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domingo, 24 de julho de 2022

A Consciência – Sociedade, Relógios & Na Vida Social Temos Tempo?

                        “Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada”. Immanuel Kant  (1724-1804)          

O relógio é utilizado como medidor do tempo desde a Antiguidade, em variados formatos que o distinguem das mais antigas invenções com utilidade social humanas. Relojoaria é tanto o termo que designa o seu fabricante, como a loja onde são vendidos. Entre os primeiros relógios, ou horológios em português mais antigo, que se tem conhecimento estão os relógios de sol. Relógios simples de água ou areia são conhecidos por ter existido na Babilônia e no Egito em torno do século XVI a. C. A história etnográfica registra que apareceu na Judeia, mais ou menos em 600 a. C., com os relógios de água (clepsidras) e os relógios de areia (ampulhetas). Em 725 d. C., Yi Xing, um monge budista chinês desenvolveu um relógio mecânico que tinha um complexo sistema de engrenagens e 60 baldes de água que correspondiam aos 60 segundos que fazia uma revolução completa em 24 horas. Em 797 (ou 801), o califa de Bagdá, Harune Arraxide, presenteou Carlos Magno (742-814), com um elefante asiático chamado Abul Abbas e um relógio mecânico de onde saía um cavaleiro que anunciava as horas. Magno foi rei dos francos a partir de 768, rei dos lombardos a partir de 774 e imperador dos romanos a partir do ano 800. Durante o início da Idade Média, Carlos Magno uniu a maior parte da Europa ocidental e central. Ele foi o primeiro imperador reconhecido a governar da Europa ocidental desde a queda do Império Romano do Ocidente cerca de três séculos antes.

Isso indica que os primeiros relógios mecânicos provavelmente foram inventados pelos asiáticos. Contudo, embora exista controvérsia sobre a construção do primeiro relógio mecânico, o papa Silvestre II é considerado no mundo ocidental o primeiro inventor. Os primeiros relógios mecânicos, muito rudimentares, surgiram por volta de 1200 no norte da Europa, na região onde se constituiu a atual Alemanha. Outros grandes construtores e aperfeiçoadores de relógios foram Ricardo de Walinfard (1344), Santiago de Dondis (1344), seu filho João de Dondis que ficou reconhecido como Horologius, e Henrique de Vick (1370). Por volta de 1500, Peter Henlein, na cidade de Nuremberg, fabricou o primeiro relógio com utilidade de uso social de bolso. Até que, em 1595, Galileu Galilei descobre o isocronismo. Com os relógios mecânicos surge uma grande variedade de técnicas de registro da passagem do tempo.  Os relógios podem ser classificados através de pêndulo, de quartzo ou cronômetros. Os primeiros relógios utilizados foram os relógios de bolso. Eram muito raros e tidos como verdadeiras “joias”, pois poucos tinham um. Os relógios de bolso eram símbolo da alta aristocracia. A divisão do dia em horas só aconteceu quando o astrofísico Galileu Galilei definiu as regras do movimento pendular e sua impressionante regularidade. Diz-se que o isocronismo do pêndulo foi descoberto por Galileu quando, numa missa, observou a oscilação de um candelabro suspenso do teto da igreja, tendo medido o período através da contagem dos seus batimentos cardíacos. Seja como for, Galileu viria a usar o pêndulo nas suas experiências com o plano inclinado. Isso foi por volta de 1600 e somente uns 100 anos depois é que surgiriam os ponteiros indicadores de minutos. 

Por essa ocasião, os relógios já eram olhados como “joias” e caracterizavam-se pela beleza e riqueza. Os famosos relógios suíços tiveram origem em Genebra, por volta do século XVI e um nome é registrado como o iniciador de tudo: Daniel Jeanrichard (1665-1741), é um relojoeiro de Neuchâtel considerado o fundador da indústria relojoeira no Jura. Se sua existência histórica está fora de dúvida, por outro lado, a questão de sua importância e de seu papel social exato permanece sem solução. Figura guardiã relojoeira de Neuchâtel, Daniel Jeanrichard foi rapidamente mitificado. A indústria relojoeira evoluiu rapidamente e tornou-se um marco naquele país, tanto pelo designer como pela tecnologia de precisão. Com o advento dos relógios de quartzo, os suíços perderam a hegemonia mundial e nunca mais a recuperaram. Os relógios de quartzo são muito mais baratos e precisos do que os relógios mecânicos. O relógio de pulso tem uma história bastante interessante que envolve Santos Dumont vivia sujando a roupa ao tirar o relógio do bolso, com as mãos manchadas de óleo enquanto trabalhava nos seus modelos de aviões. Para evitar esse contratempo, pediu a seu amigo Cartier que fabricasse um relógio que pudesse ser acomodado no pulso, e esse foi o primeiro relógio de pulso fabricado na França e chegou a ser chamado de Santos Watch. O relógio de pulso já era conhecido, mas raramente usado: o exército inglês havia encomendado 1500 relógios a um fabricante suíço para colocar no pulso de militares, considerando que seriam mais úteis assim, durante a batalha. Mas foi depois do episódio com Santos Dumont que Cartier passou a fabricar relógios em série de pulso, criou fama como fabricante e difusor de sua utilidade por todo o mundo ocidental.

                                 

Alberto Santos Dumont projetou, construiu e voou os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina. Esse mérito lhe é garantido internacionalmente pela conquista do Prêmio Deutsch em 1901, quando em um voo contornou a Torre Eiffel com o seu dirigível nº 6, transformando-se em uma das pessoas mais famosas do mundo durante o século XX. Com a vitória no Prêmio Deutsch,  prêmio ou prova para ver quem realmente tinha condições de fazer um balão dirigível sair de Saint-Cloud dar a volta na Torre Eiffel e retornar a Saint-Cloud em um tempo igual ou inferior 30 minutos e teve como prêmio o valor de 100.000 francos, criado em 24 de março de 1900 pelo milionário francês Henri Deutsch de la Meurthe, destinado a quem criasse a primeira aeronave dirigível prática. Foi o primeiro a cumprir um circuito testemunhado por especialistas.  Foi o primeiro a decolar a bordo de um avião impulsionado por um motor a gasolina. Em 23 de outubro de 1906 voou cerca de 60 metros a uma altura de dois a três metros com o “Oiseau de Proie”, no Campo de Bagatelle, em Paris.
       Menos de um mês, em 12 de novembro, diante de uma multidão de testemunhas, percorreu 220 metros a uma altura de 6 metros com o “Oiseau de Proie III”. Esses voos foram os primeiros homologados pelo Aeroclube da França de um aparelho mais pesado que o ar. Apesar de os brasileiros considerarem Santos Dumont como o responsável pelo primeiro voo num avião, na maior parte do mundo o crédito à invenção do avião é dado aos irmãos Wright. Uma exceção é a França, onde o crédito é dado a Clément Ader que efetuou o primeiro voo de um mais pesado que o ar propulsionado a motor e levantando voo pelos seus próprios meios em 9 de outubro de 1890. A FAI - Fédération Aéronautique Internationale é um órgão internacional criado em 1905 que governa e regulariza os esportes aéreos no mundo. no entanto, considera que foram os irmãos Wright os primeiros a realizar um voo controlado, motorizado, num aparelho mais pesado do que o ar, por uma decolagem e subsequente voo ocorridos em 17 de dezembro de 1903 no Flyer, já que os voos de Clément Ader foram realizados em segredo militar, se vindos apenas, a saber, da sua existência muitos anos depois. Por outro lado, o 14-Bis de Dumont teve uma decolagem autopropulsada, tendo sido a primeira atividade esportiva da aviação a ser homologada pela FAI.

