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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Lamartine Babo – Invenção da Mulata & Centenário de Nascimento.

                Consagrado no gramado, sempre amado, o mais cotado. Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus! Lamartine Babo                                 

           As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. A forma como grupos de uma mesma “conexão geracional” lida com os fatos históricos vividos, por sua geração, fará surgir distintas unidades geracionais no âmbito da mesma conexão geracional no conjunto da sociedade. Karl Mannheim não esconde sua preferência pela abordagem histórico-romântica alemã e destaca ainda que este é um exemplo bastante claro de como a forma de se colocar uma questão pode variar de país para país, assim como de uma época para outra. Ao invés de associar as gerações a um conceito de tempo externalizado e mecanicista, pautado por um princípio de linearidade, o pensamento histórico-romântico alemão se esforça por buscar no problema geracional uma contraproposta diante da linearidade do fluxo temporal da história. Suas inquietações no plano metodológico apresentam como fio condutor e boutade o estigma e suas consequências sociais, percebidos a partir de diversos ângulos, mas sua principal temática de investigação é de fato a questão racial. Ele publicou em sua progênie os seguintes ensaios etnológicos: “Atitude Desfavorável de Alguns Anunciantes de São Paulo em Relação aos Empregados de Cor” (1942) e “Preconceito de Marca: As Relações Raciais em Itapetininga” (1955) e também “Negro político, político negro”, seu último trabalho. 

Todos eles versam sobre as distintas formas e condicionamentos sociais sobre os quais de constituem as manifestações de preconceito, aspecto que organiza o entendimento da questão racial brasileira. Após anos de estudos e pesquisas de Oracy Nogueira (1917-1996) chegou-se à conclusão que o estilo de racismo à brasileira caracteriza-se pelo “preconceito de marca”. Assim, o preconceito de marca se estabeleceria em relação às aparências. Quando toma por pretexto para as suas manifestações de vida, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gostos, o sotaque, caracterizando a marca. Mas basta a suposição de que o indivíduo descende de grupo étnico, para que supra as consequências do preconceito: diz-se que é de origem. O impacto desses estudos foi assimilado de modo traumático porque havia na ideologia brasileira e na academia, como ambiente cultural, certo compromisso com a tese sociológica da democracia racial. Com os trabalhos de Roger Bastide (1898-1974) e Florestan Fernandes (1920-1995), em “Negros e brancos em São Paulo”, é que foi revelada, por trás das relações, o preconceito racial com o preconceito de classe e, portanto, o preconceito racial constitutivo da sociabilidade na sociedade brasileira. Oracy Nogueira compreende que os estudos que tratam da “situação racial” brasileira, no que se refere ao negro (e ao mestiço de negro), podem ser divididos em três correntes: 1) a corrente afro-brasileira, a que deram impulso Nina Rodrigues e Arthur Ramos (1903-1949), e os estudiosos que mais diretamente foram influenciados por ambos; e que, sob a influência de Melville Jean Herskovits (1895-1963), um antropólogo, pesquisador e professor universitário norte-americano que firmemente estabeleceu Estudos africanos e Estudos afro-americanos na academia americana. 

Ipso facto, ele prossegue, sob uma forma renovada, com os trabalhos de René Ribeiro, Roger Bastide e outros, podendo ser caracterizada como aquela corrente que dá ênfase ao estudo do processo de aculturação, preocupada em determinar a contribuição das culturas africanas à formação da cultura brasileira; 2) a dos estudos históricos, em que se procura mostrar como ingressou o negro na sociedade brasileira, a receptividade que encontrou e o destino que nela tem tido, corrente esta de que Gilberto Freyre (1900-1987) é o principal representante; e 3) a corrente sociológica que, sem desconhecer a importância das duas perspectivas mencionadas, se orienta no sentido de desvendar o estado das relações entre os componentes brancos e de cor, seja qual for o grau de mestiçagem concretamente com o negro ou o com o índio na história da população brasileira.   Em termos metodológicos, o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de Chicago (EUA), fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer (1900-1987) e de seu mestre Donald Pierson (1900-1995), teorizava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: - Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o “preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências sociais do preconceito, pois se diz que é de origem histórica e socialmente determinada.           

O primeiro aspecto, no plano de análise identifica a distinção entre preconceito de marca (aparência) e preconceito de origem (ascendência), que historicamente tem o intuito de qualificar a situação racial brasileira vis-à-vis aos condicionamentos histórico- raciais na sociedade norte-americana. Tratava-se de estabelecer uma crítica às análises que diferenciavam o preconceito racial brasileiro daquele das demais sociedades (em especial a norte-americana) apenas em termos de intensidade, sem qualificá-lo. Essa abordagem significou o ponto de partida de sua contribuição sociológica ao tema na medida em que o autor, ao analisar o preconceito, além de reconhecê-lo, situa-o como um problema central nos estudos das relações raciais no Brasil. Sua perspectiva acerca da sociedade norte-americana foi desenvolvida durante sua estadia naquele país, posteriormente à passagem de Gilberto Freyre na University of Columbia, entre os anos de 1945 e 1947, na Universidade de Chicago, para a realização do doutorado. Ao longo do texto, ele fornece relatos etnográficos de situações cotidianas que vivenciou nos Estados Unidos e cujo impacto social proporcionou o insight para a criação do quadro teórico-metodológico de referência para compreender a situação racial brasileira. Os Estados Unidos e o Brasil constituem exemplos de dois tipos de “situações raciais”: um em que o preconceito racial é manifesto e insofismável e outro em que o próprio reconhecimento do preconceito tem dado margem a uma controvérsia de não se superar.

O ponto central da reflexão de da sociologia de Oracy Nogueira é a permanência, o desenvolvimento e a especificidade do preconceito racial no Brasil, que ele chama de “preconceito de cor”, ou “preconceito de marca”. Preconceito que facilitou a integração e a ascensão social dos imigrantes europeus e retardou e impediu a ascensão dos negros. Primeiro, porque os brasileiros natos, seja no cotidiano, seja em sua ideologia política ou literária, sempre viram no imigrante branco um elemento de melhoramento ou a ideologia de branqueamento da raça. Segundo, “enquanto a ascensão de descendentes de imigrantes tanto se pode dar com o cruzamento como sem o cruzamento com descendentes de antigos colonizadores portugueses, a ascensão de elementos de cor ou pressupõe ou se faz acompanhar do cruzamento com elementos brancos, seja qual for a origem deles”. Em consequência, cada conquista do negro ou do mulato que logra vencer econômica, profissional ou intelectualmente tende a ser absorvida, em uma ou duas gerações, pelo grupo branco, através do branqueamento progressivo e da progressiva incorporação dos descendentes a esse grupo. O negro, a cada geração, teria, portanto, de começar, de novo, lutando contra o preconceito e sem a solidariedade de um grupo identitário. Sim, porque o sociólogo Oracy confirma o que já se sabia antes dele, e será reafirmado depois: não há, no Brasil, grupo racial qua grupo. A diferença, é que, existindo o grupo para os outros, ainda que não para si, torna-se objeto de discriminação, mas não solidariedade que possam fortalecê-lo na luta contra o preconceito.

O objeto teorizado por Oracy Nogueira é justamente essa complexa constelação de “preconceitos baseados em marcas” (1998), afastados de origens geográficas ou culturais, resguardados por ideologias “assimilacionistas”, que impedem o cultivo de diferenças identitárias pelos setores já discriminados. Muitos desses decadentes foram carreados a cargos burocráticos, quando não, a ofícios manuais, considerados menos prestigiosos na localidade. As violações ao “intra-casamento” alimentaram as formas em que se dá a miscigenação. Neste caso foram recolhidos casos frequentes de “uniões pré-maritais” – duradouras ou ocasionais – de homens brancos de projeção, com “mulheres de cor”, prática que chegou até as primeiras décadas deste século. Isso, em detrimento da salvaguarda das famílias brancas, que detinham status social superior e concentravam poder econômico e político. Mestiços resultantes dessas uniões ostentando alguns deles nome de família tradicional, quando instruídos e dotados de traços negroides pouco acentuados, beneficiaram-se desse conjunto de circunstâncias para atingir posto em atividades menos desvalorizadas, podendo até conquistar destaque político.

De qualquer modo, no entanto, o apelo a atitudes e práticas simulatórias, dissimulatórias ou elusivas, correntes na localidade, indicavam o mal-estar provocado por tais fatos sociais, em razão do preconceito aí vigente. Servem de exemplos: o uso de termos imprecisos, como “pardo”, “mestiço” para designações mais embaraçosas; e a dissimulação social em reconhecer o status social como de negros (as), a despeito dos traços étnicos denunciadores, identificados pelo pesquisador, fotografia(s) de pessoa(s) socialmente aceita(s) como integrante(s) do segmento branco. Oracy Nogueira rememora que outro recurso esclarecedor da chamada resistência local às oportunidades, acessíveis a negros e negroides, encontram-se no paralelo entre a efetiva ascensão social no quadro de estrangeiros (principalmente italianos), portadores de conhecimentos técnicos, e a de negros e seus mestiços, mesmo quando, porventura, também portadores desses conhecimentos. A estes últimos o casamento com brancas representou sempre condição indispensável, mas não àqueles outros. Aposentado o etnólogo ainda escreveria, entre outras coisas, a expressiva Introdução a seu livro Tanto preto quanto branco (1985), que reedita seus artigos sobre relações raciais e a original biografia Negro Político, Político Negro (1992) misturando ficção à pesquisa sociológica na narrativa da trajetória pessoal Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, prefeito de Cunha na República Velha, caso singular de ascensão social de um homem negro no Brasil. É recém-saído do regime escravocrata e o objeto de estudo de Oracy Nogueira neste livro, que alia reflexão sociológica a relato biográfico ao analisar a vida desse médico negro que teve intensa atividade política no interior de São Paulo e chegou inclusive a ocupar cadeira de Senador da República.

O problema geracional se torna um problema de existência de um tempo interior não mensurável e que só pode ser apreendido qualitativamente. As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas diferentes em relação a um mesmo problema dado. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades sociais nas ações dos sujeitos. Outra característica é a adoção ou criação de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo meio social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional. Estes, de acordo com Mannheim, foram produtos específicos - capazes de produzir mudanças sociais - da colisão entre o tempo biográfico e o tempo histórico. Ao mesmo tempo, as gerações podem ser consideradas o resultado de descontinuidades históricas e, portanto, de mudanças sociais. Em outras palavras: o que forma uma geração não é uma data de nascimento comum - a “demarcação geracional” é algo apenas potencial - mas é a parte do processo histórico que jovens da mesma idade-classe de fato compartilham em vista do vínculo com a geração atual. Interessante notar comparativamente que também neste período se dava o importante capítulo brasileiro na vida de Fernand Braudel (1902-1985), iniciado em 1935, quando o historiador aceitou um repentino convite aetivo para se incorporar à Missão Francesa que, a partir de 1934, ajudou a fundar e construir a nossa extraordinária Universidade de São Paulo.

Esta permanência no Brasil, que se prolongou por três anos consecutivos, e que se repetirá por sete meses em 1947, foi, contudo, apenas o ponto de partida de uma relação social e uma experiência mais geral que Braudel entabulará com a América Latina, e que absorverá parte considerável de sua atividade intelectual, de 1935 até aproximadamente os anos de 1953. Desse modo, o trabalho como Titular da cátedra de História das Civilizações da Universidade de São Paulo representa pari passu a origem de um interesse que Fernand Braudel desenvolverá com respeito à história social e à civilização latino-americanas. Culminará no fato de que uma parte substancial de sua atividade acadêmica e intelectual, desenvolvida entre 1946 e 1953, terá como parâmetro essa história e vida latino-americanas que, entre os anos de 1935 e 1953 estará voltado para seu interesse mediado em ambos os períodos por um terceiro, cujo centro de gravidade será o tema global de seu Mediterrâneo (cf. Aguirre Rojas, 2003). Suas inquietações no plano intelectual e metodológico de pesquisa apresentam como fio condutor e boutade o estigma e suas consequências sociais, percebidos a partir de diversos ângulos, mas sua principal temática de investigação é de fato a questão racial. Vale lembrar que autor publicou em sua progênie, “Atitude Desfavorável de Alguns Anunciantes de São Paulo em Relação aos Empregados de Cor” (1942) e “Preconceito de Marca: As Relações Raciais em Itapetininga” (1955) e também “Negro político, político negro”, seu último trabalho. Eles versam sobre as distintas formas e condicionamentos sociais sobre os quais de constituem as manifestações de preconceito, aspecto que organiza o entendimento da questão racial brasileira. Após anos de estudos e pesquisas de Oracy Nogueira chegou-se à conclusão que o estilo de racismo à brasileira caracteriza-se pelo “preconceito de marca”.

