quinta-feira, 15 de junho de 2023

Margarida Bonetti – Gosto, Compulsão & Destrutividade Humana.

                                                  “A ânsia de poder não é originada da força, mas da fraqueza”. Erich Fromm (1975)

  

Concordamos com o filósofo Louis Althusser (1977) que infere Charles-Louis de Secondat - Montesquieu (1689-1755), o fundador da ciência política, sendo uma verdade adquirida. Disse-o o fundador da Sociologia Auguste Comte, repetiu-o Émile Durkheim e nunca ninguém contestou seriamente tal afirmação. Mas talvez seja preciso recuar um pouco para distingui-lo de seus predecessores e compreender exatamente o que o distingue deles. Desnecessário dizer que todo o pensamento político antigo viveu sob a convicção não de que uma ciência do político era possível, o que é uma convicção crítica, mas de que era necessário fazê-la. E os pensadores modernos na esteira desse debate, retomaram esta tese que vemos em Bodin, Hobbes, Spinoza e Grotius. Acho que se deve recusar aos antigos, não a pretensão de refletirem sobre a política, mas a ilusão de lhe terem construído a ciência. Porque a ideia que faziam da ciência provinha diretamente dos conhecimentos que detinham. E estes, para além de certas regiões matemáticas não unificadas na história antes de Euclides, não passavam de visões imediatas ou de projeções da filosofia nas coisas, eram estranhos à nossa ideia de ciência, visto que não lhe conheciam ainda o exemplo. A questão filosófica posta por Althusser é a seguinte: Como explicar que o espírito de um Jean Bodin, de Nicolau Maquiavel, de Thomas Hobbes ou de um Baruch Spinoza, contemporâneo das disciplinas já rigorosas que triunfavam em matemática e em física, tinha podido permanecer cego ante o modelo do conhecimento que herdamos?  

O projeto de constituir uma ciência da política e da história supõe que a política e a história podem ser objeto de uma ciência, isto é, contém uma necessidade que a ciência pretende descobrir. Logo, é preciso destruir a ideia cética de que a história da humanidade não é senão a história dos seus erros, de que um só princípio pode unir a prodigiosa e desencorajante diversidade dos costumes: a fraqueza humana; de quem uma só razão pode esclarecer esta desordem infinita: a irracionalidade do homem. É necessário dizer: Comecei por examinar os homens e conclui que na infinita diversidade das leis e dos costumes, não eram conduzidos apenas pelas suas fantasias, mas por uma razão profunda que, embora nem sempre razoável, é pelo menos sempre racional; por uma necessidade cujo poder é tão forte que nela entram não só instituições bizarras, mas até o próprio acaso que faz com que se perca ou ganhe uma batalha e pode determinar uma conjuntura qualquer. Através desta necessidade racional é rejeitada, com o ceticismo que lhe serve de pretexto, toda a tentação apologética pascaliana que procura a todo o transe na desrazão humana a prova de uma razão divina; e todo o recurso a princípios que no homem passam por cima do homem, como a religião, ou lhe impõem fins, como ocorre em análise comparada sociologicamente com a moral.                        

Não é à teologia que cabe enunciar a verdade dos fatos da política. Velha querela, esta. Mas hoje imaginamos dificilmente quanto pesava sobre a história o decreto da Igreja. Basta lermos Bossuet em guerra aberta contra Spinoza, culpada de ter esboçado uma história do povo judeu e da Bíblia, ou contra Richard Simon, que concebeu o mesmo projeto no seio da própria Igreja, para termos uma ideia da violência do conflito entre a teologia e a história. Este conflito ocupa toda a Défense de l` Esprit des Lois. Acusam Montesquieu de ateísmo, de deísmo; de ter calado o pecado original; justificado a poligamia, etc.; numa palavra, de ter “reduzido as leis a causas puramente humanas”. Montesquieu responde: introduzir a teologia em história, é confundir as ordens e misturar as ciências, o que é o meio mais seguro para as deixar na infância. Não, o seu propósito não é fazer de teólogo; não é teólogo, mas jurisconsulto e político. Está de acordo em que todos os objetos da ciência política possam ter também um sentido religioso, que se possa discutir o celibato, a usura, a poligamia, como teólogo. Mas todos estes fatos revelam também e antes de mais de uma ordem estranha à teologia, de uma ordem autônoma que tem os seus princípios próprios. Deixem-no, pois, em paz. Não proíbe que se ajuíze como teólogo. Cedam-lhe, portanto, em troca disso o direito de ajuizar como político.  E não se procure teologia na sua política. Há tanto de teologia na sua política como de campanário de aldeia no óculo através do qual um cura vê a Lua. A religião não pode impedir a história de tomar foros de ciência ou da moral. 


       Ipso facto em Montesquieu que se bate e se defende na margem terrivelmente estreita que separa as suas convicções do crente ou todas as suas precauções de espírito maligno, das duas exigências de estudioso. Porque não há dúvida, segundo Louis Althusser (1977), de que Montesquieu expõe muitas vezes, através de seus exemplos, toda a argumentação de uma verdadeira teoria sociológica das crenças religiosas e morais. Religião e moral, vale lembrar, às quais recusa precisamente que julguem a história, não passam de elementos internos relativo à sociedade dadas, elementos que moldam a forma e a natureza dessas sociedades. O princípio que analisa uma sociedade, obviamente é o que lógica ou abstratamente explica-lhe também as crenças. A distinção, se a quisermos reter, o que aliás é muito necessário, passa assim através da própria ordem do religioso e do moral. Dir-se-á, portanto, que a religião pode ser encarada no seu sentido e no seu papel humanos – que recaem no campo de estudo de uma sociologia – ou no seu sentido religioso (que lhe escapa). E deste modo Montesquieu recua, não querendo dar o salto dialético na história social e política. Daí a acusação de ateísmo e a fragilidade da sua defesa. Porque embora pondo vigor nas suas respostas, não pode imprimir forças as suas razões. Querem convencê-lo de que é ateu? Tem por único argumento: não é de ateu escrever que este mundo segue o seu curso e as suas leis, foram criados como uma inteligência.

É este, no entanto, o problema da reflexão política de seu tempo, e se a sua forma é estranha, a sua lógica é profunda. Para se demonstrar a origem radical da sociedade, pense em Leibniz querendo captar “a origem radical das coisas”, é preciso tomar os homens antes da sociedade, isto é, in statu nascendi. Saindo da terra como abóboras, diz Hobbes. Como nus, dirá Rousseau. Despidos não só de todos os meios da arte, mas sobretudo de todos os laços humanos. E toma-los num estado que seja como que o nada de sociedade. Este estado original recebe traços diferentes segundo os autores. Hobbes e Spinoza vêm nele o reino do estado de guerra, o triunfo do forte sobre o fraco. Locke, a paz. Rousseau, a solidão absoluta. Os diferentes traçados do estado natural ora se lançam no desenho das razões que os homens tiveram para sair dele, ora esboçam as forças geradoras do estado social que está para vir e o ideal das relações humanas. Paradoxalmente, este estado ignorante de todo o tipo de sociedade, contém e prefigura o ideal de uma sociedade a criar. É o fim da história inscrito na origem. Assim, a ideia de “liberdade” do indivíduo em Hobbes, Spinoza e Locke. Assim a igualdade e a independência do homem em Rousseau. Mas todos estes autores fundamentaram o que têm em comum o mesmo conceito e o mesmo problema: o estado natural é apenas a representação da origem de uma sociedade de que querem descrever a gênese. É o contrato social que assegura a passagem do nada de sociedade a sociedade existente. 

 É bem verdade que, a partir de meados do século XVI, se assiste ao nascimento e ao desenvolvimento, num movimento conjunto, de uma primeira física matemática e à exigência de uma segunda a que depressa se chamará física moral ou política, e que aspirará ao rigor da primeira. É que a oposição entre as ciências da natureza e as ciências do homem não surgiu claramente ainda. Os mais metafísicos exilam em Deus essa ciência da política ou da história que apontas o conjunto dos acidentes da fortuna, ou dos decretos da liberdade humana: tal Leibniz (1646-1716), um proeminente polímata e filósofo alemão e figura central na história da matemática e na história da filosofia. Mas segundo Althusser, só se põem nas mãos de Deus os defeitos da mão do homem e ele confiava de fato a Deus a ideia humana de uma ciência do homem. Quanto aos positivistas, moralistas, filósofos do direito e ao próprio Spinoza, não duvidam nem por um instante que as relações humanas possam ser tratadas como relações físicas. Thomas Hobbes só vê entre as matemáticas e as ciências sociais uma diferença: as primeiras unem os homens; as segundas dividem-nos. Daí decorre a tese de oposição dialética que nas primeiras, a verdade e o interesse dos homens não se encontram em oposição, enquanto nas segundas sempre que a razão é contrária ao homem e o homem é contrário à razão.

Como pretender que Montesquieu tenha aberto vias que encontramos antes? Na verdade, se ele parece seguir vias já reconhecidas, não vai ao mesmo objeto. Helvetius diz que Montesquieu tem a “sutileza” de Montaigne. Possui a mesma curiosidade e tem a mesma maneira de refletir. Como Montaigne e todos os seus discípulos, compiladores de exemplos e de fatos inquiridos em todos os lugares e em todos os tempos, tinha por objeto a história inteira de todos os homens que viveram. E não foi por acaso que teve essa ideia. Pensemos no fato duplo da revolução que abala o mundo entre os séculos XV e XVI. Uma revolução no espaço do mundo. Uma revolução na sua estrutura. É o tempo da Terra descoberta, das grandes explorações que abrem à Europa o conhecimento e a exploração das Índias do Oriente e do Ocidente, e da África o chamado continente negro. Os viajantes trazem então nos seus cofres as especiarias e o ouro e, na memória, o relato dos costumes e de instituições que abalam todas as verdades estabelecidas. Mas este escândalo não teria provocado mais que um rumor de curiosidade nos próprios países que assim lançavam os seus navios em busca de novas terras. Outros acontecimentos não tivessem também resolvido os fundamentos destas convicções estabelecidas: guerras civis, revolução religiosa da Reforma, guerras de religião, transformação da estrutura tradicional do Estado, ascensão dos plebeus, decadência dos grandes – transformações cujo eco se ouve em todas as obras deste tempo, conferem à matemática dos escandalosos relatos trazidos de além-mar a dignidade contagiosa de fatos reais e plenos de sensos.