Abraj Al Bait é o complexo arranha-céu construído na cidade de Meca, na Arábia Saudita. A torre do complexo é a mais alta da Arábia Saudita e uma das mais altas do mundo, com 601 metros de altura. Todas as sete torres do complexo estão agrupadas em um único edifício, e a sua área de construção é uma das maiores do mundo, com exatos 1 500 000 m². Foi inaugurado em 2012. As torres também são reconhecidas como Mecca Royal Hotel Clock Tower. O edifício detém vários recordes no âmbito da construção civil: o mais alto hotel do mundo, a mais alta torre de relógio do mundo, e o maior mostrador de relógio do mundo, a maior área coberta de um edifício, e o terceiro mais alto do mundo, ultrapassado pelo Burj Khalifa, no Dubai e pelo Shanghai Tower, em Xangai. Fica a metros da maior mesquita do mundo e local sagrado do Islão, a Grande Mesquita de Meca. O promotor e empreiteiro da obra é o Saudi Binladin Group, a maior empresa de engenharia de construção civil da Arábia Saudita.

O hotel é encimado por um relógio de quatro faces, considerado pela Arábia Saudita como o maior relógio do mundo. O relógio é muito maior que o do Big Ben em Londres, que já deteve o título de maior relógio de quatro faces do mundo, assim como o do atual detentor do título, o da Allen-Bradley Clock Tower em Milwaukee, Estados Unidos da América. Os mostradores do relógio saudita têm mais que o quíntuplo da área. Cada uma das faces do relógio tem 46 metros de diâmetro e será iluminada por dois milhões de lâmpadas de “diodo emissor de luz” (LED), junto uma grande inscrição em árabe: الله أكبر (“Deus é grande”), o takbir. Outras 21 000 lâmpadas verdes e brancas, postas no topo do relógio, serão visíveis a uma distância de 30 quilômetros. O brasão de armas saudita aparece no centro de cada face, por trás dos mostradores. Os mostradores também são maiores que o do atual detentor do recorde, no Cevahir Mall em Istambul, com uma face de 36 metros no topo transparente do complexo desse centro comercial. Um teste de três meses no relógio começou em 11 de agosto de 2010, o primeiro dia do mês do Ramadã de 1431 AH. Engenheiros alemães e suíços projetaram o relógio e de acordo com o Ministério de Doações Religiosas, o projeto do relógio custará em torno de 800 milhões de dólares. O relógio conformará o Horário da Arábia (UTC+3).

          Em análise comparada o Big Ben é o nome de um grande sino instalado na torre noroeste do Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico, localizado em Londres, no Reino Unido. O nome oficial da torre em que o Big Ben está localizado era originalmente Clock Tower, mas ela foi renomeada como Elizabeth Tower em 2012 para marcar o Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II. A torre foi inaugurada durante a gestão de Sir Benjamin Hall, ministro de Estado da Inglaterra, em 1859. A torre foi construída em estilo neogótico e tem 96 metros de altura, tendo sido concluída em 1858 e iniciado suas atividades em 7 de setembro de 1859. A Torre do Big Ben é um ícone cultural britânico, um dos símbolos mais proeminentes na história social do Reino Unido e frequentemente em cenas de filmes, séries de televisão, programas ou documentários ambientados em Londres. Em 15 de fevereiro de 1952 tocou 56 vezes, todos os minutos durante o funeral do rei Jorge VI, falecido com 56 anos de idade. Em 27 de julho de 2012 tocou durante 3 minutos de forma programada das 8 horas e 12 minutos às 8horas e 15 minutos para anunciar a Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. Foi a primeira vez que o sino tocou fora de sua programação normal desde o funeral do Rei Jorge VI, em 1952. A torre abriga o maior relógio composto de quatro lados do mundo e é considerada a décima quarta torre de relógio mais alta do mundo contemporâneo.

           O funcionamento do relógio é famoso por sua confiabilidade. Os designers foram o advogado e horologista amador Edmund Beckett Denison e George Airy, o Astrônomo Real. A construção foi confiada ao relojoeiro Edward John Dent; após sua morte em 1853, seu enteado Frederick Dent concluiu o trabalho, em 1854. Como a torre não estava completa até 1859, Denison teve tempo para experimentar: em vez de usar o escapamento deadbeat e remontoire como originalmente projetado, Denison inventou o escapamento gravitacional duplo de três pernas que fornece a melhor separação entre o pêndulo e o mecanismo do relógio. O pêndulo é instalado dentro da caixa à prova de vento fechada sob a sala do relógio. Tem 13 pés (4,0 m) de comprimento, pesa 660 libras (300 kg), é suspenso em tira de aço para molas de 1⁄64 polegadas (0,40 mm) de espessura e bate a cada 2 segundos. O mecanismo de relógio em sala abaixo pesa cinco toneladas.

No topo do pêndulo está uma pequena pilha de moedas antigas; estes são para ajustar a hora do relógio. Adicionar uma moeda tem o efeito de levantar minuciosamente a posição do centro de massa do pêndulo, reduzindo o comprimento efetivo da haste do pêndulo e, portanto, aumentando a taxa de oscilação do pêndulo. Adicionar ou remover um centavo mudará a velocidade do relógio em 0,4 segundos por dia. O relógio tem corda manual, levando cerca de 1,5 horas três vezes por semana. Em 10 de maio de 1941, um bombardeio alemão danificou duas das faces do relógio e seções do telhado da torre e destruiu a Câmara dos Comuns. O arquiteto Sir Giles Gilbert Scott projetou um novo bloco de cinco andares. Dois andares são ocupados pela câmara atual, que foi usada pela primeira vez em 26 de outubro de 1950. O relógio funcionou com precisão e soou durante toda a Blitz. Antes de 1878 o relógio parou pela primeira vez em sua história, “devido a uma forte queda de neve” nos ponteiros de um relógio. Entre 21 de agosto de 1877 e janeiro de 1878 o relógio foi parado por três semanas para permitir que a torre e o mecanismo fossem limpos e reparados. A velha roda de escape foi substituída.

        Nascido dentro de uma modesta família de artesãos, depois de um longo período como professor secundário de Geografia, Immanuel Kant veio a estudar Filosofia, Física e Matemática na Universidade de Königsberg e em 1755 começou a lecionar ensinando Ciências Naturais. Em 1770 foi nomeado professor Catedrático da Universidade de Königsberg, cidade da qual nasceu, viveu até o fim da vida e nunca saiu, levando uma vida monotonamente pontual e só dedicada exclusivamente aos estudos filosóficos. Realizou numerosos trabalhos sobre ciências naturais e exatas. Kant é famoso sobretudo pela elaboração do denominado idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos a priori, aqueles que não vêm da experiência, para a experiência concreta do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar. A filosofia da natureza e da natureza humana de Kant é uma das mais determinantes fontes do relativismo conceptual que dominou a vida intelectual do século XX. Kant é também reconhecido pela filosofia moral e pela proposta, considerada a primeira moderna, de uma teoria da formação do Sistema Solar, reconhecida como a hipótese Kant-Laplace.

            A geografia é uma ciência que estuda a relação entre a Terra e seus habitantes. Os geógrafos querem saber onde e como vivem os homens, as plantas e os animais; onde se localizam os rios, os lagos, as montanhas e as cidades. A palavra geografia vem do grego geographía (γεογραπηία), que significa descrição da Terra. A geografia depende do compartilhamento de outras áreas do conhecimento técnico-científico. Utiliza os dados da química, da geologia, da matemática, da história, da física, da astronomia, da antropologia e da biologia e principalmente da ecologia, pois tanto a Ecologia como a Geografia são estudos e pesquisas com objetos abstratos interrelacionados, porque estão interessados com as análises biológicas, com as análises de fatores geológicos e dos ciclos biogeoquímicos dos ecossistemas, isto é, da relação entre os seres vivos e a utilidade de uso do ambiente como sobrevivência. Os geógrafos utilizam inúmeras técnicas, como viagens, leituras e estudo de estatísticas. Os mapas são seu instrumento etnográfico e meio de expressão mais importante. Além de estudar mapas, os geógrafos os atualizam pesquisas especializadas, aumentando o campo reconhecimento geográfico.

