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domingo, 6 de setembro de 2026

Olimpíadas – Ginástica Artística, Nudez de Gênero & Competição Física.

 Grandeza, entidade variável, mas que, apesar da sua variação, continua sempre a ser a mesma”. Friedrich Hegel                                    

         A ginástica, enquanto um conjunto de práticas e saberes sociais em torno do exercício físico, afirmou-se na Antiguidade, estacionou na Idade Média, fundamentou-se na Idade Moderna e sistematizou-se geneticamente da Idade Contemporânea. A ginástica artística, enquanto atividade, teria surgido segundo estudos, na Grécia Antiga, como forma de atividade física atlética, e no Egito Antigo, comparativamente, onde as pessoas realizavam acrobacias circenses nas ruas com o intuito de entreter os transeuntes que ali passavam. Como a prática disciplinar constante desenvolvia habilidades corporais importantes, como a força e a elasticidade, ela passou a ser introduzida ao treinamento militar. Esta habilidade de uso fora realizada per se na Grécia onde a ginástica continuou a desenvolver-se. Em Roma, o apreço pela modalidade artística enquanto treinamento caiu em aparente desuso, e a ginástica passou a restringir-se a apresentações de circo que inspiravam os soldados antes das batalhas, enquanto estes davam à ginástica outros valores sociais em termos técnicos e militares. Seu ressurgimento na Era Moderna fora, como no princípio desenvolvido ligado à arte. A forma gímnica que chegou a Europa começou com o trampolim, tendo suas primeiras atividades descritas por Archange Tuccaro (1535-1602), no livro Trois Dialogues du Sr. Archange Tuccaro (1599), no século XV, ao Oeste europeu. Archange Tuccaro ou Tuccarro nascido na província de L`Aquila, foi um acrobata e equilibrista italiano que serviu ao Imperador Maximiliano II de Habsburgo e ao Rei Carlos IX da França. 

          Tuccaro escreveu um livro sobre acrobacias intitulado Diálogos sobre o Exercício de Saltar no Ar. Por ordem do Imperador Maximiliano II, foi um imperador eleito do Sacro Império Romano-Germânico, rei da Hungria entre 1564 e 1576 e rei da Boêmia entre 1564 e 1576. Filho de Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico e Ana da Hungria e Boêmia, nascido em Viena, mas educado em Innsbruck, capital do estado do Tirol, no Oeste da Áustria, é uma cidade nos Alpes e tradicional destino para a prática de esportes de inverno, foi arquiduque da Áustria até 1550, rei da Boêmia e rei dos romanos a partir de 1562, rei da Hungria a partir de 1563 e imperador do Sacro Império Romano-Germânico de 1564 até sua morte em 1576. Tuccaro participou da comitiva de sua filha, a Arquiduquesa Isabel, que foi à França para se casar com o Rei Carlos IX, que, depois de vê-lo se apresentar em Mézières, quis tê-lo ao seu lado, concedendo-lhe o título de “saltarin du roi” (“saltador do rei”) e nomeando-o seu instrutor de exercícios acrobáticos. Em 1599, Tuccaro publicou em Paris seu livro Dialogues de l`Exercice de Sauter et Voltiger en l`Aire, avec les Figuras qui Servent à la Parfaite Demonstration et Intelligence du Dit Art.  O livro, inovador, ipso facto escrito em forma de diálogo, foi publicado com 88 gravuras ilustrando mais de 50 exercícios acrobáticos. É considerado o primeiro método de ginástica do mundo e acredita-se que tenha sido escrito de fato por Tuccaro para instrução do Rei Carlos IX.

No Renascimento, os principais artistas faziam culto ao corpo humano e às suas formas. Assim, a prática da ginástica nas escolas tornou-se constante, e cada dia mais a modalidade ganhava espaço entre os homens. Jean-Jacques Rousseau(1712-1778), em meados de 1700, publicou um ensaio misto de educação e treinamento físico para as crianças, chamado Émile; ou, de l’Education, que modificou os padrões e sistematizou uma nova aplicação, incluindo a prática da ginástica. Inspirado na reforma, Johann Christoph Friedrich Guts Muths (1776-1838), implementou a ginástica natural, composta por exercícios aeróbicos, voltada ao benefício corporal e a artificial, voltada para a beleza, como a variedade de montes e desmontes do cavalo. Seu surgimento oficial, entretanto, só ocorreu em 1811, quando o professor Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852) fundou em Berlim, na Alemanha, o primeiro clube voltado apenas à prática da ginástica. Inspirado pelo espírito patriota e pelos escritos de Muths – também reconhecido pai da ginástica pedagógica e autor do livro Gimnastik fur die Jugend (1793) — Jahn inspirou muitos jovens da cidade em prol do orgulho de uma revanche contra as tropas imperialistas de Napoleão, em 1813, pela libertação prussiana e posterior unificação alemã, fornecendo-lhes o ideal histórico e o senso das antigas tradições da nação, através da prática da sistematizada ginástica.                                   

Além disso, este educador ainda criou regras específicas, aparelhos diferentes e um sistema de exercícios físicos chamado Die Deutsche Turnkunst (em português: A Arte Gímnica), ainda considerado matriz na ginástica artística praticada. Nesta mesma época, na Suécia, Pehr Henrik Ling (1776-1839) introduziu um tipo diferente de ginástica. Seu sistema, baseado no exercício coletivo, aspirava desenvolver um ritmo perfeito do movimento. Assim como a ginástica de Jahn, os métodos de Ling também foram adotados para o treinamento militar. Junto a essas escolas incipientes, nasceram os Clubes de Ginástica Internacionais. Estes clubes estabeleceram associações nacionais para controlar os treinamentos e as competições. Não tardou para que a Federação Internacional de Ginástica uma das entidades esportivas mais antigas do mundo fosse fundada em 1881. Quinze anos depois, a modalidade fora incluída no programa dos primeiros Jogos Olímpicos modernos, realizados em Atenas, na Grécia. Por razões da origem do nome, a entrada das mulheres nas competições se deu na edição de 1928 das Olimpíadas, que aconteceu em Amsterdã, na Holanda. O referido nome incluía a prática nua por parte dos ginastas. Por esta razão, os homens nos Jogos, competiam despidos da cintura para cima. Com a providência de vestirem-se por completo, as mulheres comparativamente nas competições físicas puderam tête-à-tête estrear nos campeonatos.

 A partir daí, a evolução histórica da ginástica enquanto desporto, deu-se ao longo de poucos anos e 1950 foi um momento em particular: as mulheres competiram em alguns aparelhos masculinos, como as argolas e a ginástica rítmica ainda fazia parte das apresentações artísticas. Pouco antes e em seguida, algumas provas foram acrescentadas e outras retiradas. Os aparelhos foram definidos para cada evento. E por fim, seu aprimoramento não para e a cada revisão das regras e métodos, a dificuldade e a beleza dos movimentos aumenta. Atualmente, a ginástica artística é um dos mais populares esportes, não apenas nos Jogos Olímpicos, e um dos mais exigentes para com seus atletas e praticantes. Baseada nessa evolução e popularização entre as mulheres, a modalidade artística tornou-se a rainha da FIG entre as demais práticas da ginástica. Surgida como um esporte tipicamente masculino, a modalidade artística globalizou-se como um desporto feminino, que hoje possui maior destaque, um maior número de praticantes e atletas mundialmente reconhecidas. A abordagem através da divisão sexual do trabalho, segundo Helena Hirata, deveria permitir o rompimento das categorias tradicionais da sociologia industrial e de uma das concepções marxistas da separação – demasiado simplista – entre a esfera produtiva (produção de valor) e a esfera reprodutiva (produção de valores de uso não mercantis), com vistas à elaboração de novos conceitos que superem de um lado, a universalidade apenas aparente das categorias da economia política, muito frequentemente calcadas num modelo masculino, e que rompam com a divisão rígida das disciplinas, que caracterizam atualmente as ciências sociais. 

Nosso objeto de estudo – a divisão sexual do trabalho na reprodução das relações mercantis no Japão – convém melhor do que qualquer outro para tal posicionamento, na medida em que o caso japonês é particularmente exemplar: fluidez da linha de demarcação entre tempo de trabalho e tempo de extratrabalho, atividade profissional e pessoal, pública e privada; fluidez  na qual desempenha um papel decisivo o lugar primitivo atribuído às mulheres no seio da sociedade capitalista desenvolvida. A primeira marca histórica do patriarcado na divisão do trabalho segundo os sexos aparece no nível da linguagem.  Essa divisão do trabalho segundo os sexos, indicada no nível da linguagem, é praticada desde o nascimento, pontuada por ritos e marcada por inumeráveis símbolos. Com efeito, a aceitação e a interiorização da divisão sexual do trabalho tanto entre trabalho doméstico e trabalho assalariado quanto no interior mesmo do trabalho assalariado são o objetivo da socialização inicial das crianças. Essa educação é condição prévia da aceitação e interiorização mesmas da autoridade mediante aprendizado, na escola, das formas de linguagem diferenciadas de acordo com o estatuto social do emissor e do receptor. Assim, desde o nascimento, a menina será educada dentro do respeito pelos homens, que serão os primeiros (contrariamente ao Ladies First da etiqueta ocidental) a ser servidos à mesa e a ter os melhores pedaços; os primeiros a entrar no banho; o que consagra e reproduza o preceito feudal das mulheres dentro e dos homens fora (“oto wa sotomawari, tsuma wa utimawari”) e a regra de obediência em ordem: quando jovem, ao pai; casada, ao marido, e idosa, ao primogênito. 

Esse duplo movimento impulsionou em vários países a abordagem da divisão sexual do trabalho para repensar a questão tópica do trabalho e suas categorias. Essas reflexões levaram a mudança de simbólica da sociologia da família e do paradigma funcionalista que lhe servia de base. No que se referem à sociologia do trabalho (cf. Braga, 1990) elas permitiram retomar noções e conceitos como de qualificação, produtividade, mobilidade social e abriram novos campos de pesquisa: relação de serviço, trabalhos de cuidado pessoal, mixidade no trabalho, ingresso das mulheres às profissões de nível superior, temporalidades sexuadas, vínculos entre políticas de emprego e políticas para família etc. Tal literatura tinha como escopo aspectos sociais como o crescimento das taxas de desempenho de atividade no trabalho, o perfil etário da mulher na composição da força de trabalho e as transformações sociais no padrão de mixidade em setores e ocupações enquanto tendências que também se verificavam em outros países.  A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa forma é modulada entre os sexos. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, per se, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.). Sobre essa definição, todo mundo, ou quase, está de acordo. Em nosso ponto de vista, era necessário ir mais longe ao plano conceitual.

Por isso, propusemos distinguir claramente os princípios da divisão sexual do trabalho e suas modalidades. Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios organizadores: o de separação existente entre trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e o princípio hierárquico, segundo o qual, um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher. Esses princípios são válidos tanto no plano teórico como empírico para todas as sociedades no tempo e no espaço. Portanto, pode ser aplicada mediante um processo específico de legitimação, a chamada ideologia naturalista. Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie. Com essa perspectiva naturalista e manipuladora da realidade, a ideologia naturalista dificulta a consciência de que a desigualdade entre os sexos é determinada por interesses socialmente construídos. Se os dois princípios (de separação e hierárquico) encontram-se em todas as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não significa, no entanto, que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável. Ao contrário, ela tem inclusive uma incrível plasticidade: suas modalidades concretas variam grandemente no tempo e no espaço, como demonstraram fartamente antropólogos e historiadores (as). O que é estável não são as situações (que evoluem sempre), e sim a distância entre os grupos de sexo. Esta análise deve tratar dessa distância, assim como das “condições”, pois, se é inegável que a condição feminina melhorou, pelo menos na sociedade francesa, a distância continua insuperável. 

