidade máxima do futebol mundial, a FIFA, sucedendo Joseph Blatter. Foi secretário-geral da UEFA de 2009 a 2016. O VAR é composto por um conjunto de câmeras que transmitem comunicativamente as imagens para uma sala isolada do campo, onde assistentes de vídeo podem rever as jogadas. Existem apenas quatro tipos de lances que podem ser revistos. Esta assistência pode ocorrer a pedido do árbitro, em caso de dúvidas em uma das jogadas in loco que podem ser revistas, ou caso os assistentes observem um lance duvidoso e comuniquem o juiz da partida através do fone de ouvido. Neste momento, os assistentes de vídeo reproduzem as imagens em seus monitores e transmitem suas conclusões ao árbitro. É este último que toma a decisão final. Pode fazê-lo depois de também consultar as imagens em um monitor localizado na lateral ou confiar exclusivamente no critério dos assistentes. Os assistentes asseguram que a decisão correta seja tomada. Uma das funções do VAR é, segundo o site da FIFA, “ajudar o árbitro a determinar se houve alguma infração que impeça de validar o gol”.

Inicialmente, pensava-se que o VAR não poderia corrigir o impedimento, porque este não é mencionado nas quatro situações: gols, pênaltis, cartões vermelhos e erros de identidade, mas, na verdade, o sistema está habilitado para reverter qualquer ação técnica que possa ter influenciado um gol. Neste caso, dizem os especialistas, o ritmo do jogo não é atrasado, porque o gol em si já paralisa a partida. Em março de 2015, Serge Aurier, lateral do Paris Saint-Germain Football Club, foi o primeiro jogador punido pela UEFA por comentários feitos nas redes sociais, recebendo três jogos de suspensão. Desfalque por lesão contra o Chelsea, “o lateral marfinense publicou em sua página na rede social Facebook um vídeo em que aparece comemorando a classificação parisiense e xingando o árbitro. Aurier, porém, pediu desculpas pouco após o incidente”. O projeto do árbitro de vídeo é brasileiro e foi criado por Manoel Serapião Filho, com o apoio da Comissão de Arbitragem da CBF e da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol (ENAF).

Sua aprovação pela FIFA representa uma nova era para o futebol, com o uso da tecnologia para árbitros, ajudando a aumentar a integridade e a justiça no jogo. Antes de tomar sua decisão, os membros da International Football Association Board receberam os resultados da análise independente do uso de árbitros assistentes de vídeos, realizados pela Universidade Católica de Lovaina desde seu início em 2016. A filosofia do árbitro de vídeo tem como parti pris “interferência mínima, benefício máximo” e visa à redução da injustiça causada empiricamente por certos “erros claros e óbvios” normalmente nas seguintes situações representadas: Gol/Não gol; Penalidade/Sem penalidade; Cartão vermelho direto; Identificação equivocada. Os princípios de um “Programa de Assistência e Aprovação de Implementação” de arbitro de vídeo (VAR), supervisionados pelo IFAB em conjunto com a FIFA, foram aprovados para assegurar consistência, aprimoramento e qualidade nas competições de futebol que desejam usar o recurso técnico-científico. Foi aprovado um manual para consulta preliminar, contendo protocolo, princípios e requisitos obrigatórios para permitir o rigoroso e legítimo processo de aprovação obrigatória.

Bibliografia Geral Consultada.

