sábado, 22 de fevereiro de 2025

Glória Maria – 1ª Repórter Negra & Narradora da Televisão Brasileira.

Fui a primeira a fazer matérias de aventura na televisão, a voar de asa-delta, a cobrir guerra”. Glória Maria

            Vila Isabel é um bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. O bairro foi oficialmente fundado em 3 de janeiro de 1872, inspirado no “urbanismo parisiense”. Para urbanizá-lo e loteá-lo, Drummond organizou a Companhia Arquitetônica de Vila Isabel (1873), contratando o arquiteto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, discípulo de Grandjean de Montigny. É também reconhecido por ser um dos berços do samba no Brasil, localiza-se na subprefeitura da Grande Tijuca. É vizinho dos bairros de Grajaú, a Oeste; Maracanã, a Leste; Andaraí e Tijuca a Sul; e Engenho Novo, Sampaio, Riachuelo, Rocha e São Francisco Xavier, a Norte, pelos quais é separado pela Serra do Engenho Novo. Vila Isabel é sede da região administrativa de Vila Isabel, a mesma engloba os bairros de Vila Isabel, Andaraí, Grajaú e Maracanã. Seu índice de qualidade de vida, no ano 2000, era de 0,901, o 27º melhor do Rio de Janeiro, dentre 126 bairros avaliados, sendo considerado alto. As terras da fazenda eram cortadas por duas antigas estradas, a do Macaco e a de Cabuçu, que se tornaram, respectivamente, a Boulevard 28 de Setembro e a Rua Barão do Bom Retiro. O sistema de transporte de bondes a tração animal, provido pela Companhia Ferrocarril de Vila Isabel, empreendimento também criado por Drummond para explorá-lo (1873). Foi inaugurado em 1875, ligando o bairro ao Centro com a Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial, uma fábrica de tecidos localizada em Aldeia Campista, entre os bairros de Vila Isabel e do Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro, fundada em 1885.  

          Glória Maria Matta da Silva (1949-2023) revelou-se uma extraordinária jornalista, repórter e apresentadora de televisão na sociedade brasileira. Considerada um dos maiores símbolos do jornalismo brasileiro, foi a primeira repórter a realizar matérias jornalísticas ao vivo e a cores na televisão no Brasil. Glória Maria nasceu no bairro de Vila Isabel, na Zona Norte da capital do Rio de Janeiro. Começou sua vida profissional como telefonista na extinta Telecomunicações do Rio de Janeiro (Telerj), a empresa operadora de telefonia do sistema Telebras no estado do Rio de Janeiro, antes do processo de privatização em julho de 1998. Graduada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na década de 1960 foi princesa do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. De acordo com Bira presidente, ela conseguiu seu primeiro emprego quando foi, junto com o bloco, apresentar-se no programa do Chacrinha, na Rede Globo de Relevisão. Após a apresentação, conseguiu um estágio na emissora, já que tinha concluído o curso superior. – “O Chacrinha pedia sempre para eu levar a rainha e a princesa do bloco ao programa. Lá, a Glória comentou que precisava fazer um estágio, e ele gostou dela”, recorda o carioca Bira. A antiga fábrica é um supermercado. O bairro tem nove prédios tombados pelo Patrimônio Histórico. 

No antigo Jardim Zoológico, o primeiro do Brasil, hoje denominado de “Recanto do Trovador”, o Barão de Drummond criou o famoso jogo do bicho. No início do século XX, historicamente o bairro tornou-se ponto de encontro de músicos e boêmios, como Noel Rosa, adquirindo, então, a fama de bairro boêmio. No meio da Boulevard 28 de Setembro, encontra-se a Igreja Matriz de Vila Isabel, a Basílica Nossa Senhora de Lourdes. A matriz recebeu o título de basílica menor, em 23 de maio de 1959, concedido pelo Papa João XXIII. Aos domingos, de manhã bem cedo, os sinos da Igreja de Santo Antônio, a segunda maior, repicam continuamente. Esse templo fica no alto do morro, acedido por uma longa escadaria. Os limites do bairro abrangem todo lado direito da Serra do Engenho Novo descendo a Rua São Francisco Xavier até a Av. Prof. Manoel de Abreu seguindo a Av. Engenheiro Otacílio Negrão de Lima, Av. Maxwell e Rua Barão de Mesquita até a Rua Barão do Bom Retiro e seguindo esta até o gargalo que separa o Maciço da Tijuca da Serra do Engenho Novo, na altura do Parque do Trovador. O Cacique de Ramos, culturalmente falando, quer dizer, é um dos mais reconhecidos e tradicionais blocos de carnaval do Rio de Janeiro. São entidades carnavalescas análogas que desfilam, do ponto de vista disciplinar, antes do carnaval e terminam após o carnaval do Estado do Rio de Janeiro, são divididos em: enredo, sujo, embalo e os clubes de frevo, entre outros.

           O indivíduo privatista é o mesmo que pensa ser justificada a existência do espaço público apenas na medida em que satisfaz os interesses dos indivíduos privados. O mesmo indivíduo que tolera, admite e recomenda a privatização da vida pública em que seus representantes aparentemente se constituam em modelos de probidade. Na esfera pública da cidadania comparativamente, não obstante, quase sempre confunde princípios políticos com metas econômicas e está disposto a abrir mão da aparente moralidade e pudor quando um representante demonstra ser um bom administrador. O mesmo que exige probidade moral e pública e desrespeita as regras mínimas da convivenciabilidade em nome da satisfação de interesses privados. A distorção entre o campo social e o político decorre da moderna concepção da sociedade, a qual encara a política como um espaço de regulação da esfera privada. Hannah Arendt (1906-1975) defendia um conceito de pluralismo no âmbito político. Graças ao pluralismo, o potencial de uma liberdade e igualdade política seria gerado entre as pessoas. O que significa o juízo? Primeiramente, organização e subsunção do individual e particular ao geral e universal, procedendo-se então a uma avaliação ordenada com a aplicação de parâmetros pelos quais se identifica o concreto e de acordo com decisões. Por trás desses juízos há um prejulgamento, um preconceito social. O caso individual é julgado, não o próprio parâmetro, ou a questão de ele Ser ou não, uma medida adequada do objeto que está sendo medido.  Num dado momento, emitiu-se um juízo sobre o parâmetro, mas esse juízo foi adotado, tornando-se um meio para se emitirem juízos. 

Mas juízo pode significar algo totalmente diferente e sempre significa de fato quando nos confrontamos com algo que nunca vimos e para o que não temos nenhum parâmetro à disposição. Esse juízo que não conhece parâmetro só pode recorrer à evidência do que está sendo julgado, e seu único pré-requisito é a faculdade de julgar, o que tem muito mais a ver com a capacidade de discernir do que com a capacidade de organizar e subordinar. Tais juízos sem parâmetros nos são bastante familiares quando se trata de questões de estética e gosto, que, como observou Immanuel Kant, não se podem discutir, mas de que se pode, seguramente, discordar e concordar. Na vida cotidiana, como sabemos isso se verifica “em face de uma situação desconhecida, que fulano ou beltrano fez um juízo correto ou equivocado”.  Melhor dizendo, em toda crise histórica, são os preconceitos os primeiros a se esboroar e deixar de ser confiáveis, ipso facto, é essa pretensão de universalidade que distingue muito claramente ideologia de preconceito (sempre parcial por natureza). A ideologia afirma peremptoriamente que não devemos mais nos fiar em preconceitos - declarados como literalmente inapropriados. A falta de padrões no mundo moderno - a impossibilidade de formar novos juízos sobre o que aconteceu e o que acontece todos os dias com base em padrões sólidos, reconhecidos por todos, e de subsumir esses eventos a princípios gerais bem conhecidos, assim como a dificuldade estreitamente associada, de se proverem princípios de ação para o que deve acontecer agora - descrita como niilismo inerente à época, como desvalorização de valores, espécie de crepúsculo dos deuses, uma catástrofe na ordem moral do mundo.

Todas essas interpretações pressupõem tacitamente que só se pode esperar que os seres humanos tivessem juízos se tiverem parâmetros, que a faculdade de julgar não é, mais do que a habilidade de consignar casos individuais aos seus lugares corretos e adequados dentro de princípios gerais aplicáveis e sobre os quais estão todos de acordo. Escólio: Fazem parte da tabela do jogo 25 bichos, cada um correspondendo a quatro dezenas, somando 100 dezenas finais nos sorteios da loteria. O número do bicho é chamado de grupo. Para saber qual é o bicho (grupo), divide-se a dezena por 4 e se houver resto, aumenta-se 1 ao quociente. Ex.: 33 divididos por 4 é igual a 8, resta 1, logo o grupo do bicho é 9, que é “cobra”. O jogo do bicho foi criado pelo Barão João Batista Viana Drummond (1825-1897), carioca que viveu no final do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro. O barão de Drummond era um empresário reconhecido de grande prestígio na Corte, participava de vários empreendimentos e investimentos e era acionista da Cia Ferro Carril Vila Isabel. Quer dizer, o primeiro bairro planejado da cidade do Rio de Janeiro foi Vila Isabel. No projeto de criação do bairro estava previsto a instalação de um parque e de um jardim zoológico, jardim esse que mais tarde seria, não por acaso, o nascedouro do jogo de bicho. O Comendador Drummond, reconhecendo o projeto, solicitou, em 1884, permissão para instalar o jardim zoológico (cf. Magalhães, 2005; Bento, 2022). Em julho de 1888, houve a inauguração oficial do empreendimento que se tornou um sucesso.  Nesse mesmo ano, recebeu do Imperador Pedro II (1825-1891) o título nobiliárquico de Barão. Em 1890 com a segunda parte do projeto, ampliou as instalações do zoológico e criou um parque com plantas exóticasA situação financeira do zoológico, era difícil mesmo com a ajuda financeira recebida pela municipalidade, piorou com a criação do parque. 

O orçamento não era suficiente para cobrir as despesas com a alimentação dos animais e a manutenção do parque. O Barão tentou solucionar o problema cobrando dos visitantes, mas essa medida não foi bem aceita e provocou efeito contrário: os frequentadores do jardim zoológico desapareceram. O Barão recorreu à Intendência Municipal, visando obter licença para explorar jogos públicos lícitos nas dependências do zoológico, com a finalidade de trazer de volta o público visitante. A licença permitida “desde que não incluíssem os chamados jogos de azar, conforme estava previsto no Código Penal de 1890”. O mexicano Ismael Zevada, auxiliar do Barão, com o intuito de colaborar para a solução do problema mencionou o “jogo das flores” que existia em sua terra e que poderia ser adaptado para os “bichos”. A ideia foi analisada e posta em prática: foram pintados 25 quadros, cada quadro com um bicho, numerados a partir de 1. Antes de abrir o zoológico, o Barão escolhia um quadro e colocava-o em uma caixa que ficava estrategicamente a sua entrada. Em cada ingresso havia a figura de um dos vinte e cinco bichos. Às 15horas, a caixa era aberta e aqueles que tivessem no ingresso o bicho sorteado, eram os ganhadores de um prêmio em dinheiro. O primeiro sorteio ocorreu num domingo, em 3 de julho de 1892. O bicho sorteado foi o avestruz, uma espécie de ave não voadora, originária da África. Nessa ocasião publicista foram disponibilizados para o público consumidor, entre outros entretenimentos correlatos, porém, o jogo do bicho foi o que obteve na imprensa, um laissez faire e a própria reinauguração do zoológico.

