“A reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito”. Oscar Niemeyer
A
organização de um espaço serial representou uma das grandes modificações
técnicas do ensino elementar. Permitiu ultrapassar o sistema tradicional: um
aluno que trabalha alguns minutos com o professor, enquanto fica ocioso e sem
vigilância o grupo confuso dos que estão esperando. Determinando lugares
individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de
todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o
espaço escolar como uma “máquina de ensinar”, mas também de vigiar, de
hierarquizar, de recompensar. O tempo penetra o corpo, e com ele todos os
controles minuciosos do poder. O controle disciplinar não consiste simplesmente
em ensinar ou impor uma série de gestos definidos; impõe a melhor relação entre
um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e de
rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada
deve ficar ocioso: tudo deve ser chamado essencialmente a formar o suporte do
ato requerido. Um corpo disciplinado forma o contexto de realização do mínimo
gesto dos recursos multimodais (aspectos verbais, gestos, corpo e mundo
material) com rigor abrangendo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do
indicador. A aprendizagem corporativa
com a utilização de bolsistas, na história social do Ocidente, introduzidas
pelas castas que formam pequenos grupos de pesquisas nas universidades
públicas, surgiu originalmente em 1667, confiados durante certo tempo a um
mestre que devia realizar “sua educação e instrução”, depois colocados para a
aprendizagem junto aos diversos mestres tapeceiros da manufatura; após seis
anos de aprendizagem, quatro anos de serviço e uma prova qualificatória, tinham
direito a “erguer e manter loja” em qualquer cidade do reino.
Encontramos aí a divisão técnica do trabalho corporativo: relação de dependência ao mesmo tempo individual e total quanto ao mestre; duração estatutária da formação que se conclui com uma prova qualificatória, mas que não se decompõe segundo um programa preciso; troca total entre o mestre que deve dar seu saber e o aprendiz que deve trazer seus serviços, sua ajuda mútua e muitas vezes uma retribuição. A forma de domesticidade se mistura a uma transferência de conhecimento. A escola é dividida em três classes. A primeira para os que não têm nenhuma noção de desenho; a segunda para os que já têm alguns princípios e, na terceira, aprendem as cores, fazem pastel, iniciam-se na teoria e na prática do tingimento. Regularmente, os alunos fazem deveres individuais: cada um desses exercícios, marcado com o nome e a data da execução, é depositado nas mãos do professor. Os melhores são recompensados, reunidos no fim do ano e comparados entre eles, permitem estabelecer os progressos, o valor atual, o lugar relativo de cada aluno, e os que podem seguir para a classe superior. Em resumo, pode-se dizer historicamente que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla quatro tipos de individualidade, ou antes, uma individualidade dotada de quatro características: é celular, pelo jogo da repartição espacial, é orgânica, pela codificação das atividades, é genética, pela acumulação do tempo, é combinatória, pela composição das forças. E, para tanto, utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza táticas. Esta representa a arte de construir, com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática disciplinar contemporaneamente.
Uma técnica extensiva utilizada nos laboratórios das universidades. Design é uma palavra inglesa originária de designo, que em latim significa designar, indicar, representar, marcar, ordenar. O sentido de design lembra o que em português tem a palavra desígnio: projeto, plano propósito. Há uma diferença em inglês entre os termos design (desígnio) e drawing (desenho), o que não ocorre na Língua Portuguesa. A palavra portuguesa desenho, ao contrário da palavra inglesa design e da espanhola diseño significa especificamente a representação figurativa de formas sobre uma superfície. Considerando a definição da profissão e suas atribuições, a palavra design foi a escolhida pela comunidade acadêmica e pelas associações profissionais. A função social qualificada de um designer gráfico é atribuir significados ao artefato por meio de sua aparência, ou seja, o profissional induz o “usuário a ver o artefato de determinada maneira, associando-lhe conceitos abstratos como estilo, status, identidade”. O designer gráfico é, convenientemente, um conhecedor e utilizador das mais variadas técnicas e ferramentas de desenho, mas não só. Tem como principal moeda de troca a habilidade para aliar a sua capacidade técnica à crítica e ao repertório conceitual, sendo fornecedor de matéria-prima intelectual, baseada numa cultura visual, social e psicológica. Não é apenas um mero executante, mas sim um condutor criativo que tem em vista um objetivo comunicacional alcançado quase sempre por meio de metodologias projetuais que o auxiliam a projetar. Queremos dizer com isto que, historicamente que o estudo do design gráfico sempre esteve ligado a outras áreas do conhecimento como a psicologia, teoria da arte, comunicação, ciência da cognição, entre muitas outras. No entanto o design gráfico possui um conhecimento próprio que se desenvolveu através da sua história, mas tem se tornado evidente nos últimos anos.
É possível que a guerra
como estratégia seja a continuação da política. A política, como técnica da paz
e da ordem interna, procurou por em funcionamento o dispositivo do exército
perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento na manobra
e no exercício. Se há uma série guerra-política que passa pela estratégia, há
uma série exército-política que passa pela tática. A vigilância se torna um
operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna
no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar. Na
essência de todos os sistemas disciplinares, funciona um pequeno mecanismo
penal. É beneficiado por uma espécie de privilégio de justiça, com suas leis
próprias, seus delitos especificados, suas formas particulares de sanção, suas
instâncias de julgamento. As disciplinas estabelecem uma infrapenalidade,
quadriculam um espaço deixado pelas leis, qualificam e reprimem um conjunto de
comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa
indiferença. Na oficina, na escola, no exército, funciona como repressora toda
uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da
atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser
(grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo
(atitudes incorretas, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia,
indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, uma série de
processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a
pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações
mais tênues de conduta social, e de dar uma função punitiva aos elementos
indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir
para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa
universalidade punível-punidora.
Mas a disciplina traz
consigo uma maneira específica de punir, e que é apenas um modelo reduzido do
tribunal. O que pertence à penalidade disciplinar é a inobservância, tudo o que
está inadequado à regra, tudo o que se afasta dela, os desvios. É passível de
pena o campo indefinido do não conforme. O regulamento da infantaria prussiana
impunha tratar com “todo o rigor possível” o soldado que não tivesse aprendido
a manejar corretamente o fuzil. O castigo disciplinar tem a função de reduzir
os desvios. Deve, portanto, ser essencialmente corretivo. De modo que o efeito
corretivo que dela se espera apenas de uma maneira acessória passa pela
expiação e pelo arrependimento; é diretamente obtido pela mecânica de um
castigo. Castigar é exercitar. Ipso facto, o exame combina as técnicas da
hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. É um controle normalizante,
uma vigilância que permite qualificar, classificar, punir. Estabelece sobre os
indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e
sancionados. Em todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente
ritualizado. Nele vêm-se reunir a cerimônia do poder. A forma da experiência, a
demonstração da força e o estabelecimento da verdade. O indivíduo é o átomo
fictício de uma representação social. É uma realidade fabricada por essa
tecnologia específica de poder: a disciplina.
O panóptico de Bentham,
é uma máquina de dissociar o par-ser-visto: no anel periférico, se é
totalmente, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo,
sem nunca ser visto, pois é a figura arquitetural dessa composição. O princípio
é reconhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre: esta
é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a
construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a
espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior,
correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que
a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre
central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário
ou um estudante. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber a torre,
recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas
celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator
está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O
panóptico organiza unidades espaciais que permitem “ver sem parar e reconhecer
imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas
três funções – trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e
se suprime duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra,
que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha” (cf. Foucault, 2014:
194).
Por
que o amor está, antes de mais anda, absolutamente intricado em seu objeto, e
não simplesmente associado a ele: o objeto do amor em toda a sua significação
categorial não existe antes do amor, mas apenas por intermédio dele. O que faz
aparecer de maneira bem clara que o amor – e, no sentido lato, todo o
comportamento do amante enquanto tal – é algo absolutamente unitário, que não
pode se compor a partir de elementos preexistentes. Totalmente inúteis parecem,
pois, as tentativas de considerar o amor como um produto secundário, no sentido
de que seria motivado como resultante de outros fatores psíquicos primários. No
entanto, ele pertence a um estágio demasiado elevado da natureza humana para
que possamos situá-lo no mesmo plano cronológico e genético da respiração ou da
alimentação, ou mesmo do instinto sexual. Tampouco podemos safar-nos do
embaraço por esta escapatória fácil: em virtude de seu sentido metafísico, de
seu significado atemporal, o amor permanece sem dúvida à primeira – ou última -
ordem dos valores e das ideias, mas sua realização humana ou psicológica
colocá-lo-ia num estágio ulterior de uma série longa e complexa na evolução
contínua da vida. Não podemos nos satisfazer com essa estranheza recíproca de
seus significados ou de suas areações. O problema de seu dualismo é aí,
reconhecido e bem expresso, mas não resolvido; determo-nos nessa conclusão
seria duvidar de sua solubilidade.