Assim, o preconceito de marca se estabeleceria em relação às aparências. Quando toma por pretexto para as suas manifestações de vida, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gostos, o sotaque, caracterizando a marca. Mas basta a suposição de que o indivíduo descende de grupo étnico, para que supra as consequências do preconceito: diz-se que é de origem. O impacto desses estudos foi assimilado de modo traumático porque havia na ideologia brasileira e na academia, como ambiente cultural, certo compromisso com a tese sociológica da democracia racial. Com os trabalhos de Roger Bastide e Florestan Fernandes, em “Negros e brancos em São Paulo”, é que foi revelada, por trás das relações, a realidade do preconceito racial de par em par com o preconceito de classe e, portanto, o preconceito racial constitutivo da sociabilidade na sociedade brasileira. Oracy Nogueira compreende que os estudos que tratam da “situação racial” brasileira, no que se refere ao negro (e ao mestiço de negro), podem ser divididos em três correntes: 1) a corrente afro-brasileira, a que deram impulso Nina Rodrigues (1862-1906) e Arthur Ramos, e os estudiosos que mais diretamente foram influenciados por ambos; e que, sob a influência de Herskovits, prossegue, sob uma forma renovada, com os trabalhos de René Ribeiro, Roger Bastide e outros, podendo ser caracterizada como aquela corrente que dá ênfase ao estudo do processo de aculturação, preocupada em determinar a contribuição das culturas africanas à formação da cultura brasileira; 2) a dos estudos históricos, em que se procura mostrar como ingressou o negro na sociedade brasileira, a receptividade que encontrou e o destino que nela tem tido, corrente esta de que Gilberto Freyre é o principal representante dentro e fora do Brasil; e 3) a que, sem desconhecer as duas perspectivas já mencionada, se orienta no sentido de desvendar as relações entre os componentes brancos e de cor seja qual for o grau de mestiçagem com o negro ou o índio da população brasileira.

Em termos metodológicos, não queremos perder de vista o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de Chicago, que fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer e de seu mestre Donald Pierson (1900-1995), interpretava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: - Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o “preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, pois que é de origem histórica e socialmente determinada.

Em termos metodológicos, não queremos perder de vista o estudo de comunidade, instrumento com que a Sociologia nasceu entre nós, largamente influenciada pelos desdobramentos da escola de Chicago, que fora enriquecido pela investigação histórica das relações entre brancos e negros durante a escravidão. Em termos interpretativos, porque Nogueira, desafiando as lições de Herbert Blumer e de seu mestre Donald Pierson (1900-1995), interpretava uma forma nova de preconceito racial, presente em sociedades como o Brasil, quando distinguem os dois tipos básicos de preconceito racial: - Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o “preconceito de raça” se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, pois que é de origem histórica e socialmente determinada.

O personagem brasileiro da Disney, Zé Carioca, está completando 80 anos, dia 24 de agosto de 2022! Milton Nascimento, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Gilberto Gil são algumas das personalidades importantes da cultura nacional que estão completando 80 anos em 2022. Mas um brasileiro muito querido e especial está também virando octogenário: Zé Carioca. Muito antes de o Louro José fazer sucesso com o público, esse papagaio, nascido no dia 24 de agosto de 1942 pelas mãos de Walt Disney (segundo divulgado, ele foi desenhado em um guardanapo no Copacabana Palace), já conquistava por seu carisma e, claro, sua malandragem. O primeiro aspecto, no plano de análise identifica a distinção entre preconceito de marca (“aparência”) e preconceito de origem (“ascendência”), que historicamente tem o intuito de qualificar a situação racial brasileira vis-à-vis aos condicionamentos históricos- raciais na sociedade norte-americana. Tratava-se de estabelecer uma crítica às análises que diferenciavam o preconceito racial brasileiro daquele das demais sociedades (em especial a norte-americana) apenas em termos de intensidade, sem qualificá-lo. Essa abordagem significou o ponto de partida de sua contribuição sociológica ao tema na medida em que o autor, ao analisar o preconceito, além de reconhecê-lo, situa-o como um problema central nos estudos das relações raciais no Brasil. Sua perspectiva acerca da sociedade norte-americana foi desenvolvida durante sua estadia naquele país, posteriormente à passagem de Gilberto Freyre na University of Columbia, entre os anos de 1945 e 1947, na Universidade de Chicago, para a realização do doutorado. Ele fornece relatos etnográficos de situações cotidianas que vivenciou nos Estados Unidos e cujo impacto social proporcionou o insight para a criação do quadro teórico-metodológico de referência para compreender a situação racial brasileira.

Os Estados Unidos e o Brasil constituem exemplos de dois tipos de “situações raciais”: um em que o preconceito racial é manifesto e insofismável e outro em que o próprio reconhecimento do preconceito tem dado margem a uma controvérsia de não se superar. O ponto central da reflexão de da sociologia de Oracy Nogueira é a permanência, o desenvolvimento e a especificidade do preconceito racial no Brasil, que ele chama de “preconceito de cor”, ou “preconceito de marca”. Preconceito que facilitou a integração e a ascensão social dos imigrantes europeus e retardou e impediu a ascensão dos negros. Primeiro, porque os brasileiros natos, seja no cotidiano, seja em sua ideologia política ou literária, sempre viram no imigrante branco um elemento de melhoramento ou a ideologia de branqueamento da raça. Segundo, “enquanto a ascensão de descendentes de imigrantes tanto se pode dar com o cruzamento como sem o cruzamento com descendentes de antigos colonizadores portugueses, a ascensão de elementos de cor ou pressupõe ou se faz acompanhar do cruzamento com elementos brancos, seja qual for a origem deles”. Em consequência, cada conquista do negro ou do mulato que logra vencer econômica, profissional ou intelectualmente tende a ser absorvida, em uma ou duas gerações, pelo grupo branco, através do branqueamento progressivo e da progressiva incorporação dos descendentes a esse grupo. O negro, a cada geração, teria, portanto, de começar, de novo, lutando contra o preconceito e sem a solidariedade de um grupo identitário. Sim, porque Oracy confirma o que já se sabia antes dele, e será reafirmado depois: não há, no Brasil, grupo racial qua grupo. A diferença, para Oracy, é que, existindo o grupo para os outros, ainda que não para si, torna-se objeto de discriminação, mas não cria laços de solidariedade que possam fortalecê-lo em sua luta contra o preconceito socialmente estabelecido.

O objeto teorizado por Oracy Nogueira é justamente essa complexa constelação de preconceitos baseados em marcas (1998), afastados de origens geográficas ou culturais, resguardados por ideologias “assimilacionistas”, que impedem o cultivo de diferenças identitárias pelos setores já discriminados. Muitos desses decadentes foram carreados a cargos burocráticos, quando não, a ofícios manuais, considerados menos prestigiosos na localidade. As violações ao “intra-casamento” alimentaram as formas em que se dá a miscigenação. Neste caso foram recolhidos casos frequentes de “uniões pré-maritais” – duradouras ou ocasionais – de homens brancos de projeção, com “mulheres de cor”, prática que chegou até as primeiras décadas deste século. Isso, em detrimento da salvaguarda das famílias brancas, que detinham status social superior e concentravam poder econômico e político. Mestiços resultantes dessas uniões, ostentando alguns deles nome de família tradicional, quando instruídos e dotados de traços negroides pouco acentuados, beneficiaram-se desse conjunto de circunstâncias para atingir posto em atividades menos desvalorizadas, podendo até conquistar destaque político. De qualquer modo, o apelo a atitudes e práticas simulatórias, dissimulatórias ou elusivas, indicavam o mal-estar por tais fatos, em razão do preconceito aí vigente.

Servem de exemplos: o uso corrente de termos imprecisos, como “pardo”, pelos militares e “mestiço”, mesmo que sobre este último o magnânimo antropólogo Darcy Ribeiro tenha escrito a respeito, e neste caso, para designações menos embaraçosas; e a dissimulação social em reconhecer o status social como de negros (as), a despeito dos traços étnicos denunciadores, identificados pelo pesquisador, fotografia(s) de pessoa(s) socialmente aceita(s) como integrante(s) do segmento branco. Oracy Nogueira rememora que outro recurso esclarecedor da chamada resistência local às oportunidades, acessíveis a negros e negroides, encontram-se no paralelo entre a efetiva ascensão social no quadro de estrangeiros (principalmente italianos), portadores de conhecimentos técnicos, e a de negros e seus mestiços, mesmo quando, porventura, também portadores desses conhecimentos. A estes últimos o casamento com brancas representou sempre condição indispensável, mas não àqueles outros. Aposentado o etnólogo escreveria a expressiva Introdução a seu livro Tanto preto quanto branco (1985), que reedita seus artigos sobre relações raciais e a original biografia Negro Político, Político Negro (1992) que mistura ficção à pesquisa histórica e sociológica na narrativa da trajetória pessoal e política do Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, prefeito de Cunha na República Velha, caso singular de ascensão de um homem negro no Brasil recém-saído do regime escravocrata é o objeto de estudo de Oracy Nogueira neste livro, que alia reflexão sociológica a relato biográfico ao analisar a vida desse médico negro que teve intensa atividade política no interior de São Paulo e chegou inclusive a ocupar cadeira de Senador da República. 

A primeira canção de Lamartine Babo (Lalá) a ser gravada seria justamente uma marchinha para o carnaval de 1927, intitulada “Os Calças Largas”, que satirizava a moda masculina. O carnaval de 1927 no Rio de Janeiro teve um desfile de corso, “uma agremiação carnavalesca que desfilava com carros ornamentados pelas ruas da cidade”. O corso era uma brincadeira popular no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Os foliões fantasiados jogavam confetes, serpentinas e lança-perfume nos ocupantes dos carros. O carnaval no Rio de Janeiro é historicamente uma festa popular que inclui blocos de rua, bailes e desfiles de escolas de samba. A ela se seguiram muitas outras, “eternizadas” nos bailes e blocos de rua, como “Linda Morena” e “A.E.I.O.U”, esta música em parceria com Noel Rosa (1910-1937). Noel de Medeiros Rosa foi um sambista, cantor, compositor, bandolinista e violonista brasileiro, um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil. Teve contribuição fundamental na legitimação do samba de morro e no “asfalto”, ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação de massa - fato de grande importância socialmente, não só para o samba, mas para a história da música popular brasileira. Morto prematuramente aos 26 anos em decorrência de tuberculose, deixou um conjunto de canções que se tornaram clássicas dentro do cancioneiro popular brasileiro. Mais tarde, em 2016 foi agraciado in memoriam com a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, na classe de grão-mestre. É uma ordem honorífica dada a personalidades brasileiras e estrangeiras como forma de reconhecer sociologicamente suas contribuições em caráter meritório à cultura do Brasil.

 Antropologicamente é uma cruz de Sant`Iago da Espada esmaltada de branco perfilada de ouro. No centro, um livro aberto lavrado de ouro sobre uma coroa de louros circundado pela legenda Ordem do Mérito Cultural. Simbolicamente encarna a faixa de gorgorão de seda chamalotada de púrpura, com insígnia pendente no laço. Placa com resplendor de ouro sob a insígnia. Fita média de gorgorão de seda chamalotada de púrpura, com a insígnia pendente no centro. Fita estreita de gorgorão de seda chamalotada de púrpura, com a insígnia pendente na extremidade da ponta. Em 1932, “O Teu Cabelo Não Nega”, em coautoria com os irmãos João e Raul Valença, causou rebuliço nos salões aristocráticos do clube do Fluminense. Apesar da execução por uma orquestra com 18 componentes, entre os quais Pixinguinha (1897-197) na flauta, os versos ousados chocaram boa parte da elite social, que, “escandalizada, abandonou de imediato o local”. A obra de Lalá gira em torno de 300 músicas. Entre as mais reconhecidas estão “No Rancho Fundo”, em parceria com Ary Barroso, de 1931, e “Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda”, composta com Francisco Mattoso, de 1942. Foi instituída pelo artigo 34 da lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991 e pelo decreto nº 1.711 de 22 de novembro de 1995 pelo presidente FHC. A entrega das insígnias ocorre no dia 5 de novembro de cada ano, quando se comemora o Dia Nacional da Cultura.

