Vila Vicentina - Resistência, Moradia & Ideologia do Poder Público.
Ubiracy de Souza Braga*
“O
cerne da solução da habitação
é a propriedade pelo operário da sua habitação”. Friedrich
Engels
O que poderia ser mais objetivo do
que o funcionamento da ideologia? Embora se constitua uma surpresa para
muitos, a verdade é que em nossa cultura liberal-conservadora, quer a
percebamos ou não, o sistema ideológico socialmente estabelecido e dominante
funciona de modo a representar ou desvirtuar suas próprias regras sociais de
seletividade, preconceito, discriminação e distorção sistemática como as noções
sobre normalidade, objetividade e a maldita imparcialidade científica presente
nas universidades. Compreensivelmente, a ideologia dominante tem uma grande
vantagem na determinação do que pode ser considerado um critério legítimo de
avaliação do conflito, já que controlam efetivamente as instituições culturais
e políticas da sociedade, o sistema tem dois pesos e duas medidas, movidos pela
ideologia e viciosamente tendencioso, é evidente em toda parte: mesmo entre
aqueles que se orgulham em dizer que representam a nossa (sua) qualidade de
vida capaz de medir as condições de sociais e políticas de um ser humano representando as condições
que contribuem para o bem físico e espiritual dos indivíduos em sociedade. Nas
últimas décadas, os intelectuais se intimidaram em admitir a essência de classe
em suas teorias e posturas ideológicas.
Na verdade, a ideologia
não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma
forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada.
Como tal, não pode ser superada exclusivamente nas sociedades de classes. Sua
persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente e
constantemente reconstituída como consciência prática inevitável das sociedades
de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias
rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais
aspectos. Mas que se entrelaçam conflituosamente e se manifestam no plano da
consciência, na grande diversidade de discursos ideológicos relativamente
autônomos, que exercem influência sobre os processos materiais mais tangíveis.
O metabolismo social é um dado utilizado para a compreensão dos processos
sociais e se nesse dado momento houve a existência de sustentabilidade. Esse conflito tampouco será resolvido no
domínio legislativo da “razão teórica” isolada, independentemente do nome da
moda sociológica que lhe seja dado.
É por isso que o
estruturalmente mais importante conflito – cujo objetivo é manter ou, ao
contrário, negar o modo dominante de controle sobre o metabolismo social dentro
dos limites das relações de produção estabelecidas em que os homens se tornam
conscientes desse conflito e o resolvem pela luta. Em outras palavras, as
diferentes formas ideológicas de consciência social têm implicações práticas de
longo alcance. Em todas as suas variedades como na arte e na literatura, assim
como na filosofia e na teoria social, independentemente de sua vinculação
sociopolítica a posições progressistas ou conservadoras. É esta orientação
prática que define também o tipo social de racionalidade apropriado ao discurso
ideológico e inscreve, por assim dizer, a questão da racionalidade ideológica
como inseparável do reconhecimento das limitações objetivas dentro das quais
são formuladas as estratégias alternativas a favor ou contra a reprodução de
determinada ordem social. Não é questão de conformidade ou não conformidade a
algum conjunto de regras predeterminado de normas lógicas. As ideologias são
determinadas pela época em dois sentidos. Primeiro, enquanto a orientação
conflituosa das várias formas de consciência social prática permanecer a
característica mais proeminente dessas formas de consciência, na medida em que
as sociedades forem divididas em classes.