O amor, mutatis
mutandis, é uma das grandes categorias sociais que dá forma ao existente,
mas isso é dissimulado tanto por certas realidades psíquicas como in fieri por
certos modos de representações teóricas. Não há dúvida que o efeito amoroso
desloca e falsifica inúmeras vezes a imagem objetivamente reconhecível de seu
objeto e, nessa medida, é decerto geralmente reconhecido, segundo Simmel, como
“formativo”, mas de uma maneira que não pode visivelmente parecer coordenada
com as outras forças espirituais que dão forma. Trata-se, portanto, aqui, de
uma imagem já existente que se encontra modificada em sua determinação
qualitativa, sem que se tenha abandonado seu nível de existência teórica, nem
criado um produto de uma nova categoria. Essas modificações que o amor já
presente traz à exatidão objetiva da representação nada têm a ver com a criação
inicial que produz o ser amado como tal. Na verdade, todas essas categorias são
coordenadas, por sua significação, quaisquer que sejam o momento ou as
circunstâncias em que elas atuam. E o amor é uma delas, na medida em que cria
seu objeto como produto totalmente original. É preciso, antes de mais anda, que
o ser humano exista e seja conhecido, antes de ser amado. Mas esse algo que
acontece não tem lugar com esse ser existente que permaneceria não modificado,
foi, ao contrário, no sujeito que uma nova categoria fundamental se tornou intelectual
criadora. Do mesmo modo que eu, amante, sou diferente do que era antes – pois
não é determinado “aspecto” meu, determinada energia que ama em mim, mas meu
ser inteiro, o que não precisa uma transformação visível de todas as minhas
outras manifestações -, também ele enquanto tal, é um outro, nascendo de outro
a priori que não o ser conhecido ou temido, indiferente ou venerado.
Michel Foucault é reconhecido internacionalmente por descrever uma analítica do poder em relação às instituições sociais, entre elas a Igreja Católica. Do latim cathedra que, por sua vez, tem origem num vocábulo grego que significa “assento” ou “cadeira”, a cátedra é a disciplina ou a cadeira, metaforicamente, que ensina um catedrático - professor que tenha preenchido determinados requisitos para partilhar conhecimentos e que tenha alcançado o posto mais alto na docência. O termo também é usado para fazer referência à função e ao exercício do catedrático. Essa Cátedra, que leva o nome de Michel Foucault, não é dedicada à leitura de seus escritos – que hoje já é parte da cultura clássica. Ela está voltada, sob o impulso não exclusivo de seus trabalhos, como o diz seu título, para uma livre análise, informação e debate sobre questões de filosofia e de vida civil contemporânea. A recusa de tal Cátedra, aberta à complexidade e diversidade de estudos e pesquisas na atualidade, contradiz a deontologia universitária assim como seu fundamento filosófico. A Universidade seria sua primeira vítima. Assim teríamos ironicamente, no caso da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo a 2ª morte de Michel Foucault. O filósofo deixou inscrito uma das mais belas profecias sobre o “cuidado de si”. Uma ética política sobre a história da sexualidade, incluída a morte. O filósofo deixou inscrita uma das mais belas profecias sobre o “cuidado de si”. Uma ética política sobre a história da sexualidade, incluída a morte. Este aspecto passa a ser um elemento novo decorrente da analítica do poder proposta através da análise discursiva.
A problemática da governamentalidade
fora retomada no “resumo dos cursos do College de France” (1970-1984):
“gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar
hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante dez anos”. Veio a
falecer em 25 de junho de 1984, “quando seu estado de saúde não mais lhe
permitia prepará-los”. Salvo engano, nenhum sistema de pensamento obteve
repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de simbólica, a
partir de temas como: a crítica da razão governamental, a analítica do poder,
sobre as relações “espaço-tempo” e “poder-saber”, “estética da existência” e
“experimento moral”, e mesmo entre o “império do olhar” e a “arte de ver”. É
impossível esquecer a tese foucaultiana segundo a qual “a visibilidade é uma
armadilha” que “canceriza” a vista através do poder disciplinar. O estudo
dedicado ao “cuidado de si” teve como referência Alcibíades, general e político
ateniense nascido em Atenas, sobrinho de Péricles, importante figura na
famigerada Guerra do Peloponeso (431-404 a. C.). Descendia de família ilustre e
após ter ficado órfão, foi educado por Péricles, de quem era sobrinho, e retratado
pelo pintor Pedro Américo em 1865. Nele, as questões dizem respeito ao “cuidado
de si” com a política, a pedagogia e o conhecimento de si. Sócrates recomendava
a Alcibíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois,
“com 50 anos, seria tarde demais”.
Mas isso, numa relação
que diz respeito talvez ao enamoramento, na acepção de Francesco
Alberoni e que não pode “ocupar-se de si” sem a ajuda do outro. O exercício da
morte, como evocado na Antiguidade por Sêneca, consiste em viver a duração da
vida como se fosse tão curta quanto um dia e viver cada dia como se a vida
inteira coubesse nele; todas as manhãs, deve-se estar na infância da vida, mas
deve-se viver toda a duração do dia como se a noite fosse o momento da morte.
Na hora de dormir, afirma na Carta 12, com um sorriso: “eu vivi”. Mas há
uma advertência, importantíssima na existência humana: “é preciso tempo para
isso”. E é um dos grandes problemas dessa cultura de si, fixar, no decorrer do
dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas
diversas. Podem-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de
recolhimento para o exame daquilo que se fez para a memorização de certos
princípios úteis, para o exame do dia transcorrido; o exame matinal e vesperal
dos pitagóricos se encontra, com conteúdos diferentes, nos estoicos; Sêneca,
Epicteto, Marco Aurélio, fazem referência a esses momentos revigorados na
plenitude da vida que se deve consagrar a voltar-se para si mesmo. Pedro Américo: “Sócrates afastando Alcebíades
do vício”, 1865.
Pode-se também
interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer um
desses retiros que Musonius, dentre outros, recomendava vivamente: eles
permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar
diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da
leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar,
graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional.
É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas
diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos
ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no
trabalho filosófico ou, como Spurrima, na calma de uma existência agradável, “à
posse de si próprio” no espaço e tempo sociais habituais. Esse tempo não é
vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas
que são ocupadas pelas reflexões de nosso dia a dia. Ocupar-se de si não é uma
sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios
físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades.
Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou
conversações ouvidas, e que serão relidas, a rememoração das verdades que já se
sabe, mas de que convém apropriar-se melhor. Marco Aurélio fornece um exemplo
de “anacorese em si próprio”: trata-se de um trabalho de reativação dos
princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não se deixar
irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas.
Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo. Ela não constitui simplesmente um mero exercício da solidão; mas sim uma verdadeira prática sociológica. E isso, em vários e amplos sentidos. Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma; ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito; e é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode dar na duração da vida. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações sociais preexistentes às quais ele dá uma nova coloração e um sentido de calor expresso em intensidade maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece então como uma intensificação mais do que necessária das relações sociais. É sobretudo neste sentido que Sêneca dedica um consolo à sua mãe. Justamente no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade de seu próprio tempo e, espaço talvez, mais tarde, infortúnios maiores sobre a solidão. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de “serviço da alma” que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas. Neste aspecto filosófico Michel Foucault abriu caminho para o eterno.
Portanto é a partir
dela que, se tomarmos como analogia a reflexão realizada por Foucault para
identificar as condições e possibilidades nas “formações discursivas” entre
arqueologia e história das ideias, pode-se agora inverter o procedimento.
Pode-se descer no sentido da corrente e, uma vez percorrido o domínio das
formações discursivas e dos enunciados, uma vez esboçada sua teoria geral,
correr para os domínios possíveis de sua aplicação. Recorrer sobre a utilidade
dessa análise que ele batizou de “arqueologia” recoloca o problema da escansão
do discurso segundo grandes unidades que não eram as das obras, dos autores,
dos livros ou dos temas. Sua singularidade refere-se ao fato social de que em
sua épistème “já existem muitos métodos capazes de descrever e analisar a
linguagem, para que não seja presunção querer acrescentar-lhes outro”. Ele já
havia mantido “sob suspeita”, expressão que Michel Foucault utiliza repetidas
vezes hic et nunc, unidades de discurso como no que se refere ao livro ou a
obra porque desconfiava que não fosse tão imediata e evidente quanto pareciam
ser no âmbito da pesquisa hermenêutica e propriamente filosófica. Portanto,
será razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço, depois
de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que foram necessárias
centenas de páginas para elucidá-los?
E o que todos esses
instrumentos acabam por delimitar, esses famosos “discursos” cuja identidade
eles demarcam, coincide com as figuras chamadas “psiquiatria” ou “economia
política” ou “história natural” de que ele tinha empiricamente partido, e que
serviu de pretexto para remanejar esse estranho arsenal. Forçosamente, ele
precisa agora medir a eficácia descritiva das noções que tentou definir.