Nesta época foram abertos os chamados “bookmakers”, casas de apostas que vendiam “poules” (“pule”) das mais diversas apostas permitidas ou não, inclusive a do jogo do bicho, que passou a ter validade por quatro dias. Assim o apostador não precisava ir ao zoológico nem estar presente no momento do sorteio. Além dos bookmakers, o Barão espalhou pela cidade seus agentes para vender os bilhetes do bicho, sendo essa participação dos vendedores ambulantes importante para o sucesso do jogo entre os apostadores. Mesmo clandestino, sobrevive por mais de um século graças às relações entre bicheiros e apostadores. Geralmente, os postos de trabalho dos “apontadores” de jogo e seus “clientes” são pessoas da mesma vizinhança, que discutem juntos as apostas. O prêmio é pago em dia um requisito básico para manter a credibilidade do sorteio e os apontadores tradicionais sabem de memória o palpite de seus clientes. Alguns apostadores protegem os bicheiros da polícia, escondendo-os em suas casas quando passa a fiscalização cotidiana. Por causa da repressão, o resultado do bicho é divulgado de maneira disfarçada, para não chamar a atenção da polícia. Um dos costumes é anunciar os animais sorteados em classificados ou em rádios clandestinas. Em alguns bairros, para evitar que os apontadores sejam pegos com a prova do crime, os bicheiros pregam os resultados do sorteio em um lugar público. Cada apostador arranca uma folha com o bicho do dia e leva o seu “fruto” para casa. Para ser vendido nas ruas, o jogo do bicho passou por adaptações: a primeira vincula os bichos aos números, depois veio a divisão em grupos e dezenas. Em 1897, morre o Barão, mas o jogo continua.

Em 1899, a Lei 628 que instituiu a pena de 1 a 3 meses de prisão para os acusados da prática do jogo do bicho. A imprensa teve sua contribuição na legitimação do jogo do bicho. Nas primeiras décadas do século XX, jornais foram criados em função do jogo. Em 1903 “O Bicho”, o primeiro dedicado ao jogo, mais tarde surgiram o “Talismã” e o “Mascotte”. Em 1915, o senador Érico Coelho apresentou um projeto de lei para legitimação do jogo do bicho, mas não foi aprovado. Segundo Magalhães (2006), o poder público responsável pela Capital Federal, jamais conseguiu definir uma estratégia efetiva para combater os chamados “bicheiros” ou deixar claro por que algumas loterias eram permitidas e outras não. Em 1941, o jogo do bicho é incluído na lei de Contravenções Penais. Cavalcanti (1995) afirma que depois de 1946, com a cassação de todas as licenças concedidas para funcionamento de casas de jogo no Brasil, o jogo do bicho se expandiu muito mais, acompanhando o crescimento de áreas periféricas. O bicheiro era reconhecido pela honra à palavra empenhada, obtendo com isso a confiança e o respeito do apostador, que recebia ajuda pessoal e benfeitorias públicas em troca da sua lealdade. O jogo do bicho, passou a fazer parte do cotidiano, do folclore e da vida contumaz brasileira, já tendo sido motivo para discórdia e infelicidade; tristeza e alegria. Foi tema consagrado para letra de música, roteiro de filmes, novela e enredo de escolas de samba.

É tema para trabalhos acadêmicos, livros, artigos de revistas e manchetes de jornais. A sua história já foi várias vezes sufocada à margem da sociedade, mas continua presente na cultura popular. A loteria foi “batizada” de jogo - bilhetes começaram a ser vendidos não apenas no zoológico, mas em lojas pela cidade. O jogo do bicho é semelhante a uma loteria federal, mas com algumas diferenças: uma delas é que o jogador pode apostar qualquer valor, que muitas vezes é bem acima de suas possibilidades. Quanto maior o valor apostado em uma sequência numérica (milhar, centena, dezena, etc.), maior será o prêmio em caso de acerto. Com essa flexibilidade de apostas, o jogador é livre para escolher pelo menor valor possível o seu número da sorte nas dez mil chances disponíveis em cada sorteio. Exemplo: um apostador pode jogar apenas R$ 1,00 num milhar no primeiro prêmio, reconhecido como na “cabeça por ser a primeiro milhar no topo da lista de resultados”. A repressão do Estado não demorou e autoridades criminalizaram a atividade nos anos 1890, pelo bem da segurança pública. No carnaval de 2013 foram 492 a desfilar pela cidade, o que levou a prefeitura a estudar sua diminuição. A história dos blocos já foi narrada em livro, de autoria de Aydano André Motta, lançado em 2011 como: Blocos de Rua do Carnaval do Rio de Janeiro.

Blocos carnavalescos protagonizados nas ruas, interdisciplinares (trabalho) e multiculturais têm obtido força na história social e prestígio carioca, a ponto de blocos tradicionais ficarem passadistas. Os desfiles dos campeonatos de blocos de enredo são filiados à Federação dos Blocos e desfilam no sábado de carnaval, onde de 2011 a 2014 passaram a desfilar definitivamente como Escola de Samba, sem ter de desfilar como avaliação. Os blocos de embalo já tiveram desfile na tradicional Avenida Rio Branco, como sua pista de desfile, cujo itinerário desde 2016 foi substituído pela Avenida Graça Aranha. As outras pistas de desfiles são a Estrada Intendente Magalhães, no Campinho e a Rua Cardoso de Morais, no bairro de Bonsucesso. Os blocos de embalo em sua maioria costumam desfilar antes e depois do período carnavalesco na maior parte na Zona Sul e Centro da cidade. Além de outras regiões, sempre no mesmo local e hora, a critério da Riotur, que organiza junto com outros setores do poder público, o trajeto desses blocos de embalo, com dia e horário. A Riotur é a empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro, e tem como finalidade incrementar o desenvolvimento das atividades turísticas da cidade, através de estudos e programas específicos, além de promover eventos de atração turística e executar uma política comercial geradora de recursos. Através da empresa estatal Riotur, a cidade promove o extraordinário carnaval carioca e o réveillon.

          Bairro de tradição boêmia, em muitos bares antigos ainda persistem na região, atraindo muitos clientes. No Boulevard 28 de Setembro o já extinto Restaurante Petisco da Vila ajudou a manter essa fama. Aldir Blanc, Martinho da Vila, Neguinho da Beija-Flor, Jamelão e o cartunista Jaguar foram clientes do Petisco. Graças a esses e tantos outros fregueses o Petisco da Vila alcançou o posto de maior vendedor de chope do país, com média de 42.000 litros consumidos mensalmente. Outro bar badalado do bairro é o Carioca da Vila, bar requintado e irreverente, os pratos tem nomes que fazem referência ao bairro, enaltecendo o espírito bairrista dos moradores da Vila. A tradicional adega Vilas Boas, na esquina da Boulevard 28 de Setembro com a Rua Silva Pinto, tem a fama de melhor bolinho de bacalhau da Grande Tijuca. Na esquina das ruas Visconde de Abaeté e Torres Homem se encontra um dos polos gastronômicos do bairro, o “quadrilátero do álcool”, desafia a matemática, por ser uma esquina que possui quatro pontas e 5 bares. O mais tradicional era o Bar do Costa, um dos mais antigos do bairro (infelizmente falido há anos), no seu lugar surgiu o Bar Veja Bem. O Bar Vilarejo também é outra excelente opção, destaque para cozinha do bar que é excelente, com variedades de pratos e petiscos. A rua dos Artistas também conta com uma variedade comercialmente de bares, botequins e restaurantes, como uma filial do Bar do Adão, tradicionalmente transformou-se em um bar do vizinho bairro Grajaú, famoso por seus pasteis. Porem o mais tradicional dessa parte da Vila Isabel é o Restaurante Siri, com especialização em frutos do mar, o Siri atrai o público fã dessas iguarias.  

O bairro possui excelente comércio, sendo o principal eixo o Boulevard 28 de Setembro, onde se encontram agências dos principais bancos, lanchonetes, mercados e comércio de todo tipo. No bairro funciona também o Shopping Center Boulevard Rio, na esquina das ruas Barão de São Francisco e Teodoro da Silva. Além abrigar muitos bares e restaurantes ao longo do Boulevard 28 de Setembro, o bairro conta com várias unidades da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como a Faculdade de Ciências Médicas, a Faculdade de Enfermagem, o Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, a Faculdade de Odontologia e o Hospital Universitário Pedro Ernesto. O bairro também abriga a Basílica Nossa Senhora de Lourdes, a sede estadual da igreja Congregação Cristã no Brasil e a Sede Mundial do Racionalismo Cristão. O bairro contava com os clubes Vila Isabel Futebol Clube (1912), Confiança A.C. (1915), o Smart A.C. (1915), Sport C.A. (1912) e o Independência F.C. (1921). Hoje encontram-se a Associação Atlética Vila Isabel; e o Esporte Clube Maxwell. Além dos parques Jardim da Princesa, Largo Sete de Março, Praça Barão Drummond e Recanto do Trovador. Vila Isabel é famosa pela presença de inúmeros poetas e compositores que nasceram no bairro ou que nele foram revelados. O mais famoso é Noel Rosa, que nasceu no bairro em 11 de dezembro de 1910. No largo de entrada do Boulevard 28 de Setembro, existe uma estátua em tamanho natural do compositor em bronze, sentado numa mesa sendo atendido por um garçom. Na mesa, está escrita a letra da música de Noel “Conversa de botequim”. Podemos destacar Martinho da Vila, que adicionou o nome do bairro ao seu quando criou seu nome artístico. Jornalismo pode ser definido do ponto de vista sociológico, como a técnica de transmissão de informações sociais a um público cujos componentes não são reconhecidos. Esta particularidade diferencia o jornalismo das demais formas sociais de comunicação visual.

As fontes jornalísticas são pessoas, entidades e documentos primários que fornecem informações aos jornalistas, seja emitindo comentários e opiniões, verificando o rigor de dados obtidos ou aferindo a veracidade dos juízos de valor que lhes foram confiados. O termo jornalismo faz referência as formas possíveis de comunicação pública de notícias e seus comentários e interpretações. O tipo de jornalismo de ética duvidosa, ou contestável é chamado ideologicamente de “imprensa marrom”. Um princípio comum no jornalismo é o da objetividade, orientada pela investigação das informações, descrevendo características do objeto da notícia e não impressões ou comentários do sujeito que observa a participação social. No entanto, erroneamente diversos críticos têm refutado este princípio, alegando que, na prática, a objetividade do conhecimento não existe, pois, toda construção de texto é um discurso e uma narrativa influenciadas por ideologias, pela práxis e por outros valores subjetivos. A questão da “imparcialidade” é também central nas discussões sobre ética jornalística. Para este ponto de vista comunicativo não é difícil distinguir dados objetivos do chamado “jornalismo opinativo”, como se a interpretação jornalística fosse isenta da opinião pessoal daquele que investiga os conteúdos de sentido da informação. Jornalistas podem ser interpelados pelas formas ideológicas representadas pela distorção no cotidiano ou pela desinformação induzida na comunicação social. Mesmo sem cometer fraude deliberada, jornalistas podem dar um recorte embasado dos fatos sendo seletivos na apuração e na redação, em determinados aspectos em detrimento de outros, ou dando explicações parciais, tanto incompletas quanto tendenciosas. Isto é especialmente efetivo no jornalismo global, já que as fontes disponíveis nem sempre podem ser interpretadas. Distinto da ciência, os códigos de ética do jornalismo incluem, como valores e preceitos fundamentais, a “busca da verdade, a veracidade e a precisão das informações”.