 É este o fundamento desse exotismo político, até a história conhecida, a Grécia e Roma, se torna esse outro mundo em que o mundo presente procura a sua própria imagem que domina o pensamento a partir do século XVI. Uma das mais célebres expedições do período colonial, cujo relato etnográfico foi publicado, se deve a Charles-Marie de La Condamine e uma equipe científica patrocinada pela Academia das Ciências de Paris, e ocorreu entre 1735 e 1744. O objetivo da viagem era realizar medições técnico-científicas para reconhecer a circunferência da Terra. Os relatos de La Condamine (cf. Martins, 2012) são peças das mais importantes, considerando a escassez de descrições históricas e geográficas da Amazônia no período colonial. Se até então as viagens científicas eram uma exceção, a partir de meados do século XVIII a situação se transforma. O movimento da chamada Ilustração em Portugal deflagrou um processo de valorização dos produtos naturais das colônias portuguesas, e claramente a do Brasil, em particular. A política colonial desenvolvida pela metrópole buscou promover ações políticas no sentido aproveitar de forma lucrativa as riquezas do Brasil. A administração régia promoveu pesquisas para a naturalização de plantas exóticas, favoreceu o estabelecimento de sociedades letradas e organizou expedições científicas que tinham por objetivo conhecer os produtos da natureza, descobrir seus usos e propriedades.

Dentre alguns dos principais promotores das pesquisas sobre o Brasil foi o naturalista Domingos Vandelli (1735-1816), membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, professor de história natural e química da Universidade de Coimbra e diretor do Jardim Botânico do Real Palácio da Ajuda. Vandelli formou toda uma geração de naturalistas, muitos dos quais nascidos no Brasil. Foi ele quem indicou Alexandre Rodrigues Ferreira como naturalista responsável pela expedição que explorou o norte do Brasil, realizada entre 1783 e 1792. A Viagem Filosófica pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, foi a mais importante expedição realizada pelos luso-brasileiros no Brasil. Os comerciais interesses gerais da expedição foram o reconhecimento medicinal das chamadas “drogas do sertão”, passíveis de serem comercializadas e a legitimação da ocupação da Amazônia pelos colonizadores, depois da conquista legal, garantida e sacramentada pelo Tratado de Madri de 1750. A viagem de Alexandre Ferreira é filosófica na medida em que se enquadra nos moldes das expedições do enciclopedismo.

Ele age segundo a lógica do “administrador colonial esclarecido”, como se julgava em tese, pelas luzes da ciência. É com esse espírito utilitário que o viajante nascido na Bahia descreve plantas, animais, regiões e aspectos físicos e culturais das diversas tribos e povos indígenas dentre os povoamentos brasileiros. Acompanharam-no o jardineiro Agostinho Joaquim do Cabo e os desenhistas José Joaquim Freire e Joaquim Codina. O frei franciscano José Mariano da Conceição Velloso (1741-1808) foi um dos mais importantes executores da política científica ilustrada de fins do século XVIII e início do século XIX. Suas viagens pelo Rio de Janeiro, promovidas pelo vice-rei D. Luís de Vasconcelos (1742-1809), se realizaram entre 1782 e 1790, passando por Parati, Ilha Grande e chegando até São Paulo. A equipe, constituída, entre outros, pelos religiosos frei Francisco Solano, desenhista de história natural e frei Anastácio de Santa Inês, encarregado das descrições científicas, tinha por objetivo fazer o levantamento dos recursos naturais da capitania do Rio de Janeiro. Embora o material produzido por Velloso e seus ajudantes tenha sido executado com rigor e de acordo com os padrões científicos de seu tempo, a divulgação dos resultados da viagem foi demorada e incompleta. A Flora Fluminensis seria publicada com os textos e as pranchas a partir de 1827. Manuel Arruda da Câmara, natural da Paraíba, viajou pelo Nordeste em diversas ocasiões: entre 1794 e 1795 percorreu as províncias de Pernambuco e Piauí, de 1797 a 1799 esteve nas províncias da Paraíba e no Ceará e em 1799 e 1800, no Maranhão.

Algumas vezes pode contar com o espírito de colaboração do padre João Ribeiro Montenegro, afamado desenhista de plantas. Arruda da Câmara publicou alguns trabalhos de história natural e economia rural, sempre buscando divulgar novas técnicas agrícolas, além de refletir sobre aspectos filosóficas da natureza. Diversos outros homens de ciência realizaram expedições nesse período, como é o caso notável de João da Silva Feijó, José Vieira Couto e do próprio José Bonifácio de Andrada e Silva. Antes de assumir cargos públicos no Brasil, José Bonifácio havia estudado em Freiberg e em Paris e publicado artigos sobre mineralogia em periódicos científicos europeus. Além de ter empreendido expedições mineralógicas na Europa viajou pela província de São Paulo em 1820. A geração luso-brasileira identificada com o ideário iluminista apresenta, desse modo, uma certa homogeneidade de conduta, de mimetismo sociológico, onde a ciência pura é vista “como instrumento necessário à prosperidade econômica do Estado”. O período áureo das viagens científicas ao Brasil foi o século XIX. Com a migração da Corte e o fim das guerras napoleônicas, em 1815, houve um “novo descobrimento do Brasil”, segundo a expressão de Sérgio Buarque de Holanda, que se tornou clássica.

Os viajantes desse período são muito mais especializados do que os do século anterior e, em geral, cumpriam missões com objetivos científicos bem definidos. Data dessa época a relativa separação do campo científico da esfera de ação da política. O cientista passa a ser, em muitas ocasiões, a figura principal das expedições, em vez de subordinar-se a interesses políticos e militares. José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) foi um naturalista, estadista e poeta brasileiro, reconhecido pelo epíteto de Patriarca da Independência por seu papel na Independência do Brasil. Em 11 de janeiro de 2018, foi declarado oficialmente Patrono da Independência do Brasil. Além de sua atuação política, obviamente, teve destacada carreira como naturalista, notadamente no campo da mineralogia, “tendo recebido reconhecimento internacional em vida”. Descobriu 4 minerais, incluindo a petalita, que permitiria a descoberta do elemento lítio, e a andradita, “batizada em sua homenagem”. Na esfera política, foi ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de janeiro de 1822 a julho de 1823, e, desde o início do cargo, colocou-se em apoio à regência de D. Pedro de Alcântara. Proclamada a Independência, comandou uma política centralizadora e organizou a ação militar contra os focos de resistência à separação de Portugal. Nos debates da Assembleia Constituinte, deu-se o rompimento dele e de seus irmãos Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva com o já imperador Pedro I.

Como consequência, em 16 de julho de 1823, o imperador demitiu-o do posto de ministro, e José Bonifácio passou à oposição. Após o fechamento da Constituinte, em 11 de novembro de 1823, José Bonifácio foi banido e exilou-se na França por seis anos. De volta ao Brasil, e reconciliado com o imperador, quando de sua atitude política de abdicação, em 1831, assumiu tutoria de seu filho. Permaneceu como tutor do futuro Pedro II até 1833, quando “foi demitido pelo governo da Regência, devido a disputas por poder dentre as facções que o compunham”. Do ponto de vista de sua formação em São Paulo, frequentou aulas de gramática, retórica e filosofia, nos cursos abertos por Dom Frei Manuel da Ressurreição (1718-1789), dono de boa biblioteca. Era o ensino preparatório para o ingresso na universidade em Coimbra, para onde iam os brasileiros com recursos financeiros e boa conduta em termos de relações internacionais. Tinha 16 anos quando, com seus irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco, José Bonifácio requereu habilitação de genere, passo indispensável à carreira eclesiástica. Não havia universidades no Brasil nem qualquer prelo. Em 1783, viajou da ciade do Rio de Janeiro para Portugal, matriculando-se na Universidade de Coimbra e iniciando curso de estudos jurídicos, acrescidos em outubro de 1784, dos cursos de matemática e filosofia natural.

Por mais simples que seja a linguagem e clara a sua exposição, sempre apresenta dificuldades específicas inevitáveis, porque dizem respeito à natureza própria da teoria, mais precisamente da produção do discurso teórico, e por isto produção. A dificuldade própria da terminologia teórica consiste pois em que, por detrás do significado usual da palavra, é sempre preciso discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual. Um bom exemplo, ocorre quando o leitor pensa compreender imediatamente o que Marx quer dizer quando emprega uma palavra tão corrente como a palavra trabalho. No entanto, é preciso um grande esforço para discernir, por detrás da evidência familiar (ideológica) desta palavra, o conceito marxista de trabalho, e mais ainda, para ver que a palavra trabalho pode designar vários conceitos distintos: os conceitos de processo de trabalho, de trabalho concreto, de trabalho abstrato, etc. Quando uma terminologia teórica é boa, lembra Althusser, no ensaio: Sobre o Trabalho Teórico (1978), isto é, bem determinada e bem referenciável, ela assume a função precisa de impedir as confusões entre o significado usual das palavras e o significado teórico (conceptual) das mesmas palavras. Sua conjunção particular que produz significado novo, definido que é o que chamamos do ponto de vista científico de conceito teórico. Não pode haver discurso teórico sem a produção destas expressões específicas, que designam conceitos teóricos de determinada prática da teoria.

            Isto quer dizer que a cultura, a sociedade e a comunicação vêm articular-se a uma estrutura de relações sociais. No escravagismo antigo, nada distingue, do ponto de vista abstrato da estrutura do modo de produção (cf. Bartra, 1978), o escravo do agricultor independente, proprietário privado individual. O que os distingue é a relação com o trabalho. Se um se conduz como proprietário das condições materiais da reprodução de sua existência, no outro caso é o mestre que se conduz como proprietário das condições naturais da reprodução de sua existência material do escravo. Pode-se fazer a mesma comparação e distinção entre o escravo moderno, do século XIX, e o trabalhador agrícola no sistema técnico de trabalho, ao qual se articulam relações sociais diferentes. A interligação dos processos de trabalho é primeiramente de ordem técnica, na medida em que está contida nos meios de trabalho e envolve imediatamente trabalhadores em situações específicas de trabalho. Em seguida é de ordem social, basicamente quanto à escala e quanto ao sentido de conjunto para satisfazer necessidades sociais. É, finalmente, de ordem tecnológica, na medida em que a produção, circulação, uso, dos produtos resultantes do processo de trabalho interligados, representam o próprio sistema social no âmbito de determinada cultura e/ou sociedade. Produzindo e consumindo determinados produtos/mercadoria os homens primeiro tecnologicamente (cf. Leroi-Gourhan, 1984) produzem a sociedade e as relações sociais nela existentes. Um sistema de trabalho é uma estrutura onde o que está em jogo como atividade é o trabalho e a reprodução da vida.