O acervo inclui, ainda, composições criadas para as festas juninas, como “Chegou a Hora da Fogueira”, gravada em 1933 por Carmen Miranda e Mário Reis. No ano seguinte, o cantor gravaria outro hit da dança de quadrilha, chamado “Isto É Lá com Santo Antônio”. Ao longo da carreira autoral, Lamartine Babo escreveu, também, operetas e canções para o teatro de revista, além dos livros Pindaíba (1932) e Lamartiníadas (1939), e textos satíricos publicados nas revistas Dom Quixote, Para Todos e Shimmy. Quanto à atuação no rádio, que o celebrizou, a trajetória se iniciou em 1930, com o programa Casa dos Discos. A este se seguiram Clube da Meia-Noite, Clube dos Fantasmas e A Canção do Dia, entre outros, sendo o mais famoso de todos o Trem da Alegria, realizado entre 1943 e 1956 por um trio formado por Lalá, Yara Salles e Héber de Bôscoli. A presença maciça do público fazia com que as apresentações fossem realizadas sempre em teatros, como o João Caetano. Ali, em 10 de janeiro de 1944, quando Lamartine Babo completava 40 anos, ele executou pela primeira vez, numa só noite, os hinos de todos os participantes do campeonato estadual de 1943, com destaque para a popularidade carioca do clube de Regatas Flamengo, que se sagrou bicampeão carioca naquele ano. Além do rubro-negro, foram homenageados os times de futebol Bangu, Bonsucesso, Botafogo, Canto do Rio, o Fluminense, único hino composto em parceria, com Lírio Panicali (1906-1984), Madureira, São Cristóvão, Vasco e América.

Em 1759, com a expulsão dos jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal (1699-1782), as suas fazendas foram vendidas a centenas de novos sitiantes. A região passou a caracterizar-se pelas suas chácaras e, a partir do Século XX, passou a ser um bairro tipicamente urbano. Ainda assim, possui a terceira maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca, plantada por determinação de dom Pedro II (1825-1891) na segunda metade do século XIX pelo major Archer em terras de café desapropriadas, para combater a falta de água que se instalara na então capital do império. Trata-se de uma floresta secundária, uma vez que é fruto de replantio, compreendendo espécies que não são nativas da mata atlântica, a cobertura vegetal original. Data de 1859 até 1866 o funcionamento pioneiro da primeira linha de transporte em veículos sobre trilhos no Rio de Janeiro, com tração animal, anterior ao bonde elétrico, ligando o Largo do Rocio (Praça Tiradentes) a um local perto do bairro da Usina, mais tarde reconhecido como Muda, cobrindo um trajeto de 7 km.  Nos Estados Unidos e na Europa, onde o processo de urbanização das cidades foi pioneiro, o subúrbio, foi e continua sendo o espaço destinado às elites e classes médias – uma espécie de refúgio contra os aglomerados urbanos insalubres e perigosos do período da industrialização. São bucólicos, ajardinados e de casas confortáveis.

O Parque Nacional da Tijuca é uma unidade de conservação de proteção integral da natureza localizada na cidade do Rio de Janeiro. Entre os pontos turísticos do parque, trilhas, grutas e cachoeiras, encontram-se marcos famosos da cidade, como a Pedra da Gávea, o Corcovado, e o Pico da Tijuca, ponto mais alto do parque, elevando-se 1 022 metros acima do nível do mar. Com relevo montanhoso, inclui áreas do Maciço da Tijuca. É administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A área é composta por vegetação secundária, uma vez que é fruto de um reflorestamento promovido à época do Segundo Reinado, quando se tornou patente que o desmatamento causado pelas fazendas de café estava prejudicando o abastecimento de água potável da então capital do Império. Vivem, no parque, mais de 230 espécies de animais e aves: entre eles, macaco-prego, quati, cutia, cachorro-do-mato, sagui, beija-flor e sabiá. O parque, que possui 3 972 hectares, é a quarta maior área verde urbana do país, superada apenas pelo Parque Estadual da Cantareira (7 916,52 hectares), da Reserva Floresta Adolfo Ducke (10 mil hectares) em Manaus e do Parque Estadual da Pedra Branca (12 500 hectares). Entertanto, a Tijuca é um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Está entre os bairros mais antigos, tradicionais e populosos da capital fluminense.

Seu índice de qualidade de vida, no ano 2000, era de 0,887, o 18º melhor do município, dentre 126 bairros avaliados, considerado alto. Segundo dados estatísticos estimados de 2019, possui 182.366 habitantes, sendo o maior da Zona Norte. No peer ranking de bairros mais valorizados economicamente do município, a Tijuca ocupa a 22ª posição estatisticamente, em dados de outubro de 2022 e o bairro possui uma população de classe média e média-alta. Tijuca é um bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. Está entre os bairros mais antigos, tradicionais e populosos da capital fluminense. O Índice de Progresso Social (IPS) é uma metodologia que avalia a qualidade de vida da população no Brasil de forma multidimensional. No ranking IPS da Prefeitura do Rio de Janeiro, a região administrativa da Tijuca onde se localiza o bairro da Tijuca conta com índices de 79.5 para IPS; 85.8 para necessidades humanas básicas; 70.6 para fundamentos do bem-estar; e 82.1 para oportunidades, todos acima da média do município. Logo após a vitória dos portugueses sobre os franceses no episódio da França Antártica, em 1565, comparativamente, a região do atual bairro da Tijuca foi ocupada pelos padres jesuítas, que, nela, instalaram imensas fazendas dedicadas ao cultivo da cana-de-açúcar, uma capela a São Francisco Xavier que deu o nome à fazenda dos jesuítas do Centro da cidade carioca: a saber: Fazenda de São Francisco Xavier. 

Até o início do século XX, essa acepção de subúrbio também se aplicava ao Rio de Janeiro; onde o subúrbio era o local de nobreza – não tão refinada como Botafogo ou o Engenho Velho, que eram bairros da aristocracia –, mas com serviços voltados a essa classe, que também se dirigiam para lá com fins de descanso. Foi a partir da reforma urbana do prefeito Pereira Passos (1836-1913), em 1903, que o conceito de subúrbio “ganhou contornos mais ideológicos e pejorativos no contexto do Rio de Janeiro”. Com a implantação de uma nova ordem urbana no Centro da futura metrópole, associada também à expansão do mercado imobiliário para as classes sociais altas à beira-mar, o proletariado do Centro foi “expulso” para os subúrbios, que passaram a ser vistos como locais estratégicos de escoamento dessa população marginalizada para bem longe do Centro “civilizado”. Como não houve uma política de moralização da classe trabalhadora nesse processo, o que favoreceu a emergência do caráter pejorativo que o termo “subúrbio” emana no cenário carioca. Com base no conceito pejorativo de subúrbio, como remetente à ideia de locais habitados por classes socioeconômicas menos privilegiadas, pode-se inferir que a Tijuca e entorno, em termos históricos, geográficos e especialmente ideológicos, não pode ser considerada um subúrbio da cidade, mesmo fazendo parte da Zona Norte, onde se localiza grande parte dos originais trilhos urbanos para delimitação dos subúrbios. Originalmente aristocrática, a Tijuca é um bairro valorizado do Rio de Janeiro, berço de famílias tradicionais e de uma classe média com bom poder aquisitivo, mesmo com o êxodo das décadas de 1980 e 1990.

O bairro passou 20 anos “adormecido”, devido ao processo social de favelização, que acabou sendo maior que no restante da cidade por questões geográficas; no início da última década o bairro apresentou forte valorização imobiliária devido a melhorias estruturais oriundas do poder público. Em 23 de agosto de 1985, o decreto 5.280 definiu os atuais limites do bairro. Rio de Janeiro, ou simplesmente referido como “Rio”, é um município brasileiro, capital do estado homônimo, situado no Sudeste do país. Um dos maiores destinos turísticos internacionais no Brasil, na América Latina e também do Hemisfério Sul. A capital fluminense é a cidade brasileira mais conhecida no exterior, funcionando como um espelho, ou “retrato nacional”, seja positiva ou negativamente. É a segunda maior metrópole do Brasil, depois de São Paulo, a sétima maior da América e a décima oitava do mundo. Sua população segundo o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística era 6 211 223 habitantes. Tem o epíteto herdado do realismo mágico de Cidade Maravilhosa, e os que nela nascem são chamados cariocas. Classificada como uma metrópole, exerce influência nacional, seja do ponto de vista cultural, econômico ou político brasileiros, e é um dos principais centros econômicos, culturais e financeiros do país, sendo internacionalmente conhecida por diversos ícones culturais e paisagísticos, como o Pão de Açúcar, o morro do Corcovado com a estátua do Cristo Redentor, as praias dos bairros de Copacabana, Ipanema e Barra da Tijuca, entre outras; os estádios do Maracanã e Nilton Santos; o bairro boêmio da Lapa e seus arcos; o Theatro Municipal do Rio de Janeiro; as florestas da Tijuca e da Pedra Branca; a Quinta da Boa Vista; a Biblioteca Nacional; a fabulosa ilha de Paquetá, na baía da Guanabara; o réveillon de Copacabana; o carnaval carioca; a Bossa Nova e o samba. Parte da cidade foi designada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1° de julho de 2012.

Representa o segundo maior PIB do país e o 30º maior do mundo, estimado em cerca de 354,981 bilhões de reais (cf. IBGE/2023), e é sede das duas maiores empresas brasileiras — a Petrobras e a Vale, e das principais companhias de petróleo e telefonia do Brasil, além do maior conglomerado de empresas de mídia e comunicações da América Latina, o Grupo Globo. Contemplado por grande número de universidades e institutos, é o segundo maior polo de pesquisa e desenvolvimento do Brasil, responsável por 19% da produção científica nacional, segundo dados de 2005. Rio de Janeiro é considerada uma cidade global beta — pelo inventário de 2008 da Universidade de Loughborough. A cidade foi, sucessivamente, capital da colônia portuguesa do Estado do Brasil (1763–1815), depois do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815–1822), do Império do Brasil (1822–1889) e da República dos Estados Unidos do Brasil (1889–1968) até 1960, quando a sede do governo foi transferida definitivamente para a recém-construída Brasília. Naquele ano, o Rio foi transformado em uma cidade-estado com o nome de Guanabara e, somente em 1975, torna-se a capital do Rio de Janeiro.

Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade. É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim, como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Desde que, não sem razão, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais do que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases.  

Os únicos agrupamentos dotados de permanência são os que se chamam sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Historicamente, temos aí in statu nascendi o começo e o princípio ético de uma organização profissional, mas ainda de forma rudimentar. Isto porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente ilimitado, mesmo no interior de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há neles nada que exprima a unidade da profissão em seu conjunto de práticas e saberes sociais. Não só os sindicatos de patrões e de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre eles contatos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a “lei dos mais forte” que resolve os conflitos, e o estado de guerra subiste inteiro. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum estão na mesma situação. A tese sociológica é a seguinte: para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, uma instituição pública qualquer.

A primeira observação familiar da crítica de Émile Durkheim, é que a corporação tem contra si seu próprio passado histórico. De fato, ela é tida como intimamente solidária do antigo regime político e, por conseguinte, como incapaz de sobreviver a ele. Na história da filosofia, o que permite considerar as corporações uma organização temporária, boa apenas para uma época e uma civilização determinada, é, ao mesmo tempo, sua grande antiguidade e a maneira como se desenvolveram na história. Se elas datassem unicamente da Idade Média, poder-se-ia crer, de fato que, nascidas com um sistema político, deviam necessariamente desaparecer com ele. Mas, na realidade, têm uma origem bem mais antiga. Em geral, elas aparecem desde que as profissões existem, isto é, desde que a atividade deixa de ser puramente agrícola. Se não parecem ter sido conhecidas na Grécia, até o tempo da conquista romana, é porque os ofícios, sendo desprezados, eram exercidos exclusivamente por estrangeiros e, por isso mesmo, achavam-se excluídos da organização legal da cidade. Mas em Roma, comparativamente, elas datam pelo menos dos primeiros tempos da República; uma tradição chegava até a atribuir sua criação ao rei Numa, um sabino escolhido como segundo rei de Roma. Sábio, pacífico e religioso, dedicou-se a elaboração das primeiras leis de Roma, assim como dos primeiros ofícios religiosos da cidade e do primeiro calendário. É verdade que, por tempo, elas tiveram de levar uma existência bastante humilde, pois os historiadores e os monumentos só raramente as mencionam; não sabemos muito bem como eram organizadas. Desde de Cícero, sua quantidade tornara-se considerável e elas começavam a desempenhar um papel. Nesse momento afirma J.-P Waltzing (1857-1929), “todas as classes de trabalhadores parecem possuídas pelo desejo de multiplicar as associações profissionais” (Apud Durkheim, 2010).  