Precisa saber se a máquina funciona e o que ela pode produzir. O que pode,
então, oferecer essa “arqueologia”, que outras descrições não seriam capazes de
dar? Qual é a recompensa de tão árdua empresa, indagava o bravo filósofo. Hoje,
em vista dos acontecimentos inusitados a di-visão entre ironia e
absurdismo. Poder-se-á dizer em sua complementariedade que a originalidade da
filosofia reside na forma como desfaz a oposição entre história e analítica,
entre argumentação descritiva e propositiva, porque justamente o seu desígnio
é fazer uma genealogia. Ou seja, um estudo da proveniência que
identifica o lugar em que se deu um conflito e uma ruptura que ainda exerce
efeitos sociais específicos no nosso presente.
Nascido no Rio de
Janeiro, Oscar Niemeyer (1907-2012) estudou na Escola Nacional de Belas Artes,
atual Universidade Federal do Rio de Janeiro e durante seu terceiro ano
estagiou com seu futuro colega na construção de Brasília Lúcio Costa, com quem
acabou colaborando no projeto para o Ministério de Educação e Saúde, atualmente
Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Contando com a presença de Le
Corbusier, Niemeyer teve a chance de trabalhar junto com o mestre suíço, sendo
ele uma grande influência em sua arquitetura. O primeiro grande trabalho de
arquitetura individual de Niemeyer foram os projetos de uma série de edifícios
na Pampulha, um subúrbio planejado no Norte de Belo Horizonte (MG), tendo como
parceiro o engenheiro Joaquim Cardozo - que viria a ser o autor dos cálculos de
suas principais obras em Brasília. Esse trabalho, especialmente a Igreja São
Francisco de Assis, recebeu elogios da crítica nacional e estrangeira, chamando
a atenção internacional para Oscar Niemeyer. Ao longo dos anos 1940 e 1950,
Niemeyer se tornou um dos arquitetos mais prolíficos do Brasil, projetando uma
série de edifícios, tanto no país como no exterior. Isso incluiu o projeto de
diversas residências e edifícios públicos, e ainda a colaboração com Le
Corbusier (e outros) no projeto da sede das Nações Unidas em Nova Iorque, o que
provocou convites para ensinar na Universidade Yale e na Escola de Design
da Universidade Harvard.
Em 1956, Oscar Niemeyer foi convidado pelo novo presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek (1902-1976), para projetar os prédios públicos da nova capital do Brasil, que seria construída no centro do país. Seus projetos para o Congresso Nacional do Brasil, o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e a Catedral de Brasília, todos concluídos anteriormente a 1960, foram em grande parte de natureza experimental e foram ligados por elementos de design comuns. Esse trabalho levou à sua nomeação como diretor do departamento de arquitetura da Universidade de Brasília, bem como membro honorário do Instituto Americano de Arquitetos. Devido à sua ideologia notadamente de esquerda e sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), Niemeyer deixou o país após o golpe civil-militar de 1° de abril de 1964 e, posteriormente, abriu um escritório em Paris. Com a abertura política ele retornou ao Brasil em 1985 e foi premiado com o prêmio Pritzker de arquitetura, em 1988. Entre seus projetos mais recentes se destacam o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1996), o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (2002), a Cidade Administrativa de Minas Gerais (2010), o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, na Espanha (2011) e o Memorial Luiz Carlos Prestes (projeto de 2012). Niemeyer continuou a trabalhar até dias antes de sua morte, em 5 de dezembro de 2012, aos 104 anos. Seu último projeto foi idealizado pouco antes de morrer: a “cidade das artes e da cultura”, em Essaouira, chamada Mogador, é uma cidade da costa sudoeste de Marrocos, capital da província, que faz parte de Marraquexe-Safim, região litorânea. O rei Mohammed VI esperou oito anos para dar aval ao projeto.
Desnecessário dizer que
a cultura da Grécia Antiga historicamente é a base sobre a qual se eleva
a cultura da civilização ocidental. Como sabemos, exerceu poderosa influência
sobre os romanos, que se encarregaram de repassá-la a diversas partes da
Europa. A civilização grega antiga teve influência na linguagem, na política,
no sistema educacional, na filosofia, na ciência, na tecnologia, na arte e na
arquitetura moderna, particularmente durante a renascença da Europa ocidental e
de resto durante os diversos reviverem neoclássicos dos séculos XVIII e XIX.
Conceitos sociológicos como cidadania e democracia são gregos, ou pelo menos de
pleno desenvolvimento nos manuscritos dos gregos. Os historiadores e escritores
políticos cujos trabalhos sobreviveram ao tempo eram, em sua maioria,
atenienses ou pró-atenienses e todos conservadores. Por isso se conhece melhor
a história de Atenas do que a história das outras cidades. Esses homens
concentraram seus trabalhos em aspectos políticos, militares e diplomáticos,
ignorando o que veio a se conhecer modernamente por áreas de conhecimento em
história econômica e social. O homem é criação propiciada pelo processo real de
transformação da realidade e por uma formação ideal exagerada da imaginação que
faz a essência do homem criadora.
A possibilidade real, a
ocasião apriorística desse modo de comportamento que chamamos amor, fará
surgir, se for o caso, e levará à consciência, como um sentimento obscuro e
geral, inicial de sua própria realidade, antes mesmo que a ele se some a
incitação por um objeto determinado para levá-lo a seu efeito acabado. A existência desse impulso sem objeto, por
assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro
produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva
em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas
vezes dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o
amor seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo seu
símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de
uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como
se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De
fato, o amor é o sentimento que, fora dos sentimentos religiosos, se liga mais
estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele
brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o
objeto. É que nenhuma instância vem se interpor. Se venero alguém. É pela
qualidade de venerabilidade que, em sua realidade, permanece ligada à imagem
pelo tempo quanto eu o venerar, passível de adoração, contemplação e respeito.
Por mais insuficiente, por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o conceito de objetivo e de meios em presença da misteriosa realização da vida, devemos qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo (no sentido lato) mas a mediações psíquicas. Enfim, a pulsão, dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, sabemos que a pulsão não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto a procriar os melhores filhos. Mas, indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum, ou, se quiserem, a prefiguração do amor. A vida historicamente se metamorfoseia na dimensão da produção social, traz sua corrente à altura dessa onda cuja crista vital, de desenvolvimento, sobressai acima dela. Se considerarmos o processo da vida como um dispositivo de meios a serviço desse objetivo e se levarmos em conta seu significado efetivo para a propagação da espécie, este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si.
Do mesmo modo, no homem
que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente
ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha
representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio
que desmente a assimilação que comumente se faz deles. Mas o específico do amor
é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre
relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção
direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza
verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento
indubitável do que foi sua razão de nascer. Essa constelação, que engloba
inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é vivida
segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a uma
ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente
estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu
significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A
ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez
uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em
construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia
que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que
esta última caiu nas mãos de açougueiros. Por outro lado, o que é óbvio, não
podemos afastar pura e simplesmente essa relação.
Para que a espécie humana pudesse sobreviver,
a psique precisou ser socializada e dar sentido a um mundo aparentemente
sem-sentido natural-biológico. Ao criar as significações, institui-se a
sociedade que é a origem de si mesma. Não se poderia pensar a humanidade fora
do mundo de significações, ou a subjetividade, a partir do termo
“para si”, das representações das instituições sociais. O “para si” é inferido
a partir das instancias, interdependentes, em que todas existem, mas nenhuma se
mantém sem a outra, numa completa relação de atividade e reciprocidade
representando a totalidade do sujeito. Enfim, Cornelius Castoriadis admite que
é impossível fazer filosofia sem uma ontologia, segundo o aristotelismo, parte
da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser
apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente,
ocultam sua natureza plena e integral. isto é, sem uma interrogação sobre o
ser, mas, ao contrário do que possa pensar aquele para quem ontologia soa como
“palavra proibida”, sua reflexão é inteiramente articulada à questão política.
Não sendo, pois, uma idealização, mas um pensamento radical sobre a
possibilidade de uma sociedade na qual os homens tenham consciência de seu
poder. Por sua vez, o imaginário radical enquanto imaginário social aparece
como corrente do coletivo anônimo, traduzindo-se na sociedade e no que para o
social-histórico é posição, criação e fazer ser. Duas dimensões não
incomunicáveis nem estáticas, embora a psíquica, tenha participação
oculta na formação do próprio na criação.
