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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Invisibilidade & Utilidade de Uso das Cidades Universitárias.

                                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

                                            Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos”. Paulo Freire

           
A qualidade de vida é um tema que merece destaque pelo fato de se tratar de questões sociais, políticas e afetivas relacionadas diretamente com a maneira com que os indivíduos conduzem sua forma de vida. A qualidade de vida no trabalho pode ser definida como o conjunto das ações dentro da empresa que envolve a implantação e manutenção de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho. Representa, portanto, como a gestão e a educação para o bem-estar no trabalho, com decisões e escolhas baseadas na cultura organizacional e no estilo de vida dos diferentes segmentos ocupacionais. Apesar de ser uma linha de estudo recente e necessitar de detalhamento de situações concretas para melhor compreensão do tema, a qualidade de vida no ambiente de trabalho tem sido com diversas concepções e teorias, que trouxeram à tona fatores preponderantes e pioneiros para o desenvolvimento da atividade administrativa em função das condições adequadas de trabalho, incentivos e recompensas salariais oportunas, cuidados com a saúde do trabalhador etc.   
A concepção sociológica de Axel Honneth problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada por formas intencionais de tornar pessoas invisíveis. De forma semelhante à interpretação da análise da reificação, de Marx à Lukács, a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral, a partir da teoria do reconhecimento. Um ato de reconhecimento pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha. É importante mencionar na análise uma distinção entre invisibilidade e visibilidade, de modo que, embora ambas as ideias sejam espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente em oposição assimétrica.

           
No conceito negativo (“invisibilidade”), as pessoas afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é mais invisibilizado socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo neste sentido o sentimento de que não é identificado ou conhecido. A discrepância conceitual que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade é devido ao fato de que, com a transição para o conceito positivo, as condições governando a sua aplicabilidade são mais exigentes: enquanto a invisibilidade no sentido visual significa apenas o fato de que um objeto não está presente como um objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes.          
O estado atual da civilização é fruto principalmente da extra-escolaridade cultural. É mais um produto de sua natureza individual, de sua formação doméstica e de sua existência social do que de sua preparação disciplinar. Esta palavra significa um ato de dedicação. E de uma dedicação a fundo, positiva tanto aos extremos como ao que fica entre eles, como culto, cultivo e cultura são três aspetos articulados da mesma linha de reflexão desde quando nos aperfeiçoamos pela cultura do Espírito. Muda o objeto de nossa dedicação, mas significa sempre uma entrega total do nosso ser para alcançar a essência através das aparências, de modo a tirar do cultivo da terra o alimento do nosso corpo, da cultura intelectual o aperfeiçoamento do nosso espírito e da universidade o reconhecimento da plenitude da verdade. Esse radical culto pode, portanto apresentar três sentidos. O sentido individual de representação é o que chamamos de cultura intelectual. Tem um sentido subjetivo e significa a passagem da informação à formação do saber e da personalidade. O segundo tem um sentido objetivo e significa a conquista de elementos característicos das instituições e  de ser de uma coletividade.
Na universidade o homem de certo modo habita e não habita. Se por habitar entende-se simplesmente uma residência. Quando se fala em habitar, representa-se costumeiramente um comportamento que o homem cumpre e realiza em meio a vários outros modos de comportamento. Não habitamos simplesmente, mas construir significa originariamente habitar. E a antiga palavra construir (“bauen”) diz que o homem é à medida que habita. Mais que isso, significa ao mesmo tempo: proteger e cultivar, a saber, cultivar o campo, cultivar a vinha. Construir significa cuidar do crescimento que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. No sentido de proteger e cultivar, construir não é o mesmo que produzir. NB: em oposição ao cultivo, construir diz edificar. Ambos os modos de construir – construir como cultivar, em latim, “colere”, cultura, e construir como edificar construções, “aedificare” – estão contidos no sentido próprio de “bauen”. No sentido de habitar, ou construir, permanece, para a experiência cotidiana do homem. Aquilo que desde sempre é, como a linguagem diz de forma tão exclusiva e bela, “habitual”. Isto esclarece porque acontece um construir por detrás dos múltiplos modos de habitar, por detrás das atividades de cultivo e edificação.
           O sentido próprio de construir, a saber, habitar, cai no esquecimento. Em que medida construir pertence ao habitar? Quando construir e pensar são indispensáveis para habitá-lo. Ambos são, no entanto, insuficientes para habitá-lo se cada um se mantiver isolado, distantes, cuidando do que é seu ao invés de escutar um ao outro. Ipso facto construir e pensar pertence ao habitar. Permanecem em seus limites. Quando aprendemos a pensar que tanto um como outro, provém da obra de longa experiência de um exercício incessante de pensar. A cultura intelectual, portanto, em sentido próprio, refere-se a cada pessoa humana em particular e como um todo irredutível. Somos um ersatz: a cultura social é subsidiária da cultura intelectual, já que a sociedade existe para o homem e não o homem para a sociedade do trabalho. Embora seja esta uma condição indispensável para a realização daquele. Não há cultura intelectual liberta sem cultura social organizada. A cultura intelectual representa a passagem do domínio e controle da informação da nossa individualidade total. Pela informação recebemos de fora os elementos que vão permitir a eclosão de nossas possibilidades naturais. É a função da formação hermenêutica quando aglutinamos e assimilamos esses elementos exteriores, de tipo variado ou mesmo contraditório, reduzindo-os a uma unidade irredutível e elaborando com isso a nossa personalidade. Essa personalidade se projeta para fora no sentido da atividade de comunicação e de criação, que vai por sua vez fecundar a coletividade.
           