Mas o caráter desses agrupamentos se modificou; eles acabaram tornando-se “verdadeiras engrenagens da administração” (cf. Altbach, 2004). Desempenhavam funções oficiais; cada profissão era vista como um serviço público, cujo encargo e cuja responsabilidade ante o Estado cabiam à corporação correspondente. Foi a ruína da instituição. Porque, segundo Durkheim, essa dependência em relação ao Estado não tardou a degenerar numa servidão intolerável que os imperadores só puderam manter pela coerção. Todas as sortes de procedimentos foram empregadas para impedir que os trabalhadores escapassem das pesadas obrigações que resultavam, para eles, de sua própria profissão. Evidentemente, tal sistema de trabalho só podia durar enquanto o poder político fosse o bastante para impô-lo. É por isso que ele não sobreviveu à dissolução do Império. Aliás, as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria; os artesãos aproveitaram essas circunstâncias para fugir das cidades e se dispersar nos campos. Assim, os primeiros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que devia se repetir tal qual no fim do século XVII: a vida corporativa se extinguiu quase por completo. Mal subsistiram alguns vestígios seus, na Gália e na Germânia, nas cidades de origem romana. Portanto, naquele momento, um teórico tivesse tomado consciência da situação, teria provavelmente concluído, como o fizeram mais tarde os economistas, que as corporações não tinham, ou, em todo caso, não tinham mais razão de ser, que haviam desaparecido irreversivelmente, e sem dúvida teria tratado de retrógrada e irrealizável toda tentativa de reconstituí-las. Os acontecimentos desmentiriam uma tal profecia. De fato, após um “eclipse da razão” de algum tempo caminhando para os nossos dias, as corporações recomeçaram nova existência em todas as sociedades europeias.

Elas renasceram por volta dos séculos XI e XII. Desde esse momento, diz Emile Levasseur, “os artesãos começam a sentir a necessidade de se unir e formam suas primeiras associações”.  Em todo caso, no século XII, elas estão outra vez florescentes e se desenvolvem até o dia em que começa para elas uma nova decadência. Uma instituição tão persistente assim não poderia depender de uma particularidade contingente e acidental; muito menos ainda é possível admitir que tenha sido o produto de não sei que “aberração coletiva”. Se, desde a origem da cidade até o apogeu do Império, desde o alvorecer das sociedades cristãs aos tempos modernos, elas foram necessárias, é porque correspondem a necessidades duradouras e profundas. Sobretudo, vale lembrar que o próprio fato de que, depois de terem desaparecido uma primeira vez, reconstituíram-se por si mesmas e sob uma nova forma, retira todo e qualquer valor ao argumento que apresenta sua desaparição violenta no fim do século passado como uma prova de que não estão mais em harmonia com as novas condições de existência coletiva. A necessidade que todas as grandes sociedades civilizadas sentem de chamá-las de volta à vida é o mais seguro sintoma evidente dessa supressão radical não era um remédio e de que a reforma de Jacques Turgot (172701781) requeria outra que não poderia ser indefinidamente adiada. Mas nem toda organização corporativa é um anacronismo histórico. Acreditamos que ela seria chamada a desempenhar, nas sociedades contemporâneas, menos pelo papel considerável que julgamos indispensável, por causa não dos serviços econômicos que ela poderia prestar, mas da influência moral que poderia ter.  O que vemos antes de mais nada no grupo profissional é um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais, de manter no coração dos trabalhadores um sentimento vivo de solidariedade comum, de impedir que a “lei do mais forte” se aplique de maneira brutal nas relações industriais e comerciais. 

Mas é preciso evitar estender a todo regime corporativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu desenvolvimento. Longe de ser atingido por uma sorte de enfermidade moral devida à sua própria constituição, foi sobretudo um papel moral que ele representou e continua representando ainda, na maior parte de sua história. Isso é particularmente evidente no caso das corporações romanas. Sem dúvida, a associação lhes dava mais forças para salvaguardar, se necessário, seus interesses comuns. Mas era isso apenas um dos contragolpes úteis que a instituição produzia, lembra Durkheim: “não era sua razão de ser, sua função principal. Antes de mais nada, a corporação era um colégio religioso”. Cada uma tinha seu deus particular, cujo culto quando ela tinha meios, era celebrado num templo especial. Do mesmo modo que cada família tinha seu Lar familiaris, cada cidade seu Genius publicus, cada colégio tinha seu “deus tutelar”, Genius collegi. Naturalmente, o culto profissionalmente não se realizava sem festas, que ipso facto eram celebradas em comum sem sacrifícios e banquetes. Todas as espécies de circunstâncias serviam, aliás, de ocasião para alegres reuniões, além disso, distribuições de víveres ou de dinheiro ocorriam com frequência às expensas da comunidade. Indagou-se se a corporação tinha uma caixa de auxílio, se ela assistia regularmente seus membros necessitados, e as opiniões a esse respeito são divididas. Mas o que retira da discussão parte de seu interesse e alcance é que esses banquetes, mais ou menos periódicos, e as distribuições que os acompanharam serviam de auxílios e faziam não raro as vezes de uma assistência direta. Os infortunados sabiam que podiam contar com essa subvenção dissimulada. Como corolário do caráter religioso, o colégio de artesãos era, ao mesmo tempo, um colégio funerário. Unidos, como gentiles, num mesmo culto durante sua vida, os membros da corporação queriam, como eles, dormir juntos seu derradeiro sono. 

A importância tão considerável que a religião tinha em sua vida, tanto em Roma quanto na Idade Média, põe particularmente em evidência a verdadeira natureza de suas funções; porque toda comunidade religiosa constituía, então, um ambiente moral, do mesmo modo que toda disciplina moral tendia necessariamente a adquirir uma forma religiosa. A partir do instante em que, no seio de uma sociedade política, certo número de indivíduos tem em comum ideias, interesses, sentimentos, ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob a influência dessas similitudes eles sejam atraídos uns para os outros, que se procurem, teçam relações, se associem e que se forme assim, pouco a pouco, um grupo restrito, com sua fisionomia especial da sociedade em geral. Porque é impossível que homens vivam juntos, estejam regularmente em contato, sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união, sem que se apeguem a esse todo, se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. Enfim, basta que esse sentimento se precise e se determine, que, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes da vida, se traduza em fórmulas definidas, para que se tenha um corpo de regras morais em via de se constituir. Ao mesmo tempo que se produz por si mesmo e pela força das coisas, esse resultado é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirma-lo. A vida em comum é atraente, ao mesmo tempo que coercitiva. Para o ponto de vista conservantista do método analítico durkheimiano, a coerção é necessária para levar o homem a se superar, a acrescentar à sua natureza física outra natureza; mas, à medida que aprende a apreciar os encantos dessa nova existência, ele contrai a sua necessidade e não há ordem de atividade que não os busque com paixão.

A moral doméstica não se formou de outro modo. Por causa do prestígio que a família conserva ante nossos olhos, parece-nos que, se e ela foi e é sempre uma escola de dedicação e de abnegação, o foco por excelência da moralidade, é em virtude de características bastante particulares que teria o privilégio e que não se encontrariam em ouro lugar em nenhum grau. Costuma-se crer que exista na consanguinidade uma causa excepcionalmente poderosa de aproximação moral. A prova está em que, num sem-número de sociedades, os não-consanguíneos são muitos no seio da família; o parentesco dito artificial se contrai então com grande facilidade e exerce todos os efeitos do parentesco natural. Inversamente, acontece com grande frequência consanguíneos bem próximos serem, moral ou juridicamente, estranhos uns aos outros; é, por exemplo, o caso dos cognatos na família romana. Portanto, a família não deve suas virtudes à unidade de descendência: ela é, simplesmente, um grupo de indivíduos que foram aproximados uns dos outros, no seio da sociedade política, por uma comunidade mais particularmente estreita de ideias, sentimentos e interesses. A consanguinidade pode ter facilitado essa concentração, pois ela tem por efeito natural inclinar as consciências umas em relação às outras. Outros fatores intervieram: a proximidade material, a solidariedade de interesses, a necessidade de união contra um perigo comum, ou simplesmente de se unir, foram causas muito mais poderosas de comunicação social no processo produtivo. 

Mas, para dissipar todas as prevenções, adverte Durkheim, para mostrar bem que o sistema corporativo não é apenas uma instituição do passado, seria necessário mostrar que transformações ele deve e pode sofrer para se adaptar às sociedades modernas, pois é evidente que ele não pode ser o que era na Idade Média. Para tanto, seriam necessários estudos comparativos que não estão feitos e que não podemos fazer de passagem. Talvez, porém, não seja impossível perceber desde já, mas apenas em suas linhas mais gerais, o que foi esse desenvolvimento. O historiador que empreende resolver em seus elementos a organização política dos romanos não encontra, no decurso de sua análise, nenhum fato que possa adverti-lo da existência das corporações. Elas não entravam na constituição romana, na qualidade de unidades definidas e reconhecidas. Em nenhuma das assembleias eleitorais, em nenhuma das reuniões do exército, os artesãos se reuniam por colégios, em parte alguma o grupo profissional tomava parte, como tal, na vida pública, seja em corpo, seja por intermédio de representantes regulares. No máximo, a questão pode se colocar a propósito de três ou quatro colégios que se imaginou poder identificar com algumas das centúrias constituídas por Sérvio Túlio, a saber: tignari (construtores de casas), aerari (corporação clerical), tibicines (monumento funerário), corporações cornicínes (pizza enrolada), mas o fato não está bem estabelecido.

Quanto às outras corporações, estavam certamente fora da organização oficial do povo romano. Ora, por muito tempo os ofícios não foram mais do que uma forma acessória e secundária da atividade social dos romanos. Roma era essencialmente uma sociedade agrícola e guerreira. No primeiro era dividida em gentes e em cúrias; a assembleia por centúrias refletia antes a organização militar. Quanto às funções industriais, eram demasiado rudimentares para afetar a estrutura política da cidade. Aliás, até um momento bem avançado da história romana, os ofícios permaneceram marcados por um descrédito moral que não lhes permitia ocupar uma posição regular no Estado. Sem dúvida, veio um tempo em que sua condição social melhorou. Mas a própria maneira como foi obtida essa melhora é significativa. Para conseguir fazer respeitar seus interesses e desempenhar um papel na vida pública, os artesãos tiveram de recorrer a procedimentos irregulares e extralegais. Só triunfaram sobre o desprezo de que eram objeto por meios de intrigas, complôs, agitação clandestina. E, se, mais tarde, acabaram sendo integrados ao Estado para se tornar engrenagens da máquina administrativa, essa situação como foi, para eles, uma conquista gloriosa, mas uma penosa dependência; se entraram então no Estado, não foi para nele ocupar a posição a que seus serviços sociais podiam lhes dar direito, mas simplesmente para poder ser mais bem vigiados pelo poder governamental.