MICHELENA, José Augustín Silva, Crise no Sistema Mundial: Política e Blocos de Poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1977; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; TOLEDO, Luiz Henrique de, Lógicas do Futebol. Dimensões Simbólicas de um Esporte Nacional. Tese de Doutorado. Departamento de Antropologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2000; ANDREWS, David; JACKSON, Steven, Sports Stars: The Cultural Politcs of Sporting Celebrity. Londres: Routledge, 2001; SODRÉ, Muniz, Mandinga Cuerpo. Colômbia: Ediciones Manati, 2002; VALENTE FILHO, Jayme Pimenta, Mario Jorge Lobo Zagallo: Uma História de Vida. Tese de Doutorado. Faculdade do Porto. Universidade do Porto, 2006; COUTO, Euclides de Freitas, Jogo de Extremos: Futebol, Cultura e Política no Brasil (1930-1978). Tese de Doutorado em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2009; REIS, Pedro Henrique Baptista, The Twilight Zone, Utopia e Construção da Identidade: Em Outros Mundos Seremos Outros Homens? Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Faculdade de Comunicação Social. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2014; LELOUP, Jean-Yves, Une Danse Immobile. Paris: Éditions Du Relie, 2015; SWIFT, Jonathan, Viagens de Gulliver. 20ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2018; FIDALGO, Gabriel; GURGEL, Anderson, “Talvez o maior legado da Copa do Mundo foi criar uma Consciência”. In: Communicare. São Paulo, Vol. 18.1, pp. 14-32, 2018; SWIFT, Jonathan, Viagens de Gulliver. 20ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2018; PITTA, Danielle Perin Rocha, “Imaginário Derivações de Métodos no Brasil”. In: Téssera. Uberlândia, MG, vol.1, n°1, pp.154-172, jul./dez. 2018; CARVALHO, José Murilo de, Cidadania no Brasil: O Longo Caminho. 27ª edição ampliada. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2021; MARKOVSKY, Barry, “Como número 13 se tornou símbolo de má sorte na cultura ocidental”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/14/12/2022; LIMA, Felipe Benicio de, O Neodistópico: Metamorfoses da Distopia no Século XXI. Tese de Doutorado. Programa de Pós- Graduação em Linguística e Literatura. Faculdade de Letras. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2022; entre outros. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Arte Cinematográfica - Identificando o Arquétipo do Inimigo Íntimo


                                                           “Só o inimigo não trai nunca”. Nelson Rodrigues



               Em filosofia, transcendência é um termo que pode conduzir a três diferentes relações, todos elas originárias da raiz latina que tem como significado essencial  “ascender” ou “indo além”, segundo interpretação oriunda da filosofia antiga; outro, da filosofia medieval, e o último, ligado à filosofia moderna. Esquemas e arquétipos de transcendência exigem um procedimento dialético, entendendo com esse argumento, a intenção polêmica, mas necessária, que os põe em confronto com os seus contrários. A ascensão é imaginada contra a queda e a luz contra as trevas. O dinamismo de tais imagens prova facilmente um belicoso dogmatismo da representação. É do que se trata. A luz tende para se tornar raio ou gládio e a ascensão para espezinhar um adversário vencido. O tema do herói combatente encontra-se nos contos populares do Príncipe Encantado que afasta e frustra os malefícios, liberta, encobre, descobre e acorda. Príncipe encantado que aparece também na lenda nórdica de Sigur e Brunehilde, num conto tártaro, ou naquele da Bela Adormecida. Todas ilustram este tema velho como os argonautas. Todos os membros dessas sociedades são, antes de tudo, os guerreiros que  possuem amplos direitos reais sexuais, praticam severos maus-tratos iniciáticos que constituem talvez um equivalente litúrgico dos feitos eternos do herói primordial.
              Metodologicamente, seguindo “as pegadas” de Gilbert Durand (1997), queremos dizer com isso, que as imagens arquetípicas, ou simbólicas, subentendem que já não bastam a si próprias em seu simbolismo intrínseco, mas por um dinamismo extrínseco, ligando-se umas às outras sob a forma de narrativa, segundo ele “obcecada pelos estilos da história e pelas estruturas dramáticas que chama mito”. Sua conceituação é ampla, fazendo entrar nesse vocábulo, tudo o que está balizado por um lado, pelo estatismo dos símbolos, e por outro, pelas verificações arqueológicas. Assim, o termo mito “engloba para nós quer o mito propriamente dito, ou seja, a narrativa que legitima esta ou aquela fé religiosa ou mágica, a lenda e as suas limitações explicativas, o conto popular ou a narrativa romanesca”. Seu ponto de partida refere-se ao método de análise estabelecido por Claude Lévi-Strauss quanto á investigação mitológica, levando-o à precisão da noção de estrutura. Não se trata de negar os resultados a que chegou comparando as equações formais induzidas do sincronismo mítico e que lhe permitem integrar fatos tão díspares como as relações de subordinação dos galináceos a outros animais, comparativamente como ocorre com “a troca generalizada nos sistemas de parentesco” ambientada na dualidade de natureza de certas divindades.