Trata-se antes de tudo da aparição e do desenvolvimento, com a precarização e a flexibilização do emprego, de “nomadismos sexuados”, segundo Kergoat (1998): nomadismo no tempo, para as mulheres (é a explosão do trabalho em tempo parcial, geralmente associado a períodos de trabalho dispersos no dia e na semana); nomadismo no espaço, para homens com provisórios canteiros do Banque du Bâtiment et Travaux Publics (BTP) e do setor nuclear para os operários, banalização e aumento dos deslocamentos profissionais na Europa no mundo para executivos. Constata-se que a divisão sexual do trabalho molda as formas do trabalho e de emprego e, que a bendita “flexibilização” reforça as formas mais estereotipadas das relações sociais de sexo. O segundo exemplo é o da priorização do emprego feminino, que ilustra bem o cruzamento das relações sociais. Desde a década de 1980, o número de mulheres contabilizadas pelo Institut National de la Statistique et des Études Économiques - como “funcionários e profissões executivas de nível superior” mais do que dobrou; eles destacam que cerca de 10% das mulheres ativas são classificadas nessa categoria. Simultaneamente à precarização e à pobreza de um número crescente de mulheres, observa-se, portanto, o aumento dos capitais econômicos, culturais e sociais estudados desed Marx à Boudieu de uma proporção não desprezível de mulheres ativas no trabalho. Assiste-se também ao aparecimento, pela primeira vez na história social do capitalismo, de uma camada de mulheres cujos interesses diretos, isto é, não mediados como antes pelos homens: pai, esposo, amante, opõem-se frontalmente aos interesses daquelas que foram atingidas pela generalização do tempo parcial, pelos empregos em serviços muito mal remunerados e não reconhecidos socialmente e, de maneira mais geral, pela precariedade.                       

 Enfim, as mulheres das sociedades do Norte trabalham cada vez mais e, com uma frequência cada vez maior, são funcionárias e investem em suas carreiras. Como o trabalho doméstico nem sempre é levado em conta nas sociedades mercantis, e o envolvimento pessoal é cada vez mais solicitado, quando não exigido pelas novas formas de gestão de empresas, essas mulheres para realizar seu trabalho profissional precisam externalizar o trabalho doméstico. Para isso, podem recorrer à enorme reserva de mulheres em situação precária, sejam francesas ou imigrantes. Essa demanda, maciça no âmbito europeu, criou um imenso alento para as mulheres migrantes que chegam aos países do Norte com a esperança de conseguir um emprego de serviço, neste caso, particularmente no cuidado de crianças e idosos, no em prego doméstico e assim por diante. Essas mulheres, muitas vezes diplomadas, entram em concorrência direta com as dos países de origem, que têm situação precária e pouco estudo. Duas relações sociais entre mulheres, inéditas historicamente, estabelecem-se dessa maneira: uma relação de classe entre as mulheres do Norte, empregadoras, e essa nova classe servil; uma relação de concorrência entre mulheres, todas precárias, mas precárias de maneira diferente, dos países do Norte e dos países do Sul e, logo também, de etnias diferentes com a chegada e a esse mercado globalizado em movimento de mulheres dos países do Leste.

As relações étnicas começam assim a ser remodeladas através das migrações femininas e da explosão dos serviços a particulares. As relações de gênero também se apresentam de uma forma inédita: a externalização do trabalho doméstico tem uma função de apaziguamento das tensões nos casais burgueses dos países do Norte (e em inúmeros países urbanos do Sul, mas, nesse caso, trata-se de movimentos migratórios internos no país em questão) e permite igualmente maior flexibilidade das mulheres em relação à demanda de envolvimento das empresas. A reorganização simultânea do método e processo de trabalho no campo assalariado da oficina, da fábrica, e no campo doméstico da casa. O que remete, no que diz respeito a este último, à externalização do trabalho doméstico, mas também à nova divisão do trabalho doméstico, o maior envolvimento de certos pais é acompanhado de um envolvimento quase exclusivo no trabalho parental; duplo movimento de mascaramento, de atenuação das tensões nos casais, de um lado, e a acentuação das clivagens objetivas entre mulheres, de outro: ao mesmo tempo em que aumenta o número de mulheres em profissões de nível superior, cresce o de mulheres em situação precária de desemprego, flexibilidade, feminização das correntes migratórias.

 Esses movimentos desenvolvem-se em um nível material, a externalização, mas, evidentemente, estendem-se às representações ad hoc (os “novos pais”, o casal visto como lugar de negociação entre dois indivíduos iguais de direito e de fato). Contudo, é preciso rever agora a outra modalidade de teorização, a da divisão sexual do trabalho como vínculo social, pois é ela que fundamenta a tese, que hoje adquiriu o estatuto de política – e de política europeia a partir da cúpula de Luxemburgo em 1997 -, da conciliação vida familiar/vida profissional – política fortemente sexuada, visto que define implicitamente um único ator dessa conciliação: as mulheres, e consagra o statu quo segundo o qual homens e mulheres não são iguais perante o trabalho profissional. A ideia de uma complementaridade entre os sexos está inserida na tradição funcionalista da complementaridade de papéis. Remete a uma conceptualização em termos de vínculo social pelos conteúdos de sentido de suas noções como solidariedade orgânica, conciliação, coordenação, parceria, especialização e divisão de tarefas etc. A abordagem em termos de complementaridade, e por asim dizer, em opsição assimétrica, é coerente com a ideia de uma divisão de trabalho entre mulheres e homens do trabalho profissional e doméstico e, dentro do trabalho profissional, a divisão entre tipos sociais e modalidades de empregos que possibilitam a reprodução dos papéis sexuados. É essa expansão dos empregos em serviços nos países capitalistas ocidentais, tanto desenvolvidos como em vias de desenvolvimento, como o Brasil, que oferecem novas “soluções” para o antagonismo entre responsabilidades familiares e profissionais.   

Os Jogos Pan-Americanos de 2007, oficialmente denominados XV Jogos Pan-Americanos, foram um evento multiesportivo realizado em julho na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Durante os dezessete dias de competições, 5633 atletas de 42 países competiram em 332 eventos de 47 modalidades. O Rio de Janeiro foi eleito sede dos Jogos em 2002, vencendo a cidade de San Antonio, nos Estados Unidos. Nos cinco anos de preparação, diversos locais de competição foram construídos ou reformados e mais de vinte mil voluntários foram convocados para trabalhar no evento principal e em eventos preparatórios. Ações como a escolha do nome da mascote e o revezamento da Tocha Pan-Americana foram feitas para envolver todo o país na realização do Pan. Os Jogos do Rio de Janeiro criaram uma nova perspectiva e definiram novos marcos para os Jogos Pan-Americanos. Considerada uma competição olímpica de nível organizado, esta edição foi a mais cara na história do evento, com um orçamento de 2 bilhões de dólares. Os meios de comunicação relataram um interesse do público sem precedentes nos Jogos, com o maior público e maior audiência de televisão na história do Pan-Americano. Os jogos foram transmitidos em alta definição e todas as instalações esportivas estavam localizadas dentro dos limites da cidade de acolhimento. Esta edição do Pan foi marcada por atrasos nas obras, como também por polêmicas envolvendo a postura dos torcedores, que vaiaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de Abertura e atletas estrangeiros durante todo o evento, e pela deserção de quatro membros da delegação de Cuba. Durante o período do Pan também ocorreu o acidente com o Voo TAM 3054 em São Paulo, tendo sido decretado luto oficial pelo governo federal e pela ODEPA.

Dentro dos locais de competição, o Rio de Janeiro viu as conquistas da primeira medalha de Granada e do primeiro ouro de Antígua e Barbuda e El Salvador, os feitos de Thiago Pereira, o maior medalhista em uma única edição do Pan, e a vitória do Brasil no futebol feminino em um Maracanã lotado. Em agosto, foram realizados os Jogos Parapan-Americanos de 2007, que pela primeira vez ocorreram na mesma cidade e foram organizados pelo mesmo comitê do Pan. Foi a segunda vez que uma cidade brasileira recebeu os Jogos Pan-Americanos. A primeira edição sediada no Brasil ocorreu em 1963, em São Paulo. Enfim, para Hirata, os estudos de gênero têm, sobretudo, contribuído para ampliar o conceito de trabalho para além do trabalho profissional, restituindo a importância devida ao trabalho doméstico e ao trabalho exercido pelas mulheres no interior da família. A gratuidade dessa modalidade de trabalho repercute sobre o trabalho profissional das mulheres, que é constantemente desvalorizado e não reconhecido. Pensamos - afirma - que o debate marxista sobre trabalho produtivo e improdutivo, que dominou a polêmica sobre o trabalho doméstico nos anos 1970, foi suplantado pelo estudo empírico das características constitutivas do trabalho doméstico, como relação de “disponibilidade permanente” aos filhos, ao marido, ao companheiro, etc. Essas análises apontam para outra dimensão específica do trabalho, a dimensão da afetividade, do amor, que está no cerne do exercício do “care” no interior da família, base da sociedade. A dificuldade em lutar contra a divisão sexual do trabalho doméstico, que aloca à mulher as tarefas relacionadas ao ambiente da casa e às crianças, liberando o homem para as responsabilidades na esfera profissional, está nessa dimensão de afetividade, que cria relação precisa nesta perspectiva crítica de “servidão voluntária” das mulheres.

Bibliografia Geral Consultada.

JAEGER, Werner, Paidéia: los Ideales de la Cultura Griega. México: Fondo de Cultura Económica, 1962; MITZMAN, Arthur, La Jaula de Hierro. Una Interpretación Histórica de Max Weber. Madrid: Alianza Universidad, 1976; GUATTARI, Félix, As Três Ecologias. Campinas (SP): Editora Papirus, 1990; RODRIGUES, José Carlos, Ensaios em Antropologia do Poder. Rio de Janeiro: Editora Terranova, 1992; Idem, O Corpo na História. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999; HAURICH, Héctor, Hegel y la Lógica de la Pasión. Buenos Aires: Marymar Ediciones, 1995; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000; LAQUEUR, Thomas, Inventando o  Sexo: Corpo e Gênero, dos Gregos à Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001; KERGOAT, Daniele, “A Classe Operária tem Dois Sexos”. In: Revista de Estudos Feministas, Ano 2, 1º semestre, 1994; Idem, “Reestruturação Produtiva e Relações de Gênero”. In: Revista Latinoamericana de Estudos do Trabalho, Ano 4, n° 7, 1998; HIRATA, Helena; MARUANI, Margaret (Org.), Novas Fronteiras da Desigualdade: Homens e Mulheres no Mercado de Trabalho. 1ª edição São Paulo: Editora Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, 2003; HALL, Stuart, Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003; DEVIDE, Fabiano Pires, Gênero e Mulheres no Esporte: História das Mulheres nos Jogos Olímpicos. Ijuí: Unijuí, 2005; RAGO, Margareth, A Aventura de Contar-se: Feminismos, Escrita de Si e Invenções da Subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2015; ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric, A Busca da Excitação: Desporto e Lazer no Processo Civilizacional. 1ª edição. Lisboa: Edições 70, 2019; HOBSBAWM, Eric, A Era dos Impérios. 31ª edição. São Paulo: Editora Paz & Terra, 2022; GAUDÊNCIO, Marcelo Araujo; PENA, Graziele Borges de Oliveira; DARSIE, Marta Maria; PAULA, Jacqueline Borges de, “Fogo e Ciência Moderna no Mito de Prometeu: Reflexões à Luz da Filosofia Baconiana”. In: Veritas. Porto Alegre, vol. 71, n° 1, pp. 1-13, jan.-dez. 2026; ROAN, Dan, “Só Mulheres Biológicas Poderão Competir em Esportes Femininos nas Olimpíadas, Decide COI”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/26/03/2026; entre outros.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Ecúmeno – Retrospectiva & Agir Regulado, Personificação do Tempo.