   O bairro se define como uma “organização coletiva de trajetórias individuais”. A organização da vida cotidiana se articula ao menos segundo dois registros: 1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia, o ritmo de andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de “se portar” no espaço do bairro aparecem como o lugar onde se manifesta um “engajamento” social: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes) que estão ligados a você pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e da repetição. Existe uma regulação articulando um ao outro esses dois sistemas com o auxílio do conceito de conveniência, que surge no nível dos comportamentos, representando um compromisso pelo qual cada pessoa, renunciando à anarquia das pulsões individuais, contribui para a vida coletiva,  retirando daí benefícios simbólicos necessariamente protelados. Para “saber comportar-se” o usuário se obriga a respeitar para que tenha a vida cotidiana. 
   A contrapartida desse tipo de imposição é para o usuário a certeza de ser reconhecido e, portanto, considerado afetivamente por seus pares, e fundar assim em benefício próprio uma relação de forças nas diversas trajetórias que percorre. O bairro é por definição, um domínio do ambiente social, pois constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual positiva ou negativamente ele se sente reconhecido. Pode-se, portanto apreender o bairro, simplificadamente, como esta porção do espaço público em geral em que se insinua um “espaço privado particularizado” pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço social integrado. A fixidez do habitat dos usuários, o costume recíproco da vizinhança, nascem através dos processos sociais de reconhecimento que se estabelecem graças á coexistência concreta em um mesmo território urbano. Todos esses elementos práticos se nos oferecem como imensos campos de exploração em vista de compreender um pouco melhor esta grande (des)conhecida que é a nossa fabulosa e intermitente vida cotidiana.
O bairro surge como o domínio onde a relação espaço/tempo é a mais favorável para um usuário ordinário que deseja deslocar-se por ele a pé saindo de sua casa. Por conseguinte, é o pedaço da cidade atravessado por um limite distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência. Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina, mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares impostos pelo urbanismo, diante dos desníveis sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano. Metodologicamente o bairro é uma noção dinâmica, que necessita de progressiva aprendizagem. Vai progredindo mediante a repetição do engajamento do corpo do usuário no espaço público até exercer uma apropriação. A trivialidade desse processo, partilhado por cidadãos, torna inaparente a sua complexidade enquanto prática cultural e a sua urgência para satisfazer o desejo urbano dos usuários da cidade.
A designação campus ou cidade universitária acabaram por definir o mesmo espaço, com os mesmos objetivos. Cidade Universitária era a aspiração inicial dos  campi instalados no Brasil: uma pequena cidade, apartada daquelas que poderíamos chamar de regulares. Esse núcleo teria a capacidade de oferecer ensino, mas também de abrigar centros de pesquisa, acolher alunos e professores, oferecer, enfim, todos os serviços que qualquer cidade estruturada oferece. Os serviços que os campi brasileiros oferecem – mesmo um dos maiores, o da Universidade de São Paulo (USP) são restritos e insuficientes para os seus usuários. Serviços, como transportes públicos, só funcionam com regularidade nos dias úteis e outros comércios necessários à subsistência são raros e na maioria das vezes inexistentes. Os campi universitários brasileiros não são autossuficientes. Dependem muito das cidades em que estão localizados. Ipso facto, a cidade universitária não passa de uma aspiração que nem sempre se realizou.
Campus universitário o conceito mais apropriado. Trata-se de um território fechado, privado ou público, com administração independente e que abriga espaços e lugares de ensino, aprendizagem e pesquisa. Reúnem alguns poucos serviços fundamentais como refeitórios, lanchonetes, farmácias, copiadora, papelaria e praticamente só isso. O sonho da cidade universitária autônoma e independente, no Brasil, ainda é uma utopia. Por falta de verbas necessárias, este ideal vem sendo postergado e nunca realizado. A história dos diferentes campi universitários no Brasil, ressalvados alguns aspectos particulares, é muito semelhante. O Estado desapropria ou, às vezes, ganha uma determinada área, geralmente distante da cidade por ser menos onerosa. Solicita a contribuição de alguns profissionais para a elaboração de um plano e de um projeto arquitetônico, realiza solenidades, descerra placas e inicia as obras que, normalmente, intermitentes, duram pouco tempo, mas se as verbas terminam para a construção do campus. Nova administração, novas esperanças, novas verbas e uma nova equipe, geralmente composta por docentes aparentemente titulados: um novo plano é realizado, novas metas são definidas. Realiza-se o que a verba permite. Fim da verba, fim da equipe, fim do plano e quase sempre fim das obras.
O bairro é um universo social que não aprecia muito a transgressão. Esta é incompatível com a suposta transparência paradoxal da vida cotidiana, com sua imediata legibilidade. Esta se deve efetuar, aliás, esconder-se nas trevas dos “lugares reprováveis”, fugir para os refolhos privados do domicílio. O bairro é um palco “diurno” cujos personagens são, a cada instante, identificáveis no papel que a conveniência lhes atribui: a criança, o pequeno comerciante, a mãe de família, o jovem, o aposentado, o padre, o médico, máscaras e máscaras por trás das quais o usuário do bairro é “obrigado” a se refugiar para continuar usufruindo dos benefícios simbólicos com os quais pode contar. A conveniência tende sempre a elucidar os bolsões noturnos do bairro, o incansável trabalho de curiosidade que, como um inseto de imensas antenas, explora com paciência todos os cantinhos do espaço público, sonda os comportamentos, interpreta os acontecimentos e produz sem cessar um rumor questionante incoercível: Quem é quem e faz o quê? De onde vem este novo freguês? Quem é o novo locatário? É no ruído e na tagarelice que a curiosidade representa as pulsões interiores absolutamente fundamentais na prática cotidiana do bairro que procura uma “razão para tudo”, mede tudo pela régua da conveniência.
Nesta direção do entendimento humano se é possível dizer que todo rito é a assunção ordenada de uma desordem pulsional inicial, o seu “trancafiamento” simbólico no campo social, então a conveniência é o rito do bairro. O que ocorre no bairro universitário? A conveniência subtrai à troca social os ruídos que poderiam alterar a imagem do reconhecimento; é ela que por extensão no processo de comunicação filtra tudo o que não visa a clareza. Mas, e esta é a sua face positiva, se ela impõe a sua coerção, o faz em vista de um benefício simbólico que se há de adquirir ou preservar. O conceito de conveniência ganha particular pertinência no registro do consumo. Como relação social cotidiana com a busca dos alimentos e dos serviços. Assim, comprar não é apenas trocar dinheiro no sentido marxista por alimentos (mercadoria), no sentido do binômio produção-consumo, mas, “ser bem servido quando se é bom freguês”. O ato da compra vem “aureolado” por uma “motivação” que, poder-se-ia dizer, o precede antes de sua efetividade: a fidelidade. Esse algo mais, não contabilizável na lógica estrita da troca de bens e serviços, é diretamente simbólico: é o efeito do consenso, de um acordo tácito. É o fruto de um longo costume recíproco pelo qual um sabe o que pode pedir ou dar ao outro, em vista de melhorar a relação com os objetos desejantes da troca.
Pelo fato do seu uso habitual, o bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. O bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro e o fora. E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro, que se efetua a apropriação do espaço. Um bairro poder-se-ia dizer, é assim uma ampliação do habitáculo; pelo usuário, ele se resume á soma das trajetórias individuais inauguradas a partir do seu local conscrito na origem de sua habitação. Não é propriamente uma superfície urbana transparente para todos ou estatisticamente mensurável, mas antes as condições e possibilidades oferecidas a cada um de inscrever na cidade um sem-número de trajetórias cujo núcleo irredutível continua sendo sempre a esfera do privado.  Existe a elucidação de uma analogia formal entre o bairro e a moradia: cada um deles tem, com os limites que lhe são próprios, a mais alta taxa de controle pessoal possível, pois tanto aqueles que moram como os que fazem dele sua moradia são os únicos lugares vazios onde, de maneira diferente, se pode fazer aquilo que se quiser.
O limite público/privado, que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a prática de um usuário, não é apenas uma separação, mas dialeticamente constitui uma separação que une. A relação entrada/saída, dentro/fora se imiscui dentre outras relações sociais como casa/trabalho, conhecido/desconhecido e assim por diante, mas representa sempre uma relação social entre uma pessoa e o mundo material e social, condicionado por uma dialética constitutiva da autoconsciência que vai haurir, nesse movimento de ir e vir, de mistura social e de recolhimento íntimo, a certeza de si mesma enquanto imediatamente social. Essa diferença entre a essência e o exemplo, entre a imediatez e a mediação, quem faz não somos nós apenas, mas a encontramos na própria certeza sensível; e deve ser tomada na forma em que nela se encontra, e não como nós acabamos de determina-la. Na certeza sensível um momento é oposto como o essente simples e imediato, ou como a essência: o objeto. O outro momento, porém, é posto como o inessencial e o mediatizado, momento que nisso não é “em-si”, mas por meio do Outro: o Eu, um saber, que sabe o objeto só porque ele é; saber que pode ser ou não. Mas o objeto é o verdadeiro e a essência: ele é, tanto faz que seja conhecido ou não. Permanece mesmo não sendo conhecido – enquanto o saber não é, se o objeto não souber que pode ser. Trata-se assim da singularidade imediata de apreensão do objeto.
     
