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domingo, 4 de fevereiro de 2024

A Garota da Agulha – Arquétipo & Consciência Histórica e Lendária.

 Eu gosto do lado sombrio, mas também do lado bom. Eu gosto dos dois”. Magnus von Horn

O filme A Garota da Agulha desenvolveu-se a partir de um roteiro que Magnus von Horn co-escreveu com Line Langebek, baseado em aspectos sociais da história da assassina em série dinamarquesa Dagmar Overbye (1887-1929), que manipulou mães empobrecidas para deixar seus filhos supostamente indesejados sob seus cuidados, mas juridicamente tidos como “adotados”, e posteriormente os assassinou. Em Copenhague, a jovem grávida Karoline assume uma posição como “ama de leite” para uma mulher mais velha chamada Dagmar para ajudar a se sustentar. Dagmar opera uma agência de adoção clandestina disfarçada de uma “loja de doces”, auxiliando mães a colocar seus recém-nascidos indesejados em lares adotivos. Ela foi condenada à morte pela primeira vez em 1921, mas mais tarde foi alterada posteriormente pena para prisão perpétua. Overbye é a assassina em série mais prolífica da Dinamarca. Uma coprodução entre a Dinamarca, Polônia e Suécia, foi estrelado por Vic Carmen Sonne e Trine Dyrholm. O filme foi selecionado para competir pela Palm d`Or no 77º Festival de Cinema de Cannes, estreando em 15 de maio de 2024 com aclamação da crítica. Foi nomeado um dos 5 melhores filmes de 2024 pelo National Board of Review. E escolhido como a entrada dinamarquesa para Melhor Filme Internacional, foi indicado ao 97º Oscar. 

O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão na vida terrena, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história real do mundo.

Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a meditação sobre liberdade. O conceito de figuração distingue-se de outros conceitos abstratos da sociologia por incluir expressamente os seres humanos em sua formação social. Contrasta, portanto, decididamente com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, uma forma determinada singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, por tanto por meio do ingresso singular do mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso único dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos apreendidos. Sem sua apropriação, sem, por exemplo, o aprendizado de determinada língua especifica, os humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo concretamente nem de se comunicar uns com os outros.               

O conceito de figuração distingue-se de outros conceitos abstratos da sociologia por incluir expressamente os seres humanos em sua formação social. Contrasta, portanto, decididamente com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, por tanto por meio do ingresso singular do mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos apreendidos pela memória. Sem sua apropriação realmente, sem, por exemplo, o aprendizado de determinada língua especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo concretamente nem de se comunicar uns com os outros. Um ser humano adulto, que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo permanece fora das figurações humanas, pois não é um ser humano.

Um ser humano adulto, que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo social permanece fora de todas as figurações humanas, pois não é um ser humano. As definições são amplas e vagas, e seria legítimo indagar, escolhendo-as mais ou menos ao acaso, para inferir que resultam de um controle, estímulo ou complexo de estímulos que provoca uma reação. Assim, pois, todos os estímulos são controles, pois representam a direção do comportamento por influências grupais, estimulando ou inibindo a ação individual (os sonhos) ou coletivamente (mitos, ritos, símbolos). O controle social pode ser definido como a soma total ou, antes, o conjunto de padrões culturais, símbolos sociais, signos coletivos, valores culturais, ideias e idealidades, tanto como atos quanto como processos diretamente ligados a eles, pelo qual a sociedade de forma inclusiva, opera em cada grupo particular, e cada membro individual participante superam as tensões e os conflitos entre si, através do equilíbrio temporário, e se dispõem a novos esforços criativos. Em toda a dimensão da vida associativa deverá haver algum ajustamento de relações sociais tendentes a prevenir a interferência de direitos civis e a questão dos privilégios entre os indivíduos. São três as funções do estabelecidas pelo controle social: a obtenção e a manutenção da ordem social, da proteção social e da eficiência social. 

O seu emprego na investigação sociológica contribuiu consideravelmente para produzir uma simplificação técnico-metodológica ou uma redução na análise dos problemas sociais, conseguida proporcionalmente, graças à compreensão positiva da integração das contradições correspondentes no sistema de organização das sociedades e da importância relativa de cada um deles, como e enquanto expressão do jogo social da vida humana.  Embora obscuro e equívoco, em seu significado, o conceito de controle social é necessário à investigação sociológica na modernidade, encontraram um sistema de referências propício à sua crítica científica, seleção lógica e coordenação metódica. O crescimento de um jovem convivendo e habitando comum em figurações humanas, como processo social e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação social com os seres humanos, é condição indispensável ao desenvolvimento rumo à humanidade. Portanto, socialização e individualização de um ser humano, são nomes diferentes para o processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros, e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade; nem sempre a sociedade está aberta para o ato de se comunicar.

As definições são amplas e vagas, e seria legítimo indagar, escolhendo-as mais ou menos ao acaso, para inferir que resultam de um controle, estímulo ou complexo de estímulos que provoca uma reação. Assim, pois, todos os estímulos são controles, pois representam a direção do comportamento por influências grupais, estimulando ou inibindo a ação individual ou coletivamente (mitos, ritos, símbolos). O controle social pode ser definido como a soma total ou, antes, o conjunto de padrões culturais, símbolos sociais, signos coletivos, valores culturais, ideias e idealidades, tanto como atos quanto como processos diretamente ligados a eles, pelo qual a sociedade de forma inclusiva, opera em cada grupo particular, e cada membro individual participante superam as tensões e os conflitos entre si, através do equilíbrio temporário, e se dispõem a novos esforços criativos. Ipso facto, em toda a dimensão da vida associativa deverá haver algum ajustamento de relações sociais tendentes a prevenir a interferência de direitos e privilégios entre os indivíduos. Especificamente são três as funções do estabelecidas pelo controle social: a obtenção e a manutenção da ordem social, da proteção social e da eficiência social. O seu emprego hic et nunc na investigação sociológica contribuiu consideravelmente para produzir uma simplificação ou redução na análise dos problemas sociais, conseguida proporcionalmente, graças à compreensão positiva da integração das contradições correspondentes no sistema de organização das sociedades e da importância relativa de cada um deles, como e enquanto expressão do jogo social da vida humana. 

O filme A Garota da Agulha desenvolveu-se a partir de um roteiro que Magnus von Horn co-escreveu com Line Langebek, baseado em aspectos sociais da história da assassina em série dinamarquesa Dagmar Overbye (1887-1929), que manipulou mães empobrecidas para deixar seus filhos supostamente indesejados sob seus cuidados, mas juridicamente tidos como “adotados”, e posteriormente os assassinou. Em Copenhague, a jovem grávida Karoline assume uma posição como “ama de leite” para uma mulher mais velha chamada Dagmar para ajudar a se sustentar. Dagmar opera uma agência de adoção clandestina disfarçada de uma “loja de doces”, auxiliando mães a colocar seus recém-nascidos indesejados em lares adotivos. Ela foi condenada à morte pela primeira vez em 1921, mas mais tarde foi alterada posteriormente pena para prisão perpétua. Overbye é a assassina em série mais prolífica da Dinamarca. Uma coprodução entre a Dinamarca, Polônia e Suécia, foi estrelado por Vic Carmen Sonne e Trine Dyrholm. O filme foi selecionado para competir pela Palm d`Or no 77º Festival de Cinema de Cannes, estreando em 15 de maio de 2024 com aclamação da crítica. Foi nomeado um dos 5 melhores filmes internacionais pelo National Board of Review. E escolhido como a entrada dinamarquesa para Melhor Filme Internacional, foi indicado ao 97º Oscar.

Embora obscuro e equívoco, em seu significado, o conceito de controle social é necessário à investigação sociológica na modernidade, encontraram um sistema de referências propício à sua crítica científica, seleção lógica e coordenação metódica. O crescimento de um jovem convivendo e habitando comum em figurações humanas, como processo social e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação social com os seres humanos, é condição indispensável ao desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização do ser humano, são nomes diferentes para o processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros, e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Quando se fala que uma criança se torna um indivíduo humano por meio da integração em determinadas figurações, como, por exemplo, em famílias, em classes escolares, em comunidades aldeãs ou em Estados, assim como mediante a apropriação e reelaboração de um patrimônio simbólico social, conduz-se o pensamento por entre dois grandes perigos da teoria e das ciências humanas: o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto como que de um agente que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos. Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma outra substância a não ser seres humanos gerados familiarmente por relacões de parentesco entre pais e mães, as sociedades humanas não são simplesmente um aglomerado cumulativo dessas comunidades de pessoas.

O convívio dos seres humanos em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração social, na maior desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isso que o conceito de figuração exprime na vida. Quando se fala que uma criança se torna um indivíduo humano por meio da integração em determinadas figurações, como, por exemplo, em famílias, em classes escolares, em comunidades aldeãs ou em Estados, assim como mediante a apropriação e reelaboração de um patrimônio simbólico social, conduz-se o pensamento por entre dois grandes perigos da teoria e das ciências humanas: o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto como que de um agente que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos. Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma outra substância a não ser seres humanos gerados familiarmente por pais e mães, as sociedades humanas não são  um simples aglomerado cumulativo dessas pessoas. O convívio humano em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração social, na maior desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isto é exatamente o que o conceito abstrato de figuração exprime.  

A Garota da Agulha (Pigen med nålen) tem como representação social um filme de 2024, do gênero terror psicológico histórico, dirigido por Magnus von Horn, nascido em Gotemburgo, em 21 de dezembro de 1983 é um diretor de cinema e roteirista sueco-polonês. Ele se formou na Escola Nacional de Cinema de Łódź em 2013. O terror psicológico geralmente visa criar desconforto psicológico ou pavor expondo as relações sociais entre vulnerabilidades/medos psicológicos e emocionais comuns ou universais e revelando as partes mais obscuras da psique humana que a maioria das pessoas pode reprimir ou negar. Essa ideia é referida na psicologia analítica como as características arquetípicas da sombra: suspeita, desconfiança, dúvida e paranoia dos outros, de si mesmos e do mundo. Poucos meses depois de chegar à Polônia, ele foi brutalmente roubado, o que fez com que ele, o ponto de vista do discurso sobre o poder se interessasse pela violência. O primeiro filme realizado foi um curta-metragem sobre um jovem criminoso polonês. O curta-metragem de 2011, Utan snö, foi indicado ao Prêmio Guldbagge de Melhor Curta-Metragem. Seu primeiro longa-metragem, Efterskalv, estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes de 2015.

Karoline se aproxima de Dagmar, e se depara com a realidade de pesadelo em que entrou involuntariamente. Ela assassinou entre 9 e 25 crianças, incluindo uma das suas, durante um período consecutivo de sete anos, de 1913 a 1920. Em 3 de março de 1921, ela foi condenada à morte em um dos julgamentos mais notáveis da história social dinamarquesa, isto é, um julgamento que mudou definitivamente a legislação sobre cuidados infantis. A sentença foi posteriormente comutada para prisão perpétua. Overbye trabalhava como cuidadora profissional de crianças, cuidando de bebês tipicamente nascidos fora do casamento legal e assassinando seus próprios filhos. Ela os estrangulava, afogava ou queimava os bebês até a morte em seu aquecedor de alvenaria. Os corpos eram cremados, enterrados ou escondidos cuidadosamente no sótão. Overbye foi condenada por nove assassinatos, pois não havia provas suficientes dos outros. Seu advogado de defesa baseou o discurso jurídico no fato social de provavelmente Overbye “ter sofrido abusos quando bebê, mas essa alegação não impressionou o juiz”. Ela se tornou uma das três mulheres condenadas à morte na Dinamarca no século XX, mas, obteve indulto como as outras duas. O indulto pode ser individual ou coletivo e geralmente é concedido por razões humanitárias, políticas ou sociais. Ela morreu na prisão em 6 de maio de 1929, aos 42 anos de idade. Notas relacionadas ao seu estudo de caso estão incluídas no Museu Politihistorisk em Nørrebro, em Copenhague.

Carl Jung vai buscar esta noção metodologicamente em Jakob Burckhardt (1818-1897) e faz dela sinônimo de origem primordial, de enagrama, de margem original, de protótipo social. O pensador evidencia claramente o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos quando escreve que a imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições inferiores da vida do espírito e da dinâmica da vida em geral. Longe de ter a primazia sobre a imagem, a ideia seria tão-somente o comprometimento pragmático do arquétipo imaginário num contexto histórico e epistemológico dado.  Neste sentido, o mito representa um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema tende a compor uma narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e progressivamente os arquétipos em ideias culturais. Na realidade mito explicita a relação de esquema ou um grupo de esquemas.