                                                           Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. José Saramago    

                                 

          Escólio: A palavra “retrospectiva”, em primeiro lugar, tem origem no Latim e significa “olhar para trás”. A tradição de fazer uma retrospectiva no final do ano está ligada ao simbolismo do Ano Novo, que remonta a celebrações antigas e à figura do deus romano Jano. A palavra é formada pela junção de dois termos latinos: retros: significa “para trás”, acrescida de specio ou do verbo relacionado spectare: significa “olhar”, “observar” ou “inspecionar”. Portanto, “retrospectiva” significa literalmente o ato de olhar para eventos passados. Embora a palavra tenha uma origem linguística clara, a prática de refletir sobre o ano que passou no período de Ano Novo tem raízes culturais e históricas mais amplas: 1. O mês de janeiro (em inglês, January; em português, uma adaptação do latim Januarius) foi dedicado ao deus romano Jano (Janus). Jano era frequentemente representado com duas faces: uma olhando para o passado e outra para o futuro, simbolizando portais, começos e transições. Esse simbolismo se alinha perfeitamente com a ideia de refletir sobre o ano que termina e planejar o ano que se inicia. 2.  A virada do ano é um momento natural de fechamento de ciclo, que convida à reflexão sobre conquistas e desafios, servindo como base para estabelecer metas futuras. A origem da palavra é latina e a tradição de reflexão de final de ano conecta do ponto de vista da comunicação social essa ideia de “olhar para trás” com antigos rímulos de renovação e planejamento para o futuro. A popularização do formato de “retrospectiva” como um programa jornalístico de TV ocorreu a partir de 1967, quando a TV Globo começou a exibir anualmente um programa que relembrava os fatos marcantes do ano na última semana de dezembro. Isso ajudou a solidificar a prática no imaginário popular.

        O ecúmeno, do grego, oikoumêne, em segundo lugar, tem como significado “habitada (a Terra)”. Os antigos geógrafos gregos e, romanos, sabiam o tamanho aproximado do globo terrestre, mas, permaneciam ignorantes simbolicamente pensando de muitas de suas partes. Eratóstenes de Cirene (276-196 a.C.) deduziu a circunferência da Terra com notável precisão, dentro de 10% do valor correto. O cartógrafo grego Crates criou um globo por volta de 150 a. C. Cláudio Ptolomeu (83-161) calculou a superfície da Terra em sua Geografia e, descreveu a parte habitada como abrangendo 180 graus de longitude, das Ilhas Afortunadas no Oeste até Serica (Norte da China) no Leste e, cerca de 80 graus de latitude, de Thule no Norte até anti-Meroë abaixo do equador. Em sua extensão máxima possível, a ecumena antiga, se estendia do Norte da Europa até a África equatorial e, do Oceano Atlântico até o Oeste da China. Durante a Idade Média, essa imagem do mundo foi ampliada para acomodar a Escandinávia, o Atlântico Norte, o Leste Asiático e, eventualmente, a África subequatorial. Ptolomeu e, outros geógrafos antigos tinham uma visão limitada da ecumena e, se estendia a apenas um quarto do globo. Reconheciam a existência de “terras desconhecidas” (terrae incognitae) dentre as etnografias sobre a história da África, Europa e Ásia. A crença na simetria global levou muitos geógrafos greco-romanos a postular outros continentes em outras partes do globo, existiam em equilíbrio com a ecumena: Perioeci (lit. “ao lado da ecumena”), Antoeci (“oposto à ecumena”) e, os Antípodas (“oposto aos pés”). É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies vivos, incluindo os humanos, é o único corpo celeste onde é reconhecida a existência de vida. 

      Esses três termos são conceitos geográficos antigos, desenvolvidos por pensadores gregos como Estrabão, Ptolomeu e, por autores medievais, para descrever a relação hipotética de diferentes populações com a porção habitada da Terra, reconhecida como ecumena. A ideia da retrospectiva anual do tempo social deve sua origem, em grande parte, à revista americana Time, que começou a selecionar uma “Pessoa do Ano”, originalmente “Homem do Ano” em 1927. A tradição foi iniciada pelos editores da revista com o objetivo de destacar a pessoa ou grupo que mais influenciou os acontecimentos do ano anterior, para o bem ou para o mal. A primeira pessoa a receber o título foi o aviador Charles Lindbergh, em 1927, após seu histórico voo solo sobre o Atlântico, o segundo maior oceano do mundo, cobrindo cerca de 20% da superfície terrestre e separando a América (a Oeste) da Europa e África a Leste. Conecta-se ao Ártico, Antártico, Índico e Pacífico. A linha do Equador o divide em Atlântico Norte e Sul. Deriva da mitologia grega, referindo-se ao titã Atlas, que sustentava os céus. Com formato em “S”, é uma via de comunicação social, econômica e política, tendo sua progênie na colonização comercial vital, banha o Brasil e possui grandes reservas de petróleo e recursos minerais em sua plataforma continental. A seleção anual não é um prêmio de honra ou endosso, mas sim um reconhecimento de fato de quem moldou as notícias e a cultura global no período integral de 12 meses. Com os anos, essa prática admininstrativa se tornou tradição global, analogamente inspirando inúmeras outras publicações, empresas e indivíduos a realizarem suas próprias retrospectivas no final de cada ano.

                                                          

            Nascido em 1902, Charles Lindbergh era filho de Charles A. Lindbergh (1902-1974) que fora congressista de 1907 a 1917 e Evangelyne Lodge (1856-1954). Com 18 anos de idade ingressou no curso de engenharia. Dois anos depois, abandonou o curso. Lindbergh partiu do Condado de Nassau, Estado de Nova Iorque, na costa oriental dos Estados Unidos, em direção a Paris, França, em 20 de maio de 1927, tendo pousado na capital francesa no dia seguinte. O avião usado por Lindbergh chamava-se extraordinariamente “The Spirit of Saint Louis”. Ipso facto, o voo de Lindbergh durou 33 horas e 31 minutos. O feito de Lindbergh fez com que fosse galardoado com o Prêmio Orteig, de 25 mil dólares, em oferta desde 1919. Sua chegada a Paris foi triunfal. E a comemoração quase acabou em tragédia. Recebido calorosamente pelos parisienses, o piloto quase foi sufocado pela multidão que se aglomerava para cumprimentá-lo. Seu neto, Erik Lindbergh, repetiu a viagem em um avião semelhante ao usado por seu avô Charles, 75 anos depois, em 2002. Lindbergh não foi, porém, o primeiro aviador a fazer um voo transatlântico, feito que pertence a John Alcock (1942-2023) e Arthur Whitten Brown (1886-1948), cujo voo foi feito em 1919; em 1922 os portugueses Gago Coutinho (1869-1959) e Artur Sacadura Cabral (1881-1924) a primeira travessia do Atlântico recorrendo apenas a navegação astronômica, no que foi também a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

         Time, estilizado em caixa alta como TIME, é uma das mais reconhecidas revistas de notícias semanais do mundo, publicada nos Estados Unidos da América. Uma edição europeia da Time Europe, antes conhecida por Time Atlantic, também é publicada de Londres, e cobre o Oriente Médio, a África e desde 2003 a América Latina. Além disso, uma edição asiática (Time Asia) é editada de Hong Kong. Uma edição canadense (Time Canada) é editada de Toronto. Segundo muitos observadores da imprensa mundial, a Time é hoje a revista semanal de maior circulação no planeta. A Time tem a maior circulação de comunicação visual impressão do mundo para uma revista semanal de notícias e tem um público de 26 milhões de pessoas, 20 milhões das quais baseadas nos Estados Unidos. Em 2012 teve uma tiragem de 3,3 milhões de exemplares, tornando-se a 11ª revista de maior circulação nos Estados Unidos e a segunda de circulação semanal, atrás da People. Em 2015, a sua circulação foi de 3 036 602. Richard Stengel era o editor-chefe de maio de 2006 a outubro de 2013, quando entrou para o Departamento de Estado dos Estados Unidos. Nancy Gibbs foi a editora-chefe da publicação de 2013 a 2017, sendo substituída por Edward Felsenthal. A primeira edição da Time foi publicada em 3 de março de 1923, com Joseph G. Cannon, da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos na capa. Antes dos seus dois principais concorrentes atuais, a Time “inventou o conceito de revista semanal de notícias”. Foi cofundada em 1923 por Briton Hadden e Henry Luce.

Ambos tinham trabalhado juntos na Universidade de Yale, com Hadden e Luce servindo como presidente e editor-gerente, respectivamente, da Yale Daily News, uma revista feita pelos alunos da Universidade. Briton Hadden e Henry Luce serviram como presidente (chairman) e editor-gerente (managing editor) do Yale Daily News. Ambos foram colegas de classe e, apesar da rivalidade inicial, trabalharam juntos no jornal da Yale. Hadden morreu em 1929, e Luce tornou-se a pessoa principal na Time e ícone da mídia do século XX. Hadden era o mais solto dos dois, que “mexia” com Luce e via a Time como algo importante, mas também divertido. Isto influenciou o tom da revista, que muitas pessoas julgam não sério o suficiente para notícias sérias e cabe mais a sua extensa cobertura de celebridades incluindo políticos, da indústria de entretenimento e da cultura popular. A Time tornou-se parte da Time Warner em 1989 quando a Warner Communications e a Time Inc. fundiram-se comercialmente. A revista vinha fazendo parte da AOL Time Warner, que subsequentemente reverteu seu nome de volta para Time Warner em 2003. A AOL foi uma das pioneiras na internet em meados da década de 1990, e a marca mais reconhecida na web dos Estados Unidos. Originalmente ofereceu um serviço de internet discada para milhões de americanos, bem como fornecendo um portal web, e-mail, mensagens instantâneas e também um navegador web em seguida da compra da Netscape.

A principal e mais conhecida característica da revista é sua nomeação de Pessoa do Ano, que já é realizada desde 1927 na qual a Time reconhece o indivíduo ou grupo de indivíduos que tiveram o maior efeito nas notícias do ano. No passado, até mesmo ideias e máquinas tiveram a honra, como por exemplo, em 1982, um computador pessoal IBM foi considerado metaforicamente pela Time o “Homem do Ano”. A partir de 1999, o título foi alterado de “Homem do Ano” para Pessoa do Ano, para evitar a sugestão sexista. Os últimos a receberem o título de Homem do Ano, em 1998, foram o presidente Bill Clinton e o promotor Kenneth Starr, que o perseguiu no escândalo devido ao caso extraconjugal do presidente com Monica Lewinsky. Albert Einstein foi a pessoa do século na última edição da Time de 1999. Ao total, nove brasileiros já foram capa da revista, seis presidentes, um diplomata, um herpetólogo e um futebolista: Afrânio do Amaral, autor de Serpentes do Brasil, (1929); Júlio Prestes, o último presidente do Brasil eleito durante o período conhecido como República Velha, (1930); Getúlio Vargas, liderou a Revolução de 1930, depondo o 13º e último presidente da Primeira República Brasileira (1889-1930), Washington Luís, e impedindo a posse do presidente eleito em 1º de março de 1930, Júlio Prestes (1940); Osvaldo Aranha, na política internacional, buscando um consenso para resolver a questão da Palestina (1942); Café Filho (1954); Juscelino Kubitschek (1956); Jânio Quadros (1961); Costa e Silva (1967) e Neymar (2013).