Enfim, a prática do bairro introduz um pouco de gratuidade no lugar da necessidade; ela favorece uma utilização do espaço urbano não finalizado pelo seu uso somente funcional. No limite, visa conceder o máximo de tempo a um mínimo de espaço para liberar possibilidades de deambulação. A cidade é, em seu sentido característico, “poetizada” pelo sujeito: este a “refabricou” para o seu uso próprio desmontando as correntes do aparelho urbano: ele impõe à ordem externa da cidade a sua lei de consumo do espaço. O bairro é, por conseguinte, no sentido econômico do termo, um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do espaço público. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse exercício: conhecimento dos lugares, trajetos cotidianos, relações de vizinhança (política), relações como os comerciantes (economia), sentimentos difusos de estar no próprio território (etologia), tudo isso como indícios cuja acumulação e combinação produzem, e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural segundo o qual o lugar praticado se torna não somente o objeto de conhecimento, mas o lugar de um reconhecimento.
A conveniência se impõe em primeiro à análise pelo seu papel negativo. Neste sentido poucos membros da comunidade ueceana perceberam ou avaliaram o efeito moral da Resolução 1438/2018 para a realização de eventos cívicos, pois ela proíbe o uso de bebidas no campus, sem um plebiscito, ela se encontra no lugar da lei, aquela que torna heterogêneo o campo social proibindo que aí se distribua em qualquer ordem e a qualquer momento não importa que comportamento social. Isto quer dizer que a conveniência mantém relações muito estreitas com os processos de educação implícitos a todo grupo social: ela se encarrega de promulgar as “regras” do uso social, enquanto o social é o espaço do outro, e o ponto médio relacional da posição da pessoa enquanto ser público. A conveniência é o gerenciamento simbólico da face pública de cada um de nós desde que nos achamos na rua. A conveniência é simultaneamente o modo pelo qual se é percebido e, de fato, o meio obrigatório de se permanecer submisso a ela. Exige que se evite dissonância no jogo dos comportamentos e ruptura qualitativa na percepção do meio social. Por isso é que produz comportamentos estereotipados, prêt-à-porter, que têm por função possibilitar o reconhecimento “de não importa quem em não importa que lugar”.  É da tradição acadêmica brasileira a falácia política de que qualquer dúvida a respeito de uma lei só possa ser sanada através da representação de outra lei.
       A ética ou a filosofia moral se tornam uma luz que permite discernir entre aquilo que é certo ou não do ponto de vista ético. É um dos valores que não se encontra inserido no contexto de uma religião específica, mas no contexto da lei natural que rege aquilo que é conveniente para o ser humano de acordo com sua dignidade e natureza. A moral tem sua base na liberdade do ser humano através da qual uma pessoa pode realizar boas ações, mas que também tem a liberdade de praticar atitudes injustas. A reflexão moral ajuda o ser humano a tomar consciência de sua própria responsabilidade no trabalho de crescer como pessoa, tendo sempre claro o princípio da verdade e do bem. A filosofia como reflexão moral é muito importante, uma vez que a retidão no trabalho ajuda o ser humano a melhorar como pessoa e a alcançar uma vida boa. A filosofia moral mostra a responsabilidade humana em trazer esperança à sociedade que vive, uma vez que através de ações individuais exerce influência no bem comum. Esta filosofia moral toma como fundamental os princípios da conduta humana. Estas normas éticas dignificam a pessoa através de valores como mostra a superação pessoal, o amor próprio, o respeito ao próximo, o princípio do dever e a busca pela felicidade. Um princípio moral essencial é lembrar que o fim nem sempre justifica os meios.
Bibliografia geral consultada.
ALEXANDER, Christopher “et al”, Urbanismo y Participación el Caso de la Universidad de Oregón. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, 1978; PAZ, Octavio, El Ogro Filantrópico: História y Política 1971-78. Barcelona: Ediciones Seix Barral, 1979; OSZLAK, Oscar, Merecer la Ciudad: Los Pobres y el Derecho al Espacio Urbano. Buenos Aires: Ediciones Cedes-Humanitas, 1991; ALBERTO, Klaus Chaves, Três Projetos para uma Cidade Universitária do Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2003; HONNETH, Axel, “La Théorie de la Reconnaissance: Une Esquisse et Visibilité et Invisibilité: Sur l’Épistémologie de la Reconnaissance. In: Revue du Mauss, n° 23, 2004; CASTILHO, Fausto, O Conceito de Universidade no Projeto da Unicamp. Campinas: Editora da Unicamp, 2008; LIMA, Roberto Kant de, A Antropologia da Academia: Quando os Índios Somos Nós.  edição, revista e ampliada. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2013; BÜLL, Sandra, Quantas Vidas Vive um Trabalhador? Trabalho e Cultura Popular. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Campinas: Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2016; PEREIRA, Fúlvio Teixeira de Barros, Exporting Progress: Os Norte-Americanos e o Planejamento do Campus no Brasil. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; entre outros.