Em outras palavras, a
consciência social prática de tais sociedades não podem deixar de ser
ideológica – isto é, idêntica à ideologia – em virtude do caráter
insuperavelmente antagônico de suas estruturas sociais. Segundo, na medida em
que o caráter específico do conflito social fundamental, que deixa sua marca
indelével nas ideologias conflitantes em diferentes períodos históricos, surge
do caráter historicamente mutável – e não em curto prazo – das práticas
produtivas e distributivas da sociedade e da necessidade correspondente de se
questionar radicalmente a continuidade da imposição das relações
socioeconômicas e políticas que, anteriormente viáveis, tornam-se cada vez
menos eficazes no curso do desenvolvimento histórico. Desse modo, os limites de
tal questionamento são determinados pela época, colocando em primeiro plano as
novas formas de desafio ideológico em íntima ligação com o surgimento de meios
de satisfação das exigências fundamentais sociais. Sem se reconhecer a determinação
das ideologias como a consciência prática das sociedades de classe, a estrutura
interna permanece completamente ininteligível. É neste sentido que devemos
diferenciar três posições ideológicas fundamentalmente distintas, com sérias
consequências para os tipos de conhecimento compatíveis com cada uma delas.
A
primeira apoia a ordem estabelecida com uma atitude acrítica, adotando e
exaltando a forma vigente do sistema dominante. Por mais que seja
problemático e repleto de contradições – como o horizonte absoluto da própria
vida social. A segunda, exemplificada por pensadores radicais como Rousseau,
revela acertadamente as irracionalidades da forma específica de uma anacrônica
sociedade de classes que ela rejeita a partir de um ponto de vista. Mas sua
crítica é viciada pelas próprias contradições de sua própria posição social –
igualmente determinada pela classe, historicamente evoluída. E a terceira,
contrapondo-se às duas posições sociais anteriores, questiona a viabilidade
histórica da própria sociedade de classe, propondo, como objetivo central de
sua intervenção prática consciente, a superação de todas as formas de
antagonismo de classe. Apenas o terceiro tipo de ideologia pode tentar superar
as restrições associadas com o conhecimento prático dentro do horizonte da
consciência social dividida, sob as condições da sociedade dividida em classes.
A questão prática, permanece. Mas sugere como “resolver pela luta” o
conflito relativo ao direito estrutural de controlar o “metabolismo
social” como um todo.
O quadro categorial das
discussões teóricas, de acordo com a história social e política não pode ser
determinado significativamente por meio de escolhas arbitrárias. Embora a
arbitrariedade se manifeste com frequência nas mutáveis proposições das
tendências ideológico-intelectuais dominantes. No entanto, observando-se mais
de perto as autodefinições de tais tendências, em geral elas revelam um padrão
e uma objetividade característicos, embora isto não signifique que sejam
isentas de problemas. Contrastando com o grau relativamente alto de
objetividade das próprias tendências, a inconstância e a arbitrariedade podem
predominar nas escolhas individuais dos intelectuais que assumem a orientação
ideológica dominante de um dado período, passando em grande número, por
exemplo, sem motivação muito profunda, para o grupo de partidários da
“modernidade”. No entanto, este fenômeno é diferente da formação do grupo de
partidários em si, pois a categoria de “modernidade” é um exemplo notável dessa
tendência ideológica à atenuação anistórica do conflito. É neste sentido que o
pensamento de Marx contrapõe o anacronismo histórico da Alemanha às condições
revolucionárias políticas e econômicas avançadas de nações modernas comparadas
como ocorre com a Inglaterra e a França.
A Arquitetura representa um conjunto de práticas e saberes técnicos e sociais que compreende uma forma de “comunicação de massa” que está bastante difundida. É uma operação precisa que se dirige a grupos humanos para satisfazer algumas de suas exigências e convencendo-os a viver de determinado modo. Também em relação a essa problemática sociológica a Arquitetura parece ter as mesmas características. Basta inferirmos sobre a individuação de algumas relações sociais: 1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso; 2) O discurso arquitetônico é psicacógico: com suave violência, somos levados a seguir as instruções do arquiteto, que promove e induz no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica; 3) O discurso arquitetônico é fruído na desatenção, como se fruem o discurso fílmico e televisivo, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, ao contrário de como se frui a arte propriamente dita, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas intenções do remetente; 4) Enfim, a mensagem arquitetônica, representa um meio de comunicação de massa entre o emissor e o receptor, pode carregar-se de significados aberrantes sem que o destinatário perceba estar com eles interpretando uma traição ou apoio político-afetivo. Seu desafio antagonista na relação referencial é o discurso funcional, em que a casa, mais antiga moradia, é um bom exemplo de uma arquitetura feita com preocupações predominantemente sociais para quem a habita.