O desenvolvimento do tema da justiça na concepção de teoria de Aristóteles, discípulo de Platão, tem sede no campo ético, ou seja, no campo de um saber que vem definido em sua teoria como saber prático. É da reunião das opiniões dos sábios, dentro de uma visão de todo o problema que surgiu uma concepção propriamente aristotélica. O mestre do Liceu tratou também a justiça a entendendo como virtude, assemelhada a todas as demais tratadas no curso. A justiça, assim definida como virtude, torna-se o escopo das atenções de um ramo do conhecimento humano que se dedica ao estudo próprio do comportamento humano; à ciência prática, intitulada ética, cumpre investigar e definir o que é o justo e o injusto, o que é ser temperante e o que é ser corajoso, o que é ser jactante, etc. Somente a educação ética (hábito em grego), a criação do hábito do comportamento ético, o que se faz com a prática à conduta diuturna do que é deliberado pela reta razão à esfera das ações humanas, pode construir um comportamento virtuoso, ou seja, um comportamento justo. A justiça, em meio as demais virtudes, que se opõem a dois extremos, caracteriza-se por uma peculiaridade: trata-se de uma virtude à qual não se opõe dois vícios diferentes, mas um único vício, que é a injustiça. Teoria da ação representa um nível abstrato da filosofia que se dedica à análise de processos que causam os movimentos voluntários de um tipo mais ou menos complexo.

Este nível de análise tem sido regra dos filósofos, principalmente desde a obra de Aristóteles, Ética a Nicômaco, a principal interpretação de Aristóteles sobre Ética. Nela se expõe sua concepção teleológica e eudaimonista de racionalidade prática, sua concepção da virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência. Em Aristóteles, toda racionalidade prática é teleológica, quer dizer, orientada para um fim, ou um bem, como está no texto. À Ética cabe determinar a “finalidade suprema” (o summum bonum), que preside e justifica todas as demais, e qual a maneira de alcançá-la. Essa finalidade suprema é a felicidade (eudaimonia), que não consiste, comparativamente, nem nos prazeres, nem nas riquezas, nem nas honras, mas numa vida virtuosa. A virtude, por sua vez, se encontra no justo meio de trabalho entre os extremos, da divisão do trabalho intelectual e, será encontrada por aquele “dotado de prudência” (phronesis) e educado pelo hábito no seu exercício. Vale destacar ipso facto que a ideia de virtude, na Grécia Antiga, não é idêntica ao conceito atualmente, muito influenciado tipicamente pela forma moralista pelo cristianismo. Virtude tinha o sentido da “excelência de cada ação”, ou seja, de “fazer bem feito”, na justa medida, cada vez em ato. Os valores sociais da conjuntura em que ele escreveu eram bem diferentes dos leitores atualmente; a palavra bem ou mal, por exemplo, apresenta significados totalmente opostos.

Desta forma, metodologicamente, o que é injusto ocupa na teoria dois polos diversos, ou seja, é ora injustiça por excesso, ora é injustiça por defeito. Desse modo, como o homem sem lei é injusto e o cumpridor da lei é justo, evidentemente todos os atos conforme à lei são atos justos em certo sentido, pois os atos prescritos pela arte do legislador são conforme a lei, e dizemos que cada um dele é justo. Aristóteles desenvolveu uma concepção de justiça muito eficiente sobre a qual vários países do mundo ocidental elaboraram medidas pragmáticas de punições para pessoas que cometerem crimes graves na sociedade, baseadas nos métodos de justiça criados por ele. A palavra equidade, por exemplo, carregada de conteúdo de sentido, tem origem no latim “aequitas” e quer dizer característica de algo ou alguém que “revela senso de justiça, imparcialidade, isenção e neutralidade: duvidou da equidade das eleições”. Correção no modo de agir ou de opinar; lisura; honestidade; igualdade: tratou-a com equidade. Disposição elementar para reconhecer a imparcialidade do direito de cada indivíduo. Assim, Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco, Livro V, aborda a questão da originalmente em torno da equidade enquanto princípio norteador indispensável para a efetivação da justiça.

Para o referido filósofo, o maior pensador da Antiguidade, a singularidade é que “o equitativo é justo, porém não o legalmente justo, e sim uma correção da justiça legal. A razão disto é que toda lei é universal, mas a respeito de certas coisas não é possível fazer uma afirmação universal que seja correta”. Diante de tal raciocínio, é possível constatar que para Aristóteles, a lei não é totalmente plena, no sentido de abranger todas as situações e problemas jurídicos aos quais a sociedade possa estar sujeita, ou seja, existe uma determinada lei, entretanto, podem existir situações que não foram pensadas pelo legislador e consequentemente não estão abrangidas por esta lei, mas que também necessitam de amparo legal. Desse modo, não seria justo que tal situação ou caso fosse ignorado por uma “falha” do legislador, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para permitir que aquele caso seja conhecido e apreciado quanto ao seu mérito de maneira justa, levando-se em consideração as peculiaridades do caso concreto. Aristóteles menciona ainda que “essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”, sendo que é justamente essa correção que torna justa a resolução do caso concreto. Desse modo é possível depreender por meio de um raciocínio lógico que toda lei é justa, mas nem tudo que é justo é abarcado pela lei, sendo necessário então a aplicação do princípio da equidade para que aquela situação que não foi abrangida pela lei tenha seu mérito analisado de maneira justa.

E é justamente por ter esse caráter corretivo e, também, complementarmente, que para Aristóteles, o equitativo é uma espécie superior de justiça: por se amoldar as mais diversas situações existentes no mundo fático, afinal, é claro e notório que a sociedade tem uma mutação/mudança social muito mais acelerada do que a legislação posta para a regular, até mesmo porque são as próprias mudanças da sociedade que vão embasar alterações na legislação. Da perspectiva da teoria da ação social, é só de maneira insatisfatória que as atividades do espírito humano podem ser restritas à confrontação cognitivo-instrumental, segundo Habermas (2012) com a natureza exterior; ações sociais orientam-se por valores culturais. Estes últimos, porém, não contam com um referencial de verdade. Assim, coloca-se a seguinte alternativa: ou negamos aos componentes “não cognitivos” da tradição cultural o status assumido pelas entidades do terceiro mundo graças à alojação delas em uma esfera de nexos de validade, e então nivelamos esses mesmos componentes de maneira empirista, como formas enunciativas do espírito subjetivo; ou procuramos equivalentes para o referencial de verdade que está ausente. Essa segunda via, como veremos, é escolhida ou mediada pela teoria da ciência de Max Weber. Ele tem mo mérito de distinguir do ponto de vista da teoria, diversas esferas culturais de valor – ciência e técnica, direito e moral, bem como arte e crítica. E também as esferas de valor não cognitivas constituem esferas de validade. Noções jurídicas e morais podem ser criticadas e analisadas sob o ponto de vista da correção normativa; obras de arte, sob o ponto de vista da autenticidade (ou beleza).

Pode-se trabalhá-las como campo autônomos de problemas. Entende que a tradição cultural no todo como uma provisão de saber, a partir da qual se podem formar “esferas especiais de valor” e “sistemas especiais de validade distintas”. Por isso ele atribuiria ao terceiro mundo tanto os componentes culturais avaliativos e expressivos quanto os cognitivos-instrumentais. Quando se escolhe essa alternativa, é preciso esclarecer o que podem significar “validade” e “saber” em face dos componentes “não cognitivos” da cultura. Este aspecto é muito importante na análise. Estes últimos, diversamente de teorias e enunciados, não podem ser ordenados a entidades do primeiro mundo. Valores culturais não cumprem uma função representativa. Segundo Habermas, desde Aristóteles, o conceito de agir teleológico está no centro da teoria filosófica da ação. O ator realiza um propósito ou ocasiona um estado almejado, à medida que escolhe em dada situação meios auspiciosos, para empregá-los de modo adequado. O conceito central é o da decisão entre diversas alternativas, voltada à realização de um propósito, de máximas e apoiada na interpretação da situação. O modelo teleológico do agir é ampliado a modelo estratégico, quando pelo menos um ator que atua orientado a determinados fins revela-se capaz de integrar ao “cálculo do êxito” a expectativa de decisões.

Esse modelo de ação é frequentemente interpretado de maneira utilitarista; aí se supõe que o ator escolhe e calcula os meios e fins, provavelmente no trabalho, segundo aspectos da maximização do proveito ou das expectativas de proveito. Esse modelo de ação, em economia, sociologia e psicologia social, está subjacente às abordagens vinculadas à decisão ou à teoria lúdica.  O conceito de agir regulado por normas não se refere ao comportamento de um ator, que encontra outros no entorno, mas a membros de um grupo social, que orientam seu agir segundo valores em comum. O ator individual segue uma norma (ou colide com ela), tão logo as condições se apresentem em uma dada situação na qual se possa emprega-las. As normas expressam o comum acordo subsistente em um grupo social. Todos os membros de um grupo social em que vale determinada norma podem esperar uns dos outros que cada um execute ou omita as ações preceituadas de acordo com determinadas situações. O conceito central de cumprimento da norma significa a satisfação de uma expectativa de comportamento generalizada. A expectativa de comportamento não tem o sentido cognitivo da expectativa de um acontecimento prognosticado, mas o sentido normativo de que o partícipe goze do direito à expectativa de um comportamento. Esse modelo normativo de ação subjaz à teoria dos papéis.

O conceito do “agir dramatúrgico” sociologicamente falando, seguindo as oegadasm de Jurgen Habermas não se refere primeiramente ao “ator solitário”, muito menos ao membro de um grupo social, mas aos participantes de uma interação social que constituem uns para os outros um público a cujos olhos eles se apresentam. O ator suscita em seu público uma determinada imagem, uma “impressão de si mesmo”, ao desvelar sua subjetividade em maior ou menor medida. Todo aquele que age pode controlar o acesso público à esfera de suas próprias intenções, pensamentos, posicionamentos, desejos, sentimentos, etc., à qual somente ele mesmo tem acesso. No “agir dramatúrgico”, os partícipes usam essa circunstância e monitoram sua interação por meio da regulação do acesso recíproco à subjetividade culturalmente própria. Portanto, filosoficamente o conceito central de “autorrepresentação” não significa a disciplina de  um comportamento expressivo espontâneo, mas per se a “estilização da expressão de vivências próprias endereçadas a expetadores”. Esse modelo dramatúrgico de ação serve em primeira linha a descrições da interação fenomenologicamente orientadas; até o momento, porém, ele não foi elaborado a ponto de construir uma abordagem teoricamente generalizante.

Enfim, para sermos breves, o conceito do agir comunicativo, refere-se à interação em sociedade de pelo menos dois sujeitos capazes de falar e agir que estabeleçam uma relação interpessoal, seja com meios verbais ou extraverbais. Os atores socialmente buscam um entendimento sobre a situação da ação para, de maneira concordante, coordenar seus planos de ação e, com isso, suas ações. O conceito central de interpretação refere-se em primeira linha à negociação de definições situacionais passíveis de consenso. Nesse modelo de ação a linguagem assume uma posição proeminente. O conceito de ação teleológico tornou-se produtivo pelas mãos dos fundadores do neoclassicismo, isto é, para uma teoria econômica das ações eletivas, e por John von Neumann (1903-1957) e Oskar Morgenstern (1902-1977) para a representação da teoria dos jogos estratégicos. Para a formação de teorias no campo das ciências sociais, o “conceito de agir regulado” por normas alcançou importância paradigmática por meio de Émile Durkheim e Talcott Parsons; o conceito de agir dramatúrgico por Erving Goffman; e o de agir comunicativo de George Herbert Mead (1863-1931) e, mais tarde, Harold Garfinkel (1917-2011).

