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domingo, 5 de março de 2017

Batismo de Sangue - Pau-de-Arara & Delação Criminal no Brasil.

                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga
 
                      “Fazer da mídia a musa da democracia real, eis o grande desafio nesse início de milênio”. Frei Betto 
 
                                           
Baseado em um dos três livros em que Frei Betto descreve suas experiências na prisão, o filme: “Batismo de Sangue” (2007) é ágil, envolvente e expõe de forma realista o que representou a ditadura civil-militar brasileira. A película retrata a vida de cinco frades dominicanos e o desenrolar de seus dias, mediados por perseguições, tortura física e psicológica. Resistentes à ditadura militar e movidos por ideais cristãos, os frades Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo passam a apoiar politicamente o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional comandada por Carlos Marighella.  Os jornais eram, ao contrário de nossos dias, grandes meios de denúncia à ditadura, e eram inúmeros os jornalistas que publicavam notícias contrárias ao regime. A cena que mostra o censor riscando as notícias que não apareceriam no jornal do dia seguinte retrata a maneira com que a ditadura resolveu este inconveniente. Frei Betto, é um exemplo de como os jornalistas conseguiam resistir a esta pressão e usar as informações obtidas no jornal a seu favor. É o que acontece quando ele, através de notícias recebidas na redação, consegue evitar que um colega seja preso e caia nas mãos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Foi criado em 30 de dezembro de 1924, foi o órgão utilizado principalmente durante a ditadura do Estado Novo e mais tarde na Ditadura Militar de 1° de abril de 1964, cujo objetivo era censurar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime golpistas no poder. 
Historicamente o surgimento do órgão, vem da República Velha quando tinha a função de disciplinar a ordem militar no país foi instituído em 17 de abril de 1928 pela lei nº 2304 que tratava de reorganizar a Polícia Política do Estado. Fundada em 1216, na França, pelo padre espanhol Domingos de Gusmão, a Ordem dos Pregadores, mais conhecida como dominicana, celebra este ano oito séculos de atividade apostólica. Desde a vida comunitária, os frades conjugam oração e pregação, vida intelectual e opção pelos pobres. Entre os primeiros dominicanos, vários procediam da Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, na Itália, e outros se encontram nos primórdios das universidades de Oxford, na Inglaterra, e Sorbonne, em Paris. Os dominicanos fundaram as duas primeiras universidades da América Latina: a de Santo Domingo, na República Dominicana (1538), e a São Marcos, no Peru (1551). No entanto, as Cortes, reunidas desde janeiro de 1821, trabalhavam pela recolonização. Muito antes da chegada dos deputados brasileiros eleitos, já haviam aprovado as bases da futura Constituição, convertida em decreto em 9 de março do mesmo ano. Insatisfeitas com a permanência do príncipe D. Pedro, tomaram várias medidas para enfraquecer seu poder, pressionando-o a voltar para Portugal, propiciando, a recolonização. Desde que chegaram ao Brasil, no processo de recolonização em fins do século XIX, os frades se dedicaram, primeiro, ao mundo indígena; em meados do século XX, ao mundo estudantil; e, nos dias de hoje, aos movimentos sociais e à defesa dos direitos humanos.

 


                             
Entre os dominicanos mais conhecidos se destacam Alberto Magno, Mestre Eckhart, Tomás de Aquino, Francisco de Vitória, Giordano Bruno, Savonarola, Campanella, Bartolomeu de Las Casas e Lebret. No Brasil, Pedro Secondi, Carlos Josaphat, Mateus Rocha, Tito de Alencar Lima, Hilton Japiassu e Tomás Balduíno. Na cidade de São Paulo, no final da década de 1960, o convento dos frades dominicanos torna-se uma das mais fortes resistências à ditadura militar no Brasil. Movidos por ideais cristãos, os frades “Tito”, “Betto”, “Oswaldo”, “Fernando” e “Ivo”, passam a apoiar logística e politicamente o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado à época por Carlos Marighella. O grupo dissocia-se após uma conversa entre Frei Diogo e seus frades, de onde se conclui a necessidade de dispersão do grupo a partir de então. Frei Ivo e Frei Fernando partem para o Rio de Janeiro, onde são surpreendidos e torturados por oficiais militares brasileiros que os acusando de traidores da igreja e da pátria perguntam por informações sobre o local de reunião do grupo para a posterior captura e execução de seu líder marxista, Carlos Marighela.             
O termo pau-de-arara é originário do costume de se amarrar aves, para a venda, numa vara, onde elas ficam penduradas para o transporte. O pau-de-arara é também um meio de transporte irregular ainda muito usado no nordeste. Surgiu pela falta de transporte de massa que suportassem grande número de pessoas. Esse caminhão tem sua carroceria adaptada com tábuas que servem de banco e uma lona que protege da chuva. É, para trabalhadores sua jornada de trabalho diária. Foi utilizado também para a migração dos nordestinos para o sul/sudeste do país. Ainda é  comum no nordeste e serviu de inspiração para Luiz Gonzaga, que compôs uma música cujo título é se refere ao nome do meio de transporte. O nome pau-de-arara refere-se ainda comparativamente a gritaria que era o transporte de aves por uma vara com a desorganização do caminhão utilizado. Por analogia, o termo ganhou duas acepções distintas: pau de arara como instrumento de tortura; pau de arara como forma de transporte irregular, usado, sobretudo na região Nordeste do Brasil.
     No sentido político, etnograficamente o pau-de-arara é um método de tortura que foi muito utilizado no Brasil, principalmente no período do regime militar de 1964-1985, nos conhecidos anos de chumbo. Consiste numa barra de ferro que é atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o conjunto colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 centímetros do solo. Este método não é utilizado isoladamente, seus complementos de associação à tortura física e mental são invariavelmente os eletrochoques, a palmatória e principalmente o afogamento. A técnica do afogamento simulado já era registrada em interrogatórios da Inquisição para obter informações, extrair confissões, punir e intimidar. É considerada tortura por uma variada gama de autoridades, inclusive juristas, políticos, veteranos de guerra, agentes de serviços de informações, juízes militares e organizações de direitos humanos. Em 2007, causaram escândalo nos Estados Unidos da América as notícias veiculadas pela imprensa segundo as quais o Departamento de Justiça havia autorizado a prática, conhecida em inglês como waterboarding, e que a Central Intelligence Agency (CIA) uma agência de inteligência civil do governo dos Estados Unidos responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para os senadores daquele país. A CIA também se engaja em atividades secretas, a pedido do presidente dos Estados Unidos. A Central havia submetido a afogamento simulado prisioneiros extrajudiciais. A Família Dominicana tem sua origem no tempo e espaço na Europa da Idade  Média, na época das Cruzadas e de Francisco de Assis.