A Vila Estância Vicentina, também reconhecida como Vila Estância ou como Vila Vicentina, na cidade de Fortaleza é composta por 40 unidades residenciais e foi construída em terreno doado pelo empresário Dionísio Torres, na década de 1960, “para beneficiar famílias pobres vindas do interior”. Ainda hoje, o conjunto encontrava-se habitado por famílias de “baixa renda”, sendo boa parte de idosos. De acordo com o “Plano Diretor Participativo de Fortaleza” (PDP) de 2009, a poligonal em que está localizada a Vila está protegida como uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) do “tipo 1”. Isso significa em Direito Público que o Plano Diretor a reconhece como assentamento irregular, constituído por população dita de “baixa renda”, destinado à regularização fundiária, urbanística e ambiental pelo poder público municipal. Contudo, a Justiça concedeu mandado de reintegração de posse para 12 casas da Vila Vicentina em área nobre da cidade de Fortaleza. O pedido, feito pelo Conselho Central de Fortaleza da Sociedade de São Vicente de Paulo, proprietária do terreno, inclui oito (08) casas que têm sido ocupadas por antigos moradores. Depois de quase setenta anos de sua
construção e da resistência a incansáveis investidas do capital imobiliário no bairro Dionísio Torres, a Vila Vicentina da Estância apresenta justificativas
para seu tombamento patrimonial reconhecido pela Prefeitura de Fortaleza. Para dar início
ao processo em favor dos moradores da Vila, profissionais, pesquisadores e estudantes se
uniram sob a orientação do Professor Romeu Duarte, do Núcleo de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará
(UFC), para elaboração de Relatório técnico entregue na Coordenação do
Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza
– CPHC/Secultfor. Como parte da ocupação histórica da área leste de Fortaleza,
a Vila Vicentina surgiu por volta da década de 1940 como abrigo para viúvas, no
antigo bairro da Estância, hoje sob o nome de Dionísio Torres, que foi o
comprador daquelas terras, cuja principal via é a atual av. Antônio Sales. Sem
ter o apuro formal de algumas vilas tradicionais da cidade, a exemplo da Vila
São José, no bairro Jacarecanga, a Vicentina destaca-se em seu contexto urbano
pelo hiato que sua presença promove na verticalizada vizinhança. Portanto, sua
existência física, associada à generosa arborização de suas áreas internas e
externas, empresta valor ambiental e afetivo ao bairro Dionísio Torres. As 42
pequenas casas conjugadas, com tipologias e áreas diferentes, uma capela e
grande pátio arborizado na sua área central, transformado num amplo quintal
comunitário, para onde dão os fundos majestosos das residências, formavam um
importante conjunto de relevância arquitetônica, urbana e ambiental. Uma vila
em que o tempo permanecefulgurante, contrastando com o teor caótico da avenida e ruas que a cercam.
Antoine Frédéric Ozanam, reconhecido por Frédéric Ozanam, foi um intelectual e ativista católico, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, inicialmente Conferência da Caridade. Foi beatificado pelo papa João Paulo II em 1997. Enquanto estudante colaborou em vários jornais, particularmente no Tribune Catholique, que a partir de 1° de novembro de 1833 se passou a designar L`Univers. Em conjunto com outros seis jovens, fundou em maio de 1833 a Conferência da Caridade, a qual a partir de 1835 passaria a ser oficialmente designada por Sociedade de São Vicente de Paulo, uma das maiores organizações católicas da atualidade. Recebeu o grau de doutor em Direito no ano de 1836 e em 1838, mas também o de doutor em Letras com uma tese acadêmica sobre Dante, o embrião de uma das suas melhores obras. Um ano depois foi nomeado professor de Direito Comercial em Lyon e em 1840, foi nomeado professor Auxiliar de Literatura Estrangeira na Universidade de Sorbonne, fixando-se em Paris e iniciando aí uma intensa carreira acadêmica e jornalística.