Glória Maria Matta da Silva estreia como repórter, em 1971, na cobertura do desabamento do Elevado Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro. O Elevado, também reconhecido como Viaduto Engenheiro Freyssinet, é uma via expressa no Rio de Janeiro. Tem 5,2 quilômetros de extensão. Liga o Túnel Rebouças ao início da Linha Vermelha. É considerado a “cicatriz” do Rio Comprido. Cobriu a posse do presidente norte-americano Jimmy Carter (1924-2024) em Washington e, no Brasil, durante a ditadura militar (1964-1984), entrevistou chefes de Estado, como o ex-presidente João Baptista Figueiredo (1918-1999), aquele que disse: - “Não deixe aquela neguinha chegar perto de mim”.  E, ainda, cobriu e reportou o fim da Guerra das Malvinas, em 1982, como primeira mulher da Globo a fazer cobertura de guerra; a invasão da embaixada brasileira do Peru por um grupo terrorista (1996), os Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) e a Copa do Mundo na França (1998). Entrevistas com celebridades a colocaram frente a frente com o roqueiro britânico Mick Jagger, em 1984; com Freddie Mercury (1946-1991), vocalista da banda Queen, durante o Rock In Rio de 1985, com Michael Jackson (1958-2009), quando da gravação do clipe: They don’t care about us, no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, em 1996. O espírito livre, aventureiro a fez desafiar-se humanamente a ponto de pular de bungee jump a 233 metros de altura, em Macau, na China, para realizar uma reportagem Especial para o Globo Repórter; sobrevoar de helicóptero um vulcão, voar de asa delta, nadar com um urso polar e escalar a Cordilheira do Himalaia, onde fica o Monte Everest. 

A paixão pelo trabalho, segundo Lisa Andrade, no artigo intitulado: “Gloriosa Glória, a Primeira Jornalista” (s. d.) a levou a todos os nossos seis grandes continentes: África, Ásia, Europa, Oceania, América e Antártida, construindo uma coleção com mais de dez passaportes preenchidos, com carimbos de mais de 160 países. Assim Glória Maria define sua profissão e a carreira vivida, enraizada na Rede Globo de televisão, a emissora onde ganhou notoriedade como repórter e âncora dos noticiários Hoje, Jornal das Sete, Bom Dia Rio e RJTV. Mas a vida de Glória Maria Matta da Silva não começa na tela da TV. Esta mulher negra vitoriosa, pioneira, vem à luz em 15 de agosto de 1949, saída do ventre de Edna Alves Matta, enquanto o alfaiate Cosme Braga da Silva, aguardava ansioso as notícias sobre seu bebê. A infância foi no bairro Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. E, na escola – estudava em colégio público – já se destacava nos concursos de redação e sabia falar inglês, francês e latim. A vida profissional se inicia aos 16 anos: telefonista na Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel). Com o salário ajudava nas despesas de casa e pagava a mensalidade do curso de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Eram os anos 1960. A diversão? Samba. Glória Maria foi princesa do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. E desta condição de realeza do Carnaval nasce sua história com a Globo. No programa do Chacrinha, com membros do bloco, ela pediu um emprego e conseguiu. Ingressa na emissora em 1970, trabalhando como radioescuta, como estagiária – quer dizer, sem salário – segue estudando para a profissão e como telefonista com os estudos, até ser efetivada na rede de TV carioca.

Em 1971, do ponto de vista tecnológico Glória Maria se torna a primeira repórter negra da TV brasileira e o seu primeiro desafio é cobrir o desabamento do Elevado Paulo de Frontin, no bairro Rio comprido, no Rio de Janeiro. Na época, os jornalistas não apareciam em vídeo. O que se via eram as imagens e a voz do repórter ou apresentador. Sua matéria de estréia em vídeo acontece em 1974 e é realizada no Hotel das Palmeiras, onde a Seleção Brasileira estava concentrada para os jogos da Copa do Mundo. Glória Maria é também a primeira repórter – e negra – a entrar ao vivo e a cores na televisão, direto da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, para o Jornal Nacional, e a primeira a realizar a primeira transmissão em High Definition (HD), é de imagens com “alta definição”. É da televisão brasileira, lá em 2007. Depois de, em 1984, antecipar, com exclusividade para o Jornal Nacional (RJ) parte do juramento olímpico do velocista Carl Lewis – então campeão mundial dos 100m rasos, antes mesmo da solenidade de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, no estádio Los Angeles Memorial Coliseum, na Califórnia (EUA), é ela quem dá um salto dialético na carreira! Em 1986, entra para a equipe do Fantástico, seu rosto passsa a ser reconhecido e as experiências se tornam eletrizantes e estelares: Madonna, Leonardo Di Caprio, Nicole Kidman, Deserto do Saara, os caminhos de Jesus de Israel ao Egito, Lapônia, no Norte da Finlândia.

Ao lado do jornalista Pedro Bial, em 1998, Glória assume o comando do Programa de Domingo. Anos depois, em 2003, faz uma entrevista exclusiva com o presidente Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), após a sua posse. Em 2004, Zeca Camargo e Guilherme Azevedo iniciaram uma jornada ao redor do planeta, com um roteiro pré-determinado pelos próprios telespectadores do programa FantásticoEm 2006, produz quadros de destaque durante uma viagem ao lado do escritor Paulo Coelho, na Rússia. Depois de quase dez anos de programa Fantástico, Glória Maria pede um tempo, se afasta das telas por dois anos, durante os quais descansa, se dedica a projetos pessoais e trabalhos voluntários na Índia e na Nigéria. Neste período, também, decide ser mãe e adota as irmãs Maria e Laura, em 2009. De volta em 2010, assina um novo contrato como repórter especial do programa Globo Repórter. Fora da TV, como eterna repórter, gosta de conversar bem próximo das pessoas, mas prefere manter sua vida pessoal longe dos holofotes e das redes sociais. De sua vida amorosa, se sabe de oito anos ao lado do engenheiro austríaco Hans Bernhard e seis anos com o francês Eric Auguin. Em 2008 teve um breve caso de relacionamento com o estudante de psicologia Bernardo Langlott e se casou, em segredo, com o produtor musical Carlos Araújo – mas cada um viveu em seu apartamento durante os quatro anos de relacionamento. Sua idade é outro mistério plausível, segundo Liza Andrade – ela diz que não revelar a idade é uma forma de não envelhecer mais cedo. E, para ajudar no rejuvenescimento, se exercita regularmente, faz jejuns e toma até cinco mil cápsulas de remédios naturais por semana. Em 2019, submeteu-se a cirurgia para retirar um tumor cerebral maligno. Passados alguns meses, declarou, em entrevista, que ainda prosseguia o tratamento do câncer. E, em janeiro de 2020, teve de ser internada devido a uma infecção pulmonar. Vivemos um tempo de visibilidade negra nas mídias, de quase celebração – não fosse o racismo evidene e sempre presente no nosso cotidiano -, mas Glória Maria vem de outro século, em que a presença negra no telejornalismo era quase solitária e sua posição simplesmente feminina e direta na tela da TV era ativismo.

No Brasil, a primeira transmissão televisiva deu-se em 28 de setembro de 1948, na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. O responsável pela transmissão foi o técnico em eletrônica, o leopoldinense Olavo Bastos Freire. A experiência pioneira aconteceu da sacada do prédio onde seria mais tarde a Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa). Olavo ficou com uma câmera e uma antena. As imagens captadas da Avenida Rio Branco foram transmitidas em uma TV de três polegadas, instalada na Getúlio Vargas, onde funcionava a antiga Casa do Rádio. A tecnologia completa foi trazida para o Brasil por Assis Chateaubriand e foi inaugurada em 18 de setembro de 1950, quase dois anos depois da experiência pioneira de Olavo Bastos Freire (1915-2005). Naquela data, Chateaubriand fundou o primeiro canal televisivo no país, a TV Tupi. Na época, entretanto, o alto custo do aparelho televisor, que era importado, restringia o seu acesso às classes mais abastadas. O primeiro televisor montado no Brasil foi pela Sociedade Eletromercantil Paulista em 1951. Em 1977, a SEMP formaria uma joint-venture com a empresa Toshiba, passando a nova empresa a se chamar Semp Toshiba. A massificação de produção-consumo do aparelho aconteceu com a instalação de fábricas de televisores na Zona Franca de Manaus (AM) com a chegada da multinacional Sharp (1971) e outras empresas nacionais como a Gradiente, atraídas pelos incentivos fiscais. Em 2006, cerca de 12 milhões de televisores com cinescópio foram produzidos no Polo Industrial de Manaus (AM). Tendo em vista que o Brasil foi a sede da Copa do Mundo da Federação Intenacional de Futebol (FIFA) de 2014 e Jogos Olímpicos de Verão de 2016, a perspectiva é que, em 2014, o país seja estatisticamente o terceiro maior mercado mundial de televisores.

Na sociedade contemporânea, as notícias correm o mundo em tempo real através dos mais avançados meios tecnológicos. A expressão jornalismo em tempo real é uma figura de linguagem utilizada para associar a proximidade da instantaneidade com que a informação que é transmitida, do momento em que ocorre o fato a ser noticiado ao momento em que chega aos receptores, sejam eles leitores, telespectadores ou a opinião de público ouvinte. Para que exista, é necessário que haja concomitância da percepção sociológica dos fatos ao momento em que eles acontecem. Em suma, é nível máximo de prontidão, como “cão de guarda” como se referem os norte-americanos no jornalismo relativa à transmissão, processamento e/ou uso das informações. O tempo real é relativo à sua velocidade, que está associada ao instrumento de transmissão, nunca contendo matematicamente a suposição considerada como sendo exatamente real, devido ao tempo gasto com o processamento e a finalização do processo de trabalho e comunicação de difusão da informação. A rede global internet rompeu com a imprensa clássica ao ponto de centenas de jornais terem desaparecido após muitos anos de grande sucesso jornalístico e de empresa econômica. Em Portugal desde 2012 não há um jornal, diário ou semanário, economicamente viável, as despesas estão acima das receitas, o mesmo está ocorrendo com os custos das televisões e das rádios, com algumas poucas exceções. Nos massmídia global, o passado deixou de ter futuro, de modo definitivo. 

A maior contribuição de Karl Marx ao jornalismo per se foi sua inabalável profissão de fé na “liberdade de imprensa”, mais de uma vez registrado nas páginas do New York Tribune. Nos tempos de Marx, ainda não havia grandes monopólios de mídias, enquanto comunicação social e política massiva, sendo o jornal impresso uma das poucas fontes de informação e difusão de um conjunto de práticas e saberes sociais. A variedade de publicações, nas mais diversas correntes ideológicas era tão grande, que Marx habilmente pode utilizar o jornalismo, como forma de expressão política, porque existiam outras vozes ligada à origem do trabalhismo inglês para lhes fazer contrapontos. O próprio New York Tribune, fundado por Horace Greeley em 1841. Entre 1842 e 1866, o jornal adotou o nome New-York Daily Tribune, visceralmente abolicionista e vagamente socialista utópico, do qual Karl Marx (1818-1883) & Friedrich Engels (1829-1895) eram colaboradores assíduos, enviando àquele jornal, entre 1851 e 1862, mais de quinhentos (500) artigos, pôs a nu as diversas mazelas vitorianas, com destaque para as exorbitâncias do colonialismo britânico na Índia e na China, inclusive tendo repercussão política no continente latino-americano.

O culto socialmente da indiferença de classe social representa o hábito de estupidez de uma sociedade que perdeu o sentido de comunidade. O consumo é o leitmotiv do progresso que faz da cidade um lugar passageiro. Onde tudo pode ser destruído e reconstruído a qualquer momento, onde as histórias são substituídas por outras sem perspectiva de futuro. A forma do urbano, sua razão suprema, a saber, a simultaneidade e o encontro aparente não podem desaparecer. A cidade é fora de dúvida a maior vitrine, onde os episódios cotidianos da existência material são vividos e observados na indiferença da reprodução do capital. A ocupação divertida do urbano, por uma população sonhadora movida pelo acaso de viver o imprevisível, é descartada pela cidade contemporânea. A cidade é o palco da reprodução do “capital cultural” dominante, onde tudo se descobre ou se reinventa, e se apaga na mesma velocidade. Tudo é vivido na condição de espetáculo como se a vida urbana fosse um conjunto de cenas de teatro. A favela é fruto da falta de observação e de reconhecimento social e político de que o operário existe na construção civil irradiada pela visão de Chico Buarque. 