O homem sempre precisou e se utilizou do conhecimento geográfico, ou seja, a dinâmica do espaço geográfico e as ações técnicas e sociais do homem transformando-o com sobrevivência. Os povos pré-históricos tinham de encontrar cavernas para habitar e reservas regulares de água. Tinham também de morar perto de um lugar onde pudessem caçar. Caverna, gruta ou furna é toda cavidade natural rochosa com dimensões que permitam acesso aos seres humanos. Os termos relativos a caverna geralmente utilizam a raiz espeleo-, derivada do latim spelaeum, do grego σπήλαιον, “caverna”, da mesma raiz da palavra espelunca, mas fora do sentido pejorativo de cova. As cavernas são também estudadas pela espeleologia, uma ciência multidisciplinar que envolve análises da geologia, hidrologia, biologia, paleontologia e arqueologia. Sabiam localizar os rastros dos animais e as trilhas dos inimigos. Usavam carvão ou argila colorida para desenhar mapas primitivos de sua região nas paredes das cavernas ou nas peles secas dos animais.  O homem aprendeu a lavrar a terra e a domesticar os animais.  

            Hipótese nebular é uma teoria sugerida em 1755 pelo filósofo alemão Immanuel Kant e desenvolvida em 1796 pelo matemático francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827) no livro Exposition du Système du Monde. Segundo essa concepção de teoria, o Sistema Solar teria se originado há cerca de 4,6 bilhões de anos a partir de uma vasta nuvem de gás e poeira. Esse processo teria evoluído na seguinte sequência: contração da nebulosa graças à existência de uma força de atração gravitacional gerada pelo aumento da massa em sua região central. Esta contração teria provocado um aumento da velocidade de rotação. O calor gerado no interior dessa nebulosa é tal, que desencadeia reações químicas e físicas que a fazem brilhar; achatamento até à forma de disco, com uma massa densa e luminosa de gás em posição central, o proto-sol, correspondente a cerca de 99% da massa da nebulosa; durante o arrefecimento do disco nebular em torno do proto-sol houve condensação dos materiais da nébula em grão sólidos. As regiões situadas na periferia arrefeceriam mais rapidamente que as próximas da estrela em formação. Uma vez que a cada temperatura corresponde a condensação de um tipo de material com determinada composição química, teria ocorrido uma separação mineralógica peremptória de acordo com a distância ao Sol.

Em cada uma das zonas do disco assim formadas, a força da gravidade provocaria a aglutinação de poeiras, que formariam pequenos corpos chamados planetesimais, com diâmetro de cerca de 100 metros. Os maiores desses corpos atraíram os menores, verificando-se a colisão e o aumento progressivo das dimensões dos planetesimais. Todo este processo comunicativo, denominado acreção, conduziu à formação de corpos de maiores dimensões, os protoplanetas e posteriormente, aos planetas.  Nessas condições de elevada temperatura, a Terra e planetas terão sofrido dois fenômenos que contribuíram para a sua configuração atual: a diferenciação e a desgaseificação. A diferenciação, resultante do movimento dos materiais mais densos para o interior da Terra, por ação da extraordinária força da gravidade, contribui para a atual disposição concêntrica das diferentes camadas que a constituem com valores decrescentes de densidade movimentando-se do centro para a periferia.

A desgaseificação, traduzido na libertação de grandes quantidades de vapor de água e outros gases do seu interior, estaria na origem da formação da atmosfera primitiva, uma vez que a força gravitacional do nosso planeta é suficientemente forte para reter os gases que se libertavam de acumulação do seu interior. Os planetas mais próximos do Sol são essencialmente constituídos por materiais mais densos e com pontos de fusão mais altos: silicatos, ferro e níquel, enquanto os mais afastados são ricos em elementos gasosos: hidrogénio e hélio, esta constatação é coerente com a ideia geral de que terá havido maior condensação de elementos pouco voláteis em regiões com temperaturas elevadas mais próximas do Sol, e aí mantidas pela atração gravítica; e de elementos muito voláteis em regiões mais afastadas, mais frias e de menor interação gravítica com o Sol. Todos os planetas que conhecemos na literatura especializada realizam movimentos orbitais, translações, regulares, com a mesma direção e quase coplanares, realizadas no mesmo plano, o que apoia a ideia de “achatamento” da nebulosa inicial com uma rotação em torno de um eixo onde se situaria o proto-sol.

A datação de vários materiais do Sistema Solar aponta para a mesma idade da terra e dos restantes corpos do Sistema Solar. Tal observação dá consistência à ideia de um processo de formação simultâneo. A existência de meteoritos, das cinturas de asteroides interna e externa, asteroides e cometas, bem como a observação de crateras de impacto em Mercúrio, na Lua, em Marte e até na própria Terra, permite considerar razoável o processo de acreção. Há um pequeno pormenor que poderia pôr em xeque esta teoria: o planeta-anão Plutão. Como já foi frisado, próximo do Sol formaram-se os planetas telúricos, de grande densidade, como a Terra, Marte, Mercúrio e Vênus, e além do cinturão interno de asteroides, formaram-se os planetas gasosos, de tão baixa densidade que, por exemplo sugere a hipótese, se arranjássemos água suficiente para colocar Saturno, ele provavelmente flutuaria. Ora, Plutão encontra-se para lá do cinturão de asteroides e não é um planeta gasoso, mas sim telúrico. Os cientistas admitem a hipótese de Plutão ser um ex-satélite natural de Netuno que se “libertou” da sua atração gravitacional e adquiriu a sua própria órbita. Uma órbita tão estranha que chega a cruzar a órbita de Netuno. Ou então um asteroide ou um planeta de um outro sistema solar que o nosso Sol, através da sua ação gravitacional, atraiu. A principal contribuição moderna à hipótese nebular diz respeito a formação dos planetas a partir do gás existente no disco nebular e é de autoria do renomado físico alemão Carl Friedrich von Weizsäcker.   

E não foi por acaso que Carl von Weizsäcker foi autorizado a retornar à parte da Alemanha administrada pelos aliados ocidentais em 1946, e tornou-se diretor de um departamento de física teórica no Instituto Max Planck de Física em Göttingen. De 1957 a 1969, Weizsäcker foi professor de filosofia na Universidade de Hamburgo. Em 1957 ele ganhou a medalha Max Planck. Em 1970 formulou uma Weltinnenpolitik. De 1970 a 1980, foi chefe administrativo do Instituto Max Planck para a Pesquisa das Condições de Vida no Mundo Moderno em Starnberg. Ele pesquisou e publicou sobre o perigo da guerra nuclear, o que ele via como o conflito entre o Primeiro e o Terceiro Mundo e as consequências da degradação ambiental. Ele foi um dos oito signatários do Memorando de Tübingen que pedia o reconhecimento da linha Oder-Neiße como a fronteira oficial entre a Alemanha e a Polônia e falava contra um possível armamento nuclear da Alemanha Ocidental. Na década de 1970 ele fundou, juntamente com o filósofo indiano Pandit Gopi Krishna, uma fundação de pesquisa “para ciências ocidentais e sabedoria oriental”. Após sua aposentadoria em 1980, tornou-se um pacifista cristão e intensificou seu trabalho na definição conceitual da física quântica na interpretação de Copenhague.

        Immanuel Kant foi o quarto de nove filhos de Johann Georg Kant, um artesão fabricante de correias e componente das carroças e da mulher Regina. Nascido numa família protestante de formação luterana, teve uma educação austera numa escola pietista, que frequentou graças à intervenção de um pastor. Contudo, tornou-se muito cético relativamente à religião organizada na sua vida adulta embora preservasse a crença em Deus. Passou grande parte da adolescência como estudante, sólido, mas não espetacular, “preferindo o bilhar ao estudo”. Tinha a convicção curiosa de que uma pessoa não podia ter uma direção firme na vida enquanto não atingisse os 39 anos. Com essa idade, era um metafísico menor numa universidade prussiana, mas então uma breve crise existencial o assomou. Pode argumentar-se que ela teve influência na formação intelectual. Foi um competente professor universitário durante quase toda vida. Nada do que fez antes dos 50 anos lhe garantiria qualquer reputação histórica.

Viveu uma vida extremamente regulada: era acordado todos os dias às 5h00 da manhã por seu criado Martin Lampe e o passeio que fazia às 15h30 todas as tardes era tão pontual que as mulheres domésticas das redondezas podiam acertar os relógios por ele. Kant nunca deixou a Prússia e raramente saiu da cidade natal. Apesar da reputação que ganhou, era considerado uma pessoa muito sociável: recebia convidados para jantar com regularidade, insistindo que a companhia era boa para a constituição física. Por volta de 1770, com 46 anos, Immanuel Kant leu a obra do filósofo escocês David Hume, por muitos considerados um empirista ou um cético, considerando-o um naturalista. Kant sentiu-se profundamente inquietado. Achava o argumento de Hume irrefutável, mas as conclusões inaceitáveis. Durante dez anos não publicou nada e, em 1781 publicou a Crítica da Razão Pura, um dos livros mais influentes da moderna filosofia.