Casou em junho de 1841, com Amélie Soulacroix, de Lyon, tendo visitado a Itália na sua lua-de-mel. Deste casamento nascerá uma filha em 1845. Após a morte de Charles-Claude Fauriel, em 1844, foi nomeado professor Catedrático de Literatura Estrangeira da Sorbonne. Apesar de muito ocupado, face às exigências acadêmicas na preparação de aula e conferências no âmbito do prestigioso lugar que ocupava, manteve as suas visitas regulares e necessárias como confrade da Sociedade de São Vicente de Paulo. Durante as revoluções ocidentais de 1848, à qual como conservador se opôs, voltou durante um curto período ao exercício do jornalismo, sendo um dos fundadores do jornal Ere Nouvelle e de outros periódicos. Fez diversas viagens, estando em Inglaterra durante a Exposição Universal de 1851. No dizer empolgado de Gibbs-Smith: “Pela primeira vez na história do mundo, os homens das Artes, Ciência e Comércio foram autorizados pelos seus respectivos governos a reunir-se para discutirem e promoverem os objetivos para os quais as nações civilizadas existem”. Caindo doente, demitiu-se das suas funções universitárias e partiu para Itália em busca de alívio. Faleceu em Marselha durante a viagem de regresso, aparentemente de um problema renal. Parte da sua obra é postuma. Foi feito beato da Igreja Católica Romana por João Paulo II, em cerimónia solene realizada em Paris em 22 de agosto de 1997.
Um lugar que desperta questões
sobre a importância de manter a memória individual (o sonho) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos) da história social da cidade e o embate
com novos modelos de urbanização e socialização dos espaços. enquanto lugares praticados. Algo que o
arquiteto pernambucano Roberto Ghione indaga de um ponto de vista que não é
contraditório ao do tombamento, “o sentimento de parte da sociedade em relação
a um determinado bem é motivo para ele ser considerado patrimônio?”. O tombamento
da Vila Vicentina, que desde 2009 é incisivamente ameaçada pela especulação
imobiliária, além de ser um marco pela direito à cidade e por sua relevância
sócio-histórica, é justificado por salvaguardar em sua arquitetura simples e
afetiva a resistência à lógica mercadológica das novas moradias da cidade. De
acordo com Ghione, “esse fenômeno transforma a sociabilidade perdida em
patrimônio, refletida nos tipos arquitetônicos de um tempo condenado a sumir.
Um tipo de patrimônio imaterial, que tem sua referência e sua presença física
nos edifícios sobreviventes de outro tempo que viram emblemas, independente da
valorização arquitetônica nas convenções acadêmicas”. O processo de
tombamento,expõe a fragilidade e a inocuidade
dos planos diretores e das leis de uso e ocupação do solo urbano, comprometidos
com a produção de indicadores urbanísticos adequados ao motor-serra da
especulação imobiliária.
Em
segundo lugar, do ponto de vista do poder público o juiz é um cidadão investido
de autoridade pública com o poder para exercer a atividade jurisdicional,
julgando os conflitos sociais e políticos de interesse que são submetidas à sua
apreciação. O juiz é, em diversos países, membro do Poder Judiciário, de um
modo geral, e, na qualidade de administrador da justiça do Estado, é
responsável por declarar e ordenar o que for necessário para efetivar o pedido
da parte, a quem entende estar correta no processo. A figura institucionalizada
do juiz tem relação com o nascimento das civilizações. Uma vez que conflitos
surgem naturalmente, a ideia de um terceiro, tido como neutro, é essencial para
constituir uma visão livre de parcialidade, como um cidadão dotado de habilidades,
requisitos e critérios e não mais um ser místico ou privilegiado. Mas neutro,
como sabemos, não existe social e politicamente, pois é aquele que já se decidiu pelo mais forte. Este aspecto da história política contemporânea, tem sido demonstrado através do degredo de Luiz Inácio Lula da Silva, o maior líder trabalhista de todos os tempos do Partido dos Trabalhadores (PT). Contudo, eleito seu opositor a maioria da sociedade civil e política considera justa solturas de Lula após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele fora inocentado dos crimes que não cometera.