Em Amor em Grande Estilo (2023), Ella (Jaicy Elliot) é uma designer curvilínea do Brooklyn e Derek (Benjamin Hollingsworth) um magnata e executivo de uma revista de moda contemporânea. Esta é a produção de estreia da atriz Jaicy Elliot em um filme para a televisão. Amor em Grande Estilo é o segundo de oito filmes originais da programação Fall Harvest de 2022 do Hallmark Channel. Ella é uma confiante e apaixonada aspirante a designer de moda plus-size que quer fazer roupas para mulheres como ela mesma. Enquanto trabalha como uma costureira freelance para uma revista de moda de alto nível, ela conhece o bonito e encantador Derek, o “Príncipe do Editorial”, que está trabalhando para assumir o negócio da revista de seu pai, Derek precisa aprender o negócio da moda rapidamente. Quando os designs exclusivos de Ella inspiram Derek a incluir moda plus size em sua revista, não demora muito para que ele perceba que a influência social da designer vai muito além do arquétipo comunicacional da passarela. Design gráfico tem como representação social a área de conhecimento e um conjunto de práticas e saberes profissionais específicas relativas ao ordenamento estético-formal de elementos textuais e não-textuais que compõem peças gráficas destinadas à reprodução com objetivo expressamente comunicacional. É uma forma de comunicar visualmente um conceito, uma ideia, por meio do emprego de técnicas formais. Podemos considerá-lo como meio de trabalho de estruturar e dar forma à comunicação, em que, no geral, se trabalha o relacionamento entre imagem e texto. No início do século XXI, a participação do design gráfico expandiu-se para os meios digitais, sendo utilizado na criação de sites, portais eletrônicos, softwares e diversas outras áreas relacionadas ao design digital.
O amor é sempre uma
dinâmica que se gera, Para Simmel (1993) por assim dizer, a partir de uma
autossuficiência interna, sem dúvida trazida, por seu objeto exterior, do
estado latente ao estado atual, mas que não pode ser, propriamente falando,
provocada por ele; a alma o possui enquanto realidade última, ou não o possui,
e nós não podemos remontar, para além dele, a um dos movens exterior ou
interior que, de certa forma, seria mais que sua causa ocasional. É esta a
razão mais profunda que torna o procedimento de exigi-lo, a qualquer título
legítimo que seja totalmente desprovido de sentido. Sequer sua atualização
dependa sempre de um objeto, e se aquilo que chamamos de desejo ou necessidade
de amor – esse impulso surdo e sem objeto, em particular na juventude, em
direção a qualquer coisa a ser amada – já não é amor, que por enquanto só se
move em si mesmo, digamos um amor em roda livre. Seguramente, a pulsão em
direção a um comportamento poderá ser considerada como o aspecto afetivo do
próprio comportamento, ele próprio já iniciado; o fato de nos sentirmos
“levados” a uma ação significa que a ação já começou anteriormente e que seu
acabamento não é outra coisa que o desenvolvimento ulterior dessas primeiras
inervações. Onde, apesar do impulso sentido, não passamos à ação, isso se dá
seja porque a energia não basta para ir além desses primeiros elos da ação,
seja porque ela é contrariada por forças opostas, antes mesmo que esses
primeiros elos já anunciados à consciência tenham podido se prolongar num ato
visível. A possibilidade real, a ocasião apriorística desse modo de
comportamento que chamamos amor, fará surgir, se for o caso, e levará à
consciência, como um sentimento obscuro e geral, inicial de sua própria
realidade, antes mesmo que a ele se some a incitação por um objeto determinado
para levá-lo a seu efeito acabado.
A existência desse impulso sem objeto, por assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas vezes dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o amor seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo seu símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De fato, o amor é o sentimento que, fora dos sentimentos religiosos, se liga mais estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o objeto. O que é decisivo aqui é que nenhuma instância de caráter geral vem se interpor. Se venero alguém. É pela mediação da qualidade de certo modo geral de venerabilidade que, em sua realidade particular, permanece ligada à imagem desse por tanto tempo quanto eu o venerar. Do mesmo modo, no homem que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio que desmente a assimilação que comumente se faz deles. Mas o específico do amor é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento indubitável do que foi sua razão de nascer.
Essa constelação, que
engloba inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é
vivida segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a
uma ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente
estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu
significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A
ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez
uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em
construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia
que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que
esta última caiu nas mãos de açougueiros. Por outro lado, o que é óbvio, não
podemos afastar pura e simplesmente essa relação. Nossa emoção sexual, afirma
Simmel, desenrola-se em dois níveis de significação. Por trás do arrebatamento
e do desejo, da realização e do prazer sentidos, diretamente subjetivos, delineia-se,
consequência disso tudo, a reprodução da espécie. Pela propagação contínua do
plasma germinal, a vida corre infinitamente, atravessando todos estágios ou
levada por eles de ponta a ponta. Por mais insuficiente, por mais preso a um
estreito simbolismo humano que esteja o conceito de objetivo e de meios em
presença da misteriosa realização da vida, devemos qualificar essa emoção
sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção da espécie, confiando
aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo (no sentido lato) mas
a mediações psíquicas.
Enfim, a pulsão,
dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao
outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à
medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, a pulsão
não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode
ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto
a procriar os melhores filhos. Mas,
indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um
marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando
seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto
que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum,
ou, se quiserem, a prefiguração do amor. A vida se metamorfoseia também nessa
produção, traz sua corrente à altura dessa onda, cuja crista, porém, sobressai
livremente acima dela. Se considerarmos o processo da vida absolutamente como
um dispositivo de mios a serviço desse objetivo - a vida – es e levarmos em
conta o significado simplesmente efetivo do amor para a propagação da espécie,
então este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si.
Na sociologia, reconhecidamente o conceito de “individuação” é utilizado pelo sociólogo Danilo Martuccelli, na entrevista: “Como os indivíduos se tornam indivíduos”, ele ressalta a importância de estudar os fenômenos sociológicos através da ótica dos indivíduos, o que ele chama de teoria da individuação. Segundo o mesmo, estudar a realidade segundo as vivências históricas particulares, nos auxilia no processo social de compreensão dos mecanismos responsáveis pela produção de sujeitos em diversos contextos históricos. A individuação é um fenômeno que se mostra eficiente para desvendar os problemas, e uma excelente formação de estudo sociológico, podendo ser aplicada a qualquer fenômeno. Dessa forma, o entendimento de cada problema ou manifestação social deve ser analisado do microcosmo para o macrocosmo, traduzindo a nível de experiências individuais os grandes desafios coletivos de uma sociedade. A individuação dos sujeitos se desenvolve quando estes se veem envoltos pelas forças dos processos de racionalização e aceitação social condicionantes. Todos os sujeitos estão destinados a encarar as mesmas dificuldades, o que psicologicamente Martuccelli denomina de “prova”. Porém a resposta de cada um será diretamente proporcional à sua própria caraterização contida na identidade, posição social, raça, gênero e recursos.
Daí nasce a questão
individuação. Esse processo também é derivado da variação entre sociedades e
também entre períodos históricos. Ainda sobre o conceito de “provas”, segundo
Martuccelli, são desafios estruturais que podem variar. É importante ressaltar que
tais provas não são determinantes, ou seja, não definem o futuro e a identidade
dos sujeitos, mas podem influenciá-los. E através de provas comuns é que se
produzem indivíduos singulares. A noção de prova possui quatro aspectos: o
primeiro se refere à percepção dos indivíduos frente a situações difíceis. O
segundo, diz respeito às respostas ou reações dos indivíduos frente a tais
dificuldades reais. O terceiro aspecto menciona o caráter seletivo de tais
provas. O sujeito poderá obter sucesso ou falhar. E por último, cada sociedade
possui um conjunto de provas que podem ser mais ou menos pré-determinadas.
Neste mesmo raciocínio, encontramos também, nos textos de Martuccelli, a noção
de “suporte”. Esse conceito está baseado no fato de que os indivíduos necessitam
se estruturar para se manterem firmes frente à sociedade, uma vez que ser um
indivíduo implica na soberania sobre si mesmo e na diferenciação em relação aos
demais. Esses suportes estarão diretamente relacionados às respostas que os
indivíduos dão ao enfrentarem uma prova, e podem ou não garantir o sucesso do
sujeito.
A individuação,
conforme descrita por Jung, é um processo através do qual o ser humano evolui
de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o
que implica uma ampliação da consciência. Através desse processo, o indivíduo
identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se
encontra e mais com as orientações emanadas do si-mesmo, a totalidade,
entenda-se totalidade como o conjunto das instâncias psíquicas sugeridas por
Carl Jung, tais como persona, sombra, self, etc. de sua
personalidade individual. Jung entende que o atingir da consciência dessa
totalidade é a meta de desenvolvimento da psique, e que eventuais resistências
em permitir o desenrolar natural do processo de individuação é uma das causas
do sofrimento e da doença psíquica, uma vez que o inconsciente tenta compensar
a unilateralidade do indivíduo através do princípio da enantiodromia. Jung
ressaltou que o processo de individuação não entra em conflito com a norma
coletiva do meio no qual o indivíduo se encontra, uma vez que esse processo tem
como condição para ocorrer que o ser tenha conseguido adaptar-se e inserir-se
com sucesso em seu ambiente, tornando-se um membro ativo de sua comunidade. O
psicólogo suíço afirmou que poucos indivíduos alcançavam a meta da individuação
mais ampla. Um dos passos necessários para tanto seria a assimilação das quatro
funções, a saber, sensação, pensamento, intuição e sentimento, conceitos
definidos por Jung em sua teoria dos tipos psicológicos.