domingo, 13 de agosto de 2017

Porteiro Predial - Trabalho, Rotinização & Adoção Social de Domótica.

                                                                                     Ubiracy de Souza Braga

Não adianta ir à igreja, fazer yoga e não cumprimentar o porteiro”. Osvaldo Daibert


Severino Florença, porteiro no prédio Chopin & quentinha da Maitê Proença.

            A alguns quarteirões, na portaria do n° 194 da rua Barata Ribeiro, no bairro Copacabana, um minuto parece comportar mais “boa tardes” do que os 60 segundos dos ponteiros de um relógio de ponto. O vaivém é incessante no edifício que fez fama com o seu número original, o 200, e traça novos rumos. Porteiro há 31 anos ali, o paraibano Luiz Domingues, de 69 anos, conta que o movimento só diminui depois da meia-noite, quando seis dos sete elevadores são desligados. - Aqui é como em qualquer outro prédio. Não vejo nada demais. Briga de vizinho, suicídio. Mas tudo muito raro. O gigante de 45 apartamentos por andar foi habitado por 2 mil pessoas no auge das manchetes policiais, nos anos 1970. Hoje, são cerca de 700. - O máximo que acontece é cair uma cobra da mata atrás do prédio - garante o síndico Benedito Rodrigues, no cargo há 11 anos. - A maioria dos apartamentos naquela época era alugada. Hoje, a situação inverteu-se e o prédio melhorou. Enquanto o condomínio mudava de perfil, a vida de Domingues também. Um segundo casamento aumentou o número de filhos de quatro para oito. O endereço mudou de Copacabana para Vila Isabel. O que se manteve igual mesmo foi o trabalho.