Na
esfera da vida social a luta política é uma das questões que sempre marcaram a
dialética entre capital e trabalho. O problema da habitação, suas razões e soluções são os temas abordados em Sobre a questão da moradia, de Friedrich Engels. Escrito no final do século XIX, o livro mantém sua atualidade ao ser publicado num momento em que a luta dos sem-teto e as ocupações urbanas ganham cada vez mais força no Brasil. Mas a esfera social onde a ideologia
manifesta mais explicitamente seu poder de enviesamento é, com certeza, o campo
da atividade política. O sujeito da ação política é alguém que quer conhecer o
quadro em que age; que quer poder avaliar o que pode e o que não pode fazer.
Mas, ao mesmo tempo, é um sujeito que depende, em altíssimo grau, de motivações
particulares - seu e dos outros - para agir. A política é levada, assim, a
lidar com duas referências contrapostas, “legitimando-se” através da
universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das “motivações
particulares”. Enfim, os caminhos trilhados pela política evitam uma opção
explícita por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo
crasso, o cinismo ostensivo ou a completa indiferença. São frequentes as
combinações de elementos representativos em termos de tais direções, porém
combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se
enraíza a ideologia política. Friedrich Engels demonstra como o processo de formação dos grandes aglomerados urbanos, chamados na década de 1970 de espigões, provoca o aumento de aluguéis, a concentração de famílias em uma única moradia e, no limite, muitos desabrigados.
Os contrastes sociais
de Manchester elucidavam o olhar crítico de Engels. Mas, ao mesmo tempo, a
estadia na Inglaterra possibilitou-lhe fazer outra descoberta: o proletariado
não era só uma classe que sofre, mas também uma classe em luta, combatente. Engels
acompanha com atenção o desenrolar do movimento cartista e entra em contato com
muitos dos seus dirigentes. Os primeiros artigos escritos na Inglaterra, e que
foram publicados historicamente na Gazela Renana, criticamente evidenciam o
processo de formação das convicções socialistas do bravo pensador. O cartismo
sociologicamente caracteriza-se como um movimento social inglês que se iniciou
na década de 1830 do século XIX. Inicialmente fundou-se na luta pela inclusão
política da classe operária representada pela London Working Men`s
Association foi uma organização trabalhista fundada em Londres em 1836. Uma
das fundações do Cartismo, defendendo o sufrágio universal masculino, distritos
eleitorais igualmente povoados, a abolição das qualificações de propriedade
para os deputados, parlamentos anuais, o pagamento dos deputados e o
estabelecimento do voto secreto. Os fundadores foram William Lovett, Francis
Place e Henry Hetherington. Eles apelaram aos trabalhadores qualificados em vez
da massa de operários fabris não qualificados. Eles estavam associados ao
socialismo owenista e ao movimento pela educação geral.
Teve como principal
base a carta escrita pelos radicais William Lovett (1800-1877) e Feargus
O`Connor (1794-1855) intitulada Carta do Povo, e enviada aos cuidados do
Parlamento Inglês. Inicialmente as exigências não foram aceitas pelo Parlamento
e um movimento rebelde teve início, através de comícios, abaixo-assinados e
manifestações. Gradualmente as propostas da carta foram sendo incorporadas e o
movimento foi se enfraquecendo até sua desintegração. É preciso ter em mente,
no entanto, que o programa democrático radical do Cartismo não foi
aceito pelos governantes e, num certo sentido, pode-se dizer que ele foi
politicamente derrotado. Apesar disso, os cartistas conseguiram mudanças
efetivas, como a primeira lei de proteção ao trabalho infantil (1833), a lei de
imprensa (1836), a reforma do Código Penal (1837), a regulamentação do trabalho
feminino e infantil, a lei de supressão dos direitos sobre os cereais, a lei
permitindo as associações políticas e a lei da jornada de trabalho de 10 horas.