Do modo que o arquétipo promovia a ideia, o símbolo o nome, e com Gilbert Durand, reconhecidamente um fabuloso antropólogo, filósofo, pesquisador e professor universitário francês por seus trabalhos sobre imaginário e mitologia, que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem anteviu Émile Bréhier, a “narrativa histórica e lendária”.  Foi um filósofo francês, conhecido pelos seus trabalhos sobre a história da filosofia. Seguidor dos estoicos, Bréhier era também um seguidor de Henri Bergson e herdou sua cátedra na Sorbonne e na Academia das Ciências Morais e Políticas, em 1941. É mediante este princípio, que o psicólogo Carl Jung sentiu abrangido por seus conceitos de “Arquétipo” e “Inconsciente coletivo”, justamente o que uniu o médico psiquiatra Jung ao físico Wolfgang Pauli, que em 1945, após ter sido nomeado por Albert Einstein, Pauli recebeu o Prêmio Nobel de Física por sua “contribuição decisiva através da descoberta de uma nova lei da Natureza, o princípio de exclusão ou princípio de Pauli”. A descoberta envolveu a teoria do spin, que é a base de uma teoria social da estrutura da matéria, dando início às pesquisas interdisciplinares pari passu em física e psicologia. A sincronicidade, vale lembrar, se manifesta muitas vezes atemporalmente e/ou em eventos energéticos acausais, e em ambos são violados princípios associados ao paradigma científico vigente.

Magnus von Horn se formou na Escola de Cinema de Łódź em 2013. A Escola de Cinema de Łódź (Polônia) é uma das mais antigas e prestigiadas escolas de cinema da Europa, reconhecida por formar cineastas de renome internacional como Roman Polański, Andrzej Wajda e Krzysztof Kieślowski. Fundada em 1948, a escola oferece cursos de graduação, pós-graduação e doutorado em diversas áreas do cinema, incluindo direção, cinematografia, edição e produção. A escola tem uma longa história e uma reputação sólida na indústria cinematográfica, sendo considerada um berço de talentos. Ela investe em novos departamentos e equipamentos modernos, oferecendo aos alunos acesso a estúdios de TV e rádio, salas de edição e animação, e equipamentos de filmagem em 16mm e 35mm. As aulas são ministradas em polonês, mas a escola oferece um curso intensivo de polonês para estudantes estrangeiros que não dominam per se o idioma. O processo de admissão envolve testes, entrevistas e análise do currículo, sendo bastante competitivo, especialmente para programas de estudos e pesquisas de pós-graduação. A escola é gratuita para cidadãos da União Europeia (UE), enquanto estudantes podem esperar pagar entre 4.000 e 11.000 euros por ano, dependendo do programa. A escola possui uma unidade dinâmica dedicada a viabilizar projetos cinematográficos dos alunos e apoiar institucionalmente as produções autorais.

Além de Polański, Wajda e Kieślowski, a escola também formou renomados diretores de fotografia como Paweł Edelman, Dariusz Wolski e Łukasz Żal.  A Escola de Cinema de Łódź é um local onde os alunos podem desenvolver suas habilidades, ter acesso a recursos de ponta e se conectar com a rica história e tradição do cinema polonês. Na trama cinematográfica poucos meses depois de chegar à Polônia, ele foi brutalmente roubado, uma experiência que despertou seu interesse em explorar pessoas violentas pelo meio de trabalho do cinema. Seu primeiro filme foi um curta-metragem documentário sobre um jovem criminoso polonês. Seu curta de 2011, Without Snow, foi indicado ao Prêmio Guldbagge de Melhor Curta-Metragem. Seu primeiro longa-metragem, The Here After, estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes de 2015. Seu segundo filme, Sweat, foi selecionado para o Festival de Cinema de Cannes de 2020. Seu terceiro longa-metragem, The Girl with the Needle, estreou em Competição no Festival de Cinema de Cannes de 2024, nomeado um dos Cinco Melhores Filmes Internacionais pelo National Board of Review. Recebeu uma indicação de Melhor Longa-Metragem Internacional no 97º Oscar. Em junho de 2025, Magnus von Horn foi convidado a ingressar na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Copenhague é a capital e a maior cidade da Dinamarca. Está situada na costa oriental da ilha da Zelândia, com uma parte menor na ilha adjacente de Amager, ambas banhadas pelas águas do sul do estreito de Øresund, tendo do outro lado do referido estreito a cidade sueca de Malmö. É o principal centro de comércio, transportes, indústria e serviços da Dinamarca, albergando cerca de 25% da população total do país. É a sede da comuna de Copenhaga, pertencente à Região da Capital. Originalmente uma vila de pescadores viking estabelecida no século X nas proximidades do que hoje é Gammel Strand, Copenhaga tornou-se a capital da Dinamarca no início do século XV. A partir do século XVII, consolidou-se como centro regional de poder com suas instituições, defesas e forças armadas. Durante o Renascimento, a cidade serviu como capital de fato da União de Kalmar, sendo a sede da monarquia, governando a maior parte da atual região nórdica em uma união pessoal com a Suécia e a Noruega governada pelo monarca dinamarquês servindo como chefe de estado. A cidade floresceu como o centro cultural e econômico da Escandinávia sob a união por mais de 120 anos, no século XV até o início do século XVI, quando foi dissolvida com a Suécia deixando a união por meio de uma rebelião.

Após um surto de peste e incêndio no século XVIII, a cidade passou por um período de reconstrução sociológica. Isso incluiu a construção do prestigioso distrito de Frederiksstaden e a fundação de instituições culturais como o Teatro Real da Dinamarca e a Academia Real de Belas Artes. Depois de mais desastres no início do século XIX, quando Horatio Nelson (1758-1805) atacou a frota Dano-Norueguesa e bombardeou a cidade, a reconstrução durante a Era de Ouro dinamarquesa trouxe um visual neoclássico à arquitetura de Copenhaga. Mais tarde, após a 2ª guerra mundial (1839-1945), o Plano Finger promoveu o desenvolvimento de moradias e negócios ao longo das cinco linhas ferroviárias urbanas que se estendiam a partir do centro da cidade. Desde a virada do século XXI, Copenhaga tem visto um forte desenvolvimento urbano e cultural, facilitado pelo investimento em suas instituições e infraestrutura. A cidade é o centro cultural, econômico e governamental da Dinamarca; é um dos principais centros financeiros do norte da Europa com a Bolsa de Valores de Copenhaga. A economia de Copenhaga tem visto um rápido desenvolvimento no setor de serviços, especialmente por meio de iniciativas em tecnologia da informação, produtos farmacêuticos e tecnologia limpa.

Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, isto é, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação social, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Friedrich Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, na realidade o que se chama conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada.

O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

Para Friedrich Hegel a evolução não somente faz aparecer o interior originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste e, enquanto momentos do seu desenvolvimento.

Desde a conclusão da ponte de Øresund, Copenhaga tornou-se cada vez mais integrada à província sueca de Scania e sua maior cidade, Malmö, formando a região de Øresund. Com várias pontes conectando os vários distritos, a paisagem urbana é caracterizada por parques, passeios e orlas. Os marcos de Copenhague, como os Jardins de Tivoli, a estátua da Pequena Sereia, os palácios Amalienborg e Christiansborg, o Castelo Rosenborg, a Igreja de Mármore, Børsen e muitos museus, restaurantes e casas noturnas são atrações turísticas importantes. Copenhaga é o lar da Universidade de Copenhaga, da Technical University of Denmark, da Copenhagen Business School e da IT University of Copenhagen. A Universidade de Copenhaga, fundada em 1479, é a instituição de ensino universitário mais antiga da Dinamarca. Copenhague é a casa dos clubes de futebol F.C. Copenhague e Brøndby IF. A Maratona Anual de Copenhague foi criada em 1980. Copenhague é uma das cidades mais amigas da bicicleta do mundo. A Movia é a empresa de transporte público de massa que atende todo o Leste da Dinamarca, exceto Bornholm. O Metrô de Copenhaga, lançado em 2002, serve o centro de Copenhaga. Além disso, o Copenhagen S-train, o Lokaltog e a rede Coast Line servem e conectam o centro de Copenhague aos bairros periféricos. Atende a cerca de 2,5 milhões de passageiros por mês, o Aeroporto de Copenhague, Kastrup, é o aeroporto mais movimentado dos países nórdicos.

Susto é um sentimento biológico que ocorre quando uma pessoa vê ou ouve algo inesperado em sua vida cotidiana. Ela vem do Latim surctus, alteração de surrectus, “surgido, levantado subitamente”, de sugere, “levantar-se, erguer-se”. É uma reação do corpo humano contra possíveis ameaças, que resulta no lançamento do hormônio adrenalina na corrente sanguínea. A adrenalina gera vários efeitos no corpo humano, como redirecionamento da corrente sanguínea do sistema intestinal para os músculos e a descarga de adrenalina provoca uma série de efeitos. O primeiro deles é a aceleração dos batimentos do coração e a elevação da pressão arterial. O ritmo frenético aumenta o fluxo sanguíneo nos músculos. O intuito do susto é, biologicamente, preparar o corpo humano a reagir contra a ameaça, mesmo quando esta ameaça de fato não existe como ocorre por exemplo com a exibição de filmes de horror. Mas do ponto de vista clínico, o susto pode causar parada cardíaca e causar tremedeiras, dilatação da pupila e/ou dores corporais, que podem ser os sinais do início da parada cardíaca em alguns casos.

O “pulo de susto” (Jumpscare) é uma técnica frequentemente usada em filmes de terror e jogos eletrônicos com intuito de assustar o público, surpreendendo-o com uma mudança abrupta de imagem ou evento, geralmente ocorrendo com um som alto e assustador. A técnica foi descrita como “um dos blocos de construção mais básicos dos filmes de terror”. O Jumpscare pode surpreender o espectador ao surgir em um ponto do filme em que a trilha sonora está quieta e o público não está esperando nada alarmante acontecer, ou pode ser a recompensa súbita de um longo período de suspense. Alguns descreveram o recurso como modo preguiçoso de assustar os telespectadores, e acreditam que o gênero de terror sofreu um declínio nos anos após uma excessiva confiança no tropo, estabelecendo-o um clichê dos filmes de terror modernos.

A aflição representa um sentimento de agonia, sofrimento intenso, preocupação ou desassossego por alguma causa ou alguma coisa em que vá afetar a vida direta, ou indiretamente. Aflição é ainda a sensação de que algo “não está certo”, ou de que alguma coisa errada ou traumática possa vir acontecer. Em 1668, o dramaturgo grego Ésquilo, reconhecido frequentemente como o pai da tragédia, é o mais antigo dos três trágicos os outros dois são Sófocles e Eurípedes gregos cujas peças ainda existem; já afirmava de forma extremamente atual que “os sofrimentos humanos têm facetas múltiplas: nunca se encontra outra dor do mesmo tom”. Segundo Paula Cassel, o sofrimento “é um estado de aflição severa, associado a acontecimentos que ameaçam a integridade de uma pessoa. Sofrimento exige consciência de si, envolve as emoções, tem efeitos nas relações pessoais do indivíduo ou da pessoa, e tem um impacto no corpo”. Sigmund Freud de forma mais fatídica dizia, em 1930, que “o mal-estar é inerente à condição humana”. Em sua vasta obra teórica e clínica produtiva ele não demonstra soluções para tal angústia. A famosa definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) nos traz o desafio: - “Cuidado paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade [social] da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual”. A partir de tais definições sociais e/ou culturais, em última análise, podemos inferir que o objeto do cuidado paliativo é presentemente a questão tópica da aflição humana.

Os objetivos sociais são o controle de sintomas, a alocação adequada de recursos, a realização de diretrizes avançadas e o não prolongamento artificial de vida. Importante ter atenção para não subestimar sintomas: não se quantifica dor através de exames laboratoriais ou tomógrafos, o que não pode de maneira alguma deslegitima-la. Jacques Salomé de forma provocativa afirma que qualquer sofrimento pode ser entendido como um sinal, um convite para mudar algo em nosso modo de vida. Neste trecho, sofrimento aparece como sinônimo de conflito psicológico. Incontáveis são os convites dos enfermos às equipes médicas de saúde, a maioria deles ignorados. Somatizações que podem ser representadas por invites inconscientes, angústias e medos são diversas vezes vistos como supérfluos quando comparados ao que se pode mensurar ou palpar. Oportunidades de metamorfoses épicas podem ser perdidas se esta dimensão do sofrimento não emergir. Medo de morrer, raiva, tristeza, barganha, aceitação, culpas, não aceitação social da morte, ausência de significado de vida, conflitos familiares, conspiração do silêncio e no trabalho e risco de luto patológico são levados à superfície da boa comunicação.

