“Virei Zeca Pagodinho por causa da Beth Carvalho”. Jessé Gomes da Silva Filho
Elizabeth
Santos Leal de Carvalho, carioca, reconhecida como Beth Carvalho (1946-2019) foi
uma cantora e compositora brasileira de samba. Desde que começou a fazer
sucesso, na década de 1970, Beth Carvalho se tornou uma das maiores intérpretes
do gênero, ajudando a revelar nomes como Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão,
Zeca Pagodinho, Almir Guineto, o grupo Fundo de Quintal e Arlindo Cruz. Era
filha de João Francisco Leal de Carvalho, piauiense, e de Maria Nair Santos.
Tinha uma única irmã, chamada Vânia Santos Leal de Carvalho. Sua avó, Ressú
Carvalho e o marido Doutor Tote Carvalho (dentista) e Dona Maria da
Ressurreição avós eram Piauienses de Luzilândia tiveram vários filhos todos em
Teresina, tocava bandolim e violão. Sua mãe tocava piano clássico. Sua irmã
Vânia cantava e gravou discos de samba. Decidiu seguir a vida artística após ganhar
um violão da mãe. Bem-vinda de família de músicos, aos oito anos já ouvia
emocionada as famosas canções de sucesso de rádio de Sílvio Caldas, Elizeth
Cardoso e Aracy de Almeida, grandes amigos de seu pai, que era advogado. A
paixão pelo instrumento tornou-a professora de
música, ministrando aulas em diferentes escolas na cidade do Rio de Janeiro. Na
década de 1960, em festas e reuniões musicais com amigos, surgiu a artista Beth
Carvalho, que adicionava a suas influencias a bossa nova. Em 1964, após o golpe
militar, a licença de advogado de seu pai foi cassada. Beth Carvalho fez balé durante a infância e na adolescência estudou violão, numa escola de música. Seguindo nessa direção, se tornou professora de música e passou a dar aulas em escolas locais. Morou em vários bairros do Rio de Janeiro. Seu pai a levava com regularidade aos ensaios das escolas e rodas de samba, onde ela dançava em apresentações nas festas e reuniões com seus amigos. Assim, nos anos 1960, surgia a cantora Beth Carvalho, influenciada pela qualidade da cultura suburbana e pela bossa nova, gênero que passou a gostar depois de ouvir João Gilberto, passando a compor e a cantar. Seu pai foi cassado pelo golpe civil-militar de 1° de abril de 1964, por sua formação de esquerda. Para superar as dificuldades que sua família enfrentou durante alguns anos da ditadura, Beth Carvalho voltou a dar aulas de violão, dessa vez para quarenta alunos. - Já dizia a canção “quem que não gosta de samba bom sujeito não é”. Afinal, existe algum outro ritmo mais reconhecido popularmente no cenário musical brasileiro? O samba é nosso e durante mais de 100 anos nos presentou com belas canções e grandes artistas. E entre a leva de sambistas e compositores, todos reverenciam aquela que é a madrinha do estilo: Beth Carvalho.
Vale lembrar que Zeca
Pagodinho é considerado por especialistas e estudiosos da história do samba
como um dos mais prodigiosos versadores de partido alto de sua geração, dado
sua intensa participação em rodas de samba do bloco Cacique de Ramos na Zona da Leopoldina no início
de sua carreira. Como vocalista, embora o próprio não se considere “um cantor”,
Zeca Pagodinho é reverenciado no universo do samba como um talentoso intérprete
que consegue perpassar com fidelidade a ideia sociológica da emoção e o sentido
das canções que interpreta, sempre aliando o lirismo ao estilo jocoso e
desregrado. Ao longo de sua carreira, é notável sua evolução de simples
compositor de sambas para um intérprete de outros compositores de gerações mais
novas e também de gerações passadas, sendo que o próprio artista costuma citar “falta
de espaço” em seus álbuns para inclusão de composições próprias. Ao longo de
seu extenso repertório, regravou diversas canções anteriores ao seu sucesso de
compositores que considera suas referências, como Monarco e Noel Rosa. Gravou
mais de 20 discos e é considerado um grande nome do gênero samba. O
artista, que começou sua carreira nas rodas de samba dos bairros de Irajá e Del
Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro, tornou-se tão imensamente popular que
seus shows chegam a ser contratados por “cachês generosos”, sendo realizados
nas mais badaladas casas de espetáculo do país. Sempre fiel a suas
características de irreverência e jocosidade, Zeca Pagodinho recebe também reconhecimento
da crítica e de artistas e compositores consagrados. Nei Lopes afirma que o
sambista “é uma das poucas unanimidades nacionais, elevado ao patamar do megaestrelato
pop pelas gravadoras”.
Aos dezenove anos fica em terceiro lugar no III Festival Internacional da Canção de 1968, com a canção “Andança”, sendo seus compositores Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, vocal: Golden Boys, da TV Globo - Canal 4, do Rio de Janeiro, atual Rede Globo de televisão. Participou dos festivais de música popular da TV Excelsior, TV Record e TV Tupi. É estudiosa dos sambas brasileiros. Chegando a trabalhar com o legendário escritor e compositor Nelson Sargento. Em 1971, Beth era a supercantora da Escola de Samba Unidos de São Carlos, atual Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá, indo para o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, e se dedicando exclusivamente a “verde e rosa”, que são as cores da escola. Conheceu Jorge Aragão no bloco carnavalesco Cacique de Ramos, onde cantava e desfilava animada, junto com o famoso bloco de rua. Jorge Aragão deu para ela gravar em 1977, a música “Vou Festejar”, dele, de Dida e Neoci. Ela é um dos grandes nomes da MúsicaPopularBrasileira (MPB), com dezenas de sucessos e participações em diversos movimentos sociais de forma estruturante para a música brasileira enquanto categoria sociológica que designa a ação coletiva de setores emergentes da sociedade para defesa ou promoção, no âmbito das relações de classes, de certos objetivos ou interesses reativos, de transformação ou de preservação da ordem nesta sociedade.Segundo Alain Touraine, movimentossociais representam a “ação conflitante de agentes das classes sociais, lutando pelo controle do sistema de ação histórica”. Para o autor, em cada sociedade existe um movimento social que “encarna” não uma simples mobilização, mas um projeto de mudançasocial.
Nenhum movimento social se define somente pelo conflito, mas pela sua aspiração a controlar o movimento da história. A definição do movimento social se dá através de três princípios: 1. Princípio de identidade: corresponde à autodefinição do ator social e a sua consciência de pertencer a um grupo ou classe social; 2. Princípio de oposição: um movimento só se organiza se puder nomear seu adversário, mas a sua ação não pressupõe essa identificação; 3. Princípio de totalidade ocorre quando os atores sociais em conflito, mesmo quando este seja circunscrito ou localizado, questionam a orientação geral do sistema social. A classificação tradicional dos sociólogos e do nascimento da sociologia como ciência, impele-os à sua relação profissional pelo tipo de sistema social que condiciona seu trabalho e seu objeto - as relações sociais – em uma tipologia social determinada a que são mais sensíveis: os sociólogos das organizações, das instituições políticas ou da historicidade e das classes sociais, e na modernidade, o sociólogo engajado nas universidades. Trata-se da dramatispersonæ dos que estão presentes na realidade, mas que não aparecem no palco em tragédias, pois não são considerados parte da personæ. Diz-se que passou a ser usada nas obras do idioma inglês desde o início da década de 1730. É evidente que seu uso na divisão do trabalho intelectual sofreu positivamente inúmeras mudanças na sociologia, a partir da posterior utilização na etnologia da expressão “ator social”.
É por isso que o domínio mais difícil de explorar da Sociologia é da “eficácia das respostas ao poder”. Como compreender academicamente que o reconhecimento do sentido da ação não é jamais dado inteiramente pela consciência do ator? A crítica do poder não se faz em função de um contrapoder. O conhecimento do social não prepara a ordem de amanhã. O poder reivindica o sentido para aquele que o detém. Ele só distingue aqueles que participam do poder, por delegação de autoridade ou simples obediência, daqueles que forjam alijados na direção de um “não sentido” e utilizados como seres “não sociais”. Não há nenhuma sociedade sem o poder, ainda que existam sistemas políticos sem o Estado. Toda sociedade se descontrói assim, para reconstruir a própria realidade. Faz um corte nas relações sociais, desfigura o outro e o dessocializa através do preconceito individual ou coletivo, da hostilidade, da repressão ou da exploração. Assim, o poder se reveste de positividade, seja a do Estado no caso das instituições e práticas, ou da ideologia, no caso das universidades públicas. O que nos traz de volta ao ponto de partida, pois o sociólogo encontra os efeitos de poder político ou a interpelação do sujeito através da ideologia.