Ela brotou a partir da experiência de vida evangélica de São Domingos de Gusmão, em torno de 1170. Durante a ditadura militar (1964-1985), impelidos pela renovação da Igreja no Concílio Vaticano II, alguns frades se engajaram na luta por democracia e padeceram anos nos cárceres, enquanto outros abraçaram a “opção pelos pobres”, de modo a fazer das classes populares protagonistas na implantação do direito à justiça e das condições de paz. No Brasil, a Comissão Dominicana de Justiça e Paz tornou-se uma expressão sacramental das prioridades definidas pela Ordem, e do compromisso de frades, religiosos e leigos com os movimentos populares voltados à busca de outros mundos possíveis. A família dominicana inclui, além de quase uma centena de frades, monjas dominicanas contemplativas, religiosas dedicadas à educação, leigos identificados com o carisma dominicano, e o Movimento Juvenil Dominicano  
         Historicamente as ordens mendicantes de franciscanos e dominicanos, formam uma resposta surgida do interior da Igreja face a movimentos similares, mas que se tinham colocado à margem e sobretudo fora da Igreja. Foram portanto uma resposta a uma necessidade social política, cultural e religiosa daqueles tempos. As suas características eram essencialmente urbanas: vida em comunidade, vida itinerante, vida de pobreza como exemplo e pregação. Ao invés das antigas ordens religiosas, especialmente os beneditinos, dedicados ao trabalho manual e agrícola, estas novas ordens vão marcar e surgem e simultâneo com o despontar de uma nova classe, a burguesia, constituída por comerciantes, pequenos artificies, operários e serventes nas cidades. O seu carácter aberto e não elitista, democrático na organização interna, a grande mobilidade que se conjuga no tempo e lugar com a abertura das rotas comerciais na Europa, vão tornar estas ordens religiosas atractivas para toda uma nova classe social, urbana, em crescimento de literacia, ascendente social e politicamente, com novas formas de expressão na retórica, na literatura, na arte e arquitectura e na teologia.
            A ordem nasceu sob o signo da Verdade (Veritas, em latim), isto é o estudo, a pesquisa e a reflexão e pregação da verdade revelada por Jesus Cristo e pela Igreja. Daí que não surpreenda que este empreendimento comunicativo e de trabalho dentre inúmeros membros da ordem se tenham tornado famosos teólogos, escritores e doutores da Igreja. A sua atividade de ensino e da busca intelectual, tiveram como fruto grande pensadores, e deram inúmeros contributos para a história social da Europa e do mundo.  Nos quase oito séculos de história desta ordem, inúmeros foram os seus membros que se destacaram, entre os quais se realça Santo Tomás de Aquino, Santa Catarina de Siena, Santo Alberto Magno, Beato Inocêncio V, Papa Bento XI, São Pio V, Papa Bento XIII, Henri Dominique Lacordaire, Fr. Luís Beltran, Beato Raimundo de Cápua, Bartolomeu Las Casas, São Raimundo de Penaforte, São Vicente Ferrer, São Francisco Coll e o Prémio Nobel da Paz de 1958, Dominique Pire. Em Portugal será de lembrar Frei Luís de Sousa, André de Resende, S. Frei Gil, Fr. Soeiro Gomes, Frei Bartolomeu dos Mártires, Teresa de Saldanha, Frei Francisco Foreiro, Frei Jerónimo de Azambuja, Frei Luís de Soto Mayor, entre muitos outros. 