Acompanhamento familiar, encaminhamento externo, psicoterapia de apoio permanente ou breve são essenciais para uma condução adequada do caso. Por fim, não podem faltar reuniões familiares. Quantas forem necessárias para desmistificar pensamentos mágicos ou conceitos médicos irreais. Cuidar dos familiares se torna tão importante quanto cuidar do paciente. Saber em qual ambiente e circunstâncias sociais está inserido o indivíduo socialmente redimensiona expectativas e reduz suas dificuldades de acesso à terapêutica. Alguns complicadores sociais podem ser o abismo entre a indicação do profissional de saúde e a concretização dela. A saber ausência de cuidador, baixa renda familiar, dificuldade de atendimento médico, conflitos familiares, estresse do cuidador, pendências legais ou financeiras, rede de suporte insuficiente, dificuldade de emissão de atestado de óbito, local para sepultamento ou cremação. Alguns pontos podem não parecer relevantes e provocarem sofrimento. A necessidade de resolução de pendência contratual ou uma dívida. A ausência de rede de suporte traz consequências não apenas emocionais. Há muito o que se caminhar nesta direção.

Os problemas sociais de cura dos doentes merecem uma propedêutica de solução: providenciar cuidador, orientação legal e orientação financeira, acompanhamento individual, acompanhamento familiar, orientação sobre óbito, institucionalização e reunião familiar. Os objetivos são: organizar testamentos e benefícios; regularizar questões financeiras; providenciar funeral e atestado de óbito; ser cuidado por alguém; amparar o cuidador e a família; definir local de óbito. Não somente de carne nós somos feitos. Mesmo os ateus apresentam questões espirituais a serem tratadas, que não se limitam ao cunho religioso. Conflitos com Deus, conflitos religiosos com familiares, proselitismo, restrição ao culto, destruição de valores, ritos ou sacramentos, promessas e obrigações pendentes, ausência de sentido espiritual, expectativas miraculosas e culpa religiosa devem ser investigados por um capelão. Busca-se estar em paz com o Criador, receber o perdão de Deus, receber ritos de sua tradição, sentimento de transcendência, síntese de vida e legado. Isso acontece através da instrumentalização de orientação disciplinar espiritual e religiosa, estímulo de espiritualidade, contato com sacerdote da tradição e orientações familiares. Depois de trabalho multidisciplinar as chances de um fim de vida sofrido reduzem, mas não se esgotam em perseverança diante da complexidade humana. Sobre este aspecto da dimensão espiritual é preciso ascender à propedêutica da consciência transcendental à consciência pura.

Se René Descartes (1596-1650) foi um filósofo e matemático francês, criador do pensamento cartesiano, sistema filosófico que deu origem à Filosofia Moderna, foi um tímido que precisava ir muito mais longe, pois precisamos fazer da consciência o próprio absoluto. Nesse mundo cartesianamente concebido e conduzido, o ideal narcísico de uma consciência idêntica a si mesmo é plenamente atingido. Nele para lembrarmos como disse Louis Althusser (1918-1990), os nascimentos teóricos estão perfeitamente regulados: - “O pré-natal é institucional. Quando nasce uma nova ciência, está já o círculo de família preparado para o espanto, o júbilo e o batismo”. Acontece, porém, que não há dominação que consiga subjugar a totalidade do ser humano e não há controle que consiga ser absoluto. E o saber continuou produzindo filhos naturais. Muitos foram aceitos apenas pelos próprios pais e por um círculo restrito de amigos; outros foram abandonados e viveram uma amarga solidão, mas outros ainda se tornaram, por assim dizer: “filhos sem pais na teoria”. O próprio Freud, segundo Garcia-Roza, no ensaio: Freud e o Inconsciente (2008), percebe a psicanálise como “a terceira grande ferida narcísica sofrida pelo saber ocidental ao produzir um descentramento da razão e da consciência, pois, as outras duas consciências foram as produzidas por Copérnico e por Darwin”. Originalmente a psicanálise produziu uma queda da razão ocidental e da consciência do lugar sagrado que se encontravam. Isto é, ao fazer da consciência um mero efeito de superfície do Inconsciente, Freud operou uma inversão do cartesianismo que dificilmente pode ser negada, mas depois aprendemos a ser cautelosos.

Freud revela uma mente dividida contra si mesma, com falta de autoconhecimento e governada por impulsos instintivos incontroláveis. Por causa de suas implicações perturbadoras, Freud comparou suas descobertas às do astrônomo Nicolau Copérnico, o primeiro a descobrir que o Sol não girava em torno da Terra. Quando Nicolau Copérnico ao demonstrar racionalmente que a Terra gira em torno do Sol, sendo, portanto, apenas “mais um” planeta e Charles Darwin que mostrou que o homem na forma em que o reconhecemos é resultado de uma evolução natural, sendo apenas “mais uma” espécie, deram um forte golpe no antropocentrismo. Para o biólogo Edward Manier, certamente a teoria darwiniana enfraquece o antropocentrismo que compreende a existência das espécies vivas e do planeta em que habitamos como estando à disposição dos seres humanos. Edward Manier provavelmente contestaria a expressão “nos destronou de nosso antropocentrismo”, com a genética diante das possibilidades científicas e éticas, porque ela toma por certos os contextos polêmicos em que Darwin usou essa retórica que nossos chamados “poderes superiores” da razão científica, estética e moral não exigiam uma intervenção divina especial, isto é, que eles poderiam ser plausivelmente vistos como o resultado genealógico de um continuum natural desses poderes existente no reino animal.

Ele sustentou que a questão da tradição da teologia natural inglesa arrogantemente “entronizou” os seres humanos como se estivessem especialmente ligados ao divino, e se opôs e, de modo geral, minou essa tradição específica e seu correlato filosófico dualista. Darwin não fez nada para diminuir a importância ou o status desses “poderes superiores”, ou seja, a questão no plano da razão e os sentimentos morais. Quando jovem, ele achava que suas concepções apontariam o caminho para uma nova síntese das concepções de David Hume que não prescinde a visão do empirismo e de Immanuel Kant sobre o papel da “razão pura” na ciência e na moralidade. Sua compreensão de Kant era mínima, mas sua posição se encontra na linhagem ancestral de esforços analíticos consideráveis para encontrar as raízes dos sentimentos morais humanos numa única natureza humana como por exemplo, de James Q. Wilson, no ensaio The Moral Sense (Free Press Paperbacks, 1997). A teoria de Darwin efetivamente enfraquece qualquer “antropocentrismo” que implique que a Terra e todas as coisas vivas nela tivessem sido colocadas aqui para o benefício dos seres humanos e apenas deles. O darwinismo só foi apoiado por amplo consenso entre os cientistas no segundo quartel do século XX. Ocorreu com o desenvolvimento da “nova síntese” que associava o darwinismo, o mendelismo e as teorias sofisticadas e empíricas bem sustentadas da hereditariedade e mutação humana.

Reconhecido pelo padrão de que não há ideias inatas e que todo o conhecimento vem da experiência rigorosamente ao nexo de causalidade e necessidade, David Hume em vez de tomar a noção de causalidade, como concedido, desafia-nos a considerar o que a experiência nos permite saber sobre a relação estabelecida entre causa e efeito, pois nada é mais usual e natural, para aqueles que pretendem oferecer ao mundo novas descobertas filosóficas e científicas que insinuar elogios ao seu próprio sistema. O homem de discernimento e de sabedoria percebe facilmente a fragilidade do fundamento, até mesmo daqueles sistemas bem aceitos e com maiores pretensões de conter raciocínios precisos e profundos. Isto é, alguns princípios acolhidos em torno da confiança; consequências deles deduzidas de maneira defeituosa; falta de coerência entre as partes, e de evidência no todo – tudo isso se pode encontrar nos sistemas dos mais eminentes filósofos, e parece cobrir de opróbrio a própria filosofia, pois “a plebe lá fora é capaz de julgar, pelo barulho e vozerio que ouve, que nem tudo vai bem aqui dentro”.

Neste âmbito tampouco é necessário um conhecimento muito profundo para se descobrir a distância e imperfeição e que de fato, não há nada que não seja objeto de discussão e sobre o qual os estudiosos não manifestam opiniões contrárias. Se por um lado multiplicam-se as disputas, como se tudo fora incerto; e essas disputas são conduzidas da maneira mais acalorada, como se tudo fora certo. É daí que surge na opinião de Hume, o preconceito comum contra todo tipo de raciocínio metafísico. Mesmo por parte daqueles que são doutos e que costumam avaliar de maneira justa todos os outros gêneros da literatura. E realmente nada, a não ser o mais determinado ceticismo, juntamente como um elevado grau de indolência, pode justificar tal aversão à metafísica. Pois se a verdade está ao alcance da capacidade humana, é certo que ela deva esconder em algum lugar muito profundo e abstruso. Não por acaso, devemos reunir nossos experimentos mediante a observação cuidadosa da vida. Tomando-os tais aspectos como aparecem no curso habitual do mundo, no comportamento dos homens em suas ocupações e prazeres. E reunidos e comparados, podemos estabelecer, com base neles, uma concepção condicionada de ciência, que não será inferior em certeza, mas superior em utilidade, a qualquer outra que esteja ao alcance da compreensão humana.

Bibliografia Geral Consultada.

GRANGER, Gilles-Gaston, Essai d`une philosophie du style. 2. ed. Paris: Odile Jacob, 1988; LE BRETON, David, Compreender a Dor. Lisboa: Editor Estrela Polar; 1995; KAPLAN, E. Ann, A Mulher e o Cinema: Os Dois Lados da Câmera. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1995; MERLEAU-PONTY, Maurice, Le Cinema et la Nouvelle Psychologie. Paris: Éditions Gallimard, 1996; BECHERIE, Paul, Genesis de los Conceptos Freudianos. Buenos Aires: Ediciones Paidós, 1998; TAVARES, Ana Maria, Armadilhas para os Sentidos: Uma Experiência no Espaço-Tempo da Arte. Tese de Doutorado em Artes. Departamento de Artes Plásticas. Escola de Comunicações e Artes. Universidade de São Paulo, 2000; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante, “O Lugar da Literatura na Constituição da Clínica Psicanalítica em Freud”. In: Psychê. Ano IX, nº 16. São Paulo. Julho-dezembro de 2005; pp. 115-132; GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo, Freud e o Inconsciente. 23ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008; DAMASCENO, Maurício Henriques, Origem Filosófica e Significado Metapsicológico do Conceito de Pulsão de Morte em Freud. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2008; KNEIPP, Sérgio Ribeiro, A Influência da Linguagem Cinematográfica na Moderna Prosa de Horror: Um Estudo de Caso, O Iluminado, de Stephen King. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura. Brasília: Universidade de Brasília, 2011; CERTEAU, Michel de, A Invenção do Cotidiano. 1. Artes de Fazer. 22ª edição. Petrópolis (J): Editoras Vozes, 2014; BABO, Thiago, Uma Alternativa Nórdica à Europa? Uma Análise da Política Externa e de Segurança da Dinamarca. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015; FIGUR, Elvio Nei, “Religião e Cinema: Sobrevoo sobre ‘A Festa de Babette’”. In: Sacrilegens, vol. 13, nº 1, 2016; FREUD, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos. Porto Alegre: L&PM Editor, 2017; MELO, Petra Pastl Montarroyos, Cinema do Medo: Um Estudo sobre as Motivações Espectatoriais diante dos Filmes de Horror. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Centro de Artes e Comunicação. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2017; MORAES, Felipe Moralles e, Neoconservadorismo: A Teoria da Injustiça de Jürgen Habermas. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2024; entre outros.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Thomas Vinterberg - Cinema, Comuna & Transcendentalismo.