No final de 1860 as reivindicações pleiteadas pelo cartismo acabariam sendo
incorporadas à legislação trabalhista inglesa. Em 1865, quando Marx e Engels
estavam em disputa contra o sucessor de Ferdinand Lassalle, John Baptist von
Schweitzer (1833-1875), Engels advertiu Marx de que os correligionários de
Schweitzer diziam: “O que deseja aquele Engels, o que ele tem feito todos esses
anos, como pode falar em nosso nome e nos dizer o que devemos fazer, quando o
sujeito se estabelece em Manchester e explora os trabalhadores” etc.
As reações previstas
por Engels parecem pouco prováveis, já que envolviam os seguidores de Lassalle,
que, com seus robes de seda vermelha, sua dúbia relação com uma condessa e as
frequentes viagens aos balneários da Suíça não era exatamente a imagem de probidade
proletária. Muito ao contrário, esses traços refletiam o sentimento de culpa de
Engels em virtude de seu envolvimento com um capitalismo que ele odiava e
desejava aniquilar. Um dos grandes sacrifícios que Engels fez por Marx,
aceitando tomar parte no negócio têxtil de sua família, foi renunciar à
consciência limpa quanto à sua forma de ganhar a vida. Um aspecto enfatizado em
estudos recentes sobre a burguesia alemã do século XIX – não esquecendo a
notória dificuldade em se encontrar uma tradução para a expressão alemã
Bürgertum, diz respeito à influência das convenções culturais na formação
daquele grupo. Tais convenções incluíam o compromisso com a dedicação e o
esforço permanente, além de uma vida familiar pautada pelo decoro e provida dos
mais avançados instrumentos da cultura. O respeito a essas convenções
caracterizou a vida de Marx, e algumas vezes de um modo diferente.
Curiosamente a
concepção de vida e teorética de Marx per se tem sido objeto de
ridículas análises no Brasil, que, do ponto de vista ideológico, dispensa-nos
comentários. Este não é o caso do artigo de Fernando Duarte, intitulado: “A
Vida Íntima de Karl Marx” (2017) onde afirma o seguinte: - “Embora não tenha
fundado formalmente uma religião ou existam registros de milagres e afins, Marx
foi catapultado ao posto de Messias em cujo nome se lutaram guerras e se
construíram impérios num espaço de tempo bem menor que o usado pelo
cristianismo – e os inevitáveis deslizes do pai do comunismo não estão
disponíveis facilmente. Para os guardiões da antiga União Soviética, homem e
regime se confundiam. Passados 131 anos de sua morte, Marx permanece uma figura
mitológica. Se o desmoronamento dos regimes socialistas da Europa Oriental
causou abalos em sua reputação, o filósofo que misturava pensamento e ação e
criou o conceito de ditadura do proletariado tampouco foi esquecido: em 2005,
quase 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, foi ele quem venceu uma
enquete da BBC para eleger o maior filósofo de todos os tempos. Isso mesmo, no
Reino Unido, em que o Partido Trabalhista precisou “varrer” o viés socialista
de seus estatutos e de suas políticas para retomar o poder com Tony Blair, em
1997, o criador do comunismo ainda conserva sua popularidade.
Sua
atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar
um caso, o magistrado aplicaria e criaria um direito novo, praticamente
legislando. A principal divergência entre as posições com relação ao papel social
do juiz está nos seus limites e alcance, se credita que seu papel deve se
restringir à interpretação e aplicação da lei, procurando analisá-la de acordo com
seu contexto mais amplo. Ou entende em seu trabalho como servidor público ao
realizar esta atividade interpretativa, abre-se um espaço de discricionariedade
para o juiz, que poderá ter maior liberdade em alguns lugares. O debate ideológico
e/ou político se estende à justiça de acordo com a lei em seu limite de
discricionariedade para atuar no âmbito da justiça pública socialmente determinada. O juiz é intérprete
da lei, porque não há julgar, sem interpretar, é também aquele legislador,
porque sem interpretar não há como legislar. No caso brasileiro, os juízes têm demarcado uma postura autoritária.
