“O medo dos poderes invisíveis, inventados ou
imaginados a partir de relatos, chama-se religião”. Thomas Hobbes
A
ausência de autoridade requeria a existência da intervenção do Estado sobre a
religião e acarretava na impossibilidade de usar a Bíblia como lei. É preciso
haver um único governante, do contrário se origina a facção e a guerra civil,
entre a Igreja e o Estado, entre os espiritualistas e os temporalistas, entre a
espada da justiça e o escudo da fé. E o que é mais desastroso ainda, no próprio
coração de cada cristão, entre o cristão e o homem. Chamam-se pastores os
doutores da igreja, bem como os soberanos civis. Entretanto, se entre os
pastores não houver alguma subordinação, de forma que haja apenas um chefe dos
pastores, serão ministrados aos homens doutrinas contrárias, que poderão ser
falsas e uma delas necessariamente o será. O soberano civil é o chefe dos
pastores, segundo a lei natural. Embora o poder tanto do Estado quanto da
religião estivesse nos reis, não deixou de ser fiscalizado em
seu uso, a não ser quando eram bem quistos por suas capacidades naturais ou por
sua fortuna de bens. A
palavra Leviatã foi utilizada no Velho Testamento da Bíblia, no Livro de Jó,
para descrever uma criatura mitológica que se assemelharia a um grande polvo ou
uma grande baleia, e que na obra “O Leviatã...”, de Thomas Hobbes, é utilizado
para simbolizar o poder do Estado (autoridade), que segundo o filósofo seria a
única maneira de superar o “estado da natureza” do homem, governado pelo
egoísmo e pela insatisfação.
Daí a sentença: “Homo homini lúpus”, criada por
Plauto (254-184) em sua obra: Asinaria. No texto se diz exatamente: “Lupus est
homo homini non homo”, popularizada por Hobbes no século XVII, na qual ele
retrata a natureza competitiva do ser humano (cf. Macpherson, 1979). O desejo
que torna o homem corruptível é imutável, e aparece quando o homem se sente
livre do Leviatã. A prudência é uma presunção do futuro baseada numa
experiência do passado. Porém, existe uma presunção de que as coisas do passado
derivem de outras coisas que não são futuras, mas passadas também. O “bellum
omnium contra omnes” representa, a disputa pelo poder no mundo, em que a
análise de Hobbes sobre esse “estado-natural animalesco”, poderia ser resolvido
dentro das fronteiras, sob o comando de um governo soberano. O
grande dilema na modernidade é que a teoria não previa a intensa luta
supranacional, que ultrapassa os limites imaginários e físicos. Quando limitou
a convivência em uma fronteira, não pode conceber a ideia de que governos de
outros países que tentassem controlar outrem, só causariam o que podermos
perceber: o caos e banhos de sangue moderno e contemporâneo.
Idealizou uma
criatura mística chamada Leviatã, em sua ilustração como um monstro composto
por vários homens dispostos como escamas. Quer dizer que o soberano que
controla a sociedade civil é formado pelo conjunto de indivíduos, demonstrando
também que o ser humano deu ao Estado o direito de controlá-lo como se deseja.
Assim, todos os seres humanos buscam o sucesso contínuo na obtenção dos objetos
de desejo, isto é, procuram a felicidade. Entretanto,
é justamente essa busca que conduz os homens à guerra no estado de natureza e
é, em última instância, o medo da morte que os leva a criarem o estado civil.
Isto porque sem o medo da morte a procura pela felicidade conduz a uma “guerra
de todos contra todos”, já que os homens, para terem certeza de que alcançariam
a felicidade, teriam que se tornarem poderosos na busca por um poder. Mas esta
busca motivada por um desejo contínuo de poder e mais poder salvaguardaria a
felicidade, que outra coisa não é senão uma satisfação dos desejos. Os homens
ao se valerem de todos os meios necessários para serem felizes inevitavelmente
entrariam em guerra uns contra os outros. Quem já observou os procedimentos e
os graus que levam um Estado florescente à guerra civil e, em seguida, à ruína,
ao ver qualquer outro Estado em ruínas deduzirá que foi uma consequência das
mesmas guerras e dos mesmos acontecimentos. Porém, essa conjectura tem o mesmo
grau de incerteza da conjectura do futuro. Ambas estão baseadas apenas na
experiência.
Os seres humanos desejam aquilo que amam, e odeiam coisas pelas
quais têm aversão. Com o desejo significamos a ausência do objeto; com amor,
sua presença. Com aversão a ausência e, com ódio, a presença do objeto. Primeiro
filósofo moderno a articular uma teoria detalhada do contrato social, com sua
obra Leviatã, escrita em 1651, Thomas Hobbes foi um filósofo inglês do século
XVII, reconhecido como um dos fundadores da filosofia política e ciência
política moderna. Desde Hobbes o poder de um homem, universalmente considerado,
consiste nos meios de trabalho de que dispõe para alcançar, algum bem evidente
tanto original (natural) como instrumental (político). O maior de todos os
poderes humanos é o poder integrado de vários homens unidos com o consentimento
de uma pessoa natural ou civil: é o poder do Estado ou aquele representativo de
um número de pessoas, cujas ações estão sujeitas à vontade de determinadas
pessoas em particular, como é o poder de uma facção ou de facções coligadas no
mundo contemporâneo. Ter servos é poder, como também ter amigos, pois isso
significa união de forças. Igualmente, a riqueza, unida à liberalidade, é
poder, pois congrega, une amigos & servos. Mas, sem a liberalidade, a
riqueza não é protetora; pelo contrário, expõe o homem à inveja e à rapina.
Reputação
de poder é representação de poder (cf. Crignon, 2007), porque, por meio delas,
obtemos a adesão e conquistamos o afeto político dos homens que precisam ser
protegidos. Êxito, analogamente também é poder, pois a reputação da sabedoria
ou da “boa fortuna” faz com que os outros homens temam, idolatrem ou confiem. O
valor ou conceito de um homem é, como para todas as outras mercadorias, seu
preço; isto é, depende de quanto seria dado pelo uso de seu poder. Assim, não é
absoluto, mas apenas uma consequência da necessidade e do julgamento alheio,
através do macróbio senhor dos códigos, escritor, filósofo e filólogo romano,
autor das Saturnais e do Comentário ao Sonho de Cipião. Segundo uma das
versões, nasceu por volta de 370 na Numídia, na África. Exerceu grande
influência na Idade Média pela transmissão e elaboração de uma parte da
tradição filosófica grega pagã no período pré-nissênico da escola neoplatônica
do Ocidente latino. A estima pública de um homem, que é o valor que lhe é conferido
pelo Estado, é o que denominamos ordinariamente dignidade. Essa valorização
pelo Estado é expressa pelo cargo público para o qual é designado, tanto na
magistratura como em funções públicas, ou quando esse valor é expresso por
títulos e honrarias que lhe são concedidos. A fonte da honra é o Estado, e
depende da vontade do soberano.
A honra não sofre alterações se uma ação é
justa ou injusta. A honra consiste unicamente na opinião de poder. O medo é a
única paixão que impede o homem de violar leis. O medo pode levar a cometer um
crime expressando o que Crawford Brough Macpherson denominou de “individualismo
possessivo” demonstra que há uma tradição política na qual a propriedade é
constitutiva da individualidade, da liberdade e da igualdade. Vampiro
é uma representação mitológica (ou folclórica) que sobrevive à etnologia
registrada em diversas culturas. O termo “vampiro” se tornou popular no início
do século XIX, após um influxo de superstições vampíricas na Europa Ocidental,
vindas de áreas de conhecimento onde lendas eram frequentes, como os Balcãs e a
Europa Oriental, embora variantes locais sejam também reconhecidas por outras
designações, como “vrykolakas” na Grécia, e “strigoi” na Roménia. Este aumento
das superstições vampíricas no continente europeu levou a uma possível histeria
coletiva, resultando em casos com perfuração de cadáveres e acusações
fantasiosas de vampirismo. Em 1819, com o sucesso do romance de John Polidori
“The Vampyre”, se estabeleceu o arquétipo sociológico do vampiro carismático e
sofisticado, o que pode ser considerado a mais influente obra sobre vampiros do
início do século XIX, inspirando no “Varney the Vampire”, e
eventualmente “Drácula”. É, no entanto, o romance de Bram Stoker, “Drácula”
(1897), que perdura como uma quinta-essência da literatura sobre vampiros,
gerando a base da moderna ficção sobre o tema.
Melhor dizendo, o âmbito do imaginário individual (o sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos), criativo e de invenção da literatura de ficçãocientífica foram idealizados pelo escritor Jules Verne. O
termo entrou na língua portuguesa no século XVIII por via do francês “vampire”,
que o tomou do alemão “Vampir”, que por sua vez o tomou emprestado no início do
século XVIII do sérvio “вампир/vampir”, quando Arnold Paole, um suposto
vampiro, foi descrito na Sérvia na época em que esse território estava
incorporado no Império Austríaco. O Houaiss dá ainda como possível origem o
húngaro, além do sérvio, apresentando como formas históricas “vampire”
(c.1784), “vampiro” (1815) e “vampyro” (1857). Uma das primeiras ocorrências do
termo registradas na língua portuguesa surge num texto português datado de
1784, em que é usada a forma “vampire”, indicando a sua proveniência direta do
francês. Em 1815 registra-se já a forma contemporânea, “vampiro”. Drácula, por
outro lado, foi inspirado em mitologias anteriores sobre lobisomens e outros
demônios lendários semelhantes e “deu voz às ansiedades de uma era” e aos
“medos do patriarcado vitoriano”. O sucesso deste livro deu origem a um gênero
distinto de vampiro, ainda popular no século XXI, com livros, filmes, jogos de
vídeo e programas de televisão. O vampiro é uma figura de tal modo dominante no
gênero de terror que a historiadora de literatura Susan Sellers situa historicamente o recorte do mito vampírico na “segurança comparativa do
fantástico nos pesadelos”. Ela
foi a primeira mulher a ser nomeada professora na área de literatura inglesa,
bem como redação criativa na Universidade de St. Andrews, e é coeditora geral
da edição da Cambridge University Press dos escritos de Virginia Woolf.