Ele é um ator social, construtor social e sua realidade não é virtual. O Brasil lento e demagógico demora a reconhecer a imprensa, historicamente, por causa da censura e da proibição de tipografias na Colônia, impostas pela Coroa Portuguesa. A falta de uma imprensa própria forçosamente limitava o desenvolvimento político e culturalmente, pois os livros e periódicos importados atingiam apenas uma pequena, talvez ínfima parcela de letrados na cidade do Rio de Janeiro neste período. Mas em contrapartida é espantoso que nos poucos anos que mediaram entre o início e o fim da “Impressão Régia”, notícias tenham sido publicadas. A própria heterogeneidade dos títulos revela curiosidade intelectual, e a nervura de interesses os mais diversos: romances, estudos históricos, poesia, teatro, crítica literária, astronomia, medicina, religião, saúde pública, e outras, tudo isso formando um emaranhamento de assuntos, de seleção difícil de discernir, mas sempre possível. O que é certo é que a Impressão Régia não se limitou à divulgação de apenas atos oficiais, como nos governos republicanos. Sua existência abriu caminho para numerosas edições, para o surgimento de editoras e tipografias, e criação de um mercado de livros que antes praticamente não existia. A única obra significativa de referência específica sobre a “Impressão Régia”, que existia até agora, era o trabalho de Alfredo do Valle Cabral, publicado nos Annales da Biblioteca Nacional, em 1831. É um clássico, mas contém falhas e incorreções, e o velho sonho de Rubens Borba de Moraes (1899-1986) sempre foi completa-lo, suprindo-lhe as deficiências e descrevendo os muitos títulos que lhe faltavam. 

Cuja existência só foi revelada pelas exaustivas pesquisas realizadas por ele e por Ana Maria de Almeida Camargo (1945-2023), promovida pela “Vitae”, pela Edusp – Editora da Universidade de São Paulo, pela livraria Kosmos e projeto gráfico de Diana Mindlin. Em 1848, jornais de Nova York se unem comercialmente para formar a agência “Associated Press”, durante a guerra dos Estados Unidos da América contra o México. O principal motivo da associação devido à guerra era contenção de custos entre as edições dos periódicos. Em 1851 o alemão Paul Julius Reuter (1816-1899) funda a agência “Reuters”. No mesmo ano é fundado o “The New York Times”, o principal jornal de Nova Iorque e atualmente um dos mais importantes nos Estados Unidos, para não falarmos em sua influência no mundo ocidental. A “United Press International” é criada em 1892, sendo pioneira no processo de globalização da cultura, política e informação. A agência alemã “Transocean” é fundada em 1915 para cobrir os eventos sociais e políticos da 1ª grande guerra na Europa (1914-1918), a weltanschauung da Tríplice Aliança. Em 1949, três agências alemãs se unem e formam a extraordinária Deutsche Presse-Agentur (DPA). Discordamos das teses aceitas de que o impacto de choque cultural é componente do desenvolvimento bem-sucedido da sensibilidade intercultural e da competência bicultural, entendido também como “aculturação”, que ocorre fenomenologicamente quando duas culturas distintas ou parecidas, são absorvidas uma pela outra, formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicialmente e da cultura assim absorvida.

A tese “Fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil” foi editada em livro, pelas editoras Vozes, em Petrópolis, Rio de Janeiro, no mesmo ano da defesa, com o nome de Sociologia da Imprensa Brasileira. Não foi o primeiro livro do autor, que antes dele já publicara outros quatro trabalhos dedicados ao universo da Comunicação, entre eles, Comunicação Social: Teoria e Pesquisa (1970) e Estudos de Jornalismo Comparado (1972). Ao referir à sua trajetória de pesquisa, o prof. Marques de Melo (1943-2018), destaca sua tese de doutoramento, ao referir-se a ela como a “primeira evidência que demonstrei academicamente”, ao propor que “o Brasil ingressou de modo tardio na civilização jornalística não por maldade dos nossos colonizadores, como defende a história oficial, mas em decorrência da nossa formação sociocultural, que reprimiu as demandas nacionais pela informação impressa, retardando desta maneira a produção de jornais e revistas”, resumiu o professor numa entrevista. A pesquisa é amparada, segundo o prefácio de Luiz Beltrão de Andrade Lima, por “uma construção metódica e consciente, em que não se aceitam os dogmas ou proposições que, submetidas, não possam resistir aos assaltos e impactos da dúvida que a observação e a experimentação, o raciocínio e as hipóteses, os dados, os fatos e os princípios, suscitam, a fim de possibilitar o surgimento da verdade e do rigor científico”.

Um exemplo extraordinário é o que ocorre com a cultura romana que logo por ser similar à grega torna-se uma cultura denominada greco-romana ou a chamada “interpenetração cultural”. Vale lembrar que o pernambucano José Marques de Melo obteve o título de doutor em Comunicação com a tese: “Fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil”, defendida, em 26 de fevereiro de 1973, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O trabalho, que teve a orientação do Prof. Dr. Rolando Morel Pinto, representou a singularidade de ter sido a 1ª tese de doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes quando se propõe a abordagem através das representações do jornalismo e da imprensa. Inverter papéis” na sociedade racista dá certo? - Gabriela Moura ... Naquela conjuntura as teses eram defendidas em regime de doutorado direto, dentro do modelo europeu que ainda prevalecia nas universidades brasileiras. Os pesquisadores que defenderam suas teses nesse modelo foram os primeiros orientadores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Escola de Comunicações e Artes nessa área - nos parâmetros prevalecentes. Vale lembrar que o primeiro doutor da Escola de Comunicação e Artes com tese em Jornalismo, seria um orientando do Prof. Dr. Marques de Melo, o também professor da Escola de Comunicação e Artes Carlos Eduardo Lins da Silva, que defendeu seu doutorado, intitulado: Muito Além do Jardim Botânico: um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores (1984), representando uma brilhante análise de como um dos programas da TV de maior audiência do país é visto, comparativamente, em duas comunidades de trabalhadores, uma em São Paulo, outra no Nordeste. Uma análise, também, da chamada indústria cultural  e do telejornalismo em nosso país.

Bibliografia Geral Consultada.

CAMARGO, Zeca, A Fantástica Volta Ao Mundo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2004; MAGALHÃES, Felipe Santos, Ganhou, Leva, Só Vale o Que Está Escrito: Experiência de Bicheiros na Cidade do Rio de Janeiro: 1890-1960. Tese de Doutorado. Departamento de História. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005; BOUNANNO, Milly, L’Etat della Télévisione. Esperienze e Teorie. Roma: Edizione Laterza, 2006; MIRANDA, Júlia, Imaginários Sociais em Movimento: Oralidade e Escrita em Contextos Multiculturais / Júlia Miranda, Ismael Pordeus, François Laplantine (Orgs.), Lyon, França: Universidade de Lyon 2 - Fortaleza, Brasil: Universidade Federal do Ceará - Campinas, Brasil: Pontes Editores, 2006;  FREITAS, Eduardo Luiz Viveiros, Política e Internet: 4 Jornalistas (Blogueiros) em Novos Tempos. Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010; AMORIM, Paulo Henrique, O Quarto Poder: Uma Outra História. 1ª edição. São Paulo: Editora Hedra, 2015; MELO, Seane Alves, Discursos e Práticas: Um Estudo do Jornalismo Investigativo no Brasil. Dissertação de Mestrado. Escola de Comunicações e Artes. Universidade de São Paulo, 2015; WILLIAMS, Raymond, Televisão: Tecnologia e Forma Cultural. São Paulo; Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2016; SOUZA, André Barcellos Carlos de, Televisão e (Des)razão. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2017; HORA, Caroline, Além de Glória Maria: A Representatividade da Mulher Negra no Telejornalismo Brasileiro Atual. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2018; GONZALEZ, Lélia, Por um Feminismo Afro-latino-americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2020; SILVA, Glória Maria Matta, Roda Viva. [Entrevista concedida a] Cláudia Lima. Roda Viva, TV Cultura, 14 mar. 2022; BENTO, Cida, O Pacto da Branquitude. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2022; Artigo: “Glória Maria: Nosso Diamante do Jornalismo Foi Para Casa”. In: https://jornalistas.org.br/2023/02/02/; FABBRI JÚNIOR, Duílio, Glória Maria: Glória Maria Matta da Silva. Campinas: Editora Mostarda, 2024; GALLO, Elisiele Máximo da Silva, Mulheres Negras no Jornalismo: Uma Análise do Grupo Herdeiras de Glória Maria. Monografia de Graduação em Jornalismo. Brasília: Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, 2024; CARDOSO, Aíla Cristhie dos Santos, A Cor de Quem Escreve Narra a História de Quem Lê: Jornalismo Negro no Brasil, História e Relações com os Movimentos Negros. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação.  Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2025; entre outros.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Umberto Eco - Classificação, Heterodireção & Comunicação Visual.

 O homem prudente não diz tudo quanto pensa, mas pensa tudo quanto diz”. Aristóteles     

          O pensamento grego dividiu o tempo da memória de seu passado, sobre o tempo da chamada Era heroica, durante o qual a tradição oral grega foi criada e mantida tendo como resultado a criação de um passado mítico baseado em elementos que diferiam em caráter e precisão, cuja origem remontava a períodos de tempos esparsos. Essa tradição transmitia e simultaneamente criava o passado (cf. Jaeger, 2011). O principal objeto ocorreu com a formação e manutenção da identidade grega realizada pela criação da consciência e do orgulho pan-helênicos em que emerge um governo aristocrático e especialmente o direito da aristocracia de governar enfatizando às suas notáveis qualificações e virtudes. Trata-se de um processo de criação mítica que não termina no século VIII a. C., final do chamado período Homérico e quando se tem historicamente a formação da polis.  Ele continua presente na mitificação de indivíduos combinando elementos antigos com novas formas, adaptando-se às mudanças religiosas e políticas. A Era pós-heróica é demarcada pelo interesse na preservação do passado remoto e mítico, todavia totalmente vivo na consciência grega e expressou-se pela conservação e repetição do mapa mítico. O passado heroico era alvo de uma atenção passiva que assegurava a sua manutenção na lembrança social, na versão aceita e perpetua-se nas gerações futuras por meio da preservação desse conhecimento e da sua permanente utilização. Primeiro, o registro desse passado não dispunha de documentos nem arquivos de onde retirá-los, por essa razão foi preservado por meio da oralidade. No segundo momento, da oralidade à prática cultural, incluindo-se o registro etnográfico, tem-se a elaboração do universo ritual que fiel às origens da tradição, consolida a relação fala-ação que consagra o princípio de que o mito é o principal veículo de comunicação da memória na sociedade grega.

A condição significativa da mensagem criou a necessidade de comunicar-se. E assim funcionou como motor de todo tipo de codificações expressivas, sendo a linguagem e a escrita instrumentos de comunicação oral e escrita sujeitos as limitações de espaço e lugar e transmissão através da distância entre o emissor e o receptor. Etnograficamente pode-se dividir em quatro fases a história da codificação de signos e fonemas aos serviços da relação inter-humana: mnemônica, pictórica, ideográfica e fonética. A primeira periodização se caracterizou pelo emprego de objetos reais como dados ou mensagens entre pessoas que viviam aparentemente alheios e não pertenciam ao mesmo sistema convencional de comunicação. Os antigos chineses, escreve Albert A. Sutton (1867-1923), e inclusivamente outras tribos ditas “primitivas” mais recentes, utilizaram com muita frequência o quipo, cada um dos cordões nodosos uados pelos peruanos, no tempo da monarquia dos Incas, que formavam um método de análise mnemônico, fundado nas cores e ordem dos cordões, número e disposição dos nós, etc., para presentificar dias felizes, para servir como instrumentos de cálculo, ou guardas de recordações da memória dos mortos das tribos. Na segunda, se transmite mediante a pintura, a representação dos objetos. Estas gravuras aparecem não só na pintura rupestre, e sobre objetos variados, tais como utensílios, armas ou artigos de valor empregados para o intercâmbio comercial.  Na terceira, resulta de uma associação de símbolos pictográficos como objetos e ideias.