Em seus estudos sobre a
alquimia, Jung identificou a meta da individuação como sendo equivalente à Opus
Magna, ou Grande Obra dos alquimistas. A individuação também pode ser
compreendida em termos globais como o processo que cria o mundo e o leva a seu
destino (cf. Rocha Filho, 2007), não sendo, por isso, uma exclusividade humana.
A individuação, neste contexto literário, se identifica com o mecanismo de
autorrealização, ou primeiro motor do universo. Numa formulação próxima dos
estudos em comunicação, de acordo com Samuel Mateus, “tomar o indivíduo segundo
as formas de individuação significa, assim, a capacidade de incluir a
singularidade na pluralidade (e vice-versa), bem como de assimilar uma
diversidade de manifestações heterogéneas - por vezes incoerentes entre si -
num todo aglutinante que molda a autoconsciência individual. Significa também
incorporar modos de interpretação do indivíduo fundados nas relações
tensionais, interdependentes e imprevisíveis operadas entre um indivíduo que
oscila entre a singularidade e a pluralidade, entre um polo individual e um
polo social”. Esta última noção trabalha o conceito de individuação a partir da
Sociologia tendo uma clara filiação social nos trabalhos de Georg Simmel e
Norbert Elias.
A perspectiva da
individuação segundo Martuccelli, ressalta a importância de estudar os
fenômenos sociológicos através da ótica dos indivíduos, o que ele irá chamar de
“teoria da individuação”. De acordo com a sua interpretação, estudar a
realidade segundo as vivências históricas particulares, nos auxilia no processo
de compreensão dos mecanismos responsáveis pela produção de sujeitos culturais
em diversos contextos. A individuação é por ele considerada um fenômeno que se
demonstra com eficácia simbólica para desvendar os problemas sociais e é
considerada uma excelente ferramenta de estudo sociológico passível de ser
aplicada a qualquer fenômeno. Um estudo da The Psychologist, uma
publicação oficial da British Psychological Society, concluiu que o amor
doentio deveria ser levado mais a sério pelos profissionais. De acordo com o
autor do estudo, Frank Tallis (2019), “muitas pessoas necessitam de ajuda por
não poder lidar com a intensidade do amor e têm sido desestabilizadas por causa
disso, ou sofrem pela não-correspondência de seu amor”. Especializado em
transtornos obsessivos, leciona psicologia clínica e neurociência e realiza
frequentemente palestras no Instituto de Psiquiatria e Neurociência no King’s
College London. Publicou mais de trinta artigos científicos em revistas
internacionais e escreveu mais de vinte obras.
Se a Fenomenologia representa o itinerário da alma que se eleva ao espírito por meio da consciência, fora de dúvida a ideia de semelhante itinerário foi sugerida a Hegel pari passu com a convergência entre as obras literárias, como também aquelas que nos parecem referidas como novelas de cultura tendo em vista a leitura feita sobre o Emílio, de J.-J. Rousseau e que nela encontrava uma primeira história da consciência natural elevando-se por si mesma a liberdade, através das experiências que lhe são próprias e que são particularmente formadoras. Se me permitem uma digressão, na Lettre à d`Alembert, Rousseau, além de ignorar a distinção metodológica entre o “possível e o real”, também fornece uma teoria explícita dos limites da perfectibilidade do teatro. Assim, Rousseau inova, quando recorta do ponto de vista heurístico a ideia social de gênero de todo fundamento ideal-transcendente, deixando-a à deriva no elemento móvel no âmbito da historicidade. O campo do possível é constituído na história: cada forma de sociabilidade, cada estilo de linguagem, escolhe, por assim dizer, os seus móveis possíveis; a cada abertura, esboçada por uma linguagem particular, corresponde um fechamento que lhe é indissociável. O gênio nada pode contra as regras que secreta cada estrutura histórica. Esta ideia foi suficiente ao desenho mais correto na inscrição como esta: “Isto não é um cachimbo”, para que logo a figura esteja obrigada a sair de si própria, isolar-se de seu próprio espaço e, finalmente, pôr-se a flutuar, longe ou perto de si mesma, não se sabe, se semelhante ou diferente de si.
No oposto de Isto não é um cachimbo, L`Art de la Conversation: numa paisagem de começo do mundo ou mesmo de gigantomaquia, dois personagens minúsculos estão falando: discurso inaudível, murmúrio que é logo retomado no silêncio das pedras, no silêncio dessa parede em desaprumo que domina, com seus blocos enormes, os dois tagarelas mudos; ora esses blocos amontoados em desordem uns sobre os outros, formam a sua base, um conjunto de letras onde é fácil decifrar a palavra: rêve – sonho que é possível, olhando melhor, completar com trêve, trégua, ou crêve, morte, ou morra, arrebente, como se todas essas palavras frágeis e sem peso tivessem recebido o poder de organizar o caos das pedras. Ao contrário, pois por detrás da tagarelice despertada, mas logo perdida, dos homens, as coisas pudessem, em seu mutismo e em seu sono, compor uma palavra, estável que anda poderá apagar, palavra que designa a mais fugidia das imagens. Mas não é tudo: pois segundo Foucault, é no sonho que os homens, enfim, reduzida ao silêncio, comunicam com a significação das coisas, e se deixam impressionar por essas palavras enigmáticas, insistentes, que vem de outro lugar. Isto não é um cachimbo, era a incisão do discurso na forma das coisas, era seu poder ambíguo de negar e de desdobrar: A arte da conversa é a gratidão autônoma das coisas que forma as suas próprias palavras na indiferença dos homens, impondo a eles, sem mesmo que saibam, em sua tagarelice cotidiana. Para o que importa entre esses dois extremos, a obra de Magritte desdobra o jogo das palavras e imagens. Os títulos, frequentemente inventados a posteriori e por outrem, se inserem nas figuras onde o ponto em que podem se agarrar, estava se não marcado, autorizado de antemão, onde representam um ambíguo.
Monsieur Foucault nos coloca em
dupla condição diante de um complexo esboço filosófico sobre a arte que, ao
mesmo tempo, é arte enquanto abstração. Dois sujeitos escapam ao marcado mundo
das semelhanças: o leitor e o expectador. Este mesmo campo das semelhanças serve
à representação e igualmente a ordena, enquanto a similitude se estabelece na
incerteza e na flutuação. Tudo isso é necessário para afirmar que “em nenhum
lugar há um cachimbo” (p. 34). O que importa saber para além da representação
de Magritte é que os signos e as coisas, dois universos de semelhanças, estão
unidos pelo mesmo jogo. A semelhança domina a trama do mundo das coisas. O que
Foucault chamou de “um apagar do lugar-comum” não é mais que a ausência de
espaço entre os signos da escrita e as linhas da imagem. A arte escreve algo em
nós, discursa e apresenta enunciados de difícil compreensão. Um objeto num
quadro é um volume organizado e colorido de tal sorte que sua forma se
reconhece logo e que não é necessário nomeá-lo, mas no objeto, a massa
necessária é reabsorvida, o nome inútil é despedido; Magritte elide o objeto e
deixa o nome imediatamente superposto à massa. O fuso substancial do objeto não
e mais representado senão por seus dois pontos extremos, a massa que faz sombra
e o nome que designa. L`Alphabet des révélations se opõe muito
exatamente ao Personagem caminhando em direção do horizonte: para Foucault, um
grande quadro de madeira dividido em dois painéis, à direitas, formas simples,
perfeitamente reconhecíveis, um cachimbo , uma chave, uma folha, um copo; ora,
embaixo do painel, a figuração de um rasgo mostra que essas formas não são nada
além de recortes numa folha de papel sem espessura; sobre o outro painel, uma
espécie de barbante torcido e inextricável não desenha nenhuma forma
reconhecível. Sem massa, sem nome, forma e volume, recorte vazio, tal é o
objeto, entenda-se, que havia desaparecido do quadro precedente.
É preciso não se enganar: num espaço em que cada elemento parece obedecer ao único princípio de representação plástica e da semelhança, os sinais linguísticos, que pareciam excluídos, que rondavam de longe à volta da imagem, e que o arbitrário do título parecia ter afastado para sempre, se aproximaram sub-repticiamente: introduziram na solidez da imagem, uma desordem – uma ordem que só lhes pertence. Fizeram fugir o objeto, que revela a finura de sua película. Parece, grosso modo, que Magritte dissociou a semelhança da similitude e joga esta contra aquela. A semelhança tem um padrão impreciso, mas que funciona como elemento original que ordena e hierarquiza a partir de si todas as cópias, cada vez mais fracas, que podem ser tiradas. Assemelhar significa uma referência primeira que prescreve e classifica. O similar se desenvolve em séries que não tem começo nem fim, que é possível percorrer num sentido ou em outro, que não obedecem a nenhuma hierarquia, como num colegiado universitário, mas se propagam sob a forma de pequenas diferenças em inúteis pequenas diferenças. A semelhança serve à representação, que reina sobre ela; a similitude serve à repetição, que corre através dela. A semelhança se ordena segundo o modelo que está encarregada de acompanhar e de fazer reconhecer; a similitude faz circular o simulacro como relação indefinida e reversível do simular ao simular. Na Décalcomanie (1966), uma cortina vermelha de largas dobras que ocupa dois terços do quadro subtrai ao olhar uma paisagem do céu, do mar e de areia. Ao lado da cortina, dando como de costume, as costas ao espectador, o homem com chapéu-coco olha para o perigo. A cortina se encontra recortada com uma forma que é exatamente a do homem: como se fosse ele próprio um pedaço de cortina cortado com a tesoura. Nessa larga abertura, vê-se a praia. O que se deve compreender? É o homem destacado da cortina e, ao se deslocar permite ver o que ele provavelmente estava olhando quando se misturava com a dobra da cortina? Decalcomania? Deslocamento e mudança de elementos similares, mas de modo algum reprodução semelhante: “corpo=cortina”, diz representação semelhante.