A obra do sociólogo não é a do homem público, assevera Émile Durkheim. O que a experiência do passado demonstra, antes de mais nada, é que os marcos do grupo profissional devem guardar sempre uma relação com os marcos da vida econômica; foi por ter faltado com essa condição que o regime corporativo desapareceu. Portanto, já que o mercado, de municipal que era, tornou-se nacional e internacional, a corporação deve adquirir a mesma extensão. Em vez de ser limitada apenas aos artesãos de uma cidade, ela deve ampliar-se, de maneira a compreender todo os membros da profissão, dispersos em toda a extensão do território, porque, qualquer que seja a região em que se encontram, quer no campo, todos são solidários uns com os outros e participam da vida comum. Já que essa vida comum é, sob certos aspectos, independentemente de qualquer determinação territorial, tem que ser criado um órgão apropriado, que a exprima e regularize seu funcionamento. Por causa de suas dimensões, tal órgão estaria necessariamente em contato relacional com o órgão central da vida coletiva, pois os acontecimentos importantes o bastante para envolverem toda uma categoria de empresas industriais num país tem necessariamente repercussões bastante gerais, que o Estado não pode sentir, o que o leva a intervir. Não foi sem fundamento que o poder real tendeu indistintamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria. Era impossível que ele se desinteressasse por uma forma de atividade que por sua natureza, é capaz de afetar o conjunto da sociedade. Essa organização unitária para o conjunto de um mesmo país não exclui, de modo algum, a formação de órgãos secundários, que compreendam os trabalhadores similares de uma mesma região ou localidade, e cujo papel seria especializar ainda mais a regulamentação profissional segundo as necessidades locais ou regionais. A vida econômica poderia ser regulada e determinada, sem nada perder de sua diversidade. Por isso mesmo, o regime corporativo seria protegido contra essa propensão ao imobilismo, que lhe foi frequente e justamente criticada no passado, porque é um defeito que resultava do caráter estreitamente comunal da corporação.

  

Na síntese durkheimiana representada sobre o lugar de análise das corporações deve-se até supor que esteja destinada a se tornar a base, ou uma das bases essenciais de nossa organização política. Ela começa por ser exterior ao sistema social, tenderá a se empenhar de forma cada vez mais profunda nele, à medida que a vida econômica se desenvolve. Ela foi outrora a divisão elementar da organização comunal. Agora que a comuna, de organismo autônomo que era outrora, veio se perder no Estado, como o mercado municipal no mercado nacional, acaso não é legítimo pensar que a corporação também deveria sofrer uma transformação correspondente e tornar-se a divisão elementar do Estado, a unidade política fundamental? A sociedade, em vez de continuar sendo o que ainda é, um agregado de distritos territoriais justapostos, tornar-se-ia um vasto sistema de corporações nacionais. Mas essas divisões geográficas são, em sua maioria, artificiais e já não despertam em nós sentimentos profundos. O espírito provinciano desapareceu irremediavelmente: o “patriotismo de paróquia” tornou-se um arcaísmo que não se pode restaurar à vontade. Para o sociólogo uma nação só se pode manter se, entre o Estado e os particulares, se intercalar toda uma série de grupos secundários bastante próximos dos indivíduos para atraí-los fortemente em sua esfera de ação e arrastá-los, assim, na torrente geral emancipatória da vida social. Isso não quer dizer, porém, que a corporação seja uma espécie de panaceia capaz de servir a tudo. Será necessário que, em cada profissão, um corpo de regras se constitua, fixando a quantidade de trabalho, a justa remuneração dos diferentes funcionários, seu dever para com os demais e para com a comunidade, etc.  Estaremos, pois, não menos que atualmente, em presença de uma tábula rasa.  

A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que para que as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais ocorre quando um grupo é capaz de criar e reproduzir para si e para os outros a princípio só e sem rival.

Não podemos apresentar aqui em maiores detalhes a explanação analítica desses quatro conceitos. Interessa-nos muito mais as implicações das respectivas estratégias conceituais para a racionalidade. À primeira vista, apenas o conceito teleológico de ação parece colocar à disposição um aspecto da racionalidade da ação; o agir concebido como atividade propositada pode ser considerado sob o aspecto da racionalidade teleológica. Eis um ponto de vista sob o qual as ações podem ser planejadas ou cumpridas de maneira de maneira mais ou menos racional por uma terceira pessoa. Nos casos elementares da atividade propositada, pode-se representar o plano de ação sob a forma de um raciocínio prático. Os três outros modelos de ação aparentemente não posicionam o agir sob o ângulo da racionalidade e da possibilidade da questão em torno da racionalização. Mas bem se vê que essa aparência engana quando se têm presentes as pressuposições “ontológicas” em sentido mais amplo que, de maneira conceitual, estão necessariamente ligadas a esses modelos de ação. Nos modelos teleológico, normativo e dramatúrgico, nessa sequência, as pressuposições tornam-se não apenas mais complexas, mas desvelam ao mesmo tempo implicações para a racionalidade sempre mais intensas.

Não por acaso, enquanto muitos anjinhos descansam, vamos ao trabalho. Esta data significativamente é o Dia Mundial da Paz, além de Fraternidade Universal, um feriado adotado por quase todas as nações. O número de nações no mundo pode variar de acordo com os critérios estatísticos utilizados para contagem, e a instituição que serve de fonte. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), existem 193 países no mundo. No entanto, se considerarmos os países observadores, a ONU contabiliza 195 países. Por outro lado, o número de nações pode variar de acordo com o contexto social, econômico ou político. No mundo social olímpico, existem 206 nações. Isso porque, durante a maior parte da história dos Jogos Olímpicos, desde a antiguidade na Grécia, “não era necessário ser um país independente para participar.”  Quer dizer, pensando assim, a quantidade de países pode variar de 193 a 211, dependendo da fonte consultada e a esfera de intervenção. O número de países pode ser afetado sociologicamente por vários fatores socioambientais e geopolíticos, como, por exemplo: A definição de “país”. Questões geopolíticas de reconhecimento por nações-chave, por organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas. Os países existentes do mundo conforme a classificação política da ONU, são atualmente 193 países no mundo. Cinco países que fazem parte da Organização das Nações Unidas, incluindo os membros permanentes do Conselho de Segurança com poder de veto, são: Estados Unidos; China; França; Reino Unido; Rússia. O planeta Terra é azul; formado em torno de 70% de água. Desse total, mais de 97% está nos oceanos e mares.

Bibliografia Geral Consultada.

HOBSBAWM, Eric, Estudios de História de la Clase Obrera. Barcelona: Editorial Crítica, 1979; MOISÉS, José Álvaro, “PT: Una Novedad Histórica?”. In: Cuadernos de Marcha. México. Volume 9, pp. 11-19, 1980; CHARLE, Christophe, Naissance des Intelectuels – 1880-l890. Paris: Éditions Minuit, 1990; POLLAK, Michael, “L’Historien et le Sociologue: Le Tournant Épistémologique des Années 1960 aux Années 1980”. In: Écrire l’Histoire du Temps Présent. Paris: CNRS Editions, 1993; GATI, Charles, Failed Illusions: Moscow, Washington, Budapest and the 1956 Hungarian Revolt. Stanford: Stanford University Press, 2006; FERGUSON, Niall, La Guerra del Mundo. Barcelona: Editor Debate, 2007; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; ADORNO, Theodor, The Meaning of Working Through the Past. Cambridge: Harvard University Press, 2010; BUONANNO, Elda, La Frantumaglia: Elena Ferrante`s “Fragmented Self”. PhD Thesis. New York: City University of New York, 2011; HABERMAS, Jürgen, Teoria do Agir Comunicativo. 1. Racionalidade da ação e Racionalização Social. São Paulo: WMF/Editora Martins Fontes, 2012; RAVAZZOLO, Angela, A Escrita da História por Jornalistas: Diálogos e Distanciamentos com a Historiografia Acadêmica: O Caso Elio Gaspari. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012; CARDOSO, Viviane Pedroso Domingues, Uma Cidade, Várias Narrativas: Análise Interpretativa das Monografias Premiadas do Concurso História de Bairros de São Paulo. Dissertação de Mestrado em História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; ALVES, Francisco Eduardo; SCHURSTER, Karl (Organizadores), Atlântico: A História de um Oceano. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora ‎ Civilização Brasileira, 2013; DELACROIX, Christian, “A História do Tempo Presente, Uma História (Realmente) Como as Outras?”. In: Tempo e Argumento, 2018; PINA NETA, Lucy da Silva, Ressignificar para Manter-se Fiel: Dom Helder Câmara e o Exercício do seu Ministério Sacerdotal (1955-1965). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2019; PONZIO, Augusto, “Prospettiva Dostoevskij. L’arte di Parlare dell’altro Come se Parlasse a se Stesso, Rendendolo così Inevitabilmente Amato”. In: Revista Cerrados, 31(58), 178–185; 2022; ABRAMOVITCH, Seth, “Why Aziz Ansari, Keanu Reeves and Seth Rogen Are Praying for a Little Good Fortune”. In: The Hollywood Reporter, 3 de setembro de 2025; entre outros.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Pão de Açúcar - Gastronomia Carioca, Cultura Indígena, Africana & Árabe.

          Um alimento não é somente bom para comer, mas também para pensar”. Claude Lévi-Strauss    

               

            Além dos estabelecimentos comerciais tradicionais o Rio de Janeiro também abriga restaurantes renomados pela sofisticação, utilidade de uso e gastronomia premiada. O Oro, comandado pelo chef Felipe Bronze, é reconhecido nacional e internacionalmente, recebendo duas estrelas Michelin e destacando-se na culinária contemporânea carioca. O Cipriani, localizado no Hotel Copacabana Palace, é uma referência na cozinha italiana refinada, tendo sido premiado em diversas edições do Guia Michelin (1900). O Lasai, com uma estrela Michelin, é reconhecido por sua proposta contemporânea, tendo como escopo ingredientes orgânicos e frescos, e é considerado um exemplo da avant-garde da culinária carioca. O Mee, “un restaurant Une Étoile: une cuisine d`une grande finesse dans le Guide Michelin Brésil 2025”, no Hotel Santa Teresa, especializado em cozinha asiática contemporânea, também recebeu uma estrela Michelin, consolidando-se como um dos principais restaurantes da cidade. A migração de nordestinos para o Rio de Janeiro, especialmente a partir do século XX, teve um impacto significativo na cultura e na gastronomia da cidade. A culinária nordestina, rica em sabores e tradições, trouxe pratos que se integraram ao cotidiano carioca. A Feira de São Cristóvão, oficialmente reconhecida como Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, é um marco dessa influência. 

        Originalmente uma reunião espontânea de nordestinos que se encontravam nos arredores do Campo de São Cristóvão, nas proximidades do centro da cidade, a feira evoluiu para um espaço cultural permanente, onde se destacam restaurantes e barracas que servem iguarias típicas como carne de Sol, baião de dois, acarajé e tapioca.  Além da gastronomia, o local é um centro de difusão da música, dança e artesanato nordestinos, reforçando a presença continuamente dessa cultura no Rio de Janeiro. A influência nordestina também se manifesta em outras áreas geográficas da cidade, com a popularização de pratos e ingredientes típicos em diversos estabelecimentos, refletindo a integração e a contribuição significativa dos migrantes nordestinos para a diversidade cultural e gastronômica carioca. Além das influências mais marcantes na gastronomia carioca, como a africana, indígena e nordestina, a cidade também recebeu contribuições significativas de outras culturas ao longo do tempo. Entre elas, destacam-se a culinária árabe e a asiática, que, apesar de serem presenças mais recentes na história da cidade, conquistaram espaço e ajudaram a moldar a identidade gastronômica contemporânea do Rio de Janeiro. Estabelecimentos de comida asiática e árabe podem ser encontrados por toda cidade. 