Nesta fase, os signos se empregam cada vez mais na representação de ideias, numa progressiva separação da estrutura do objeto a comunicar e uma modelação cada vez mais simbólica que aproximará no signo alfabético, na escritura. A expressão ideográfica serviu para as formas primitivas de “relatos”, tal como podemos valorar na escritura ideográfica das culturas pré-colombianas ou mesopotâmicas, ainda que o máximo tipo cultural deste sistema de comunicação representou a escrita hieroglífica dos egípcios. A última se estabelece quando o signo representa um som, fora das palavras inteiras, de sílabas ou do que chamamos letras, como unidade fonética. A invenção cultural do alfabeto representou o ponto máximo da codificação da comunicação social, propiciada precisamente por aqueles povos de maior desenvolvimento social e de maior inter-relação comercial com outros povos. O alfabeto era uma chave de intercomunicação e ao mesmo tempo um aríete de penetração cultural em mãos dos povos da Antiguidade criadores das primeiras rotas de comércio marítimo e terrestres. A relação binômica entre comércio e comunicação social é delimitada por Gordon Childe (2007) nas civilizações orientais. Os artesãos livres podiam viajar com as caravanas buscando um mercado para seu ofício enquanto que os escravos formavam parte da mercadoria. Os forasteiros em um país estranho pediam os conselhos da religião. Uma cena esculpida em um jarro por um artista sumério descreve um culto índio que se celebrava em templo de Arrad. A descoberta de um templo monumental datado do final do século X e início do século IX a. C. surpreendeu arqueólogos em Israel. A existência do complexo religioso, situado onde ficava a antiga cidade de Moza, uma cidade bíblica israelita, localizada no território de Benjamin, ao noroeste de Jerusalém, contradiz textos bíblicos que abordam aquele período da história da religião. Se os cultos se transmitiam, as artes e ofícios úteis podiam difundir-se com extraordinária facilidade.   

Fosse qual fosse o sistema de signos empregados para a comunicação social necessitavam de um suporte material onde inscrever-se e a possibilidade de criar um âmbito de emissão & recepção. Desenvolveram-se sistemas paralelos de comunicação mediante escritura em todas as civilizações que haviam alcançado um parecido sistema de organização social e desenvolvimento cultural. Estes sistemas ajudam já a um forcejo tecnológico para melhorar os suportes essenciais dos materiais da escritura. Os egípcios empregaram o papiro a partir de uma matéria-prima de que dispunham abundantemente nas margens do fabuloso Nilo: a medula de velhos, que podia prensar-se, laminar-se e conservar os seus gravados durante muito tempo. Para começar, intercomunicar-se Alfabetos, tecnologia de escritura e os materiais para fazê-la possível. Os gregos aceitaram o alfabeto Fenício e na impossibilidade de dispor de pairos empregaram tabuletas de madeira coberta de cera. Os romanos adotaram novos suportes de escritura como o pergaminho ou a vitela. O (des)cobrimento do papel tardaria a chegar à Europa, mesmo com evidências que a China dispunha dele no ano 105. Ts`ai Lun comunicou ao imperador “um novo material sobre o qual era uma delícia escrever”. O sistema social condiciona o sistema de comunicação. A comunicação sempre vem unida à existência da mudança de mercadoria e à busca de matérias-primas que já mobilizou aos antigos.

As rotas comerciais (cf. Braga, 1995) e de expansão imperial depredatória da antiguidade foram autênticos canais informativos, lentos e precários, que abasteceram aos homens de um conhecimento aproximado dos limites do mundo reconhecido e das tentações dos outros considerados desde cada um especial forma de etnocêntrica. Os sistemas de correio e a comunicação ligada a sociedades em processos de mudança social formam os primeiros instrumentos de comunicação internacional. Os editos e decretos, os primeiros instrumentos de comunicação intracomunitária. Uns e outros instrumentos nasceram com a associação humana e só foram qualitativamente modificados quando apareceu a imprensa. Todo processo de trabalho é um processo de comunicação, embora nem toda comunicação represente trabalho social. A impressão de regressão que suscita o trânsito do Império Romano e a fragmentação política seguinte se vê alimentada, sobretudo pelo evidente obstáculo cultural. Contudo, ainda que no marco político e econômico da evolução histórica, sua queda é consequência do enfraquecimento entre a organização do Estado e as necessidades objetivas (materiais) dos homens e das comunidades societárias submetidas à superestrutura jurídico-política imperial. A comunicação continental com o Oriente e a dinâmica tecnológica da produção e o comércio empurraram a Europa da Baixa Idade Média a uma série de descobrimentos técnicos que afetaram o sistema de comunicação social global. 

O passo a passo histórico da Idade Média ao Renascimento é uma mera convenção didática, last but not least, sobre a extraordinária produção historiográfica sobre este período histórico-sociológico. Ipso facto, a imprensa nasceu quando um tipo móvel suscetível de se alinhar para compor palavras, linhas, depois de tingida a composição, se reproduzia sobre o papel mediante pressão. Em todo o século XV ocorreu uma série de acasos tecnológicos no tipo móvel de Gutemberg. Mas, previamente a aparição da Bíblia impressa por Gutenberg, em 1546, em Manguncia, já se conheciam amostras de impressão baseada na utilização de tipos móveis. Contudo, a imprensa incidiu inicialmente mais no terreno da literatura que da informação propriamente. Quando apareceu a imprensa, a informação escrita tinha certamente relevância história. Toda tecnologia tende a criar um novo mundo. A escritura e o papiro criaram o ambiente para os impérios do mundo antigo. O estudo da Reforma, Contra-Reforma e lutas políticas religiosas, apresentaram grande interesse no processo de comunicação: o rastro de uma e outra intransigência é sangrento. Os católicos mataram Giordano Bruno, e os protestantes via Calvino, mataram Miguel Servet. A importância ideológica do Areópago de Milton deve ser medida por sua equidistância com os protestos gregos contra a repressão intelectual e os primeiros teóricos da relação entre o poder e a liberdade de expressão: o Areópago, representa um tribunal de justiça ou conselho, célebre pela honestidade e retidão no juízo, que funcionava a céu aberto no outeiro de Marte, antiga Atenas, desempenhando papel social em política e assuntos religiosos.

O Areópago é uma ilhota teórica em um imenso oceano que tem, de um lado, os sofistas gregos, e de outro, Jefferson e Stuart Mill, do liberalismo burguês. Napoleão compreendeu que devia manietar os meios de comunicação social se quisesse criar uma imagem imaculada do poder pessoal. Visível cabeça dessa nova classe dirigente levou esse medo ao nível característico do terror do ditador à sua própria imagem. O capitalismo em expansão necessitava desenvolvimento tecnológico e científico. Necessitava de mão-de-obra mais culta e especializada para a complexidade do processo industrial. Necessitava, além disso, saltar barreiras de níveis políticos do protecionismo econômico e comercial para sua expansão imperialista. A Poética de Aristóteles foi traduzida para o árabe no mundo islâmico medieval, onde foi elaborada por escritores árabes e filósofos islâmicos, como Abu Bishr e seus alunos Alfarábi, Avicena e Averróis. Eles dissociaram a comédia da representação dramática grega e, em vez disso, identificaram-na com temas e formas poéticas árabes, como hija (poesia satírica). Eles compreendiam a comédia simplesmente como a “arte da repreensão” e não faziam referência socialmente a eventos leves e alegres, ou aos começos perturbadores e finais felizes associados à comédia grega clássica. Após as traduções latinas do século XII, o termo comédia ganhou um significado mais geral na literatura medieval. Grosseteste obteve sua formação plenamente na Universidade de Oxford e tornou-se presidente dessa instituição em 1215, permanecendo no posto acadêmico até cerca do ano de 1221, quando deixou o cargo por motivo de saúde. Depois disso passou por uma série de posições eclesiásticas. Quer dizer, as posições representam cargos e funções exercidos por membros do clero. A hierarquia eclesiástica é baseada na liturgia do sacramento da ordem, que é recebido pelos ministros da Igreja.  

A palavra liturgia compreende uma celebração religiosa pré-definida, de acordo com as tradições de uma religião em particular; pode incluir ou referir-se ao ritual e elaborado ou uma atividade diária como as salats muçulmanas. Do ponto de vista sociológico as posições eclesiásticas na Igreja Católica invariavelmente são: Diácono, Presbítero, Bispo, Arcebispo, Primaz, Patriarca, Cardeal, Papa. As posições eclesiásticas na Igreja Evangélica são: Pastor, Presbítero, Ancião, Professor, Bispo, Apóstolo, Líder de louvor. As posições eclesiásticas na Assembleia de Deus Pastor, Evangelista, Presbítero. A hierarquia eclesiástica é fundamentada no sacramento da ordem, que é recebido pelos ministros da Igreja. O título eclesiástico é a classificação dos membros do clero, pelo cargo que exercem ou por reconhecimento. De 1229 a 1235, ensinou teologia para os franciscanos. Em 1235 tornou-se bispo de Lincoln e permaneceu nesse cargo até sua morte, sendo enterrado na Catedral de Lincoln. Em 1244 é nomeado um dos doze pelo Parlamento Europeu para fazer reformas e estipular regras para o Rei Henrique III que gastava exageradamente. Após a sua morte os bispos subsequentes, juntamente com a Universidade de Oxford, tentaram a sua canonização, principalmente o bispo Eduardo I. As traduções latinas de Aristóteles realizadas por Robert Grosseteste (1175-1253) e Willem van Moerbeke (1215-1286) foram as obras de referência para os filósofos e teólogos que introduziram o pensamento do filósofo grego no Ocidente. Os tradutores medievais adotavam o método de tradução literal, ou seja, “transpunham o texto grego para o latim, palavra a palavra, se possível na mesma ordem”. Alguns tradutores também escreviam prefácios ou prólogos nos quais ofereciam indicações relativas às modificações dos textos-fonte. No final do século XX, estudiosos usaram o termo “riso” em sua complexidade de compreensão do cômico, a fim de evitar o uso de gêneros ambíguos e problematicamente definidos, como o grotesco, a ironia e a sátira. 

            Roberto Grosseteste nascido no Condado de Suffolk (1168-1253) foi um político, filósofo escolástico, teólogo, cientista e bispo de Lincoln. Foi apelidado de Grosseteste pela sua extraordinária capacidade intelectual. Ele foi a figura central do importante movimento intelectual da primeira metade do século XIII na Inglaterra. Tinha grande interesse de conhecimento no mundo natural e escreveu textos sobre a questão do som, astronomia, geometria e, especialmente, óptica. Primeiro estudioso europeu a dominar as línguas grega e hebraica. Dava ênfase à matemática como teoria para estudar a natureza e defendia que experimentos deveriam ser usados para verificar as teorias a respeito da mesma. Sua influência historicamente foi bastante significativa numa época em que o novo conhecimento da ciência e da filosofia gregas estava tendo um efeito profundo na filosofia cristã. Também foi relevante o seu trabalho experimental, especialmente seus experimentos relacionados com espelhos e lentes. Seu mais renomado discípulo, Roger Bacon, herdou sua paixão pela experimentação. Ele foi um Padre e filósofo inglês que deu bastante ênfase ao empirismo e ao uso da matemática no estudo da natureza. Estudou nas universidades de Oxford e Paris. Contribuiu em áreas importantes como a Mecânica, a Filosofia, a Geografia e principalmente a Óptica. As pesquisas de ambos possibilitaram o início da confecção padronizada de óculos, lembrados no célebre romance de Gabriel García Marques, Cien Años de Soledad seriam importantes no desenvolvimento de instrumentos mais amplos como o telescópio e o microscópio.