         Após sofrerem tortura física, os frades informam aos policiais o horário e o local de reunião do grupo, onde Marighella costumava receber recursos oriundos dos frades. Marighella foi então surpreendido e executado por policiais do velho Departamento de Ordem Política e Social (Dops) paulista, sob o comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O Dops, criado em 30 de Dezembro de 1924, foi o órgão do governo brasileiro, utilizado principalmente durante o Estado Novo e mais tarde na Ditadura Militar de 1964, cujo objetivo era censurar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. O órgão, que tinha a função de assegurar e disciplinar a ordem militar no país foi instituído em 17 de abril de 1928 pela lei nº 2304 que tratava de reorganizar a Polícia do Estado. Frei Betto, refugia-se no Rio Grande do Sul onde é encontrado, preso, e une-se ao restante do grupo no presídio de Tiradentes, na capital São Paulo, em 1971.
        Os frades são posteriormente julgados e sentenciados a quatro anos de reclusão em regime fechado. A única exceção é Frei Tito, que é libertado como valor de troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, com outros presos políticos, em 11 de junho de 1970, e se exila na França. Frei Tito não supera as sequelas psicológicas sofridas após ser preso e torturado: comete suicídioDe acordo com Durkheim (2014), os indivíduos têm certo nível de integração com os seus grupos, o que ele chama de integração social. Níveis anormalmente baixos ou altos de integração social poderiam resultar num aumento das taxas de suicídio: a) níveis baixos porque baixa integração social resulta numa sociedade desorganizada, levando os indivíduos a se voltar para o suicídio como uma última alternativa; b) níveis altos porque as pessoas preferem destruir a si próprias a viver sob o grande exercício de controle da sociedade, o que resultou no caso de suicídio egoísta no território norte-americano de Ariel Castro. O trabalho de Durkheim influenciou os proponentes das teorias sociais funcionais do controle, e é frequentemente mencionado como um estudo sociológico clássico.
          Baseado em um dos três livros em que Frei Betto descreve suas experiências na prisão, “Batismo de Sangue” é impactante e expõe de forma nua e crua o que representou a ditadura civil-militar brasileira. O roteiro do longa-metragem Batismo de Sangue é uma adaptação do livro homônimo de Frei Betto, vencedor do prêmio Jabuti. O filme dirigido por Helvécio Ratton ganhou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Fotografia no Festival de Brasília. A película retrata a vida de cinco frades dominicanos e o desenrolar de seus dias, cheios de perseguições, torturas e sofrimentos. Resistentes à ditadura militar e movidos por ideais cristãos, os frades Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo passam a apoiar logística e politicamente o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella. Durante os primeiros anos da ditadura instalada em 1964, jovens frades seguidores de São Domingos desempenharam papel importante na oposição às forças armadas. Eles deram cobertura à ALN, grupo guerrilheiro comandado por Carlos Marighella – ex-deputado federal e um dos principais opositores do governo. Os frades defendiam que viver o evangelho era integrar-se à comunidade através de práticas sociais concretas, que defendessem os injustiçados. Pagaram um preço subsumido com perseguição, cadeia, tortura e exílio. 
Frente ao endurecimento do regime e das prisões de pessoas mais próximas a eles, os cinco seminaristas são obrigados a se separar. Aos poucos, os que não conseguem sair do país são presos – no meio da noite ou na rua, sem qualquer aviso prévio e sem dar informações aos parentes e amigos, que ficam sem notícias alguma do que está sendo feito dos presos políticos. Junto com as prisões, começam as torturas. Aqueles que não têm parentes influentes, como é o caso de Betto, sofrem violências intermináveis e são obrigados a delatar amigos e companheiros. O filme demonstra também o lado psicológico dos torturados. Por mais que estes queiram resistir, a tortura é forte demais e eles acabam cedendo às pressões. Apesar dos nomes falsos e de todas as principais medidas de segurança tomadas, um a um, eles vão caindo nas armadilhas do Aparelho Repressivo de Estado (ARE). Dentro da prisão, cada um resiste também como pode e se apoia nas possibilidades de comunicação e do que melhor poderá conseguir lutar pela sua sobrevivência. É neste sentido que os freis, já presos, celebram uma missa. Cercados por um contexto político em que os torturadores tentam ao nível ideológico desacreditá-los de tudo que foi importante para eles. Em um lugar em que muitos perdem a fé e a esperança no que estão fazendo, rezar uma missa e relembrar tudo o que os trouxe até ali é dar força a si mesmos e aos outros, é uma maneira de resistir à repressão e reafirmar sua rebeldia. Na linguagem teórica acadêmica  as palavras e expressões funcionam como conceitos teóricos.
               Mas em sua periodização histórica, teórica e ideológica as palavras e expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem a concepção de uma determinada teoria da história. A dificuldade própria da terminologia teórica consiste, pois, em que, por detrás do significado usual da palavra, é preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual corrente nas fontes, nas atas, nos documentos oficiais, no âmbito da formação discursiva. Na sua significação mais geral deve nos permitir a compreensão que tem por efeito o conhecimento de um objeto: a narrativa da história. A história abstrata ou a história em geral não existem, no sentido exato do termo, mas apenas a história real, ou “como efetivamente ocorreu” (essen Sie tatsächlich, es passierte), desses objetos concretos e singulares que enformam a experiência da humanidade.    
 A tradição marxista, por outro lado, concebe o Estado como um “aparelho repressivo”, uma “máquina de repressão”, ou, “comitê executivo da classe dominante” que permite às classes dominantes assegurar a sua dominação sobre a classe operária, extorquindo desta última a mais-valia. O Estado é, antes de tudo, o “Aparelho de Estado”, termo que compreende não somente o “aparelho especializado”, mas também o exército que intervém como força repressiva de apoio em última instância, o Chefe de Estado, o Governo e a Administração, definindo o Estado como força de execução e de intervenção repressiva a serviço das frações da classe dominante. A rejeição hegeliana parte da própria negação de “estruturas hegelianas” em Marx, onde a totalidade expressiva de Hegel cede lugar, na análise crítica de Louis Althusser, ao todo-estruturado. É um todo sobredeterminado (“uberdeterminierung”) com níveis de análise e instâncias (instare) relativamente autônomas. Na configuração social das esferas de ação há, diferente da lógica dialética, “todos parciais”, sem prioridade de um “centro”. Em nível de análise do econômico opera-se a rejeição da “unicausalidade” da história e das lutas sociais e políticas atribuindo-se a instâncias, então determinadas do discurso como o político e ideológico, o “peso” de instâncias decisivas, dominantes em ser determinantes. 
           Frei Tito, contava com 24 anos, foi o próximo dominicano colocado atrás das grades, capturado no próprio convento dos dominicanos. Cinco dias depois, frei Betto – posteriormente conselheiro pessoal do presidente Luís Inácio Lula da Silva do  Partido dos Trabalhadores (PT),também foi preso inúmeras vezes, através do terrorismo de Estado. Estava escondido no Rio Grande do Sul, ajudando opositores do governo a fugirem do país pela fronteira. Dentre todos esses religiosos, é a história de frei Tito que o filme aborda com mais profundidade. Durante 42 dias, ele foi submetido ao pau-de-arara, a choques elétricos nos ouvidos e genitais, a socos, pauladas, palmatórias e queimaduras de cigarro, entre outras perversidades. Em certa ocasião, foi lhe ordenado que abrisse a boca para receber a “hóstia sagrada”, dois eletrodos com corrente elétrica. Teve a boca queimada a ponto de não conseguir falar. Tentou suicídio nessa época, cortando-se com uma gilete. Os militares, no entanto, o mantiveram vivo e sob a tortura psicológica. Em dezembro de 1970, Tito foi incluído na lista de presos políticos trocados por um embaixador suíço sequestrado. Partiu para o exílio, passando pelo Chile e pela Itália antes de se estabelecer definitivamente na França. Dois pontos altos do filme são as cenas de tortura dos frades e o sofrimento de Frei Tito, personagem vivido por Caio Blat. Queriam forçá-lo a delatar pessoas e assinar confissões. Impossível para uma pessoa que “preferia morrer a perder a vida” conforme escreveu em sua Bíblia. Do Brasil, contudo, Tito não saiu sozinho. Levou consigo a obsessão fascista do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu principal algoz nos porões ditadura militar golpista de 1° de abril de 1964.
   Vários depoimentos, testemunhas e relatos etnográficos de presos políticos demonstraram que, sistematicamente, Fleury torturava as pessoas durante os interrogatórios que comandava. Vários dos militantes capturados por ele não resistiram às torturas e morreram. Fleury foi o principal responsável pela tentativa de captura e morte do guerrilheiro comunista Carlos Marighella. Também foi denunciado como participante da Chacina da Lapa e investigado por envolvimento com tráfico de drogas e formação dos Esquadrões da Morte. Protegido dos militares que promoveram o golpe de Estado no Brasil em 1° de abril de 1964 e impuseram a ditadura, deles recebeu diversas homenagens, como a farsa do Aparelho de Estado retratada enquanto Medalha do Pacificador e  Medalha Amigo da Marinha. Mas em 2009 uma rua anterior ente com seu nome na cidade de São Carlos, foi renomeada para homenagear corretamente o cardeal católico Dom Hélder Câmara, um dos mais reconhecidos opositores do regime imposto pelo golpe. Em 2017 um bloco carnavalesco foi proibido de homenageá-lo.   Um artigo da revista Veja de 12 de novembro de 1969, ressaltava que o sucesso de Fleury no combate à luta armada da esquerda deveu-se a sua experiência no combate aos criminosos comuns. Para ele, a motivação política era secundária. – “Um assalto a banco, praticado por um subversivo, deveria ser investigado como um assalto comum”.
          Aquele considerado como subversivo que roubasse um automóvel deveria ser procurado como qualquer puxador. A tática usada no cerco a Carlos Marighella foi a mesma, comparativamente, à empregada na captura de marginais. A revista, entrevistando um delegado do Dops paulista, obteve a seguinte informação: - “quando a gente prende um malandro, ladrão ou assassino, enfim um bandido, e a gente sabe que ele tem um companheiro, obrigamos o preso a nos levar até o barraco onde o outro mora. O bandido vai lá, bate na porta, o outro pergunta: quem é? e o bandido responde: sou eu. O camarada abre a porta e entram dez policiais junto com o informante.- “Foi assim que Fleury  fez combate à subversão: em cada dez diligências, sete eram proveitosas”. O delegado Fleury era conhecido e temido publicamente no Estado de São Paulo como agente apoiador da ditadura, torturador e assassino de opositores ao regime militar. Assim, quando sua morte foi anunciada pelo jornalista Juca Kfouri no famoso Comício do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, ainda durante o 1º de maio, a notícia de sua morte foi supostamente festejada e efusivamente aplaudida por aproximadamente cem mil pessoas.
Bibliografia geral consultada.
ALVES, Maria Helena Moreira, Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1984; BETHENCOURT, Francisco, L`Inquisition à la Époque Moderne: Espagne, Portugal, Italie, XVe.-XIXe. Paris: Éditons Fayard, 1995; ALMEIDA, Cândido Mendes, Momento dos Vivos: A Esquerda Católica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Tempo Brasiliense, 1996; REZENDE, Claudinei Cássio de, Suicídio Revolucionário: A Luta Armada e a Herança da Quimérica Revolução em Etapas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 2010; LIBÂNEO, José Carlos; SANTOS, Akiko (Org.), Educação na Era do Conhecimento em Rede e Transdisciplinaridade. 3ª edição. Campinas: Editora Átomo & Alínea, 2010; MOREIRA, Mariângela Ricardo Alves, Opressão e Libertação: A Religião Libertadora nas Obras de Frei Betto. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Goiânia: Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2011; AARÃO REIS, Daniel; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá (Orgs), A Ditadura que Mudou o Brasil: 50 Anos do Golpe de 1964. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2014; GODOI, Marcílio Ribeiro de, Escrita e Sobrevivência em Cartas da Prisão (Frei Betto): O Absurdo como Origem e Deslimite. Dissertação de Mestrado em Literatura. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; DURKHEIM, Émile,  Il Suicidio. Studi di Sociologia. Roma: Biblioteca Univ. Rizzoli, 2014; CARDOSO, Luísa Rita, Não Sei e Não Quero Dizer: Tortura e Infância na Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1985). Dissertação de Mestrado em História. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2015; BETTO, Frei, Diário de Puebla. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1979; Idem, Batismo de Sangue: Guerrilha e Morte de Carlos Marighella. 14ª edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006; Idem, Cartas da Prisão - 1969-1973. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2008; Idem, Ofício de Escrever. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editor Anfiteatro, 2017;  entre outros.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Festa de Babette - Prazer, Saber & Recalque na Comunidade.