A
noção de vampirismo existe há milénios em culturas da Mesopotâmia, entre
Hebreus ou da Grécia Antiga. A romana continham lendas de demónios e espíritos
que são considerados precursores dos modernos vampiros. No entanto, apesar da
ocorrência de criaturas do tipo dos vampiros nessas civilizações antigas, o
folclore da entidade que conhecemos hoje como vampiro teve origem quase
exclusivamente no sudeste da Europa no início do século XVIII, quando as
tradições orais de muitos grupos étnicos dessa região foram registados e
publicados. Antropologicamente em muitos casos, os vampiros representam
espectros de seres malignos, vítimas de suicídio, ou bruxos, mas podem também
ser criados quando um espírito maléfico possui um corpo ou quando se é mordido
por um vampiro. A crença penetrou tanto em algumas regiões que causou histeria
e até execuções públicas de pessoas que se acreditavam serem vampiros. O termo entrou na língua portuguesa por via do francês vampire, que o tomou do alemão Vampir, que por sua vez o tomou emprestado no início do século do sérvio вампир/vampir,quando Arnold Paole, um suposto vampiro, foi descrito na Sérvia na época em que esse território estava incorporado no Império Austríaco. Esta
tradição persistiu no folclore grego moderno dos “vrykolakas”, no qual uma cruz
de cera e um caco de barro com a inscrição ideológica “Jesus Cristo conquista”
eram colocados no corpo por forma a prevenir que este se tornasse num vampiro.
Outros métodos comumente praticados na Europa incluíam cortar os tendões das
pernas ou colocar sementes de papoila, milhetes, ou areia no chão perto da cova
de um suposto vampiro. Para o senso comum este fato social se destinava a
manter o vampiro ocupado toda a noite contando os grãos, indicando, portanto,
uma associação entre vampirismo e aritmomania. Narrativas chinesas semelhantes referendam que se um ser vampírico encontra um saco de arroz, sente-se obrigado a contar todos os grãos.
Este tema pode ser encontrado igualmente nos mitos do subcontinente Indiano, assim como nas lendas da América do Sul de bruxaria e espécies de espíritos ou seres malignos ou nefastos.As
modernas crenças vampíricas enraizadas no folclore mais antigo propagaram-se
por toda a Ásia, desde as lendas das entidades maléficas do tipo “ghoul”
encontradas no continente, aos seres vampíricos das ilhas do Sudoeste Asiático.
A Ásia Meridional também desenvolveu as suas próprias lendas vampíricas. O
“Bhūta” ou “Prét” representa a alma “de um homem que morreu de morte
apressada”. Esta vagueia pelas redondezas animando cadáveres à noite, e
atacando os vivos, muito ao modo “doghoul”. No norte da Índia existe o BrahmarākŞhasa,
uma criatura vampírica “com a cabeça rodeada por intestinos e uma caveira, de
onde bebe sangue”. A figura do “Vetāla”, nas lendas da Ásia Meridional, pode
por vezes ser descrita como “vampiro”. Embora os vampiros originem o mimetismo
sociológico no cinema japonês desde o final dos anos 1950, o folclore que lhes
está associado tem origem ocidental. O “Nukekubi”, na
cultura japonesa, “é um ser cuja cabeça e pescoço separa-se do corpo para voar
em redor em busca de presas humanas durante a noite”.
Não
queremos perder de vista comparativamente que lendas de seres femininos
semelhantes a vampiros “que são capazes de separar partes superiores do seu
corpo também ocorrem nas Filipinas, Malásia e Indonésia”. Os malaios costumam
pendurar “jeruju” em suas casas ao redor das portas e janelas, na esperança
singela que o “Penanggalan”, não entre por aí “com medo de ficar com os
intestinos presos aos espinhos”. O “Leyak” é um ser semelhante do folclore
balinês. Um “Kuntilanak” ou “Matianak”, na Indonésia, ou “Pontianak” ou
“Langsuir”, na Malásia, representam a condição social de uma mulher que morreu durante a infância e
tornou-se “morta-viva”, em busca de vingança.
O mito do vampiro, as suas qualidades magicas e sedutoras, e o arquétipo de predador, como ocorre na
encenação fílmica, baseada nas Crônicas
de Anne Rice (cf. Hradec, 2014), expressam um simbolismo
que pode ser usado em técnicas que envolvam uso de ritual e de energia, como
sistema espiritual que faz parte da sociedade ocultista europeia, e
se difundiu na cultura norte-americana deste século com extraordinária
influência e mistura das estéticas neogóticas.
O
ensaio de Richard James Blackburn, The
Vampire of Reason, publicado pelo Editor Verso (Londres, 1989)
apresenta a seguinte tese: Uma explicação materialista deve ser capaz de um explanandum em termos de um explanans materialista; uma explicação
idealista, por sua vez, tem que fazer o mesmo em termos de um explanans idealista ou cultural. O
próprio explanandum pode ser
materialista, cultural ou uma combinação de ambos. Uma explicação estrutural
pode ser considerada materialista ou idealista dependendo da estrutura que ela
evoca como explanans ser, ela mesma,
materialista ou idealista. Este último uso, segundo a análise teórica “é
empregado por Marx, para quem uma explicação da vida social em termos de
estruturas econômicas é materialista, desde que tais estruturas pertençam a um
conjunto de relações entre, e em meio de, agentes e coisas envolvidas em atividade
material”. Um
explanans materialista pode consistir
de entidades materiais ou de uma estrutura de tais entidades, numa
localização ou mudança geográfica ou uma tendência demográfica na dinâmica populacional decorrente do avanço da medicina, urbanização etc.
Ele pode
abranger, alternativamente, uma atividade, evento ou processo transformando ou
preservando a natureza de entidades físicas, quer derive da própria natureza ou
da sociedade humana; ao mesmo tempo, dentro de uma sociedade, pode-se dizer que
uma exigência ou interesse possui um caráter materialista se favorece a
sobrevivência ou um bem-estar físico. Um explanans
idealista pode assumir várias formas: pode consistir da descoberta de
conhecimento novo, como na revolução científica dos séculos XVII e XVIII, à
qual a Revolução Industrial foi em parte atribuída. Para o marxismo, segundo
Blackburn, “os valores culturais e os ideais têm que ser compreendidos em
termos das instituições que os incorporam e dos requisitos e interesses aos
quais servem na base econômica de uma sociedade”. Embora seja inconsistente com
um idealismo eticocêntrico, o marxismo não é, de forma alguma, incompatível com
um idealismo centrado no conhecimento, desde que esse idealismo, ao contrário
de Hegel, possa assumir um fundamento em última instância materialista.
Somente
Hegel, insistimos neste aspecto, definiu o princípio da realidade como uma
Ideia lógica, fazendo, portanto, do ser das coisas um ser puramente lógico e
chegando assim a um panlogismo consequente que apresenta ainda, um elemento
dinâmico-irracional, existente no método dialético. Nisto se distingue o
panlogismo hegeliano do neokantismo, que eliminou este elemento e instituiu
assim um puro panlogismo. O idealismo apresenta-se, para sermos breves, em duas
formas principais: como idealismo subjetivo ou psicológico e como idealismo
objetivo e lógico. Mas estas diversidades no plano analítico movimentam-se no
âmbito de uma concepção fundamental. Esta é justamente a tese idealista de que
o objeto do conhecimento não é “menos que nada”, mas algo ideal, para concordarmos
com o incansável hegeliano Slavoj Žižek. A ideia de um objeto independente da
consciência é contraditória, pois, no momento em que pensamos num objeto, como
no amor, por exemplo, fazemos dele um conteúdo de nossa consciência: se
afirmamos simultaneamente que o objeto existe fora da nossa consciência,
contradizemo-nos com isso a nós próprios; portanto não há objetos reais
extra-conscientes, mas a realidade acha-se contida na consciência.
Precisamente
porque a “Introdução” não é como o “prólogo” um anexo posterior que contêm
consideráveis informações gerais sobre o objetivo que se propunha o maior
filósofo da história contemporânea e as relações com as quais sua obra mantém
diálogo com outros tratados filosóficos do mesmo tema. Ao contrário, de acordo
com Jean Hyppolite (1974), “a introdução é parte integrante da obra, constitui
o delineamento mesmo do problema e determina os meios postos em prática para
resolvê-lo”. Assim, Hegel que parte da consciência comum, não podia situar como
princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão
filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a
história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma
história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à
Ciência. Daí a análise comparativa que em Hegel existe de forma coincidente
entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento,
mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta
lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação.