Neste livro, ele desenvolveu a noção abstrata de um argumento transcendental para mostrar que, em suma, apesar de não podermos saber necessariamente verdades sobre o mundo “como ele é em si”, estamos forçados a percepcionar e a pensar acerca do mundo de certas formas: podemos saber com certeza um grande número de coisas sobre “o mundo como ele nos aparece”. Por exemplo, que cada evento estará causalmente conectado com outros, que aparições no espaço e no tempo obedecem a leis da geometria, da aritmética, da física, etc. Nos cerca de vinte anos seguintes, até a morte em 1804, sua produção foi incessante. O edifício da filosofia crítica foi completado com a Crítica da Razão Prática, que lidava com a moralidade de forma similar ao modo como a primeira crítica lidava com o conhecimento; e a Crítica do Julgamento, que lidava com os vários usos dos nossos poderes mentais, que não conferem conhecimento factual e nem nos obrigam a agir: o julgamento estético e julgamento teleológico (construção de coisas como tendo fins). Como Kant os entendeu, o julgamento estético e teleológico conecta os nossos julgamentos morais e empíricos um ao outro, unificando o seu sistema de vida.

Uma das obras mais importantes atinge hoje em dia grande destaque entre os estudiosos da filosofia moral: A Fundamentação da Metafísica dos Costumes que é considerada por muitos filósofos a mais importante obra já escrita sobre a moral. É nesta obra exemplar que o filósofo delimita as funções da ação moralmente fundamentada e apresenta conceitos como o Imperativo categórico e a Boa vontade. Os trabalhos de Kant são a sustentação e ponto de início da moderna filosofia alemã; como diz Georg Wilhelm Friedrich Hegel, frutificou com força e riqueza só comparáveis à do socratismo na história da filosofia grega. Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Hegel, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, Arthur Schopenhauer, para indicar apenas os maiores, inscrevem-se na linhagem desse pensamento que representa uma etapa decisiva na história da filosofia e está longe de ter esgotado a sua fecundidade.  Immanuel Kant escreveu alguns ensaios medianamente populares sobre história, política e a aplicação da filosofia à vida. Quando morreu, estava trabalhando numa projetada “quarta crítica”, por ter chegado à conclusão de que seu sistema estava incompleto; este manuscrito foi então publicado como Opus Postumum. Morreu em 12 de fevereiro de 1804 na cidade em que nasceu e permaneceu durante toda sua extraordinária vida. Encontra-se sepultado no Cemitério do Caliningrado, Caliningrado, Oblast de Kaliningrado na Rússia.

Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart, Alemanha, no dia 27 de agosto de 1770. Recebeu esmerada educação cristã. Em 1788 ingressou no seminário de Tübingen, que cursou durante cinco anos a fim de se preparar para receber ordens. Foi colega de classe do poeta Friedrich Hölderlin e do filósofo Joseph Schelling, que partilhavam sua admiração pela tragédia grega e pelos ideais da clássica Revolução Francesa. Os primeiros escritos de Hegel versaram sobre assuntos teológicos, mas ao concluir o curso, Hegel não seguiu a carreira eclesiástica, preferiu se dedicar ao estudo da literatura e da filosofia grega. Em 1796 mudou-se para Frankfurt, onde Hölderlin lhe conseguiu um lugar de preceptor. Em 1801 habilitou-se Livre-Docente na Universidade Friedrich Schiller de Jena (Friedrich-Schiller-Universität Jena) situada na cidade de Jena (cf. Crissiuma, 2017), na Turíngia no centro. É uma das dez universidades mais antigas da Alemanha, estabelecida no ano de 1558 segundo os planos do príncipe João Frederico I da Saxônia. O auge da sua reputação ocorreu sob os auspícios do duque Carlos Augusto, patrono de Johann Wolfgang von Goethe, autor do clássico Fausto, poema trágico, obra prima da literatura, quando Fichte, Hegel, Schelling, Friedrich von Schlegel e Friedrich Schiller faziam parte do corpo docente. Ainda no seminário de Tübingen, escreveu com dois outros renomados colegas, os filósofos Friedrich Schelling e Friedrich Hölderlin, o que chamaram de “o mais antigo programa de sistema do idealismo alemão”.

Na Introdução à Fenomenologia Hegel repete suas críticas a uma filosofia que não fosse mais que teoria do conhecimento. E não obstante, a Fenomenologia, como têm assinalado quase todos os seus expressivos comentaristas, marca em certos aspectos um retorno ao ponto de vista de Kant e de Fichte (cf. Salvadori, 2014). Em que novo sentido devemos entendê-lo? Ora, se o saber é um instrumento, modifica o objeto a conhecer e não nos apresenta em sua pureza; se for um meio tampouco, nos transmite a verdade sem alterá-la de acordo com a própria natureza do meio interposto. Se o saber é um instrumento, isto supõe que o sujeito do saber e seu objeto se encontram separados; por conseguinte, o Absoluto seria distinto do conhecimento: nem o Absoluto poderia ser saber de si mesmo, nem o saber, fora da relação dialética, poderia ser saber do Absoluto. Contra tais pressupostos a existência mesma da ciência filosófica, que conhece efetivamente, é já uma afirmação. Não obstante, esta afirmação não poderia bastar porque deixa a margem a afirmação de outro saber; é precisamente esta dualidade o que reconhecia Friedrich Schelling quando opunha o saber fenomênico e o saber absoluto, mas não demonstrava os laços entre um e outro. Uma vez colocado o saber absoluto não se vê como é possível no saber fenomênico, e o saber fenomênico por sua parte fica igualmente separado do saber Absoluto. Friedrich Hegel retorna ao saber fenomênico, ao saber típico da consciência comum, e pretende demonstrar como aquele conduz necessariamente ao saber Absoluto, ou também que ele mesmo é um saber absoluto que, todavia, não se sabe como tal.

Não apenas Friedrich Fichte, mas o próprio Johann Schelling, adverte Hösle (2007), tampouco satisfaz a exigência de uma estrutura de sistema que retorna a si mesma, pois o dualismo fichteano do Eu e Não-Eu que perdura em última análise no primeiro projeto resumido de sistema, a saber no Sistema do idealismo transcendental. Segundo ele, a filosofia tem, com efeito, duas partes – filosofia natural e filosofia transcendental, a qual, por sua vez, contém, entre outras coisas, filosofia prática e filosofia teórica. Schelling argumenta do seguinte modo: já que o saber seria unidade de subjetividade e objetividade, o ponto de partida da filosofia teria de ser ou o objetivo (a natureza) ou o subjetivo (a inteligência). Naquele caso, surgiria a filosofia da natureza; neste, a filosofia transcendental. O objetivo de cada uma dessas duas ciências seria avançar na direção da outra – portanto, de um lado, “partindo da natureza chegar ao inteligente”, e, de outro, partindo do subjetivo, “fazer surgir dele o objetivo”. Esta afirmação apenas poderia fazer sentido se para Hösle, com ela se tivesse em mente que a inteligência tem de objetivar e naturalizar em atos práticos e estéticos, como Schelling tenta demonstrar no Sistema.  A segunda falha resulta da primeira. Schelling conhece, em última instância, apenas duas esferas da filosofia, as quais, na terminologia conceitual concreta de Hegel, pertencem ambas à filosofia da realidade.