             O síndico do n°180 me chamou para trabalhar lá, mas não quis. Aqui conheço o pessoal e o trabalho. Conheço bem o prédio e até tenho um projeto de reforma com cozinha americana que já fiz em vários apartamentos. Deixo tipo casinha de boneca - narra, acrescentando criticamente. – “Mas para trabalhar aqui tem que ter paciência”. A concepção de Axel Honneth (2004; 2006) problematiza a “invisibilidade” como uma patologia social caracterizada por formas intencionais de tornar pessoas invisíveis. De forma semelhante à interpretação da análise da reificação, a invisibilidade também é tratada de um ponto de vista epistemológico e moral, a partir da teoria do reconhecimento. Para Honneth, um ato de reconhecimento pressupõe dois elementos: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa mais do que a negação desses dois elementos. Sintetizada em expressões como a de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha.



É importante mencionar que Honneth faz uma distinção muito sofisticada entre invisibilidade e visibilidade, de modo que, embora ambas as ideias sejam aparentemente espelhadas, elas conteriam em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente diferentes. No conceito negativo (invisibilidade), as pessoas afetadas sentem-se como se não tivessem sido percebidas. A perceptibilidade corresponde à capacidade de ver alguém, enquanto a visibilidade designa mais do que mera perceptibilidade porque acarreta a capacidade para uma identificação individual elementar. Desse modo, para as pessoas afetadas em particular, a invisibilidade significaria o sentimento de realmente não serem percebidas ou vistas, ao contrário da ideia de que a invisibilidade significaria puramente a ideia negativa de visibilidade, já que esta funciona segundo pressupostos que vão além da capacidade de ver, pois a visibilidade também inclui, além da visão, as capacidades de identificar, conhecer. Em outras palavras, quem é invisibilizado socialmente sente que sequer é visto. Não entra em jogo o sentimento de que não é identificado ou reconhecido. A discrepância conceitual que se torna aparente entre invisibilidade visual e visibilidade ocorre com a transição para o conceito positivo, as condições governando a sua aplicabilidade são mais exigentes.
       Enquanto a invisibilidade no sentido visual significa apenas o fato de que um objeto não está presente como um objeto no campo perceptivo de uma pessoa, a visibilidade física requer que nós assumamos uma posição cognitiva diante do objeto dentro de uma estrutura espaço-temporal como algo com propriedades visuais relevantes. A qualidade de vida é um tema que merece destaque pelo fato de se tratar de questões sociais e políticas relacionadas diretamente com a maneira com que os indivíduos conduzem sua forma de vida. A qualidade de vida no trabalho pode ser definida como o conjunto das ações dentro da empresa que envolve a implantação e manutenção de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho. Representa, portanto, como a gestão e a educação para o bem-estar no trabalho, com decisões e escolhas baseadas na cultura organizacional e no estilo de vida dos diferentes segmentos ocupacionais. Apesar de ser uma linha de estudo recente e necessitar de detalhamento de situações concretas para melhor compreensão do tema, a qualidade de vida no ambiente de trabalho com diversas concepções e teorias, que trouxeram à tona fatores preponderantes  para o desenvolvimento da atividade administrativa em função das condições adequadas de trabalho, incentivos e recompensas salariais oportunas, cuidados com a saúde do trabalhador etc.                       
Ironicamente, o setor da construção civil brasileira, construído artesanalmente pelas mãos de operários majoritariamente analfabetos e sem qualificação técnica, paga o preço de anos sem investimentos em formação de pessoal. E agora, quando, finalmente, depois de quase três décadas de estagnação, o segmento retoma o ciclo de crescimento consistente e demanda um contingente de mão-de- obra expressiva para dar conta do aumento do volume de obras falta trabalhadores habilitados. Carpinteiros de formas, armadores e profissionais de escoramento já são figuras raras no mercado. E se nem mesmo aqueles que já atuam no setor respondem às necessidades do novo paradigma da construção, o que dizer dos mais de 20 milhões de desempregados do Brasil afora, que em outros tempos seriam aqueles que poderiam abastecer a demanda da construção, historicamente receptiva à mão-de-obra desqualificada e conhecida como a porta de entrada do trabalho? A questão é quem vai assumir a responsabilidade social e de mercado pela qualificação e formação de todo esse contingente de trabalhadores? A construção não apenas deixou de investir no aprimoramento de seus funcionários como também atrai mão-de-obra gradativamente menos qualificada, perdendo seus profissionais para as indústrias metalúrgica, têxtil e automobilística, mais atrativas. 


Porteiros são substituídos por equipamentos eletrônicos ou virtual.