            Um bom exemplo, encontra-se em Marx (2013), na análise econômica e social da mercadoria em que o produto do fiandeiro de algodão – o fio – é a forma-mercadoria de seu capital; é, para ele, capital-mercadoria. O fio não pode voltar a funcionar como componente de seu capital produtivo, seja como material de trabalho, seja como meio de trabalho. Mas nas mãos do tecelão que o compra, ele é incorporado a seu capital produtivo como um de seus componentes líquidos. Para o fiandeiro, porém, o fio é o suporte do valor de uma parte tanto de seu capital fixo como de seu capital líquido (abstraindo do mais-valor). Assim, uma máquina, como produto do fabricante da maquinaria, é a forma-mercadoria de seu capital; ela é, para ele, capital-mercadoria e, enquanto permanece sob essa forma, não é capital líquido nem fixo. Se é vendida a um fabricante que a emprega, ela se converte em elemento fixo de um capital produtivo. Mesmo quando o produto, segundo sua forma útil, pode voltar a ser integrado como meio de produção no processo do qual saiu, como ocorre, por exemplo, com o carvão na produção carbonífera, a parte do produto destinada precisamente à venda não representa capital fixo nem circulante, mas simplesmente capital-mercadoria. Por outro lado, pode ocorrer que, dependendo de sua forma útil, o produto seja absolutamente inadequado para constituir qualquer elemento do capital produtivo, seja como material de trabalho, seja como meio de trabalho. É o que ocorre como qualquer meio de subsistência. 

        Excetuando-se sempre a parte do produto diretamente consumida como meios de produção por seus produtores, vale para a produção capitalista a tese geral: todos os produtos chegam ao mercado  como mercadorias e, assim, circulam para o capitalista como a forma-mercadoria de seu capital, como capital-mercadoria, não importando se tais produtos , por sua forma natural, por seu valor de uso, devem ou podem funcionar como elementos do capital produtivo (do processo de produção) e, portanto, como elementos fixos ou circulantes deste último, ou se só podem servir como meios de consumo individual, e não do consumo produtivo. Todos os produtos são lançados ao mercado como mercadorias; por isso, todos os meios de produção e de consumo, todos os elementos do consumo produtivo e individual têm de ser novamente retirados do mercado como mercadorias, por meio da venda. Essa trivialidade está naturalmente correta. A máquina é, de fato, comprada no mercado, assim como o algodão. Mas, uma máquina de fiar não tem valor se não é utilizada para fiar, ou seja, se não funciona como elemento de produção e, do ponto de vista capitalista, não funciona como componente fixo de um capital produtivo. Mas a máquina de fiar é móvel. Ela pode ser exportada do país no qual foi produzida e ser diretamente vendida no estrangeiro, em troca de matérias-primas etc., ou de champagne. No país em que foi produzida ela funcionou apenas como capital-mercadoria, mas nunca nem mesmo depois de sua venda, como capital fixo.     

Do ponto de vista metodológico notou Norbert Elias (2006) que o conceito de civilização se refere a uma grande variedade de fatos sociais: nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao tipo de habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário ou ao modo como são preparados os alimentos. Rigorosamente falando, nada há que não possa ser feito de forma “civilizada” ou “incivilizada”. Daí ser sempre difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode descrever como chave na civilização. Mas também não significa a mesma coisa para diferentes nações ocidentais. Acima de tudo, é grande a diferença entre a forma como ingleses e franceses empregam a palavra, por um lado, e os alemães, por outro. Para os primeiros, o conceito resume em palavra seu orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente e da humanidade em geral.

O conceito de figuração distingue-se de outros conceitos teóricos da sociologia por incluir expressamente os seres humanos em sua formação social. Contrasta, portanto, decididamente com um tipo amplamente dominante de formação de conceitos que se desenvolve sobretudo na investigação de objetos sem vida, portanto no campo da física e da filosofia para ela orientada. Há figurações de estrelas, assim como de plantas e de animais. Mas apenas os seres humanos formam figurações uns com os outros. O modo de sua vida conjunta em grupos grandes e pequenos é, de certa maneira, singular e sempre co-determinado pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, por tanto por meio do ingresso singular do mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos. Às quatro dimensões espaço-temporais indissoluvelmente ligadas se soma, no caso dos seres humanos, uma quinta, a dos símbolos socialmente apreendidos. Sem sua apropriação, sem, por exemplo, o aprendizado de uma determinada língua especificamente social, os seres humanos não seriam capazes de se orientar no seu mundo nem de se comunicar uns com os outros. Um ser humano adulto, que não teve acesso aos símbolos da língua e do conhecimento de determinado grupo permanece fora de todas as figurações humanas, pois não é um ser humano.

As definições de controle social são demasiado amplas e vagas, e, portanto, seria legítimo indagar, escolhendo-as mais ou menos ao acaso, para inferir que resultam em termos de um controle, isto é, qualquer estímulo ou complexo de estímulos que provoca uma determinada reação. Assim, pois, todos os estímulos são controles, pois representam a direção do comportamento por influências grupais, estimulando ou inibindo a ação individual ou grupal. O controle social pode ser definido como a soma total ou, antes, o conjunto de padrões culturais, símbolos sociais, signos coletivos, valores culturais, ideias e idealidades, tanto como atos quanto como processos diretamente ligados a eles, pelo qual a sociedade inclusiva, cada grupo particular, e cada membro individual participante superam as tensões e os conflitos entre si, através do equilíbrio temporário, e se dispõem a novos esforços criativos. Ipso facto, em toda a dimensão da vida associativa deverá haver algum ajustamento de relações sociais tendentes a prevenir a interferência de direitos e privilégios entre os indivíduos. De maneira mais específica, são três as funções do estabelecidas pelo controle social: a obtenção e a manutenção da ordem social, da proteção social e da eficiência social. O seu emprego hic et nunc na investigação sociológica contribuiu consideravelmente para produzir uma simplificação ou redução na análise dos problemas sociais, conseguida proporcionalmente, graças à compreensão positiva da integração das contradições correspondentes no sistema de organização das sociedades e da importância relativa de cada um deles, como e enquanto expressão do jogo social.  Embora obscuro e equívoco, em seu significado corrente na história contemporânea, o conceito de controle social é necessário à investigação sociológica encontraram um sistema de referências propício à sua crítica científica, seleção lógica e coordenação metódica.  

O crescimento de um jovem convivendo e habitando comum em figurações humanas, como processo social e experiência, assim como o aprendizado de um determinado esquema de autorregulação na relação com os seres humanos, é condição indispensável ao desenvolvimento rumo à humanidade. Socialização e individualização de um ser humano, são nomes diferentes para o processo. Cada ser humano assemelha-se aos outros, e é, ao mesmo tempo, diferente de todos os outros. O mais das vezes, as teorias sociológicas deixam sem resolver o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Quando se fala que uma criança se torna um indivíduo humano por meio da integração em determinadas figurações, como, por exemplo, em famílias, em classes escolares, em comunidades aldeãs ou em Estados, assim como mediante a apropriação e reelaboração de um patrimônio simbólico social, conduz-se o pensamento por entre dois grandes perigos da teoria e das ciências humanas: o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto como que de um agente que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos. Embora não possuam um começo absoluto, não tendo nenhuma outra substância a não ser seres humanos gerados familiarmente por pais e mães, as sociedades humanas não são simplesmente um aglomerado cumulativo dessas pessoas. O convívio dos seres humanos em sociedades tem sempre, mesmo no caos, na desintegração, na maior desordem social, uma forma absolutamente determinada. É isso que o conceito de figuração exprime.

O processo de concentração física de força pública se acompanhada de uma desmobilização da violência ordinária. A violência física só pode ser aplicada por um agrupamento especializado, especialmente mandatado para esse fim, claramente identificado no seio da sociedade pelo uniforme, portanto um agrupamento simbólico, centralizado e disciplinado. A noção de disciplina, sobre a qual Max Weber escreveu páginas magníficas, é capital: não se pode concentrar a força física sem, ao mesmo tempo, controla-la, do contrário é o desvio da violência física, e o desvio da violência física está para a violência física assim como o desvio de capitais está para a dimensão econômica: é o equivalente da concussão. A violência física pode ser concentrada num corpo formado para esse fim, claramente identificado em nome da sociedade pelo uniforme simbólico, especializado e disciplinado, isto é, capaz de obedecer como um só homem a uma ordem central que, em si mesma, não é geradora de nenhuma ordem. O conjunto das instituições mandatadas para garantir a ordem, a saber, as forças públicas e de justiça, são, portanto, separadas pouco a pouco do mundo social corrente. Essa concentração do capital físico se realiza em um duplo contexto. Para uns, o desenvolvimento do exército profissional está ligado à guerra, assim como o imposto; mas há também a guerra interior, a guerra civil, a arrecadação do imposto como uma espécie de guerra civil.  

A estratégia do passado que visava organizar novos espaços urbanos transformou-se meramente em artifícios políticos e muito pouco em torno de reabilitação de patrimônios. Depois de haver inconscientemente projetado a cidade futura, torna-se uma cidade frequentada por sua estranheza, muito mais elevada aos excessos que reduzem o presente, a nada mais que simples escombros como caixas d`água que deixam escapar seu domínio do tempo. Mas os técnicos se denunciam já no quadriculamento que atrapalhavam os planejadores funcionalistas que deviam fazer tábula rasa das opacidades contidas nos projetos de cidades transparentes. Afinal qual o urbanismo que não descontroem mais do que uma guerra a questão da memória e da história aldeã, operária, com casas desfiguradas, fábricas desativadas, universidades sem vida, cacos de histórias naufragadas que hoje formam as ruínas de uma cidade fantasma ou fantasmas da cidade, antes modernista, cidade de massa, homogênea, como os lapsos de uma linguagem que se desconhece, quem sabe inconsciente. Mas elas surpreendem. O imaginário individual (sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos), em primeiro lugar, são as coisas que o soletram. Eles têm uma função social que consiste em abrir uma profundidade no presente, mas não têm mais o conteúdo que provê de sentido a estranheza do passado. Suas histórias deixam de ser pedagógicas para inferir o  trágico.  

O Estado se constitui, portanto, em relação à forma de governo um duplo contexto: de um lado, efeitos de poder político em relação a outros Estados, atuais ou potenciais, isto é, os princípios concorrentes – portanto, precisa concentrar “capital de força física” para travar a guerra pela terra, pelos territórios; de outro lado, em relação a um contexto interno, a contrapoderes, isto é, príncipes concorrentes ou classes dominadas que resistem à arrecadação do imposto ou ao recrutamento de soldados. Esses dois fatores favorecem a criação de exércitos poderosos dentro dos quais se distinguem progressivamente forças propriamente militares e forças propriamente policiais destinadas à manutenção da ordem interna. Essa distinção exército/polícia, evidente hoje, tem uma genealogia extremamente lenta, as duas forças têm sido por muito tempo confundido. O desenvolvimento do imposto está ligado às despesas de guerra. O nascimento do imposto é simultâneo a uma acumulação extraordinária de capital detido pelos profissionais da gestão burocrática e à cumulação de um imenso capital informacional. É o vínculo institucional entre Estado e estatística: o Estado está associado a um conhecimento racional do mundo social e governamental. A estatística em como representação o campo da matemática que relaciona fatos sociais e números em que há um conjunto de métodos que nos possibilita coletar dados e analisá-los, assim sendo possível realizar alguma interpretação deles.