          Culinária árabe: A imigração árabe, especialmente de sírios e libaneses, intensificou-se no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Esses imigrantes trouxeram consigo uma rica tradição culinária, introduzindo deliciosos pratos como quibe, esfiha, homus e tabule, que rapidamente se integraram ao paladar brasileiro. No Rio de Janeiro, a presença árabe é notável em áreas como o centro da cidade, onde estabelecimentos tradicionais oferecem essas iguarias há décadas. A região conhecida como Saara, Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, por exemplo, se tornou um importante centro comercial fundado por imigrantes árabes. O Bar do Elias, que tem mais de 30 anos de tradição na culinária árabe, com várias unidades espalhadas pela capital fluminense. Culinária asiática: A culinária asiática, especialmente a japonesa, começou a ganhar espaço no Rio de Janeiro a partir da década de 1930, com a abertura de estabelecimentos como a Pensão Japonesa e a Pensão Laranjeiras, que ofereciam pratos típicos aos moradores. Embora a presença tenha sido modesta, inicialmente, a popularidade da culinária japonesa cresceu nas últimas décadas, tornando-se parte integrante da cena gastronômica carioca. O sushi, por exemplo, se popularizou principalmente a partir dos anos 2000. Diferente da África, do Nordeste ou da cultura indígena, a presença asiática na gastronomia carioca veio mais por tendências da globalização do que por um processo histórico de longa duração.

A culinária italiana tem uma forte presença no Rio de Janeiro, resultado da imigração italiana que começou no final do século XIX. Os imigrantes italianos trouxeram pratos como pizza, risotos, massas frescas e artesanais, como o ravioli e o tortellini, e molhos à base de tomate, que se tornaram essenciais na gastronomia carioca. A pizza, em particular, é um dos pratos mais consumidos pelos cariocas, com variações locais como camarão e queijo coalho. Além disso, o uso de ingredientes como queijos curados, vinhos italianos e embutidos como a mortadela se tornou comum. Restaurantes italianos, como o Cipriani, tornaram-se ícones da culinária refinada da cidade, e a fusão de sabores regionais com as receitas italianas gerou novos pratos tradicionais para consumo. Culinária espanhola: A influência espanhola na gastronomia carioca é notável especialmente nos pratos à base de frutos do mar e nas tapas, que se popularizaram em bares e restaurantes da cidade. A culinária espanhola chegou ao Brasil com a imigração, especialmente no século XIX, trazendo ingredientes como azeite de oliva, alho e pimentões. Paella, uma das receitas mais emblemáticas da Espanha, também encontrou seu espaço nos cardápios dos restaurantes cariocas. Com o tempo, a culinária espanhola se adaptou aos ingredientes locais, criando pratos como paella de frutos do mar típicos da região e outros pratos que misturam a tradição espanhola com os sabores brasileiros.     

O Bondinho do Pão de Açúcar é um teleférico localizado no bairro da Urca, no município do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil. É um extraordinário processo de comunicação que liga a Praia Vermelha ao Morro da Urca e ao Morro do Pão de Açúcar. É uma das principais atrações turísticas da cidade. Foi inaugurado em seu primeiro trecho, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca em 27 de outubro de 1912 e, desde então, já transportou cerca de 37 milhões de pessoas, mantendo uma média atual de 2 500 visitantes por dia. O seu nome (cf. Ginzburg e Poni,1979) vem da semelhança dos carros do teleférico com os bondes que circulavam no Rio de Janeiro à época de sua inauguração. O Bondinho é privatizado, administrado pela concessionária Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, empresa criada pelo idealizador do projeto, o engenheiro Augusto Ferreira Ramos (1860-1939) desde a sua construção. Foi um engenheiro lente da Escola Politécnica de São Paulo e o idealizador do caminho aéreo do Pão de Açúcar. A ele se deve também um plano de valorização do café. Interessante, neste aspecto, examinar a obra “História da Riqueza no Brasil - Cinco Séculos de Pessoas, Costumes e Governos”, do historiador Jorge Caldeira, que atribui ao plano concebido por Augusto Ramos, de valorização do café entabulados no Convênio de Taubaté, um período crescimento e desenvolvimento da economia. Pai de Teodoro Ramos, engenheiro e físico que fez parte da criação da Universidade de São Paulo. Uma herma está localizada no Morro da Urca, obra do escultor Armando Schnoor.

A vista panorâmica da Baía da Guanabara, considerada uma das paisagens mais belas do mundo, era o atrativo que levava curiosos e alpinistas a escalar o Pão de Açúcar, em fins do século XIX. O desenvolvimento das técnicas de engenharia e a realização da Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, em 1908, no bairro da Urca, motivaram o engenheiro Augusto Ferreira Ramos a idealizar um sistema teleférico que facilitasse o acesso humano ao cume do monte. Quando o bondinho foi construído, só existiam dois no mundo globalizado: o teleférico de Monte Ulia, na Espanha, com uma extensão de 280 metros e que foi construído em 1907; e o teleférico de Wetterhorn, na Suíça, com uma extensão de 560 metros, construído em 1908. Politicamente falando, Augusto Ramos teve de recorrer sociologicamente à influência de figuras reconhecidas socialmente da alta sociedade carioca, como Eduardo Guinle (1846-1912), um empreiteiro, industrial e banqueiro brasileiro. Foi o patriarca dos Guinle no Brasil, uma das famílias mais ricas do país entre o Império e os governos militares. A proximidade elitista do poder na capital federal, a cidade do Rio de Janeiro, favoreceu sobremaneira os negócios em torno da economia política da família Guinle, desde o século XVII em Bazet e arredores, onde foram membros da pequena burguesia, que explorou por noventa anos o Porto de Santos e executou diversas obras públicas no país. As operações de carga na região de Santos e São Vicente remontam ao princípio do Século XVI, ocorrendo de forma primitiva com a utilização de trapiches, por meio dos quais a mão de obra transportava as mercadorias aos navios ou a barcos intermediários. A movimentação de cargas era explorada de forma independente por diversos agentes.

A partir de 1870, a Coroa passou a buscar alternativas de expansão do setor portuário para a crescente oferta de exportação da produção cafeeira. Em 1886, foi iniciado o processo legal de concessão do Porto de Santos, que envolvia os direitos de exploração da movimentação portuária por 90 anos, com a contrapartida de realização de obras de investimento em infraestrutura, operação e saneamento. Os vencedores da concessão foram o grupo liderado por Eduardo Guinle (1844-1912) e Cândido Gaffrée (1845-1920), então comerciantes no Rio de Janeiro, que para tanto administraram o Porto de Santos com a Gaffrée, Guinle e Cia., depois renomeada Empresa de Melhoramentos do Porto de Santos e finalmente com o nome ficou amplamente conhecida, Companhia Docas de Santos. O porto foi explorado, desenvolvido e ampliado pela companhia, sob a gestão da então concessionária Companhia Docas de Santos, entre 7 de novembro de 1890 e 8 de novembro de 1980. Em 2 de fevereiro de 1892, o porto abriu suas “portas ao comércio exterior como porto organizado”, com limites legalmente determinados, infraestrutura de 260 metros de cais construído e área específica para armazenagem. A primeira embarcação a atracar no novo porto, foi o Vapor britânico Nasmith. Francisco de Paula Ribeiro foi o superintendente da Companhia Docas de Santos entre os anos de 1888 e 1902, supervisionando e administrando a construção dessa infraestrutura.        

No início do Século XIX, Santos foi um dos principais portos brasileiros para o desembarque de imigrantes, que afluíam principalmente da Itália e do Japão. Porém, a infraestrutura da cidade e suas atividades econômicas não comportavam o acolhimento destes indivíduos, que rapidamente se distribuíam para o interior do estado. Nesta época, Santos era conhecido como o “Porto da Morte”, em virtude das diversas epidemias de doenças tropicais que acometiam periodicamente a população, acirradas pela falta de saneamento básico e condições precárias de moradia e higiene da população, bem como pela natureza alagadiça da cidade; este cenário alterou-se com as obras sanitárias realizadas por Saturnino de Britto (1864-1929) o Secretário do Interior do Estado, Vicente de Carvalho, que criou os canais de drenagem que são tornaram-se marcos da paisagem urbana santista. Em 1897, Santos teve a primeira greve organizada do País, deflagrada por um acidente em navio.  Com o passar dos anos a estrutura foi ampliada e desenvolvida de acordo com os investimentos realizados pela companhia, que chegou a empregar 15 mil funcionários. Além das diversas estruturas de terminais e dos prédios administrativos, a companhia executou diversas obras de engenharia de destaque para seu tempo, seja por sua dimensão geograficamente ou por sua complexidade. São particularmente notáveis o aterramento de Paquetá-Outeirinhos e a construção da Usina Hidrelétrica de Itatinga, ambas sob a direção do engenheiro Guilherme Benjamin Weinschenck.

Alguns analistas, mutatis mutandis, apontam que a transferência da capital in partibus infidelium para Brasília teria sido uma das causas da derrocada financeira do clã. Eduardo era filho dos imigrantes franceses, Jean-Arnauld Guinle e Josephine Désirée Bernardine Palassin, que emigraram para o Uruguai e depois para o Brasil e Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968), para promover a ideia do teleférico. A família teve sua fortuna originada com Eduardo Palassin Guinle (1846-1912), que no centro do Rio de Janeiro estabelecera por volta de 1870 um armazém de produtos importados em sociedade com Candido Gaffrée (1845-1920), ambos gaúchos, chamado Aux Tuileries, e logo expandiria suas atividades para a construção de estradas e ferrovias, e aquisições imobiliárias até finalmente conseguirem uma concessão de 90 anos que os tornaria milionários: o porto de Santos. Em 1882 a sociedade recebeu autorização do Estado para a reforma e consequente administração política do porto, que logo se tornaria o principal escoadouro da maior riqueza do país, na época: o café; isto viria a gerar durante nove décadas renda estimada em valores corrigidos a fortuna de 92 bilhões de dólares. Outros investimentos foram acrescidos, ao longo da história, como em petróleo, geração elétrica e, por fim, o Banco Boavista. Dentre as muitas propriedades da família estava a luxuosa residência de campo conhecida por Granja Comary, centro de treinamento da Seleção Brasileira de Futebol, deixando marcas arquitetônicas na capital fluminense como o Hospital Gaffrée e Guinle na Tijuca, a sede do Parque da Cidade ou o Palácio de Brocoió. 

A riqueza, contudo, não evitava que a fortuna acabasse: foi o que aconteceu ao primogênito de Palassin Guinle, Eduardo Guinle (1878-1941), que em 1913 mandara erguer por residência, com projeto do arquiteto Joseph Gire (1872-1933), o Palácio Laranjeiras (hoje pertencente ao governo estadual) imitando o Casino de Monte Carlo e com luxos únicos no país: mármore carrara, granito húngaro, tacos vindos da Bélgica e móveis com folhas de ouro francês - mesmo país do escultor dos dois leões de pedra que guardam a entrada, em tamanho natural: Georges Gardet (1863-1939), um escultor e animalier francês, especialista em esculturas de leões responsável por um leão no Jardim de Luxemburgo, em Paris. A obra acabou levando-o à falência, algo que viria a se repetir na família, dona de fortunas gastas de forma colossal até a ruína. A esposa do patriarca, Guilhermina (1854-1925), além de dividir o leito com o sócio do marido e que seria pai de três dos sete filhos, tinha “excentricidades como levar por dutos subterrâneos a água do mar até sua piscina na mansão na Avenida Atlântica, em Copacabana”. Quando morreu o marido este empresário deixou uma fortuna avaliada em 2 bilhões de dólares.