                                                      Cada um é livre de escolher o seu estilo de verdade”. Gilbert Durand                               

      

O idealismo alemão também reconhecido idealismo, ou filosofia pós-Kantiana, é representante  das orientações filosóficas mais influentes da história. Tem raízes na história da cultura alemã. Mas nem por isso pode ser considerado um fenômeno por assim dizer nacional. Antes deve ser visto no horizonte de diferentes formas de influência, recepção e aculturação, em que o idealismo alemão interagiu com outros elementos da história cultural europeia, como a ciência, a religião, a arte, o direito e a política. Assim, para compreender o idealismo alemão, deve-se levar em consideração outras orientações filosóficas e culturais essenciais, como o empirismo britânico, o racionalismo, como o holandês, de Espinoza, o Iluminismo francês e assim por diante. Torna-se claro que o idealismo alemão é um momento essencial, mas sobretudo representativo do desenvolvimento cultural da Europa, unitário em sua diversidade. Salvo melhor juízo, ainda não se escreveu uma abrangente história da recepção e repercussão do idealismo alemão fora da Europa. É sabido que, à época de seu surgimento, o idealismo alemão já era percebido em outras nações europeias como um estímulo intelectual ou desafio à reflexão. São relativamente recentes os estudos históricos e sistemáticos do idealismo alemão. A investigação sobre o idealismo alemão está longe de ser concluída ou, mesmo, conclusiva. Ipso facto, o idealismo alemão não se esgota nas incursões dos grandes mestres Immanuel Kant, Johann Gottlieb Fichte, Georg Friedrich Hegel e Friedrich Schelling. Em primeiro lugar, entendemos significativamente que Friedrich Hegel define na Introdução como se situa nele o problema geral do conhecimento. Vemos como em certo aspecto abstrato retorna ao ponto de vista de Kant e de Fichte. 

A Fenomenologia não representa nem uma noumenologia nem uma ontologia, mas segue sendo, todavia, um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia estabelecer e relação de conhecer se só o Absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é o Absoluto? Não obstante, em vez de apresentar o saber do Absoluto “em si para si”, Hegel considera o saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber fenomênico, mediante sua autocrítica, é como se eleva ao saber absoluto. Em segundo lugar, Friedrich Hegel define a Fenomenologia como desenvolvimento e “cultura” de seu progressivo afinamento da consciência, natural acerca da ciência, o saber filosófico, o saber do Absoluto; por sua vez indica a necessidade da evolução. Enfim, Hegel precisa a técnica do desenvolvimento fenomenológico, demonstra em que sentido este desenvolvimento é precisamente obra própria da consciência que faz sua aparição na experiência sensorial, em que sentido é suscetível de ser repensado e apreendido em sua necessidade de pensar o domínio da filosofia. A necessidade da arte é a necessidade racional como forma de pensar. Na Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não fosse mais que “teoria do conhecimento” em sua démarche. E não obstante, a Fenomenologia, como têm assinalado seus comentaristas, demarca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Immanuel Kant e de Johann Gottlieb Fichte, exceto nas interpretações e análises críticas de pensadores contemporâneos, desde a década de 1950, tais como Jean Wahl, Pierre-Jean Labarrière, Alexandre Kojève, Jean Hippolite, Hans-Georg Gadamer, Leandro Konder e outros. 

Em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Schelling quando opunha no Bruno o saber fenomênico e o saber Absoluto, mas não demonstrava os laços afetivos entre um e outro. Uma vez colocado a questão do saber Absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico por sua parte fica igualmente cortado (separado) do Saber Absoluto. De outra parte, Hegel volta ao saber fenomênico, isto é, precisamente ao saber da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber Absoluto que, todavia, não se deve saber como tal. O termo “idealismo alemão” é amplamente difundido, mas não há acordo sobre o que significa. Hegel, que considera Kant um idealista, inventou a noção de uma tradição idealista alemã, portanto do idealismo alemão, já no primeiro texto filosófico. No Differenzschrift ele indica formas de idealismo nos escritos hic et nunc de Kant, Fichte e Schelling.

                                 

Se a Fenomenologia representa “o itinerário da alma que se eleva ao espírito por meio da consciência”, fora de dúvida a ideia de semelhante itinerário foi sugerida a Hegel pari passu com a convergência entre as obras literárias, como também aquelas que nos parecem referidas como “novelas de cultura” tendo em vista a leitura realizada sobre o Emílio de Jean-Jacques Rousseau e que, na bendita obra encontrava uma primeira história da consciência natural elevando-se por si mesma a liberdade, através das experiências que lhe são próprias e que são particularmente formadoras. Daí a seguinte tese: ao “formar a coisa, forma-se a si mesmo”. De acordo com Hans Georg Gadamer, já nessa descrição de Hegel sobre a “formação prática”, reconhece-se a determinação fundamental do espírito histórico: a de se reconciliar consigo mesmo, e de reconhecer-se a si mesmo na diversidade. Essa determinação se torna inteiramente nítida na ideia de conspícua de “formação teórica”. Comportar-se teoricamente já é, como tal, um alheamento, ou seja, uma exigência de ocupar-se com um não-imediato, com algo de natureza estranha, com algo da reminiscência, que pertença à memória e ao pensamento’. A formação teórica, nunca é demais repetir, conduz o homem, além do que o homem sabe e vivencia imediatamente. Consiste em aprender que também o diferente tem sua validade em encontrar pontos de vista universais, a fim de apreender a coisa, isto é, “o que há de objetivo na sua liberdade” e isento de interesses egoísticos. Reconhecer no estranho o que é próprio, familiarizar-se com ele, eis o movimento fundamental do Espírito cujo ser é apenas o retorno a si mesmo a partir do diferente.

Friedrich Hegel que parte da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a própria história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída a caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel “existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento”, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são “instrumentos de sua manifestação”. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito Absoluto. Para compreender o sistema hegeliano é necessário começar por uma representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, ao ler a obra de Hegel, a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato para alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata. Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. A Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção  de que procede não fosse mais que unidade abstrata, e não o que é, a noção que, “por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva.  

A determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas até a sua própria vida. Chama-se idealidade, idealização, precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, isto é, como seu princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Hegel, afirma, portanto, que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua realidade. A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito “consciente de si”. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito.

Para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: “trazer à existência, isto é, à consciência”. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: “produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é”. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, são a razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. Entretanto, a razão não ajuda em quase nada a criança, o inculto. É uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no que é o ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, toda atividade, não possui nenhum outro interesse além do que “é em si”, no seu interior, manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo.

             Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem. O europeu sabe de si, dizia Hegel, pois é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens “falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem”. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre “somente se sabe que o é”. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer a representação evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução podemos também na dúvida falar da mudança. Mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta, é ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja exteriormente negado. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo.

O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia evoluir. Esta unidade do existente, o que existe, e do que é em si é o essencial da evolução. É um conceito especulativo, esta unidade do diferente, do gérmen e do desenvolvido. Ambas estas coisas são duas e, no entanto, uma. É um conceito da razão. Por isso só todas as outras determinações são inteligíveis, mas o entendimento abstrato não pode conceber isto. O entendimento fica nas diferenças, só pode compreender abstrações, não o concreto, nem o conceito. Resumindo, teremos uma única vida a qual está oculta. Mas depois entra na existência e separadamente, na multiplicidade das determinações, e que com graus distintos, são necessárias. E juntas de novo, constituem um sistema. Essa representação é uma imagem da história da filosofia. O primeiro momento era o em si da realização, e em si do gérmen etc. O segundo é a existência, aquilo que resulta. Assim, o terceiro é a identidade de ambos, mais precisamente agora o fruto da evolução, o resultado de todo este movimento.

E a isto Friedrich Hegel chama abstratamente “o ser por si”. É o “por si” do homem, do espírito mesmo. Somente o espírito chega a ser verdadeiro por si, idêntico consigo. O que o espírito produz, seu objeto de pensamento, é ele mesmo. Ele é um desembocar em seu outro. O desenvolvimento do espírito é um desprendimento, um desdobrar-se, e por isso, ao mesmo tempo, um desafogo. O que é processual na evolução não somente faz aparecer o interior originário, mas exterioriza o pensamento concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, uma relação de apropriação que impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste Este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta.

O chamado fim do idealismo alemão, seguido do aparecimento do materialismo histórico de Karl Marx e Friedrich Engels, o pensamento crítico de Friedrich Nietzsche e as teorias de Sigmund Freud pareciam unir-se na luta contra a filosofia positivista que ganhava força com a industrialização: ordem & progresso unidos sob a batuta da ciência. Recordem-se que o anarquismo tinha florescido raízes em Ascona, desde que em 1869, o célebre anarquista russo Mikhail Bakunin tinha vindo residir como refugiado político. Também pouco tempo depois começaram a chegar outros refugiados com projetos distintos, como o de fundar um “convento laico com o nome de Fraternitas”, por iniciativa dos teósofos Alfredo Pioda e Franz Hartmann, justamente nas montanhas de Ascona, que receberiam, mais tarde, o nome de Monte Verità: - “Si erge sulle colline che sovrastano Ascona ed il Lago Maggiore, e rappresenta da sempre un polo magnetico di convergenza di idee, tendenze, sperimentazioni e personaggi storici presentati oggi nell`offerta di un progetto moderno di rilanci”. Em 1900, sob o ambiente histórico e filosófico da Europa do período da pré-guerra, aparece a singular realização da utopia que tomou o nome de Monte Verità. Singular não só pela questão metafísica, disciplinar e naturalista, mas pela radicalidade das suas propostas iniciais, e pela atração que exerceu sobre inumeráveis artistas e pensadores, e também inclusivamente pelo fato de ter preparado o terreno para a criação do Círculo de Eranos (cf. Bernardini, 2011), designação dada aos encontros dedicados aos estudos da espiritualidade que ocorreram próximo a Ascona, na Suíça.

        Não só no âmbito comparado da história da sociologia, mas no conjunto das ciências sociais em geral, encontram-se as mais diversas explicações sobre como e por que se dá a mudança, a evolução, o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a crise, a recessão, o golpe de classe, a reforma, a revolução. Para explicar as transformações sociais, em sentido amplo e comparativo, o sociólogo, antropólogo, economista, politólogo, psicólogo, historiador e outros cientistas têm buscado causas, condições, tendências, fatores, indicadores, variáveis, e assim por diante. Ao analisar as condições de formação, funcionamento, reprodução, generalização, mudança e crise do capitalismo globalizado, os cientistas sociais têm proposto explicações que perduram e nem sempre se excluem. Em certos casos, umas implicam outras, ou as englobam. Em primeiro lugar, uma interpretação que se generalizou bastante, desde os arquétipos comparados da Revolução Industrial, estabelece que o progresso econômico é o resultado da “criatividade empresarial”. Isto é, toda mudança social, inovação ou modernização econômica substantiva tende a consumar a capacidade de criação e liderança de empresários imaginosos, inventivos ou mesmo lúdicos, capazes de articular e dinamizar os fatores da produção preexistentes e novos. Essa interpretação tem os seus principais enunciados nos escritos de economistas clássicos, seus discípulos e seguidores no século XIX-XX. Os valores relacionados aos self-made man ao tycoon, ao capitão de indústria, ao pioneiro, à identidade entre propriedade privada, livre empresa e sociedade aberta, ligam-se à tese de que a criatividade é a base do progresso. 

O grupo de Eranos foi fundado por Olga Froebe-Kapteyn em 1933, e as conferências ocorreram anualmente em sua propriedade desde então - às margens do Lago Maggiore, próximo a Ascona, na Suíça. O nome, sugerido por Rudolf Otto, é derivação da palavra grega que significa um banquete onde não existe um anfitrião a prover os convidados, mas onde todos contribuem com sua comida, o qual teve como expoentes figuras como: Carl G. Jung, Rudolf Otto, Karl Kerenyi, Joseph Campbell, Mircea Eliade, Gilbert Durand, Gershim Scholem, Henry Corbin e Gerardus van der Leeuw. Na região sul dos Alpes suíços, o Ticino, localiza-se vários lagos da Suíça italiana, entre eles o Lago Maggiore, imponente pela sua extensão, beleza e por se achar encravado no coração dos Alpes. Chegar às aldeias ribeirinhas do lago é como aterrar numa espécie de oásis. No meio de uma paisagem tropical, cujos grandes picos se refletem na superfície como espectro brilhante dos lagos. No século XIX, várias povoações estabeleceram-se ao seu redor, entre elas a livre comunidade de Ascona. A região está dotada de um clima subtropical muito diferente das temperaturas extremas do resto da Suíça. A riqueza mineral é enorme e dá ao lugar um magnetismo especial que propicia o aparecimento de inumeráveis lendas. A região adquiriu um prestígio nomológico de paraíso terrestre, quase mágico. E rapidamente começou a receber refugiados políticos e pensadores que fugiam da vida das grandes cidades europeias, ao que contribuía a tradicional neutralidade Suíça face aos conflitos políticos do resto da Europa.