Sociologicamente
isto quer dizer que na verdade não temos um judiciário que atenda a contento o
consumo judicial da sociedade brasileira. Seu custo/beneficio é quase zero, e
não deve melhorar sua prestação jurisdicional, em virtude de uma série de
senões, privilégios e articulações políticas que estão impregnados nos próprios
tribunais. As prestações de serviços funcionam onde poucos destoam de muitos
que o mantém, deixando esse segmento de justiça, nos mesmos níveis de
intolerância comparativamente da área da saúde. É um judiciário elitista caro,
indolente que sequer pensa no efeito social externo, tamanha à distância que se
encontra da sociedade global. Quando o contribuinte consciente passou a exigir um
judiciário mais diligente e menos moroso, como ocorre na sociedade brasileira desde tempos imemoriais, de fato não concorda com a ideia inculcada de
que é preciso contratar mais juízes e servidores, pois contratando-os ele agirão da mesma forma.
O
termo discurso pode também ser definido do ponto de vista lógico, meramente formal. Quando
pretendemos significar algo a outro é porque temos a intenção de lhe transmitir
um conjunto de práticas e saberes sociais a partir de informações coerentes - essa coerência é uma condição essencial
para que o discurso seja entendido pelo outro. São as mesmas regras gramaticais utilizadas
para dar uma estrutura compreensível ao discurso que simultaneamente funcionam
com regras lógicas para estruturar o pensamento. Um discurso político, por
exemplo, tem uma estrutura e finalidade muito diferente do discurso econômico.
Mas politicamente pode operar a dimensão econômica produzindo efeitos sociais
específicos em termos de persuasão. Não é novidade em geral nas formulações
discursivas das humanidades que a mente moderna nasceu juntamente com a ideia
de que o mundo pode ser transformado. Ipso facto o progresso econômico que se
espalha pelos mais remotos recantos do nosso planeta “abarrotado”, vem
esmagando em seu caminho todas as formas de vida remanescentes que se
apresentem como alternativas à sociedade de consumo.
Movimento Resistência Vila Vicentina (CE).
Essa
é a expressão social da vida contemporânea, carregada de uma ideologia pós-moderna
consumista que prega a individualização nas referências do individuo e,
consequentemente, a negação do sentido humano de uma ética da solidariedade.
Neste caminho segue a produção de “refugo humano” de destruição e de lixo em
maiores quantidades, haja vista que a sociedade de consumidores se sobrepôs à
sociedade de produtores. Segundo relatos etnográficos dos moradores, “capangas
estavam fazendo ronda pelo quarteirão e ameaçando os ocupantes”. A ordem veio
depois que imóveis, que foram negociados com as famílias que residiam no local,
teriam sido ocupados. De acordo com os moradores, o objetivo do Conselho
Metropolitano é repassar o terreno à construtora BSPAR, para a construção de “torres
de apartamentos”. Para a advogada Mayara Justa, do Escritório de Direitos
Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar, a decisão do juiz
autoriza ainda “a desocupação forçada de três casas que foram negociadas com o
proprietário” - mas os moradores ainda não saíram - e uma casa de um morador
que está resistindo à negociação com o Conselho. - “O pedido de reintegração de
posse feito pelo Conselho Central de Fortaleza da Sociedade de São Vicente de
Paulo contém várias mentiras, diz que as pessoas que ocuparam as casas estavam
armadas e encapuzadas”, afirmou a advogada. O mandado de reintegração de posse
inclui o poder material do uso da força policial e permissão para arrombamento das construções populares.