A semelhança comporta uma única asserção,
sempre a mesma. A similitude as afirmações diferentes, que dançam juntas,
apoiando-se e caindo umas em cima das outras. Expulsa do espaço do quadro,
excluída da relação entre as coisas que reenviam uma à outa, a semelhança
desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar, onde estaria liberta do
jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança ser a soberania que faz
surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das coisas, não é própria ao
pensamento? “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado ser semelhante; ele
assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o mundo oferece”. O
pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio essas coisas cuja
similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse ponto onde está na
vertical um pensamento que está sob o modo da semelhança e das coisas que estão
nas relações de similitude. Isto não é um cachimbo é suficiente para a questão:
quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os elementos dispostos, seja
deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura um jogo de transferências
que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no plano do quadro sem nada
afirmar, nem representar nesses jogos da similitude.
Em Les Liaisons
dangereuses uma mulher nua mantém diante de si um espelho que a esconde
quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados, baixa a cabeça, que volta
para a esquerda como se quisesse não ser vista e não ver que é vista. Esse
espelho, que se encontra exatamente no plano do quadro e de frente para o
espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora
do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega
esconde. O espelho funciona um pouco ao modo de uma tela radioscópica. Mas com
todo um jogo de diferenças. A mulher é ali vista de perfil, inteiramente
voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço
não estendido para carregar o espelho pesado, mas dobrado sobre os seios; a
longa cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na
imagem do espelho, à esquerda, ligeiramente interrompida pela moldura do
espelho, no momento desse ângulo brusco. A imagem é notavelmente menor do que a
própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa
distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando
o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de
distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da
parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a
superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos
esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar;
translações sem ponto de partida nem suporte. Dia virá no qual a própria
imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de
similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto
abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação
semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em
circulação.
Michel Foucault com o único fim de estabelecer os efeitos sociais a partir de tais relações sociais e políticas desloca-se deste ponto de vista para trabalhar com algumas séries de noções: “formações discursivas”, “positividade”, “arquivo”, definindo um domínio. Os enunciados, o campo enunciativo, as práticas discursivas, revelam a especificidade de um método de análise que não seria “nem formalizador, nem interpretativo”, pois já existem muitos métodos capazes de descrever e analisar a linguagem, para que não seja presunção querer acrescentar-lhes outro. Ele já havia mantido “sob suspeita”, expressão que utiliza hic et nunc, em unidades de discurso como o livro ou a obra porque desconfiava que não fosse tão imediata e evidente quanto pareciam: será razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço, depois de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que foram necessárias centenas de páginas para elucidá-los? O que pode oferecer metodologicamente essa arqueologia? Qual é a recompensa de tão árdua empresa? Ela procura ordenar, classificar, averiguar e compreender os fatos sociais e históricos. Entre análise arqueológica e história das ideias, os pontos de separação são numerosos, mas que simplificadamente, para o filósofo, apresentam quatro distinções: 1ª) A arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras sociais. Ela não trata o discurso como documento, mas onde se mantém a parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio, na qualidade de monumento. Não busca um “outro discurso” mais oculto. Recusa-se a ser “alegórica”; 2ª) A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e insensível que liga, em declive suave, os discursos aoque os precede, envolve ou segue. O problema dela é, pelo contrário, definir a tópica dos discursos em sua especificidade, sintoma e precariedade dada. Mostrando em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a outro; segui-los ao longo das arestas exteriores para melhor salientá-los.
Ela não vai à progressão lenta do campo do confuso da opinião à singularidade do sistema ou à estabilidade definitiva da ciência; não é uma “doxologia”, mas uma análise diferencial das modalidades de discurso; 3ª) A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não busca compreender o momento em que esta se destacou no horizonte anônimo. Não quer reencontrar o ponto enigmático em que o individual e o social se invertem um no outro. Ela não é nem psicologia, nem sociologia, nem, num sentido mais geral, a ideia de “antropologia da criação”. A obra não é para ele um recorte metodológico acadêmico pertinente, mesmo se se tratasse de recolocá-la em seu contexto mais global, ou na rede das causalidades positivistas que a sustentam. Ela define tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais. Embora muitas vezes as comandasse inteiramente e as dominam sem que nada lhes escape, no sentido panoptista. Mas sem dúvida em outras vezes, que só lhes rege uma parte referida à instância do sujeito e princípio de sua unidade que ao que parece lhes são estranhas. Mas Michel Foucault entende que a arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiam o discurso. Ela não se propõe a recolher esse núcleo aparente e fugidio onde Autor e obra trocam de identidade. Onde o pensamento permanece ainda o mais próximo de si, na forma ainda não alterada do mesmo, e onde a linguagem não se desenvolveu ainda na dispersão espacial sucessiva do discurso. Não tenta repetir o que parece que foi dito, reencontrando-o em sua própria identidade. Não se pretende apagar na modéstia ambígua de uma leitura que deixaria voltar, em sua pureza, a luz longínqua, precária, quase extinta da origem. Menos que nada e diferente de uma “reescrita”. É na forma mantida da exterioridade, uma transformação regulada do que já foi escrito. Não é o retorno ao próprio “segredo da origem”; é descrição de um discurso-objeto.
É neste sentido que no livro: As Palavras e as Coisas (2016), Michel Foucault indica-nos pistas e propõe metodologicamente uma forma peculiar de descrever a imagem, sobre a técnica de interpretação através da pintura do quadro Las Meninas, de 1656 de Diego Velásquez, o principal artista do século de ouro espanhol havendo sido reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. Não por acaso o pintor barroco Luca Giordano afirmou que ela representa a “teologia da pintura”, com o presidente da Academia Real Inglesa ou Royal Academy School of Arts: Sir Thomas Lawrence (1769-1830) descrevendo a obra em 1827 para David Wilkie (1785-1841) refere-se a ela como “a verdadeira filosofia da arte”. Seguindo esta direção interpretativa a obra foi descrita magistralmente ainda como a “realização suprema de Velásquez, uma demonstração bem consciente e calculada sobre o que uma pintura pode alcançar”. Artista celebrado e prolífico, tinha igualmente o cognome de Luca Fapresto pelos seus contemporâneos pela inusitada rapidez com que pintava. Uma tela da igreja de Santa Maria do Pranto, Nápoles, teria sido pintada em 48 horas. O número de obras a ele atribuído ascende à casa dos cinco mil títulos, mas a maioria de nível medíocre. Na análise o pintor está ligeiramente afastado do quadro, com um olhar em direção ao modelo e acrescentar um último toque, mas é possível também que o primeiro traço não tenha ainda sido aplicado. O braço que segura o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; permanece imóvel, por um instante, entre a tela e as cores. Essa mão hábil particular do ofício de pintor está pendente do olhar; e o olhar, em troca, repousa sobre o gesto suspenso. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. Não sem um sistema sutil de evasivas. Distanciando-se um pouco, o pintor colocou-se ao lado da obra na qual trabalha.
Isso quer dizer que para o espectador que olha, ele está à direita de seu quadro, o qual ocupa toda a extremidade esquerda. A esse mesmo espectador o quadro volta às costas: dele só se pode perceber o reverso, com a imensa armação que o sustenta como se fosse um arco da representação e captura da imagem. É perfeitamente visível em toda a sua estatura. Mas, de todo modo, ele não está encoberto pela alta tela que, talvez, irá absorvê-lo logo em seguida, quando, dando um passo em sua direção, se entregará novamente a seu trabalho; sem dúvida, nesse mesmo instante, ele acaba de aparecer aos olhos do espectador, surgindo dessa espécie de grande gaiola virtual que a superfície que ele está pintando projeta para trás. Podemos vê-lo agora, num instante de pausa, no centro neutro dessa oscilação. Seu talhe escuro, seu rosto claro são meios-termos entre o visível e o invisível: saindo dessa tela que nos escapa, ele emerge aos nossos olhos; mas quando, dentro em pouco, der um passo para a direita, furtando-se aos nossos olhares, achar-se-á colocado bem em face da tela que está pintando; entrará nessa região onde seu quadro, negligenciado por um instante, se lhe vai tornar de novo visível, sem sombra nem reticência. Do ponto de vista da interpretação sociológica da imagem, como se o pintor não pudesse ser ao mesmo tempo visto, no quadro em que está representado, e ver, aquele em que se aplica representar, ele reina no limiar dessas duas visibilidades incompatíveis. Quando se colocam imediatamente o espectador no campo de visibilidade de seu olhar, os olhos do pintor captam-no, constrangem-no a entrar no âmbito do quadro, designam-lhe um lugar-tempo privilegiado, obrigatório, apropriam-se da espécie e projetam a superfície inacessível da tela virada.
