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quinta-feira, 24 de abril de 2025

O Nevoeiro – Metáforas da Vida, Agorafobia & Reféns do Sobrenatural.

O menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança”. Aristóteles

        Um dos mais populares escritores de terror contemporâneo é Stephen King, reconhecido por ter escrito as famosas obras “Carrie” (1974), “O Iluminado” (1977), “It” (1990), “Misery” (1987) e muitas outras. Tendo iniciado o seu trabalho na década de 1970, King conseguiu atrair uma enorme audiência, motivo este que fez com que a U.S. National Book Fundation com razão o premiasse em 2003. Brian Lumley, James Herbert, Dean Koontz, Clive Barker, Ramsey Campbell e Peter Straub também são reconhecidos autores de horror contemporâneo populares. Sequências de livros “best-selling” de tempos contemporâneos estão relacionadas com “ficção de horror”, como a fantasia urbana de lobisomens Kitty Norville de Carrie Vaughn, e a ficção gótica e erótica da brilhante escritora Anne Rice. O conto de fadas A Bela Adormecida ganha uma nova interpretação nada inocente. Em Os desejos da Bela Adormecida, primeiro da trilogia erótica, a princesa condenada a dormir por cem anos depois de furar o dedo em uma roca de fiar enfeitiçada se torna vítima de um segundo feitiço: seu coração e seu corpo estão sob controle do príncipe que a despertou, que a declara, na falta de melhor expressão, sua “escrava sexual” e a leva para a corte da mãe, a rainha Eleanor, um simbolismo de prazer, dor sadomasoquistas continuum, além do gênero de terror em si

          Por seu lado, lembramos que a literatura de horror contém indissociavelmente elementos do sobrenatural, muitas vezes associados a componentes típicos da ficção científica. É o caso de Frankenstein, no qual um cientista representado por um médico decide criar um ser - um Novo Prometeu - unindo partes “retiradas de cadáveres e usando a eletricidade como fluido vital”. Mas ela também recorre ao folclore e à cultura tradicional, no caso de Drácula e Carmilla, à religião: “Aprisionado com os faraós”, de Lovecraft, isto é, ao sobrenatural - ou mesmo a supostos poderes latentes no ser humano: leia-se o conto “O Estranho Caso do Sr. Waldemar” (Poe), no qual o dito Sr. Waldemar, prestes a morrer, é mesmerizado e permanece vivo enquanto dura o transe. A ideia de escapar à morte é recorrente na literatura de horror; além do óbvio Frankenstein, temos “Vento frio”, de H. P. Lovecraft, cujo personagem principal, com a “ficcionalização do real” (cf. Augé, 1997) mesmo estando morto, consegue se manter vivo com a modernização de um sistema de refrigeração instalado em seu apartamento. Também de Lovecraft, existe “O caso de Charles Dexter Ward”, com a ideia da “reencarnação premeditada”. Temos em mente que se sofremos, é porque fizemos alguém sofrer. E a respeito de males cometidos em vidas passadas: Por que e como vou pagar um erro que eu teria feito numa encarnação passada, se eu não me lembro dele? Mas é o Mestre dos mestres que ensinou que ninguém deixará de pagar todas as suas faltas até o último centavo (são Mateus 5: 26; e são Lucas 12: 59), que as penas não duram para sempre, pois sendo pago o centavo, não vamos pagar nada, pois a lei divina é justa e perfeita.

         Especificamente no caso d`O Nevoeiro (The Mist, 2007), após uma tempestade, David Drayton (Thomas Jane), um pintor e designer gráfico do estado de Maine, fica com o seu estúdio destruído pela força desse mesmo temporal. No dia seguinte, pela manhã, com as condições meteorológicas mais calmas, ele, sua esposa e seu filho observam um estranho nevoeiro que vem das montanhas perto de sua casa, mas não dão grande importância. Drayton decide ir com seu filho à cidade mais próxima para se abastecerem, pois não sabiam quando as condições de vida voltariam ao normal. Assim que entra no mercado local, o nevoeiro se apodera do local, e alguém entra apavorado no mercado, indicando que aquele nevoeiro traz algo perigoso dentro de si. Um terremoto sacode o mercado, assustando ainda mais os clientes reféns. Aqueles que tentam sair do mercado são misteriosamente mortos, até que um grupo tenta achar uma saída pelo armazém. Mas tentáculos misteriosos entram pela porta do armazém, ferindo e levando um dos funcionários. Naturalmente, surge um grupo de céticos que tenta desacreditar o ocorrido e ainda assim entra nevoeiro adentro, sumindo. Ao anoitecer, insetos gigantes e pássaros mutantes esbarram nas janelas do mercado, estilhaçando-as e invadindo o espaço. No entanto, os reféns conseguem dominar as criaturas com fogo.      

        Entre os reféns está uma fanática religiosa, que acredita ser um canal direto de Deus, seguidora do Apocalipse, que compara a situação à narração do livro bíblico, e afirma que o nevoeiro e as criaturas são uma manifestação da ira de Deus contra a ação dos humanos. Alguns dos reféns ficam perturbados com as palavras dela, outros não ligam. Na manhã seguinte, Drayton e outros reféns saem do mercado e se dirigem a uma farmácia situada no mesmo local. Ali encontram o espaço dominado por aranhas mutantes gigantes. Apesar dos empecilhos, conseguem obter alguns medicamentos. No meio de pessoas mortas pelas teias das mortíferas aranhas, dois homens são encontrados mortos por enforcamento. Essa atitude é vista como suspeita, uma vez que ambos tinham altas patentes do Exército dos Estados Unidos da América; e, David equaciona a “possibilidade da presença dessas criaturas e da neblina poder ter origem humana”. Um terceiro membro do exército encontrava-se de entre os reféns. Este é questionado sobre o facto de dois colegas estarem mortos. Após tortura psicológica este revela finalmente a origem de tudo do ponto de vista geopolítico que estava in statu nascendi a ocorrer: uma fantasmagoria cínica, operação ultrassecreta do Exército Norte-Americano, a Operação Arrowhead (Operação Seta na Cabeça, 2010), procurava estudar a veracidade da Teoria dos Muitos Mundos; a teoria que, aparentemente, equaciona a existência de universos paralelos.

A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos. É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os seres humanos, a Terra é o único corpo celeste onde é reconhecida a existência de vida. O planeta formou-se há 4,56 bilhões de anos, e a vida surgiu na sua superfície depois de um bilhão de anos. Desde então, a biosfera terrestre alterou de forma significativa a atmosfera e fatores abióticos do planeta, permitindo a proliferação de organismos aeróbicos, como a formação da camada de ozônio, que em conjunto com seu campo magnético, bloqueia radiação solar prejudicial, permitindo a vida no planeta. A sua superfície exterior é dividida em segmentos rígidos, chamados placas tectônicas, que migram sobre a superfície terrestre ao longo de milhões de anos. Aproximadamente 71% da superfície é coberta por oceanos de água salgada, com o restante consistindo de continentes e ilhas, contendo lagos e corpos de água que contribuem para a hidrosfera. Os polos geográficos do planeta Terra encontram-se majoritariamente cobertos por mantos de gelo ou por banquisas. O interior da Terra permanece ativo e relativamente sólido, isto é, um núcleo externo líquido que gera um campo magnético, e um núcleo interno sólido, composto, sobretudo por ferro. A Terra interage com objetos em movimento no espaço, em particular com o Sol e a Lua. Orbita o Sol uma vez por cada 366,26 rotações sobre o próprio eixo, o que equivale a 365,26 dias solares ou representa um (01) ano sideral. 

O eixo de rotação da Terra possui uma inclinação de 23,4° em relação à perpendicular ao seu plano orbital, reproduzindo variações sazonais na superfície do planeta, com período igual a um ano tropical, ou, 365,24 dias solares. A Lua (cf. Fernandes, 2017) é o único satélite natural reconhecido da Terra e que nos proporcionou reconhecer e penetrar em seu solo. O atual modelo consensual para a formação da Lua é a hipótese do grande impacto. É uma hipótese astronômica que postula a formação da Lua através do impacto de um planeta com aproximadamente o tamanho de Marte, reconhecido como Theia, com a Terra. Ela é responsável pelas marés, estabiliza a inclinação axial da Terra e abranda gradualmente a rotação do planeta Terra. A Lua pode ter afetado dramaticamente o desenvolvimento da vida vegetal ao moderar o clima do planeta. Evidências paleontológicas e simulações de computador demonstram que a inclinação axial do planeta é estabilizada pelas interações cíclicas de maré com a Lua. As rochas se formaram muito próximo ao Sol e, por isso, acreditava-se que elas eram muito secas para serem responsáveis pelos reservatórios de água na Terra. Do ponto de vista teórico, histórico e pontual oceano representa o corpo de água que cobre a maior parte da superfície ambiental da Terra constituído por água salgada. O oceano corresponde a uma porção estatística de 97% da hidrosfera, e 71% da superfície que é constituída em torno de de 361 milhões de km². Mais da metade da área tem profundidades superiores a 3 mil metros.  As fases cíclicas da Lua têm relação biológica com o ciclo menstrual.

Na superfície, inversamente, temos a construção do prédio chamado pelo mercado de Nova York do Oriente Médio, o emirado de Dubai é reconhecido mundialmente pelas extravagâncias, como o icônico Burj Khalifa, um gigante de concreto armado de 827 metros de altura. Embora a noção de oceano global, como um “corpo contínuo de água”, seja importante para a oceanografia, o oceano terrestre, para efeitos práticos, é abstratamente dividido em vários níveis demarcadas por continentes e grandes arquipélagos. Os oceanos são ambientes totalmente diferentes do terrestre. Assim, esse ambiente é dominado por fenômenos muito peculiares que não ocorrem em terra, como as marés, as ondas, as correntes oceânicas, vórtices, tsunamis, etc. Após a condensação, o volume de água na superfície da Terra aumentou de forma crescente e formou o oceano global. Esse processo de acúmulo de água durou cerca de 2 bilhões de anos, quando atingiu um volume estável semelhante ao oceano moderno. Assim, o atual volume de água do oceano global existe desde o início do Eon Proterozóico de 2,5 bilhões de anos. O registo geológico do Proterozóico é melhor que o do Arqueano. Ao contrário dos depósitos de águas profundas do Arqueano, no Proterozóico ocorrem muitos estratos que foram depositados em extensos mares epicontinentais pouco profundos e muitas destas rochas foram menos metamorfizadas que as do Arqueano, são abundantes e inalteradas. O estudo destas rochas demonstra que ocorreu acreção continental rápida e maciça, exclusiva do Proterozóico, ciclos supercontinentais, e atividade orogênica moderna.

As informações da rede de computadores não são transmitidas somente por satélites que orbitam a Terra, mas por uma gigantesca rede de backbones submarinos que cruzam os oceanos do planeta. Mais de metade dos satélites operacionais foram lançados com fins comerciais. Os satélites dedicados à comunicação terrestre, perfaziam 61% do total desta categoria. Mas 27% dos equipamentos cumpriam missões de observação terrestre. Seguem-se os satélites governamentais correspondendo a 21%, e os que têm objetivos militares, com 13%. Segundo dados estatísticos de um relatório da Euroconsul, citados pelo website Venture Capitalist, durante a próxima década, estima-se que cerca 990 satélites sejam lançados todos os anos, significando que em 2028, poderão existir 15.000 equipamentos em órbita. Cabos submarinos são colocados no relevo oceânico, entre estações terrestres, para transmitir sinais de telecomunicações através de trechos ou recortes específicos de mar. E em 1849, os navios da marinha americana começaram sondagens sistemáticas em alto mar no Atlântico. Com base em suas descobertas o hidrógrafo Mathew Fontaine Maury, superintendente do Observatório Naval, sugeriu que havia um platô submarino entre a Terra Nova e a Irlanda, e que este seria o caminho ideal para colocar um cabo telegráfico. Os primeiros cabos submarinos foram estabelecidos na década de 1850, para o tráfego de telegrafia. As gerações subsequentes usaram a rede de cabos realizada para telefonia e, em seguida, para a transmissão de dados. Os cabos modernos usam a tecnologia de fibra óptica para o transporte de dados digitais, o que inclui telefone, a rede de computadores e tráfego de dados privados.