As
Zonas Especiais de Interesse Social
(Zeis), em Fortaleza, ocupam apenas 6% do território da Cidade, abrigando uma
população de cerca de 400 mil pessoas, que têm renda entre um (01) e três (03)
salários mínimos. São consideradas pelo Estatuto
da Cidade “como o instrumento da política urbana, destinado a promover a
urbanização e a regularização fundiária em áreas públicas ou particulares
ocupadas por população de baixa renda”. Essas informações fazem parte do
Relatório com todos os dados relativos às Zeis apresentado ao prefeito de
Fortaleza, Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra, pelo superintendente do Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor), Eudoro Santana.
O Relatório das Zeis tem como finalidade subsidiar o prefeito Roberto Cláudio
de informações técnicas, em quantidade e qualidade, para a tomada de decisões
relativas à regulamentação e à implementação das Zonas Especiais de Interesse
Social em Fortaleza. Sobre esses dois pontos de regulamentação e da
implementação, foram construídas proposições que estão sendo apresentadas ao
Prefeito. Essas proposições foram feitas pelo Comitê Técnico Intersetorial e
Comunitário das Zeis. O caso particular da Vila Vicentina não tem nada a ver
juridicamente com a conceituação técnica que é interpretada ideologicamente
pelo prefeito da cidade de Fortaleza Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra, que
atualmente pertence aos quadros do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Na Vila Vicentina, não são áreas “ocupadas por assentamentos
precários, demarcadas em legislação específica, com o objetivo de promover
medidas de integração urbana, com a articulação da comunidade, intervenções de
urbanização e recuperação ambiental, e regularização fundiária do assentamento. Essas Zonas estão previstas no Plano Diretor Participativo de Fortaleza (PDPFOR),
pela Lei Complementar nº 062, de
2/2/2009, mas precisam de regulamentação para que sejam definitivamente
implantadas. As Zonas estão divididas em 135 poligonais na capital cearense e
se classificam em três tipos: Zeis 1:
“Zeis de ocupação”, compostas de assentamentos com ocupação desordenada
irregularmente, em áreas públicas ou particulares, constituídos por população
de baixa renda, precários do ponto de vista urbanístico e habitacional. São
ocupações de forma consolidada; ou seja, têm, pelo menos, cinco anos de
ocupação na área. São 45 poligonais desse tipo em Fortaleza. - Zeis 2: são compostas por loteamentos
clandestinos ou irregulares e conjuntos habitacionais, públicos ou privados,
parcialmente urbanizados, ocupados por população de baixa renda, e destinados à
regularização fundiária e urbanística. São 56 poligonais desse tipo em
Fortaleza - Zeis 3: chamadas de
“Zeis de vazio”, são compostas de áreas dotadas de infraestrutura, com
concentração de terrenos não edificados ou imóveis subutilizados ou não
utilizados, devendo ser destinados à implementação de empreendimentos
habitacionais de interesse social e demais usos para as zonas a partir da
elaboração do plano específico. São 34 poligonais desse tipo em Fortaleza. Para Luiza Perdigão, a Zeis 1 é a mais adensada, com uma população maior e com o maior número de assentamentos
precários (102). Conforme o Relatório completo sobre as Zeis em Fortaleza, a Regional 2 é a área que concentra o
maior número de Zeis do tipo 1. A Regional
6 é a área com o maior número de Zeis 2. E a Regional 4 é a que tem maior número de poligonais do tipo Zeis 3. - A conclusão desses estudos é uma oportunidade de encerrar essa situação que
está pendente na Cidade desde 2009. Vai permitir que 400 mil
pessoas possam iniciar seu processo de inclusão, no intuito de ter mais justiça
social e combater a desigualdade social, a exclusão territorial e a segregação
espacial.
Bibliografia geral consultada. CHIZOTI,
Geraldo, Os Operários da Caridade: A
Sociedade de São Vicente de Paulo em São Paulo, 1874-1946. Tese de
Doutorado em História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade
de São Paulo, 1991; ANDERSON, Perry, Zona de Compromisso. São Paulo: Editora
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