Aquela estrutura que precede à ambas e que Hegel tematiza na Ciência da Lógica não tem lugar neste projeto de sistema de Schelling. É fácil ver que não se pode um renunciar a ela, e por três motivos. Em primeiro lugar, somente desse modo se pode compreender porque ambas as partes são momentos de uma unidade. Não basta afirmar sua relação mútua, é preciso explicitar estruturas ontológicas gerais que subjazem de igual modo à natureza e à inteligência. Em segundo lugar, somente desse modo se pode tornar plausível a dependência da natureza em relação a uma esfera ideal. E, em terceiro lugar, uma filosofia natural e uma filosofia transcendental apriorísticas são inconcebíveis sem essa esfera abrangente, pois a partir de que deveriam ser fundamentadas as primeiras suposições de ambas as filosofias da realidade? Depois de se desfazer do “resto de fichteanismo”, ainda reconhecível sobretudo na execução do sistema do idealismo transcendental, Schelling introduziu na Apresentação, como base destas duas ciências, o Absoluto, e o definiu como identidade de subjetividade e objetividade.  

No entanto, não se pode deixar de entender um limite na doutrina schellinguiana do Absoluto que representa um retrocesso, ficando, no mínimo, aquém de Fichte e, em certo sentido, até mesmo aquém de Kant: as categorias analíticas que Schelling utiliza para a caracterização do Absoluto são catadas e, de modo algum deduzidas do próprio Absoluto. Unidade, identidade, infinitude são determinações que Schelling toam da tradição e que, em primeiro lugar, ele não legitima em si e por si – ele apenas mostra que em sua utilização de mera identidade, antes elas que seu contrário conviria ao Absoluto, o qual é entendido como unidade de subjetividade e objetividade, e que em segundo lugar, ele nem sequer põe em um nexo causal ordenado. Simplificadamente, segundo Vittorio Hösle (2007), o sistema pensamento de Hegel pode ser representado da seguinte forma: 1) o princípio supremo da filosofia transcendental tem de ser, com Fichte, uma estrutura iniludível e que fundamente a si mesma reflexivamente. 2) no entanto, esse princípio não pode ter nada perante si, se quer ser absoluto; sendo determinado como subjetividade, ele não pode, portanto, ser subjetividade finita, mas tem de ser com Schelling, unidade de subjetividade e objetividade ou, em terminologia hegeliana, ideia. 3) com o reconhecimento, porém, de que o Absoluto é unidade de subjetividade e objetividade, a filosofia ainda não está concluída. Antes, trata-se de explodir o caráter pontual desse conhecimento, por quatro motivos: a) a estrutura absoluta não pode ser posta imediatamente, pois  ela mesma seria, na verdade, uma abstração, da qual nada decorreria; b) apenas assim pode-se alcançar uma prova da absolutidade dessa estrutura.

Mas então é necessária uma prova, mas de um modo necessariamente diferente de como elas mesmas são pressupostas pela ideia absoluta, se é que o círculo deve ser evitado; c) a determinação da exata relação entre “lógica” e “metafísica”, isto é, entre a doutrina das categorias finitas e a ciência do princípio absoluto, é o problema para o qual em Jena, pelo fim de sua temporada Friedrich Hegel, conseguiu encontrar uma solução que o satisfizesse até o final de sua vida, enquanto, para a maior parte das demais estruturas fundamentais de sua filosofia , ele chegou bem mais cedo a respostas que sustentou até a Enciclopédia. A ideia Absoluta origina, não apenas as categorias lógicas anteriores a ela, por meio das quais ela mesma é constituída, sem abdicar da centralidade de seu sistema, ela mesma é constituída em termos de origem assimétrica. Para resolver esse problema, oferece-se propriamente um caminho. O espírito, reconhece Hegel na batalha das ideias contra Friedrich Schelling - tem de estar acima da natureza, a qual tem de corresponder às categorias deficientes da Ciência da Lógica.  

Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata.

Posteriormente desenvolveu um sistema de pensamento filosófico que denominou “Idealismo Absoluto”, uma filosofia capaz de compreender discursivamente o Absoluto. Entre 1807 e 1808 dirigiu um jornal em Bamberg. Entre 1808 e 1816 foi diretor do ginásio de Nuremberg. Em 1816 tornou-se professor da Universidade de Heidelberg. Em 1818 em Berlim, quando ocupou a cátedra de filosofia, período em que encontra a expressão definitiva de suas concepções estéticas e religiosas. Tinha grande talento pedagógico, mas considerado mau orador, pois usava terminologias pouco usadas que dificultavam sua interpretação. Exerceu enorme influência em seus discípulos que dominaram as universidades da Alemanha. Logo passou a ser o filósofo oficial do rei da Prússia (cf. Wickert, 2013) Friedrich Hegel descreve sua concepção filosófica, no prefácio a uma de suas mais célebres obras, a Fenomenologia do Espírito (1807).  O prólogo é posterior a redação da obra. Foi escrito, passado já o tempo, quando o próprio Hegel pode tomar consciência de seu avanço e sua descoberta (cf. Silva, 2017). Tinha como objetivo assegurar o ligamento entre a Fenomenologia, sua obra principal e ponto de chegada de um sistema a qual só aparece como a primeira parte da ciência, e a Lógica que, situando-se em uma perspectiva distinta da adotada pela Fenomenologia, deve constituir o primeiro momento de uma Enciclopédia. Explica-se que neste prólogo que é como um gonzo entre a subjetividade da Fenomenologia e a objetividade se sentira fundamento da ideia geral de todo o seu sistema filosófico.

Isto é, segundo sua concepção que só deve ser justificada pela apresentação do próprio sistema, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas, precisamente como sujeito. A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou   que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade se reinstaurando, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal. O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ipso facto sua antítese, dialeticamente que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim. Friedrich Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. A clareza não seria adequada para conceituar o próprio objeto. Introduziu um sistema de pensamento para compreender a história da realidade do mundo, chamado geralmente dialética: uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge, pois, como solução das contradições inerentes ao movimento anterior.

Bibliografia geral consultada.

RAMETTA, Gaetano, Concetto del Tempo: Eternitá e Darstellung Speculativa nel Pensiero di Hegel. Padova: Editore Franco Angelli, 1975; OLIVEIRA, Kepler de; SARAIVA, Maria de Fátima, Astronomia e Astrofísica. 2ª edição. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2004; GALISTON, Peter, Os Relógios de Einstein e o Mapas de Poincaré: Impérios do Tempo. Lisboa: Editora Gradiva, 2005; KOSELLECK, Reinhardt, Futuro Passado: Contribuição à Semântica dos Tempos Históricos. Rio de Janeiro: Editora Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006; HEGEL, Friedrich, Fenomenologia do Espírito. 4ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007; TERUEL, Pedro Jesús, Mente, Cerebro y Antropología en Kant. Madrid: Ediciones Tecnos, 2008; ROSA, Hartmut, Accélération. Une Critique Sociale du Temps. Paris: La Découverte, 2010; NICOLAU, Marcos Fabiano Alexandre, O Conceito de Formação Cultural (Building) em Hegel. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira. Faculdade de Educação. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2013; HARTOG, François, Regimes de Historicidade: Presentismo e Experiências do Tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014; POSTONE, Moishe, Tempo, Trabalho e Dominação Social. São Paulo: Boitempo Editorial. 2015; CRISSIUMA, Ricardo, A Formação do Jovem Hegel (1770-1800): Do Esclarecimento do Homem Comum ao Carecimento da Filosofia. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2017; SILVA, Paulo Roberto Pinheiro da, O Paradoxo do Conhecimento Imediato ou o Desespero da Consciência Natural. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; SANTOS, Milton, Por Uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. 32ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2021; SILVA, César Diogo Bezerra da, Novos Paradigmas para o Processo de Stavskaya. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estatística. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2022; entre outros.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Lucy Liu – Beleza, Técnica & Arte Cinematográfica.

                                Ubiracy de Souza Braga*

                             “Depois de encarnar a linguagem, o personagem real vem naturalmente”. Lucy Liu
 
 
 
                
            Em primeiro lugar, a palavra gueixa significa literalmente artista (trabalho) e desde o final do século XVIII, etnograficamente pode descrever uma série de artistas japonesas: “Shiro”, puramente uma apresentadora; “kerobi”, uma gueixa acrobata; “kido”, uma gueixa que estava na entrada de carnavais, ou “joro”, uma prostituta, sendo esta a profissão que gueixas têm sido erroneamente mal interpretadas por muitos anos em que não detém o conhecimento etnológico de interpretação da cultura. A dança das gueixas evoluiu a partir da executada no palco do kabuki. As danças “selvagens e ultrajantes” transformaram-se em uma forma mais sutil, estilizada, passando a uma forma controlada. São disciplinadas, semelhante ao Tai Chi, vale lembrar, uma arte marcial chinesa interna, parcialmente baseada no bagua. Este estilo de arte marcial é reconhecido também como uma forma de meditação em movimento. Os princípios do taiji Quan remetem ao taoismo e à alquimia chinesa relacionada ao taoísmo. Seus praticantes utilizam os Cinco Elementos; o Tao, a relação entre Yin e Yang; o Ki; o I-Ching; a astrologia chinesa; os princípios do feng shui, e da medicina tradicional chinesa.