                                                                                                    Ubiracy de Souza Braga*
Não existe amor mais sincero do que aquele pela comida”. Bernard Shaw

A culinária é a arte de cozinhar, ou seja, o ato de “confeccionar alimentos”. Ela evoluiu ao longo da história dos povos para tornar-se parte da cultura de cada povo. Está invariavelmente associada à cozinha, pois este é o local ideal para cozinhar. Os métodos de culinária variam de região para região, não só os ingredientes, como também as técnicas culinárias e os próprios utensílios. Por exemplo, a cataplana é um recipiente para cozinhar alimentos típico do Algarve, equivalente à Tajine de Marrocos. A alheira de Mirandela é um dos alimentos mais exclusivos da cozinha portuguesa, enquanto no Brasil, os pratos típicos incluem a feijoada brasileira e o churrasco. O cozinheiro principal é normalmente reconhecido como chef, assim reconhecido pela sua boa cozinha e dotes culinários. A cozinha, muitas vezes, reflete outros aspectos da cultura, tais como a religião – a carne de vaca é tabu entre os hindus, enquanto a de porco é proibida entre os muçulmanos e judeus – ou determinadas posições filosóficas, como o vegetarianismo, que reprova o consumo de carne e o veganismo, que reprova o consumo de alimentos de origem animal, como carne, ovos, laticínios e mel. O desenvolvimento industrial teve igualmente um grande impacto na forma como as pessoas se alimentam. Por exemplo, a maior incidência de pessoas que trabalham longe de casa ou têm mais horas de trabalho levou ao surgimento da comida rápida; por outro lado, a consciência da  segurança alimentar e da qualidade alimentar levou à criação de regras, por vezes na forma de leis, sobre a forma como os alimentos devem ser vendidos. 

Uma disciplina associada à culinária é a gastronomia, que se ocupa tanto com o modo como os alimentos são preparados, tanto quanto com o binômio produção-consumo. Outras disciplinas relacionadas à gastronomia são a nutrição e a dietética, que estudam os alimentos do ponto de vista da saúde alimentar ou da medicina. Na Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não fosse mais que teoria do conhecimento. E não obstante, a Fenomenologia (2007), como têm assinalado quase todos os seus expressivos comentaristas, marca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Immanuel Kant e de Johann Gottlieb Fichte. Em que novo sentido devemos entendê-lo? O saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber, fora da relação dialética, poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha o saber fenomênico e o saber Absoluto, mas não demonstrava os laços entre um e outro. Uma vez colocado não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico fica igualmente separado do saber Absoluto. 

Hegel retorna ao saber fenomênico, ao saber típico da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber absoluto que, todavia, não se sabe como tal. Não apenas Fichte, mas o próprio Schelling, adverte Vittorio Hösle, tampouco satisfaz a exigência de uma estrutura de sistema que retorna a si mesma, pois o dualismo fichteano do eu e Não-Eu perdura, em última análise, no primeiro projeto resumido de sistema, no Sistema do idealismo transcendental. Segundo ele, a filosofia tem, com efeito, duas partes – filosofia natural e filosofia transcendental, a qual, por sua vez, contém, entre outras coisas, filosofia prática e filosofia teórica. Schelling argumenta do seguinte modo: já que o saber seria unidade de subjetividade e objetividade, o ponto de partida da filosofia teria de ser ou o objetivo (a natureza) ou o subjetivo (a inteligência). Naquele caso, surgiria a filosofia da natureza; neste, a filosofia transcendental. No entanto, o objetivo de cada uma dessas duas ciências seria avançar na direção da outra – portanto, de um lado, “partindo da natureza chegar ao inteligente”, e, de outro, partindo do subjetivo, “fazer surgir dele o objetivo”. Esta afirmação apenas poderia fazer sentido se para Hösle, com ela se tivesse em mente que a inteligência tem de objetivar e naturalizar em atos práticos e estéticos, como Schelling tenta demonstrar no Sistema.  A segunda falha resulta da primeira. Schelling conhece duas esferas da filosofia, na terminologia de Hegel, pertencem à filosofia da realidade. Aquela estrutura que precede à ambas e que Hegel tematiza na Ciência da Lógica não tem lugar neste projeto de sistema de Schelling. É fácil ver que não se pode um renunciar a ela, e por três motivos. 