Os cabos modernos têm geralmente 69 milímetros de diâmetro e pesam cerca de 10 kg por metro, embora cabos mais finos e leves sejam usados para trechos em águas profundas. Em 2010, os cabos submarinos ligavam todos os continentes da Terra, exceto a Antártida. É o continente mais frio, mais seco, com a maior média de altitude e de maior índice de ventos fortes do planeta. O nevoeiro, brêtema ou cerração, é uma nuvem stratus cuja base está no solo ou perto dele e reduz a visibilidade a menos de 1 km, com visibilidade superior a 1 km, ocorre uma neblina ou névoa. Stratu em latim significa “camada” ou “estrato”. Formam-se sobretudo na baixa troposfera, em ar estável, e estão associadas a precipitação fraca ou moderada. Desde que a temperatura ambiente não seja demasiado baixa, são compostos por gotículas de água. A espessura média da troposfera é de 12 km nas latitudes médias. É mais espessa nas regiões tropicais, podendo alcançar até 17 km de altura, e menos espessa nos polos, podendo alcançar 7 km durante o verão e tornando-se indistinta durante o inverno. A parte mais baixa da troposfera, onde a fricção dos ventos com a superfície influencia as correntes de vento, é chamada de camada limite planetária (CLP). Esta camada tem normalmente algumas centenas de metros de espessura, podendo atingir até 3 km, dependendo do relevo e da hora do dia. Tal camada inferior é atingida por gases do chamado “efeito estufa”, entre eles o metano e o monóxido de carbono, que interagem para aumentar a concentração de ozônio. A região fronteiriça entre a troposfera e à estratosfera é chamada de tropopausa. 

A palavra “troposfera” deriva do grego: “tropos” (girar, misturar), refletindo o fato de que a turbulência tem um papel importante no comportamento e estrutura da troposfera. A maior parte dos fenômenos meteorológicos que associamos com o tempo meteorológico cotidiano ocorre na troposfera. Meteorologia física é a área da meteorologia que investiga os fenômenos atmosféricos do ponto de vista da física, descrevendo-os e explicando-os a partir de teorias e da análise de resultados experimentais. Geralmente, os temas da meteorologia física são abordados em duas disciplinas complementares: (1) termodinâmica da atmosfera e (2) Dinâmica de precipitação e microfísica de gotas e cristais. A Termodinâmica da atmosfera estuda os processos termodinâmicos e a energética dos processos e escoamentos atmosféricos. Também estuda as transformações energéticas envolvidas no escoamento do ar atmosférico em diferentes escalas, por exemplo, em grande escala, estuda a energia potencial das massas de ar e em mesoescala, estuda a modificação das variáveis termodinâmicas, como temperatura, pressão, umidade do ar associadas ao deslocamento vertical das parcelas de ar em escoamento na atmosfera. Além disso, a termodinâmica da atmosfera estuda os efeitos da convecção (i.e. do transporte turbulento de calor, momento e massa) entre a superfície e a atmosfera. Contribui para o entendimento do balanço de radiação e balanço de energia atmosférico e da superfície. Investiga os fenômenos de mistura na atmosfera, descrevendo-o do ponto de vista teórico e experimental.

Também tem como alvo os processo de liberação de calor latente devido à mudança de fase da água na atmosfera úmida, que ocorre durante a formação de gotas e cristais de gelo nas nuvens em geral, e também a liberação de calor latente dentro de ciclones tropicais ciclones tropicais (furacões, tufões, etc.). O estudo termodinâmico da atmosfera em geral considera a composição do ar e sua distribuição vertical, seus componentes, como gases e partículas. Além disso, os estudos se debruçam sobre as propriedades e dinâmica de parcelas de ar seco e de ar úmido, suas propriedades conservativas e sobre os efeitos da mudança de fase na dinâmica das parcelas. Para tal, estuda-se a chamada teoria da parcela (clássica e modificada). O papel do vapor de água é de fundamental importância na meteorologia. Conhecendo-se a umidade relativa do ar, ou seja, a quantidade de vapor de água contida na atmosfera em relação a quantidade máxima esperada na saturação, tem-se uma ideia do potencial atmosférico para a ocorrência de chuvas, uma vez que o vapor de água é chamado 'combustível' das tempestades e de outras formas de precipitação, por exemplo, chuviscos, garoa, orvalho. A estrutura vertical da atmosfera é composta por diversas camadas com estrutura da estabilidade estática diferente, sendo que a troposfera é a mais próxima da superfície entre a superfície e aproximada de 12 km. Dentro da troposfera, a temperatura média do ar diminui de acordo com a altura sobre a superfície, predominando difusão turbulenta e escoamento turbulento em sua porção inferior e dentro das nuvens de grande desenvolvimento vertical. E a cada nova camada na vertical da atmosfera, a estrutura do gradiente vertical de temperatura (isto é, o lapse rate) se inverte de uma forma colossal.

Por exemplo, na segunda grande camada, estratosfera, a temperatura aumenta com a altura, predominando difusão molecular e escoamento laminar. A temperatura aumenta na estratosfera devido à presença da máxima concentração da camada de Ozônio na altura aproximada de 30 km, e o Ozônio absorve grande quantidade de radiação solar na faixa do ultravioleta, provocando seu aquecimento. O curso de meteorologia física também trata com detalhes a dinâmica das nuvens, estudando a dinâmica das forças que acabam definindo os diferentes tipos de nuvens e sistemas precipitantes. Uma dessas forças é o empuxo associado a presença de parcelas de ar quente e úmido, flutuantes em um ambiente atmosférico mais frio e seco. A força da gravidade, isto é o peso das parcelas, e as forças de arrasto aerodinâmico também são muito importantes. Do ponto de vista metereológico a convergência do escoamento horizontal do vento também tem um papel destacado na formação das tempestades, assim como a existência de potencial de liberação de energia potencial pela troposfera. As frentes estabelecem zonas particularmente favoráveis à formação de precipitação, sobretudo definindo extensas áreas de precipitação estratiforme, nas quais se encontra imersas pequenas áreas de formação de tempestades e chuvaradas.           

Pode ter origem no calor emitido durante a noite, em ar úmido que se move na horizontal e é arrefecido por baixo ou aparecer entre o ar quente e o ar frio numa frente. Os nevoeiros diferenciam-se das nuvens porque ocorrem junto à superfície. É umidade condensada perto do solo, em forma de depósito. Não são mantidos em suspensão pelas correntes ascendentes. Gotículas de água pequenas e que, por convenção reduzem a visibilidade horizontal, como vimos anteriormente a menos de mil metros. A questão inferente em termos de obscuridade na atmosfera pode dever-se às diminutas gotas de água ou às partículas de fumaça (ou ambas) em suspensão na atmosfera. São condições essenciais para sua formação: no dia anterior humidade elevada à tarde, com “céu limpo”; ventos fracos; forte arrefecimento noturno pela radiação terrestre (fraca nebulosidade). Ocorrem pela manhã e são dissipados pela insolação, sendo mais comuns nos vales e planícies. Os nevoeiros podem ser classificados em dois grupos para se atingir o ponto de orvalho: o primeiro (A) considera as condições do resfriamento do ar até atingir o ponto de orvalho como fator principal; o segundo (B) considera o aumento do vapor de água até que a temperatura do ponto iguale a temperatura atual como fator principal. A meteorologia é uma das ciências que estudam a atmosfera terrestre, que tem como escopo o estudo dos processos atmosféricos e a previsão do tempo.

Estuda os fenômenos que ocorrem na atmosfera e as interações entre seus estados dinâmicos, físico e químico, com a superfície terrestre subjacente. Os estudos no campo da meteorologia foram iniciados há mais de dois milênios, mas apenas a partir do século XVII a meteorologia progrediu significativamente. No século seguinte, o desenvolvimento da meteorologia ganhou um ímpeto ainda mais significativo com o desenvolvimento de redes de intercâmbio de dados em vários países. Com a maior eficiência na observação da atmosfera e uma mais rápida troca de dados meteorológicos, as primeiras previsões numéricas do tempo social tornaram-se possíveis com o desenvolvimento de modelos meteorológicos, no início do século XX. A invenção do computador e da Internet tornou mais rápido e mais eficaz o processamento e o intercâmbio de dados meteorológicos, proporcionando assim um maior entendimento dos complexos eventos e suas variáveis e, consequentemente, tornou possível uma maior precisão na previsão do tempo. O estudo da meteorologia representa a investigação dos fenômenos observáveis relacionados com a atmosfera. Os eventos atmosféricos que são observáveis somente em um amplo período de tempo, são o objetivamente de estudo da climatologia. Os fenômenos meteorológicos do ponto de vista conceitual, constituem as “formas variáveis que existem na atmosfera”, a saber, a temperatura, a pressão atmosférica e a umidade do ar, e suas relações e variações com o decorrer do tempo.

            A Terra é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos. É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os seres humanos, a Terra é o único corpo celeste onde é reconhecida a existência de vida. O planeta formou-se há 4,56 bilhões de anos, e a vida surgiu na sua superfície depois de um bilhão de anos. Desde então, a biosfera terrestre representa o conjunto de todos os ecossistemas da Terra, sendo o maior nível de organização ecológica. Ela inclui a biota e os compartimentos terrestres com os quais a biota interage (litosfera, hidrosfera, criosfera e atmosfera), assim como seus processos e inter-relações. O termo foi introduzido em 1875 pelo geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914) como o habitat dos seres vivos. Este conceito foi estendido para seu significado atual em 1926, pelo geoquímico russo Vladimir Vernadsky (1863-1945) que reconheceu a biosfera como um sistema integrado de processos bióticos e abióticos. A biosfera é um sistema fechado para troca de matéria com o universo circundante, constituindo assim uma unidade natural. Ipso facto, alterou de forma significativa a atmosfera e fatores abióticos do planeta, permitindo a proliferação de organismos aeróbicos, como a formação da camada de ozônio, que em conjunto com seu campo, bloqueia radiação solar prejudicial, permitindo o conceito vida. Cometas são corpos celestes em geral de gelo e poeira. Quando cometa se aproxima do Sol, o gelo derrete e forma cauda visível. 

          Recentemente, o mapeamento realizado pela sonda mostrou que a água está presente em toda superfície da lua, incrustada nas rochas, e também pode estar abaixo da camada de poeira, no manto. Essa água encontrada na Lua pode ter sido roubada da Terra, logo após o impacto catastrófico que formou a Lua, ou pode ter sido entregue posteriormente por impactos de asteroides e de cometas. Esses pequenos objetos podem ter entregue a água ao sistema Terra-Lua logo nos primeiros milhões de anos do nosso planeta. Imagens de radar de alta resolução da superfície de Mercúrio sugeriram a presença de gelo de água no polo Norte do planeta. Entretanto em Vênus, uma quantidade muito pequena de vapor de água (de algumas partes por milhão) foi encontrada na atmosfera. Existe gelo de água nas calotas polares de Marte e em algumas de suas crateras. Além disso, a água em Marte está presente em pequena quantidade de vapor na atmosfera. Evidências geológicas e mineralógicas sugerem que água líquida já existiu em Marte em abundância. Além disso, foi descoberto um lago subglacial em Marte, a 1,5 km abaixo da calota polar do Sul. É estimado que o lago possua cerca de 20 km de diâmetro. Dado esta descoberta, os cientistas afirmam que não há razão para concluir que a presença de água subterrânea em Marte esteja limitada a este único local.

A descoberta do lago subterrâneo também reforça a especulação sobre a existência de microrganismos presentes no planeta vermelho. Planetas gigantes, Saturno e Júpiter, podem ter água em forma sólida e líquida em suas camadas mais baixas de nuvens, mas sua abundância ainda não foi aferida. Acredita-se que acima dos núcleos rochosos de Urano e Netuno exista uma grande camada de gelos, incluindo o gelo de água. As atmosferas destes gigantes de gelo também contêm H₂O. Foi observado que os anéis de Saturno contêm principalmente gelo de água com uma pequena mistura de orgânicos e outros contaminantes, enquanto os anéis de Júpiter, Urano e Netuno contêm no máximo uma pequena fração de gelo de água. Plutão também contém uma fração significativa de água em sua superfície, assim como muitas das luas dos planetas exteriores, com Tethys (Lua de Saturno) possivelmente consistindo quase inteiramente de gelo de água. Acredita-se que algumas Luas, como Europa e Ganimedes de Júpiter, e Enceladus de Saturno, contenham vastos oceanos de água líquida sob a camada superficial de gelo. A sua superfície é dividida em segmentos rígidos, chamados placas tectônicas, que migram sobre a superfície terrestre ao longo de milhões de anos desde a sua formação. Aproximadamente 71% da superfície é coberta por oceanos de água salgada, com o restante consistindo de continentes e ilhas, contendo lagos e corpos de água que contribuem para a hidrosfera. Os polos geográficos da Terra encontram-se majoritariamente cobertos por mantos de gelo ou por banquisas. A palavra é usada metaforicamente. O interior da Terra permanece ativo e sólido, um núcleo externo líquido, um campo magnético, e um núcleo interno sólido, composto por ferro. 