             No caso específico A Comuna (2016), o que estou tentando demonstrar, afirma o cineasta Thomas Vinterberg em certo sentido, é que a vida continua, independente de ser uma boa comunidade ou não. As pessoas morrem, se apaixonam, se “desapaixonam” – mas fazem-no em conjunto. Esta é a diferença. Elas vivem num nível diferente do que estamos habituados. Começo por tentar manter a ideia simples e depois acabo por abandalhar tudo. Eu tive um professor que, uma vez numa conversa comigo e outro colega, disse que eu começava muito sólido, muito certo e depois a minha especialidade era baralhar tudo. É assim que trabalho. Ao outro ele disse o oposto, que ele iniciava muito certinho, mas depois precisava de inserir algum elemento sexy, abandalhado ou perverso para ficar menos chato. Uma história simples pode se tornar chata e previsível enquanto a vida é uma anarquia. Isto é o mais interessante. Os seres humanos têm muitos comportamentos irracionais, dizem coisas como “agora eu vou” e sentam-se e ficam na conversa mais de uma hora. Não faz sentido, mas é como fazemos. Ou podemos ir a um funeral e rir. A vida não faz sentido e fico entediado com filmes que fazem sentido. É como o Lars von Trier. É uma contradição, ele adora jogar com os media, dizer que é avant-garde, que explora a forma. É onde ele começa – e as personagens e atores só entram algures lá para a frente. Eu demorei um bocado a descobrir que não sou este tipo de realizador. Há pessoas que esperam que eu explore os media, mas eu não o faço. Eu quero explorar a natureza humana.

O exemplo histórico de Ascona, é demograficamente uma comuna da Suíça, no Cantão Tessino, com 5.489 habitantes. Estende-se na área em torno de 5,0 km², de densidade populacional de 1.016 habitantes/km². Confina com as seguintes comunas: Brissago, comuna da Suíça, no Cantão Tessino, com cerca de 1.981 habitantes, Intragna, estendia-se por área de 24,1 km², de densidade populacional de 37 hab/km², Locarno, estende-se pelas margens do Lago Maggiore por área de 19,42 km², de densidade populacional de 764 hab/km², Losone, com cerca de 6.329 habitantes. Estende-se por área de 9,50 km², de densidade populacional de 666 hab/km². Ronco sopra Ascona, San Nazzaro. Ascona é um aglomerado de pescadores com delicioso sabor italiano, nas margens do lago Maggiore. No Verão é realizado o enorme e atrativo Festival de Cinema de Locarno, a 15 minutos de Ascona. Também alberga o Monte Verità, onde nos finais do século XIX se estabeleceu uma comuna naturista e feminista impar que foi visitada nada menos pelo Hermann Hesse e o psicólogo Carl Gustav Jung, entre outros. O restaurante La Casetta do hotel Eden Roc é um front e uma espécie de ilha no médio da beleza natural do lago Maggiore. Uma nota curiosa é que neste restaurante tiveram lugar durante a 2ª guerra mundial, que tem início em 1939 e se estende até 1945, que estima-se terem morrido entre 75 a 85 milhões de pessoas, importantes Encontros entre os aliados e o Alto Comando alemão para pôr fim à guerra em Itália. A história real do projeto de assentamento alternativo começou em Veldes em 1899 quando fazia parte da Áustria, posteriormente na Eslovênia. A professora de música Ida Hofmann, que cresceu na Transilvânia, e o filho do industrial belga, Henri Oedenkoven, se conheceram lá durante uma estada na instalação naturopática de Rikli. Ambos eram desconhecidos um do outro, mas desenvolveram uma forte simpatia com o convívio de um pelo outro, nas poucas semanas de seu tratamento conjunto. Eles se juntaram a Karl Gräser, um oficial do exército dos Habsburgos, que também estava recebendo uma cura do heliopata (“médico do sol”) Arnold Rikli, e planejava renunciar o mais rápido possível.

A perspectiva de Karl foi moldada por seu irmão Gusto, que era um andarilho há um ano. Os três irmãos Karl, Ernst e Gusto fizeram uma caminhada de Veldes a Florença. O pintor Ernst Heinrich Graeser conviveu algumas vezes em Monte Verità e atraiu estudantes, como Willi Baumeister, Oskar Schlemmer e Johannes Itten para a colônia intimamente relacionada em Amden, no Lago Walen. Uma correspondência intensiva desenvolvida entre Oedenkoven e Hofmann, que levou a reunião em Munique em outubro de 1900. Além dos iniciadores Oedenkoven e Hofmann, os irmãos Karl e Gustav Gräser (“Gusto”) participaram deste encontro, assim como a irmã de Ida, Jenny, a professora Lotte Hattemer e seu amigo Ferdinand Brune de Graz, filho de um proprietário de terras teosófico.  Após a apresentação do “Plano de Henri”, a constituição da chamada “cooperativa de hortaliças”, foi decidido que “os bens móveis de cada pessoa deveriam ser destinados à constituição de uma instituição naturopática”. A maior parte do lucro esperado voltaria para o projeto, o restante do lucro seria distribuído entre os membros. Se um membro por qualquer motivo pretender deixar a comunidade do projeto posteriormente, o capital integralizado deve ser devolvido a ele assim “quando estiver líquido”. Decidiu-se também que a cooperativa deveria ser fundada nas margens de um dos lagos do norte da Itália e que, para encontrar o lugar certo, era necessário partir imediatamente a pé. Além disso, discordavam profundamente do rumo que as sociedades ocidentais estavam a tomar. Decidiram neste sentido adotar politicamente a chamada “terceira via” reconhecida na Alemanha como Lebensreform, como antecedente o pensamento de Eduard Bernstein. Muitos jovens da burguesia europeia que não desejavam transformações profundas na economia sentiram-se atraídos por este projeto. Tal foi o caso do casal Ida Hofmann e Henry Oedenkoven, ela professora e, ele, jovem herdeiro. Ida Hoffmann, foi autora de obras tais como: A Contribution to the Female Questio; The Importance of True Theosophy, sendo esta última em italiano. Compilou algumas experiências reconhecidas: Notes Towards the Promotion of the Vegetarian Lifestyle, e também escreveu junto com Henri Oedenkoven um livro em alemão sobre o Monte Verità. Também as ideias de Karl Graser influenciaram a formação do grupo.

Gustav Graser preconizava que as “reformas de vida” devia se inspirar no exemplo de Émile, de Jean-Jacques Rousseau, quando disse “Emílio foi o melhor e mais importante de todas minhas obras”, abordam temas políticos e filosóficos referentes à relação do indivíduo com a sociedade, explica como o indivíduo pode conservar sua “bondade natural” bem como na ideia de Leon Tolstoi, para quem “o homem deve seguir aquilo que a sua consciência determina”. Em novembro de 1900, Henri Oedenkoven e Ida Hoffmann, com o auxílio dos amigos e irmãos Arthur e Karl Gräser, Lotte Hattemer e Jenny Hoffmann irmã de Ida, nascida em 1863, fundaram a Colônia Vegetariana e Naturista no famoso Monte Verità. O irmão de Karl, o poeta e pintor Gustav Graser, com 21 anos, e a irmã de Ida, Jenny, foram os dois elementos mais ativos e radicais do grupo. Gustav Graser tinha acumulado a experiência social de ter pertencido a vários círculos boêmios da Alemanha, tal qual curiosamente Franz Kafka não pode jamais ser esquecido, em Praga em 1883. Faleceu em Klosterneuburg, município da Áustria, no distrito de Wien-Umgebung, no Estado de Baixa Áustria que tem como fronteiras a República Checa a norte e a Eslováquia a nordeste, além dos Länder do Burgenland a sudeste, Estíria a sul e Alta Áustria a oeste. Mais tarde, no âmbito da extraordinária história social da literatura o fabuloso escritor Hermann Hesse converter-se-ia num dos principais discípulos.           

           Ida Hofmann e Henry Oedenkoven pensavam que a autoconsciência no sentido empregado por Hegel que bastava para criar “uma comunidade livre e capaz de viver em harmonia”. Porém, a coexistência de pensamentos tão heterogéneos como o anarquismo, a teosofia e o naturismo, ainda que tivessem pontos comuns, acabou por gerar alguns confrontos insuperáveis. Inicialmente, parecia que as divergências incidiam sobre coisas meramente práticas, como seja renunciar ao uso de eletricidade ou de aquecedores. Porém, para os irmãos Graser coisas como estas tinham um significado decisivo no que respeita a uma autêntica transformação da vida. Para eles, Ida Hofmann e Henry Oedenkoven violavam os princípios  da comunidade quando decidiam aproveitar as riquezas derivadas do capitalismo, ao mesmo tempo em que afirmavam que este sistema era a causa dos males sociais. Apesar de toda a sua aparente ingenuidade, o projeto social era assombroso por todo o seu arrojo e convicção real. É fácil imaginar que para os anarquistas a prática vegetariana era insossa e absurda. Nas suas memórias, o anarquista Erich Musham, ensaísta, poeta e dramaturgo judaico-alemão ascendeu dentro da esquerda europeia após a Grande Guerra (1914-1918), sendo um dos principais líderes dentro das estruturas conselhistas da República Soviética da Baviera.  Recorda Musham: -“Depois de ter trabalhado toda a manhã na construção e só ter comido pão e uma maçã, sentia-me a desfalecer, pelo que fui descansar”. Henry Oedenkoven e Ida Hoffmann famosos personagens do avant-garde anarquista, naturista, e vegetarianista perguntava-se porque é que não continuava a trabalhar tal como os outros. -  Acabamos por ter uma altercação e ele gritou: “podes ir-te embora; não se perde nada”. E afirma: - Logo que cheguei ao centro de Ascona pedi um bife e um copo de vinho, que me souberam servir como nunca. O fato de nós   termos sido usados por anos e anos a fio para no fundo poder satisfazer aqueles mais ricos.

            As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diverso, apto, portanto, a outros pontos de vista cognitivamente muito variados. São, justamente, essas diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a normalização reprime. Do mesmo modo, as condições sociais ou acontecimentos aptos a enfraquecerem o imprinting, lembrava Morin (2008), e a normalização permitirão às diferenças individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas condições aparecem nas sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e intolerância e resulta no próprio crescimento humano. Comporta a competição, a concorrência, o antagonismo, o conflito moral e político, entre ideias, concepções e visões de mundo.

            A trivialização do conhecimento, como vimos noutra oportunidade, não faz produto do conhecimento apenas um produto determinado, faz também dele um produto qualquer. Mas as ideias podem tornar-se ideológicas na medida em que sua estrutura obedece às estruturas socioprofissionais, sua produção integra-se entre os outros processos de produção e a cultura torna-se cognoscível a partir das categorias econômicas do capital e do mercado. Mas nem a informação, nem a teoria, nem o pensamento abstrato, nem a cultura são produtos triviais, ainda que mais não seja pelo fato de serem, ao mesmo tempo, produtos/produtores e, mesmo comportando hologramaticamente a dimensão socioeconômica, não poderiam ser reduzidas a isso. A redução trivializante não teme exercer-se como sujeito sobre o conhecimento científico. Este nível abstrato como qualquer outro é apropriado pelo pensamento, como a religião e através da ciência, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e suas estratégias, seus interesses e seus ganhos. Mas, por seu lado, os estudos de etnografias dos laboratórios, estes que parecem ter dinamismo, demonstram-nos como se estabelecem essas mediações dos pesquisadores, em função de posições, ou status, as lutas e a utilização de alguns truques diabólicos pelo reconhecimento per se, pelo prestígio ou pela glória, com as negociações necessárias ao estabelecimento de uma prova, os ritos de passagem na pesquisa e na universidade. A motivação primeira do cientista é a notoriedade. Mas não se pode reduzir o interesse científico ao interesse econômico, a vontade de pesquisar ao desejo de prestígio, a sede de conhecimento à sede de poder, em alguns casos terrenos sim. A sociologia não pode ser considerada uma concepção que exclui o indivíduo ou que, no máximo, o tolera. É uma concepção humanista, mas que deve implicá-lo e explicitá-lo.