Ele vê sua invisibilidade tornada visível ao pintor e transposta em uma imagem
definitivamente invisível a ele próprio. Surpresa que é multiplicada e tornada
ainda mais inevitável por um estratagema marginal. Pensando bem, ele não faz
ver nada do que o próprio quadro representa. Seu olhar imóvel vai captar à
frente do quadro, nessa região necessariamente invisível que forma sua face
exterior, as personagens que ali estão dispostas. Em vez de girar em torno de
objetos visíveis, esse espelho atravessa todo o campo da representação,
negligenciando o que aí poderia captar, e restitui a visibilidade ao que
permanece fora do olhar. Mas essa invisibilidade que ele supera não é a do
oculto, pretende ser ao que é invisível, ao mesmo tempo pela estrutura do
quadro e por sua existência como pintura. A negação que divorcia o nome do
desenho dele próprio vai intercambiar imagem e texto. Essa negação não cessa,
seguindo o ambíguo poder de negar e de desdobrar em outras questões. Em resumo,
dizer “isto não é um cachimbo” significa a incisão do discurso na forma das
coisas, assim “(...) sabiamente dispostos sobre a folha de papel, os signos
invocam, do exterior, pela margem que desenham, pelo recorte de sua massa no
espaço vazio da página, a própria coisa de que falam. As significações são
armadilhas inevitáveis”. Como podermos nos portar diante delas? Talvez como
leitores e expectadores deslumbrados pelo universo dos discursos.
Aquilo que por
movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença,
sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a
Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia
Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais
que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por
um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. A
determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a
faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade
precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se
detém na concreta apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua
universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade
representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres, uno,
infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto
pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra
e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra
inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta
e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si
mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou
sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.
A Ideia absoluta que
para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela
como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente
em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela,
torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a
distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si,
tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o
surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a
história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito
consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo
e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera,
do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no
espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à
existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um
objeto; e pensando assim, uma vez que eu existo e ele está na minha frente
diante de mim. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito
precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto
consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Em primeiro lugar, não
se pode perder de vista que ele é real. Sem esse entendimento, e isto é
decisivo, a razão, a liberdade não são nada.
O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história da humanidade a representação do movimento dialético para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade sensível humana, como o trabalho, o pensar, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo metodologicamente manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se. Nesta diferença se descobre toda a diferença se quisermos inferir seu lugar na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade.
Permitir que algo,
segundo o seu próprio modo de ser, venha para junto de nós; isto é, resguardar
insistentemente tal permissão. Sempre podemos somente isso para o qual temos
gosto – isso a que se é mormente afeiçoado, à medida que o acolhemos. Verdadeiramente
só gostamos do que, previamente e a partir de si mesmo, dá gosto. E nos dá
gosto em nosso próprio ser à medida que tende para isso. Através desta
tendência, reivindica-se nosso próprio modo de ser. A tendência quase sempre
conselheira. A fala do aconselhamento dirige-se ao nosso modo próprio de ser,
para ele nos conclama e, assim, nos atem. Na verdade, ater significa: cuidar,
guardar. Nós o guardamos se nós não o deixamos fugir da memória, representante
que é da concentração do pensamento. Portanto, a palavra é conselheira de nosso
modo próprio modo de pensar. Em relação a que? Em relação a isso que nos atém
ao modo próprio de ser, à medida que, ao mesmo tempo, o pensamos cuidadosamente
junto de nós. Em que medida isso que nos atém precisa ser cuidadosamente? À
medida que, por si mesmo, é o que cabe pensar cuidadosamente. Se isso é assim
pensado, então é presenteado com o pensar da lembrança, da memória. Nós lhe
presenteamos o pensamento que recorda porque dele gostamos como sendo a palavra
conselheira de nosso modo próprio de ser, de pensar e de agir e o que cabe
pensar. Verdadeiramente só gostamos do que, previamente e a partir de si mesmo,
dá gosto. É gosto/gozo em nosso próprio ser à medida que tende para isso.
Através desta tendência
social reivindica-se nosso próprio modo de ser, de sentir e de pensar. A fala
do aconselhamento dirige-se ao nosso modo próprio de ser, para ele nos conclama
e, assim, nos atem. Ater significa: cuidar, guardar. Nós o guardamos se nós não
o deixamos fugir da memória, quer dizer, sendo representante que é da
concentração do pensamento. É o que cabe pensar com zelo, sendo a palavra
conselheira de nosso modo de pensar, agir e sentir. Arquétipos junguianos são
um conceito da psicologia que se refere a uma ideia, padrão de pensamento ou
imagem universal e inata presente no inconsciente coletivo de todos os seres
humanos. O correspondente psíquico do Instinto, os arquétipos são considerados
a base de muitos dos temas e símbolos comuns que surgem em contos, mitos e
sonhos em diversas culturas e sociedades. Alguns exemplos de arquétipos incluem
os da mãe, da criança, do trapaceiro e do dilúvio, entre outros. O conceito de
inconsciente coletivo foi proposto inicialmente por Carl Jung (1875-1961), um
psiquiatra suíço e psicanalista. Os arquétipos são padrões inatos de pensamento
e comportamento que buscam a realização no ambiente do indivíduo. Esse processo
de atualização influencia o grau de individuação – isto é, o desenvolvimento da
identidade única do indivíduo. A presença de uma figura materna que se aproxima
do conceito idealizado de mãe pela criança pode evocar expectativas inatas e
ativar o arquétipo materno na mente infantil.
Esse arquétipo é incorporado ao inconsciente
pessoal da criança como um “complexo materno”, funcionando como uma unidade
funcional análoga a um arquétipo do inconsciente coletivo. Os assuntos com os
quais Jung ocupou-se surgiram em parte do seu fundo pessoal, que é vividamente
descrito em sua aparente autobiografia, Memórias, Sonhos, Reflexões (1961). Em
boa parte de sua vida experimentou sonhos periódicos e visões com notáveis
características mitológicas e religiosas, os quais despertaram o seu interesse por
mitos, sonhos e a psicologia da religião. Ao lado destas experiências, certos
fenômenos parapsicológicos emergiam, sempre para lhe redobrar o espanto e a
dúvida. Por muitos anos, Jung sentiu possuir duas personalidades separadas: um
ego público, exterior, que era envolvido com o mundo familiar, e um eu interno,
secreto, que tinha uma proximidade especial para com Deus. Ele reconhecia ter
herdado isso de sua mãe, que tinha a notável capacidade de “ver homens e coisas
tais como são”. A interação entre esses egos foi o tema central da sua vida
pessoal e contribuiu mais tarde para a sua ênfase no esforço do indivíduo para
integração e inteireza.
Seis meses após seu
nascimento, os pais de Jung mudaram-se de Kesswill (cantão da Turgóvia), à
beira do lago de Constança, e foram morar no presbitério do castelo de Laufen,
que domina as quedas do Reno. O pai, um reverendo, deixou-lhe, como herança,
uma fé cega que se mantinha a muito custo com o sacrifício da compreensão. A
tarefa do filho seria responder a ele com uma fé renovada, baseada justamente
no conhecimento tão rejeitado. Além disso, Jung viria a usar as escrituras como
referência para a experiência interior de Deus, não como dogmas estáticos à
espera de devoção muda, castradores do desenvolvimento pessoal. Ele lamentava
que, à religião, faltasse o empirismo, o que alimentaria a sede da
personalidade, e que, às ciências naturais, que também tanto o fascinavam
devido ao envolvimento com a realidade concreta, faltasse o significado, que
saciaria a personalidade. Os dois aspectos, socialmente relevantes, por um lado
a religião e por outro, a ciência, não se tocavam, daí sua constante
insatisfação, devido ao desencontro das duas instâncias interiores. E foi dessa
tentativa de saciar tanto um aspecto quanto o outro, de fazer justiça ao ser
como um todo, que decidiu formar-se em psiquiatria: “Lá estava o campo comum da
experiência dos dados biológicos e dados espirituais, que até então eu buscara
inutilmente. Tratava-se, enfim, do lugar em que o encontro da natureza e do
espírito se torna realidade”. É um
grande exemplo de vida.