            No âmbito da historiografia e em filosofia da história, o progresso representa a ideia de que o mundo pode se tornar gradativamente melhor no que diz respeito à ciência, tecnologia, modernização, liberdade, democracia, qualidade de vida, etc. Embora ao progresso esteja frequentemente associada a noção ocidental da mudança monótona de uma tendência, em linha reta, no entanto concepções alternativas existem, como a teoria cíclica do “eterno retorno” formulada por Friedrich Nietzsche, ou “em forma de espiral” o progresso da dialética de Friedrich Hegel, Karl Marx e outros. Noutras palavras, o progresso é entendido como um conceito que indica a existência de um conteúdo de sentido de melhorar a vivência sobre a condição humana. A consideração de possibilidade foi fundamental para a separação da rotinização feudal medieval, baseada no teocentrismo cristão ou muçulmano e expresso na escolástica. A partir desse ponto de vista o qual não é o único possível em teologia, o progresso é sentido quando a história humana provém da queda do homem (o pecado original) e o futuro tende ao ideário da salvação em Cristo.

A história em si, interpretada como providencial, é um parêntesis na eternidade, e o homem não deve ter esperança de participar em mais do que a divindade concedida pelo Apocalipse. A crise medieval e renascentista, com o antropocentrismo, resolvera o debate dos antigos e modernos, superando o Argumentum ad verecundiam e revelação como fonte do conhecimento. Desde a crise da consciência europeia do final do século XVII e da era do iluminismo do século XVIII tornou-se banal expressar as ideias dominantes do capitalismo e da ciência moderna. A segunda metade do século XIX foi o momento otimista de seu aparente triunfo, com os avanços técnicos da Revolução Industrial, no qual o imperialismo europeu estendeu o seu conceito de civilização para quase todo o mundo. A sua expressão máxima foi o positivismo normativo de Auguste Comte. Embora os percursores pudessem ser evidentes, até depois da 1ª grande guerra (1914-1918), não houve um verdadeiro questionamento e um debate adequado sobre a ideia de progresso, incluindo a questão tópica mudança do paradigma científico, as vanguardas na arte, e o reexame da ordem econômico-social e política que envolveram a Revolução Russa de 1917, a Grande Depressão e o fascismo e assim por diante.

Acumulação compulsiva, reconhecida como “transtorno de acumulação”, é um padrão de comportamento que se caracteriza pelo excesso de aquisição de itens, e uma incapacidade ou relutância para o descarte da grande quantidade de objetos que cobre as áreas residenciais e causam significantes estresse e perda de função. O comportamento de acumulação compulsiva está associado com riscos de saúde, função danificada, peso econômico, e efeitos adversos em amigos e membros da família. Apenas recentemente pesquisadores começaram a estudar a acumulação, e por isto, foi definida como “doença mental” apenas na 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), resultado de mais de 10 anos de pesquisa de especialistas do mundo, traz o que há de mais atual em termos de classificação técnica e diagnóstico na área da saúde mental, constituindo-se em recurso indispensável a estudantes, clínicos e pesquisadores.

As taxas de prevalência têm sido estimadas entre 2% e 5% em adultos, embora a condição geralmente se manifeste na “infância com sintomas de agravamento em idade avançada”, ponto no qual os itens coletados chegaram a um total demasiado excessivo, e os membros da família, que poderiam ajudar a manter e controlar os níveis de desordem já morreram, ou se afastaram. O “comportamento acumulador” é, com frequência, grave, pois os acumuladores não o reconhecem como um problema, devido ao efeito Dunning–Kruger, geralmente explicado em termos de habilidades metacognitivas. É muito mais difícil para a terapia comportamental tratar com êxito os chamados “acumuladores compulsivos” que não têm boa compreensão da própria doença. Os resultados de uma pesquisa de 2008 demonstram que acumuladores têm bem menos probabilidade de ver um problema numa “situação de acumulação” do que um amigo, familiar ou um parente. Marx lembra-nos que uma jornada prolongada de trabalho parece ser o segredo do método racional e salutar que elevará a condição de trabalhador, mediante o aperfeiçoamento de suas aptidões intelectuais e morais, fazendo dele um consumidor racional. O que ele entende por consumo racional se mostra claramente lá onde ele é tão transigente que pratica diretamente o comércio dos artigos a serem consumidos pelos seus trabalhadores: no truck system, do qual o fornecimento de habitação – que faz com que o capitalista seja ao mesmo tempo o senhorio do trabalhador – é apenas um ramo entre muitos.  

Ipso facto, todo esse movimento, parece girar num círculo vicioso, do qual só podemos escapar supondo uma acumulação “primitiva” (“previous accumulation”, em Adam Smith), prévia à acumulação capitalista, uma acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista, mas seu ponto de partida. Essa acumulação primitiva desempenha na economia política aproximadamente o mesmo papel do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e, com isso, o pecado se abateu sobre o gênero humano. Sua origem nos é explicada como uma anedota do passado. Numa época muito remota, havia, por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa, e, por outro, uma súcia de vadios a dissipar tudo o que tinham e ainda mais. De fato, a legenda do capital original teológico nos conta como o homem foi condenado a comer seu pão com o suor de seu rosto; mas é a história do pecado original econômico que nos revela como pode haver gente que não tem nenhuma necessidade disso. Seja como for, vejamos.

Deu-se, assim, que os primeiros acumularam riquezas e os últimos acabaram sem ter nada para vender, a não ser sua própria pele. E desse pecado original datam a pobreza da grande massa, que ainda, apesar de todo seu trabalho, continua a não possuir nada para vender a não ser a si mesma, e as riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenha deixado de trabalhar. São trivialidades como essas que, por exemplo, o sr. Thiers, com a solenidade de um estadista, continua a ruminar aos franceses, outrora tão sagazes, como apologia da proprieté. Mas quando tão logo entra em jogo a questão da propriedade, torna-se dever sagrado sustentar o ponto de vista da cartilha infantil como o único válido para todas as faixas etárias e graus de desenvolvimento. Na história real, como afirma Marx, o papel principal e representado pela conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência. Já na economia política, tão branda, imperou sempre o idílio. Direito e “trabalho” foram, desde tempos imemoriais, os únicos meios de enriquecimento, excetuando-se sempre, é claro, “este ano”. Na realidade, os métodos da acumulação primitiva podem ser qualquer coisa, menos admitidos como idílicos.

Num primeiro momento, dinheiro e mercadoria são tão pouco capital quanto os meios de produção e de subsistência. Eles precisam ser transformados em capital. Mas essa transformação só pode operar-se  em determinadas circunstâncias, que contribuem para a mesma finalidade: é preciso que duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias se defrontem e estabeleçam contato; de um lado, possuidores de dinheiro, meios de produção e meios de subsistência, que buscam valorizar a quantia de valor de que dispõem por meio da compra de força de trabalho alheia; de outro, trabalhadores livre, vendedores da própria força de trabalho e, por conseguinte, vendedores de trabalho. Trabalhadores livre no duplo sentido de que nem integram diretamente os meios de produção, como os escravos, servos etc., nem lhes pertencem os meios de produção, no caso do camponês que trabalha por sua própria conta etc., mas estão, antes, livres e desvinculados desses meios de produção. Com essa polarização do mercado estão dadas as condições fundamentais do processo da produção capitalista. A relação capitalista pressupõe a separação entre os trabalhadores e a propriedade das condições de realização do trabalho. Tão logo a produção capitalista esteja de pé, ela não apenas conserva a separação, mas a reproduz em escala cada vez maior. O processo que cria a relação capitalista não pode ser senão o processo de separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de realização de seu trabalho, processo que, por um lado, transforma em capital os meios sociais de subsistência e de produção e, por outro, converte os produtores diretos em trabalhadores assalariados.   

A assim chamada acumulação primitiva não é, por conseguinte nada mais do que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção. Ela aparece como “primitiva” porque em análise histórica comparada constitui a pré-história do capital e do modo de produção que lhe corresponde historicamente. A estrutura econômica da sociedade capitalista surgiu da estrutura econômica da sociedade feudal. A dissolução desta última liberou os elementos sociais daquela. O produtor direto, o trabalhador, só pode dispor de sua pessoa depois que deixou de estar acorrentado à gleba e de ser servo ou enquanto vassalo de outra pessoa. Para converter-se em livre vendedor de força de trabalho, que leva sua mercadoria a qualquer lugar onde haja mercado para ela, ele tinha além disso, de emancipar-se do jugo das corporações, de seus regulamentos relativos a aprendizes e oficiais e das prescrições restritivas do trabalho. Com isso, o movimento histórico que transforma os produtores em trabalhadores assalariados aparece, por um lado, como a libertação desses trabalhadores da servidão e da coação corporativa, e esse é único aspecto que existe para nossos historiadores burgueses. Por outro lado, no entanto, esses recém-libertados só se convertem em vendedores de si mesmos depois de lhes terem sido roubados todos os seus meios de produção, assim como todas as garantias de sua existência que as velhas instituições feudais lhes ofereciam. E a história dessa expropriação está gravada nos anais da humanidade com traços de sangue e fogo. Em síntese, os capitalistas industriais, esses novos potentados, tiveram, por sua vez, de deslocar não apenas os mestres-artesãos corporativos, mas também os senhores feudais, que detinham as fontes de riquezas.

Bibliografia geral consultada.

FROMM, Erich, Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1975; ANDERSON, Perry, Linhagens do Estado Absolutista. Porto: Editora Afrontamento, 1984; ALTHUSSER, Louis, Freud e Lacan. Marx e Freud. 3ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985; ROUDINESCO, Elisabeth, Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1994; Cap. VII - O Poder e a Glória - Diálogo com Althusser, pp. 299 e ss.; ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon, “Montesquieu: Sociedade e Poder”. In: Clássicos da Política. São Paulo: Editora Ática, 1997; LEROI-GOURHAN, André, Le Geste et la Parole II: La Mémoire et les Rythmes. Paris: Editeur Albin Michel, 2004; ELIAS, Norbert, Escritos & Ensaios (I): Estado, Processo, Opinião Pública. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006; BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott, Modernização Reflexiva: Política, Tradição e Estética na Ordem Social Moderna. 2ª edição. São Paulo: Editora Unesp, 2012;  MARTINS, Maria Cristina Bohn, “Uma Jornada pela América Meridional e de Volta à Europa: Charles Marie de La Condamine e o Relato de sua Expedição pelo Amazonas”. In: Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, vol. 38, n° 2, pp. 303-324, jul./dez. 2012; LIU, Emiliano Palmada, O Conceito de Sobredetermnação em Louis Althusser: Análise Crítica de uma Abordagem sobre a Questão do Método no Marxismo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Guarulhos: Universidade Federal do Estado de São Paulo, 2016; CORDOVA, Dayana Zdebsky, Relações Apaixonadas, Investimentos Obsessivos: Uma Etnografia sobre Colecionismo e o Mercado Brasileiro de Arte Contemporânea. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2018; PINHEIRO, Nadja Nara Barbosa, “Impulso Destrutivo e Ambiente: Winnicott em diálogo com Freud”. In: Arq. bras. psicol. vol.70 n°1. Rio de Janeiro, jan./abr. 2018; ROMANETTO, Matheus Capovilla, Clínica e Política: Bases Subjetivas da Transformação Social em Erich Fromm. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021; PLITT, Laura, “Acumuladores Compulsivos: O Que é a Síndrome de quem Vive Cercado por Objetos Inúteis”. In: https://www.bbc.com/portuguese/15/06/2022; entre outros. 

domingo, 11 de junho de 2023

Drauzio Varella – Vigilância, Oncologia & Reflexão Suprassensível.