            Christiania, também reconhecida como Cidade Livre de Christiania é uma comunidade independente e autogestionada localizada na cidade de Copenhagen, Dinamarca, com cerca de 850 habitantes, cobrindo uma área de 34 hectares, no bairro de Christianshavn na capital dinamarquesa Copenhague. As Autoridades públicas consideram Christiania como “uma grande comuna”, uma área de um status social único na medida em que é regulada por uma lei especial, a Lei de Christiania, a lei de 1989, que transfere partes da supervisão da área do município de Copenhague para o Estado. Christiania tem sido uma fonte de controvérsia desde sua criação, numa área militar em 1971. O comércio de cannabis foi tolerado pelas autoridades até 2004. Desde então, as medidas para normalizar o estatuto jurídico da comunidade levaram a conflitos, e as negociações estão em andamento. A antiga área recém abandonada de bases militares de Badsmandsstraedes Kaserne, localizada nas proximidades de Christianshavn, um subúrbio da capital dinamarquesa, foi ocupada em 1971 por alguns milhares de hippies, anarquistas, artistas e músicos, como uma forma de protesto ao governo da Dinamarca. Muitas pessoas provenientes de diversas cidades dinamarquesas sentiam-se traídas pelo governo, acreditando haver certo descaso quanto ao sistema habitacional por parte dos políticos e seus representantes. Os primeiros ocupantes da área urbana que mais tarde viria a ser nomeada de Christiania tinham como ideal comum a rejeição a certos valores morais e convenções sociais e, principalmente, aos ideais capitalistas que assolaram a Europa no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Os habitantes de Christiania também queriam um espaço e lugar praticado verde e aberto, para que pudessem criar seus filhos longe do crescente tumulto urbano da vida social de Copenhagen. O espírito da comunidade de Christiania foi logo permeado por valores culturais anarquistas e do movimento hippie, num contraste com a ideia original de ocupar a área como um mecanismo de defesa e refúgio.  

            Tentativas judicialmente legais feitas por órgãos estatais para a retirada dos habitantes de Christiania, tidos pelos conservadores como “indesejáveis perturbadores da paz e da ordem” pelos outros moradores de Christianshavn e Copenhagen, fracassaram devido ao enorme número de pessoas e à enormidade da área que foi por fim ocupada. Seus moradores passaram a tratar Christiania como uma Experiência Social (cf. Rocha, 2017) até que o uso do solo e o destino das terras fossem decididos. Em contrapartida, os moradores consentiram em arcar com as despesas de água e energia eléctrica. Os atuais moradores de Christiania referem-se “a si próprios como moradores de uma cidade livre, administrativamente independentes das autoridades nacionais”. Moradores ainda mais conscientes e formais tratam Christiania como uma Comunidade Autônoma. Em Copenhague, entre as ruínas dos muros da antiga base militar, ergue-se Christiania. Em um dos principais acessos, um grande aviso esclarece: - “Quem ultrapassar as muralhas deixará a União Europeia para trás e entrará em outro território, uma nação à parte desligada das divisões geopolíticas tradicionais”. Desde os anos 1970, quando a base deixou de fazer sentido para o governo dinamarquês, a região é ocupada por anarquistas, na esteira de movimentos da contracultura que se espalharam pelo mundo em meados da década. Mas certos problemas persistem. Há pouca transparência e muita dúvida sobre os escolhidos para viver numa das propriedades coletivas. Sem falar no intenso comércio de drogas, que gera acusações de que o chamado “crime organizado domina a região”.

O cinema produzido pelos países da região da Escandinávia  engloba Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia, tradicionalmente ligado às linguagens originárias do teatro clássico e de algumas principais vanguardas artísticas europeias. Os “países escandinavos” são Noruega, Suécia e Dinamarca, embora muitos geógrafos incluam também a Islândia, e raramente a Finlândia nessa designação literária, no entanto, através de tratado de cooperação entre estes países, são considerados como países nórdicos. O notável dramaturgo Ingmar Bergman começou a dirigir filmes com uma grande influência da linguagem e da estética teatral, realizando os clássicos O Sétimo Selo (1956), Persona (1966), Morangos Silvestres (1957), O Ovo da Serpente (1977), Fanny e Alexander (1982), entre outros. Em 1995, os cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg lançaram o Manifesto do Dogma 95, representando uma proposta estilística para realizar filmes independentes da “indústria cultural” e dos grandes estúdios comerciais. Entrou para a história do cinema contemporâneo ao realizar Festa de Família (1998), quando narra a história da reunião de família para celebrar o 60º aniversário de seu pai. No jantar, o filho mais velho acusa o pai de abusar sexualmente tanto dele, como de sua irmã gêmea. Vinterberg foi inspirado a escrever o filme com Mogens Rukov, com base “em um trote transmitido por uma estação de rádio dinamarquesa”. E o marco do controverso movimento Dogma 95. Alguns anos após fazer o filme, Vinterberg admitiu que seu filme foi baseado em uma história social que ele ouviu no programa de rádio do apresentador Keld Koplev. Ele disse que ficou sabendo desta história (social) através de um amigo de uma enfermaria psiquiátrica cujo argumento dizia que havia tratado do rapaz. 

Ele escutou o programa e pediu ao roteirista Mogens Rukov para escrever um roteiro baseado nos eventos, “mas em primeira pessoa”. Posteriormente foi revelado que “a história foi totalmente inventada pelo paciente que estava recebendo tratamento”. O roteiro, que trabalha os eventos dantescos que ocorrem durante 24 horas de uma festa de uma família tradicional dinamarquesa, é escrito com malícia, ironia e “acidez ferina” pelo próprio diretor e seu colega Morgens Rukov. O cerne de Festa de Família é mesmo o seu roteiro inspirado, que ganha amplificação na crueza da direção, da fotografia e dos demais elementos obedientes às regras do Dogma. Assusta, aterroriza e causa náusea todo o seu realismo da câmera na mão de Vinterberg, que nos faz assistir in loco as revelações que o Christian (Ulrich Thomsen) faz sobre o pai e o suicídio da irmã. Vinterberg acerta ao narrar uma história que “desmancha no ar” exatamente essas máscaras sociais. O Dogma 95 é um movimento social cinematográfico internacional lançado a partir de um   Manifesto publicado em 13 de março de 1995 em Copenhague. O Manifesto Dogma 95 foi escrito para a criação de um cinema realista e menos comercial. Posteriormente juntaram-se a eles os também cineastas Søren Kragh-Jacobsen e Kristian Levring. Segundo os cineastas, trata-se de um ato de resgate do cinema antes da exploração industrial segundo o modelo de Hollywood. Os autores foram os dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. Segundo o relato de Vinterberg, os dois levaram apenas 45 minutos para formular as regras. 

Elas foram apresentadas uma semana depois no Odéon - Théâtre de L’Europe, em Paris, em 20 de março de 1995, “onde von Trier foi chamado para celebrar o centenário do nascimento do Cinema”. O manifesto tem cunho técnico, apresenta uma série de restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias nos filmes, e ético, com regras quanto ao conteúdo dos filmes e seus diretores, e suas ideias são tão controversas quanto seus filmes. Todos os filmes que recebem o reconhecimento do Dogma 95 seguem 10 regras estipuladas por Trier e Vinterberg. Para tanto, os realizadores devem enviar cópias de seus filmes à entidade que gerencia o Dogma 95 e submetê-los à avaliação. Caso aprovado e verificado que o voto de castidade foi cumprido, os autores recebem o Certificado Dogma 95. As regras do Dogma 95, também conhecidas como “voto de castidade”, resumidamente, são: As filmagens devem ser feitas no local. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos, ou ao contrário, a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. Naturalmente o filme deve ser produzido em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. São proibidos a ideia de utilização dos truques fotográficos e filtros. O filme não deve conter nenhuma ação superficial. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. São inaceitáveis os filmes de gênero. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.  

             Comparativamente o cineasta islandês, Fridrik Thor Fridriksson, considerado um dos mais importantes do país, fundou a primeira revista islandesa sobre cinema e participou da criação do importante Reykjavik Film Festival. Em 1991, realizou Os Filhos da Natureza (Börn náttúrunnar/Children of Nature) que foi selecionado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Apesar de ter lançado o Manifesto, Von Trier não aderiu a suas próprias propostas - à exceção do filme Os Idiotas - e ficou reconhecido por grandes produções de forte conteúdo dramático e impacto teórico-ideológico, como os filmes Europa (de 1991), drama dinamarquês de 1991 dirigido e escrito por Lars von Trier, estrelado por Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Udo Kier e Ernst-Hugo Järegård, venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, Ondas do Destino (1996), realizado norte da Escócia quando uma jovem mulher (Emily Watson) se apaixona e se casa com um dinamarquês (Stellan Skarsgard) que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço sofre um acidente, quebrando seu pescoço e o deixando incapacitado para o resto da vida. Nesta situação ele pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações sexuais; Dançando no Escuro (2000), quando Selma Jezkova (Björk) representa uma mãe-solteira tcheca que foi morar nos Estados Unidos da América. Ela tem uma doença que a faz perder a visão, algo que também deverá acontecer um dia a seu filho Gene (Vladan Kostig), um garoto de doze anos. Em virtude de saber que existem médicos norte-americanos que podem operar seu filho, foi o suficiente para fazê-la imigrar para o país, quando Bill se vê em dificuldades e rouba o dinheiro que Selma tinha economizado. É o ponto de partida para trágicos acontecimentos, e Dogville (2003), onde o cenário está elegantemente decorado para criar um ambiente de cidade pequena, na qual uma misteriosa mulher chamada Grace se esconde de criminosos que a perseguem. A cidade pode refugiar Grace desde que ela faça valer o seu esforço.

Ela trabalha duro para várias pessoas da cidade para obter seus favores. A tensão cresce e a situação de Grace como estrangeira provoca o desprezo e o abuso dos moradores. Neste quadro de pensamento o cineasta Thomas Vinterberg é um dos nomes mais proeminentes no cinema nórdico. Junto com Lars von Trier, fundou um movimento na década de 1990, que recusava todos os “vícios”, digamos comerciais, hollywoodianos. Para o Dogma 95, não poderia haver trilha sonora. A câmera deveria vir nas mãos. Os filmes deveriam ser em cores, com iluminação natural, como apresentamos, dentre outras regras técnico-metodológicas. A estratégia cinematográfica de “radicalismo espartano” condicionava inclusive que o nome do diretor não constasse nos créditos da produção/consumo. Festa de Família (1998) é o grande filme de Vinterberg realizado sob a égide do Dogma 95. A outra grande criação do dinamarquês é A Caça, um longa-metragem instigante de 2012 e esteticamente já muito distante do famoso movimento. O filme Kollektivet (The Commune, 2016), particularmente, foi produzido na Dinamarca, Suécia e Holanda, em 2016. Mas é um filme contextualizado na Copenhague dos anos 1970, quando um casal de meia-idade, o acadêmico Erik (Ulrich Thomsen) e a apresentadora de telejornal Anna (Trine Dyrholm), se mudam para residir em uma casa grande, muito maior do que aquela que a família, completada pela filha adolescente, Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen), necessitam para morar. Diante do espaço vazio a ser preenchido do casarão, das dificuldades econômicas do grupo e de um aparente tédio resultante dos seus quinze anos de casamento, Anna dá a ideia de transformar a residência em República; melhor dizendo uma comunidade, ao gosto da década crível dos hippies. A eles se junta um amigo, um casal com um filho diagnosticado por doença cardíaca e um imigrante. Mas Erik escanteado pela esposa, se apaixona pela aluna da universidade e leva-a para a casa, “com o surpreendente aval da esposa, que procura se fazer de liberal”.

O movimento hippie surgiu na cidade de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos, na década de 1960. Os hippies pregavam o amor livre, o respeito à natureza, ao pacifismo e à uma vida necessariamente mais simples, sem preocupações consumistas. Mas o arranjo não dá certo e a situação social e política de Erik e Anna se complica, expondo a complexa dualidade entre o sonho individualista de ser livre, libertário e coletivista, e a realidade concreta, opressora de ser cerceado pelo coletivo. Elogiado, A Comunidade (2016), do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, ganhou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim pela atuação de Trine Dyrholn, intérprete de Anna.  O cenário d`A Comunidade é a cidade de Copenhague da década 1970. Neste ambiente urbano o arquiteto Erik (Ulrich Thomsen), que se dedicou ao ensino universitário, e sua companheira, Anna (Trine Dyrholm), que trabalha como apresentadora de televisão, decidem se mudar com a filha de 14 anos para a mansão que ele herdou de seus pais. Os custos de manutenção da nova casa são altos, e parte de Anna a ideia de poder convidar alguns amigos e agregados “para ocupar quartos e dividir coletivamente os custos de manutenção da moradia”. Com a Comunidade que se forma, virá do casal a fissura naquele peculiar arranjo doméstico. Erik tem um caso com a jovem aluna. Anna, para não romper o círculo afetivo, aceita que se junte à turma. Mas entre a prática libertária e a prática regida pela passionalidade dos sentimentos, existe uma zona de sombra através da qual Anna irá se perturbar emocionalmente.