Graças à formação política recebida de seus pais, foi uma artista engajada nos movimentos sociais, políticos e culturais brasileiros e de outros povos. Um exemplo foi a conquista, ao lado do cantor Lobão e de outros companheiros da classe artística, de um fato social que até então era inédito no mundo: “a numeração dos discos”. O então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) assinou o decreto que torna obrigatória a numeração de CDs e a impressão, em cada faixa de todos os discos, de um código digital que obedece a padrões internacionais e permite a identificação dos autores e intérpretes da obra gravada. Em 1979, Beth Carvalho casou-se com o futebolista Édson Cegonha, revelado pelo Bonsucesso Futebol Clube do bairro da zona da Leopoldina do subúrbio do Rio de Janeiro, e que jogou também pelos clubes paulistanos Corinthians, São Paulo e Palmeiras. Em 22 de fevereiro de 1981 nasceu sua única filha, Luana Carvalho, com formação de atriz e cantora, espelhando-se no sucesso de sua mãe. Poucos anos após o nascimento da filha, separou-se do marido. Beth Carvalho morava no bairro de São Conrado, área nobre da Zona Sul do município do Rio de Janeiro. Escondido entre as montanhas e uma bela praia, é um bairro de caros apartamentos, mesmo vizinho da Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. As asas-deltas que decolam da Pedra da Gávea e pousam na praia, são comuns nos céus de São Conrado.
A carreira de Beth Carvalho se originou na bossa nova. No início de 1968 participou no movimento Musicanossa, criado pelos músicos Armando Schiavo, e Hugo Bellard. O movimento surgiu em 1967, por idéia do jornalista Armando Henrique e seu parceiro de músicas Hugo Bellard. Visava reunir os grandes nomes da bossa nova. A história começou na Rua Lucio de Mendonça no bairro da Tijuca. O maestro Hugo Bellard, então com 18 anos, era pianista do grupo “Forma 4 de Jazz e Bossa Nova”. Armando Henrique era primo do baterista do grupo Hélio Schiavo, e ia assistir aos ensaios naquela rua. Além disso, fazia algumas letras para músicas de Hugo Bellard. Armando Henrique propôs a Hugo, que já começava a fazer arranjos, a visitarem os principais nomes da bossa nova que estavam no Brasil. A intenção de Armando Henrique era o trabalho de resgate da bossa nova, que estava estagnada no Brasil.
Os espetáculos eram realizados no Teatro Santa Rosa, em Ipanema, onde teve a oportunidade de gravar uma das suas belas canções “O Som e o Tempo”, no LP do Musicanossa. Neste período Beth Carvalho gravou com Taiguara, pela gravadora Emi-Odeon. Em 1965, gravou o seu primeiro compacto simples com a música “Por Quem Morreu de Amor”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Em 1966, já envolvida com o repertório de samba, participou do show “A Hora e a Vez do Samba”, ao lado de expressivos sambistas como Nelson Sargento e Noca da Portela. Vieram os festivais em que participou de quase todos: FestivalInternacional da Canção (FIC), Festival Universitário, Brasil Canta no Rio, e outros. No FIC de 1968, conquistou o 3º lugar com “Andança”, de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, e ficou reconhecida nas cidades do perímetro urbano do país. Além de representar seu primeiro grande sucesso, “Andança” é o título de seu primeiro LP lançado no ano seguinte durante os anos de chumbo do golpe civil-militar.
O movimento começou a ficar falado no meio musical e muitos novos artistas apareceram e se juntaram ao movimento. Entre eles: Milton Nascimento, Toninho Horta, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Tibério Gaspar, Joyce. Logo em seguida Marcos Valle, autor de “Samba do Verão” com seu irmão Paulo Sérgio Valle, recém-chegado dos Estados Unidos da América (EUA), também aderiu ao grupo. As gravadoras se uniram ao movimento, e 3 álbuns históricos foram lançados pela RCA, EMI e Rozemblit. Depois de certo tempo o movimento social teve uma cisão interna e acabou. Mas foi um importante momento da música brasileira. A partir de 1973, passou a lançar um disco por ano e se tornou sucesso de vendas, com vários sucessos como “1.800 Colinas”, “Saco de Feijão”, “Olho por Olho”, “Coisinha do Pai”, “Firme e Forte”, “Vou Festejar”, “Acreditar”, “Mas Quem Disse que Eu te Esqueço”. Beth Carvalho é reconhecida pelo trabalho de escavação e resgatar como revelar músicos e compositores do samba. Em 1972, buscou Nelson Cavaquinho para a gravação de “Folhas Secas” e em 1975 fez o mesmo com Cartola, ao lançar “As Rosas Não Falam”. Aproximando-se do gênero popular do “Pagode”, reconheceu a criatividade e assimilação da malandragem dos compositores do povo, ipsofacto, reconheceu os lugares conquistados onde estavam, onde viviam, onde cantavam e tocavam.
O pagode é um subgênero do samba. Tem suas origens no Rio de Janeiro entre o final da década de 1970 e início da década de 1980, a partir da tradição das rodas de samba feitas nos “fundos de quintal”. O termo pagode está presente na linguagem musical brasileira desde meados do século XIX. Inicialmente, era associado às festas que aconteciam nas senzalas e, mais tarde, se tornou sinônimo de qualquer festa regada a bebidas alcoólicas e cantoria. Ipsofacto, historicamente o termo pagode começou a ser usado como sinônimo de samba, por causa de sambistas que se valiam deste nome pra suas festas, que têm como representação social seus pagodes. Como vertente musical, o pagode nasceria exatamente dessa manifestação popular individual (o sonho) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos) completamente marginal aos acontecimentos musicais dos grandes meios de comunicação hegemônicos que controlam a produção de saber.
A partir do surgimento de nova geração de sambistas no Rio de Janeiro nos anos 1980, oriunda desses pagodes e que inovaria a forma do fazimento do samba, surgindo o termo “pagode batizaria espontaneamente o novo estilo musical derivado do samba”. Frequentadora assídua dos pagodes, entre eles os do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, no subúrbio da Leopoldina carioca, Beth Carvalho revelou artistas talentosos como o grupo “Fundo de Quintal”, o cantor e letrista Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Sombra, Sombrinha, Arlindo Cruz, Luís Carlos da Vila, Jorge Aragão e muitos outros. Por essa característica, Beth ganhou a alcunha de “Madrinha do Samba”. Mais do que isso, a cantora trouxe um novo som ao samba, porque introduziu em seus shows e discos instrumentos como o banjo com afinação de cavaquinho, o tantã e o “repique de mão”, que até então eram utilizados exclusivamente nos pagodes do Cacique de Ramos, um dos mais conhecidos e tradicionais blocos de carnaval do Rio de Janeiro. Entre seus componentes estão os membros do grupo de samba Fundo de Quintal que se originou do próprio bloco e Zeca Pagodinho. A sambista Beth Carvalho é outra cria do bloco, que a homenageou elegendo-a como madrinha do bloco. Diversos outros cantores e compositores fazem parte do bloco entre eles: Almir Guineto, Jorge Aragão, Marquinhos Satã, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jovelina Pérola Negra e Luiz Carlos da Vila. Sua sede fica na Rua Uranos, nº 1326, bairro Olaria, na zona da Leopoldina do Rio de Janeiro.
Beth Carvalho com o reconhecimento (cf. Honneth, 2004) passou a ser chamada em seu processo de evolução artística de “Madrinha do Pagode”. Sambista de maior prestígio e popularidade do Brasil é aclamada também como a “Diva dos Terreiros” que na Umbanda congrega Terreiros nos quatros cantos do mundo. A luta pela Umbanda é contínua e líderes como Átila Nunes Filho, Paulo Newton de Almeida, Baba Fátima Damas, o Grande Curimbeiro e Intérprete de Pontos de umbanda Tião Casimiro, Pedro Miranda, Marco Xavier, Flávia Pinto, Luís Fernando Barros e a comunicativa Baba Emília de Omolu reconhecida como Nada Vunci pela defesa desta religião legitimamente brasileira.Um ato de reconhecimento na concepção sociológica de Axel Honneth pressupõe dois elementos encadeados pela peercepção: 1) uma identificação cognitiva de uma pessoa como dotada de propriedades particulares em uma situação particular, e: 2) a confirmação da cognição da existência da outra pessoa como dotada de características específicas, através de ações, gestos e expressões faciais positivas manifestados por quem a percebe. A invisibilidade, por outro lado, significa sociologicamente mais do que a negação desses dois elementos articulados entre si. Sintetizada em expressões como de um “olhar através”, ela nega a existência do outro do ponto de vista perceptual, como se ele não estivesse presente no campo de observação da visão de quem olha.