Anthony Giddens (2009) observa, que a rotinização
é vital para os mecanismos psicológicos por meio dos quais um senso de
confiança ou de segurança ontológica é sustentado nas atividades cotidianas da
vida social. Contida primordialmente na consciência prática, a rotina introduz
uma cunha entre o conteúdo potencialmente explosivo do inconsciente e a
monitoração reflexiva da ação que os agentes exigem. O caráter situado da ação
no tempo-espaço, a rotinização da atividade a natureza repetitiva da vida
cotidiana – são esses fenômenos que articulam a discussão do inconsciente com
as análises de co-presença de Erving Goffman.
Apesar de seu manifesto brilhantismo, os escritores de Goffman são
usualmente considerados, talvez, um tanto limitados, no que se refere a seu
conteúdo teórico ou por ser ele visto, sobretudo, como uma espécie de raconteur
sociológico – o equivalente de um mexeriqueiro sociológico, cujas observações
entretêm, divertem e excitam, mas são, no entanto, superficiais e
essencialmente triviais – ou então por retratar coisas específicas da vida
social, na moderna sociedade de classe média, uma sociedade cínica de
protagonistas amorais. Isso pode ser deveras instrutivo, mas não é o modo mais
útil de relacionar sua obra com problemas da teoria social, porque não preenche
as lacunas certas no que ele tem a dizer, é a ausência de uma discussão da
motivação, a principal razão de seus escritos serem passíveis da segunda
interpretação.
A confiança sociologicamente ancorada de Erving
Goffman na confiança e no tato ecoa, de maneira flagrante, temas encontrados reciprocamente na
psicologia do ego e gera uma compreensão analiticamente poderosa da monitoração
reflexiva do fluxo socialmente de encontros envolvidos na vida cotidiana.
Fundamental para a vida social é o posicionamento do corpo em encontros
sociais. “Posicionamento” é aqui ipso facto um termo muito rico. O corpo está
posicionado nas circunstâncias imediatas de co-presença em relação aos outros:
Goffman fornece um conjunto extraordinariamente sutil, mas revelador de
observações sobre face work, sobre gestos e controle reflexo do
movimento corporal como inerentes na continuidade da vida social. Entretanto, o
posicionamento deve também ser estendido em relação com a serialidade de
encontros no tempo-espaço. Todo e qualquer indivíduo está imediatamente
posicionado no fluxo da vida cotidiana; no tempo de vida que é a duração de sua
existência; e na duração do “tempo institucional”, a estruturação “supraindividual”
de instituições sociais. Finalmente, cada pessoa está posicionada, de um modo
“múltiplo”, dentro de relações sociais conferidas por identidades sociais
específicas; essa é a principal esfera de aplicação do conceito de papel
social. As modalidades da co-presença, mediadas diretamente pelas propriedades
sensoriais do corpo, são claramente distintas dos vínculos sociais e das formas
de interação social estabelecidas com outros ausentes no tempo ou no espaço.
Não são apenas os indivíduos que estão “posicionados” em relação uns aos
outros; os contextos de interação social também estão.
No exame dessas
conexões, relacionadas com a contextualidade da interação social, as técnicas e
a abordagem de tempo-geografia, conforme desenvolvidas por Hägerstrand, são
esclarecedoras. O tempo-geografia também tem como seu principal interesse a
localização de indivíduos no tempo-espaço, mas confere especial atenção às
restrições à atividade decorrentes de propriedades físicas do corpo e dos
ambientes em que os agentes se movimentam. O que faz os homens insatisfeitos
moralmente – uma insatisfação de que eles se orgulham – é que não acham o tempo
presente adequado à realização de objetivos que em sua opinião são corretos e
bons, especialmente os ideais das instituições políticas de nosso tempo.
Comparam as coisas como elas são, com seu ideal de como deveriam ser. Neste
caso, não é o interesse privado ou a paixão que deseja a satisfação, mas a
razão, a justiça, a liberdade. Em seu nome as pessoas pedem o que lhes é devido
e geralmente não estão apenas insatisfeitas, mas abertamente revoltadas contra
a condição de mundo. Para julgar esses pontos de vista e esses sentimentos,
ter-se-ia de examinar as exigências persistentes e as opiniões dogmáticas em
questão. Em nenhuma época tanto como na nossa vida privada esse tipo de
princípios e ideias gerais se apresentou com tamanha pretensão. Embora as
paixões não faltem, a história demonstra uma luta de ideias justificáveis e, em
parte, uma luta de paixões e interesses subjetivos sob as pretensões mais
elevadas como possíveis que são encaradas como legítimas em nome do destino ou conteúdo de sentido da Razão, têm assim validade como fins
absolutos, da mesma maneira que a religião, a moral, a ética.
No amor um indivíduo
tem a consciência de si na consciência do outro, se considerarmos que ele vive
de maneira altruísta. Nesta renúncia cada um ganha a vida do outro e também a
sua, que é uma só com o outro. Contra tal unilateralidade tem a efetividade uma
força própria: alia-se à verdade contra à consciência, e lhe mostra enfim o que
é a verdade. Mas a consciência ética bebeu, da taça da substância absoluta, o
olvido de toda a unilateralidade do ser-para-si, de seus fins e conceitos
peculiares; e por isso afogou, ao mesmo tempo, nessa água do Estige toda
essencialidade própria e significação independente da efetividade objetiva. É,
portanto, seu direito absoluto que, agindo conforme à lei ética, não encontre
outra coisa nessa efetivação que o cumprimento dessa lei mesma, e o ato não
mostre outra coisa senão o agir ético. O ético, enquanto essência absoluta e ao
mesmo tempo potência absoluta, não pode sofrer perversão de seu conteúdo. Fosse
apenas a essência absoluta sem a potência, poderia experimentar uma perversão
por parte da individualidade, mas essa, como consciência ética, com o abandonar
de seu ser-para-si unilateral, renunciou ao perverter. Inversamente, a simples
potência seria pervertida pela essência, caso fosse ainda um tal ser-para-si. A
individualidade é pura forma da substância, que é o conteúdo; e o agir
comunicativo humanamente do pensamento à efetividade, somente como o movimento
de uma oposição socialmente carente-de-essência, cujos momentos não possuem
conteúdo e essencialidade distintos entre si. O direito absoluto da consciência
ética consiste em que a figura de sua efetividade – não seja outro, senão o que
ela sabe.
Bibliografia Geral Consultada.
BECKER, Howard, Los Extraños. Buenos Aires: Editorial Tiempo Contemporâneo, 1971; BLAVIER, André, Ceci n’est pas une pipe. Contribuição furtive à l’étude d’un tableau de René Magritte. Ville de Verviers (Bélgica): Éditions Temps Mêlés, 1973; GOFFMAN, Erving, Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975; ECO, Umberto, Estrutura Ausente. Introdução à Pesquisa Semiológica. 3ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; ARON, Raymond, La Société Industriell et la Guerre. Paris: Editions Plon, 1985; Idem, Dimensions de la Consciense Historique. Paris: Editeur Julliard, 1985; BOLTANSKI, Luc, L’Amour et la Justice Comme Compétences. Paris: Éditions Métailié, 1990; SIMMEL, Georg, Filosofia do Amor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993; MIRZOEFF, Nicholas, An Introduction To Visual Culture. Londres: Editor Routledge, 1999; NIEMEYER, Oscar, As Curvas do Tempo: As Memórias de Oscar Niemeyer. London: Phaidon Editor, 2000; VIVENZA, Jean-Marc, “Joseph de Maistre e o Rito Escocês Retificado”, in Dossiê H, a Idade do Homem, 2005; ROCHA FILHO, João Bernardes, Física e Psicologia. As Fronteiras do Conhecimento Científico Aproximando a Física e a Psicologia Junguiana. Porto Alegre: Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2007; MATEUS, Samuel, “O Indivíduo Pensado como Forma de Individuação”. In: Estudos em Comunicação, nº10, 2011, pp. 91-103; GONÇALVES, Telma Amaral, Falando de Amor: Discursos Sobre o Amor e Práticas Amorosas na Contemporaneidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Belém: Universidade Federal do Pará, 2011; KIM, Joon Ho, O Estigma da Deficiência Física e o Paradigma da Reconstrução Biocibernética do Corpo. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013; FOUCAULT, Michel, El Orden del Discurso. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973; Idem, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; MARTUCCELLI, Danilo, La Condition Sociale Moderne. L`Avenir d`une Inquiétude. Paris: Editeur Gallimard, 2017; DE SALVADOR AGRA, Salete, “Viendo el Sentido: Similitudes y Juegos Sígnicos en Magritte”. In: Revista Signa, 27: 2018; pp. 1023-1042; TALLIS, Frank, Românticos Incuráveis. Quando o Amor é uma Armadilha. 1ª edição. São Paulo: Faro Editorial, 2019; FRANCO, Diogo Banzato, Foucault e “o que fazer”. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2020; AZEVEDO, Jessica Santos, A Experiência da Perda e Luto Vivenciado por Colaboradores: Estudo Exploratório. Dissertação de Mestrado em Gestão de Recursos Humanos. Escola de Economia e Gesta. Minho: Universidade do Minho, 2025; entre outros.
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