A Terra interage com outros objetos em movimento no espaço, em particular com o Sol e a Lua. A Terra orbita o Sol uma vez por cada 366,26 rotações sobre o seu próprio eixo, o que equivale a 365,26 dias solares ou representa um (01) ano sideral. O eixo de rotação da Terra possui uma inclinação de 23,4° em relação à perpendicular ao seu plano orbital, reproduzindo variações sazonais na superfície do planeta, com período igual a um ano tropical, ou, 365,24 dias solares. A Lua é o único satélite natural reconhecido da Terra. O atual modelo consensual para a formação da Lua é representado pela hipótese do grande impacto. É uma hipótese astronômica que postula a formação da Lua através do impacto de um planeta com aproximadamente o tamanho da massa de Marte, reconhecido como Theia, com a Terra. Ela é responsável pela formação das marés, estabiliza a inclinação axial da Terra e abranda gradualmente a rotação do planeta. A Lua pode ter afetado dramaticamente o desenvolvimento da vida ao moderar o clima do planeta. Evidências paleontológicas e simulações de computador demonstram que a inclinação axial do planeta é estabilizada pelas interações cíclicas de maré com a Lua.

A maior parte dos eventos meteorológicos ocorre na troposfera, a camada mais baixa da atmosfera terrestre, e podem afetar o planeta Terra como um todo ou apenas uma pequena região e, para isso, a meteorologia é subdividida, para melhor estudar os eventos meteorológicos à escala global, ou eventos estritamente locais.  A meteorologia faz parte de um conjunto de ciências atmosféricas. Fazem parte deste conjunto a climatologia, a física atmosférica, que visa as aplicações da física na atmosfera, e a química atmosférica, que estuda os efeitos das reações químicas decorrentes na atmosfera. A própria meteorologia pode se tornar uma ciência interdisciplinar terrena quando se funde, por exemplo, com a hidrologia, tornando-se a hidrometeorologia, que estuda o comportamento das chuvas numa determinada região, ou pode se fundir com a oceanografia, tornando-se a meteorologia marítima, que visa o estudo da relação dos oceanos com a atmosfera. As aplicações da meteorologia são bastante amplas. O planejamento da agricultura é dependente da meteorologia. A política energética de um país dependente de sua bacia hidrográfica, portanto, também pode depender das previsões do tempo. Estratégias militares e a construção civil também dependem da meteorologia. Assim, a previsão do tempo influencia o cotidiano de toda a sociedade.

O Nevoeiro (The Mist, 2007) é um filme Norte-americano de terror e ficção científica, baseado no conto homônimo de Stephen King. Foi filmado na Louisiana, um estado do sudeste dos Estados Unidos da América (EUA), no Golfo do México. Sua história como um caldeirão de culturas francesa, africana, americana e franco-canadense se reflete nas culturas crioula e cajun. A maior cidade, Nova Orleans, é reconhecida pelo Bairro Francês, da era colonial, pelo animado festival Mardi Gras, pela música jazz, pela Catedral de St. Louis, de estilo renascentista, e pelas exposições do tempo da guerra no gigantesco National WWII Museum. Contudo, a ficcionalização do real, tem como base a história social que se passa no Maine, estado situado no extremo nordeste dos EUA, é reconhecido por seu litoral rochoso, sua história marítima e suas áreas naturais, como as ilhas de granito e píceas do Acadia National Park (Parque Nacional de Acadia), na costa do Atlântico, é também reconhecido pelas praias rochosas. Há muitos alces no Parque Estadual Baxter, que abriga o monte Katahdin, ponto final da famosa trilha: Appalachian Trail, um trilho do tipo longo percurso, localizado ao longo dos Montes Apalaches, Estados Unidos da América. A costa é repleta de faróis, como o farol listrado localizado em West Quoddy Head, além de barracas que vendem lagostas e praias como Ogunquit e Old Orchard. 

A literatura de “terror” tem como representação um gênero literário e é algo comum que as obras ligadas ao “horror” sejam confundidas com as de terror, pois tanto nas livrarias e bibliotecas como na imaginação social de parte dos leitores e dos críticos, ficam na mesma seção de identificação da obra. A verdade é que as duas possuem uma enorme diferença sociológica. O gênero de terror ou horror na literatura tem a intenção cultural de “atemorizar” ou “assustar” os seus leitores, através da inclusão de sentimentos de imaginários de horror e terror. Em suas diversas manifestações de vida, é natural a existência de assustadora forma de estranhamento. O terror pode ser tanto sobrenatural, como não sobrenatural. Comumente sua ameaça central por trás de uma obra de ficção de terror pode ser interpretada como “uma metáfora para os grandes medos da sociedade”. As antigas origens do gênero foram reformuladas no século XVIII como “terror gótico”, com a publicação de “O Castelo de Otranto” (1764) de Horace Walpole (1717-1797), um aristocrata e romancista inglês que inaugurou na cena pública um novo gênero literário, o romance gótico, que ocupa com a publicação desta obra um lugar de fascínio. Neste caso marcou a primeira vez na literatura em que um romance moderno incorporou elementos do sobrenatural ao invés de utilizar do realismo.

Na realidade, é a primeira versão que foi publicada disfarçadamente como um romance medieval italiano que fora supostamente descoberto e, posteriormente, republicado por um fictício tradutor. Uma vez revelado seu estratagema, como sendo autor contemporâneo, muitos o consideraram anacrônico, reacionário ou simplesmente como portador de mau gosto, mas o mesmo, contraditoriamente, provou-se, inversamente popular imediatamente. De fato, a literatura de terror, encontrada, por exemplo, em muitos dos contos de Edgar Allan Poe (1809-1849), volta-se para a criação de um clima de comunicação extraordinariamente cult, como suspense cuja explicação sociológica nada possui de sobrenatural, tendo sido registrado pela primeira vez entre 1520-1530, que em geral designa o contrário do que é considerado natural; Hugo Grócio, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau são considerados precursores e expoentes do jusnaturalismo, isto é, o que não admite, ou é suposto não admitir se quisermos insistir na direção de uma provável explicação científica. Nesta medida, do ponto de vista da análise comparada, designa aquilo que, em princípio, é ou ocorre fora da ordem natural, à parte das leis naturais que regem os fenômenos ordinários, ou que é superior à natureza, sendo essencialmente psicológica no sentido hitchcockiano (1899-1980). É, por exemplo, o caso de “O barril de Amontillado”, do referido autor. Nada existe ali de sobrenatural: é apenas o relato da vingança de Montresor, que empareda vivo ao desafortunado Fortunato. O livro “Cujo”, do consagrado escritor Stephen King, traduzido no Brasil como “Cão Raivoso”, representa a história, metaforicamente falando evidenciada pelo título, de uma família, aterrorizada por um cão da raça São Bernardo chamado Cujo, quando ele é mordido por um morcego portador de hidrofobia. 

A meio da operação, acidentalmente, os pesquisadores e militares envolvidos descobrem um portal interdimensional nas montanhas perto da casa de David, para um mundo dominado pela neblina e criaturas em questão, isto é, talvez numa época milhões de anos à frente, tal como os dinossauros dominaram a Terra no passado, nessa dimensão, seriam as criaturas aqui mencionadas. Acidentalmente, o portal abriu-se mais que o pretendido, fazendo com que os seres e nevoeiro presentes transitassem para a nossa dimensão. Após esta confissão, os reféns atiram o restante membro do exército para o exterior do supermercado, fazendo com que a última criatura restante, a mais gigante de todas, o matasse num instante. Em seguida David consegue chegar ao carro e, consegue com dificuldade conduzir para casa pelo meio do nevoeiro. No carro, leva os restantes sobreviventes. A meio do caminho, a criatura maior atravessa-se à frente do carro, não o esmagando por pouco. David consegue encontrar a sua casa esmagada por essa mesma criatura e, a sua esposa morta. O combustível do carro acaba, e vendo-se sem saída, no desespero, o pintor mata os restantes sobreviventes com a sua arma [incluindo seu filho Bill] e, tenta suicidar-se. Porém, já não tem balas. Do ponto de vista do esquema abstrato da sociologia, nosso conhecimento do objeto percebido se constitui em função das relações, sociais ou não, que nos é possível recorrer completamente a todas as relações que podemos manter com o objeto analisado. Possibilita-nos, a cada nova observação, a descoberta de novas características sensíveis a ela concernentes. 

O ato genuinamente social da imaginação é particularmente regulado por certas “reações afetivas” representando a maneira segundo a qual percebemos o objeto em questão. A imaginação comum a cada um de nós se funda no âmago de nossa própria emotividade. O objeto percebido ou imaginado está fora de nós. Mas ideia do objeto é integrada à nossa consciência, não o objeto, pois a consciência como primeira manifestação da liberdade nos permite fazer uso da imaginação esteja ele ausente ou mesmo inexistente. Existem tipos de objetos que podem ser atribuídos à consciência imaginante: os ditos intemporais e os objetos temporais. O primeiro caso concerne, particularmente, aos objetos da fantasia que não existem no mundo real. Os objetos irreais não estão submetidos a nenhuma determinação temporal, estes são os objetos com os quais não podemos vivenciar uma experiência da realidade.  No segundo caso, temos os objetos temporais, os quais correspondem aos que existem na realidade e que envolvem a temporalidade relacional ao homem: o passado, o presente e o futuro.  Mas é necessário haver uma intenção, para que se efetue a representação da imagem. A intenção reconstitui ou combina os conhecimentos sociais necessários para a reconstituição da imagem que nós desejamos que apareça plena em nossa consciência. Isso nos permite reunir os diferentes elementos do objeto. Eles são postos em relação uns com os outros. A imagem mental é animada decerto, e sua função representa o resultado da intenção que apareça, na consciência uma imagem específica.

A imagem está associada a conhecimentos pretéritos adquiridos e concernentes ao objeto que ela de fato representa. Ela não apreende nada além daquilo que nós podemos extrair da realidade durante o trabalho de percepção. A imagem não se relaciona com o mundo em si, ela só depende do processo de como podemos descobrir algo sobre ela. Se existe uma possibilidade de observar através da imaginação, mesmo assim essa possibilidade ainda não nos permite apreender nada de novo em relação ao próprio objeto. A imagem, ato da consciência imaginante, é um elemento, identificado como o primeiro e incomunicável, mas contém uma orientação e pode mudar de forma, como produto de uma atividade humana consciente atravessada de um extremo ao outro por uma “vontade intelectualmente criadora”. Trata-se, de dar-lhe à sua própria consciência um conteúdo de sentido imaginante que recria para si os objetos afetivos espontaneamente ao seu redor: ela é na realidade criativa.  Daí a importância para o analista social de se compreender no campo reprodutivo cinematográfico da imagem, o impacto de sua produção, recepção, influência, de sua relação social com o sonho, o devaneio, a criação e a realidade da ficção, melhor dizendo, na prática, a substituição das mediações complexas pelos métodos e processos de trabalho dos meios de comunicação, posto que contenha em si uma possibilidade de violência, a partir da constituição do regime de ficção que afeta, contamina e penetra a imaginação na vida.

Ipso facto temos a sensação factível de sermos colonizados, mas sem saber precisamente por quem. Não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela. Marc Augé reitera que as “etnociências” se atribuem sempre dois objetivos, proposto por ele ao final em seu opúsculo “La Guerre des Rêves” (1997). Usado como prefixo, “etno” relativiza o termo que o segue e o faz depender da “etnia” ou da “cultura” que supõe ter práticas análogas às que chamamos “ciências”: medicina, botânica, zoologia etc. Desse ponto de vista, a etnociência tenta reconstituir o que serve de ciência aos outros, suas práticas sanitárias e do corpo, seus conhecimentos botânicos, mas também suas modalidades de classificação, de relacionamento etc. A partir do momento em que se generaliza a etnociência muda de ponto de vista. Ela tenta emitir uma apreciação sobre os modelos indígenas, e compará-los a outros e, além disso, propor uma análise dos procedimentos cognitivos em ação num certo número de experiências. Ela leva então às vezes o nome de antropologia: fala-se assim em antropologia médica ou cognitiva. Em verdade, quando Augé recoloca a questão: “que é nosso imaginário, hoje?”, ele se indaga se não estamos assistindo a uma generalização do fenômeno de fascínio da consciência que nos pareceu característico da situação colonial e de seus diferentes avatares? 