É importante mencionar na análise sociológica, uma distinção sofisticada entre invisibilidade e/visibilidade. Ela apresenta-se distinguindo ideias aparentemente espelhadas, sobretudo quando elas contem em si mecanismos de funcionamento fundamentalmente nas esferas de ação sociais. Foram 51 anos de carreira, 31 discos, 2 DVD e apresentações em diversas cidades e países do mundo ocidental: Angola, Atenas, onde representou o Brasil no Festival Olimpíada Mundial da Canção em um teatro de arena construído 400 anos a. C. Beth Carvalho obteve sua consagração pelo caráter meritório de reconhecimento com um busto na Grécia, Berlim, Boston, na Universidade de Harvard, Buenos Aires, no Luna Park projeto “Sin Fronteiras” de Mercedes Sosa, Espinho, Frankfurt, Munique, Johannesburgo, Lisboa, no show do projeto comunista “Avante”, para um público em torno de 300 mil pessoas, Lobito, Luanda, Madri, Miami, Montevidéu, Montreux, onde participou seguidamente dos festivais ocorridos em 1987, 1989 e 2005, Nice, New Jersey, Nova York, no Carnegie Hall, Newark, Paris, Punta del Este, São Francisco, Soweto, Cuba, Zurique, Milão, Padova, Toulouse e finalmente em Viena, Áustria.
No Japão, embora nunca tenha realizado shows, vendeu milhares de cópias de CDs e teve sua carreira musical incluída no currículo escolar da Faculdade de Música de Kyoto, com suas mais de 50 bibliotecas, com um robusto acervo bibliográfico para consultar e o acesso a catálogos online em mais de 260 computadores; e o Museu da Universidade. Beth Carvalho recebeu seis Prêmios Sharp, 17 Discos de Ouro, 9 de Platina, 1 DVD de platina, centenas de troféus e premiações diversas. Em 1984, foi enredo da Escola de Samba Unidos do Cabuçu, “Beth Carvalho, a enamorada do samba”, quando a escola foi campeã e subiu para o chamado Grupo Especial. Como o Sambódromo, o nome dado aos conjuntos arquitetônicos destinados aos desfiles das escolas de samba no Brasil. Geralmente, são compostos por uma passarela exclusiva e por uma área de dispersão das agremiaçõesfoi inaugurado naquele mesmo ano, Beth Carvalho e a Escola Cabuçu foram as primeiras campeãs do Sambódromo (RJ). Dentre todas as homenagens à grande cantora, Beth considerava esta a maior de todas. E declarava: - “Não existe no mundo, nada mais emocionante do que ser enredo de uma escola de samba. É a maior consagração que um artista pode ter”. Em 1985, Beth Carvalho foi enredo de samba novamente, sendo que dessa vez do Grêmio Recreativo Escola de Samba Boêmios de Inhaúma que é uma escola de samba da cidade do Rio de Janeiro, cuja sede está localizada no bairro do Engenho da Rainha. O GRBC Boêmios de Inhaúma, embrião da escola de samba, foi fundado a 22 de agosto de 1973. A escola de samba, ocorreu em 21 de agosto 1988.
Em 2009, ao desfilar na Intendente Magalhães, a agremiação demonstrou o samba-enredo “Samba, Praia e Futebol. Sorria, você está no Rio de Janeiro!”, desenvolvido pelo carnavalesco Wagner Silva, classificando-se em 6º lugar com 154 pontos. Em 2011 apresentou um enredo sobre o fogo, sendo uma das quatro rebaixadas para desfilarem como bloco de enredo em 2012. Por não ter cumprido a exigência disciplinar dos prazos da Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro, não desfilou em 2012, sendo punida pela Federação e automaticamente rebaixada para o Grupo II dos blocos para o carnaval de 2013. Afastou-se dos desfiles novamente a partir de 2014. Voltou ao carnaval em 2016, desfilando no grupo E. Em suas origens, a região hoje denominada Engenho da Rainha (Carlota Joaquina) fazia parte da Freguesia de Inhaúma, criada em 1743, e ganhou este nome quando esta Freguesia foi desmembrada, resultando nos atuais bairros de Pilares, Tomás Coelho e parte de Inhaúma. O bairro do Engenho da Rainha era cortado por duas importantes estradas que se interligavam na altura de Thomás Coelho. Esse caminho fazia a ligação com as Minas Gerais. Hoje são a Avenida Pastor Martin Luther King que era a antiga Automóvel Clube e a Avenida Ademar Bebiano a antiga Estrada Velha da Pavuna. O bairro foi cortado pela Estrada de Ferro Rio D`ouro e possuiu uma estação. Hoje é a estação do Metrô Engenho da Rainha.
Bibliografia geral consultada.
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Doutorado em História Econômica. São Paulo: Universidade Estadual de São Paulo,
2002; MONTEIRO, Ricardo Nogueira de Castro, O Sentido da Música: Semiotização de Estruturas Paradigmáticas na Geração e Sintagmáticas na Geração de Sentido Musical. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2002; BURNS, Mila, Nasci para Sonhar
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Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Rio de Janeiro: Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2006; SOUZA, Eduardo Conegundes de, Roda de Samba: Espaço da Memória, Educação
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Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2007; PINTO, Danilo Correa, Corpo, Discurso e Carnaval: Imagens do Corpo Feminino no Desfile de Escolas de Samba do Carnaval Carioca. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2013; GIDDENS, Anthony, A Constituição da Sociedade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009; SANTOS, Mayane Cristina;
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Interdisciplinares do XIX Congresso de Ciências da Comunicação na Região
Nordeste. Fortaleza: Faculdades Integrada do Ceará, 29 de junho a 1° de
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“A baderna me representa”. Marietta BadernaGiannini
Sociologicamente povo é o nome concebido tendo como representação social um conjunto de indivíduos sociais num dado momento histórico que constitui uma nação. Se, por vezes, esta representação não coincide com a totalidade de um território a ela associada, como acontece, é também o conjunto dos cidadãos de um país. Melhor dizendo, um número de pessoas que se constituindo de diversas etnias, estão vinculadas a um determinado regime jurídico: um Estado. Na linguagem vulgarizada, a palavra “povo” pode referir-se à população de uma cidade ou região, a uma comunidade ou a uma família. Também é utilizado para designar povoamento, geralmente pequeno. Mas a população retificava Marx, é uma abstração se desprezarmos as classes de que se compõe. O termo povo é mal empregado no meio científico e técnico-metodológico nos meios de comunicação social. Com frequência, é confundido com a indistinção entre o conceito de população e nação. População é também uma “categoria da prática”, para lembrarmo-nos da sociologia crítica de Alain Touraine, referente a dados estatísticos, demográficos ou econômicos de empresas ou governos estatais. A nação engloba uma população social, política e econômica que compartilham sua origem e identidade, tradição da língua, cultura e religião em geral comuns.
A teoria do modo de produção asiático (“asiatisches Produktionsweise”) como modo de produção característico das milenares formas de constituição e manutenção da sociedade, bem como primeira forma originária e mais geral de sociedade pós-comunidade primitiva, foi fundamental para a concepção histórica e analítica de Marx, como aparecia também em contraposição mais evidente em relação ao desenvolvimento da história greco-romana ocidental. Suas mais importantes formações econômico-sociais, como a China e a Índia, não se teriam alterado substancialmente mesmo com as grandes invasões de povos bárbaros em passado mais remoto, como os mongóis, os árabes e os hunos. Estes povos, apesar de superiores belicamente a chineses e hindus, eram culturalmente atrasados a essas civilizações de culturas milenares. O que transforma analogias na dinâmica de “afinidade eletiva” expressa na literatura tanto por Goethe na arte, quanto por Max Weber na cultura e na política é uma conjuntura que tem uma forma de representação, uma constelação peculiar de valores e de eventos que se dão com o reconhecimento.