            Roger Bacon viveu um período de expressiva atividade intelectual e proliferação de universidades através da Europa. Por volta de 1240 ingressou para a Ordem dos Franciscanos, onde, fortemente influenciado por Robert Grosseteste, dedicou-se a estudos nos quais introduziu a observação da natureza e a experimentação como fundamentos do conhecimento natural. Roger Bacon vai um passo além de seu tutor e descreve o método científico como um ciclo repetido de observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente. Ele registrava a forma em que conduzia seus experimentos em detalhes precisos a fim de que outros pudessem reproduzir seus experimentos e testar os resultados de hipóteses, posto que essa possibilidade de verificação independente é parte fundamental do método científico contemporâneo. Seus avanços nos estudos da Óptica possibilitaram a invenção dos óculos e seriam em breve imprescindíveis para a invenção de instrumentos como o telescópio e o microscópio. Ele propagou o conceito de “leis da natureza”, fato importante num período do século XIII em que estavam ocorrendo constantes modificações no pensamento filosófico e na chamada filosofia da natureza. Seus manuscritos, na verdade, demonstram as virtudes e não os vícios da escolástica — a mistura do dogma religioso com a filosofia, que era a marca registrada progressivamente do pensamento da intelectualidade ocidental entre os cinco séculos IX e XV. Em 1277, proposições relacionadas à astrologia de Bacon foram condenadas por Étienne Tempier, bispo de Paris. Mas, Bacon promoveu uma defesa de seus pontos de vista publicando a obra Speculum Astronomiae. Também se destacou pelo seu trabalho de alquimia.

Seus experimentos deram origem ao conteúdo de sentido das lendas sobre suas façanhas, como, por exemplo, dele ter construído uma cabeça mecânica de bronze que era capaz de prever o futuro. Uma famosa citação dele era a que ele comparava o trabalho alquímico com uma horta: mesmo se colhesse o que não pretendia, ter-se-ia cultivado e melhorado a colheita. Descobrira a pólvora, era capaz de acender uma vela com uma lente e seus estudos contribuíram para o desenvolvimento de um telescópio primitivo, que mais tarde seria criado por Galileu. Na obra O Nome da Rosa, do escritor italiano Umberto Eco, é feita menção a Roger Bacon. Segundo o autor, ele seria fonte de inspiração para o franciscano Guilherme de Baskerville, personagem central daquela obra. Assim como Bacon, frei Guilherme é um monge excêntrico e com reconhecimento avançado para seu tempo. Umberto Eco frequentou a escola salesiana, um instituto religioso católico romano fundado no século XIX por Saint Don Bosco. Curiosamente o sobrenome Eco, vem do acrônimo latino “ex caelis oblaus” que fora recomendado ao seu avô, que era um órfão abandonado por um oficial da cidade e que tem como representação religiosa per se “um presente dos céus”. Entre o final da década de 1950 e 1960, passou a se interessar pela semiótica. Em 1961, escreveu o ensaio: “Fenomenologia di Mike Bongiorno” sobre o fenômeno popular do anfitrião de um Quiz Show chamado Mike Bongiorno e também “Apocalittici e Integrati” (1964), onde analise a comunicação de massa a partir de uma perspectiva sociológica. Precisa uma nova orientação nos estudos sociais de cultura de massa. Nesse período publicou o seu primeiro livro, oportunamente, como uma extensão do trabalho semiológico contido de sua tese de doutorado. Sua démarche filosófica obteve impulso com a influência positiva de Luigi Pareyson (1918-1991), na Itália. Ele se concentrou nos estudos sobre estética do período medieval, sobretudo aos trabalhos de são Tomás de Aquino, e defendia com ardor a dedicação deste membro da Igreja Católica referente às questões do belo.

Logo surge seu segundo livro: “Sviluppo dell´estetica medievale” (1959), em que se posicionou como um pensador da filosofia medieval. Nesse mesmo ano passou a ser um editor sênior na editora Bompiani (Milão), onde permaneceu até 1975. Eco criou na Universidade de Bolonha um programa incomum chamado “Antropologia do Ocidente” a partir da perspectiva dos africanos e estudiosos chineses, onde foi desenvolvida uma rede transcultural na África Ocidental, que resultou na primeira conferência em Guangzhou na China (1991), intitulada: “Fronteiras do Conhecimento”. Sob o olhar semiótico de Umberto Eco, descoberto no século do filósofo John Locke, aderiu assim à concepção anglo-saxônica desta per se antiga disciplina, deixando in statu nascendi a semiologia de Ferdinand Saussure. Ele busca também sua visão renovada da semiótica nos conceitos de Immanuel Kant e Charles Pierce, o que se pode verificar nas obras “As Formas do conteúdo” (1971) e “Tratado Geral de Semiótica” (1975). Umberto Eco critica o uso esotérico da interpretação, fazendo ver que um texto não pode ser aprisionado em seu conjunto por uma única verdade, pois demonstra que a vontade de uma interpretação única é, afinal, a vontade de manutenção de um segredo, que diz respeito à manutenção de poder. Essa crítica do ponto de vista analítico não desfaz a impressão de que a interpretação não pode ser meramente uma impressão subjetivada do texto.

Cabe a nós sermos “servos respeitosos” da semiótica. Se nós, leitores, podemos achar no texto um significado, cabe a nós ter claro que esse significado é uma referência nossa, que evidentemente nem sempre irá respeitar o texto original. Portanto, que existe a “intentio lectoris e a intentio operis”, isto é a intenção do leitor e a do texto. Enquanto a intenção do leitor pode ser reconhecida, a intenção do texto parece para sempre perdida, mas deve ser conjecturada pela interpretação desse leitor, pelo menos através de coerência: qualquer interpretação feita de parte de um texto poderá ser aceita se for confirmada por outra parte processual do mesmo texto, e deverá ser rejeitada se a contradisser. Mas é importante em distinguir, no modelo comunicacional, e, portanto, no universo retórico, o termo ideologia que se presta a numerosas codificações. Deixando de lado a noção de ideologia como “falsa consciência”, Umberto Eco, reitera o papel da ideologia como tomada de posição filosófica, política, estética, etc. em face da realidade. Nosso intuito, afirma, é conferir ao termo ideologia, e a par dele ao de retórica, uma acepção muito mais ampla vinculada ao universo do saber do destinatário e do grupo a que pertence, os seus sistemas de expectativas psicológicas, os seus princípios morais, isto é, quando o que pensa e quer é socializado, passível de ser compartilhado pelos seus semelhantes. Para consegui-lo, porém, é mister que o sistema de saber se torne sistema de signos: a ideologia é reconhecível quando, socializada, se torna código. Nasce, assim, uma estreita relação entre o mundo dos códigos e o mundo do saber preexistente da visão. Esse saber torna-se visível, controlável, comerciável, quando se faz código, convenção comunicativa. Consequentemente o aparato sígnico remete ao aparato ideológico e vice-versa e a Semiologia, como ciência da relação entre códigos e mensagens, transforma-se concomitantemente na atividade de identificação contínua das ideologias que se ocultam sob as retóricas. Enfim, do ponto de vista teórico e metodológico, a Semiologia mostra-nos no universo dos signos, sistematizado em códigos e léxicos, o universo das ideologias, que se refletem nos modos pré-constituídos da linguagem. Ipso facto, em sua gênese, ordinariamente no início do século XIX, designava um extraordinário estudo das ideias, como elas se formam e que fenômenos incidem para isso, empreendido pelo pensador Antoine Destutt de Tracy (1754-1836).

Neste sentido, recorda o semiólogo Umberto Eco o perfil do fã do Super-Homem, o comportamento social e a influência exercida pelo desenho no leitor são demonstrados quando subjuga a recepção da mensagem à condição de fantoche dominado pela propaganda massiva ilustrada na imagem do super-herói que tem como parti pris sua função social. Mais do que isso: pela imagem de “invencibilidade personificada no papel em Clark Kent”, que se assemelha ao homem pelo desejo hierarquizado de ascensão, impotente para vencer suas frustrações, mas que tem embaixo das humildes vestes, a representação simbólica do “brasão em forma de S e a capa vermelha do homem que voa, dobra aço, consegue parar um trem com o corpo, corre na velocidade da luz”. Poderes enfim, que se configuram nas aspirações de ascensão social do cidadão, de vitórias, aplacadas, e saciadas junto às batalhas vencidas pelo ídolo, episódio após episódio. Sem maiores dificuldades, ipso facto nem muita paciência, nem planos em longo prazo, ou problemas que não se resolvam no mesmo dia. Baseado no que lhe impelem as aspirações de status social, de nível abstrato, desejando ser algo formado e reproduzido pela mídia, inconscientemente integrado a sua mentalidade subjetivamente, o sujeito se esquece, e por lapso perde a identidade. Isso se especifica bem usando como escopo o herói como modelo de heterodireção: sua figura se insere na mente de seus seguidores da mesma maneira que as apelações publicitárias. A subjetividade, nesse caso, se configura enquanto o “super” é homem, ou seja, super-homem: é “super”, mas é homem. Ele se identifica com os trabalhadores urbanos quando se humaniza, porque é como eles, se parece com eles, com defeitos e impotências, seus desejos, também, de poder e ufania.

Seus poderes e seu cotidiano sugerem um modo de vida, um tempo presente de vitórias predeterminadas, sem problemas, sem preocupações, sem planos, sem projetos, sem futuro e sem passado. E a população deseja isso: deixar de ser Clark pra ser Super-Homem. Deixar de ser medíocre para ser um ícone, um destaque entre os demais. Deixar de ser esnobado para ser desejado, como Lois Lane, que contraditoriamente esnoba Clark, mas ama o Super-Homem, como um símbolo de poder, idealização, realização e fantasia contemporânea. Os “mundos possíveis” são um conceito de Umberto Eco, que vem de pesquisas sobre lógica por Pavel e Van Dijk. Mas Eco define como mundo possível “um estado de coisas que é expressa por um conjunto de propostas que é, para cada proposta, ou ‘p ou não-`'”. Em outras palavras, um “mundo possível” representa o trabalho de indivíduos que carregam com eles um conjunto de propriedades que não apenas se resumem ao dia a dia ou traços de personalidade, mas também por ações. Os mundos possíveis dependem de uma instância narrativa que cria uma unidade e uma coesão entre os vários elementos do mundo possível. A literatura é terapêutica para Eco por permitir escapar do mundo real e de suas ansiedades e descontinuidade. Esta é também a função dos mitos segundo Claude Lévi-Strauss, que os define como uma maneira para ordenar as variadas experiências de vida. Umberto Eco sugere a noção de texto como máquina “preguiçosa”.  E para este conceito, ele faz o leitor compreender que a leitura é uma atividade criadora e o leitor é agente ativo do texto. Este jogador envolvido no texto é o que ele chama um “leitor modelo”. Um agente social capaz de atualizar as propostas dos textos, de compreender o potencial implícito nos mesmos.

É neste sentido que em “Número Zero”, Eco idealiza um escritor de meia idade que vive de trabalhos avulsos como “Ghost Writer” é convidado para assistente de direção em um projeto para a criação de um jornal, trabalho pelo qual será bem recompensado. Para esse projeto são chamados seis redatores que já escreveram para colunas diversas, e todos a princípio ficam satisfeitos com o convite acreditando que o jornal é uma boa aposta, e poderá quem sabe, alavancar suas carreiras. No entanto o diretor já havia aberto o jogo com o assistente: o jornal servirá como uma espécie de fachada para servir às pretensões políticas do editor, um empresário multimilionário que entre seus negócios é dono de canais de televisão e o jornal provavelmente não será lançado. A veia cômica do escritor aparece nos diálogos dos repórteres do jornal fictício “Amanhã: ontem”. A trama é ambientada na redação de notícias e nas ruas de Milão no ano de 1992 e descreve de forma alegórica, a “operação mãos limpas” – a grande investigação judicial ocorrida na Itália nos anos 1990, que acabou na prisão de políticos, empresários e integrantes da máfia e resultou no fim da 1ª República Italiana. Tirando partido do saber acumulado de sua vasta experiência de como ser semiólogo e estudioso da comunicação, mundialmente reconhecido, o escritor italiano inovou ao combinar as convenções da literatura, por assim dizer, comercial com uma erudição assombrosa e um tratamento inventivo e irônico de seus temas, de tal forma que temos sempre a impressão de ler algo além do que lemos, de que existe outro enredo, ideológico, que interperla o indivíduo por trás da trama aparente e linear as superfícies.