Trata-se, na prática, de “exercícios de Etnoficção”, em analisar o estatuto da ficção ou as condições etnológicas de seu surgimento numa sociedade, e ipso facto num momento histórico particular, em analisar os diferentes gêneros que se irradiam sob formas ficcionais, sua relação com o imaginário individual e coletivo, as representações da morte etc., em diferentes sociedades ou conjunturas. Temos o que fica reservado como lugar de representação do conhecimento, posto que bem entendido o nível ao qual se aplica a Antropologia, ela tem por objeto “interpretar a interpretação que os outros fazem da categoria do outro”, nos diferentes níveis que situam o lugar dele e impõem sua necessidade. Queremos inferir com isso, que tendo como representação etnia, tribo, aldeia, linhagem ou outro modo de agrupamento até o átomo de parentesco, do qual se sabe que submete a identidade da filiação à necessidade da aliança, o individualismo, enfim; que todos os sistemas rituais definem como compósito e pleno de alteridade, figura literalmente impensável, como o são, em modalidades opostas, a do rei e a do feiticeiro. O fato social é que deste ângulo de análise há um princípio abrangente e primordial, porque norteador, pois “toda antropologia é antropologia da antropologia dos outros, além disso, que neste âmbito, o lugar antropológico, é per se princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem o observa”.

Essa inteligibilidade, ao que nos parece, fornece e propõe no âmbito de apropriação dos saberes que as condições de uma antropologia da contemporaneidade devem ser deslocadas do método para o objeto. E além disso, que se deve estar atento às mudanças que afetaram as grandes categorias por meio das quais os homens pensam sua identidade e suas relações recíprocas em termos espaciais. Assim, se um lugar de análise pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico poderá definir, nesta direção, um lugar na etnologia da solidão de Marc Augé, o que ele denominou analiticamente de “não-lugar”. A hipótese abstrata representada na teoria, e, portanto, no pensamento humano, é o que o autor chama de surmodernité conquanto produtora de não-lugares, de espaços sociais que não são em si lugares (tradicionais) antropológicos. Isto é importante. Estas características comuns podem ser aplicadas a dispositivos institucionais diferentes e que constituem, de certo modo, as formas elementares de compreensão do espaço social. Trata-se de aspectos gerais e que se identificam enquanto itinerários ou eixos ou caminhos que, em etnologia conduzem de um lugar a outro.

Mas também em cruzamentos e praças, que satisfazem por assim dizer esferas de ação social, que nos mercados definem necessidades do intercâmbio econômico e, nesta progressão, centros mais ou menos monumentais. Sejam eles religiosos ou políticos construídos por certos homens e mulheres e que definem como outros, em relação a outros centros e outros espaços.  Ipso facto é que temos toda a sensação de sermos colonizados, mas sem saber precisamente por quem: pelo governo, a política externa, futebol, arte, música, drogas, ecologia, raça, etnia, poder, consumo, trabalho, Internet, nacionalidade, cultura, sexualidade, honra, prestígio, etc. O inimigo não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela. É o que fazemos com o atributo “etnociências”. O etnólogo Marc Augé (1935-2023) afirma que as “etnociências” se atribuem sempre dois objetivos, proposto por ele ao final em “La Guerre des Rêves” (1997). Usado como prefixo, “etno” relativiza o termo que o segue e o faz depender da “etnia” que supõe ter práticas análogas às que chamamos “ciências”: medicina, botânica, zoologia etc. Desse ponto de vista, a etnociência tenta reconstituir o que serve de ciência aos outros, suas práticas sanitárias e do corpo, seus conhecimentos botânicos, mas também suas modalidades de classificação, de relacionamento etc. A partir do momento em que se generaliza, a etnociência muda de ponto de vista, com a apreciação sobre os modelos locais, indígenas, e compará-los a outros e, além disso, propor uma análise dos procedimentos cognitivos em ação num certo número de experiências.

Ela leva então às vezes o nome de antropologia: fala-se assim em antropologia médica ou cognitiva. Em verdade, quando Augé recoloca a questão: “que é nosso imaginário, hoje?”, ele se indaga se nestes dias de avanço da modernidade, não estamos assistindo a uma generalização do fenômeno de fascínio da consciência que nos pareceu característico da situação colonial e de seus diferentes avatares? Isto é, trata-se de “exercícios de etnoficção”, enquanto tentativa de analisarmos o estatuto da ficção ou as condições de seu surgimento numa sociedade ou num momento histórico particular. É a tentativa de analisarmos os diferentes gêneros ficcionais, sua relação com as formas do imaginário individual e coletivo, as representações da morte etc., em diferentes sociedades. Em “Non-lieux” (1992), fica reservado o lugar de representação do conhecimento, que bem entendido o nível ao qual se aplica a pesquisa antropológica, ela tem por objeto “interpretar a interpretação que os outros fazem da categoria do outro”, nos diferentes níveis que situam o lugar dele e impõem sua necessidade: a etnia, a tribo, a aldeia, a linhagem ou qualquer outro modo de agrupamento social até o átomo elementar condicionante das relações de parentesco, do qual se sabe que submete a identidade da filiação à necessidade da aliança; o individualismo, enfim; que todos os sistemas rituais definem como compósito e, por assim dizer, pleno de alteridade, figura literalmente impensável, como o são, em modalidades opostas, a do rei e a do feiticeiro.  

O fato socialmente é que deste ângulo há um princípio abrangente e primordial, porque norteador: “porque toda antropologia é antropologia da antropologia dos outros, além disso, que o lugar, o lugar antropológico, é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem o observa”. Essa inteligibilidade, ao que nos parece, propõe que as condições de uma antropologia da contemporaneidade devem ser deslocadas do método para o objeto. Posto que se deve estar atento às mudanças globalmente que afetaram as grandes categorias por meio das quais os homens pensam sua identidade e suas relações recíprocas em termos espaciais. Assim, se um lugar (de análise) pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá na ciência um “não-lugar”. A hipótese levantada na teoria, e, portanto, no pensamento, é o que o autor chama de “surmodernité” conquanto produtora de não-lugares, isto é, de espaços que não são em si lugares (tradicionais) antropológicos. Estas características podem ser aplicadas a dispositivos institucionais diferentes e que constituem, de certo modo, as formas elementares do espaço social.

Bibliografia Geral Consultada.

PANOFSKY Ervwin, Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976; SIMMEL, Georg, La Tragédie de la Culture. Paris: Petite Bibliothèque Rivages, 1988; LE GOFF, Jacques, Lo Maravilloso y Lo Cotidiano en el Ocidente Medieval. Barcelona: Ediciones Gedisa, 1985; Idem, El Ordem de la Memoria. El Tiempo como Imaginario. Barcelona: Ediciones Paidós, 1991; SILVER, Jonathan Derick, Hollywood`s Dominance of The Movie Industry: How did it rise and how has it been maintained? Tese de Doutorado. Department of Advertising, Marketing and Public Relations. Australia: Queensland University of Technology, 2007; KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Emoções, Sociedade e Cultura: A Categoria de Análise Emoções como Objeto de Investigação na Sociologia. Curitiba: Editora CRV, 2009; AUGÉ, Marc, Non-Lieux. Introduction à une Anthropologie de la Surmodernité. Paris: Éditions du Seuil, 1992; Idem, La Guerre des Rêves. Exercices d’Ethno-Fiction. Paris: Éditions du Seuil, 1997; Idem, El Antropólogo y el Mundo Global. México: Siglo Veintiuno Editores, 2014; Idem, O Duplo da Vida: Etnologia, Viagem, Escrita. Maceió: Editora da Universidade Federal de Alagoas, 2014; HALL, Stuart, A Identidade Cultural na Pós-modernidade. 12ª edição. Rio de Janeiro: Editor Lamparina, 2015; TEIXEIRA, Anelise Lusser, Morte e Morrimentos: Cartografando os (A[mor)te] cimentos do Viver. Tese de Doutorado. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Departamento de Psicologia. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2016; GIANDOSO, Daniel Marques, A Polêmica Judaico-cristã nas Atas dos Mártires. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; ORLANDI, Aline Cristina Sola, Entre Lobos e Lobisomens: Feminismo, Pornografia e Gótico nos Contos de Ângela Carter. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2016; FERREIRA, Lorena Rodrigues, Viagem à Lua. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Astronomia. Departamento de Física. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2017; CARREIRA, Rosangela Aparecida Ribeiro; NASCIMENTO, Jarbas Vargas, “Autoridade e Autoralidade: O Movimento Paratópico de um Pseudônimo”. In: Caderno de Letras. Pelotas (RS), n° 36, jan.-abr. (2020); Artigo: “Neblina que baixa, Sol que racha? Simepar explica como se formam os nevoeiros”. In: https://www.aen.pr.gov.br/Noticia/25/03/2025entre outros. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Umberto Eco - Classificação, Heterodireção & Comunicação Visual.

 O homem prudente não diz tudo quanto pensa, mas pensa tudo quanto diz”. Aristóteles     

          O pensamento grego dividiu o tempo da memória de seu passado, sobre o tempo da chamada Era heroica, durante o qual a tradição oral grega foi criada e mantida tendo como resultado a criação de um passado mítico baseado em elementos que diferiam em caráter e precisão, cuja origem remontava a períodos de tempos esparsos. Essa tradição transmitia e simultaneamente criava o passado (cf. Jaeger, 2011). O principal objeto ocorreu com a formação e manutenção da identidade grega realizada pela criação da consciência e do orgulho pan-helênicos em que emerge um governo aristocrático e especialmente o direito da aristocracia de governar enfatizando às suas notáveis qualificações e virtudes. Trata-se de um processo de criação mítica que não termina no século VIII a. C., final do chamado período Homérico e quando se tem historicamente a formação da polis.  Ele continua presente na mitificação de indivíduos combinando elementos antigos com novas formas, adaptando-se às mudanças religiosas e políticas. A Era pós-heróica é demarcada pelo interesse na preservação do passado remoto e mítico, todavia totalmente vivo na consciência grega e expressou-se pela conservação e repetição do mapa mítico. O passado heroico era alvo de uma atenção passiva que assegurava a sua manutenção na lembrança social, na versão aceita e perpetua-se nas gerações futuras por meio da preservação desse conhecimento e da sua permanente utilização. Primeiro, o registro desse passado não dispunha de documentos nem arquivos de onde retirá-los, por essa razão foi preservado por meio da oralidade. No segundo momento, da oralidade à prática cultural, incluindo-se o registro etnográfico, tem-se a elaboração do universo ritual que fiel às origens da tradição, consolida a relação fala-ação que consagra o princípio de que o mito é o principal veículo de comunicação da memória na sociedade grega.

A condição significativa da mensagem criou a necessidade de comunicar-se. E assim funcionou como motor de todo tipo de codificações expressivas, sendo a linguagem e a escrita instrumentos de comunicação oral e escrita sujeitos as limitações de espaço e lugar e transmissão através da distância entre o emissor e o receptor. Etnograficamente pode-se dividir em quatro fases a história da codificação de signos e fonemas aos serviços da relação inter-humana: mnemônica, pictórica, ideográfica e fonética. A primeira periodização se caracterizou pelo emprego de objetos reais como dados ou mensagens entre pessoas que viviam aparentemente alheios e não pertenciam ao mesmo sistema convencional de comunicação. Os antigos chineses, escreve Albert A. Sutton (1867-1923), e inclusivamente outras tribos ditas “primitivas” mais recentes, utilizaram com muita frequência o quipo, cada um dos cordões nodosos uados pelos peruanos, no tempo da monarquia dos Incas, que formavam um método de análise mnemônico, fundado nas cores e ordem dos cordões, número e disposição dos nós, etc., para presentificar dias felizes, para servir como instrumentos de cálculo, ou guardas de recordações da memória dos mortos das tribos. Na segunda, se transmite mediante a pintura, a representação dos objetos. Estas gravuras aparecem não só na pintura rupestre, e sobre objetos variados, tais como utensílios, armas ou artigos de valor empregados para o intercâmbio comercial.  Na terceira, resulta de uma associação de símbolos pictográficos como objetos e ideias.