A conjuntura latino-americana que tem seu ponto de partida neste momento histórico se caracteriza por dois aspectos fundamentais: a) um desenvolvimento acelerado do capitalismo, uma urbanização intensa e uma industrialização rápida (sob a égide do capital norte-americano), que aprofundam as contradições sociais, tanto na cidade como no campo; b) a revolução cubana, primeira vitória popular contra o imperialismo na América Latina e primeira revolução socialista no continente-dirigida por forças sociais marxistas de um novo tipo, independentes do comunismo tradicional. A combinação destes dois processos, estrutural, econômico-social, e o outro, político e ideológico, terá por resultado o início da nova etapa de interpretação teórica na história, de movimentos populares, e insurreições, que reconhece um novo salto qualitativo com a revolução contínua. Uma etapa que se caracteriza também por uma maior influência e uma renovação do pensamento marxista latino-americano. Nesta conjuntura política de insurreições e golpes de Estado que vai se desenvolver uma relação com a Igreja e sua base social, entre cristianismo e marxismo.
Marietta Baderna nasceu na cidade de Castel San Giovanni, província de Piacenza, no norte da Itália, em 1828. Filha de Antônio Baderna, médico e músico nas horas vagas, rapidamente seu destino artístico se traçou, com dedicação especial ao balé, estreando aos 12 anos nos palcos suas sapatilhas. Rapidamente Baderna passaria a fazer parte da companhia de dança do teatro Scala, de Milão e, aos 21 se destacava como “prima ballerina assoluta” com sucesso pela Itália, participando de diversas turnês em países europeus. Etnograficamente a rebeldia, pelo que se relata, corria no corpo de Marietta, e seu pai, em pleno contexto de ocupação austríaca na Itália, se afirmava como um entusiasmado defensor do movimento democrático que se instalava na movimentada Europa dos meados do Século XIX. À época da resistência, no entanto, os rebeldes revolucionários mantinham como forma de protesto a decisão de que não houvesse vida artística no país enquanto durasse a ocupação - e, militante que era Marietta Baderna seguiu tal orientação político-ideológica. A perseguição sofrida pelos apoiadores do movimento social em conflito era intensa, e assim Antônio e sua filha entenderam que era hora de cruzar o Atlântico em busca de alternativas de vida e trabalho. A família Baderna desembarcou em seguida para o exílio no Brasil em 1849.
Cumpriu o trajeto artístico e pessoal comum aos artistas do período, dedicando seus últimos anos ao ensino da dança. Sua certidão registra o nascimento de Baderna Franca Anna Maria Mattea em 8 de julho de 1828, na cidade de Castel San Giovanni, comuna ligada ao Ducado de Parma e atualmente à Província de Piacenza, filha do cirurgião Antonio Baderna e de Luigia Guani. Dicionários biográficos italianos do século XIX e biografias mais recentes indicam um encaminhamento precoce para a dança, debutando aos 13 anos no Teatro Municipal de Piacenza. Mencionam também seus estudos em Milão, onde frequentou a escola particular de Blasis, “professor de aperfeiçoamento” junto à Imperial Régia Academia de Dança, ligada ao Teatro Scala. Diversos autores afirmam que as primeiras atuações de Marietta Baderna, ainda em Milão, teriam ocorrido no Scala já em 1846. Na primeira turnê europeia, em Londres, levou “bailes novos”, de Blasis, ao Drury Lane e ao Covent Garden em 1847. Boatos gerados visões romanceadas do século XIX, mas que desde Aristóteles, “o menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança”.Envolvem não só os motivos imperativos da longa viagem além-mar, como a vida entre nós e as narrativas que cercam a vinda de Maria Baderna ao Brasil. Teatro São Pedro de Alcântara, onde Marietta Baderna costumava se apresentar.
Marietta Baderna Giannini, ou, simplesmente Maria Baderna, foi uma bailarina italiana. Radicada no Brasil em 1849, suas apresentações tornaram-se populares no Rio de Janeiro; seu nome entrou para o vocabulário português como sinônimo de confusão. Baderna nasceu em 1828 na cidade de Castel San Giovanni. Desde cedo teve inclinação para a dança, incentivada pelo pai; aos doze anos fez sua estreia nos palcos em Piacenza. Foi aluna do coreógrafo Carlo de Blasis e tornou-se membro do corpo de baile do Teatro Alla Scala de Milão. Em 1847 apresentou-se na Inglaterra, tendo uma temporada de sucesso no Covent Garden. Em 1849, Marietta Baderna foi contratada pelo Teatro São Pedro de Alcântara, na capital da província imperial, e veio se apresentar no Brasil. Consagrada no Teatro Scala, em Milão, causou furor pela irradiação da notícia nos jornais. Era tão boa que seus fãs não conseguiam se conter no final das apresentações: gritavam seu nome e faziam uma verdadeira balbúrdia. Eram assim reconhecidos “badernas”. Não se sabe se usavam máscaras cobrindo o rosto como era comum nos salões. Voltou para a Itália, mas a força bruta da política obrigou-a a deixar o país. Ela e seu pai eram seguidores do movimento republicano do mazzinismo, derrotado pelos conservadores monarquistas e austríacos após as revoluções ocidentais de 1848.
Tal foi um dos principais estopins dos movimentos sociais nacionalistas, como o mazzinista, contando com a forte participação de setores aristocráticos. Mazzini criou, em 1832, a Jovem Itália, raiz de um movimento mais amplo, a Jovem Europa, cujo objetivo era combater aqueles que concebiam como governos reacionários, absolutistas. Vanguarda na luta por uma associação mundial de povos livres, a Itália deveria, como um primeiro passo decisivo, na sua acepção, unificar-se sob a forma de uma república democrática. Mazzini mesclava elementos religiosos em sua proposta, adotando o mote de “Deus e o povo”, definindo sua ação como “uma cruzada moral e espiritual”. Depois de algumas investidas militares facilmente neutralizadas, o movimento mazzinista foi derrotado, levando vários de seus seguidores à prisão ou ao exílio, como ocorreu com o próprio Mazzini em 1837. Com o avanço do processo social e político de unificação italiano ocorrido na década de 1850 liderado pelo conde Camillo Benso di Cavour, com o aval de Napoleão III - dissidentes puderam retornar ao seu país.
Os grupos sociais dominantes do Norte da Itália, e em particular os de regiões como o Piemonte e a Ligúria, tinham estreitos e antigos vínculos com a França. O controle francês sobre a Itália, entre 1796 e 1815, havia substituído o controle austríaco, mas com vantagens para aqueles grupos regionais, que passaram a gozar de liberdade e autonomia relativamente maiores. Com o esgotamento e a queda do regime napoleônico configurou-se como uma ameaça ao Antigo Regime absolutista do continente e os desdobramentos do Congresso de Viena. A dominação austríaca foi restaurada, acarretando uma perda na relação entre espaço, tempo, lugar e de autonomia, com prerrogativas que desencadearam uma expressiva onda de descontentamentos. A essência do mazzinismo e de organização do Partido da Ação, liderado por Giuseppe Mazzino, objetivava uma insurreição popular que levasse rapidamente à queda do regime dos reis e dos padres, implantando na Itália uma república soberana.
Nunca se preocupou muito com a organização dos complôs que planejava ou estimulava através dos seus escritos. Parecia acreditar no espontaneismo popular, desde que ativado por um pequeno e seleto grupo de homens decididos. De certo modo, ainda que bem mais cauteloso, ele representou a versão italiana do blanquismo que se alçava contra os governos da França, fossem eles quais fossem. Talvez fosse isso, a aposta dele na improvisação e na intuição revolucionária, que o levou a polemizar em diversas ocasiões com Marx e Engels, no exílio em Londres, acreditavam na organização e na demorada preparação antes de lançar-se nas tarefas da insurreição. Viu-se ele como um profeta crente nas virtudes do voluntarismo e no efeito místico da pátria. Todavia o desentendimento maior entre Mazzini e Marx deu-se por ocasião da fundação da I Internacional Socialista (1864-1871), pois o alemão resolveu refazer o Estatuto Primeiro dando-lhe um cunho classista, o que desgostou a posição de Mazzini curiosamente “a favor da integração da classe média no movimento socialista”.