            Somente à luz da consciência e da razão pode o homem reconhecer. Esse ato de cognição e de discriminação consciente, divide o mundo social e político tendo em vista que a experiência do mundo só é possível por meio dos opostos. Mais uma vez queremos enfatizar que o simbolismo dos mitos, que nos ajuda a compreender os estágios humanos correspondentes não é filosofia ou mera especulação de notícia. Também a obra de arte em sua reprodutibilidade técnica, assim como o sonho, em toda a sua significação surge, de igual maneira, das profundezas da psique e revela o seu conteúdo de sentido ao intérprete perspicaz, embora muitas vezes esse sentido não seja abstraído de modo espontâneo pelo artista, pela arte em geral ou sonhador. De forma semelhante, a expressão mítica é uma demonstração ingênua do que ocorre nos seus processos psíquicos, embora a própria humanidade experimente e transmita o mito como algo totalmente diferente. Sabemos que, com toda probabilidade, um ritual, isto é, alguma cerimônia ou curso de ação social, sempre procede como relato, e é óbvio que o ato vem antes do conhecimento  e ação inconsciente antes do conteúdo enunciado. Por conseguinte, as nossas formulações são abstratos sumários e não afirmações que o chamado homem primitivo pudesse ter feito de maneira consciente acerca de si mesmo. Enquanto não nos tivermos familiarizado com as imagens dominantes que dirigem o curso do desenvolvimento humano, não seremos capazes de compreender as variantes e vicinais que cobrem por toda parte em diversos níveis o traçado principal desse curso.       
Ipso facto, qualquer esforço mental de tradução do mito, como qualquer esforço para passar do semântico ao semiológico, é um raciocínio de empobrecimento. O que há de universal no imaginário não é a forma desafetada, é sim o fundo, em que se deve voltar à noção de estrutura utilizada e que não deve ser confundida com uma simples forma como Lévi-Strauss parece ter a tendência a fazer. Não é a forma que explica o fundo e a infraestrutura, afirma Durand (1997), mas muito pelo contrário é o dinamismo qualitativo da estrutura que faz relacionar e compreender a forma. As estruturas que são estabelecidas são puramente pragmáticas, e não respondem de modo nenhum a uma necessidade lógica. Porque a estrutura antropológica só tem com a estrutura fonológica um parentesco de nome, por isso valeria mais escrever o termo forma para a fonologia e estrutura para todo o sistema também instaurativo. Uma estrutura é, uma forma, mas que implica significações puramente qualitativas para além das coisas que se podem medir, ou mesmo simplesmente resolver numa equação formal, porque, para parafrasear Lévi-Strauss, há, no domínio dos símbolos, muitas coisas que se poderiam formular matematicamente, “mas não é de modo nenhum certo que sejam as mais importantes”.
               Dado que um mito não se traduz, que teria ele a ver, no seu fundo, com uma máquina de traduzir? Porque uma “máquina de traduzir” não será nunca uma máquina de criar mitos. Para que haja símbolo é preciso que exista uma dominante vital. Por isso, o que nos parece caracterizar uma estrutura é precisamente que ela não pode formalizar totalmente e descolar do trajeto antropológico concreto que a fez crescer. Uma estrutura não é uma forma vazia, ela tem sempre o lastro, para além dos signos e das sintaxes, de um peso semântico inalienável. Está nisso mais próximo do sintoma ou da síndrome, que traz nele a doença, que da compreensão da função. E se a função tem alguma utilidade nos sistemas formais da linguística e da economia, e em geral todos os sistemas de trocas, essa utilidade esbate-se quando se quer aplicar a matemática, mesmo que “nova”, mesmo que chamada metaforicamente qualitativa, mesmo que para lhes legitimar o emprego se tivesse que apelar muito curiosamente para a aritmologia, a um conteúdo de uso e de que as religiões formais não constituem mais do que a epiderme superficial. A repetição tem uma função que é a de tornar manifesta a estrutura do mito. 