O movimento hippie representou um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960. Embora tendo uma relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos Estados Unidos da América, a célebre expressão “Peace and Love”, que precedeu a expressão “Ban the Bomb”, a qual criticava a criação de usinas atômicas e o uso de armas nucleares. O símbolo da paz foi desenvolvido na Inglaterra como logotipo para uma campanha pelo desarmamento no mundo e contestação que se iniciaram-se nos Estados Unidos, impulsionados por músicos e artistas em geral. Os hippies defenderam o amor livre e a não violência. O lema Paz & Amor sintetiza a postura política dos hippies, que constituíram um movimento social por direitos civis, igualdade e antimilitarismo na luta de líderes Gandhi e Martin Luther King, embora não tão organizadamente, mantendo uma prática mais anárquica do que anarquista propriamente dita, neste sentido de arquetipológico. As questões ambientais, por exemplo, em torno da prática de nudismo, naturismo e vegetarianismo e a sexualidade eram ideias respeitadas por estas comunidades. Optaram por um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de “nova esquerda”, na falta de melhor expressão, a um estilo de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza. Negavam o nacionalismo e a guerra imperialista contra o Vietnã, bem como todas as guerras. Abraçavam aspectos de religiões orientais como o budismo e o hinduísmo e do xamanismo indígena norte-americano. Estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média consumista norte-americana e das economias globais capitalistas. Criticavam um conjunto de práticas e saberes sociais em torno do patriarcalismo, do militarismo, e do poder governamental, e as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de um pensamento único sem legitimidade social.

          Thomas Vinterberg é um cineasta dinamarquês, um país nórdico da Europa setentrional e membro sênior do Reino da Dinamarca. É o mais meridional dos países nórdicos, a sudoeste da Suécia e ao sul da Noruega, delimitado ao sul pela Alemanha. As demais fronteiras da Dinamarca são marítimas, ao norte e leste com o Mar Báltico e ao oeste com o Mar do Norte. O país é composto por uma grande península, a Jutlândia, e 443 ilhas, das quais 78 habitadas, assim como centenas de ilhas menores vezes referidas como o Arquipélago Dinamarquês. Há muito tempo a Dinamarca controla a entrada e a saída do mar Báltico; isso só pode acontecer por meio de três canais, que também são reconhecidos como os “Estreitos Dinamarqueses”. A língua nacional, o dinamarquês, é próxima do sueco e do norueguês. A Dinamarca compartilha fortes laços históricos e culturais com a Suécia e com a Noruega. Cerca de 82,0% dos habitantes da Dinamarca e 90,3% da etnia dinamarquesa são membros da Igreja Estatal Luterana. Em torno de 9% da população tem nacionalidade estrangeira, sendo que uma grande parte deles são provenientes de outros países escandinavos. O país é uma monarquia constitucional com um sistema parlamentar de governo. Possui um governo central e outros locais administrativos em 98 municípios. A Dinamarca, com uma economia mista capitalista e um Estado de bem-estar social, possui o mais alto nível de igualdade de riqueza do mundo, sendo considerado em 2011, o país com menor índice de desigualdade social do mundo. Detém a classe de negócios no mundo, segundo a revista estadunidense Forbes. De 2006 a 2008, pesquisas classificaram a Dinamarca como “o lugar mais feliz do mundo”, com base em seu princípio de saúde, bem-estar, assistência social e educação universal. O Índice Global da Paz de 2009 classificou a Dinamarca como o 2º país mais pacífico do mundo, depois da Nova Zelândia. O país também foi classificado como o “menos corrupto” do mundo em 2008, pelo Índice de Percepção de Corrupção, compartilhando o primeiro lugar com a Suécia e a Nova Zelândia.

            Lembra-nos Durand (1997) que a alvorada de toda criação do espírito humano, teórica ou prática, é governada pela função fantástica. Ela não só aparece como universal na sua extensão através da espécie humana, mais ainda na sua compreensão: ela está na raiz de todos os processos da consciência, revela-se como a marca originária do Espirito. Por isso, nada nos parece mais próximo dessa função fantástica que a velha noção aviceniana de “intelecto agente”, diretriz do saber da espécie humana inteira, princípio específico de universalidade e de vocação transcendental. No domínio abstrato da fantástica pura, no sonho, os observadores ficam sempre surpreendidos pela oposição da fulgurância dos sonhos e do lento processo temporal da percepção. Sobre o pensamento que raciocina do mesmo modo que sobre o pensamento que percepciona pesa ainda o caminhar laborioso da existência, enquanto o pensamento que imagina tem consciência de ser satisfeito instantaneamente e arrancado ao encadeamento temporal. Nos estados ditos de “baixa tensão” não é propriamente o sentimento real que se apaga, mas mais a consciência sucessional do eu já não controla, ou seja, já não encadeia os perceptos num contínuo temporal. Assim, compreende-se mal como é que assimila esta fulguração onírica ou fantástica à duração concreta, pois que o “desapego” do sonho aparece antes, como um “adiamento” do tempo, e nos sonhos e nos delírios o dado imediato é a imagem, não a duração, uma vez que o “sentido do tempo” está “como que dissolvido”.

A memória seria o ato social de resistência da duração à matéria puramente especial e intelectual. A memória e a imagem, do lado da duração e do espírito, opõem-se à inteligência e à matéria, do lado da percepção do espaço. Por fim, na célebre exposição da teoria da fabulação, Henri Bergson, já sem se preocupar com a memória à qual reduziu primitivamente a imaginação, faz da “ficção” o “contrapeso” natural da inteligência, o vigário do impulso vital e do instinto eclipsado pela inteligência, i. é, “reação da natureza contra o poder dissolvente da inteligência”. Esta tese geral, segundo Durand, repousa num duplo erro: primeiro no erro que assimila a “memória” a uma intuição da duração, em seguida no erro que corta em duas a representação e a consciência em geral minimiza a “inteligência” em detrimento da intuição mnésica ou fabuladora. A memória pertence ao domínio do fantástico, dado que organiza esteticamente a recordação. Isto é importante. É nisso que consiste a “aura” estética que nimba a infância; a infância é sempre e universalmente recordação da infância, é o arquétipo do ser eufêmico, ignorante da morte, porque cada um de nós foi criança antes de ser homem. Mesmo a infância objetivamente infeliz ou triste de um Máximo Gorki ou do escritor Stendhal (Henri-Marie Beyle) não pode subtrair-se ao encantamento eufemizante da função fantástica. A nostalgia da experiência infantil é consubstancial à nostalgia do ser. Embora a infância seja objetivamente anestética, dado que não tem necessidade de recorrer à arte para se opor a um destino mortal de que ela não tem consciência, qualquer recordação de infância, graças ao duplo poder de prestígio social da despreocupação primordial, por um lado, e, por outro da memória, é de imediato obra de arte. A memória, analogamente como a imagem, é essa magia vicariante pela qual um fragmento existencial pode simbolizar a totalidade do tempo reencontrado.

O ato reflexo é ontologicamente um esboço dessa recusa fundamental da morte que pelo espírito. Longe de estar do lado do tempo, a memória, como o imaginário social ergue-se contra as faces do tempo e assegura-se ao ser, contra a dissolução do devir, a continuidade da consciência e a possibilidade de regressar, de regredir, para além das necessidades do destino. É contra o nada do tempo que se levanta toda a questão da representação, e em especial toda a sua pureza de antidestino: a função fantástica de que a memória não é mais que um incidente social. A vocação do espírito é insubordinação à existência e à morte e a função fantástica manifesta-se como revolta.  Mas, por outro lado, todo estado forte da consciência é uma fonte de vida, é um fato essencial de nossa vitalidade geral. Por conseguinte, tudo o que tende a enfraquece-lo nos diminui e nos deprime; resulta daí uma impressão de confusão e de mal-estar análoga à que sentimos quando uma função importante é suspensa ou retardada. É inevitável, pois, que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça com tal diminuição, que nos esforcemos por afastá-la, a fim de mantermos a integridade de nossa consciência. No primeiro plano das causas que produzem esse resultado, devemos colocar a representação de um estado contrário. Uma representação não é, com efeito, uma simples imagem da realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas, afirma Durkheim (2015), mas uma força que ergue ao seu redor todo um turbilhão de fenômenos orgânicos e psíquicos. Não somente a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais em torno do ponto em que se originou e passa de um plexo para o outro, mas ressoa nos centros motores, onde determina movimentos, nos centros sensoriais, onde desperta imagens, excita por vezes começos de ilusões e pode afetar as funções vegetativas, esse ressoar é tanto mais considerável quanto mais intensa for a própria representação, quanto mais desenvolvido for o seu elemento emocional.


 Assim, a representação de um sentimento hic et nunc, contrário ao nosso, age em nós no mesmo sentido e da mesma maneira que o sentimento que ela substitui; é como se ele mesmo tivesse entrado em nossa consciência. Ela tem, de fato, as mesmas afinidades, embora menos vivas; ela tende a despertar as mesmas ideias, os mesmos movimentos, as mesmas emoções. Ela, opõe, pois uma resistência ao jogo de nosso sentimento pessoal, e, por conseguinte, o debilita, atraindo numa direção contrária toda uma parte de nossa energia. É como se uma força estranha se houvesse introduzido em nós, de modo a desconcertar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. Eis porque uma convicção oposta à nossa imaginação não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar: é que, ao mesmo tempo, ela penetra em nós e, encontrando-se em antagonismos com tudo o que em nós encontra, determina verdadeiras desordens. Sem dúvida, enquanto o conflito só se manifesta entre ideias abstratas, nada há de muito doloroso, pois anda há de muito profundo. Os judeus, disse uma vez Léon Poliakov, são franceses que, ao invés de não irem mais à igreja, não vão mais à sinagoga. Na tradução humorística de Haggadah, essa piada designava crenças no passado que deixaram de organizar um conjunto de práticas sociais. As convicções políticas parecem, hoje, seguir o mesmo caminho. Alguém seria socialista por que foi, sem ir às manifestações, sem reunião, sem palavra e sem contribuição financeira, em suma,  sem pagar. Mas reverencial que identificatória, a pertença só se marcaria por aquilo que se chama uma voz. Este resto de palavra, como o voto de quatro em quatro anos.

Uma técnica bastante simples manteria o teatro de operações desse crédito. Basta que as sondagens abordem outro ponto que não aquilo que liga diretamente os adeptos ao partido, mas aquilo que não os engaja alhures, não a energia das convicções, mas a sua inércia. Os resultados da operação contam então com restos da adesão. Fazem cálculos até mesmo com o desgaste de toda convicção. Pois esses restos, esses cacos, como insinua Leonardo Boff, indicam ao mesmo tempo o refluxo daquilo em que os interrogados creram na ausência de uma credibilidade mais forte que os leva para outro lugar. Ora, a capacidade de crer parece estar em recessão em todo o campo político. A tática é a arte do fraco. O poder se acha amarrado à sua visibilidade que é uma armadilha. Mas a vontade de “fazer crer”, de que vive a instituição, fornecia nos dois casos um fiador a uma busca de amor e/ou de identidade. Importa então interrogar-se sobre os avatares do crer em nossas sociedades e sobre as práticas originadas a partir desses deslocamentos. Durante séculos, supunha-se que fossem indefinidas as reservas de crença. Aos poucos a crença se poluiu, como o ar e a água. Percebe-se ao mesmo tempo não se saber o que ela é. Tantas polêmicas e reflexões sobre os conteúdos ideológicos em torno do voto e os enquadramentos institucionais não foram acompanhadas de uma elucidação acerca da natureza do ato de crer. Os poderes antigos geriam habilmente a autoridade. Hoje são os sistemas administrativos, sem autoridade, que dispõem de mais força em seus “aparelhos” e menos de autoridade legislativa. A região dessas ideias é, ao mesmo tempo, a mais elevada e a mais superficial da consciência, e as mudanças que nela sobrevêm, não tendo repercussões extensas, afetam-nos apensa debilmente. Quando se trata de uma crença que nos é cara, não permitimos e não podemos permitir que seja impunemente ofendida.