                                         

Em primeiro lugar, somente desse modo se pode compreender porque ambas as partes são momentos de uma unidade. Não basta afirmar sua relação mútua, é preciso explicitar estruturas ontológicas gerais que subjazem de igual modo à natureza e à inteligência. Em segundo lugar, somente desse modo se pode tornar plausível a dependência da natureza em relação a uma esfera ideal. E, em terceiro lugar, uma filosofia natural e uma filosofia transcendental apriorísticas são inconcebíveis sem essa esfera abrangente, pois a partir de que deveriam ser fundamentadas as primeiras suposições de ambas as filosofias da realidade? Depois de se desfazer do “resto de fichteanismo”, ainda reconhecível sobretudo na execução do Sistema do idealismo transcendental, Schelling introduziu na Apresentação, como base destas duas ciências, o Absoluto, e o definiu como identidade de subjetividade e objetividade. Não se pode deixar de ver um limite na doutrina schellinguiana do absoluto que representa um retrocesso, ficando, no mínimo, aquém de Fichte e, em certo sentido, até mesmo aquém de Kant: as categorias analíticas que Schelling utiliza para a caracterização do Absoluto são catadas e, de modo algum deduzidas do próprio Absoluto. Unidade, identidade, infinitude são determinações que o filósofo Schelling toma de empréstimo da tradição e que, em primeiro lugar, ele não legitima na relação dialética o em si e por si – ele apenas mostra que em sua utilização de mera identidade, antes elas que seu contrário conviria ao absoluto, o qual é entendido como unidade de subjetividade e objetividade, e que em segundo lugar, ele nem sequer põe sentido em um nexo causal ordenado.

Simplificadamente, o sistema pensamento de Hegel pode ser representado da seguinte forma: 1) o princípio supremo da filosofia transcendental tem de ser, com Fichte, uma estrutura iniludível e que fundamente a si mesma reflexivamente. 2) no entanto, esse princípio não pode ter nada perante si, se quer ser absoluto; sendo determinado como subjetividade, ele não pode, portanto, ser subjetividade finita, mas tem de ser com Schelling, unidade de subjetividade e objetividade ou, em terminologia hegeliana, ideia. 3) com o reconhecimento, porém, de que o Absoluto é unidade de subjetividade e objetividade, a filosofia ainda não está concluída. Antes, trata-se decisivamente de explodir o caráter pontual desse conhecimento, por quatro motivos: a) a estrutura absoluta não pode ser posta imediatamente, pois então ela mesma seria, na verdade, uma mera abstração, da qual nada decorreria; b) apenas assim pode-se alcançar uma prova da absolutidade dessa estrutura. Mas então é necessária uma prova, mas de um modo necessariamente diferente de como elas mesmas são pressupostas pela ideia absoluta, se é que o círculo deve ser evitado; c) a determinação da exata relação entre “lógica” e “metafísica”, isto e´, entre a doutrina das categorias finitas e a ciência do princípio absoluto, é o problema  para o qual em Jena, pelo fim de sua temporada Friedrich Hegel, conseguiu encontrar uma solução que o satisfizesse até o final de sua vida, enquanto, para a maior parte das demais estruturas fundamentais de sua filosofia , ele chegou mais cedo a respostas à Enciclopédia

A ideia Absoluta origina, não apenas as categorias lógicas anteriores a ela, por meio das quais ela mesma é constituída, sem abdicar da centralidade dela mesma constituída em termos de origem assimétrica. Para resolver esse problema oferece-se propriamente apenas um caminho. O espírito assim, reconhece Hegel já cedo contra Schelling - tem de estar acima da natureza, a qual tem de corresponder às categorias deficientes da Ciência da Lógica.  O genial filósofo parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o complexo sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto.

Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata. Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. O espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. O espírito finito se encontra e inicia uma união imediata com a natureza. A seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta. Isto porque metodologicamente a relação na realidade suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

George Bernard Shaw nasceu em 26 e julho de 1856, falecendo em 2 de novembro  em Synge Street, em 1950 em Dublin. Filho de George Carr Shaw (1814-1885), e Elizabeth Lucinda Gurly (1830-1913), uma cantora profissional. Ele nasceu numa tradicional, mas empobrecida família protestante, foi de início instruído por um tio, mas rejeitou a educação escolar e, aos 16, anos empregou-se em um escritório. Adquiriu amplo conhecimento artístico graças à mãe, Lucinda Elizabeth Gurly Shaw (1830-1913), e às frequentes visitas à Galeria Nacional da Irlanda. Decidido a tornar-se escritor, foi morar em Londres em 1876, mas infelizmente, por mais de dez anos, seus romances foram recusados por editores elitistas da cidade, assim como a maior parte dos artigos enviados à conservadora imprensa, ipso facto, como orador brilhante e polemista, fez as primeiras tentativas como dramaturgo. Bernard foi um dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Cofundador da London School of Economics, foi também o autor de ilustres comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista.

Tornou-se vegetariano, fervoroso defensor do socialismo Fabiano, fundado no ano da morte de Marx (1883) com o intuito de promover as ideias materialistas dialéticas do filósofo alemão por meio do gradualismo, a Sociedade Fabiana almejava condicionar a sociedade, como disse a fabiana Margaret Cole (1893-1980), por meio de medidas socialistas remediadas. Ao atenuar seus objetivos, tinha o intuito de não incitar os inimigos do socialismo, tornando-os menos combativos, ao contrário dos revolucionários marxistas, os socialistas fabianos reconheciam muito bem as controvérsias sobre o trabalhismo e o funcionamento das políticas públicas britânicas. Em 1885, conseguiu um trabalho fixo na imprensa e, durante quase uma década, escreveu resenhas literárias, críticas de arte e brilhantes colunas musicais. Sua atividade literária, em especial a produção teatral, foi uma sequência de sucessos; destacou-se também na crítica literária, teatral e musical, na criação de panfletos e ensaios sobre assuntos políticos, econômicos e sociais; sendo ainda um prolífico epistológrafo.  Como crítico de teatro da Saturday Review (1895), criticou a pobreza qualitativa e artística da produção teatral vitoriana. Durante a 1ª grande guerra (1914-18), interrompeu sua produção teatral e publicou um polêmico panfleto, Common Sense About the War, no qual considerava a hipocrisia do Reino Unido, aliados e os alemães igualmente culpados e reivindicava negociações de paz. Recusou o prêmio Nobel de Literatura de 1925 e, em suas últimas peças, intensificou as pesquisas com a linguagem não-realista, simbolista e tragicômica. Por cinco anos deixou de escrever para o teatro e dedicou-se ao preparo da edição de suas Obras Escolhidas (1930-1938), e ao tratado político The Intelligent Woman`s Guide to Socialism and Capitalism (1928). A correspondência publicada destaca as cartas com o escritor H. G. Wells.