                                                                   “Nada pior para a saúde que viver de aparências e fachadas”. Drauzio Varella

         O esclarecimento exprime o movimento real da sociedade burguesa como um todo sob o aspecto da encarnação de sua Ideia em pessoas e instituições, assim também a verdade não significa meramente a consciência relacional, mas, do mesmo modo, a figura que esta assume na realidade efetiva. O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos – fatos esses que, no entanto, já estão pré-moldados como clichês na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem se conformar. Ao tachar de compilação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da mais profunda cegueira. É característico de uma situação sem saída que até mesmo o mais honesto dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde por trás dele, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper. A “falsa clareza”, a ilusão em relação à realidade em si é apenas uma outra expressão do mito. Este na história da humanidade sempre foi obscuro e iluminante ao mesmo tempo. Suas credenciais tem sido desde sempre a familiaridade e o fato de dispensar o trabalho característico do conceito.

       A aporia com que defrontamos em nosso trabalho cotidiano revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma, afirmavam Adorno e Horkheimer (1985) – e nisso reside nossa petitio principi - de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonado a seus inimigos e reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também a sua relação social com a verdade. A disposição enigmática das massas educadas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo, sua afinidade autodestrutiva com a paranoia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta socialmente fraqueza e a dúvida sobre o poder de compreensão do pensamento teórico no âmbito científico. A causa da recaída do esclarecimento não deve ser buscada tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas especificamente idealizadas em vista dessa recaída, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade. 

         A naturalização dos homens não é dissociável do progresso social. O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o poder a sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela per se destinados. A elevação do padrão de vida das classes subalternas, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se da difusão hipócrita do espírito. Sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizando em um bem cultural e distribuído paras fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo. O que está em questão não é a cultura como valor. A questão é que o esclarecimento deve tomar consciência de si mesmo, se os homens não forem traídos. Não se trata da conservação/superação hegeliana (2001) do passado, mas de resgate-esperança. O passado se prolonga como sua própria destruição.

                                                    

          No trajeto social para a concepção de ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa representou apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as ideias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador. Com as Ideias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico. O esclarecimento, porém, reconheceu as antigas potências no legado platônico e aristotélico da metafísica e instaurou um processo contra a pretensão de verdade dos universais, acusando-a de superstição. Na autoridade dos conceitos universais ele crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza. Doravante, a matéria era dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de qualidades ocultas. O que não submete ao critério da calculabilidade e da utilidade de uso torna-se suspeito para o esclarecimento. Mas cada resistência cultural que ele encontra serve apenas para aumentar a sua força social. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos. Quaisquer que sejam os mitos de que possam se valer a resistência, o simples fato social de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade decerto corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é totalitário. Para ele, o elemento social e humano básico do mito foi sempre o antropomorfismo, a projeção do subjetivo na natureza.

          A cultura respeitável constituiu até o século dezenove um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século vinte o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho gigantesco. Talvez não fosse um preço tão alto, como acreditam alguns defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário. Nas condições atuais, os próprios bens da fortuna convertem-se em elementos de infortúnio. Enquanto no período passado a massa desse bens, na falta de um sujeito social, resultava na chamada superprodução, em meio às crises da economia interna, ela produz com a entronização dos grupos que  detém o poder no lugar desse sujeito social, a ameaça internacional do monopólio ligado aos grupos econômicos, com a entronização do grupos que detêm o poder no lugar desse sujeito social que procura tornar inteligível o entrelaçamento da racionalidade e da realidade social, bem como o entrelaçamento, inseparável do primeiro, da natureza e da dominação da natureza. No centro estão os conceitos de sacrifício e renúncia, nos quais revelam tanto a diferença quanto a unidade da natureza mítica e do domínio esclarecido da natureza. Ele mostra como a submissão de tudo aquilo que é natural ao sujeito autocrático culmina exato no domínio de uma natureza e uma objetividade cegas. Essa tendência, segundo Adorno e Horkheimer, aplaina as antinomias do pensamento liberal, em especial a do rigor moral e absoluta amoralidade.

            No sentido do progresso do pensamento, o conceito de esclarecimento tem perseguido o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento representava o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber. A credulidade, a aversão à dúvida, a temeridade no responder, o vangloriar-se com o saber, a timidez no contradizer, o agir por interesse, a preguiça nas investigações pessoais, o fetichismo verbal, o deter-se em conhecimentos parciais: isto e coisas semelhantes impediram um casamento feliz do entendimento humano com a natureza das coisas e o acasalaram, em vez disso, a conceitos vãos e experimentos erráticos: o fruto da prosperidade de tão gloriosa união pode-se facilmente imaginar. A imprensa não passou de uma inovação grosseira; a bússola já era, até certo ponto reconhecida. Mas que mudanças essas três invenções produziram – uma na ciência, a outra na guerra, a terceira nas finanças, no comércio e na navegação. Apenas presumimos dominar a natureza (cf. Castells, 2018), estamos submetidos à sua necessidade; se nos deixássemos guiar por ela na invenção, nós a comandaríamos na prática.  Desencantar o mundo é destruir o animismo. 

        O sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural. Todas as figuras míticas podem se reduzir, segundo o esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, ao sujeito. A resposta de Édipo ao enigma da esfinge: - “É o homem!” é a informação estereotipada invariavelmente repetida pelo esclarecimento, não importa se este se confronta com uma parte de um sentido objetivo, o esboço de uma ordem, o medo de potências maléficas ou a esperança da redenção. E antemão, o esclarecimento só reconhece como ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade.  Sei ideal é o sistema do qual se pode deduzir toda e cada coisa. Não é nisso que sua versão racionalista se distingue da versão empirista. Embora as diferentes escolas interpretassem de maneira diferente os axiomas, a estrutura da ciência unitária era sempre a mesma. O postulado baconiano de una scientia universalis é, apesar de todo o pluralismo das áreas de pesquisa, tão hostil ao que não pode ser vinculado, quanto ao mathesis universalis de Leibniz à descontinuidade. A multiplicidade das figuras se reduz à posição e à ordem, a história ao fato, as coisas à matéria. Com Bacon, entre os primeiros princípios e os enunciados observacionais deve subsistir uma ligação lógica unívoca, medida por graus de universalidade. De Maistre zomba de Bacon por cultivar “une idole d`échelle”.  A lógica formal era a grande escola da unificação. Ela oferecia aos esclarecedores o esquema da calculabilidade do mundo. 

            José Eugênio Soares nascido no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1938 e morto em São Paulo, em 5 de agosto de 2022, mais reconhecido como Jô Soares, foi um apresentador de televisão, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator, humorista, músico e artista plástico brasileiro. Jô surgiu como um dos grandes nomes da televisão, tendo criado o humorístico Família Trapo, na RecordTV, onde também atuou como o personagem Gordon. Continuando na área do humor, foi o responsável por sucessos como Satiricom, Planeta dos Homens e Viva o Gordo na TV Globo. Ao transferir-se para o SBT, obtém notoriedade no comando do talk-show Jô Soares Onze e Meia entre os anos de 1988 e 1999, solidificando-se como um dos maiores entrevistadores e precursor do formato no Brasil, para não falarmos no âmbito do mundo global. Voltando para a TV Globo, comandou o Programa do Jô entre 2000 e 2016, ano em que se aposentou da televisão. Sua morte repercutiu tanto na sociedade brasileira quanto na imprensa internacional. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, José Eugênio Soares foi o único filho do empresário paraibano Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Pereira Leal. Pelo lado materno, era bisneto do conselheiro Filipe José Pereira Leal (1812-1880), diplomata e político que, no Brasil Imperial, foi presidente da província do Espírito Santo e trineto de Félix de Brito e Melo (1807-1878), presidente da província de Alagoas. Por parte de seu pai, era sobrinho-bisneto de Francisco Camilo de Holanda (1862-1946), presidente da província da Paraíba, e do jornalista e escritor Órris Eugênio Soares. (1884-1964). 

Jô Soares queria ser diplomata quando criança. Estudou no Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, no Colégio São José de Petrópolis, e em Lausana, na Suíça, no Lycée Jaccard, com este objetivo. Durante a estadia na Suíça ganhou o apelido de “Joe”, redutivo da versão inglesa de seu nome, Joseph, bem como referência à popular canção “Hey Joe!”, de Frankie Laine. Mais tarde se reduziria a Jô. Porém, percebeu que o seu senso de humor apurado e a criatividade inata apontava a outra direção. O apresentador falava, com diferentes níveis de fluência, cinco idiomas: português, inglês, francês, italiano e espanhol, além de ter bons conhecimentos de alemão. Traduziu um álbum de histórias em quadrinhos de Barbarella, criação do francês Jean-Claude Forest (1930-1998). Era católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Entre 1959 e 1979, foi casado com a atriz Therezinha Millet Austregésilo, com quem teve um filho, Rafael Soares (1964–2014), que tinha transtorno do espectro autista. Entre 1980 e 1983, foi casado com atriz Sílvia Bandeira, doze anos mais nova. Em 1984, começou a namorar a atriz Claudia Raia, num romance que durou até 1986. Namorou a atriz Mika Lins e, em 1987, casou-se com a designer gráfica Flávia Junqueira Pedras, de quem se separou em 1998. Era sobrinho de Togo Renan Soares, reconhecido como “Kanela”, ex-treinador da Seleção Brasileira de Basquetebol. Em outubro de 2007, durante uma entrevista com Maria Rita, o apresentador admitiu sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo; em sua casa, os quadros precisam estar tombados levemente para a direita. No dia 1° de outubro de 2012, levou ao ar um programa especial que reprisou uma entrevista com Lolita Rodrigues e Nair Bello em homenagem à apresentadora Hebe Camargo (1929-2012), com quem declarou ter vivido intensas alegrias.