De costumes mais liberais do que os praticados pelos brasileiros, Marietta Baderna original causou outros tipos de espanto e indignação. Fora dos palcos, gostava de praticar o lundum, de origem africana e dançada pelos escravos, e chocou um Brasil que ainda estava longe da conservadora Lei Áurea (1888), de “brancos para brancos”. Mais ainda porque resolveu misturar seu estilo próprio da dança clássica com a popularidade num espetáculo apresentado em um teatro, ambiente reservado à “alta cultura”. Na tradição ocidental a alta cultura tem origens históricas nos ideais estéticos e intelectuais da Grécia Antiga e Roma. Dentro desse ideal clássico, certos autores serviram como referência ideal de estilo e forma, como a literatura realizada no dialeto ático que englobava peças dos dramaturgos Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes, no século V a. C. além do filósofo ateniense Platão.Mais tarde, especialmente durante o Renascimento, esses valores foram absorvidos pela aristocracia, e como fora evidenciado em obras como o cortesão de Baldassare Castiglione, o reconhecimento clássico tornou-se parte do tipo e estilo ideal aristocrático. Ao longo do tempo, o refinado classicismo da Renascença foi ampliado para abraçar uma gama mais ampla de autores que produziam em diferentes línguas. Dentre esses autores estavam figuras notáveis e diversas como William Shakespeare, Wolfgang Goethe, Cervantes e Victor Hugo.
Marietta Baderna desembarcou no Brasil em 1849 à convite, para dançar no Teatro São Pedro de Alcântara (depois João Caetano), principal teatro carioca. Suas apresentações incorporaram danças afro-brasileiras representadas através do “lundu”, “umbigada” e “cachucha”, consideradas escandalosas pela elite conservadora e racista, mas que faziam sucesso no Rio de Janeiro, lhe garantindo um grupo de fãs ardorosos. As manifestações exaltadas desses fãs garantiram-lhes o nome de “badernistas”, e a palavra baderna tornou-se sinônimo de beleza, embora mais tarde, de confusão ou tumulto. Além de “baderneira”, com a redução sociológica Marietta virou Maria no Brasil, mas mesmo assim foi pioneira no ensino de dança no país. Tentou criar uma escola profissionalizante em 1851 e lecionou em escolas só para garotas do Rio de Janeiro. Marietta estreou no Brasil no dia 29 de setembro de 1849, no balé “Il Ballo delle Fate”. A difusão da dança das negras e o canto de contra hegemonia dos escravos que Marietta Baderna fez-se no processo de subversão bailarina do povo.
Em Portugal, o lundu recebeu polimentos da corte, como o uso dos instrumentos de corda, mas foi proibido por Dom Manuel por ser “contrário aos bons costumes”. Ao vir diretamente de Angola para o Brasil, porém, recuperou aqui o acento jocoso, mordaz e sensual que incomodara a sociedade lisboeta. Nos finais do século XVIII, presente tanto no Brasil como em Portugal, o lundu evolui como uma forma de música urbana, acompanhada de versos, na maior parte das vezes de cunho humorístico e lascivo, tornando-se uma popular dança de salão. Em terras brasileiras, a dança do lundu foi cultivada por negros, mestiços e brancos e, durante o século XIX, o lundu virou lundu-canção, sendo apreciadas em circos, casas de chope e salões do Reinado. Com essa popularidade, tornou-se o primeiro gênero musical a ser gravado no Brasil, com a canção “Isto é bom”, na voz de Baiano em 1902, pela Casa Edison. O lundu saiu de evidência no início do século XX, mas deixou seu legado, principalmente no que tange ao ritmo sincopado, no maxixe que também deve suas origens à polca e à habanera.
O lundu é pari passu uma dança e canto de origem africana introduzido no Brasil provavelmente por escravos de Angola. Originado no batuque africano, o lundu em fins do século XVIII não era ainda uma dança brasileira, mas uma dança africana do Brasil, e começou a ser mencionada em documentos históricos a partir de 1780. O lundu na suas origens tinha sistemática simples, a qual ainda podemos observar na dança de roda, sua familiaridade. Músicos iniciam o ritmo Lundu. As pessoas que querem dançar aproximam-se, já entrando na dança. Um sinal da viola é emitido e a primeira dançarina abre espaço no centro da roda que logo se forma com o grupo. Forma-se a roda e nela fica no centro dançando até convidar alguém para substituí-la. O convite pode ser uma batida de pé diante da pessoa, palmas diante da pessoa, uma umbigada ou um toque de ombros à esquerda e em seguida outro à direita. A dançarina convidada vai para o centro dançar. Dança no centro até escolher quem vai substituí-la. Pode ser uma mulher ou um homem. As substituições continuam por várias vezes. Quando esta no meio da roda, o dançador de corpo relaxado, braços ao longo do corpo, pernas meio fletidas, mantem um sapateado com a planta do pé bate inteira no chão, ao ritmo da música.
Marietta Baderna esteve em turnê pelo Recife, do mestre de Apipucus na capital pernambucana de 1853-54. A versão do lundu fazia parte de um padrão de apresentação teatral frequente no século XIX, de caráter híbrido e forte base musical. Mais do que levar a imaginar a bailarina clássica transitando por cenas lúbricas no palco do Teatro Santa Isabel, os dados da passagem, aliados aos demais interessam como questões teóricas e históricas fundamentais que percorrem a percepção de uma continuada prática de composição de espetáculo por justaposição de peças de diferentes tipos, expostas em desfile ou organicamente integrada, distante de qualquer perspectiva anacrônica sociológica de atualização, que poderia contribuir para a interpretação proto-política em torno das discussões da teatralidade urbana expandida e, sobretudo percebida na cena contemporânea. Dançava nos salões da Corte no Segundo Reinado, mas realizava sua subversão de artista nas ruas, representando novos significados a elementos cotidianos no piso nas ruas das cidades, fora dos entediantes palacetes, provocando aglomerações e causando grande furor.
O
Teatro de Santa Isabel é um teatro localizado na cidade brasileira do Recife,
capital do estado de Pernambuco. É um raro exemplo de genuína arquitetura
neoclássica da primeira metade do século XIX brasileiro. Foi nomeado em homenagem
à Princesa Isabel. Nas suas instalações ocorreram episódios importantes e
curiosos da história do Brasil. O teatro recebeu visitantes ilustres como o
imperador Dom Pedro II, foi palco da campanha abolicionista de Joaquim Nabuco,
e nele Castro Alves conheceu o seu grande amor Eugénia Câmara. Foi o primeiro
teatro do Brasil construído com mão de obra especializada, tendo sido projetado
pelo engenheiro civil francês Louis Léger Vauthier. A ideia de construir um
teatro público no Recife foi do então presidente da província de Pernambuco, Francisco
do Rego Barros, barão, visconde e depois conde da Boa Vista. Em 30 de abril de
1839, ele assinou a Lei número 74, autorizando a construção de um teatro
público para a cidade. O Brasil não dispunha, na época, de profissionais
qualificados, como engenheiros e arquitetos, nem sequer pedreiros ou
carpinteiros especializados. Os engenheiros que existiam tinham formação
militar. Para viabilizar o projeto de governo, Rego Barros promoveu a vinda
de profissionais europeus, engenheiros, matemáticos, técnicos e
operários, entre eles, Louis Léger Vauthier, o engenheiro responsável pela
execução do projeto do novo teatro, que chegou ao Recife em setembro de 1840.
O
primeiro projeto elaborado por Vauthier, cujo orçamento era de 400 contos, foi
rejeitado devido ao seu alto custo. O projeto definitivo, estimado em 240
contos, foi aprovado em fevereiro de 1841, sendo as obras iniciadas no mês de
abril. O local escolhido foi o então chamado Campo do Erário, onde só havia
areia. Atualmente é a Praça da República. Seu público e inspiração nos palcos eram representados por trabalhadores, homens e mulheres negros do povo que bebiam, riam, falavam alto e maculavam a velha sociedade que se espelhava nas decadentes cortes europeias. Em meio ao povo, Marietta passou a ser reconhecida como Maria Baderna e seu público que passou a ser chamado tanto de badernistas quanto de baderneiros. Passagens de sua biografia (cf. Corvisieri, 1998), traduzida em 2001, narram um empresário que deixou de pagar os artistas que se apresentavam sem dar explicações. Ela e suas colegas entraram em greve e não houve apresentação. Sempre que aparecia, era aclamada pelo povo das ruas que gritava seu nome e batia com os pés no chão. Atacada pela crítica ultraconservadora, sem contrato de trabalho para espetáculos, Marietta foi para a Recife fazer apresentações de lundu no teatro Santa Isabel quando desafiou o conservadorismo atroz de seu tempo. Foi uma dançarina das calçadas, da areia das praias, uma artista dos negros, dos mulatos, dos pobres na miscigenação brasileira. Uma bailarina do lundu. Latifundiários e empresários tentaram expulsá-la, mas estudantes de classe média e trabalhadores elegeram-na como símbolo da nascente brasilidade.