Na esfera política Shaw irritou-se com o que percebeu ser a forma de exploração da classe trabalhadora. Socialista ardente, escreveu muitos folhetos e discursos para o Socialismo Fabiano. Tornou-se um orador disciplinado à promoção de suas causas, que incluem direitos iguais para homens e mulheres, aliviar os abusos contra a classe trabalhadora, rescindir a propriedade privada de terras produtivas e promover estilos de vida saudáveis. Em pouco tempo, tornou-se ativo na política, no London County Council. Ele e o cantor Bob Dylan são os únicos a terem obtido um Prêmio Nobel de Literatura (1925) e um Óscar (1938). Shaw por suas contribuições para a literatura e por seu trabalho no filme Pigmalion que é uma adaptação de sua peça homônima. Ele quis recusar o Prêmio Nobel porque não tinha gosto por honrarias públicas. Acabou aceitando a pedido da esposa que considerava homenagem à Irlanda. Mas rejeitou o dinheiro solicitando sua característica fundamental, como utilidade de uso, no sentido econômico, para financiar traduções de livros suecos para o inglês.

 As tradições nórdicas se referem a uma histórica religião pré-cristã, crenças e lendas dos povos escandinavos, incluindo aqueles que se estabeleceram na Islândia onde a maioria das fontes escritas para a mitologia nórdica foram construídas. Esta é a versão mais bem conhecida da mitologia comum germânica antiga, que inclui também relações próximas com a mitologia anglo-saxônica. Por sua vez, a mitologia germânica evoluiu a partir da antiga mitologia indo-europeia. A mitologia nórdica é uma coleção de crenças e histórias compartilhadas por tribos do norte da Germânia, atual Alemanha, sendo que sua estrutura não designa uma religião no sentido comum da palavra, pois não havia nenhuma reivindicação de escrituras que fossem inspirados por algum ser divino. A mitologia foi transmitida oralmente principalmente durante a chamada Era Viking, e o reconhecimento social sobre ela é baseado especialmente nos Eddas e textos medievais escritos pouco depois da Cristianização. A maior parte da população escandinava era constituída por camponeses, que nunca saiam das suas terras, e se dedicava à agricultura, à silvicultura, à caça e à pesca. 