       Na realização da missa de Sétimo dia do apresentador e humorista Jô Soares (1938-2022), que aconteceu na última sexta-feira (12/08/2022), o médico Drauzio Varella deu detalhes de como foram os últimos dias do extraordinário comediante com maestria e honra.  A solenidade aconteceu na capela do colégio Nossa Senhora do Sion, em Higienópolis. Dr. Drauzio disse que Jô escolheu deixar o hospital e passar os últimos dias em sua casa assistindo a filmes clássicos noir, seu gênero favorito. No evento, organizado pela Academia Paulista de Letras, ainda estiveram presentes amigos, colegas e antigos colaboradores, entre eles a dramaturga e roteirista Maria Adelaide Amaral, que iniciou a homenagem com a leitura do “Salmo 22”, seguida da missa celebrada pelo bispo dom Fernando Antônio Figueiredo e pelo padre Júlio Lancelotti. Durante a celebração, amigos prestaram homenagens ao humorista, entre eles o Editor Matinas Suzuki Jr., que leu as últimas páginas do segundo volume do livro de memórias do apresentador. Jô Soares sofria de problemas de pulmão e morreu após uma falência de múltiplos órgãos. A ex-companheira e amiga Flávia Pedra Soares, recordou a devoção do humorista por santa Rita de Cássia e revelou que o artista tinha consciência sobre sua morte. Considerado um dos maiores humoristas do Brasil, Jô Soares virou sinônimo de talk show no país, mas, no início da carreira, fez bastante sucesso com papéis icônicos do humor na televisão brasileira.  O primeiro personagem de destaque de Jô Soares foi no sitcom Família Trapo, um programa humorístico da televisão brasileira da década de 1960, que foi consagrado e exibido pela TV Record, entre 1967 e 1971.  

No princípio, Jô apenas escrevia, com Carlos Alberto de Nóbrega, o roteiro do show que tinha como personagem principal Carlo Bronco Dinossauro, interpretado pelo comediante Ronald Golias. Depois, Jô ganhou um papel, o Mordomo Gordon. O programa foi criado por Nilton Travesso, A.A. de Carvalho, Raul Duarte e Manoel Carlos. Faziam parte do elenco ainda nomes famosos como Otelo Zeloni (Pepino Trapo), Renata Fronzi (Helena), Cidinha Campos (Verinha) e Ricardo Corte Real (Sócrates). Apresentado ao vivo do Teatro Record-Consolação e não dos estúdios da emissora, como era feita a maioria dos programas da época, um dos motivos para o sucesso da Família Trapo era a participação de convidados especiais e a improvisação. O episódio mais lembrado é com o ex-jogador de futebol Pelé. O Mordomo Gordon quer assustar o Bronco e apresenta o futebolista Pelé, como o atleta que vai substituí-lo no time da rua. No entanto, o personagem de Golias não reconhece o jogador. O Bronco, para delírio da plateia, começa a realizar uma série de testes com o Rei do Futebol, como as famosas embaixadinhas e chutes a gol. O mito filosoficamente converte-se em esclarecimento e a natureza em objetividade que transcende a realidade social. O preço que os homens pagam pelo seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder. 

O esclarecimento, nunca é demais repetir, comporta com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que pode manipulá-los. O homem da ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que seu em-si torna para ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como sempre a mesma, como substrato da dominação. Essa identidade constitui a unidade da natureza. Assim como a unidade do sujeito, ela tampouco constitui um pressuposto da conjuração mágica. Os ritos do xamã dirigiam-se ao vento, à chuva, à serpente lá fora ou ao demônio dentro do doente, não a matérias ou a exemplares. Não era um e ao mesmo espírito que se dedicava à magia; ele mudava igual às máscaras do culto, que deviam se assemelhar aos múltiplos espíritos. A magia é pura e simples inverdade, mas nela a dominação ainda não é negada, aos se colocar, transformada na pura verdade, como a base do mundo que a ela sucumbiu. O feiticeiro torna-se semelhante aos demônios; para assustá-los ou suavizá-los, ele assume um ar assustadiço ou suave. Embora seu ofício seja a mera repetição, diferentemente do civilizado – para quem os modestos campos de caça se transformam no cosmo unificado, no conjunto de todas as possibilidades de presas – ele ainda não se declarou à imagem e semelhança do poder invisível. É só enquanto tal imagem e semelhança que o homem alcança a questão da representação da identidade do Eu que não pode se perder na identificação com o Outro, mas toma posse de si como máscara impenetrável.  

Ser oncologista não era a prioridade de carreira do Dr. Drauzio Varella, conforme ele contou na palestra: Reflexão sobre Carreira, que abriu a 5ª edição do Congresso Next Frontiers to Cure Cancer (2022). Mas lá se vão cinco décadas e ele ainda atende ao menos 50 pacientes oncológicos por semana. O Next Frontiers to Cure Cancer é um congresso internacional organizado pelo A. C. Camargo Cancer Center para discutir os principais avanços em pesquisa e inovação em diagnóstico e tratamento do câncer. Voltado para médicos, cientistas e multiprofissionais de diversas áreas como enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros, o evento já é considerado um importante marco na agenda oncológica do país. O médico relata que em sua faculdade não havia uma cadeira sobre oncologia, nem mesmo uma que tratasse de medicina preventiva. - “Queria ser um sanitarista, mas a residência previa um rodízio por várias clínicas em diversas especialidades, até obstetrícia. Depois, no segundo ano, estava estudando bactérias no leite, mas queria ver os doentes, me meter na saúde pública. Me vi perdido, não era sanitarista nem cirurgião, apenas dava aula em cursinho”. Um encontro com o Dr. Vicente Amato Neto, infectologista e professor que formou uma geração de especialistas, o levou a um estágio no Hospital do Servidor Público. - “Foi o meu momento, aprendi mais que na faculdade, pois na medicina é assim, aprende-se no contato diário com os doentes”.  

Assim nasceu a paixão sobre imunologia. - “Me intrigava o fato de uma mesma doença afetar muito uma pessoa e pouco uma outra. Comecei a estudar mais o tema e aprender sobre a imunologia do câncer, cujas teorias até então eram dos anos 1920, mas que estavam renascendo àquela altura”. Por intermédio do Dr. Alóis Bianchi, Drauzio começou sua trajetória na oncologia do A. C. Camargo, no então novo serviço de imunologia. Era 1974. Permaneceu por 20 anos. - “Assim, me tornei um dos primeiros clínicos em oncologia com a prática do dia a dia. Neste processo, o Dr. Alois foi fundamental. A oncologia deve muito a ele, que foi um dos primeiros oncologistas pediátricos no Brasil. Ele formou uma geração”. No A. C. Camargo, Dr. Drauzio diz ter vivido a maior experiência na carreira. Foi o caso do Osvaldo, paciente que tinha tido um melanoma no braço e passado por um esvaziamento axilar para retirar linfonodos. Após ele ter metástases subcutâneas no braço, foi aconselhado a fazer uma desarticulação no órgão. - “Quando ele chegou pra mim, decidi aplicar BCG (Bacilo de calmette-Guerin) intratumoral, pois iam aparecendo novos nódulos. Mas, por falta da BCG intradérmica no país, decidi ministrar a BCG oral. Surpreendentemente, os nódulos foram involuindo até desaparecerem. Foi minha maior experiência na carreira de médico”.

Esse achado foi publicado na revista Cancer e abriu portas para o Dr. Drauzio passar dois meses no Memorial Sloan Kettering, em Nova York. Mesmo sem dinheiro sobrando, o Dr. Drauzio Varella procurou estagiar em diferentes realidades para ver de perto como se faz medicina e oncologia em diferentes lugares. Mesmo que sejam estágios curtos, como fez na Suécia, por três semanas, e no Memorial Sloan Kettering, em Nova York.  Para ir aos EUA numa época de muita inflação e dólar impraticável, o Dr. Drauzio pegou até empréstimo. - “Era 1983, Nova York era o epicentro da epidemia da aids, e ali vi sua relação com o sarcoma de kaposi. Como se pegava de forma injetável, eu já imaginava que a aids chegaria ao Brasil, onde, na periferia, muita gente usava cocaína injetável”. - “Acho perigoso enquadrar grupos de risco numa epidemia. No início da aids, ela era conhecida como ‘peste gay’, então a pessoa que não era gay achava que não pegava, e isso contribuiu para que se perdesse o controle, contaminando mulheres e outras populações”, explica o Dr. Drauzio. Ser oncologista é uma empatia. Esta é uma das características mais importantes, segundo o Dr. Drauzio Varella. E isso não está atrelado à atuação no sistema carcerário. - “Atendo na cadeia há 32 anos porque acho legal, não tem razão política ou filosófica. Fico feliz, ouço histórias e aprendo com doentes de uma realidade de um Brasil que eu não conhecia anteriormente”. E há outras características para um oncologista. - “Se a pessoa não gosta de estudar e acompanhar tudo que está rolando, não há nada errado nisso, mas ela não pode ser oncologista”.

A emergência do capitalismo introduz um tipo social de ordem bem distinto, pela primeira vez genuinamente global, em seu escopo, e baseada mais no poder econômico do que no poder político, a chamada “economia capitalista mundial”. Ela tem suas origens nos séculos XVI e XVII, de forma integrada através de conexões comerciais e fabris, não por um centro político. Na verdade, existe uma multiplicidade de centros políticos, geograficamente, constituindo os Estados-nação. O sistema mundial moderno se divide em três componentes desenvolvimentistas: as metáforas do “centro”, a “semiperiferia” e a “periferia”, embora a localização destes se desloque regionalmente através do tempo e espaço. O capital, como categoria analítica, nunca cedeu às suas aspirações de ser determinado por limites nacionais. O capitalismo fundou uma influência globalizante precisamente por ser uma ordem econômica e não uma ordem política; ele foi capaz de penetrar em áreas distantes do mundo globalizado onde os Estados de sua origem não poderiam fazer valer totalmente sua influência política. A administração colonial pode ter ajudado, em algumas situações, a consolidar a expansão econômica, mas ela nunca chegou a ser a base principal da disseminação do empreendimento em escala global.

No final do século XIX, quando o colonialismo como categoria de exploração do trabalho em sua forma original já “quase” desapareceu, a economia capitalista mundial continua a envolver grandes desequilíbrios no “centro”, a “semiperiferia” e a “periferia”.  A teoria do sistema mundial se concentra enfaticamente sobre influências econômicas e considera difícil explicar de forma satisfatória, precisamente, aqueles fenômenos tornados centrais pelos teóricos das relações internacionais: a ascensão do Estado-nação e do sistema de Estados-nação. Além disso, as distinções entre centro, semiperiferia e periferia, baseadas em critérios de análise econômica, não nos permite elucidar concentrações de poder político ou militar, segundo Giddens (1991) que não se alinham de maneira exata às diferenciações econômicas. Os principais centros de poder na economia mundial são Estados capitalistas – Estados fortes onde o empreendimento econômico capitalista com as relações de classe que isto implica, é a principal forma de produção social. Isto quer dizer que as políticas econômicas nacional e internacional destes Estados envolvem muitas formas de regulamentações da atividade econômica, mas, sua organização institucional mantém uma “insulação” do nível econômico em relação ao político. Isto possibilita um amplo escopo para as atividades globais das corporações de negócios, que sempre têm uma base matriz num Estado específico, mas podem desenvolver muitos outros envolvimentos regionais em outros lugares.