Nesta fase, os signos se empregam cada vez mais na representação de ideias, numa progressiva separação da estrutura do objeto a comunicar e uma modelação cada vez mais simbólica que aproximará no signo alfabético, na escritura. A expressão ideográfica serviu para as formas primitivas de “relatos”, tal como podemos valorar na escritura ideográfica das culturas pré-colombianas ou mesopotâmicas, ainda que o máximo tipo cultural deste sistema de comunicação representou a escrita hieroglífica dos egípcios. A última se estabelece quando o signo representa um som, fora das palavras inteiras, de sílabas ou do que chamamos letras, como unidade fonética. A invenção cultural do alfabeto representou o ponto máximo da codificação da comunicação social, propiciada precisamente por aqueles povos de maior desenvolvimento social e de maior inter-relação comercial com outros povos. O alfabeto era uma chave de intercomunicação e ao mesmo tempo um aríete de penetração cultural em mãos dos povos da Antiguidade criadores das primeiras rotas de comércio marítimo e terrestres. A relação binômica entre comércio e comunicação social é delimitada por Gordon Childe (2007) nas civilizações orientais. Os artesãos livres podiam viajar com as caravanas buscando um mercado para seu ofício enquanto que os escravos formavam parte da mercadoria. Os forasteiros em um país estranho pediam os conselhos da religião. Uma cena esculpida em um jarro por um artista sumério descreve um culto índio que se celebrava em templo de Arrad. A descoberta de um templo monumental datado do final do século X e início do século IX a. C. surpreendeu arqueólogos em Israel. A existência do complexo religioso, situado onde ficava a antiga cidade de Moza, uma cidade bíblica israelita, localizada no território de Benjamin, ao noroeste de Jerusalém, contradiz textos bíblicos que abordam aquele período da história da religião. Se os cultos se transmitiam, as artes e ofícios úteis podiam difundir-se com extraordinária facilidade.   

Fosse qual fosse o sistema de signos empregados para a comunicação social necessitavam de um suporte material onde inscrever-se e a possibilidade de criar um âmbito de emissão & recepção. Desenvolveram-se sistemas paralelos de comunicação mediante escritura em todas as civilizações que haviam alcançado um parecido sistema de organização social e desenvolvimento cultural. Estes sistemas ajudam já a um forcejo tecnológico para melhorar os suportes essenciais dos materiais da escritura. Os egípcios empregaram o papiro a partir de uma matéria-prima de que dispunham abundantemente nas margens do fabuloso Nilo: a medula de velhos, que podia prensar-se, laminar-se e conservar os seus gravados durante muito tempo. Para começar, intercomunicar-se Alfabetos, tecnologia de escritura e os materiais para fazê-la possível. Os gregos aceitaram o alfabeto Fenício e na impossibilidade de dispor de pairos empregaram tabuletas de madeira coberta de cera. Os romanos adotaram novos suportes de escritura como o pergaminho ou a vitela. O (des)cobrimento do papel tardaria a chegar à Europa, mesmo com evidências que a China dispunha dele no ano 105. Ts`ai Lun comunicou ao imperador “um novo material sobre o qual era uma delícia escrever”. O sistema social condiciona o sistema de comunicação. A comunicação sempre vem unida à existência da mudança de mercadoria e à busca de matérias-primas que já mobilizou aos antigos.

As rotas comerciais (cf. Braga, 1995) e de expansão imperial depredatória da antiguidade foram autênticos canais informativos, lentos e precários, que abasteceram aos homens de um conhecimento aproximado dos limites do mundo reconhecido e das tentações dos outros considerados desde cada um especial forma de etnocêntrica. Os sistemas de correio e a comunicação ligada a sociedades em processos de mudança social formam os primeiros instrumentos de comunicação internacional. Os editos e decretos, os primeiros instrumentos de comunicação intracomunitária. Uns e outros instrumentos nasceram com a associação humana e só foram qualitativamente modificados quando apareceu a imprensa. Todo processo de trabalho é um processo de comunicação, embora nem toda comunicação represente trabalho social. A impressão de regressão que suscita o trânsito do Império Romano e a fragmentação política seguinte se vê alimentada, sobretudo pelo evidente obstáculo cultural. Contudo, ainda que no marco político e econômico da evolução histórica, sua queda é consequência do enfraquecimento entre a organização do Estado e as necessidades objetivas (materiais) dos homens e das comunidades societárias submetidas à superestrutura jurídico-política imperial. A comunicação continental com o Oriente e a dinâmica tecnológica da produção e o comércio empurraram a Europa da Baixa Idade Média a uma série de descobrimentos técnicos que afetaram o sistema de comunicação social global. 

O passo a passo histórico da Idade Média ao Renascimento é uma mera convenção didática, last but not least, sobre a extraordinária produção historiográfica sobre este período histórico-sociológico. Ipso facto, a imprensa nasceu quando um tipo móvel suscetível de se alinhar para compor palavras, linhas, depois de tingida a composição, se reproduzia sobre o papel mediante pressão. Em todo o século XV ocorreu uma série de acasos tecnológicos no tipo móvel de Gutemberg. Mas, previamente a aparição da Bíblia impressa por Gutenberg, em 1546, em Manguncia, já se conheciam amostras de impressão baseada na utilização de tipos móveis. Contudo, a imprensa incidiu inicialmente mais no terreno da literatura que da informação propriamente. Quando apareceu a imprensa, a informação escrita tinha certamente relevância história. Toda tecnologia tende a criar um novo mundo. A escritura e o papiro criaram o ambiente para os impérios do mundo antigo. O estudo da Reforma, Contra-Reforma e lutas políticas religiosas, apresentaram grande interesse no processo de comunicação: o rastro de uma e outra intransigência é sangrento. Os católicos mataram Giordano Bruno, e os protestantes via Calvino, mataram Miguel Servet. A importância ideológica do Areópago de Milton deve ser medida por sua equidistância com os protestos gregos contra a repressão intelectual e os primeiros teóricos da relação entre o poder e a liberdade de expressão: o Areópago, representa um tribunal de justiça ou conselho, célebre pela honestidade e retidão no juízo, que funcionava a céu aberto no outeiro de Marte, antiga Atenas, desempenhando papel social em política e assuntos religiosos.

O Areópago é uma ilhota teórica em um imenso oceano que tem, de um lado, os sofistas gregos, e de outro, Jefferson e Stuart Mill, do liberalismo burguês. Napoleão compreendeu que devia manietar os meios de comunicação social se quisesse criar uma imagem imaculada do poder pessoal. Visível cabeça dessa nova classe dirigente levou esse medo ao nível característico do terror do ditador à sua própria imagem. O capitalismo em expansão necessitava desenvolvimento tecnológico e científico. Necessitava de mão-de-obra mais culta e especializada para a complexidade do processo industrial. Necessitava, além disso, saltar barreiras de níveis políticos do protecionismo econômico e comercial para sua expansão imperialista. A Poética de Aristóteles foi traduzida para o árabe no mundo islâmico medieval, onde foi elaborada por escritores árabes e filósofos islâmicos, como Abu Bishr e seus alunos Alfarábi, Avicena e Averróis. Eles dissociaram a comédia da representação dramática grega e, em vez disso, identificaram-na com temas e formas poéticas árabes, como hija (poesia satírica). Eles compreendiam a comédia simplesmente como a “arte da repreensão” e não faziam referência socialmente a eventos leves e alegres, ou aos começos perturbadores e finais felizes associados à comédia grega clássica. Após as traduções latinas do século XII, o termo comédia ganhou um significado mais geral na literatura medieval. Grosseteste obteve sua formação plenamente na Universidade de Oxford e tornou-se presidente dessa instituição em 1215, permanecendo no posto acadêmico até cerca do ano de 1221, quando deixou o cargo por motivo de saúde. Depois disso passou por uma série de posições eclesiásticas. Quer dizer, as posições representam cargos e funções exercidos por membros do clero. A hierarquia eclesiástica é baseada na liturgia do sacramento da ordem, que é recebido pelos ministros da Igreja.  

A palavra liturgia compreende uma celebração religiosa pré-definida, de acordo com as tradições de uma religião em particular; pode incluir ou referir-se ao ritual e elaborado ou uma atividade diária como as salats muçulmanas. Do ponto de vista sociológico as posições eclesiásticas na Igreja Católica invariavelmente são: Diácono, Presbítero, Bispo, Arcebispo, Primaz, Patriarca, Cardeal, Papa. As posições eclesiásticas na Igreja Evangélica são: Pastor, Presbítero, Ancião, Professor, Bispo, Apóstolo, Líder de louvor. As posições eclesiásticas na Assembleia de Deus Pastor, Evangelista, Presbítero. A hierarquia eclesiástica é fundamentada no sacramento da ordem, que é recebido pelos ministros da Igreja. O título eclesiástico é a classificação dos membros do clero, pelo cargo que exercem ou por reconhecimento. De 1229 a 1235, ensinou teologia para os franciscanos. Em 1235 tornou-se bispo de Lincoln e permaneceu nesse cargo até sua morte, sendo enterrado na Catedral de Lincoln. Em 1244 é nomeado um dos doze pelo Parlamento Europeu para fazer reformas e estipular regras para o Rei Henrique III que gastava exageradamente. Após a sua morte os bispos subsequentes, juntamente com a Universidade de Oxford, tentaram a sua canonização, principalmente o bispo Eduardo I. As traduções latinas de Aristóteles realizadas por Robert Grosseteste (1175-1253) e Willem van Moerbeke (1215-1286) foram as obras de referência para os filósofos e teólogos que introduziram o pensamento do filósofo grego no Ocidente. Os tradutores medievais adotavam o método de tradução literal, ou seja, “transpunham o texto grego para o latim, palavra a palavra, se possível na mesma ordem”. Alguns tradutores também escreviam prefácios ou prólogos nos quais ofereciam indicações relativas às modificações dos textos-fonte. No final do século XX, estudiosos usaram o termo “riso” em sua complexidade de compreensão do cômico, a fim de evitar o uso de gêneros ambíguos e problematicamente definidos, como o grotesco, a ironia e a sátira. 

            Roberto Grosseteste nascido no Condado de Suffolk (1168-1253) foi um político, filósofo escolástico, teólogo, cientista e bispo de Lincoln. Foi apelidado de Grosseteste pela sua extraordinária capacidade intelectual. Ele foi a figura central do importante movimento intelectual da primeira metade do século XIII na Inglaterra. Tinha grande interesse de conhecimento no mundo natural e escreveu textos sobre a questão do som, astronomia, geometria e, especialmente, óptica. Primeiro estudioso europeu a dominar as línguas grega e hebraica. Dava ênfase à matemática como teoria para estudar a natureza e defendia que experimentos deveriam ser usados para verificar as teorias a respeito da mesma. Sua influência historicamente foi bastante significativa numa época em que o novo conhecimento da ciência e da filosofia gregas estava tendo um efeito profundo na filosofia cristã. Também foi relevante o seu trabalho experimental, especialmente seus experimentos relacionados com espelhos e lentes. Seu mais renomado discípulo, Roger Bacon, herdou sua paixão pela experimentação. Ele foi um Padre e filósofo inglês que deu bastante ênfase ao empirismo e ao uso da matemática no estudo da natureza. Estudou nas universidades de Oxford e Paris. Contribuiu em áreas importantes como a Mecânica, a Filosofia, a Geografia e principalmente a Óptica. As pesquisas de ambos possibilitaram o início da confecção padronizada de óculos, lembrados no célebre romance de Gabriel García Marques, Cien Años de Soledad seriam importantes no desenvolvimento de instrumentos mais amplos como o telescópio e o microscópio.