Castro Maya também foi um empresário brasileiro, atuante em atividades industriais (fabrico de óleos vegetais para uso doméstico e industrial) e em atividades comerciais (comércio atacadista de tecidos), que se destacou sobretudo como grande colecionador de arte, formando grande acervo, que mais tarde viria a ser objeto da Fundação Castro Maya, que os mantém em exposição permanente nos Museu da Chácara do Céu, e Museu do Açude, ambos abertos ao público nas suas então residências, em Santa Teresa e Alto da Boa Vista, respectivamente, na cidade do Rio de Janeiro. Era filho do engenheiro Raymundo de Castro Maya, homem culto à época, e que fora pessoalmente convidado por D. Pedro II (1825-1891) para ser preceptor de seus netos, tendo destacando-se como técnico da Estrada de Ferro D. Pedro II (Estrada de Ferro Central do Brasil), e de Teodósia Ottoni de Castro Maia, herdeira de tradicional família de liberais mineiros. Bacharel em direito, industrial, esportista e incentivador dos esportes, pioneiro da preocupação ecológica, editor de livros, colecionador, fundador de museus e de sociedades culturais, defensor do patrimônio histórico, artístico e natural, Castro Maia era uma personagem real da cena carioca, que se destacava em um Rio de Janeiro, do início e de meados do século XX, que clamava por cultura, tal como ele muito a tinha, e deixou de sobra. Sua maior empresa fora a Cia. Carioca Industrial, conhecida por seu produto mais popular, a Gordura de Coco Carioca. Castro Maia era ainda o detentor sobre os direitos da conhecida marca Tigre de óleos vegetais, fabricados em suas indústrias.

Para construir o teleférico, foram necessários mais de 400 operários-escaladores, cada um subindo com algumas peças para os topos dos morros da Urca e do Pão de Açúcar para que fossem montadas. Durante o século XVIII, monges que viviam nos Alpes entre a Itália e a Suíça mantiveram cães para ajudá-los nas missões de resgate em épocas de nevascas. Por mais de 200 anos, cerca de 2 mil pessoas, entre crianças e soldados, se perderam nos Alpes e foram salvos pelos cães heróis do mosteiro e hospício Gran St. Bernard. No século IX, existe um primeiro hospício ou mosteiro junto ao passo (lado suíço), em Bourg-Saint-Pierre. É mencionado pela primeira vez por volta de 812-820. O mosteiro de Mont-Joux é dedicado a Saint-Pierre (abbatia montis Jovis Sancti Petri). O Passo do Grande São Bernardo usa o nome de Mont-Joux (Mons Iovis) durante este período. O mosteiro de Bourg-Saint-Pierre foi destruído por ataques sarracenos em meados do século X, provavelmente em 940, quando também ocuparam Saint-Maurice. Em torno de 1050, São Bernardo de Aosta de Menthon ou Mont-Joux, antigo nome do passo do Grande São Bernardo, arquidiácono de Aosta, vendo regularmente viajantes chegarem aterrorizados e roubados, decide pôr um fim à brigada na montanha. Para esse fim, fundou, no topo do passo do Grande São Bernardo, o hospício que mais tarde levaria seu nome. A igreja do hospício é dedicada a São Nicolau. É o fato da menção da igreja surgir em apenas um documento de 1125. O hospício do Grande São Bernardo está sob a jurisdição do bispo de Sião, prefeito e conde de Valais. Essa particularidade explica o fato de que todo o passo está hoje localizado no território suíço.

 Sua história como Porto Organizado em 1892 (cf. Benedito Calixto/Reprodução/APS). Em 1823, o edifício do hospício foi aumentado em um piso sob a direção do arquiteto de Lausana, Henri Perregaux. O hospício do Grande São Bernardo serviu como noviciado. Foi aqui que o Beato Maurice Tornay (1910-1949) estudou antes de partir para Yunnan. É no hospício que a raça São-Bernardo foi criada, resultante de cruzamentos de cães provavelmente oferecidos pelas famílias do Valais nos anos de 1660 a 1670. Uma primeira menção é feita em 1709. O objetivo da criação foi inicialmente fornecer cães de guarda e defesa para o hospício antes de se tornarem cães de resgate nas montanhas. A fazenda de criação da raça foi transferida para uma fundação, a fundação Barry localizada em Martigny, em 2005. Esta fundação está empenhada em manter a raça e deixar cães no hospício no verão. Devido ao olfato aguçado, peito largo, resistência ao frio, porte físico robusto e lealdade, esses cães foram designados para ajudar Napoleão e seus soldados a cruzarem a passagem de St. Bernard, nome que foi utilizado para designar futuramente a raça dos cachorros entre 1790 e 1810. Após tomar o poder da França durante do golpe de Estado 18 do Brumário, em 9 de novembro de 1799, analisado em clássico estudo do filósofo Karl Marx, Napoleão estava determinado a retornar à Itália para reintegrar as tropas francesas e retomar o território ocupado pelos austríacos no ano anterior.

Na primavera de 1800 ele conduziu o Exército de Reserva para a travessia dos Alpes através do Grande São Bernardo, fronteira entre a Suíça e a Itália. Nessa conjuntura política, os austríacos estavam com suas forças concentradas em direção à Gênova, e por julgarem impossível a travessia dos franceses pelo monte São Bernardo, fatalmente deixaram o flanco desprotegido. Não foi sem dificuldades que os soldados realizaram a travessia. Ao cruzar os Alpes, eles conheceram o rigoroso inverno dos cumes nevados e enfrentaram tempestades de neve e avalanches. A empreitada de Napoleão, parte da Segunda Campanha da Itália, acabou com a vitória de Bonaparte sobre os austríacos, que foram surpreendidos pelo ataque geopolítico do Exército de Reserva. Cortando as linhas de comunicação, em duas semanas os soldados recuperam boa parte do território que fora tomado tout court da França na primavera de 1799. Tal vitória estreitou as relações internacionais de Bonaparte com o rei espanhol Carlos IV. Para restabelecer as relações diplomáticas, foram feitas as tradicionais trocas de presentes, entre eles a pintura encomendada a Jacques-Louis David. Charles-Jean-Marie Alquier, embaixador francês na Espanha, solicitou o quadro original de David e este ficou exposto no Palácio Real de Madrid. 

Mais três versões foram produzidas: uma para o Castelo de Saint-Cloud, outra para o Palácio dos Inválidos e a terceira para o palácio da República Cisalpina, em Milão. A quinta versão foi produzida por David e permaneceu em sua oficina até a sua morte. Com o sucesso nos resgates, os cachorros da raça São Bernardo ficaram famosos, contudo, aquele que mais se destacaria na História seria Barry der Menschenretter no século XIX. Barry viveu no Hospício de Gran St. Bernard entre os anos de 1800 e 1814. Segundo relatos etnográficos e documentos de seu tempo, o cão herói chegou a salvar mais de 40 pessoas de congelamento e das condições traiçoeiras dos Alpes. O resgate mais famoso de Barry foi representado de uma criança perdida. Durante uma patrulha, Barry encontrou um menino tentando se esconder do frio no fundo de uma caverna. Imediatamente o cão se deitou sobre a criança para aquecê-la, carregando-a em suas costas até o mosteiro. Após doze anos prestando socorro nas montanhas, Barry foi levado à Berna, Suíça, por um monge para que pudesse viver o resto da vida em paz. Dois anos depois, o cão herói morreu de velhice e seu corpo foi entregue ao Museu de História Natural de Berna, que o eternizou através da taxidermia. Um guincho auxiliou na subida dos cabos de aço. Ainda é possível ver os pinos colocados por escaladores na rocha na subida pelo Costão do Pão de Açúcar.          

Os carrinhos com capacidade para 22 pessoas foram importados da Alemanha. À inauguração do bondinho, em 27 de outubro de 1912, o teleférico só subia da Praia Vermelha até o morro da Urca. Três meses depois, em 18 de janeiro de 1913, já ia até o alto do Pão de Açúcar. Em outubro de 1972, uma segunda linha, paralela, foi inaugurada, e os cabos de aços e os bondinhos foram trocados. As novas cabines importadas da Itália tinham capacidade triplicada para 75 passageiros. Com mais espaço e dois bondes em funcionamento, o fluxo aumentou de 115 para passageiros e para 1 360 passageiros por hora. Posteriormente, a capacidade foi reduzida para 65 por questões de conforto. O bondinho foi cenário do filme 007 Contra o Foguete da Morte, de 1979, no qual o agente secreto britânico James Bond, interpretado pelo ator Roger Moore (1927-2017) derrota seu inimigo Dentes de Aço, interpretado por Richard Kiel (1939-2014). Ainda em 1979, o equilibrista Steven McPeak caminhou sobre o cabo de aço, no trecho mais alto do percurso do bondinho e venceu a distância entre os morros da Urca e do Pão de Açúcar, caminhando pelos cabos do teleférico. 

Uma vara metálica como contrapeso ajudou o audacioso equilibrista a cumprir sua missão. Em 2002, quando completou 90 anos, a data foi comemorada com um grande show do cantor Roberto Carlos, no Aterro do Flamengo. Em 2011, a estação da Urca foi escolhida para o lançamento do filme Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, com direito à presença do ator Tom Felton. Em 2012, ano que completou 100 anos, foi homenageado pelo Google com um doodle. O bondinho funciona das 8 às 20 horas ao longo de duas rotas: uma ligando a base do morro da Babilônia ao morro da Urca e outra ligando o morro da Urca ao pico do Pão de Açúcar. A primeira linha (estação inicial - morro da Urca) possui extensão de 600 metros e a velocidade máxima durante a viagem é de 6 metros por segundo (21,6 quilômetros por hora). A segunda linha (morro da Urca - Pão de Açúcar) possui extensão de 850 metros e a velocidade máxima durante a viagem é de 10 metros por segundo (36 km/h). A capacidade atual é de 65 passageiros por viagem. Como o trajeto de cada linha é realizado em aproximadamente 3 minutos, a capacidade do teleférico é de 1 200 passageiros por hora. Mais de 40 milhões de passageiros já circularam no bondinho. O projeto original previa uma terceira ligação entre os morros de Urca e o da Babilônia, no Leme, descartada por cruzar uma área de segurança nacional.

Gastronomia carioca tem como representação social um termo usado para se referir ao conjunto de práticas alimentares, pratos, produtos e ingredientes típicos urbanos da cidade do Rio de Janeiro, um dos destinos turísticos mais populares do Brasil e do mundo contemporâneo. A formação da culinária carioca teve início no período colonial, com a invasão dos portugueses ao Rio de Janeiro em 1565. Os colonizadores trouxeram ingredientes e técnicas culinárias europeias, que se mesclaram às tradições alimentares dos povos indígenas originários. Os indígenas já utilizavam amplamente a mandioca, o milho e diversas frutas em sua dieta. A introdução de ingredientes como trigo, açúcar, carnes bovina e suína pelos portugueses resultou em uma culinária híbrida, misturando elementos europeus e nativos. No século XVIII, o Rio de Janeiro tornou-se a capital do Brasil Colônia, intensificando o fluxo de influências culturais e gastronômicas. A introdução de escravizados africanos na passagem do trabalho escravo para o trabalho assalariado adicionou novos elementos à culinária local, como o uso do azeite de dendê, quiabo e técnicas específicas. Pratos como o caruru e o vatapá têm origem nessa fusão afro-brasileira. A “abertura dos portos”, em 1808, permitiu a entrada de produtos e influências de outras partes do mundo, diversificando ainda mais a gastronomia carioca.