  
Historicamente não só as grandes ordens medievais de cavalaria, e em particular a famosa Pauperes commilitones Christi Templique Salomonici, reconhecida como Cavaleiros Templários, Ordem do Templo (em francês: Ordre du Temple ou Templiers) ou simplesmente como Templários, foi uma ordem militar de Cavalaria. Ordem dos Templários com seus ascetismos simultaneamente militar e “homossexual” (cf. Kates, 1996), na falta de melhor expressão, nos parece ser a sequela das primitivas “sociedades de homens”, como também os círculos de estudantes da Alemanha bismarckiana, com seu ritual belicoso, e os maus-tratos praticados em qualquer grupo masculino fechado nos aparecem como herdeiros dos longínquos costumes dos berserkir. Por fim, podemos levar ainda mais longe esta filiação do herói solar e afirmarmos com Georges Gusdorf que “o próprio romance policial, que constitui um dos aspectos mais singulares do folclore, prolonga sob a aparência dos romances de capa e espada que foi mais longinquamente a dos romances de cavalaria”. Dom Quixote não sai da moda nunca, dado que faz\ parte do psiquismo eterno e Sherlock Holmes torna-se assim o sucessor direto de S. Jorge, do mesmo modo que Maigret recolhe a herança de S. Hilário. A espada é o arquétipo para o qual parece orientar-se a significação profunda das armas e, neste exemplo, como se ligam inextricavelmente num sobredeterminismo as motivações psicológicas e as intimações tecnológicas. Georges Dumézil, acumulando um número de observações etnográficas ou documentais, tenta mostrar que as funções do ligador-mágico comparativamente são irredutíveis às do guerreiro-cortador de nós.
O puro herói, o herói exemplar, continua a ser o “matador de dragões”. Apesar desse compromisso do gládio com o fio, mesmo que enfraquecido em metáfora jurídica, permanece essencialmente o instrumentos das divindades da morte e do tempo, das fiandeiras, dos demônios como Yama e Nirrti. Todo o apelo ao soberano celeste faz-se contra o que prende todo o batismo ou iluminação consiste para o homem em desligar o que prende e rasgar os véus de irrealidade, e, a situação temporal e a miséria do homem, como afirma o mitólogo Mircea Eliade, exprimem-se por palavras-chaves que contém a ideia de atar, de acorrentamento, de ligação. O complexo do prender não passa, assim, de uma espécie de arquétipo da própria situação do homem no mundo. Nesta perspectiva dualista e polêmica, a soberania assume os atributos do despender, e só por contaminação de outras intenções é que o herói vai buscar as astúcias do tempo e as redes do mal. É nesse contexto heroico que nos aparece a mitologia de Atena, a deusa armada, a deusa dos olhos flamejantes, tão pouco feminina e ferozmente virgem, saída do machado de Hefesto e da fronte de Zeus, senhora das armas, senhora do espirito, mas igualmente senhora da tecelagem. Mas é a lança, como a espada para Parsifal, um dos cavaleiros do século XIII que permanece a sua arma preferida. Nobreza da espada ou da lança sublinhada pela tradição medieval que fazia do gládio e da cerimônia de armar cavaleiro o símbolo de uma transmissão de potência e simultânea de retidão moral.
A fábula de d`Eon sobre a imperatriz Elizabeth deve ser entendida quando começaram a circular no final da década de 1770 e início da seguinte, e tornaram matéria de lendas, que o converteram em uma espécie de herói. Muitos pesquisadores e biógrafos aceitam s suas memórias como factuais, e se mostram maravilhados ao ver como, “disfarçado de mulher, d`Eon se tornou amigo íntimo da Imperatriz Elizabeth, a qual persuadiu a fazer uma aliança secreta com a França”. Não obstante, a história de que d`Eon vestiu-se de mulher a fim de tornar-se a professora particular da imperatriz Elizabeth não é de modo algum verdadeira. Ele inventou isso, provavelmente em 1775, ou pouco depois. Os pesquisadores suspeitaram da verdade, pela primeira vez, há mais de cem anos, quando os arquivos do Ministério do Exterior da França foram abertos. Com certeza, afirma Kates (1996: 104 e ss.), se esse engodo tivesse ocorrido, estaria na correspondência secreta de Luís XV, Conti, seus assistentes de D`Eon, para o Segredo do Rei da Rússia, não encontramos a menor referência às mudanças de indumentária dele, à sua identidade de gênero, tampouco às suas relações pessoais com Elizabeth.