Cada dança usa gestos para narrar uma história. Um conhecedor pode entender seu simbolismo. Um gesto de mão, representa ler uma carta de amor. O canto de um lenço na boca falta de modos. As mangas longas do quimono para simbolizar situações de fortes emoções em lágrimas. A utilização dos quimonos iguala a estampa para a estação. Há estampas multicoloridas para cada estação do ano. Algumas mulheres vão além. Subdividem as estampas e cores por mês. Assim, cada mês representativo do ano é representado por uma estampa e gama de cores específica. A maquiagem da gueixa é sua grande característica marcante. Mas esta é usada de acordo com seu grau de experiência. É um processo demorado aplicado antes de se vestir para evitar sujar o quimono. Quando aprendiz, a gueixa usa a maquiagem de forma regular e mantém todo o rosto branco.

Ela realmente só usa a maquiagem quando precisa dançar ou para demonstrar seu desempenho a algum cliente. Quem aplica essa maquiagem na gueixa podem ser a sua “onee-san” (ou irmã mais velha) ou pela “okaa-san” (ou gueixa-mãe), de sua casa de gueixas. Sua aplicação é feita com muito cuidado, pois, ao cometer um erro, o aprendiz que está a maquiar seria obrigado a limpar tudo e começar novamente. O tempo de duração dessa maquiagem pode ser de até duas horas. É impossível ver uma maquiagem assim e instantaneamente não associar a imagem a elas. As mulheres daquela deste tempo e até nos dias atuais usavam pó de farinha de arroz ou um pó à base de chumbo misturado com água. Vira uma pasta fina e com ela, aplicavam na pele como se fosse uma base, aplicando pelo rosto todo, pescoço e colo. Têm o hábito também de arrancar todos os pelos das sobrancelhas e depois de aplicarem a pasta branca no rosto, faziam sobrancelhas falsas no alto da testa. E um hábito higiênico chamado Ohaguro que consiste em escurecer os dentes com uma mistura que envolve os procedimentos de utilização de limalha de ferro oxidado mergulhada em uma solução ácida. A aplicação desta mistura deve ser repetida a cada dois dias, porque em caso contrário os dentes voltam a ser branco.

Nos estágios iniciais da história cultural japonesa, existiam artistas do sexo feminino chamado “saburuko” (“meninas que servem”), que eram em sua maioria “meninas vagando” cujas famílias haviam sido deslocadas nas lutas no fim do século VII. Algumas “dessassaburukos” vendiam serviços sexuais, enquanto outras com uma melhor educação ganhavam a vida entretendo uma alta classe da sociedade em encontros sociais. Após a corte imperial mudar a capital para Heian-kyō (Kyoto) em 794, no início do período Heian, as condições que formam a cultura japonesa da gueixa começaram a surgir, e depois se tornaram o lar uma elite política obcecada pela beleza e mistério dessa cultura. Na cultura japonesa, a mulher ideal era uma mãe modesta e gerente da casa. Para o prazer sexual e apego romântico, os homens procuravam por cortesãs. No Japão, a condição comportamental de gueixa é simultaneamente cultural, simbólica e repleta de status, delicadeza e tradição. Ao longo dos séculos, ocorreu um aprimoramento nesse contexto social que foi desenvolvido pelo aperfeiçoamento da técnica dessas artes e pela estrutura rígida e polida para se tornar uma gueixa e permanecer como tal.

Lucy Alexis Liu é filha de Tom Liu, engenheiro civil, e Cecília Liu, bioquímica, Lucy é a segunda filha do casal, tendo como irmão John Liu. Apesar da origem chinesa, Lucy Liu cresceu num bairro italiano e diz que sofreu “alienação cultural”, por ter uma aparência asiática. A atriz completou a escola secundária em 1986, na Stuyvesant H.S. e estudou na Universidade de Nova Iorque por um ano, mas acabou desistindo dessa universidade e foi estudar na Universidade de Michigan, onde se formou especificamente em Línguas e Culturas Asiáticas, enquanto do ponto de vista artístico estudava representação, dança e representação de técnicas vocais. As práticas orientais de Liu vão muito além da sua formação na Universidade. Ela é fluente em Chinês Mandarim, a língua mais falada no mundo, com mais de um (01) bilhão de falantes nativos e pratica artes marciais indonésias, inclusive Kali Eskrima Silat (K.E.S.A.), que é uma luta rude com facas e varas. A sino-americana ficou reconhecida por seu papel na série de televisão Ally McBeal e participou de vários filmes com papeis notáveis, incluindo “Chicago”, “Kill Bill” e “Charlie`s Angels”. Ela está presente semanalmente nas participações no seriado de TV “Elementary” quando representa uma versão contemporânea do personagem Sherlock Holmes, criado por Arthur Conan Doyle, mas com as histórias se passando nos Estados Unidos da América (EUA). É estrelada por Jonny Lee Miller, como Holmes e Lucy Liu, como Watson, com a analogia  fantástica da singular Drª. Watson.




            O desporto e as artes marciais são duas formas de conhecimento que apresentam algumas diferenças na sua essência. Artes marciais são disciplinas físicas e mentais codificadas em diferentes graus, que tem como objetivo um alto desenvolvimento de seus praticantes para que possam defender-se ou submeter o adversário mediante diversas técnicas. São sistemas para treinamento de combate, geralmente sem o uso de armas de fogo ou de outros dispositivos modernos. Atualmente, as artes marciais, para além de praticadas enquanto treinamento militar, policial e de defesa pessoal, são também praticadas como Desporto de combate. No início do século XX, as artes marciais mudaram radicalmente os seus fundamentos e passaram a ter uma presença mais espiritual e introspetiva na mente de todos os seus praticantes. O termo “Do” que está presente em várias disciplinas marciais, como o Judo, Karate-Do, Taekwondo, Aikido, Kendo, entre outras, significa arte e método e é por isso que todas as modalidades marciais são uma referência no desporto mundial, pois cultivam a ordem e um método de ensino disciplinado dos seus elementos. Existem diversos estilos, sistemas e escolas de artes marciais. O que diferencia as artes marciais da mera violência física cotidiana, como  as brigas de rua, é a organização de técnicas num sistema coerente de combate e desenvolvimento físico, mental e espiritual como a prática de exercícios físicos utilizado em exercícios da escola.
           No período histórico moderno e contemporâneo, diversas práticas e saberes marciais ficaram vinculadas unicamente à luta e à defesa pessoal, situação muito distinta do Oriente, do ponto de vista da análise comparada, que as integra a um sistema filosófico que prepara o praticante também física e espiritualmente, criando uma consciência da futilidade de viver competindo e de utilizar sua arte para defender quem não tem o mesmo preparo disciplinar. Mas a Europa também mantinha uma tradição filosófica de unir a arte marcial às ciências, desde o período greco-romano, passando pelos nobres europeus na Idade Média e cientistas no Renascimento, todos aplicavam o método científico em suas práticas. Atualmente, pessoas de elite de uma boa parte  do mundo estudam artes marciais por diferentes aspectos desde a estética a outros motivos pessoais: condicionamento físico, defesa pessoal, coordenação física, lazer, desenvolvimento pessoal de disciplina, participação em um grupo social e estruturação da personalidade, visto que a prática de condicionamento possibilita o extravasamento da tensão que harmoniza o indivíduo, focalizando-o positivamente. O enfoque na respiração proporciona benefícios físicos e psicológicos, como diminuição do cansaço, potencialização dos movimentos, aumento da autoconsciência etc. O episódio Paint it Black, o 22º da segunda temporada da intrigante série Elementary foi a primeira experiência de Lucy Liu na direção.
 