Assim, Hegel preocupa-se apenas em definir os sistemas para lembrarmo-nos de
Vittorio Hösle, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes
filósofos. Na dialética hegeliana o que o ocupa é a categoria fundamental que
determina todo o sistema, o assinalamento das diferentes etapas, e nestas as
relações de antagonismo que conduzem à síntese do espírito absoluto.
Uma
explicação pode assumir uma forma que não é exclusivamente materialista nem
idealista, mas que pode ser denominada metamaterialista
ou metaidealista. Uma explicação
metamaterialista possui uma estrutura triádica na qual um explanans materialista (que pode ser composto) dá conta de um explanandum idealista que então forma o explanans de um resultado materialista.
Muitas vezes, uma explicação idealista de um evento é simplesmente aquilo que
poderia abranger os últimos estágios de uma explicação metamaterialista. Assim,
enquanto a ascensão do Islã pode ser responsável pela sujeição árabe do oriente
Médio, do Maghreb e da Espanha no
sentido de ser um componente incomum, mas necessário de uma condição suficiente
de tal evento, é possível oferecer explicações da própria emergência e das
características iniciais do Islã em termos dos requisitos no âmbito da
reprodução de eventos geopolíticos e geoeconômicos da península arábica no
século VII, ou seja, a necessidade de união entre as suas populações nômades e
sedentárias para evitar a ruína do comércio norte-sul e a necessidade de um
escoadouro para a população excedente da península. Representam os povos caçadores-coletores ou pastores, mudando-se por novas pastagens, quando se esgota a que estavam. Os nômades não se dedicam à agricultura e com frequência ignoram fronteiras na busca por pastagens.
Argélia,
oficialmente República Democrática e Popular da Argélia, é um país da África do
Norte que faz parte do Magreb. Sua
capital é Argel situada no norte do país, na costa do Mediterrâneo. Com uma
superfície de 2 381 741 km², é o maior país à volta do Mediterrâneo e o mais
extenso da África, após a divisão entre o Sudão e o Sudão do Sul. Partilha suas
fronteiras terrestres ao nordeste com a Tunísia, a leste com a Líbia, ao sul
com o Níger e o Mali, a sudoeste com a Mauritânia e o território contestado do
Saara Ocidental, e ao oeste com Marrocos. A Argélia é membro da Organização das
Nações Unidas (ONU), da União Africana (UA) e da Liga Árabe praticamente depois
de sua luta pela Independência (1962), e integra a Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP) desde 1969. Em fevereiro de 1989, a Argélia
participou com os outros estados magrebinos, para a criação da União do Maghreb Árabe criada em 17 de fevereiro de 1989, através do Tratado de Marraquexe, assinado em Marraquexe (Marrocos). Os Estados-membros são: Argélia, Tunísia, Líbia, Marrocos e Mauritânia. A União tem como metas principais a livre-circulação de pessoas, serviços, mercadorias e capitais sociais entre os Estados-membros; adoção de políticas de intercâmbio comuns. Em matéria econômica, a política comum visa assegurar o desenvolvimento industrial, agrícola, comercial e social dos Estados-membros associados.
A
Constituição argelina define o mundo do islã, os árabes e os berberes como
“componentes fundamentais” da identidade do povo argelino, e o país como “terra
do islã, parte integrante do Grande Magreb, do Mediterrâneo e da África”. O
“Magrebe” ou “Magreb”, em língua árabe, المغرب, Al-Maghrib, que significa
“poente” ou “ocidente” é a região localizada no noroeste da África. Em sentido
estrito, inclui Marrocos, Sahara Ocidental, Argélia e Tunísia. O “Grande
Magreb” inclui também a Mauritânia e a Líbia. Na época historicamente determinada de formação e desenvolvimento do Império Romano, era conhecido como África menor. Al-Maghrib opõe-se a
Machrek (“nascente”), que designa “o oriente árabe e se estende desde o Egito
até o Iraque e a Península Arábica”. A região foi dominada pelos árabes e
religião, o Islão, durante mais de 1300 anos (cf. Lannes, 2013; Mota, 2018). Argélia e Líbia são países
que parte do seu território é desértica. Tanto um como o
outro, e ainda a Tunísia, possuem reservas abundantes de petróleo e gás
natural. A agricultura, tornada possível através de projetos de irrigação, é
ainda importante para a região. Muitos habitantes são nômades, andando de terra
em terra com as suas manadas ou rebanhos.
Uma
explicação é metaidealista se possui uma estrutura triádica na qual o primeiro
termo é um momento idealista, o segundo ou médio é o termo materialista e o
terceiro novamente idealista. Um exemplo desse tipo de explicação é o que os
cristãos oferecem ao seu fundador. A imaculada concepção de Cristo pelo
Espírito Santo é o momento idealista original; o nascimento de Cristo da Virgem
Maria é o momento materialista da encarnação de Deus como Messias de carne e
sangue; e a apoteose de Jesus após a ressureição como o salvador da humanidade
é o momento idealista culminante. Um exemplo mais complexo de explicação
metaidealista se encontra na filosofia da história de Hegel. O Logos ou espírito do mundo induz a
emergência das nações e indivíduos históricos do mundo – como a Grécia de
Alexandre ou a Alemanha de Lutero – em que a ética protestante e espírito capitalista dando origem a manifestações
materiais, cujos feitos engendram novas épocas de vida cultural e preservação do pensamento –
a ciência e filosofia alexandrinas ou a Reforma e a visão de mundo protestante.
Um explanans idealista difuso é
responsável por um explanandum
material, que por sua consequência explica um evento idealista.
O
que tolda o debate levantado por Richard Blackburn não diz respeito apenas à
dualidade estrutural entre verdade ou falsidade em geral, mas seu status como
proposições materialistas ou idealistas. A alegação básica consiste da tese
presumivelmente materialista de que as forças de produção se desenvolvem no
interior de estruturas econômicas sucessivas, cuja ordem de progressão é
determinada pela sua capacidade ascendente de prescindir sobre tal
desenvolvimento produtivo. Entretanto, o impacto do desenvolvimento das forças
fisicamente produtivas, ou de fato preventivas e reparadoras, reside no avanço
do conhecimento, particularmente do conhecimento técnico; em face disto há um
desenvolvimento idealista mesmo quando a força produtiva está sendo posta em
questão. O motor da história humana é, para Marx, o desenvolvimento das forças
produtivas; mas isto, por sua vez, deriva, ao menos para a história humana
recente, de um avanço no conhecimento, ou seja, nas ideias de como produzir
coisas, pois a invenção precisa uma grande margem de indefinição.
Há,
um ramo do pensamento e do esforço humanos que frequentemente afirmou ter
respondido a essa questão. Nenhuma área da vida social tem sido menos tratável
para o reino da necessidade nem menos disposta a limitar sua afirmação que a
religião. Mesmo assim, as grandes religiões do mundo não escaparam às atenções
da artimanha da razão. As antigas religiões podem fornecer segurança mágica
contra as forças de destruição e, de fato, prosperar nelas e revelar não apenas
os segredos da natureza, mas também os da humanidade em sua antiguidade. Os
seres humanos diferem das espécies humanas por terem a capacidade de se
consolar dos infortúnios e do seu conhecimento da morte pela crença numa vida
depois da morte. Isto por sua vez pode ter profundos efeitos na vida
política e social. Enquanto os outros níveis sociais foram constrangidos pela
luta com a natureza, a religião e, sob sua influência, a política
foram liberadas do pleno impacto da seleção natural e social, ao menos na
imaginação, permitindo por um tempo os mais curiosos desenvolvimentos. É a
eles, que, com razão devemos nos dedicar, pois a religião foi identificada como
um modo de “segurança mágica” para conter as forças destrutivas e a desordem
social. Essa visão mágica de mundo foi elaborada no grande desenvolvimento das grandes religiões mundiais, assumindo formas mais sofisticadas.
A magia da prevenção,
recuperação, resseguro, criação e destruição sobrenaturais são evidentes nos
antigos sistemas de doutrina religiosa, quer como culto das divindades dos
elementos cruciais, como no animismo, ou das forças do acaso funcionando na
luta pela existência. A provisão da religião pelos meios mágicos para enfrentar
a destruição humana evocando forças sobrenaturais de criatividade e preservação
pode vir a dominar a província da liberdade no reino da necessidade. Melhor dizendo, o espaço
dentro da qual permanece possivelmente a escolha e a mudança na execução da contenção
da destruição. Ela pode, por este meio, levar as sociedades a caminhos mais
ilusórios. Na interpretação materialista blackburniana, ela pode oferecer um antídoto às
forças destrutivas da guerra de movimento, fora dos limites da inquirição racional, representando um conjunto de práticas e saberes sociais e de fundamentação ideológica para o próprio
ancestral vampiro da razão, que ela promete exorcizar ou atenuar.