Comparado a seus romances anteriores, “Número zero”, o título se refere, in statu nascendi na prática jornalística, à “edição de teste”, para circulação interna, de uma publicação que ainda está por ser impressa e lançada – pode parecer uma obra menor e pouco ambiciosa. A impressão é enganosa: justamente porque, por trás do enredo aparente, sobre a experiência fracassada dos preparativos para o lançamento de um novo jornal, o “Amanhã”, Eco embute uma crítica cínica e cética não somente à imprensa canalha e sensacionalista, mas também ao liberal Estado ladrão e ineficiente e ao processo de empobrecimento moral da sociedade, que assiste de forma passiva à naturalização dos escândalos desde a corrupção. Sugestivamente, “Número zero” é um romance sobre a morte do “Amanhã”. É um retrato desesperançado da Itália contemporânea, como se ali tivesse falhado o projeto de construção de uma nação. Isso nos ajuda a compreender um ponto importante nesta literatura: a ideologia não é o significado. Mas é uma forma de significado conotativo último e global. Pois, “a ideologia é a conotação final da totalidade das conotações do signo ou do contexto dos signos”. Do ponto de vista pragmático da comunicação representa toda a verdadeira subversão das expectativas que se efetiva na medida em que se traduz em mensagens sociais que também subvertem os sistemas de expectativas retóricas. E toda subversão profunda das expectativas retóricas é também um redimensionamento das expectativas ideológicas. Nesse princípio se baseia a arte de vanguarda, mesmo nos seus monumentos definidos como “formalistas”, quando, usando o código de maneira clara e informativa, não só o põe em crise, mas obriga a repensar, através da crise do código, a crise das ideologias como as quais ele se identificava.

A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política ou na universidade evitam a opção por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença. São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.  As três dimensões da atividade acadêmica, ensino, pesquisa e extensão, - mutatis mutandis - vêm se tornando dependentes de um processo incontrolavelmente burocrático, submetido a normas e dependências que conduz a distorções ideológicas com a plena identidade da atividade de pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino, pesquisa e extensão de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento institucionalizado em órgãos públicos é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático & corporativo por excelência, seguindo as regras do jogo estatal, mas que age politicamente organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de pesquisa de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria.

O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de nós atuou. Muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A sociedade brasileira rejeita a avaliação e a universidade padece com ela, negativamente, como representação simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo não se encontra ausente. Na universidade pública não há “premiação” para o professor em nenhum aspecto prebendário, mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos, fazem “porque querem fazer, porque podem fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica”. 

Historicamente há cerca de duzentos anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta começou a tomar conta do imaginário individual (o sonho) e o imaginário coletivo (os símbolos) europeu. A teoria formal do significado de Davidson é complementada por uma teoria da interpretação. Ao interpretar a linguagem de um falante nativo, pressupomos ideais de racionalidade e adotamos um princípio de caridade ao tentar compreender suas elocuções. Estes princípios normativos de racionalidade não podem ser assimilados a um discurso puramente científico. No entanto, são cruciais para o que é ser um ser humano e, efetivamente, ter estados mentais. Atribuir significados a elocuções, intenções a ações, e estados mentais como crenças e desejos a agentes, estamos sujeitos a uma explicação holística que pressupõe que os seres humanos são em geral racionais e são coerentes no que pensam, dizem e fazem. Davidson também usa este argumento como base para a rejeição do ceticismo extremo, a posição de que todas as crenças acerca do mundo podem ser falsas. Sua obra exerceu considerável influência em diversas áreas sensíveis da filosofia a partir dos anos de 1960, e em especial nas áreas de conhecimento de filosofia da mente, filosofia da linguagem, e teoria da ação. Embora costumasse publicar ensaios, os quais não guardavam relação explicitamente com uma concepção de teoria geral, sua obra se destaca por um caráter unificado.        

O Esclarecimento exprime o movimento real da sociedade burguesa como um todo sob o aspecto da encarnação de sua Ideia em pessoas e instituições, assim também a verdade não significa meramente a consciência relacional, mas, do mesmo modo, a figura que esta assume na realidade efetiva. O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos – fatos esses que, no entanto, já estão pré-moldados como clichês na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem se conformar. Ao tachar de compilação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da cegueira. É característico da situação sem saída que até mesmo o mais polêmico dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper.

A “falsa clareza”, quer dizer, a ilusão em relação à realidade em si é apenas uma outra expressão do mito. Este na história da humanidade sempre foi obscuro e iluminante ao mesmo tempo. Suas credenciais tem sido desde sempre a familiaridade e o fato de dispensar o trabalho característico do conceito. A aporia com que defrontamos em nosso trabalho cotidiano revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma, afirmavam Theodor Adorno e Max Horkheimer, e nisso reside nossa petitio principi, de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonado a seus inimigos e reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também a sua relação social com a verdade. A disposição enigmática das massas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo, sua afinidade autodestrutiva com a paranoia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta fraqueza e a dúvida sobre o poder de compreensão do pensamento abstrato. A causa da recaída do Esclarecimento não deve ser buscada nem tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e de forma persistente em outras mitologias modernas, comparativamente, é sobretudo, especificamente idealizadas em vista dessa recaída, repetidamente, mas, no próprio Esclarecimento paralisado pelo temor da verdade. Isto nos lembra a perspicácia de Michel Foucault. A naturalização dos homens não é dissociável do progresso social.

O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o poder a sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela per se destinados. A elevação do padrão de vida das classes subalternas, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se da “difusão hipócrita do espírito”. Sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizando em um bem cultural e distribuído paras fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo. O que está em questão não é a cultura como valor. A questão é que o esclarecimento deve tomar consciência de si mesmo, se os homens não forem traídos. Não se trata da conservação/superação hegeliana do passado, mas de vir-a-ser resgate-esperança. O passado se prolonga como sua própria destruição.

No trajeto social para a concepção de ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa representou apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as ideias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador. Com as Ideias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico intermitente. O Esclarecimento, porém, reconheceu as antigas potências no legado platônico e aristotélico da metafísica e instaurou um processo contra a pretensão de verdade dos universais, acusando-a de superstição. Na autoridade dos conceitos universais ele crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza. Doravante, a matéria era dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão sombria de qualidades ocultas. O que não submete ao critério da calculabilidade e da utilidade de uso torna-se suspeito para o esclarecimento. Mas cada resistência cultural que ele encontra serve apenas para aumentar a sua força social. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos.

Quaisquer que sejam os mitos de que possam se valer a resistência, o simples fato social de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade decerto corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento como fato é totalitário. Para ele, o elemento social e humano básico do mito foi sempre o antropomorfismo, a projeção do subjetivo na natureza. A cultura respeitável constituiu até o século dezenove um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século vinte o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho gigantesco. Talvez não fosse um preço tão alto, como acreditam alguns defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário. Nas condições atuais, os próprios bens da fortuna convertem-se em elementos de infortúnio. Enquanto no período passado a massa desse bens, na falta de um sujeito social, resultava na chamada superprodução, em meio às crises da economia interna, ela produz com a entronização dos grupos sociais e econômicos que detém o poder no lugar classista desse sujeito social, quer dizer, em cena a teatralidade da ameaça internacional do monopólio ligado aos grupos econômicos, com a entronização do grupos que detêm o poder no “lugar praticado”, para Michel de Certeau, desse sujeito social que procura tornar inteligível o entrelaçamento da racionalidade, como sujeito a verdade e da realidade, bem como o entrelaçamento, inseparável do primeiro, da natureza e da dominação da natureza.

Frequentemente, portanto, a obra, como qualquer outra mensagem, contém seus próprios códigos: quem hoje lê os poemas homéricos extrai dos significados denotados pelos versos uma tamanha massa de noções sobre o modo de pensar, de vestir, de comer, de amar ou de guerrear daqueles povos, que está apto a reconstruir seus sistemas de expectativas ideológicas e retóricas. A leitura da obra desenvolve-se, pois, numa oscilação contínua, pela qual se vai da obra à descoberta dos códigos de origem que ela sugere, dessa descoberta a uma tentativa fiel da obra, para daí voltarmos aos nossos códigos e léxicos de hoje e experimentá-los sobre a mensagem. Metodologicamente, procede-se, destarte, a um confronto contínuo, a uma integração entre as várias “chaves de leitura”, fruindo-se a obra através desta sua ambiguidade, oriunda não só do uso informativo dos significantes em relação ao código de partida, mas do uso informativo dos significantes reportados aos nossos códigos de chegada, o que dá origem a novas mensagens-significado, as quais passam a enriquecer nossos códigos e nossos sistemas ideológicos, reestruturando-os e dispondo os leitores de amanhã a uma nova situação interpretativa em relação à obra, em várias fases, mas que a teoria não pode prever quanto às formas concretas que irá assumir: a mensagem cresce, mas não se sabe como poderá crescer. Portanto, é errado pensar que todo ato comunicacional se baseia numa língua afim aos códigos da linguagem verbal, e que, ipso facto toda língua deva ter articulações fixas.

Para ficarmos num exemplo, no âmbito da esfera de comunicação visual, a comunicação fílmica é a que melhor permite verificar porque um código comunicacional extralinguístico não tem necessariamente que construir-se sobre o modelo da língua. O código fílmico não é o código cinematográfico porque se refere à reprodutibilidade técnica da realidade por meio de aparelhos cinematográficos, ao passo que a comunicação fílmica codifica uma comunicação ao nível de determinadas regras narrativas. Não há dúvida que o primeiro se apoia no segundo, assim como o código estilístico-retórico se apoia no código linguístico, como léxico do outro. A denotação cinematográfica é comum ao cinema e à televisão, o que levou Píer Paolo Pasolini a aconselhar que essas formas comunicacionais fossem designadas em bloco, não como cinematográficas, mas como audiovisuais. Naturalmente é preciso nos limitarmos a algumas observações técnico-metodológicas sobre as possíveis articulações de um código cinematográfico, aquém das pesquisas de estilística, de retórica fílmica, de uma codificação da grande sintagmática do filme, como se o cinematógrafo não nos tivesse datado até agora senão: “L`arrive du train à la gare” e “L`arroseur Arrose” (1895), esses filmes de autoria dos irmãos Lumière.

Enfim, uma Semiologia do cinema não pode ser apenas a teoria de uma transcrição da espontaneidade natural; apoia-se numa cinésica, estuda-lhe as possibilidades de transcrição icônica e estabelece em que medida uma gestualidade estilizada, própria do cinema, influi nos códigos cinésicos, modificando-os. O filme mudo, evidentemente, tivera que enfatizar os cinemorfos normais; os filmes de Antonioni, ao contrário, parecem atenuar-lhes a intensidade. Em ambos os casos, a cinésica artificial, fruto de exigências estilísticas, incide sobre os hábitos do grupo que recebe a mensagem cinematográfica, e modifica-lhes os códigos cinésicos. Esse é um argumento interessante para uma Semiologia do cinema, assim como o estudo das transformações, das comutações, dos limiares de recognoscibilidade dos cinemorfos. Mas, adverte Eco, estamos no círculo determinante dos códigos, e o filme não mais se manifesta aos nossos olhos como representação milagrosa da realidade, mas como uma linguagem que fala outra linguagem preexistente, ambas interagindo com seus sistemas de convenções. As unidades gestuais cada vez mais são ulteriores à comunicação cinematográfica. A ilusão da imagem como representação especular da realidade estaria destruída caso não tivesse na experiência prática, um processo dialógico com um indubitável fundamento, e se uma investigação semiológica mais aprofundada não nos explicasse as razões comunicacionais deste fato. Em sua obra O Nome da Rosa, Umberto Eco inspirou-se no imaginário individual e coletivo em torno do incêndio da Biblioteca de Alexandria para descrever a biblioteca da obra. A Biblioteca de Alexandria representou uma grande biblioteca do Egito Antigo, que foi na história um centro culturalmente anterior ao pós-orientalismo por mais de seis séculos.