          As pessoas viviam em pequenos grupos familiares com várias gerações, e dedicavam-se ao cultivo do centeio, da cevada, do trigo e da aveia. Comiam pão, papas de cereais, queijo fresco e bagas. Bebiam água, leite ou cerveja fraca. Criavam porcos, cabras, gansos, cavalos e vacas. A carne desses animais era salgada ou defumada, para ser conservada para o inverno. Habitavam casas retangulares, onde tinham lugar homens, mulheres, crianças, escravos e animais. Os escravos chamados thrall na Escandinávia tinham uma realidade de vida dura, fazendo os trabalhos mais difíceis e comendo alimentos de qualidade inferiores. Um pequeno grupo dedicava-se ao fabrico artesanal de objetos e ao trabalho no comércio. Os vikings foram uma parcela de tipo militar que participavam de guerra naval, de pirataria ou comércio marítimo. Sociologicamente é um termo habitualmente com utilidade de uso para se referir aos exploradores. Foram guerreiros e piratas que invadiram,colonizaram grandes áreas da Europa e ilhas do Atlântico Norte a partir do final do século VIII até meados do século XI. 
       A Festa de Babette (“Babettes Gæstebud”) é uma produção fílmica franco-dinamarquesa (1987), dirigida por Gabriel Axel, cujo pseudônimo era Isak Dinesen. O escritor justificava o anonimato numa época em que “mulheres escritoras” não seriam bem vistas aos olhos de grupos chauvinistas. O filme tem como escopo a questão do banquete servido por Madame Babette Hersant. Em seu ersatz induz o tema na análise comparativa de  que inexiste a felicidade sem pecado. Contudo, a representação está ambientado na comunidade puritana no final do século XIX. Mas após já haver igualmente sugerido a auto-repressão moral em decorrência do pecado, cometido por Felippa na formação do triângulo amoroso com o militar Lorenz Lowenhelm e Martine na percepção do misto de vaidade e orgulho em seus ensaios de canto erudito em parceria com Achilles Papin. Tem como background a historicidade filosófica, associada com a influência na vertente de religiosidade protestante, para lembrarmo-nos da crítica incólume de Friedrich Nietzsche,  “onde quer que a neurose religiosa tenha aparecido na terra, nós a encontramos ligada a três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual”. O cineasta foi o primeiro dinamarquês a receber o Óscar de melhor filme estrangeiro, em 1988.
Metodologicamente Nietzsche contamina a reflexão crítica na Sétima ArteSua tese filosófica em relação à questão posta pela tradição do pensamento pressupõe que o sentido e valor é  uma capacidade de potência  se afirmando como força para intervir, moldando os agentes a reagirem contra aquilo que constitui a falta de valor em si e o sentido próprio. O trágico sempre será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é conservação de força frente ao inesperado. Que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da realidade e o “cosmiza” ativamente e não seu contrário. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como o próprio acaso. Não só afirma a ordem a partir da desordem, como a própria desordem. Não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o caos. Reitera, sobretudo, o próprio devir. Essa é a grande inversão da vontade. Que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor, para construí-los a partir do “jogo de forças” visando expansão de potência. 
     O eterno retorno é um conceito filosófico do tempo postulado, em primeira vez no ocidente, pelo estoicismo e que propunha uma repetição do mundo no qual se extinguia para voltar a criar-se. Sob esta concepção, o mundo era retornado a sua origem através da conflagração, onde tudo ardia em fogo. Uma vez queimado, ele se reconstruía para que os mesmos atos ocorressem novamente. Friedrich Nietzsche define esse conceito em sua obra: A Gaia Ciência: - “A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: - Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: - Como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”. 
Um dos aspectos do “Eterno Retorno” diz respeito aos ciclos repetitivos da vida: estamos sempre presos a um número limitado de fatos, estes fatos que se repetiram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro, como por exemplo, guerras, epidemias, etc. Nos textos de Friedrich Nietzsche sobre a história, entendemos que sua noção do tempo não é meramente cíclica. A Dinamarca é um país cuja história está ligada aos países escandinavos e o norte da Europa, é um país que tem a muralha mais antiga que pode ser encontrada no continente, uma muralha que data do Século XII. Este país foi unificado pela primeira vez por Harald Blatand no século X, quando no final do mesmo período e durante o século posterior, no século XI, ela foi atacada em uma boa parte do continente. Os Vikings dinamarqueses passaram a ter controlo sobre os países como a Inglaterra, como a França e parte da Alemanha. Também penetrou no Mediterrâneo, foi um povo que temia a violência com qual foram atacados, causando terror onde passavam. Durante a ocupação muçulmana da península, por exemplo, arrasaram Sevilha, que resultaram em confrontos entre muçulmanos e Vikings. Saquearam cidades da Itália, e até a cidade de Constantinopla, foi um dos mais impressionantes e temidos exércitos durante os primeiros séculos do segundo milénio de nossa era. No décimo segundo século, as rusgas Vikings desapareceram, mas este país tinha o controle sobre os outros países na área, algo que permaneceu. Países como a Noruega, Suécia, Islândia, Groenlândia eram simultaneamente ilhas e países que a Dinamarca tinha particular controle estratégico planejado (cf. Babo, 2015), mas no século XIII os seus confrontos contra Teutões também enfraqueceram, pois representava na imaginação uma cidade a sua medida para eles, e as batalhas entre Teutões e Vikings passaram a história. 
A partir do século XV, a situação começa a mudar, é a partir deste momento quando o Império dinamarquês começou a sua queda na Suécia no décimo sétimo século, separa-se da Noruega no século XIX, da Islândia no Século XX e em datas recentes Groenlândia separou-se da Dinamarca. No século XIX, existem, porém, datas importantes para o país, pois é no meio deste século, quando a monarquia constitucional estabelecida no mesmo.  Dinamarca, século XIX. Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel) são filhas de um rigoroso pastor luterano. Após a morte do religioso surge no vilarejo Babette (Stéphane Audran), uma parisiense que se oferece para ser a cozinheira e faxineira da família. Muitos anos depois, ainda trabalhando na casa, ela recebe a notícia de que ganhou um grande prêmio na loteria e oferece-se para preparar um jantar francês em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. Os paroquianos, a princípio temerosos, acabam rendendo-se ao banquete de Babette. O diretor de cinema Gabriel Axel, que se tornou o primeiro dinamarquês a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro com A Festa de Babette, em 1988, morreu  aos 95 anos. A família divulgou a notícia, sem informar a causa nem o local da morte. Axel nasceu em 1918, em Aarhus, na Dinamarca. Passou sua infância em Paris, mas voltou ao país natal para estudar dramaturgia no Teatro Real. Adulto, dividiu seu tempo entre os dois países, atuando e dirigindo  séries de TV e filmes como: “Jutland - Reinado do Ódio” (1994), uma recriação da tragédia Hamlet.
A estreia como diretor ocorreu em 1955. A fama internacional em 1987, com o lançamento de A Festa de Babette, sua adaptação do conto da escritora dinamarquesa Isak Dinesen (1885-1962). Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke, é reconhecida pelo pseudônimo de Isak Dinesen (1885-1962), uma escritora dinamarquesa. Seu pai, Whihelm Dinesen, era um militar, que cometeu suicídio quando Karen tinha apenas dez anos de idade, atormentado por não conseguir resistir à pressão de sofrer de sífilis, como ocorrera com Nietzsche, uma enfermidade que naquela época estigmatizava. Sua mãe, Ingeborg Westenholz, ficou sozinha com cinco filhos para criar, e os pôde manter graças à ajuda de familiares. Karen, como suas irmãs, estudou em prestigiadas escolas suíças. Em 1914, Karen se casou com um primo afastado, o barão sueco Bror von Blixen-Finecke, e foram viver no Quênia, onde iniciaram uma plantação de café. Porém, Bror era mulherengo e passava longos períodos afastado de casa, envolvido em torno de atividades de safáris e campanhas militares. Entre 1915 e 1916, Karen contraiu sífilis, provavelmente de Bror, embora alguns estudiosos acreditem que ela tenha herdado a doença de seu pai. Os Blixens se separaram em 1921 e se divorciaram em 1925. 

Em Nairobi, Karen Blixen conheceu e se apaixonou por Denys Finch Hatton, um piloto do exército britânico e caçador. Viveram juntos de 1926 a 1931. Mantiveram uma relação amorosa intensa, porém repleta de altos e baixos. Engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês, provavelmente em consequência da saúde frágil. A relação afetiva terminou com a morte de Finch Hatton num acidente de avião, em 1931. Ao mesmo tempo, o fracasso da plantação de café forçou-a a abandonar suas terras e retornar à Dinamarca. Antes do retorno à Dinamarca, Karen escreveu A vingança da verdade, publicado em 1926. Após o retorno, seu primeiro livro foi Sete contos góticos, publicado em 1934, sob o pseudônimo de Isak Dinesen; o terceiro livro, já reconhecido mundialmente, foi Den afrikanske Farm, publicado em 1937 e baseado no período em que viveu no continente africano. O sucesso alcançado com esta obra firmou sua reputação como escritora, tendo sido premiada com o Tagea Brandt Rejselegat em 1939. Durante a 2ª guerra mundial (1939-1945), Karen escreveu Contos de inverno, publicado em 1942, e o romance As vingadoras angélicas, sob o pseudônimo de Pierre Andrezel, e publicado em 1944. Escreveu também Anedotas do destino, de 1958, e que inclui o conto A festa de Babette, também transformado em filme em 1987, e Sombras na pradaria, de 1960, entre outros. Ele também participou de uma turnê nos Estados Unidos da América (EUA) em 1959, durante o qual ela conheceu Arthur Miller, E. E. Cummings e Pearl Buck que admiravam suas habilidades como escritora. Apesar de ser dinamarquês, Blixen escreveu as histórias em Inglês e depois traduziu para o dinamarquês. Em 1985, foi adaptado para o cinema com nome Out of África, e direção de Sydney Pollack, com Meryl Streep, Robert Redford e Klaus Maria Brandauer. 