Quando as cidades se emanciparam da tutela senhorial, quando a comuna se formou, o corpo de ofícios, que antecipara e preparara esse movimento, tornou-se a base da constituição comunal. De fato, segundo J.-P Waltzing, “em quase todas as comunas, o sistema político e a eleição dos magistrados baseiam-se na divisão dos cidadãos em corpos de ofícios”. Era costumeiro votar-se por corpos de ofícios e elegiam-se ao mesmo tempo os chefes da corporação e os da comuna. – Em Amiens, por exemplo, os artesãos se reuniam todos os anos para eleger os prefeitos de cada corporação ou bandeira (bannière); os prefeitos eleitos nomeavam em seguida doze escabinos, que nomeavam outros doze, e o escabinato apresentava, por sua vez, aos prefeitos das bandeiras três pessoas, dentre as quais eles escolhiam o prefeito da comuna... Em algumas cidades, o modo de eleição era ainda mais complicado, mas, em todas, a organização política e municipal era intimamente ligada á organização do trabalho. Inversamente, assim como a comuna era um agregado de corpos de ofícios, o corpo de ofício era uma comuna em miniatura, pelo próprio fato de que fora o modelo do qual a instituição comunal era a forma ampliada e desenvolvida. Queremos dizer com isso, que sabemos o que a comuna foi na história de nossas sociedades, de que se tornou, com o tempo, a pedra angular. Ipso facto, já que era uma reunião de corporações e que se formou com base no tipo da corporação, foi esta em última análise, que serviu de base a todo o sistema político oriundo do movimento comunal. Vê-se que, em sua trajetória, ela cresceu singularmente em importância e dignidade. Em Roma, começou estando quase fora dos contextos normais, ela serviu de marco elementar para sociedades contemporâneas. É um motivo para que recusemos a considera-la uma instituição arcaica, destinada a desaparecer.

A obra do sociólogo não é a do homem público, assevera Émile Durkheim. O que a experiência do passado demonstra, antes de mais nada, é que os marcos do grupo profissional devem guardar sempre uma relação com os marcos da vida econômica; foi por ter faltado com essa condição que o regime corporativo desapareceu. Portanto, já que o mercado, de municipal que era, tornou-se nacional e internacional, a corporação deve adquirir a mesma extensão. Em vez de ser limitada apenas aos artesãos de uma cidade, ela deve ampliar-se, de maneira a compreender todo os membros da profissão, dispersos em toda a extensão do território, porque, qualquer que seja a região em que se encontram, quer no campo, todos são solidários uns com os outros e participam da vida comum. Já que essa vida comum é, sob certos aspectos, independentemente de qualquer determinação territorial, tem que ser criado um órgão apropriado, que a exprima e regularize seu funcionamento. Por causa de suas dimensões sociais, tal órgão estaria necessariamente em contato relacional com o órgão central da vida coletiva, pois os acontecimentos importantes o bastante para envolverem toda uma categoria de empresas industriais num país tem necessariamente repercussões bastante gerais, que o Estado não pode sentir, o que o leva a intervir. Não foi sem fundamento que o poder real tendeu indistintamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria. Era impossível que ele se desinteressasse por uma forma de atividade que por sua natureza, é capaz de afetar o conjunto da sociedade. Essa organização unitária para o conjunto de um mesmo país não exclui, de modo algum, a formação de órgãos secundários, que compreendam os trabalhadores similares de uma mesma região ou localidade, e cujo papel seria especializar ainda mais a regulamentação profissional segundo as necessidades locais ou regionais. A vida econômica poderia ser regulada e determinada, sem nada perder de sua diversidade. Por isso mesmo, o regime corporativo seria protegido contra essa propensão ao imobilismo, que lhe foi frequente e justamente criticada no passado, porque é um defeito que resultava do caráter estreitamente comunal da corporação.

Bibliografia Geral Consultada.         

SCHWARCZ, Lilia Moritz, “Complexo de Zé Carioca: Notas Sobre uma Identidade Mestiça e Malandra”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol. 10, n° 29, out. de 1995; NOLASCO, Sócrates, O Mito da Masculinidade. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1995; CORRÊA, Mariza, “Sobre a Invenção da Mulata”. In: Cadernos Pagu (6-7) 1996: pp.35-50; DA MATTA, Roberto, Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1997; CERTEAU, Michel, L`Invenzione del Quotidiano. Roma: Edizione Lavoro, 2000; FENERICK, José Adriano, Nem do Morro, Nem da Cidade: As Transformações do Samba e a Indústria Cultural (1920-1940). Tese de Doutorado em História Econômica. São Paulo: Universidade Estadual de São Paulo, 2002; HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (Org.), A Invenção das Tradições. 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; WEISS, Raquel Andrade, Émile Durkheim e a Fundamentação Social da Moralidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010; ERICEIRA, Ronald Clay dos Santos, A Mulher é a Tal: Visões de Compositores de Marchinhas Carnavalescas sobre as Mulheres no Rio de Janeiro dos Anos de 1930 e 1940. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2010; OSTOS, Natascha Stefania Carvalho, “Terra Adorada, Mãe gentil: l’Image de la Nature et du Féminin dans la Construction de l’Idée de Brésil-nation (1930-1945)”. In: Cahiers des Amériques Latines, 82; 2016, 155-170; TIBURI, Márcia, Complexo de Vira-lata: Análise da Humilhação Colonial. Rio de Janeiro: Editor José Olympio, 2021; CAMARGO, Claudia Regina, Literatura e Hipertexto: A Não Linearidade e a Formação do (Hiper)leitor. Tese de Doutorado. Programa de Doutorado em Teoria Literária. Curitiba: Centro Universitário Campos de Andrade, 2023; MIQUELUTTI, Guilherme, “Lamartine Babo, Mário Reis, Isaurinha Garcia”. In: https://www12.senado.leg.br/radio/2025/01/31entre outros.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Carnaval – Trabalho da Folia, Paixão & Sagração do Mundo Globalizado.

                   Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Clarice Lispector                                 

                                                                               

        Quando Friedrich Hegel morreu em 1831, o corpo violentamente decapitado de Maria Antonieta “jazia numa vala comum em Paris”. Napoleão e a Revolução clássica haviam percorrido seus caminhos. Os ingleses e a revolução de Metternich haviam se encarregado do grande homem. A República norte-americana tomara seu lugar entre as potências imperialistas e seus navios com máquinas velozes percorriam os sete mares. Goethe serenamente observava uma vida de conflitos fundida em forma clássica e selava seu épico de Fausto, o homem universal que transcende o mundo da sensualidade. A tragédia Fausto é, sem dúvida alguma, um dos textos que emoldura a Goethe com extraordinária repercussão universal. Nela, pode-se dizer, o poeta expressa a existência. Barão d’ Holbach estava fora de moda, mas um garoto de treze anos em Trier, Marx, nascido no ano em que Hegel se tornara professor de filosofia da Universidade de Berlim, já começava a descobrir a filosofia que significava e logo iria ressuscitar Holbach em uma forma mais dinâmica do que o romantismo e que varreria o mundo, até a China, com uma paixão do intelecto mais poderosa do que qualquer coisa que Werther tenha conhecido. Clarice Lispector foi uma escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, mas declarava, quanto a sua brasilidade, ser pernambucana, sendo considerada uma das escritoras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka.

A escritora dizia não ter aparentemente nenhuma ligação com a Ucrânia e que sua “verdadeira” pátria era o Brasil. Pouca gente se dá conta de que uma das escritoras mais talentosas da literatura brasileira viveu em Maceió. Trata-se de Clarice Lispector, que passou alguns anos de sua infância na capital alagoana. Inicialmente, a família passou um breve período em Maceió, até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu e onde, aos oito anos, perderia a mãe. Aos quatorze anos de idade, transfere-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde a família estabilizou-se, e onde o seu pai viria a falecer, em 1940. Sua obra literária tem como escopo cenas cotidianas e enredos psicológicos, sendo considerada uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Predomina em suas obras o nível de análise psicológico, visto que o narrador segue o fluxo do pensamento e o monólogo interior das personagens. As ações sociais, quando ocorrem, destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. São comuns enredarem-se histórias sem começo, meio ou fim. Por isso, ela se dizia, do ponto de vista da criação, ser mais que uma escritora, irradiando uma ideia afetiva nas palavras, porque registrava em palavras aquilo que sentia.  

Mais que histórias, seus livros apresentam impressões. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato socialmente provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens ficam em segundo plano. Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo; esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado, pelo menos inusitado para a personagem. Esse fato provoca um desequilíbrio interior que mudará a vida da personagem para sempre. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa se concentra no espaço mental das personagens. Características físicas das personagens em segundo plano.        

A religião é definida como um sistema cultural de comportamentos e práticas, moralidades, crenças, cosmovisões de mundo, textos considerados sagrados, lugares santificados, profecias, ética ou organizações sociais, que geralmente relacionam a humanidade com elementos sobrenaturais, transcendentais e espirituais; no entanto, não há consenso acadêmico sobre o que precisamente constitui uma religião. Historicamente foram propostas várias etimologias para a origem religio. Cícero, na sua obra De Natura Deorum (45 a.C.) afirma que o termo se refere a relegere, reler, sendo característico das pessoas religiosas prestarem muita atenção a tudo o que se relacionava com os deuses, relendo as escrituras. Esta proposta etimológica sublinha o caráter repetitivo do fenômeno religioso, bem como o aspecto intelectual. Mais tarde, Lactâncio (séc. III e IV d.C.) rejeita a interpretação de Cícero e afirma que o termo vem de religare, e que a religião “é um laço de piedade” para religar os humanos a Deus. No livro A Cidade de Deus, Agostinho de Hipona (século IV d.C.) afirma que religio deriva de religere. Através da religião a humanidade reelegia de novo a Deus, do qual se tinha separado. Mais tarde, na obra De Vera Religione, Agostinho retoma a interpretação de Lactâncio, que via em religio uma relação com “religar”. Diferentes religiões podem ou não conter vários elementos que vão desde o divino, coisas sagradas, fé, um ser sobrenatural ou seres sobrenaturais ou “algum tipo de intimidade e transcendência que fornecerá normas e poder para o resto da vida”.

As práticas religiosas podem incluir rituais, sermões, comemoração ou veneração de divindades e/ou santos, sacrifícios, festivais, festas, transes, iniciações, serviços funerários, serviços matrimoniais, meditação, oração, música, arte, dança, serviço público ou outros aspectos da cultura humana. As religiões têm histórias e narrativas que podem ser preservadas em escrituras, símbolos e lugares sagrados, que visam principalmente dar sentido à vida. As religiões podem conter histórias simbólicas ou metafóricas, que às vezes são consideradas verdadeiras pelos seguidores, que também podem tentar explicar a origem da vida, o universo e outros fenômenos. Tradicionalmente, a fé, além da razão, tem sido considerada uma fonte de crenças religiosas. Há uma estimativa de 10 mil religiões diferentes em todo o mundo. Cerca de 84% da população mundial é afiliada ao cristianismo, islã, hinduísmo, budismo ou alguma forma de religião popular. A demografia religiosamente não afiliada inclui aqueles que não se identificam com nenhuma religião em particular, ateus e agnósticos. Embora os religiosos não afiliados tenham crescido globalmente, muitos deles ainda mantêm várias crenças religiosas. O estudo da religião compreende uma ampla variedade de disciplinas acadêmicas, como teologia, religião comparada e estudos científicos sociais. As teorias da religião oferecem várias explicações sociais para as origens e seus significados e o funcionamento da religião, incluindo os fundamentos ontológicos na imaginação do ser e da crença religiosos. No entanto, as Filipinas, um país predominantemente católico romano, não comemora mais o Carnaval desde a dissolução da festa de Manila em 1939, representando o último carnaval no país.

Muitas personagens não apresentam sequer nome. As personagens criadas por Clarice Lispector descobrem-se num mundo absurdo. Mas esta descoberta dá-se normalmente diante de um fato inusitado - pelo menos inusitado para a personagem. Ocorre a “epifania” como a representação do momento em que a personagem sente uma “luz iluminadora” de sua consciência, contraditória, no sentido hegeliano, que a fará despertar para a vida contradições, perplexidades que noutra instância nela não fariam a menor diferença. Carnaval é um festival do “cristianismo ocidental” que ocorre antes da estação litúrgica da Quaresma. Os principais eventos ocorrem tipicamente durante o mês de fevereiro ou início de março, o período historicamente reconhecido mundialmente como Tempo da Septuagésima ou pré-quaresma. O Carnaval normalmente envolve uma festa pública e/ou desfile, combinando alguns elementos circenses, máscaras e uma festa pública de rua. As pessoas usam trajes durante muitas dessas celebrações, permitindo-lhes perder a sua individualidade cotidiana e experimentar um sentido elevado de unidade social. O consumo excessivo de álcool, de carne e outros alimentos proscritos durante a Quaresma é extremamente comum. Outras características comuns do carnaval incluem batalhas simuladas, como lutas de alimentos; sátira social e zombaria das autoridades e uma inversão geral das regras e normas do dia a dia. O termo Carnaval é tradição com utilidade de uso pragmática em regiões com uma grande presença católica.