Atualmente, as artes marciais e o desporto estão interligados entre si pelas regras desportivas que os seus praticantes seguem e respeitam. Elas são definidas para a segurança de todos e é por isso que as competições são divididas por sexo, idade, peso e classes, de modo a que sejam o mais equilibradas possível. Por exemplo, a competição de Taekwondo não permite que sejam aplicados socos na cabeça, assim como outras artes marciais têm medidas específicas que visam proteger a integridade física dos seus praticantes. No entanto, a existência das regras (cf. Durkheim, 2010) distingue um combate de competição de uma luta pela própria vida. A prática do desporto é justa e equilibrada, contudo, quando se trata de lutar pela vida, a justiça deixa de ter um valor absoluto e todos querem ter uma vantagem em relação aos demais. Quando se trata da defesa pessoal, a ameaça não surge necessariamente do mesmo sexo, peso ou classe e as artes marciais aqui são treinadas para serem aplicadas como medidas de prevenção contra todos. As artes marciais trabalham a sobrevivência e estão dispostas a cumprir as “regras de rua”, isto é a inexistência de regras, ao passo que no desporto, existem regras que todos têm obrigatoriamente de cumprir. As artes marciais incluem vários exercícios que se destinam a manter a segurança de todos os indivíduos, mas é sempre uma simulação de um combate real. O desporto permite que um praticante tire o melhor proveito das regras, sem se preocupar com o que poderia ocorrer  se estas fossem diferentes.             
         Lucy Liu nasceu em 1968, em Nova Iorque, e, como filha de pais emigrantes chineses tentou sempre preservar a sua herança cultural. Licenciou-se em Língua e Cultura Chinesa na Universidade de Michigan, que, como local da sua primeira representação, numa peça teatral, ficou como marco de origem do salto para uma carreira profissional. Entre 1990 e 1996, desempenhou pequenos papéis em séries como os Ficheiros Secretos,  uma série de televisão norte-americana de ficção científica criada por Chris Carter e exibida originalmente entre 10 de setembro de 1993 e 19 de maio de 2002 e Serviço de Urgência é um seriado de televisão norte-americano criado pelo escritor e ex-médico Michael Crichton. O nome ER é uma abreviação das iniciais em inglês de Emergency Room, ou em português: Sala de Emergência. A série mostra o cotidiano dos médicos e enfermeiras que trabalham numa sala de emergência do Country General Hospital, um fictício hospital de Chicago, Illinois. Após uma curta participação em Jerry Maguire (1996), inspirado no agente desportivo Leigh Steinberg, que atuou no filme como consultor técnico na equipe. Lucy Liu alcançou a notoriedade com a série televisiva Ally McBeal (1997-2002) onde desempenhou o papel da popular personagem Ling Woo. A série narra as aventuras de uma advogada e seu desejo de encontrar um parceiro ideal para se casar e de estar bem na vida, profissional e emocionalmente.
       Neste caso toda a trama se desenrola num escritório de advocacia, em Boston, onde Ally e o resto de seus colegas excêntricos trabalham e vivem situações bastante irreais. Seu talento abriu as portas para seu dom na carreira cinematográfica, em sucessos reveladores: Payback (1999), um filme norte-americano do ano de 1999 do gênero policial e suspense baseado no livro de mesmo nome do autor Donald E. Westlake. Foi dirigido por Brian Helgeland e estrelado por Mel Gibson, Gregg Henry, Maria Bello e Lucy Liu. Em Shangai Noon (2000), um western que ocorre no ano de 1881, Chon Wang (Jackie Chan) é um desastrado guarda do Imperador da China.  Quando a Princesa Pei Pei (Lucy Liu) é raptada da Cidade Proibida, Wang sente-se responsável e insiste em se juntar ao “batalhão de salvamento”, que parte para os Estados Unidos da América. “Charlie`s Angels” (2000), três belas, talentosas e inteligentes mulheres trabalham para Charlie, o chefe de uma agência de detetives que, sem armas, precisam desvendar o sequestro de um bilionário, utilizando apenas equipamentos de alta tecnologia, suas habilidades em lutas e seu charme feminino,  Chicago (2002),  o filme explora o tema do status de celebridade instantânea na cidade de Chicago da década de 1920. Dirigido e coreografado por Rob Marshall, e adaptado por Bill Condon, venceu seis prêmios Oscar em 2003, incluindo o de melhor filme do ano. Foi o primeiro musical a receber este prêmio desde Oliver!, de 1968, e Kill Bill (2003), no papel de O-Ren Ishii. Foi também na série Ally McBeal, sucesso televisivo que demarcou a sua grande oportunidade como artista, ingressando no elenco durante quatro excitantes temporadas.    
  Em Kill Bill I, têm-se Beatrix Kiddo e O’Ren Ishii. Suas personalidades estão intimamente ligadas aos codinomes, sendo este ponto uma fonte de possibilidades para a análise mítica. Além dos codinomes e as cores, acessórios e também os cenários estão incluídos. Todos eles possuem valores e significados simbólicos na trama desse instigante cineasta. O’Ren Ishii, interpretada por Lucy Liu, mereceu uma apresentação em linguagem diferenciada. Tarantino usou “anime” para apresentar a assassina ao publico. Ao analisar o nome O’Ren considera-se apenas silaba “Ren”, que em japonês, dependendo da frase, significa “lírio da água”. No simbolismo dos lírios, é ele que restitui a vida pura, promessa de imortalidade e salvação. Neste ponto vemos uma ligação com a pureza de alma e mesmo inocência. O codinome de O’Ren é “boca de algodão”, análogo ao uso das palavras. Contudo, na tradição japonesa, as mulheres têm em sua singularidade cultural suas emoções contidas. Ela fala de forma agradável e gentil, mas O’Ren não é japonesa, representa uma diversidade.  É meio japonesa, meio chinesa e sino-americana. Quando contrariada, transforma-se em assassina, demonstra a força criadora, o sopro divino, e tira a vida de quem estiver no meio de seu caminho. 
         O filme é um drama fictício de vingança, que homenageia antigos gêneros, tais como filmes antigos asiáticos de kung fu, filmes japoneses de samurai, western spaghetti italiano, trash, anime, uma grande referência à música popular e cultura pop; e alta violência deliberada. As gravações ocorreram nos Estados Unidos, México, Japão e China. Kill Bill narra a história de vingança de Beatrix Kiddo, interpretada por Uma Thurman, contra seus ex-parceiros do Esquadrão Assassino de Víboras Mortais, que tentaram assassiná-la no dia do ensaio do seu casamento. O filme começa uma luta e com a mulher com um homem, Bill, caminhando, no chão há cápsulas de balas e vários corpos, ele vai até Beatrix, que está ensanguentada e ferida, e lhe dá um tiro na cabeça, deixando-a para morrer. Nesta primeira parte o diretor exerce seu poder ao criar uma obra com violência caricata impressionante. Há pitadas de humor e muita ação. Inicia com um provérbio já denunciando o tom do filme: “Revenge is a dish best served cold”. Esta parte da obra mostra a vingança da Noiva contra Vernita Green (Vivica A. Fox) e O-Ren Ishii (Lucy Liu). Há explicações de o que aconteceu após ela ficar 4 anos em coma, sobre o passado de O-Ren Ishii (em anime), onde ela conseguiu a espada Hattori Hanzo e cenas de luta com destaque à travada contra Go-Go Yubari (Chiaki Kuriyama), além de uma apresentação musical do grupo de rock japonês The 5.6.7.8's.
             Provisoriamente podemos dizer: vingança é a perseguição que resiste, opõe-se e subestima. E terá esta perseguição suportada e conduzida à reflexão até hoje vigente. Quando procede a mencionada dimensão atribuída ao espírito de vingança? Então é preciso que tal dimensão seja vista desde a sua constituição íntima. Para que tal olhar venha a ter em certa medida algum sucesso, consideremos em que configuração essencial se manifesta modernamente. Esta estruturação essencial do ser vem à fala numa forma clássica, segundo a palavra de Nietzsche, no pensamento até hoje vigente determinado pelo “espírito de vingança”. Como pensa Nietzsche a essência da vingança, posto que ele a pensa metafisicamente? Podemos pensar á medida que temos a possibilidade para tal. Porém, ainda não nos garante que o possamos na possibilidade. Permitir que algo, segundo o seu próprio modo de ser, venha para junto de nós; resguardar insistentemente tal permissão. Podemos somente isso para o qual temos gosto – isso a que se é afeiçoado, à medida que o acolhemos. Verdadeiramente só gostamos do que, previamente e a partir de si mesmo, dá gosto. E nos dá gosto em nosso próprio ser à medida que tende para isso. Através desta tendência, reivindica-se nosso próprio modo de ser, agir e pensar. Nós o guardamos se não o deixamos fugir da memória, representante que é da concentração do pensamento. É o que cabe pensar cuidadosamente, sendo a palavra conselheira de nosso modo próprio de pensar.  
 