 O rei e a corte encaravam a transformação de d`Eon, de homem em mulher, ocorrida em 1777, e o seu subsequente retorno à França, como uma aposentadoria definitiva da carreira de homem de Estado. O governo vinculou, de forma explícita, o sexo de d`Eon à sua aptidão para permanecer ativo na esfera da política. Assim, d`Eon esperava usar o mito russo para afirmar o seu patriotismo e solapar a exclusividade de gênero que dominava o corpo diplomático e militar. O fato de a história de d`Eon ter merecido crédito com tanta facilidade durante sua vida, em si mesmo, algo notável. Casanova constitui um exemplo típico dos numerosos nobres de boas relações na sociedade convencidos de que d`Eon havia, anteriormente, cumprido missões diplomáticas secretas como mulher, e que o próprio Luís XV havia patrocinado esse travestismo. Por mais absurdo possa nos parecer, a história íntima fazia sentido para o público ávido europeu que não apenas vias as relações internacionais cada vez mais dominadas por monarcas mulheres, como também ouvira toda sorte de histórias e rumores sobre espiões, intrigas e perfídias de agentes duplos. A mera existência do Segredo Rei é tão absurda quanto a história que d`Eon mais tarde fabricou.
As mulheres, ele insistia, poderiam ser muito mais do que cortesãs, freiras e salonnières. Inspirados nos salões dos séculos XVIII e XIX, os Salonnières procuram reviver essa tradição de compartilhar ideias filosóficas através da música, poesia e arte.  Algumas poderiam até tornar soldados e estadistas, se tivessem a oportunidade. O mito sobre a imperatriz Elizabeth servia, em grande parte, para apoiar seus objetivos, na medida em que apresentava o soberano francês e o seu conselheiro de maior confiança oferecendo a uma mulher uma oportunidade daquela importância político-afetiva. De acordo com o mito, Luís XV e Conti lhe pediram que fossem à Rússia conscientes de que d`Eon era de fato uma mulher. Além disso, precisavam dele para executar delicadas missões diplomáticas, exatamente como uma mulher. Em d`Eon, Conti supunha haver encontrado uma personalidade que combinava o charme feminino, a coragem de uma amazona e o engenho maquiavélico necessário para uma missão importante como aquela. Em suma, o mito sobre d`Eon na Rússia parecia oferecer politicamente à França o exemplo muito vigoroso de uma mulher contemporânea que havia alcançado o heroísmo no desempenho das funções de um alto funcionário do governo.
Assim, a tese que Gary Kates sustenta é que d`Eon esperava usar o mito russo para afirmar seu patriotismo e solapar a exclusividade de gênero que dominava o corpo diplomático e militar. O fato social e histórico de d`Eon ter merecido crédito com tanta facilidade durante sua vida é, em si mesmo, algo notável. Casanova constitui um exemplo típico dos numerosos nobres de boas relações na sociedade convencidos de que d`Eon havia, anteriormente, cumprido missões diplomáticas secretas como mulher, e que o próprio Luís XV havia patrocinado esse travestismo. Mas era um iniciado no segredo de Conti e tornou-se secretário do Chevalier Douglas. Sem dúvida, ele chegou a São Petersburgo em algum momento do mês de julho, de 1756. De imediato, sentiu-se arrebatado pelo charme e pelo poder das mulheres russas quer cercavam a corte. Achou-as lindas, sagazes, enérgicas e espirituosas. Essas damas magnificas, escreveu D`eon para Jean-Pierre Tercier, chefe do Ministério do Exterior e também espião de Conti, “são realmente semelhantes a um pequeno esquadrão de ninfas”. Elas mesmas tinham uma aguda consciência de sua posição como mulheres políticas ativas, e promoviam estranhos ritos sociais com o propósito de reforçar a autoridade feminina.