Bibliografia geral consultada.
CORVISIERI, Silvério, Badernao: laballerina dei due mondi. Roma: Editore Odradek, 1998; FERREIRA, Jorge, REIS FILHO, Daniel Aarão (organizadores), A Formação das Tradições (1889-1945). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007; KATZ, Helena, Um, Dois, Três: A Dança é o Pensamento do Corpo. Belo Horizonte: Fórum Internacional de Dança, 2008; SANCHEZ, Vera Maria Aragão de Souza, A Bailarina - Memória da Construção Discursiva de um Mito na Imprensa do Século XIX. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Memória Social. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2011; COSTA-LIMA NETO, Luiz de França, Música, Teatro e Sociedade nas Comédias de Luiz Carlos Martins Penna (1833-1846): Entre o Lundu, a Ária e a Aleluia. Tese de Doutorado. Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014; Idem, “Vai de Lundu que Eu Vou de Caxuxa”. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, Ano 1, n° 100, pp. 62-64; jan. 2014; ALCURE, Adriana Schneider, “Contribuição dos Estudos de Caso e da Pesquisa Indiciária para a História do Espetáculo: O Lundu que Maria Baderna teria Dançado em Recife”. In: Revista Sala Preta. Volume 15, n° 1, 2015; RABETTI, Maria de Lourdes; ALCURE, Adriana Schneider, “Contribuição dos Estudos de Caso e da Pesquisa Indiciária para a História do Espetáculo: O Lundu que Maria Baderna teria Dançado em Recife”. In: Revista Sala Preta, vol. 15, n° 1, 2015; SOARES, Fabiana de Menezes, “Mulheres Substantivas - Olympe de Gouges e Marietta Baderna: O Papel Subversivo das Artes no Contexto dos Direitos Humanos em Movimento”. In: Rev. Estudos Legislativos. Porto Alegre. Ano 10, n° 10, 2016; pp. 15-87; ANDRADE, Sérgio Pereira, Quando o Pensamento Vem Dançando, Quando a Soberania Treme - evento por vir, democracia por vir, razão por vir. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2016; OLIVEIRA, Juliano de, A Significação da Música no Cinema. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação do Departamento de Música. Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2017; PAIVA, Vitor, “A Bailarina Baderna e a História de Resistência por Trás dessa Palavra”. Disponível em: https://www.hypeness.com.br/2018/08; SCHIFINO, Rejane Bonomi, Na Ponta dos Pés: Notas sobre Dança, Cultura e Políticas Públicas em Goiás (1980-2019). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019; entre outros.
“Dá para ganhar deles. É Olavo de Carvalho adaptado”. Abraham Weintraub
Os ministros da Educação no Brasil, desde 1979, tiveram um curto período de gestão, alcançando em média somente 2 anos no cargo, devido à instabilidade provocada por crises políticas e econômicas governamentais. Um estudo de ideologias da administração não está preocupado com as origens do “espírito capitalista”, mas sim com as “armas ideológicas” empregadas na luta pela ou contra a industrialização. E quando ideologias são formuladas para defender um conjunto de interesses econômicos, é mais esclarecedor examinar a estratégia de argumentação do que insistir em que o argumento é autointeressado. Afinal, o país atravessou nessas quatro décadas períodos de graves crises econômicas e de instabilidade política, como o impeachment casuístico de dois presidentes da República. O ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), cuja gestão durou 12 meses de trabalho, destaca que tentou encarar como “prioritária a diminuição do analfabetismo no país”. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com dados referentes ao ano de 2016, o Brasil ainda tem cerca de 11,8 milhões de analfabetos. A pesquisa realizada pelo estatal IBGE indica dados reais que 7,2% das pessoas maiores de 15 anos não sabem ler, sendo que, comparativamente entre os negros, o percentual chega a 9,9%.
Capital financeiro (cf. Hilferding, 2011) pode ser entendido como o capital representado por títulos, obrigações, certificados e outros papéis com valor negociáveis e rapidamente conversíveis em dinheiro. Uma vez que as necessidades de liquidez variam significativamente entre os agentes econômicos, há uma grande variedade de instrumentos sociais, sob a forma de contratos, que combinam diferentes ativos e são comercializados nos mercados financeiros. Em termos simplificados, a lógica financeira consiste em “fazer dinheiro a partir de dinheiro”, sem necessariamente passar pela esfera da produção de mercadorias. O predomínio crescente dessa lógica econômica, de caráter rentista - isto é, que não tem como finalidade a produção, mas a remuneração do detentor de um ativo - na economia mundial globalizada ocorre desde pelo menos o início dos anos 1980 e 2006. A riqueza financeira mundial incluindo ações e debêntures, cresceu proporcionalmente mais de 14 vezes, enquanto comparativamente o ProdutoInterno Bruto (PIB) mundial cresceu, inversamente, estatisticamente menos de cinco vezes. Trata-se, portanto, de um capital fictício (cf. Marques & Nakatani, 2009) melhor dizendo, um capital não vinculado à esfera da produção e das relações de classe - e que efetivamente acabou por comandar a economia especulativa como um todo.
O Ministério da Educação representa o calcanhar de Aquiles dos programas governamentais desde a redemocratização retomada em 1985. Há uma disputa interna historicamente constituída na área da educação sobre qual projeto de governo deve ser institucionalizado. Os grupos de burocratas em conflito poderiam ser chamados de “pragmáticos” e “ideológicos”. Os primeiros tem como representação a ideologia de segurança nacional desenvolvida entre os militares (cf. Fernandes, 2009), que foram os primeiros a serem envolvidos na campanha de Jair Bolsonaro (PSL). Este grupo inclui ao menos um coronel que tem “afinidades eletivas” com o ministro. Os segundos são extremistas seguidores do escritor fascista Olavo de Carvalho e também ex-alunos do ministro demissionário Ricardo Vélez. Parte da elite militar no Ministério de Educação e Cultura pode ser considerada pragmática e compõe o grupo que ajudou na elaboração das propostas de campanha de Bolsonaro. Dentre as propostas, estava a defesa da educação a distância, a criação de colégios militares em capitais e a modernização da gestão na pasta. Os seguidores de Olavo de Carvalho se incorporaram depois da controversa vitória eleitoral de Bolsonaro, facilitada pela mídia, e tiveram atritos com os que já participavam das discussões sobre educação desde a campanha.
O principal aspecto de entrave para esse grupo ideológico é expulsar literalmente do MEC qualquer resquício do que chamam de “marxismo cultural” ou “pensamentos esquerdistas”. Isso inclui a defesa de projetos como o de caráter positivista “Escola Sem Partido”, a revisão de questões aplicadas ao exame do Enem, ou o ensino disciplinar que aborde questões sociais de interpretação de gênero nas escolas. O grupo ideológico também tem restrições em relação à atuação do Conselho Nacional de Educação (CNE), a regulamentação da Base Nacional Comum Curricular e alguns pontos do Plano Nacional de Educação (PNE). Os seguidores do educador fascista Olavo de Carvalho ocuparam cargos de diretores de programas, assessores ligados diretamente ao ministro, ou à secretaria-executiva. Os indicados ligados aos generais ficaram principalmente à frente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), autarquia vinculada ao Ministério da Educação. Seu objetivo é promover estudos, pesquisas e avaliações periódicas sobre o sistema educacional. O problema é que a insistência em combater o “marxismo cultural” deixa as questões essenciais do MEC mais uma vez em segundo plano como ocorrera antes.
O instituto nacional realiza pesquisas e levantamentos estatísticos fornecendo avaliações em todos os níveis e modalidades de ensino. Suas atividades mais reconhecidas são a realização do concurso/Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); a realização do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade); a organização das avaliações periódicas dos ensinos básico e superior de todo o território brasileiro. Na prática, trata-se da crise de autoridade que já significou uma série de decisões revogadas e demissões no setor. Mais de 10 pesquisadores foram demitidos e postos dentro da pasta e do Inep estão vagos. A disputa também pode afetar programas importantes, como o Exame Nacional do Ensino Médio (cf. Locco, 2005). Apesar de ser aplicado apenas em novembro, o cronograma estipula que as provas estejam prontas para o envio às gráficas no início de maio. A educação básica e a regulamentação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também são áreas que, apesar de não serem ofertadas diretamente do MEC, podem sofrer com a persistência da crise de valores do ministério. Ocorre porque as redes estaduais e municipais dependem da articulação com o governo federal para “tirar do papel” (teoria) os programas que precisam ser executados nas escolas. O motivo político tem sido uma suposta reforma ministerial.