A divisão do trabalho proposta por Adam Smith acabou resultando na concentração dos trabalhadores em centros produtivos, destinados à realização de operações mais ou menos similares e, simultaneamente, na organização dos diversos centros produtivos ao longo de certa cadeia de produção. Além disso, os trabalhadores não tinham ideia do processo produtivo como um todo, pois eram especialistas numa única tarefa. Por isso, tornava-se necessário controlar a sua atividade especializada, já que um erro nas múltiplas operações poderia ter consequências inesperadas nas tarefas subsequentes e nos produtos finais. Na fábrica, a divisão do trabalho em tarefas cada vez menores exige do trabalhador especialidade, domínio específico sobre determinada atividade. O trabalho, tecnicamente dividido em parcelas cada vez menores, implica na desqualificação do trabalhador. A parcelarização da atividade de trabalho corresponde à pulverização do saber científico e técnico do trabalhador, predominante ao longo de quase todo o século XX, pois a extração e o fracionamento do saber do trabalhador conheceram a sua forma mais aperfeiçoada desde o taylorismo e o toyotismo e o fracionamento na execução do trabalho tornou-se rotina com o modelo anterior adotado pelo fordismo e toyotismo em suas fábricas automobilísticas.                  
O toyotismo enquanto ideologia do mais trabalhorepresenta um sistema de organização voltado para a produção de mercadorias. Criado no Japão após a 2ª guerra mundial pelo engenheiro japonês Taiichi Ohno, o sistema foi aplicado na fábrica da Toyota originando o nome do sistema.  O Toyotismo espalhou-se a partir da década de 1960 por várias regiões do mundo e até hoje é aplicado em muitas empresas. Nesse sistema os trabalhadores se tornaram “corpos dóceis”, bem educados, treinados e qualificados para conhecer todos os processos de produção, podendo atuar em várias áreas do sistema produtivo da empresa. É um sistema flexível de mecanização, voltado para a produção “somente do necessário”, evitando ao máximo o excedente. A produção deve ser ajustada a demanda do mercado, com o uso aparente de controle visual em todas as etapas de produção como forma de acompanhar e controlar o processo produtivo, com a chamada implantação do “sistema de qualidade total” nas etapas de produção. Além da alta qualidade dos produtos, busca-se evitar ao máximo o desperdício de matérias-primas e tempo. É reconhecido pela aplicação do sistema Just in Time, ou seja, produzir somente o necessário, no tempo necessário e na quantidade necessária, utilizando a técnica da técnica de marketing de mercado para adaptar os produtos às exigências dos clientes.
Porteiro, também encarregado de portaria, é a designação da profissão onde o trabalhador deve ficar na porta da entrada de um estabelecimento para proteger a entrada indevida de estranhos. Este local é designado como portaria. Este profissional vigia dependências, áreas públicas e privadas, com a finalidade de prevenir, controlar e combater delitos do dia-a-dia como roubo, porte ilícito de armas e munições, e outras irregularidades. Estes trabalhadores zelam pela segurança das pessoas, do patrimônio e pelo cumprimento das leis e regulamentos; recepcionam e controlam a movimentação de pessoas em áreas de acesso livre e restrito; fiscalizam pessoas, cargas e patrimônio; escoltam pessoas e mercadorias. Controlam objetos e cargas, vigiam parques e reservas florestais, combatendo inclusive focos de incêndio. Comunicam-se via rádio, telefone fixo, celular ou interfone e prestam informações ao público e aos órgãos competentes. São condições de trabalho para inexperientes e de faixa etária diversificada. 