A força desta consciência coletiva – mutatis mutandis - acompanha sua extensão. Quanto mais forte a consciência coletiva, maior a indignação com o crime, isto é, contra a violação do imperativo social. Cada um dos atos da existência social, em particular cada um dos ritos religiosos, é definido com precisão. Os detalhes ao que é preciso fazer, e ao que é preciso crer, são impostos pela consciência coletiva. No estudo da divisão do trabalho objeto de pesquisa de doutoramento, o filósofo Émile Durkheim descobriu duas ideias fundamentais: a prioridade histórica das sociedades onde a consciência individual está inteiramente fora de si e a necessidade de explicar os fenômenos individuais pelo estado da coletividade, e não, contrariamente, o estado da coletividade pelos fenômenos individuais, isto é, do exterior, encontrando o meio pelo qual os estados de consciência não perceptíveis diretamente podem ser reconhecidos e compreendidos. Estes estados de consciência são jurídicos que caracteriza um dos tipos de solidariedade orgânica, tendo por uma lado, o direito repressivo, que pune as faltas ou crimes, e, por outro, o direito restitutivo, ou cooperativo, cuja essência não é a punição das violações das regras sociais, mas repor as coisas em ordem quando uma falta foi cometida, ou organizar socialmente uma cooperação entre os indivíduos.
  Não se está apenas diante de uma divisão social que se estabelece a partir do dado, mas sim de um projeto de engenharia social, segundo Pinto Neto (2007: 83), que nos permitiria conduzir ao “estado perfeito”. A ambivalência tende a ser eliminada para aqueles que se propuserem a ter uma “personalidade não-contrafática” deveriam sobreviver. Aos demais, seria simplesmente declarada guerra. Este inimigo definido a partir de sua personalidade que relacionalmente se opõe à ordem funcional. O verdadeiro conteúdo que representa o Inimigo (1997) está numa contraposição à ordem estabelecida, enquanto um cidadão que renuncia à personalidade, tornando-se “não cidadão”. Uma vez despersonalizado o Outro, a questão do exercício dos direitos fundamentais passa a segundo plano. Não sendo o Outro pessoa, o problema não se coloca mais em temos constitucionais. É precisa a ideia de uma ordem futura que está em jogo, uma ordem em que apenas aqueles “homogêneos” devem sobreviver, para que possam exercer seus direitos em conformidade com a ordem funcional.
É a preciosa engrenagem da “fidelidade” que servirá de suporte para definir o suposto Inimigo. Precisamente no ambiente social contemporâneo no qual irrompe uma relação de implicação entre a exigência da ordem e o medo coletivo, causado pelas altas taxas de delito e pela insegurança ontológica, o chamado Direito Penal do Inimigo enquanto estratégia de purificação social cai como luva para o discurso neoconservador. A criação de um ambiente de tensão permanente onde a exigência da ordem e autoridade ganha primazia é o local propício para o que era para ser exceção torna-se regra. Melhor dizendo, contrariando a norma, onde o sigilo é a regra e a transparência é a exceção. O direito repressivo revela socialmente a consciência coletiva nas sociedades que se erigiram sob a forma de solidariedade mecânica, por extensão, pelo fato de multiplicar as sanções, manifesta a força dos sentimentos comuns e sua particularização. Quanto mais ampla a consciência coletiva, quanto mais forte e particularizada, maior será o número de atos considerados como crimes. Atos que violam um imperativo, ou um interdito, e ferem direto a consciência moral da coletividade.