Toda ofensa dirigida contra ela suscita uma reação emocional, mais ou menos violenta, que se volta contra o ofensor. Nós nos arrebatamos, nos indignamos contra ele, ficamos com raiva, e os sentimentos assim provocados não podem deixar de se traduzir em atos, fugimos dele, mantemo-lo à distância, banimo-lo de nossa companhia etc. Sem dúvida, não pretendemos que toda convicção forte seja necessariamente intolerante; a observação corrente basta para demonstrar o contrário. Mas isso porque as causas externas neutralizam aquelas cujos efeitos específicos acabamos de analisar. Pode haver entre ambos os adversários uma simpatia geral que contenha seu antagonismo e o atenue. Mas é preciso que essa simpatia seja mais forte do que esse antagonismo, de outro modo não sobrevive a ele. Ou, quando as duas partes em presença renunciam à luta, quando fica claro que é incapaz de levar ao que quer que seja, e se contentam como manter suas respectivas situações, toleram-se mutuamente, não podendo entredestruir-se. A tolerância recíproca que por vezes encerra as guerras religiosas costuma ser dessa natureza. Em todos esses casos, se o conflito dos sentimentos não engendra suas consequências naturais, não é porque não as contenta, é porque é impedido de produzi-las. Talvez seja o caso de pensarmos o que ocorre numa pequena cidade, tendo em vista que todo o mundo está posto sensivelmente nas mesmas condições de existência, e o meio coletivo é essencialmente concreto. Ele é feito dos seres de toda espécie que enchem o horizonte social. Os estados de consciência que o representam têm, pois, o mesmo caráter. As impressões coletivas que resultam da fusão de todas essas impressões individuais são determinadas tanto em sua forma como sem seus objetivos e a consciência comum possui um caráter definido.

Mas ela muda de natureza à medida em que as sociedades se tonam mais volumosas. Por se estenderem estas últimas sobre uma superfície mais vasta, ela mesma é obrigada a elevar-se acima de todas as diversidades locais, a dominar mais o espaço e, por conseguinte, a se tornar mais abstrata. Pois só as coisas gerais é que podem ser comuns a todos esses diversos meios. Não é mais determinado animal, mas determinada espécie; determinada fonte, mas as fontes, determinada floresta, mas a floresta in abstracto. Por outro lado, dado que as condições de vida não são mais as mesmas em toda parte, esses objetos comuns, quaisquer que sejam, não podem mais determinar por toda parte sentimentos tão perfeitamente idênticos. As resultantes coletivas já não têm a mesma nitidez, e isso tanto mais quanto mais dessemelhantes forem os elementos componentes. Quanto mais diferença existir entre os retratos individuais que serviram para fazer um retrato compósito, mais este será incerto. Mas as consciências coletivas locais podem conservar sua individualidade no seio da consciência coletiva geral e que, como abrangem horizontes menores, permanecem mais facilmente concretas.

Mas sabemos que elas se desvanecem pouco a pouco no seio da primeira, à medida que se retraem os seguimentos sociais a que correspondem. Observou-se com frequência que a civilização tendia a se tronar mais racional e mais lógica; vemos agora qual a causa disso. Só é racional o que é universal; o que confunde o entendimento é o particular e o concreto. Só pensamos direito o geral. Por conseguinte, quanto mais a consciência comum está próxima das coisas particulares, mais ela traz exatamente a sua marca, mais também é ininteligível. Eis de onde o efeito que as civilizações primitivas exercem sobre nós. Não podendo reduzi-las a princípios lógicos, somos levados a não ver nelas nada mais que combinações bizarras e fortuitas de elementos heterogêneos. Na realidade, elas nada têm de artificial; mas é necessário investigar sociologicamente as suas causas determinantes em sensações e movimentos da sensibilidade, não em conceitos, e se é assim, é porque o meio social para o qual são feitas não é suficientemente extenso. Ao contrário, quando a civilização se desenvolve num campo mais vasto, quando se aplica a maior número de pessoas e de coisas, as ideias gerais aparecem necessariamente e se tornam predominantes. A noção de homem, por exemplo, substitui, no direito, na moral, na religião, a do romano, que, mais concreta, é mais refratária à ciência.

Portanto, é o aumento do volume das sociedades e seu maior adensamento que explicam essa transformação social. Não por acaso quanto mais a consciência comum se torna geral, mais cede lugar às variações individuais. Quando Deus está longe das coisas e dos homens, sua ação se dá mais em todos os instantes e não se estende em sua capacidade a tudo. De fixo, só há as regras abstratas, que podem ser livremente aplicadas de maneiras muito diferentes. Por se tornar mais racional, a consciência coletiva se torna, pois, menos imperativa e, também por essa razão, ela incomoda menos o livre desenvolvimento das diversidades individuais. É um fato habitual reconhecido que o culto da idade vai se debilitando com o avanço da civilização. Tão desenvolvido outrora, reduz-se a algumas práticas de polidez, inspiradas por uma espécie de piedade. Os velhos na sociedade contemporânea são mais objeto de comunicação irradiado através da pena e caridade do que de esplendor. A solidariedade dos tempos é menos sensível porque já não tem sua expressão material no contato contínuo das gerações sucessivas. Sem dúvida, os efeitos sociais da educação primeira continuam a se fazer sentir, mas com menos força, porque não são mantidos, mas transplantado para um novo meio. Os que chegaram à maturidade tratam-se como iguais. Esta é mais abalada no exato momento em que perde suas forças. Uma vez dado, esse germe da fraqueza desenvolver-se-á necessário com cada geração, porque transmitimos com menos autoridade princípios cuja autoridade sentimos distante.

É nas grandes cidades que a influência moderadora da idade se encontra sem Eu mínimo; constata-se ao mesmo tempo que, segundo Durkheim (2015), em nenhum outro lugar, as tradições têm menos influência sobre os espíritos. De fato, as grandes cidades são os focos incontestes do progresso, é nelas que as ideias, as modas, os costumes, as novas necessidades se elaboram para difundir-se em seguida pelo resto do país. Quando a sociedade muda, é geralmente seguindo-as e imitando-as. Nelas, os humores são tão móveis que tudo que vem do passado é um pouco suspeito; ao contrário, as novidades, quaisquer que sejam, desfrutam de um prestígio quase igual aquele de que desfrutavam outrora os costumes dos ancestrais. Nelas, os espíritos são naturalmente orientados para o futuro. Nelas a vida se transforma com rapidez extraordinária: crenças, gostos, paixões, estão em perpétua evolução. Nenhum terreno é mais favorável porque a vida coletiva não pode ter continuidade onde as diferentes camadas de unidades sociais, destinadas a se substituírem, são tão descontínuas. Observando que, durante a juventude das sociedades e, sobretudo, no momento de sua maturidade, o respeito pelas tradições é muito maior do que durante a sua velhice. Gabriel Tarde, acreditou poder apresentar o declínio do tradicionalismo como uma fase simplesmente transitória, uma crise passageira de toda a evolução social. Esse erro, decorre do uso do método de comparação seguido, se aproximarmos o fim da sociedade do começo da que lhe sucede, constataremos um retorno do tradicionalismo; mas pelo qual todo tipo social inicia, é sempre muito menos violenta do que fora no tipo imediatamente anterior.

Neste sentido, à medida em que se estende e se concentra, a sociedade envolve menos estreitamente o indivíduo e, por conseguinte, é menos capaz de conter as tendências divergentes que se manifestam. Para certificar-se, basta comparar as grandes cidades com as pequenas. Nestas últimas, quem procurar emancipar-se dos usos dominantes enfrenta resistências que, por vezes, são vivíssimas. Qualquer tentativa de independência é objeto de escândalo público, e a reprovação geral a ela ligada é de natureza a desencorajar os imitadores. Ao contrário, nas grandes cidades, o indivíduo é muito mais emancipado do jugo coletivo; este é um fato experimental que não pode ser contestado. Porque dependemos tanto mais intimamente da opinião comum quanto mais de perto ela vigia todos os nossos atos. Quando a atenção de todos está constantemente fixada sobre o que cada um faz, o menor desvio é percebido e logo reprimido; inversamente, cada um tem tanto maior facilidade de seguir seu próprio caminho quanto mais fácil for escapar desse controle. Como diz um provérbio, em parte alguma se está tão bem escondido quanto numa multidão. Quanto mais extenso e denso for um grupo, mais a atenção coletiva, dispersa numa ampla superfície, é incapaz de seguir os movimentos de cada indivíduo, porque ela se torna maior, ao passo que estes se tornam mais numerosos. Ela se concentra em demasiados pontos ao mesmo tempo para poder se concentrar em algum. A vigilância se faz menos bem, porque há demasiadas pessoas e coisas a vigiar. Ipso facto, a expectativa da atenção, o interesse, está mais ou menos ausente. Só desejamos conhecer os fatos e feitos da pessoa se sua imagem desperta em nós lembranças e emoções relacionadas a ela e esse desejo é tanto mais ativo quanto mais numeroso e mais forte são os estados de consciência despertados. A curiosidade coletiva é tanto mais viva quanto mais contínuas e frequentes são as relações pessoais entre os indivíduos; mas, é claro que elas são tanto mais raras e curtas quanto maior é o número de indivíduos com que uma pessoa se relaciona.   

Eis porque a pressão da opinião se faz sentir com menos força nos grandes centros. É porque a atenção de cada um é distraída em demasiadas direções diferentes e, além disso, as pessoas se conhecem menos. Mesmo os vizinho e os membros de uma esma famílias mantêm contatos menos frequentes e regulares, separados que estão a cada instante pela massa dos assuntos e das pessoas de permeio. Sem dúvida, se a população for mais numerosa do que densa, pode suceder que a vida, dispersa numa maior extensão, seja menor em cada ponto. A grande cidade resolve-se então num certo número de pequenas cidades e, por conseguinte, as observações precedentes não se aplicam exatamente. Mas onde quer que a densidade da população seja proporcional a seu volume, os vínculos pessoais são raros e frágeis: perdemos com maior facilidade os outros de vista, mesmo os que nos são mais próximos e, na mesma medida, nos desinteressamos deles. Como essa indiferença mútua tem por efeito relaxar a vigilância coletiva, a esfera livre de ação de cada indivíduo se estende efetivamente e, pouco a pouco, o fato se torna direito. Enfim, sabemos que a consciência comum, no sentido hegelianos, só conserva a sua força expressiva com a condição de não tolerar as contradições; ou, como consequência dessa diminuição do controle social, são cometidos cotidianamente atos que a contradizem, sem que, contudo, ela reaja. Portanto, se atos tais como esses houver que se repitam com bastante frequência e uniformidade, eles acabarão por tirar o vigor do sentimento coletivo que ofendem.

Uma regra não parece mais tão respeitável do que quando deixa de ser respeitada, e isso impunemente; não encontramos mais a mesma evidência num artigo de fé que deixamos contestar em demasia. Por outro lado, uma vez que usamos de uma liberdade, passamos a ter necessidade ela; se nos torna tão necessária e nos parece tão sagrada quanto as demais. Julgamos intolerável um controle cujo hábito perdemos. Um direito adquirido de uma maior autonomia se funda. Assim, as intromissões cometidas pela personalidade individual, quando ela é menos fortemente contida do exterior, acabam recebendo a consagração dos costumes. E se esse fato é mais acentuado nas grandes cidades, não lhes é específico, pois também se produz nas outras, segundo a sua importância. Já que o desaparecimento do tipo segmentário acarreta um desenvolvimento cada vez mais considerável dos centros urbanos, entende Durkheim, que é uma primeira razão a fazer que esse fenômeno deva ir se generalizando. Porém, além disso, à medida que se eleva, a própria densidade moral da sociedade se torna semelhante a uma grande cidade que conteria em seus números o povo inteiro.  De fato, como a distância social entre as diferentes regiões tende a se dissipar, elas se acham, uma em relação às outras, numa situação cada vez mais análoga à dos diferentes bairros de uma mesma cidade. A causa que, nas grandes cidades, determina uma debilitação da consciência comum deve produzir, pois, seu efeito em toda a extensão da sociedade. Enquanto os diversos segmentos, preservando sua individualidade, permanecem fechados uns aos outros, cada um deles limita estreitamente o horizonte social dos particulares.  Mas à medida em que a fusão dos segmentos se torna mais completa, as perspectivas se estendem tanto mais quanto, no mesmo momento, a própria sociedade se torna geralmente mais extensa. Por conseguinte, mesmo o habitante da pequena cidade vive menos exclusivamente a vida do grupo que o rodeia imediatamente.

Bibliografia geral consultada.

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