Enfim,
tanto para Sir James Frazer (1976) como
para Mirad C. Chaudhuri (1979), a religião proporciona segurança para os que
têm fé: e tanto o meio ambiente físico de um povo, quanto seu modo de vida
dentro dele, influencia profundamente as formas que ela assume. Em outras
palavras, o modo de vida em sua geografia e demografia históricas condiciona fortemente
o modo de segurança mágica. A religião se desenvolve na província da liberdade
no reino da necessidade de uma sociedade, tornando-se eficaz depois disso pela
maneira que preenche os requisitos culturais necessários para influenciar
decisivamente seu curso e história. Por exemplo, é mais provável que um
guerreiro manifeste bravura em batalha se ele puder encarar a morte com equanimidade
devida á sua certeza de sobrevivência em outro mundo. O poder do Islã foi em
grande parte devido às vantagens que prometia aos fiéis em caso de sucesso ou fracasso
no jihad, ou “guerra santa”, com a
salvação ou sobrevivência das almas. Esta maneira mágica de justificar o imperialismo e instigar coragem em
combate começou como um movimento idiossincrático de tribos nômades que, historicamente tornou-se
militarmente necessária, para sua sobrevivência como conceito antropologico de seus
vizinhos, daí a rapidez de sua disseminação. Pois o fanatismo religioso numa situação como essa se torna uma arma
indispensável, prática, no reino da necessidade, sem a qual uma sociedade sucumbe.
Bibliografia
geral consultada.
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dell`Individualismo Possessivo da Hobbes a Locke. Milano: Casa Editrice
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da História. 1ª edição. Tradução Raul Fiker. Campinas: Editora da
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2014; HRADEC, Patricia, Vampiros Humanizados: Análise da obra Interview with the vampire de Anne Rice. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2014; ASSUNÇÃO, Diego Paleólogo, A Máquina de Fabricar Vampiros: Tecnologia
da Morte, do Sangue e do Sexo. Tese de Doutorado em Comunicação. Escola de
Comunicação. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2015; BARBOSA-FEREIRA, Francirosy Campos, Entre Arabescos, Luas e Tâmares: Performances Islâmicas em São Paulo. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007; Idem, “A Centralidae do Corpo no Islam”. Disponível em: ICArabe.Org/05/05/2017; Artigo: “Bebê batizado como Jihad causa dilema na França”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/24/10/2017; LIMA, Valdecila (Cila), Feminismo Islâmico: Mediações Discursivas e Limites Práticos. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; entre outros.
“Ser original es en cierto modo estar poniendo
de manifiesto la mediocridad de los demás”. Ernesto Sábato
Oficialmente
República Federativa do Brasil é o maior país da América do Sul e da região da
América Latina, sendo o quinto maior do mundo em área territorial, com 8 510
417,771 km², e o sétimo em população com 203 milhões de habitantes, em agosto
de 2022. É o único país na América onde
se fala majoritariamente a língua portuguesa e o maior país lusófono do planeta
Terra, além de ser uma das nações mais multiculturais e etnicamente diversas,
em decorrência da imigração oriunda de variados locais do mundo. Sua atual
Constituição, promulgada em 1988, concebe o Brasil como uma república
federativa presidencialista, formada pela união dos 26 estados, do Distrito
Federal e dos 5 571 municípios. Banhado pelo Oceano Atlântico tem um litoral de
7 491 km e faz fronteira com quase todos os outros países sul-americanos,
exceto Chile e Equador, sendo limitado a Norte pela Venezuela, Guiana, Suriname
e pelo departamento ultramarino francês da Guiana Francesa; a Noroeste pela
Colômbia; a Oeste pela Bolívia e Peru; a Sudoeste pela Argentina e Paraguai e
ao Sul pelo Uruguai. Vários arquipélagos formam parte do território brasileiro,
como o Atol das Rocas, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Fernando de
Noronha, sendo o único habitado por civis e Trindade e Martim Vaz. O Brasil é o habitat de uma diversidade de animais selvagens, ecossistemas e de
vastos recursos naturais em uma grande variedade de habitats protegidos.
O
território que forma o Brasil foi oficialmente “descoberto” pelos portugueses
em 22 de abril de 1500, em expedição liderada por Pedro Álvares Cabral. Segundo
alguns historiadores como Antonio de Herrera e Pietro d`Anghiera, o encontro do
território teria sido três meses antes, em 26 de janeiro, pelo navegador
espanhol Vicente Yáñez Pinzón, durante uma expedição. A região, então habitada
por indígenas ameríndios divididos entre milhares de grupos étnicos e
linguísticos diferentes, cabia a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, e
tornou-se uma colônia do Império Português. O vínculo colonial foi rompido, de
fato, quando em 1808 a capital do reino, expulso, foi transferida de Lisboa
para a cidade do Rio de Janeiro, depois de tropas francesas comandadas por
Napoleão Bonaparte invadirem o território português. Em 1815, o Brasil se torna
parte de um reino unido com Portugal. Dom Pedro I, o primeiro imperador,
proclamou a Independência política do país em 1822. Inicialmente “independente”
como um império, período no qual foi uma monarquia constitucional
parlamentarista, o Brasil tornou-se uma República em 1889, em razão de um golpe
de Estado, político-militar chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, o
primeiro presidente, embora uma legislatura bicameral, agora chamada de
Congresso Nacional, já existisse desde a ratificação da primeira Constituição,
em 1824.
Desde
o início do período republicano, a governança foi interrompida por longos
períodos de regimes autoritários, e particularmente até um governo civil e
eleito assumir o poder em 1985, com o fim da ditadura civil-militar (1964-1984).
Como potência regional e média, a nação tem reconhecimento e influência internacional,
que também é classificada como uma “potência global emergente” e como potencial
“superpotência” por vários analistas sociais. O Produto Interno Bruto nominal
brasileiro é o nono maior do mundo globalizado e o oitavo por paridade do poder
de compra (PPC), sendo, em ambos, o maior da América Latina e do Hemisfério
Sul. É um dos principais “celeiros” do planeta, o maior produtor de café dos
últimos 150 anos, além de ser classificado como uma “economia de renda
média-alta” pelo poderoso Banco Mundial e país recentemente industrializado,
que detém a maior parcela de riqueza global da América do Sul. No entanto, o
país ainda mantém níveis notáveis de corrupção, criminalidade e desigualdade
social. É membro fundador da Organização das Nações Unidas, G20, ou Grupo
dos 20, representando um grupo formado
pelos ministros de finanças e chefes dos bancos das 19 maiores
economias mais a União Africana e União Europeia.
Foi
criado em 1999, após as sucessivas crises financeiras da década de 1990, BRICS. O agrupamento começou com quatro países sob o nome BRIC, reunindo Brasil,
Rússia, Índia e China, até que, em 14 de abril de 2011, o “S” acrescido
resultou da admissão da África do Sul ao grupo, um país situado na extremidade
sul do continente africano e marcado por vários ecossistemas diferentes. Em 1°
de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes
Unidos aderiram ao bloco como membros plenos, e assim mudando o nome de “BRICS”
para “BRICS+”. O grupo “não é um bloco econômico” ou uma associação de comércio
formal, como no caso da União Europeia. Diferentemente disso, os quatro países
fundadores procuraram formar um “clube político” ou uma “aliança”, e assim
converter “seu crescente poder econômico em uma maior influência geopolítica”.
Desde 2009, os líderes do grupo realizam cúpulas anuais. Historicamente, a
mídia tem classificado os BRICS como uma alternativa geopolítica em relação ao
G7, comparativamente, visto que o grupo buscou criar alternativas em relação
aos métodos utilizados por algumas nações ocidentais, a exemplo do Novo Banco
de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas. As relações bilaterais
entre os países dos BRICS têm sido conduzidas principalmente com base nos
princípios de não-interferência, igualdade e benefício mútuo. Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa (CPLP), União Latina, Organização dos Estados
Americanos (OEA), Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e Mercado
Comum do Sul (Mercosul).
O
Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca
na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de
descaso. Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não -
afirmava Darcy Ribeiro -, não vou me resignar nunca. Portanto, urge preveni-los
do muito que se poderia fazer, com apoio no saber científico, e do descalabro e
pequenez do que se está fazendo. Mas as vicissitudes do saber e o testemunho
dado pelos autores, dos quais deriva a sua autoridade e que ao mesmo tempo a
transmite como tradição de geração em geração, dizem a respeito da causa da
visão, que a coisa vista envia em todas as direções uma exibição, ou
aspecto visível, ou um ser visto, cuja recepção nos olhos é a visão. O
antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos
de antropologia da civilização mais contribuiu, nestes dias para precisar
o conceito de “processo civilizatório”, fazendo com que a antropologia
brasileira obtenha status de
categoria mundial, no âmbito simultaneamente da etnologia & história
intervindo na elucidação dos grandes problemas da evolução das sociedades humanas.
Em
sua trajetória intelectual transita à vontade tanto pelos “caminhos ocidentais”
como pelas veredas do mundo tribal amazônico, onde soma uma experiência e
vivência de campo junto a tribos indígenas, que atravessam o difícil caminho do
contato e ajustamento com as “frentes de expansão nacional”, em seu processo de
avanço e conquista de territórios tribais ou pelos corredores de mais de dois
“palácios de governo”. Darcy Ribeiro como antropólogo fora uma “pessoa”, o que
deriva de per-sonare, uma voz que “soa através” de uma máscara pública.
Irreversível esse caminho tribal e ipso
facto acelerado pela abertura de novas estradas como vias de comunicação,
como a Transamazônica, a Santarém-Cuiabá, a Perimetral Norte, que atingiram
tribos, que até pouco tempo ocupavam os últimos territórios de refúgio, como
consta na etnografia em Uirá sai à Procura de Deus -
Ensaios de Etnologia e Indigenismo (Ribeiro: 1974), outras no período
recente. Seu compromisso é vital, não setorial; produz-se na cátedra, na
prolongada e boa convivência com os índios, na criação de universidades, dentro
e fora do Brasil, como ministro da Educação ou como chefe da Casa Civil, como
preso político, nas peregrinações do exílio, finalmente como romancista, com
“Maíra” (Ribeiro, 1975).