Nesta acepção, crime é simplesmente um ato degenerado, é um ato proibido pela consciência coletiva. Não importa que pareça inocente ao observador situado em outa sociedade comparada, ou em outro período histórico. Criminoso é aquele que numa sociedade determinada “deixou de obedecer às leis do Estado”. Depois de ter esboçado uma teoria do crime, Émile Durkheim deduz dela sem dificuldade uma teoria das sanções. A função social do castigo é satisfazer a consciência comum, ferida peloa to cometido por um dos membros da coletividade. Ela exige reparação e o castigo do culpado é esta reparação feita aos sentimentos de todos. Ele considera esta teoria da sanção mais satisfatória do que a interpretação racionalista pelo efeito de dissuasão. Analogamente temos a cor como apreensão do véu da noite que  reenvia-nos para uma feminilidade substancial. Mais tradição romântica ou alquímica e análise psicológica convergem para evidenciar uma estrutura arquetípica, e encontra-se com a imemorial tradição religiosa. Este cambiante da substância profunda encontra-se nas lendas hindus, egípcias ou astecas. É o véu de Ísis, o véu de Mâyâ, que simboliza a inesgotável materialidade da natureza que as diversas escolas filosóficas valorizam positiva ou negativamente, é o vestido de Chalchiuhtlicue, deusa da água, companheira do grande deus Tlaloc.
O eufemismo que as cores noturnas constituem em relação às trevas parece que a melodia o constitui em relação ao ruído. Do mesmo modo que a cor “é uma espécie de noite dissolvida e a tinta uma substância em solução”, segundo a concepção antropológica de Durand, pode-se dizer que a melodia, que a suavidade musical tão cara aos românticos é a duplicação eufemizante da duração existencial. A música melodiosa desempenha o mesmo papel enstático que a noite. A música opera o milagre de tocar em nós o núcleo mais secreto, o ponto de enraizamento de todas as recordações e de fazer dele por um instante o centro do mundo feérico. O complexo do regresso à mãe vem inverter e sobredeterminar a valorização da própria morte e do sepulcro. Poder-se-ia consagrar uma vasta obra aos ritos de enterramento e às fantasias do repouso e da intimidade que os estruturam. Mesmo as populações que utilizam, também, a incineração pratica o enterramento ritual de crianças. – Terras clauditur infans, escreve Juvenal, e as leis de Manu interditam que as crianças sejam incineradas. Numerosas sociedades assimilam o reino dos mortos àquele donde vêm as crianças, como o Chicomoztoc, “lugar das sete grutas” do México. Os Vedas como ocorre em numerosas inscrições sepulcrais latinas, confirmam a eufemização do “tu és pó”. Corolário desses rituais de enterramento dos mortos e confirmando a concepção antifrásica da morte é o enterramento terapêutico dos doentes.




   Em numerosas culturas, na Escandinávia, por exemplo, o doente ou moribundo é revigorado pelo enterramento ou pela simples passagem na fenda de uma rocha. Muitos povos enterram os mortos na postura fetal, marcando nitidamente a vontade de ver na morte uma inversão do terror naturalmente experimentado e um símbolo de repouso primordial. Em todos os folclores esse abandono sobredetermina ainda o nascimento miraculoso do herói ou do santo concebido por uma virgem mítica. O sepulcro, lugar da inumação, está ligado à crença numa sobrevivência larvada, duplamente encerrada na imobilidade e na tranquilidade do sepulcro rodeado certamente de oferendas. Esta eufemização do sepulcro e a assimilação dos valores mortuários ao repouso e à intimidade encontra-se também no folclore e na poesia. No folclore, a intimidade das câmaras secretas contém as belas adormecidas dos nossos contos. O modelo exemplar dessas dormidoras escondidas é a nossa Bela Adormecida. Na versão escandinava dos Niebelungen, é Brunehilde, a jovem Valquíria, que dorme revestida de uma couraça no fundo de um solitário castelo. Símbolos claustromórficos onde é fácil reconhecer uma eufemização do sepulcro.