A Biblioteca de Alexandria foi uma das mais significativas e célebres bibliotecas e um dos maiores centros de produção do conhecimento na Antiguidade. A Biblioteca de Alexandria não foi a primeira biblioteca do gênero, sendo parte de uma longa tradição de bibliotecas que existiam tanto na Grécia Antiga quanto no Oriente Próximo. O mais antigo registo da acumulação de documentos escritos vem da cidade-estado suméria de Uruque, por volta de 3 400 a.C., quando a escrita apenas começara a se desenvolver, e a curadoria de textos literários começou por volta de 2 500 a.C. Estabelecida durante o século III a.C. no complexo palaciano da cidade de Alexandria, no Reino Ptolemaico do Antigo Egito, a Biblioteca fazia parte de uma instituição de pesquisa chamada Mouseion. A ideia de sua criação pode ter sido proposta por Demétrio de Faleros, um estadista ateniense exilado, ao sátrapa do Egito e fundador da dinastia ptolemaica, Ptolemeu I Sóter, que, tal como o seu antecessor, Alexandre Magno, buscava promover a difusão da cultura helenística. Contudo, a Biblioteca provavelmente não foi construída até o reinado de seu filho, Ptolemeu II Filadelfo. Ela adquiriu um grande número de rolos de papiro, devido sobretudo às políticas agressivas e bem financiadas dos reis ptolemaicos para a obtenção de textos. Não se sabe exatamente quantas obras ela tinha em seu acervo, mas estima-se que ela chegou a abrigar entre trinta mil e setecentos mil volumes literários, acadêmicos e religiosos. O acervo da Biblioteca cresceu de tal maneira que, durante o reinado de Ptolemeu III Evérgeta, uma dimensão filial sua foi criada no Serapeu de Alexandria.

Além de servir à demonstração de poder em termos de um dispositivo discursivo dos governantes ptolemaicos, a Biblioteca teve um papel significativo na emergência de Alexandria como sucessora de Atenas enquanto centro irradiador da cultura grega. Muitos estudiosos importantes e influentes trabalharam nela, notadamente Zenódoto de Éfeso, que buscou padronizar os textos dos poemas homéricos e produziu o registro mais antigo de que se tem notícia do uso da ordem alfabética como método de organização; Calímaco, que escreveu os Pínakes, provavelmente o primeiro catálogo de biblioteca do mundo; Apolônio de Rodes, que compôs o poema épico As Argonáuticas; Eratóstenes de Cirene, que calculou pela primeira vez a circunferência da nossa casa, Terra, com invulgar precisão; Aristófanes de Bizâncio, que inventou o sistema de diacríticos gregos e foi o primeiro a dividir textos poéticos em linhas; e Aristarco da Samotrácia, que produziu os textos definitivos dos poemas homéricos e extensos comentários sobre eles. Além deles, existem referências de que a comunidade da Biblioteca e do Mouseion de Alexandria teria  incluído temporariamente numerosas outras figuras que contribuíram duradouramente para o conhecimento, como Arquimedes e Euclides. Apesar da crença de que a Biblioteca teria sido incendiada e destruída em seu auge, na realidade ela decaiu gradualmente ao longo dos séculos, começando com a repressão de intelectuais no reinado de Ptolemeu VIII Fiscão. Aristarco da Samotrácia renunciou ao posto de bibliotecário-chefe e exilou-se no Chipre, e outros estudiosos, incluindo Dionísio da Trácia e Apolodoro de Atenas, fugiram para outras cidades. A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi acidentalmente queimada por Júlio César em 48 a.C., mas não está claro o quanto realmente foi destruído, pois fontes indicam que ela sobreviveu ou foi reconstruída pouco depois.

O geógrafo Estrabão menciona ter frequentado o Mouseion por volta de 20 a.C., e a prodigiosa produção acadêmica de Dídimo Calcêntero nesse período indica que ele teve acesso a pelo menos parte dos recursos da Biblioteca. Sob controle romano, a Biblioteca perdeu vitalidade devido à falta de financiamento e apoio, e a partir de 260 d.C. não se tem notícia de intelectuais filiados a ela. Entre 270 e 275 d.C. a cidade de Alexandria viu tumultos que provavelmente destruíram o que restava da Biblioteca, caso ela ainda existisse, mas a biblioteca do Serapeu pode ter sobrevivido mais longamente, talvez até 391 d.C., quando o papa copta Teófilo I instigou a vandalização e a demolição do Serapeu. A Biblioteca de Alexandria foi mais que um repositório de obras, e durante séculos constituiu um notável polo de atividade intelectual. Sua influência pôde ser sentida em todo o mundo helenístico, não apenas por meio da valorização do conhecimento escrito, que levou à criação de outras bibliotecas nela inspiradas e à proliferação de manuscritos, mas também por meio do trabalho de seus acadêmicos em numerosas áreas do conhecimento. Teorias e modelos criados pela comunidade da Biblioteca continuaram a influenciar as ciências, a literatura e a filosofia até pelo menos a Renascença. Além disso, o legado da Biblioteca de Alexandria teve efeitos que se estendem até nossos dias, e ela pode ser considerada um arquétipo da biblioteca universal, do ideal de armazenamento do conhecimento, e da fragilidade desse conhecimento. Juntos, a Biblioteca e o Mouseion contribuíram para afastar a ciência de correntes de pensamento específicas e, para demonstrar que a pesquisa acadêmica pode servir às questões práticas e às necessidades materiais das sociedades e governos. 

Vale lembrar que, historicamente, a primeira referência à Lusitânia foi feita nas Histórias de Políbio. O historiador e geógrafo grego Estrabão (63 a.C. - 24 d.C.) descreveu a Lusitânia pré-romana, numa primeira análise, desde o Tejo à costa cantábrica, tendo a Ocidente o Atlântico e a Oriente as terras de tribos célticas. A Lusitânia pré-romana é referido como o período até 29 a.C. quando foi criada por Augusto a província Lusitânia, o limite ao norte passou a ser o rio Douro e ao sul ultrapassou o Tejo, anexando a Estremadura espanhola, Alentejo e Algarve; e a oriente ocupou parte das terras dos célticos. Supõe-se que o Périplo de um navegador massaliota, efetuado por volta de 520 a.C., que descreve a sua viagem marítima ao longo das costas da Península, tenha sido aproveitado por Avieno, escritor do século IV, para compor a Ode Marítima. No seu poema, Avieno refere-se aos Lucis, que seria considerada, por alguns autores, a mais antiga menção aos Lusitanos neste território. Além deles foram referidos os Estrímnios, os Draganos, e a sul, na atualmente região do Algarve, os Cinetes ou Cónios.  O Périplo massaliota (Massalia, a atualmente Marselha, era uma colônia grega), era um manual para os comerciantes, atualmente perdido, que possivelmente datasse dos começos do século VI a.C. e no qual eram descritas as rotas marítimas usadas pelos comerciantes de Fenícia e Tartessos, nas suas viagens ao redor da Europa na Idade do Ferro, ao longo da “rota do estanho”. Foi preservado por Avieno na obra Ora Maritima, escrevendo algumas partes mais tarde, durante o século IV. Continha uma passagem de narração de viagem “por mar” desde Massília (Marselha) ao mar Mediterrâneo ocidental. Descreve as rotas marítimas desde Cádis, na atualmente Espanha, para os Norte ao longo da costa da Europa atlântica de Bretanha, Irlanda e Grã-Bretanha. Muitos dos povos antigos que entraram na Península Ibérica deixaram no território da Lusitânia vestígios etnográficos enquanto inscrição de gentios bem marcados dos contatos sociais comerciais e de influência cultural.                       

Ficariam perfeitamente acentuados e reveladores de uma assimilação cultural mais profunda os vestígios da ocupação geopolítica romana, a que se seguiriam as ocupações dos visigodos e dos árabes. Alguns historiadores antigos referem-se ao ouro da Lusitânia, riqueza que como a prata é testemunhada pela frequência dos achados em Portugal, de numerosas joias típicas fabricadas com esses metais: colares, braceletes, pulseiras, arrecadas etc.  O cobre, em abundância, extraía-se das minas do Sul. O chumbo encontrava-se, segundo Plínio, o Velho, na cidade lusitana de Medúbriga Plumbária, que da abundância local daquele minério teria recebido o nome. Os lusitanos, normalmente considerados antepassados dos portugueses do centro e sul do país e dos estremenhos, foram um povo celtibérico que viveu na parte ocidental da Península Ibérica. Inicialmente, uma única tribo que vivia entre os rios Douro e Tejo ou Tejo e Guadiana. Ao norte do Douro limitavam com os galaicos e ástures - a maior parte dos habitantes do norte de Portugal, depois integrados na província romana de Galécia, a sul com os Béticos e a oeste com os celtiberos na área mais central da Hispânia Tarraconense. A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, o mais destacado dos seus líderes no combate aos romanos. Se o rigor destas disposições foi observado no início da fundação destas ordens religiosas, o seu sucesso inicial, com a adesão de milhares de jovens em grande parte da Europa, o crescente elevado peso institucional e poder político, rapidamente levaram as autoridades eclesiásticas a “aliviar” tal rigor e austeridade, permitindo que os conventos pudessem de alguma forma subsistir sem ser apenas “por obra e graça da caridade alheia”.

Tanto é que, coincidindo com o período gótico, os extraordinários arquitetônicos conventos franciscanos e dominicanos, destacaram-se pela magnificência das respectivas obras de arte e arquitetura, cujo melhor exemplo em Portugal é o dominicano Mosteiro de Santa Maria da Vitória, reconhecido como Mosteiro da Batalha. Foi mandado edificar em 1386 pelo rei D. João I de Portugal como agradecimento à Virgem Maria pela vitória contra os rivais na batalha de Aljubarrota. Este mosteiro da Ordem de São Domingos foi construído durante de dois séculos até cerca de 1563, durante o reinado de sete reis de Portugal, embora desde 1388 já ali vivessem os primeiros frades dominicanos. Exemplo da arquitetura gótica tardia portuguesa, ou estilo manuelino, é considerado patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), e em 7 de julho de 2007 foi eleito como uma das Sete Maravilhas de Portugal. Está classificado como Monumento Nacional desde 1910. Tem, desde 2016, o estatuto de Panteão Nacional. O Mosteiro da Batalha é um dos monumentos mais visitados em Portugal. Em 2022, registou 288.386 entradas. É situado na vila de Batalha, na região do Centro, província da Beira Litoral, em Portugal, que foi mandado edificar em 1386 pelo rei D. João I de Portugal (1357-1433), reconhecido como o Mestre de Avis e apelidado o de Boa Memória, foi o rei de Portugal e dos Algarves de 1385 até sua morte, sendo o primeiro monarca português da Casa de Avis (1385-1580) e o décimo rei de Portugal. Ipso facto, por agradecimento à imagem de Virgem Maria pela vitória contra os rivais castelhanos na Batalha de Aljubarrota de 14 de agosto de 1385. Este mosteiro da Ordem de São Domingos foi construído em dois séculos de trabalho até cerca de 1563, no reinado de sete reis de Portugal, embora desde 1388 com os primeiros frades dominicanos. Importantes ordens são a dos Carmelitas, que surgiram no Monte Carmelo para a Europa em meados do século XIII, e a dos Eremitas, que surgiram no século XII.

A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que, para as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais corre a princípio só e sem rival. 

Bibliografia Geral Consultada.

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