As “Charlie’s Angels” da primeira temporada da série em 21 de março de 1976, a princípio eram Kate Jackson (como Sabrina Duncan), Jaclyn Smith (como Kelly Garrett) e Farrah Fawcett (como Jill Munroe), mas que ao longo das temporadas da série, o elenco sofreu mudanças. A série teve 114 episódios e marcou a moda do final da década de 1970 e começo da década de 1980 com as mulheres copiando as roupas e os estilos de cabelo das panteras e principalmente o corte de cabelo de Farrah Fawcett, que se tornou um ícone da moda. Em 2000 foi lançado um filme baseado na série de 1976, As panteras, com atrizes que conhecemos muitos bem: Drew Barrymore, Cameron Diaz e Lucy Liu. Juntas trouxeram de volta as “Charlie’s Angels”, recebendo comando de Charlie. Entretanto a história se mostra um pouco diferente da original, com três mulheres com personalidades e habilidades diferentes que juntas formam um trio imbatível para o combate ao crime. Cameron Diaz faz Natalie uma mulher alegre, que adoro dançar e meio atrapalhada, Drew Barrymore fez Dylan uma mulher mais do rock n’ roll com o passado envolvendo crimes e Lucy Liu como Alex, a mais concentrada e com personalidade perfeccionista. Em 2003, o segundo filme: “Charlie’s Angels: Full Throttle” ainda demarca uma nova geração fabulosa no cenário artístico das Charlie’s Angels.           
Com o sucesso da série, a carreira cinematográfica de Liu adquire um impulso significativo, arrecadando o papel de “dominatrix” no filme de ação A Vingança, com Mel Gibson, de princesa raptada no western Shanghai Noon, com Jackie Chan e, finalmente, de anjo de Charlie ao lado de Cameron Diaz e Drew Barrymore, em 2000. Ao invés da subida progressiva da carreira, o guarda-roupa da atriz foi sempre equiparável à experiência de uma volta em montanha russa. Oscilando entre apostas fantásticas e espantosas, capazes de arrancarem um Oh de espanto ao mais cético, e opções de fazer ranger os dentes, Lucy Liu parece, ter atingido um ponto de estabilidade e inflexão na carreira artística, adotando casas como Versace, Monique Lhuillier, Roberto Cavalli e Carolina Herrera, para os visuais do famoso tapete vermelham. Com um traço sempre elegante, Lucy Liu realça o seu estilo romântico com folhos, chiffons e rendas, que, fatalmente, colocaram-na sempre perto do esquema kitsch e alguns “faux pas”, evidenciadas pela recorrência frequente aos dourados e prateados arriscados. Recentemente não por acaso foi escolhida pela Entertainment Weekly, como uma das mulheres mais sexy da televisão contemporânea. Liu pratica artes marciais, toca sanfona, escala montanhas e esquia normalmente. 

 A partir do instante em que, no seio de uma sociedade política, certo número de indivíduos têm e comum ideias, interesses, sentimentos, ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob a influência dessas similitudes, eles sejam atraídos uns para os outros, que se procurem,  teçam relações, se associem e que se forme assim, pouco a pouco, um grupo restrito, com sua fisionomia especial no âmbito da sociedade em geral. Porém, uma vez formado o grupo, dele infere uma vida moral que traz, naturalmente, a marca das condições particulares em que é elaborada. Porque é impossível que os homens vivam juntos, estejam regularmente em contato, sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união. Sem que se apeguem a esse todo, se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. Esse apego a algo que supera o indivíduo, essa subordinação dos interesses particulares ao interesse geral, é a própria fonte de toda a atividade moral. Basta que esse sentimento precise e determine, que, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes da vida, se traduza em fórmulas definidas, para que se tenha um corpo de regras morais em via de se constituir. A moral doméstica não se formou de outro modo.
          O escopo por excelência da moralidade, é em virtude de características  bastante particulares de que teria o privilégio e que não se encontrariam em outro lugar em nenhum grau. A série Elementary de televisão estadunidense criada por Robert Doherty, estreou na CBS em 27 de setembro de 2012. Ela apresenta uma versão contemporânea do personagem Sherlock Holmes, criado por Sir Arthur Conan Doyle, mas com as histórias se passando nos Estados Unidos da América. É estrelada por Jonny Lee Miller, como Holmes e Lucy Liu, como Watson. Na série, Watson foi transformado em mulher, interpretada por Lucy Liu. Em Sherlock (Jonny Lee Miller) é um ex-consultor da famigerada Scotland Yard que chega a Nova Iorque após passar um período em um centro de reabilitação. 
Forçado por seu abastado pai a dividir seu apartamento com a Dra. Joan Watson, uma cirurgiã que perdeu a licença há três anos quando um de seus pacientes morreu, ele precisa se manter sóbrio e longe das drogas. Watson acompanha-o no trabalho de consultor da polícia de Nova Iorque. O contato de Sherlock no departamento é o Capitão Thomas Gregson, que o conheceu em Londres. Liu foi anunciada no elenco em fevereiro de 2012. Em julho do mesmo ano, ela disse que Watson não é “alguém que está sobre a linha lateral; ela é sua companheira sóbria, ela está envolvida nele, não o mistério”. A partir desse ponto a história policial floresce. Antes da estreia da série, vale lembrar, ela foi recebida com algumas críticas, naturalmente, uma vez que seguiu de perto a adaptação moderna da BBC Sherlock. Após a estreia, ela foi escolhido para uma outra temporada completa e depois seguida de mais dois episódios. Desde então, a série tem sido bem recebida pelos críticos de arte, que elogiaram as performances, tanto quanto a escrita, a nova abordagem do material original e, claro, o novo e moderno detalhamento em toda a adaptação da série em Nova York, até o tamanho do arenito visto pela primeira vez na estreia da série. 
Bibliografia geral consultada.
MEYER, Charles, Histoire de la Femme Chinoise. 4000 Ans de Pouvoir. Paris: Editeur Jean-Claude. Lattès, 1986; PEREIRA, Ondina Pena, O Feminino em Jean Beaudrillard: Rito de Passagem do Modo de Produção ao Modo de Sedução. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1990; RORTY, Richard, Contingência, Ironia e Solidariedade. Lisboa: Editorial Presença, 1994; DURAND, Gilbert, A Imaginação Simbólica. Lisboa: Edições 70, 2000; SANTOS, Boaventura de Souza, A Crítica da Razão Indolente: Contra o Desperdício da Experiência. São Paulo: Cortez Editores, 2000;  BAUMAN, Zygmunt, Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004; Idem, Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005; GERNET, Jacques, Le Monde Chinois.  Paris: Armand Colin Editeur, 2005; PALLARESAUGRAS, Monique, Imaginário da Magia: Magia do Imaginário. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes; Editora PUC, 2009; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; SANTOS, Fabrício Cordeiro dos, A Cinefilia no Cinema de Quentin Tarantino. Dissertação de Mestrado. Program de Pós-Graduação em Comunicação. Mestrado em Comunicação. Faculdade de Informação e comunicação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2013; OLIVEIRA, Fernando Maluf Dib, A Constituição da Identidade na Pós-Modernidade: O Simulacro da Realidade. Dissertação de Mestrado. Instituto de Ciências Sociais. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2016;  entre outros.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará (UECE).