A tragédia do Estádio do Heysel, na Bélgica, ocorreu no dia 29 de maio de 1985, quando estava para ser disputada a final da Taça dos Campeões Europeus, que opunha o Liverpool, de Inglaterra, e a Juventus, de Itália. Esta tragédia, juntamente com a tragédia de Hillsborough, é uma das mais importantes relacionada com uma manifestação desportiva e o fenômeno do hooliganismo. A possibilidade de confrontos entre os adeptos de ambas as equipes foi, desde início, ponderada pelas autoridades belgas, que anunciaram uma série de medidas de segurança a tomar: 1. proibição da venda de álcool em estabelecimentos próximos do estádio; 2. revista a todos os espectadores à entrada para o jogo, e, 3. um total de 1500 policiais para salvaguardar a segurança. Todavia, a maior parte dos bares continuou a trabalhar normalmente e a servir os hooligans de ambas as equipas. A causa do tumulto foi atribuída por testemunhas oculares aos torcedores do Liverpool que bebiam muito. Os distúrbios começaram ainda fora do estádio com ingleses e italianos a trocarem provocações. Uma joalheria foi roubada e lesada em 150 mil euros (em valores econômicos da moeda atuais). Por volta das 19 horas, uma grande parte dos espectadores já se encontrava dentro do recinto do Heysel. Contrariamente ao esquema de segurança previsto de forma fria e calculista pela corporação da polícia, o lado Norte do estádio estava partilhado por adeptos das duas formações, separados apenas por uma pequena barreira e alguns polícias.

Meia hora depois, os britânicos lançaram o primeiro “ataque” brutal e os distúrbios começaram a ganhar proporções incontroláveis. As grades que separavam as bancadas cederam à pressão humana e deram lugar à tragédia. Dezenas de espectadores italianos foram espezinhados por hooligans, que usaram barras de ferro para bater nos rivais. Com a pressão dos espectadores em pânico, o muro caiu, arrastando na queda mais algumas dezenas de pessoas. A expectativa em relação ao jogo era grande e a UEFA decidiu pela realização do mesmo. O balanço final da tragédia apontou 39 mortos e um número indeterminado de feridos. A polícia não efetuou nenhuma detenção. Os hooligans ingleses foram responsabilizados pelo incidente, o que resultou na proibição das equipas inglesas participarem em competições europeias por um período de cinco anos. As reações do povo inglês foram todas no sentido da reprovação e incredulidade pelos atos violentos dos adeptos do Liverpool, o que levou a própria rainha Isabel II a condenar publicamente o comportamento dos hooligans e a apoiar a suspensão das equipas inglesas. O jogo em si ficou em segundo plano, mas acabou com a nada comemorada vitória da Juventus por estreitos 1x0, no placar, marcado por Michel Platini, o astro do clube italiano, na cobrança de um pênalti.

Nos países historicamente luteranos, como, por exemplo, a Suécia, a Noruega e a Estônia, entre outras nações, a celebração é reconhecida como Fastelavn, e em áreas urbanas com uma alta concentração de anglicanos e metodistas, como a Grã-Bretanha e o Sul dos Estados Unidos da América, as celebrações pré-quaresmais, juntamente com observâncias penitenciais, ocorrem na terça-feira de carnaval. Nas nações eslavas ortodoxas orientais, o Maslenitsa é celebrado durante a última semana antes da Grande Quaresma. Na Europa germanófila e nos Países Baixos, a temporada de Carnaval tradicionalmente abre no 11/11 e muitas vezes às 11:11 a.m. Isto remonta às celebrações antes da época de Advento ou com celebrações de colheita da Festa de São Martinho. O Carnaval moderno, realizado com indícios de tecnologias de produção e consumo para os desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. O Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de Escolas de Samba para outras cidades do mundo globalizado, também famosas como os exemplos de São Paulo, Tóquio e Helsinque. Gradualmente, a autoridade eclesiástica começou a perceber que o resultado desejado não poderia ser alcançado simplesmente através da proibição das tradições, o que acabou levando a um grau de cristianização da festividade.

Os festivais passaram, então, a fazer parte da liturgia e do ano litúrgico. Embora formando gradativamente uma boa parte integrante do calendário cristão, em regiões católicas, particularmente, muitas tradições carnavalescas se assemelham àquelas do período pré-cristão. Acredita-se que o Carnaval italiano seja, em parte, derivado das festividades romanas antigas da Saturnália e da Bacchanalia. As Saturnálias, por sua vez, podem ser baseadas nas festas dionisíacas da Grécia Antiga e em festivais orientais. Enquanto desfiles medievais e festivais como Corpus Christi eram sancionados pela Igreja, o Carnaval também era uma manifestação da cultura folclórica medieval. Muitos costumes locais do Carnaval podem derivar de rituais pré-cristãos locais, tais como os ritos elaborados que envolvem figuras mascaradas no Fastnacht germânico. No entanto, evidências ainda são insuficientes para estabelecer uma origem direta da Saturnália ou outras festas antigas com o Carnaval. Não existem relatos etnográficos completos de saturnais e as características da festa, como reviravoltas de papéis sociais, igualdade temporária, máscaras e rompimento de regras permitidas. Essas semelhanças podem representar recursos culturais que podem incorporar múltiplos significados e funções. A Páscoa começa com a ressurreição de Jesus, seguida por um período liminar que termina com o renascimento. O Carnaval inverte a questão simbólica com o “Rei Carnaval”, que ganha vida e um período liminar que segue antes de sua morte. Ambas as festas são calculadas pelo calendário lunar. Tanto Jesus quanto o “Rei Carnaval” podem ser vistos como figuras expiadoras que fazem um presente ao povo com suas mortes.

   

Do ponto de vista antropológico, o carnaval é um ritual de reversão, no qual os papéis sociais são invertidos e as normas de comportamento social são suspensas. A letra da música foi escrita pelos compositores Luís Antônio e Jota Júnior, em 1952, mas reconhecida na voz da cantora Marlene, narra a história social de Maria Mercedes Chaves Roy. Nascida em Diamantina, em Minas Gerais, a menina, que chegou a capital fluminense aos 11 anos de idade, viveu nas ruas dos 13 aos 16 anos e foi prostituta até os 33. Ícone do Carnaval carioca, Maria sambou pela primeira vez com uma lata d'água na cabeça aos 18 anos. – “Saía dançando na avenida apenas nas pontas dos dedos. Ajoelhava e sentava no chão, esticava as pernas sentava nos pés, como uma bailarina, equilibrando a lata apenas com o pescoço. Não deixava cair nenhuma gota de água para fora!”. Foram 45 anos de desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí por inúmeras escolas, entre elas Salgueiro, Portela, Estácio de Sá, Padre Miguel e Beija-Flor. Na Antiguidade, mutatis mutandis, os povos consideravam o inverno como um “reino de espíritos” que precisavam ser expulsos para que clima do verão voltasse. O carnaval, analogamente pode assim ser considerado como um rito de passagem da escuridão para a luz, do inverno ao verão: uma celebração de fertilidade, a primeira festa de primavera do Ano Novo. Entre os antigos egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos antigos, as bacanais; na Roma Antiga, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos.

Os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno que é marcada pelo adeus à carne e a partir dela se fazia um período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome resiliente em latim Carnis Levale o indica. Outros estudiosos compreendem a origem do nome romano para a festa do Navigium Isidis (“navio de Isis”), onde a imagem de Ísis era levada à praia “para abençoar o início da temporada de velejamento”. O festival era um grande e caloroso desfile de máscaras que seguia um barco de madeira decorado, representando a origem dos carros alegóricos dos carnavais modernos e contemporâneo propriamente dito.  É preciso compreender, em primeiro lugar, que a experiência religiosa da não homogeneidade do espaço constitui uma experiência primordial, que corresponde a uma fundação do mundo. Não se trata de uma especulação teórica, mas de uma experiência religiosa primária, que precede toda a reflexão sobre o mundo. É a rotura operada no espaço que permite a constituição do mundo, porque é ela que descobre o “ponto fixo”, o centro de toda a orientação futura. Quando o sagrado se manifesta por uma hierofania qualquer, não só há rotura na homogeneidade do espaço, como também revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente. A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo. Na extensão homogênea e onde não é possível nenhum ponto de referência, a hierofania revela um “ponto fixo” absoluto, um “centro”.

Resiliente é um termo que descreve a capacidade de um indivíduo se adaptar positivamente a situações adversas, superar desafios e se recuperar de experiências negativas. Uma pessoa resiliente consegue manter o equilíbrio emocional e a funcionalidade mesmo diante de pressão, estresse ou traumas. A resiliência não significa ausência de sofrimento, mas sim a habilidade de lidar com as dificuldades de forma construtiva e seguir em frente. Em resumo, ser resiliente implica. Adaptabilidade: Capacidade de se ajustar a novas circunstâncias e desafios. Resistência: Habilidade de suportar pressões e adversidades sem se desestruturar. Recuperação: Capacidade de se recuperar de eventos negativos e seguir em frente. Otimismo: Tendência a manter uma visão positiva mesmo em situações difíceis. Autoconfiança: Crença na própria capacidade de lidar com os desafios. A resiliência é uma habilidade que pode ser aprendida e desenvolvida ao longo da vida, trazendo benefícios para a saúde mental e o bem-estar geral. E, contudo, nessa existência do espaço profano ainda intervêm valores que, de algum modo, lembram a não homogeneidade específica da experiência religiosa do espaço. Existem locais privilegiados, qualitativamente diferentes dos outros: a paisagem natal ou os sítios dos primeiros amores, ou certos lugares na primeira cidade estrangeira visitada na juventude. Esses lugares praticados guardam mesmo para o homem mais francamente não religioso, uma qualidade excepcional: são os “lugares sagrados” do seu universo privado, como se neles um ser não religioso tivesse tido a revelação de outra realidade, diferente daquela de que participa em sua existência.

Uma função ritual análoga é transferida para o limiar das habitações humanas, e é por essa razão que este último goza de tanta importância. Numerosos ritos acompanham a passagem do limiar doméstico: reverências ou prosternações, toques devotados com a mão etc. No interior do recinto sagrado, o mundo profano é transcendido, torna-se possível a comunicação com os deuses; deve existir uma “porta” para o alto, por onde os deuses podem descer a Terra e o homem pode subir simbolicamente ao céu. Em segundo lugar, para a experiência profana, o espaço é homogêneo e neutro: nenhuma rotura diferencia qualitativamente as diversas partes de sua massa. O espaço geométrico pode ser cortado e delimitado seja em que direção for, mas sem nenhuma diferenciação qualitativa e, portanto, sem nenhuma orientação – de sua própria estrutura. Basta que nos lembremos da definição do espaço dada por um clássico da geometria. O conceito do espaço homogêneo e a historicidade desse conceito, tendo em vista que foi adotado pelo pensamento filosófico e científico desde a Antiguidade, constituem um problema completamente diferente. O que interessa à nossa interpretação sociológica é a subsunção real, de forma concomitane com a experiência do espaço tal como é vivida pelo homem não religioso, diante de um rito de passagem - o carnaval - quer dizer, por um homem que recusa a sacralidade do mundo.

Como ritual uma existência profana jamais se encontra no estado puro. Seja qual for o grau de dessacralização a que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso. Nesse sentido, a Igreja pode ser entendida como uma pessoa, desse Thomas Hobbes, isto é, que ela tenha o poder de querer, de pronunciar, de ordenar, de ser obedecida, de fazer leis ou de praticar qualquer espécie de ação. Se não existir a autoridade de uma congregação legítima, qualquer ato praticado por um conjunto de pessoas é um ato individual de cada um dos presentes que contribuíram para a prática desse ato. Não um ato conjunto, como se fosse de um só corpo. Não é um ato dos ausentes ou daqueles que, estando presentes, eram contra a sua prática. Uma Igreja pode ser definida, segundo Hobbes, como um conjunto de pessoas que professam a religião cristã, ligadas à pessoa de um soberano, que ordena a reunião e que determina, segundo seus princípios, quando não deverá haver reunião. Em todos os Estados semelhantes assembleias são ilegítimas, se não são autorizadas pelo soberano civil, constitui uma assembleia ilegítima a reunião da Igreja em qualquer Estado em que tiver sido proibida.  É neste sentido que não há na Terra, portanto, qualquer Igreja universal à qual todos os cristãos devam obedecer, uma vez que não há nenhum poder aos quais todos os outros Estados estejam sujeitos. Nos domínios dos diversos príncipes e estados, existem cristãos, mas cada um deles se sujeita ao Estado do qual é membro, não podendo, por conseguinte, sujeitar-se às ordens de qualquer outra pessoa.