No
dia 20 de janeiro de 1958, o antropólogo Darcy Ribeiro pronunciou emocionado
discurso, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, diante do corpo do
marechal Cândido Mariano da Silva Rondon com as seguintes palavras. O primeiro
princípio de Rondon, “morrer, se preciso for, matar nunca”, foi formulado no
começo deste século quando, devassando os sertões impenetrados de Mato Grosso
ia de encontro às tribos mais aguerridas, com palavras e gestos de paz,
negando-se a revidar seus ataques, por entender que ele e sua tropa eram os
invasores e, como tal, se fariam criminosos se de sua ação resultasse a morte
de um índio. O segundo princípio é o do respeito às tribos indígenas como povos
independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o
direito de serem eles próprios, de viver suas vidas. O terceiro princípio de
Rondon é o do garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias
à sua sobrevivência. O quarto princípio de Rondon é assegurar aos índios a
proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um
direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade
dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu
território.
Em
verdade, um fragmento importante nas páginas da vida latino-americana narradas
da década de 1950 até os dias de hoje, pode se documentar seguindo-se o rastro
aberto na pena da Antropologia das Civilizações de Darcy Ribeiro. Traçou o plano de uma obra que incluiu, entre
outros aspectos, a chamada “revolução humana”; as experiências junto às
“formações pré-agrícolas”; um estudo sobre a “revolução agrícola” e sobre as
“aldeias agrícolas indiferenciadas”; as “sociedades pastoris”; a “revolução
urbana” e os “Estados rurais artesanais” e principalmente, para ermos breves, o
lugar da “revolução do regadio” e os “Impérios teocráticos de regadio”, assim como
a “revolução metalúrgica” e os “Impérios mercantil-escravistas” que têm como
consequência, grosso modo, a “revolução mercantil”. Metodologicamente examina
os efeitos diferenciais das diversas fronteiras de expansão econômica perante
os grupos que classifica segundo a intensidade de sua relação com a sociedade
nacional. Este modelo de análise do ponto de vista técnico-metodológico será desenvolvido anos depois pelos projetos
de investigação e pesquisa mais avançados da antropologia. Por volta de 1957 - assinala
Darcy Ribeiro - “haviam sido extintos só no Brasil, 87 grupos [indígenas], dos
230 registrados em 1900”. Impávido,
admite, o processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer,
porque foi traduzida para as línguas de nosso circuito ocidental, editada e
reeditada muitas vezes e é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos
e na Alemanha. A ousadia de escrever “um livro tão ambicioso me custou algum
despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um
intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias
tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um
livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isso
não fez dano porque ele acabou sendo mais editado e mais lido do que qualquer
outro livro recente sobre o mesmo tema”. Além disso, na medida em que, comparativamente, teve
acesso a obras que em sua maioria estavam sendo publicadas quase que
imediatamente “sobre o estudo das revoluções tecnológicas e na fixação dos
modelos teóricos das formações socioculturais”. Contou também com suas próprias experiências concretas como antropólogo junto a grupos indígenas como os Guajá e os Xokléng, os índios Kadiuéu (1950) e a Arte Plumária dos Índios Kaapor (1957) e, da mesma forma, sobre os índios Urubus-Kaapor (1957b) e as tribos do Xingu, entre outras pesquisas originalmente realizadas sobre os índios no Brasil.
Mesmo o livro de Stanley J. Stein e Barbara
H. Stein, The Colonial Heritage of Latin
America, (Oxford University Press, 1970) publicado dois anos depois do clássico
Processo Civilizatório (1968) onde
inclui fontes bibliográficas importantes sobre a Península Ibérica (1580-1800),
sobre as colônias ibero-americanas com a projeção da América Latina em sua fase
neocolonial no século XIX, desconhece o “Diagrama do Processo Civilizatório.
Principais Focos de Irradiação, suas Interpenetrações e Projeções sobre os
Povos contemporâneos” (Ribeiro, 1968:53), considerando a importância do estudo
de Darcy Ribeiro sobre antropologia das civilizações. Repetem algumas de suas
fontes e referências bibliográficas.
Darcy
Ribeiro (1968) compreendeu que alguns processos civilizatórios brotaram de
gestação autóctone, cumpridas passo a passo, como parece ter ocorrido
analogamente na Mesopotâmia e nas Américas. Outros podem ter surgido da
fecundação de um velho contexto cultural originalmente desenvolvida em
diferentes lugares. Mas o fundamental é que todos se configuram como formações
socioculturais “tão radicalmente diferenciadas das anteriores e das
posteriores” que só podem ser compreendidas “como uma nova etapa da evolução
humana ou como fruto amadurecido de uma nova revolução tecnológica, a do
regadio”. Isto o levou em “busca de explicações terra-a-terra” (sic) para
reconstituir a formação dos povos americanos, com uma profunda reflexão teórica
e metodológica para explicar as causas do seu desenvolvimento. - “Salto, assim,
da escala de 10 mil anos de história geral para os quinhentos anos da história
americana com um novo livro: As Américas
e a Civilização”, ou seja, com a referência ao diagrama do processo civilizatório.
A abordagem consistiu na metodologia própria e original que permitiu reunir os
povos americanos em três categorias gerais explicativas do seu modo de ser e
elucidativas de suas perspectivas de desenvolvimento. Essa nova tipologia
“possibilitou superar o nível de análise meramente histórico, incapaz de
generalizações, e focalizar cada povo de forma mais ampla e compreensível do
que seria praticável com as categorias antropológicas e sociológicas habituais”.
Darcy
Ribeiro observa ainda que a análise de cada situação concreta exigisse dos
clássicos do marxismo a elaboração de diferentes tipologias que, retratando
para cada momento histórico as configurações discerníveis da estratificação
social, permitisse diagnosticar as oposições e complementaridades de interesses
que nela se apresentavam. O que estes e outros esquemas marxistas têm de comum
é a noção de componentes contrapostos dentro das classes dominantes e classes
subordinadas bem como a divisão de umas e outras em diversos segmentos; e a
existência de uma classe oprimida, cuja libertação pressupõe uma revolução
social. Em qualquer caso trazem implícita a necessidade, metodologicamente
falando, de “um estudo fatual das estratificações de classe que se cristalizam
historicamente em cada situação concreta”. A tipologia utilizada por Darcy
Ribeiro foi elaborada, como ele dizia, “com esse espírito”.
CIEPs criados por Darcy Ribeiro.
O
que nos faz depreender em sua etnologia o seguinte: - Em lugar de transpor à
América Latina esquemas desenvolvidos pela análise de distintas situações
históricas, procuramos elaborar uma tipologia fundada na observação da
realidade presente e na análise da formação das classes da América Latina, a
partir da estratificação social registrada nas metrópoles ibéricas e do estudo
de suas transformações posteriores. Nossa tipologia aqui apresentada de forma
sumária nada mais é, na verdade, do que um esquema de posições correntes, e
também mais fiel ao verdadeiro significado da teoria marxista de classes sociais.
Esta tipologia é de caráter étnico-nacional e enquanto povos extra-europeus do
mundo moderno podem ser classificados em quatro grandes configurações, sendo
que cada uma delas engloba populações muito diferenciadas, mas também
suficientemente homogêneas quanto às suas características básicas e quanto aos
problemas de desenvolvimento com que se defrontam, para serem legitimamente
tratadas como categorias distintas. Tais são os “Povos-Testemunho”, os
meso-americanos que integram o México Asteca-Náhuatl os “Povos-Novos”, os brasileiros, os grã-colombianos, os
antilhanos, os chilenos; os “Povos-Transplantados”, os anglo-americanos, os
rio-platenses, e os “Povos-Emergentes”, africanos e asiáticos.
Os
primeiros etnograficamente são constituídos pelos representantes modernos das
velhas civilizações autônomas sob as quais se abateu a expansão europeia. O
segundo bloco é representado pelos povos americanos plasmados nos últimos
séculos como um subproduto da expansão europeia pela fusão e aculturação de
matrizes indígenas, negras e europeias. O terceiro é integrado pelas nações
constituídas pela implantação de populações europeias no ultramar com a preservação
do perfil étnico, da língua e da cultura originais. Finalmente, os últimos,
representam as nações novas da África e da Ásia cujas populações ascendem de um
nível tribal, onde a constatação poética ou, mais tarde, psicológica da
pluralidade da pessoa (“eu é um outro”), pode ser interpretada, de um ponto de
vista antropológico como expressão de um continuun
intangível, ou da constatação da condição de meras “feitorias coloniais” para
a de “etnias nacionais”. A Antropologia reconhece o valor no fato de
pertencermos ao grupo.
A
primeira destas configurações designada como “Povos-Testemunho” é integrada
pelos sobreviventes de altas civilizações autônomas que sofreram o impacto da
expansão europeia. São resultantes da ação violenta e traumatizadora daquela expansão e
dos seus esforços de reconstituição étnica como sociedades nacionais modernas.