            Roger Bacon viveu um período de expressiva atividade intelectual e proliferação de universidades através da Europa. Por volta de 1240 ingressou para a Ordem dos Franciscanos, onde, fortemente influenciado por Robert Grosseteste, dedicou-se a estudos nos quais introduziu a observação da natureza e a experimentação como fundamentos do conhecimento natural. Roger Bacon vai um passo além de seu tutor e descreve o método científico como um ciclo repetido de observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente. Ele registrava a forma em que conduzia seus experimentos em detalhes precisos a fim de que outros pudessem reproduzir seus experimentos e testar os resultados de hipóteses, posto que essa possibilidade de verificação independente é parte fundamental do método científico contemporâneo. Seus avanços nos estudos da Óptica possibilitaram a invenção dos óculos e seriam em breve imprescindíveis para a invenção de instrumentos como o telescópio e o microscópio. Ele propagou o conceito de “leis da natureza”, fato importante num período do século XIII em que estavam ocorrendo constantes modificações no pensamento filosófico e na chamada filosofia da natureza. Seus manuscritos, na verdade, demonstram as virtudes e não os vícios da escolástica — a mistura do dogma religioso com a filosofia, que era a marca registrada progressivamente do pensamento da intelectualidade ocidental entre os cinco séculos IX e XV. Em 1277, proposições relacionadas à astrologia de Bacon foram condenadas por Étienne Tempier, bispo de Paris. Mas, Bacon promoveu uma defesa de seus pontos de vista publicando a obra Speculum Astronomiae. Também se destacou pelo seu trabalho de alquimia.

Seus experimentos deram origem ao conteúdo de sentido das lendas sobre suas façanhas, como, por exemplo, dele ter construído uma cabeça mecânica de bronze que era capaz de prever o futuro. Uma famosa citação dele era a que ele comparava o trabalho alquímico com uma horta: mesmo se colhesse o que não pretendia, ter-se-ia cultivado e melhorado a colheita. Descobrira a pólvora, era capaz de acender uma vela com uma lente e seus estudos contribuíram para o desenvolvimento de um telescópio primitivo, que mais tarde seria criado por Galileu. Na obra O Nome da Rosa, do escritor italiano Umberto Eco, é feita menção a Roger Bacon. Segundo o autor, ele seria fonte de inspiração para o franciscano Guilherme de Baskerville, personagem central daquela obra. Assim como Bacon, frei Guilherme é um monge excêntrico e com reconhecimento avançado para seu tempo. Umberto Eco frequentou a escola salesiana, um instituto religioso católico romano fundado no século XIX por Saint Don Bosco. Curiosamente o sobrenome Eco, vem do acrônimo latino “ex caelis oblaus” que fora recomendado ao seu avô, que era um órfão abandonado por um oficial da cidade e que tem como representação religiosa per se “um presente dos céus”. Entre o final da década de 1950 e 1960, passou a se interessar pela semiótica. Em 1961, escreveu o ensaio: “Fenomenologia di Mike Bongiorno” sobre o fenômeno popular do anfitrião de um Quiz Show chamado Mike Bongiorno e também “Apocalittici e Integrati” (1964), onde analise a comunicação de massa a partir de uma perspectiva sociológica. Precisa uma nova orientação nos estudos sociais de cultura de massa. Nesse período publicou o seu primeiro livro, oportunamente, como uma extensão do trabalho semiológico contido de sua tese de doutorado. Sua démarche filosófica obteve impulso com a influência positiva de Luigi Pareyson (1918-1991), na Itália. Ele se concentrou nos estudos sobre estética do período medieval, sobretudo aos trabalhos de são Tomás de Aquino, e defendia com ardor a dedicação deste membro da Igreja Católica referente às questões do belo.

Logo surge seu segundo livro: “Sviluppo dell´estetica medievale” (1959), em que se posicionou como um pensador da filosofia medieval. Nesse mesmo ano passou a ser um editor sênior na editora Bompiani (Milão), onde permaneceu até 1975. Eco criou na Universidade de Bolonha um programa incomum chamado “Antropologia do Ocidente” a partir da perspectiva dos africanos e estudiosos chineses, onde foi desenvolvida uma rede transcultural na África Ocidental, que resultou na primeira conferência em Guangzhou na China (1991), intitulada: “Fronteiras do Conhecimento”. Sob o olhar semiótico de Umberto Eco, descoberto no século do filósofo John Locke, aderiu assim à concepção anglo-saxônica desta per se antiga disciplina, deixando in statu nascendi a semiologia de Ferdinand Saussure. Ele busca também sua visão renovada da semiótica nos conceitos de Immanuel Kant e Charles Pierce, o que se pode verificar nas obras “As Formas do conteúdo” (1971) e “Tratado Geral de Semiótica” (1975). Umberto Eco critica o uso esotérico da interpretação, fazendo ver que um texto não pode ser aprisionado em seu conjunto por uma única verdade, pois demonstra que a vontade de uma interpretação única é, afinal, a vontade de manutenção de um segredo, que diz respeito à manutenção de poder. Essa crítica do ponto de vista analítico não desfaz a impressão de que a interpretação não pode ser meramente uma impressão subjetivada do texto.

Cabe a nós sermos “servos respeitosos” da semiótica. Se nós, leitores, podemos achar no texto um significado, cabe a nós ter claro que esse significado é uma referência nossa, que evidentemente nem sempre irá respeitar o texto original. Portanto, que existe a “intentio lectoris e a intentio operis”, isto é a intenção do leitor e a do texto. Enquanto a intenção do leitor pode ser reconhecida, a intenção do texto parece para sempre perdida, mas deve ser conjecturada pela interpretação desse leitor, pelo menos através de coerência: qualquer interpretação feita de parte de um texto poderá ser aceita se for confirmada por outra parte processual do mesmo texto, e deverá ser rejeitada se a contradisser. Mas é importante em distinguir, no modelo comunicacional, e, portanto, no universo retórico, o termo ideologia que se presta a numerosas codificações. Deixando de lado a noção de ideologia como “falsa consciência”, Umberto Eco, reitera o papel da ideologia como tomada de posição filosófica, política, estética, etc. em face da realidade. Nosso intuito, afirma, é conferir ao termo ideologia, e a par dele ao de retórica, uma acepção muito mais ampla vinculada ao universo do saber do destinatário e do grupo a que pertence, os seus sistemas de expectativas psicológicas, os seus princípios morais, isto é, quando o que pensa e quer é socializado, passível de ser compartilhado pelos seus semelhantes. Para consegui-lo, porém, é mister que o sistema de saber se torne sistema de signos: a ideologia é reconhecível quando, socializada, se torna código. Nasce, assim, uma estreita relação entre o mundo dos códigos e o mundo do saber preexistente da visão. Esse saber torna-se visível, controlável, comerciável, quando se faz código, convenção comunicativa. Consequentemente o aparato sígnico remete ao aparato ideológico e vice-versa e a Semiologia, como ciência da relação entre códigos e mensagens, transforma-se concomitantemente na atividade de identificação contínua das ideologias que se ocultam sob as retóricas. Enfim, do ponto de vista teórico e metodológico, a Semiologia mostra-nos no universo dos signos, sistematizado em códigos e léxicos, o universo das ideologias, que se refletem nos modos pré-constituídos da linguagem. Ipso facto, em sua gênese, ordinariamente no início do século XIX, designava um extraordinário estudo das ideias, como elas se formam e que fenômenos incidem para isso, empreendido pelo pensador Antoine Destutt de Tracy (1754-1836).

Neste sentido, recorda o semiólogo Umberto Eco o perfil do fã do Super-Homem, o comportamento social e a influência exercida pelo desenho no leitor são demonstrados quando subjuga a recepção da mensagem à condição de fantoche dominado pela propaganda massiva ilustrada na imagem do super-herói que tem como parti pris sua função social. Mais do que isso: pela imagem de “invencibilidade personificada no papel em Clark Kent”, que se assemelha ao homem pelo desejo hierarquizado de ascensão, impotente para vencer suas frustrações, mas que tem embaixo das humildes vestes, a representação simbólica do “brasão em forma de S e a capa vermelha do homem que voa, dobra aço, consegue parar um trem com o corpo, corre na velocidade da luz”. Poderes enfim, que se configuram nas aspirações de ascensão social do cidadão, de vitórias, aplacadas, e saciadas junto às batalhas vencidas pelo ídolo, episódio após episódio. Sem maiores dificuldades, ipso facto nem muita paciência, nem planos em longo prazo, ou problemas que não se resolvam no mesmo dia. Baseado no que lhe impelem as aspirações de status social, de nível abstrato, desejando ser algo formado e reproduzido pela mídia, inconscientemente integrado a sua mentalidade subjetivamente, o sujeito se esquece, e por lapso perde a identidade. Isso se especifica bem usando como escopo o herói como modelo de heterodireção: sua figura se insere na mente de seus seguidores da mesma maneira que as apelações publicitárias. A subjetividade, nesse caso, se configura enquanto o “super” é homem, ou seja, super-homem: é “super”, mas é homem. Ele se identifica com os trabalhadores urbanos quando se humaniza, porque é como eles, se parece com eles, com defeitos e impotências, seus desejos, também, de poder e ufania.

Seus poderes e seu cotidiano sugerem um modo de vida, um tempo presente de vitórias predeterminadas, sem problemas, sem preocupações, sem planos, sem projetos, sem futuro e sem passado. E a população deseja isso: deixar de ser Clark pra ser Super-Homem. Deixar de ser medíocre para ser um ícone, um destaque entre os demais. Deixar de ser esnobado para ser desejado, como Lois Lane, que contraditoriamente esnoba Clark, mas ama o Super-Homem, como um símbolo de poder, idealização, realização e fantasia contemporânea. Os “mundos possíveis” são um conceito de Umberto Eco, que vem de pesquisas sobre lógica por Pavel e Van Dijk. Mas Eco define como mundo possível “um estado de coisas que é expressa por um conjunto de propostas que é, para cada proposta, ou ‘p ou não-`'”. Em outras palavras, um “mundo possível” representa o trabalho de indivíduos que carregam com eles um conjunto de propriedades que não apenas se resumem ao dia a dia ou traços de personalidade, mas também por ações. Os mundos possíveis dependem de uma instância narrativa que cria uma unidade e uma coesão entre os vários elementos do mundo possível. A literatura é terapêutica para Eco por permitir escapar do mundo real e de suas ansiedades e descontinuidade. Esta é também a função dos mitos segundo Claude Lévi-Strauss, que os define como uma maneira para ordenar as variadas experiências de vida. Umberto Eco sugere a noção de texto como máquina “preguiçosa”.  E para este conceito, ele faz o leitor compreender que a leitura é uma atividade criadora e o leitor é agente ativo do texto. Este jogador envolvido no texto é o que ele chama um “leitor modelo”. Um agente social capaz de atualizar as propostas dos textos, de compreender o potencial implícito nos mesmos.

É neste sentido que em “Número Zero”, Eco idealiza um escritor de meia idade que vive de trabalhos avulsos como “Ghost Writer” é convidado para assistente de direção em um projeto para a criação de um jornal, trabalho pelo qual será bem recompensado. Para esse projeto são chamados seis redatores que já escreveram para colunas diversas, e todos a princípio ficam satisfeitos com o convite acreditando que o jornal é uma boa aposta, e poderá quem sabe, alavancar suas carreiras. No entanto o diretor já havia aberto o jogo com o assistente: o jornal servirá como uma espécie de fachada para servir às pretensões políticas do editor, um empresário multimilionário que entre seus negócios é dono de canais de televisão e o jornal provavelmente não será lançado. A veia cômica do escritor aparece nos diálogos dos repórteres do jornal fictício “Amanhã: ontem”. A trama é ambientada na redação de notícias e nas ruas de Milão no ano de 1992 e descreve de forma alegórica, a “operação mãos limpas” – a grande investigação judicial ocorrida na Itália nos anos 1990, que acabou na prisão de políticos, empresários e integrantes da máfia e resultou no fim da 1ª República Italiana. Tirando partido do saber acumulado de sua vasta experiência de como ser semiólogo e estudioso da comunicação, mundialmente reconhecido, o escritor italiano inovou ao combinar as convenções da literatura, por assim dizer, comercial com uma erudição assombrosa e um tratamento inventivo e irônico de seus temas, de tal forma que temos sempre a impressão de ler algo além do que lemos, de que existe outro enredo, ideológico, que interperla o indivíduo por trás da trama aparente e linear as superfícies.