           

Assim, uma Igreja capaz de mandar, julgar, absolver, condenar ou praticar qualquer outro ato é o mesmo que um Estado civil formado por homens cristãos; o Estado civil tem esse nome por serem seus súditos os homens, enquanto a Igreja é assim denominada pelo fato de seus súditos serem os cristãos. Governo espiritual e temporal são apenas palavras trazidas ao mundo ocidental para confundir os homens, enganando-os quanto a seu soberano legítimo. É preciso haver um único governante, do contrário se origina a facção e a guerra civil, entre a Igreja e o Estado, entre os espiritualistas e os temporalistas, entre a espada da justiça e o escudo da fé, e, o que é pior ainda, no próprio coração de cada cristão, entre o cristão e o homem. Chamam-se pastores os doutores da igreja, bem como os soberanos civis. é um título conferido por uma variedade de igrejas cristãs a indivíduos de reconhecida importância, particularmente nos campos da teologia ou doutrina católica. Entretanto, se entre os pastores não houver alguma subordinação, de forma que haja apenas um chefe dos pastores, serão ministrados aos homens doutrinas contrárias, que poderão ser falsas, e uma delas necessariamente o será. O soberano civil é o chefe dos pastores, segundo a lei natural. Embora o poder tanto do Estado, enquanto representação de um conjunto de práticas e saberes sociais, quanto da religião estar nas mãos dos reis, nenhum deles deixou de ser fiscalizado em seu uso, a não ser quando eram bem quistos por suas capacidades naturais ou por sua fortuna.

As divisões mais básicas no cristianismo contemporâneo ocorrem entre a Igreja Católica Romana, a Igreja Católica Ortodoxa e as denominações formadas durante e depois da Reforma Protestante. As maiores diferenças entre Ortodoxia e Catolicismo são culturais e hierárquicas, enquanto as denominações Protestantes apresentam diferenças teológicas mais acentuadas para com as duas primeiras, bem como grande diversificação doutrinária entre suas vertentes. As análises comparativas entre grupos denominacionais devem ser feitas com pesquisa e alguma cautela. Em alguns grupos, congregações são partes de uma organização eclesiástica monolítica, enquanto que em outros grupos, cada congregação representa uma organização autônoma independente. Comparações numéricas também podem ser consideradas problemáticas, no sentido sociológico, pois alguns grupos contam como membros, de forma seleta, tanto os adultos batizados, quanto os filhos batizados dos fiéis, enquanto outros grupamentos admitem entre pares e somente contabilizam os fiéis adultos. Incardinação e excardinação, numa nomenclatura própria da Igreja Católica consagrada no Código de Direito Canônico e a partir da raiz simbólica do “cardo” tal como cardeal, é receber ou liberar padres ou diáconos por determinado tempo. A primeira refere-se ao ato de admitir ou receber formalmente numa diocese um sacerdote pertencente à outra, e para a segunda, corresponde ao seu oposto (ou antônimo) que é o desligar ou demissão de um clérigo da jurisdição duma para outra.

Pode acontecer que incardinar seja concretamente a adscrição de um membro de clero a uma Igreja particular, a uma prelazia pessoal, ou a um instituto de vida consagrada, uma ordem religiosa ou uma congregação, uma sociedade particularizada que tenha faculdade de adscrever clérigos “acéfalos” ou “vagos”. O Concílio Vaticano II (ou Vaticano II) foi o 21º Concílio Ecumênico da Igreja Católica, realizado em quatro sessões entre 1962 e 1965. Intercedeu não só normalizando, mas de fato determinando que se revissem as suas normas, de modo que correspondessem melhor às necessidades pastorais, no sentido de adaptá-las aos tempos, para o bem-comum de toda a Igreja.  Na coordenação dos trabalhos na Igreja, o ministério eclesiástico, divinamente instituído, é exercido em diversas Ordens pelos que desde a Antiguidade são chamados bispos, presbíteros e diáconos. Eles recebem o Sacramento da Ordem, nos seus três diferentes graus, para serem “os pastores do povo de Deus”. A Ordem é um dos sete sacramentos do catolicismo que confere o poder e a graça de exercer funções e ministérios eclesiásticos que se referem ao culto de Deus e à salvação das almas, e que imprime na alma de quem o recebe o caráter de ministro de Deus. Pela imposição das mãos e pelas palavras do bispo, este sacramento faz dos homens diáconos ou presbíteros. Atribui-se aos presbíteros os poderes em nome de Jesus, de perdoar os pecados e consagrar o pão e o vinho em corpo e sangue de Jesus Cristo, representando a eucaristia e de conferir, conforme o seu grau, os outros sacramentos. Dentre os graus da Ordem, o supremo entre eles é pelo Episcopado, com a plenitude do Sacerdócio; em seguida o Presbiterado ou Sacerdócio simples; depois o Diaconato e as Ordens que se chamam menores.

O Sacerdócio é necessário na Igreja, porque sem ele os fiéis estariam privados do Santo Sacrifício da Missa e da maior parte dos Sacramentos. Não teriam quem os instruísse na fé, e ficariam como “ovelhas sem pastor à mercê dos lobos”; em suma, não existiria a Igreja como Cristo a instituiu. O sacramento da Ordem é dividido em duas hierarquias: “Ordens Menores”, as que não consagram de modo definitivo quem as recebia: hostiário, leitor, exorcista e acólito. A palavra hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício a Deus. E, respectivamente “Ordens Maiores”, as que consagram de modo definitivo ao serviço de Deus: subdiaconato, diaconato, presbiterado e episcopado. Após as reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI extinguiu as quatro “Ordens Menores” e o subdiaconato. Pelas Cartas Apostólicas Ministeria Quædam, de 15 de agosto de 1972, o Papa Paulo VI manteve o leitorato e o acolitato como ministérios da Igreja Latina, podendo ser concedidos a leigos e sendo obrigatórios aos candidatos ao diaconato e ao presbiterado. Com a denominação de apenas Ordem ficaram os graus de diaconato, presbiterado e episcopado. Os católicos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e das associações tradicionais usam todas as ordens constituídas.  

Por divina instituição, pelo sacramento da Ordem, alguns dentre os fiéis, pelo caráter indelével com que são assinalados, são constituídos ministros sagrados, isto é, são consagrados e delegados a fim de que, personificando Cristo, cada qual no seu respectivo grau apascente o povo de Deus, “desempenhando o múnus de ensinar, santificar e governar”. Na Igreja Católica, somente um varão batizado pode receber validamente a ordenação sagrada. Os presbíteros (padres ou sacerdotes) são os cooperadores da ordem episcopal e participam e exercem com o bispo o único sacerdócio de Cristo. Em virtude do Sacramento da Ordem, são consagrados, à imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote, para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino. Sacerdotes diocesanos são aqueles que estão incardinados em uma diocese e se dedicam plenamente no serviço de pastoreio desta porção da Igreja. São padres diocesanos trabalhando, padres incardinados residentes incorporados definitivamente na diocese e nela exercem seu ministério. O Estado nacional tende a regular a vida doméstica mediante o controle sobre a família e a administração da vida privada. Trata-se de um processo contraditório, pois originariamente a economia pertencia ao domínio do chefe da família e a política à cidadania na polis. A esfera privada da família, fenômeno pré-político na Grécia Antiga, transformou-se num interesse coletivo controlado pelo monopólio de um Estado soberano, e como a esfera privada e a esfera pública correlacionam-se reciprocamente.

A passagem das preocupações da esfera privada da família e da casa para o domínio da política anulou a oposição clássica entre a polis e o oikos. A esfera privada atual teve a sua origem nos últimos períodos do Império Romano. Numa época em que devido à desagregação do Império, os cidadãos procuravam afirmar os seus direitos privados nomeadamente o direito de propriedade no espaço público como resposta aos ataques dos bárbaros. Na modernidade, a sociabilidade e a política situam-se no domínio do individualismo possessivo. Ipso facto, o carnaval é um festival de representação do cristianismo ocidental que ocorre antes da estação litúrgica da Quaresma. Os principais eventos ocorrem durante o mês de fevereiro ou início de março, durante o período historicamente conhecido como “Tempo da Septuagésima” ou pré-quaresma. O carnaval normalmente envolve uma festa pública e/ou desfile combinando alguns elementos artísticos circenses, máscaras e uma festa de rua pública. As pessoas usam trajes durante muitas dessas celebrações, permitindo-lhes perder a sua individualidade cotidiana e experimentar um sentido elevado de unidade social. As etimologias populares afirmam que a palavra vem da expressão do latim tardio “carne vale”, que significa “adeus à carne”, condicionando o período de jejum que se aproxima. No entanto, esta interpretação não é apoiada por provas filológicas. A expressão “carne levare” do italiano é uma possível origem, que significa “remover a carne”, uma vez que a carne é proibida para o consumo durante a Quaresma. O consumo excessivo de álcool, de carne e outros alimentos proscritos durante a Quaresma é comum. Outras características similares incluem batalhas simuladas, lutas de alimentos, sátira social ou política e zombaria das distorções das autoridades da inversão das regras e normas do dia-a-dia.    

A indústria cultural possibilitou, desde as primeiras décadas no século XX, a criação e o funcionamento de sociedades totalmente administradas, que já não precisam se empenhar em justificar suas prescrições e imposições sociais. Sociedade de consumo é um termo utilizado para designar o tipo de sociedade que se encontra numa avançada etapa de desenvolvimento industrial capitalista e que se caracteriza pelo consumo massivo de bens e serviços disponíveis, graças a elevada produção. O conceito de sociedade de consumo está ligado ao de economia de mercado, aquela que encontra o equilíbrio entre oferta e demanda através da livre circulação de capitais, produtos e pessoas, sem intervenção estatal, e, por fim, ao conceito de capitalismo. Em virtude dos fatos sociais, do ponto de vista sociológico e antropológico, entende-se que esses exageros característicos das sociedades de consumo são provenientes de fatores sociais e principalmente culturais. A massificação dos consumidores contemporâneos tende a aceitá-las passivamente, considerando-as normais, legitimadas pelo simples fato de existirem. Se para a ideologia dominante em uma sociedade determinada, tudo é opinião, não devemos perder de vista que algumas opiniões são falsas e outras corretas. O poder de persuadir os indivíduos das opiniões corretas está ligado à capacidade da ideologia da propaganda, que interpela o indivíduo constituindo-o em sujeito de consumo, com a capacidade de apoiar num vasto sistema reprodutivo educativo. Articulado sob as formas de organização da cultura, corrompida, proporcionado ao público consumidor.   

Do ponto de vista econômico não há dúvida de que o desenvolvimento, partindo de valores para chegar aos preços passa pela intermediação do valor do dinheiro, mas o valor do dinheiro afeta a todos os preços da mesma forma. A questão do valor é subjacente e explica, de fato, as relações entre os preços das mercadorias que refletem as relações entre as quantidades de trabalho socialmente necessário contidas nelas. As relações entre os preços, que na teoria de Marx são fundadas no valor-trabalho, vêm expressas, a grosso modo, na teoria econômica convencional pelo conceito de preços relativos. Os preços – obviamente de mercado – têm nos valores de mercado seu centro de gravitação. E no curto prazo são as variações nas quantidades de trabalho socialmente necessárias que afetam mais fortemente os preços de produção, pois afetam o preço de custo das mercadorias individuais, tanto produzidos por capitais específicos quanto na sua interação social no mercado, que impõe a tendência à equalização constante das taxas de lucro dos capitais individuais. O valor de mercado, em economia, refere-se ao valor que um produto atinge no mercado, baseando-se na concorrência de mercado e lei de oferta e procura. Costuma-se contrapor o valor de mercado ao valor real do produto. O valor de mercado da roupa de grife famosa pode ir muito acima ou abaixo do seu valor, dependendo da estação que condiciona a escala dos preços dos produtos.