Reintegradas em sua independência, não voltam a ser o que eram antes, porque se
haviam transfigurado profundamente. Mais do que povos considerados atrasados na
história, eles são os povos espoliados da história. Contando originalmente com
enormes riquezas acumuladas, que poderiam ser agora utilizadas, para custear
sua integração nos sistemas industriais de produção, as viram saqueadas pelo
europeu. Séculos de subjugação ou de dominação direta ou indireta
impuseram-lhes profundas deformações que não só depauperaram seus povos como
também traumatizaram toda a sua vida cultural. Como problema básico, enfrenta a
integração dentro de si mesmo das duas tradições culturais de que se fizeram
herdeiros, não apenas diversas, mas, em muitos aspectos, contrapostas. Atraídos ainda simultaneamente pelas duas
tradições, mas incapazes de fundi-las numa síntese cultural e política significativa para toda a
população, conduzem dentro de si o conflito do processo civilizatório imanente entre a cultura original e
a civilização europeia.
Neste
bloco, encontram-se a Índia, a China, o Japão, a então Coréia unificada, a
Indochina, os países islâmicos e alguns outros. Nas Américas, são representados
pelo México, pela Guatemala, bem como pelos povos do Altiplano Andino,
sobreviventes das populações Asteca e Maia, os primeiros, e da civilização
Incaica, os últimos. Dentre estes povos apenas o Japão e, mais recentemente a
China conseguiram incorporar às respectivas economias a tecnologia industrial
moderna e reestruturar suas próprias sociedades em novas bases. Os dois núcleos
de povos das Américas, como povos conquistados e subjugados, sofreram um
processo de compulsão europeizadora muito mais violento do que resultou sua
complexa transfiguração étnica. Seus perfis étnicos nacionais conformam perfis
neo-hispânicos metidos nos descendentes da antiga sociedade, mestiçados com
europeus e negros. Enquanto que os demais povos extra-europeus apenas coloriram
sua figura étnico-cultural original com influências européias, nas Américas, “a
etnia neo-européia é que se tinge com as cores das antigas tradições culturais,
tirando delas características que as singularizam”(Ribeiro, 1983: 91).
A
segunda configuração, os “Povos-Novos” constituíram-se pela confluência de
contingentes díspares em suas características raciais, culturais e linguísticas.
Reunindo negros, brancos e índios para abrir grandes plantações de produtos
tropicais ou para a exploração mineira, visando tão-somente atender aos
mercados europeus e gerar lucros, as nações colonizadoras acabaram por plasmar
povos profundamente diferenciados de si mesmas e de todas as outras matrizes
formadoras. Estes contingentes básicos, embora exercendo papéis distintos,
entraram a mesclar-se e a fundir-se culturalmente com maior intensidade do que
em qualquer outro tipo de conjunção. Assim, ao lado do branco, “chamado a
exercer os papéis de chefia na empresa”, por força das condições de dominação
impostas aos demais; do negro, nela “engajado como escravo”; do índio, “também
escravizado ou tratado como mero obstáculo a erradicar”, foi surgindo uma
população mestiça que fundia aquelas matrizes nas mais variadas proporções.
Os
“Povos-Novos” surgem hierarquizados, como os “Povos-Testemunho”, pela distância
social que separa a sua camada senhorial de fazendeiros, mineradores,
comerciantes, funcionários coloniais e clérigos da massa escrava engajada na
produção. Constituíam-se de rudes empresários, senhores de suas terras e de
seus escravos, forçados a viver junto a seu negócio e a dirigi-lo pessoalmente
com a ajuda de uma pequena camada intermédia, de técnicos, capatazes e
sacerdotes. Onde a empresa prosperou muito, como nas zonas açucareiras e
mineradoras do Brasil e das Antilhas, puderam dar-se ao luxo de residências
senhoriais e tiveram de alargar a camada intermédia, tanto dos engenhos como
das vilas costeiras, incumbidas do comércio exterior. Vale lembrar que nenhum
dos povos deste bloco constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os
casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a
fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por
sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro-etnia
diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela
própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional.
Os
chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos pela
ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do
contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation, que tiveram papel
tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos
venezuelanos. Ambos conformam, por isto, juntamente com a matriz étnica
original dos rio-platenses, uma variante dos “Povos-Novos”. A composição
predominantemente “índio-espanhola” dos Povos-Testemunho se diferencia dessa
variante porque suas populações indígenas originais não haviam alcançado um
nível de desenvolvimento cultural equiparável ao dos mexicanos ou dos Incas. É
o resultado da seleção de qualidades raciais e culturais das matrizes
formadoras, que melhor se ajustaram às condições que lhes foram impostas. O
papel decisivo em sua formação foi representado pela escravidão que, operando
como força distribalizadora,
desgarrava as novas criaturas das tradições ancestrais. São produto tanto da deculturação redutora de seus
patrimônios tribais indígenas e africanos, quanto da aculturação seletiva desses patrimônios e da própria criatividade
face ao novo meio de reprodução da vida.
A
terceira configuração histórico-cultural é representada pelos chamados “Povos-Transplantados”,
correspondentes às nações modernas criadas pela migração de populações
européias para novos espaços mundiais, onde procuram reconstituir formas de
vida essencialmente idênticas às de origem. Cada um deles estruturou-se segundo
modelos de vida econômica e social da nação de que provinha, levando adiante,
nas terras adotivas, processos de renovação que já operavam nos velhos
contextos europeus. Suas características referem-se à homogeneidade cultural
que mantiveram pela origem comum de sua população, ou que plasmaram pela
assimilação dos novos contingentes. A maioria destes contingentes veio ter à
América como trabalhadores rurais aliciados mediante contr@tos, que os submetiam
a anos de trabalho servil, embora em sua grande parte tenha conseguido, mais
tarde, ingressar na categoria de granjeiros livres e de artesãos também
independentes. Integram o bloco de “Povos-Transplantados” a Austrália e a Nova
Zelândia, formadores dos bolsões neo-europeus de Israel,
da União Sul-Africana e da devastada Rodésia.
Nas
Américas são representados pelos Estados Unidos, pelo Canadá e também pelo
Uruguai e a Argentina. Nos primeiros casos tais povos nascem de projetos de
colonização implantados sobre territórios, cujas populações tribais foram
dizimadas ou confinadas em reservations
para que uma nova sociedade neles se instalasse. No caso dos países
rio-platenses, encontramos a resultante de um empreendimento peculiaríssimo de
uma “elite crioula” – inteiramente alienada e hostil à sua própria etnia de
Povo-Novo – que adota como projeto nacional a substituição de seu próprio povo
por europeus brancos e morenos, concebidos como gente com mais peremptória
vocação para o progresso. A Argentina e o Uruguai resultam, de um
processo de sucessão ecológica deliberadamente desencadeada pelas oligarquias
nacionais, através do qual uma configuração de Povo-Novo se transforma em
Povo-Transplantado. Neste processo, a população ladina e a gaúcha, originária
da boa mestiçagem dos povoadores ibéricos com o indígena, foi tragicamente esmagada
e substituída, como contingente básico da nação, por um alude de imigrantes
europeus em busca de terra e trabalho.
O
quarto bloco de povos extra-europeus do mundo moderno é constituído pelos “Povos-Emergentes”.
São integrados pelas populações africanas que ascendem no processo
civilizatório da condição tribal à nacional. Na Ásia encontram-se também alguns
casos de “Povos-Emergentes” que transitam da condição tribal à nacional. Esta
categoria não surgiu na América, apesar do avultado número de populações
tribais que, ao tempo da conquista, contavam com centenas de milhares e com
mais de um milhão de habitantes. Este fator, tanto de deculturação como de
aculturação, mais do que qualquer outro, exprime a violência da dominação,
primeiro europeia que se prolongou por quase quatro séculos, depois nacional, a
que estiveram submetidos os povos tribais americanos. Dizimados prontamente
alguns deles, outros mais lentamente, somente sobreviveram uns poucos que foram
anulados como etnias e como base de novas nacionalidades, enquanto seus
equivalentes africanos e asiáticos, apesar da violência do impacto que
sofreram, ascendem hoje para a vida nacional. A consciência étnica percorre
todo o mundo. Nunca as chamadas “minorias nacionais”, foram tão combativas como
hic et nunc. Isto se pode constatar
pela luta dos povos Bascos, Catalães, Galegos, Bretões, Flamengos e de outras
nacionalidades fanaticamente apegadas a tudo que afirme seu caráter de etnias
autônomas imersas em entidades multiétnicas.
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Adélia, “Darcy Ribeiro e UnB: Intelectuais, Projeto e Missão”. Ensaio:
Avaliação e Políticas Públicas em Educação. Rio de Janeiro, vol. 25, nº 96,
pp. 585-608, jul./set 2017; BRITO, Carolina Arouca Gomes de, Antropologia de um Jovem Disciplinado: A trajetória de Darcy Ribeiro no Serviço de Proteção aos Índios (1947-1956). Tese Doutorado em História das Ciências e da Saúde. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz, 2017; entre outros.