Comparado a seus romances anteriores, “Número zero”, o título se refere, in statu nascendi na prática jornalística, à “edição de teste”, para circulação interna, de uma publicação que ainda está por ser impressa e lançada – pode parecer uma obra menor e pouco ambiciosa. A impressão é enganosa: justamente porque, por trás do enredo aparente, sobre a experiência fracassada dos preparativos para o lançamento de um novo jornal, o “Amanhã”, Eco embute uma crítica cínica e cética não somente à imprensa canalha e sensacionalista, mas também ao liberal Estado ladrão e ineficiente e ao processo de empobrecimento moral da sociedade, que assiste de forma passiva à naturalização dos escândalos desde a corrupção. Sugestivamente, “Número zero” é um romance sobre a morte do “Amanhã”. É um retrato desesperançado da Itália contemporânea, como se ali tivesse falhado o projeto de construção de uma nação. Isso nos ajuda a compreender um ponto importante nesta literatura: a ideologia não é o significado. Mas é uma forma de significado conotativo último e global. Pois, “a ideologia é a conotação final da totalidade das conotações do signo ou do contexto dos signos”. Do ponto de vista pragmático da comunicação representa toda a verdadeira subversão das expectativas que se efetiva na medida em que se traduz em mensagens sociais que também subvertem os sistemas de expectativas retóricas. E toda subversão profunda das expectativas retóricas é também um redimensionamento das expectativas ideológicas. Nesse princípio se baseia a arte de vanguarda, mesmo nos seus monumentos definidos como “formalistas”, quando, usando o código de maneira clara e informativa, não só o põe em crise, mas obriga a repensar, através da crise do código, a crise das ideologias como as quais ele se identificava.

A política é levada, assim, a lidar com duas referências contrapostas, legitimando-se através da universalidade dos princípios e viabilizando-se por meio das motivações particulares. Mas vale lembrar que os caminhos trilhados na política ou na universidade evitam a opção por uma dessas linhas extremadas: o doutrinarismo, o oportunismo crasso, o cinismo ostensivo ou a completa e absurda indiferença. São frequentes as combinações de elementos de tais direções, porém combinados em graus e dimensões diversas. E é nessa combinação hábil que se enraíza a ideologia política. Sua atividade interpretativa também pode ser criativa, de modo que ao interpretar um caso, determinado ator social aplicaria e criaria um direito novo, praticamente legislando.  As três dimensões da atividade acadêmica, ensino, pesquisa e extensão, - mutatis mutandis - vêm se tornando dependentes de um processo incontrolavelmente burocrático, submetido a normas e dependências que conduz a distorções ideológicas com a plena identidade da atividade de pesquisa de Tese de Titular em Sociologia que se desenvolve por ação complementar dos docentes, em ambientes de ensino, pesquisa e extensão de caracterização muito individualizada. Os ambientes de pesquisa que identificam um nível elevado e próprio dessa atividade acadêmica são raros. O departamento institucionalizado em órgãos públicos é, insofismável e claramente, um órgão estanque, burocrático & corporativo por excelência, seguindo as regras do jogo estatal, mas que age politicamente organizando-se em núcleos ou laboratórios por meio de projetos específicos, diretamente, com as agências de pesquisa de financiamento públicas. Nos órgãos públicos o padrão de funcionalidade burocrática tem identidade própria.

O sujeito da ação funcional, individual ou coletivamente, é um agente do poder público, tanto na atividade meio como na atividade fim. O poder público é uma instituição em nome da qual exerce uma administração regida por leis, normas, regulamentos e códigos de conduta que em tese devem ser cumpridos, mas na realidade social em que vivemos, a prática, na teoria é outra. Não raras vezes, no âmbito comportamental, a noção de poder público assume uma indefinição conceitual, carregada de subjetividades culturais à medida de atribuições e responsabilidades. A forma de comportamento na dinâmica burocrática, administrativa e acadêmica, das universidades se reporta em grande parte, às competências distribuídas e amparadas no sistema normativo instituído. Os conflitos ditos de competência e desempenho resultam do confronto da autoridade com uma forma de comportamento não desejada, porém amparada em normas, regras e leis. Uma das consequências é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de nós atuou. Muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um de nós, do ponto de vista institucional no caso das universidades. A sociedade brasileira rejeita a avaliação e a universidade padece com ela, negativamente, como representação simbólica de uma ruptura de um universo aparentemente amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo não se encontra ausente. Na universidade pública não há “premiação” para o professor em nenhum aspecto prebendário, mas aqueles que fazem pesquisa e orientam alunos, fazem “porque querem fazer, porque podem fazê-lo, não porque a universidade lhes gratifica”. 

Historicamente há cerca de duzentos anos, a ideia de que a verdade era produzida, e não descoberta começou a tomar conta do imaginário individual (o sonho) e o imaginário coletivo (os símbolos) europeu. A teoria formal do significado de Davidson é complementada por uma teoria da interpretação. Ao interpretar a linguagem de um falante nativo, pressupomos ideais de racionalidade e adotamos um princípio de caridade ao tentar compreender suas elocuções. Estes princípios normativos de racionalidade não podem ser assimilados a um discurso puramente científico. No entanto, são cruciais para o que é ser um ser humano e, efetivamente, ter estados mentais. Atribuir significados a elocuções, intenções a ações, e estados mentais como crenças e desejos a agentes, estamos sujeitos a uma explicação holística que pressupõe que os seres humanos são em geral racionais e são coerentes no que pensam, dizem e fazem. Davidson também usa este argumento como base para a rejeição do ceticismo extremo, a posição de que todas as crenças acerca do mundo podem ser falsas. Sua obra exerceu considerável influência em diversas áreas sensíveis da filosofia a partir dos anos de 1960, e em especial nas áreas de conhecimento de filosofia da mente, filosofia da linguagem, e teoria da ação. Embora costumasse publicar ensaios, os quais não guardavam relação explicitamente com uma concepção de teoria geral, sua obra se destaca por um caráter unificado.        

O Esclarecimento exprime o movimento real da sociedade burguesa como um todo sob o aspecto da encarnação de sua Ideia em pessoas e instituições, assim também a verdade não significa meramente a consciência relacional, mas, do mesmo modo, a figura que esta assume na realidade efetiva. O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos – fatos esses que, no entanto, já estão pré-moldados como clichês na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem se conformar. Ao tachar de compilação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da cegueira. É característico da situação sem saída que até mesmo o mais polêmico dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper.

A “falsa clareza”, quer dizer, a ilusão em relação à realidade em si é apenas uma outra expressão do mito. Este na história da humanidade sempre foi obscuro e iluminante ao mesmo tempo. Suas credenciais tem sido desde sempre a familiaridade e o fato de dispensar o trabalho característico do conceito. A aporia com que defrontamos em nosso trabalho cotidiano revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma, afirmavam Theodor Adorno e Max Horkheimer, e nisso reside nossa petitio principi, de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonado a seus inimigos e reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também a sua relação social com a verdade. A disposição enigmática das massas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo, sua afinidade autodestrutiva com a paranoia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta fraqueza e a dúvida sobre o poder de compreensão do pensamento abstrato. A causa da recaída do Esclarecimento não deve ser buscada nem tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e de forma persistente em outras mitologias modernas, comparativamente, é sobretudo, especificamente idealizadas em vista dessa recaída, repetidamente, mas, no próprio Esclarecimento paralisado pelo temor da verdade. Isto nos lembra a perspicácia de Michel Foucault. A naturalização dos homens não é dissociável do progresso social.

O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o poder a sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela per se destinados. A elevação do padrão de vida das classes subalternas, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se da “difusão hipócrita do espírito”. Sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizando em um bem cultural e distribuído paras fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo. O que está em questão não é a cultura como valor. A questão é que o esclarecimento deve tomar consciência de si mesmo, se os homens não forem traídos. Não se trata da conservação/superação hegeliana do passado, mas de vir-a-ser resgate-esperança. O passado se prolonga como sua própria destruição.

No trajeto social para a concepção de ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa representou apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as ideias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador. Com as Ideias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico intermitente. O Esclarecimento, porém, reconheceu as antigas potências no legado platônico e aristotélico da metafísica e instaurou um processo contra a pretensão de verdade dos universais, acusando-a de superstição. Na autoridade dos conceitos universais ele crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza. Doravante, a matéria era dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão sombria de qualidades ocultas. O que não submete ao critério da calculabilidade e da utilidade de uso torna-se suspeito para o esclarecimento. Mas cada resistência cultural que ele encontra serve apenas para aumentar a sua força social. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos.

Quaisquer que sejam os mitos de que possam se valer a resistência, o simples fato social de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade decerto corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento como fato é totalitário. Para ele, o elemento social e humano básico do mito foi sempre o antropomorfismo, a projeção do subjetivo na natureza. A cultura respeitável constituiu até o século dezenove um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século vinte o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho gigantesco. Talvez não fosse um preço tão alto, como acreditam alguns defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário. Nas condições atuais, os próprios bens da fortuna convertem-se em elementos de infortúnio. Enquanto no período passado a massa desse bens, na falta de um sujeito social, resultava na chamada superprodução, em meio às crises da economia interna, ela produz com a entronização dos grupos sociais e econômicos que detém o poder no lugar classista desse sujeito social, quer dizer, em cena a teatralidade da ameaça internacional do monopólio ligado aos grupos econômicos, com a entronização do grupos que detêm o poder no “lugar praticado”, para Michel de Certeau, desse sujeito social que procura tornar inteligível o entrelaçamento da racionalidade, como sujeito a verdade e da realidade, bem como o entrelaçamento, inseparável do primeiro, da natureza e da dominação da natureza.

Frequentemente, portanto, a obra, como qualquer outra mensagem, contém seus próprios códigos: quem hoje lê os poemas homéricos extrai dos significados denotados pelos versos uma tamanha massa de noções sobre o modo de pensar, de vestir, de comer, de amar ou de guerrear daqueles povos, que está apto a reconstruir seus sistemas de expectativas ideológicas e retóricas. A leitura da obra desenvolve-se, pois, numa oscilação contínua, pela qual se vai da obra à descoberta dos códigos de origem que ela sugere, dessa descoberta a uma tentativa fiel da obra, para daí voltarmos aos nossos códigos e léxicos de hoje e experimentá-los sobre a mensagem. Metodologicamente, procede-se, destarte, a um confronto contínuo, a uma integração entre as várias “chaves de leitura”, fruindo-se a obra através desta sua ambiguidade, oriunda não só do uso informativo dos significantes em relação ao código de partida, mas do uso informativo dos significantes reportados aos nossos códigos de chegada, o que dá origem a novas mensagens-significado, as quais passam a enriquecer nossos códigos e nossos sistemas ideológicos, reestruturando-os e dispondo os leitores de amanhã a uma nova situação interpretativa em relação à obra, em várias fases, mas que a teoria não pode prever quanto às formas concretas que irá assumir: a mensagem cresce, mas não se sabe como poderá crescer. Portanto, é errado pensar que todo ato comunicacional se baseia numa língua afim aos códigos da linguagem verbal, e que, ipso facto toda língua deva ter articulações fixas.

Para ficarmos num exemplo, no âmbito da esfera de comunicação visual, a comunicação fílmica é a que melhor permite verificar porque um código comunicacional extralinguístico não tem necessariamente que construir-se sobre o modelo da língua. O código fílmico não é o código cinematográfico porque se refere à reprodutibilidade técnica da realidade por meio de aparelhos cinematográficos, ao passo que a comunicação fílmica codifica uma comunicação ao nível de determinadas regras narrativas. Não há dúvida que o primeiro se apoia no segundo, assim como o código estilístico-retórico se apoia no código linguístico, como léxico do outro. A denotação cinematográfica é comum ao cinema e à televisão, o que levou Píer Paolo Pasolini a aconselhar que essas formas comunicacionais fossem designadas em bloco, não como cinematográficas, mas como audiovisuais. Naturalmente é preciso nos limitarmos a algumas observações técnico-metodológicas sobre as possíveis articulações de um código cinematográfico, aquém das pesquisas de estilística, de retórica fílmica, de uma codificação da grande sintagmática do filme, como se o cinematógrafo não nos tivesse datado até agora senão: “L`arrive du train à la gare” e “L`arroseur Arrose” (1895), esses filmes de autoria dos irmãos Lumière.