No início do século XX, o Rio de Janeiro passou por um processo de urbanização refletindo-se na sua culinária. A influência de imigrantes europeus, especialmente italianos e franceses, trouxe novos pratos e estabelecimentos gastronômicos à cidade. As confeitarias e restaurantes tornaram-se pontos de encontro e consumo da elite carioca, oferecendo uma variedade de pratos que mesclavam tradições locais e europeias. Com forte influência de diversas culturas, como a portuguesa, africana, indígena e árabe, a gastronomia carioca é uma cultura alimentar que combina ingredientes tropicais com métodos e técnicas de trabalho culinárias introduzidas na démarche dos séculos por colonizadores e imigrantes no âmbito do processo civilizatório. Esse extraordinário dinamismo cultural reflete a diversidade originária da riqueza étnica como arquétipo e constructo da cidade, um dos maiores centros gastronômicos do Brasil. Entre os pratos mais famosos está a feijoada carioca, tradicionalmente servida às sextas-feiras e sábados, considerada um prato símbolo da gastronomia nacional. Outro destaque é o filé à Oswaldo Aranha (1894-1960), criado em homenagem ao diplomata gaúcho que frequentava os restaurantes cariocas na década de 1930. 

A feira de rua, com seus pastéis e coxinhas, é uma parte do cotidiano local, especialmente nos bairros populares da Zona Norte e Oeste. O açaí na tigela, servido com granola, banana e outras coberturas, se tornou um alimento típico das praias da cidade. Camarões, siri e peixes frescos também têm destaque, com pratos como moqueca e bobó de camarão sendo servidos em restaurantes e quiosques à beira-mar. Na cidade também são famosos os churrasquinhos de rua, frequentemente vendidos em botequins e quiosques, assim como o queijo coalho grelhado, que também é um lanche típico de praia. Vários pontos da cidade oferecem uma rica experiência de culinária nordestina, com pratos como acarajé, carne de Sol e baião de dois. Em contraste, o pão de queijo também tem seu espaço, especialmente no café da manhã e no lanche da tarde. Na cultura dos botequins petiscos como bolinho de bacalhau e de feijoada fazem parte do cotidiano. A cidade do Rio de Janeiro abriga milhares de estabelecimentos e produtos populares que preservam receitas transmitidas por gerações. A comida de rua desempenha um papel fundamental na economia de diversos pontos da cidade, e é possível encontrar uma variedade de preparos que se tornaram parte da cultura carioca. Desde os mais simples até os mais elaborados, cada prato tem sua própria história social e, em alguns casos, esses sabores tradicionais foram reconhecidos historicamente e se tornaram patrimônio cultural da cidade. Entre os estabelecimentos mais antigos e tradicionais, alguns se destacam pelo seu valor, como é o caso da Confeitaria Colombo (1894), símbolo de sofisticação, famosa pelos doces e pelo ambiente art nouveau.

Antes da invasão dos colonizadores europeus, os povos indígenas que habitavam a região do atual Rio de Janeiro possuíam uma dieta rica e diversificada, fundamentada nos recursos naturais disponíveis. A mandioca, por exemplo, era amplamente utilizada na preparação de alimentos como o beiju e a tapioca, que permanecem populares na culinária carioca atual. Além disso, técnicas de cozimento como assar alimentos em folhas de bananeira e o uso de utensílios de cerâmica para cozinhar foram incorporadas e adaptadas ao longo dos séculos, influenciando práticas culinárias contemporâneas. O consumo de peixes e frutos do mar, abundantes na região, também é uma herança direta das práticas alimentares indígenas. Essas contribuições sociais são fundamentais para a identidade gastronômica do Rio de Janeiro, refletindo a integração de saberes tradicionais indígenas na cultura alimentar local. A presença africana na culinária carioca remonta ao período colonial, quando escravizados trazidos da África Ocidental e Central introduziram ingredientes, técnicas e preparações que se tornaram fundamentais na gastronomia local. O uso intensivo do dendê, do quiabo e da pimenta, além de pratos como o caruru e o vatapá, são heranças diretas desse intercâmbio cultural. No Rio de Janeiro, uma das principais contribuições africanas foi a valorização econômica e social das feijoadas, que se tornaram um dos pratos mais emblemáticos da cidade. Originalmente associada aos hábitos alimentares dos escravizados, a feijoada passou por um processo de adaptação ao longo dos séculos, incorporando ingredientes como carne seca e embutidos. Outro exemplo é o angu, uma preparação à base de fubá, consumida tanto de forma simples quanto acompanhada por molhos de carne ou frutos do mar.  

A culinária afro-carioca também se expressa através dos tabuleiros de baianas que vendem quitutes como acarajé, abará e cocada. Esses elementos da tradição alimentar afro-brasileira são mantidos vivos por comunidades religiosas de matriz africana, que preservam receitas ancestrais ligadas aos orixás e promovem eventos culturais e gastronômicos. Nos últimos anos, movimentos de valorização da gastronomia afrodescendente ganharam força no Rio de Janeiro. Iniciativas como festivais de comida africana e afro-brasileira, a atuação de chefs especializados e a inserção de pratos tradicionais em restaurantes contemporâneos têm contribuído para a preservação e a renovação dessa identidade gastronômica. Projetos como o “Circuito Gastronomia de Terreiro” buscam fortalecer a conexão entre a comida e as tradições religiosas afro-brasileiras, enquanto espaços culturais promovem debates e oficinas sobre a influência africana na alimentação carioca. Nos séculos XIX e XX, o Rio de Janeiro se consolidou como o centro cultural e político do Brasil, o que contribuiu para o desenvolvimento de uma gastronomia sofisticada. 

Durante o período imperial, o Rio era palco de grandes jantares de gala e eventos sociais, onde a culinária francesa e portuguesa predominavam nas mesas da alta sociedade. A França exerceu influência na gastronomia carioca, refletida na sofisticação dos restaurantes, que adotavam cardápios elegantes e priorizavam molhos elaborados e técnicas refinadas. Paralelamente, a herança portuguesa se manifestava na popularidade do bacalhau, ingrediente típico da culinária lusitana, que foi incorporado aos cardápios sofisticados da cidade. No início do século XX, o Rio de Janeiro também foi impactado pela cuisine nouvelle, uma vertente moderna da gastronomia francesa que passou a ter utilidade de uso, no sentido marxista adotada por restaurantes de alto padrão. Essa evolução trouxe uma abordagem mais leve e criativa às receitas clássicas, valorizando a apresentação e a valorização dos ingredientes. O Café Lamas (1874), no bairro do Flamengo, é reconhecido pelo filé à Oswaldo Aranha, tendo sido ponto de encontro e figuração (cf. Elias, 1988; 1994) de personagens históricas. No Centro, o Armazém Senado (1907) mantém seu clima de comunicação informal e petiscos clássicos, enquanto o Rio Minho (1884) é referência em comida portuguesa, especialmente bacalhau. A Leiteria Mineira (1907) e a Casa Paladino (1906) preservam receitas tradicionais mineiras e italianas, respectivamente. A Casa Urich (1913) e o Amarelinho da Cinelândia (1947) são ícones da boemia carioca, reconhecidos pelo ambiente descontraído. O Bar do Joia, fundado nos anos 1909, segue tradicional com pratos como feijoada servida às sextas e bolinho de bacalhau. A lista de estabelecimentos históricos e tradicionais é robusta, e muitos desses locais são reconhecidos oficialmente como patrimônios tombados pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com a preservação de suas estruturas, receitas e relevância cultural.

O conceito de figuração distingue-se de muitos outros conceitos teóricos da sociologia de Norbert Elias (1989) por incluir expressamente os seres humanos em sua formação. Contrasta, portanto, decididamente com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, portanto por meio do ingresso do singular no mundo simbólico específico de uma figuração já existente dos seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos socialmente aprendidos. Sem sua apropriação, sem, por exemplo, o aprendizado de uma determinada língua especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo nem de se comunicar uns com os outros. Um ser humano adulto que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo permanece fora de todas as figurações humanas e, portanto, não é propriamente um ser humano. O crescimento de um jovem em figurações humanas, como processo e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregularão na relação processual com os seres humanos, é condição indispensável do desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização de um ser humano são, portanto, nomes diferentes para o mesmo processo.

Cada ser humano assemelha-se aos outros e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Em seu ersatz o convívio dos seres humanos em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na maior desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isso o que o conceito de figuração exprime. Uma geração os transmite a outra sem estar consciente do processo como um todo, e os conceitos sobrevivem enquanto esta cristalização de experiências passadas e situações retiver um valor existencial, uma função na existência concreta da sociedade – isto é, enquanto gerações sucessivas puderem identificar suas próprias experiências no significado das palavras. Em ocasiões, eles apenas adormecem, ou o fazem em certos aspectos, e adquirem um valor existencial com nova situação. São relembrados porque alguma coisa encontra expressão na cristalização do passado corporificada nas palavras.

As novas relações econômicas e a necessidade de desenvolvimento motivaram entes subnacionais a se relacionar e cooperar com o mundo civilizado exterior. Não queremos perder de vista que as novas tecnologias da informação, os avanços nas telecomunicações, a diminuição nos custos de transporte de cargas e pessoas também contribuíram para essa mudança, afinal tornaram o plano internacional mais acessível. Ipso facto, a dimensão metodológica do conceito de processo social refere-se às transformações amplas, contínuas, de longa duração – ou seja, em geral não aquém de três gerações - de figurações formadas por seres humanos, ou de seus aspectos, em uma de duas direções opostas. Uma delas tem, geralmente, o caráter de uma ascensão, a outra o caráter decorrente de um declínio. Em ambos os casos, os critérios são puramente objetivos. Eles independem do fato de o respectivo observador os considerar bons ou ruins. Exemplos extraordinários desses fatos são a diferenciação crescente e decrescente de funções sociais, o aumento ou a diminuição do “capital social”, ou melhor, do patrimônio social do saber, do nível de controle humano sobre a natureza não-humana ou da compaixão por outros homens, pertençam eles ao grupo estabelecido que for. 

Um deles pode tornar-se dominante, e ao outro manter o equilíbrio. Assim um processo dominante e hegemônico direcionado a uma maior integração política, pode, sucessivamente, andar de par com uma desintegração parcial. Mas, inversamente, um processo dominante de desintegração social, como por exemplo, o processo de feudalização pode conduzir sob certas condições a uma reintegração sob novas bases, a princípio parcial e a seguir dominante; portanto, a um novo processo de formação do Estado. Como um apanhado algo sumário do que se apurou até aqui na investigação empírico-teórica das transformações civilizatória acerca de seu próprio direcionamento, pode-se dizer que dentre os principais critérios para um processo de civilização estão as transformações do habitus social dos seres humanos na direção de um modelo de autocontrole mais bem proporcionado, universal, estável. Mas o que é decisivo é que estes conceitos portam o selo não de seitas ou famílias, mas de povos inteiros, ou talvez apenas de certas classes. Mas, em muitos aspectos, o que se aplica a palavras específicas de grupos menores estende-se também a eles: são usados basicamente por e para povos que compartilham uma tradição e situação particulares, polindo-os na fala e na escrita. É neste sentido que o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos. 

Manifesta a autoconfiança de povos cujas fronteiras nacionais e identidade nacional forma plenamente estabelecidas, desde séculos, que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que expandiram além das fronteiras e colonizaram terras delas. Em contraste, o conceito alemão Kultur dá ênfase especial a diferenças nacionais e à identidade particular de grupos. Em virtude disto, o conceito adquiriu em campos como a pesquisa etnológica e antropológica uma significação muito além da área linguística alemã e da situação em que se originou o conceito. Enquanto o conceito de civilização inclui a função de dar expressão a uma tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores, o conceito de Kultur reflete a consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar e constituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político como no espiritual. A orientação do conceito alemão de cultura, para Norbert Elias, com sua tendência à demarcação e ênfase em diferenças, e no seu detalhamento, entre grupos, corresponde a este processo histórico. A história coletiva neles se cristalizou e ressoa. O indivíduo encontra essa cristalização em utilidade. Não sabe bem por que este significado e delimitação estão implicadas nas palavras, que nesta nuance e possibilidade delas podem ser de fato derivadas.

Bibliografia Geral Consultada.

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