“O amor é passageiro, o coração é o
motorista, um pensamento errado e você sai da pista”. Vinício
Delarmelina
Os
táxis de Nova Iorque caracteristicamente amarelos representam um símbolo
mundialmente conhecido da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Os táxis
são operados por empresas particulares e licenciados por um órgão municipal
chamado New York City Taxi and Limousine Comission, responsável pelos mais de
13 mil táxis que rodam na cidade. O órgão também é responsável pelo controle
dos mais de 40 mil carros de aluguel disponíveis em Nova Iorque, incluindo as
vans. Os táxis amarelos são os únicos veículos com permissão de pegar
passageiros em Nova Iorque em resposta a um aceno na rua. O modelo mais usado é
o Ford Crown Victoria. O número diário de deslocamentos nos táxis amarelos caiu
em mais de 100 mil em alguns meses desde 2010, à medida que novos aplicativos
vêm ganhando mais usuários. Há mais de 47,5 mil carros ligados a essas bases e
operados por aplicativos próprios, dos quais mais de 46 mil estão ligados ao
Uber, embora também possam ser usados por outras empresas. A título de
comparativo, há atualmente apenas 13.857 táxis amarelos em Nova York.
Os
táxis são operados por empresas particulares e licenciados por um órgão
municipal chamado New York City Taxi and Limousine Comission, responsável pelos
mais de 13 mil táxis que rodam na cidade. O órgão também é responsável pelo
controle dos mais de 40 mil carros de aluguel disponíveis em Nova Iorque,
incluindo as vans. Os táxis amarelos são os únicos veículos com permissão de
pegar passageiros em Nova Iorque em resposta a um aceno na rua. O modelo mais
usado é o Ford Crown Victoria. Sendo uma tradição mais que centenária, os táxis
nova-iorquinos começaram a sua história no ano de 1907, quando o primeiro
automóvel movido a combustível começou a oferecer esse tipo de serviço. Na
década de 1970, esse veículo ficou imortalizado pelo filme “Taxi Driver”, em
que o ator Robert De Niro interpreta o lendário Travis Bickle.
Trata-se
de um jovem taxista frustrado com a vida que enlouquece em meio ao submundo que
só aqueles motoristas conheciam. Na análise comparada o táxi amarelo pode ser
tão sinônimo de Nova York quanto a pizza, a Broadway e o edifício Empire State,
mas cada vez mais, vem deixando de ser a preferência de transporte das pessoas.
Esse símbolo da vida na cidade, elemento da cultura popular presente em filmes
como “Taxi Driver” e o seriado de TV “Taxi”, foi no passado recente a principal
alternativa urbana ao metrô e ao ônibus sendo utilizado tanto por ricos quanto
pobres. Os taxistas eram os “embaixadores da rua”, acolhendo recém-chegados à
cidade, distribuindo informações e conselhos mesmo quando não eram pedidos. Mas
o táxi amarelo vem perdendo espaço para uma frota crescente de automóveis
pretos chamados por aplicativos com nomes curtos e usuários fiéis: Uber, Lyft, Via,Juno, Gett.
Uber
é uma empresa multinacional norte-americana, prestadora de serviços eletrônicos
na área do transporte privado urbano, através de um aplicativo e-hailing que
oferece um serviço semelhante ao táxi tradicional, conhecido popularmente como
serviços de “carona remunerada”. E-hailing é o ato de se requisitar um táxi
através de um dispositivo eletrônico, geralmente um celular ou smartphone. Ele
substitui métodos tradicionais para se chamar táxis, como ligações telefônicas
ou simplesmente esperar ou ir à busca de um táxi na rua. Cerca de cinco anos
após sua fundação a empresa foi avaliada em 18,2 bilhões de dólares, em junho
de 2014, contando com investidores como a empresa Google e Goldman Sachs.
Fundada em 2009 por Garrett Camp e Travis Kalanick, a proposta inicial do Uber
era “ser um serviço semelhante a um táxi de luxo, oferecendo carros como
Mercedes S550 e Escalade na cidade de São Francisco”, nos Estados Unidos. A Lyft foi fundada no verão de 2012 por Logan Green e John Zimmer como uma categoria de serviços do Zimride, “uma empresa de carona solidária” que ambos haviam fundado em 2007.
O Zimride
oferecia caronas solidárias entre longas distâncias, sempre entre duas cidades,
e conectava motoristas e passageiros por meio de uma conexão no Facebook. A
empresa se tornou pouco tempo, “após o lançamento o maior programa de caronas solidárias
dos Estados Unidos”. Logan Green criou o Zimride após dividir o carro com
outros estudantes em uma viagem da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara
até Los Angeles para visitar a namorada. Ele usou um fórum no “Craigslist”, mas
a intenção era eliminar toda ansiedade em não conhecer o motorista ou o
passageiro. Os dois fundadores da empresa foram apresentados por meio de amigos
em comum e inicialmente se conheceram na rede comercial Facebook.
O nome da empresa veio do país Zimbábue, onde durante uma viagem em 2005, Green
observou habitantes locais compartilhando minivans como táxis com esse nome. Em
entrevista, afirmou: - “Voltei aos Estados Unidos inspirados para criar a mesma
forma de transporte aqui”. Se matriculou
em cursos de programação e desenvolveu o site 4 meses depois. A versão de
testes foi lançada inicialmente na Universidade Cornell, onde após seis meses,
tinha mais de 20% de potenciais clientes do campus cadastrado. Usando as informações
do perfil do Facebook, motoristas e
passageiros podiam ter informações uns dos outros. Travis Bickle (Robert De Niro) é um motorista de táxi de Nova York que sofre de insônia e trabalha longas horas todas as noites, na tentativa evitar que sua personalidade paranoica e solitária se torne cada vez mais instável.
Cansado da decadência da
cidade e após ter levado um fora da assistente de campanha do senador Charles
Palatine, Betsy (Cybill Shepherd), ele decide que é hora de mudar. Em 1975, ano
de produção do extraordinário “Taxi Driver”, esta sensação já existia, ainda
mais em uma Nova York suja e movimentada de viciados, criminosos e prostitutas.
Logo no primeiro plano - um close no olhar do solitário taxista, seguido por
imagens das ruas de Nova York - a obra-prima dirigida por Martin Scorsese
demonstra de forma sutil que o efeito social e psicológico do ambiente no
indivíduo será o fio condutor da narrativa. O veterano da dolorosa e fracassada guerra norte-americana contra o regime político do
Vietnã Travis Bickle (Robert De Niro) decide se tornar taxista para ocupar seu
tempo e sua memória, já que não consegue dormir normalmente.
Encarnando
com perfeição o taxista solitário, ele é competente ao transmitir o aumento
gradual da revolta no personagem. Em seu primeiro diálogo, quando consegue o
emprego de taxista, responde as perguntas com um sorriso irônico no rosto, pois
a alegria ainda estava presente em sua vida. Travis Bickle, porém, é alguém com
enorme dificuldade para conviver em sociedade, como podemos perceber no diálogo
com a atendente do cinema. Ele não sabe seguir as regras criadas para se
comportar em público, chegando a ser ingênuo. Mas uma pequena esperança
floresce quando conhece a bela Betsy. Seu modo direto de falar encanta a
garota, que topa sair com ele. De Niro faz um gesto com o braço quando diz que
vai protegê-la. Quando Betsy, por razões óbvias, o abandona na porta do cinema
pornô, a desilusão se torna o estopim de sua eminente revolta: - “Ei, imundos,
aqui tem alguém que não aguenta mais. Sou um revoltado!”. Observe-se, por exemplo,
como ele encara um viciado na rua sem piscar os olhos, demostrando sua
indiferença por aquele mundo social sujo e sua enorme vontade de fazer “justiça
com as próprias mãos”, quando não hesitou em matar um assaltante.
Assim
como o Uber, a Cabify considera os motoristas como parceiros em vez de
funcionários. No entanto, a empresa ainda não revelou a divisão das
porcentagens que ficarão com o aplicativo em cada categoria, o que já causou
até greve entre motoristas do Uber
que acusam a empresa norte-americana de ficar com um valor muito alto da
corrida - o Uber fica com 25% no Uber
X e 20% no Uber Black, que é mais
caro. Além de ser aberta aos táxis, a Cabify possui uma diferença importante em
relação aos rivais: a forma como calcula o preço da corrida. A empresa faz o
cálculo do preço com base apenas na distância espacial, sem levar em conta o
tempo do percurso. Questionado se isso poderia causar irritação entre os
motoristas da empresa em São Paulo, cidade conhecida pelo trânsito caótico, o
executivo afirmou que a empresa acredita muito nessa modalidade. - “A
modalidade é muito boa porque é transparente com o usuário e permite que o
motorista consiga se planejar melhor”. Outra reclamação recente entre os
motoristas do Uber é que a empresa
estaria aceitando muitos novos motoristas, o que estaria aparentemente diminuindo
suas corridas e, consequentemente, os seus ganhos com os aplicativos. A Cabify afirma que, dependendo da
situação concreta de trabalho, pode sim considerar trabalhar com um número
limite de motoristas parceiros na cidade.
O
aplicativo foi lançado em 2010 para Android e iphone. Ele foi um dos pioneiros no conceito de E-hailing. Em 2010 e 2011, o Uber
recebeu quase 50 milhões de dólares em investimentos feitos por “investidores-anjo”
e “venture capitalists”, e em 2012 a empresa expandiu os serviços para Londres
e iniciou testes de incluir a requisição de táxis convencionais através do
aplicativo em Chicago. No mesmo ano, passou a oferecer táxi aéreo por
helicóptero entre a cidade de Nova Iorque e Hamptons por 3000 dólares. Em 2015
o Uber recebeu uma nova rodada de investimento, da qual a Microsoft fez parte,
o que fez seu valor de mercado subir a US$ 51 bilhões. Por oferecer um serviço
análogo aos táxis, mas ao cobrar menos que uma empresa estabelecida no mercado com
frota de táxi tradicional, o Uber despertou críticas da indústria de táxis ao
redor do mundo, pois agindo assim, individualiza um nível relacional de
mercado.