Entende-se por posto de trabalho ao “lugar praticado” por uma pessoa em uma empresa, instituição ou entidade qualquer que desenvolva algum tipo de atividade ou emprego para poder ganhar a vida e receber um salário determinado. O posto de trabalho é um conceito abstrato que significa que a atividade pela qual uma pessoa é contratada, recebe um salário devido ao seu esforço, à quantidade de horas trabalhadas, à necessidade de conhecimentos, ao perigo que o trabalho pode oferecer etc. 
        De qualquer forma, há muitos postos de trabalho que devido a suas implicações de tempo/espaço, não permitem à pessoa estabelecer laços sociais, pois são trabalhos solitários ou de serviço temporário. Quem é esse profissional de quem você recebe o primeiro bom dia quando chega ao trabalho e tem uma grande carga de vigilância e preconceito social? Ele não é uma figura muito presente nas pequenas cidades do interior brasileiro, mas nos grandes centros econômicos e políticos é muito comum encontrá-lo cuidando de portarias de prédios residenciais ou comerciais. Esse profissional é visto literalmente como porteiro, posto que represente “o cuidador de portas”, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, versão original que resultou do trabalho de pesquisa de mais de três décadas do reconhecido lexicógrafo, o Imortal Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. No programa Sai de Baixo, Ribamar era o porteiro do edifício Arouche Towers. O personagem se popularizou extrapolando as fronteiras de marca do programa, projetando seu personagem nordestino ao humorístico Zorra Total e se tornou uma das maiores figuras humorísticas de Tom Cavalcante.
A confecção do léxico teve início ainda nos anos 1950, quando o poeta Manuel Bandeira convidou o então professor da Fundação Getúlio Vargas, Aurélio Buarque, para auxiliar na redação do “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, da Civilização Brasileira. Da equipe formada então faziam parte Joaquim Campelo Marques e Marina Baird Ferreira (esposa de Aurélio) a que se juntaram mais tarde Margarida dos Anjos, Stella Rodrigo Otávio Moutinho e Elza Tavares Ferreira que, junto ao próprio Aurélio, foram os autores da primeira edição. A intenção inicial era sua publicação em suplementos da revista O Cruzeiro, o que não ocorreu, e em 1966 a equipe foi contratada, sob a condição de concluir o trabalho em dois anos, pelo editor Abraham Koogan. A nova iniciativa também fracassa, fazendo com que os próprios colaboradores fundassem uma editora - a JEMM - com o fim específico de publicar o dicionário. Após sucessivos atrasos, disputas entre os dicionaristas, a iniciativa também não vingou, sendo então procurados outros parceiros capazes de custear a iniciativa. Instituições públicas e privadas negaram-se a participar da edição, como o editor José Olympio ou o Banco Itaú, além de instituições estatais. Com a cassação do político Carlos Lacerda, este se voltara para sua editora Nova Fronteira. Através da mediação do cronista Rubem Braga, Lacerda se interessa em publicar o dicionário. Com os lucros da venda do romance O Exorcista, de Peter Blatty, finalmente teve o capital necessário para custear a primeira tiragem da obra, que se revelou um sucesso editorial.
Em tempos da monarquia entre Portugal e Brasil, comparativamente durante o processo de colonização chegaram a existir despachos públicos dos reis para louvar esta função quanto ao serviço prestado da Casa Real. Mas, eles e os contadores também desempenhavam as funções de contabilistas da mesma casa régia. O trabalho de porteiro em Portugal é uma profissão regulamentada. Na França é muito usado o termo concièrge “para designar uma pessoa responsável por uma casa, o que corresponderia antes ao zelador”. A designação também é usada para uma pessoa, “encarregada de orientar os hóspedes de um hotel e também prestar informações sobre os mais variados aspectos da cidade que está sendo visitada pelos hóspedes”. A função do concièrge é justamente “orientar os hóspedes para lhes proporcionar uma estada agradável e bem sucedidos na cidade visitada”. Em 2008 existiram no Brasil aproximadamente 414 mil pessoas exercendo a função de porteiro. O dia 9 de junho foi declarado o Dia do Porteiro. O porteiro pertence simultaneamente a posto e função da classe 5174 correlata aos porteiros e vigias segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).
“Sai de Baixo” (Rede Globo).
De acordo com a legislação do Ministério do Trabalho e Previdência Social referente ao emprego de portaria, (inc. II, parágrafo único, art. 87 CF/88), estão dispostas na Portaria nº 397, de 09 de outubro de 2002: CBO - 5174 - Porteiros e Vigias, 5174-05 – Porteiro (hotel) Atendente de portaria de hotel, Capitão porteiro; 5174-10 – Porteiro de edifícios – Guariteiro, Porteiro, Porteiro industrial; 5174-15 – Porteiros de locais de diversão – Agente de portaria. Descrição sumária: Zelam pela guarda do patrimônio de fábricas, armazéns, residências, estacionamentos, edifícios públicos, privados e outros estabelecimentos, entrada de pessoas estranhas e outras anormalidades. Controla o fluxo de pessoas, identificando, orientando e encaminhando-as para os lugares desejados, recebem hospedes em hotéis e fazem manutenções simples nos locais de trabalho na portaria em que exercem as suas funções regulares. Funções do Porteiro: 1º - Atendimento aos funcionários; 2º - Controle de entrada e saída de pessoas; 3º - Controle de entrada e saída de veículos; 4º - Controle de entrada e saída de mercadorias; 5º - Recebimentos e encaminhamento de documentos / correspondências; 6º - Identificação de cargas, embalagens e documentos; 7º - À circulação (entrada e saída) de mercadorias com a documentação fiscal em ordem; 8º - Encaminhamento de autoridades: Policiais / Judiciária; 9º - Atendimento e uso de telefones da empresa; 10º - Relação de telefone na portaria; 11º - Transmissão de recados urgentes ou não.
A tabela de Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) foi atualizada com 21 novas profissões registradas. Na lista, entraram as funções de sanitarista, técnico em espirometria (exame que mede velocidade de entrada e saída de ar dos pulmões), estoquista e monitor de ressocialização prisional. Agora, o Brasil possui 2.638 profissões reconhecidas. Os dados da CBO alimentam as bases estatísticas de trabalho e servem de subsídio para a formulação de políticas públicas de emprego. A atualização é feita levando em conta mudanças nos cenários tecnológico, cultural, econômico e social do País, que provocam alterações na dinâmica do mercado de trabalho brasileiro. O reconhecimento de uma ocupação é feito após um estudo das atividades e do perfil da categoria. São levadas em consideração informações descritas através da Relação Anual Informações Sociais (RAIS), demandas geradas pelo Sistema Nacional de Emprego (SINE), pelas associações e sindicatos tanto trabalhistas quanto patronais e por profissionais autônomos. No decorrer do processo social, são realizadas entrevistas em imersão com trabalhadores nos setores indicados. A chefa de Divisão da CBO, Cláudia Maria Virgílio de Carvalho, destaca a importância de ouvir todos os envolvidos. “Quem melhor pode falar sobre uma ocupação é quem desempenha a função”. A CBO é o documento que reconhece a existência de determinada ocupação, e não a sua regulamentação, que deve ser feita por lei e sancionada pela Presidência da República.
É a partir desta representação material entre coisas é que se configura o processo social de alienação do trabalho na portaria. O Capital mercantiliza as relações sociais, as pessoas enredadas em seu trabalho e as coisas. Ao mesmo tempo, pois, mercantiliza a força de trabalho, a energia humana que produz valor, transforma as pessoas em mercadorias, tornando-as adjetivas de sua força de trabalho. A mais-valia e a mercadoria são a condição e o produto das relações de dependência, alienação e antagonismo do operário e do capitalista, um em face do outro. A mais-valia e a mercadoria não podem ser compreendidas em si, mas como produto das relações de produção que reproduzem as relações de produção na sociedade global. Na análise dialética, elas surgem como realmente são, isto é, como propriedades naturalizadas a essas coisas e, por isso, ofuscam também a relação social com o trabalho total como uma relação social entre objetos, existentes à margem dos produtores. Marx utiliza a noção de fetichismo da mercadoria posto que é inseparável da produção.   