Enfim, uma Semiologia do cinema não pode ser apenas a teoria de uma transcrição da espontaneidade natural; apoia-se numa cinésica, estuda-lhe as possibilidades de transcrição icônica e estabelece em que medida uma gestualidade estilizada, própria do cinema, influi nos códigos cinésicos, modificando-os. O filme mudo, evidentemente, tivera que enfatizar os cinemorfos normais; os filmes de Antonioni, ao contrário, parecem atenuar-lhes a intensidade. Em ambos os casos, a cinésica artificial, fruto de exigências estilísticas, incide sobre os hábitos do grupo que recebe a mensagem cinematográfica, e modifica-lhes os códigos cinésicos. Esse é um argumento interessante para uma Semiologia do cinema, assim como o estudo das transformações, das comutações, dos limiares de recognoscibilidade dos cinemorfos. Mas, adverte Eco, estamos no círculo determinante dos códigos, e o filme não mais se manifesta aos nossos olhos como representação milagrosa da realidade, mas como uma linguagem que fala outra linguagem preexistente, ambas interagindo com seus sistemas de convenções. As unidades gestuais cada vez mais são ulteriores à comunicação cinematográfica. A ilusão da imagem como representação especular da realidade estaria destruída caso não tivesse na experiência prática, um processo dialógico com um indubitável fundamento, e se uma investigação semiológica mais aprofundada não nos explicasse as razões comunicacionais deste fato. Em sua obra O Nome da Rosa, Umberto Eco inspirou-se no imaginário individual e coletivo em torno do incêndio da Biblioteca de Alexandria para descrever a biblioteca da obra. A Biblioteca de Alexandria representou uma grande biblioteca do Egito Antigo, que foi na história um centro culturalmente anterior ao pós-orientalismo por mais de seis séculos.

A Biblioteca de Alexandria foi uma das mais significativas e célebres bibliotecas e um dos maiores centros de produção do conhecimento na Antiguidade. A Biblioteca de Alexandria não foi a primeira biblioteca do gênero, sendo parte de uma longa tradição de bibliotecas que existiam tanto na Grécia Antiga quanto no Oriente Próximo. O mais antigo registo da acumulação de documentos escritos vem da cidade-estado suméria de Uruque, por volta de 3 400 a.C., quando a escrita apenas começara a se desenvolver, e a curadoria de textos literários começou por volta de 2 500 a.C. Estabelecida durante o século III a.C. no complexo palaciano da cidade de Alexandria, no Reino Ptolemaico do Antigo Egito, a Biblioteca fazia parte de uma instituição de pesquisa chamada Mouseion. A ideia de sua criação pode ter sido proposta por Demétrio de Faleros, um estadista ateniense exilado, ao sátrapa do Egito e fundador da dinastia ptolemaica, Ptolemeu I Sóter, que, tal como o seu antecessor, Alexandre Magno, buscava promover a difusão da cultura helenística. Contudo, a Biblioteca provavelmente não foi construída até o reinado de seu filho, Ptolemeu II Filadelfo. Ela adquiriu um grande número de rolos de papiro, devido sobretudo às políticas agressivas e bem financiadas dos reis ptolemaicos para a obtenção de textos. Não se sabe exatamente quantas obras ela tinha em seu acervo, mas estima-se que ela chegou a abrigar entre trinta mil e setecentos mil volumes literários, acadêmicos e religiosos. O acervo da Biblioteca cresceu de tal maneira que, durante o reinado de Ptolemeu III Evérgeta, uma dimensão filial sua foi criada no Serapeu de Alexandria.

Além de servir à demonstração de poder em termos de um dispositivo discursivo dos governantes ptolemaicos, a Biblioteca teve um papel significativo na emergência de Alexandria como sucessora de Atenas enquanto centro irradiador da cultura grega. Muitos estudiosos importantes e influentes trabalharam nela, notadamente Zenódoto de Éfeso, que buscou padronizar os textos dos poemas homéricos e produziu o registro mais antigo de que se tem notícia do uso da ordem alfabética como método de organização; Calímaco, que escreveu os Pínakes, provavelmente o primeiro catálogo de biblioteca do mundo; Apolônio de Rodes, que compôs o poema épico As Argonáuticas; Eratóstenes de Cirene, que calculou pela primeira vez a circunferência da nossa casa, Terra, com invulgar precisão; Aristófanes de Bizâncio, que inventou o sistema de diacríticos gregos e foi o primeiro a dividir textos poéticos em linhas; e Aristarco da Samotrácia, que produziu os textos definitivos dos poemas homéricos e extensos comentários sobre eles. Além deles, existem referências de que a comunidade da Biblioteca e do Mouseion de Alexandria teria  incluído temporariamente numerosas outras figuras que contribuíram duradouramente para o conhecimento, como Arquimedes e Euclides. Apesar da crença de que a Biblioteca teria sido incendiada e destruída em seu auge, na realidade ela decaiu gradualmente ao longo dos séculos, começando com a repressão de intelectuais no reinado de Ptolemeu VIII Fiscão. Aristarco da Samotrácia renunciou ao posto de bibliotecário-chefe e exilou-se no Chipre, e outros estudiosos, incluindo Dionísio da Trácia e Apolodoro de Atenas, fugiram para outras cidades. A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi acidentalmente queimada por Júlio César em 48 a.C., mas não está claro o quanto realmente foi destruído, pois fontes indicam que ela sobreviveu ou foi reconstruída pouco depois.

O geógrafo Estrabão menciona ter frequentado o Mouseion por volta de 20 a.C., e a prodigiosa produção acadêmica de Dídimo Calcêntero nesse período indica que ele teve acesso a pelo menos parte dos recursos da Biblioteca. Sob controle romano, a Biblioteca perdeu vitalidade devido à falta de financiamento e apoio, e a partir de 260 d.C. não se tem notícia de intelectuais filiados a ela. Entre 270 e 275 d.C. a cidade de Alexandria viu tumultos que provavelmente destruíram o que restava da Biblioteca, caso ela ainda existisse, mas a biblioteca do Serapeu pode ter sobrevivido mais longamente, talvez até 391 d.C., quando o papa copta Teófilo I instigou a vandalização e a demolição do Serapeu. A Biblioteca de Alexandria foi mais que um repositório de obras, e durante séculos constituiu um notável polo de atividade intelectual. Sua influência pôde ser sentida em todo o mundo helenístico, não apenas por meio da valorização do conhecimento escrito, que levou à criação de outras bibliotecas nela inspiradas e à proliferação de manuscritos, mas também por meio do trabalho de seus acadêmicos em numerosas áreas do conhecimento. Teorias e modelos criados pela comunidade da Biblioteca continuaram a influenciar as ciências, a literatura e a filosofia até pelo menos a Renascença. Além disso, o legado da Biblioteca de Alexandria teve efeitos que se estendem até nossos dias, e ela pode ser considerada um arquétipo da biblioteca universal, do ideal de armazenamento do conhecimento, e da fragilidade desse conhecimento. Juntos, a Biblioteca e o Mouseion contribuíram para afastar a ciência de correntes de pensamento específicas e, para demonstrar que a pesquisa acadêmica pode servir às questões práticas e às necessidades materiais das sociedades e governos. 

Vale lembrar que, historicamente, a primeira referência à Lusitânia foi feita nas Histórias de Políbio. O historiador e geógrafo grego Estrabão (63 a.C. - 24 d.C.) descreveu a Lusitânia pré-romana, numa primeira análise, desde o Tejo à costa cantábrica, tendo a Ocidente o Atlântico e a Oriente as terras de tribos célticas. A Lusitânia pré-romana é referido como o período até 29 a.C. quando foi criada por Augusto a província Lusitânia, o limite ao norte passou a ser o rio Douro e ao sul ultrapassou o Tejo, anexando a Estremadura espanhola, Alentejo e Algarve; e a oriente ocupou parte das terras dos célticos. Supõe-se que o Périplo de um navegador massaliota, efetuado por volta de 520 a.C., que descreve a sua viagem marítima ao longo das costas da Península, tenha sido aproveitado por Avieno, escritor do século IV, para compor a Ode Marítima. No seu poema, Avieno refere-se aos Lucis, que seria considerada, por alguns autores, a mais antiga menção aos Lusitanos neste território. Além deles foram referidos os Estrímnios, os Draganos, e a sul, na atualmente região do Algarve, os Cinetes ou Cónios.  O Périplo massaliota (Massalia, a atualmente Marselha, era uma colônia grega), era um manual para os comerciantes, atualmente perdido, que possivelmente datasse dos começos do século VI a.C. e no qual eram descritas as rotas marítimas usadas pelos comerciantes de Fenícia e Tartessos, nas suas viagens ao redor da Europa na Idade do Ferro, ao longo da “rota do estanho”. Foi preservado por Avieno na obra Ora Maritima, escrevendo algumas partes mais tarde, durante o século IV. Continha uma passagem de narração de viagem “por mar” desde Massília (Marselha) ao mar Mediterrâneo ocidental. Descreve as rotas marítimas desde Cádis, na atualmente Espanha, para os Norte ao longo da costa da Europa atlântica de Bretanha, Irlanda e Grã-Bretanha. Muitos dos povos antigos que entraram na Península Ibérica deixaram no território da Lusitânia vestígios etnográficos enquanto inscrição de gentios bem marcados dos contatos sociais comerciais e de influência cultural.                       

Ficariam perfeitamente acentuados e reveladores de uma assimilação cultural mais profunda os vestígios da ocupação geopolítica romana, a que se seguiriam as ocupações dos visigodos e dos árabes. Alguns historiadores antigos referem-se ao ouro da Lusitânia, riqueza que como a prata é testemunhada pela frequência dos achados em Portugal, de numerosas joias típicas fabricadas com esses metais: colares, braceletes, pulseiras, arrecadas etc.  O cobre, em abundância, extraía-se das minas do Sul. O chumbo encontrava-se, segundo Plínio, o Velho, na cidade lusitana de Medúbriga Plumbária, que da abundância local daquele minério teria recebido o nome. Os lusitanos, normalmente considerados antepassados dos portugueses do centro e sul do país e dos estremenhos, foram um povo celtibérico que viveu na parte ocidental da Península Ibérica. Inicialmente, uma única tribo que vivia entre os rios Douro e Tejo ou Tejo e Guadiana. Ao norte do Douro limitavam com os galaicos e ástures - a maior parte dos habitantes do norte de Portugal, depois integrados na província romana de Galécia, a sul com os Béticos e a oeste com os celtiberos na área mais central da Hispânia Tarraconense. A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, o mais destacado dos seus líderes no combate aos romanos. Se o rigor destas disposições foi observado no início da fundação destas ordens religiosas, o seu sucesso inicial, com a adesão de milhares de jovens em grande parte da Europa, o crescente elevado peso institucional e poder político, rapidamente levaram as autoridades eclesiásticas a “aliviar” tal rigor e austeridade, permitindo que os conventos pudessem de alguma forma subsistir sem ser apenas “por obra e graça da caridade alheia”.

Tanto é que, coincidindo com o período gótico, os extraordinários arquitetônicos conventos franciscanos e dominicanos, destacaram-se pela magnificência das respectivas obras de arte e arquitetura, cujo melhor exemplo em Portugal é o dominicano Mosteiro de Santa Maria da Vitória, reconhecido como Mosteiro da Batalha. Foi mandado edificar em 1386 pelo rei D. João I de Portugal como agradecimento à Virgem Maria pela vitória contra os rivais na batalha de Aljubarrota. Este mosteiro da Ordem de São Domingos foi construído durante de dois séculos até cerca de 1563, durante o reinado de sete reis de Portugal, embora desde 1388 já ali vivessem os primeiros frades dominicanos. Exemplo da arquitetura gótica tardia portuguesa, ou estilo manuelino, é considerado patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), e em 7 de julho de 2007 foi eleito como uma das Sete Maravilhas de Portugal. Está classificado como Monumento Nacional desde 1910. Tem, desde 2016, o estatuto de Panteão Nacional. O Mosteiro da Batalha é um dos monumentos mais visitados em Portugal. Em 2022, registou 288.386 entradas. É situado na vila de Batalha, na região do Centro, província da Beira Litoral, em Portugal, que foi mandado edificar em 1386 pelo rei D. João I de Portugal (1357-1433), reconhecido como o Mestre de Avis e apelidado o de Boa Memória, foi o rei de Portugal e dos Algarves de 1385 até sua morte, sendo o primeiro monarca português da Casa de Avis (1385-1580) e o décimo rei de Portugal. Ipso facto, por agradecimento à imagem de Virgem Maria pela vitória contra os rivais castelhanos na Batalha de Aljubarrota de 14 de agosto de 1385. Este mosteiro da Ordem de São Domingos foi construído em dois séculos de trabalho até cerca de 1563, no reinado de sete reis de Portugal, embora desde 1388 com os primeiros frades dominicanos. Importantes ordens são a dos Carmelitas, que surgiram no Monte Carmelo para a Europa em meados do século XIII, e a dos Eremitas, que surgiram no século XII.

A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que, para as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, em nossas sociedades, essa moralidade ainda não tem o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais corre a princípio só e sem rival. 

Bibliografia Geral Consultada.

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