O inexperiente ministro da Educação assume o cargo envolvido em polêmicas e com um ministério que sofreu demissões desde o início do governo. O MEC já teve ao menos 14 demissões, sendo que dois cargos estratégicos ainda estão vagos: a secretaria da Educação Básica e a presidência do Inep. Além da preocupante falta de experiência em educação e gestão pública, Abraham Weintraub é seguidor do astrólogo Olavo de Carvalho. Demonstra um estranho alinhamento ideológico pari passu às pautas neoliberais e de extrema-direita e diz que irá combater o “marxismo cultural”. Ideologicamente a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada a termos culturais pela extraordinária Escola de Frankfurt (cf. Jay, 2008), que teria se infiltrado nas sociedades com o objetivo de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma “sociedade global, igualitária e multicultural”. A Escola de Frankfurt constituiu-se em um grupo pluralista de intelectuais que na primeira metade do século passado produzira um pensamento reconhecido como Teoria Crítica. Dentre eles temos Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e o herdeiro Walter Benjamim que desenvolveram numerosas teses sobre estruturas de poder e dominação econômica, política, cultural e psicológica da civilização industrial avançada.
Novo Ministro da Educação é acusado de replicar discurso nazista. É neste sentido que entendemos que o mundo cotidiano a liquidação do particular pelo universal é experimentada como sofrimento e mal-estar da civilização. Tanto os frankfurtianos quanto Freud entenderam este aspecto essencial da realidade norte-americana e europeia. Nesse cenário vão se propagar, erroneamente, cada vez mais ideias que aspiram por um vulgar impulso por transcendência. O desespero pelo que existe propaga as ideias, que em outros tempos foram contidas. Qualquer um, inclusive as pessoas que se ocupam com negócios desse mundo, considerará um desvario a ideia de que esse mundo finito de tormento infinito seja abarcado por um plano universal divino. Theodor Adorno refere-se a essa experiência da “via negativa” da “metafísica em queda” como a busca da “imediatez subjetiva intacta” ou “subjetivismo do ato puro”, experiência que nos daria o “interior dos objetos”, a redenção do materialismo por meio da metafísica que, finalmente, revelaria a aparente verdade do mundo. Que ele tenha, por outro lado, querido intensivamente ter contradito tal veredito, testemunham os 370 fragmentos que compõem o livro inacabado, nos quais Adorno trabalhou uma parcela significativa de sua vida intelectual, de 1938 até o final de sua vida, em 1969. Seu principal objetivo diria respeito à própria natureza e alcance da filosofia da música enquanto disciplina organizada do ponto de vista do conhecimento científico.
De acordo com essa suposta teoria conspiratória, a Escola de Frankfurt seria a origem de um movimento contemporâneo da esquerda mundial para destruir a cultura ocidental. Essa teoria da conspiração tem recebido apoio de um “think tank” norte-americano chamado “Free Congress Foundation”, e é divulgada majoritariamente por ultraconservadores como Pat Buchanan e William S. Lind. No Brasil seu principal proponente é o fascista Olavo de Carvalho, além de Marcel Van Hattem, o Instituto Liberal, Rodrigo Constantino do Instituto Millenium, os proponentes da chamada “Escola sem Partido”, o padre católico Paulo Ricardo. Jair Bolsonaro e vários membros do seu governo, dentre eles o demissionário ministro da educação, Ricardo Vélez Rodríguez e o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, também acreditam na existência de tal conspiração. A expressão “marxismo cultural” é uma ideologia que deriva de uma teoria conspiratória similar que foi muito popular durante a ascensão do nazismo na Alemanha da primeira metade do século XX, onde recebia o nome de “bolchevismo cultural”. Os conspiracionistas afirmam que o multiculturalismo e a cultura politicamente correta seriam a realização dos planos da Escola de Frankfurt!
É neste sentido inverso que o ministro conspira contra a educação - “Em vez de as universidades do Nordeste ficar aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no agreste, [devem] fazer agronomia, em parceria com Israel”, disse ele no ano passado, em uma transmissão ao vivo citada no UOL. Para Antonio Gonçalves, presidente do ANDES-SN, o novo ministro é uma “solução caseira” a Ricardo Vélez. Para Gonçalves, o ex-ministro saiu do cargo devido à sua incapacidade política e de gestão. - “O novo ministro não tem qualquer experiência na área da Educação e de Gestão Pública. No entanto, é uma figura híbrida. Tem alinhamento com as políticas econômicas neoliberais e também com a ideologia de extrema-direita desse governo, o que é extremamente preocupante. E tem demonstrado desconhecer as reais necessidades educacionais do país”, avaliou o presidente do Sindicato Nacional. Em seu discurso o ministro afirmou que é necessário “melhorar o serviço” prestado pelo ministério. Ressaltou que quer “acalmar os ânimos” e entregar os resultados esperados para melhorar a educação, sem aumento de gastos. O que se subentende controle de investimentos estatais na educação.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) publicou mais uma edição do “Panorama da Educação” (2017), onde apresenta os principais dados do Brasil no relatório “Education at a Glance” (EaG), divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em Paris. Com dados do Brasil e de outros 40 países, o EaG oferece, anualmente, uma visão geral desses sistemas educacionais com o objetivo de possibilitar a comparação internacional. No entanto, apesar da melhora no nível de investimentos em educação no país, o Brasil continua entre os últimos do ranking dos testes de avaliação do PISA e com indicadores de desempenho ruins nas avaliações nacionais como no Saeb. Ocorre que o aumento no investimento em educação nos últimos anos, além de não ter revertido na melhoria do desempenho dos alunos, foi destinado, em grande parte, para o ensino superior em detrimento do ensino básico durante a gestão anterior.A gestão do Ministério de Educação e Cultura (MEC), desde que assumiu o cargo, buscou o equilíbrio entre os investimentos e reverteu a tendência de queda na educação de 2016 para 2017 houve um aumento do investimento na educação básica, atingindo R$ 56,3 bilhões e no ensino superior, garantiu um aumento para R$ 79,7 bilhões, em 2017.
Aos 47 anos de idade, Abraham Weintraub é professor universitário da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2014. Sua produção acadêmica não traz menção à educação, mas sim à economia, principalmente ao nebuloso tema da Previdência. Especializados em Previdência, os irmãos Weintraub têm tratado, na transição, da proposta de reforma da área, mas também de outros temas, como a independência do Banco Central. Em 2015, o ministro fundou o Centro de Estudos em Seguridade (CES), que se apresenta como uma associação civil sem fins lucrativos fundados por professores dos cursos de Atuária e Contabilidade da Universidade Federal do Estado de São Paulo. O CES, conforme matéria publicada no jornal Estadão no final de 2018 poderia ser o alvo que desencadeou uma sindicância em curso contra os irmãos Weintraub. Isto porque o Centro de Estudos de Seguridade foi a única instituição a apoiar a realização da “Cúpula Conservadora das Américas”, evento idealizado pelo filho do presidente da República. Abraham e Arthur falaram sobre economia no evento. Dois de seus colegas consultados pela reportagem do jornal disseram que ele teve uma passagem discreta pela universidade porque parecia se dedicar mais aos seus projetos do que à academia.
Em 2014, apoiou a campanha presidencial de Marina Silva (REDE). Antes de abraçar a carreira acadêmica, Abraham atuou no Banco Votorantim e na Quest Corretora. A aproximação dos irmãos Weintraub com presidente se iniciou há quase dois anos, por intermédio de Onyx Lorenzoni (DEM), o ministro da Casa Civil. Ao mesmo tempo ganhou a confiança do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho mais engajado com milícias do presidente como é de domínio público. Em princípio, Abraham atuaria no ministério da Economia como um dos responsáveis por elaborar a reforma da Previdência. Mas o ministro Paulo Guedes preferiu nomear alguém com experiência legislativa para a função de secretário especial de Previdência e Trabalho. Era necessário convencer parlamentares sobre a necessidade de se aprovar a reforma. Assim, a vaga ficou com o ex-deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN). Abraham acabou, então, na secretaria executiva da Casa Civil. Enquanto isso, o irmão dele, Arthur, tornou-se chefe da assessoria especial da Presidência da República.