As firmas de negócios, especialmente as corporações multinacionais, podem controlar imenso poder econômico, e ter a capacidade de influenciar sistemas políticos em seus países-base e em outros lugares similares. A ilusão econômica é que as maiores companhias multinacionais da atualidade têm orçamentos maiores do que os de todas as nações com poucas exceções. Mas há alguns aspectos-chave nos quais seu poder não pode rivalizar com o dos Estados – especialmente importantes aqui são os fatores de territorialidade e de controle dos meios de violência. Não há uma área na superfície da Terra, com exceção parcial das regiões polares, que não seja reivindicada como legítima esfera de controle de um ou outro Estado. Todos os estados modernos têm um monopólio mais ou menos bem-sucedido dos meios de violência no interior de seus próprios territórios. Não importa o quão grande possa ser seu poder econômico, as corporações industriais não são organizações militares – como algumas delas eram durante o período colonial, - e não podem se estabelecer como entidades político/legais que governam uma determinada área territorial. Se os Estados-nações são os “atores sociais”, na falta de melhor expressão, da ordem política global, as corporações são os agentes dentro da economia mundial. Em suas relações comerciais entre si e com Estados e consumidores, as companhias dependem da eficácia do processo produtivo. 

Entretanto, mesmo em seus primórdios, a economia mundial capitalista nunca foi apenas um mercado para o comércio de bens e serviços. Ela envolvia, e envolve ainda, a transformação em mercadoria da força de trabalho em relações de classe que separam os trabalhadores do controle de seus meios de produção. Todos os Estados-nação dentro dos setores desenvolvidos do mundo, confiam em primeiro lugar na produção industrial para a geração da riqueza na qual se baseiam seus ganhos. A busca de crescimento tanto pela sociedade ocidental como pela oriental da Europa empurra inevitavelmente os interesses econômicos para o primeiro plano das políticas que os Estados seguem na arena internacional. A influência de qualquer Estado específico na ordem política global é fortemente condicionada pelo nível de sua riqueza e a conexão entre esta e a força militar. Entretanto, os Estados fazem derivar seu poder das capacidades de soberania. Eles não operam como “máquinas econômicas”, mas como “atores sociais” ciosos de seus direitos territoriais, preocupados com a promoção de culturas nacionais, e tendo envolvimentos geopolíticos estratégicos com outros Estados ou alianças de Estados. O sistema de Estados-nação participa há tempo da característica de reflexividade da modernidade. 

A soberania está vinculada à substituição das “fronteiras” pelas “divisas” no desenvolvimento inicial do sistema de Estados-nação: a autonomia dentro do território reivindicado pelo estado é sancionada pelo reconhecimento das divisas pelos Estados. Um aspecto da dialética da globalização é o “empurra e puxa”, segundo Giddens, entre tendências voltadas à centralização, inerente à reflexividade dos sistemas de Estados por um lado e a soberania dos Estados específicos por outro. Assim, ação planejada entre países a respeito de algumas coisas diminui a soberania individual das nações envolvidas, embora ao combinar seu poder de outras maneiras, ela aumenta sua influência dentro do sistema de Estados. O mesmo vale para os antigos congressos que, em conjunção com a guerra, definiam e redefiniam as divisas dos Estados – e para agências realmente globais como as Nações Unidas. A influência da Organização das Nações Unidas (ONU) tal como se constituiu, não é obtida apenas e através de uma diminuição da soberania dos estados-nação – as coisas são mais complicadas do que isto. Um exemplo óbvio é o das “nações novas” – Estado-nação autônomos estabelecidos em áreas anteriormente colonizadas. A luta armada contra os países colonizadores foi geralmente um fator importante para persuadir os colonizadores a se retirarem. As discussões na Organização das Nações Unidas tiveram um papel-chave nas áreas ex-coloniais como Estados com divisas internacionalmente reconhecidas.  

Organização das Nações Unidas, ou simplesmente Nações Unidas, se já não é um truismo, representa uma organização intergovernamental criada para promover a cooperação. Uma substituição à Liga das Nações, a organização foi estabelecida em 24 de outubro de 1945, após o término da 2ª guerra mundial, com a intenção de impedir outro conflito como aquele. Inicialmente com a sua fundação, a organização tinha 51 Estados-membros. A ONU representa uma aliança de Estados com atualmente 193 estados membros de todas as regiões do mundo. As Nações Unidas são uma organização global cujas tarefas são assegurar a paz e proteger os direitos humanos e internacionais. Todos os estados membros juntos cobrem uma área de 133,81 milhões km² e 7,88 bilhões pessoas. A sua sede está localizada em Manhattan, Nova York (EUA), e possui extraterritorialidade. Outros escritórios situam-se em Genebra (Suíça), Nairóbi (Quênia) e Viena (Áustria). A organização é financiada com contribuições avaliadas e voluntárias dos países-membros. Os seus objetivos incluem manter a segurança e a paz mundial, promover os direitos civis ou humanos, auxiliar no desenvolvimento econômico e no progresso social, proteger o meio ambiente e prover ajuda humanitária em casos de fome, desastres naturais e conflitos armados. Durante a 2ª guerra mundial, o presidente estadunidense, Franklin D. Roosevelt (1882-1945), começou a debater a criação de uma agência que sucederia a Liga das Nações, e a Carta das Nações Unidas foi elaborada em uma conferência em abril-junho de 1945; a carta entrou em vigor a 24 de outubro de 1945, e a ONU começou a operar globalmente entre as nações.

A Guerra Fria foi definida como uma rivalidade imperial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética e seus respectivos aliados. A disputa entre os dois países globalizados se iniciou alguns anos após a derrota da Alemanha nazista na 2ª guerra mundial e logo se transformou em uma inimizade aberta que se espalhou para a esfera ideológica, econômica, científica, militar e outras. A Guerra Fria durou quase 50 anos e terminou com a dissolução da União Soviética em 1991. Embora os debates sobre isso continuem, a maioria dos historiadores concorda que tanto os EUA quanto a URSS contribuíram para a escalada das tensões. Após a vitória sobre os nazistas, a URSS queria eliminar qualquer mínima possibilidade de ataque contra o país. O Kremlin buscou fortalecer sua posição na Europa e instalou governos socialistas em diversos países do Leste Europeu que o Exército Vermelho havia libertado da ocupação nazista. Por razões ideológicas, a União Soviética também proclamou o desejo e a intenção de espalhar o comunismo por todo o mundo. Por outro lado, os Estados Unidos aproveitaram esta oportunidade para espalhar sua influência sobre a Europa enfraquecida e, assim, emergir como uma força dominante na política mundializada após um prolongado período de impressionante isolamento político. A oposição à aspiração soviética de instalar governos comunistas na Europa era naturalizada para os Estados Unidos da América, que queriam se tornar uma superpotência global.

A Guerra Fria se intensificou quando Washington anunciou a implementação de um plano massivo de restauração da Europa, conhecido como Plano Marshall, além de introduzir a chamada Doutrina Truman, uma política que prometia apoiar as democracias contra “ameaças autoritárias”: isso significava que os Estados Unidos conteriam a expansão soviética em qualquer lugar do mundo. Obviamente, não sabemos o que aconteceria se os norte-americanos ou a União das Repúblicas Socialista Soviética tivessem agido de maneira diferente, mas o conflito parecia inevitável. Houve tantos fatores que contribuíram para desencadear a Guerra Fria que é seguro afirmar que Moscou e Washington simplesmente não tinham qualquer chance de evitar a Guerra Fria. Em primeiro lugar, a Alemanha perdeu toda sua influência na Europa e deixou uma lacuna de poder que foi rapidamente preenchida pela União Soviética e pelos EUA, tornando os dois países rivais naturais. Ideologias conflitantes também não ajudaram a tornar as relações amigáveis. Os dois países fabricavam armas nucleares no início da Guerra Fria e, assim, se tornaram as principais potências do mundo. Todos esses fatores juntos tornaram a Guerra Fria uma pratica inevitável. Por que “Fria”? O confronto global entre os Estados Unidos e a União Soviética se tornou conhecido como “Frio” porque nunca se transformou em guerra entre as duas superpotências.

O termo “Guerra Fria” foi inventado em 1945 pelo escritor e jornalista Eric Arthur Blair, reconhecido pelo pseudônimo George Orwell (1903-1950), que previu um período da história caracterizado pela rivalidade entre Estados que seriam, “ao mesmo tempo, invencíveis e em permanente estado de ‘guerra fria’ com seus vizinhos”. A previsão de Orwell se tornou uma realidade quase inacreditável: os EUA e a URSS eram invencíveis porque tinham enormes estoques de armas nucleares e estavam presos a um conflito permanente. Muito perto. De fato, a Guerra Fria se desenrolou em múltiplas guerras indiretas nas quais os EUA e a URSS lutaram entre si indiretamente, apoiando lados opostos em sangrentos conflitos desencadeados em diferentes cantos do globo. As guerras na Coreia, no Vietnã, no Congo, em Angola, no Afeganistão e em outros países foram, em grande parte, produtos da Guerra Fria. Muitas pessoas morreram durante esses conflitos, entre elas, soldados soviéticos e norte-americanos. No entanto, eles nunca foram considerados confrontos militares abertos entre os EUA e a URSS. Em vez disso, Moscou e Washington os viam como possibilidade de penetrar suas ideologias e minar a posição de seu rival em partes do mundo - tudo às custas das populações locais, que sofreram enormes perdas, mas também tiraram disso alguns benefícios. Em alguns momentos, os EUA e a URSS chegaram perto de entrar em uma guerra direta.

Por exemplo, durante a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando o mundo chegou bem perto da Terceira Guerra Mundial. Um erro técnico poderia ter causado uma guerra nuclear entre os dois países em 1983, mas o apocalipse foi evitado graças ao oficial soviético Stanislav Petrov (1939-2017), que, após um alarme falso, decidiu não lançar um ataque nuclear contra os Estados Unidos. Quando a União Soviética deixou de existir, em 1991, os Estados Unidos se tornaram o único lado sobrevivente da Guerra Fria. No entanto, os historiadores ainda discutem se isso pode ser considerado uma vitória completa dos Estados Unidos na Guerra Fria, porque não está claro qual foi o principal motivo do colapso da URSS. Sem dúvida, os Estados Unidos esgotaram os recursos soviéticos por meio de caras guerras indiretas e de uma corrida armamentista nuclear incrivelmente cara. No entanto, diversos historiadores argumentam que os Estados Unidos foram apenas testemunhas do colapso da URSS, enquanto a superpotência comunista se desintegrou devido a uma série de problemas internos: a ineficiência da economia planificada, os enormes gastos militares, a corrupção, o governo totalitário do partido comunista, e a ausência de liberdades, incluindo a de expressão. Mesmo que Washington considerasse o colapso de seu rival uma vitória indiscutível, a era pós-Guerra Fria apresentou novos desafios para os Estados Unidos, levando algumas pessoas a argumentar que os EUA se tornaram uma potência em declínio na política internacional depois de perder seu arqui-inimigo. Logo após a queda da URSS, muitas pessoas começaram a compartilhar o ponto de vista expresso no livro: The End of History and the Last Man, publicado em 1992 por Francis Fukuyama, de que o fim da Guerra Fria é “o ponto final da evolução ideológica da humanidade”. No entanto, os acontecimentos históricos pontuais na política internacional na era pós-Guerra Fria colocaram em questão a veracidade deste argumento.