 
Francisco Evandro é cearense, porteiro e optou pela moradia no local de trabalho.A questão pode ser posta da seguinte forma: por que o trabalhador encarregado de uma portaria é visto pela sociedade brasileira do ponto de vista do preconceito e do desprezo social? A rotinização pode ser considerada uma variante da racionalização da tarefa e do cargo, mas quando utilizada integralmente um de seus princípios, modifica outro princípio e descarta outros. Assim é que, a rotinização do trabalho de porteiro não permite a formação de grupos. Separa o planejamento da execução da tarefa até um nível conveniente, sem estabelecer a maneira ótima de desempenho. Não procede ao selecionamento e desenvolvimento científico do trabalhador, mas através de relações pessoais. Não usa recompensas monetárias como fator motivacional para aumentar a produtividade no ambiente de trabalho. Na medida em que os princípios utilizados pelos métodos de racionalização do trabalho se justificam, em seu conjunto, em termos de busca de máxima produtividade, esta lógica é derivada de uma determinada concepção quanto ao trabalhador, sua função e ao mercado de mão-de-obra de uma forma geral.
Conforme dados da RAIS, existem no Brasil 413,7mil porteiros. O estado de São Paulo concentra o maior número: mais de 149 mil. A seguir vem o Rio de Janeiro com 55,6 mil e a terra de Tancredo Neves com 34,5mil. No Acre constam registrados apenas 204 porteiros. O Brasil vive uma conjuntura degradada de desvalorização da mão de obra. A insatisfação com o trabalho é um problema que a cada dia afetam profissionais, principalmente em ocupações com pouca exigência de qualificação de mão-de-obra. Falta de concentração, produção reduzida e distração são algumas das características de profissionais insatisfeitos. Pesquisa da ISMA Brasil (International Stress Management Association) demonstrou segundo amostragem que 72% das pessoas não estão insatisfeitas com o trabalho. Segundo a pesquisa, a insatisfação em 89% dos casos tem a ver com reconhecimento, em 78% com excesso de tarefas e em 63% com problemas de relacionamento. A pesquisa foi realizada nas três capitais mais representativas do Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre com amostragem de 1.034 profissionais no mercado de trabalho em 2014. O perfil profissional mais recorrente é o de um trabalhador com 33 anos, Ensino Médio incompleto, do sexo masculino que trabalha 44h semanais em grandes empresas do segmento de Serviços combinados para apoio a edifícios. A faixa salarial do Porteiro CBO 5174-10 é equiparada entre R$ 1.235,56 (média do piso salarial 2020 de acordos, convenções coletivas e dissídios), R$ 1.348,00 (salário da pesquisa) e o teto salarial de R$ 2.145,21, levando em conta carteira assinada em regime da Consolidação das Leis de Trabalho no Brasil.
Bibliografia geral consultada. 
RODRIGUES, José Honório, História, Corpo do Tempo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización: Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas. 2ª edicíon. México: Fondo de Cultura Económica, 1989; LIMONGI-FRANÇA, Ana Cristina, Indicadores Empresariais de Qualidade de Vida no Trabalho: Esforço Empresarial e Satisfação dos Empregados no Ambiente de Manufaturas com Certificação ISO 9000. Tese de Doutorado em Administração. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1996; GAVILÁN, Mirta, “La desvalorización del rol docente”. In: Revista Iberoamericana de Educación. La Plata, nº 19, pp. 211-227, 1999; FLOTTES, Anne, “La subjectivité dans le travail; est-elle vendable? À quel prix?”. In: Revue Travailler. Paris, nº4, pp.73-92, dec. 2000; DEL MAESTRO FILHO, Antônio, Modelo Relacional entre Modernização Organizacional, Práticas Inovadoras de Treinamento e Satisfação no Trabalho. Tese de Doutorado em administração. Faculdade de Ciências Econômicas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2004; SGARBI, Julio André, Domótica Inteligente: Automação Residencial Baseada em Comportamento. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica. São Bernardo do Campo: Centro Universitário da FEI, 2007; HONNETH, Axel, Luta por Reconhecimento. A Gramática Moral dos Conflitos Sociais. São Paulo: Editora 34, 2009; MENEZES, Luciane Sant`Anna de, Um Olhar Psicanalítico sobre a Precarização do Trabalho: Desamparo, Pulsão de Domínio de Servidão. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Instituto de Psicologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010; DOMINGUES, Ricardo Gil, A Domótica como Tendência na Habitação: Aplicação em Habitações de Interesse Social com Suporte aos Idosos e Incapacitados. Dissertação de Mestrado. Programa de Engenharia Urbana. Escola Politécnica. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013; SILVA NETO, Francisco Secundo da, A Gênese da Cultura Moleque Cearense: Análise Sociológica da Interpretação e Produção Culturais. Tese de Doutorado em Sociologia. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Ceará, 2015; NOGUEIRA, Mariana Lima, O Processo Histórico da Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde: Trabalho, Educação e Consciência Política Coletiva. Tese de Doutorado. Programa de Políticas Públicas e Formação Humana. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017; entre outros.