            Quanto ao sono, não passa de promessa de despertar que, no milagre da intimidade nupcial, Sigur ou o Príncipe  Encantado virão realizar. O mesmo mito encontra-se nos irmãos Grimm (em alemão Brüder Grimm ou Gebrüder Grimm), no Cofre Voador de Andersen, tal como no conto oriental História do Cavalo Encantado. O psicanalista pergunta-se vendo na imagem destas dormidoras o símbolo da recordação que dormita no fundo da estrutura do inconsciente, reencontra nelas um simbolismo eficaz caro a Carl Gustav Carus. O resultado do progresso do eufemismo, sobrevivências de mitos ctônicos que, pouco a pouco, forma perdendo as alusões funerárias? A deleitação mórbida, por incrível que pareça se encontra vezes na poesia, na ligeira necrofilia baudelairiana ou no culto lamartiniano do outono, no gosto romântico pelo “além-túmulo” e, por fim na atração que exerce a morte ou o suicídio sobre Goethe, Novalis (Friedrich von Hardenberg), o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico, ou last but not least, Charles Nordier.  
  Nos românticos franceses, poder-se-ia igualmente notar frequentes isomorfismos do túmulo, da bem-amada e das delícias da intimidade. Por exemplo, para a Antígona de Ballanche, o túmulo é a morada nupcial. Hugo, grande e misterioso como Dante, terrível e vingador como ele, tem a simplicidade e a grandeza de Homero, a graça de Virgílio, a eloquência e a inovação de Sófocles, a grandeza de Esquilo, a força e a amplidão de Shakespeare, enfim a estirpe dos Prometeus. Na obra de Victor Hugo, pululam as imagens de sepulcros, de claustração e de emparedamento associadas à intimidade: em La conscience o jazigo é o refúgio, em Os Miseráveis é um convento de mulheres enclausuradas que serve de lugar de asilo. Todavia, em Hugo, o motivo do jazigo é valorizado de maneira hesitante, porque é ao mesmo tempo temido e desejado, como Il Príncipe, de Maquiavel. A este complexo ambíguo da claustração, Charles Baudouin liga no grande poeta o tema da insalubridade como uma espécie de Jonas geográfico, para alguns um anagrama da ilha que chegaria a separar psicologicamente a Irlanda católica do continente protestante, porque a ilha é “a imagem mítica da mulher, da virgem, da mãe”. Na literatura magnífica de Victor Hugo admite Durand, na esteira dos meandros que percorrem a imaginação, estarão marcadas por duas questões ontogeneticamente. Pela estadia nas ilhas: Córsega da sua infância, ilha de Elba, e por fim do exílio que não seria mais que um “complexo de retiro”, mas sinônimo de regresso à mãe, onde o poeta parece morar voluntariamente, como uma espécie de “vocação do exílio”. Ipso facto, o grande valor atribuído pelo poeta dos Châtiments a Santa Helena, descoberta em 1501 pelo navegador galego João da Nova, tornar-se-ia símbolo da ilha do exílio e da morte. 

Bibliografia geral consultada.
GOLDGRUB, Franklin Winston, O Conceito de Inconsciente em S. Freud e C. Lévi-Strauss. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1990; KATES, Gary, Monsieur d`Eon é Mulher: Um Caso de Intriga Política e Embuste Sexual. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1996; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário: Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997; PINTO NETO, Moysés da Fontoura, O Rosto do Inimigo: Uma Desconstrução do Direito Penal do Inimigo como Racionalidade Biopolítica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2008; MEDEIROS, Elen de, A Concepção do Trágico na Obra Dramática de Nelson Rodrigues. Tese de Doutorado. Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2010; DOMICIANO, João Felipe Guimarães de Macedo Sales, O Mito e sua Estrutura: Contribuições da Antropologia Lévi-Straussina para a Formação da Clínica Psicanalítica. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; SIQUEIRA, Fídias Gomes, Inimigo Íntimo: Um Estudo sobre a Segregação e a Violência nas Fronteiras entre a Política e a Psicanálise. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal de Minas Gerais, 2016; CICERO, Antonio, “Tzvetan Todorov libertou a literatura dos asfixiantes jogos formais”. Disponível em:  https://oglobo.globo.com/cultura/11/02/2017; PEDROSO, Sandra Pires de Toledo, O Tempo da Utopia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; ROSA, Giorgio, L`Isola delle Rose. La vera storia tra il fulmine e il temporale. Bologna: Persiani Editore, 2020; entre outros.