Em
maio de 2011, a empresa recebeu uma notificação judicial do departamento de
trânsito da cidade de São Francisco com essa mesma acusação. Em 2012, um órgão
do estado da Califórnia multou o Uber e outras empresas do ramo em 20 mil
dólares cada. Episódios semelhantes ocorreram em vários locais nos Estados
Unidos, como a cidade de Nova Iorque e o estado da Virgínia. À medida que a
rede do Uber se expande, problemas análogos ocorrem ao redor do mundo. Em maio
de 2014, vários motoristas Uber da Austrália foram multados por não ter a
licença de táxi, e no Canadá o Uber foi acusado de “violar 25 leis municipais
no final de 2012”. Na cidade do México a empresa será obrigada a pagar impostos
de licenciamento de veículos, e os motoristas não poderão receber a corrida
diretamente dos passageiros, mas através de uma central.
A
indústria argumenta que “o Uber
estaria agindo de maneira ilegal ao cobrar por corridas sem ter a licença
apropriada para tal”. É comum que o trabalho de taxista seja regulamentado por
algum órgão específico do governo, com licenças que podem custar caro ao
trabalhador. No caso do Brasil, pelo número de licenças serem limitado e a
demanda ser alta existem um mercado informal de aluguel de licenças que
movimenta atualmente muito dinheiro. Os sindicatos de taxistas alegam que a
empresa estaria violando a legislação nacional que regulamenta a profissão e
preparam protestos contra a empresa. Com a chegada do aplicativo, os atuais
locatários das placas poderiam simplesmente se cadastrar no serviço sem ter que
pagar mais este valor mensal. Segundo a própria empresa, o aplicativo vem
prometendo gerar 30 mil novos empregos no Brasil até o final de 2016. Em 2015,
o Uber contava com 5 mil profissionais credenciados. À medida que a rede do Uber
se expande, problemas análogos ocorrem ao redor do mundo. Uma das polêmicas
quanto à diferença entre Uber e táxis é que para ser um motorista, bastaria
cadastrar-se seguindo uma lista de exigências de segurança.
O
Uber chegou ao ponto de ter superado em número os táxis amarelos que percorrem
as avenidas de Nova York, uma das imagens mais típicas da cidade dos
arranha-céus e uma das que mais bem definem seu frenesi. Como disse um dos
meios de comunicação locais, “o preto é o novo amarelo” em Manhattan. O surgimento
do serviço, em maio de 2011, provocou, além disso, o colapso do valor pago pela
licença para operar um táxi. A concorrência do Uber teve impacto no preço da
licença para operar um táxi amarelo. O “distintivo” era até um ano e meio atrás
um dos investimentos mais seguros em Nova York. Em novembro de 2013 chegou a
ser pago o valor de 2,52 milhões de dólares (oito milhões de reais) por essas
chapas, para dois táxis especiais para deficientes – e elas costumam ser mais
baratas que as dos táxis amarelos normais. As licenças agora estão cerca de 20%
mais baratas. O que ainda não se vê com a invasão mercadológica do sistema de
táxis Uber é algum efeito na rentabilidade dos táxis amarelos. A Medallion Financial calcula que os
proprietários desses carros tenham tido lucro 22% maior no último trimestre de
2014. O prejuízo, dizem nessa empresa que presta serviços financeiros aos
operadores de táxis, vem sendo “relativo”, mesmo admitindo que o Uber é um “bom
produto”, que aumenta a concorrência.
Seguindo
nesta direção o UberEats é um
aplicativo autônomo, e também o primeiro da empresa após o tradicional do Uber.
Disponível na App Store e na Google Play, o serviço de entrega de comida é
disponibilizado em algumas cidades selecionadas pela empresa, com presença em
todos continentes. Nova York é a maior delas, sendo seguida por Los Angeles,
Chicago, Austin, Washington, San Francisco, Atlanta, Houston, Seattle e Dalas.
Com o aplicativo dedicado ao serviço, os usuários tem uma lista com uma série
de restaurantes locais que fazem parte do programa, e a comida é entregue por
um motorista tradicional da Uber ou por motoboys cadastrados na plataforma Uber
apenas para essa especifica função. Esta não é a primeira vez que a empresa
investe em um serviço concorrente e diferente do comum, e também não é a
primeira empresa a ter esta brilhante ideia no mercado globalizado. A Uber
utilizará seus motoristas tradicionais para fazer as entregas e que também
transportam as pessoas, o que pode ser caracterizado com grande vantagem em
relação à concorrência.
A primeira cidade a receber o Uber no Brasil, foi na cidade do Rio de Janeiro, em maio de
2014, seguido da cidade de São Paulo, no eixo histórico industrial do país, no final de junho do mesmo ano, onde foi inaugurada
pela famosa modelo brasileira Alessandra Ambrósio. Em seguida, foi a vez de
Belo Horizonte receber o Uber, em setembro de 2014. Em janeiro de 2016 o Uber
começou a operar em na próspera Campinas, sendo a primeira cidade do interior a
receber esse serviço, seguida pela Baixada Santista que opera desde fevereiro
de 2016. Em 29 de janeiro de 2016 passou a operar também em Goiânia. Em 18 de
março o Uber chegou a Curitiba. No dia 28 de abril de 2015 a Justiça de São Paulo
determinou a suspensão liminar do aplicativo Uber no Brasil, contudo em 04 de
maio de 2015 a liminar foi revogada. Voltando a ser novamente suspensa pela
Câmara de São Paulo no dia 30/06/2015. Em 10 de maio de 2016, o prefeito
Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores (PT) assinou um decreto regularizando
o Uber na Capital.
Até
outubro de 2016, o Uber estava presente nas cidades de Natal, Belo Horizonte,
Brasília, Campinas, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Maceió, Goiânia,
Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Grande São Paulo, Jundiaí,
Londrina, Uberlândia, Vitória, Sorocaba. Em 10 de novembro de 2016, começou a
operar em Juiz de Fora e, em 25 de novembro de 2016, em Cuiabá. O mês comercial
de dezembro foi marcado pelo inicio das operações em várias cidades, como
Campos dos Goytacazes (RJ), Montes Claros (MG), Joinville, Blumenau (SC),
Aracaju (SE), Uberaba (MG) e Região dos Lagos (RJ). Na Região Norte do Brasil o
serviço chegou primeiro em Belém, no dia 08/02/2017. Em Manaus, o serviço foi
disponibilizado oficialmente, em seguida, em 12/04/2017. Em Pelotas e em Rio
Grande cidades do sul do Rio Grande do Sul o serviço foi disponibilizado às
14hs do dia 18 de agosto de 2017. A mobilidade urbana passa por uma profunda transformação devido ao surgimento do serviço de transporte individual privado intermediado por tecnologia. Esta modalidade de transporte urbano tem previsão na Política Nacional de Mobilidade Urbana através da Lei Federal 12.587/2012 e foi regulamentada nacionalmente com a Lei Federal 13.640/2018. Aplicativos como Uber, 99 e Cabify já transportam quase 750 mil
passageiros por dia no Rio contra pouco mais de 233 mil dos táxis. Uma das
explicações para essa diferença está no bolso do usuário: em muitos casos, já é
mais barato se deslocar fazendo uso desses serviços prestados por veículos
particulares do que pelo transporte público, seja por ônibus (R$ 4,05), trens
ou metrô (ambos a R$ 4,60). As conclusões são de um estudo do Núcleo de
Pesquisas em Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ. - Em deslocamentos
curtos, em viagens que levam até 15 minutos, uma corrida por aplicativo, se for
dividida por pelo menos três pessoas, custa menos que se a opção for o
transporte de massa. Esse crescimento dos aplicativos tem vários fatores,
inclusive a falta de uma política efetiva que integre os transportes públicos -
disse o professor Marcelino Araújo Vieira da Silva, que coordenou o
levantamento. A norma ténica,
resultado de um intenso debate no Congresso Nacional, organiza a atividade dos
motoristas parceiros de aplicativos e delega aos municípios a competência para
regular e fiscalizar o transporte individual privado, mas nunca proibi-lo. Durante a discussão no Congresso, foram afastadas restrições que poderiam inviabilizar o modelo – por exemplo, placas vermelhas, autorização prévia para seu funcionamento, necessidade de emplacamento dos veículos no município em que desempenham a atividade ou restrição do número de motoristas por veículo – que não devem fazer parte das regras municipais. Em estudo publicado após a lei entrar em vigor, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) considera que a regulação federal “foi cautelosa ao incluir normas de segurança e não impor grandes barreiras regulatórias à entrada nem restrições à liberdade tarifária”. Segundo o órgão, “os entes municipais também devem evitar medidas que dificultem a operação desses serviços quando regulamentarem o uso desses aplicativos”, sob risco de causar efeitos negativos para os consumidores. No Brasil, mais de 20 municípios já entenderam o impacto positivo que os aplicativos de mobilidade trouxeram tanto para as cidades quanto para as pessoas, e decidiram detalhar as regras localmente para garantir o direito de usuários escolherem como querem se deslocar, e o de motoristas parceiros de gerar renda dignamente.
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