Juízo significa, primeiramente, organização e subsunção do individual e particular ao geral e universal, procedendo-se então a uma avaliação ordenada com a aplicação de parâmetros pelos quais se identifica o concreto e de acordo com decisões. Por trás de todos esses juízos há um prejulgamento, um preconceito. Somente o caso individual é julgado, não o próprio parâmetro ou a questão de ele ser ou não uma medida adequada do objeto que está sendo medido. Num dado momento, emitiu-se um juízo sobre o parâmetro, mas agora esse juízo foi adotado, tornando-se, por assim dizer, um meio para se emitirem futuros juízos. Mas juízo pode significar algo totalmente diferente e sempre significa de fato quando nos confrontamos com algo que nunca vimos e para o que não temos nenhum parâmetro à disposição. Esse juízo que não conhece parâmetro só pode recorrer à evidência do que está sendo julgado, e seu único pré-requisito é a faculdade de julgar, o que tem muito mais a ver com a capacidade de discernir do que com a capacidade de organizar e subordinar. Tais juízos sem parâmetros nos são bastante familiares quando se trata de questões de estética e gosto, historicamente, como observou Immanuel Kant (1724-1804), na filosofia, que não se podem discutir, mas de que se pode, seguramente, discordar e concordar. Na vida cotidiana isso se verifica em face da situação desconhecida, que fulano ou beltrano um juízo correto ou equivocado.  

Do ponto de vista antropológico, o carnaval é um ritual de reversão, no qual os papéis sociais são invertidos e as “normas de comportamento são suspensas”, no sentido foucaultiano. Na Antiguidade, os povos consideravam o inverno como um “reino de espíritos” que precisavam ser expulsos para que clima do verão voltasse. O carnaval pode assim ser considerado como um rito de passagem da escuridão para a luz, do inverno ao verão: uma celebração de fertilidade, a primeira festa de primavera do Ano Novo. Entre os antigos egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos antigos, as bacanais; na Roma Antiga, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes saborosos regozijos. Pelo seu lado, os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno a que é marcada pelo adeus à carne que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome origina-se em latim “carnis levale” que o indica. Outros estudiosos defendem ardorosamente a origem do nome romano para a festa do Navigium Isidis, onde a representação social da imagem de Ísis era levada à praia para abençoar o início da boa temporada de velejamento.

O festival consistia em um desfile de máscaras que seguia um barco de madeira decorado, possivelmente a origem dos carros alegóricos dos carnavais modernos e contemporâneo propriamente dito. Enquanto a sociedade civil se prepara para a grande festa secular do Brasil, as igrejas evangélicas se organizam para dedicar os quatro dias do feriado a um momento de grande espiritualização e adoração a Deus. O retiro espiritual representa um conjunto de práticas religiosas e atividades evangélicas que proporcionam tempo aos participantes para olhar os principais pontos da vida, o que está bem, o que está mal e como melhorar. Retiros podem ter diversos formatos e duração, uma forma comum tem dois dias de duração (final de semana) e é realizado em uma casa de retiro, um local que permite contato com a natureza e tranquilidade. São ministradas palestras por sacerdote e leigos, há atividades sociais como Santa Missa, Terço e Via Sacra, entre outras práticas representadas sob a forma de piedade. Milhares de jovens encontram-se na aparente contramão na história, daquilo que se espera que eles façam no carnaval e se unem em encontros cristãos, com direito a pregação, louvor e oração.  

 

A Igreja Renascer em Cristo, por exemplo, é uma das inúmeras denominações que, todos os anos, organiza um retiro para os jovens do ministério. E porque diversão não é pecado, os cada vez mais populares acampamentos evangélicos de carnaval reservam espaço na agenda para várias brincadeiras, atividades esportivas, shows, passeios e mergulhos na piscina, para afastar o calor. Outras igrejas seguem a mesma ideia privatista e promovem acampamentos durante o feriado de carnaval, tudo como parte da estratégia de evangelização em uma festa tão tradicional e popular entre os “não crentes”. Vários jovens levam convidados para os acampamentos e muitas pessoas têm sido edificadas pela pregação da palavra e atuação do Espírito Santo nos acampamentos das igrejas. Várias outras igrejas seguem a mesma ideia e promovem acampamentos durante o feriado de carnaval, tudo como parte da estratégia de evangelização em uma festa tão tradicional e popular entre os “não crentes”. O objetivo é afastar jovens do carnaval, promovendo eventos como conferências e retiros religiosos. A autoridade eclesiástica com a sua experiência milenar, facilmente começou a perceber que o resultado desejado não poderia ser alcançado apenas através da proibição das tradições, o que acabou levando a um grau de cristianização da festividade.

Os festivais passaram então a fazer parte da liturgia e do ano litúrgico. Embora formando uma parte integrante do calendário cristão, particularmente em regiões católicas, muitas tradições carnavalescas se assemelham àquelas do período pré-cristão. Acredita-se que o carnaval italiano seja em parte derivado das festividades romanas antigas da Saturnália e da Bacchanalia. As Saturnálias, por sua vez, podem ser baseadas nas festas dionisíacas da Grécia Antiga e em festivais orientais. Enquanto desfiles medievais e festivais como Corpus Christi eram sancionados pela Igreja, o carnaval também era uma manifestação da cultura folclórica medieval. Muitos costumes hic et nunc do carnaval podem derivar de rituais pré-cristãos determinados, regionalizados, tais como os ritos de passagem elaborados que envolvem figuras mascaradas no Fastnacht germânico. No entanto, evidências ainda são insuficientes para estabelecer uma origem direta da Saturnália ou outras festas antigas com o carnaval. Não existem relatos etnográficos absolutamente completos de saturnais e as características da festa, como reviravoltas de papéis sociais, igualdade social temporária, máscaras e rompimento de regras permitidas, que comparativamente entre si, não constituem necessariamente aspectos coerentes com esses festivais. Essas semelhanças podem representar um acúmulo de recursos culturais que podem incorporar múltiplos significados e funções.

Por exemplo, a Páscoa começa com a ressurreição de Jesus, seguida por um período liminar que termina com o renascimento. O carnaval inverte isto com o “Rei Carnaval”, que ganha vida e um período liminar que segue de sua morte. Ambas as festas são calculadas pelo calendário lunar. Tanto Jesus quanto o “Rei Carnaval” podem ser vistos como figuras expiadoras que fazem um presente ao povo com suas respectivas mortes. Da Itália, as tradições do carnaval se espalharam para Espanha, Portugal e França, e da França para a Nova França na América do Norte. De Espanha e Portugal, se espalhou com a colonização para o Caribe e a América Latina. No início do século XIX na Renânia alemã e Países Baixos, a tradição medieval enfraquecida também foi revivida. Continuamente nos séculos XVIII e XIX, como parte dos abusos cometidos contra judeus na Saturnália em Roma, rabinos de guetos eram forçados a marchar através das ruas da cidade usando trajes ridículos, sendo expostos à multidão. Uma petição da comunidade judaica de Roma enviada em 1836, ao Papa Gregório XVI com o objetivo de parar com os abusos anuais saturnalistas obteve uma negação: - “Não é oportuno fazer qualquer inovação”. Há registro na Renânia que em 1823, o primeiro desfile de carnaval moderno ocorreu em Colônia. Algumas das tradições reconhecidas, incluindo desfiles e máscaras, foram registradas pela primeira vez na Itália medieval. O carnaval de Veneza, um famoso festival anual realizado no Itália, reconhecido por suas fantasias elaboradsa e máscaras, foi, culturalmente durante muito tempo, do ponto de vista merceológico tanto quanto comunicativo, o carnaval mais famoso, embora Napoleão tenha abolido a festa em 1797 e só em 1979 a tradição tenha sido restaurada.

O conceito de carnaval na sociedade norte-americana, em particular, remete a uma especialização espacial típica das “sociedades complexas”, onde as relações sociais seriam individualizadas e marcadas por especializações espaciais. O traço fundamental é o individualismo e a ideologia igualitária que, historicamente, corresponde ao indivíduo como categoria política, econômica, moral, social e religiosa. Em sistemas sociais assim constituídos, a vida social deixa de ser marcada pela totalidade, perdendo, por conseguinte sua complementariedade fundamental, aquela que se reflete em grupos tribais no encaixe entre as metades, os clãs ou linhagens que precisam existir, caso contrário o universo social ficaria desfalcado e irremediavelmente ferido. Raros são os momentos em que percebemos o poder e o peso da totalidade com sua rede de ultradeterminações. Um desses momentos, no caso brasileiro durante o carnaval, é um ritual ideológico universalizante e abrangente, envolvendo o sistema complexos de determinações sociais e permitindo no seu bojo todos os personagens, gestos, fantasias e músicas. O carnaval norte-americano mais do que uma situação, é um lugar praticado. Através da Entre o carnaval do Rio de Janeiro e de Nova Orleans, que Roberto DaMatta procurava revelar que, a festividade estava marcada pela ideologia “do encontro e da comunhão, muito nítida no concurso desinibido dos sexos e das classes sociais”.

                 

O carnaval de Nova Orleans parecia realizar justamente o oposto: é localizado, ao passo que o do Rio de Janeiro e generalizado. Isto é, não pertence somente a uma cidade, mas a todo o país. Em New Orleans, o carnaval é uma festa especializada, da cidade, do mesmo modo que o Patriot`s Day, o Easter Parede, o Veleid Prophet`s Ball e o Cherry Blossom Festival são, respectivamente especialidades das cidades de Boston, Nova York, St. Louis e Washington. Outro aspecto é que o carnaval brasileiro, embora se realize em quatro dias, é percebido como uma festa compacta: “é tempo do Carnaval”. Um momento especial, onde tudo pode ocorrer; um período em que o mundo social fica pleno de potencialidade e deixa de ser focalizado por meio de seus mediadores sociais ordinários. O carnaval do Rio de Janeiro e, portanto, sem temor a erro, do Brasil é, então um período em que se ganha em liberdade e anonimato, vale dizer, em campo de manobra social.

Como os bailes e desfiles são atividades separadas, tendo como contraponto toda a sorte de encontros privados, quando a população se divide entre ricos e pobres, negros, negros e brancos, o carnaval de Nova Orleans é percebido como algo exclusivo de uma classe, em que elementos de discriminação antissemita e antiitaliana são também encorajados. Assim, os grupos participam do carnaval como entidades corporificadas dando ênfase ao local da cidade de onde vêm a sua cor, posição social e escola a que se foliam. No Rio de Janeiro, o carnaval se ordena em duas categorias básicas: o carnaval de rua e o carnaval de clube. Não aprece haver dúvidas de que carnaval é um rito em que o princípio social da inversão é aplicado de modo consistente. Mas inverter é apenas um mecanismo lógico, e nem sempre conduz o evento social numa mesma direção. Nos Estados Unidos da América, onde uma ideologia individualista e igualitária opera no cotidiano, permite-se que, no mundo invertido do carnaval, a hierarquização dos grupos seja abertamente admitida. A tese de Roberto Da Matta é que precisamente essa hierarquia é que permite relacionar de um ponto de vista fenômenos tão separados e aparentemente distintos quanto as fraternidades universitárias, a formação de clubes e sociedades secretas como a extremista Ku Klux Klan e o Mardi Grass de Nova Orleans. 

No caso brasileiro, quase tudo se passa no lusco-fusco ao inverso. É precisamente por poder colocar tudo fora de lugar que o carnaval é frequentemente associado a “uma grande ilusão”, ou “loucura”. A transformação do carnaval brasileiro é, pois, aquela da hierarquia cotidiana na igualdade mágica de um momento passageiro. De modo que, no carnaval, os marginais anônimos que formam esse segmento social do subúrbio, do morro e da “escola de samba” se transformam em “professores” e “doutores” de samba e de ritmo. A inversão do carnaval brasileiro é, neste sentido, diversa da do carnaval hierarquizado norte-americano, em que a brecha que a sociedade abre em sua rotina transforma os marginais e inferiores que, são muito significativamente chamados de “indivíduos”, isto é, alguém sem ninguém e sem posição social, em pessoas e as pessoas que não são as donas do sistema em indivíduos, isto é, uma massa justaposta e indiferenciada de cidadãos, de forma massificada quase todos com os mesmos direitos para cantar, dançar e brincar algo que é contrário, interpela a ideologia hierárquica brasileira como sujeito; já que, nesse período, ninguém deve ritualizar relações sociais utilizando o clássico “você sabe com quem está falando?”, fórmula e rito de passagem autoritário que transforma o indivíduo pragmaticamente em autoridade de pessoa.

Bibliografia Geral Consultada.

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