A sua “missão”, na falta de melhor expressão, de promover a paz foi complicada nas suas primeiras décadas de existência, por causa da chamada Guerra Fria, entre Estados Unidos da América, União Soviética e seus respectivos aliados. Teve participação em ações importantes na Coreia e no Congo-Léopoldville, além de ter aprovado a criação do Estado de Israel em 1947. Em 14 de maio de 1948, Israel proclamou sua Independência. Menos de 24 horas depois, os exércitos normais do Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o país, forçando Israel a defender a soberania que acabara de reconquistar em sua pátria ancestral. O número de integrantes cresceu após o grande processo de descolonização na década de 1960, ocorrido principalmente na África, na Ásia e na Oceania, e, na década seguinte, seu orçamento para programas de desenvolvimento social e econômico ultrapassou em muitos seus gastos com a manutenção da paz. A Guerra dos Seis Dias ocorreu em 1967, envolvendo Israel e países árabes. Foi vencida pelos israelenses, que ampliaram o seu território muito além do estabelecido em 1948. Após o término da Guerra Fria, em 1991, a Organização das Nações Unidas assumiu as principais missões militares e de paz ao redor do globo, com diferentes níveis de sucesso. A organização foi laureada com o Nobel da Paz em 2001, e alguns de seus oficiais e agências também ganharam o prêmio. Outras avaliações da eficácia simbólica da Organização das Nações Unidas são ordinariamente mistas. Alguns afirmam que as Nações Unidas são uma força estratégica no que tange manter a paz mundial e estimular o desenvolvimento humano, enquanto outros adjetivam-na de “ineficiente, corrupta ou tendenciosa”.

Seis órgãos burocráticos principais compõem as Nações Unidas: a Assembleia Geral, assembleia deliberativa principal; o Conselho de Segurança, para decidir determinadas resoluções de paz e segurança; o Conselho Econômico e Social, para auxiliar na promoção da cooperação econômica e social internacional e desenvolvimento; o Conselho de Direitos Humanos, para promover e fiscalizar a proteção dos direitos humanos e propor tratados internacionais sobre esse tema sensível; o Secretariado, para fornecimento de estudos, informações e facilidades necessárias para a organização e o Tribunal Internacional de Justiça, o órgão judicial principal. Além desses, há órgãos complementares de todas as outras agências do Sistema das Nações Unidas, como principalmente a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O cargo público mais alto na ONU é o de secretário-geral, ocupado por António Guterres desde 2017. Ao traçar as coalescências entre poder militar e a soberania dos Estados, encontramos o mesmo “puxa e empurra” entre as tendências opostas. A globalização do poder militar não se limita obviamente ao mero armamento e às alianças entre as forças armadas de Estados diferentes – ela também diz respeito à geopolítica da própria guerra.

António Manuel de Oliveira Guterres nasceu em Lisboa, em 30 de abril de 1949. É um engenheiro, político e diplomata português que serve como nono secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Guterres foi Primeiro-Ministro de Portugal entre 1995 e 2002 e Secretário-Geral do Partido Socialista entre 1992 e 2002. Foi Presidente da Internacional Socialista entre 1999 e 2005. Exerceu o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados entre 15 de junho de 2005 e 31 de dezembro de 2015. No ano seguinte, anunciou sua candidatura ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Em 5 de outubro de 2016 foi anunciada a vitória de António Guterres na eleição para Secretário-geral, sendo marcada para o dia seguinte a votação formal no Conselho de Segurança. Em 6 de outubro de 2016 o Conselho de Segurança votou por unanimidade e aclamação a resolução que recomenda à Assembleia Geral a designação de Guterres como novo secretário-geral das Nações Unidas. Depois do juramento prestado a 12 de dezembro de 2016, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, tomou posse como o nono secretário-geral das Nações Unidas no dia 1º de janeiro de 2017 para um mandato de 5 anos. Duas guerras mundiais dão mostras da maneira pela qual conflitos locais em suas extraterritorialidades tornaram-se questões de envolvimento regional e global.

Em ambas as guerras, os participantes pertenciam a virtualmente todas as regiões. Numa era de armamento nuclear, a industrialização da guerra chegou a um ponto em que, a obsolescência da principal doutrina de Clausewitz tornou-se clara para todos. A única razão para se manter armas nucleares – afora seu possível valor simbólico na política mundial – é impedir que os outros a usem. Embora essa situação possa levar a uma suspensão da guerra entre as potências nucleares, ela de modo algum as impede de se engajar em aventuras militares fora de seus próprios domínios territoriais. As duas superpotências em particular se engajavam no que em sua interpretação analítica Anthony Giddens chama de “guerras orquestradas” em áreas reconhecidas periféricas de força militar. Ou seja, confrontos militares com os governos de outros Estados ou com movimentos de guerra de guerrilha, ou ambos, nos quais as tropas da “superpotência não estão necessariamente engajadas”. A quarta dimensão da globalização diz respeito ao desenvolvimento industrial. Seu aspecto mais óbvio é a expansão da divisão global do trabalho, que inclui as diferenciações entre áreas mais e menos industrializadas no mundo. A indústria moderna se baseia intrinsecamente em divisões técnicas de trabalho, não apenas ao que diz respeito às tarefas, mas também à especialização regional em termos de tipologia de indústria, capacitações e a produção social de matérias-primas. Não há dúvida de que ocorreu uma importante expansão de interdependência global na divisão do trabalho desde a 2ª guerra mundial. Isto concorreu economicamente para a realização de mudanças na distribuição mundial da produção, incluindo a “desindustrialização” de certas regiões nos países desenvolvidos e o surgimento dos “países recém-industrializados” no chamado Terceiro Mundo. 

O que serviu sem dúvida para reduzir a hegemonia econômica interna de muitos Estados, particularmente daqueles com um alto nível de industrialização. É mais difícil para os países capitalistas do que era antes de dirigir suas economias, por causa da acelerada interdependência econômica global. E certamente uma das principais razões para o impacto declinante das políticas econômicas keynesianas na economia nacional. O pensamento keynesiano afirma que o Estado deve oferecer benefícios sociais aos trabalhadores, como seguro de saúde, seguro-desemprego, salário mínimo, férias remuneradas, dentre outros. Nesse sentido, tem deveres a cumprir para com seus cidadãos, lhes proporcionando uma vida digna. Mesmo nos Estados que permanecem primordialmente agrícolas, a tecnologia é aplicada de modo a alterar as relações preexistentes entre a organização social urbana e o meio ambiente. Isto vale, por exemplo, para o uso de fertilizantes ou outros métodos de lavoura artificial, para a introdução de moderna maquinaria agrícola etc. A difusão do industrialismo criou “um mundo” num sentido mais negativo e ameaçador, um mundo no qual há mudanças ecológicas reais ou potenciais de um tipo daninho que afeta a todos no planeta. Entretanto, o industrialismo também condicionou decisivamente nossa própria sensação de viver de fato em “um mundo”. Pois um dos mais importantes efeitos (perversos) do industrialismo foi a transformação das tecnologias de comunicação. As tecnologias mecanizadas de comunicação influenciaram dramaticamente aspectos da globalização desde a introdução da impressora mecânica na Europa. Elas formam um elemento essencial da reflexividade da modernidade, e obviamente das “descontinuidades que destacaram o moderno para fora do tradicional”. O impacto social globalizante da mídia foi notado por autores durante o início do crescimento dos jornais de circulação de massa. O aldeão que lê jornal se interessa simultaneamente pela revolução no Chile, uma guerrilha na África Oriental, um massacre no Norte da China, e a fome na Rússia.    

Bibliografia geral consultada.

AROUCA, Antônio Sérgio da Silva, O Dilema Preventivista. Contribuição para a Compreensão e Crítica da Medicina Preventiva. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Médicas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1975; GALLIE, Walter Bryce, Os Filósofos da Paz e da Guerra: Kant, Clausewitz, Marx, Engels e Tolstoi. Rio de Janeiro: Editora Artenova; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979; ORWELL, George, The Lion and the Unicorn: Socialism and the English Genius. Londres: Penguin Books, 1982; ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985; GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991; HEGEL, Friedrich, A Razão na História: Uma Introdução Geral à Filosofia da História. 3ª edição. São Paulo: Editora Centauro, 2001; FREIRE FILHO, João, Ser Feliz Hoje: Reflexões sobre o Imperativo da Felicidade. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2010; BANDO, Daniel Hideki, Sazonalidade, Efemérides e a Mortalidade por Doença Coronária, AVC, Insuficiência Cardíaca de Transporte, Suicídio e Homicídio na Cidade de São Paulo, 1996 a 2009. Tese de Doutorado. Programa de Ciências Médicas. Faculdade de Medicina. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; MARX, Karl, O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013; ROSE, Nikolas, A Política da Própria Vida: Biomedicina, Poder e Subjetividade no Século XXI. São Paulo: Paulus Editora, 2013; COLOMBO, Grazziani Barreto, Participo Logo Existo: Uma Análise sobre a Propagação de Informações e a Percepção de Existência nas Redes Sociais. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015; FREITAS, Angelica Fonseca, Ruínas do Corpo: Práticas de Si e os Sentidos da “Boa Forma” na Contemporaneidade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Faculdade de Comunicação. Brasília: Universidade de Brasília, 2017; CASTELLS, Manuel, Ruptura: A Crise da Democracia Liberal. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2018; SILVESTRE, Camila Marins, Um Mercado de Visibilidade e Cifrões: Influenciadores Digitais e o Empreendedorismo de Si. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Niterói (RJ): Universidade Federal Fluminense, 2018; Artigo: “Ser Oncologista: Dr. Drauzio Varella fala sobre os desafios da profissão na abertura do Next Frontiers to Cure Cancer”. In: https://accamargo.org.br/sobre-o-cancer/noticias/24/06/2021; LIMA, Lunélia Amaral, Vida Saudável e Ciberterritório: Os Discursos Construídos por Médicos no Instagram. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades. Centro de Artes. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2022; entre outros.