Abraham Weintraub afirmou ainda que não tem filiação partidária, e sim convicções políticas. - “O que trago de diferente dos ministros anteriores: não sou filiado a partido político, sou um técnico, professor universitário, de uma universidade de muito renome. Tenho capacidade de gestão para entregar o resultado”. Os judeus, disse uma vez Léon Poliakov, são franceses que, ao invés de não irem mais à igreja, não vão mais à sinagoga. Na tradução humorística de Hagadah, essa piada designava crenças no passado que deixaram de organizar um conjunto de práticas. As convicções políticas parecem, hoje, seguir o mesmo caminho. Alguém seria socialista por que foi, sem ir às manifestações, sem reunião, sem palavra e sem contribuição financeira, em suma, sem pagar. Mas reverencial que identificatória, a pertença só se marcaria por aquilo que se chama uma voz. Este resto de palavra, como o voto de quatro em quatro anos. Uma técnica simples manteria o “teatro de operações” desse crédito.
Vale lembrar que a capacidade de crer parece estar em recessão em todo o campo político. A tática é a arte do fraco. O poder se acha amarrado à sua visibilidade. Mas a vontade de “fazer crer”, de que vive a instituição, fornecia nos dois casos um fiador a uma busca de amor e/ou de identidade. Importa então interrogar-se sobre os avatares do crer em nossas sociedades e sobre as práticas originadas a partir desses deslocamentos. Durante séculos, supunha-se que fossem indefinidas as reservas de crença. Aos poucos a crença se poluiu, como o ar e a água. Percebe-se ao mesmo tempo não se saber o que ela é. Tantas polêmicas sobre os conteúdos ideológicos do voto e os enquadramentos institucionais para lhe fornecer não foram acompanhadas de uma elucidação acerca da natureza do ato de crer. Os poderes antigos geriam habilmente a autoridade. São os sistemas administrativos, sem autoridade, que dispõem de mais força em seus “aparelhos” e menos de autoridade legislativa.
Nomeado para preencher a vaga aberta no cargo de ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, natural da cidade de São Paulo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mestre em administração na área de finanças pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (1994). É um executivo do mercado financeiro, com mais de vinte anos de experiência, atuado como economista-chefe e diretor do Banco Votorantim, e como sócio na Quest Investimentos. Weintraub foi integrante da equipe de transição do governo do presidente Bolsonaro, e ocupou o cargo de secretário executivo da Casa Civil, sob o comando de Onyx Lorenzoni, formado em medicina veterinária pela Universidade Federal de Santa Maria, presidiu a Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados entre 2008 e 2009.Em 2016, votou a favor do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT). Já durante o Governo Michel Temer, votou a favor da PEC do “Teto dos Gastos Públicos”. Em abril de 2017 foi favorável à Reforma Trabalhista. Em agosto de 2017 votou a favor do processo em que se pedia abertura de investigação do então presidente da Republica Michel Miguel Elias Temer Lulia (PSDB). A sua atuação em plenário o caracteriza como um dos mais ferrenhos opositores do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo buscado associar sua imagem ao combate à corrupção no Brasil, “antes de admitir publicamente o recebimento de caixa 2 da empresa JBS para campanha eleitoral em 2017”.
Segundo os dados mais recentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), nenhum Estado brasileiro atingiu a meta prevista para o ensino médio em 2017, e alguns Estados inclusive registraram piora no desempenho dos alunos. É, também, uma etapa com alto índice de evasão: cerca de 3 milhões de jovens abandonam o ensino médio por ano, em média. Ele sustenta algumas teses contraditórias para um financista. Em primeiro lugar, sobre sua nomeação para a pasta da Educação de que o Brasil não precisa aumentar seus gastos em educação. Além disso, que o governo deve “usar a Constituição brasileira para sair do lamaçal”, que a maioridade penal deve ser reduzida para 16 anos, “principalmente para crimes hediondos”, e que o conservador “tem que ser mais engraçado que os comunistas” e usar “humor e inteligência” para “ganhar a juventude”.Essas são algumas das ideias que ele expressou em dois vídeos publicados no canal oficial do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Na ocasião, Abraham Weintraub e Luís Philippe Bragança conversaram, durante quase duas horas, sobre o programa de campanha da chapa de Jair Messias Bolsonaro. Abraham é um economista judeu e professor brasileiro, especialista em direito previdenciário e em finanças, além de executivo do mercado financeiro. No dia 1º de janeiro de 2019, foi nomeado secretário-executivo da Casa Civil, e em 8 de abril de 2019, foi nomeado Ministro da Educação do Brasil.
Na sua concepção moderna, o conceito de “finanças” nasceu nos anos 1960 e sua abordagem característica é normativa, isto é, um decisor, seja um investidor individual ou gerente empresarial, busca maximizar uma função-objetivo, seja em utilidade ou em retorno esperado, ou agregar valor para o acionista, para um dado preço de título obtido no mercado. No nível microeconômico, as finanças representam o estudo dos gastos financeiros, da gestão de estoque e da captação de fundos por fundações e instituições. O termo finanças pode, assim, incorporar o estudo do planejamento do dinheiro e outros ativos na própria área; o gerenciamento e controle desses ativos ou recursos; e a análise e gerenciamento de riscos de projetos. Economia financeira é a área de conhecimento do estudo econômico que avalia a relação social entre as variáveis financeiras, como o preço, taxas de juro, ações sobre as componentes econômicas, como bens e serviços. Em suma, explora como investidores racionais consideram o risco e o retorno numa estratégia de investimento. Os conceitos de racionalidade e eficiência de mercado depende de uma definição da informação e valor conjugados de teorias de comportamento relativas à avaliação das escolhas possíveis de mercado. Um dia após a posse, Abraham Weintraub, anunciou a nomeação de quatro secretários para a pasta, além de mais uma mudança na Secretaria-Executiva do Ministério de Educação e Cultura.
Em um comunicado divulgado pela Assessoria de Imprensa, o ministério afirmou que “o presidente da República, Jair Bolsonaro, deu Carta Branca para Weintraub escolher todo o seu primeiro escalão”. Na terça-feira, nas cerimônias de posse e transmissão de cargo, o novo ministro disse que “não é radical e que é capaz de entregar resultados”. Com a mudança, apenas duas secretarias do MEC foram mantidas desde o início do governo: a Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação, e a Secretaria de Alfabetização, que foi criada pelo novo governo e é ocupada por Carlos Nadalim, incumbido de apresentar uma nova política nacional para a alfabetização. Antônio Paulo Vogel de Medeiros é o quinto nome indicado publicamente para o cargo de secretário-executivo do MEC, considerado o “número 2” no cargo. Em janeiro, o primeiro a efetivamente assumir o cargo foi Luiz Antônio Tozi e, até agora, foi o que se manteve na função pública por mais tempo, pouco mais de dois meses. Ele foi exonerado em 12 de março após uma disputa interna entre grupos ligados aos militares e os seguidores do escritor Olavo de Carvalho. Na época da exoneração, o nome de Rubens Barreto da Silva, foi lembrado que na véspera havia sido nomeado secretário-executivo adjunto.
Enfim, ele é politicamente ligado a Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil. Na pasta, ocupava o segundo posto. Participou da equipe de “transição”, com pequenas contribuições para a área da Previdência Social. Em uma entrevista, ele explicou por que ele e o irmão, Arthur Weintraub, decidiram apoiar Bolsonaro: - “Diante de ameaças, é necessário lutar pelo país em que se vive. Os venezuelanos descobriram isso muito tarde. Perderam o controle de sua pátria e hoje são colônia dos ditadores que controlam Cuba. São escravos”. Ele é ultradireitista, mas não se reconhece assim. - “Esquerda ou direita, acho que é uma rotulação pobre. Somos humanistas, democratas, liberais, lemos a Bíblia (Velho e Novo Testamento) e a temos como referência”. Abraham Weintraub já tornou público que idolatra e segue Olavo de Carvalho, que era também guru de Ricardo Vélez Rodríguez. Abraham Weintraub defende adaptar a “teoria” do jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho para vencer a esquerda. Na “Cúpula Conservadora das Américas”, ele foi um dos membros mais engajados. Em entrevista a Luiz Philippe Bragança, ainda antes da posse de Jair Messias Bolsonaro, ele criticou seus colegas na universidade, com a afirmação de que tinha sido “ameaçado por apoiar o candidato de ultradireita”, mas o que se deve compreender no mundo contemporâneo é que ela envolve frequentemente expectativas em torno da tradição, seja ela real ou meramente imaginada.
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