No filme A Festa de Babette (1987), o sentido alegórico com que a narrativa se desenvolve condiciona a gravidade da contradição histórica vivida pelo ser humano. A perspectiva da perda e da ausência, constante ameaça à sobrevivência, e que, em princípio, justificaria as ações religiosas, transforma-se na realização, que é expressão da própria vida e cuja essência está contida num ato de fé, no seu duplo sentido de reter e enredar, fazer parte do enredo. Babette representa a empregada de origem francesa de duas irmãs de meia-idade, Felippa e Martine, nomes dados em homenagem a Felipe Melanchton e Martinho Lutero. As três vivem numa pequena aldeia de pescadores ao norte da Dinamarca, numa região chamada Jutlândia. As irmãs gastam todos os seus proventos num extraordinário trabalho beneficente, assistindo os idosos que já não podem mais se sustentar. Babette faz os serviços da casa e igualmente cozinha. O pai de Felippa e Martine foi pastor, profeta (cf. Nietzsche, 1968), fundador de uma seita aparentemente respeitada e também um pouco temida. Sem a presença física do genitor, mas ainda com os arraigados severos dogmas religiosos, Martine e Felippa permitem que Babette elabore jantar em memória ao aniversário de falecimento do pastor chefe da família.
Quando Babette veio trabalhar na casa das irmãs, o pastor já era falecido e os poucos fiéis que ainda restavam continuavam, ano após ano, encontrando-se na casa das irmãs para interpretar a palavra de Deus e honrar o espírito do mestre, ainda presente. Na juventude, Martine e Felippa eram como fruteiras floridas e os rapazes iam aos cultos dominicais na igreja só para vê-las, uma vez que não frequentavam bailes ou festas. Aqueles que se atreviam a solicitar permissão para cortejá-las recebiam como resposta do pastor que suas duas filhas eram para o seu sacerdócio, sua mão direita e esquerda e aquele que delas se aproximava por interesses frívolos como o casamento ou o amor terreno estava, na verdade, tirando-as dele. Por ocasião da festa do centésimo aniversário do pastor, o bilhete de Babette é premiado. As irmãs pretendem homenagear o falecido pai com um jantar, Babette pede-lhes a honra de oferecer com o dinheiro ganho, um banquete  verdadeiro jantar francês. Segundo Sigmund Freud, os conteúdos refutados, longe de serem destruídos ou esquecidos definitivamente através da repressão psíquica, ao se ligarem à pulsão, mantêm sua efetividade psíquica no inconsciente. O reprimido (ou recalcado) constitui, portanto, a componente central do inconsciente. - “O recalcado se sintomatiza”, diz o fundador da psicanálise. Ou seja: pela repressão, os processos inconscientes só se tornam conscientes através de seus derivados - os sonhos ou os sintomas neuróticos. Vale lembrar que o conceito de repressão psicológica não foi originalmente definido por Freud. No século XIX, já havia sido utilizado, para sermos breves, por Johann Friedrich Herbart e por Theodor Meynert. Mas Freud foi quem conseguiu descrevê-lo como um mecanismo essencial da cisão originária entre o consciente e o inconsciente estruturada no ambiente abstrato do aparelho psíquico.

Para Freud, a repressão opera porque a satisfação direta da moção pulsional, que se destina a causar prazer, poderia causar desprazer ao entrar em dissonância com as exigências provenientes de outras estruturas psíquicas ou exigências do meio exterior. Em sentido estrito, trata-se do mecanismo típico da neurose histérica, mas, em sentido amplo, é um processo de desenvolvimento que ocorre em todos os seres humanos, dado que constitui originariamente o inconsciente. O conceito foi adotado por distintas escolas e orientações dentro da psicanálise. Mas também por outras teorias psicológicas, resultando em definições às vezes muito diferentes entre si. Jacques Lacan, por exemplo, reinterpretou a teoria da repressão e do deslocamento de Freud usando as categorias linguísticas de metáfora e metonímia. Na medida em que a metáfora envolve a substituição de um termo por outro que no cotidiano sociológico “desliza por baixo do balcão”, ela seria na representação da análise lacaniana, o correlato linguístico do mecanismo substitutivo de repressão ou recalque. Na enologia, é ato de rebaixar a manta para não azedar permitindo a obtenção de vinho tinto com exata densidade obtendo assim, mais corporeidade e cor. Não queremos perder de vista o que o exame de um vinho pode nos dizer dele.
        Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke, reconhecida pelo pseudônimo de Isak Dinesen, foi uma escritora dinamarquesa. Seu pai, Wilhelm Dinesen, era um militar, e cometeu suicídio quando Karen tinha apenas dez anos de idade, atormentado por não conseguir resistir à pressão de sofrer de sífilis, enfermidade que estigmatizava. Sua mãe, Ingeborg Westenholz, ficou sozinha com cinco filhos para criar, e os pode manter graças à ajuda de familiares. Karen, como suas irmãs, estudou em prestigiadas escolas suíças. Em 1914, casou-se com um primo afastado, o barão sueco Bror von Blixen-Finecke, e foram viver no Quênia, onde iniciaram uma plantação de café. Entre 1915 e 1916, Karen contraiu sífilis, provavelmente de Bror, embora alguns estudiosos acreditem que ela tenha herdado a doença de seu pai. Os Blixens se separaram em 1921 e se divorciaram em 1925. Em Nairóbi, a maior cidade da África Oriental, Karen Blixen conheceu e se apaixonou por Denys Finch Hatton, um piloto do exército britânico e caçador. Viveram juntos de 1926 a 1931. Mantiveram uma relação amorosa intensa, naturalmente cheia de altos e baixos. Engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês, provavelmente em consequência da saúde frágil. A relação terminou com a morte de Finch Hatton num acidente de avião, em 1931. Ao mesmo tempo, o fracasso da plantação de café forçou-a a abandonar suas terras e retornar à Dinamarca.
O ritmo cíclico da vida desenvolve-se sem que nos apercebamos de que a angústia, a ansiedade e o temor provocados através de um banquete provocassem uma ruptura no cotidiano da aldeia, a partir de uma interferência não desejada em vários aspectos e que necessita, por isso, ser também simbolicamente negada e reprimida. Não é, portanto, somente uma alteração de rotina que Babette produz com sua presença e seu jantar. No filme, essa unidade entre a narrativa, o enredo e a articulação das imagens, caracterizando a natureza cíclica da vida, pelos diferentes fazeres humanos, torna o aparente inalterável cotidiano da aldeia um aliado do passado mantido da história. A preparação e a realização do banquete adquirem os contornos de um rito de passagem, pelo qual as ações passam a ter um significado mais amplo do que aquele ordinariamente praticado, amplificando o conteúdo da representação do acontecimento. Os atos cotidianos de cozinhar e comer são outros e são os mesmos. A data comemorada é a mesma e é outra, no imaginário do banquete. O que transforma cada um desses elementos é o sentido histórico do social empreendida por Babette. Ipso facto,  Banquete é uma das obras mais reconhecidas e influentes de Platão e de representação de toda tradição filosófica e literária ocidental. Certamente, é também uma das mais complexas e inesgotáveis, a despeito de sua relativa acessibilidade ao desabituado à imaginação platônica. Sua importância social e prestígio, são responsáveis per se por uma série impressionante de interpretações da história da cultura ocidental.
Bibliografia geral consultada.

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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).